Prévia do material em texto
EDINALVA DE MELO SILVA A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL FRENTE À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O FEMINICÍDIO.Trabalho Apresentado à Universidade Estácio de Sá Polo de Esperança - PB como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social, como requisito para a obtenção do título de bacharel em Serviço Social. Orientador: Prof.ª Marcia Maria Gil Ramos ESPERANÇA 2024 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................6 2. O SERVIÇO SOCIAL................................................................................................9 2.1 As questões sociais no âmbito das políticas de enfretamento à violência doméstica ...............................................................................................................................11 2.2 O Serviço Social na Assistência Social 13 3.A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER NO BRASIL 14 Os cincos tipos de violência, segundo a Lei Maria da Penha............................17 A Lei Maria da Penha e a Tipificação sobre a violência contra a Mulher 18 O SERVIÇO SOCIAL E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER 20 As Políticas Sociais no âmbito dos serviços de atendimentos.... 23 O Assistente Social na equipe multiprofissional em casos de atendimentos à violência contra a mulher..............................................................................................26 CONSIDERAÇÕES FINAIS 28 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 30 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela vitoria alcançada. A minha família pelo apoio. A todos que participaram direta ou indiretamente do desenvolvimento deste trabalho de conclusão de curso, enriquecendo o meu processo de aprendizado. As pessoas com quem convivi ao longo desses anos de curso, que mim incentivaram e que certamente tiveram impacto na minha formação acadêmica. A supervisora Acadêmica Lúcia de Fátima N. de Morais, a supervisora de Campo Maria das Neves André Soares e aos tutores que me ajudaram e ensinaram nesta caminhada. SILVA. Edinalva Melo de. A Atuação do Assistente Social Frente à violência doméstica e o Feminicídio. 2023. 30 paginas. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Serviço Social) Universidade Estácio de Sá, Polo Esperança (PB). RESUMO A presente pesquisa foi desenvolvida a partir do tema “A atuação do Assistente Social Frente à Violência Doméstica e o Feminicídio”. Logo, a metodologia foi à revisão bibliográfica, onde buscou-se subsídios teóricos para a problemática: Descrever os principais motivos para a violência doméstica e o femicídio; Trazer visibilidade para conhecer melhor a dimensão e o contexto da violência mais extrema contra as mulheres; Explicitar os dados da violência doméstica e do feminicídio através de pesquisas já realizadas e da literatura vigente. Nesse contexto, o objetivo geral foi analisar as intervenções profissionais dos Assistentes sociais junto às mulheres em situação de violência doméstica e o feminicídio. Entre os resultados discutidos, apresentou-se que as intervenções, embora tenham caráter individual, possuem um norteamento coletivo, conforme as dimensões teórico-metodológicas, técnico- operativas e ético-políticas nos encaminhamentos de enfrentamento à violência visando quea vítima tenha seus direitos garantidos. Percebeu-se também, a importância das equipes multi e interdisciplinares no atendimento das mulheres em situação de violência doméstica e familiar, além da articulação dos diferentes setores que compõem as chamadas redes de apoio à mulher, disponibilizados para o enfrentamento da violência. Palavras-chave: Violência Doméstica; Assistente Social; Feminicídio. 1- INTRODUÇÃO No Brasil, o cenário que mais preocupa é o do feminicídio cometido por parceiro íntimo, em contexto de violência doméstica e familiar, e que geralmente é precedido por outras formas de violência e, portanto, poderia ser evitado. Trata-se de um problema global, que se apresenta com poucas variações em diferentes sociedades e culturas e se caracteriza como crime de gênero ao carregar traços como ódio, que exige a destruição da vítima, e também pode ser combinada com as práticas da violência sexual, tortura e/ou mutilação da vítima antes ou depois do assassinato. Violência, em seu significado mais frequente, quer dizer uso da força física, psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não está com vontade; é constranger, é tolher a liberdade, é incomodar, é impedir a outra pessoa de manifestar seu desejo e sua vontade, sob penade viver gravemente ameaçada ou até mesmo ser espancada, lesionada ou mo rta. É um meio de coagir, de submeter outrem ao seu domínio, é uma violação dos direitos essenciais do ser humano. Assim, a violência pode ser compreendia como uma forma de restringir a liberdade de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, reprimindo e ofendendo física ou moralmente (TELES 2003, p. 15). Feminicídio é o homicídio doloso praticado contra a mulher por “razões da condição de sexo feminino”, ou seja, desprezando, desconsiderando a dignidade da vítima enquanto mulher, como se as pessoas do sexo feminino tivessem menos direitos do que as do sexo masculino. Diversos casos de feminicídio enchem as telas dos jornais diários e das redes sociais, estão em toda parte como uma epidemia que não tem fim, um dos casos envolvendo violência doméstica ganharam repercussão mundial e deu origem a lei mais importante de combate à violência doméstica e ao feminicídio, foi o caso da farmacêutica Maria da Penha Fernandes, que ficou paraplégica após sofrer duas tentativas de homicídio cometidas pelo marido, que, além de impune, estava prestes a conseguir a prescrição do crime, levando para o debate público questões que antes eram tratadas apenas em âmbito particular. A violência contra a mulher não é um fato recente, desde os primórdios da humanidade as mulheres vêm sendo vítimas de agressões, muitas chegando a óbito. Por outro lado, o que é novo, é a responsabilidade de vencer tal violência, como condição para a construção da humanidade, visto que o Feminicídio define- se como a expressão máxima da violência contra a mulher. (FONSECA et all, 2018, P.50) Isso demonstra claramente um marco divisório, pois é a partir do reconhecimento da violência contra a mulher como uma questão de caráter público e universal que o Estado toma para si esse fenômeno tão antigo e aceito pela sociedade e cria medidas que visam coibir e punir esse tipo de violência. Ao enfocar a emergência da questão social, percebemos que o objeto de nossa profissão, a classe trabalhadora não se resignou, mas, ao contrário, protestou por melhores condições de vida e trabalho. Esse percurso foi traçado para conseguirmos compreender a importância da profissão denominada como Serviço Social e qual era sua função social, seus atuais desafios para a concretização dos objetivos dessa profissão comprometida com a emancipação da classe trabalhadora, através da total garantia de direitos e a atuação dos assistentes sociais com a problemática da violência contra a mulher e o feminicídio. A Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, representa um marco na proteção aos direitos das mulheres, pois tem como premissa coibir e prevenir todas as formas de violência doméstica e familiar. Do mesmo modo, em março de 2015, no Brasil, o feminicídio foi tipificado como conduta criminosa, através da Lei n. 13.104/2015. (FONSECA et all,2018, p. 50). 