Prévia do material em texto
Tuberculose 1 📄 Tuberculose Morgana R. Duarte- TXI Doença infectocontagiosa. A via de infecção tuberculosa é, quase sempre, inalatória. Em situações excepcionais, a infecção pode ser feita por inoculação direta do bacilo. Um indivíduo doente, portador de lesão pulmonar, pode, ao tossir ou ao falar, eliminar uma carga bacilar, diluída num aerossol no ar ambiente. As partículas contendo os bacilos (gotículas de Flügge), ao serem expostas ao vento e aos raios solares, são ressecadas e passam a ter volume ainda menor, passíveis de serem inaladas e atingirem o pulmão das pessoas naquele ambiente. Além das baixas condições socioeconômicas, a natureza das moradias, a subnutrição, a proporção na população de indivíduos com resistência natural diminuída (indígenas, negros e orientais), a organização dos serviços de saúde, o etilismo, a presença de outras doenças imunossupressoras AIDS, DM, silicose) e a intensidade das migrações nacionais e estrangeiras exercem grande influência. Serviço Nacional de Tuberculose Extremamente eficiente no registro dos doentes, no diagnóstico, no tratamento e na prevenção de TB. O diagnóstico pode ser feito em diversas ocasiões, mas o tratamento é exclusivamente estatal → adoção de esquemas uniformes e eficazes para a doença. Tuberculose 2 💡 A internação só é justificável em casos muito reservados e a cura é obtida praticamente na totalidade dos pacientes que fazem tratamento regular. Condutas equivocadas: isolamento total do paciente e uso exclusivo de talheres, livros, etc., e afastamento do trabalho por meses. Imunopatogenia da TB Agente etiológico: Mycobacterium tuberculosis. Vias aéreas: principal porta de entrada para os bacilos. � Bacilos inalados → alcançam os alvéolos → bacilos fagocitados por macrófagos → bacilos contidos por macrófagos, infecção barrada e disseminação hematogênica evitada. Disseminação hematogênica primária ocorre pp em imunossuprimidos. A capacidade do bacilo de sobreviver no interior dos macrófagos está relacionada com a virulência do bacilo e com a habilidade das células imunológicas em eliminar os bacilos. � Infecção não contida: bacilos deixam os macrófagos → disseminação linfática → linfonodos regionais (hilares) → infarto dos linfonodos hilares. Formação do complexo primário tuberculoso de Ranke: associação do foco primário e dos gânglios satélites da sua região. Composto por cancro de inuculação, linfangite e adenomegalia hilar. Tuberculose 3 A maioria dos casos de TB é clínico e radiologicamente inaparente, apesar de poder ser visível à radiografia de tórax. � Linfonodos hilares → linfonodos paratraqueais e vertebrais → duto torácico → corrente sanguínea → parte superior do pulmão ou outros órgãos. Oferta satisfatória de O2 e baixa perfusão local facilitam a multiplicação dos bacilos APC apresentam antígenos microbianos aos linfócitos → ativação de células T induzidas a produzir citocinas inflamatórias TNF-a, IFN-g) → potencialização da ação dos macrófagos. � Multiplicação dos bacilos nos macrófagos → células infectadas migram para o interior dos tecidos → recrutamento de células do sistema imunológico adaptativo LT, macrófagos e células dendríticas) → formação de granuloma para tentar deter a disseminação do patógeno. O granuloma pode desenvolver área central de necrose caseosa: resultado da morte da maioria dos bacilos e destruição do tecido pulmonar. Complexo de Ranke, representado pelo pequeno nódulo pulmonar calcificado à esquerda (seta), associados a linfonodos calcificados (cabeças de seta). Tuberculose 4 💡 Bacilo pode sobreviver no interior do granuloma de forma latente ou escapar do controle do sistema imunológico e causar doença. Tuberculose primária: lesão inicial que provoca sintomas imediatamente após a infecção. Tuberculose pós-primária: se os sintomas ocorrerem tardiamente. Fórmula de Rich Calcula a probabilidade de uma infecção tuberculosa evoluir para doença tuberculosa. Diretamente proporcional: ao número e virulência do bacilo e à hipersensibilidade. Inversamente proporcional: à resistência natural e adquirida. Diagnóstico da TB Bacteriologia → padrão-ouro: cultura � Microscopia: detecção do indivíduo bacilífero, amplamente utilizado � Cultura: cultivo em Lowenstein-Jensen ou Ogawa-Kudoh, resultado expresso em cruzes. � Testes de sensibilidade aos ATB método das proporções � Métodos moleculares: