Prévia do material em texto
ANATOMIA DO SISTEMA RESPIRATÓRIO TUBERCULOSE Definição • A tuberculose (TB) é uma doença granulomatosa crônica com um estágio latente único, causada pelo bacilo álcool- acidorresistente (BAAR) Mycobacterium tuberculosis. • O pulmão é o local da doença em 75 a 80% dos casos; os locais extrapulmonares frequentes incluem os linfonodos, a pleura, os ossos e as articulações. • A TB é transmitida de pessoa para pessoa principalmente por inalação de gotículas infecciosas aerossolizadas por pacientes com TB pulmonar ativa. A TB é a principal doença infecciosa causadora de mortes em todo o mundo, com mais de 95% dos casos e 99% das mortes ocorrendo em ambientes de recursos limitados. Agente etiológico • A TB pode ser causada por qualquer uma das sete espécies que integram o complexo Mycobacterium tuberculosis: M. tuberculosis, M. bovis, M. africanum, M. canetti, M. microti, M. pinnipedi e M. caprae. • Em saúde pública, a espécie mais importante é a M. tuberculosis, conhecida também como bacilo de Koch (BK). É um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR), aeróbio, com parede celular rica em lipídios (ácidos micólicos e arabinogalactano), o que lhe confere baixa permeabilidade, reduz a efetividade da maioria dos antibióticos e facilita sua sobrevida nos macrófagos. • Em alguns locais, o M. bovis pode ter especial relevância como agente etiológico da TB e apresenta-se de forma idêntica ao M. tuberculosis, mais comum em formas extrapulmonares. Epidemiologia • O Brasil está entre os 30 países de alta carga para TB. Nos últimos 10 anos, foram diagnosticados, em média, 71 mil casos novos da doença. • No ano de 2016, foram notificados 4.483 óbitos por TB, o que corresponde ao coeficente de mortalidade de 2,2 óbitos por 100.000 habitantes. • O percentual de sucesso de tratamento reportado para os casos novos com confirmação laboratorial foi de 74,6%, em 2016, com 10,8% de abandono de tratamento, e 4,1% dos registros com informação ignorada quanto ao desfecho. • O Brasil não possui uma epidemia generalizada, mas concentrada em algumas populações, como as pessoas vivendo com HIV (PVHIV), em situação de rua, privadas de liberdade (PPL), a população indígena e pessoas que vivem em aglomerados e em situação de pobreza. • No mundo - Estima-se que em 2015 cerca de 10,4 milhões de pessoas desenvolveram tuberculose (TB) e 1,4 milhão morreram da doença. Fisiopatologia • O M. tuberculosis é transmitido por via aérea, de uma pessoa com TB pulmonar ou laríngea, que elimina bacilos no ambiente (caso fonte), a outra pessoa, por exalação de aerossóis oriundos da tosse, fala ou espirro. • Pessoas com TB pulmonar ou laríngea que tem baciloscopia positiva no escarro têm maior capacidade de transmissão. • Variáveis importantes que podem explicar as diferenças na transmissão incluem a virulência do microrganismo, a imunidade inata e a suscetibilidade das populações expostas (p. ex., infectados pelo HIV). • Fatores genéticos humanos, como polimorfismos na expressão ou regulação de receptores toll-like (TLR) podem modular o risco e a expressão da bem como o risco e a expressão da doença. Observa-se uma predisposição à doença na presença de defeitos dos receptores de interferona (IFN)-γ e interleucina (IL)-12, consistente com seus papéis na imunidade adaptativa. • O pulmão é o local da maioria dos casos de TB por reativação. A característica principal da patologia é a formação de granuloma, com necrose caseosa e células de Langerhans gigantes multinucleadas. O material caseoso encontrado nas cavidades necróticas contém BAAR. Mycobacterium tuberculosis multiplica-se de maneira exuberante no cáseo líquido. Manifestações Clínicas Tuberculose primária - A maioria dos casos de TB primária não é reconhecida clinicamente, exceto pela conversão do teste cutâneo tuberculínico ou pelo IGRA. Podem ocorrer febre, falta de ar, tosse não produtiva e, raramente, eritema nodoso. Pode-se verificar a presença de crepitações e sibilos localizados. Na maioria dos indivíduos (com exceção da imunossupressão), ocorre resolução das manifestações da TB primária sem tratamento, juntamente com o desenvolvimento de uma resposta imune adaptativa. Tuberculose primária progressiva - A ausência de desenvolvimento de imunidade adaptativa é mais