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1 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 2 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 3 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Núcleo de Educação a Distância GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO Diagramação: Rhanya Vitória M. R. Cupertino PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira. O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho. O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem. 4 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Prezado(a) Pós-Graduando(a), Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional! Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as suas expectativas. A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra- dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a ascensão social e econômica da população de um país. Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida- de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos. Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas pessoais e profissionais. Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi- ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atu- ação no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe- rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de ensino. E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a) nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial. Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos conhecimentos. Um abraço, Grupo Prominas - Educação e Tecnologia 5 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 6 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo- sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve- rança, disciplina e organização. Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho. Estude bastante e um grande abraço! Professora: Fabiana Miraz de Freitas Grecco 7 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc- nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela conhecimento. Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in- formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao seu sucesso profissional. 8 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Esta unidade tem como propósito discutir o processo de forma- ção do pensamento político brasileiro, que será conduzido de maneira cronológica e temática, acompanhando suas diferentes interpretações, seus estudiosos e obras fundamentais. Para tanto, os argumentos visam elucidar os princípios do pensamento político brasileiro iniciado no século XIX, chegando até o momento em que o campo se torna uma disciplina acadêmica nas universidades brasileiras, na segunda metade do sécu- lo XX. Essa trajetória é uma dentre várias possíveis ao se investigar e buscar compreender a formação do pensamento político brasileiro, des- tacando algumas das ideias e temas caros ao funcionamento do campo político no Brasil, com forte peso no caráter reformista e elitista, promo- vedor de mudanças pactuadas e autoritárias, que mantiveram as classes populares alijadas de seus direitos básicos de cidadania. Pensamento Político; Reformismo; Autoritarismo; Nacionalismo; Modernização. 9 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 01 ORIGENS DO PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO Apresentação do Módulo ______________________________________ 11 14 19 O Surgimento De Um Pensamento Político No Brasil: José Boni- fácio __________________________________________________________ Joaquim Nabuco E A Geração De 1870 _________________________ CAPÍTULO 02 A EFERVESCENTE DÉCADA DE 1920 Pensamento Autoritário: Oliveira Viana _______________________ O Movimento Modernista ________________________________________ Recapitulando _________________________________________________ 37 40 46 24Entre Monarquia E República: Euclides Da Cunha ______________ Recapitulando _________________________________________________ 30 CAPÍTULO 03 A ERA VARGAS E OS INTÉRPRETES DO BRASIL Nacionalismo E Intérpretes Do Brasil __________________________ Populismo _____________________________________________________ 52 O Pensamento De Esquerda No Brasil __________________________ 42 Recapitulando _________________________________________________ 64 Trabalhismo ___________________________________________________ 60 59 10 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S O Nacional-Desenvolvimentismo: O Iseb E Celso Furtado ________ O Pensamento Político Brasileiro Durante A Ditadura Militar ______ 70 73 Recapitulando __________________________________________________ 77 Considerações Finais __________________________________________ Fechando a Unidade ____________________________________________ 82 85 CAPÍTULO 04 DO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO À MODERNIZAÇÃO AUTORI- TÁRIA Referências _____________________________________________________ 89 11 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Para que seja possível acompanhar o desenvolvimento do pen- samento político brasileiro, nos termos determinados acima, será profí- cuo historiar o seu curso, descrevendo as suas constantes e diversas interpretações, conjuntamente à veiculação de seus autores e obras ba- silares. De acordo com Christian Edward Cyril Lynch, apesar do reduzido número de escritos, existe um cânone dos “clássicos” do pensamento político brasileiro, que pode ser examinado de acordo com a divisão entre “teoria da velha ciência política brasileira” e a “nova”. (LYNCH, 2016). Designada por “velha ciência política brasileira”, são todas as obras consideradas canônicas e que pretenderam, desde as interven- ções parlamentares do Visconde de Uruguai, registrar as ideias políticas e seus debates no âmbitoligado ao passado (FAUSTO, 2001, p. 8). Indicação Bibliográfica: FAUSTO, Boris. O Pensamento Nacio- nalista Autoritário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 38 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Todavia, nasce, em 1920, uma crítica ao liberalismo republica- no, que exibe uma proposta alternativa, de caráter social, como dimen- são política. A partir dessa crítica origina-se uma interpretação baseada no fato de que esse liberalismo importado não consegue abarcar a rea- lidade brasileira. Nesse contexto se dá o êxito do já referido Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna, editado por Monteiro Lobato, o que lhe abriu as portas para o mundo editorial, publicado em 1920. Oliveira Vianna denunciará o que ele mesmo chamava de “erro grosseiro” da “importação de ideias e instituições políticas”, visando uma solução específica para o caso brasileiro. Desse modo, os políticos e intelectuais autoritários intentaram demonstrar a ausência, no Brasil, de condições propícias à implementação de um regime democrático, propondo uma revisão completa das instituições políticas, focalizando na centralização da capacidade de forjar uma nacionalidade sólida. Vianna recorre às teorias positivistas de Hippolyte Taine, e até certo ponto deterministas, que via no recorte nacional o campo de ob- servação e análise do meio físico e do componente humano como auto- ridade legítima e centra-se na heterogeneidade populacional, juntamen- te com outros intelectuais de sua época como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Alberto Torres, frisando a importância das diferenças regio- nais. Lança mão, também, do “método monográfico”, do francês Pier- re-Guillaume-Frédéric Le Play, que consistia em destacar as diferenças entre os povos e os grupos humanos. Aos intelectuais que dedicavam- -se a esse método, designavam-se antropogeografistas, e buscavam o que distinguia um povo de outro. Os resultados das pesquisas antropogeográficas de Vianna, sublinharam como o meio físico-geográfico, as atividades profissionais e o meio cultural agiam sobre as pessoas. No cerne de sua tese sobre as identidades nacionais está a cientificidade da noção de determina- ção, que leva em conta três variantes: a raça, o meio físico e social e a história. A partir desse conceito, propõe conhecer a psique de um povo para poder se elaborar códigos políticos. Dentre as preocupações de Oliveira Vianna com o projeto de Brasil que se desenhava, havia a preocupação em realçar a especifici- dade da distribuição do poder no interior da sociedade, com a finalidade de recuperar a trajetória do período colonial, onde o poder local, aquele presente e exercido dentro da propriedade rural, em laços quase “feu- dais” e cuja relação de dependência atava os laços entre as classes subalternas e os senhores. 39 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S De acordo com o cientista político Bernardo Ricupero, a produ- ção de interpretações do Brasil, na forma específica dos ensaios, apa- rece com Oliveira Viana e Populações Meridionais do Brasil, na déca- da de 1920. O site interpretesdobrasil.org apresenta de forma didática as biografias de autores importantes que participaram da formação do pensamento político e social brasileiro e comentários sucintos de suas respectivas principais obras. Acesse o link: http://www.interpretesdobrasil.org/ A observação da dependência do poder local, centrado no grande proprietário rural, constituiu um viés de preocupação do pensamento políti- co brasileiro, que terá a dedicação de importantes ensaístas nas décadas seguintes, como Nestor Duarte, em Ordem privada e a organização política nacional (1939) e, principalmente, Victor Nunes Leal, com Coronelismo, enxada e voto (1948) que, com apuro conceitual e livre do determinismo de Vianna, analisou um ponto ainda hoje crucial do pensamento político bra- sileiro: o poder político dos grandes proprietários rurais nas políticas local e regional. Sua leitura ainda hoje instiga questões sobre o peso do mundo agrário na estrutura do estado e dos governos no Brasil. Além da questão de escalas local x nacional, as primeiras dé- cadas do século XX abriram o debate entre as dimensões espaciais rural x urbano, centro x periferia, litoral x sertão, cujas obras de Oliveira Vianna e outros subsidiaram tensões. Desde a década de 1910, milita- res, intelectuais e a classe média das grandes cidades mostravam sua insatisfação com relação ao modelo político das oligarquias, que impli- cava no enfraquecimento da União, no desenvolvimento da sociedade e da economia do Brasil, além de reforçar o embate entre uma sociedade urbanizada e outra rural. As disputas eleitorais e articulações políticas entre candidatos dessa oligarquia não mudavam a direção centraliza- dora e sua essência liberal. No entanto, é com o fim da Primeira Guerra Mundial que se dará a crise desse regime. Ainda nos anos 1920, houve uma manifestação maciça dos tenentes em todo o país, que declaravam seu ódio às oligarquias. Em 1924 uniram-se as colunas de tenentes vindos de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, que estavam decididos a percorrer o Brasil propa- gando as ideias de revolução, causando o levante popular contra as oligarquias dominantes. Dessa forma, nasce a Coluna Prestes, liderada 40 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S pelo capitão Luís Carlos Prestes. A Coluna Prestes percorreu mais de 24 mil quilômetros pelo interior do país. As revoltas tenentistas dirigiam- -se contra o que chamavam de “vinte feudos”, que tinham por senhores aqueles que eram escolhidos pela política dominante. Entre as críticas rigorosas ligadas às disputas eleitorais,envolven- do as oligarquias ou a insatisfação dos quartéis, a primeira república trouxe à luz um novo e contundente ator no campo político e, obviamente, social: o movimento operário. Sob viés autoritário, que perpassava parte da intelec- tualidade dos políticos e da sociedade, as demandas sociais sofriam gran- des e violentas reprimendas, quando não a repressão policial mais dura. O Movimento Modernista Durante o desenrolar da Primeira Guerra Mundial a classe ope- rária e os movimentos sindicais cresceram e houve um período impor- tante de greves operárias no país, como as de 1902, 1903, 1906, 1907, 1917 e 1919, processos que demonstravam o amadurecimento das reivindicações coletivas, sobrepondo-se às individuais ou meramente corporativas, dando o sentido pleno do termo “classe” como realidade histórica. As reivindicações de melhoria das condições de trabalho e, inclusive, de associação aos ideais socialistas e anarquistas, já existiam no período imperial, mas de maneira rarefeita e pontual. Foi no início da república que o movimento dos trabalhadores tomou status de “classe operária”. (BATALHA, 2011, p. 175) As reivindicações constantes na pauta operária eram: jornada de 8 horas, melhores condições de trabalho, fim do trabalho de crian- ças e mulheres, descanso semanal. No entanto, houve, em 1917, uma grande greve por conta do “Pró-Pátria”, que alguns dos industriais italia- nos impuseram aos funcionários de suas fábricas, cuja arrecadação era destinada à campanha de apoio aos italianos que estavam na guerra. A greve foi realizada na cidade de São Paulo, no Ipiranga e Mooca, bairros típicos operários, espalhando-se por toda a cidade, ten- do a duração de aproximadamente um mês. A morte de um sapateiro, de origem espanhola, pela polícia, quando repreendiam um conflito de rua, se tornaria emblemática e seu nome Antonio Martinez, símbolo da luta dos trabalhadores. Com isso, os movimentos operários no Brasil passaram a ser debatidos pela política a partir desse momento. 41 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R ASI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Além da “Lei Celerada” ou “Lei Aníbal de Toledo”, que se carac- terizou pela truculência em torno de “delitos ideológicos”, Washington Luís, então no governo de São Paulo, promoveu uma reforma constitu- cional, na qual a União poderia legislar sobre leis trabalhistas, eviden- ciando o resultado das pressões dos operários. Indicação bibliográfica: NAPOLITANO, Marcos. História do Brasil República – Da Queda da Monarquia ao Fim do Estado Novo. São Paulo: Contexto, 2016. No mesmo ano, houve o fim da Revolução Russa, o que fez com que os operários brasileiros repensassem suas estratégias de luta. Assim, o modelo de revolução que se efetivou na Rússia foi adotado pe- los líderes dos partidos operários brasileiros, com núcleo maior no Rio de Janeiro. Para eles, era necessário, antes de acabar com o Estado – proposta essa do anarquismo – seria indispensável, primeiro, conquis- tar o Estado e instaurar uma “ditadura do proletariado”, resultando com a aniquilação da propriedade privada e implantando o socialismo. No entanto, as greves e manifestações tinham sempre repressão violenta pela polícia e não resultou nos objetivos desses líderes. Como saída para essa repressão, os líderes operários e dos sin- dicatos começaram a defender a criação de um partido político. Em março de 1922 foi fundado o PCB – Partido Comunista Brasileiro, que já no início declarava a intenção de participar do I Congresso da Internacional Comu- nista com sede em Moscou, que tinha o objetivo de organizar e reunir os partidos comunistas do mundo. A partir da formação do PCB, o movimento operário brasileiro ficou dividido entre anarquistas e comunistas, já que os socialistas democratas não formaram partido naquele momento. Na visão dos comunistas brasileiros, a economia do país esta- va nas mãos dos latifundiários, apoiados pelo capitalismo inglês e de in- teresses industrialistas da burguesia, com o apoio dos Estados Unidos da América. Assim, para eles, a política brasileira era considerada de caráter colonial com controle imperialista. A finalidade do PCB era a de libertar o país desse imperialismo. Porém, foi promulgada, em agosto de 1922, a Lei Celerada, que tinha o intuito de controlar todos e quais- quer movimentos políticos e sociais que contestavam o regime, voltan- do-se para a repressão violenta aos movimentos operários. Essa experiência operária dos efervescentes anos 1920con- 42 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S seguiu introduzir a classe trabalhadora no jogo político formal. Foi nes- se momento que, pela primeira vez, foram organizadas condições para que os candidatos oriundos do operariado participassem das eleições, inclusive, do pleito presidencial de 1930. O surgimento do Bloco Operá- rio-Camponês (BOC) ligado ao PCB endossou as propostas da esquer- da comunista no meio operário e, também, em setores do campesinato (KAREPOVS, 2006). Após o movimento que levou Getúlio Vargas ao poder, em ou- tubro de 1930,o Brasil sofreu um contratempo no projeto político dos movimentos operários, em particular ligados ao PCB e a extinção do BOC. Contudo, o protagonismo do operariado brasileiro e seu reconhe- cimento enquanto classe social continuaria crescendo, alertando à nova conjuntura política e intelectual que não mais poderia ignorar essa força. O Pensamento de Esquerda no Brasil A década de 1920 foi decisiva quanto à instituição de um pen- samento radical no Brasil, incorporado ao processo de modernização e às tentativas de solucionar dilemas nacionais. Movimentos como o tenentismo, o modernismo e a Revolução de 1930 são sintomáticos à circulação intelectual manifestada após 1918. Os projetos estéticos, po- líticos e sociais mais decisivos virão de artistas e intelectuais engajados a partir da fundação do PCB, da Semana de Arte Moderna e dos levan- tes dos tenentes. Ou seja, tornam-se bastante evidentes as disputas entre projetos de país e as situações dos grupos sociais, principalmente os subalternos ao poder das elites. Assim, de 1920 a 1930 dá-se a busca às explicações “para a opressão e miséria que sofriam os setores mais explorados da nossa população desde o período colonial” (PERICÁS; SECCO, 2014, p. 09). Ademais, os pilares do sistema político da Primeira República, quais sejam: a propriedade cafeeira e pecuária; a economia exportadora e a hegemonia do poder político das oligarquia rurais, foram fortemente abalados pela reação em prol das classes oprimidas. A Fundação Getúlio Vargas – FGV, dispõe de um centro de informações Centro de Pesquisa e Documentação de História Contem- porânea do Brasil, o CPDOC, que é referente à Escola de Ciências 43 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Sociais da Fundação Getúlio Vargas, criado em 1973. O Centro tem como objetivo “abrigar conjuntos documentais relevantes para a his- tória recente do país, desenvolver pesquisas em sua área de atuação e promover cursos de graduação e pós-graduação”. Além disso, conta com uma base de dados e um Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, onde o usuário tem acesso a todo conteúdo relacionado com a História do Pensamento Social e Político Brasileiro. Acesse os links:http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/arquivo e ht- tps://cpdoc.fgv.br/ Nos tumultuados anos de 1920, o Brasil viu ressurgir o naciona- lismo, despertada pela publicação, em 1902, d’Os Sertões de Euclides da Cunha, cujo impacto atingiu o cerne da consciência da elite europeizada, fazendo com que se voltassem ao que era a realidade social, econômica e política no país. Já no período pós-guerra, os intelectuais brasileiros reto- mam e fortalecem essa consciência nacionalista, que pode ser observada na grande oferta de periódicos representativos desse pensamento, alguns deles foram: Revista Brasil (1916), Brasiléia (1917) e Gil Blas (1919). Ainda, no mesmo contexto de revalorização do nacional, o poe- ta Olavo Bilac será um dos responsáveis por organizar, em 1917, a Liga Nacionalista e o Centro Nacionalista, conjuntamente com iniciativas dos estudantes universitários de São Paulo. Entretanto, esse nacionalismo visto no plano ideológico, também possuía uma vertente econômica, que visava proteger a indústria nacional contra a dependência do impe- rialismo capitalista e a concorrência estrangeira. O Movimento da Semana de 1922, instaurou a ideia de que, para que o Brasil pudesse figurar entre as demais nações, num reconhecimento mundial, era preciso que houvesse a ligação entre arte e política. Com isso, após a Semana, o movimento subdividiu-se em correntes com tendências muitas vezes díspares, mas tendo como fio condutor comum a ruptura com o passado e a substituição das preocupações estéticas-literárias dominan- tes, no primeiro momento, por um maior interesse pela política. A ramificação política resultante após o Movimento Modernista tenderam tanto para um desenvolvimento da direita, quanto da esquer- da, em que ambas mantinham o interesse comum no nacionalismo. Re- sultou-se, assim, de movimentos inicialmente literários e estéticos como Verde Amarelismo e Escola da Anta, liderado por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado e a Antropofagia, de Oswald An- drade, desenrolarem-se em movimentos políticos e ideológicos. Nesse mesmo ano, houve a criação do Centro Dom Vital, re- sultado da organização de intelectuais católicos preocupados com a re- 44 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S novação da espiritualidade. Jackson de Figueiredo, jornalista, nascido no Rio de Janeiro, liderou na cidade carioca, o movimento de cunho ultramontanista – promovendo uma doutrina político-católica, de origem romana – e a Revista A Ordem, que se propunha a combater o libera- lismo e o comunismo.Esse movimento também terá repercussão na formação das ideias políticas que influenciaram e compuseram a elabo- ração da Ação Integralista Brasileira, de 1932. O surgimento de pequenas organizações fascistas, das quais se destaca a Ação Integralista Brasileira – AIB, fundada em 1932, por Plínio Salgado, também teve início nessa conturbada década. O con- teúdo dessa doutrina de cunho essencialmente nacionalista teve uma direção mais cultural que econômica. E fundamentou-se na tomada de consciência do valor espiritual da nação, consolidando três princípios unificadores: “Deus, Pátria e Família”. A oposição aos judeus, assim como era visto no nazismo de Hitler, também era justificada pelos integralistas, pois, o capitalismo finan- ceiro internacional estava sob poder daqueles. Houve publicações antis- semitismo no Brasil, com a obra Brasil: Colônia de Banqueiros e Sinago- ga Paulista, de Gustavo Barroso, que atacavam a elite judaica no país. Plínio Salgado iniciou sua incursão no cenário modernista por meio da literatura. Publica os romances O estrangeiro, 1926, O Espera- do, 1931 e O cavaleiro de Itararé, em 1932. Nesses romances está todo o pensamento político de Salgado. Dessa forma, pode-se destacar alguns acontecimentos ocor- ridos nos anos de 1920, que precederam e prepararam a Revolução de 1930. O ano de 1922 foi decisivo para revoluções de ideias que culminaram no nacionalismo, são elas: A Semana de Arte Moderna; a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB); a criação do Centro Dom Vital e a revolução política tenentista. Os destaques desse breve período da chamada República Libe- ral, ou Primeira República, ou ainda República Velha, reúnem uma grande questão: como tornar o Brasil moderno? A palavra “moderno” abre uma série de especulações que deságua no movimento modernista, mas não se limita a ele. Aliás, a própria Semana de Arte Moderna recebeu mais críticas que elogios em 1922, foi posteriormente consagrada com grande marco para o Modernismo no Brasil, mas suas influências foram longe. 