Prévia do material em texto
Capítulo 6 AULA PRESENCIAL NA UNIVERSIDADE COM APOIO DE TÉCNICAS PEDAGÓGICAS: IDENTIFICAÇÃO E APLICAÇÃO DE DIFERENTES TÉCNICAS S muitas as técnicas existentes para a dinamização das aulas no ensino superior e muitos os autores que escrevem sobre elas. Masetto (2003), Gil (2007), Torre (2008) e Bordenave (1984) são alguns deles. Nossa abordagem para discutir o uso de técnicas em aula se firma na ideia de apoio ao processo de aprendizagem. Fundamental para nós é es- tabelecer que as técnicas são instrumentos e como tais só podem ser com- preendidas e usadas adequadamente quando relacionadas aos objetivos aos quais elas servem. Essencial no conceito de técnicas e estratégias é a de instru- mentalidade. Todas as técnicas são instrumentos e como tais necessariamente precisam estar adequadas a um objetivo e ser eficientes para ajudar na conse- cução deste. Três consequências decorrem imediatamente dessa afirmação: 1. Como no processo de aprendizagem trabalhamos com vários objetivos (de conhecimento, de habilidades e competências, afetivo-emocionais e de ati- tudes ou valores), é lógico que tenhamos de usar múltiplas técnicas. Ou, em outras palavras, não é possível querermos ajudar os alunos a conseguirem tantos objetivos usando apenas uma ou duas técnicas. Há necessidade do conhecimento das diferentes que sejam mais adaptadas a este ou objetivo.84 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação... 85 2. A segunda consequência é a seguinte: cada grupo de alunos ou cada tur- ma ou cada classe são diferentes uns dos outros. Para mesmo objetivo, INÍCIO DE CURSO, AQUECIMENTO E INCENTIVO À MOTIVAÇÃO DOS ALUNOS determinada técnica pode ajudar um grupo e não servir para outro pelas mais diferentes razões, por exemplo, devido ao turno em que acontece a Apresentação simples aula (manhã, tarde ou noite), à composição do grupo, à energia pessoal Apresentação cruzada em duplas do próprio professor, ao estado ou motivacional do aluno, ao clima Complementação de frases Desenhos em grupos estabelecido na classe, a incidentes críticos acontecidos com determinado Deslocamento físico de professor e/ou aluno grupo, a fatos supervenientes, e assim por diante. Isso nos alerta para a Brainstorming necessidade de conhecermos e dominarmos várias técnicas que possam ser Uso de pré-testes utilizadas tendo em vista mesmo objetivo. 3. A necessidade de variar as técnicas no decorrer de um curso, que se faz oportuno, pois elas são um forte elemento de atuação sobre a motivação São objetivos dessas técnicas: dos alunos, assim como a necessidade de se propor claramente os objetivos colaborar para que membros de um grupo que juntos du- a serem alcançados. (MASETTO, 2003, p. 86-87). rante certo tempo se conheçam em um clima descontraído; preparar uma classe que no início se mostra apática para um relacionamen- Dentro desta perspectiva de se pensar técnicas que possam apoiar o pro- to mais vivo e, portanto, mais favorável à aprendizagem da disciplina; cesso de aprendizagem em aula podemos organizar um quadro de técnicas relacionando-as com os objetivos que pretendemos que os alunos alcancem. expressar expectativas ou problemas que afetam o clima do grupo e (Idem, 2003). o desempenho de seus membros, os quais professor e/ou alunos não percebem claramente ou têm dificuldade de expressar de modo direto, verbalmente; TÉCNICAS PARA INICIAR AS DISCIPLINAS E MOTIVAR os ALUNOS produzir grande número de ideias em prazo curto; desenvolver a origi- nalidade e a desinibição; Assim, por exemplo, numa situação de início de uma disciplina, ou quebrar percepções aprioristicamente preconceituosas entre os mem- mesmo durante, quando sentimos a necessidade de envolver os alunos com bros da classe. a temática da disciplina, de motivá-los, de interessá-los pelo que estamos propondo; quando sentimos que a produção da turma caiu, está pouco participante e desinteressada nas atividades propostas na aula, entre outras Apresentação simples técnicas, podemos sugerir: Cada membro do grupo, oralmente, se apresenta, dizendo algo de si mes- mo nos vários aspectos de sua vida, inclusive suas preferências em momentos de lazer e em outros momentos de sua vida social. A apresentação pode ser entremeada com perguntas feitas pelos participantes.86 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 87 Essa estratégia é mais aconselhável para grupos pequenos (20 a 25 pes- Exemplos de frases: Vim para este curso...; Esta disciplina serve soas). Além desse número, ela se torna cansativa. Por isso, outra técnica Nesta disciplina espero aprender... Meus colegas dizem que esta discipli- deverá ser escolhida. Em meus momentos de lazer...; Socialmente Com relação à mi- nha profissão... etc. É uma técnica que pode ser usada com pequenos e grandes grupos, dan- Apresentação cruzada em duplas do a oportunidade de todos se manifestarem, ouvirem uma grande parte de Trata-se de uma variante da técnica anterior. Os participantes se reúnem depoimentos e conhecerem o grupo de modo geral, sobretudo se professor em duplas durante seis minutos e deverão, nesse período, se apresentar um ao recolher os cartões e examiná-los posteriormente. outro nos mesmos moldes descritos na apresentação simples. Cada um tem três minutos para fazer sua apresentação ao colega. Cada elemento da dupla Desenhos em grupos deverá dar toda atenção ao colega, pois, no momento seguinte, deverá apresen- tá-lo ao grupo. A apresentação cruzada costuma ser bastante informal, criando Essa é uma técnica que poderá ser usada com grandes grupos, desde que frequentemente momentos engraçados e hilariantes, e de grande aproximação tenhamos espaço físico suficiente. entre o grupo. Este é, de fato, o objetivo da técnica. Divide-se a turma em grupos de cinco a sete pessoas, no máximo. Dá-se Como a anterior, essa técnica é mais aconselhável para grupos de 25 ou, no um tema a respeito do qual se pede que os grupos debatam durante 15 minu- máximo, 30 pessoas. Além desse número, precisamos escolher outra técnica. tos, procurando chegar a algumas ideias comuns. Após esse tempo, pede-se que cada grupo procure uma forma de comuni- Complementação de frases car a toda a turma as ideias a que chegaram seus integrantes, sem usar a palavra oral ou escrita. Ou seja, procurem se comunicar mediante outros recursos, por Por vezes, encontramos uma turma muito inibida, com pouca disposição exemplo: o desenho, a representação estática ou dinâmica, gestos etc. de se comunicar oralmente ou uma turma muito grande (50 a 60 alunos). O professor terá levado para a sala de aula folhas de papel-jornal ou car- Nessa condição, uma técnica que pode ajudar o desbloqueio é a comple- tolinas com pincéis atômicos para os desenhos ou outro material que julgar mentação de frases. Em que consiste? conveniente, como revistas, fotos etc. para se fazer uma colagem. Dá-se um professor prepara um cartão para cada aluno, no qual escreve um início tempo de mais 15 minutos para a realização dessa atividade. de frase que será complementado pelo aluno, livremente. Certamente haverá muita reclamação por parte dos alunos que não estão Em seguida, recolhem-se os cartões e se redistribuem aleatoriamente, de acostumados a esse tipo de comunicação. Alguns dirão não saber fazer a forma que cada aluno, agora, tem uma frase completa, que não foi escrita por atividade, outros vão afirmar que "isto é coisa de ensino fundamental" etc. ele e ninguém sabe por quem o foi. Ele, então, é convidado a ler a frase em público para todos os colegas. ao que responderemos que desejamos apenas desenvolver outros tipos de A inibição diminui, pois aquela leitura praticamente não compromete o comunicação que, em geral, estão embotados em nós, que procurem ajuda leitor; e, com base nela, o.professor pode fazer outras questões ou outros alu- entre os colegas de outros grupos (não esqueçamos que nosso objetivo é a nos podem querer ler frases desbloqueio se inicia. interação grupal) etc.88 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 89 Encerrado o tempo estipulado, cada grupo é chamado para fazer sua apre- programar atividade de grupo que obrigue os alunos a mudarem de sentação ou expor seu desenho. local na sala; lembrar que várias dinâmicas de grupo permitem deslo- Inicialmente, sem manifestação do grupo que está expondo, pergunta-se à camentos maiores durante o tempo de aula. classe quais ideias estão sendo comunicadas. Após cerca de dois minutos, dá-se Isso poderá ser melhor compreendido e avaliado mais adiante, quando a palavra ao grupo para que se explique. tratarmos das dinâmicas de grupo. O diálogo aproxima muito os grupos e a turma de diversas formas, e ao professor oferece oportunidade de conhecer o que seus alunos pensam a res- peito do assunto sobre o qual se dialogou. Brainstorming A técnica permite que os alunos do pequeno grupo se entrosem e intera- jam com a classe como um todo de uma forma, em geral, descontraída. É mui- Incluímos nessa categoria a técnica de brainstorming (tempestade cerebral) to importante que o encaminhamento dessa atividade, dado pelo professor, porque, frequentemente, ela permite um desbloqueio, um aquecimento da classe, esteja explicitamente relacionado com objetivos de aprendizagem esperados, embora seu principal objetivo seja levar a um desenvolvimento da criatividade, para que os alunos não entendam a atividade apenas como uma "brincadeira" bem como à produção de grande número de ideias em curto prazo de tempo. inconsequente durante a aula. Seu funcionamento, em geral, é o seguinte: orienta-se a classe para a atividade que vai acontecer, pedindo aos alunos que, ao ser apresentado o tema ou uma pa- lavra, procurem verbalizar imediatamente as associações que lhes vierem à mente, Deslocamento físico de professor aluno sem preocupação com o certo ou errado, com plena liberdade, sem censura. Nem sempre nos damos conta de que o tempo que os alunos permanecem Evitar que se tenha tempo para pensar ou fazer longos raciocínios. Nessa sentados, levando em consideração o desconforto das carteiras, traz grande técnica a manifestação espontânea é importante. probabilidade de desatenção e apatia durante as aulas. Combinado o procedimento, o professor apresenta um tema ou uma pala- Daí decorre a necessidade de provocarmos deslocamentos físicos dos alu- vra que seja provocador(a) e instigante, escrevendo-o(a) na lousa. nos e/ou do professor durante as aulas. Imediatamente se iniciam as verbalizações que professor vai registran- Por exemplo: do na lousa, ao redor da palavra ou do tema escrito, sem se preocupar com qualquer ordem ou organização e sem fazer comentário algum a favor ou logo no início da aula solicitar colaboração para arrumar as carteiras contra, evitando, inclusive, que suas reações às verbalizações sejam perce- em forma de semicírculo, o que favorece muito mais a participação dos bidas, justamente para incentivar as manifestações sem censura e com total alunos nas aulas; liberdade de associação. se o professor for dar uma aula expositiva, abrir espaço entre as car- Decorridos cerca de cinco a seis minutos (ou seja, um tempo não muito ex- teiras para que possa transitar livremente entre os alunos até o final tenso), o professor encerra as manifestações e, então, juntamente com o grupo, da sala e fazer esse deslocamento aproximando-se dos mais variados começa a organizar as manifestações, solicitando agora a participação para, por alunos e ocupando os espaços da sala de aula diversas vezes durante a exemplo, relacionar tudo que está registrado na lousa e que é mais próximo do exposição; tema, quais ideias podemos usar para compor um conceito do tema, agrupar90 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: 91 as ideias por alguma semelhança ou eliminar as que não possam ser colocadas Na sequência, o professor de bioquímica apresentou aos alunos um teste em prática (o critério depende do tema proposto para a atividade). composto por um conjunto de pequenas situações profissionais de saúde que E num processo contínuo, de preferência com os alunos, o professor vai exigiam o uso da bioquímica para serem tratadas. construindo o conceito ou o tema utilizando as colaborações apresentadas. Combinou com os alunos que, se eles resolvessem corretamente todas as Poderão surgir ideias que nada tenham a ver com o tema ou com a palavra estariam aprovados em bioquímica e não precisariam frequentar as aulas nem fazer as provas. Caso não soubessem responder corretamente a proposta. Será interessante deixá-las por último para que os próprios alunos algumas questões, então estas se constituiriam no programa de bioquímica que cheguem a essa conclusão. Se não perceberem, o professor poderá mostrar por seria desenvolvido com todos os alunos. que não se incluem essas sugestões no trabalho realizado. Eles aceitaram a proposta; os resultados indicaram que eles conseguiram res- Certa vez, em um curso de formação de professores, quando o tema foi ponder um número muito pequeno de questões (cerca de 2,5% delas) e, portanto, "avaliação", tema em geral carregado de ansiedades e experiências negativas, o todos precisavam estudar muito bem as demais questões se quisessem ser profissio- brainstorming foi muito importante para se exporem as defesas, os sentimentos nais da saúde com competência e responsabilidade diante de seus pacientes. negativos com relação ao tema, os aspectos pejorativos. Enfim, o aspecto emo- Os alunos assumiram o programa todo, tanto em sua parte teórica como em cional apareceu e pôde ser trabalhado, permitindo que em seguida, se entrasse sua parte prática. Motivaram-se para fazer um bom curso e se envolver com ele. para a discussão do tema com mais tranquilidade, buscando e discutindo no- Outros professores usam o pré-teste como uma forma de os alunos perce- vas informações, novas experiências e com maior abertura para aprender. berem o que precisam aprender e se interessarem pela matéria; depois de certo tempo de curso, o mesmo pré-teste é reapresentado aos alunos para avaliarem seu aproveitamento e sua aprendizagem. Uso de pré-testes Esta é uma técnica muito útil, principalmente no início das disciplinas, TÉCNICAS PARA QUE os ALUNOS APRENDAM A ADQUIRIR E FIXAR para motivar e interessar os alunos pelos estudos que vão fazer. INFORMAÇÕES Alguns não sabem para que irão estudar aquela disciplina, outros enten- Analisemos uma segunda situação: nosso interesse é que os alunos dem que não precisam daquelas aulas, pois o que já sabem é mais do que o aprendam a adquirir e fixar informações. Em geral, os professores traba- suficiente para o exercício de sua profissão. lham com a técnica da aula expositiva. Vamos sugerir outras técnicas para Um professor de bioquímica numa faculdade de medicina vivia este essa aprendizagem. problema. Os alunos do primeiro ano sempre se achavam com conhecimentos mais do que suficientes de bioquímica para o exercício da medicina. ADQUIRIR E FIXAR INFORMAÇÕES No início de um ano, ele convidou seus colegas professores de diversas Leituras: preparando a aula áreas como cirurgia, pneumologia, nefrologia, oncologia e clínica geral para Levantamento de informações em fontes alternativas: Internet, darem início às suas aulas de bioquímica. periódicos, bibliografia, revistas e jornais de grande circulação Esses professores deram boas-vindas aos alunos e disseram em que usavam Ensino com pesquisa a bioquímica em sua atividade92 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 93 Leituras: preparando a aula que os alunos pesquisem outros materiais, mas nesse caso a orientação é imprescindível. Todos nós, professores, consideramos bastante importante que os alunos Um segundo cuidado ao indicar uma leitura a ser feita, visando motivar se preparem para as aulas lendo alguns textos ou preparando algum material. o aluno, é orientá-la para que em cada semana ela seja feita de um modo E são muitas as reclamações de que os alunos não leem nem preparam mate- diferente, conforme seu uso em aula. Por exemplo, numa semana, que os rial algum fora de aula porque não têm tempo, pois trabalham o dia todo ou alunos leiam um texto e tragam-no resumido em uma página; em outra se- fazem outras tantas atividades ou porque acham muito chatas essas leituras, mana, que tragam redigidos em uma página os pontos ou conceitos-chave do "depois, o professor as repõe, explica ou retoma em aula: então, para que texto; numa terceira vez, pede-se que em uma ou duas páginas tragam um estudar antes da aula?". caso resolvido; em outra oportunidade, que leiam o texto e, baseados neste, Eu também já vivi esse drama e, após algumas tentativas, em meus cursos, tragam perguntas; pode-se ainda solicitar que leiam um texto e dele façam um matutinos ou noturnos, os alunos já leem e preparam o material para o encon- resumo com comentários pessoais; e até mesmo pode-se oferecer uma série tro seguinte. de perguntas relacionadas ao texto de leitura que ser respondidas por Em primeiro lugar, no início do curso, quando fazemos sua programação, escrito; e assim por diante. combinamos com os alunos que ali nos encontramos para aprender e não Podemos perceber quantas alternativas temos, e existem muitas outras apenas para "tirar uma nota". que, inclusive, podemos criar, para variar a atividade de leitura fora de aula. Essa disposição exige trabalho do grupo, durante o período de aula, Explorá-las leva à motivação e supera-se aquela sensação de "tarefa, obrigação, para aprender; e esse tempo não pode ser ocupado só com aulas expositi- chateação que os professores mandam a gente fazer em casa, só por fazer"; ou vas, nas quais o professor apresenta de forma resumida e organizada um para o professor não se sentir omisso, pois deu uma tarefa para casa. conteúdo necessário. No entanto, um aspecto importante: a atividade que pedirmos para os Cada aluno precisa ler, procurar compreender os textos, buscar infor- alunos fazerem em casa deverá ter uma continuação em aula. O aluno deve mações e se preparar para um tempo na universidade (aula), onde ele vai se perceber que não fez seu trabalho em e que o material que preparou é encontrar com seus colegas e com o professor e, todos juntos, em equipe, vão importante para as atividades da aula. aprender o que se propuseram. O que vai acontecer em aula não poderá ser uma aula expositiva repetitiva Leitura, estudo, preparação pessoal indispensáveis para se aprender e do texto lido (esta é a melhor forma de desencorajar alunos a estudarem fora participar de uma atividade coletiva de aprendizagem. de aula), mas atividades dinâmicas, interessantes, em que a participação dos Fechado o compromisso, indo para o lado prático, é importante que alunos com suas páginas escritas seja fundamental. O aluno precisa sentir que os textos indicados para leitura