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www.cursocei.com CEI Círculo de Estudos pela Internet PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL. Todos os direitos reservados. Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 2 www.cursocei.com SUMÁRIO AULA 18 ................................................................................................................................................. 3 LIMITES E RESTRIÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS .................................................................... 3 BLOCO 01 ..................................................................................................................................... 3 BLOCO 02 ..................................................................................................................................... 9 BLOCO 03 ................................................................................................................................... 15 LIMITES E RESTRIÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS .................................................................. 29 BLOCO 04 ................................................................................................................................... 29 BLOCO 05 ................................................................................................................................... 32 www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 3 www.cursocei.com AULA 18 PROFESSOR DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 🏳 LIMITES E RESTRIÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS BLOCO 01 Noções Introdutórias a) A fundamentalidade das limitações e restrições dos Direitos Fundamentais Uma das temáticas centrais da Teoria dos Direitos Fundamentais, que é um universo que compreende diversos temas. Estuda-se sua evolução histórica, sistemas de proteção e garantias, características, dimensões, eficácias e também suas limitações e restrições. Não é um tema muito intuitivo, visto que se trata de limitações e restrições de direitos muito importantes, direitos da pessoa humana que expressam juridicamente a necessidade de proteger e assegurar sua dignidade. Os direitos e a dignidade da pessoa humana possuem diversos precedentes históricos, como a afirmação do cristianismo de que a pessoa humana foi concebida à imagem e semelhança de Deus, razão pelo qual detém valor, dignidade e merece proteção. Por outro lado, uma das concepções modernas é o pensamento de Immanuel Kant que, no mundo dos meios, têm-se coisas e pessoas, sendo que coisas possuem preço e pessoas possuem dignidade. Logo, quando se faz referência a limitações e restrições de direitos fundamentais, que são conquistas históricas de libertação e emancipação da pessoa humana, se torna algo contraintuitivo. Afinal, como se limita ou restringe direitos tão importantes para o ser humano e sua dignidade? Por mais que pareça contraintuitivo, as limitações e restrições são fundamentais para a própria garantia da coexistência e harmonia entre os direitos humanos e direitos e deveres fundamentais. Ao se estudar direitos fundamentais, é dado um foco especial as suas conquistas, prerrogativas, franquias, etc, que investem as pessoas de poderes em relação à autoridade estatal e no âmbito das relações privadas com o fim de equilibrar as partes. Contudo, não se estuda direitos fundamentais sem os correspondentes deveres fundamentais. As Constituições, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, possuem deveres fundamentais em seu www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 4 www.cursocei.com catálogo de direitos fundamentais, o que não é diferente na Constituição Federal de 1988: logo no Capítulo I dos Título II da CF/1988 se fala em Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. Portanto, as limitações e restrições não existem apenas para a coexistência e harmonia entre os direitos fundamentais, mas a coexistência e harmonia entre os direitos e deveres fundamentais,1 razão pelo qual deve ser superada a ideia de que esse tema é contraintuitivo. b) Estudo das limitações e restrições dos Direitos Fundamentais É importante esclarecer que o estudo das limitações e restrições dos direitos fundamentais depende da análise de diversos aspectos que estão correlacionados a esse estudo. Primeiramente, esse estudo deve ser feito através de uma verdadeira premissa teórica: apesar de sua importância para o indivíduo e para a coletividade, não há direitos fundamentais absolutos.2 Isso é essencial para a coexistência e harmonia entre os direitos fundamentais. Quanto aos aspectos em si, como exemplo, têm-se o suporte fático das normas de direitos fundamentais3, quais os pressupostos teóricos teoria interna e os da teoria externa e qual a ideia de conteúdo essencial dos direitos fundamentais.4 Por fim, deve ser utilizada uma referência teórica para o estudo do tema. O Professor Dirley da Cunha Júnior elegeu a Teoria dos Princípios de Robert Alexy. c) Normas constitucionais Antes de adentrar-se ao tema em si, é importante ressaltar que, considerando que serão tratados direitos fundamentais que estão previstos na Constituição Federal de 1988, a Constituição é um sistema jurídico, é um sistema aberto de normas constitucionais que estão sempre abertas a captar, dialogar e aprender com os fatos da realidade e com as transformações sociais.5 Entende-se por normas constitucionais todas as disposições jurídicas (princípios ou regras) inseridas em uma 1 Como exemplo, do mesmo modo que existe a liberdade de expressão, também existe o dever de respeitar a honra e a imagem das pessoas. Portanto, diante desse dever de respeitar a imagem e a honra das pessoas, verifica-se a existência de limitações e restrições da liberdade de expressão. 2 “Se meu direito é absoluto, não há nenhum outro direito absoluto, pois contra o meu direito, não há nenhum direito.” Se trata de uma afirmação extremamente equivocada. Ao afirmar que um direito é absoluto, se nega a existência de outros. 3 O suporte fático das normas de direitos fundamentais possui duas teorias que se antagonizam: suporte fático amplo e suporte fático restrito. 4 O conteúdo essencial dos direitos fundamentais também possui duas teorias que se antagonizam: teoria absoluta e a teoria relativa. É um tema importante por prever qual o conteúdo mínimo de direitos fundamentais, pois o esvaziamento desse mínimo/ essencial gera a própria inexistência desses direitos. 5 A teoria da Constituição aberta, uma Constituição em que sua força normativa é mantida a partir do diálogo das normas constitucionais com a realidade, vem do jurista alemão Konrad Hesse. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 5 www.cursocei.com Constituição, ou reconhecidas por ela, independentemente de seu conteúdo, pois a Constituição brasileira não se limita a ser material, mas é uma Constituição formal.6 1. Teoria dos Princípios De início, é importante deixar claro que os princípios só passaram a ter importância normativa e teórica no segundo pós-guerra como uma das grandes conquistas do neoconstitucionalismo ou novo direito constitucional, pois no âmbito da corrente pós-positivista pregou a importância dos valores e atrelá-los ao sistema jurídico. Os princípios passam a ter uma dimensão normativa reconhecida e também a encerrar juízos de “dever ser”, e não apenas as regras. a) Distinções entre princípios e regras Quanto às diferenças entre as regras e os princípios, existem alguns critérios presentes na doutrina que realizam essa diferenciação entre ambos: Grau de abstração e generalidade: os princípios instituem valores que são abertos, abstratos e genéricos e, portanto, possuem alto grau de abstração e generalidade, enquanto as regrasPós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 38 www.cursocei.com exageradas, condenáveis, satíricas, humorísticas, bem como as não compartilhadas pelas maiorias. Ressalte- se que, mesmo as declarações errôneas, estão sob a guarda dessa garantia constitucional. 