6 O objetivo geral desse trabalho foi analisar as intervenções profissionais dos Assistentes sociais junto às mulheres em situação de violência doméstica e o feminicidio a luz da literatura, e os objetivos específicos; Descrever os principais motivos para a violência doméstica e o feminicídio; Trazer visibilidade para conhecer melhor a dimensão e o contexto da violência mais extrema contra as mulheres; Explicitar os dados da violência doméstica e do feminicídio através de pesquisas já realizadas. Partindo desse pressuposto muitas questões nos inquietaram e uma delas é diante de uma Lei tão bem elaborada e abrangentecomo a Maria da Penha, porque os números da violência doméstica e o feminicídio só crescem? Quais os entraves na aplicação e efetivação da lei para que estes crimes sejam evitados? Essas e outras questões farão parte do debate desse trabalho. Rigorosamente, a relação violenta se constitui em verdadeira prisão neste sentido, o próprio gênero acaba por se revelar uma camisa de força: o homem deve agredir, porque macho deve dominar a qualquer custo, e mulher deve suportar agressões de toda ordem, porque seu "destino" assim determina. (SAFFIOTI, 1999). Dessa forma, acreditamos que estudos, como é o caso desse trabalho podem contribuir para qualificar a intervenção do assistente social e melhorar a formulação de políticas públicas dirigidas a esse segmento significativo da população brasileira. 2. O SERVIÇO SOCIAL Comentar sobre o Serviço Social no momento atual é, antes de tudo, partir do que distingue essa profissão na contemporaneidade, para somente depois buscar remontar o processo histórico que a compôs. O Serviço Social tem seus fundamentos na garantia de direitos, no reconhecimento da desigualdade, e em método sociais de emancipação. Atualmente, o serviço social, não é mais mero executor de políticas sociais, mas seus profissionais adquiriram um espaço imprescindível no campo da esfera pública, várias políticas na contemporaneidade, principalmente com o governo Lula passou. Sendo assim, abandonou-se a postura conservadora, para uma postura crítica, propositiva, interventiva onde o profissional, planeja, implanta, administra, coordena, pesquisa, executa as políticas sociais. Segundo Martinelli (2011, p.66), origem do Serviço Social como profissão tem, pois, a marca profunda do capitalismo e do conjunto de variáveis que a ele estão subjacentes, alienação, contradição, antagonismo, pois foi nesse vasto caudal que ele foi engendrado e desenvolvido. Quanto às políticas sociais são conjunto de medidas propostas pelo Estado com vistas a acalmar os anseios da população, frente às expressões da questão social, por um período de 80 anos desde o início do século XX, as políticas sociais, no Brasil, resumiu-se a um plano de seguro social atrelado a ele atenção à saúde e assistência a população sem vínculos trabalhistas. As Políticas Sociais são vistas como mecanismos de manutenção da força de trabalho, sendo uma conquista dos trabalhadores, como doação das elites dominantes, ora como instrumento de garantia do aumento da riqueza ou dos direitos do cidadão. Tenhamos presente, portanto, que o Serviço Social, como uma profissão de caráter interventivo, é constantemente desafiador a construir e utilizar mediações alternativas que possam dar conta da complexidade das diferentes expressões da questão social que chegam como demandas ou requisições institucionais para o seu enfrentamento nos diversos espaços sócio-ocupacionais. Contudo, não se torna uma tarefa fácil, tendo em vista os obstáculos impostos com a imediaticidade presente no cotidiano profissional, sobretudo, no tocante às condições de precariedade do trabalho na sociedade capitalista. Haja vista que: Os rebatimentos da precarização no Serviço Social fazem-se sentir no campo da formação e do exercício profissional, o caráter interventivo na profissão leva o profissional a dar suas respostas às requisições que lhes são feitas de maneira imediata, restritas ao processo instrumental e superficial da realidade social e reforça a ideia da teoria de resultados, que deve ser aplicada à realidade (tecnicismo) (ALVES, 2015, p.195). Ainda mais, segundo Santos (2010), o entendimento das condições de trabalho dos (as) assistentes sociais exige o pleno conhecimento das determinações e implicações da crise estrutural do sistema capitalista, isto porque, tudo o que acontece na vida cotidiana, tem suas implicações através de um conjunto amplo de mediações, determinadas pelas condições estruturais da sociedade e pelas ações dos sujeitos. No Brasil, a categoria mediação passa a ter importância na discussão teórico-metodológica do Serviço Social a partir da segunda metade da década de 80, numa conjuntura política marcada pelo processo de redemocratização do país, ela é introduzida no discurso profissional inicialmente a partir das análises políticas, da sua articulação no interior das políticas sociais e seu ingresso sócio-político, tudo isso, aliada as demandas apresentadas pela realidade à profissão, e propiciou a discussão metodológica da mediação enquanto teoria. (PONTES, 2017). Ainda mais, a categoria mediação no processo de trabalho, passou a ser discutida no Serviço social após o movimento de reconceituação da profissão, em que se busca uma interlocução do Serviço social com as fontes originais de Marx através de Iamamoto no seu livro Relações Sociais e Serviço Social no Brasil de 1982. É a partir deste contexto que inicia-se o debate da categoria mediação primeiramente, com Faleiros a partir de uma discussão sócio – política (PONTES, 2012). Segundo Netto (2012), quando falamos em mediação, estamos nos referindo a uma categoria da práxis presente em nossa prática, que tem dimensões mais profundas e um caráter eminentemente político. O que para Vergara (2003), apesar de ser uma das categorias mais usadas na prática do Serviço Social, seu significado nem sempre é evidenciado, podendo ser revelado pela direção que o profissional imprime a sua intervenção. Ademais, para Guerra (2000), a instrumentalidade do Serviço Social como mediação é o espaço para pensar nos valores subjacentes às ações no nível e na direção das respostas que estamos dando e pelas quais a profissão é reconhecida ou questionada socialmente. Para Guerra (1995), instrumentalidade como particularidade tem “a capacidade de articular as dimensões técnico-instrumental, ético-política e teórico-metodológica da profissão e convertê-las em respostas profissionais em estratégias políticas, em instrumento técnico operativo”. Ela como mediação (razão