comum em crianças pequenas, em indivíduos idosos e em pacientes imunocomprometidos. Nesse contexto, pode haver desenvolvimento de TB primária progressiva, manifestada como meningite, TB miliar ou TB disseminada. A infecção primária também pode progredir para a TB pulmonar nos primeiros 1 a 2 anos. Do ponto de vista clínico, não é possível distinguir entre TB primária progressiva e TB pós-primária ou por reativação. Tuberculose de reativação (pós-primária) - Os termos TB de reativação e TB pós-primária são utilizados como sinônimos para designar a TB primária seguida por um período variável de pelo menos 2 anos de latência clínica, quando então há desenvolvimento de TB no contexto de hipersensibilidade tardia/imunidade adaptativa: a sensibilização existente aos antígenos micobacterianos contribui de maneira significativa para a patogenia e as manifestações clínicas. A TB pulmonar constitui a forma mais comum de TB de reativação. Os achados clínicos típicos na TB pulmonar consistem em início insidioso de tosse produtiva, sudorese noturna, anorexia e perda de peso. Ocorre febre em aproximadamente metade dos pacientes afetados. Os pacientes podem ser assintomáticos, e o diagnóstico só é sugerido por uma radiografia de tórax obtida por outras razões (TB subclínica). O escarro pode ser purulento, com estrias de sangue ou francamente sanguinolento. Pode ocorrer dor pleurítica na presença de inflamação subpleural. Tuberculose por reinfecção - A TB por reinfecção é clinicamente indistinguível de outras formas e constitui um importante mecanismo patogênico em ambientes de alta transmissão. Em ambientes com alta carga de TB, os indivíduos que anteriormente receberam tratamento bem-sucedido para essa doença podem correr um risco elevado, de até cinco vezes, em comparação com aqueles sem história de desenvolvimento de doença TB, refletindo a alta frequência de eventos de reinfecção que constituem uma elevada proporção de casos ativos. Tuberculose extrapulmonar - Cerca de 20% dos casos de TB em populações não infectadas pelo HIV são extrapulmonares Tuberculose pleural - A TB pleural ocorre por extensão direta, quando um foco caseoso subpleural libera líquido no espaço pleural ou por meio de disseminação hematogênica.7 Pode haver TB pulmonar concomitante. O pico de ocorrência é observado 3 a 6 meses após a infecção primária. A manifestação típica consiste em início abrupto de febre, dor torácica pleurítica e tosse. Tuberculose miliar - A TB miliar habitualmente se caracteriza pela sua manifestação insidiosa, que consiste em febre, perda de peso, sudorese noturna e poucos sinais ou sintomas localizados. Meningite tuberculosa - Em geral, a meningite TB caracteriza- se por menos de 2 semanas de febre, cefaleia e meningismo.8 Pode haver redução do nível de consciência, diplopia e (raramente) hemiparesia. O exame físico revela rigidez de nuca e, em certas ocasiões, neuropatia craniana (nervos cranianos VI, III, IV, VII por ordem de frequência) e sinais piramidais. Linfadenite tuberculosa - A linfadenite pode constituir a única manifestação da TB ou, com mais frequência, particularmente em indivíduos infectados pelo HIV, pode acompanhar a TB pulmonar. Os pacientes com doença isolada de linfonodos podem ser afebris. Os linfonodos supraclaviculares e cervicais posteriores são acometidos com mais frequência. Pericardite tuberculosa, Peritonite tuberculosa, Tuberculose gastrintestinal, Tuberculose renal, Osteomielite vertebral Diagnóstico Infecção por Mycobacterium tuberculosis - O diagnóstico de infecção latente por TB baseia-se no achado de hipersensibilidadede tipo tardio aos antígenos micobacterianos e ausência de TB clinicamente ativa. O teste cutâneo tuberculínico tem sido amplamente utilizado e há fortes evidências epidemiológicas que respaldam a sua interpretação. Os ensaios de liberação de interferona gama (IGRA) também foram aprovados para o diagnóstico de infecção latente por TB, e os CDC os consideram permutáveis com o teste cutâneo tuberculínico para indivíduos com mais de 2 anos. Os ensaios consistem em culturas celulares in vitro, nas quais as células sanguíneas são estimuladas com uma mistura de antígenos presentes no M. tuberculosis. A principal vantagem dos IGRA é a sua especificidade e capacidade de fornecer