6. Ação procedente para declarar a inconstitucionalidade dos incisos II e III (na parte impugnada) do artigo 45 da Lei 9.504/1997, bem como, por arrastamento, dos parágrafos 4º e 5º do referido artigo. (STF; ADI 4451/DF; Relator: Ministro Alexandre de Moraes; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 21/06/2018; Data da Publicação: 06/03/2019). Grifo não original. Disponível em: http://redir. stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=749287337 http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=749287337 http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=749287337 AULA 18 Limites e restrições dos direitos fundamentais Bloco 01 Bloco 02 Bloco 03 Limites e restrições dos direitos fundamentais Bloco 04 Bloco 05são específicas e possuem baixo grau de abstração e generalidade. Ao final, não se trata de uma distinção precisa e qualitativa. Grau de indeterminação: princípios são normas cujo conteúdo, por ser aberto, é indeterminado, e por isso precisam de medidas de densificação, delimitação e concretização, enquanto as regras, por terem um conteúdo fechado, são mais precisas e determinadas. Proximidade da ideia de direito: os princípios, por revelarem valores, são normas que identificam a ideia de direito a vigorar no sistema jurídico, ou seja, os princípios definem as exigências de justiça, liberdade, igualdade, dignidade, fraternidade, democracia, etc, ao contrário das regras que são aplicáveis em situações mais específicas. Função normogenética e sistêmica: os princípios são normas que fundamentam e dão bases para as próprias regras, tanto na sua criação e elaboração quanto na sua interpretação e aplicação. Logo, possuem uma função sistêmica do ordenamento jurídico, lhe garantindo e conferindo uma ideia de harmonia e coerência. 6 Ainda assim, as normas de direitos fundamentais são tanto normas constitucionais formais quanto normas constitucionais materiais. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 6 www.cursocei.com [...] sua correta interpretação e aplicação. b) Os princípios como mandamentos de otimização e regras como mandamentos definitivos Robert Alexy desenvolveu o tema da diferenciação entre regras e princípios a partir de sua Teoria dos Princípios no terceiro capítulo de sua obra “Teoria dos Direitos Fundamentais”. Para Alexy, há uma diferença qualitativa7 entre ambos, sendo que, conceitualmente, os princípios são mandados de otimização, ou seja, normas jurídicas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível, dentro, porém, das possibilidades fáticas e, especialmente, jurídicas existentes. Ainda assim, podem ser satisfeitos em graus variados.8 As regras, por outro lado, são normas que prescrevem uma exigência, proibição ou faculdade, que devem ser realizadas na exata medida de suas prescrições, nem mais nem menos (all or nothing), ou seja, se é válida e aplicável ao caso, irá incidir integralmente, caso contrário, não incide em absolutamente nada. Contudo, segundo o autor, o principal ponto da distinção qualitativa entre regras e princípios é o tema da colisão de princípios e conflito de regras. A colisão de princípios utiliza a ideia de peso, valor ou importância, de modo que o caso seja solucionado 7 Não se trata de diferenças de grau, que são utilizadas pelas dentições mencionadas anteriormente como o grau de abstração, generalidade, indeterminação, etc. Alexy afirma que esses critérios não têm muita serventia para a distinção de regras e princípios, mas apenas impactam aparentemente e não resolvem as questões complexas. 8 As normas de direitos fundamentais, em via de regra, possuem estrutura de princípios, razão pela qual estuda-se suas limitações e restrições. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 7 www.cursocei.com pela ponderação/sopesamento/balanceamento (dimensão do peso ou valor) e o princípio que tenha maior peso, valor ou importância prepondera no caso concreto. Ainda assim, os princípios em colisão são igualmente válidos, razão pelo qual não se utiliza a dimensão da validade aplicada no conflito de regras mesmo que sejam opostos entre si.9 Destaca-se que a ponderação só pode ser feita à luz de um caso concreto e em consonância com as condições e circunstâncias envolvidas nesse caso, e nunca de forma abstrata. Em um caso abstrato, todos os princípios, por serem válidos, possuem o mesmo peso, valor ou importância entre si, de modo que não há preponderância de um sobre o outro. Não obstante, os princípios em colisão devem ser considerados conjuntamente, não isoladamente. Porque, se isoladamente considerados, ambos os princípios (P1 e P2) conduzem a uma contradição: pelo P1, é obrigatória a participação; pelo P2, é proibida a participação. 9 Há uma relação de precedência condicionada entre os princípios em colisão. Um princípio, diante de determinadas condições e circunstâncias nos casos concretos, vai preceder diante do outro. E o outro princípio que não precedeu somente é afastado do caso concreto, mas não é declarado inválido. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 8 www.cursocei.com [...] fundamental do acusado à proteção da vida e da integridade física O conflito de regras, considerando a ideia do all or nothing, se resolve na dimensão da validade, salvo se existir uma cláusula de exceção capaz de eliminar o próprio conflito. Dessa forma, caso não haja uma cláusula de exceção, a norma considerada inválida é afastada do ornamento jurídico. Em tese, as regras não guardam a mesma validez jurídica da mesma forma que os princípios, elas não são igualmente válidas. Há critérios que determinam a validez de uma regra jurídica, por exemplo: no critério temporal, a regra posterior prevalece sobre a anterior; no critério da especificidade, a regra especial prevalece sobre a regra geral; no critério da hierarquia, a regra superior prevalece sobre e regra inferior.10 10 Alexy afirma que é possível, em certas hipóteses, resolver o conflito de regras de forma que se apliquem ambas regras em conjunto, ou seja, duas regras com disposições contrárias (em conflito) sem que seja necessária a aplicação de uma regra e a declaração de invalidade da outra. Isso ocorre quando é possível extrair de uma dessas regras uma cláusula de exceção para inserir na outra regra. Por exemplo: no ordenamento jurídico de uma instituição, ninguém pode sair da sala de aula antes do professor finalizá-la (uma regra proibitiva). Todavia, nesse mesmo ordenamento jurídico da instituição, há uma outra regra que afirma que no toque do alarme de incêndio, todos devem se retirar do prédio, mesmo que estejam durante uma aula. Portanto, se extrai a exceção da segunda regra e se insere na primeira regra. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 9 www.cursocei.com [...] da validade. BLOCO 02 c) Direitos prima facie e Direitos definitivos Alexy, ao afirmar que os princípios são mandamentos de otimização, de forma que busquem a realização do que ele prevê em sua maior medida, também afirma que os princípios são mandamentos prima facie. As www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 10 www.cursocei.com regras, por serem satisfeitas na exata medida do que elas prescrevem, possuem uma delimitação muito e precisa e, consequentemente, para Alexy, são mandamentos/direitos definitivos. Quando os direitos são previstos em normas princípios, têm-se apenas direitos prima facie. Se os direitos são previstos em normas regras, têm-se direitos definitivos. Com fundamento na Teoria dos Princípios, isso também se aplica na estrutura das normas constitucionais de direitos fundamentais, e a análise dessa estrutura é essencial tanto para a solução das colisões entre esses direitos quanto para compreensão das restrições. Ressalta-se que, no geral, as normas de direitos fundamentais têm estrutura principiológica. Consequentemente, no geral, as normas de direitos fundamentais têm uma proteção meramente prima facie, e não definitiva. Partindo dessa premissa, se está permitindo chegar a uma conclusão: como a proteção aos direitos fundamentais, em geral, é meramente prima facie, é possível que esses direitos sofram restrições até sua aplicação, pois entre a proteção prima facie e a sua aplicação há um longo caminho, onde ocorrem diversas colisões entre os diversos direitos fundamentais que são igualmente objetos de proteções prima facie.11 11 Caso a proteção a essesdireitos fundamentais de estrutura principiológica fosse definitiva da mesma forma que as regras, eles teriam de ser aplicados integralmente, sem a possibilidade de colisão e ponderação. Diante dessa estrutura definitiva, ter-se-ia um direito pronto para ser integralmente aplicado, o que não ocorre com os princípios que compõem grande parte dos direitos fundamentais. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 11 www.cursocei.com www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 12 www.cursocei.com 2. Suporte fático dos Direitos Fundamentais a) Conceito e composição (elementos) do suporte fático dos Direitos Fundamentais O conceito de “suporte fático” não é muito comum ou frequente no âmbito do direito constitucional, ao contrário do direito penal, por exemplo, em que o suporte fático é conhecido como tipo penal, ou no direito tributário em que o suporte fático é denominado como fato gerador por alguns doutrinadores ou como hipótese de incidência por outros. Entretanto, no âmbito do direito constitucional, o conceito ou a denominação do suporte fático sempre foi um mistério. Suporte fático é um conjunto de elementos que devem ser preenchidos para que o preceito normativo (a norma em si) possa produzir ou desencadear suas consequências jurídicas.12 No direito constitucional há uma crítica de que o suporte fático passou por vários anos despercebido, justamente porque antes da Constituição Federal de 1988 o direito constitucional se preocupava mais com a organização do Estado e dos Poderes. Foi a partir da CF/1988 o cenário é modificado, pois passou-se a ter 12 Por exemplo, no direito penal: o artigo 121 do Código Penal dispõe “Matar alguém”, com pena de reclusão de 6 a 20 anos. O suporte fático precisa ser satisfeito e seus elementos preenchidos para que a norma possa produzir sua consequência jurídica e ser aplicado. No exemplo acima, basta que uma pessoa mate alguém, realizando, portanto, os elementos descritivos de suporte fático (tipo penal, no caso do direito penal) para que essa norma produza a consequência de pena de reclusão de 6 a 20 anos do agente. Por outro lado, no direito tributário, por exemplo, o suporte fático (fato gerador/hipótese de incidência) do Imposto sobre a Renda é a disponibilidade econômica de uma renda, de modo que surge a obrigação tributária. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 13 www.cursocei.com um direito constitucional de direitos e garantias fundamentais, de liberdades públicas. Diante dessa mudança de cenário, viu-se a necessidade de se construir um conceito de suporte fático no âmbito do direito constitucional, especialmente para as normas de direitos fundamentais. Como já afirmado, pelo seu próprio conceito, o suporte fático é um conjunto de elementos que, uma vez preenchidos, permite que a norma de direito fundamental produza sua consequência jurídica. Em um exemplo prático, tem-se a norma de direito fundamental que tutela e protege a liberdade de manifestação do pensamento. Qual seria o suporte fático de uma norma? Quais os seus elementos? Âmbito de proteção: o bem jurídico protegido (liberdade de manifestação do pensamento) pela norma constitucional de direito fundamental. É o elemento mais aparente e, de certa forma, o mais importante. Ainda assim, não é suficiente para que a norma desencadeie suas consequências jurídicas. Intervenção do Estado: essa intervenção se dá por meio da limitação e da restrição do âmbito de proteção do direito. Por si só, também não é suficiente para desencadear suas consequências jurídicas, pois essa intervenção pode ser permitida através de uma limitação ou restrição legítima. Ausência da fundamentação constitucional: falta da justificativa e da fundamentação racional na Constituição dessa intervenção do Estado, ou seja, o Estado ilegitimamente e inconstitucionalmente intervém no bem jurídico tutelado (no exemplo, a liberdade de manifestação do pensamento). Portanto, é necessário que essa intervenção do Estado por meio de uma determinada restrição ao âmbito de proteção do direito não tenha uma fundamentação constitucional. Nesse caso, essa intervenção seria uma violação ao direito, estando todos os elementos preenchidos e a norma constitucional de direito fundamental desencadeia sua consequência jurídica, que é a exigência da cessação/suspensão da intervenção estatal infundamentada. Em poucas palavras, os elementos do suporte fático estão presentes quando o Estado, através de uma ou mais restrições, intervém ilegitimamente e inconstitucionalmente (sem fundamentação constitucional) no bem jurídico sob o âmbito de uma proteção de uma norma constitucional de direito fundamental.13 Inicialmente, Alexy e Borowski afirmam que apenas os dois primeiros elementos são necessários para comporem o suporte fático da norma constitucional de direito fundamental. Todavia, assim como o Professor Dirley da Cunha Júnior, outros doutrinadores brasileiros, com destaque a Virgílio Afonso da Silva, defendem a inclusão do terceiro elemento (ausência de fundamentação constitucional) 13 Caso a intervenção do Estado seja legítima, estará ausente o terceiro elemento do suporte fático e, consequentemente, a norma constitucional de direito fundamental não desencadeará suas consequências jurídicas. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 14 www.cursocei.com mencionado acima. [...] geral, uma exigência de cessação da intervenção estatal. b) Dois modelos: Suporte fático amplo vs. Suporte fático restrito A diferença entre esses dois modelos de suporte fático dos direitos fundamentais será fundamental para o exame e controle das restrições aos direitos fundamentais e na fundamentação do conteúdo essencial desses direitos. O Professor Dirley da Cunha Júnior afirma, como pesquisador, autor e professor, ser simpático com a teoria www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 15 www.cursocei.com do suporte fático amplo. Ainda assim, muito autores se aderem à teoria do suporte fático restrito. BLOCO 03 c) Suporte fático restrito Sua principal característica é que o âmbito de proteção é trabalhado de uma forma bem reduzida, ou seja, o âmbito de proteção precisa ser previamente delimitado de modo que seja necessária a promoção de exclusões a priori de diversas condutas, comportamentos, práticas ou posições jurídicas do âmbito de proteção da própria norma de direito fundamental. Há uma confusão entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Em poucas palavras, o âmbito de proteção deve ser previamente definido e delimitado, já apontando de antemão o que é protegido e não é protegido, com a exclusão dos últimos. Contudo, surge a seguinte questão: pela teoria do suporte fático restrito, ainda seria possível haver colisão entre direitos a ser solucionada pelo sopesamento? A resposta é não. Consequentemente, não há o que se falar em sopesamento/ponderação entre os direitos, justamente pelo fato de que o âmbito de proteção dos direitos já está previamente definido. Dessarte, não está em consonância com a Teoria dos Princípios de Alexy. Ao se afirmar que um âmbito de proteção deve ser previamente definido, já se retira do âmbito de proteção aquilo que não é protegido pelo direito fundamental. Portanto, a regra da Teoria dos Princípios se inverteria em relação à estrutura das normas de direitos fundamentais, ou seja, ao invés de terem estrutura de princípios, as normas de direitos fundamentais teriam a estrutura de regras jurídicas. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 16 www.cursocei.com Essa afirmação da teoria do suporte fático restritoque promove a exclusão a priori de certas condutas, comportamentos, práticas ou posições jurídicas do âmbito de proteção dos direitos fundamentais ocorre sem que haja uma identificação dessa exclusão prévia com uma restrição a direitos fundamentais, afastando a necessidade de fundamentação constitucional e a necessidade de realização de sopesamento nas hipóteses de colisão. Segundo o Professor Dirley da Cunha Júnior, isso se torna um problema sério, pois a partir da exclusão a priori de uma conduta daquele âmbito de proteção, há uma restrição disfarçada, ou seja, há uma restrição de um direito fundamental sem qualquer justificação constitucional.14 Se as perguntas do slide acima forem respondidas de forma negativa, estará sendo aplicada a teoria do suporte fático restrito, estando presentes apenas os dois primeiros elementos do suporte fático no direito constitucional e ausente o elemento da falta de justificativa constitucional, de forma que o primeiro elemento (âmbito de proteção) é trabalhado de maneira reduzida e definitiva, como se as normas de direitos fundamentais não fossem princípios, mas uma regra jurídica. d) Suporte fático amplo 14 Como saber que a Constituição exclui um direito de sua proteção? Por exemplo, como saber que a Constituição, de forma abstrata e antecipada, exclui da liberdade manifestação de pensamento a prerrogativa de criticar alguém de forma que submeta à constrangimento? www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 17 www.cursocei.com No exemplo em que o direito de reunião não protege a manifestação em espaços públicos movimentados, não há uma resposta em que simplesmente se afirma ou nega essa proteção, mas uma resposta da seguinte maneira: como primeiro passo, o âmbito de proteção compreende, em tese e a priori, a possibilidade do direito de reunião abarcar as manifestações em espaços públicos movimentados. Em seguida, deverá ser feita a análise do caso concreto quando há colisão com outro direito e solucionada pelo sopesamento. É importante destacar que, no exemplo da liberdade de manifestação do pensamento, está sob o âmbito de proteção até mesmo uma opinião de juízo crítico ou não-crítico que exponha alguém ao constrangimento/ vexame ou um discurso de ódio ofensivo ou não-ofensivo, pois ainda se trata de uma proteção prima facie, www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 18 www.cursocei.com ou seja, poderá sofrer restrições posteriores. A proteção definitiva será resultado de um sopesamento de uma eventual colisão entre direitos. A teoria do suporte fático amplo tem como pressuposto a Teoria dos Princípios de Alexy, que é uma teoria que, na essência, busca identificar a natureza das normas jurídicas: o que é norma regra, o que é norma princípio, quais são suas estruturas, como funcionam, como se resolvem os conflitos/colisões, etc. A Teoria dos Princípios, que tem como um de seus temas principais a distinção entre regras e princípios, serve a teoria do suporte fático amplo. [...] defende a impossibilidade de se distinguir entre restrições e regulamentações nesse âmbito. Na ampliação do conceito de intervenção do Estado por meio de uma alguma restrição no âmbito de proteção de um direito fundamental, se está necessariamente identificando como restrição de direito fundamental qualquer forma de regulamentação do exercício desse direito. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 19 www.cursocei.com 3. Restrições aos Direitos Fundamentais a) A restringibilidade dos Direitos Fundamentais como tema central da teoria dos princípios Como premissa teórica fundamental, deve-se relembrar que não há direitos absolutos, visto que as normas de direitos fundamentais, em regra, possuem estrutura de princípios que são mandamentos meramente prima facie. Como não há direitos absolutos, a restringibilidade ou a limitabilidade é um dos temas centrais da teoria dos direitos fundamentais e da Teoria dos Princípios. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 20 www.cursocei.com b) Teoria interna das restrições aos Direitos Fundamentais Para essa teoria, só há um objeto indivisível, o direito com suas limitações imanentes, ou seja, direito e restrições são a mesma coisa, algo único que gera um objeto único como resultado: direitos com suas limitações imanentes. Ao se falar em limitações imanentes a direitos, está se falando em limitações que fazem parte do próprio conceito e conteúdo e com formação material no direito, ou seja, não é possível aspectos externos complementarem restrições extras, pois as restrições já são internas a cada um dos direitos fundamentais. Essa ideia relembra a teoria do suporte fático restrito diante do âmbito de proteção limitado e restrito àqueles bens, condutas, ações e posições jurídicas com a exclusão a priori das outras. É na própria compreensão do âmbito de proteção do direito que se constrói já com suas limitações internas/ imanentes. Consequentemente, são direitos definidos e possuem estrutura de regras. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 21 www.cursocei.com c) Teoria externa das restrições aos direitos fundamentais. A teoria externa é compatível com a Teoria dos Princípios de Alexy e com a teoria do suporte fático amplo e, obviamente, completamente incompatível com a teoria do suporte fático restrito. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 22 www.cursocei.com d) A proporcionalidade como parâmetro de controle das restrições de Direitos Fundamentais O direito definitivo não é, assim, ao contrário do que defende a teoria interna, algo definido internamente e a priori, ou seja, o âmbito de proteção que compreende todas as situações relacionadas ao tema dos direitos fundamentais é o ponto de partida (primeiro passo) e encerra apenas uma proteção prima facie com as condutas, ações, comportamentos e posições jurídicas. Dessa forma, é através do sopesamento ou do máximo postulado jurídico da proporcionalidade ampla que será possível definir o que será definitivamente válido no ordenamento jurídico. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 23 www.cursocei.com No âmbito de proteção prima facie há somente uma antecipação antecipada, e o que terá valor definitivo será estabelecido após a colisão e o sopesamento/ponderação. Logo, a definição do conteúdo definitivo do direito é, portanto, fixada a partir de fora (teoria externa) e em decorrência das condições fáticas e jurídicas existentes. Por restrição proporcional, assim, entende-se a restrição que seja adequada, necessária e proporcional em sentido estrito. Dessa forma, serão restrições legitimadas à luz da Constituição e respeitam o conteúdo essencial/mínimo dos direitos fundamentais. 4. Restrições aos Direitos Fundamentais e o conteúdo essencial dos Direitos Fundamentais a) Teoria absoluta do conteúdo essencial dos Direitos Fundamentais: o conteúdo essencial absoluto e definido a priori Na visão do Professor Dirley da Cunha Júnior, apesar de muitos doutrinadores serem adeptos a ela, é uma teoria que não possui cabimento. O conteúdo essencial tem contornos fixos, bem delimitados e definíveis precocemente/a priori para cada um dos direitos fundamentais, ou seja, independentemente da situação ou época em que a sociedade vive, o conteúdo do direito fundamental sempre será o mesmo daquele fixado a priori. Isso é incompatível com a ideia de um sistema constitucional aberto com normas que dialogam com a realidade fática e captam suas transformações sociais. Como consequência, também a priori, serão excluídasdiversas condutas, atos, estados e posições jurídicas da proteção dos direitos fundamentais, deixando-os ao capricho de meros juízos de conveniência e www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 24 www.cursocei.com oportunidades políticas, para os quais não se exige nenhuma fundamentação constitucional (terceiro elemento do suporte fático). Portanto, é uma teoria que dialoga com a teoria do suporte fático restrito e com a teoria interna das restrições dos direitos fundamentais. b) Teoria relativa do conteúdo essencial dos Direitos Fundamentais: o conteúdo essencial como consequência do postulado da proporcionalidade e sopesamento É a teoria que dialoga com a teoria do suporte fático amplo e com a teoria externa das restrições dos direitos fundamentais. Assim com as teorias mencionadas acima, possui como referencial teórico a Teoria dos Princípios de Alexy. O que vai ser definido como conteúdo essencial de um direito fundamental é aquilo que decorre de www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 25 www.cursocei.com um sopesamento/ponderação pela máxima ou pelo postulado da proporcionalidade ampla diante de eventuais colisões entre direitos fundamentais. Sugestões para leitura: • ARAGÃO, João Carlos Medeiros de. Choque entre direitos fundamentais. Consenso ou controvérsia? Revista de Informação Legislativa. Brasília a. 48 n. 189 jan./mar. 2011. Disponível em: https://www12. senado.leg.br/ril/edicoes/48/189/ril_v48_n189_p259.pdf • NAKAMURA, André Luiz dos Santos. Restrições aos Direitos Fundamentais. Revista Direitos Humanos Fundamentais, Osasco, jul-dez/2016, ano 16, n.2, pp. 153-166. Disponível em: http://www.mpsp. mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/ bibli_boletim/bibli_bol_2006/Rev-Dir-Hum-Fund_v.16_n.02.08.pdf Jurisprudência STF: ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. DIREITO CONSTITUCIONAL. LEI 1.516/2015 DO MUNICÍPIO DE NOVO GAMA – GO. PROIBIÇÃO DE DIVULGAÇÃO DE MATERIAL COM INFORMAÇÃO DE IDEOLOGIA DE GÊNERO EM ESCOLAS MUNICIPAIS. USURPAÇÃO DE COMPETÊNCIA PRIVATIVA LEGISLATIVA DA UNIÃO. DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL (ART. 22, XXIV, CF). VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS ATINENTES À LIBERDADE DE APREENDER, ENSINAR, PESQUISAR E DIVULGAR O PENSAMENTO A ARTE E O SABER (ART. 206, II, CF), E AO PLURALISMO DE IDEIAS E DE CONCEPÇÕES PEDAGOGICAS (ART. 206, III, CF). PROIBIÇÃO DA CENSURA EM ATIVIDADES CULTURAIS E LIBERDADE DE EXPRESSÃO (ART. 5º, IX, CF). DIREITO À IGUALDADE (ART. 5º, CAPUT, CF). DEVER ESTATAL NA PROMOÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMBATE À DESIGUALDADE E À DISCRIMINAÇÃO DE MINORIAS. INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL E MATERIAL RECONHECIDAS. PROCEDÊNCIA. 1. Compete privativamente à União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional (CF, art. 22, XXIV), de modo que os Municípios não têm competência legislativa para a edição de normas que tratem de currículos, conteúdos programáticos, metodologia de ensino ou modo de exercício da atividade docente. A eventual necessidade de suplementação da legislação federal, com vistas a` regulamentação de interesse local (art. 30, I e II, CF), não justifica a proibição de conteúdo pedagógico, não correspondente às diretrizes fixadas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/1996). Inconstitucionalidade formal. 2. O exercício da jurisdição constitucional baseia-se na necessidade de respeito absoluto à Constituição Federal, havendo, na evolução das Democracias modernas, a imprescindível necessidade de proteger a efetividade dos direitos e garantias fundamentais, em especial das minorias. 