sejam de fácil acesso, com um número de seu trabalho é importante e ele próprio é valorizado pelo que está acontecendo páginas que possa ser lido e estudado em uma semana (supondo que os em aula. encontros de aula sejam semanais), lembrando que o aluno não tem só a Pela mesma razão, aqueles que não realizaram a tarefa solicitada não pode- nossa disciplina, mas um conjunto de 8 a 10. Ou seja, é fundamental que rão participar da dinâmica da classe, mas deverão ser convidados a aproveitar os textos indicados sejam bem dosados na quantidade e na complexidade aquele tempo para uma segunda oportunidade de ler e se preparar individual- (indo dos mais simples aos mais complexos). Por vezes podemos solicitar mente para a continuidade da aula.94 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 95 Aos poucos, a classe vai percebendo que é interessante ler, vir à aula, pois não só levantar material com um se torna importante encontrar-se com os colegas e com o professor para tro- "Ctrl+C; Ctrl+V", mas seleciona- "Ensino com pesquisa: Tra- car ideias, debater, discutir, conhecer aspectos novos, participar de dinâmicas ta-se hoje de uma estratégia rem o material; fundamental para a melho- novas; vai notar aos poucos a diferença de receber um material todo pronto e valorizar, em princípio, todas as ria da qualidade dos cursos construir ele próprio seu conhecimento, encontrar nele um significado pró- contribuições dos alunos para de graduação, aceita e de- prio. Para o professor, uma aula assim será muito mais motivadora e instiga- fortalecer a atitude de cooperação fendida por todas as institui- dora e muito menos cansativa. ções de ensino superior." e participação deles; não deixare- mos, porém, de analisar critica- Levantamento de informações em fontes alternativas: mente com eles a qualidade e a contribuição do material trazido; Internet, periódicos, bibliografia, revistas e jornais de não esquecer de se trabalhar com revistas e jornais de grande circu- grande circulação lação, bem como com material de rádio e televisão como fontes de informação que merecem ser buscadas e analisadas; assuntos atuais Com esta técnica a preocupação é que os alunos aprendam a buscar as são hoje apresentados com alto nível de cientificidade em revistas informações de que precisam e não se habituem a tê-las todas preparadas e semanais ou mensais, em cadernos especializados de jornais, em pro- transmitidas pelo professor, que os alunos aprendam os caminhos de sua gramas de televisão (estes também produzidos a partir de pesquisas), atualização contínua na área do conhecimento que irão precisar por toda em filmes especializados ou mesmo comerciais. sua vida Uma vez identificadas as informações necessárias, pode-se propor que Ensino com pesquisa os alunos, individualmente ou em grupo, as busquem, leiam e estudem para compreenderem o tema e discuti-lo com o professor e os colegas. Trata-se hoje de uma estratégia fundamental para a melhoria da quali- Algumas observações: dade dos cursos de graduação, aceita e defendida por todas as instituições de este levantamento de informações pode ser feito durante o período de ensino superior. É a pesquisa se iniciando nos cursos de graduação visando a aula e/ou fora dele, por exemplo na biblioteca ou na hemeroteca, ou formação dos profissionais contemporâneos. Além disso, trata-se de uma técnica que permite o desenvolvimento de no setor de vídeos/ filmes, /CDs, DVDs ou nos laboratórios de in- formática, na Internet. Não nos esqueçamos da discussão que fizemos várias aprendizagens: tomar iniciativa na busca de informações, dados e materiais atrás sobre o espaço de aula ser tanto do professor como do aluno e a rios para o estudo; aula como ambiente de aprendizagem; entrar em contato com as mais diferentes fontes de informações (livros, este levantamento pode começar pelo livro-texto ou pelo material que revistas, periódicos, anais de congressos, músicas, fotos etc.) e com os o professor indicar como básico para os estudos do assunto. Aos pou- mais diversos ambientes informativos (bibliotecas, internet, sites etc.), se pode pedir a consulta a outras fontes bibliográficas ou a especia- com especialistas de seu curso e de outras instituições mediante entre- listas ou à própria-Internet orientando para que os alunos aprendam a vistas, e-mails etc.;96 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação... 97 selecionar, organizar, comparar, analisar, correlacionar dados e infor- bibliografia a ser consultada; escolha de procedimentos a serem usados na pesquisa bibliográfica fazer inferências segundo dados e informações, levantar hipóteses, che- e/ou na pesquisa de campo; cá-las, comprová-las, reformulá-las e tirar conclusões; coleta de dados, tabulação e sua respectiva análise; elaborar um relatório com características científicas; realizar a conclusão, respondendo e procurando hipóteses; comunicar os resultados obtidos com clareza, ordem, precisão elaboração do relatório científico; fica, oralmente ou por comunicar os resultados a toda a classe e discuti-los em seguida. Essa é uma estratégia que pode ser usada uma vez no semestre ou duas Sugere-se que essa comunicação seja dinâmica, usando pôsteres, Power- no ano, dado o tempo que ela consome. Tempo esse que será em pequena Point, cartazes ou outras formas que incentivem a participação de todos os parte dos momentos das aulas e em grande parte de momentos fora das alunos. aulas. Duas questões sempre aparecem quando discutimos esse assunto: haverá Com efeito, esta técnica exige para sua realização que alunos trabalhem tempo suficiente para se fazer um trabalho como esse? Qual será o comporta- fora do tempo de aula, com a orientação do professor. mento do professor durante a atividade? Só pode ser levada a efeito se o professor estiver disposto a orientar seus Tempo para essa atividade: de dois a dois meses e meio. Grande parte dele alunos nessa atividade. Não será suficiente "mandar os alunos fazerem pesqui- fora da sala de aula, paralelamente às outras atividades do semestre. O tempo sa". Será necessário orientá-los como se faz uma pesquisa e acompanhar sua de aula usado será, algumas vezes, para orientar o trabalho de pesquisa e para realização nas diferentes etapas. a comunicação final. Quais são as etapas dessa estratégia? A outra questão com relação ao comportamento do professor durante esta 1. Motivar os alunos a participarem da atividade, discutindo com eles no atividade exige maiores cuidados: a atitude do professor será a de um orien- que consiste a pesquisa, a riqueza de aprendizagem que encerra, sua tador de pesquisa. Em princípio, os alunos não sabem pesquisar. O professor validade, a importância e como se relaciona com a aprendizagem que deverá orientá-los e, de tempos em tempos, se reunir com o grupo para acom- se está desenvolvendo naquela disciplina e naquele semestre. panhar o desempenho deles na pesquisa. 2. Discutir os critérios para a escolha do assunto ou da situação a ser Em que tempo? Ora marca-se uma orientação durante o intervalo do ca- pesquisada, lembrando que a pesquisa pode ser ou de fezinho, ora no final de uma aula, ora se destina o tempo de uma aula para campo, ou incluindo ambos os aspectos. orientação de todos os grupos. 3. Dividir a turma em pequenos grupos, ficando cada um com um aspec- E nessa orientação o que se faz? Observa-se se todos estão pesquisando, os to do assunto a ser pesquisado ou com um tema próprio. fichamentos do material lido, relatórios de discussão do grupo, os conceitos 4. Apresentar e discutir com os alunos o que vem a ser um plano de pes- que estão sendo estudados, a organização das ideias, se o plano de pesquisa quisa, seus elementos e sua organização: estabelecido está sendo cumprido, se estão no caminho correto ou se estão se definição precisa de um problema; desviando muito do tema da pesquisa. metodologia de pesquisa, ou seja, com que método trabalhar para O professor procurará sempre orientar para o objetivo da pesquisa e ana- coletar informações necessárias, documentá-las e registrá-las, orga- lisar com o caminho percorrido, as dificuldades encontradas, propostas de nizá-las e interpretá-las; continuação, o tempo que vem sendo empregado. É necessário também orien-Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 99 98 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Trata-se do necessário e imprescindível acompanhamento destas ativida- tar para a elaboração do relatório final, lembrando que há várias publicações, des escritas para que os alunos aprendam como fazê-las e possam tirar o maior com linguajar adaptado aos alunos, que dão indicações detalhadas sobre como proveito possível realizar trabalhos desse tipo. Não trará aprendizagem significativa para os alunos a atitude muito co- mum de professores que indicam um trabalho a ser feito sobre um determi- TÉCNICAS PARA QUE os ALUNOS APRENDAM A ORGANIZAR AS IDEIAS nado tema para lhe ser entregue em determinada data. Só então o professor vai tomar conhecimento desse trabalho. Nesse instante aparecem as críticas: o E AS COMUNICAR trabalho está mal feito, o aluno não sabe escrever, aluno copiou o trabalho Além de adquirir informações, com que técnicas poderemos contar para da Internet ou dos colegas, e assim por diante. Quando falamos acima da necessidade de acompanhar a realização do tra- que os alunos aprendam a organizar as ideias