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14 FUNDAMENTOS DE ECONOMIA QUESTOES PARA REVISÃO DO 1. Por que os problemas econômicos fundamentais (o quê, quanto, como para quem produzir) originam-se da escassez de recursos de produção? 2. que mostra a curva de possibilidades de produção ou curva de transformação? PENSAMENTO 2 3. uma economia de mercado, observa-se que os fluxos real monetário conjuntamente formam fluxo circular da renda. Explique como esse sistema funciona. ECONÔMICO: 4. Conceitue: bens de capital, bens de consumo, bens intermediários fatores de produção. 5. A Economia é uma ciência não-normativa. Explique. BREVE RETROSPECTO 2.1 Introdução E xiste consenso de que a econômica, de forma sistematizada, iniciou-se quando foi publicada a Adam Smith A riqueza das nações, em 1776. Em períodos anteriores, a atividade econômica do homem tratada e estudada como parte integrante da Filosofia Social, da Moral e da Ética. Nesse sentido, a atividade econômica deveria de acordo com alguns princípios gerais de ética, justiça 1 e Os conceitos de troca, Aristóteles, preço justo, em Santo Tomás de Aquino, a condenação dos juros ou da usura, encontravam sua justificativa em termos morais, não existindo um estudo sistemático das relações econômicas. 2.2 Precursores da teoria econômica 2.2.1 Antigüidade Na Grécia Antiga, as primeiras referências conhecidas à Economia aparecem no trabalho de Aristóteles (384-322 a.C.), que aparentemente foi quem cunhou o termo economia (oikonomía) em seus estudos sobre aspectos de administração privada e sobre finanças públicas. Também encontramos algumas considerações de ordem económica nos escritos de Platão (427-347 a.C.) e de Xenofonte (440-335 a.C.). Roma não deixou nenhum escrito notável na área de Economia. Nos séculos se- guintes, até a época dos descobrimentos, encontramos poucos trabalhos de destaque, mas que não apresentam um padrão e estão permeados de questões referen- tes a justiça e moral. A já citada lei da usura, a moralidade em relação a juros altos que deveria ser um lucro justo são os exemplos mais conhecidos.16 FUNDAMENTOS DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO: BREVE RETROSPECTO 17 2.2.2 Mercantilismo professor quando publicou sua obra A riqueza das nações, 1776. livro é um trata- A partir do século XVI observa-se o nascimento da primeira escola econômica: o do muito abrangente sobre questões econômicas que vão desde as leis do mercado e mercantilismo Apesar de não representar um conjunto técnico homogêneo, o mercanti- aspectos monetários até a distribuição do rendimento da terra, concluindo com um con- lismo tinha algumas preocupações explícitas sobre a acumulação de riquezas de uma junto de recomendações políticas. Continha alguns princípios de como fomentar comércio exterior e entesourar Em sua visão harmônica do mundo real, Smith acreditava que se deixasse atuar a riquezas. acúmulo de metais adquire grande importância, e aparecem relatos mais livre concorrência, uma "mão invisível" levaria a sociedade à perfeição. Adam Smith advo- elaborados sobre a moeda. Considerava-sc que governo de um país seria mais forte e gava a idéia de que todos os agentes cm sua busca de lucrar máximo acabam promo- poderoso quanto maior fosse seu estoque de metais preciosos. Com isso, a política vendo o bcm-estar de a comunidade. É como se uma mão invisível orientasse todas as mercantilista acabou estimulando guerras, exacerbou nacionalismo manteve a pode- decisões da economia, sem necessidade da atuação do Estado. A defesa do mercado como rosa constante presença do Estado em assuntos econômicos. regulador das econômicas de uma nação traria muitos beneficios para a coletivida- de, independentemente da ação do Estado. É princípio do liberalismo. 2.2.3 Fisiocracia Seus argumentos bascavam-se na livre iniciativa, no laissez-faire. Considerava-se No século XVIII, uma escola de pensamento francesa, afisiocracia, elaborou alguns trabalhos importantes. Os fisiocratas sustentavam que a terra a única fonte de riqueza que a causa da riqueza das nações é trabalho humano (a chamada teoria do valor- trabalho) e que um dos fatores decisivos para aumentar a produção é a divisão de traba- que havia uma ordem natural que fazia com que o universo fosse regido por leis natu- lho, isto é, os trabalhadores deveriam especializar-se algumas tarefas. A aplicação rais, absolutas, imutáveis e universais, desejadas pela Providência Divina para a felicidade dos homens. trabalho de maior destaque foi do François Quesnay, autor da obra desse princípio promoveu um aumento da destreza pessoal, economia de tempo e condi- Tableau Économique, o primeiro a dividir a economia em setores, mostrando a relação ções para aperfeiçoamento invento de novas máquinas técnicas. entre cles. Apesar de os trabalhos dos fisiocratas estarem permeados de considerações A idéia de Smith era clara. A produtividade decorre da divisão de trabalho, essa, foi grande sua contribuição à análise Tableau Économique do dr. por sua vez, decorre da tendência inata da troca, que, finalmente, é estimulada pela Quesnay foi aperfciçoado e transformou-se de circulação monetária input- ampliação dos mercados. Assim, é necessário ampliar os as iniciativas priva- output criado no século XX (anos 1940) pelo economista russo, naturalizado norte- das para que a produtividade a riqueza sejam incrementadas. americano, Wassily da Universidade de Para Adam Smith, papel do Estado na economia deveria corresponder apenas à Na verdade, a fisiocracia surgiu como reação ao mercantilismo. A fisiocracia suge- proteção da sociedade contra eventuais ataques à criação à manutenção de obras ria que desnecessária a regulamentação governamental, pois a lei da natureza cra instituições necessárias, mas não à intervenção nas leis de mercado conseqüentemente, suprema, e tudo que fosse contra ela seria derrotado. A função do soberano era servir na prática de intermediário para que as leis da natureza fossem cumpridas. David Ricardo (1772-1823) Para os fisiocratas, a riqueza consistia em bens produzidos com a ajuda da natureza David Ricardo é outro expoente do período clássico. Partindo das idéias de Smith, (fisiocracia significa "regras da natureza") em atividades econômicas como a lavoura, a desenvolveu alguns modelos econômicos com grande potencial analítico. Aprimora a pesca a mineração. Portanto, encorajava-se a agricultura e exigia-se que as pessoas tese de que todos os reduzem custos do trabalho mostra como a acumula- empenhadas no comércio e nas finanças reduzidas número possível. ção do capital, acompanhada de aumentos populacionais, provoca uma da ren- Em um mundo constantemente ameaçado pela falta de alimentos, com excesso de regu- da da terra, até que os rendimentos decrescentes diminuem de tal forma os lucros que a lamentação e intervenção governamental, a situação não se ajustava às necessidades da poupança torna nula, atingindo-se uma economia estacionária, com salários de subsis- expansão S6 a terra tinha capacidade de multiplicar a riqueza. tência e sem nenhum crescimento. Sua análise de distribuição do rendimento da terra foi Como observamos no primeiro capítulo, os organicistas (fisiocratas) associaram um trabalho seminal de muitas das idéias do chamado período neoclássico. da Medicina à Economia (aliás, Quesnay era médico): circulação, fluxos, órgãos, Ricardo discute a renda auferida pelos proprietários de terras mais férteis. Em virtude funções. de a terra ser limitada, quando a terra de menor qualidade é utilizada no cultivo, surge imediatamente a renda sobre de primeira qualidade, ou seja, a renda da terra é 2.2.4 Os clássicos determinada pela produtividade das terras mais pobres. Ricardo analisou por que as Adam Smith (1723-1790) nações negociam entre si, se é melhor para clas comerciarem e quais produtos devem ser Considerado o precursor da moderna teoria econômica, colocada como um conjunto comercializados. A resposta dada por Ricardo a essas questões constitui importante item científico sistematizado, com um corpo teórico próprio, Smith já era um renomado da teoria do comércio internacional, chamada de teoria das vantagens comparativas18 FUNDAMENTOS DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO: BREVE RETROSPECTO 19 (ver item 12.2). comércio entre países dependeria das dotações relativas de fatores de Apesar de ainda existirem muitas aplicações normativas no pensamento clássico, produção. Ricardo, a partir de algumas generalizações usando poucas variáveis estraté- seu tema central pertence à ciência positiva, situando-se interesse primordial na análise gicas, produziu vários dos mais expressivos modelos de toda a história da ciência abstrata das relações econômicas, com a finalidade de descobrir leis gerais regularida- mica, desses derivando importantes implicações políticas. des do comportamento econômico. Os pressupostos morais as sociais A maioria dos estudiosos considera que os estudos de Ricardo deram origem a dessas atividades já não cram mais realçados como no período anterior. duas correntes antagônicas: a corrente por suas abstrações simplificadoras, e a corrente marxista, pela dada à questão distributiva e aos aspectos sociais na. repartição da renda da terra. 2.3 A teoria neoclássica John Stuart Mill (1806-1873) período teve início na década de 1870 até as pri- John Stuart Mill foi o sintetizador do pensamento Seu trabalho foi décadas do século XX. Nesse período, privilegiam-se os aspectos principal texto utilizado para ensino de Economia no fim do período clássico no da teoria, pois a crença na economia de mercado cm sua capacidade auto-reguladora início do período A obra de Stuart Mill consolida exposto por fez com que os econômicos não se preocupassem tanto com a política e o plane- antecessores, avança ao incorporar mais elementos institucionais e ao definir melhor as jamento macroeconômico. restrições, vantagens funcionamento de uma economia de mercado. Os sedimentaram raciocínio matemático explícito inaugurado por Jean-Baptiste Say (1768-1832) Ricardo, procurando isolar os fatos econômicos de outros aspectos da realidade social. economista Say retomou a obra de Adam Smith, amplian- Alfred Marshall (1842-1924) do-a. Subordinou o problema das trocas de mercadorias a sua produção e popularizou a Um grande destaque dessa corrente foi Alfred livro, Princípios de chamada lei de Say: "a oferta cria sua própria procura", ou da produção economia, publicado em 1890, serviu como livro básico até a metade do século XX. transformar-se-ia renda dos trabalhadores que seria gasta na compra Outros importantes foram: William Jevons, Léon Eugene de outras mercadorias e serviços. Joseph Alois Schumpeter, Vilfredo Pareto, Arthur Pigou Francis Edgeworth. Thomas Malthus (1766-1834) Nesse período, a formalização da análise econômica (principalmente a Malthus foi primeiro economista a sistematizar uma tcoria geral sobre a popula- Microeconomia) evoluiu muito. comportamento do consumidor analisado em ção. Ao assinalar que o crescimento da população dependia rigidamente da