3. Regentes da ministração do ensino no País, os princípios atinentes à liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber (art. 206, II, CF) e ao pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas (art. 206, III, CF), amplamente reconduzíveis à proibição da censura em atividades culturais em geral e, consequentemente, à liberdade de expressão (art. 5º, IX, CF), não se direcionam apenas a proteger https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/48/189/ril_v48_n189_p259.pdf https://www12.senado.leg.br/ril/edicoes/48/189/ril_v48_n189_p259.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/Rev-Dir-Hum-Fund_v.16_n.02.08.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/Rev-Dir-Hum-Fund_v.16_n.02.08.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/documentacao_e_divulgacao/doc_biblioteca/bibli_servicos_produtos/bibli_boletim/bibli_bol_2006/Rev-Dir-Hum-Fund_v.16_n.02.08.pdf www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 26 www.cursocei.com as opiniões supostamente verdadeiras, admiráveis ou convencionais, mas também aquelas eventualmente não compartilhada pelas maiorias. 4. Ao aderir à imposição do silêncio, da censura e, de modo mais abrangente, do obscurantismo como estratégias discursivas dominantes, de modo a enfraquecer ainda mais a fronteira entre heteronormatividade e homofobia, a Lei municipal impugnada contrariou um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, relacionado à promoção do bem de todos (art. 3º, IV, CF), e, por consequência, o princípio segundo o qual todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (art. 5º, caput, CF). 5. A Lei 1.516/2015 do Município de Novo Gama – GO, ao proibir a divulgação de material com referência a ideologia de gênero nas escolas municipais, não cumpre com o dever estatal de promover políticas de inclusão e de igualdade, contribuindo para a manutenção da discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero. Inconstitucionalidade material reconhecida. 6. Arguição de descumprimento de preceito fundamental julgada procedente. (STF; ADPF 457/GO; Relator: Ministro Alexandre de Moraes; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 27/04/2020; Data da Publicação: 03/06/2020). Grifo não original. Disponível em: http://www. stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF457.pdf Direito Constitucional. Direito fundamental de acesso à informação de interesse coletivo ou geral. Recurso extraordinário que se funda na violação do art. 5º, inciso XXXIII, da Constituição Federal. Pedido de vereador, como parlamentar e cidadão, formulado diretamente ao chefe do Poder Executivo solicitando informações e documentos sobre a gestão municipal. Pleito indeferido. Invocação do direito fundamental de acesso à informação, do dever do poder público de transparência e dos princípios republicano e da publicidade. Tese da municipalidade fundada na separação dos poderes e na diferença entre prerrogativas da casa legislativa e dos parlamentares. Repercussão geral reconhecida. 1. O tribunal de origem acolheu a tese de que o pedido do vereador para que informações e documentos fossem requisitados pela Casa Legislativa foi, de fato, analisado e negado por decisão do colegiado do parlamento. 2. O jogo político há de ser jogado coletivamente, devendo suas regras ser respeitadas, sob pena de se violar a institucionalidade das relações e o princípio previsto no art. 2º da Carta da República. Entretanto, o controle político não pode ser resultado apenas da decisão da maioria. 3. O parlamentar não se despe de sua condição de cidadão no exercício do direito de acesso a informações de interesse pessoal ou coletivo. Não há como se autorizar que seja o parlamentar transformado em cidadão de segunda categoria. 4. Distinguishing em relação ao caso julgado na ADI nº 3.046, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence. 5. Fixada a seguinte tese de repercussão geral: o parlamentar, na condição de cidadão, pode exercer plenamente seu direito fundamentalde acesso a informações de interesse pessoal ou coletivo, nos termos do http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF457.pdf http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF457.pdf www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 27 www.cursocei.com art. 5º, inciso XXXIII, da CF e das normas de regência desse direito. 6. Recurso extraordinário a que se dá provimento. (STF; RE 865401/MG; Relator: Ministro Dias Toffoli; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 25/04/2018; Data da Publicação: 19/10/2018). Grifo não original. Disponível em: https://jurisprudencia.stf. jus.br/pages/search/sjur392966/false HABEAS CORPUS. PUBLICAÇÃO DE LIVROS: ANTI-SEMITISMO. RACISMO. CRIME IMPRESCRITÍVEL, CONCEITUAÇÃO. ABRANGÊNCIA CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE EXPRESSÃO. LIMITES. ORDEM DENEGADA. 1. Escrever, editar, divulgar e comerciar livros “fazendo apologia de ideias preconceituosas e discriminatórias” contra a comunidade judaica (Lei 7716/89, artigo 20, na redação dada pela Lei 8081/90) constitui crime de racismo sujeito às cláusulas de inafiançabilidade e imprescritibilidade (CF, artigo 05º, XLII). [...] 5. Fundamento do núcleo do pensamento do nacional-socialismo de que os judeus e os arianos formam raças distintas. Os primeiros seriam a raça inferior, nefasta e infecta, características suficientes para justificar a segregação e o extermínio: inconciabilidade com os padrões éticos e morais definidos na Carta Política do Brasil e do mundo contemporâneo, sob os quais se ergue e se harmoniza o estado democrático. Estigmas que por si só evidenciam crime de racismo. Concepção atentatória dos princípios nos quais se erige e se organiza a sociedade humana, baseada na respeitabilidade e dignidade do ser humano e de sua pacífica convivência no meio social. Condutas e evocações aéticas e imorais que implicam repulsiva ação estatal por se revestirem de densa intolerabilidade, de sorte a afrontar o ordenamento infraconstitucional e constitucional do País. [...] 8. Racismo. Abrangência. Compatibilização dos conceitos etimológicos, etnológicos, sociológicos, antropológicos ou biológicos, de modo a construir a definição jurídico-constitucional do termo. Interpretação teleológica e sistêmica da Constituição Federal, conjugando fatores e circunstâncias históricas, políticas e sociais que regeram sua formação e aplicação, a fim de obter-se real sentido e alcance da norma. [...] 12. Discriminação que, no caso, se evidencia como deliberada e dirigida especificamente aos judeus, que configura ato ilícito de prática de racismo, com as consequências gravosas que o acompanhe. 13. Liberdade de expressão. Garantia constitucional que não se tem como absoluta. Limites morais e jurídicos. O direito à livre expressão não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações de conteúdo imoral que implicam ilicitude penal. 14. As liberdades públicas não são incondicionais, por isso devem ser exercidas de maneira harmônica, observados os limites definidos na própria Constituição Federal (CF, artigo 05º, §2º, primeira parte). O preceito fundamental de liberdade de expressão não consagra o “direito à incitação ao racismo”, dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur392966/false https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur392966/false www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 28 www.cursocei.com delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica. [...] Ordem denegada. (STF; HC 82.424-2/RS; Relator originário: Ministro Moreira Alves; Relator para o acórdão, Ministro Presidente; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 17/09/2003; Data da Publicação: 19/03/2004). Grifo não original. Disponível em: http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=79052 HABEAS CORPUS - ESTRUTURA FORMAL DA SENTENÇA E DO ACÓRDÃO - OBSERVANCIA - ALEGAÇÃO DE INTERCEPTAÇÃO CRIMINOSA DE CARTA MISSIVA REMETIDA POR SENTENCIADO - UTILIZAÇÃO DE COPIAS XEROGRAFICAS NÃO AUTENTICADAS - PRETENDIDA ANALISE DA PROVA - PEDIDO INDEFERIDO. - A estrutura formal da sentença deriva da fiel observância das regras inscritas no art. 381 do Código de Processo Penal. O ato sentencial que contem a exposição sucinta da acusação e da defesa e que indica os motivos em que se funda a decisão satisfaz, plenamente, as exigências impostas pela lei. - A eficácia probante das copias xerográficas resulta, em princípio, de sua formal autenticação por agente público competente (CPP, art. 232, parágrafo único). Pecas reprográficas não autenticadas, desde que possível a aferição de sua legitimidade por outro