dialética) possibilita o caminho de ações meramente instrumentais (predomínio a racionalidade técnica) para o exercício profissional crítico, articulando as dimensões teóricas, políticas e éticas, o que possibilita a suspensão da alienação e elevação à dimensão humano-genérico. Esta suspensão da vida cotidiana não é fuga: é um circuito, porque se sai dela e se retorna a ela de forma modificada à medida que estas suspensões se tornam frequente, a reapropriação do ser genérico é mais profunda e a percepção do cotidiano fica mais enriquecida. (NETTO 2012, p.28). Segundo Iamamoto e Carvalho (2004), a profissão de Serviço Social surgiu a partir das contingências geradas pelo capitalismo nos anos 30 do século XX e tem a “Questão Social” e suas diferentes expressões nas diversas áreas, como: a violência, a pobreza, o feminicídio, o desemprego e/ou subemprego, o não acesso à saúde, à alimentação, à educação, ao trabalho, à habitação, etc. 2.1 As Questões sociais no âmbito das políticas de enfretamento a violência doméstica. O enfrentamento das expressões da questão social se manifesta na política de enfrentamento a violência doméstica a mulher e, tem demandado a presença de equipes interprofissionais, nas quais se inserem os profissionais de Serviço Social com base na troca de saberes, na articulação das diferentes habilidades profissionais no enfrentamento a uma dada realidade, reservadas as particularidades de cada profissão. Um dos conceitos de questão social é o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade. A questão social surgiu no século XIX, na Europa, para exigir a formulação de políticas sociais em benefício da classe operária, que estavam em pobreza crescente. O processo de urbanização e industrialização deu origem ao empobrecimento da classe operária, e acabou por conscientizá-los das condições em que trabalhavam, onde a questão social acabou atingindo contornos problemáticos, em especial para a sociedade burguesa, que recorreu à implementação de políticas sociais. As expressões da questão social emergiam na sociedadeeuropeia e soavam as vozes do povo operário e dos desempregados por melhores condições de trabalho, melhores salários, mais empregos, moradia, alimentação entre outras necessidades da classe subalterna. Em seu artigo intitulado “Questão Social: objeto do Serviço Social?”, Machado (1999), faz um balanço da atuação profissional do serviço social no Brasil ao longo do século XX, destacando que, em seu início, o objeto definido da assistência social brasileira era o homem, “mas um homem específico: o homem morador de favelas, pobre, analfabeto e desempregado” (MACHADO, 1999, p. 40). Desta maneira, a questão social passa a ser identificada como o objeto de trabalho do profissional assistente social, compreendendo-a como: O assistente social convive cotidianamente com as mais amplas expressões da questão social, matéria prima de seu trabalho. Confronta-se com as manifestações mais dramáticas dos processos da questão social no nível dos indivíduos sociais, sejam em sua vida individual ou coletiva (ABESS/CEDEPSS, 1996, p. 154). Deste modo, a questão social, entendida como as expressões e manifestações, na vida cotidiana individual, das relações de dominação, de trabalho e de estruturação do poder econômico, político e social, são definidos como o objeto de atenção profissional do Serviço Social, na medida em que estes/as profissionais têm como objetivo constante e diário, em sua atuação, desvelar as complexidades sociais que condicionam a posição social de determinado sujeito, bem como compreender como estas determinações sociais impedem a implementação de direitos sociais, esta compreensão do social é fundamental para que a atuação do/a profissional assistente social não se reduza ao clientelismo ou a uma mera expressão de caridade. Deste modo, quanto tratamos da “questão social” nos referimos “ao conjunto das expressões das desigualdades sociais geradas pelo sistema capitalista e as resistências e aos enfrentamentos a tais expressões” (VELLOSO, 2013, p. 37). Neste sentido, Iamamoto (2012) frisa que essas desigualdades se expressam nas dimensões econômicas, políticas, culturais, de classe e, podemos agregar, de gênero. Por sua vez, Faleiros (2008) destaca que uma concepção abstrata da questão social não é suficiente para a prática profissional do assistente social, na medida em que depositar o “objeto” do Serviço Social em relações abstratas e estruturais pode incorrer na perda das relações processuais. Ao resgatar as concepções do autor, Oliveira (2009), sistematiza da seguinte maneira: O autor considera o “serviço social como uma relação de poder e é nessa relação de poder que se produzem as particularidades do Serviço Social no contexto das relações de forças”. Ou seja, “a desconstrução/construção do Serviço Social passa por uma discussão das relações de saber e poder sem cair no dogmatismo do relativismo”. Trata-se, para ele, de colocar o objeto da profissão numa outra perspectiva, não “exclusiva de classe contra classe, mas articulada a ela na análise das relações de poder, hegemonia e contrahegemonia”. Não se trata apenas de analisar questões mais gerais, como a economia, mas, também, os micropoderes que permeiam a ação dos atores sociais, com quem o Serviço Social trabalha (OLIVEIRA, 2009, p.50). Deste modo, identifica-se que o autor não exclui da análise as relações estruturais econômicas e suas inferências na questão social, mas, concomitantemente, resgata a importância das estratégias individuais e coletivas como relações de poder cotidianas nas quais a intervenção do assistente social se constrói. 2.2 O Serviço Social na Assistência Social. A Constituição Federal de 1988 inaugura um novo modelo para Assistência Social, apontando para o seu status de política pública de proteção social, no campo da Seguridade, compondo junto a Saúde e a Previdência, o tripé da Seguridade Social brasileira, logo é reconhecida enquanto direito social e dever do Estado na sua garantia. Essa concepção rompe substancialmente com a lógica historicamente impregnada na trajetória da Assistência Social no Brasil foi apontada pela caridade, clientelismo, assistencialismo e focalização, desta maneira houve a necessidade de criar uma lei que regulamentasse a Assistência Social, para que pudesse quebrar esse paradigma. A Assistência Social foi regulamentada somente em 1993, através Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS, e define a Assistência Social como direito do cidadão e dever do Estado, enquanto política de seguridade social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública, para garantir o atendimento às necessidades básicas. A Política de Assistência Social tem como objetivos a proteção à família, à maternidade, à infância e à velhice, o amparo às crianças e adolescentes carentes; a promoção e integração ao mercado de trabalho, a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiências e a promoção de sua integração à vida comunitária (BRASIL, 1993). Os principais documentos reguladores da Assistência Social como a Constituição Federal de 1988, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS); a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), a Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social (NOB/SUAS), a Norma Operacional Básica de Recursos Humanos (NOB-RH/SUAS). 