oferta de profundidade. desejo do consumidor de maximizar sua utilidade (satisfação no consu- alimentos, Malthus deu apoio à teoria dos salários de mo) do produtor de maximizar seu lucro são a base para a elaboração de um sofisti- Para Malthus, a causa de todos os males da sociedade residia no excesso populacio- cado aparato teórico. Com estudo de funções ou curvas de utilidade (que pretendem nal: enquanto a população crescia em progressão geométrica, a produção de alimentos medir o grau de satisfação do consumidor) de produção, considerando restrições de seguia em progressão aritmética. Assim, o potencial de crescimento da população exce- fatores e restrições orçamentárias, é possível deduzir o equilíbrio de mercado. Como esse deria em muito potencial da terra na produção de alimentos. resultado depende basicamente de marginal, custo marginal conccitos que serão discutidos no Capítulo 6 essa corrente também chamada de teoria A capacidade de crescimento da população é dada pelo instinto de reprodução, marginalista. mas encontra um conjunto de obstáculos que a limitam: a miséria, o vício e a conten- ção moral, que atuam sobre a mortalidade e a natalidade. Em função disso, Malthus A análise marginalista é muito rica e variada. Alguns economistas privilegiaram adiamento de casamentos, a limitação voluntária de nascimentos nas famí- alguns aspectos, como a interação de muitos mercados simultancamente equilíbrio lias pobres, e aceitava as guerras como uma solução para interromper crescimento geral de Walras é um caso enquanto outros privilegiaram aspectos de equilíbrio par- cial, usando um instrumental gráfico a caixa de Edgeworth, por exemplo. populacional. Malthus não previu ritmo e o impacto do progresso tecnológico na agricultura, Apesar de as questões ocuparem centro dos estudos cos, houve uma produção rica em outros aspectos da teoria como a teoria do nem as técnicas de controle da natalidade que se seguiriam. desenvolvimento econômico de Schumpeter a tcoria do capital e dos juros de Böhm- A partir da contribuição dos economistas clássicos, a Economia passou a ter um Deve-se destacar também a análise monetária, com a criação da teoria quanti- corpo teórico próprio e a desenvolver um instrumental de análise específico para as ques- tativa da moeda, que relaciona a quantidade de dinheiro com os níveis gerais de ativida- econômicas. de econômica de preços.20. FUNDAMENTOS DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO: BREVE RETROSPECTO 21 2.4 A teoria keynesiana Os monetaristas estão associados à Universidade de Chicago e têm como econo- mista de maior destaque Milton Friedman. Dc mancira geral, privilegiam controle da A cra keynesiana com a publicação da Teoria geral do emprego, dos moeda e um baixo grau de intervenção do juros da moeda, de John Maynard Keynes (1883-1946), em 1936. Muitos autores Os fiscalistas têm seus maiores expoentes em James Tobin (1918-2002), da Univer- descrevem a contribuição de Keynes como a revolução keynesiana, tamanho o impacto sidade de Yale, Paul Anthony Samuelson, de Harvard MIT. Em geral, recomendam de sua obra. uso de políticas fiscais ativas acentuado grau de intervenção do Estado. Keynes ocupou a cátedra que havia sido de Alfred Marshall na Universidade de Os pós-keynesianos explorado outras implicações da obra de Keynes, e pode-se Cambridge. Acadêmico respeitado, Keynes tinha também com as implica- associar a grupo a economista Joan Robinson (1903-1983), cujas idéias afinadas práticas da teoria com as de Keynes. Os pós-keynesianos realizaram uma releitura da obra de Keynes, pro- curando mostrar que clc não papel da moeda da monetária. Para entender o impacto da obra de Keynes, é necessário considerar sua época. Na Enfatizam o papel da especulação financeira c, como Keynes, defendem um papel ativo do década de 1930, a economia mundial atravessava uma crise que ficou conhecida como a Estado na condução da atividade Além de Joan Robinson, outros economistas Grande Depressão. A realidade econômica dos principais países capitalistas cra crítica dessa corrente são Hyman Minsky (1919-1996), Paul Davison Alessandro Vercelli. naquele desemprego na Inglaterra e cm outros países da Europa cra muito grande. Nos Estados Unidos, após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, Cabe destacar apesar das diferenças entre as várias correntes, há consenso número de desempregados assumiu proporções quanto aos pontos fundamentais da teoria, uma vez que todas são bascadas no trabalho de Keynes. A teoria econômica vigente acreditava que tratava de um problema temporário, apesar de a estar durando alguns anos, A teoria geral de Keynes consegue mostrar que a combinação das políticas econômicas adotadas até então não funcionava adequa- 2.5 período recente damente naquele novo contexto econômico, aponta para soluções que poderiam tirar mundo da A econômica vem apresentando algumas transformações, principalmente a Segundo pensamento keynesiano, um dos principais fatores pelo partir dos anos 1970, após as duas crises do características marcam esse volume de emprego é explicado pelo nível de produção nacional de uma economia, período. Primeiro, existe uma consciência maior das limitações e possibilidades de aplicações que, por sua vez, é determinado pela demanda agregada ou Ou seja, sua teoria da teoria. segundo ponto diz respeito ao avanço no empírico da economia. inverte da lei de Say (a oferta cria sua própria procura) ao destacar papel da Finalmente, observamos uma consolidação das contribuições dos períodos anteriores. demanda agregada de bens serviços sobre nível de desenvolvimento da informática um processamento de informações Para Keynes, não existem forças de auto-ajustamento na economia, por isso se volume precisão sem precedentes. A teoria econômica passou a um torna necessária a intervenção do Estado por de uma política de gastos públicos. empírico que the conferiu mais aplicação prática. Por um lado, isso permite um ramento constante da teoria existente; por outro, abre novas frentes teóricas importantes. Tal posicionamento significa fim da crença no laissez-faire como regulador dos fluxos real e da economia e é chamado princípio da demanda Atualmente, a engloba quase todos os aspectos da vida humana, impacto desses estudos na melhoria do padrão de vida do bem-estar da sociedade é Os argumentos de Keynes influenciaram muito a política econômica dos países considerável. controle plancjamento permitem antecipar muitos capitalistas. De modo geral, essas políticas apresentaram resultados positivos nos anos problemas, e evitar algumas flutuações na economia que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. A teoria econômica caminha em muitas direções. Um exemplo é a área de finanças Nesse período, houve desenvolvimento expressivo da teoria Por um empresariais. Até alguns anos atrás, a de finanças cra basicamente descritiva, com lado, incorporaram-se os modelos por meio do instrumental estatístico matemático, baixo empírico. A incorporação de algumas técnicas econométricas, conceitos que ajudou a formalizar ainda mais a ciência econômica. Por outro, alguns economis- de equilíbrio de mercados hipóteses sobre comportamento dos agentes económicos tas trabalharam na esteira de pesquisa aberta pela obra de Kcynes. Debates acabou por revolucioná-la. Essa revolução fez sentir também nos mercados financei- sobre aspectos de seu trabalho duram até hoje, destacando-se três grupos: os ros, com a explosão recente dos chamados mercados futuros de monetaristas, os fiscalistas e os Apesar de nenhum deles ter um pen- samento todos terem pequenas divergências internas, é possível fazer Os mercados analisados no item 11.7. algumas generalizações.22 FUNDAMENTOS DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO: BREVE RETROSPECTO 23 2.6 Abordagens alternativas Os institucionalistas, que têm como grandes expoentes os norte-americanos Thornstein Veblen (1857-1929) e John Kenneth Galbraith, dirigem suas críticas ao alto A teoria econômica tem recebido muitas críticas e abordagens alternativas. Muitas grau de abstração da econômica e ao fato de não incorporar em sua análise as das críticas foram são absorvidas, e algumas abordagens alternativas foram e são incor- instituições sociais daí nome de institucionalistas. poradas. O espectro de críticos é muito amplo e disperso e, evidentemente, heterogê- Rejeitam pressuposto neoclássico de que comportamento humano, na esfera nco. Destacamos os marxistas e os institucionalistas. Em ambas as escolas, critica-se a econômica, seja racionalmente dirigido e resulte do cálculo de ganhos e perdas marginais. abordagem pragmática da ciência econômica propõe-se um enfoque analítico, que Consideram que as decisões econômicas das pessoas refletem muito mais as influências a Economia interage com os fatos históricos e sociais. A análise das questões econômicas das instituições dominantes do desenvolvimento tecnológico. sem a observação dos fatores históricos sociais leva, segundo essas escolas, a uma visão distorcida da realidade. A partir de 1969 foi instituído Prêmio Nobel de Economia consolidou-se a importância da teoria econômica como corpo científico próprio. Os primeiros ganha- Dsmarxistas têm como pilar de seu trabalho a obra capital, de Karl Marx (1818- dores foram Ragnar Frisch (1895-1973) e Jan Tinbergen (1903-1994). Aliás, os econome- 1883), economista alemão que desenvolveu quase todo scu trabalho com Friedrich Engels tristas e economistas que trouxcram contribuição empírica ao conhecimento econômico (1820-1895) na Inglaterra, na segunda metade do século XIX. marxismo desenvolve têm constituído a grande maioria dos agraciados com Nobel de Economia. uma tcoria do valor-trabalho, consegue analisar muitos aspectos da economia com seu referencial A apropriação do excedente produtivo (a mais-valia) pode explicar processo de acumulação a evolução das relações entre classes UESTOES PARA Para Marx, capital aparece com a burguesia, considerada uma classe social que desenvolve após desaparecimento do sistema feudal e que se apropria dos de 1. Em que consistia a riqueza para os mercantilistas para os fisiocratas? produção. A outra classe social, proletariado, é obrigada a vender sua força de traba- 2. Quem foi mais destacado dos economistas clássicos? Quais suas principais lho, dada a impossibilidade de produzir necessário para sobreviver. idéias? da mais-valia utilizado por Marx refere-se à diferença entre valor das 3. O que diz a teoria das vantagens comparativas? Quem foi scu autor? mercadorias que os trabalhadores produzem em dado período de tempo valor da 4. Qual a principal diferença entre a lei de Say princípio keynesiano da de- força de trabalho vendida aos empregadores capitalistas, que a contratam. Os lucros, manda efetiva? juros e aluguéis (rendimentos de propriedades) representam a expressão da mais-valia. Assim sendo, valor que excede valor da força de trabalho que vai para as mãos do 5. Explique sucintamente as principais diferenças entre monetaristas, fiscalistas, capitalista é definido