e as comunicar? balho solicitado, quisemos dizer que é necessário explicar para o aluno o tipo de trabalho e as diferenças entre um fichamento, um resumo, uma resenha e ADQUIRIR INFORMAÇÕES, ORGANIZAR IDEIAS E EXPRESSÁ-LAS COM assim por diante. Cada trabalho tem uma forma de ser realizado e, em geral, CLAREZA E LÓGICA. DESENVOLVER HABILIDADE DE SE COMUNICAR os alunos não conhecem estas diferenças. Cabe a nós professores explicarmos POR ESCRITO o que esperamos de cada tipo de trabalho. Quisemos dizer também que se a atividade escrita é mais demorada, como Trabalhos escritos: acontece com um trabalho mais denso e complexo ou uma monografia, há fichamento; necessidade de acompanhamento da realização de cada uma das partes desta síntese; atividade antes de se receber o trabalho final. resenha; É importante também que cada trabalho realizado receba um feedback relatório; sobre se ele foi feito corretamente ou não. Se, por acaso, acontecer esta segunda trabalho individual; alternativa, o feedback deve oferecer condições para que ele seja refeito e corri- trabalho coletivo; gido ainda durante o curso. trabalho interdisciplinar; Estes são cuidados básicos para que estas técnicas sejam eficientes para monografia. registrar, organizar e comunicar os conhecimentos adquiridos e construídos pelos alunos. Todos nós professores conhecemos em que consiste a realização destas TÉCNICAS PARA ALUNO APRENDER A DISCUTIR TEORIAS, AUTORES, formas diferentes de registro e comunicação das informações que adquirimos IDEIAS E INTERPRETAÇÕES E DESENVOLVER A PARTICIPAÇÃO e das pessoais que formamos, o que nos dispensa de descrevê-las e explicitarmos seu uso neste texto. O livro intitulado Metodologia do trabalho Nas aulas, são objetivos comuns de aprendizagem discutir diversidade de teorias, conceitos, princípios, autores, ideias e interpretações e desenvol- aborda com detalhes estes recursos. Vale a pena, porém, chamar atenção para um aspecto fundamental para o ver a participação e a capacidade dos alunos de trabalhar em grupo. Para desenvolver tais objetivos podemos utilizar de várias técnicas. bom resultado do emprego destas técnicas.100 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação... 101 possa ter avançado e aprendido mais com relação ao tema em pauta do que CONHECER DIVERSIDADE DE INTERPRETAÇÕES, TROCAR se tivesse estudado sozinho. INFORMAÇÕES, DISCUTIR os TEMAS, DESENVOLVER PARTICIPAÇÃO E b) A capacidade de discutir e debater, superando a simples justaposição de ideias. CAPACIDADE DE TRABALHAR EM EQUIPE Com efeito, para que cada um exponha suas ideias a outros e depois faça Dinâmicas de grupo: uma síntese dessas contribuições, não há necessidade de dinâmica de gru- Grupos com uma só tarefa po. É só solicitar que cada um coloque numa folha de papel suas ideias Pequenos grupos com tarefas diversas para que depois, as reunamos em um texto comum. Portanto, para Painel integrado que tenhamos um trabalho de grupo é fundamental a discussão, debate e Grupo de observação e grupo de verbalização (GOGV) chegar-se a um ponto mais avançado e significativo da aprendizagem, para Grupos de oposição Grupos para formular questões além daquele que se chegaria sozinho. Seminários c) Aprofundar a discussão de um tema, chegando a conclusões. Para isso Diálogos sucessivos -se sempre uma preparação prévia de estudo individual sobre o tema a ser Debates discutido. Se, de um lado, as experiências e os conhecimentos prévios dos alunos sobre o assunto são interessantes para o debate, uma preparação imediata com leituras indicadas pelo professor ou sugeridas pelo aluno DE com aprovação do professor é fundamental para o da dinâmica de Ao analisarmos a utilização de estratégias envolvendo um grupo de alu- grupo. A ausência dessa preparação faz com que o encontro dos grupos, nos, seja pequeno ou grande, o primeiro aspecto para o qual precisamos estar por vezes, se transforme num bate-papo sem interesse e sem perspectiva de atentos é o fato de tratar-se de técnicas para aprendizagem coletiva. O que maiores aprendizagens. Pela mesma razão é desaconselhável que se permita vale dizer: elas deverão trazer algumas vantagens diferentes das técnicas usadas ao aluno que não preparou o material participar da atividade de grupo. Ele para aprendizagens individuais e colaborar para outras aprendizagens que não poderá se aproveitar das contribuições dos outros, mas não trará a sua pró- seremos capazes de obter apenas individualmente. pria colaboração e, em geral, atua mais no sentido de dispersão do grupo. Quais são estes objetivos que poderemos desenvolver? A se o aluno não preparou o material proposto, é no sentido de a) A capacidade de estudar um problema em equipe, com a colaboração e con- que faça individualmente, em particular, durante o período da atividade tribuições dos colegas, ouvindo ideias e considerações de outras pessoas, de grupo, a fim de se encontrar apto para aproveitar a continuidade das debatendo e discutindo os vários aspectos do tema, relacionando-os com atividades. seus conhecimentos e suas experiências, ampliando seu universo intelec- d) Aumentar a flexibilidade mental mediante o reconhecimento da diversida- tual de tal forma que, ao término do trabalho em grupo, cada participante de de interpretações sobre o mesmo assunto. e) Ter oportunidade de desenvolver sua participação em grupos, sua verba- lização, seu relacionamento em equipe e sua capacidade de observação e 2 Descrição destas técnicas também se encontram em: Masetto (2003, cap. 8). crítica do desempenho grupal.102 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 103 f) Confiar na possibilidade de aprender também com os colegas (além do barro"), empreste dinamismo à dis- professor) e valorizar os feedbacks que eles podem lhe oferecer para a cussão. Sua função não é responder "As dinâmicas podem ser muito eficientes e eficazes e aprendizagem. às ou dar as respostas espe- ajudar de modo significativo g) Valorizar o trabalho em equipe, hoje uma das exigências para a atividade radas, embora possa e deva partici- a aprendizagem, a ponto de de qualquer profissional. par também como outro membro os alunos se motivarem a se qualquer do grupo; preparar anteriormente para não perdê-las." Antes de descrever algumas dinâmicas de grupo, acredito ser importante um relator que anote as manifesta- fazer ainda uma consideração: na maioria das vezes os professores "mandam" ções dos participantes, alerte quan- que os alunos façam uma atividade em grupo. Isso aconteceu no ensino fun- do as repetições se fizerem presentes, organize as ideias e as primeiras con- damental, no ensino médio e se repete no ensino superior. Em nenhum desses clusões de tal forma que facilite a elaboração de um relatório final. Toda momentos houve preocupação de que os alunos aprendessem a trabalhar em atividade de grupo deve se encerrar com um relatório que materialize o grupo, não lhes foi ensinado um conjunto mínimo de regras necessárias para trabalho e o aproveitamento do grupo quanto aos objetivos pretendidos; que um grupo possa funcionar bem. E, então, quando as atividades grupais um cronometrista para acompanhar o tempo para a atividade, não não saem a contento do professor, este é o primeiro a dizer: "É, trabalho em permitindo que a tarefa fique inconclusa por distração quanto à distri- grupo não adianta mesmo. O melhor é dar aula expositiva!". buição do tempo. Certamente conhecemos uma vasta literatura sobre dinâmicas de grupo c) Que cada participante do grupo se disponha a ouvir seu companheiro de que contém algumas regras básicas para se realizar bem a atividade grupal. Mas tal forma que suas contribuições sempre deem continuidade ao que se penso que vale a pena, nesse espaço, considerarmos ao menos algumas dessas manifestou antes, procurando levar o assunto adiante e não tomar uma regras para o bom funcionamento de um grupo: atitude de repetição do que já foi discutido anteriormente. d) Que a discussão do grupo em suas ideias principais e nas suas conclusões a) Que todos os participantes tenham muita clareza sobre qual é o objetivo de grupo seja registrada em um relatório por escrito ou em outra forma. daquela atividade em grupo; onde se pretende chegar? Para garantir tal Com efeito, esse relatório é a materialização dos resultados obtidos e clareza, sugere-se que alguém do grupo verbalize o objetivo e ele seja discu- dos avanços do grupo na discussão proposta. Quando ele não se faz tido até que se tenha um consenso sobre ele. Se houver muita dificuldade, ou "não é solicitado pelo professor", as ideias, discussões e conclusões professor deve ser chamado para explicar melhor o objetivo. Esse ponto ficam soltas no ar, o que dificulta perceber se o objetivo do grupo foi al- é fundamental para se evitar a dispersão e fato de cada aluno apresentar cançado ou não e até onde se avançou. O grupo, o professor e os colegas suas contribuições num sentido diferente do outro. dos outros grupos ficam sem este feedback, o que nos impede de avaliar b) Que se distribuam funções entre os participantes: a aprendizagem. um coordenador que esteja atento para que todos possam se manifestar e a palavra não seja monopolizada por um ou alguns dos membros do Em qualquer dinâmica de grupo, se observarmos ao menos essas poucas grupo, administre tempo dado para evitar que este se esgote e o grupo regras e as colocarmos em prática, vamos