meio idôneo, podem ser validamente utilizadas em juízo penal. - A administração penitenciaria, com fundamento em razoes de segurança pública, de disciplina prisional ou de preservação da ordem jurídica, pode, sempre excepcionalmente, e desde que respeitada a norma inscrita no art. 41, parágrafo único, da Lei n. 7.210/84, proceder a interceptação da correspondência remetida pelos sentenciados, eis que a cláusula tutelar da inviolabilidade do sigilo epistolar não pode constituir instrumento de salvaguarda de práticas ilícitas. - O reexame da prova produzida no processo penal condenatório não tem lugar na ação sumaríssima de habeas corpus. (STF; HC 70814/SP; Relator: Ministro Celso de Mello; Órgão Julgador: Primeira Turma; Data do Julgamento: 01/03/1994; Data da Publicação: 24/06/1994). Grifo não original. Disponível em: https://jurisprudencia.stf. jus.br/pages/search/sjur151868/false http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=79052 https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur151868/false https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/sjur151868/false www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 29 www.cursocei.com PROFESSOR INGO SARLET 🏳 LIMITES E RESTRIÇÕES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS BLOCO 04 1. Noções Introdutórias O tema dos limites e das restrições dos direitos fundamentais praticamente concentra a pauta do Poder Judiciário quando se trata de questões ligadas aos direitos fundamentais. Quase tudo que o Supremo Tribunal Federal enfrenta em matéria de direitos fundamentais está relacionado a esse tema. O STF recentemente decidiu sobre diversos temas relacionados à limitação e restrição de direitos fundamentais, por exemplo: As restrições indevidas do direito de acesso à informação pública em relação ao alcance da proteção de dados e seus limites, no caso a transferência de dados para o IBGE. (ADI nº 6351 MC-Ref/DF). Os limites da liberdade de expressão no caso de discurso de ódio e das fake news etc. (ADI nº 4451/ DF). Alcance da liberdade de reunião e manifestação. (RE nº 806339 RG/SE).15 A proibição da proibição de aplicativos de transporte (ADPF nº 449/DF). Ressalta-se que inexiste direito fundamental absoluto, ou seja, que é completamente imune ou blindado a qualquer tipo de limitação ou restrição. Além disso, deve-se retornar à ideia de que o direito fundamental sempre é um direito que, em um primeiro momento, deve ser considerado em sentido amplo, sendo decodificado em diversas posições subjetivas e objetivas que podem receber um tratamento mais diferenciado. Também existe, tecnicamente, uma distinção entre limites de direitos fundamentais e restrições de direitos fundamentais, embora possuam uma ligação entre si. 2. Limites de Direitos Fundamentais Se entende como as autorizações constitucionais para a restrição de direitos fundamentais. Nesse sentido, é consensual no direito comparado e no direito brasileiro que existem três espécies de limites 15 Apesar da repercussão geral reconhecida, o recurso ainda não fora julgado,permanecendo seu julgamento suspenso até a presente data. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 30 www.cursocei.com aos direitos fundamentais, três espécies de fundamentos constitucionais que legitimam uma intervenção restritiva em direitos fundamentais. a) Limites expressamente e diretamente previstos no texto constitucional É uma espécie que possui exemplos simples, como no caso em que a CF/1988 enuncia o direito à livre manifestação do pensamento, mas veda o anonimato. Art. 5º, IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Em outro exemplo, a CF/1988 proíbe a pena de morte, mas ressalva as possibilidades na hipótese de guerra declarada. Art. 5º, XLVII - não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; Também há a proibição da prisão civil por dívida, salvo na hipótese de dívida alimentar.16 Art. 5º, LXVII - não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel. Há previsão do direito de greve aos servidores públicos, mas com a exclusão dos militares. Art. 142, §03º, IV - ao militar são proibidas a sindicalização e a greve. Possibilidade da liberdade de reunião, mas que é condicionada ao exercício pacífico, sem uso de armas e, se realizada em espaço público, com comunicação prévia. Art. 5º, XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; Esses são apenas alguns de vários exemplos que podem ser dados para a limitação de direitos fundamentais pelo próprio texto constitucional. Ao mesmo tempo que é estabelecido o limite, também há uma restrição ao direito fundamental. Ainda assim, as possibilidades de restrições não se esgotam nesses limites previstos na própria CF/1988. b) Limites constitucionais indiretos São situações em que a Constituição, ao enunciar um direito fundamental, expressamente remete ao legislador infraconstitucional a tarefa de estabelecer a restrição propriamente dita. Na linguagem do professor José Afonso da Silva, são os direitos veiculados por normas de eficácia contida, pois preveem a possibilidade de restrição pelo legislador infraconstitucional. Na doutrina tecnicamente mais 16 Ressalta-se que a possibilidade de prisão civil no caso de depositário infiel foi suprimida no direito brasileiro. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 31 www.cursocei.com adequada, são chamadas reservas expressas de lei. c) Limites implícitos Não há uma expressa limitação no texto constitucional e nem uma remissão expressa à lei para que o legislador imponha a restrição, mas uma restrição inevitável para a conciliação prática a partir de técnicas de ponderação resultante da colisão entre direitos fundamentais ou entre direitos fundamentais e bens jurídicos de estatura constitucional. Um exemplo clássico, entre vários outros, é o conflito entre a liberdade de expressão, comunicação e informação com os direitos à privacidade, intimidade, honra e imagem. Nesse caso em específico, a Constituição não estabelece nenhum limite direto e ao mesmo tempo não remete à lei, mas ainda assim existem situações recorrentes nas quais se torna imprescindível que se estabeleça algum tipo de acomodação para que ambos os direitos possam ser exercidos de modo que ambos continuem válidos no ordenamento jurídico. 3. Restrições aos Direitos Fundamentais As restrições, por sua vez, são as intervenções restritivas propriamente ditas, ou seja, quando o legislador, o administrador ou o julgador impõem restrições concretas aos direitos fundamentais com base nos limites constitucionais mencionados anteriormente. É extremamente importante distinguir uma restrição de um direito fundamental de uma violação de um direito fundamental. Do ponto de vista constitucional, uma restrição é legítima. Uma restrição que não obedece determinados requisitos constitucionais, sejam eles expressos ou implícitos, se configurará como uma efetiva violação de um direito. Por fim, há de se distinguir a mera regulamentação/configuração dos direitos fundamentais e restrição propriamente dita. Esse tema possui várias correntes, sendo que as duas principais, do ponto de vista prático, são: Para efeitos de assegurar sempre, a princípio, maior proteção aos direitos fundamentais, não se deve estabelecer uma diferença entre a mera regulamentação/configuração e uma restrição ao direito fundamental. Há sim uma diferença entre a restrição e a mera regulamentação/configuração do direito fundamental. De qualquer sorte, o conceito de restrição deve ser sempre interpretado de forma ampla por todas essas teorias e correntes doutrinárias, pois assim se assegurará maior proteção aos direitos fundamentais. Para tanto, o conceito de restrição é todo e qualquer ônus/encargo imposto a um direito fundamental, seja www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 32 www.cursocei.com em relação ao seu exercício, objeto, titularidade, etc. É toda e qualquer redução dos níveis de proteção de um direito fundamental. 