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ENERGIA DO LIXO: tecnologias para
recuperação energética dos resíduos sólidos
urbanos
i
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC
Dácio Roberto Matheus – Reitor
Mônica Schröder – Vice-Reitora
Editora UFABC
Coordenação
Paulo Sérgio da Costa Neves – Coordenador
Acácio Sidinei Almeida Santos – Vice-Coordenador
Conselho Editorial
Ana Carolina Santos de Souza Galvão
Annibal Hetem Jr
Breno Arsioli Moura
Carolina Bezerra Machado
Elizabete Campos de Lima
Fernanda Nascimento Almeida
Francisco Miraglia Neto
Gabriela Rufino Maruno
Jean Rodrigues Siqueira
José Roberto Tálamo
Lidiane Soares Rodrigues
Maisa Helena Altarugio
Mônica Yukie Kuwahara
Ramatis Jacino
Reyolando Manoel L. R. da F. Brasil
Sidney Jard da Silva
Silvia Lenyra M. Campos Titotto
Vinicius Cifú Lopes
Walter Carnielli
Zhanna Gennadyevna Kuznetsova
Equipe Técnica
Ariel Antonelli
Bianca Souza
Cintia Leite
Cleiton Klechen
Lilian Aguilar
Thalita Castilho
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ENERGIA DO LIXO: tecnologias para
recuperação energética dos resíduos sólidos
urbanos
Antonio Garrido Gallego
Gilberto Martins
Giovano Candiani
Reynaldo Palacios Bereche
Silvia Azucena Nebra
(Organizadores)
Santo André
2024
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© Copyright by Editora Universidade Federal do ABC (EdUFABC)
Todos os direitos reservados.
Projeto Gráfico e Diagramação
Reynaldo Palacios Bereche
Capa
Amalia Raquel Pérez-Nebra
CATALOGAÇÃO NA FONTE
EdUFABC
E56
Energia do lixo: tecnologias de recuperação energética dos resíduos sólidos
urbanos [recurso eletrônico] / organizadores: Antonio Garrido Gallego... [et.al].
Santo André, SP: Universidade Federal do ABC, 2024.
464 p.: il. color.
E-book
ISBN: 978-65-89992-49-3
1. Gestão integrada de resíduos sólidos. 2. Biogás. 3. Sustentabilidade. I.
Gallego, Antonio Garrido, org. II. Título.
CDD 23. ed. – 628.445
Elaborado por Lilian Aguilar Teixeira – CRB-8/10.627.
EDITORA ASSOCIADA
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PREFÁCIO
O desenvolvimento tecnológico ao longo dos últimos 300 anos passou pelas máquinas
a vapor, máquinas têxteis, metalurgia e estradas de ferro, eletrificação, indústrias químicas,
automóveis, petroquímica, computadores, tecnologia da informação e a digitalização atual e o
que moveu todo esse desenvolvimento tecnológico e inovações foram forças de mercado.
Entretanto, o que o mundo necessita nesta etapa do século 21 é desenvolver tecnologias
sustentáveis que garantam condições adequadas de vida para a humanidade sem danos
irreversíveis ao planeta e a toda biodiversidade nele existente. Para direcionar o
desenvolvimento tecnológico na direção da sustentabilidade em todo o planeta, uma vez que
forças de mercado dificilmente levariam a tal no ritmo necessário, a Organização das Nações
Unidas estabeleceu e aprovou em sua assembleia geral um conjunto de diretivas, denominadas
Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Entre seus vários objetivos, um foi promover a
disponibilização de inovações tecnológicas visando o desenvolvimento sustentável. O que se
espera é que se as novas tecnologias seguirem tais diretivas os impactos ambientais serão
minimizados e processos sustentáveis de consumo e produção serão implantados em todo o
mundo.
A geração de resíduos sólidos urbanos (RSU) está entre os importantes problemas
ambientais da humanidade causados pelos diversos processos econômicos e que para solução
requerem novas tecnologias aceitáveis pela sociedade. Em 2015 foram gerados mais de
1,6x109 t de resíduos sólidos no planeta e em 2018 o Brasil gerou 79x106 t de resíduos sólidos
(ver Cap. 2). Esses números representam 205 kg/ano por habitante no planeta e 373 kg/ano
por habitante no Brasil. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) do Brasil, em
consonância com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, estabelece diretrizes a serem
seguidas pela sociedade como um todo para a gestão dos resíduos sólidos urbanos e preconiza
evitar ou reduzir a geração de RSU, reutilizar os resíduos, reciclar os resíduos para outros fins
ou objetivos, tratá-los para reduzir impactos socioambientais e estabelece regras de disposição
final ambientalmente aceitáveis.
Este livro desenvolvido por docentes e alunos do Programa de Pós-graduação em
Energia da Universidade Federal do ABC, trata do desenvolvimento de tecnologias
sustentáveis para o tratamento de rejeitos sólidos visando principalmente seu aproveitamento
para a geração de energia. Este Programa de Pós-graduação desenvolve seu trabalho de
formação de recursos humanos e pesquisa enfatizando os temas tecnologia, ambiente e
ii
sociedade em duas áreas de concentração visando uma abordagem interdisciplinar. As áreas
de concentração são “Ambiente, sociedade e planejamento energético” e “Tecnologia,
engenharia e modelagem”. O intuito do programa é buscar soluções tecnológicas para os
problemas energéticos levando em consideração preocupações socioambientais. Sem dúvida,
o tema de aproveitamento energético dos resíduos sólidos é relevante nesta terceira década
do século 21 e, não por acaso, foi desenvolvido na UFABC.