3. A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER NO BRASIL. A violência contra a mulher ampliou-se no Brasil a partir da década de 1970 com a convenção para a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher sendo adotada pela Assembleia Geral, nesse período muitos movimentos sociais existentes se ampliaram nessa temática, na busca por diminuir os números dessa violência que havia tomando grandes avanços na compreensão das políticas públicas para que o assunto seja inserido nas pautas de discussão a cerca da segurança no país. Em face disso, pode-se perceber que a profissão de Assistente Social no Brasil sempre foi rodeada por traços burgueses que não permitiam a visualização do cidadão portadores de direitos, mas sim como receptores de favores e benefícios. O assistente social presencia muitas formas de desigualdades sociais, particularmente contra as mulheres, e cabe a ele tornar público às situações para que sejam enfrentadas visando diminuir ou exterminar o problema, sendo de fundamental importância sua presença nas delegacias da mulher e participação nas tomadas de decisões em torno das políticas públicas e projetos lançados pelo governo.(SEBASTIÃO, 2018,P.14) De acordo Bandeira (1997) em meados do século XX, a categoria gênero surge com o objetivo de evidenciar a opressão feminina e o caráter de construção histórica e social sobre a desigualdade entre homens e mulheres, o conceito de gênero está relacionado às relações culturais e sociais que estruturam a sociedade, respondendo às características de pertencimento dos seres humanosa um ou outro sexo. A categoria gênero movimenta toda a gama de estruturas, identidades sociais e subjetividades individuais, o gênero surgiu para descontruir o conceito de que ser mulher é uma condição dada pela natureza. Diante deste fenômeno, presente no espaço social, encontra-se a violência contra a mulher. O primeiro documento internacional de direitos humanosque aborda esta violência foi aprovado em 1993, na Assembléia Geral das Nações Unidas. Esse documento define violência contra a mulher como qualquer ato de violência baseado no gênero que resulta, ou tenha probabilidade de resultar, dano ou sofrimento físico, sexual e psicológico, incluindo ameaça, coação ou privação arbitrária de liberdade, na vida pública ou privada (SANTI, 2010, p. 418). A violência tem como principal característica pelo uso da força psicológica ou intelectual para obrigar uma pessoa a praticar algo que não deseja, constrangendo, incomodando e impedindo a outra pessoa de manifestar sua própria vontade. São muitos motivos que podem desenvolver a agressão entre as pessoas, como a pobreza, desigualdade, desemprego,discriminação. Importante ressaltar que a violência não está somente associada à classe de menor poder aquisitivo, mas também está presente em todas as camadas sociais, não importando idade, raça, religião, sexo. (TELES E MELO 2003). Na maioria dos casos os atos de violência acontecem de forma oculta e silenciosa, onde o agressor domina emocionalmente a vítima, fazendo com que esteja sempre em estado de atenção com medo do que virá a acontecer caso suas vontades não sejam atendidas, o agressor passa a violar os direitos primordiais do ser humano. Não é identidade entre homens e mulheres que queremos reclamar, mas uma diversidade historicamente variável mais complexa do que aquela queé permitida pela oposição macho/fêmea, uma diversidade que é também diferentemente expressada para diferentes propósitos em diferentes contextos. Na verdade, a dualidade criada por essa oposição traça uma linha de diferença, investe-a com explanações biológicas, e então trata cadalado da oposição como fenômeno unitário (...). Em contraste, nossa meta é ver não somente diferenças entre os sexos, mas também o modo como essas trabalham para represar as diferenças dentro dos grupos de gênero. A identidade construída em cada lado da oposição binária escondeo múltiplo jogo de diferenças e mantém sua irrelevância e invisibilidade (SCOTT, p. 46, 1986, apud LOURO, p. 116, 1995). Esse conceito surgiu na França no início dos anos 1970, impulsionado pelo movimento feminista que reivindicava o reconhecimento das atividades do lar como trabalho, pois este, não tinha visibilidade, mesmo sendo executado por muitas mulheres em todo o país. Foi com a tomada de consciência de uma “opressão” específica que teve início o movimento das mulheres: torna-se então coletivamente “evidente” que uma enorme massa de trabalho é efetuada gratuitamente pelas mulheres, que esse trabalho é invisível, que é realizado não para elas mesmas, mas para outros, e sempre em nome da natureza, do amor e do dever materno (HIRATA; KERGOAT, 2007. p. 597). O sistema capitalista se desenvolveu com bases no patriarcalismo, beneficiando a diferenciação entre os sexos no mundo do trabalho, ou seja, essa histórica desigualdade imposta ao gênero feminino penetrou a estrutura produtiva e favoreceu a naturalização de atividades subalternas destinadas a responsabilidade feminina. Notou-se um crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, tanto nas áreas formais quanto nas informais da vida econômica, assim como no setor de serviços. Contudo, essa participação se traduz principalmente em empregos precários e vulneráveis, como tem sido o caso na Ásia, Europa e América Latina. (HIRATA, 2001. P.143) Ou seja, no atual modelo de societário, a desigualdade social e a precarização do trabalho continuam muito presentes, grande parte dos lares brasileiros tem a mulher como provedora tornando o subemprego uma alternativa para sustentar a família, sair do desemprego e tentar propiciar melhores condições de vida para os filhos. 3.1 Os cincos tipos de violência, segundo a Lei Maria da Penha. A Lei Maria da Penha estabelece cinco tipos de violência doméstica contra a mulher relacionadas no Art. 7º da Lei 11.340/2006: Violência física – Ação do agressor contra a integridade ou saúde corporal da vítima como: empurrar, sacudir, esbofetear, chutar, queimar, etc. Violência psicológica – ação do agressor contra a mulher que causadanos de ordem emocional. Exemplos: insulto, chantagem, ridicularização, humilhação, constrangimento, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, limitação do direito de ir e vir, esse tipo de violência normalmente acompanha a violência física, até mesmo como forma de coibir a vítima a não denunciar a agressão sofrida. Violência sexual - ação do agressor que constranja a mulher apresenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, diante de ameaças, coações ou do uso direto da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade. É um tipo de violência que gera medo, culpa e vergonha, o que dificulta muitas mulheres de denunciá-la, na maior parte das vezes essa agressão só é denunciada quando praticada por um estranho, fator que contribui para o escamoteamento da violência gerida no interior da família. Violência patrimonial - qualquer ação que possa causar dano aos bens da mulher como documentos pessoais e instrumentos de trabalho, esse tipo de violência é utilizada, muitas vezes, para que a mulher passe a não ter controle dos próprios bens, ficando cada vez mais dependente do parceiro. Violência moral – conduta por parte do agressor que possa caluniar ou difamar a mulher, ass mulheres são comumente vítimas da violência moral dentro do ambiente de trabalho, em muitos casos isso ocorre em virtude do assédio sexual a que são submetidas, sua capacidade profissional e atuação são postas em xeque, podem ser também desmerecidas publicamente. 