45 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S A década de 1920 contribuiu para o pensamento político brasilei- ro, por sua ambivalência, momento de grande aprendizado da classe ope- rária, ao mesmo tempo contaminado pela repressão policial; consolidação de um novo regime, mas maculado pelas disputas oligárquicas e pouco democráticas. Essa fase foi de um princípio do aprendizado democrático no país, com o movimento operário contrapondo-se ao jogo político elitista. O contexto internacional também contribuiu para o enquadra- mento autoritário e crítico ao liberalismo. A crise da economia liberal de 1929 assegurou o intervencionismo, que estimulou o instável equilíbrio oligárquico. No entanto, o repertório político brasileiro escolhe como precursor da transformação modernizadora a chamada “Aliança Libe- ral”, exprimindo o impulso da industrialização do país em detrimento do “antigo” liberalismo oligárquico agrário. Com a vitória da Aliança Liberal e o apoio dos militares, Vargas assume o poder pela autoproclamada Revolução de 1930, dando início ao período de grande dinamismo da esfera pública e do poder do esta- do e de forte repressão e controle político, social e cultural. 46 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS Questão 1 (Enem 2011) Até que ponto, a partir de posturas e interes- ses diversos, as oligarquias paulista e mineira dominaram a cena po- lítica nacional na Primeira República? A união de ambas foi um traço fundamental, mas que não conta toda a história do período. A união foi feita com a preponderância de uma ou de outra das duas frações. Com o tempo, surgiram as discussões e um grande desacerto final. FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2004 (adaptado). A imagem de um bem-sucedido acordo café com leite entre São Paulo e Minas, um acordo de alternância de presidência entre os dois esta- dos, não passa de uma idealização de um processo muito mais caóti- co e cheio de conflitos. Profundas divergências políticas colocavam- -nos em confronto por causa de diferentes graus de envolvimento no comércio exterior.TOPIK, S. A presença do estado na economia políti- ca do Brasil de 1889 a 1930. Rio de Janeiro: Record, 1989 (adaptado). Para a caracterização do processo político durante a Primeira Repú- blica, utiliza-se com frequência a expressão Política do Café com Lei- te. No entanto, os textos apresentam a seguinte ressalva a sua utili- zação: a) A riqueza gerada pelo café dava à oligarquia paulista a prerrogativa de indicar os candidatos à presidência, sem necessidade de alianças. b) As divisões políticas internas de cada estado da federação invalida- vam o uso do conceito de aliança entre estados para este período. c) As disputas políticas do período contradiziam a suposta estabilidade da aliança entre mineiros e paulistas. d) A centralização do poder no executivo federal impedia a formação de uma aliança duradoura entre as oligarquias. e) A diversificação da produção e a preocupação com o mercado interno unificavam os interesses das oligarquias. Questão 2 (FUVEST) O período de 1900 a 1930, identificado no pro- cesso histórico brasileiro como República Velha, teve por traço marcante: a) o fortalecimento da burguesia mercantil, que se utilizou do Estado como instrumento coordenador do desenvolvimento. b) a abertura para o capital estrangeiro, principal alavanca do rápido desenvolvimento da região amazônica. c) a modificação da composição social dos grandes centros urbanos, com a transferência de mão-de-obra do Centro-Sul para áreas do Nordeste. d) o pleno enquadramento do Brasil às exigências do capitalismo inglês, ao qual o país se mantinha cada vez mais atrelado. 47 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S e) o predomínio das oligarquias dos grandes Estados, que procuravam assegurar a supremacia do setor agrário-exportador. Questão 3 (UERJ) Sobre o Tenentismo no Brasil durante a Primeira República (1889-1930) é correto dizer: a) Foi um grupo formado por jovens militares com o objetivo de instalar um regime comunista no Brasil. b) Representou um grupo de oligarquias cafeeiras que primavam pela continuidade do trabalho escravo no Brasil. c) Foi um movimento constituído por jovens tenentes do exército que realizaram várias manifestações contrárias ao governo das oligarquias durante a Primeira República no Brasil. d) Constitui-se por jovens militares durante os anos de 1920 e 1930, com a prioridade de continuar com a política de café-com-leite no cená- rio político nacional. Questão 4 (ENEM - 2011) “Completamente analfabeto, ou quase, sem assistência médica, não lendo jornais, nem revistas, nas quais se limita a ver as figuras, o trabalhador rural, a não ser em casos esporádicos, tem o patrão na conta de benfeitor. No plano político, ele luta com o “coronel” e pelo “coronel”. Aí estão os votos de cabresto, que resultam, em grande parte, da nossa organização econômica rural.”. (LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976 (adaptado). O coronelismo, fenômeno político da Primeira República (1889- 1930), tinha como uma de suas principais características o contro- le do voto, o que limitava, portanto, o exercício da cidadania. Nesse período, esta prática estava vinculada a uma estrutura social: a) igualitária, com um nível satisfatório de distribuição da renda. b) estagnada, com uma relativa harmonia entre as classes. c) tradicional, com a manutenção da escravidão nos engenhos como forma produtiva típica. d) ditatorial, perturbada por um constante clima de opressão mantido pelo exército e polícia. e) agrária, marcada pela concentração da terra e do poder político local e regional. Questão 5 (Fameca SP/2013) Em 1889,o Brasil tornou-se uma República. Na visão de alguns ideólogos e defensores do regime republicano, esta seria uma possibilidade de eliminar muitas de- sigualdades, com a ampliação do poder popular no lugar do po- der centralizado do imperador, por exemplo. Significaria a possi- 48 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S bilidade de os brasileiros exercerem sua cidadania, participando diretamente da vida política.(Roberto Catelli Jr. História em rede: conhecimentos do Brasil e do mundo, 2011.). As práticas políticas vigentes na Primeira República permitem afirmar corretamente que a) o voto aberto e as fraudes eleitorais impediram a liberdade de esco- lha e o pleno exercício democrático. b) os anseios desses ideólogos concretizaram-se, pois houve efetiva participação do povo nas decisões políticas. c) o federalismo determinado pela Constituição era apenas teórico, pois ainda predominava o centralismo do Império. d) a extensão do direito de voto aos analfabetos e às mulheres signifi- cou, de fato, a ampliação da cidadania. e) as desigualdades foram, gradativamente, eliminadas com a aprova- ção da reforma agrária e do voto universal. Questão 6 (UDESC 2010). Tradicionalmente o termo República Ve- lha foi cunhado para identificar o período que vai de 1889 a 1930. Sobre as características deste período e outras questões subja- centes, assinale V (verdadeiro) para as proposições verdadeiras e F (falso) para as falsas. ( ) Os dois primeiros governos da recém inaugurada República bra- sileira eram militares. ( ) Com o novo regime, surgiram divergências tanto no meio militar quanto no civil. No meio civil, as disputas ocorriam, sobretudo, no campo ideológico entre três correntes: liberalismo, jacobinismo e positivismo. ( ) Pode-se afirmar que os governos do período conhecido como República Velha implementaram medidas sociais de grande alcan- ce, beneficiando a sociedade brasileira como um todo e visando acabar com as desigualdades sociais do país. ( ) O Brasil da chamada República Velha era um país, sobretudo, rural; a agricultura permanecia como principal atividade econômica. ( ) Durante o período denominado República Velha, paulistas e mi- neiros se alternaram na Presidência da República; este revezamen- to ficou conhecido como “política do café com leite”. Assinale a alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo: A) F – V – V – F – V B) V – V – F – V – V C) V – F – F – V – V D) V – V – F – V – F E) V – V – V – V – V 49 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE: (Fuvest 2009) A expressão "política do café com leite" é muito uti- lizada para caracterizar a Primeira República no Brasil. Sobre essa política, descreva: a) seu funcionamento; b) seu colapso na década de 1920. TREINO INÉDITO 1920 foi uma década efervescente de ideias nacionalistas, anarquis- tas, comunistas, espiritualistas e, portanto, decisiva para o encami- nhar o país a uma revolução. A revolução de 1930 foi precedida de al- guns acontecimentos importantes de cunho nacionalista. Foram eles: a) A revolução tenentista do forte de Copacabana; a publicação de Po- pulações Meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna e a Revolução Russa. b) A Semana de Arte Moderna; a fundação do Partido Comunista Bra- sileiro (PCB); a criação do Centro Dom Vital e a revolução política te- nentista. c) O fim da Primeira Guerra Mundial; a Revolução Russa; a criação da Lei Celerada. d) A lei Celerada; a criação do partido comunista; as manifestações po- pulares. e) Os protestos do proletariado, a Revolução Russa; o movimento mo- dernista. NA MÍDIA A EVOLUÇÃO DO EXÉRCITO BRASILEIRO NOS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO XX Esse ensaio trata sobre a relevância da Guerra do Contestado (1912- 1916), da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da chegada da Mis- são Militar Francesa (MMF), em 1920, para o processo de evolução do Exército Brasileiro. Nesse período, a Instituição intensificou seu proces- so de reorganização frente ao contexto político nacional e internacional. As instituições militares de vários países da América do Sul iniciaram o desenvolvimento de sua modernização baseada, principalmente, na aquisição de novos sistemas de armas que foram incorporados às suas respectivas organizações e nas estratégias adotadas para enfrentar novos cenários internos e externos.As Forças Armadas passaram de simples modernizações a estágios superiores de mudanças com maior complexidade, denominados de transformações. Essas modificações, que na prática foram traduzidas em mudanças orgânicas de estrutura e doutrina, permitiram a incorporação de novos conceitos que influencia- ram e orientaram, em grande parte, as transformações indicadas. 50 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Fonte: Defesanet Data: 28/03/2019 Leia a notícia na íntegra: http://www.defesanet.com.br/ecos/noti- cia/32207/A-evolucao-do-Exercito-Brasileiro-nos-primeiros-anos-do-se- culo-XX/ NA PRÁTICA A partir da década de 1930, o principal interesse dos intelectuais, es- critores e pensadores brasileiros foi a questão da formação da socie- dade brasileira. A formação populacional brasileira é o resultado das decisões políticas que foram tomadas em vários momentos da história do país. Entre elas está o extermínio dos indígenas, a escravidão ne- gro-africana, o incentivo à imigração europeia e, mais tarde, a japonesa e a sírio-libanesa. Essas decisões políticas foram baseadas nas ideias predominantes em cada época, por exemplo: as teorias evolucionistas, cientificistas, darwinistas e de hierarquia racial. Pensando na sua vida, tanto na esfera privada (família, amigos), quanto na esfera pública (tra- balho, atividades sociais), você saberia identificar em que foi afetado por essas decisões? A sua história de vida e o seu percurso profissional, certamente, foram influenciados por alguma dessas decisões políticas. PARA SABER MAIS Filme sobre o assunto: • Eternamente Pagu, 1987. Direção de Norma Benguell. Acesse os links:https://www.youtube.com/watch?v=MFylqrCYB_Uht- tps://www.youtube.com/watch?v=z9HZdT4cN-0 51 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Compreender a importância dos períodos em que Getúlio Var- gas esteve no poder político do país dispensa grandes justificativas. Se- gundo Francisco Weffort, dentre outros analistas, Vargas foi o único presi- dente cuja “eficácia política sobreviveu à sua própria morte”; responsável que foi pela “formação do Estado nacional no Brasil”, em contraposição ao Estado oligárquico da Primeira República. (WEFFORT, 2004, p. 158) A história do pensamento político brasileiro passa, incontorna- velmente, por esses períodos, e neles foram forjados um dos principais núcleos temáticos e metodológicos das ciências humanas pela autoria dos chamados “intérpretes do Brasil”, ou a “geração de 1930”, intelectu- ais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior – tríade “clássica” – sugerida por Antônio Cândido no famoso prefácio à quinta edição de Raízes do Brasil (1936), em 1969 (CANDIDO, 2012). A ERA VARGAS E OS INTÉRPRETES DO BRASIL 51 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 52 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S As transformações empreendidas por Vargas buscavam o ca- minho da modernização conciliadora das forças em torno do projeto industrializante, encabeçado pela reforma do Estado brasileiro. Superar essa estrutura arcaica era reordenar seu território: “Modernizar o Brasil era, em síntese, conquistar o seu território e organizar o seu povo”(GO- MES, 2013, p. 43). Território e povo são, assim, categorias fundamen- tais para o pensamento e a ação nessas décadas. O nacionalismo, o autoritarismo, o populismo, o trabalhismo, e a democratização podem ilustrar os variados períodos da chamada “Era Vargas”: de 1930 a 1934 (governo provisório), 1934 a 1937 (governo constitucional eleito indiretamente), de 1937 a 1945 (ditadura do Estado Novo) e 1951 a 1954 (eleito democraticamente). A partir de uma revisão do passado colonial ter-se-á, no Brasil, principalmente, em seus aspectos duradouros ou de configuração, aqui- lo que se entende pela emergência de um país moderno, que ocorrerá sob o predomínio da economia industrial sobre a agrícola. As formas po- líticas advindas do modelo agrário, exportador, oligárquico, colocavam o Estado à mercê dos interesses privados e o personalismo orientava o jogo político; a retomada das três culturas fundantes do povo brasi- leiro através da mestiçagem, agora (re)vista como elemento definidor da identidade brasileira, em que pese a criação do mito da “democracia racial”; o papel destacado das camada populares, as rebeliões regen- ciais e, posteriormente, a manutenção da estrutura agrária exortadora para fornecer gêneros primários condicionando o sentido da economia brasileira e a atuação da classe política. Nacionalismo e Intérpretes do Brasil As eleições de 1930 foram marcadas pela ruptura entre as fac- ções de São Paulo e as de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, essas últimas chegaram a ocupar o governo com o presidente Washington Luís. Todavia, a oligarquia paulista desejava continuar no poder, rompendo com a alternância com o PRM. Assim, a Aliança Liberal, formada pelos gru- pos restantes, perdeu as eleições para o candidato paulista Júlio Prestes. As facções derrotadas selaram uma aliança com os militares das revoltas tenentistas e lançaram um movimento armado de oposição. O poder dos três estados, junto aos militares, atacaram as demais regi- ões do país e suas unidades militares, reunindo adeptos e chegando ao Rio de Janeiro para exigir a renúncia do governo federal. Deposto Wa- shington Luís, o candidato riograndense Getúlio Vargas assume o poder. O grupo reunido a partir do movimento armado, pelas oligar- 53 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S quias do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e da Paraíba, era um grupo heterogêneo, mas ainda refletia as ambições das classes domi- nantes que não pertenciam ao núcleo cafeeiro. O grupo defendia que deveria ser incentivada a produção nacional e não somente a do café, combatendo a valorização do produto, propunham ainda a valorização do trabalhador, como o direito à aposentadoria, a regulamentação do trabalho infantil e das mulheres e direito à férias. Desse modo, um novo tipo de Estado surge a partir de 1930, que irá se diferenciar do estado oligárquico, não somente pela centra- lização do poder e maior grau de autonomia. Outros fatores de dife- renciação concentram-se também na atuação econômica, voltada para desenvolver a industrialização; a atuação social, incorporando os traba- lhadores urbanos na aliança de classe do poder estatal e o papel das forças armadas, para a garantia da ordem interna. Na soma desses elementos surgidos com as mudanças trazidas pela revolução de 1930, conclui-se que o Estado Getulista desenvolveu o capitalismo no Brasil Os primeiros anos após a revolução de 1930 foram de tomada de consciência e maior adesão da população à participação política. Esse contexto propiciou a criação de novos partidos políticos que se organizaram para disputar as eleições da Assembleia Constituinte, no ano de 1933. É nesse período que institui-se o voto secreto, a justiça eleitoral e o voto feminino, fazendo com que as mulheres fossem incor- poradas à cidadania ativa. “O direito de voto só se tornou realidade para as mulheres depois da Revolução de 1930. Esta, embora originada por uma divisão no seio das oligarquias que dominavam o Brasil, teve de reconhecer a necessi- dade de espaço pleiteado por setores da população antes simplesmente ignorados ou, no caso dos trabalhadores, tratados sempre como caso de polícia. Nesse contexto foi que a luta pelo voto feminino conseguiu resul- tado positivo, voto incorporado à Constituição Brasileira de 1934, com a ajuda de Carlota Pereira de Queirós, primeira constituinte brasileira. Após essa vitória, a luta da mulher passou a se concentrar na questão do trabalho feminino e na proteção da maternidade e às crianças. Bertha Lutz elaborou, então, o Estatuto da Mulher, com algumas reivindi- cações necessárias (maior tempo de licença de gravidez, por exemplo) ao lado de outras de caráter ingênuo, como a semana inglesa para as mulheres. Propunha ainda o Estatuto mudanças jurídicas em benefício da 54 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S mulher, principalmente a casada, mas não chegou a ser posto em prática”. Indicação Bibliográfica: TELES, Maria Amélia de Almeida. Bre- ve História do Feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 46. Outro apoio base de grande importância do governo foi a Igreja Católica, solidificando-se com a inauguração da estátua do Cristo Re- dentor, em 1931. Assim, a Igreja faz com que grande parte dos católicos apoiem o governo de Getúlio. Obviamente, o governo retribuiria o favor, tomando medidas a favor da Igreja, sendo um deles a permissão para o ensino da religião nas escolas públicas. De 1932 a 1935 algumas tendências político-ideológicas do- minaram no Brasil, quais sejam: autoritarismo cientificista, liberalismo, esquerdismos, fascismo2. Dominante no cenário político, a corrente autoritária colocava no Estado a incumbência de organizar o país, de acordo com a ordem e o desenvolvimento econômico. Dessa maneira, o Estado Autoritário tinha a finalidade de colocar um ponto final nos conflitos sociais, nas lutas partidárias, na liberdade de expressão que, segundo a corrente, enfraquecia o país. Portanto, houve nessa fase o fortalecimento do exército, das Forças Armadas. Com a oposição do PCB somada à dos tenentes de esquerda, foi criada a ANL – Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Carlos Lacer- da e Luís Carlos Prestes foram nomes de destaque dessa aliança. O programa da ANL tinha conteúdo nacionalista, focalizando na reforma agrária, no pagamento da dívida externa, na nacionalização de empre- sas estrangeiras e na constituição de um governo popular, por exemplo. Carlos Prestes foi o autor de um manifesto, clandestino no Bra- sil, que insuflava a derrubada do governo de Vargas e a tomada do po- der pelos populares. Com o decreto de 11 de julho de 1935, que encer- rou as atividades da ANL, o PCB começou a movimentar-se em torno de uma insurreição. No entanto, mesmo após as rebeliões ocorridas em todo o país, a iniciativa fracassou. 2 Vide glossário. 