O presente livro está organizado em 10 capítulos dos quais 9 deles apresentam
tecnologias atuais para geração de energia elétrica a partir de resíduos sólidos urbanos (RSU)
levando em conta os objetivos do desenvolvimento sustentável aplicáveis. O Cap. 1 apresenta
uma discussão sobre o que vem a ser a economia circular e as principais características do
desenvolvimento sustentável e os capítulos seguintes, mostrados esquematicamente na Figura
1, apresentam diversas tecnologias sustentáveis para o aproveitamento energético dos RSU.
Figura 1 – Organização geral do livro.
Fonte: Elaborado pelo autor
iii
Para se fazer um aproveitamento energético eficiente a partir de RSU é necessário
realizar sua caracterização para se conhecer com precisão sua composição que pode ser bem
variada (Cap. 2). O aproveitamento energético dos RSU pode ser feito basicamente de duas
maneiras: a) transformando esses resíduos em combustíveis para produzirem energia térmica
ou eletricidade conforme discute-se nos Caps. 3, 7, e 8; b) aproveitando a fração de metano
presente no biogás gerado pela degradação biológica dos resíduos orgânicos presentes nos
RSU que também pode ser utilizado para gerar energia térmica, eletricidade e outros fins,
conforme discute-se nos Caps. 4, 5 e 6. O Cap. 9 discute várias opções de instalações de
potência para o aproveitamento energético dos RSU e o Cap. 10 discute questões econômicas
e a legislação pertinente relacionada aos objetivos de sustentabilidade.
O Cap. 2 inicia com a definição e a classificação dos resíduos sólidos e a seguir o
processo de caracterização dos RSU visando o aproveitamento energético por meio de
processos bioquímicos e termoquímicos. Discutem-se os métodos utilizados para obtenção de
amostras representativas de resíduos sólidos urbanos visando obter dados adequados para o
aproveitamento energético, as principais propriedades físicas e químicas que devem ser
avaliadas e métodos disponíveis para essas análises. Os métodos apresentados baseiam-se
em dados reais coletados pelos autores no município de Santo André, no Estado de São Paulo.
O Cap. 3 trata da utilização dos RSU como combustível para processos termoquímicos,
tecnicamente denominado como combustível derivado de resíduo (CDR). Conforme as
propriedades físico-químicas e termofísicas do RSU este material pode ser processado como
CDR e se torna uma alternativa para combustíveis fósseis em instalações de potência
apropriadas. O capítulo também apresenta as tecnologias de processamento de resíduos para
obtenção de CDRs e a base normativa empregada para sua a caracterização físico-química e
termofísica. Na parte final apresentam-se as tecnologiaspara resíduos sólidos urbanos ................................................................................ 31
Quadro 2.2. Normas e procedimentos nacionais e internacionais de amostragem de resíduos
sólidos urbanos para determinação da sua composição gravimétrica. .......................................... 34
Quadro 2.2. Normas e procedimentos de amostragem para determinação da composição
gravimétrica de resíduos sólidos urbanos relatados em trabalhos nacionais realizados em
diferentes localidades do país ........................................................................................................ 35
Quadro 2.3. Planejamento Amostral para resíduos ....................................................................... 42
Quadro 2.4. Frações correspondentes à caracterização gravimétrica dos RSU úmidos do município
de Santo André, em campanha realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016 ....................... 52
Quadro 2.5. Parâmetros e metodologias específicas a serem considerados nos processos
termoquímicos ................................................................................................................................ 58
Quadro 3.1. Equipamentos utilizados em plantas de tratamento mecânico e biológico (TMB). . 104
Quadro 3.2. Normas ASTM para a caracterização de refuse-derived fuel (RDF). ......................... 115
Quadro 3.3. Normas do European Committee for Standardization (CEN) para caracterização físico-
química e termofísica de solid recovered fuel (SRF). .................................................................... 116
Quadro 3.4. Plantas de recuperação energética a partir do CDR e respectivos processos e
produtos de conversão. ................................................................................................................ 124
Quadro 5.1: Classificação das tecnologias de DA aplicadas à FORSU ........................................... 198
Quadro 5.2: Tolerância em relação à H2S no biogás para diferentes tecnologias. ....................... 228
Quadro 6.1 – Principais características das tecnologias utilizadas com gás de aterro. ................ 249
Quadro 6.2 – Aterros utilizando motores de combustão interna na geração de energia elétrica.