por Marx como mais-valia. Ela pode ser considerada valor extra pós-keynesianos, marxistas institucionalistas. que trabalhador cria, além do valor pago por sua força de trabalho. Marx foi influenciado pelos movimentos socialistas utópicos, por Hegel e pela ria do valor-trabalho de Acreditava no trabalho como determinante do valor, tal como Adam Smith Ricardo, mas hostil ao capitalismo competitivo à livre concorrência, pois afirmava que a classe trabalhadora era explorada pelos capitalistas. Marx enfatizou muito aspecto político de seu trabalho, que teve impacto impar não só na ciência econômica como em outras do conhecimento. As contribuições dos economistas da linha marxista para a tcoria econômica fo- ram muitas variadas. Entretanto, a maioria ocorreu à margem dos grandes centros de estudos ocidentais, por razões políticas. Conseqüentemente, a produção tcórica foi pouco divulgada. Um exemplo é trabalho de Michal Kalecki (1899-1970), econo- mista que antecipou uma análise parecida com a da teoria geral de Keynes. Contudo, reconhecimento de seu trabalho inovador só ocorreu muito tempo depois de 1933, quando publicou pela primeira vez seu Esboço de uma teoria do ciclo eco- nômico.EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 41 dos religiosos, dos trabalhadores e dos negociantes. Os líderes das comunidades geralmente eram impostos pela força. Na Grécia antiga, como em Roma, a maior parte da população era composta 2 por escravos, que realizavam todo trabalho em troca do estritamente necessário para sobreviver em termos de alimentos e vestuário. Os senhores de escravos apro- priavam-se de todo produto excedente às necessidades de consumo dos traba- lhadores. A economia era quase exclusivamente agrícola; o meio urbano não pas- sava de uma fortificação com algumas casas, onde residiam os nobres, ou chefes A urbanização expandiu-se um pouco com o desenvolvimento das trocas co- merciais. Surgiram cidades relativamente grandes, para os padrões da época, EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO como Atenas, Esparta, Tebas, Corinto e Roma. Devido à pobreza do solo para cul- tivo, a navegação tornou-se uma necessidade crucial para os gregos, a fim de au- ECONÔMICO mentar as riquezas de suas cidades, que eram independentes politicamente umas das outras. A Filosofia imperava sobre a sociedade e as idéias dominantes não favoreciam o desenvolvimento da Economia. Platão e Aristóteles, por exemplo, justificavam a escravidão porque, para eles, alguns homens possuíam uma inferioridade inata. Esse regime de trabalho atrasou desenvolvimento da humanidade, pois, como 2.1 ORIGENS DO PENSAMENTO ECONÔMICO trabalho era considerado tortura, os escravos nada faziam para aumentar sua efi- ciência. A Economia surgiu como ciência a partir de 1776, com a publicação da obra O domínio da Filosofia sobre o pensamento econômico implicava, por exem- de Adam Smith (1723-1790), A riqueza das nações. Antes disso, a Economia não plo, as idéias de igualdade entre os cidadãos e desprezo pela riqueza e luxo. Essa passava de um pequeno ramo da Filosofia social e do Direito. Com Mercantilismo posição filosófica dificultava desenvolvimento das relações econômicas. Já entre e a Fisiocracia, as econômicas conheceram algum desenvolvimento, mas na os romanos, pensamento econômico estava ligado e seu espírito imperia- e na Idade Média as relações econômicas eram bastante simples. lista levou à expansão das trocas. A riqueza era bem-vinda, o que se obtinha pela do- minação: os povos conquistados eram obrigados a produzir os bens que os romanos necessitavam consumir. No entanto, as grandes construções de estradas e aquedu- tos possuíam um fim político e não econômico (Hugon, 1988, p. 41). 2.1.1 Antigüidade Mesmo nas sociedades primitivas, os homens precisavam organizar-se em so- 2.1.2 Idade Média ciedade, para defender-se dos inimigos, abrigar-se e produzir comida para sobre- viver. A divisão do trabalho, daí decorrente, permitiu o desenvolvimento da espé- O surgimento do feudalismo coincidiu com declínio do Império Romano do cie humana em comunidades cada vez maiores e mais bem estruturadas. Na maior Ocidente. Na base do sistema, estava o servo, que trabalhava nas terras de um se- parte dos casos, a produção era basicamente para sobrevivência. Algumas pessoas nhor, qual devia lealdade a um senhor mais poderoso, este a outro, até chegar ao produziam um pouco mais, permitindo as trocas, o que gerou especialização. rei. Os senhores davam a terra a seus vassalos, para serem cultivadas, em troca de Assim como surgiram os líderes militares, alguns homens mais habilidosos pagamentos em dinheiro, alimentos, trabalho e lealdade militar. Em troca dessa lealdade, o senhor concedia proteção militar a seu vassalo. aprenderam uma profissão e passaram a reunir aprendizes e ajudantes. Aos pou- cos, o trabalho de alguns homens passou a ser suficiente para atender às necessi- O servo não era livre, pois estava ligado à terra e a seu senhor, mas não consti- dades de um conjunto cada vez maior de pessoas. Surgiram as classes dos soldados, tuía sua propriedade, como escravo. As trocas desenvolveram-se no nível regio-42 DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 43 nal, entre as cidades e suas áreas agrícolas. A cidade, com seus muros, constituía No plano internacional, as descobertas marítimas e afluxo de metais precio- local de proteção dos servos, em caso de ataque inimigo. Aos poucos, porém, passou SOS para a Europa deslocaram eixo econômico do Mediterrâneo para novos cen- a ser local onde se realizavam as trocas. Desenvolveram-se as corporações de ofício tros como Londres, Bordéus e Lisboa. Até então, a idéia mercantilista e a divisão do trabalho. Com Cruzadas, a partir de 1096, expandiu-se comércio dominante era a de que a riqueza de um país media-se pelo afluxo de metais precio- mediterrâneo, impulsionando cidades como Gênova, Pisa, Florença e Veneza. SOS (metalismo). O afluxo excessivo de ouro e prata provocou inflação na Espanha, cuja taxa chegou a 20% a.a. na Andaluzia, entre 1561/1582 (Sachs e Larrain, A Teologia católica exerceu um poder muito grande sobre pensamento eco- 1995, p. 820). nômico da Idade Média. A propriedade privada era permitida, desde que usada com moderação. resulta a tolerância pela desigualdade. Havia uma idéia de Com a idéia de garantir um afluxo positivo de ouro e prata para seu país, os moderação na conduta humana, que levava às concepções de justiça nas trocas e, mercantilistas sugeriam que se aumentassem as exportações e que se controlassem portanto, de justo preço e justo salário. "O justo preço é aquele bastante baixo para as Na França, surgiu a proteção à indústria, com fim de assegurar poder consumidor comprar (ponto de vista econômico), sem extorsão (ponto de exportações mais regulares e com maior valor. Com esse objetivo, os salários e os ju- vista moral), e suficientemente elevado para ter o vendedor interesse em vender e ros passaram a ser controlados pelo Estado, a fim de não se elevarem os custos de poder viver de maneira decente (ponto de vista moral)" (Hugon, 1988, p. 51). produção e assegurarem-se vantagens competitivas no mercado internacional. Similarmente, justo salário é aquele que permite ao trabalhador e sua famí- Com objetivo de maximizar saldo comercial e afluxo de metais precio- lia viver de acordo com os costumes de sua classe e de sua região. Essas noções de as metrópoles estabeleceram um "pacto colonial" com suas colônias. Por meio justiça na fixação de preços e salários implicava também a idéia de justiça na deter- desse "pacto", todas as importações da colônia passaram a ser provenientes de sua minação do lucro. Em outras palavras, justo lucro resulta da justiça nas trocas: ele metrópole, assim como todas as suas exportações seriam destinadas a ela exclusi- não deve permitir ao artesão enriquecer (juízo de valor). vamente. A metrópole monopolizava também transporte dessas mercadorias. Para maximizar os ganhos, ela fixava os preços de seus produtos em níveis os mais empréstimo a juros era condenado pela Igreja, idéia que vem de Aristóte- altos possível; inversamente, a fixação dos preços de suas importações era em les, pois contraria a idéia de justiça nas trocas: capital reembolsado seria maior níveis mais baixos. Segundo Celso Furtado, esse "pacto" deu origem ao subdesen- do que emprestado. Somente os lombardos e os judeus tinham permissão para volvimento contemporâneo. emprestar a juro. A partir de 1400, no entanto, as exceções ampliaram-se com o crescimento das atividades manufatureiras e do próprio comércio na era mercan- O principal defeito do Mercantilismo foi ter atribuído valor excessivo aos me- tais preciosos na concepção de riqueza. Conrudo, sua contribuição foi decisiva para estender as relações comerciais do âmbito regional para a esfera internacio- nal. Ele constituiu uma fase de transição entre o feudalismo e o capitalismo moder- no. Com o comércio, formaram-se os grandes capitais financeiros, que de certa for- 2.1.3 Mercantilismo ma financiaram a revolução tecnológica, precursora do capitalismo industrial. Renascimento cultural e científico e o Mercantilismo abriram os horizontes A agricultura formava praticamente todo o produto nacional. Inicialmente, da Europa, a partir de 1450. A reforma de João Calvino (1509-1564), exaltando os campos eram cultivados uma vez por ano, com baixa produtividade. Posterior- individualismo, a atividade econômica e o êxito material, deu grande impulso à mente, as lavouras passaram a ser divididas em duas partes, ficando uma em des- economia. Enriquecer não constituía mais um pecado. A cobrança de juro e a ob- canso, para recuperar fertilidade. Mais tarde, sistema passou a ser de três cam- tenção de lucro passaram a ser permitidas. verdadeiro pecado veio a ser a ociosi- pos, o que resultou em aumento substancial da produção agrícola por área cultiva- dade. Como a leitura da Bíblia tornou-se fundamental no culto, incentivou-se a da. Isso fez com que a população européia duplicasse entre os anos 1000 e educação, o que repercutiu na melhoria da produtividade do trabalho e no desen- número de cidades aumentou, assim como sua população. volvimento econômico. 