55 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Nos anos de 1930, começam a surgir reivindicações de grupos marginalizados, como as mulheres e os negros. Passando esses a or- ganizarem-se, para interferir na política brasileira, conquistando direitos específicos. Destacam-se os temas da desigualdade de oportunidades, a crítica ao racismo e o preconceito. Nesse período surgiu a FNB – Frente Negra Brasileira, primeira grande organização negra do Brasil. No entan- to, alguns de seus líderes deixaram-se encantar também pelo fascismo e pelo nacionalismo autoritário das elites brancas. O autoritarismo e a repressão intensificaram-se a partir do le- vante de 1935 sendo declarado estado de sítio, prorrogado até 1937. A partir desse momento, foram criados órgãos específicos para a repres- são e em 1936 surge a Comissão Nacional de Repressão ao Comunis- mo, aumentando o poder da polícia. Em consequência,o Congresso aprovou uma lei que instituiu o Tribunal de Segurança Nacional, cujo ob- jetivo era julgar os participantes da insurreição de 1935, posteriormente transformando-se em órgão permanente do governo do Estado Novo. Consequentemente, o anticomunismo aumentou nas elites civis e militares brasileiras, ajudando a consolidar o poder de Getúlio Vargas, levando o alto escalão do governo a justificar a opção por uma ordem autoritária escancarada. Porém, o governo Vargas prometeu manter as eleições de 1938, para que o país voltasse a normalidade constitucional. As candidaturas já estavam feitas, sendo concorrentes José Américo de Almeida, Armando Salles de Oliveira e Plínio Salgado, e em andamento, quando foi levado à imprensa o plano de um suposto novo golpe comu- nista, chamado de Plano Cohen, provocando pânico na opinião pública. O plano Cohen foi usado para justificar e implementar o gol- pe de estado. Porém, mais tarde foi revelado que o Plano Cohen não foi mais do que uma estratégia dos próprios integralistas para incitar milícias fascistas e consolidar o golpe. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas anunciou o fechamento do Congresso Nacional e a sus- pensão da Constituição, inaugurando-se o Estado Novo. O nacionalismo, nesse contexto, serviu para controlar as clas- ses populares e propiciar maior coerência entre as elites. Além disso, o Estado ficava responsável por construir a brasilidade, introduzindo novos valores culturais e unindo aquelas duas esferas da sociedade, fazendo com que houvesse a formação do homem brasileiro, que en- contrava-se acima das diferenças de classe. Houve ainda um nacio- 56 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S nalismo econômico, voltado à exploração da siderurgia e do petróleo. Negociando com os Estados Unidos a entrada do Brasil na segunda grande guerra em troca do apoio para construir uma grande siderúrgica estatal, Vargas consegue a construção da Siderúrgica de Volta Redon- da, que se tornou um símbolo do nacionalismo brasileiro. Na chamada Era Vargas, também a tradição entre política e li- teratura terá sua continuidade. Nesse momento da história, o ensaio ga- nha destaque, com temas sobre a interpretação do Brasil. Com traços poéticos e memorialísticos, tais ensaios contribuíram para integrar os intelectuais brasileiros à realidade do país. Entre os anos 1930 e 1940 a Gilberto Freyre destaca-se como o mais importante ensaísta. À época, Monteiro Lobato destacou os três principais nomes do pensamento social brasileiro: Euclides da Cunha, Oliveira Viana e Gilber- to Freyre. Ainda, para Antonio Candido, a obra de Freyre Casa Grande e Senzala, 1933, representou “uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e até mesmo Oliveira Viana, e os pontos de vista mais especificamente sociológicos que se imporiam a partir de 1940” (CANDIDO, 2014, p.10). Com Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre inova ao reco- nhecer as contribuições do povo negro e do mestiço. Identificou – como já havia feito de certa forma Euclides da Cunha – a mestiçagem como um produto ibérico, não como uma criação americana, mas existente desde a convivência dos portugueses e espanhóis com os mouros, por exemplo. Freyre introduziu no pensamento brasileiro as várias gamas das relações entre os brancos e os negros implantando, assim, o reco- nhecimento do povo mestiço. Gilberto Freyre, nascido em Pernambuco em 1900, realizou seus estudos nos Estados Unidos, na Universidade de Colúmbia e na Europa, na Oxford tendo, portando, uma excelente formação no cam- po da sociologia. Com o conhecimento adquirido na área pôde inovar metodologicamente, se comparado aos autores anteriores, a sua inter- pretação do Brasil. Um dos elementos que marcam a sua inovação está no uso de uma base documental diferenciada, juntando dados retirados de “diários íntimos, de cartas, de livros de viagem, de folhetins, auto- biografias, confissões, depoimentos pessoais escritos e orais, livros de modinhas e versos, cadernos de receitas, romances, notícias de artigos e jornais” (BASTOS, 1999, p. 218). A obra de Freyre focaliza diferentes períodos da história brasilei- ra – Colônia, Império e República. A discussões presentes no livro tentam responder às questões “quem é o povo brasileiro?”, “pode-se falar em unidade nacional?”, “existe uma cultural brasileira?”. Os estudos de Casa Grande & Senzala irão enfocar, primordialmente, a questão da forma- 57 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ção nacional brasileira. Essa formação deveu-se aos efeitos sociais da miscigenação que agiu para democratizar a sociedade brasileira. A casa- -grande representa o poder patriarcal, a colonização portuguesa e opera como centro da unidade social, simbolizando todo um sistema, econômi- co, social e político, e agindo como base da organização nacional. Assim, explica-se a dicotomia casa-grande – senzala, a primeira é o símbolo do status de dominação, e a segunda de dominação, submissão. Entretanto, ao nivelar miscigenação e democratização, sendo a primeira um fato biológico, e a segunda um fato sociopolítico, Freyre come- te um equívoco, pois, são dois processos independentes entre si. O des- cuido analítico da teoria de Gilberto Freyre está justamente na obliteração de análises que demonstram como ocorreu a miscigenação. Criou-se com sua teoria, um mito, uma consciência falsa da realidade brasileira. Dessa maneira, a “tese da democracia racial (...) funciona como cultura política que se configura em obstáculo ao verdadeiro enfrentamento da questão racial no Brasil” (BASTOS, 1999, p. 233). Apesar o equívoco, Casa Grande & Senzala trouxe elementos novos para o campo das ciências sociais e po- líticas no Brasil, pois, rechaçou o determinismo geográfico, as explicações sociobiológicas e rompeu com os estudos anteriores, trazendo o discurso sociológico para o centro das interpretações do Brasil. Outro ensaísta, dentro do quadro dos “intérpretes do Brasil”, que analisará a questão da mestiçagem, contemporâneo de Freyre é Caio Prado Jr., com a obra Evolução Política do Brasil, 1933. O ensaio trata das lutas dos escravos e das lutas populares no Brasil regencial. Criticando os historiadores dos períodos anteriores, Prado Jr. argumen- ta a importância de escrever a história não apenas pelo viés do grupo social dominante, mas também pelas camadas da sociedade margina- lizadas, trazendo para o pensamento brasileiro a relevância do povo na construção da história do país. Três anos mais tarde, publica-se Raízes do Brasil, de Sérgio Bu- arque de Holanda, que traz ao cenário a problematização da democracia e a crítica veementemente os legados políticos e culturais da colonização e da escravidão, diferenciando-se de Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre. Sérgio introduz também a noção de homem cordial, sendo essa cordialidade não uma virtude, mas um obstáculo à democracia e à modernização, visto que significava resolver os conflitos a partir do privado: por meio de arranjos fa- miliares, corrupção e troca de favores que reforçam as hierarquias sociais. Raízes do Brasil, não é uma escrita linear dos acontecimentos históricos do Brasil, mas é um livro formado por capítulos que exami- nam determinadas formas de vida social que podem ser localizadas no tempo histórico, mas cuja intenção maior é resgatar as maneiras que as sociabilidades, as instituições e as mentalidades concebidas no passa- 58 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S do ainda permeavam parte da identidade nacional. Dessa maneira, o livro procura no passado os elementos que poderiam bloquear o nasci- mento do futuro, a identidade brasileira em devir. Sérgio Buarque irá encontrar na PenínsulaIbérica a base para discutir a identidade em construção, que advém de como portugueses e espanhóis concebiam a natureza humana durante os processos de colonização. Ao contrário do que se vislumbrava no resto da Europa, a Península Ibérica promovia o culto da personalidade, a valorização da autonomia de uma pessoa em relação às outras. Assim sendo, arrasta- -se a ideia da dignidade própria de cada indivíduo, a chamada “ética de fidalgos”, da nobreza à burguesia, sem a contestação dessa última, que assimilou a ideia. Com a flexibilidade causada pela “cultura da persona- lidade”, resultou na falta de uma “hierarquia organizada”: É compreensível que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e apreço à atividade utilitária. Uma digna ocio- sidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. [...] E, assim, enquanto os povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se largamente no ponto de vista da an- tiguidade clássica [...] de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor (HOLANDA, 1993, p. 9). Do “culto da personalidade” ibérica resultam três pontos centrais das relações entre os homens: a solidariedade entre parentes ou amigos, a solidariedade se dá nos círculos particularistas; a valorização do talen- to, que incita a competição e aflora a desigualdade de um “individualis- mo aristocrático”; a dificuldade de estabelecer uma organização social, necessitando de um governo que aja como uma força imperativa a que se deve obedecer. Sérgio conclui essa reflexão enfatizando que os brasi- leiros compartilham uma “alma comum” com os portugueses: “Podemos dizer que de lá veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a esta forma” (HOLANDA, 1993, p. 11). Aliando o individualismo ibérico ao modo de colonização re- alizado pelo “homem aventureiro”, aquele que deseja resultados ime- diatos e que promoverá um sistema de exploração agrária, sendo essa possível pela abundância de terras e por meio da escravidão dos povos africanos, ter-se-á uma sociedade dominada pelo patriarcalismo. Assim, o indivíduo formado por esse patriarcalismo será incapaz de dissociar o que é do domínio público e o que é do domínio privado, trazendo essa permeabilidade para o Estado. É dessa simbiose que nasce o “homem cordial”, que de acordo com Buarque de Holanda é a “contribuição bra- 59 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S sileira para a civilização” (HOLANDA, 1993, p. 22).Ou ainda: “No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema ad- ministrativo de um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompa- nhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades par- ticulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal” (HOLANDA, 2012, p. 175-176) Importante ressaltar que nesse contexto, a cordialidade nada tem em comum com seus sinônimos: hospitalidade, generosidade, ama- bilidade, civilidade e polidez. Ela é a extensão do ambiente familiar para o ambiente externo. Essa herança perpetua-se mesmo no novo contex- to histórico, ou seja, o personalismo, o espírito de aventura e a ordem patriarcal continuam a produzir efeitos na vida social do brasileiro. Populismo Com o Estado Novo ampliou-se o personalismo em torno de Vargas. Teríamos uma expressão marcante do chamado populismo, que daria continuidade à desigualdade entre o Estado e a Sociedade. Com total controle do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – responsável pela propaganda política estatal da ditadura estadonovista, os trabalhadores controlados pelos sindicatos estatais e pela repressão, perderam a sua liderança e organização, satisfazendo-se com os be- nefícios da legislação social, em troca de submissão política a Vargas. No estado novo, a figura de representação máxima era o presi- dente, construindo um mito na figura de Vargas, a encarnação do Estado e da nação. A imagem era repleta de carga emocional e tinha a intenção de causar um efeito neutralizador. Sobre esse mito, essa imagem, seria possível fundar o processo de integração da nação. Para tanto, a cria- ção desse mito contava com elementos irracionais – valores, crenças, emoções – conjuntamente com as experiências das massas. Por sua vez, o autoritarismo aliado à propaganda política e às políticas públicas e sociais, angariaram o sucesso da formação do mito Vargas. A relação entre o povo (trabalhadores) e o presidente (Esta- do) inseria o primeiro no cenário político brasileiro, no entanto, sob o controle da figura paternal de seu líder, cerceando assim, grande parte do movimento operário aguerrido da década anterior. Vargas encerrava a dicotomia entre a racionalidade e a irracionalidade, tornando-se um representante que ditava leis, ao mesmo tempo por meio de sua sa- bedoria, como por meio de seu “coração” (SCHWARCZ, 2012, p. 528). 60 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Nessa dicotomia, portanto, estava também a relação entre “dar” e “re- ceber”, que configuram a reciprocidade. Formava-se então um contrato entre Estado-presidente e povo- nação, conhecido como populismo. Mesmo com a admiração do povo, a ditadura Vargas entra em colapso com o fim da Segunda Guerra Mundial, que propunha o fim de regimes autoritários. Durante os primeiros anos do conflito, o Bra- sil atuou com neutralidade, realizando transações comerciais com alia- dos, nazistas e fascistas. Todavia, as afinidades ideológicas do Estado Novo eram de orientação fascista, tendo Vargas reconhecido o governo de Franco na Espanha após a Guerra Civil Espanhola. Somente em 1942, quando o Brasil entra na guerra e sede a base aeronaval, no Rio Grande do Norte, para os Estados Unidos, fortalecendo a aliança com Roosevelt e garantindo a entrada do Brasil no ramo da indústria pesada com o financiamento para a criação da siderúrgica de Volta Redonda e a exploração de minérios com a Vale do Rio Doce. Com a vitória dos Aliados, a ideia era de luta pela democracia e derrota de regimes autoritários, o que fez com que a sociedade brasilei- ra não aceitasse que o Brasil representasse fora, na Itália, o combate ao fascismo, sendo que dentro do país ainda viviam sob comando de um governo autoritário. Assim, em 1943, o Manifesto dos Mineiros – carta aberta em defesa da redemocratização, escrita por intelectuais do Es- tado de Minas Gerais – reivindicavam a instalação de um regime demo- crático, abrindo campo para a oposição. Vargas, diante das circunstân- cias, planifica a transição de regime constitucional, de modo que ainda permanecesse no governo. Para tanto, ele tomou algumas medidas, como: assinou em fevereiro de 1945, um Ato Adicional à Constituição de 1937, definindo a data das eleições dentro de 3 meses, para presidente e para compor um novo congresso legislativo, e concedeu anistia aos presos políticos, com especial atenção à Luís Carlos Prestes. Revelando que não seria candidato nas próximas eleições, Vargas ainda mantinha o apoio dos trabalhadores urbanos, que o que- riam no poder, realizando manifestações populares, eles criaram o bor- dão “nós queremos Getúlio”, transformado no movimento “queremista”. Trabalhismo A política trabalhista de Getúlio Vargas perdurou de 1930 a 1945, passando por diversas fases. Inovadora,a política trabalhista teve por objetivo reprimir o esforço das classes trabalhadoras urbanas em organi- zações fora do controle do Estado, atraindo-as para o apoio ao governo. Criou-se também os sindicatos com aprovação ministerial, fazendo com 61 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S que o Estado regulasse e controlasse os sindicatos enquadrados pelo de- creto nº 19 770 de 1931. Durante o Estado Novo, construiu-se a imagem de Getúlio Vargas como o protetor dos trabalhadores. O filme Getúlio, 2014, dirigido por João Jardim retrata o pe- ríodo em que o presidente encontra-se isolado no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, enquanto seus opositores o acusam pelo atentado contra o jornalista Carlos Lacerda. Inspirada na Carta del Lavoro, da Itália fascista, a legislação trabalhista dá continuidade à unidade sindical, subordinada ao Estado. Com relação à política salarial, cria-se o salário mínimo, naquele mo- mento, definido de acordo com cada região do país. O Estado Novo consolidou a centralização política, que tinha o objetivo de evitar velhos antagonismos político-eleitorais entre as oligarquias, evitando, dessa maneira, instabilidades políticas e sociais. Institui também a Consolida- ção das Leis de Trabalho – CLT, o salário mínimo e a Justiça do Traba- lho. Então, Vargas ganha os apelidos de “pai dos pobres” e “líder das massas”, graças à extensa propaganda política. O mito Vargas foi consolidado pela propaganda do Estado Novo, especificamente depois da criação do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, que dominava todas vias da comunicação de massas: jornais, rádio, teatro, entre outras, parte de uma campanha ideológica sofisticada, tudo levando a criar um vínculo entre a pessoa do presidente e o povo. “As massas encontram no mito da personalidade, que é consti- tuído de elementos de sua experiência imediata, um poder de expressão simbólica maior do que nos mitos em cuja composição entram elemen- tos abstratos ou obtidos mediante um processo mais ou menos intelec- tual de inferências ou ilações. Daí a antinomia, de aparência irracional, de ser o regime de massas o clima ideal da personalidade, a política das massas a mais pessoal das políticas, e não ser possível nenhuma participação ativa das massas na política da qual não resulte a aparição de César” (SCHWARCZ, 2012, p. 524). 62 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Indicação Bibliográfica: SCHWARCZ, Lilia & NOVAIS, Fernan- do A. História da Vida Privada no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Cia das Letras, 2012. A ação na área sindical é o centro da estratégia política do governo. Desde 1931 foi-se desenvolvendo a ideia de que o sindica- to deveria representar a harmonia entre patrão e empregado, cabendo ao Estado oferecer essa oportunidade de cooperação entre as classes. Passava-se, assim, o sindicato de órgão de representação dos interes- ses operários para um órgão consultivo e técnico do governo. O Estado mantinha seus delegados dentro dos sindicatos, que por sua vez, assis- tiam as reuniões, avaliavam a situação financeira e enviavam, trimes- tralmente, um relatório ao governo. Estavam, dessa maneira, em estrei- ta vigilância, podendo o governo interferir quando achasse necessário. Em 1940, foi criado o imposto sindical, que tinha por finalidade manter os sindicatos, retirando um dia de trabalho de um ano da folha de pagamentos dos empregados, estes sindicalizados ou não. Passando a dispor de recursos, os sindicatos ofereciam benefícios como assistências jurídica, médica, dentária, etc. Apesar de toda movimentação em torno do direito do trabalhador, aquele que estava na zona rural ficava ausente das novas mudanças. Isso demonstra que o governo não ousava levar as leis trabalhistas para entrar em conflito com os proprietários rurais. Uma das pautas do regime era a divulgação dos direitos dos trabalhadores. Para tanto, o ministro do trabalho Alexandre Marcondes Filho falava semanalmente (de 1942 a 1945) pelo rádio, na Hora do Brasil, realizando cerca de 200 palestras. Com o título “Falando aos trabalhadores brasileiros”, o ministro discursava sobre a legislação so- cial, novas medidas, esclarecia dúvidas e elogiava Vargas. Nos jornais, principalmente no A Manhã, essas palestras eram publicadas e, dessa forma, eram fixadas e memorizadas pelo público. A obra política de Getúlio Vargas, destacando-se a social-traba- lhista, chega até os dias de hoje, apesar de algumas transformações no decorrer do percurso. Mas apesar de, por um lado, ter fundado a base e a estrutura da legislação trabalhista, sindical e previdenciária do Brasil, por outro, os trabalhadores retribuíam com a limitação de sua liberdade política. Vargas organizou a transição do fim do regime estadonovista, de modo a garantir o vigor de suas ideias e a força política de sua base. Foram criados dois importantes partidos que marcarão a história políti- ca brasileira até o golpe militar de 1964: o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). O primeiro foi formado principalmente pelos interventores estaduais e constituiu-se no partido da cúpula governamental do Estado Novo. 63 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Já o PTB foi concebido como um grande partido de massas, que teria como base o proletariado urbano, beneficiado pela legislação trabalhista implantada no Estado Novo. Assim, estimulou a perpetua- ção da ideologia trabalhista, como uma das expressões do pensamento político do período de transição, para a retomada da experiência demo- crática após 1945. O Getúlio Vargas do Estado Novo, que foi afastado do poder sob duras críticas ao autoritarismo do seu regime, voltaria ao poder pelo voto popular, aclamado, em 1951. Mas esse novo período da Era Vargas foi breve, crucial, trágico e importante pelo aprofundamento do nacionalis- mo, e do fortalecimento do poder estatal em setores-chave da economia, como a criação da Petrobrás, em 1953. Da crise de seu governo e a ferrenha oposição à esquerda e à direita, com forte pressão dos círculos militares, Getúlio lança mão de uma derradeira estratégia, que desmobili- zou seus opositores e perpetuou, para sempre, seu mito: um tiro no peito em 24 de agosto de 1954. Em famosa carta de suicídio, dizia: “lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias e calúnias não abateram meu ânimo. Eu vos dei minha vida. Agora ofereço minha morte. Nada receio. Se- renamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história” (VARGAS, 1954 apud FAUSTO, 2006, p. 195-196). 