258
Quadro 6.3 - Usinas termelétricas no Brasil que utilizam biogás como combustível ................... 259
Quadro 6.4 - Opções de configuração de microturbina. .............................................................. 271
Quadro 7.1: Dados de operação de plantas WtE (Waste-to-Energy) ........................................... 283
Quadro 7.2: Exemplos de sistemas de produção de energia a partir de resíduos. ...................... 293
LISTA DE QUADROS
xxvii
Quadro 7.3- Tecnologias disponíveis para a redução das emissões provenientes da combustão de
RSU................................................................................................................................................ 308
Quadro 8.1: Características dos principais fornecedores de gaseificadores para RSU e
combustíveis dele derivados para WtE escala comercial ............................................................. 356
Quadro 8.2: Principais sistemas de tratamento de RSU utilizando pirólise................................. 364
Quadro 8.3: Análise comparativa entre as tecnologias de conversão termoquímica de RSU ...... 366
Quadro 10.1: Usinas de geração de energia a partir de biogás no Brasil – 01 de janeiro de 2022
422
Quadro 10.2: Projetos de usinas de recuperação energética com pedido de outorga ativo -
2014/2020 .................................................................................................................................... 423
Quadro 10.3 - Características da URE Barueri - 2012 ................................................................... 425
Quadro 10.4 - Resumo dos leilões de energia a partir de RSU ..................................................... 427
Quadro 10.5 – Trabalhos sobre indicadores específicos para coleta seletiva .............................. 431
Quadro 10.6 - Grau de sustentabilidade na coleta seletiva .......................................................... 432
Quadro 10.7 - Indicadores de sustentabilidade da coleta seletiva ............................................... 434
SOBRE OS AUTORES
xxviii
SOBRE OS AUTORES
Ana Maria Pereira Neto
Doutora em Bioquímica, Universidade de São Paulo - Instituto de Química – IQUSP
Professora Associada do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas –
CECS, Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/3367851356455715
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5057-2857
E-mail: ana.neto@ufabc.edu.br
Andrea Carolina Gutierrez Gomez
Doutora em Energia, Universidade Federal do ABC – Programa de Pós-graduação em
Energia
Pesquisadora de Pós-doutorado em Bioenergia, Grupo de Pesquisa em Bioenergia –
GBio, Instituto de Energia e Ambiente, Universidade de São Paulo – USP, São Paulo, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2228461813894725
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4527-1915
E-mail: andreagutierrez@usp.br
Antonio Garrido Gallego
Doutor em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de
Engenharia Mecânica
Professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS,
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes http://lattes.cnpq.br/0193783578688625
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6598-1490
E-mail: a.gallego@ufabc.edu.br
Cristina Autuori Tomazeti
Doutora em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Professora do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas,
Universidade Federal do ABC.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1459234199034068
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2012-1742
E-mail: cristina.tomazeti@ufabc.edu.br
Francisco César Dalmo
Doutor em Energia, Universidade Federal do ABC – UFABC
http://lattes.cnpq.br/3367851356455715
https://orcid.org/0000-0001-5057-2857
mailto:ana.neto@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/2228461813894725
https://orcid.org/0000-0003-4527-1915?lang=es
mailto:andreagutierrez@usp.br
http://lattes.cnpq.br/0193783578688625
https://orcid.org/0000-0002-6598-1490
mailto:a.gallego@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/1459234199034068
https://orcid.org/0000-0003-2012-1742
mailto:cristina.tomazeti@ufabc.edu.br
SOBRE OS AUTORES
xxix
Professor do Instituto de Ciência, Engenharia e Tecnologia – ICET, Núcleo Estratégico e
Interdisciplinar de Engenharia do Mucuri – NEIEMUC, Universidade Federal dos Vales do
Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM, Teófilo Otoni, MG.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/6817184979225313
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4978-8671
E-mail: francisco.dalmo@ufvjm.edu.br
Gilberto Martins
Doutor em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de
Engenharia Mecânica
Professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS –
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes http://lattes.cnpq.br/9870100888537897
ORCID https://orcid.org/0000-0003-0565-2289
E-mail: gilberto.martins@ufabc.edu.br
Giovano Candiani
Doutor em Energia, Universidade Federal do ABC (UFABC)
Professor do Departamento de Ciências Ambientais, Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP), Campus Diadema, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9950995765229751
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9896-4390
E-mail: gcandiani@unifesp.br
Graziella Colato Antonio
Doutora em Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade
de Engenharia de Alimentos
Professora do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS,
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes https://lattes.cnpq.br/5883532047220320
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5035-3758
E-mail: graziella.colato@ufabc.edu.brHeleno Quevedo de Lima
Doutor em Energia, Universidade Federal do ABC – Centro de Engenharia, Modelagem e
Ciências Sociais Aplicadas
Consultor de projetos e Fundador do portal energiaebiogas.com.br
CV Lattes http://lattes.cnpq.br/8616508833612793
ORCID http://orcid.org/0000-0001-8227-7377
E-mail: heleno@energiaebiogas.com.br
http://lattes.cnpq.br/6817184979225313
https://orcid.org/0000-0003-4978-8671
mailto:francisco.dalmo@ufvjm.edu.br
http://lattes.cnpq.br/9870100888537897
https://orcid.org/0000-0003-0565-2289
mailto:gilberto.martins@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/9950995765229751
https://orcid.org/0000-0001-9896-4390
mailto:gcandiani@unifesp.br
https://lattes.cnpq.br/5883532047220320
https://orcid.org/0000-0002-5035-3758
mailto:graziella.colato@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/8616508833612793
http://orcid.org/0000-0001-8227-7377
mailto:heleno@energiaebiogas.com.br
SOBRE OS AUTORES
xxx
João Manoel Losada Moreira
PhD em Engenharia Nuclear, University of Michigan, EUA
Professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas,
Universidade Federal do ABC (UFABC), Campus Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5209245987326574
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6283-0622
E-mail: joao.moreira@ufabc.edu.br
José Antonio Perrella Balestieri
Doutor em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de
Engenharia Mecânica
Professor da Faculdade de Engenharia e Ciências – FEG, Universidade Estadual Paulista –
UNESP, Guaratinguetá, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/3824759610411548
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0762-0854
E-mail: jose.perrella@unesp.br
Juliana Tófano de Campos Leite
Doutora em Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade
de Engenharia de Alimentos
Professora do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS,
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes http://lattes.cnpq.br/3966520672292193
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9222-9560
E-mail: juliana.toneli@ufabc.edu.br
Katherine Benites Bonato Marana
Mestre em Energia, Universidade Federal do ABC – Centro de Engenharia, Modelagem e
Ciências Sociais
Doutoranda do programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade Federal do ABC
– UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1962605651916328
E-mail: katherine.marana@gmail.com
Kelly Cristina Rosa Drudi
Doutora em Energia, Universidade Federal do ABC – Centro de Engenharia, Modelagem
e Ciências Sociais
Pós-doutoranda do programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade Federal do
ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes https://lattes.cnpq.br/1240015250963633
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0964-4318
E-mail: kellydrudi@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/5209245987326574
https://orcid.org/0000-0001-6283-0622
mailto:joao.moreira@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/3824759610411548
https://orcid.org/0000-0003-0762-0854
mailto:jose.perrella@unesp.br
http://lattes.cnpq.br/3966520672292193
https://orcid.org/0000-0002-9222-9560
mailto:juliana.toneli@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/1962605651916328
mailto:katherine.marana@gmail.com
https://lattes.cnpq.br/1240015250963633
https://orcid.org/0000-0002-0964-4318
mailto:kellydrudi@gmail.com
SOBRE OS AUTORES
xxxi
Kelly Danielly da Silva Alcantara Fratta
Doutora em Energia, Universidade Federal do ABC – Centro de Engenharia, Modelagem
e Ciências Sociais
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/0694704193551716
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6081-4274
E-mail: alcantaradkelly@gmail.com
Marcelo Modesto
Doutor em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de
Engenharia Mecânica
Professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS,
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/3224222404689806
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8439-8631
E-mail: marcelo.modesto@ufabc.edu.br
Nathalia Machado Simão
Doutora e Pós Doutora em Energia, Universidade Federal do ABC – UFABC
Coordenadora de Pós-Graduação do Centro Universitário de Jaguariúna e Centro
Universitário Max Planck – Grupo UnieduK
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9559742219480009
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7817-7004
E-mail: nathaliamsimao@gmail.com
Paulo Henrique de Mello Sant’Ana
Doutor em Energia, Universidade Federal do ABC – UFABC
Professor do CECS – Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas,
Universidade Federal do ABC - UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5891290481492220
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5969-0550
E-mail: paulo.santana@ufabc.edu.br
Reynaldo Palacios-Bereche
Doutor em Engenharia Mecânica, Universidade Estadual de Campinas – Faculdade de
Engenharia Mecânica.
