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KOSELLECK E RÜSEN: RESPOSTAS 
A PÓS-MODERNIDADE? 
Professor Doutor Ulisses Monteiro Coli Diogo
Nas Unidades 4 e 5 foram expostas algumas das tendências teóricas e metodológicas de fins da
década de 1960 e que influenciam até o presente a Historiografia. A História Cultural e a pós-
modernidade propiciaram uma revisão de conceitos e formas de se produzir e transmitir
conhecimentos sobre o passado. A partir deste momento, a Historiografia se viu questionada a partir
não só da relação com a literatura, como coloca White (1995), mas da também sobre a construção das
verdades e das críticas ao conhecimento científico moderno.
Se a História é um gênero literário, como é possível localizá-la no campo do conhecimento? A
História tem função definida? Tem sentido? Se a ciência, a partir do paradigma modernista precisa se
ressignificar, qual a posição da História? Quais os caminhos que a História toma perante essa
realidade?
O caminho apontado aqui para esses dilemas parte das respostas que de dois historiadores
alemães: Jörn Rüsen e Reinhart Koselleck.
A partir de Koselleck iremos analisar a História dos Conceitos, que é uma vertente que tem nele um de
seus principais nomes. Essa modalidade pode oferecer outra visão para a relação entre História e
Literatura ao dedicar-se a análise histórica dos conceitos, assim como suas modificações no tempo.
Considerando que a ideia de conceito é distinta da de palavra, para Koselleck, o conceito se refere a
como os diferentes significados dos termos e da linguagem no decorrer do tempo tem relação ao que é
dito pelos estudos históricos. Assim, nem toda palavra é um conceito, mas pode vir a ser.
Num momento seguinte da Unidade, o pensamento de Rüsen será analisado a partir de alguns dos seus
questionamentos acerca do lugar da História. A escolha pelas colocações teóricas desse historiador é
devida sua posição perante as questões relativas à razão, ao sentido e da proximidade com a literatura,
além de se apresentar como uma possível resposta ao dilema da diferença entre literatura e história.
RÜSEN E KOSELLECK 
• De acordo com os historiadores Marcelo Gantus Jasmin e João Feres Junior, a Begriffsgeschichte – termo
germânico para História dos Conceitos – é um campo de estudos históricos alemão, que desde a década de 1990
tem rompido fronteiras. No Brasil, sua recepção é recente, mas os conceitos teóricos de Reinheart Koselleck, já
marcam presença nos programas de graduação e pós-graduação das principais Universidades.
• Em Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos, de 1979, Koselleck reuniu as mais
importantes questões colocadas pela História Conceitual, seus princípios e diferenciação em relação a outras
disciplinas e correntes metodológicas. Em uma conferência proferida em 1992 e reproduzida pela revista Estudos
Históricos, Koselleck (1992, p. 136) afirma:
“A história dos conceitos coloca-se como problemática indagar a partir de quando determinados conceitos são
resultado de um processo de teorização. Essa problemática é possível de ser empiricamente tratada, objetivando
essa constatação, por meio do trabalho com as fontes. ”
KOSELLECK E A HISTÓRIA DOS CONCEITOS
Jasmin e Feres Jr. (2006) chamam atenção para três pressupostos básicos do pensamento de Koselleck:
 O primeiro se refere a distinção entre conceito e palavra. Nem toda palavra se torna um conceito, sendo o
conceito referente a uma determinada palavra, dotado de uma significação mais ampla que a própria palavra.
 O segundo refere-se a questão contextual. Para Koselleck um conceito nunca está isolado, sempre se
relaciona a um quadro linguístico mais abrangente. Outro aspecto, é que para ele a ideia de contexto não tem
limite, podendo significar o parágrafo ao qual o conceito está contido até a sociedade em que se encontra.
Assim, resta ao pesquisador escolher os caminhos a seguir de acordo com os interesses de seu trabalho.
 O terceiro e último pressuposto refere-se ao “triângulo linguístico” palavra-significado-objeto e realça que
cada conceito só pode ter um significado, correspondente ao seu exato contexto. Assim, se tomarmos a ideia
de fascismo, por exemplo, seu significado corresponde apenas a realidade onde foi criado, na Europa da
primeira metade do século XX. Porém, nota-se também que a palavra é ainda utilizada em diferentes
contextos e realidades. O que Koselleck defende é que ocorre uma espécie de ressignificação da palavra,
onde, num contexto diferente, ela evoca aplicações semelhantes a original.