perceber, nós e os alunos, que as di- não chegue ao objetivo esperado, quando necessário corte a palavra de nâmicas podem ser muito eficientes e eficazes e ajudar de modo significativo a alguém, estimule outro a participar, evite repetições (ficar "amassando aprendizagem, a ponto de os alunos se motivarem a se preparar anteriormente104 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 105 para não perdê-las. É o que diz minha experiência de mais de 40 anos de do- os pontos teóricos centrais de cada autor ou de cada teoria; para outro grupo cência no ensino superior. se pedirá que levante experiências concretas referentes ao tema em discussão; Vamos considerar alguns exemplos de dinâmicas de grupo a seguir: a um terceiro, que entreviste especialistas sobre o assunto; a um quarto, que apresente a solução de um caso fundamentando-se nas teorias estudadas. Grupos com uma só tarefa O fechamento dessa técnica deverá trazer a plenário os aspectos diferentes que, debatidos, a compreensão do assunto e as Divide-se a classe em pequenos grupos e se atribui a cada um a mesma tarefa, cias dos alunos, facilitando um encaminhamento para aplicações concretas. por exemplo, responder a uma ou duas questões apresentadas pelo professor sobre um texto lido; estudar o mesmo caso e dar-lhe uma solução; fazer uma Painel integrado síntese de um mesmo texto, e assim por diante. Trata-se de uma forma bem simples de se começar a desenvolver com uma classe a habilidade de trabalhar Trata-se de uma técnica que favorece em muito a compreensão e o apro- em equipe. Em geral, fecha-se a atividade com a apresentação em plenário das fundamento dos estudos de um assunto e a participação dos alunos. tarefas realizadas por todos os grupos, com base nas quais os próprios alunos e Na aula anterior ao uso desta técnica, professor indica a preparação ne- o professor fazem comentários que completam as respostas, corrigem-nas ou cessária a ser feita por meio de estudo individual. ampliam-nas. A técnica se realiza em três momentos. No primeiro, divide-se a classe em Uma forma simples, mas que dinamiza uma aula, é solicitar que em seu grupos de cinco ou no máximo seis elementos. Indica-se a tarefa a ser realizada decorrer se leia um texto e formem-se duplas. Para cada uma o professor entrega e o tempo que poderá ser gasto para tanto. Por exemplo, cada grupo deverá uma pergunta a ser respondida em tempo curto, por exemplo, 10 minutos. Fin- ter lido um capítulo de um livro e agora irá fazer coletivamente um resumo do do o tempo, o professor pede que cada dupla leia a sua pergunta, responda-a e, capítulo ou responderá perguntas que o professor apresenta sobre o texto lido, em seguida, ele pode abrir para comentários do grupo todo e inclusive para sua ou resolverá uma situação-problema etc. O resultado desta atividade no grupo participação. Poderá fazer link com outras perguntas que virão, pedirá que quem deve ser anotado por todos, de modo que todos tenham em mãos um mesmo tem questão próxima ou parecida se apresente para com a devida resposta, e texto que possa ser levado a outro grupo para a continuidade do trabalho. assim por diante. Ao final de todas as respostas, a turma terá estudado o assunto Distribui-se entre os membros do grupo um número de um a cinco ou de modo mais proveitoso do que se apenas ouvisse o professor falar sobre ele. um a seis. No segundo momento reúnem-se os números um de todos os grupos, os Pequenos grupos com tarefas diversas números dois, três, quatro, cinco e seis, respectivamente, formando-se agora novos grupos com os alunos levando para esse novo grupo os textos redigidos A turma é dividida em pequenos grupos, sendo que cada um realizará uma nos grupos anteriores. atividade diferente; em geral, as atividades se completam ou se Neste segundo momento, são realizadas duas outras atividades: uma troca entrando em conflito e exigindo um debate posterior em seu de informações relatando o que aconteceu no primeiro grupo e nova discus- Por exemplo, sobre um assunto qualquer o professor apresenta dois ou três são. A troca de informações é garantida pela presença de um componente que artigos ou autores que pensam de modo diferente e pede que um grupo resuma participou da discussão do primeiro momento e trouxe para este grupo as106 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 107 conclusões do grupo anotadas. As conclusões serão explicadas e discutidas e a se encontrarem com colegas junto aos quais até esse instante não haviam até ser modificadas pelo novo grupo à luz das outras questões que lhe trabalhado e que nem conheciam. serão trazidas. A nova discussão acontece ou mediante uma nova questão apresentada pelo professor, ou como resultado dos debates sobre as questões já estudadas. Grupo de observação e grupo de verbalização (GOGV) Normalmente, o professor sugere um ponto mais amplo que possa englobar as É uma técnica que permite o desenvolvimento de várias habilidades, tais várias discussões e leve o assunto para um âmbito mais geral. O terceiro momento é o do professor. Com efeito, durante o segundo mo- como: verbalizar, ouvir, observar, dialogar, trabalhar em grupo. Seu funciona- mento, o professor se coloca em algum dos grupos reunidos e ouve, sem parti- mento exige que se formem dois círculos concêntricos, um menor, no centro, cipar da discussão, o que está sendo trazido de cada um dos grupos anteriores. com no máximo cinco pessoas. Outro maior (o restante do grupo) circundan- Deste modo, ele se informa sobre o que foi trabalhado em todos os grupos. do o primeiro. É uma técnica que pode ser mais bem usada com grupos de até De posse dessa informação, o professor decide se deve intervir e como 35 pessoas. intervir: corrigindo alguma informação incorreta, sublinhando outras, am- Convidam-se cinco voluntários para participar da atividade, e estes se pliando terceiras, debatendo pontos que ficaram obscuros. sentam no círculo do centro: grupo de verbalização (GV). A eles é dado um Para o bom funcionamento da técnica, é importante que o professor tome tema para discussão que poderá basear-se em texto indicado previamente para alguns cuidados de uma previsão adequada e um controle rígido leitura ou em experiências próprias. Terão 15 minutos para fazer a discussão do tempo de cada momento, que o tipo de discussão a ser realizado possa ser e e durante esse tempo somente os cinco discutir e deba- acompanhado igualmente por todos os participantes, que cada aluno saia do ter (verbalizar). Todos os demais estão atentos ouvindo: grupo de observação primeiro grupo com anotações sobre as conclusões que deverá levar para o (GO). Ninguém poderá intervir no debate. segundo grupo, uma vez que não se pode confiar apenas na memória. Os participantes do GV devem falar em bem alta para que todos ou- Aliás, o papel de levar informações corretas de um grupo para outro mani- çam. Caso terminem a discussão antes dos 15 minutos, avisam ao professor. festa a responsabilidade do aluno para com o trabalho em equipe. Antes de começar a atividade de grupo, o professor orientará o GO sobre Essa estratégia apresenta algumas vantagens: com relação ao desenvolvi- o que deverá observar, o que dependerá do objetivo da estratégia. Pode ser em mento do conhecimento, esta técnica cria oportunidade para que o assunto escolhido seja de oito a nove vezes e sempre em pequenos grupos, relação a um conteúdo que está sendo discutido ou sobre experiências pessoais permitindo e incentivando a participação de todos os alunos; exige a partici- que estão sendo trazidas, ou em relação a variáveis de funcionamento do próprio pação de todos, pessoal e grupal, e desenvolve a responsabilidade pelo pro- grupo. todos observar os mesmos aspectos ou dividir aspectos a serem cesso de aprendizagem próprio e do colega; é uma técnica que pode ser usada observados por pequenos grupos de cinco ou seis alunos que estão no GO. Esta com classes pequenas e com classes numerosas, sempre serão cinco ou seis alternativa parece ser a melhor para manter os membros do GO atentos. alunos trabalhando em grupo; o professor, acompanhando qualquer grupo Exemplos de aspectos a serem observados: se o GV está usando todos os do segundo momento, saberá o que está sendo informado em todos os grupos conceitos do texto lido; se há emprego adequado dos conceitos; se estão rela- e poderá completar, corrigir ou aperfeiçoar; é uma forma de naturalmente se cionando os novos conceitos com conceitos já aprendidos; se as experiências quebrarem "as panelas" existentes nas turmas, levando aleatoriamente os alunos são semelhantes ou não; se todos os participantes têm oportunidade de falar;108 Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 109 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE se o grupo procura se organizar em relação à tarefa solicitada; se o grupo segue entre os grupos. O professor não deverá entrar na discussão do tema. Seu papel as mínimas regras de funcionamento de um grupo; e assim por diante. é apenas mediar, dinamizar ou organizar a discussão quando necessário. Durante o debate, o professor poderá inverter as posições dos grupos, Passados os 15 minutos, o GV passa a ser um GO e o GO passa a ser um visando desenvolver maior agilidade de argumentação. Poderá pedir que o GV. Inicialmente, somente os alunos que participaram do GO podem verba- lizar, apresentando as diferentes observações