64 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS Questão 1 (PUC-RS) “Façamos a revolução antes que o povo a faça.” A frase, atribuída ao governador de Minas Gerais, Antônio Carlos de Andrada, deixa entrever a ideologia política da Revolu- ção de 1930, promovida pelos interesses: a) da burguesia cafeicultora de São Paulo, com vistas à valorização do café. b) do operariado, com o objetivo de aprofundar a industrialização. c) dos partidos de direita fascistas, no intuito de estabelecer um Estado forte. d) das oligarquias dissidentes, aliadas ao tenentismo pela reforma do Estado. e) da burguesia industrial, na busca de uma política de livre iniciativa. Questão 2 (PUC-RS) Em março de 1931, o Decreto nº 19.770 criava, no Brasil, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Consi- derando-se o contexto histórico, pode-se afirmar que esse ato do Poder Executivo tinha como um dos seus objetivos: a) promover a expansão do setor primário. b) desregulamentar o sistema de contratação e de impostos. c) concentrara renda nacional nas camadas médias urbanas. d) acabar com a organização autônoma do movimento operário. e) intervir nas relações de trabalho no campo. Questão 3 (ENEM - 2013) Na imagem, da década de 1930, há uma crítica à conquista de um direito pelas mulheres, relacionado com a: a. redivisão do trabalho doméstico. 65 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S b. liberdade de orientação sexual. c. garantia da equiparação salarial. d. aprovação do direito ao divórcio. e. obtenção da participação eleitoral. Questão 4 (ESPM 2015) "A institucionalização da Revolução de 1930 veio com a promulgação da terceira Constituição brasileira, em 16 de julho de 1934. Era preservado o liberalismo e o presidencialismo, mantida a independência dos três poderes, além de se fixar em cará- ter excepcional a eleição do primeiro presidente por voto indireto da Assembleia Constituinte, Getúlio Vargas foi confirmado na presidên- cia". (Luís César Costa e Leonel Itaussu Mello. História do Brasil). A Constituição brasileira mencionada no texto instituiu: a) o voto a descoberto, direto e universal, mas proibido a mendigos, analfabetos, religiosos de ordens monásticas e mulheres; b) o presidente era eleito para um mandato de seis anos, tinha o poder de dissolver o Congresso, reformar a Constituição e legislar por decretos; c) a eleição indireta do presidente e do vice-presidente por um Colégio Eleitoral e direito do presidente baixar decretos com força de lei; d) o voto direto para presidente, em dois turnos, habeas data (permite aos cidadãos conhecerem informações de caráter particular ou geral em órgãos públicos ou bancos de dados do governo); e) o voto secreto e feminino, salário mínimo, descanso semanal e férias remuneradas, 8 horas de trabalho diário, previdência social, autonomia dos sindicatos. Questão 5 (ENEM – 2009) O autor da constituição de 1937, Francisco Campos, afirma no seu livro, O Estado Nacional, que o eleitor seria apático; a democracia de partidos conduziria à desordem; a inde- pendência do Poder Judiciário acabaria em injustiça e ineficiência; e que apenas o Poder Executivo, centralizado em Getúlio Vargas, seria capaz de dar racionalidade imparcial ao Estado, pois Vargas teria providencial intuição do bem e da verdade, além de ser um gênio político. CAMPOS, F. O Estado nacional. Rio de Janeiro:José Olympio, 1940 (adaptado). Segundo as ideias de Francisco Campos, a) os eleitores, políticos e juízes seriam mal intencionados. b) o governo Vargas seria um mal necessário, mas transitório. c) Vargas seria o homem adequado para implantar a democracia de partidos. d) a Constituição de 1937 seria a preparação para uma futura democra- cia liberal. e) Vargas seria o homem capaz de exercer o poder de modo inteligente 66 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S e correto. Questão 6 (ENEM, 2016) Em 1935, o governo brasileiro começou a negar vistos a judeus. Posteriormente, durante o Estado Novo, uma circular secreta proibiu a concessão de vistos a “pessoas de origem semita”, inclusive turistas e negociantes, o que causou uma queda de 75% da imigração judaica ao longo daquele ano. Entre- tanto, mesmo com as imposições da lei, muitos judeus continua- ram entrando ilegalmente no país durante a guerra e as ameaças de deportação em massa nunca foram concretizadas, apesar da extradição de alguns indivíduos por sua militância política. GRIM- BERG, K. Nova língua interior: 500 anos de história dos judeus Brasil. In: IBGE. Brasil: 500 anos de povoamento, Rio de Janeiro: IBGE, 2000 (adaptado). Uma razão para a adoção da política de imigração mencionada no texto foi o(a): a) receio do controle sionista sobre a economia nacional. b) reserva de postos de trabalho para a mão de obra local. c) oposição do clero católico à expansão de novas religiões. d) apoio da diplomacia varguista às opiniões dos líderes árabes. e) simpatia de membros da burocracia pelo projeto totalitário alemão. QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE (FUVEST) A ascensão de Getúlio Vargas em 1930 deu-se num con- texto de crise mundial. a) Como essa crise afetou o Brasil? b) Comente sobre as forças políticas que o apoiaram. TREINO INÉDITO No final do século XIX e início do XX surgiram estudos que anali- savam as particularidades do Brasil, buscando investigar como se formou a nação, as bases da formação social, e como o passado colonial e escravagista influenciou nessa formação. Um desses estudos tinha como base o raciocínio do alemão Max Weber, no qual alicerçou seu pensamento sobre os tipos ideais, criando uma expressão que define o tipo humano brasileiro que carrega uma contradição capaz de explicar o impedimento do processo de mo- dernização. O autor e a expressão relacionam-se a: a) Oliveira Vianna, a eugenia. b) Euclides da Cunha, o sertanejo. c) Sérgio Buarque de Holanda, o homem cordial. d) José Bonifácio, os luzias. 67 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S e) Joaquim Nabuco, os guabirus. NA MÍDIA: POR QUE GETÚLIO VARGAS CRIOU O MINISTÉRIO DO TRABALHO EM 1930 “Quando surgiu, em 26 de novembro de 1930, a ideia era que a pas- ta fosse responsável por intermediar as relações entre trabalhadores e empresários, até então sob a responsabilidade do Ministério da Agricul- tura. A criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi uma das primeiras iniciativas de Vargas ao assumir o governo por meio de um golpe, após a Revolução de 1930, que culminou com a deposição do então presidente Washington Luís (1869-1957) e o impedimento de que seu sucessor, Júlio Prestes (1882-1946), assumisse o cargo, dando fim à República Velha. "Essa revolução se refere a uma ruptura com a velha oligarquia agrária por meio da criação de um Estado positivista, a instauração de um modelo legal e burocrático que passa a organizar as relações sociais por meio do monopólio da força através de um sistema normativo", diz Marcelo Nerling, professor do curso de Gestão de Políti- cas Públicas da Universidade de São Paulo (USP)”. Fonte: BBC News/ Brasil Data: 10/11/2018. Leia a notícia na íntegra: https://www.bbc.com/portuguese/bra- sil-46159747 NA PRÁTICA Durante o governo de Getúlio Vargas criou-se o salário mínimo, definido de acordo com cada região do país. Ainda, o Estado Novo consolidou a centralização política, que tinha o objetivo de evitar velhos antago- nismos político-eleitorais entre as oligarquias, evitando, dessa maneira, instabilidades políticas e sociais. Instituiu-se, também, a Consolidação das Leis de Trabalho – CLT e a Justiça do Trabalho. Foi a época em que se consolidou o chamado Trabalhismo, que incentivou a valorização do trabalhador urbano, mediante criação de sindicatos e leis que atendes- sem às suas necessidades. Em nossa cultura, alguns tipos de ocupa- ção profissional, especialmente as que demandam trabalho intelectual, têm mais reconhecimento social que as de outra espécie. Por outro lado, também existe a ideologia de que não importa o tipo do trabalho, ele sempre edifica o homem. Essas visões, impregnadas em nossa so- ciedade, têm a finalidade de criar uma visão positiva do trabalho. Dessa maneira, aqueles que não conseguem emprego ou mesmo que têm um subemprego, não são reconhecidos socialmente, sendo tratados pelos demais como sem dignidade. Em que medida o trabalho e as qualifica- ções sociais advindas dele podem influenciar grupos e classes sociais? 68 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Os tipos de trabalho e a qualificação são determinados pelo acesso à educação formal e essa tem relação direta com as possibilidades de consumo. Nesse sentido, uma criança que precisa colaborar na compo- sição da renda familiar terá chances menoresde alcançar a educação e a qualificação necessárias para destacar-se no mercado de trabalho, enquanto aquela, cuja família tem uma renda que a possibilita cursar um ensino de qualidade, terá maiores chances. PARA SABER MAIS Filmes e Documentários sobre o assunto: • Getúlio, 2014. Direção de João Jardim. • Era Vargas: O Crepúsculo de um Ídolo. Documentário em Série da Produtora Brasil Paralelo, 2018. • Lamarca, 1994. Direção de Sérgio Resende. • Olga, 2004. Direção de Jayme Monjardim. • Memórias do Cárcere, 1984. Direção de Nelson Pereira dos Santos. Acesse o link: https://www.youtube.com/channel/UCKDjjeeBmdaii- cey2nImISw 69 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Os anos seguintes ao término da segunda Guerra Mundial foram de grande reorganização das forças políticas brasileiras e internacionais. Foi o início de uma intensa polarização entre capitalistas e comunistas, a chamada Guerra Fria, que perdurou até o início da década de 1990. Foi o período da efetiva transição, no Brasil, do predomínio do mundo rural para o urbano. Dos avanços tecnológicos e dos meios de comunicação de massa, das indústrias de bens “duráveis” e da sociedade de consumo. No Brasil, aprofundou-se a política desenvolvimentista atrelada ao viés nacionalista, iniciada no segundo governo Vargas, passando pelo desenvolvimentismo associado de JK ao arrefecimento do embate ideológico dos anos de 1960, desembocando no golpe militar de 1964 e a implantação de uma ditadura, que implicou no fim do período popu- lista e iniciou um processo de modernização autoritária. Portanto, entre DO NACIONAL DESENVOLVIMENTISMO À MODERNIZAÇÃO AUTORITÁRIA 69 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 70 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 1945 a 1964 o Brasil vivenciou anos otimistas de relativa estabilidade política e avanços democráticos, principalmente no campo da cidada- nia, sob protagonismo do Estado, freado em 1964 e só retomado com a Constituição de 1988, restabelecendo a ordem democrática. Para o pensamento político brasileiro foi um período de transi- ção. A passagem do predomínio do ensaísmo para as monografias aca- dêmicas, retratando a crescente importância dos centros de pesquisa universitários; o auge do nacional-desenvolvimentismo e o retorno do autoritarismo de estado; a polarização ideológica entre esquerda e di- reita sob a chamada Guerra Fria, que estimulou novos debates e ideias, muitas delas, voltam à arena política e da opinião pública recorrente- mente, como os nacionalistas versus entreguistas, aglutinados em torno das ideias da Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL, da ONU) e, internamente, do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB), e a Escola Superior de Guerra (ESG), alinhada a perspectiva norte-americana para a região (VIZENTINI, 2011, p. 197). Novamente, como nos primórdios da república, o ideal demo- crático era sacrificado em nome da ordem e do progresso sob o elitismo autoritário fortemente enraizado no estado nacional. O Nacional-Desenvolvimentismo: o ISEB e Celso Furtado A partir de 1945, retoma-se no Brasil a tradição liberal que fora interrompida com a Revolução de 1930. Mesmo que um grande número de partidos surgissem com ideias diversas, apenas dois projetos passa- ram a disputar as preferências do eleitorado. O getulismo/nacionalismo, configurou-se aos poucos como trabalhismo e foi institucionalizado pelo PTB – Partido Trabalhista Brasileiro. Por outro lado, defendendo a aber- tura de investimentos, o capital internacional, negando a intervenção estatal e espelhando-se nos Estados Unidos, a UND – União Democrá- tica Nacional, defendia um projeto liberal-conservador. São esses dois projetos que irão disputar as eleições de 1945 a 1964. Essas duas posições entraram em grandes discussões, principal- mente a partir do segundo governo Vargas (1951 – 1954). É nesse período de retomada ao desenvolvimento da indústria que são criados o Plano de Carvão Nacional, o Plano de Eletrificação e a Petrobrás. A partir desse momento as discussões sobre o petróleo brasileiro tomaram proporções gigantescas, extrapolando os círculos fechados e pequenos grupos. Como resultado, intelectuais e técnicos da administração públi- ca reúnem-se para estudar os problemas sociais no país, no Parque Na- cional de Itatiaia, formando, assim, o grupo Itatiaia. Desse grupo faziam 71 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S parte Hélio Jaguaribe, Roland Corbisier, Rômulo de Almeida, Cândido Mendes de Almeida, Inácio Rangel e Evaldo Correia Lima. Em 1955, o grupo decide criar uma entidade privada, o ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros. O documentário Um Sonho Intenso, com roteiro de José Ma- riani, e participação de renomados cientistas políticos, economistas e intelectuais brasileiros sobre o período em questão, estendendo-se ao nossos dias. Produzido pelo Centro Internacional Celso Furtado de Po- líticas para o Desenvolvimento. Acesse os links: https://www.youtube.com/watch?v=2JwOKMu- p2rw e http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_S=54 O grupo, agora concentrado no ISEB, compunha o núcleo do pensamento industrial-desenvolvimentista do Brasil, que permeou a po- lítica brasileira de 1954 a 1964. Os intelectuais do ISEB estavam inte- ressados no desenvolvimento do capitalismo brasileiro. A aproximação entre as ideias dos intelectuais do ISEB com a política de Juscelino Kubitschek, que assumira o governo em 1956, prometendo o desenvol- vimento do Brasil de “cinquenta anos em cinco”. Assinaram, também, a ata da fundação do instituto Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Sérgio Milliet, por exemplo. No cenário das ideias políticas do Brasil, Caio Prado Jr. conti- nua sua atuação no partido comunista e na cena política de São Pau- lo, sendo eleito deputado estadual. Na área acadêmica escreve a tese Diretrizes para uma política econômica brasileira e em 1966 publica A Revolução Brasileira, em que critica a tomada do poder pelos milita- res. O livro teve grande repercussão, inclusive rendendo-lhe um prêmio (Prêmio Juca Pato – 1966) e uma prisão, pois, a ditadura considerava-o radical e perigoso. Depois de liberto, Caio Prado Jr. vai aos poucos sain- do da cena política brasileira, morrendo em 1990. Sua principal contribuição para o pensamento político no Brasil é ressaltar a ação da “grande família patriarcal brasileira”, observando, pelo viés marxista, a exploração que privilegiava os proprietários rurais no país. Voltando-se para o passado nacional, esclarece que a história brasileira é feita sem ruptura com a orientação vinda desde a colônia, com o “sentido de colonização”. 72 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Na década de 1950, surge também o nome de Raimundo Fao- ro, que publicou Os Donos do Poder (1958), que teve sugestões de mudança de título pelo escritor gaúcho Érico Veríssimo. Assim, ficaria o título da obra: Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro. O livro teve pouca repercussão no momento da primeira edi- ção, possivelmente em virtude do contexto de otimismo desenvolvimen- tista, que marcou o governo de Juscelino Kubitschek. Já em 1977, com sua segunda edição reformulada e bastante ampliada, o livro conquis- tou a atenção do público, talvez devido ao contexto repressivo instalado pelo Golpe de 1964 e aprofundado nos chamados “anos de chumbo”, após o Ato Institucional n. 5, de 1968. Nele estudará como o patrimonia- lismo se desenvolve no ambiente estatal, ressaltando a subordinação da nação pelo Estado, dessa maneira, propondo uma reforma política,da formação do estado e da nação no Brasil, aos intérpretes-ensaístas das décadas de 1920 e 1930. Já a “nova” ciên- cia política brasileira, passa a ser aquela produzida no meio acadêmico. Essa divisão, segundo Lynch, se dá quando o pensamento po- lítico brasileiro passa a ser institucionalizado, fazendo parte das grades dos cursos das universidades brasileiras, tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação, a partir da década de 1970. Para os propósi- tos deste curso foi delimitada a observação ao período anterior a essa institucionalização acadêmica, cobrindo pouco mais de um século de produção que procurou compreender o Brasil como formação histórica, social, cultural e política própria. Esse olhar sobre a produção passada e seu contexto visa elucidar o processo que desencadeou a formação de um pensamento político brasileiro,examinando em profundidade as interações e apro- priações, mudanças e permanências da circulação das ideias políticas europeias no Brasil. Assim, verifica-se que no cerne do pensamento político brasileiro estão ativas ramificações ibéricas e medievais tanto quanto a essência da modernidade. A partir dessa observação é possí- vel identificar tanto as aproximações e distanciamentos do pensamento político clássico ocidental quanto a sua originalidade em relação a ele. 12 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S O pensamento político como objeto de estudo pode ser enten- dido, num sentido amplo, como um conjunto de escritos de cunho ideo- lógico, que representam a cultura política. Num sentido estrito, conside- ra-se um conjunto de obras de fôlego e sistematizadas, que descrevem e almejam intervir na realidade política com maior fidelidade e que for- mam um cânone. No Brasil, destacam-se como obras do pensamento político aquelas que fizeram parte da “velha ciência política”, elaborada antes de sua institucionalização universitária. Assim, antes de ser uma disciplina, o pensamento político, no Brasil, pode ser entendido como o estudo dos fenômenos e das estruturas políticas, sistematizados e apoiados por argumentos racionais estruturados em textos. A cultura política brasileira é composta por discursos, cuja intenção foi interpretar a realidade de determinada época e formados ORIGENS DO PENSAMENTO POLÍTICO BRASILEIRO 12 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 13 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S pelos mais diversos gêneros textuais, como por “opúsculos, panfletos, cartas, artigos de jornal ou de, tratados manuais, ensaios, dicionários, dissertações, sermões, poemas, músicas, discursos, livros e artigos”, que tiveram a finalidade de estudar os aspectos políticos e sociais im- portantes da sociedade brasileira (LYNCH, 2016, p. 82). De acordo com os cientistas políticos brasileiros contemporâ- neos, Christian E. C. Lynch e Bernardo Ricupero, a formação do quadro de obras que compõem o corpus do pensamento político brasileiro teve início a partir da metade do século XIX. É com os políticos do império, que estudavam e dialogavam com as ideias, as instituições e práticas vindas de países como França, Inglaterra e Estados Unidos, que pode-se pensar no início do desenvolvimento de um pensamento político brasileiro. Assim, mais uma vez, os ideais iluministas atravessaram o Atlântico, juntamente com a perspectiva liberal das formas de governo presente nas obras de Montesquieu, Edmund Burke, Benjamin Cons- tant e Alexis de Tocqueville nortearam os textos dos estadistas do Im- pério. Todavia, apesar de concordarem com “a marcha da civilização”, entre eles existiam desentendimentos quanto à adequação de determi- nado tipo de ciência política que convinha agregar à situação brasileira. De um lado, os liberais partiam de uma direção idealista, cosmopolita e moralista, que considerava a ciência política um conjunto de regras rígidas, universais. De outro lado, os conservadores tendiam para uma abordagem realista, separando moral e política, e movendo-se de acor- do com as circunstâncias e experiências. Essa divisão entre ideias liberais e conservadoras já fazia parte do cenário político brasileiro durante a instalação do império e foi arti- culadora dos principais debates em torno da centralização ou do fede- ralismo, da coexistência da escravidão sob a defesa do liberalismo, do movimento abolicionista, e na origem dos primeiros partidos políticos, bem como no próprio processo de transição para o regime republicano. Irá aprofundar-se, no século XX, modificada na forma de debates em torno das forças do atraso e da modernização, do ruralismo e da indus- trialização, do mundo rural e o urbano, dentre outros tantos campos de tensão e disputa que ora explicitam ora escondem a feição autoritária constitutiva do estado brasileiro. A Associação Brasileira de Ciência Política – ABCP, fundada em 1996, tem uma página na internet que contém dados importantes 14 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S para adquirir informações a respeito das ciências políticas no Brasil, tanto no passado, como na contemporaneidade, além de apresentar au- tores e professores que estão empenhados na preservação e na cons- trução da memória política do país. ACESSE O LINK: https://cienciapolitica.org.br/index.php/ O Surgimento de um Pesamento Político no Brasil: José Bonifácio. A Época das Luzes, no Brasil, inicia-se com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, deslocamento inédito na história moderna, motivado pela expansão napoleônica rumo à pe- nínsula ibéria com objetivo