Professor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas – CECS,
Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes http://lattes.cnpq.br/4511646102728382
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4810-8868
E-mail: reynaldo.palacios@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/0694704193551716
https://orcid.org/0000-0001-6081-4274
mailto:alcantaradkelly@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/3224222404689806
https://orcid.org/0000-0001-8439-8631
mailto:marcelo.modesto@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/9559742219480009
https://orcid.org/0000-0002-7817-7004
mailto:nathaliamsimao@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/5891290481492220
https://orcid.org/0000-0001-5969-0550
mailto:paulo.santana@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/4511646102728382
https://orcid.org/0000-0002-4810-8868
mailto:reynaldo.palacios@ufabc.edu.br
SOBRE OS AUTORES
xxxii
Rodolfo Sbrolini Tiburcio
Doutor em Energia, Universidade Federal do ABC – Programa de Pós-graduação em
Energia
Pesquisador Doutor do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas –
CECS, Universidade Federal do ABC – UFABC, Santo André, SP.
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/1592784645406245
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7259-7286
E-mail: rodolfo.sbrolini@ufabc.edu.br
Silvia Azucena Nebra
Doutora em Engenharia Mecânica – Universidade Estadual de Campinas
Professora aposentada da Faculdade de Engenharia Mecânica – Universidade Estadual
de Campinas
Professora Colaboradora no Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético –
Universidade Estadual de Campinas e no Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências
Sociais Aplicadas – Universidade Federal do ABC.
CV Lattes. http://lattes.cnpq.br/2146827739602504
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1291-2408
Email. sanebra@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1592784645406245
https://orcid.org/0000-0002-7259-7286
mailto:rodolfo.sbrolini@ufabc.edu.br
http://lattes.cnpq.br/2146827739602504
https://orcid.org/0000-0002-1291-2408
mailto:sanebra@gmail.com
CAPÍTULO 1
1
1 INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E
SUSTENTABILIDADE
João Manoel Losada Moreira
1.1 INTRODUÇÃO
A partir da revolução industrial, na segunda metade do século 18, até meados dos anos
1970 o desenvolvimento era identificado com o progresso material e consolidou-se a ideia que
era sinônimo de crescimento econômico. O desenvolvimento científico e tecnológico nesse
período passou por diversas ondas nas quais surgiram um conjunto diverso de tecnologias que
caracterizam a sociedade moderna atual, entretanto pouca consideração foi dada aos impactos
sócio ambientais (MORALEZ, FAVARETO, 2014; SACHS, 2015). O que moveu todo esse
desenvolvimento tecnológico e de inovações foram as forças de mercado, a possibilidade de
grandes lucros para as empresas envolvidas nas atividades econômicas que foram surgindo e
o impressionante crescimento econômico neste período.
A partir de 1970 a percepção de que o consumo de recursos naturais, a geração de
resíduos tóxicos e a poluição em geral pudessem causar danos ambientais irreversíveis ao
planeta levaram a sociedade a questionar a trajetória de desenvolvimento em curso. Há vasta
literatura que tratada evolução do pensamento sobre desenvolvimento e o ganho de
importância das questões ligadas ao meio ambiente, à sustentabilidade e às mudanças
climáticas nesse período (VEIGA, 2006; MORALEZ, FAVARETO, 2014; SACHS, 2015). A partir
de então, duas outras dimensões passaram a ser consideradas como importantes: o bem-estar
da população e a preservação do meio ambiente. O crescimento da economia passou a ser
entendido como uma dimensão de um processo maior e os processos econômicos tiveram que
se adequar aos requisitos de dimensões ligadas à sustentabilidade socioambiental (SACHS,
2015; MORALEZ, FAVARETO, 2014; VEIGA, 2006; PEARCE; TURNER, 1990).
A consolidação da disciplina engenharia ambiental é uma evidência do ganho de
importância das questões de sustentabilidade ambiental na sociedade atual. Nesta linha três
perguntas podem ser feitas a respeito do problema de busca por inovações tecnológicas
sustentáveis para tratamento dos resíduos sólidos gerados pela sociedade: 1) Por que a
economia e a sociedade geram tantos resíduos? 2) Quais seriam as alternativas para reduzir
a geração de resíduos e os danos ambientais causados por eles? 3) Como estimular inovações
CAPÍTULO 1
2
tecnológicas para atingir esses objetivos, pois certamente os estímulos oriundos do mercado e
do crescimento econômico dificilmente viabilizariam tecnologias com tais características? Nas
seções seguintes busca-se responder a essas três perguntas.