resultados interpretáveis com apenas uma visita do paciente. As desvantagens dos IGRA são o seu elevado custo. Tuberculose ativa - Em países com alta carga de TB, o diagnóstico da doença baseia-se, com frequência, nos sintomas clínicos e na microscopia do escarro. A microscopia do escarro constitui a abordagem padrão para o diagnóstico de TB pulmonar. Um esfregaço necessita de 1.000 a 10.000 bacilos/mℓ para ser considerado positivo. A baciloscopia do escarro, desde que executada corretamente em todas as suas fases, permite detectar de 60% a 80% dos casos de TB pulmonar em adultos Teste rápido molecular para tuberculose (TRM-TB) - B é um teste de amplificação de ácidos nucleicos utilizado para detecção de DNA dos bacilos do complexo M. tuberculosis e triagem de cepas resistentes à rifampicina pela técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real (WHO, 2011). O teste apresenta o resultado em aproximadamente duas horas em ambiente laboratorial, sendo necessária somente uma amostra de escarro. Radiografia de tórax - Dentre os métodos de imagem, a radiografia do tórax é o de escolha na avaliação inicial e no acompanhamento da TB pulmonar. Nela podem ser observados vários padrões radiológicos sugestivos de atividade de doença, como cavidades, nódulos, consolidações, massas, processo intersticial (miliar), derrame pleural e alargamento de mediastino. O exame radiológico em pacientes com diagnóstico bacteriológico tem como principais objetivos excluir outra doença pulmonar associada, avaliar a extensão do acometimento e sua evolução radiológica durante o tratamento. A tomografia computadorizada (TC) do tórax é mais sensível para demonstrar alterações anatômicas dos órgãos ou tecidos comprometidos e é indicada na suspeita de TB pulmonar quando a radiografia inicial é normal, e na diferenciação com outras doenças torácicas, especialmente em pacientes imunossuprimidos. Tratamento Os medicamentos antiTB, em geral, interferem no sistema enzimático do bacilo ou bloqueiam a síntese de algum metabólito essencial para o seu crescimento. Os fármacos só atuam quando há atividade metabólica, ou seja, bacilos em estado de latência não são atingidos pelos medicamentos, mas são destruídos pelo sistema imunológico. Se o esquema terapêutico é equivocado, realizado de maneira irregular, com doses inadequadas ou interrompido precocemente, cepas resistentes aos medicamentos podem ser selecionadas, caracterizando a resistência adquirida. Levando-se em consideração o comportamento metabólico e a localização do bacilo, o esquema terapêutico antiTB, para ser mais efetivo, deve atender a três grandes objetivos: Ter atividade bactericida precoce; ser capaz de prevenir a emergência de bacilos resistentes; e ter atividade esterilizante. Os medicamentos com maior Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil 103 atividade bactericida precoce são: isoniazida, estreptomicina e rifampicina. A isoniazida e a rifampicina são ativas em todas as populações bacilares sensíveis, quer intracavitárias, no interior dos granulomas ou dos macrófagos. A estreptomicina é mais ativa contra os bacilos de multiplicação mais rápida, no interior das cavidades. A pirazinamida age nas populações que se encontram no interior das lesões caseosas fechadas e dos macrófagos, cujo meio é ácido. Os medicamentos com maior poder esterilizante são: rifampicina e pirazinamida. O etambutol é bacteriostático e é estrategicamente associado aos medicamentos mais potentes para prevenir a emergência de bacilos resistentes. O esquema de tratamento da tuberculose é padronizado, deve ser realizado de acordo com as recomendações do Ministério da Saúde e compreende duas fases: a intensiva (ou de ataque), e a de manutenção. A fase intensiva tem o objetivo de reduzir rapidamente a população bacilar e a eliminação dos bacilos com resistência natural a algum medicamento. Uma consequência da redução rápida da população bacilar é a diminuição da contagiosidade. Para tal, são associados medicamentos com alto poder bactericida. A fase de manutenção tem o objetivo de eliminar os bacilos latentes ou persistentes e a redução da possibilidade de recidiva da doença. Nessa fase, são associados dois medicamentos com maior poder bactericida e esterilizante, ou seja, com boa atuação em todas