1. Entre os principais autores mercantilistas, podem ser citados: Ortiz (Relatório ao rei para impedir a saída de Ao mesmo tempo, ocorreu uma transformação política na Europa, com o en- ouro, 1588), Malestroit (Paradoxos sobre a moeda, 1566), Jean Bodin (Resposta aos paradoxos do Sr. Males- fraquecimento dos feudos e a centralização da política nacional. Aos poucos, foi-se troit, 1568), (Tratado de economia política, 1615), Lock da redução da taxa de juro e da elevação do valor da moeda, Londres, 1692), Colbert (Cartas, instruções e 1651 a formando uma economia nacional relativamente integrada, com o Estado central Richard Cantillon (Ensaio sobre a natureza do cm geral, 1730), Thomas Mun (Discurso sobre dirigindo as forças materiais e humanas, constituindo um organismo econômico. mércio da Inglaterra com as Indias orientais, 1621) etc. (ver Hugon, 1988, p. 59 e seguintes).44 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÓMICO 45 Com o Mercantilismo, as trocas de novos produtos intensificaram-se entre os 2.2.1 Fisiocracia e a doutrina do laissez-faire países europeus, asiáticos e Desenvolveu-se sistema manufatureiro do- méstico, artesanal, dando nascimento à indústria capitalista. Inicialmente, o mer- A Fisiocracia constituiu a primeira escola econômica de caráter li- cador-capitalista fornecia ao artesão a matéria-prima, para que a transformasse derada pelo médico francês François Quesnay (1694-1774), autor da obra qua- em produto a ser comercializado. dro econômico: análise das variações do rendimento de uma nação. Para "os econo- Posteriormente, o mercador-capitalista passou a fornecer as máquinas, as mistas", como passaram a ser conhecidos, os fenômenos econômicos fluem livre- ferramentas e, às vezes, prédio onde os bens eram produzidos. Finalmente, em mente, seguindo leis naturais, como sangue no organismo humano. Essa idéia de vez de comprar dos diferentes artesãos os produtos que vendia no mercado, ele circulação das riquezas, de fluxo de rendas, foi embrião das teorias modernas. acabou contratando também os trabalhadores necessários à produção, passando a reuni-los em um mesmo local, originando a fábrica. A formação de grandes capitais, Segundo a doutrina a sociedade é formada pela classe produtiva a expansão dos mercados e surgimento do trabalho assalariado deram nascimen- (agricultores), pela classe dos proprietários de terras e pela classe estéril, compre- to ao sistema capitalista. endendo esta última todos os que se ocupam do comércio, da indústria e dos servi- A agricultura era considerada produtiva por ser, para os fisiocratas, a única No Mercantilismo, a ética paternalista cristã, católica, ao condenar a aquisi- ção de bens materiais, entrava em conflito com os interesses dos mercado- que gera valor. Desse modo, os preços agrícolas deviam ser os mais elevados res-capitalistas. Aos poucos, Estado nacional passou a ocupar o lugar da Igreja na vel (teoria do bom preço), a fim de gerar lucros e recursos para novos investimentos função de supervisionar o bem-estar da coletividade. Gradativamente, os gover- agrícolas. Os consumidores seriam compensados pela cobrança de um imposto nos tornaram-se influenciados pelo pensamento mercantilista. Leis paternalistas, único sobre a renda dos proprietários de terras e por medidas que reduzissem os como a Lei dos pobres, deram lugar a leis que beneficiavam os interesses dos mer- preços industriais. cantilistas e do capitalismo nascente, como a Lei do cercamento das terras, ou as A idéia de classe estéril resultou da reação fisiocrática contra a doutrina mer- leis que davam incentivo à indústria ou criavam barreiras às importações. cantilista. A moeda passou a ter apenas função de troca e não de reserva de valor, Apesar de Mercantilismo ter defendido acúmulo de metais preciosos pois este encontra-se na agricultura. A indústria e comércio constituem desdo- como sinônimo de riqueza, a valorização dos metais foi muito importante para a bramentos da agricultura, pois apenas transformam e transportam valores. A terra segurança dos pagamentos internacionais. Cabe destacar também a idéia mercan- produz valor por sua fertilidade, seguindo leis físicas, ou uma ordem natural e pro- tilista de que a maior quantidade de dinheiro metálico favorecia os investimentos videncial, desejada por Deus para bem da humanidade. Desse modo, a agricultu- por meio da redução da taxa de juros e, portanto, da diminuição do custo do di- ra precisava ser incentivada para aumentar produto social. No entanto, a agricul- nheiro. tura era penalizada pela ação discriminatória do Estado. Com uma lei natural regulando a ordem econômica, os homens precisam, en- tão, agir livremente, e qualquer intervenção do Estado inibiria essa ordem, ao criar 2.2 DO PENSAMENTO LIBERAL AO PENSAMENTO obstáculos à circulação de pessoas e de bens. Assim, eles propunham a redução da SOCIALISTA regulamentação oficial, para aumentar a produtividade da economia, e a elimina- ção de barreiras ao comércio interno.e a promoção das exportações. Proibições às Mercantilismo provocou grandes distorções, como abandono da agricultu- exportações de cereais, ao expandir a oferta interna, reduziriam os preços, afetan- ra em benefício da indústria, excessiva regulamentação e intervencionismo exage-- do os lucros agrícolas. rado do Estado nos negócios privados. Aos poucos, foram surgindo novas teorias sobre o comportamento humano, de cunho liberal e individualista, mais de acordo Por outro lado, para manter baixos os preços das manufaturas e beneficiar os com as necessidades da expansão capitalista. consumidores, propunham combate aos oligopólios (poucos vendedores) e fim das restrições às importações. pensamento fisiocrático era, portanto, liberal, tra- 2. No Feudalismo, além das trocas serem basicamente locais e regionais, elas não formavam centro do regi- duzindo-se em sua doutrina do laissez-faire, (deixai fazer, deixai me, como no Mercantilismo. feudo era muito fechado em si mesmo e as relações externas limitavam-se ao necessário. passar...).46 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 47 2.2.2 Economia clássica Com David Ricardo (1772-1823), autor de Princípios de economia política e tributação (Ricardo, 1982), crescimento demográfico exerce efeito nocivo sobre liberalismo e o individualismo dos clássicos estavam associados ao bem co- a economia, ao elevar a demanda de alimentos. Isso ocorre porque aumento do mum: os homens, ao maximizarem a satisfação pessoal, com o mínimo de dispên- custo de vida repercute sobre a expansão dos salários industriais e a redução da dio ou esforço, estariam contribuindo para a obtenção do máximo bem-estar so- taxa média de lucro do conjunto da economia. Isso ocorrendo, os investimentos re- cial. Tal harmonização seria feita, segundo Adam Smith (1723-1790), por uma es- duzem-se, afetando o nível de emprego e produto total. Desse modo, grande pécie de mão invisível. Essa doutrina hedonística do prazer, igualmente presente problema da economia estava na agricultura, pela existência de rendimentos de- entre os fisiocratas, também leva à racionalidade. crescentes, à medida que ela mostrava-se incapaz de produzir alimentos baratos para consumo dos trabalhadores. A reforma calvinista contribuiu para a difusão do individualismo, ao defen- der trabalho e sucesso pessoal, sintetizado no lucro e na riqueza. A busca da ri- Ele elaborou a teoria da renda da terra, segundo a qual, à medida que a popu- queza, motivada pelo egoísmo individual, gera novos empregos e aumenta a arre- lação cresce, ocupam-se terras cada vez piores, aumentando os custos na margem de cultivo, enquanto a renda da terra, embolsada pelos proprietários, expande-se. cadação de impostos. Por definição, no início do processo de ocupação de uma área geográfica, a popu- O pensamento clássico fundamenta-se, portanto, no individualismo, na liber- lação ocupa as melhores terras (tipo A). Nessa área, não havendo nenhuma outra dade e no comportamento racional dos agentes econômicos, com a mínima pre- em utilização, não existe renda: o'valor da produção é distribuído entre capitalis- sença do Estado, que teria como funções precípuas a defesa, a justiça e a manuten- tas e trabalhadores. ção de certas obras públicas. Crescendo a população, aumenta a demanda e os preços Com a publicação da Riqueza das nações, em 1776, tendo como experiência a o que justifica emprego de terras piores, do tipo B. Nessa terra pior não existe Revolução Industrial inglesa, em curso desde 1700-1730, Adam Smith estabele- renda, mas sim na melhor, do tipo A. Ocupando-se terras ainda piores, do tipo C, ceu as bases científicas da Economia moderna (Smith, 1983). Ao contrário dos surge uma renda na terra do tipo B e aumenta a renda nas terras do tipo A. Essa mercantilistas e fisiocratas, que consideravam os metais preciosos e a terra, res- renda decorre, portanto, de diferenças de produtividade da terra, sendo embolsa- pectivamente, como os geradores da riqueza nacional, para ele o elemento essen- da pelos proprietários, ficando os fazendeiros arrendatários com o lucro normal. cial da riqueza é o trabalho produtivo. Assim, valor pode ser gerado fora da agri- cultura: isso ocorre toda vez que uma mercadoria é vendida a um preço superior a Ricardo demonstrou que, com demográfico no longo prazo, caem os lucros dos arrendatários, os salários reais (salário individual/preço dos seu custo de produção. alimentos) e a taxa de lucro (lucro absoluto/capital empregado) Por outro lado, trabalho fica ainda mais produtivo com o emprego de capital; maior produ- aumentam os preços dos alimentos, os salários nominais e a renda da terra dos tividade incrementa valor do produto total, por unidade de tempo. São as trocas proprietários. A queda da taxa de lucro reduz os investimentos na agricultura e em e a expansão das áreas de mercado que aumentam a demanda, possibilitando toda a economia. A solução apontada por Ricardo é controle da natalidade e a li- maior volume de produção, com menor custo (economias de escala), mediante o vre importação de alimentos, para consumo dos trabalhadores. emprego de trabalho e capitais adicionais. A teoria da população de Malthus, adotada pelos clássicos, diz que a po- Quando os mercados tornam-se nacionais e internacionais, fica possível a es- pulação aumenta em proporções geométricas (1, 2, 4, 8...), ao passo que, na me- pecialização produtiva dos trabalhadores. A redução dos custos médios e aumen- lhor das hipóteses, a produção de alimentos cresce a taxas aritméticas (1, 2, 3, to das quantidades vendidas expandem nível dos lucros, o ritmo da adoção do 4...). A população crescerá sempre que os salários nominais (w) estiverem acima progresso técnico e próprio crescimento econômico nacional. aumento da do salário mínimo de subsistência (w*), definido por Ricardo como aquele salário massa salarial interna expande o setor de mercado interno e possibilita maior divi- pago na margem extensiva de cultivo. Nesse caso, haverá incentivo para casamen- são do trabalho, ou especialização produtiva. tos precoces e aumento do tamanho da família. A população irá reduzir-se se (w48 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 49 que cessa toda acumulação de capital. Isso ocorre porque a taxa de lucro não supe- nível de emprego. Desse modo, aumentos de oferta não geram demandas adicionais ra juro pago pelo capital emprestado. Desse modo, produto da economia não no nível correspondente, havendo uma tendência de manter-se acima de cresce mais, assim como nível de emprego e a população total. A lei de Say não se verifica também, segundo ele, porque os clássicos não leva- estado estacionário foi melhor estudado por Stuart Mill (1806-1873), em ram em conta os gostos e as necessidades dos consumidores e porque os trabalha- sua obra Princípios de economia política (Mill, 1983). Segundo ele, tanto a concor- dores desempregados já mantinham algum nível de consumo prévio. Além disso, a rência entre os capitalistas por melhores oportunidades de negócios, como cres- paixão pela acumulação e o receio da concorrência levam capitalista a investir cimento demográfico, que leva o cultivo para as piores terras, aproximam estado acima das necessidades da demanda total. estacionário, enquanto a livre importação de alimentos e inovações tecnológicas (recuperação de terras alagadas ou áridas, novos métodos de cultivo, sementes ge- neticamente melhoradas, uso de fertilizantes e corretivos do solo) afastam fan- tasma do estado estacionário para épocas futuras. 