1.2 RECURSOS NATURAIS, REJEITOS ECONÔMICOS E REJEITOS AMBIENTAIS
Para responder a primeira pergunta deve-se observar que os recursos naturais são
utilizados como insumos no processo de produção e cada vez mais eles devem ser
considerados na equação econômica (SACHS, 2015; MUSANGO; BRENT, 2011; VEIGA,
2006; PEARCE; TURNER, 1990). Os recursos naturais são necessários para a produção de
bens e serviços e um subproduto indesejado desses processos de produção é a geração de
rejeitos que são retornados ao meio ambiente. Exemplos de recursos naturais utilizados nos
processos econômicos são água, ar, carvão, óleo, ferro, estanho, madeira, florestas etc.
Exemplos de rejeitos econômicos gerados são fumaça, poluição, gases do efeito de estufa,
produtos químicos etc. A questão da sustentabilidade impõe condicionantes sobre como utilizar
os recursos naturais e o que fazer com os rejeitos econômicos que são depositados no meio
ambiente (SACHS, 2015; PEARCE; TURNER, 1990).
Todos os processos econômicos de produção geram rejeitos e causam também
alterações no estado do meio ambiente como liberação de calor, acidez das águas e do ar
devido a liberação de produtos químicos, gases do efeito estufa etc. Toda esta variedade de
material disforme, degradado e poluente constitui rejeitos econômicos, isto é, rejeitos dos vários
processos econômicos que, se não forem reaproveitados em outros processos produtivos,
acabam de uma forma ou de outra retornando ao meio ambiente. São depositados em aterros
sanitários, lixões e vazadouros e os impactos sobre o meio ambiente são grandes, variados e
crescentes.
Tudo que é produzido, bens de consumo ou capital físico, se deprecia ao longo do tempo
e se transforma, eventualmente, em rejeitos econômicos. Se não houver um reaproveitamento
dos rejeitos econômicos todos os recursos naturais utilizados nos processos econômicos se
transformam ao longo do tempo, primeiro, em rejeitos econômicos e, no longo prazo, esses
rejeitos econômicos se transformam em rejeitos ambientais. O meio ambiente assimila tudo e
torna-se o depósito final de todos os rejeitos econômicos.
CAPÍTULO 1
3
1.3 ECONOMIA CIRCULAR OU COM RECICLAGEM
A resposta para a segunda pergunta relacionada às alternativas para reduzir a geração
de resíduos e os danos ambientais não é fácil e nem única, contudo, a adotada pela sociedade
mundial foi considerar o conceito de economia circular ou com reciclagem, isto é, a economia
sustentável (PEARCE; TURNER, 1990; VEIGA, 2006; SACHS, 2015). O meio ambiente tem
capacidade de assimilar muitos dos rejeitos nele depositados. Além de assimilar, o meio
ambiente é capaz de processá-los e recuperá-los como um recurso natural útil, em outras
palavras, o meio ambiente tende a reciclar seus rejeitos. Mas tem uma capacidade finita de
fazê-lo e vários estudos indicam que várias demandas locais, regionais ou globais por serviços
ambientais requeridos do meio ambiente já estejam acima da sua capacidade de fornecimento.
O sistema econômico não busca a reciclagem naturalmente e o conceito de sustentabilidade
vai nesta direção: tornar o sistema socioeconômico capaz de reciclar os rejeitos econômicos e
evitar ultrapassar os limites de assimilação biológico, químico e físico do meio ambiente
(PEARCE; TURNER, 1990; SACHS, 2015).
A economia sustentável formaria um ciclo fechado. A Figura 1.1 mostra como esta
deveria ser levando em conta os recursos naturais, os rejeitos econômicos e os rejeitos
ambientais. O termo ciclo fechado se relaciona com a reciclagem. Em uma economia linear
(setas pretas) os rejeitos econômicos são gerados nos processos de produção de bens e
serviços, consumo, produção de máquinas, construção de prédios e não há preocupação com
a reutilização dos rejeitos econômicos. Em uma economia circular os rejeitos econômicos
devem ser reutilizados nos processos produtivos substituindo o uso de novos recursos naturais
(setas verdes). A reciclagem deve ser incentivada para poupar os recursos naturais. O uso dos
recursos naturais e a deposição de rejeitos econômicos no meio ambiente, isto é, os rejeitos
ambientais devem ser feitos de forma a manter a sustentabilidade do planeta, isto é, não
ultrapassar os limites biológicos, físicos e químicos dos locais, regiões ou do planeta.
A economia circular ou sustentável demanda menor quantidade de recursos naturais,
reutiliza os rejeitos econômicos impedindo que se tornem rejeitos ambientais, portanto também
reduz a geração de resíduos. A menor utilização de recursos naturais e a menor deposição de
rejeitos ambientais no meio ambiente tendem a reduzir os impactos ambientais. Contudo deve-
se lembrar que os processos de reciclagem na economia também são processos econômicos
e geram novos rejeitos econômicos e possivelmente novas classes de rejeitos ambientais
(PEARCE; TURNER, 1990; VEIGA, 2006; SACHS, 2015).
CAPÍTULO 1
4
Figura 1.1 – Economia circular (com reciclagem dos rejeitos econômicos) para
minimizar a geração de rejeitos ambientais. As setas pretas
representam uma economia linear sem preocupação
com a reciclagem.
Fonte: Elaborado pelo autor
1.4 REGRAS PARA UMA ECONOMIA CIRCULAR SUSTENTÁVEL
Há alguns critérios importantes a serem observados na economia sustentável, pois nem
todos os rejeitos econômicos podem ser reciclados e nem todos podem ser depositados no
meio ambiente. Seriam aceitos como rejeitos ambientais somente aqueles que não colocam
em risco a capacidade do ambiente em assimilá-los e de processá-los tornando-os inertes.