de criar um bloqueio continental à Inglaterra. Escoltado pela esquadra inglesa, a corte portuguesa se instala no Rio de Janeiro, provocando profundas e irreversíveis transformações. Dentre elas, a abertura dos portos ao comércio com as nações “amigas” – especialmente a Inglaterra – promove o fim do pacto de dominação co- lonial. Em breve, o próprio status da porção portuguesa na América seria alterado. O próprio processo de independência deve muito às mudanças iniciadas com a transferência da sede do império português para o Rio de Janeiro, promovendo o fortalecimento de uma pequena elite local atrela- da ao comércio estimulado pela abertura dos portos. Forma-se, portanto, em 1815, o Reino Unido de Portugal, Bra- sil e Algarves, que equilibrava o conservadorismo com o liberalismo po- lítico. Nessa época, houve um choque entre a sociedade colonial e a vinda de, não somente portugueses, mas muitos estrangeiros, que con- tribuíram significantemente para o desenvolvimento cultural do Brasil. Exploradores como Johann Baptist von Spix (1781- 1826) e Karl Friedrich von Martius (1794 – 1868), os músicos como Marcos Por- tugal (1762- 1830) e o padre José Maurício Nunes Garcia (1767- 1830) e os pintores Jean-Baptiste Debret (1768-1824) e Nicolas-Antoine Taunay (1755- 1830), são alguns dos importantes personagens que aportaram nesse momento no Brasil, incrementando decisivamente sua cultura. O Senado Federal possui em sua Biblioteca Digital um acervo considerável sobre tratados políticos do Brasil. Nele podemos consultar 15 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S a obra de maior importância para o assunto que estamos estudando, do estadista José Bonifácio: Representação à Assembleia Geral Consti- tuinte e Legislativa do Império do Brasil, de 1923. Confira o link abaixo. Documentários sobre o assunto: - 1808 A Corte no Brasil, 2009 (Globo News). Série documen- tal, dividida em 12 episódios: 1- A fuga dos reis 2- Nobreza e política 3- Um reino sem rei 4- A travessia 5- A chegada à Bahia 6- O desembarque no Riopara libertar a sociedade dessa opressão. Com a publicação de A Economia Brasileira, Celso Furtado re- velou uma nova maneira de pensar o país e contribuiu com uma pala- vra-chave subdesenvolvimento, a fim de adequar os problemas da so- ciedade brasileira da época. O subdesenvolvimento, no sentido exposto por Furtado, seria um estágio de desenvolvimento do capitalismo em sociedades como a brasileira, que adveio de um sistema colonial, em que se destacam a estrutura agrária arcaica, a monocultura exportadora e o capitalismo internacional, as desigualdades nas relações de traba- lho e a dualidade da estrutura produtiva nacional. Para o economista, a situação de subdesenvolvimento brasileiro somente poderia ser ultra- passada se o Estado realizasse reformas básicas, como: agrária, fiscal, bancária, urbana, tributária, administrativa, universitária. Furtado chefiou o Grupo Misto Cepal – BNDS em 1954 e 1955, elaborando um plano de desenvolvimento para 1955-62, que pretendia a aplicação da técnica de programação da Cepal. Liderou, ainda, a for- mação do Clube dos Economistas e da Revista Econômica Brasileira. Formava-se, portanto, a base ideológica para o projeto desenvolvimen- tista. Já em 1957-58, lançou uma proposta que resultou na Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, que tinha a inten- ção de desenvolver o nordeste brasileiro. Durante esse período, Celso Furtado escreveu inúmeros arti- gos, sendo Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, o mais importante deles. Até 1964, o trabalho intelectual de Furtado será dedicado ao pen- samento estruturalista, fundando entre os desenvolvimentistas nacio- nalistas brasileiros a compreensão da noção de subdesenvolvimento. A sua linha de argumentação evidencia o conteúdo político do pensamen- to econômico estruturalista, que defende a liderança do Estado e o pla- nejamento econômico; a limitação do capital estrangeiro e emancipação 73 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S nacional por meio da ação do Estado. Além de estruturalista, Celso Furtado era ainda adepto da teoria de John Maynard Keynes. O kenesianismo de Furtado “consistia essen- cialmente no fato de que seus estudos estruturalistas estavam recobertos pela noção de que o mercado interno constitui um elemento essencial de dinamização da produção e da renda” (BIELSCHOWSKY, 2000, p. 135). Ademais, de acordo com Ricardo Bielschowsky, sua obra pode ser lida destacando-se alguns aspectos primordiais, quais sejam: a caracterização do subdesenvolvimento como condição da periferia; a indústria como polo dinâmico; a industrialização periférica como pro- cesso de desenvolvimento sem precedente histórico e problemático; teorização sobre inflação e teorização em favor da industrialização, pro- tecionismo e planejamento. Para Furtado era importante implementar políticas voluntaristas de industrialização, que visava a substituição de produtos antes importados por produtos produzidos no Brasil. O Pensamento Político Brasileiro Durante a Ditadura Militar De origem diferente daquelas dos intérpretes do Brasil, Flores- tan Fernandes, não é filho da aristocracia brasileira e sim de “mãe sol- teira”, imigrante e empregada doméstica. Aos nove anos de idade teve que abandonar os estudos para poder sustentar-se e, depois dos 19 anos, já empregado como garçom, completa os estudos em uma escola ao lado do bar onde trabalhava. Logo, ingressaria no curso de ciências sociais pela Universidade de São Paulo – USP, vindo, depois de forma- do, a ser assistente de Fernando Azevedo na cadeira de Sociologia. Torna-se mestre pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo com uma tese sobre os índios tupinambás, em 1947 e, já em 1951, defende sua tese de doutorado na USP, “A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá”. Em 1955, defende sua livre-docência “Ensaio sobre o método funcionalista na sociologia”. No entanto, antes mesmo de finalizar sua tese de doutorado, Florestan é convidado pelo professor Roger Bastide a coordenar, junto com ele, uma pesquisa encomendada pela Unesco, sobre as relações raciais brasileiras. Essa pesquisa chega à conclusão de que não houve uma convivência harmoniosa entre as ra- ças no Brasil. A partir desse momento, sua produção intelectual é voltada para questões relacionadas à evolução da sociedade brasileira. O ápice do trabalho de Florestan Fernandes acontece em 1964, com a defesa de tese de cátedra “A Integração do Negro na Sociedade de classes”, que focalizava São Paulo, o primeiro centro urbano burguês do país. Apesar do sucesso dos trabalhos e dos estudos, que resultaram em 74 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S um centro – Cesit – Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho – o golpe militar e o AI-5 (Ato Institucional Número 5), de 1968 põe fim a sua carreira acadêmica, tendo sido ele aposentado compulsoriamente e o Cesit, extinto. Lilia M. Schwarcz em seu Brasil: Uma Biografia, 2015, expõe-nos as dimensões da repressão, da censura na imprensa, durante o regime militar. Importante lembrar de uma das estratégias dos jornalistas diante da censura com a publicação do Jornal do Brasil: “Em 14 de dezembro de 1968, o Jornal do Brasil, um dos mais importantes matutinos da época, foi às bancas com uma edição cuidadosamente planejada para provocar es- tranheza. Entre as bizarrices, o jornal estampou o aviso: ‘Ontem foi o dia dos Cegos’ e a previsão meteorológica na primeira página. Não satisfeito anunciou: ‘Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos’. O dia era de sol forte e céu escandalosamente azul, mas a edição falava sério: tentava alertar o leitor da presença de censores na redação – naquela madrugada, entrara em funcionamento uma operação militar destinada a censurar toda imprensa nacional” (SCHWARCZ, 2015, p. 455). O golpe de 1964 o impulsiona a escrever A Revolução Bur- guesa no Brasil, obra que foi composta em diferentes momentos: “A primeira e a segunda parte são elaboradas, com base em notas de aula, em 1966, e a terceira parte em 1973, depois de o sociólogo aposentado pelo AI-5 passar alguns anos na Universidade de Toronto” (RICUPE- RO, 2011, p. 188). Revolução Burguesa no Brasil, traz para os estudos político-sociais a noção de polarização, ou polarização dinâmica. Essa noção indicaria a presença, num mesmo objeto, de orientações opostas vivendo em constante tensão. Não houve, no Brasil, uma revolução burguesa, nos moldes da revolução francesa, da guerra civil americana ou da guerra civil inglesa. Para Florestan, a revolução burguesa no Brasil não é de cunho históri- co, mas sim de cunho estrutural, sendo, portanto, “um processo dinâmi- co, que ocorreria de acordo com as diferentes escolhas realizadas pelas agentes humanos no âmbito econômico, social e político” (RICUPERO, 2011, p. 190). Outra diferenciação entre Florestan Fernandes e os “intérpretes do Brasil”, é a escolha de redação de seus textos. Se em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda prevalece o ensaio e uma linguagem literária, 75 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S que seduz e atrai, conferindo liberdade ao escritor, em Florestan a lingua- gem é difícil, exata naquilo que quer dizer, pois, trata-se de uma monografia sociológica. Essa característica não é casual, ela está de acordo com a necessidade do autor de implantar a disciplina de ciências sociais no país. No que tange ao termo polarização, em sua obra, trata-se da capacidade da burguesia brasileira em abrir espaços para polarizações, ou seja, para o surgimento de novas forças sociais, não só em seu interior (classes bur- guesas), mas também em seu exterior (trabalhadores industriais). Durante o regime militar, foram criadosatos institucionais, que eram “normas de natureza constitucional expedidas entre 1964 e 1969 pelos governos militares que se sucederam após a deposição de João Goulart em 31 de março de 1964. Ao todo foram promulgados 17 atos institucionais, que, regulamentados por 104 atos complementares, con- feriram um alto grau de centralização à administração e à política do país”. O AI-5 foi o ato que marcou a maior truculência e o fechamento do regime, “logo após a edição do AI-5, foram presos diversos jornalistas e políticos que haviam manifestado sua oposição ao governo dentro ou fora do Congresso. Entre eles incluíram-se o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e ex-governador Carlos Lacerda e vários deputados fede- rais e estaduais da Arena ou do MDB”. Acesse o link: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/ver- bete-tematico/atos-institucionais Raimundo Faoro, apesar de ter publicado Os Donos do Po- der em 1958, somente sua segunda edição, modificada e publicada em 1975, ganhará a atenção do público. Para o autor, desde a colonização, uma única estrutura político-social prevaleceu no Brasil: o patrimonialis- mo estatal. Assim, “a principal característica do capitalismo do Estado patrimonial foi a predominância do quadro administrativo junto ao foco superior de poder: o estamento que evoluiu de aristocrático para buro- crático” (SOUZA, 1999, p. 354). Tendo como base referências da obra de Weber, Faoro irá re- construir, em Os Donos do Poder, a história de Portugal e do Brasil, res- saltando a subordinação da sociedade ao Estado, direcionando a sua interpretação do Brasil à conclusão do peso sufocante do estado sobre a sociedade. Apesar de Sérgio Buarque de Holanda também partir das análises weberianas, as teses de ambos são opostas. A forma como 76 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Os Donos do Poder interpreta o patrimonialismo não importa-se com o ambiente doméstico, onde se desenvolve o patriarcalismo, mas no ambiente estatal, no qual relaciona-se o patrimonialismo. Ainda, para o autor existiria, no Brasil, a oposição entre Estado e nação e esse dualismo estaria no choque entre duas ideologias opostas: liberalismo e centralismo. Justamente pelo fato de encarar dessa manei- ra o estado e a nação, Os Donos do Poder, não oferece um programa político como as demais interpretações do Brasil, aliás, a sua visão é de desesperança, tanto para a política quanto para a sociedade brasileiras. 77 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS Questão 1 (Uespi) Sob a presidência de Juscelino Kubitschek (1955- 1961), a nação brasileira assistiu à criação de Brasília, – considera- da, pela UNESCO, patrimônio cultural da humanidade – e vivenciou: a) momentos de euforia resultantes, em boa parte, da política desen- volvimentista de incremento à indústria nacional e aumento do poder aquisitivo da classe média. b) importante papel político para a aproximação dos países da América Latina com os Estados Unidos, em vista da estratégica posição do Bra- sil no Atlântico Sul. c) época de forte repressão política ao operariado e descaso para com a interiorização do desenvolvimento econômico. d) um período predominantemente liberal, em termos econômicos, o que pode ser exemplificado pelo início da construção da Companhia Siderúrgica Nacional. e) uma forte recessão econômica em que a indústria nacional não deu sinais de crescimento e o poder aquisitivo da classe média caiu. Questão 2 (Unesp) Leia o trecho da música abaixo: “Bossa nova é ser presidente desta terra descoberta por Cabral. Para tanto basta ser tão simplesmente: simpático, risonho, original. Depois desfrutar da maravilha de ser o presidente do Brasil, voar da Velhacap pra Brasília, ver Alvorada e voar de volta ao Rio. Voar, voar, voar. (Juca Chaves apud Isabel Lustosa. Histórias de presidentes, 2008.) A canção Presidente bossa-nova, escrita no final dos anos 1950, brinca com a figura do presidente Juscelino Kubitschek. Ela pode ser interpretada como a: a) representação de um Brasil moderno, manifestado na construção da nova capital e na busca de novos valores e formas de expressão cultural. b) celebração dos novos meios de transporte, pois Kubitschek foi o primei- ro presidente do Brasil a utilizar aviões nos seus deslocamentos internos. c) rejeição à transferência da capital para o Planalto Central, pois o Rio de Janeiro continuava a ser o centro financeiro do país. d) crítica violenta ao populismo que caracterizou a política brasileira du- rante todo o período republicano. e) recusa da atuação política de Kubitschek, que permitia participação 78 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S popular direta nas principais decisões governamentais. Questão 3 JK — Você agora tem automóvel brasileiro, para correr em estradas pavimentadas com asfalto brasileiro, com gazolina brasileira. Quer mais quer? JECA — Um prato de feijão brasileiro, seu doutô! THÉO. In: LEMOS, R. (Org.). Uma história do Brasil através da ca- ricatura (1840-2001). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expres- sões, 2001. A charge ironiza a política desenvolvimentista do governo Jusceli- no Kubitschek, ao: a) evidenciar que o incremento da malha viária diminuiu as desigualda- des regionais do país. b) destacar que a modernização das indústrias dinamizou a produção de alimentos para o mercado interno. c) enfatizar que o crescimento econômico implicou aumento das contra- dições socioespaciais. d) ressaltar que o investimento no setor de bens duráveis incrementou os salários de trabalhadores. e) mostrar que a ocupação de regiões interioranas abriu frente de traba- lho para a população local. Questão 4 (FUVEST-SP/2002). “Na presidência da República, em regime que atribui ampla autoridade e poder pessoal ao chefe de governo, o Sr. João Goulart constituir-se-á, sem dúvida alguma, no mais evidente incentivo a todos aqueles que desejam ver o país mergulhado no caos, na anarquia, na luta civil.” (Manifesto dos mi- 79 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S nistros militares à Nação, em 29 de agosto de 1961). Esse Manifesto revela que os militares: a) estavam excluídos de qualquer poder no regime de democracia pre- sidencial. b) eram favoráveis à manutenção do regime democrático e parlamen- tarista. c) justificavam uma possibilidade de intervenção armada em regime de- mocrático. d) apoiavam a interferência externa nas questões de política interna do país. e) eram contrários ao regime socialista implantado pelo presidente em exercício. Questão 5 (Mack-SP/2004) A “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, em março de 1964, na cidade de São Paulo, foi: a) uma demonstração de forças conservadoras de direita contra o que chamavam de esquerdismo e comunismo do governo João Goulart. b) uma manifestação de apoio das famílias de trabalhadores brasileiros ao governo do presidente Goulart. c) uma resposta das massas populares, apoiando as Reformas de Base, após o Comício na Central do Brasil (RJ/março de 1964). d) uma demonstração de repúdio das classes trabalhadoras a uma possí- vel intervenção militar, com apoio norte-americano, ao governo de Goulart. e) uma manifestação, de setores conservadores da sociedade brasilei- ra, de revolta contra a tentativa de se derrubar o governo constitucional. Questão 6 (CEDERJ 2015) Segundo o historiador Carlos Fico, “a abordagem propriamente histórica da ditadura militar é recente. Poderíamos dizer que se trata de uma espécie de movimento de incorporação, pelos historiadores, de temáticas outrora teorizadas quase exclusivamente por cientistas políticos e sociólogos e nar- radas pelos próprios partícipes”. Apesar das distintas interpreta- ções, os historiadorese demais cientistas sociais são unânimes em afirmar que a ditatura militar: a) suspendeu direitos civis conquistados na redemocratização de 1945. b) ampliou os direitos civis, incorporando o direito ao voto dos analfabetos. c) respeitou o livre exercício das atividades acadêmicas dos intelectuais. d) intensificou uma política pacífica de apoio às populações indígenas. QUESTÃO DISSERTATIVA - DISSERTANDO A UNIDADE: (Unicamp-SP/1996) “A palavra revolução tem sido empregada de modo a provocar confusões... No essencial, porém, há pouca confusão quanto 80 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ao seu significado central: sabe-se que a palavra se aplica para designar mudanças drásticas e violentas na estrutura da sociedade.” (FLORES- TAN Fernandes. O que é Revolução. SP: Brasiliense, 1981, p.7 e 8.) Explique por que, segundo o conceito proposto por Florestan Fernan- des, o movimento político de 1964 não foi uma revolução. TREINO INÉDITO A noção de patrimonialismo proposta por Raimundo Faoro, apesar de ser embasada nos estudos do alemão Max Weber, como tam- bém foram os trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda, difere-se desse último porque: a) direcionará a sua interpretação do Brasil à conclusão do peso sufo- cante do estado sobre a sociedade. b) não importa-se com o ambiente doméstico, onde se desenvolve o patriarcalismo, mas com o ambiente estatal, no qual relaciona-se o pa- trimonialismo. c) irá reconstruir, em Os Donos do Poder, a história de Portugal e do Brasil, ressaltando a subordinação da sociedade ao Estado. d) desde a colonização, uma única estrutura político-social prevaleceu no Brasil: o patrimonialismo estatal. e) existiria, no Brasil, a oposição entre Estado e nação e esse dualismo estaria no choque entre duas ideologias opostas. NA MÍDIA [Como Florestan Fernandes ajuda a entender as contradições do capi- talismo hoje] Mayara Paixão Os alunos que viam o professor Florestan Fernandes (1920 - 1995) en- trar em sala de aula com avental branco, como um cientista, durante a década de 1960, na Universidade de São Paulo (USP), talvez não imaginassem a importância que o intelectual teria no país, mesmo duas décadas e meia após sua morte. Sociólogo e deputado federal por duas vezes pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o multifacetado professor Florestan permanece atual e inspirando muitas pessoas. Tamanha a importância de suas formulações sociológicas à época da ditadura ci- vil-militar, que o regime o exilou no ano de 1969. Quando retorna, ele participa ativamente de marcos da história brasileira, como a Assem- bleia Nacional Constituinte, que formulou a Constituição Cidadã (1988). Florestan é um dos principais intelectuais referenciados pela sociologia brasileira, e formulou importantes contribuições sobre o desenvolvimen- to do sistema capitalista no Brasil e a construção do Estado, após o restabelecimento da democracia. O projeto Clube do Livro, da editora 81 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S e livraria Expressão Popular, lançou dois títulos do renomado professor brasileiro em março: Apontamentos sobre a "Teoria do autoritarismo” e Reflexões sobre a construção de um instrumento político. Fonte: Brasil de Fato | São Paulo (SP) Data: 29 de Março de 2019 às 12:38 Leia a notícia na íntegra: https://www.brasildefato.com.br/2019/03/29/ como-florestan-fernandes-ajuda-a-entender-as-contradicoes-do-capita- lismo-hoje/ NA PRÁTICA O Brasil é um país de tradição institucional democrática, influenciado pela Declaração dos Direitos Humanos (França – 1789). Uma das for- mulações mais importantes desse tratado é a ideia de que todos os indivíduos são iguais perante a lei. No entanto, existem diferenças es- truturais arraigadas no Brasil, que se chocam com esse princípio de igualdade de direitos e deveres. Um exemplo disso é a questão racial. O passado escravista impõe à sociedade brasileira contemporânea desigual- dades de ordens econômica, social, cultural e de prestígio social, que dife- rem em muito o princípio de igualdade entre os indivíduos. As diferenças de cor da pele, representam, consequentemente, diferenças econômicas e salariais. Você já examinou essa questão, tomando como base o seu local de trabalho? A partir dos textos lidos sobre o pensamento político brasileiro e a importância crucial da formação da sociedade brasileira, abordada por todos os pensadores políticos expostos na primeira unidade, seria possível identificar as relações entre passado e presente em seu próprio ambiente de trabalho, na escola e na universidade onde estuda. PARA SABER MAIS Filmes sobre o assunto: • Em Busca de Iara – documentário, 2013. Direção: Flávio Frederico • O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias – filme, 2006. Direção: Cao Hamburguer. • Batismo de Sangue – filme, 2007. Direção: Helvécio Ratton. • Zuzu Angel – filme, 2006. Direção: Sérgio Rezende. • Terra em Transe – filme, 1967. Direção: Glauber Rocha. • Jango – documentário, 1984. Direção: Sílvio Tendler. 