2.2.3 Pensamento socialista Quando progresso técnico reduzir seu ritmo, em um futuro muito remoto, estado estacionário acabará finalmente acontecendo. Toda a população, porém, As crises de subconsumo já haviam sido apontadas por Sismonde de Sismon- apresentaria nível de vida tão elevado, que objetivo social não seria mais con- di (1773-1842), em 1819, um pouco antes de Malthus. Afirmava ele que grande sumo, mas lazer e a busca do aperfeiçoamento cultural e espiritual. afluxo de trabalhadores irlandeses aviltava os salários na Inglaterra e contribuía Os economistas clássicos enfatizaram o lado da oferta, isto é, a produção. A para descompasso entre capacidade produtiva crescente e concentração de ren- idéia era a de que tudo que fosse produzido seria consumido. Essa suposição foi da. Essa discussão intensificou-se na França, Alemanha e Rússia porque, para ou- melhor explicitada por Jean-Baptiste Say (1767-1832), ao formular a lei dos mer- tros pensadores, desnível entre oferta e demanda resultava, não do sub- cados (lei de Say) em seu livro Tratado de economia política (Say, 1983). Segundo consumo dos trabalhadores, mas de erros de previsão dos capitalistas (crise de su- perprodução). ele, "a oferta cria a sua própria procura". Isso se explica porque os clássicos supu- nham que a produção realiza-se com proporções fixas: todo acréscimo de produção As crises de superprodução resultam, segundo Tugan-Baranowsky, de er- exige aumento simultâneo e proporcional de capital e trabalho. ros de avaliação dos capitalistas, uma vez que as decisões de produção são desvincula- Os clássicos supunham equilíbrio com pleno emprego de fatores (igualdade das das decisões de demanda. planejamento central é então sugerido para coorde- entre poupança e investimentos planejados). Uma nova acumulação de capital re- nar as ações entre os agentes econômicos. Segundo ele, a acumulação de capital eleva tirava trabalhadores subempregados de outros setores e gerava um fluxo de renda a produtividade, o que aumenta a taxa de lucro e estimula novos investimentos. Não correspondente ao valor dos novos bens levados ao mercado, restabelecendo de importa, porém, quanto consumo é baixo: se manterá igual a se as proporções imediato o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada. entre oferta e demanda se mantiverem corretas (ver Souza, 1999, p. 136). O pensamento clássico, principalmente o de Ricardo, foi criticado sobretudo Os marxistas adeptos da teoria do subconsumo, como Rosa Luxemburgo por Thomas Robert Malthus (1766-1834), ao estudar as crises capitalistas em sua (1870-1919), autora de A acumulação do capital (Luxemburgo, 1988), criticam a obra Princípios de economia política. Segundo ele, tais crises resultam do subconsu- posição dos revisionistas (como Tugan), porque seria retornar à lei de Say. Para os mo e não de superprodução, ou seja, elas decorrem do crescimento insuficiente da subconsumistas, as crises resultam do subconsumo das massas, devido ao achata- demanda efetiva4 definida como a soma do consumo agregado (C), gastos mento salarial e à concorrência intercapitalista, que leva à acumulação acelerada e com investimento gastos do Governo (G) e exportações menos importações à adoção de tecnologias poupadoras de trabalho. A conquista de mercados exter- (X-M). A demanda efetiva define, portanto, nível do produto total doméstico ab- nos torna-se a salvação do capitalismo, ao escoar a produção excedente. sorvido pela economia, em função de sua capacidade de pagamento. Segundo Karl Marx (1818-1883), autor de Contribuição à crítica da economia Para Malthus, as crises resultavam do subconsumo da população pela redução política (1857), subconsumo dos trabalhadores resulta de sua exploração pelo gradual dos salários reais. Com estoques não vendidos, as empresas reduzem a pro- capitalista. Para gerar produto Y, capitalista utiliza capital constante C (capital dução no período seguinte. Se a queda do poder de compra da população for siste- fixo depreciado e matérias-primas utilizadas), capital variável V (trabalho pago) e mática, a acumulação de capital tende a declinar, assim como a oferta total e obtém uma renda, a mais-valia M (trabalho não pago), ou seja: 4. Termo empregado por Keynes em 1936. A demanda efetiva foi definida por ele como sendo ponto em que Y=C+V+M (1) a demanda agregada torna-se igual ao produto total da economia (Keynes, 1990, p. 38).50 DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 51 Marx definiu as seguintes relações: 2.3.1 Economia marginalista (a) taxa de exploração (M*) = trabalho não pago / trabalho pago (M* = Por volta de 1870, emergiram três autores marginalistas de grande M/V); austríaco Carl Menger (1840-1921), inglês William Jevons (1835-1882) e (b) composição orgânica do capital (q) = capital constante / capital total francês Léon Walras (1834-1910). Suas suposições são as de que a economia é for- mada por um grande número de pequenos produtores e consumidores, incapazes de influenciar isoladamente os preços e as quantidades no mercado. (c) taxa lucro (r): trabalho não pago / capital total Os consumidores, de posse de determinada renda, adquirem bens e serviços de acordo com seus gostos, a fim de maximizarem sua utilidade total, derivada do Substituindo-se M na expressão da taxa de lucro por M*V, tem-se M* consumo ou posse das mercadorias. Essa é uma concepção hedonista, segundo a Sabendo-se qual homem procura máximo prazer, com um mínimo de esforço. q e a taxa de lucro será expressa por: Assim, enquanto na Escola clássica o valor é determinado pela quantidade de trabalho incorporado nos bens, na Escola marginalista valor depende da utilida- (2) de marginal. Desse modo, quanto mais raro e útil for um produto, tanto mais ele será demandado e valorizado e tanto maior será seu preço. Observa-se que a taxa de lucro reduz-se com aumento da composição orgâ- Dados os preços de mercado, os produtores adquirem os fatores de produção nica do capital e eleva-se com aumento da taxa de exploração. Como existem li- necessários a fim de combiná-los racionalmente e produzir as quantidades que mites legais e biológicos ao aumento indefinido de M*, os produtores tendem a maximizarão seus lucros. Os fatores têm preços determinados por sua escassez e empregar técnicas poupadoras de trabalho, que acaba elevando q e reduzindo r. utilidade no processo produtivo. Não há mais conflito entre as classes sociais na O aumento do "exército industrial de reserva" (trabalhadores desempregados) distribuição do produto, como na Economia clássica, mas harmonia entre os agen- pressiona os salários para baixo. No entanto, a tendência à queda de r acabará ge- tes. Isso se explica porque, no pensamento marginalista, a distribuição do produto rando as crises econômicas. segundo as produtividades marginais de cada fator; os salários passaram a ser flexíveis (determinados pela interação entre a oferta e a demanda de traba- Para que isso não ocorra, é necessário que progresso tecnológico desenvol- lho) e não mais de subsistência (fixos), como no pensamento clássico. va novos produtos e novos processos de produção. O aumento da produção resul- tante expandirá tanto a massa salarial (V) como a mais-valia M. A disputa entre os A essência do pensamento marginalista pode ser sintetizada em 10 pontos (Oser & Blanchfield, 1983, p. 207): capitalistas por recursos escassos acabará elevando os salários pagos em alguns se- tores, constituindo estímulos de demanda ao crescimento econômico (Souza, 1. raciocínio na margem: a decisão de produzir ou consumir vai depender 1999, p. 133). do custo ou benefício proporcionado pela última unidade; 2. abordagem microeconômica: indivíduo e a firma estão no centro da análise, havendo no mercado um único bem homogêneo e um preço de 2.3 PENSAMENTO MARGINALISTA E A SÍNTESE DE equilíbrio; MARSHALL 3. método abstrato-dedutivo: abstração teórica, argumentação lógica e conclusão; As idéias marginalistas surgiram como reação aos movimentos socialistas de 4. concorrência pura nos mercados, sendo o monopólio uma exceção: meados do século XIX, que eclodiram devido à concentração de renda e à intensa muitos vendedores e compradores concorrem no mercado por bens e migração rural-urbana decorrentes da industrialização. Os marginalistas comba- serviços; as firmas são pequenas e não conseguem influenciar preço tiam a teoria clássica baseada no valor-trabalho e na idéia de que a renda da terra de mercado; não era socialmente justa. Desenvolvem-se novas teorias para o valor, distribuição 5. na demanda como elemento crucial para determinar os preços, ao e formação dos preços. contrário dos clássicos que enfocavam a oferta, ou custo de produção;52 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 53 6. teoria da utilidade: a utilidade que as pessoas têm no consumo dos bens, determinada por seus gostos, influencia as quantidades deman- Px / Px (Ferguson, 1984, p. 48). Desse modo, a demanda do consumidor para dadas de cada bem e, então, seus preços. Há uma ênfase em aspectos bem depende do preço do bem y, assim como de todos os demais preços. psicológicos, com a consideração da abordagem hedonista de prazer Walras montou um sistema com n equações para a demanda: = (satisfação) e sofrimento (custos); Em outras palavras, a de- 7. teoria do equilíbrio: as variáveis econômicas interagem e sistema ma- manda do (ivariando de 1 até n) é uma função (F) não apenas dos preços do nifesta uma tendência ao equilíbrio pelas livres forças do mercado; bem i, como de todos os preços da economia (variando também de 1 até n). 8. direitos de propriedade: cada proprietário recebe pela posse de um fator A oferta foi considerada por Walras como sendo dada, assim como as utilida- de produção, que reabilitou a renda da terra, considerada por Ricar- des. No equilíbrio, ela é igual à demanda. Então, substituindo-se esses valores em do como um pagamento desnecessário e improdutivo; todas as equações, tem-se que S, = Obtém-se um sistema com 9. racionalidade: as firmas consumidores maximizam lucro ou satisfa- equações e variáveis (preços). Walras utilizou um dos bens como numerário, ção e não agem por impulso, capricho ou por objetivos humanitários. cujo preço, por definição, torna-se igual a um; assim, as n equações determinam os (n 1) preços. Embora este último ponto possa ser louvável, ele não faz parte das su- posições marginalistas; 10. laissez-faire, ou liberdade de mercado: toda e qualquer interferência nos automatismos do mercado gera custos e reduz bem-estar social. 