Outro requisito importante para a deposição dos rejeitos econômicos é que não tornem os
impactos ambientais irreversíveis e que não afetem a resiliência do meio ambiente, isto é, não
afetem a capacidade do planeta de suportar a vida das futuras gerações.
Nesta mesma linha, quanto ao uso dos recursos naturais, a extração não pode ser tal
que os tornem indisponíveis para as futuras gerações. Existem recursos naturais renováveis e
não renováveis. Os renováveis estarão disponíveis para as gerações futuras e os não
renováveis, se forem esgotados, não estarão disponíveis. Contudo, não podemos privar as
gerações futuras de contar com tais recursos naturais. A partir dessa linha de argumentação é
possível escrever algumas regras de sustentabilidade ou para se ter uma economia sustentável
(PEARCE; TURNER, 1990; VEIGA, 2006):
a) Usar recursos naturais renováveis em taxas menores que suas taxas deregeneração;
CAPÍTULO 1
5
b) Buscar a substituição de recursos naturais não-renováveis por recursos
renováveis à medida que os primeiros vão sendo utilizados e se tornem escassos;
c) Buscar garantir o bem-estar da sociedade com o uso cada vez menor de recursos
naturais, isto é, aumentar a eficiência no uso dos recursos naturais e a sua
reutilização via reciclagem;
d) Manter a taxa de deposição de rejeitos ambientais menor que a taxa de
assimilação do meio ambiente para garantir sua capacidade de suporte à vida.
Algumas observações podem ser feitas sobre essas 4 regras gerais. De acordo com as
regras “a” e “b” o uso de recursos naturais renováveis e não renováveis não é vedado, mas,
sim, limitado à observância de algumas condições. Em relação às regras “c” e “d”, que são as
mais importantes no que tange a este livro, deve-se observar a importância de se aumentar a
eficiência do uso dos recursos naturais e não depositar no meio ambiente rejeitos acima da sua
capacidade de assimilação. Uma solução para aumentar a eficiência no uso dos recursos
naturais é produzir bens e serviços requeridos pela sociedade a partir deles (reciclagem), não
somente reutilizar para o mesmo fim, mas também reciclá-los para cumprir outros fins ou
objetivos para a sociedade.
Uma solução para evitar ultrapassar os limites de assimilação do planeta é buscar
processos de reciclagem que gerem menor dano ambiental e aquém dos limites de assimilação
do meio ambiente. Em outras palavras, trocar o dano muito impactante ao meio ambiente que
afeta a sustentabilidade do planeta, região ou local por outros, menos impactantes e bem
aquém dos limites de suporte à vida no planeta, região ou local (PEARCE; TURNER, 1990;
VEIGA, 2006; MUSANGO; BRENT, 2011; SACHS, 2015; MOREIRA et al., 2015; ZIJP et al.,
2015). Esta alternativa prevista na regra “d” frustra muitos ambientalistas e preservacionistas,
mas está na base do conceito de sustentabilidade: fazer gestões de forma a manter
simultaneamente a capacidade de suporte da vida nas dimensões ambiental, social e
econômica, seja no espaço local, regional ou global e seja do ponto de vista temporal, para
essa geração e também para as futuras.
As consequências dos impactos ambientais sobre o planeta no presente e no futuro são
incertas. Não se sabe exatamente quais taxas de deposição de rejeitos ambientais afetam de
forma irreversível sua capacidade de prover condições adequadas de suporte à vida. Há
também incerteza quanto ao desenvolvimento tecnológico que pode ser conseguido para
realizar as regras enumeradas acima. Estas incertezas sugerem que a sociedade deve se
pautar por atitudes de precaução e cuidado, de negociar entre os vários grupos de interesses
CAPÍTULO 1
6
conflitantes limites e revê-los mais adiante, caso se mostre necessário, buscando preservar
condições adequadas de sustentabilidade (PEARCE; TURNER, 1990; VEIGA, 2006, SACHS,
2015).
1.5 INOVAÇÃO TECNOLÓGICA PARA VIABILIZAR A SUSTENTABILIDADE
A resposta à terceira pergunta sobre como estimular inovações tecnológicas para
viabilizar uma economia circular e sustentável do ponto de vista tecnológico é abordada aqui.
É claro que a resposta para tal é que a sociedade passasse a atender as regras de uma
economia sustentável descritas na seção anterior e que desenvolvesse tecnologias
sustentáveis. Mas como convencer todo o planeta com cerca de duas centenas de países a
fazer isso? A estratégia foi transformar esses objetivos em objetivos planetários por meio de
programas da Organização das Nações Unidas.
As reuniões da ONU sobre questões climáticas e igualdade social são exemplos da
capacidade de convencimento que esta organização mundial tem de estimular a busca de
soluções aceitáveis do ponto de vista econômico, social e ambiental (SACHS, 2015).
Estabeleceu-se ao longo do tempo o consenso de que o mundo necessita desenvolver
tecnologias sustentáveis que garantam condições adequadas de vida para a humanidade sem
danos irreversíveis ao planeta e toda a biodiversidade nele existente. E também se cristalizou
a percepção que motivações ligadas unicamente ao crescimento econômico, que prevaleceram
anteriormente durante o período da revolução industrial até 1970, dificilmente viabilizariam o
desenvolvimento destas tecnologias sustentáveis tão necessárias. Para direcionar o
desenvolvimento tecnológico na direção da sustentabilidade em todo o planeta a Organização
das Nações Unidas em 2015 estabeleceu e aprovou em sua assembleia geral um conjunto de
17 diretivas, denominadas Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (SACHS, 2015). Entre
seus vários objetivos, um foi promover a disponibilização de inovações tecnológicas visando o
desenvolvimento sustentável. O que se espera é que se as novas tecnologias e investimentos
seguirem tais diretivas sustentáveis os impactos ambientais serão minimizados e o planeta
passará a trilhar uma trajetória de desenvolvimento com sustentabilidade socioambiental
(SACHS, 2015).