Xpert MTb/RIF � Marcadores biológicos: ADA é uma enzima liberada por linfócitos ativados. Método colorimétrico de simples execução. Método de Giusti. Prova tuberculínica ou teste de Mantoux Tuberculose 5 O exame consiste na aplicação por via intradérmica ID da tuberculina PPD RT23 sob a pele do antebraço e posterior leitura ( após 48 a 72 horas) da enduração provocada pela solução A prova tuberculínica está indicada: � no controle de contatos; � na investigação de infecção latente no adulto; � na investigação de infecção latente e de TB doença em crianças; e � na avaliação anual de profissionais de saúde. É considerado como infectado pelo bacilo da tuberculose o paciente que tiver enduração 5 mm. Resultados 5mm, considera-se como não reator Definição da tuberculose com baciloscopia negativa As fontes de infecção são caracterizadas segundo seu estado bacteriológico: Bacilíferos B A baciloscopia do escarro é positiva. Nestes casos, o doente elimina uma quantidade de bacilos superior a 5.000 por ml de escarro; Não-bacilíferos A baciloscopia do escarro é negativa. A cultura pode ser positiva C ou negativa C. Tuberculose 6 Diagnóstico clínico A TB pode acometer uma série de órgãos e/ou sistemas. A forma pulmonar é a mais frequente e a mais relevante para a saúde pública, pois é responsável pela manutenção da cadeia de transmissão da doença. A- Tuberculose pulmonar primária Mais comum em crianças e adolescentes. Mais comum de forma insidiosa e lenta (mas pode ser aguda e grave). Paciente irritadiço, com febre baixa, sudorese noturna, inapetência e EF inexpressivo. Raramente há manifestações de hipersensibilidade extrapulmonar Tuberculose 7 Linfonodomegalia mediastinal (seta) e consolidação nos lobos médio e inferior direito (cabeça de seta) em um paciente de 6 meses de idade com tuberculose primária. Complexo de Ghon, caracterizado por lesão no parênquima pulmonar (seta), associado a linfonodomegalia hilar (cabeça de seta). Raio-x com múltiplos pequenos nódulos de distribuição difusa, característico do padrão miliar, em um paciente com tuberculose primária. Paciente com tuberculose primária apresentando derrame pleural. Tuberculose 8 💡 Baciloscopia direta e cultura com escarro negativos muitas vezes. História de contato com um caso de TB pulmonar ativa + radiologia sugestiva (foco pulmonar inferior e anterior e/ou ganglionar). B- Tuberculose pulmonar pós-primária Mais comum no adolescente e no adulto jovem (mas pode ocorrer em qualquer idade). Característica principal: tosse seca ou produtiva persistente por tempo 3 semanas. Fácies de doença crônica e emagrecimento. Diminuição do MV, sopro anfórico ou até normal. Expectoração purulenta ou mucoide, com ou sem sangue. Febre vespertina (não costuma passar de 38ºC, sem calafrios. Sudorese noturna, anorexia e fadiga. Rx: cavidade (única ou múltipla) localizada pp nos segmentos apicais e dorsais dos lobos superiores. Paciente de 50 anos de idade com tuberculose pós-primária. Vemos no raio-X opacidades focais (setas) com uma cavitação delimitada associada (cabeças de seta), localizado no lobo superior direito. Tuberculose 9 💡 Diagnóstico de presunção: 2 amostras de identificação do BAAR positivas por baciloscopia direta ou 1 amostra de BAAR positivo Rx sugestivo → decisão de início terapêutico. C- Tuberculose miliar Milium: semente grega → refere-se ao aspecto radiológico pulmonar. Representa a disseminação hematogênica do bacilo. Forma grave da doença e aconteceem 1% dos pacientes HIV soronegativos e 10% HIV soropositivos. Sintomas: febre, astenia, emagrecimento e tosse EF hepatomegalia 30%, alterações do SNC e alterações cutâneas do tipo eritemato-máculo-pápulo-vesicosas. Baciloscopia geralmente é negativa, pois o processo é intersticial. Diagnóstico por imagem Cavitação (seta) no segmento superior do lobo inferior direito, padrão característico de tuberculose pós-primária Tuberculose pós-primária em um paciente com 22 anos de idade, apresentando consolidação heterogênea no lobo superior direito. Tuberculose 10 Ordem de importância: RX. TC, US e RM A- Radiografia simples de tórax Simples, boa disponibilidade e baixo custo. Utilizada em várias incidências: PA, perfil, oblíqua, ápico-lordótica e em decúbito lateral (derrame pleural) Locais preferenciais: � Lobos superiores (posterior) � Segmentos apicais dos lobos inferiores � Língula, lobo médio B- TC