feitas e, depois, o professor pode grupo que ataca uma posição passe a defendê-la; e o que a defende, passe a atacá-la. A intenção é ver como os alunos reagem em posições inversas. abrir para um diálogo entre os dois grupos sobre as observações feitas. Ao final, o professor e/ou o corpo de jurados se manifestará(ão) sobre os Em seguida, pode-se repetir, na mesma aula ou em outra, a mesma técnica argumentos apresentados e sobre qual grupo atuou melhor no debate. Por fim, GVGO com outros elementos para se verificar se a aprendizagem das habili- o que se conclui do debate realizado. dades esperadas foi alcançada por outros também. A maior preocupação do professor é mediar para que o debate se faça apenas em cima de argumentos, impedindo que expressões de "achômetro" Grupos de oposição aconteçam ou provocações agressivas sem fundamentação criem um clima de ataque e defesa, que não a desenvolver o debate esperado. Essa técnica, de modo especial, é apropriada para desenvolver a capacidade Com essa técnica, o professor está lidando com a competição entre grupos de argumentar, de debater, de analisar e avaliar argumentação, contrapropor de classe. Será preciso, então, refletir se isso será ou não prejudicial para a dinâ- argumentos, defender ou atacar determinadas posições e teorias, sempre com mica da turma, tendo em vista manter um clima de abertura e de cooperação base em argumentos. dentro dela. Seu funcionamento supõe a organização de pelo menos dois grupos de alunos, sendo que um deles tem por tarefa defender uma ideia ou encontrar as Grupos para formular questões suas vantagens, enquanto outro deverá atacar a mesma ideia ou mostrar suas desvantagens. Eventualmente poderá se constituir um terceiro pequeno grupo Essa técnica é uma das mais dinâmicas para ser usada em aula e agrega em que funcione como um grupo de juízes para julgar qual grupo conseguiu de- si a possibilidade de desenvolver vários aspectos de aprendizagem: aprofunda- sempenhar melhor seu papel. mento de conhecimentos, compreensão do assunto, habilidade de trabalhar O assunto indicado anteriormente foi por todos de modo indivi- em grupo, ouvir e dialogar com colegas, aprender com colegas. dual, e conforme seus papéis na técnica foram preparados argumentos a serem Como funciona? Uma semana antes indica-se um texto a ser lido para debatidos. o próximo encontro sobre um assunto que se está estudando. A leitura, po- Num primeiro momento, em aula, cada grupo se reúne para organizar rém, deverá permitir que cada aluno traga para a aula duas ou três perguntas seus argumentos de acordo com a tarefa que lhe cabe. Marca-se um tempo inteligentes, isto é, perguntas que revelem dúvidas ou não compreensão do para essa atividade: 20 a 30 minutos. Terminado o prazo, o professor pede que texto, aspectos importantes que se gostaria de ver estudados com mais pro- os dois ou três grupos se coloquem na sala de tal forma que todos vejam todos, fundidade, temas de grande atualidade. É evidente que não serão aceitas per- todos possam se olhar. O professor ocupa o lugar do mediador. Inicia o debate guntas que se retirem diretamente do texto e cujas respostas aí se encontrem dando a palavra a um dos grupos e, a partir desse momento, vale o diálogo com facilidade.111 Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: 110 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE O seminário (cuja etimologia está ligada a semente, sementeira, vida No dia da aula, formam-se grupos com cinco alunos cada um. Durante 15 nova, ideias novas) é uma técnica riquíssima de aprendizagem que permite minutos, o grupo deverá compreender as 10 ou, no máximo, 15 perguntas aluno desenvolver sua capacidade de pesquisa, de produção de conhe- e selecionar duas. Estas duas poderão ser dentre as 10 ou 15 ou poderão ser cimento, ao de comunicação, de organização e fundamentação de ideias, de duas novas formuladas pelo grupo usando sugestões das perguntas que trouxe- elaboração de relatório de pesquisa, de fazer inferências e produzir conheci- ram de casa. Essas perguntas deverão ser escritas em uma folha de papel sulfite, com letra legível e com o nome do grupo que as formulou. mento em equipe, de forma coletiva. Ele envolve professor (professores) e alunos num trabalho de pesquisa por Inicia-se uma de várias rodadas: o grupo que formulou as duas perguntas, sem as responder, passa-as para o grupo mais próximo, e assim também os demais dois ou três meses. Como funciona? Em duas partes. A primeira delas corresponde ao ensino com grupos. Dá-se um tempo de 15 minutos para que o grupo responda por escrito as duas perguntas que recebeu. Em seguida, as perguntas respondidas são passadas pesquisa, que já descrevemos. Ou seja, no primeiro momento usa-se a técnica do para o grupo seguinte. Este terá 10 minutos para: ler as perguntas, ensino com pesquisa até a comunicação final dos resultados de cada grupo. -las, ler as respostas que o primeiro grupo deu e redigir sua resposta, que poderá A segunda parte consiste no seguinte: os assuntos de pesquisa que foram estar de acordo com a resposta do primeiro grupo, poderá complementá-la ou distribuídos pelos diferentes grupos guardam entre si uma relação de comple- corrigi-la. Tudo isso sem rabiscar a resposta do primeiro grupo, mas escrevendo mentação ou de crítica, que não aparece à primeira vista. professor, então, na mesma folha, em seguida. Passa-se para um terceiro e, no máximo, para um estabelece um tema para o seminário, que diretamente não foi pesquisado por quarto grupo, que farão o mesmo trabalho, dentro do mesmo tempo. grupo algum, mas para cujo debate encontram-se ideias e informações nos Terminadas as rodadas, a folha com as perguntas e as respostas dos três ou vários grupos de pesquisa. quatro grupos é devolvida ao grupo original que as formulou. Este vai agora Orienta os diferentes grupos informando que não se trata de uma ativi- analisar as respostas dos grupos e, então, redigir a sua resposta, que poderá dade em que cada um vai apresentar um resumo de sua pesquisa, mas de se também concordar ou não com as dos demais grupos. retirar das pesquisas os elementos necessários para a discussão do novo tema. Por último, em plenário, cada grupo as perguntas e as respostas, permitin- E, portanto, os diferentes grupos devem se preparar para isso. do esclarecimentos possíveis, complementações por parte do professor, debate Indicado o tema, todos os grupos terão uma semana para encontrarem e até um comentário do professor sobre a pertinência das perguntas: foram elas em seus relatórios de pesquisa elementos que contribuam para a discussão do de fato inteligentes? Representaram os aspectos mais importantes do texto e do assunto apresentado. Marca-se o dia do seminário. tema? Se não, caberá ao professor então mostrar os pontos não trabalhados. Por ocasião da realização do seminário, o professor aleatoriamente escolhe um elemento de cada grupo de pesquisa formando com eles uma mesa-redonda. Os demais assistirão ao debate, podendo participar pedindo a palavra ao co- Seminários ordenador. Aberta a discussão, cada participante expõe os dados e as informações que Essa é uma técnica das mais comuns no vocabulário de professores de ensi- sua pesquisa oferece para o desenvolvimento daquele tema. no superior ou de alunos. Dá-se essa denominação até para resumo de capítulos debate se instalará, o professor mediará, coordenando as manifestações em de livro feito pelos alunos e apresentado para seus colegas em aula, enquanto, direção a responder a temática proposta, apresentando questões a serem debatidas, muitas vezes, o assiste sem interferir. Claro que isso não é um garantindo e incentivando a participação de todos, abrindo possibilidades de par- seminário, nem arremedo de seminário.112 Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: 113 o PROFESSOR NA HORA DA VERDADE ticipação também para os ouvintes e conduzindo os trabalhos de tal forma que no aprendizagem significativa, aprendizagem continuada, aprendizagem de adultos, tempo previsto se chegue a discutir e aprender um tema novo com base nos grupos papel do professor. Esses assuntos já foram abordados, mas queremos fixá-los. de pesquisa. resultado desta mesa-redonda poderia ser um novo texto produzido Então, distribuem-se três conceitos para os alunos do círculo externo e três pelos alunos com a coordenação do professor sobre esse novo assunto. para os que se encontram no círculo interno. O giro dos círculos se inicia de tal Então, sim, teremos realizado um seminário. Nesses moldes, chegaria a forma que todos com os aspectos de forma cumulativa. afirmar que, mesmo em cursos de o uso dessa técnica é por É uma técnica que pode funcionar com turmas grandes e pequenas, porque demais reduzido. os participantes no máximo, com quatro ou cinco colegas e cumula- Como disse anteriormente, é uma excelente técnica quando bem compreen- tivamente ouvir até oito ou nove colegas sobre o tema. dida e adequadamente realizada. Por isso, vale a pena conhecê-la, praticá-la e permitir que nossos alunos a descubram também. Debates O objetivo principal dessa técnica é permitir ao aluno expressar-se em Diálogos sucessivos público, diante de toda a turma, apresentando suas ideias, suas suas Esta técnica é mais apropriada para compreender, fixar e relacionar concei- experiências e vivências, ouvir os outros, dialogar, respeitar