as populações bacilares. No Brasil, o esquema básico para tratamento da TB em adultos e adolescentes é composto por quatro fármacos na fase intensiva e dois na fase de manutenção. A apresentação farmacológica dos medicamentos, atualmente em uso, para o esquema básico é de comprimidos em doses fixas combinadas com a apresentação tipo 4 em 1 (RHZE) ou 2 em 1 (RH). O esquema básico em crianças (< de 10 anos de idade) é composto por três fármacos na fase intensiva (RHZ), e dois na fase de manutenção (RH). Prevenção A vacina BCG (Bacilo Calmette-Guérin) é utilizada desde a década de 1920 como medida preventiva complementar no controle da tuberculose. A vacina previne especialmente as formas graves da doença, como TB miliar e meníngea na criança. O esquema de vacinação corresponde à dose única administrada o mais precocemente possível, preferencialmente nas primeiras 12 horas após o nascimento. Diagnosticar e tratar, correta e prontamente, os casos de TB pulmonar são medidas fundamentais para o controle da doença. Esforços devem ser realizados no sentido de encontrar precocemente o doente e oferecer o tratamento adequado, interrompendo sua cadeia de transmissão. Busca ativa de sintomático respiratório (pessoa com tosse por período ≥ 3 semanas de duração). A cada 100 SR examinados, espera-se encontrar, em média, de três a quatro doentes bacilíferos. A adesão aos tratamentos prescritos por equipes de saúde é um desafio constante. No caso da tuberculose, a não adesão ao tratamento pode ter consequências importantes para o paciente e para a comunidade, diminuindo a possibilidade de cura, mantendo a cadeia de transmissão e aumentando o risco de resistência aos medicamentos e de óbitos por tuberculose. Controle de Contatos - A avaliação sistemática de pessoas que foram expostas a pacientes com tuberculose pulmonar ou laríngea consiste em uma abordagem eficaz e orientada para a busca ativa de casos de TB e, também, para identificação de indivíduos recém-infectados pelo M. tuberculosis no âmbito dos programas de controle da tuberculose. BRONCOASPIRAÇÃO Definição - Inalação de material estranho (secreção orofaríngea, gástrica, sangue, líquidos, alimentos) para o interior das vias respiratórias, abaixo das pregas vocais. Epidemiologia A maioria das vítimas de aspiração de corpo estranho são lactentes e crianças nos primeiros anos de vida, podendo ocorrer em idosos também, que muitas vezes é decorrente de mastigação ineficiente pelo uso de próteses dentárias inadequadas. Contrariamente ao que ocorre em crianças e em idosos, a aspiração de corpos estranhos (ACE) é rara em adultos, sendo relacionada à ingestão acidental de instrumentos de trabalho: clipes, tachinhas e pregos, e durante momentos de inconsciência: anestesia geral, sedação, intoxicação, convulsões e distúrbios neurológicos que afetam a orofaringe. Pacientes críticos com maisde 65 anos de idade: Apresentam 4 vezes mais chances de desenvolver pneumonia por broncoaspiração. Doença neurológica: Distrofia muscular, tumor de sistema nervoso central, polineuropatia, acidente vascular encefálico, traumatismos cranianos, doença de Parkinson, Alzheimer, senilidade, uso de medicações psiquiátricas/depressoras do SNC. Alteração do nível de consciência Doença pulmonar obstrutiva crônica (dpoc) descompensada: As alterações no padrão respiratório podem influenciar a coordenação entre a deglutição e a respiração dos indivíduos com DPOC. Os pacientes acometidos pela doença são mais suscetíveis às alterações deste sincronismo, o que aumenta os riscos de infecções respiratórias e broncoaspirações. Cerca de 80% dos casos de ACE ocorrem em crianças, com um pico de incidência entre 1 e 3 anos. Nessa faixa etária, as crianças exploram do ambiente através da via oral, pois possuem coordenação motora fina para colocar o objeto na boca, porém não possuem dentes molares e mastigam os alimentos de forma incompleta, com os dentes incisivos, o que predispõe à ACE. Sinais clínicos • Tosse antes, durante e depois da deglutição na alimentação por via oral; • Cianose labial; Engasgo; • Voz molhada ou alteração vocal; • Desconforto respiratório; • Paciente traqueostomizado: saída de saliva ou alimento pela traqueostomia; • Sonolência durante ou após a administração do alimento por via oral; • Emese.