4. Limites aos limites dos Direitos Fundamentais De forma mais precisa, são os critérios constitucionais, expressamente ou implicitamente positivados, para a aferição da legitimidade constitucional de uma intervenção restritiva de um ou mais direitos fundamentais. Inicialmente, é importante deixar claro que uma determinada restrição por uma legislação, ato administrativo, omissão ou uma decisão judicial pode afetar vários direitos fundamentais ao mesmo tempo, implicando restrições que podem, inclusive, possuir naturezas diversas entre si. Por isso, também é possível que, com a análise do caso concreto, a restrição possa ser considerada constitucionalmente legítima enquanto o outro direito ou tipo de restrição imposta poderá ser inconstitucional por ser inconsistente com os critérios/requisitos. Consequentemente, cada restrição deve ser analisada autonomamente na averiguação de sua constitucionalidade ou inconstitucionalidade. BLOCO 05 5. Limites e restrições no estado de exceção Pela crise pandêmica multidimensional, vive-se hoje em um estado de exceção. Neste ambiente de crise, de convulsão econômica, social, de radicalização, a tendência de se recorrer à medidas restritivas de direitos é evidentemente maior e ao mesmo tempo também maiores são os desafios referentes ao estabelecimento de critérios que permitam o monitoramento das instituições democráticas responsáveis, particularmente neste caso o Poder Judiciário, em relação ao alcance das restrições impostas por medidas de toda natureza. Esse problema também envolve a eficácia horizontal (ainda que seja uma terminologia equivocada) dos direitos fundamentais nas relações privadas. Existem algumas premissas de análise, porque o que se trata quando estão em causa limites e restrições aos direitos fundamentais e o papel do Poder Judiciário em relação a isso, é também de uma metódica jurídico constitucional de aplicação de critérios: tanto da formulação de critérios, quanto da sua compreensão e aplicação. Em estado de crise, vale a mesma máxima de que o Estado de Direito é o Estado em que os fins, por melhores que sejam, por mais nobres que sejam, não podem justificar o recurso a todo e qualquer meio. Essa máxima é justamente uma forma de instrumentalizar o fundamento e ao mesmo tempo fim do Estado Democrático de Direito. Nitidamente restrições a direitos também envolvem sempre um juízo relacional de ponderação por sopesamento ou de balanceamento, porque também estão em causa sempre tensões entre ação/omissão www.cursocei.comPós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 33 www.cursocei.com dos Poderes Públicos (particularmente do Legislativo e do Executivo) e o controle judicial realizado em relação às medidas restritivas tomadas (motivadas em grande parte por fins constitucionalmente legítimos). É neste ponto que reside o maior desafio do dia a dia da atuação do Poder Judiciário, uma vez que praticamente todos os casos levados ao Poder Judiciário dizem respeito ao controle, ao monitoramento, à fiscalização de atos/omissões legislativas e administrativas que acabam interferindo no âmbito de proteção de determinado direito fundamental. Seja em situações de normalidade institucional, em que também ocorrem recorrentemente restrições a direitos fundamentais, necessárias e que fazem parte da dinâmica da própria aplicação e convivência de direitos e outros valores constitucionais, seja em um ambiente marcado por crises e uma maior instrumentalização da crise para fins de eventualmente promover intervenções mais fortes, inclusive muito mais restritivas do que em situações de normalidade, a premissa de que os fins não podem justificar o uso de qualquer meio, a premissa de que restrições a direitos só podem ocorrer mediante determinados pressupostos e satisfazer a exigência de determinados critérios são inafastáveis. Isto vale tanto para os estados de exceção constitucional: estado de defesa, estado de sítio, intervenção federal. Aspectos centrais para o enfrentamento da questão de forma constitucionalmente adequada: Sabe-se que existem três tipos de limites17 a direitos fundamentais: os expressamente previstos no texto constitucional, que funcionam como uma forma de limitação prévia, mas ao mesmo tempo seguem sendo uma autorização, legitimando eventuais restrições; os limites indiretos, as chamadas cláusulas de reserva legal; e os limites implícitos, não possuem reserva de lei expressa na Constituição, nem uma limitação prévia no texto constitucional que possa justificá-lo. É neste último ponto que se situam os conflitos entre direitos e garantias fundamentais ou entre direitos e garantias fundamentais e outros princípios e bens de estatura constitucional. Da mesma forma, há requisitos a serem observados para que se monitore e afira a legitimidade constitucional de restrições a direitos. Se sabe que estão autorizadas as restrições aos direitos, todavia, não é especificado até onde podem ir essas restrições e quais os critérios para que elas não se transformem em violações de direitos? E ainda, a distinção entre a restrição a direitos vs mera regulamentação/configuração de direitos fundamentais. Neste ponto, para tal efeito o conceito de restrição deve ser interpretado em sentido amplo, ou seja, na dúvida parte-se do pressuposto de que se está diante de uma restrição, assegurando assim maior rigor no 17 Importante relembrar que os limites, embora justifiquem e legitimem intervenções restritivas a direitos fundamentais, não se confundem propriamente com essas intervenções restritivas. Os limites são as autorizações constitucionais para a restrição. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 34 www.cursocei.com controle de sua legitimidade constitucional. Neste sentido, restrição é todo e qualquer encargo, ônus, diminuição que envolva o exercício do direito, sua titularidade, seu objeto, seu alcance, etc. 6. Legitimidade constitucional das restrições Uma vez que essas restrições se situem na esfera de um dos três limites, em princípio estão autorizadas. Em consequência, passou a se desenvolver a ideia dos “limites aos limites” que são basicamente as exigências constitucionais expressas ou implícitas18 para a aferição da legitimidade constitucional de uma restrição. a) Metodologia A não aplicação de uma metódica é que justamente dá ensejo a acusações recorrentes de abusos por parte do Poder Judiciário, ou falta de critérios, ou de racionalidade, de controlabilidade de decisões que acabam fazendo um controle de constitucionalidade de restrições a direitos, especialmente no campo da ponderação e aplicação da proporcionalidade. - Cláusula da Reserva Legal: O primeiro “limite dos limites” é justamente a cláusula da reserva legal, que autoriza a restrição à lei/ legislador (o que não significa dizer que a restrição só possa ocorrer pela via legislativa). A própria reserva legal pode estabelecer já limites prévios: reserva legal simples e qualificada. A simples (lei ordinária) sendo a remissão genérica ao legislador infraconstitucional e a qualificada (lei complementar) impõe na enunciação da reserva legal alguns requisitos. Há ainda, a vedação a restrições retroativas: nenhum ato regulamentar pode criar obrigações ou restringir direitos. O terceiro ponto diz respeito à exigência de lei em sentido formal (lei de efeitos concretos – não veiculam normas dotadas de hierarquia e abstração) para restringir direitos ou é possível existirem restrições de direitos constitucionalmente legítimas por normas (lei em sentido material). Há quase um consenso no sentido de que as leis em sentido formal não podem ser legitimamente restritivas de direitos fundamentais. Quanto à lei apenas em sentido material, há muita controvérsia e não há um consenso sobre a questão.19 Recentemente, no Brasil, o STF declarou a inconstitucionalidade de determinações impostas por Medidas 18 Muitas foram desenvolvidas pela jurisprudência constitucional, às vezes inclusive por reação à doutrina constitucional. 19 Em outras ordens jurídicas constitucionais, especialmente na Europa, há um rigor maior em relação a esse fenômeno. Normalmente se exige que essa restrição veiculada a um ato normativo dessa natureza (lei em sentido material) seja reconduzível sempre a uma autorização legislativa. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 35 www.cursocei.com Provisórias (por outros atos normativos). A reserva legal se aplica evidentemente a restrições legislativas, de modo que ainda são necessários “limites aos limites”, critérios constitucionais para o monitoramento de restrições veiculadas pelo Poder Executivo e pelo Poder Judiciário. - Princípio da proporcionalidade: Serve justamente à satisfação daquela máxima de que os fins não podem justificar o uso de qualquer meio, buscando aferir a legitimidade dessa relação: qual é o fim que se busca alcançar com uma medida que restringe direito(s) e qual é a relação de equilíbrio entre o(s) direito(s) restringido(s) e a busca da satisfação daquele fim. Um exemplo atual: a grande maioria das restrições veiculadas por decretos e por leis municipais, estaduais e federais diz respeito à saúde pública (interesse público, saúde individual, vida, integridade corporal etc.). Quanto à “bondade”20 desses fins, não há questionamento que se justifique como tal, mas evidente que o teste de proporcionalidade deve ser feito com rigor em todos esses casos. Isso não abre demasiadamente ao subjetivismo, ao voluntarismo judicial? Depende de como se utiliza esse princípio e seus critérios. Sabe-se que os subcritérios que vêm da recepção desse princípio do direito constitucional e da jurisprudência constitucional alemã e se difundiu mundo afora, diferentemente do juízo de razoabilidade21 é, na verdade, o rigor e a controlabilidade da argumentação utilizada para a justificação da proporcionalidade ou desproporcionalidade de uma medida.22 É necessário que seja embutido no juízo de proporcionalidade, especialmente na aferição da adequação da medida (aptidão em alcançar aquela finalidade), da necessidade da medida (inexistência de outras medidas tão eficazes quanto e ao mesmo tempo menos restritivas), e ao fim, se não há uma relação excessiva (proibição de excesso de intervenção – se essa medida por menos restritiva que seja, ainda assim não é absolutamente desproporcional,excessiva e desarrazoada)23. Em suma, neste contexto atual de crise, em que justamente essa análise, o cuidado com essas categorias, a atenção que juízes e magistrados devem ter e também se socorrer de 20 “Bondade constitucional” é um termo muito caro ao Professor José Joaquim Gomes Canotilho. 