diferen- tos; explicitar características de uma teoria, discutir etapas de um projeto, passos tes da sua, argumentar e defender suas próprias posições. Permitir ao aluno valorizar o trabalho de grupo, percebendo como a discussão entre as de uma pesquisa, cenas de um filme, aspectos de um vídeo, e assim por Como funciona? Organiza-se a classe em dois círculos concêntricos: me- experiências de todos são mais ricas do que as de uma só pessoa. tade dos alunos na parte de fora e outra metade na parte interna voltados uns Há alguns pressupostos básicos para o funcionamento dessa técnica: para os outros (de frente um para o outro), formando pares. círculo de professor deve dominar bem o assunto sobre o qual se dará o debate; tema indicado pelo professor deverá ser preparado pelos participan- dentro girará em sentido anti-horário. tes do debate com leituras e pesquisas anteriores, trazendo o material Os dois alunos que se encontram frente a frente um do outro apresentam ao seu colega um conceito bem específico a ser compreendido e fixado. preparado para a discussão; Passados 4 minutos, trocam-se os pares com o giro do círculo interno. Os O professor deverá garantir a participação de todos, evitando o mono- novos pares seus conceitos e aqueles que ouviram de seus parcei- pólio das intervenções por parte de alguns apenas. Todos ter ros anteriores, agora oportunidade para fazer uso da palavra. Inclusive, o próprio professor Por três ou quatro vezes se repete este movimento até que o professor precisará se policiar para não interferir a todo instante e com grande entenda que o objetivo da técnica foi atingido. tempo de mesmo que seja para resolver mais rapidamen- movimento leva a um conhecimento cumulativo e/ou a formas melho- te a questão apresentada. Esse comportamento pode comprometer os res de expressar a mesma ideia. objetivos da própria estratégia. Como realizar essa técnica? Talvez seja necessário um exemplo para explicar melhor esta técnica. Vamos professor, em data anterior ao debate, escolhe um tema, sugere lei- turas e bibliografia básica e orienta para que se estude o assunto e se supor que nosso tema fosse processo de aprendizagem. Quais elementos precisa- riam ser bem compreendidos e fixados? Conceitos de aprendizagem, de ensino, façam anotações.114 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 115 No dia do debate, o professor ocupará o papel de mediador, abre o tema, Em geral, os professores a usam para transmitir e explicar informações fixa um tempo para a atividade e passa a palavra aos participantes. aos alunos. Estes têm uma atitude de ouvir, anotar, por vezes perguntar, Daí para a frente procurará garantir a palavra a todos para fazer mas, em geral, de absorvê-las para reproduzir futuramente. Essa atitude do mentários, apresentar levantar dúvidas de compreensão do aluno, com frequência, o coloca em uma situação passiva de receber e em assunto, formular perguntas, complementar comentário do colega, e condição que em muito favorece a apatia, a desatenção e o desinteresse pelo assim por diante. assunto. O coordenador do grupo estará atento para contornar Por tais vale a pena recordar que a aula expositiva pode responder trazer o grupo de volta ao tema central sempre que houver a três objetivos: abrir um tema de estudo; fazer uma síntese após o estudo do administrar tempo e orientar para que, ao final do debate, se possa assunto procurando reunir os pontos mais significativos; comunicar chegar a algumas conclusões para seu fechamento e para as questões não cias e estabelecer comunicações que tragam atualidade ao tema ou explicações ficarem no ar. necessárias. A técnica em geral é bem-sucedida com pequenos grupos. Apresenta Abrir um tema de estudo. Por vezes é importante que, ao se iniciar um tema, maior dificuldade quando realizada com grandes grupos. Nessa situação, o professor apresente um cenário bem amplo em que se coloca a importância, a sugiro o emprego de outra técnica, por exemplo, o painel integrado. atualidade do estudo a ser feito, bem como suas relações com outros assuntos, matérias do curso, com o exercício profissional. TÉCNICAS PARA COMUNICAR INFORMAÇÃO, MOTIVAR PARA UM Essa preleção pode servir para motivar os alunos ao estudo do tema, dar ASSUNTO, INTRODUZIR OU SINTETIZAR UM TEMA vida a um conteúdo que pode parecer frio e desinteressante e orientar a reali- zação do estudo propriamente dito do tema, para o que se utilizará de outras técnicas, por exemplo, atividades de grupo ou individuais, de pesquisa ou de Aula expositiva Painel leituras etc. Simpósio Fazer uma do assunto Quando um estudo é realizado por Conferência diversos grupos ou é resultado de contato com especialistas, ou apresenta vários aspectos que precisam ser considerados, mas que de alguma forma se perderam durante uma discussão ou um debate, ou não ficaram suficiente- mente claros, é interessante uma aula expositiva para recuperar esses aspectos Aula expositiva de modo sintético. Observe-se, porém, que não se trata de repetir todas as informações Trata-se de uma técnica que a maioria absoluta dos professores do ensino estudadas, mas de fazer uma síntese conclusiva sobre o tema. Isso deman- superior usa frequentemente. dará o tempo de aproximadamente 20 minutos; será interessante porque Como toda e qualquer técnica, sua escolha deverá se orientar pelos crité- os alunos já dominam o assunto, bem como possibilitará ver a síntese feita rios básicos de seleção: adequação ao objetivo de aprendizagem pretendido e eficiência para colaborar na consecução deste. pelo professor. Comunicar experiências e estabelecer comunicações que tragam atualidade ao tema ou explicações necessárias. O professor pode enriquecer o assunto com suas116 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: identificação.. 117 experiências pessoais e profissionais, expor recentes descobertas ou novas preparar uma notícia de jornal ou revista atual que poderá usar em teorias, atualizando o conhecimento existente nos livros-texto ou em publi- determinado momento para chamar a atenção dos alunos; um exem- cações acessíveis ao aluno. Pela preleção, o professor pode transmitir ao aluno plo ou caso bem adaptado ao que expõe; perguntas para formular aos explicações sobre os pontos difíceis, ressaltar aqueles mais importantes e sin- alunos durante a explanação a fim de ativar a participação ou atenção tetizar informações de difícil acesso aos alunos ou colhidas em fontes diversas, dos alunos; preparar uma piada ou um caso hilariante para alegrar e tais como pesquisas, jornais, revistas etc. minimizar a tensão durante a fala; Por que descartei dos objetivos da aula expositiva a transmissão cotidiana e se for usar slides ou transparências, prepará-los apenas com imagens, contínua de informações ao aluno? Por uma razão: as informações básicas e fun- tabelas, gráficos ou itens indicativos e nunca com textos longos para damentais para a aprendizagem do aluno, em geral, encontram-se em fontes serem lidos durante o tempo todo. Quanto a slides, calcular muito bem acessíveis a ele: livros-texto, livros e revistas em bibliotecas, Internet. o número a ser usado, poucos, bem escolhidos, que ajudem na expli- Se o aluno for incentivado a buscar as informações, ele conhecerá a biblio- cação ou permitam o debate e a Nunca usar um número teca, aprenderá a fazer uso dela, a buscar informações, o que lhe será útil para excessivo que praticamente substitua a aula expositiva; o resto de sua vida; aprenderá a ler e compreender o que os autores escrevem e preparar com antecedência os materiais e os recursos necessários para resolver as dúvidas; ou mesmo aprenderá a ler livros de sua área; desenvolverá a aula e verificar se, no espaço físico em que a aula será dada, há con- mais o raciocínio e a capacidade de pensar e trazer sua contribuição. Aprenderá dições para o uso dos recursos. Nada mais frustrante para o professor a ser mais ativo em seu processo de aprendizagem e a valorizar mais o encontro e para o aluno do que chegar a uma sala com tudo preparado para a com o professor e com os seus colegas, uma vez que tais encontros se aula e o recinto não se mostrar apropriado, até por vezes pela própria essenciais para a compreensão total do assunto. iluminação natural que impede o uso de recursos audiovisuais. Para incentivar o aluno a buscar informações, há que se trabalhar de forma diferente com a leitura fora de aula e o uso de técnicas dinâmicas em aula, Ao se dar aula expositiva propriamente dita, observar alguns pontos: como já o consideramos. No entanto, quando o professor for usar a aula expositiva como técnica, deixar bastante claro para os alunos qual é o objetivo daquela aula; é preciso que se lembre de algumas medidas indispensáveis para prepará-la e procurar ganhar a atenção dos alunos de início, mediante a apresenta- ministrá-la. ção de um problema, de uma pergunta ou de um desafio; Na preparação da aula expositiva: considerar o ritmo da classe para tomar notas, refletir sobre o que está ter claro o objetivo da aula, conforme explicamos; ouvindo, fazer perguntas, apresentar os pontos difíceis mais devagar planejar a sequência em que fará a explanação, para garantir que haja ou repetindo o mesmo conceito ou ideia sob diferentes formas, e, por clareza e sequência nas ideias, sem cair em digressões; vezes, permitir pausas rápidas para uma comunicação entre os próprios