Nesta perspectiva, considera-se que um dos objetivos da prospecção e
desenvolvimento tecnológico deva ser gerar alternativas sustentáveis para a solução dos
problemas da sociedade que no nível operacional utilizam novas tecnologias. Adicionalmente,
essas tecnologias para serem viáveis, além de sustentáveis, devem ser aceitáveis pela
CAPÍTULO 1
7
sociedade e sua performance monitorada de alguma forma (MUSANGO, BRENT, 2011;
SACHS, 2015; MOREIRA et al., 2015; ZIJP et al., 2015).
Em uma vista geral sobre os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
estabelecidos pela ONU notamos que pelo menos 4 deles podem ser considerados diretamente
ligados ao problema de aproveitamento de energia a partir de rejeitos ambientais via reciclagem
e inovação tecnológica. O Objetivo 7 busca garantir acesso de todos os indivíduos às formas
de energia modernas que sejam sustentáveis, baratas e resilientes e o Objetivo 9, que se
construam infraestruturas resilientes e que utilizem processos industriais sustentáveis. Os
outros dois objetivos evidenciam importantes características do que vem a ser desenvolvimento
sustentável. O Objetivo 12 requer a realização de consumo e produção reciclando os rejeitos
econômicos, isto é, promovendo uma economia circular na qual os rejeitos de hoje se
transformem nos insumos de amanhã, e o Objetivo 13 requer o combate às mudanças
climáticas via a redução da emissão de gases do efeito estufa.
Vê-se claramente que para realizar o aproveitamento de energia a partir de rejeitos
ambientais de forma sustentável é necessário desenvolvimento tecnológico e inovações
balizados por esses objetivos gerais.
1.6 COMENTÁRIOS FINAIS
A economia sustentável é também interessante do ponto de vista econômico e social.
Vários governos buscam a economia sustentável devido ela introduzir uma série de novos
processos produtivos de bens e serviços e, consequentemente, novos empregos e novos
negócios. A adoção de políticas de governo sustentáveis direciona o setor de pesquisa e
desenvolvimento para buscar as soluções inovadoras para a sua implementação. Esses novos
processos e demandas da sociedade, que reduzem impactos ambientais e consumo de
recursos naturais, induzem as encomias nacionais na direção de produzir os bens e serviços
sustentáveis desejados, geram novas oportunidades de negócios, novos empregos e
oportunidades de empreendimento para a sociedade e, consequentemente, crescimento
econômico (PEARCE; TURNER, 1990; SACHS, 2015).
Este livro apresenta várias alternativas para o aproveitamento energético a partir dos
rejeitos econômicos denominados resíduos sólidos urbanos de acordo com as regras de
sustentabilidade citadas acima. Vê-se claramente que para atingir tal objetivo é necessário
desenvolvimento tecnológico para reciclar os RSU, o que é, como se viu, muito necessário para
se viabilizar uma economia sustentável. Os próximos9 capítulos apresentam diferentes
CAPÍTULO 1
8
tecnologias sustentáveis para o tratamento de rejeitos sólidos e para concomitantemente
viabilizar o aproveitamento do conteúdo energético neles existente.
1.7 SÍNTESE DO CAPÍTULO
O desenvolvimento de tecnologias sustentáveis requer o entendimento dos processos
de consumo de recursos naturais, geração de rejeitos econômicos e sua transformação em
rejeitos ambientais e os consequentes impactos socioambientais da deposição destes no meio
ambiente. A forma escolhida pelas sociedades modernas cursarem trajetórias sustentáveis é a
economia circular na qual se busca reduzir os impactos ambientais e o consumo de recursos
naturais via reciclagem dos rejeitos econômicos de forma a evitar que se transformem em
rejeitos ambientais. Desenvolver tecnologias sustentáveis não ocorre naturalmente, pois o
sistema econômico não tende a fazê-lo automaticamente. As tecnologias sustentáveis
necessárias para viabilizar a economia circular são estimuladas por políticas nacionais e
programas internacionais que direcionam o setor de pesquisa e desenvolvimento para buscar
as soluções inovadoras para a sua implementação. Além de ser interessante do ponto de vista
socioambiental, a economia circular é também interessante do ponto de vista econômico, pois
além de produzir os bens e serviços sustentáveis desejados, geram novas oportunidades de
negócios, novos empregos e oportunidades de empreendimentos para a sociedade e,
consequentemente, crescimento econômico.
1.8 REFERÊNCIAS
MORALEZ, R.; FAVARETO, A. Energia, desenvolvimento e sustentabilidade – definições, usos
e abusos, pags. 17-73 In: FAVARETO, A.; MORALEZ, R. Energia, Desenvolvimento e
Sustentabilidade. Porto Alegre: Ed. Zouk, 2014.
MOREIRA, J. M. L.; CESARETTI, M. A.; CARAJILESCOV, P.; et al. Sustainability deterioration
of electricity generation in Brazil. Energy Policy, 87, 2015, 334–346.
MUSANGO, J. K.; BRENT, A. C. A conceptual framework for energy technology sustainability
assessment. Energy for Sustainable Development, 15, 2011, 84-91.
PEARCE, D. W.; TURNER, R. K. Economics of natural resources and the environment.
Caps. 2 e 3. Ed. Prentice Hall, 1990.
SACHS, J. D. The age of sustainable development. Caps. 1 (sustainable development), 6
(planetary boundaries) e 14 (sustainable development goals). Columbia University Press, 2015.
VEIGA, J. E. da. Desenvolvimento Sustentável, o desafio do século XXI. Rio de Janeiro:
Ed. Garamond, 2006.