2.3.3 A síntese neoclássica de Alfred Marshall inglês Alfred Marshall (1842-1924) foi, juntamente com Jevons, Menger e Walras, um dos mentores da teoria do valor pela utilidade marginal Walras e a teoria do equilíbrio geral Em sua obra de 1890 (Princípios de Economia), Marshall (1982) realizou a chama- da primeira síntese neoclássica, tentando conciliar os pensamentos clássico e mar- Jevons, Menger e Walras formularam a lei da utilidade marginal decres- ginalista, dando nascimento ao termo neoclássico. cente, segundo a qual, quando o consumidor possui poucas quantidades de deter- minado bem, sua utilidade será elevada; no entanto, à medida que consumo do As utilidades marginais determinam valor dos bens, as quantidades deman- bem aumenta, os acréscimos a sua utilidade total serão cada vez menores. Um dadas e, então, o preço no mercado de cada bem. Marshall, utilizando um gráfico exemplo pode ser fornecido quando alguém tem sede: o primeiro gole de água de duas dimensões, demonstrou como ocorre parcial de um proporciona a máxima satisfação, que se reduz à medida que as quantidades inge- bem, pela interação da oferta e da demanda: aumento das quantidades oferta- ridas aumentam. das reduz preço, que eleva as quantidades demandadas; estas se reduzem quando aumenta preço. Em um gráfico cartesiano, tal relação inversa entre equilíbrio do consumidor ocorre quando a utilidade da última unidade con- quantidades demandadas e preços gera uma curva de demanda negativamente in- sumida do bem X for igual a seu preço. Nesse caso, não se considera a influência da clinada (ver Figura 3.4, no Capítulo 3). utilidade e preços dos bens concorrentes, para atender às mesmas necessidades, e das utilidades e preços do conjunto de bens e serviços demandados pelo consumi- Para derivar sua curva de demanda negativamente inclinada, Marshall supôs dor. Havendo, porém, interdependência entre as utilidades marginais e os preços que, no curto prazo, as utilidades marginais de cada indivíduo cons- dos diferentes bens, o equilíbrio parcial será alterado. Foi o que previu Walras, ao tantes, isto é, que os consumidores são racionais e que os gostos não mudam. A formular a teoria do equilíbrio geral, na obra Compêndio dos elementos de eco- partir dessa curva, ele estabeleceu as-noções de "elasticidade preço da procura" e nomia política pura (Walras, 1983). de "excedente do consumidor", assuntos tratados no próximo capítulo. A demanda fica, então, determinada pela lei da utilidade marginal decres- A oferta, por seu turno, apresenta-se regulada pelos custos de produção e cente e pelas utilidades marginais de outros bens. No caso de dois bens X Y, por uma série de quantidades seriam produzidas em função de um conjunto de preços. exemplo, sob a condição de maximização das utilidades, sujeita a uma dada renda, Quanto maiores esses preços, tanto mais os produtores estarão dispostos a produ- as quantidades demandadas desses bens serão aquelas que corresponderem à ra- zir. Essa relação direta entre preços e quantidades ofertadas forma uma curva po- zão entre as utilidades marginais e seus preços respectivos, ou seja: sitivamente inclinada. A interação entre a oferta e a procura determina preço e as quantidades de equilíbrio de mercado.54 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 55 Marshall manteve os princípios clássicos da "mão invisível" da concorrência e bem-estar social e individual e que os mercados não regulados levariam à aloca- a liberdade de mercado (laissez-faire). Esses princípios asseguram que a maximi- ção eficiente dos recursos e à melhor distribuição de renda" (Oser & Blachfield, zação de lucros leva os proprietários dos fatores a receber de acordo com a contri- 1983,334) buição de cada um no processo produtivo (produtividade A produtivi- liberalismo também foi criticado pela reformulação da teoria neoclássica dade marginal de um fator corresponde ao acréscimo do produto total proporcio- do bem-estar, segundo a qual a economia alcança bem-estar social, por meio da nado pelo emprego de uma unidade a mais do mesmo. O empresário terá interesse maximização das funções utilidade e de lucro individuais. italiano Vilfredo Pare- em empregar essa unidade adicional (por exemplo, operador de uma máquina) to (1848-1923), adotando os postulados de hedonismo, racionalidade, concorrên- até ponto em que o valor da produtividade marginal for igual a seu preço (salá- cia e livre mercado, afirmou que um indivíduo, uma firma ou um país atingem rio) (raciocínio pela margem). máximo bem-estar social quando não é possível aumentar sua satisfação sem redu- Os salários e os preços, perfeitamente flexíveis, são regulados pela oferta e zir bem-estar de outro. Esse ponto de equilíbrio geral é conhecido como ótimo demanda de trabalho, ou de bens e serviços no mercado. A produção obtém-se em de Pareto. proporções variáveis de capital e trabalho, cujo emprego dependerá de seus custos: inglês Arthur Pigou (1877-1959), em sua obra A economia do bem-estar, um mesmo nível de produto pode ser obtido com mais capital e menos trabalho, e criticou a idéia de que bem-estar social seja a agregação do bem-estar de cada in- vice-versa. Na economia clássica, pelo contrário, a função de produção apresenta- divíduo (Pigou, 1946). Ele estabeleceu diferença entre custos e benefícios margi- va proporções fixas: todo acréscimo de produção necessitava de adição simultânea nais privados e sociais. custo marginal privado para produzir uma uni- de capital e trabalho. dade adicional de um bem ou serviço, pode ser maior, menor ou igual ao custo Marshall foi ainda o criador do termo economias externas e desenvolveu a teo- marginal social (CMgs) desse mesmo bem. O mesmo se pode dizer dos benefícios ria da firma, incluindo as teorias dos rendimentos crescentes e decrescentes, teoria marginais privados e sociais. A agregação desses custos e benefícios sociais, em dos custos e importantes elementos da moderna teoria da organização industrial. economia de livre mercado, leva a uma situação de equilíbrio geral aquém do pon- Como na análise clássica, os economistas neoclássicos mantiveram uma visão to de ótimo potencial. otimista da economia. Para eles, os frutos do progresso técnico e do Esses conceitos de custos e benefícios deram lugar aos de economias e de- econômico são distribuídos de modo para todos os agentes econômicos, seconomias externas. A construção de uma fábrica em bairro residencial, des- sem conflitos, segundo sua contribuição ao processo produtivo. valorizando os imóveis, constitui um exemplo de deseconomias externas. Nesse caso, CMgs torna-se maior do que CMg, ou o benefício marginal social (BMgs) fica menor do que marginal privado Inversamente, quando a 2.3.4 Reações ao liberalismo econômico fábrica é instalada em uma zona industrial adequada, BMgs torna-se maior do que BMg, e bem-estar social aumenta. Isso se explica pelas economias externas Recebendo influência de Charles Darwin, teórico da evolução das espécies, o produzidas pelos efeitos de encadeamento da produção de uma empresa para outra norte-americano Thorstein Veblen (1857-1929), fundador da Escola Institucio- e redução de custos das firmas ligadas pela compra e venda de insumos. nalista, e autor da obra A teoria da classe ociosa, propôs estudar sistema econô- Pigou concluiu que os agentes que produzem deseconomias externas deve- mico com ênfase no papel das instituições. Ele criticou o pensamento neoclássico riam ser tachados como empresas poluidoras, enquanto aqueles que geram exter- acerca do comportamento humano e das instituições sociais. Segundo ele, o com- nalidades positivas deveriam receber algum subsídio, pois são responsáveis pelo portamento racional, egoísta e maximizador dos agentes era insuficiente para ex- aumento do produto líquido da economia sem receber qualquer compensação. plicar as relações econômicas (ver Veblen, 1983). Pigou também reconheceu que alguns compradores e vendedores poderiam Segundo Veblen, a conduta dos indivíduos é influenciada pelas instituições; influenciar os preços de mercado, trazendo divergência entre custos e benefícios estas mudam pelas novas tecnologias, que acaba modificando os hábitos de con- privados e sociais. Alertou para a propaganda, que pode deslocar o consumo para sumo. Por essa óptica, sistema econômico estaria em constante evolução. A pro- bens cuja qualidade não possa ser facilmente comprovada. Firmas com custos pri- dução torna-se resultado de motivações sociais e culturais e não da ação de um vados muito baixos tendem a crescer mais do que aquelas com custos mais altos, único agente. Assim, a economia precisa ser estudada como um todo, pelas suas que causaria distorções na concorrência, reduzindo bem-estar social. múltiplas inter-relações. Os institucionalistas defendiam o fim do laissez-faire, por As críticas ao liberalismo econômico acentuaram-se com a Grande Depressão meio do planejamento econômico e reformas de instituições, como as ligadas ao dos anos 30. Com a falência de inúmeras empresas e desemprego em massa, pas- crédito. Eles "negavam que os preços de mercado fossem índices adequados de sou-se a aceitar com mais naturalidade a presença do Estado na economia. Para56 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO 57 muitos economistas, ficou evidente que bem-estar social não será atingido sem permanece entesourado em casa ou nos Em outras palavras, problema que o Estado intervenha, a fim de assegurar, não só os direitos de propriedade e a existe porque parte da poupança não é emprestada e, portanto, não participa dos liberdade de mercado, como maior nível de emprego. Esse ponto será examinado gastos. Desse modo, a demanda efetiva tende a ficar aquém das possibilidades com mais detalhes a seguir. de produção da economia Keynes identificou outros vazamentos, que ocor- rem com as importações e com o pagamento de impostos. Para que esses vazamentos sejam compensados, em caso de recessão I, Governo precisa aumentar seus gastos para compensar ex- queda dos investimentos e da produção desempregou milhões de pessoas, não só cesso de poupança. Keynes preferia que os gastos do Governo fossem investimen- na Europa e Estados Unidos, como também em países como Brasil. tos em áreas sociais, como escolas, estradas e hospitais, que acabariam benefician- do também o setor produtivo. Esses preceitos keynesianos tornaram-se aceitos, a nível da produção agregada abaixo das fronteiras de possibilidade de ponto de Congresso norte-americano aprovar, em 1946, a Lei do Emprego, segun- produção, desempregando os recursos produtivos. No entanto, a economia não do a qual o Governo passou a ter obrigação de utilizar impostos na preservação do conseguia reunir forças para reagir. Tornou-se necessário identificar as causas do nível do emprego. desemprego. A explicação parecia estar no mau funcionamento das instituições de mercado do mundo capitalista, o que passou a justificar aumento da participação Keynes baseou sua teoria na rigidez de salários, devido à existência de contra- do Estado na economia. Esse foi o ponto de partida da economia keynesiana dos tos. Corno os preços também são relativamente inflexíveis, pela concorrência e a anos 30. própria recessão, ajuste, para evitar maiores quedas do nível de lucro, é feito pela demissão de trabalhadores. Assim, enquanto os clássicos só admitiam desempre- go voluntário e o temporário, Keynes identificou o desemprego involuntário, situação em que a pessoa não encontra trabalho aos salários vigentes. 