3.2 A Lei Maria da Penha e a tipificação sobre a violência contra a mulher. A Lei 11.340/2007, conhecida como Lei Maria da Penha, foi criada a partir de profundos debates entre os movimentos feministas e de mulheres e o poder público, tendo como objetivo tipificar a violência doméstica e transpor a esfera cível e familiar como âmbito jurídico para o julgamento de processos desta natureza. Santos (2008) destaca que, a nível internacional, a Conferência dos Direitos Humanos, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1993, foi relevante para o reconhecimento da violência contra as mulheres como uma violação dos direitos humanos. Após a conferência, a ONU aprovou a Declaração sobre a Violência contra a Mulher, processo acompanhado pela Organização dos Estados Americanos (OEA), que aprovou a Convenção para Eliminação, Prevenção, Punição e Erradicação da Violência contra a Mulher. Esses processos internacionais tiveram grande impacto na formulação de leis nacionais específicas e abrangentes sobre a temática da violência de gênero, tendo em vista que ambas as convenções foram ratificadas pelo Brasil. No primeiro governo do ex-presidente Lula, criaram-se as condições jurídicas necessárias para a tipificação criminal da violência doméstica. Em 2004, sancionou- se a Lei 10.886/2004, que alterou o Código Penal, introduzindo o termo “violência doméstica”, com pena atribuída de seis meses a um ano, dois anos depois, sancionou-se a Lei Maria da Pena, por meio da qual foram estabelecidos mecanismos para prevenir, coibir e punir este tipo de violência. Este processo foi acompanhado pela Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), criada em 01 de janeiro de 2003, por meio da qual se fez a articulação do Poder Público com os movimentos feministas não governamentais (SANTOS 2008). A Lei Maria da Penha ficou assim conhecida devido ao caso Maria da Penha Maia Fernandes, vítima de duas tentativas de assassinato por parte de seu marido, Marco Antônio Heredia Viveros, ficando paraplégica devido às agressões. No seu primeiro julgamento, Viveros foi condenado a 15 anos de reclusão, contudo, recorreu em liberdade ao longo de dezenove anos e foi preso apenas em 2002, pouco antes da prescrição do crime. Destaca-se a centralidade do papel da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que recebeu o caso em 1998, para que a prisão fosse efetuada antes da prescrição (SANTOS 2008). Santos (2008) afirma que: O caso Maria da Penha foi levado à CIDH pelas organizações do Comitê Latino-Americano e do Caribe pela Defesa dos Direitos das Mulheres e pelo Centro pela Justiça e o Direito internacional, juntamente com a vítima, Maria da Penha. A denúncia baseou-se na Convenção Americana dos Direitos Humanos e na Convenção de Belém do Pará. Em abril de 2001, a CIDH publicou o relatório sobre o mérito do caso, concluindo que o Brasil violara os direitos de Maria da Penha ao devido processo judicial. Para a CIDH, esta violação constituiria um padrão de discriminação evidenciado pela aceitação da violência contra as mulheres no Brasil através daineficiência do Judiciário (SANTOS, 2008, p. 25). Desta maneira, recomendou-se que o Brasil realizasse uma investigação imparcial e exaustiva visando responsabilizar criminalmente o agressor de Maria da Penha. Apenas em 2004 o governo brasileiro passou, por meio da SPM, a tomar providências legais no sentido de cumprir as recomendações da CIDH sobre o caso Maria da Penha. Em março daquele ano, criou-se um Grupo de Trabalho Interministerial para tratar da elaboração de uma legislação específica que abordasse mecanismos de combate e prevenção à violência doméstica. O projeto de Lei 4.559/2004, posteriormente convertido em Lei 11.340/2004, ficou conhecido como Lei Maria da Penha tendo em vista que é feita referência direta da condenação do Estado brasileiro, por parte da CIDH, em relação ao mencionado caso (SANTOS 2008). Assim, a denominação “Lei Maria da Penha”, de 2006, vem como uma reparação simbólica da omissão, por parte do Estado brasileiro, por mais de duas décadas na ineficácia da tramitação do caso. Santos (2008) reforça ainda a importância do aumento da pena, que passou de seis meses a um ano para um mínimo de três meses e o máximo de três anos, sendo a pena aumentada em um terço em caso da vítima ser pessoa com deficiência. Além da punição, a lei estabelece medidas de prevenção e de proteção, baseada nas demandas feministas de integração dos diversos mecanismos e instituições governamentais e não governamentais, como o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública, trabalhando nas áreas da saúde, assistência social, educação, trabalho e habilitação. Instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; Violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. (BRASIL, 2006, p. 17). Desta maneira, observa-se a relevância da tipificação do crime de violência doméstica e familiar, por meio da Lei Maria da Penha, avançando no sentido de punir, mas também de proteger e coibir a violência. 4. O SERVIÇO SOCIAL E A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER. A aproximação entre a profissão de serviço social e a temática violência contra a mulher, se deu pela crescente demanda de atendimentos no cotidiano profissional, conforme explica Inácio (2015): Não significa que a violência contra a mulher não existia antes desses debates, mas que ela ganhou uma proporção e visibilidade maior com os movimentos feministas, com as reflexões e percepções das problemáticas de gênero discutidas no meio acadêmico dos cursos de Serviço Social. Firmando-se posteriormente com as diretrizes curriculares da profissão, entre outros avanços legais que atribuíram uma responsabilização Estatal para mulheres vítimas de violência. Inácio (2015) explica que a compreensão da questão de gênero, das teorias e discussões que a permeiam é muito importante e direcionam os rumos que as relações sociais, de poder e até políticas foram definidas ao longo da história. Por exemplo, os estudos de gênero estão vinculados às feministas que se empenharam para apontar a superioridade masculina ao longo da história como uma construção social vinculada ao patriarcalismo, apontado como um modelo milenar, que