82 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Foi proposto nesta primeira unidade, o traçar de um percurso possível da Formação do Pensamento Político no Brasil, que vai desde o surgi- mento de tratados dos estadistas do império, até a institucionalização da disciplina nas Ciências Sociais, fazendo parte das grades e currícu- los das Universidades do país. Para que fosse possível delimitar tanto obras e nomes indispensáveis, quanto períodos históricos de maior incidência da produção de um pen- samento dirigido à política nacional, foi necessário recorrer a nomes contemporâneos que desenvolvem críticas substanciosas sobre o as- sunto. Os estudos de Bernardo Ricupero e Christian E. C. Lynch foram indispensáveis para a estruturação das ideias acerca do pensamento político brasileiro expostas nesta unidade. Os autores integram a ABCP – Associação Brasileira de Ciência Política, no Brasil, uma sociedade civil sem fins lucrativos, que importa-se com a preservação e construção da memória política brasileira. Tanto o livro Sete lições sobre as interpretações do Brasil, 2011, de Ricupero, quanto o artigo “Cartografia do pensamento político brasileiro – conceito, histó- ria, abordagens”, 2016, de Lynch, foram imprescindíveis no momento de trabalhar o corpus que forma o cânone do pensamento político brasileiro. O início da unidade coincidiu, obviamente, com o início do desenvolvi- mento desse tipo de pensamento no Brasil. Assim, o primeiro capítulo procurou identificar os movimentos dentro da política nacional que im- pulsionaram essa elaboração intelectual. Com José Bonifácio no início do século XIX, e a sua contribuição decisiva para o processo de eman- cipação política, destacou-se seus projetos para o Brasil que foram, ao mesmo tempo, politicamente conservador, e economicamente e social- mente progressista, embora engolfados pelas reorganizações das for- ças políticas, expondo um dos traços duradouros do pensamento e da prática política brasileira, que é o caráter antidemocrático e reformista de sua elite, e o ideal de integração nacional. A partir da segunda metade do século XIX, em pleno Segundo Reina- do, as disputas entre Liberais e Conservadores movimentava o Impé- rio com ideias e debates que fizeram surgir um vigoroso pensamento reformista em torno da chamada “geração de 1870”, responsável pela crítica da incapacidade política da época imperial, em construir uma civilização nos trópicos. O repertório desse grupo era deliberadamente apontado para projetar a atuação de uma nova elite no poder, sem com isso transformar as estruturas do estado. Em contraste com o movi- mento reformista de 1870, o abolicionismo de Joaquim Nabuco ganhou realce e projeção por décadas, ao criticar a forma como foi conduzida a Abolição, deixando apopulação negra completamente marginalizada 83 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S – observação que dá espessura histórica às reivindicações atuais de reparação da condição dos negros no Brasil. Essas primeiras observações elencadas apresentam o início de uma sé- rie de explicações sobre o Brasil, de maneira sistematizada e almejando intervir na realidade social e política do contexto onde foram produzidas. As décadas seguintes registraram ímpeto ainda maior, motivado pela mudança de regime político e sua necessidade de afirmação. Na década de 1920, o autoritarismo, as identidades do Brasil, os movimen- tos e pensamentos de esquerda formaram um grande amálgama, estabe- lecendo bases para novas formulações, projetos e críticas do pensamento político brasileiro. O nome de Oliveira Vianna destaca-se nesse momento, com a publicação da obra Populações Meridionais do Brasil, 1922. Recor- rendo às teorias positivistas de Taine, até certo ponto deterministas, ele irá centrar-se na heterogeneidade populacional da sociedade brasileira. Essa década viu fortalecer-se também, o pensamento de esquerda no Brasil. Líderes operários e sindicais começaram a defender a criação de um partido político, sendo fundado o PCB – Partido Comunista Brasilei- ro. Assim, introduzia-se a classe operária, trabalhadora, no jogo político formal. No entanto, os movimentos de esquerda foram fortemente e vio- lentamente reprimidos. A partir de 1930 constitui um marco incontornável na formação do esta- do nacional brasileiro capitaneado pelas transformações durante a cha- mada “Era Vargas” – muito do que conhecemos hoje como “caracterís- tico” do Brasil foi definido nessa época. Momento onde o ensaísmo foi o grande recurso explicativo e interpretativo do passado e do presente do país, ganhando destaque no cenário do pensamento social e políti- co brasileiro nomes como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, dentre outros. Foram realçados os traços herdados do período colonial como constituido- res das especificidades política, social, econômica e cultural brasileira, tais como a difícil relação entre público e privado, sempre vincada pelo perso- nalismo, patriarcalismo e patrimonialismo, pela mestiçagem, pela econo- mia agrário-exportadora, de difícil superação para a modernização do país. Perseguir um Brasil moderno será o mote de gerações de intelectuais e políticos sob diferentes espectros políticos. O elitismo vindo da formação imperial estabeleceu um padrão de mudanças pelo alto, pactuadas pelos interesses específicos que conformaram, e por vezes, confrontaram os ideais nacionalistas, do desenvolvimentismo associado ao capital privado e internacional ao “entreguismo” das décadas de 1960 e 1970, sob o alinha- mento ideológico com o bloco liderado pelos EUA durante a Guerra Fria. A produção intelectual desse momento oscilou entre textos explicati- vos e de intervenção política e as chamadas monografias acadêmicas, 84 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S já conformadas aos padrões de produção científica das universidades brasileiras. Os destaques dessa geração encontram-se no pensamento de Celso Furtado e no de Florestan Fernandes. O primeiro atuante no campo da economia, preocupado com a superação do subdesenvolvi- mento brasileiro, o segundo destacado intelectual militante pelas cau- sas sociais e integração dos grupos marginalizados aos direitos básicos da cidadania e a crítica ao estado burguês, que promovia e alargava o fosso entre as classes sociais no Brasil. Essa trajetória é uma dentre várias possíveis ao se investigar e buscar compreender a formação do pensamento político brasileiro, destacando algumas das ideias e temas caros ao funcionamento do campo político no Brasil, com forte peso no caráter reformista e elitista, promovedor de mudanças pactuadas e autoritárias, que mantiveram as classes popula- res alijadas de seus direitos básicos de cidadania. 85 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S GABARITOS CAPÍTULO 01 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 B B D E C 6 E QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA a) O pai (branco) à frente dos demais membros da família simboliza a autoridade e o poder dos homens sobre as mulheres na sociedade da época. O lugar ocupado pela dona de casa (branca) na fila, atrás dos filhos - fossem esses meninos ou meninas - e à frente dos escravos, evidencia, respectivamente, seu papel de mãe dos filhos do marido e de administradora de um lar extenso. A mulher branca exercia, portanto, o domínio sobre os escravos e as escravas no espaço da casa. As redes de poder e hierarquia envolvendo a própria comunidade negra também são perceptíveis na imagem: os escravos(as) que aparecem com melhores vestimentas provavelmente desfrutavam de uma posição vantajosa em relação aos seus pares na hierarquia social. Os pés descalços marcam a condição de escravo, diferenciando-os dos libertos e dos livres. b) O governo de D. João VI proporcionou uma série de melhorias na cida- de do Rio de Janeiro e beneficiou os grandes proprietários e comercian- tes das capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais que, por estarem próximos da Corte, desfrutavam de privilégios, proteção e prestí- gio social. A política joanina gerou um aumento significativo dos impostos para a manutenção da Corte na cidade do Rio de Janeiro, que passou a ser identificada como "nova Lisboa", sobretudo por aqueles que habi- tavam as demais regiões do Brasil. Comentava-se que o Rio de Janei- ro passara a sediar grupos que defendiam os interesses "portugueses" oprimindo os "brasileiros" do restante do país. Sendo assim, o domínio político da colônia passara de Lisboa para o Rio de Janeiro. A Revolução Pernambucana de 1817 constitui um exemplo de tal insatisfação. TREINO INÉDITO Gabarito: E 86 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 02 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 C E C E A 6 B QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA a) A "política do café com leite", surgida no governo do presidente Cam- pos Sales, foi uma política de revezamento do poder nacional execu- tada na República Velha pelos estados de São Paulo - mais poderoso economicamente, principalmente devido à produção de café - e Minas Gerais - maior polo eleitoral do país da época e produtor de leite. b) A "política do café com leite" foi quebrada quando o então presidente paulista Washington Luís apoiou a candidatura do também paulista Jú- lio Prestes, o que desagradou a elite mineira, que se aliou à elite do Rio Grande do Sul, juntamente com a Paraíba, para a criação da Aliança Liberal, dissidência oligárquica que lançaria Getúlio Vargas como can- didato à presidência. Outro fator para a queda desta política foi a Crise de 1929, quando os preços do café brasileiro despencaram no mercado internacional, retirando dos barões do café seu poder político. TREINO INÉDITO Gabarito: B 87 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 03 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 D D E E E 6 E QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA a) A crise da economia mundial, deflagrada em 1929, atingiu em cheio o modelo agroexportador brasileiro sustentado pela comercialização do café no mercado internacional. Imediatamente, grandes compradores como a Europa e os Estados Unidos reduziram sensivelmente os recur- sos destinados à aquisição do café brasileiro. b) Getúlio Vargas foi essencialmente apoiado pelos grandes proprietá- rios de terra que romperam politicamente com a oligarquiapaulista e os tenentes que ocupavam o espaço das grandes cidades brasileiras. Dessa forma, observamos que a Revolução de 1930 foi arquitetada por um conjunto de forças que não defendiam a transformação profunda do cenário político nacional. TREINO INÉDITO Gabarito: B 88 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 04 QUESTÕES DE CONCURSOS 1 2 3 4 5 A A C C A 6 A QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO DE RESPOSTA O movimento de 1964 não pode ser visto como uma revolução, à medi- da que ele não estabelece a inversão da hierarquia social e econômica que se desenvolvia no país naquele período. De fato, observando as ações tomadas pelos militares ao longo das duas décadas que estive- ram no poder, notamos que as ações autoritárias tinham amplo interes- se em preservar as políticas e relações econômicas exploratórias que dominavam a nação. TREINO INÉDITO Gabarito: B 89 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ALONSO, Angela. 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Acesse o link:http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/518681 Ainda, foram criadas escolas e cursos, como o de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro e as faculdades de Direito de São Paulo e Recife. Criou-se, nesse período, o Museu Nacional do Rio de Janei- ro, onde originou-se um laboratório científico. Há também a instalação de uma imprensa, a Imprensa Régia, responsável por publicar obras didáticas de moral, filosofia, poética, dramáticas, mercantis, clínicas e náuticas, bem como traduções de álgebra, mecânica, física, economia política, entre outras publicações. Nesse momento surge a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva, considerado o fundador do Estado Brasileiro. Formado cientista em Coimbra, foi professor dessa Universidade e ainda funcionário do governo de D. Maria I. Designado conselheiro de D. João VI, José Bonifácio foi o primeiro homem público do país a falar da necessidade da civilização dos índios, da abolição do tráfico e da escravatura, da miscigenação das etnias, da expansão do ensino básico e secundário, bem como da instauração de cursos superiores, inclusive de uma universidade (como paulista, ele reivindi- 16 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S cava para São Paulo). Foi também o primeiro a propor a mudança da capital para o interior (WEFFORT, 2006, p. 171). Com José Bonifácio inicia-se, no Brasil, um tipo de pensamento duradouro que se generalizará em torno da indagação das raízes do país, com a finalidade de levantar projetos em prol da construção do Estado Brasileiro. Dessa forma, incentivou o pensamento filosófico, bem como a agricultura como ciência, a química como instrumento para incrementar a agricultura e a necessidade de impulsionar o desenvolvimento da indús- tria e das fábricas. As suas ideias sobre a economia brasileira relaciona- vam-se com a formação e o fortalecimento do Estado no Brasil. A obra de José Bonifácio compreende estudos de mineralo- gia e metalurgia, traduções e poesias, artigos, apontamentos, ensaios, correspondência, notas pessoais importantes que contribuíram para a formação da nacionalidade e cultura brasileiras. Leitor dos clássicos, foi cientista, tradutor, defensor da introdução da vacina, do sistema métri- co, da meteorologia; dedicou-se aos problemas da população brasileira como a língua, a cultura, o voto dos analfabetos, reforma agrária, da indústria, da agricultura, da universidade. Todavia, sua grandeza como estadista está na sua oposição ao tráfico negreiro. Dentre as obras mais destacáveis de José Bonifácio está o es- tudo sobre os índios “Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil”, de 1823. São 44 propostas sendo a primeira de- las, a defesa pelo reconhecimento dos índios como os legítimos senho- res das terras. Nesse tratado, expõe metodologias para a integração do índio, vincadas na educação e participação social do povo indígena. O texto deixado por Bonifácio será retomado pelo Marechal Rondon em 1910, quando inaugura o Serviço de Proteção ao Índio. Outro documento de suma importância para o contributo de José Bonifácio a ciência política brasileira está na sua Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, de 1823. Afirma o estadista na introdução de seu tratado sobre o negro, que os temas da escravidão e do indígena era a questão mais importan- te a ser trabalhada no Brasil. No texto, Bonifácio apresenta 37 artigos que vão desde o prazo para o fim do comércio negreiro até a reorgani- zação da vida social, jurídica, econômica e familiar dos libertos. Na introdução desse estudo estão as mais substanciosas ideias políticas e sociais de Bonifácio. Contrapondo-se aos conserva- dores, após a Independência do Brasil, José Bonifácio denunciará os portugueses pelo comércio de escravos e ainda antecipará a grande questão institucional imposta à política brasileira verificada em sua fala: 17 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Como poderá haver uma Constituição liberal e duradoura em um país con- tinuamente habitado por uma multidão imensa de escravos brutais e inimi- gos? Sem a abolição total do infame tráfico de escravatura africana, e sem a emancipação sucessiva dos atuais cativos, nunca o Brasil firmará a sua independência nacional, e segurará e defenderá a sua liberal Constituição (WEFFORT, 2006, p. 175). Os estadistas geralmente associavam aos estudos jurídicos os estudos científicos, dedicando-se quase que exclusivamente às ciências. No entanto, outra prática a que se dedicavam, era a representativida- de no movimento da Independência, especificamente na Constituinte de 1823, que garantiam direitos individuais como o direito à propriedade e o direito à justiça. Desse modo, concederam à política, nesse momento de formação da nacionalidade, a marca da liberdade, na luta por manter uma unidade no país, assim como um executivo robusto. Essa maneira de pensar a política trazia em seu âmago a marca do despotismo ilustrado. Com as pressões das cortes portuguesas para que a família real bragantina retornasse a Portugal, iniciadas na cidade do Porto em 1820, num movimento de ideais claramente constitucionalistas, conjun- tamente com a coação dos representantes de um liberalismo radical no Brasil, que exigiam reformas para preservar o “Reino Unido”, resultou na solução de admitir D. Pedro I como príncipe regente mantendo-se, provisoriamente, a unidade. De abril de 1821 a setembro de 1822, dá-se o período sob a Regência de D. Pedro I, caracterizado pela definição do processo de emancipação política de Portugal, arranjado, principalmente por José Bonifácio. Logo, a emancipação política resultou na necessidade de for- mação de um novo Estado e da definição de seu sistema político. Em consonância com o contexto internacional que reagia fortemente contra o absolutismo, à manutenção do sistema monárquico foi ajustado ao comprometimento constitucional. A constituinte de 1823 foi anulada por Dom Pedro que outorgou o texto constitucional em 1824, com adequações de inspiração do francês Benjamin Constant para a criação de uma divisão de poderes sui generis: à famosa divisão de Montesquieu (poderes Executivo, Legislativo e Judici- ário) foi introduzido um quarto poder: o Moderador, de uso exclusivo do mo- narca que lhe dava atribuições de veto sobre os demais. Em outras pala- vras, as feições absolutistas permearam a primeira constituição brasileira. Apesar de a Carta Magna ser tributária do liberalismo, a manu- tenção do trabalho escravo limitou consideravelmente as reformas de cunho liberal, ficando a liberdade e a cidadania restritas aos homens livres. No entanto, manteve-se a ligação entre Estado e Igreja Católica, também corroborando para limitar a liberdade dos cidadãos. Assim, o 18 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S liberalismo à brasileira mantinha marcas liberais concorrendo com os aspectos ainda coloniais. Nos primeiros anos do Império não haviam partidos políticos, mas apenas grupos de opiniões, partilha entre cidadãos de determinados pontos de vista políticos, como os republicanos, absolutistas e liberais. Os primeiros partidos políticos brasileiros formaram-se entre as décadas de 1830 a 1840, entre a crise da abdicação de D. Pedro I e a maioridade de D. Pedro II, conhecido como Período Regencial. No entanto, somente durante o Segundo Reinado esses partidos se consolidam em torno de dois grandes grupos: os “Liberais” e os “Conservadores”,e na década de 1870 surge uma nova força política ligada ao Partido Republicano. Esses partidos, que agrupavam a elite política da época, eram principalmente compostos de grandes proprietários rurais e comerciantes urbanos, que ocupavam postos de vereadores, deputados, senadores, presidentes de províncias, ministros de estados mais auxiliares e correligio- nários, sendo a política, portanto, legada aos grupos abastados onde não existia a participação do povo, pois, prevalecia o critério censitário, ou seja, tinha direito ao voto o cidadão possuidor de determinada renda mensal. Surgem a partir desse momento os partidos liberal e conser- vador, também conhecidos como luzias e saquaremas. A origem dos nomes devem-se a acontecimentos históricos relacionados aos liberais em Santa Luzia, em Minas Gerais e aos conservadores em Saquare- ma, no Rio de Janeiro. Os liberais recusavam a Constituição de 1824, acusando o imperador de autoritarismo e levando-os a manifestações e pressões políticas que culminaram com a abdicação de D. Pedro I, e frente à questão da maioridade de D. Pedro II, conseguiram liderar o governo por bastante tempo. Assim, em 1834, lançaram o Ato Constitucional, espécie de re- forma constitucional em que corrigiam-se os excessos autoritários da primeira Constituição, visando a descentralização do poder, reduzindo a força do governo central limitando o alcance do Poder Moderador, esse último dava ao imperador o direito de dissolver o parlamento quando bem entendesse. Os liberais também intervieram na elaboração do Có- digo Penal, de 1831, que inovava com a elaboração de habeas corpus, conferindo autonomia aos juízes em detrimento da autoridade policial. Já os conservadores, mantinham-se adeptos do centralismo monárquico, e em meados de 1830, conseguiram a aprovação de re- formas que visavam desfazer as medidas descentralizadoras adotadas pelos liberais, anulando os efeitos do Ato Adicional. Volta-se, dessa ma- neira, a um período de retorno ao conservadorismo e centralização de poder. Porém, os liberais ainda tentaram deter o regresso antecipando a posse de D. Pedro II, proclamando a sua maioridade em 1840. A opo- 19 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S sição entre os dois partidos dominou até o final do Império, com foco na centralização versus descentralização do poder. O jogo político que surge com a formação do estado brasileiro teve na figura de José Bonifácio seu grande autor. A composição dos grupos de interesse – oligarquias rurais e grandes comerciantes – aos poucos foram criando agendas próprias distanciando-se das proposi- ções de Bonifácio logo após do processo de independência. De acordo com Emília Viotti da Costa, o conflito entre esses poderes é o conflito fundamental do Primeiro Reinado: a dissolução da assembleia cons- tituinte de 1823, por Dom Pedro, marca a vitória do imperador sobre as forças locais, e o insucesso vem com a vitória das oligarquias que resulta na sua Abdicação, em 7 de abril de 1831 (COSTA, 1999, p. 83). José Bonifácio, antagonista dos chamados “radicais”, também perdeu o apoio dos proprietários de terras e dos altos comerciantes. Sua postura e suas ideias tornaram-se refratárias aos interesses des- ses grupos que se reorganizavam no interior do nascente estado brasi- leiro, procurando manter ou ampliar seus privilégios. O desprezo pelos títulos de nobreza, a política de terras, o anticlericalismo e a atitude de livre-pensador, as ideias avançadas para o tempo e o país, relativa às mulheres1, e principalmente sua opinião favorável à emancipação dos escravos promoveu o apoio aos grupos conservadores. Assim, foi ata- cado pelos liberais por assumir a perspectiva conservadora e pelos con- servadores por seus projetos de transformação social, como demons- trou Emília Viotti da Costa(COSTA, 1999, p. 91). Mesmo o caráter aparentemente contraditório de seu projeto para o país – politicamente conservador, mas avançado no nível eco- nômico e social – teve importante papel para implementar no interior da sociedade brasileira um liberalismo antidemocrático, na secular descon- fiança das transformações radicais e preferência pelas medidas refor- mistas e no ideal de integração nacional que percorrerá longo itinerário dentro do pensamento político brasileiro ao longo do século XX. Joaquim Nabuco e a Geração de 1870 Por meio da contextualização de algumas das principais ideias de José Bonifácio e da reação a elas durante o processo de acomodação dos interesses das elites durante o Primeiro Reinado, tivemos a constru- 1“Por que motivos as mulheres devem obedecer às leis feitas sem sua participação e consentimen- to?” (BONIFÁCIO, 1823 apud COSTA, 1999, p. 83) 20 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ção de dois grandes blocos políticos unidos em torno dos partidos Liberal e Conservador, também conhecidos como Luzias e Saquaremas. Foi durante o longo reinado de Dom Pedro II (1841 a 1889) que se expressou de maneira mais explícita as disputas e jogos de interes- ses entre esses grupos através da política de conciliação protagonizada pelo imperador, que repercutiu em diversos aspectos das vida social da época, mediados por uma intensa circulação de ideias e produzindo um vigoroso debate político e cultural. Logo nas primeiras décadas do Segundo Reinado houve uma de- cisiva combinação entre política e literatura. Nesse momento, a figura de José de Alencar (1829 – 1877) irá corroborar para a construção de uma interpretação brasileira do Brasil, inspirado nas ideias do também literato e político francês François-Auguste-René de Chateaubriand (1768-1848). É por meio do romance que Alencar inovará na esfera do pro- jeto histórico-cultural brasileiro, no seu O Guarani, 1857.Alencar escreve um romance histórico à maneira de Chateaubriand, porém, a sua grande contribuição foi realizar “uma síntese de espírito conservador, sugerindo imagens dos fundamentos da nacionalidade que, com muitas variantes, persistem no pensamento brasileiro até hoje” (WEFFORT, 2006, p. 193). A visibilidade da produção da literatura de autoria feminina, bem como o destaque de personagens históricas femininas está em ascensão neste momento no Brasil e também no mundo. É importante destacar a figura de Bárbara de Alencar, nascida em Pernambuco em 1760, avó do autor de O Guarani, e sua liderança na política do nordeste brasileiro e na insurreição pernambucana, que acarretou a ela uma prisão, de cariz político. No ano de 2017, foi inaugurada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro uma exposição sobre a Revolução Pernambucana, em que se destacou o vulto de “Dona Bárbara de Alencar”. Sua biografia pode ser lida na obra Bárbara de Alencar,de Ariadne Araújo e uma peça de teatro de José de Carvalho, de 1917, também retrata a vida da pernambucana. Acesse os links: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ bbc/2019/03/08/barbara-de-alencar-a-sertaneja-inimiga-do-rei-que-se- -tornou-a-primeira-presa-politica-do-brasil.htmhttps://www1.folha.uol. com.br/fsp/ilustrad/fq2909200124.htm file:///D:/Documents/systemarepresentativo.pdf 21 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S A importância da obra de José Alencar para a compreensão da ideologia da época está na sua mitologia, que permaneceu nos romances brasileiros até o século XX. Ao colocar no mito do herói indígena uma identidade nacional, forjada na curta história do país, Alencar inaugura o indianismo em prol de uma elite desejosa de uma consciência nacional. Todavia, sua visão romântica só poderia ser construída sem base na realidade do povo brasileiro, retirando, assim, o negro escravi- zado desse passado idílico. Apesar da grande importância d’O Guarani para formar a ideia de passado e tradição brasileiras,a obra de Alencar que mais se aproximou de um ideal teórico por excelência foi O Sistema Representativo, 1868. Nesse texto, Alencar consegue expor “o princípio da representação, base de que decorre toda a constituição do Estado, raiz e tronco da organização política” (ALENCAR, 1868, p. 11). Alencar encontrará um opositor à altura em Joaquim Nabuco, autor de O Abolicionismo, 1883. Enquanto o primeiro mantinha um con- servadorismo escravista, o segundo destacou-se por ser o pensador e o político do tema da abolição da escravatura. É nesse antagonismo que se flagra duas visões da cultura e do Brasil dos meandros do século XIX: o indianismo elitista e conservador e o liberalismo antiescravagista. Joaquim Nabuco, em Um Estadista do Império, (1813-1853), faz uma biografia de seu pai José Thomaz Nabuco de Araújo, magistrado, deputado, senador e ministro do segundo reinado. A sua interpretação dos documentos deixados pelo pai, somados às novas fontes que pes- quisou – discursos parlamentares, documentos do conselho de estado, textos oficiais e oficiosos –, não se abstém da interpretação política que o autor imprime sobre o império. Na visão dele, a “grande política” e a construção do estado nacional deveria realizar-se no Parlamento, lugar do entendimento entre as oligarquias regionais e a burocracia imperial. A obra teve grande repercussão, o que tornou-a um referencial para a história política nacional, um “clássico” da literatura política brasileira. Algumas práticas das instituições imperiais ficaram conhecidas e permane- ceram na memória política do brasileiro, como as “eleições do cacete”, “a lei do corta-cabeças”, o nome popular dos partidos liberais “luzias”, “rapi- nas”, “chimangos”, “cristãos”, “baetas”, praieiros” e conservadores “saqua- remas”, “camundongos”, “caranguejos”, “judeus”, “rasgados”, “guabirus”. O movimento abolicionista uniu grande parte dos intelectuais envolvidos em outros movimentos, como liberais, republicanos, anticle- ricais e, na década de 1880 muitos estudantes da faculdade de direito e engenharia. Destacam-se nomes como André Rebouças, José do Pa- trocínio, Gustavo Romão e Joaquim Serra, dentre outros. Joaquim Na- buco destacou-se como o principal teórico do movimento abolicionista. (SKIDMORE, 2012; CARVALHO, 1998) 22 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Já em O Abolicionismo, 1883, Nabuco expõe suas ideias de reformas, todas a favor do liberalismo: As minhas ideias, que sujeito todas ao meu compromisso abolicionista, vos são conhecidas: constam elas de todos os votos que dei no Parlamento, sem- pre a favor das soluções liberais das questões políticas. Sustento a suprema- cia da Câmara representativa contra a que temos hoje da vitalícia; sou pela descentralização provincial como único meio de mantermos a unidade nacio- nal; pela separação do município neutro da província do Rio; pela imigração espontânea das raças adiantadas contra a subsidiada e a chinesa; pela hones- tidade das transações do Estado contra o papel moeda depreciado e contra o aumento desacreditador da dívida pública (NABUCO, 1884, p. 6-7). Angela Alonso, em “Crítica e Contestação: O Movimento Re- formista da Geração 1870”, propõe uma leitura do início do desenvolvi- mento do pensamento político brasileiro, ocorrido com a chamada “Ge- ração de 1870”, a partir da experiência compartilhada, visto que O nó desaparece se admitirmos que os agentes recorreram a um certo reper- tório por razões práticas, ao invés de atribuir-lhes a intenção de gerar teorias universais. A base de meu argumento é um truísmo sociológico: formas de pensar estão imersas em práticas e redes sociais. Minha proposta é tomar a experiência compartilhada pelos componentes do movimento intelectual como perspectiva analítica (ALONSO, 2000, p. 41). Por muitos anos a leitura desse contexto político concentrou-se na característica “atrasada” ou “periférica” das elites brasileiras, que es- truturaram o pensamento político da época, de acordo com empréstimos de ideias estrangeiras, assumindo assim certa subalternidade em relação ao que vinha de fora, construindo a partir dessa inferioridade, o pensa- mento político e social brasileiro” (ALONSO, p. 36). No entanto, apesar das releituras dos autores estrangeiros gerar uma aparente descontinui- dade no pensamento político nacional, não se pode afirmá-la, visto que há continuidade, se ela for verificada nos seus aspectos endógenos. Dessa maneira, a autora relativiza as análises feitas há mais de um século a respeito dessa geração, que, habitualmente, a classificam como imitadora de correntes intelectuais europeias – cientificismo, posi- tivismo, liberalismo, spencerianismo, darwinismo social– e que deixava a realidade nacional em segundo plano, ignorando problemas essen- ciais como a escravidão. Conjugando a experiência social e os textos produzidos pela Geração de 1870, Alonso chega a uma complementa- riedade entre os textos e as formas de ação, pois, não havia distinção, no Império, entre manifestação intelectual e política (ALONSO, 2002). Composto por segmentos heterogêneos da sociedade, o grupo 23 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S que formou a Geração de 1870, manifestava-se contra o status quo im- perial fragilizado e que já não atendia mais os interesses da multiplicidade de grupos que pressionavam o imperador. Dessa maneira, o cientificis- mo, o positivismo são recursos utilizados para criticar o império e as obras produzidas, resultantes dos debates políticos desse grupo, são formas de intervenção política a favor de reformas estruturais, classificando-se como um movimento reformista. Foi a partir das estratégias de ação, que o reformismo perseguiu modelos para as suas práticas, assim, surge o embasamento nas ideias do abolicionismo americano, das pró-reformas eleitorais da Inglaterra e dos republicanismos francês e português. O Manifesto Republicano, data de 1870, no Rio de Janeiro, com maioria dos signatários de residência naquela cidade. Todavia, não teve um alcance nacional, mas organizações republicanas surgiram regionalmente, sendo mais fortes em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Todos convergiam a favor da implementação da Re- pública, reagindo contra o centralismo do Estado Imperial. As grandes questões que levantavam estavam relacionadas a fraca representati- vidade dos partidos políticos e a grande corrupção eleitoral. Assim, a palavra central desse movimento foi o federalismo, requerendo que o Brasil fosse composto por uma federação de estados autônomos e in- dependentes do governo federal. Conforme analisou Angela Alonso, o movimento promovido pela geração de 1870, no Brasil, reformista em sua essência, afastou-se dos debates intelectuais europeus do período, onde difundiam-se cone- xões com os ideais socialistas (marxista ou utópico), aderindo ao reper- tório europeu das teorias evolucionárias dirigidas por uma vanguarda ilustrada. Em outras palavras, o movimento questionou a capacidade da elite imperial de efetivar um projeto civilizatório, mas jamais abandonou a distinção entre povo e elite – seria a “nova elite” a responsável por concretizar a construção do Estado e da Nação e a modernização da econômica nacional (ALONSO, 2002, 334). Essa concepção esteve na ordem do dia dos positivistas, que en- cabeçaram a transição para a República, e ressoou décadas à frente, no paternalismo estatal do Estado Novo, o povo sempre visto com desconfian- ça, objeto de controle e das “benesses” das elites, e não sujeitos de direito. Importante ressaltar que nesse quadro, a obra de Nabuco apro- xima-se da crítica ao escravagismo, mas distancia-se do movimento de 1870 por sua proximidade ao imperador e os valores monarquistas. Os reformistas enxergavam dois grandes elementos da herança colonial a serem superados:o escravismo e a monarquia. No entanto, a supe- ração legal de ambas, em 1888 e 1889, pela via pactuada do elitismo reformista reafirmou as críticas de Nabuco, projetando suas ideias para 24 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S os movimentos críticos da condição dos negros após a emancipação. Sendo assim, a conclusão de O abolicionismo previa que a abolição, por não ter vindo acompanhada de medidas que indicassem a respon- sabilidade social dos brancos pela situação degradada dos negros, não trouxe consigo a democratização da ordem social. Nas palavras de Fernando Henrique Cardoso, “desprovidos de recursos mínimos para o exercício da cidadania, os negros passaram de cativos a excluídos, sem oportunidades reais de inserção positiva no processo produtivo” (CARDOSO, 2013, p. 19). Essa é uma condi- ção histórica fundamental para compreender a situação dos negros no Brasil atual, de sua luta pelo acesso à cidadania, objeto privilegiado de inúmeras reflexões no campo das ciências sociais e da historiografia brasileira (FERNANDES, 2008; SKIDMORE, 2012; SCHWARCZ, 1993). Joaquim Nabuco foi um dos criadores da Academia Brasileira de Letras, e seu texto de posse, da cadeira nº 27, do ano de 1897, em que figurava naquela instituição como Secretário Geral, pode ser consultado no site fornecido abaixo. No texto, Nabuco sublinha a relação entre cultura e política, nota-se no fragmento: “Nós não pretendemos matar o literato, no artista, o patriota, porque sem a pátria, sem a nação, não há escritor, e com ela há forçosamente o político. Até hoje, apesar do cristianismo, que trouxe o sentimento de uma comunhão mais vasta, o gênio nada fez fora da pátria ou, pelo menos, contra a pátria. A pátria e a religião são em certo sentido cativeiros irresgatáveis para a imaginação, condições do fiat intelectual. Compreendeis o artista grego que em réplica a Ésquilo esculpisse o Persa? Ou o poeta francês que depois de Sedan cantasse o Alemão? A política, isto é, o sentimento do perigo e da glória, da grandeza ou da queda do país, é uma fonte de inspiração de que se ressente em cada povo a literatura toda de uma época, mas para a política pertencer à literatura e entrar na Academia é preciso que ela não seja o seu próprio objeto; que desapareça na criação que produziu, como o mercúrio nos amálgamas de ouro e prata. Só assim não seríamos um parlamento”. Acesse o link: http://www.academia.org.br/academicos/joa- quim-nabuco Entre Monarquia e República: Euclides da Cunha 25 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S A Primeira República (1889-1930) foi dirigida à moda do Impé- rio, ou seja, governava distante do povo. Os reformistas da geração de 1870 lograram pavimentar o caminho que levou à nova política ao poder à moda antiga. A classe média, por sua vez, era formada por militares, bancários, funcionários públicos e profissionais liberais e o povo pobre só será notado mediante as insurgências. Já nos primeiros anos da Repúbli- ca irrompiam as rebeliões populares de Canudos, na Bahia (1893- 1897), a Revolta da Vacina (1904) e da Chibata (1910), de João Cândido, ambas no Rio de Janeiro, e a do Contestado (1912) entre Paraná e Santa Ca- tarina. Foram anos de intenso embate e contenção as forças populares. Na república, cada unidade (estado) possuía uma constituição própria, harmonizadas com a Constituição da República, de 1891, mas garantindo autonomia aos estados e seus governantes, chamados de pre- sidentes. Havia também duas prerrogativas importantes do poder dos es- tados: os governos estaduais tinham suas forças militares próprias, que ga- rantiam a autonomia estadual frente ao governo federal; podia-se, também, realizar empréstimos no exterior independente da autorização da Repúbli- ca, conseguindo assim, os governantes dos estados, financiamentos para seus projetos, diminuindo a dependência para com a república federal. Após a dissolução das agremiações políticas do período imperial e sua reorganização na primeira república,o ambiente era propício à forma- ção de partidos de forte atuação regional. Cada Estado tinha seu próprio partido republicano (PR), o que facilitou a formação das oligarquias. Assim, os líderes dos partidos eram indicados e dominados por famílias abastadas ou pelos velhos coronéis, senhores das grandes propriedades rurais. Em 1881 houve uma primeira reforma eleitoral, com a chama- da Lei Saraiva que, além do voto censitário exigia a comprovação de al- fabetização do eleitorado, o que afastou ainda mais a população pobre das eleições. Os analfabetos não tinham mais o direito ao voto e houve também a elevação da renda mínima exigida de 100 para 200 mil réis. Além disso, as eleições passaram a ser diretas. Essa lei beneficiava os liberais por valorizar o eleitorado urbano. A eleição por distritos permitia que os grandes centros tivessem seus deputados próprios só votados nas cidades, sem interferência do eleitorado rural. Com essas medidas, pretendia-se tornar o processo eleitoral sem confusões entre os partidos e facções locais. Porém, as novas me- didas não resultaram em processos eleitorais mais tranquilos e sim, foi eficaz apenas na exclusão dos grupos sociais formados pela camada desprivilegiada. Desse modo, esse sistema político só foi possível por- que a esfera rural dominava sobre a urbana e as pessoas influentes eram os donos de terras, sendo a maior parte da população das cama- das pobres, analfabetos que não tinham noções de seus direitos, pois 26 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S para acentuar a falta de participação popular, não havia organizações sociais para pressionar os governantes. Decorrente desse quadro político, criou-se a política dos gover- nadores, que nada mais era do que um acordo entre o Presidente da República e os governadores dos estados, com a intenção de manter a sua estabilidade política. É a partir desse momento que surge a política do café com leite, que demonstra, mediante ironia, a manutenção de dois estados que se revezavam no governo: São Paulo, com os coro- néis do café e Minas Gerias com os coronéis do leite. Eram esses dois estados e estes dois partidos – PRP, Partido Republicano Paulista e o PRM, Partido Republicano Mineiro – que indicavam os governantes. Obra de relevância incontestável surge nesse momento histórico, é Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicada em 1902. O livro conver- teu-se também em exemplo da influência da arte, em especial, da literatura na política. De formação militar, com ideias positivistas, cientificistas e repu- blicano inflexível, Euclides da Cunha foi amigo de Floriano Peixoto, que o promoveu a tenente, oferecendo o cargo de engenheiro na estrada de ferro Central do Brasil. A partir de 1896 começa a publicar seus primeiros artigos no jornal O Estado de São Paulo e logo foi designado pelo jornal a se des- locar numa comitiva com o ministro da guerra para a região de Canudos. “Adstrita às influências que mutuam, em graus variáveis, três elementos étnicos, a gênese das raças mestiças do Brasil é um proble- ma que por muito tempo ainda desafiará o esforço dos melhores espí- ritos. Está apenas delineado”, com essas palavras, Euclides da Cunha inicia o capítulo “O Homem”, d’Os Sertões (CUNHA, São Paulo, 2002, p. 151). Apresentando-se como “narrador sincero” dos fatos ocorridos em Canudos, Euclides informa o leitor sobre a formação do povo bra- sileiro, mediante a sua dramática experiência de conhecimento desse povo durante a guerra. A obra divide-se em capítulos, quais sejam: “A Terra”, “O Homem”, “A Luta”. O autor inicia sua empreitada com a descrição do espaço do pla- nalto central do Brasil: “O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas eabruptas” (CUNHA, 2002, p. 71). Os sertões se apresentam como o resultado do “martírio secular da terra”, que foi desgastada pela ação de agentes externos com o passar dos tempos; sol, seca, chuvas excessivas, que resultam numa “natureza torturada”. Sobre o homem, repousa o estudo mais complexo da obra, é o estudo do homem brasileiro, fruto da mestiçagem. Focalizando no homem sertanejo, Euclides da Cunha observa que é uma “subcategoria étnica já constituída”, e que apesar de “forte e corajoso”, é também “atrasado e su- persticioso”, pois parou no tempo, é fruto do isolamento a que de delegou o sertão do nordeste do país. As características recolhidas da observação 27 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S do homem sertanejo seriam depositadas na figura de Antônio Conselhei- ro, o peregrino que formou a vila de Canudos, no sertão da Bahia. Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, será retratado na obra de maneira que sua descrição vacila entre o emprego de teorias racistas em voga no seu tempo com as observações da realidade vivida em Canudos. Desse lapso resulta a conclusão de Euclides da Cunha de que o sertanejo é a raça brasileira propriamente dita, uma mistura entre os bandeirantes e os índios, em que permanecem somente as maiores qualidades de ambos e de onde o negro é excluído. Torturado entre suas observações reais e a necessidade de enquadrá-las nas teorias e estudos raciais de sua época, o autor inclui em seu livro um “parêntese irritante”. O irritante entre parênteses indica que o branco era tido pelas correntes teóricas formuladas, obviamente, pelos europeus, como a raça superior, fazendo com que o racismo permanecesse e fosse aceito pelo pensamento brasileiro da mesma época. Já a presença do índio, foi uma herança do indianismo, que permitia enaltecer o heroísmo indígena pela reivindicação de ancestrais frente à dominação colonial, projetando um nativismo ou nacionalismo brasileiros, herança do romantismo. A importância da obra euclidiana para o pensamento político brasileiro está nas discussões sobre a fundação da república por meio de um golpe militar e os problemas causados por esse golpe ao novo re- gime. Criticava, ainda, que “o militarismo dos primeiros governos, queria o liberalismo artificial de uma Constituição que as elites civis violentavam por meio de fraudes e manipulações eleitorais” (DUARTE, 1977, p. 29). Euclides da Cunha relativizou a sua posição diante da República após os acontecimentos de Canudos. Para ele a República não conse- guiu compreender que as pregações de Antônio Conselheiro não tinham sequer intenção política. Assim observa Walnice Nogueira Galvão: “Após uma guerra que se revelou ingloriamente como uma chacina de pobres- -diabos, ficou evidente que não houvera conspiração alguma e que este bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação com os mo- narquistas instituídos” (GALVÃO, 1999, p. 167). Na transição da primeira para a segunda República, ou seja, o período em que, cindido pelo movimento de 1930, levou Getúlio Vargas ao poder, destaca-se a figura de Oliveira Vianna. Leitor de Os Sertões, Viana irá dedicar-se à depreensão da particularidade do povo brasileiro, 28 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ressaltando o quão diferente ele é dos demais povos. Para tanto, como jurista, aplicará a distinção entre “direito-lei” e “direito-costume”, que siste- matiza dois modos de ser e duas culturas políticas diversas: uma da elite metropolitana, cujas ideias vinham do exterior e outra das populações ru- rais, representado pelo povo, a massa, com suas tradições centenárias. Em 1997 foi lançado o longa-metragem Guerra de Canudos, dirigido por Sérgio Resende, que teve a intenção de retratar o episódio da história brasileira. Filme: Guerra de Canudos, 1997, Dir. Sérgio Resende. Pela cultura – que na obra de Viana representa “um conjunto objetivo de fatos, signos ou objetos, que, num sistema, se correlacionam a ideias, sentimentos, crenças e atos correspondentes” – será possível, assim, distinguir o Brasil dos países copiados pela elite e quais são as verdadeiras instituições políticas brasileiras. Sua obra Populações Me- ridionais do Brasil, investiga pelo método sociológico, que permitiu “des- vendar a verdade íntima das instituições políticas do direito costumeiro do povo-massa, bem como escancarar seu desacordo com os disposi- tivos constitucionais que o marginalismo jurídico tomara emprestado às nações mais avançadas” (ALMEIDA, 1999, p. 307). A imagem que se criou com a leitura das obras de Oliveira Vianna no desenrolar da crítica sobre o pensamento político brasileiro – autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda fizeram análises de seu escritos – é de um autor racista e autoritário, que ex- pressa o reacionarismo da classe dominante brasileira. A ideia de cultura é essencial para compreender a obra do au- tor, pois, a cultura é sempre cultura de um grupo determinado e ela associa-se à ideia de permanência, os fenômenos culturais são trans- mitidos de geração em geração e é impossível transplantar a cultura de uma sociedade para outra. Para Oliveira Viana, “encarar o direito 29 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S público como um fenômeno cultural requer a identificação daqueles complexos culturais que dão vida às instituições públicas criadas pelo povo-massa” (ALMEIDA, 1999. P. 297). Em síntese, o capítulo procurou demonstrar a gênese do pensa- mento político brasileiro. As características que o singularizam, forjadas nas especificidades da formação histórico-social do país, percorrendo pares ora incompatíveis, ora contemporâneos, mas que corroboraram para o autoritarismo constitutivo do Brasil. Além disso, foi exposto o embate entre republicanos e monar- quistas durante o processo de emancipação política de 1822, a organi- zação política pactuada, mediada pela sagacidade de José Bonifácio, embora ele mesmo tenha sido rapidamente marginalizado pelo embate entre as forças centralizadoras e federalistas. Dentre liberais e conser- vadores, ambos partilharam do elitismo do projeto de estado e de nação que mantinha o povo longe da participação política. A geração de intelectuais comprometidos com as mudanças nos rumos da política imperial de fins do século XIX aderiu ao repertório que melhor ajustava-se aos seus ideais, promovendo um profícuo diá- logo que anestesiava as demandas profundas em prol do reformismo da “nova política” à moda antiga. Os conteúdos progressistas, como as demandas liberais, contribuíram para a manutenção de estruturas colo- niais e projetos reacionários, como o positivismo e tomaram a frente de mudanças estruturais como o abolicionismo. Essas aparentes contradi- ções revelam uma característica crucial para a compreensão do pensa- mento político brasileiro,que é a constante ressignificação das tradições face as razões políticas. Nas palavras de Angela Alonso, “não foram as ideias que buscaram um lugar, foi o lugar que requisitou, demarcou e explicou as ideias” (ALONSO, 2002, p. 339). Entramos no século XX com o rearranjo de forças no campo da política e a necessidade de afirmação do novo regime, com uma agen- da efervescente que explicitou ainda mais a composição autoritária do pensamento e da atuação do estado brasileiro. As batalhas travadas, sejam contra movimentos sociais, ou na forma de conceber o projeto de país, tinham que lidar com novos e importantes atores e ideias, que o fim do escravismo, a imigração em massa e o crescimento urbano impunham ao estado e aos intelectuais. 30 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S QUESTÕES DE CONCURSOS Questão 1 (UFF- 2011) José Bonifácio de Andrada e Silva, homem público e cientista respeitado na Europa, desempenhou papel de- cisivo no processo de emancipação do Brasil. De ideias avança- das, defendeu a extinção do escravismo, a valorização da pequena e da média propriedade, o uso racional dos recursos naturais e a tese pioneira da preservação do meio ambiente. Ele achava que a finalidade última da ciência é contribuir para o bem da humanidade de modo racional e eficiente. As ideias que influenciaram diretamente a formação intelectual e política de José Bonifácio estão contidas no: a) Naturalismo b) Iluminismo c) Renascimento d) Socialismo e) Jacobinismo Questão 2 (PUC-RS 2014) A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, exigiu que o país adotasse um novo texto cons- titucional. Sobre a nova Constituição, aprovada em 1891, podemos afirmar que: a) instituiu uma República Federativa no Brasil, transformando as anti- gas províncias em Estados, mas sem conferir-lhes grande autonomia, pois eles permaneceram dependentes do Governo Federal para prover suas despesas administrativas. b) estabeleceu o direito de voto para todos os cidadãos maiores de 21 anos, entretanto, o contingente de eleitores era restrito, pois estavam excluídos os analfabetos, as mulheres e os mendigos, que constituíam a maioria da população brasileira. c) implementou o regime republicano, com a eleição direta para presiden- te da República, para o Senado e para a Câmara Federal, sendo que os Estados também podiam eleger seus governadores e suas Assembleias Legislativas, mas não podiam dispor de uma constituição própria. d) estabeleceu a separação entre o Estado e a Igreja Católica, mas o catolicismo continuou sendo considerado a religião oficial do país, tendo em vista o receio dos novos dirigentes republicanos de que as religiões protestantes, introduzidas pelos imigrantes europeus, dividissem a po- pulação brasileira. e) aceitou a livre associação e a reunião dos cidadãos brasileiros - exce- to em casos de mobilização sediciosa -, tendo sido, por isso, considera- da uma constituição liberal; mas também mostrou seu lado conservador 31 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S ao não instituir o habeas corpus, por julgá-Io excessivamente perigoso a ordem social. Questão 3 (PUC RJ/2014) “É de lá [dos estados] que se governa a República, por cima das multidões que tumultuam, agitadas, nas ruas da capital da União. A política dos estados [...] é a política nacional.” (Manoel Ferraz Campos Sales. Da propaganda à presidência, 1908). A partir do diagnóstico acima, o presidente Campos Sales (1898- 1902) criou a “Política dos Governadores”, esquema político que deu ao país uma estabilidade de configuração oligárquica. Assinale a opção que resume o funcionamento daquela política: a) Pela Constituição republicana de 1891, as pessoas de baixa renda não tinham direito de voto, sendo, portanto, o congresso nacional com- posto somente por membros das elites e dos sindicatos oficiais. b) A inacessibilidade das camadas populares aos poucos serviços pú- blicos tornava-as dependentes dos chefes locais para o atendimento de suas necessidades básicas, destituindo-as, na prática, da cidadania e, portanto, do exercício do voto. c) A Constituição de 1891 estabeleceu uma tal superposição do executi- vo federal sobre todas as outras instâncias de poder que os municípios e os estados ficaram alijados da política nacional. d) Os executivos estaduais, apoiados pelo executivo federal, garantiam a eleição dos candidatos oficiais graças às suas ligações com o poder local dos “coronéis”, o que estabeleceu uma cadeia nacional de troca de favores. e) A inexistência de uma legislação trabalhista na Primeira República (1898- 1930) afastou os trabalhadores urbanos da vida política, entregando, des- sa forma, o comando do Estado brasileiro aos grandes empresários. Questão 4 (IBMEC RJ/2011) Durante a chamada República Velha (1894-1930) ocorreu uma hegemonia política dos Estados econo- micamente mais fortes e mais populosos, São Paulo e Minas Ge- rais. Para que esta prática fosse viabilizada foi determinante: a) o apoio dos setores militares, que baseiam nesses estados, desde os tempos da monarquia, as suas tropas de elite; b) a adoção do voto secreto, que contribuiu de forma decisiva para o fim do coronelismo; c) a entrada em vigor da Constituição de 1891, estabelecendo o Estado Unitário, privilegiando as unidades federativas mais ricas; d) o compromisso dos tenentes de moralizar a vida pública brasileira combatendo práticas que beneficiavam áreas como o Nordeste, onde era maior a corrupção; 32 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S e) a execução a partir do governo Campos Salles da chamada “Política dos Governadores”, dificultando a ação das forças de oposição. Questão 5 (UNESP SP/2010) Na Primeira República (1889-1930) houve a reprodução de muitos aspectos da estrutura econômica e social constituída nos séculos anteriores. Noutros termos, no final do século XIX e início do XX conviveram, simultaneamente, trans- formações e permanências históricas. (Francisco de Oliveira. Herança econômica do Segundo Império, 1985.) O texto sustenta que a Primeira República brasileira foi caracteri- zada por permanências e mudanças históricas. De maneira geral, o período republicano, iniciado em 1889 e que se estendeu até 1930, foi caracterizado: a) pela predominância dos interesses dos industriais, com a exportação de bens duráveis e de capital. b) por conflitos no campo, com o avanço do movimento de reforma agrária liderado pelos antigos monarquistas. c) pelo poder político da oligarquia rural e pela economia de exportação de produtos primários. d) pela instituição de uma democracia socialista graças à pressão exer- cida pelos operários anarquistas. e) pelo planejamento econômico feito pelo Estado, que protegia os pre- ços dos produtos manufaturados. Questão 6 (ENEM/2011) Completamente analfabeto, ou quase, sem assistência médica, não lendo jornais, nem revistas, nas quais se limita a ver as figuras, o trabalhador rural, a não ser em casos es- porádicos, tem o patrão na conta de benfeitor. No plano político, ele luta com o “coronel” e pelo “coronel”. Aí estão os votos de cabresto, que resultam, em grande parte, da nossa organização econômica rural. LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978 (adaptado). O coronelismo, fenômeno político da Primeira República (1889- 1930), tinha como uma de suas principais características o contro- le do voto, o que limitava, portanto, o exercício da cidadania. Nesse período, esta prática estava vinculada a uma estrutura social: a) igualitária, com um nível satisfatório de distribuição da renda. b) estagnada, com uma relativa harmonia entre as classes. c) tradicional, com a manutenção da escravidão nos engenhos como forma produtiva típica. 33 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S d) ditatorial, perturbada por um constante clima de opressão mantido pelo exército e polícia. e) agrária, marcada pela concentração da terra e do poder político local e regional. QUESTÃO DISSERTATIVA– DISSERTANDO A UNIDADE (PUC/RJ - 2008) A imagem a seguir, do pintor Jean Baptiste Debret, intitulada "Um funcionário do governo sai a passeio com a família", constitui um registro do cotidiano daqueles que habitavam o Rio de Janeiro no tempo do governo joanino (1808-1821). A partir da observação da gravura e de seus conhecimentos sobre o período: a) APRESENTE dois elementos que identificam a posição dos diferen- tes grupos sociais na hierarquia da sociedade da época. JUSTIFIQUE. b) EXPLIQUE por que durante o governo de D. João VI o Rio de Janeiro passou a ser identificado como "nova Lisboa". TREINO INÉDITO “Abramos um parêntese...A mistura de raças mui diversas é, na maioria dos casos, prejudicial. Ante as conclusões do evolucionismo, ainda quando reaja sobre o produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos estigmas da inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso” (CUNHA, 2002, p. 199). O excerto retirado de Os Sertões, de Euclides da Cunha, representa a tentativa do autor de en- quadrar a população brasileira observada no sertão da Bahia com as teorias em voga em sua época. Sobre ela podemos afirmar que: a) visava a compreensão da humanidade pela geografia, pela cultura e pela condição socioeconômica. b) prevalecia a ideia de igualdade racial, apontando diferenças apenas nas regiões geográficas para aspectos sociais, econômicos e políticos. c) pregava a igualdade entre as raças, sem implicar na superioridade do branco sobre o mestiço, favorecendo a expressão da diversidade 34 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S cultural, religiosa, política e social. d) desafiava os princípios religiosos ao mesmo tempo que fazia preva- lecer uma visão pessimista da humanidade, verificado em termos como: degenerescência, taras hereditárias, raças inferiores e superiores. e) colocava no indígena a posição de herói nacional, enaltecendo a mis- tura entre o indígena e o branco como sendo a única resposta à criação da identidade brasileira. NA MÍDIA CARNAVAL 2019: AS HISTÓRIAS DO 'PAÍS QUE NÃO ESTÁ NO RE- TRATO' CANTADAS PELO SAMBA DA MANGUEIRA A Estação Primeira de Mangueira se sagrou vitoriosa no carnaval de 2019 do Rio com sua proposta de contar o "avesso" da história do Brasil - com um samba-enredo que jogou os holofotes do Sambódromo sobre heróis "apagados" da história e sobre as lutas de negros, indígenas e mulheres ao longo dos séculos após o descobrimento.Quando não são destacados nas páginas dos livros de história, essas figuras acabam não sendo popularizados no inconsciente coletivo. Leandro Vieira diz que as escolas de samba sempre exaltaram as narrativas oficiais da história, e estudou os períodos mais retratados no Sambódromo ao lon- go das décadas - o descobrimento, a República, a Independência e a abolição da escravatura. "Fui olhar para o protagonismo popular nesses quatro momentos, mas percebi que era nulo, ausente, e desenvolvi a minha pesquisa histórica em cima disso", afirma.Para historiador e es- pecialista em carnaval Luiz Antônio Simas, o enredo da Mangueira "é da maior relevância" por lançar um olhar crítico sobre a ideia do protagonis- mo histórico e destacar personagens do povo - ligados ao cotidiano de qualquer um - que fizeram parte de lutas históricas. Fonte: BBC News/Brasil Data: 03/03/2019 Leia a notícia na íntegra: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47409435 NA PRÁTICA Vimos que para Oliveira Vianna, a ideia de cultura é essencial, pois, ela é sempre vista como pertencente a um grupo determinado e associa-se à ideia de permanência, os fenômenos culturais são transmitidos de ge- ração em geração e é impossível transplantá-la de uma sociedade para outra. Essa ideia de padrões rígidos pode estar bem próxima de nós. Ao pensarmos em um determinado grupo social, logo o associamos a deter- minado tipo de comportamento. No entanto, aquilo que se passa de ge- ração em geração pode ser questionado, gerando uma desnaturalização daquele costume. Hoje, presenciamos as críticas feitas pelas minorias 35 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S como as mulheres, os negros e a comunidade LGBTQIA, ao que antes era tido como cultural no ocidente, como a domesticidade da mulher, a segregação racial, o preconceito racial ou de gênero, e os estigmas em torno da homosexualidade. Se o conceito de cultura ainda fosse estático como era visto pelo autor, a nossa vida seria regida de acordo com a aco- modação desses padrões culturais. O papel das mulheres, antigamente, na maioria das sociedades ocidentais, por exemplo, estava restrito aos cuidados do lar e dos filhos. Você conseguiria refletir sobre costumes arbitrários que ainda podem estar vinculados em sua vida e que são fruto desse “passar de geração em geração”? Em sua família? Em seu modo de agir em sociedade? Nas suas escolhas diárias? Em sua profissão? PARA SABER MAIS: Filmes e Documentários sobre o assunto: • Guerra de Canudos, 1997, Dir. Sérgio Resende. • 1808 - A Corte no Brasil, 2009. • Caminhos da Independência: O Grito nas Ruas, 2012 (TV Brasil). • Desmundo, 2003. Direção de Alain Fresnot. • Hans Staden, 1999. Direção de Luís Alberto Pereira. • República Guarani, 1981. Documentário. Direção de Silvio Back. 36 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S Mesmo com a mudança de regime político em 1889 e a instau- ração da chamada República Liberal, a configuração dos grupos polí- ticos e sua disposição no campo fez emergir tensões latentes no cor- po social. O Brasil das primeiras décadas do século XX viu crescer as questões sociais, a atuação e os ideais progressistas e libertários que forjavam o nascente operariado junto à industrialização e à imigração. Esses foram tempos de rever conceitos, inclusive, do que seria ser brasileiro. Os movimentos que olharam para trás e buscaram (re) ver no passado particularidades brasileiras e de pensar caminhos mais inclusivo se autônomos, tendo as massas na política. Qual seria o perfil desse quadro que se esboça com a crescente pressão popular e a crise do modelo liberal? Mais uma vez, assim como ocorreu no contexto da geração de A EFERVESCENTE DÉCADA DE 1920 36 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 37 FO R M A Ç Ã O D O P E N SA M E N TO P O LÍ TI C O B R A SI LE IR O - G R U P O P R O M IN A S 1870, haverá um repertório bastante abrangente disponível aos atores políticos, sociais e culturais do início do século XX. A república liberal sofrerá seu fracasso junto à crise do liberalismo mundial do pós-Grande Guerra (1914-1918). Por sua vez, a Revolução Russa (1917) colocará o operariado como protagonista indiscutível dos movimentos de esquerda que terão impulso inédito nos anos seguintes. O Autoritarismo, as identidades do Brasil, os movimentos e os pensamentos de esquerda formaram um grande amalgama nesses efervescentes anos de 1920, lançando as bases para uma nova rodada de formulações, projetos e críticas do pensamento político brasileiro. Pensamento Autoritário: Oliveira Vianna Sob o predomínio da chamada República Liberal que caracteri- zou-se pelo jogo das oligarquias, ganhou corpo o chamado pensamento autoritário, sintomaticamente, um registro avesso ao efervescente cres- cimento das massas na ordem social e da relação dos partidos com o Estado. Esse fato trouxe à tona, para o âmbito do debate político, questões sobre o tempo histórico, sobre as doutrinas políticas, sobre a importância da política para as ciências sociais e ainda indagações so- bre etnia, raça, cultura e nacionalidade. A necessidade de um discurso voltado à criação de símbolos nacionais e de brasilidade teria, portanto, a inevitabilidade de ser proferido por líderes políticos nacionalistas e au- toritários, que passaria a ser característica-chave das figuras políticas e governantes, não só do Brasil. O cientista político, historiador e professor da USP, Boris Faus- to, define em sua obra O Pensamento Nacionalista Autoritário, 2001, o que é o autoritarismo. Para o autor, o autoritarismo é o “produto das condições políticas vigentes no século XX”, caracterizando-se “nega- tivamente por menor investimento em todas as esferas da vida social; pela inexistência de uma simbiose entre Partido e Estado (...) pelas res- trições de mobilização das massas”. Ainda, o autoritarismo é conserva- dor,