de tórax Principalmente pela técnica de alta resolução pela alta sensibilidade. Permite: localizar a doença no lobo pulmonar secundário, lesões centrolobulares que caracterizam disseminação broncogênica, mostrar pequenas escavações não Tuberculose 11 visualizadas no Rx simples e diagnóstico diferencial com outras patologias pulmonares. Particularmente útil em casos de baciloscopia negativa com Rx altamente sugestivo de TB C- US e RM US útil para pequenos derrames, septações e espessamentos pleurais, além de guia para punção pleural. RM não é utilizada para diagnóstico de TB pulmonar, mas pode auxiliar na TB extrapulmonar. Tratamento da tuberculose Aspectos do tratamento Envolve o paciente, o ATB e o agente etiológico. � Paciente: atenção especial para pacientes com doença concomitante AIDS, DM alimentação, repouso e clima são totalmente irrelevantes. a� As necessidades psicológicas devem ser abordadas → difícil adesão ao tratamento (relação com distúrbios psicológicos e desorganização dos serviços). � ATB os ATBs disponíveis são suficientes para curar, mas não são ideais → usados por longo período e razoáveis efeitos colaterais. � Agente etiológico: existem bacilos com resistência natural aos ATBs. Instituição do esquema com 4 drogas. Esquema básico para adultos e adolescentes (2RHZE/4RH) Indicações: � Casos novos de todas as formas de TB pulmonar e extrapulmonar infectados ou não por HIV Tuberculose 12 a� Exceto meningoencefalite � Recidivas ou retorno após abandono com doença ativa a� Preconiza-se solicitação de cultura, identificação e teste de sensibilidade em casos de retratamento Medicamento Dose Período RHZE 1 cp para cada 15kg/peso 2 meses Esquema de consolidação com associação H e R HR 400600mg como dose máxima 4 meses Massa Dose HR Até 35kg 1 cp 3650kg 1 cp 0,5 cp 50 kg 2 cp Em casos de meningotuberculose a dose deve ser mantida por mais 2 meses → totalizando 9 meses. Deve-se associar Prednisona 12mg/kg) por 4 semanas com diminuição progressiva em mais 4 semanas. Efeitos adversos � Hidrazida a� Neuropatia periférica (alteração do metabolismo de vit b6, hepatite, náusea e vômitos, reações hematológicas, derrame pleural e síndrome lúpus-like e alterações mentais. � Rifampicina a� Coloração alaranjada nas fezes e urina, náuses e vômitos, urticária com rash-cutâneo, febre e eosinofilia. � Pirazinamida a� Náuseas e vômitos, artralgia, gota, eritema e prurido. � Etambutol Tuberculose 13 a� Alterações visuais (se diminuição da acuidade visual e alteração nas cores INTERROMPER, sintomas gastrointestinais e neurológicos. � Etionamida a� Distúrbios gastrointestinais, hipotensão postural, alterações psiquiátricas, hepatite, fraqueza muscular e teratogenia. � Estreptomicina a� Ototoxicidade (surdez irreversível), grave toxicidade renal e rash-cutâneo, febre, cefaleia, tremores, parestesias e anemia. Esquema de tratamento de TB na infância (do espessamento pleural. Uso preconizado para derrames pleurais volumosos, de início recente e na recidiva precoce Tuberculose pulmonar na criança Quadro geralmente inespecífico. Baseado principalmente na epidemiologia, na radiologia e no teste tuberculínico. TB na criança geralmente é paucibacilar, com positividade para cultura de escarro entre 3040% mesmo sem demonstração do bacilo, se a suspeita for muito alta o tratamento deverá ser iniciado. Derrames pleurais são mais raros Tuberculose 18 Prevenção e BCG A vacina BCG previne contra as formas graves da tuberculose (meníngea e miliar), é feita com o bacilo de Calmette-Guérin, que é uma forma enfraquecida da bactéria que causa a tuberculose. Também contém glutamato de sódio e solução fisiológica. As crianças devem tomar uma dose única ao nascer, preferencialmente. Na rotina dos serviços, a vacina está disponível para crianças menores de 5 anos de idade. Reações Tuberculose 19 A vacina BCG geralmente deixa uma cicatriz de até 1 cm de diâmetro no braço direito. A reação inclui uma mancha vermelha que evolui para uma pequena ferida e eventualmente cicatriza. Possíveis eventos adversos: úlceras grandes, gânglios ou abscessos na pele e disseminação do bacilo da vacina. Os gânglios ocorrem em cerca de 10% dos vacinados. Cuidados A revacinação de crianças sem cicatriz não é mais recomendada pelo Ministério da Saúde desde fevereiro de 2019. Bebês prematuros com menos de 2Kg de peso corporal não podem tomar a vacina