ultrapassa a sociedade capitalista. Porém, a partir da construção da nova direção social na formação profissional e com base no contemporâneo projeto ético político do Serviço Social, observa-se um posicionamento em favor das classes trabalhadoras, também uma aproximação do debate sobre gênero, o que dá mais visibilidade à problemática da violência contra a mulher. Considera-se a violência doméstica contra a mulher um reflexo das percepções de questões tidas como naturais, quando o assunto são as diferenças entre homens e mulheres, ou ainda, entender como natural a função da mulher ora como mãe, esposa, entre outras naturalizadas e disseminadas culturalmente como naturais. Assim, Cisne (2004) alerta: O conceito de gênero e de relações de gênero é utilizado no sentido de dar ênfase ao caráter social, cultural e relacional das distinções baseadas no sexo, visando superar o determinismo biológico, ressaltando sua dimensão histórica. Ou seja, visa a desmistificar papéis e qualidades construídas socialmente, mas “naturalmente” atribuídas às mulheres e aos homens, gestadores das desigualdades de gênero. Essa construção, sendo social e histórica, deve ser analisada dentro da dimensão econômica e cultural, uma vez que essas relações de gênero são determinadas relativamente a essas dimensões (CISNE, 2004, 56). É necessário entender que as políticas públicas demarcadas pelo gênero são em parte conquista e em parte concessão do Estado em resposta às problemáticas que ficaram mais evidentes e em conformidade com os movimentos de mulheres e feministas, tudo partindo da intenção de atenuar as diferenças existentes entre homens e mulheres. Certamente o profissional do serviço social trabalha direta e indiretamente com diversas políticas. Segundo Behring e Boschetti (2011, p.36) é preciso analisar as políticas como “processo e resultado de relações complexas e contraditórias que se estabelecem entre Estado e sociedade civil, no âmbito dos conflitos” e não de modo unilateral e/ou tecnocrático que “limitam-se a discutir sua eficiência e eficácia na “resolução de problemas sociais”, sem questionar sua (im) possibilidade de assegurar justiça social e equidade no capitalismo”. Lisboa (2010) traz um pensamento interessante a respeito disso: As teorias feministas e os estudos de gênero constituem-se em um aporte teórico metodológico significativo para o Serviço Social, uma vez que surgem para questionar todas as formas de dominação, expor novas áreas de conflitos sociais (extrapolando os conflitos de classe), que requerem formas próprias de análise das relações, da construção social da diferença sexual, da sexualidade, da reprodução, da discriminação no trabalho (LISBOA, 2010, p.68). Como a citação mostra as teorias feministas e consequentemente as discussões a respeito das relações de gênero, dão aporte teórico metodológico para as intervenções e trabalho do Serviço Social, sendo igualmente importantes nos atendimentos com mulheres vítimas de violência doméstica. Cabe destacar essa questão da equipe multiprofissional na intervenção do assistente social às mulheres vítimas de violência doméstica, na medida em que esse fenômeno já é considerado uma questão de saúde pública, tendo em vista os reflexos negativos causados à saúde de suas vítimas. Considera-se fundamental para a formação profissional, os debates das relações de gênero de uma maneira mais aprofundada, pois é nas instituições formadoras, que os futuros profissionais do Serviço Social, terão a percepção que esse debate (gênero versus violência contra a mulher) deve ser coerente com a realidade contemporânea, ultrapassar o estudo de documentos e aparatos legais. Compreende-se através do quadro que a atuação dos assistentes sociais frente às mulheres vítimas de violência doméstica é desafiadora, complexa e melhor desenvolvida quando se inclui a articulação de uma equipe multiprofissional, como também a articulação de estratégias relacionadas a uma rede de proteção a mulher, conforme descreveu Santos (2016), a rede de apoio envolve: Disque denúncia 180, Centro de Referência da Assistência Social/Centro de Referência Especializado de Assistência Social, Delegacias, Centro de referência da Mulher, Casas Abrigo, Juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, Instituto médico legal, Serviços de saúde, Serviços de responsabilização e educação do agressor. Nas intervenções o profissional de serviço social, tem à disposição essa rede de proteção, juntamente ao Código de Ética Profissional e pela Lei que regulamente a profissão, visando assim garantir o acesso das usuárias aos serviços disponibilizados. Segundo Iamamoto (2011, p. 9): [...] o Serviço Social é uma profissão que, como todas as demais, envolvem uma atividade especializada - quedispõe de particularidades na divisão social e técnica do trabalho coletivo - e requer fundamentos teóricos- metodológicos, a eleição de uma perspectiva ética e a formação de habilidades densas de política. A perspectiva de análise da profissão, ora apresentada, contrapõe-se às concepções liberais e (neo) conservadoras do exercício profissional. Nessa citação Iamamoto (2011) reflete sobre as dimensões que direcionam o “fazer” da profissão, com técnicas e estratégias que combinam e articulam as dimensões teóricas-metodológicas, técnico-operativas ou ético-políticas. 4.1. As Políticas Sociais no âmbito dos Serviços de Atendimentos. 54 As políticas sociais que surgem para atender as necessidades dos brasileiros tiveram influência, ao longo de sua história, nos modelos internacionais. "Diferente, pois, das políticas sociais dos países capitalistas avançados, que nasceram livres da dependência econômica e do domínio colonialista, o sistema de bem-estar brasileiro sempre expressou as limitações decorrentes dessas injunções" (POTYARA, p.125). Pode-se, então, sintetizar a política pública como o campo do conhecimento que busca, ao mesmo tempo, colocar o governo em atuação ou avaliar essa ação alterável separado e, quando imprescindível, sugerir mudanças na direção ou curso dessas ações mudável dependente. A formulação de políticas públicas constitui-se no exercício em que os governos democratas demonstram sua finalidade e plataformas eleitorais em programas e ações que causarão resultados ou mudanças no mundo atual, à visão da política pública como um processo incremental foi desenvolvido por Lindblom (1979), Caiden e Wildavsky (1980) e Wildavisky (1992). Mas é a visão de que decisões tomadas no passado constrangem decisões posteriores e limitam a aptidão dos governos de adotar novaspolíticas públicas ou de reverter o caminho das políticas atuais (SOUZA, 2003). Vale ressaltar que aqui no Brasil o Welfare State (Estado de Bem estar Social) não foi implantado, essas medidas sociais se aplicaram apenas na Europa, em países que haviam sido devastados pela segunda Guerra Mundial. Faleiros ressalta (1991, p.20): É pelo Estado Bem-Estar que o Estado garante ao cidadão a oportunidade de acesso gratuito a certos serviços e a prestação de benefícios mínimos para