2.4.1 Economia keynesiana Em sua obra Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, John Maynard Key- nes (1883-1946) apontar soluções para a crise do mundo capitalista 2.4.2 A segunda síntese neoclássica e a (Keynes, 1990). Explicou que o valor dos bens e serviços produzidos pelas empre- contra-revolução keynesiana sas tem uma contrapartida de renda, que são os salários, juros, aluguéis, impostos e lucros; que essas rendas, encaradas como custos pelas firmas, na verdade vão ser Com a grande crise econômica dos anos 30, os economistas liberais passaram gastas em novos bens e serviços. mesmo raciocínio vale para al economia em seu a dividir-se em neoclássicos conservadores e em neoclássicos liberais. Estes últimos conjunto. Se a população não pode gastar, por não ter um emprego, a economia começaram a aceitar alguma participação do Estado na vida Para eles, estará impossibilitada de produzir. a concorrência não existe em sua forma pura, e irrestrita liberdade de mercado Esse é o fluxo circular de produto e renda (Figura 1.4 do Capítulo 1), cujo fun- gera muita instabilidade. Argumentam que Governo pode reduzir essa instabili- cionamento não é automático e possui vazamentos: parte do dinheiro não gasto dade mediante políticas monetárias e fiscais apropriadas (Hunt, 1982, p. 479).58 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO 59 Seguindo a linha de Pigou, os neoclássicos liberais reconhecem a existência tam na lei de Say (o crescimento da produção, ao gerar novas rendas de igual valor, de externalidades e recomendam a ação do Governo. Da mesma forma, no caso seria suficiente para criar a demanda correspondente). dos bens públicos (segurança, estradas, escolas, saúde pública), o Governo parti- cipa de sua produção, ou a delega a particulares, mediante contratos de conces- Da mesma forma, consideram que a existência de grandes empresas não são de serviços públicos. Portanto, concordam que apenas a ação da "mão invi- acarreta influências significativas sobre a fixação de preços no mercado e que, se sível" não se mostra suficiente para levar a economia ao equilíbrio, necessitan- isso existir, é porque os Governos criam facilidades para elas. Eles ignoram a ques- do da ação complementar do Estado. tão das externalidades, porque implicaria maior intervenção do Governo na econo- mia. Em suma, os liberais conservadores prescrevem reduzir ao mínimo a partici- principal economista da corrente neoclássica liberal é o norte-america- pação do Governo na economia, para assegurar a ação da "mão invisível" do funcio- no Paul Samuelson,5 cujas idéias passaram a dominar o mundo acadêmico após a Se- namento do mercado. gunda Guerra Mundial. Sua visão humanista da Economia assemelha-se à de Stuart Mill, autor que realizou em suas obras uma grande síntese do pensamento clássico. A crítica de Friedman aos neoclássicos liberais e keynesianos, em geral, rela- Como Mill, e juntamente com o inglês John Hicks (1904-1989), autor de Valor e capi- ciona-se com as estratégias e teorias relativas à demanda agregada. A teoria key- tal (Hicks, 1984), Samuelson elaborou a segunda síntese neoclássica, com a nesiana focaliza as determinantes da demanda agregada e atribui um papel menor qual procurou integrar pensamento keynesiano aos postulados neoclássicos. à política monetária. Para Friedman e outros economistas da Escola de Chicago, políticas fiscais que levam ao aumento dos gastos públicos causam mais inflação Segundo essa síntese, havendo pleno emprego, utilizam-se integralmente as do que efeitos positivos sobre a demanda agregada. Os empréstimos efetuados proposições teóricas neoclássicas, desde que o mercado funcione segundo os pos- pelo Governo para financiar seus gastos substituem a demanda privada, sem efeito tulados neoclássicos para alocar recursos e distribuir renda. Entretanto, isso é real sobre o produto total, provocando maior inflação. possível com Governo adotando políticas fiscais e monetárias, regulando oligo- pólios e atuando na produção de bens públicos (Hunt, 1982, p. 482). Em caso de Friedman criticou a relação empírica da curva de Phillips, segundo a qual desemprego, a recomendação é a adoção das políticas keynesianas. há uma relação inversa entre inflação e desemprego: aumento dos gastos públi- para reduzir desemprego aumenta a inflação, ou políticas para debelar a in- Dentro dessa interpretação neoclássica da teoria keynesiana, distinguem-se flação causam mais desemprego. ainda os economistas adeptos dos modelos de como Malinvaud, Benassy e Robert Barro, segundo os quais desequilíbrio da economia é temporá- Segundo Friedman, ocorrem variações na taxa de desemprego porque os rio e provocado pela inflexibilidade de preços e salários, que impedem os ajustes; a agentes econômicos não conseguem prever corretamente a inflação futura. As ex- economia, no entanto, tenderia ao equilíbrio no prazo. pectativas são adaptativas, isto é, com base na inflação passada. No entanto, à me- dida que os agentes vão ajustando a inflação esperada à inflação corrente, de- A contra-revolução keynesiana foi provocada pela corrente neoclássica semprego tende a estabelecer-se em seu nível normal, em torno de poucos pontos conservadora, que tem como expoentes Milton Friedman (1912-...), da Escola de Chicago, assim como Ludwig von Mises (1881-1973) e Friedrich Hayek Conclui Friedman que a política monetária não provoca efeitos reais, apenas (1899-1992), da Escola Austríaca, sendo estes dois últimos discípulos de Carl inflação. Desse modo, o monetarismo de Friedman limita a ação do Governo ao Menger. Friedman defende uma abordagem empírica para a Economia e a exclu- rígido controle do crescimento da oferta de moeda, para evitar inflação, uma vez são de qualquer julgamento normativo, ou juízos de valor; enquanto os economis- que se no livre funcionamento dos mercados. tas da Escola Austríaca postulam uma abordagem racional. Von Mises, em sua obra A mentalidade anticapitalista, também reconheceu Esses economistas não concordam com as objeções dos neoclássicos liberais poder dos bancos de criar excesso de poder de compra na economia, mediante em relação ao mau funcionamento da economia no Segundo Fried- crédito, gerando demanda desenfreada que, no curto prazo, traduz-se apenas em man (1978), autor de papel da política monetária, a Grande Depressão resultou elevação de preços. No mesmo sentido, Hayek, ao escrever livro Teoria de falhas do Governo e não de falhas do mercado; ou seja, políticas econômicas erra- ria e o ciclo econômico, constatou que as flutuações das atividades econômicas de- das desviaram ainda mais a economia de sua trajetória de crescimento equilibra- vem-se às desproporções de crescimento dos diferentes setores de atividade, como do, gerando falência de empresas e alto desemprego. Isso significa que eles acredi- os da construção civil, bens de capital e os que produzem bens de consumo. Ao efe- 5. Samuelson nasceu em 1915 e recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 1970; foi professor do Instituto de 6. Esse é desemprego friccional dos clássicos (ou temporário: situação em que as pessoas estão passando de Tecnologia de Massachusetts, autor da importante obra Fundamentos da análise econômica, publicada em um emprego para outro). Embora a taxa natural de desemprego não tenha um valor definido, normalmente inglês, em 1947, e em em 1983 (Samuelson, 1983). aceita-se que ela estabeleça-se em torno de 3 a 4% da população economicamente ativa.60 CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÓMICO 61 tuar seus gastos, os órgãos do Governo são responsáveis por grande parte dessas dade da economia a questão da incerteza, os salários monetários, a moeda e as re- desproporções, geradoras de desequilíbrios e inflação. lações entre estoque e fluxos de capitais. Eles tratam as crises do capitalismo a par- tir da instabilidade do sistema financeiro. Argumentam que a taxa de juro de equi- líbrio é determinada conjuntamente por variáveis monetárias e variáveis reais 2.4.3 Outras correntes de pensamento (acumulação de capital, quantidades demandadas e ofertadas etc.). com desemprego ocorre porque os estímulos de demanda, provocados por expan- Novas correntes de pensamento têm-se destacado como reação às posições são monetária, não criam necessariamente emprego na proporção desejada. A grande questão é gerar crescimento no longo prazo para aumentar nível de em- dos economistas neoclássicos conservadores e liberais. No combate à inflação, em prego. oposição ao monetarismo, os estruturalistas alegam que a inflação tem causas básicas, derivadas de limitação e rigidez do sistema econômico, e causas circuns- Na linha de Kalecki, as decisões de investimento da classe capitalista geram tanciais, como aumento do preço de importações e de maiores gastos públicos. Sua aumento da capacidade produtiva e distribuição de renda, na forma de salários, crítica mais contundente ao monetarismo é a de que os aumentos de preços, pro- juros, aluguéis e lucros, que provoca um fluxo de poupança igual ao investimen- vocados por causas reais, é que exigem maiores volumes de moeda em circulação e to efetuado, estabelecendo equilíbrio (Kalecki, 1977: Crescimento e ciclo das eco- não contrário: a inflação teria origem no interior das empresas e não nos gabine- nomias capitalistas). Para Kalecki, portanto, problema do financiamento dos in- tes do Banco Central. vestimentos é crucial, uma vez que os recursos próprios das empresas não são sufi- cientes para a realização dos investimentos planejados (ver Souza, 1999, p. 165). Alguns economistas classificam-se como pós-keynesianos por se distancia- rem da análise neoclássica (mainstream) e da análise keynesiana tradicional (mode- A questão do crédito também é fundamental no pensamento de Schumpeter lo Esses economistas, com base na teoria keynesiana, seguem uma linha (1883-1950), pois a acumulação de capital depende da adoção de inovações tec- crítica, tanto a partir de Marshall, que influenciou Keynes, como de Karl Marx e de nológicas por empresários inovadores, que necessitam de empréstimos Piero Sraffa (1898-1983), da Escola de Cambridge, na Inglaterra, da qual também Isso ele demonstrou em sua obra/ teoria do desenvolvimento econômico (Schumpe- fizeram parte Joan Robinson (1903-1983) e Michal Kalecki (1899-1970). ter, 1982). Segundo ele, a economia cresce no longo prazo, apresentando movi- de expansão, desaceleração, crises, recuperação e prosperidade, em fun- Criticando a teoria neoclássica, em seu famoso artigo As leis dos rendimentos