• Koselleck afirma sobre a relação entre História e Literatura (1992, p. 136): “Isto
porque considero teoricamente errônea toda postura que reduz a história a um
fenômeno de linguagem, como se a língua viesse a se constituir na última
instância da experiência histórica. Se assumíssemos semelhante postura,
teríamos que admitir que o trabalho do historiador se localiza no puro campo da
hermenêutica.”
• Mesmo sem diretamente se referir a White, percebe-se o tom de oposição em
relação ao condicionamento da História a um ramo da Literatura. Para tal, o
historiador alemão coloca a própria linguagem como algo formado historicamente,
e que ao mesmo tempo depende da sua relação com o tempo.
• A partir de Koselleck (1992) é possível perceber como História e Literatura podem 
ser compreendidos além de uma relação de dependência, evidente após crise dos 
paradigmas. Seus estudos também são debatidos a partir de outros temas 
importantes para a Historiografia atual, como a noção de regimes de historicidade.
Figura 1: Reinhart Koselleck
• Rüsen propõe uma saída para questões como a relação com a literatura e a existência
de razão e sentido para a História a partir da crise dos paradigmas.
• Em sua obra História Viva o autor busca refletir acerca das formas e funções da
ciência histórica: “[...] apresentar a teoria da história como autocompreensão da
ciência da história quanto a seus fundamentos e à sua matriz disciplinar” (RÜSEN,
2007, p. 7). A obra é dividida em três capítulos que tratam das formas de escrita da
História, das funções do saber histórico e por fim, apresenta sugestões para o futuro.
• Um dos princípios que Rüsen (2007) apresenta em sua obra é a necessidade que
temos de escapar da visão dicotômica entre o entendimento da História por
pressupostos científicos em oposição a uma visão que a considere como um produto
artístico ou literário. Sua intenção é demonstrar que existe uma racionalidade
específica da História, e que nela, as características literárias são parte da coisa em
si.
Figura 2: Jörn Rüsen
JÖRN RÜSEN E A HISTÓRIA VIVA
• Rüsen afirma existirem duas dimensões para a História: a forma expressiva, mais artística, ligada a forma como
os historiadores se expressam; e a forma cognitiva, mais científica, ligada aos procedimentos metodológicos da
pesquisa e da relação com as fontes. Para ele, essas duas dimensões nunca foram conflitantes até o século XIX,
onde o sucesso das ciências trouxe para a História a necessidade de se enquadrar. O debate que associa
História a literatura e arte, assim como a tentativa de torná-la demasiadamente científica são, marcas de um
período influenciado pela lógica positivista. Essa oposição decorre de uma visão tradicional, que a própria
ciência histórica utilizou para distinguir-se de uma tradição pré-científica, mas que já não teria mais motivos.
• Assim, a partir da ideia da coexistência da forma cognitiva com a forma expressiva, Rüsen (2007) busca uma
concepção diferente de ciência. No caso específico da História, a parte mais artística e expressiva, traduzida pela
sua linguagem, é tão importante quanto a parte científica, capaz de aproximar o relatado com o ocorrido. Dessa
maneira, a valorização da forma cognitiva é colocada como um processo histórico. Sua proposta para o falso
dilema entre ciência e arte é que ambas compõem a produção do saber histórico, um dando conta da capacidade
de expressar e atingir as pessoas, enquanto o outro a aproximariado real.
Para Rüsen, o sentido da História é determinado pelo discurso, na sua forma expressiva: “A historiografia pode ser
caracterizada como processo de constituição narrativa de sentido, na qual o saber histórico é inserido (mediante
narrativa) nos processos comunicativos da vida humana [...]” (RÜSEN, 2007, p. 43). Assim, apresenta quatro formas de
sentido para a História:
• A constituição tradicional de sentido é aquela que “interpreta as mudanças temporais do homem e do mundo com a
representação da duração das ordens do mundo e das formas de vida” (RÜSEN, 2007, p. 48). Ou seja, é aquela em
que o ponto de vista busca sempre uma origem, capaz de explicar o motivo e a relação das coisas no processo
histórico, justificando-se pelo enraizamento e pela continuidade das práticas na sociedade. “Por ele, o tempo é
eternizado como sentido” (RÜSEN, 2007, p. 49, grifo do autor)
• Na constituição exemplar de sentido a argumentação histórica se preocupa em olhar para o passado para tentar
explicar o presente, através daquilo que podemos aprender com os atos ocorridos. Esse modelo corresponde a
História magistra vitae. A continuidade histórica se apresenta submetida a um sistema de regras e sua maior
característica é deixar a impressão de que a História ensina pela “moral”, que ganha significados para as práticas
atuais. Nela, “O tempo é espessado como sentido” (RÜSEN, 2007, p. 53, grifo do autor).