todos. Nos Estados Unidos, esses benefícios dependem de critérios rigorosos de pobreza e os serviços de saúde não são estatizados, havendo serviços de saúde para os velhos e pobres. O “acesso geral” à educação, à saúde e à justiça existente na Europa decorre de direitos estabelecidos numa vasta legislação que se justifica em nome da cidadania. O cidadão é um sujeito de direitos sociais que tem igualdade de tratamento perante as políticas sociais existentes. Essas medidas de proteção social criadas pelo Estado, desde o início do século XX, serviam como uma forma de acalmar as expressões da questão social na sociedade e durante muito tempo essa ajuda resumiu-se em uma mescla entre saúde e assistência para as pessoas sem vínculos trabalhistas. A Constituição Federal, promulgada em 1988, chamada Constituição Cidadã, pauta-se em parâmetros de equidade e direitos sociais universais, consolidou conquistas, ampliou os direitos nos campos da Educação, da Saúde, da Assistência, da Previdência Social, do Trabalho, do Lazer, da Maternidade, da Infância, da Segurança, definindo especificamente direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, da associação profissional e sindical, de greve, da participação de trabalhadores e empregadores em colegiados dos órgãos públicos, da atuação de representante dos trabalhadores no entendimento direto com empregadores. Essa foi a primeira vez que a política social teve maior acolhimento em uma constituição. Mas Piana (2009, p.39) diz: Entretanto, duas décadas depois se pode afirmar que nunca houve tantos desrespeitos à sociedade brasileira, como hoje, por meio de violações, fraudes e corrupções explícitas do Estado, da classe hegemônica, dos representantes do poder e do povo, na legislação vigente, nos repasses dos recursos financeiros, nas relações de trabalho, com um mercado altamente seletivo e excludente e outros. Foram criadas leis complementares a partir da formulação da CF de 1988, sendo elas: Lei n. 8.069 de 1990 – o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei n. 8742 de 1993 – Lei Orgânica da Assistência Social. PIANA, afirma que (2009 p.40-1): Cabem aos sujeitos sociais a construção e a transformação das relações sociais. São diversos os segmentos presentes nesta luta, especialmente os profissionais, assistentes sociais, que têm o compromisso de mediar às relações entre Estado, trabalhadores e Capital e gerir as políticas sociais. Neste início de milênio, o cenário colocado pelo capitalismo em seu modelo neoliberal, coloca para o Brasil questões agravantes como alto índice de desempenho, aumento da concentração de renda/riqueza, empobrecimento e miserabilidade da população. O profissional assistente social é chamado, então, a atuar nas expressões da questão social,formulando, implementando e viabilizando direitos sociais, por meio das políticas sociais. A gestão proposta por essa Política pauta-se no pacto federativo, no qual devem ser detalhadas as atribuições e competências dos três níveis de governo na provisão das ações sócio assistenciais, em conformidade com o preconizado no LOAS e na NOBS, a partir das novas indicações e deliberações das Conferencias e conselhos, as quais constituem em espaço de discussão, negociação e pactuarão dos instrumentos de gestão e formas de operacionalização da política de assistência social. A política de assistência social realiza-se de forma integrada as políticas setoriais, considerando as desigualdades sócio territoriais, visando seu enfrentamento, a garantia dos mínimos sociais, ao provimento de condições para atender contingências sociais e a universalização dos direitos sociais. Os programas e projetos são executados pelas três instâncias de governo e devem ser articulados dentro do SUAS, vale destacar o Programa de Atenção Integral a Família, PAIF que, pactuado e assumido pelas diferentes esferas de governo, surtiu efeitos concretos na sociedade brasileira. O SUAS, cujo modelo de gestão é descentralizado e participativo, constitui-se na organização em todo o território nacional das ações sócio assistenciais. Os serviços, programas, projetos e benefícios têm como foco prioritário a atenção às famílias, seus membros e indivíduos e o território como base de organização, quepassam a ser definidos pelas funções que desempenham, pelo número de pessoas que deles necessitam e pela sua complexidade. 4.2. O Assistente Social na equipe multiprofissional em casos de atendimento à violência contra a mulher. Santos et al (2018), desenvolveu uma pesquisa sobre como as equipes de atenção primária à saúde enfrentam a questão da violência contra a mulher,os resultados da pesquisa indicaram que as usuárias do sistema da saúde relatam questões de violência no momento em que buscam outros tiposde atendimento. Isto é, não procuram atendimento devido à violência, mas a relatam quando realizam exames de rotina, por exemplo, os profissionais entrevistados afirmaram que, majoritariamente, identifica-se que “o silêncio delas sobre as situações de violência está relacionado muitas vezes aos agressores serem seus parceiros íntimos e/ou outros familiares” (SANTOS et al, 2018, p. 362). Neste sentido, a pesquisadora afirma que é crucial que os/as profissionais de enfermagem estejam preparados para identificar sinais sugestivos de violência, bem como aptos para atuarem em casos de suspeita: A primeira assistência às usuárias é fornecida pelo enfermeiro. E de acordo com a necessidade são acionados os demais profissionais. “Já no hospital, são atendidas pela seguinte ordem: médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, não necessitando ter que vir em dias diferentes para tais atendimentos” (SANTOS et al, 2018, p. 363). A visita domiciliar é um instrumento relevante para conhecera realidade cotidiana da mulher que está sendo atendida, principalmente em casos em que a violência ocorre dentro do âmbito domiciliar, reuniões com grupos de mulheres pode ser uma forma operacional interessante quando o intuito é tirá-las de um processo de angústia e baixa autoestima. De mesmo modo, reuniões com a equipe multiprofissional são decisivas para a continuidade dos encaminhamentos cabíveis, como afirmam Lisboa e Pinheiro (2005, p. 206): “reuniões interdisciplinares com a equipe que atendeu a mesma situação são importantes, com o objetivo de socialização dos dados (ou do diagnóstico), para que os encaminhamentos possam ser realizados da forma mais correta possível”. A elaboração de documentos e relatórios é de central importância, é por meio desta documentação que todos os encaminhamentos serão planejados estrategicamente e guiarão o atendimento da equipe multiprofissional. Independente da escolha teórico-metodológica e do instrumental operativo, a postura ética dos profissionais deve ser sempre observada como padrão de orientação da ação, visando respeitar o contexto particular de cada uma das mulheres vítimas de violência que são atendidas pelos profissionais. É importante destacar que as constituições institucionais impactam diretamente o trabalho do profissional do Serviço Social. A não priorização de serviços públicos de atendimento e prevenção contra a violência influem na desvalorização do serviço, que conta com poucos recursos financeiros e humanos: “a realidade mostra um descompasso entre o que as mulheres buscam junto aos serviços oferecidos, os modos como os profissionais de Serviço Social gostariam de intervir (...) e os recursos humanos, técnicos e financeiros que a instituição oferece” (LISBOA e PINHEIRO, 2005, p. 208). Neste sentido, a falta de política pública com foco na questão da violência de gênero, ou a sua subvalorização, é uma lacuna que interfere diretamente no desempenho profissional do/a assistente social. Por fim, a capacitação dos/as profissionais do Serviço Social, para que estejam aptos a lidarem com a complexidade social da violência de gênero, como uma interface da questão social, é de extrema relevância, para tanto, pesquisas buscam identificar e relatar a experiência destes profissionais no atendimento aos casos de violência. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência doméstica não é exclusividade de nenhuma classe social, intelectual ou etnia, atingem todos os países e culturas, de formas variadas, essas agressões ocorrem dentro da residência da família, dificultando que sejam detectadas e solucionadas; pois apesar dos laços familiares envolverem relações de violência, contêm relações de carinho, amor e dependência. O profissional de Serviço Social tem que está qualificado para atuar nas diversas áreas ligadas à condução das políticas sociais públicas, seu principal objetivo é responder às demandas dos usuários dos serviços prestados dentro das instituições, a fim de garantir atendimento humanizado e efetivação dos direitos. A ação e intervenção profissional dos Assistentes Sociais em demandas familiares, inclusive na questão da violência, se apresentam desafiadora, entretanto, vêm avançando com muita competência, o qual possibilita resgatar a dignidade humana. No entanto, mesmo havendo avanços políticos e sociais ainda são insuficientes para minimizar o elevado índice de violência doméstica e feminicídio, presentes no Brasil e no mundo, que nos traz os questionamentos e reflexões constantes sobre a eficiência das políticas públicas e ações desenvolvidas nesse segmento, diversas práticas e ações vem sendo desenvolvidas ao longo da história, no entanto ainda se mostram ineficaz desse fenômeno. O trabalho do assistente social é de extrema importância dentro dessa perspectiva, porém vislumbramos profissionais cada vez mais desmotivados devidos aos baixos salários e desvalorização profissional, falta de incentivo para a educação permanente em serviço, é notório também, o acumulo de trabalho que é jogado para estes profissionais, realizando atribuições que não são suas, a precariedade dos vínculos de trabalho. Porém, ainda existem profissionais capacitados e capazes e comprometidos que desenvolvem o trabalho com afinco, esses muito nos orgulham e representam a profissão, mas é preciso que as nossas lutas sejam efetivadas e que sejamos valorizados com condições de trabalho, bons salários, onde possamos trabalhar em prol do direito da população tão carente e principalmente sermos portadores de boas notícias para essas mulheres tão sofridas que são as vítimas de violência doméstica e as famílias das vítimas de feminicídio, esse mal que se tornou uma verdadeira epidemia no Brasil e no mundo. Devemos explicitar também a importância das equipes multi e interdisciplinares no atendimento das mulheres em situação de violência doméstica e feminicídio, além da articulação dos diferentes setores que compõem as chamadas redes de apoio à mulher, disponibilizados para o enfrentamento da violência como um caminho a ser seguido, porém muito aquém das necessidades existentes e cada vez mais pungentes. Um dos maiores desafios para os assistentes sociais no combate a violência é construir uma efetiva rede de atendimento interdisciplinar, considerando essa como a articulação das ações entre as instituições e seus profissionais, que possam efetivamente amparar as vítimas da violência. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ALMEIDA, Suely Souza. A violência de gênero como uma violação dos direitos humanos: a situação brasileira. UFM: II Jornada Internacional de Políticas Públicas. São Luís – MA, 23 a 26 de agosto 2005. ALMEIDA, Tânia Mara Campos de; PEREIRA, Bruna Cristina Jaquetto. Violência doméstica e familiar contra mulheres pretas e pardas no Brasil: reflexões pela ótica dos estudos feministas latino-americanos. Crítica e Sociedade: revista de cultura política. V.2, n.2, Dossiê: Cultura e Política, dez.2012. BANDEIRA, Lourdes M.; SIQUEIRA Deis. A perspectiva feminista no pensamento moderno contemporâneo. Revista Sociedade e Estado. Brasília, v. VII/2, n. 3, p.263-264 1997. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988. BRASIL. Lei nº 3.104, de 2015. Brasília, 2015. BRASIL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. BRASIL. Lei nº 11.340/2006. Lei Maria da Penha: a luta fazendo a lei. Brasília, 2007. BRASIL. Lei do Feminicídio, Lei 13.104/15. Disponível em: Acesso em: 08 ago.2019. BRASIL. Código de Ética do Assistente Social. Lei 8662/93 de regulamentação da Profissão. 3ª ed. Brasília: Conselho Federal de Serviço Social, 1997. CAMPOS, Amini Haddad; CORRÊA, Lindinalva Rodrigues. Direitos Humanos das Mulheres. Curitiba: Juruá, 2012. FALEIROS, V. Estratégias em Serviço Social. 2. Ed. São Paulo: Cortez, 1999. FONSECA. Maria Fernanda Soares et al. O feminicídio como uma manifestaçãodas relaçôes de poder entre os gêneros. JURIS, Rio Grande, v. 28, n. 1, p. 49- 65,2018. HIRATA, Helena; KERGOAT, Daniele. Novas configurações da divisão sexual dotrabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007. LISBOA. Tereza Kleba. PINHEIRO. Eliane Aparecida. A intervenção do Serviço social junto à questão da violência contra a mulher. Katalysis. Vol 08, n°2 Florianopolis- SC 2005. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, história e educação: construção e desconstrução. Educação & realidade, v. 20, n. 2, 1995. IAMAMOTO, Marilda Vilela. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. 2 ed. – São Paulo: Cortez, 2008. IAMAMOTO, Marilda V.; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil. Esboço de uma interpretação histórico/metodológica. 10ed. São Paulo: Cortez/CELATS, 2004. IAMAMOTO, M.V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 2. Ed. São Paulo: Cortez, 1999. INÁCIO, Mirian de Oliveira. A relação entre “Projeto Feminista Emancipatório” e Projeto Ético-Político do Serviço Social: repercussões no enfrentamento à violênciacontra as mulheres no Brasil. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 9.,Florianópolis, 2010. LAKATOS, Maria Eva. MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho científico: procedimentos básicos, pesquisa bibliográfica, projeto e relatório, publicações e trabalhos científicos. São Paulo: Atlas, 2012. image2.png image3.png image4.png image5.png image6.png image1.jpeg