ção de novas ondas de inovações financiadas por crédito (ver Souza, em condições competitivas, Sraffa (1989) demonstrou que os rendimentos de esca- 1999, Cap. 6). la crescentes fazem com que os preceitos da concorrência pura não sejam aplica- dos. A concorrência imperfeita torna-se a regra e a teoria dos preços precisaria ser No início dos anos 70, um grupo de economistas, como Robert Lucas, Thomas Sargent e Robert Barro, conhecidos como novos clássicos, criticaram a versão refeita. Dentro dessa linha de pensamento, surgiram modelos incorporando a no- ção de mark-up (sobrepreço), procurando mensurar grau de monopólio de cada de Friedman para a curva de Phillips e propuseram uma teoria dos ciclos, sob con- setor de atividade. dições competitivas, mas com base em observações empíricas e probabilísticas. Em seu artigo Algumas evidências internacionais dos impactos da inflação sobre A economia clássica baseava-se na lei de Say, segundo a qual o crescimento a produção, Lucas (1973) demonstrou que, se os mercados forem geograficamente da oferta gera a expansão da demanda na mesma proporção. Na linha de Marshall, separados, em cada um deles, poderá haver dois tipos de perturbações do equilí- a perfeita flexibilidade de preços e salários concorre para a manutenção desse brio: perturbações agregadas, que afetam preço agregado, e perturbações relati- equilíbrio no longo prazo. Na concepção keynesiana, essa perfeita flexibilidade vas, que atingem preço de cada mercado. Empresários e consumidores ficam in- não existe, que explica o equilíbrio entre oferta e demanda, com desemprego de fluenciados apenas pelo preço nominal de cada mercado particular; há informação fatores. No pensamento de Sraffa e de Robinson, essa rigidez keynesiana expli- imperfeita acerca do nível do preço agregado de equilíbrio, que será estabelecido ca-se pela existência de monopólios. após a interação de produtores e consumidores em todos os mercados. Desse Os pós-keynesianos, como Hyman Minsky (1982), autor de Inflação, recessão modo, poderá haver excesso ou escassez de bens, que irá determinar níveis de e política econômica, enfatizam a necessidade de introduzir na análise da estabili- preços diferentes daquele do equilíbrio A hipótese de Lucas é de que a oferta do período t (Y) seja uma função da ex- 7. A curva. (investment = saving) indica as taxas de juro de equilíbrio no mercado de bens (I S). Acurva LM (liquidity, money) mostra as taxas de juro de equilíbrio no mercado de ativos. A interação IS xLM fornecerá a pectativa do empresário em relação ao preço agregado de equilíbrio do período taxa de juro (i) eo produto de equilíbrio. Graficamente, as curvas são construídas com i nas ordenadas e O empresário projeta esse preço em função de um conjunto de informações do Y nas abcissas. fim do período (t-1), ou seja: = a Se sua expectativa é a de que os62 'CURSO DE ECONOMIA EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO 63 preços não mudam, então nível da oferta continuará mesmo; ele aumenta ou diminui Y, se a expectativa for de aumento ou redução de A oferta de Lucas é, que os novos conhecimentos não podem ser totalmente patenteados, gerando eco- portanto, positivamente inclinada (Fischer in Eatwell et al., 1987, p. 647). nomias externas, que beneficiam muitas empresas, direta e indiretamente, pelos gastos com pesquisa e educação efetuados em toda a comunidade (ver Souza, A partir da equação de Lucas, a hipótese dos novos clássicos é a das expecta- 1999, p. 342). tivas racionais: os agentes econômicos formam suas expectativas agindo racio- nalmente, examinando as condições econômicas e ações governamentais do pe- recente e do presente, a fim de projetar o futuro. Assim, o valor de uma variá- vel não será, necessariamente, uma função estável de seus valores passados, como QUESTÕES PARA REVISÃO no caso das expectativas adaptativas. Desse modo, novas diretrizes do Governo afe- tam as ações dos demais agentes econômicos e políticas monetárias não influen- 1. Faça um paralelo entre as idéias econômicas da Antigüidade e da Idade Média ciam produto (hipótese de neutralidade da moeda, ou da ineficácia da política mo- e comente papel da Reforma calvinista na transformação do pensamento netária). Isso se explica porque os agentes privados antecipam-se às ações do Go- econômico. verno. Por exemplo, se o Banco Central emitir moeda acima das necessidades da 2. Explique a concepção de valor dos mercantilistas e fisiocratas. economia, o produto não crescerá, apenas os preços, afetando tanto quanto deixando Y, invariável. 3. Explique dinamismo de uma economia no pensamento de Adam Smith e A partir dos anos 80, outro grupo de economistas, denominados novos key- que poderia acelerar ou inibir seu crescimento. nesianos (como Gordon, Stiglitz, Mankiw), procurou estabelecer fundamentos 4. Explique em poucas palavras a teoria da renda da terra de David Ricardo. microeconômicos para a teoria keynesiana. Para eles, a síntese neoclássica não fornece uma explicação lógica para a rigidez de preços e salários, responsável pelo 5. Explique as crises de subconsumo, segundo Malthus, e as noções implícitas de desemprego. Explicam essa rigidez pela teoria da organização industrial, além das demanda efetiva, produto doméstico, salário real e poder de compra da popu- lação. razões tradicionais de existência de contratos e sindicatos, pelas questões de perda de produtividade e queda da taxa de lucro. Assim, podendo elevar os preços a fir- 6. Explique as de superprodução de Tugan-Baranowsky e a solução apon- ma prefere pagar salários maiores, o que afeta nível de emprego, ao gerar demis- tada por ele. Da mesma forma, criticam os fundamentos microeconômicos dos novos clás- 7. Explique como é formado produto total de uma economia, segundo Karl sicos, por considerarem-nos insuficientes (ver Ferrari Filho, 1996, p. 90). Marx, e defina taxa de exploração, composição orgânica do capital e taxa de Cabe mencionar também as novas teorias de crescimento, de inspira- lucro. ção neoclássica. Essa abordagem, que considera o progresso técnico endógeno e 8. Explique as suposições da economia marginalista, a lei da utilidade marginal função de produção com rendimentos crescentes, vem influenciando pensamen- decrescente e o significado de = to econômico a partir do final dos anos 80. Os principais nomes ligados às novas teorias de crescimento são Barro, Lucas e Paul Romer (As origens do crescimento en- 9. Explique as seguintes situações, de acordo com Pigou: CMgs e BMg, dógeno, 1994). BMgs. Quais foram as soluções apontadas por ele? Para esses autores, capital e o trabalho não são os únicos fatores de cresci- 10. Explique os vazamentos de renda do fluxo circular que, segundo Keynes, pro- mento, cabendo especial destaque ao capital humano e às novas tecnologias. O vocam na economia. Quais as alternativas para compensar esses vazamentos? progresso técnico deixa de ser neutro e constante, como no modelo neoclássico de crescimento, para ter um papel ativo, endógeno ao sistema econômico, isto é, de- 11. O que significa e que explica a rigidez de preços e salários e por que isso é im- terminado por investimentos em novas tecnologias e em capital humano, que portante? gera aumentos de produtividade e rendimentos crescentes à 12. Explique os princípios e recomendações dos neoclássicos liberais e neoclássi- Assim, produto da economia cresce em função da acumulação de capital fí- COS conservadores (monetaristas). sico, do emprego de mais trabalhadores e do aumento do estoque de conhecimen- tos, sendo este uma função dos gastos com pesquisa e desenvolvimento de novos 13. Seguindo os pensamentos dos monetaristas, explique o que aconteceria na produtos e processos mais avançados, educação e treinamento da mão-de-obra em economia se Governo resolvesse estimular setor da construção civil, para criar novos empregos, mediante emissão de moeda e crédito abundante e ba- geral (capital humano). Os rendimentos da economia tornam-se crescentes por- rato.64 CURSO DE ECONOMIA 14. Diga se as seguintes afirmações são falsas ou verdadeiras: (a) para os pós-key- nesianos, a expansão monetária estimula a demanda, embora o emprego não cresça necessariamente na proporção desejada; (b) segundo os pós-keynesia- nos, a política monetária não exerce nenhum efeito sobre produto e o empre- go, gerando apenas inflação; (c) para Kalecki, investimentos financiados pelo crédito geram um fluxo de renda e impactos positivos na economia; (d) no 3 caso de Schumpeter, crédito é importante, assim como a existência de em- presários dinâmicos, com projetos inovadores e rentáveis. 15. Seguindo modelo de Lucas, em que = a diga se a Petrobrás au- mentará ou não sua produção a partir das seguintes informações: (a) novos COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR, conflitos no mundo árabe deverão elevar preço do petróleo no mercado in- ternacional; (b) a indústria automobilística incrementará sua produção para COMPORTAMENTO DA FIRMA E mercado interno e para a exportação; (c) o Governo dificultará a importação de petróleo, para não deteriorar ainda mais a balança comercial; (d) não have- rá dificuldades para captar recursos no mercado internacional de capitais; (e) FUNCIONAMENTO DO MERCADO incerteza e risco: não se pode prever com segurança quais serão os novos preços do petróleo e quanto a produção mundial aumentará; (f) os diretores da Petro- brás agem racionalmente e buscam maximizar os lucros da estatal. Fundamen- te sua resposta. Uma empresa escolhe que e quanto produzir em função dos preços e das prefe- rências dos consumidores. O empresário não produz um bem para estocar, mas para LEITURAS SUGERIDAS vender no mercado. Exclui-se, portanto, aquele que produz por hobby, pois não está agindo como empresário. Por suposição, os empresários e consumidores têm objeti- HUGON, Paul. História das doutrinas econômicas. São Paulo : Atlas, 1988. vos bem definidos e agem racionalmente. Os primeiros procuram maximizar lucros, HUNT, E. K. História do pensamento econômico: uma perspectiva crítica. Rio de Ja- enquanto os segundos objetivam a maior satisfação possível no consumo de bens e neiro : Campus, 1982. serviços. Este capítulo estudará, portanto, como interagem a oferta e a demanda de bens e serviços no mercado, começando pelo comportamento do consumidor. OSER, Jacob, BLANCHFIELD, William C. História do pensamento econômico. São Paulo : Atlas, 1983. SOUZA, Nali de Jesus. Desenvolvimento 4. ed. São Paulo : Atlas, 1999. 3.1 COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR As suposições iniciais da análise são as de que consumidor dispõe de deter- minada renda e conhece todas as informações sobre os bens e serviços disponíveis no mercado. Essas informações incluem os diferentes preços, a oferta de bens al- ternativos e grau de satisfação que cada bem proporcionará ao consumidor, no atendimento de suas necessidades. 3.1.1 Preferências De posse de sua renda, consumidor vai ao mercado a fim de comprar deter- minadas quantidades de um conjunto de bens, que formarão sua cesta de consu-