21 Forma pela qual o mundo anglo-americano e alguns outros países que seguem esse modelo resolvem conflitos entre direitos fundamentais, ou seja, concretizam a ponderação/o sopesamento. 22 Feito mediante o olhar muito cauteloso sob os fatos, as circunstâncias, o impacto efetivo daquela medida sobre um ou dois ou mais direitos fundamentais. Ou seja, não é possível alcançar de forma abstrata, apenas com recurso á informações de fontes confiáveis. 23 Este último se assemelha ao mencionado juízo de razoabilidade. www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 36 www.cursocei.com informações que possam balizar suas decisões, vão torná-las tanto mais legítimas/sólidas, quanto mais essa metodologia for levada a sério. Sugestões para leitura: • BRANDÃO, Rodrigo. Coronavírus, ‘estado de exceção sanitária’ e restrições a direitos fundamentais. 2020. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/coronavirus-estado-excecao- sanitaria-direitos-fundamentais-04042020 • FILHO, Ilton Norberto Robl. Restrição e garantia dos direitos fundamentais em tempos de Covid-19. 2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-mai-30/observatorio-constitucional-restricao- garantia-direitos-fundamentais-tempos-covid-19 • SARLET, Ingo Wolfgang. Os direitos fundamentais em tempos de pandemia – I. 2020Disponível em: https://www.conjur.com.br/2020-mar-23/direitos-fundamentais-direitos-fundamentais-tempos- pandemia • SARLET, Ingo Wolfgang. As fake news e o STF: ainda há o que fazer. 2020. Disponível em: https://www. conjur.com.br/2020-jun-13/observatorio-constitucional-fake-news-stf-ainda • SARLET, Ingo Wolfgang. O entendimento do Supremo sobre a liberdade de reunião e manifestação. 2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2019-jan-11/direitos-fundamentais-entendimento- stf-liberdade-reuniao-manifestacao Jurisprudência STF: EMENTA: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. RESTRIÇÕES GENÉRICAS E ABUSIVAS À GARANTIA CONSTITUCIONAL DE ACESSO À INFORMAÇÃO. AUSÊNCIA DE RAZOABILIDADE. VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA PUBLICIDADE E TRANSPARÊNCIA. SUSPENSÃO DO ARTIGO 6º-B DA LEI 13.979/11, INCLUÍDO PELA MP 928/2020. MEDIDA CAUTELAR REFERENDADA. 1. A Constituição Federal de 1988 consagrou expressamente o princípio da publicidade como um dos vetores imprescindíveis à Administração Pública, conferindo-lhe absoluta prioridade na gestão administrativa e garantindo pleno acesso às informações a toda a Sociedade. 2. À consagração constitucional de publicidade e transparência corresponde a obrigatoriedade do Estado em fornecer as informações solicitadas, sob pena de responsabilização política, civil e criminal, salvo nas hipóteses constitucionais de sigilo. 3. O art. 6º-B da Lei 13.979/2020, incluído pelo art. 1º da Medida Provisória 928/2020, não estabelece situações excepcionais e concretas impeditivas de acesso à informação, pelo contrário, transforma a regra constitucional de publicidade e transparência em exceção, invertendo a finalidade da proteção constitucional ao livre acesso de informações a toda Sociedade. 4. Julgamento conjunto das Ações Diretas de Inconstitucionalidade 6.347, 6351 e 6.353. Medida cautelar referendada. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/coronavirus-estado-excecao-sanitaria-direitos-fundamentais-04042020 https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/coronavirus-estado-excecao-sanitaria-direitos-fundamentais-04042020 https://www.conjur.com.br/2020-mai-30/observatorio-constitucional-restricao-garantia-direitos-fundamentais-tempos-covid-19 https://www.conjur.com.br/2020-mai-30/observatorio-constitucional-restricao-garantia-direitos-fundamentais-tempos-covid-19 https://www.conjur.com.br/2020-mar-23/direitos-fundamentais-direitos-fundamentais-tempos-pandemia https://www.conjur.com.br/2020-mar-23/direitos-fundamentais-direitos-fundamentais-tempos-pandemia https://www.conjur.com.br/2020-jun-13/observatorio-constitucional-fake-news-stf-ainda https://www.conjur.com.br/2020-jun-13/observatorio-constitucional-fake-news-stf-ainda https://www.conjur.com.br/2019-jan-11/direitos-fundamentais-entendimento-stf-liberdade-reuniao-manifestacao https://www.conjur.com.br/2019-jan-11/direitos-fundamentais-entendimento-stf-liberdade-reuniao-manifestacao www.cursocei.com Pós-graduação em Direito Constitucional Aula 18 - Limites e restrições dos direitos fundamentais 37 www.cursocei.com (STF; ADI 6351 MC-Ref/DF; Relator: Ministro Alexandre de Moraes; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 30/04/2020; Data da Publicação: 14/08/2020). Grifo não original. Disponível em: http://www. stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI6351.pdf DIREITO CONSTITUCIONAL, ADMINISTRATIVO E REGULATÓRIO. PROIBIÇÃO DO LIVRE EXERCÍCIO DA ATIVIDADE DE TRANSPORTE INDIVIDUAL DE PASSAGEIROS. INCONSTITUCIONALIDADE. ESTATUTO CONSTITUCIONAL DAS LIBERDADES. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA LIVRE INICIATIVA E DO VALOR SOCIAL DO TRABALHO (ART. 1º, IV), DA LIBERDADE PROFISSIONAL (ART. 5º, XIII), DA LIVRE CONCORRÊNCIA (ART. 170, CAPUT), DA DEFESA DO CONSUMIDOR (ART. 170, V) E DA BUSCA PELO PLENO EMPREGO (ART. 170, VIII). IMPOSSIBILIDADE DE ESTABELECIMENTO DE RESTRIÇÕES DE ENTRADA EM MERCADOS. MEDIDA DESPROPORCIONAL. NECESSIDADE DE REVISÃO JUDICIAL. MECANISMOS DE FREIOS E CONTRAPESOS. ADPF JULGADA PROCEDENTE. [...] (STF; ADPF 449/DF; Relator: Ministro Luiz Fux; Órgão Julgador: Tribunal Pleno; Data do Julgamento: 08/05/2019; Data da Publicação: 02/09/2019). Grifo não original. Disponível em: http://redir.stf.jus.br/ paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=750684777 LIBERDADE DE EXPRESSÃO E PLURALISMO DE IDEIAS. VALORES ESTRUTURANTES DO SISTEMA DEMOCRÁTICO. INCONSTITUCIONALIDADE DE DISPOSITIVOS NORMATIVOS QUE ESTABELECEM PREVIA INGERÊNCIA ESTATAL NO DIREITO DE CRITICAR DURANTE O PROCESSO ELEITORAL. PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL AS MANIFESTAÇÕES DE OPINIÕES DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A LIBERDADE DE CRIAÇÃO HUMORISTICA. 1. A Democracia não existirá e a livre participação política não florescerá onde a liberdade de expressão for ceifada, pois esta constitui condição essencial ao pluralismo de ideias, que por sua vez é um valor estruturante para o salutar funcionamento do sistema democrático. 2. A livre discussão, a ampla participação política e o princípio democrático estão interligados com a liberdade de expressão, tendo por objeto não somente a proteção de pensamentos e ideias, mas também opiniões, crenças, realização de juízo de valor e críticas a agentes públicos, no sentido de garantir a real participação dos cidadãos na vida coletiva. 3. São inconstitucionais os dispositivos legais que tenham a nítida finalidade de controlar ou mesmo aniquilar a força do pensamento crítico, indispensável ao regime democrático. Impossibilidade de restrição, subordinação ou forçosa adequação programática da liberdade de expressão a mandamentos normativos cerceadores durante o período eleitoral. 4. Tanto a liberdade de expressão quanto a participação política em uma Democracia representativa somente se fortalecem em um ambiente de total visibilidade e possibilidade de exposição crítica das mais variadas opiniões sobre os governantes. 5. O direito fundamental à liberdade de expressão não se direciona somente a proteger as opiniões supostamente verdadeiras, admiráveis ou convencionais, mas também aquelas que são duvidosas, http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI6351.pdf http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI6351.pdf http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=750684777 http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=750684777 www.cursocei.com