• A constituição crítica de sentido é aquela que pretende romper com as regras, e busca “esvaziar os modelos de
interpretação histórica culturalmente influentes, mediante a mobilização da interpretação alternativa das
experiências históricas conflitantes.” (RÜSEN, 2007, p.55). Apresenta-se então, como ruptura da continuidade,
das categorias, dos conceitos-chave e dos símbolos. Rüsen identifica o discurso pós-moderno e cita os
trabalhos de Foucault como exemplos dessa forma de sentido do discurso. Dessa maneira, o “tempo, como
sentido, torna-se julgável” (RÜSEN, 2007, p. 57, grifo do autor).
• A construção genética de sentido, que é aquela que é centrada na mudança temporal. Assim, com o tempo
significando mudança, adquire-se uma qualidade positiva. É desse modelo as construções historiográficas que
apresentam sentido teleológico. Nela, a perspectiva de um futuro melhor e do tempo como evidência de um
processo mais amplo, indica que a História já é praticamente traçada em sua origem (por isso o uso do termo
“genética”) e que a História apenas evidencia o desenvolvimento, o progresso, o processo, a evolução, que
necessariamente conduziriam a algo pré-determinado. “O tempo como sentido, é temporalizado”, ou seja, o
tempo é o próprio sentido que daria conta de concretizar o que historicamente nos tornaríamos.
Ao determinar as quatro formas de atribuição de sentido, Rüsen afirma que nenhuma das quatro
formas é encontrada em seu estado puro, e que os vários tipos interagem entre si. Dessa forma, uma
atribuição de sentido não pode ser pensada sem as demais. O historiador alemão defende que a
relação dialética das quatro formas de sentido é que trazem vivacidade ao discurso histórico:
É muito mais do que um recurso de última instância, quando se diz ser “dialética” a
interrelação entre os quatro tipos, na formatação historiográfica do saber histórico. A dialética articula
a implicação e a transcendência como relação lógica. Trata-se de um contexto que reúne efetivamente
as partes e as coloca ao mesmo tempo em contradição – ou seja, contém momentos de negatividade
que vivificam o processo da formatação historiográfica com uma tensão interna entre os elementos
típicos das diversas formas. Essa tensão confere a historiografia uma historicidade interna própria.
Com esta, a historiografia ganha atratividade própria e a possibilidade de aparecer ao público como
algo mais do que um mero modelo pré-fabricado de interpretação histórica, destinado a absorver
novos conhecimentos (RÜSEN, 2007, p. 64).
A aproximação entre História e literatura também pode ser entendida como resultado do aprofundamento da
compreensão das relações entre seres humanos, linguagem e realidade. Rüsen compreende essa aproximação
num debate que leva em conta a tradição historiográfica ocidental de forma mais ampla, não limitando o debate a
um determinando momento. Desta maneira, rompendo com a modernidade e a pós-modernidade, propõe que a
narrativa e o sentido, que para ele significa a forma como o historiador transmite suas conclusões acerca do
passado, é quem são responsáveis pela efetiva capacidade da História de refletir sobre o passado.
Portanto, com Rüsen, é possível perceber a História como um campo de debates ocorridos a partir de
discursos. Tanto o uso da narrativa, da pesquisa e dos sentidos são parte componente da Historiografia, são
elas que mantém a História viva, em constante reavaliação e estimulada a seguir debatendo a realidade. A sua
concepção de História e de sua relação com as críticas evidentes a partir da crise dos paradigmas, ajudam a
compreender o campo de estudos além dessa crise, propõe uma ressignificação da Historiografia e denota as
características como um campo de conhecimento singular, que tem elementos tanto “científicos” quanto
“artísticos” em sua composição.
Na disciplina Historiografia, o objetivo foi analisar a trajetória da História como um campo de
conhecimento, principalmente no século XX e início do XXI, além de compreender algumas das
principais correntes teóricas e metodológicas influentes em nossa realidade. Como dito na primeira
Unidade, essa análise é importante na formação de historiadores, pois propicia o debate com os iguais,
um aprimoramento e a adequação da História como campo do conhecimento, além de permitir
compreender as produções sobre o passado adequadas aos debates e realidades de seu tempo.
Por fim, este material pretende propiciar aos historiadores em formação instrumentos necessários
para formar o senso crítico necessário adequado à História. Saber questionar e compreender o sentido
de uma obra histórica, entender os debates teóricos, filosóficos e epistemológicos e se atualizar
perante os desafios que a trajetória como historiadores, seja em sala de aula ou nas futuras pesquisas.
CONCLUSÃO

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