considerar que há limite de tempo, para não cansar os alunos e favore- alunos; cer a divagação; dirigir-se pessoalmente aos alunos, pedindo a eles um feedback sobre considerar a classe para quem vai se dirigir, escolhendo linguagem, a clareza do que está expondo, olhando-os nos olhos um a um e, para exemplos etc., de acordo com os alunos; isso, locomover-se pela sala, comunicar-se com os alunos;118 Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: 119 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE utilizar-se livremente de recursos auxiliares à palavra para se fazer en- Simpósio tender ou para manter o interesse e a atenção dos alunos; mantendo- Esta técnica também supõe participação de especialistas em determinados as- -os, porém, na categoria de "recursos" e não de elementos principais; suntos ou temas. A diferença em relação ao painel é que nesta técnica cada parti- evitar considerar as distrações dos alunos afronta pessoal ou desres- cipante traz sua contribuição para a discussão do tema de forma complementar. peito; em vez disso, utilizar esses indícios para reorientar sua própria Cada especialista vem somar à discussão com contribuições próprias que se comple- exposição: é o momento de uma pergunta à classe ou de se comentar tam. Trata-se de verdadeira troca de informações complementares sobre um tema. uma notícia de jornal, ou mesmo, de contar uma piada ou de abrir Os itens com relação aos participantes e quanto à participação dos alunos uma janela para conseguir mais ventilação. Afinal, a aula expositiva são os mesmos indicados para o painel. exige do aluno uma posição passiva, nem sempre fácil de se manter. Conferência Painel Também chamada de palestra, trata-se de uma técnica que supõe o convite Painel ou mesa-redonda é uma técnica que supõe participação de espe- a um especialista de fora da disciplina, que poderá ser de outra instituição ou cialistas em determinados assuntos ou temas em cuja discussão eles mantêm de outras disciplinas daquele curso para que aborde, dentro de sua especialida- posições diferentes e mesmo antagônicas. de um determinado tema. Os participantes do painel tanto podem ser de fora da instituição como Uma das vantagens é quebrar a rotina e os alunos poderem ouvir e discutir de dentro dela ou do mesmo curso. Os próprios professores do curso podem com outro professor que não o da própria disciplina. compor essa mesa-redonda, uma vez que é bem possível que em assuntos po- A preparação dos alunos para participarem dessa conferência é semelhante lêmicos tenham posições contrárias. a que indicamos para o painel e para o simpósio. O painel será coordenado pelo professor da disciplina, que, juntamente Quanto ao conferencista, para preparar sua apresentação, sugerimos con- com os painelistas, combinam as regras do funcionamento da mesa-redonda. siderar os vários aspectos que indicamos anteriormente para preparação e rea- Para que a participação dos alunos seja proveitosa é importante que se lização de uma aula expositiva. preparem para esta atividade. Como? Antes de participar do painel, os alunos precisam ler, estudar e debater sobre o tema e suas várias compreensões e interpretações, colocando-se RECURSOS a par dele. O próximo quadro tem por objetivo apenas fazer uma indicação de vários Antes de participar do painel, levantar com os alunos algumas questões recursos que podemos usar para que as técnicas funcionem adequadamente. e perguntas que lhes pareçam interessantes para apresentarem aos de- São muito conhecidos e não há necessidade de nos determos em suas explica- batedores. ções, apenas perceber a diferença entre técnicas (métodos) e recursos (meios) Ao final do debate, incentivar os alunos a apresentar perguntas e ideias para os debatedores. para que as técnicas possam alcançar os resultados esperados.120 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE Capítulo 6 Aula presencial na universidade com apoio de técnicas pedagógicas: 121 laboratório a aprendizagem sobre amálgamas para oclusão de cáries dentárias RECURSOS levasse aos alunos a seguinte questão: o melhor amálgama que a ciência e a tecnologia encontraram é composto de materiais importados e de alto custo. Vídeos, filmes, imagens, músicas, fotos Na população brasileira, o percentual de pessoas com cárie está em torno de Multimídia e eletrônicos (máquinas de calcular, GPS, iPod, iPhone etc.) É possível usarmos esse amálgama para atendimento a essa população? Material concreto para desenho, para maquetes A resposta dos alunos foi: "Não". Retroprojetor, projetor multimidiático Continuou o professor: "E o que faremos?". Ao final do debate chegaram Lousa, bússola, rochas, tabelas, equipamentos diversos à conclusão de que, como responsáveis pela saúde bucal da população brasilei- Livros didáticos e paradidáticos, esquemas ra, deveriam voltar ao laboratório e pesquisar para encontrar outro amálgama Textos complementares, poesias que atendesse às exigências de ótima oclusão da cárie, mas com preço acessível à população brasileira. TÉCNICAS PARA PROMOVER DESENVOLVIMENTO DE ATITUDES E Vamos considerar algumas técnicas que permitam o desenvolvimento de atitudes e valores para nossos alunos. VALORES Desenvolver a aprendizagem de atitudes e valores é fundamental para a TÉCNICAS PARA PROMOVER DESENVOLVIMENTO DE ATITUDES E VALORES formação dos profissionais em nossa sociedade, como já o Em geral, os cursos de graduação em suas grades horárias de um Estudo de caso real ou simulado; semestre em que se colocam aulas de ética profissional. Quase sempre estas Debate sobre valores incluídos em decisões profissionais e aulas são ministradas no último ou penúltimo semestre. Tratam-se temas tecnológicas; abrangentes e muito genéricos. Debate sobre valores presentes em fatos e acontecimentos que envolvem a sociedade no cotidiano; Defendemos que valores como ética, política, cultura, crenças, responsabi- Debate sobre atitudes éticas no exercício da profissão; lidade social, meio ambiente, responsabilidade profissional para melhoria das Trabalhos monográficos. condições de vida da população precisam ser aprendidos em todas as discipli- nas de qualquer curso de graduação, pois nelas aprendemos a tomar decisões científicas e tecnológicas atuais e permanentes. Estas técnicas se resumem em três técnicas que já foram apresentadas e Estas decisões sempre envolvem valores humanos, ambientais, sociais, polí- discutidas: o estudo de caso, o debate e o trabalho monográfico. ticos, éticos, culturais, de crenças religiosas e que precisam ter espaço para serem Elas abrir espaço para que nossos alunos possam aprender a in- debatidos e discutidos, pois eles interferem sim em nossas decisões profissionais. cluir a análise de valores quando de suas profissionais e tecnológicas. E esta discussão precisa ser feita nas disciplinas que estão sendo A condução destas técnicas, em geral, segue as orientações dadas quando com os professores titulares dessas disciplinas. Pretendemos formar não só o de seu estudo, acrescentando-se as peculiaridades de que se quer promover profissional competente, mas o cidadão aprendizagem de valores e atitudes, o que quer dizer que, nos casos estudados Foi esta visão que fez com que um professor de odontologia, numa situa- e nos debates organizados, sempre devem haver valores a serem considerados ção que narrei anteriormente neste livro, que trabalhava com seus alunos no nas soluções que são apresentadas.122 PROFESSOR NA HORA DA VERDADE SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS PARA o TEMA DO CAPÍTULO ANASTASIOU, Léa das Graças Camargo; ALVES, Leonir Pessate. Processos de ensinagem na universidade: pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. Joinville: Uni- ville, 2003. BEHRENS, Marilda Aparecida. Paradigma da complexidade: metodologia de projetos, contratos didáticos e portfólios. Petrópolis: Vozes, 2006. BERBEL, Neusi Aparecida Navas; GIANNASI, Maria Júlia (Org.). Metodologia da problema- tização aplicada em curso de educação continuada e a Londrina: UEL, 1999. BERBEL, Neusi Aparecida Navas (Org.). Metodologia da problematização: experiências com de ensino superior, ensino médio e clínica. Londrina: UEL, 1998. CASTANHO, Sérgio; CASTANHO, Maria Eugênia (Org.). Temas e textos em metodolo- gia do ensino superior. Campinas: Papirus, 2001. CUNHA, Maria Isabel da. Pedagogia energias emancipatórias em tempos neoliberais. Araraquara: Junqueira & Marin, 2006. CUNHA, Maria Isabel da (Org.) Reflexões e práticas em pedagogia universitária. Campi- nas: Papirus, 2007. LOWMAN, Joseph. Dominando as técnicas de ensino. São Paulo: Atlas, 2004. MALUSÁ, Silvana; FELTRAN, Regina Célia de Santis (Org.) A prática da docência uni- versitária. São Paulo: Factash, 2003. MARQUES, Heitor Romero. Metodologia do ensino superior. Campo Grande: UCDB, 2005. MARZANO, Robert; PICKERING, Debra; POLLOK, ensino que funciona: estratégias baseadas em evidências para melhorar o desempenho dos alunos. Porto Alegre: Artmed, 2008. RANGEL, Mary. Métodos de ensino para aprendizagem e dinamização das aulas. Campi- nas: Papirus, 2005. TORRE, Saturnino de La; BARRIOS, Oscar. Curso de formação para educadores. São Paulo: Madras, ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998. ZANCHET, Beatriz Maria B. A.; GHIGGI, Gomercindo (Org.). Práticas inovadoras na aula possibilidades, desafios e perspectivas. São Luís: Edufma, 2009.