CAPÍTULO 1
9
ZIJP, M. C.; HEIJUNGS, R.; VOET, E.; et al. An identification key for selecting methods for
sustainability assessments. Sustainability,7, 2015, 2490–2515.
CAPÍTULO 2
10
2 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS:
AMOSTRAGEM, PREPARO E
CARACTERIZAÇÃO PARA RECUPERAÇÃO
ENERGÉTICA
Juliana Tófano de Campos Leite; Graziella Colato Antonio; Kelly Cristina Rosa Drudi;
Katherine Benites Bonato Marana; Gilberto Martins
2.1 INTRODUÇÃO
A geração e a destinação adequada de resíduos sólidos urbanos encontram-se,
atualmente, entre os maiores desafios das nações. Segundo estimativas do Programa
Ambiental das Nações Unidas (UNEP), no ano de 2015, foram gerados mais de 1,6 bilhões de
toneladas de resíduos domiciliares em todo o mundo (SBC, 2018). No Brasil, segundo os dados
da ABRELPE (2019), no ano de 2018, esse número foi de 79 milhões de toneladas, dos quais
35,8 milhões de toneladas sequer foram coletados ou receberam destinação inadequada.
Em um conceito ideal de economia sustentável, verde e circular, um sistema em que
não haja geração de resíduos ou onde a geração de resíduos seja a mínima possível é o
objetivo almejado. Entretanto, embora essa busca seja importante, no atual cenário em que
nos encontramos, são necessárias soluções que minimizem os impactos negativos provocados
ao ambiente em função da disposição inadequada de resíduos. A solução para essa
problemática deve, necessariamente, passar pela hierarquia dos 3Rs: Reduzir, Reutilizar e
Reciclar. Uma vez esgotadas essas possibilidades, os denominados rejeitos devem ter um
destino que cause menos danos ao ambiente.
Atualmente, no Brasil, a principal alternativa ambientalmente correta e economicamente
viável para disposição de resíduos sólidos urbanos são os aterros sanitários. Trata-se de uma
tecnologia que demanda a seleção e o preparo de uma grande área para a disposição dos
resíduos de forma segura. Deve-se considerar que esse espaço será, por tempo
indeterminado, um local para armazenamento dos resíduos gerados, limitando o seu uso - e
do seu entorno - para outras finalidades. Uma vez ali depositados, os resíduos, em sua grande
maioria quimicamente compostos por diferentes cadeias de carbono, passarão por processos
de degradação em velocidades variáveis em função da sua composição. Nessas reações de
CAPÍTULO 2
11
degradação, a energia química presente nessas ligações vai sendo consumida, enquanto
gases geradores de efeito estufa são produzidos, contribuindo para a intensificação das
mudanças climáticas.
Um fator agravante é que os aterros possuem uma vida útil curta, quando comparada
ao volume de resíduos gerados anualmente, o qual tende a aumentar com o desenvolvimento
econômico e com o crescimento populacional. Dessa forma, as administrações municipais –
especialmente das grandes metrópoles – devem investir em novas soluções para a gestão dos
seus resíduos. A implantação da hierarquia dos 3Rs contribui para o aumento dessa vida útil,
uma vez que apenas os rejeitos são depositados nos aterros. Porém, esses materiais ainda
representam um grande volume e demandam um longo tempo para sua decomposição e
estabilização.
Nesse sentido, as tecnologias de recuperação energética são alternativas que
propiciam o tratamento dos resíduos antes da sua disposição final, ao mesmo tempo em que
contribuem para a diversificação da matriz energética, aproveitando a energia química presente
em sua composição. O uso dessas tecnologias promove uma estabilização dos rejeitos e a
redução do volume destinado aos aterros sanitários.
De acordo com a composição física e química dos resíduos, a recuperação energética
pode se dar a partir de processos bioquímicos e/ou termoquímicos. Nos processos
bioquímicos, a ação de microrganismos sobre a fração biodegradável, em condições de
ausência de oxigênio atmosférico, resulta na produção do biogás, um gás combustível
composto majoritariamente por dióxido de carbono e metano. Os processos termoquímicos,
por sua vez, permitem o aproveitamento da energia térmica liberada durante a combustão
(oxidação completa) das diferentes frações que compõem esses resíduos, ou ainda por meio
de reações de oxidação incompletas ou degradação térmica, a produção de combustíveis
sólidos, líquidos e gasosos com alto potencial energético.
A escolha do processo de recuperação energética mais adequado e o correto
dimensionamento do sistema dependem fundamentalmente das propriedades físicas e
químicas dos resíduos, as quais são heterogêneas e variáveis em função das características
de quem o produz. Dentro de um município, a composição dos resíduos pode variar inclusive
entre as regiões de acordo com a sua atividade principal (comercial, industrial ou residencial),
a época do ano (sazonalidade) e com as características da população local, tais como
densidade habitacional, nível educacional, situação econômica e seus hábitos e costumes.
CAPÍTULO 2
12
Dadas essas condições, constata-se que as características dos resíduos variam de
uma região para outra, o que impede a utilização de dados médios globais para os cálculos e
estimativas dos sistemas de recuperação energética. No projeto desses sistemas, é
fundamental o conhecimento das propriedades físicas e químicas dos resíduos locais. Para tal,
é indispensável a obtenção de amostras que sejam estatisticamente representativas desses
resíduos. A determinaçãoda composição física e química dos resíduos é realizada a partir de
análises laboratoriais dessas amostras.
Propriedades como umidade, composição imediata (carbono fixo, sólidos voláteis e
cinzas), composição elementar (teores de C, H, N, S e O) e poder calorífico inferior e superior
(PCI e PCS) permitem estimar o potencial teórico dos resíduos em processos termoquímicos
de aproveitamento energético. Por outro lado, o conhecimento da umidade, sólidos voláteis e
fixos, composição elementar e composição centesimal (teores de proteínas, gorduras, fibras e
carboidratos) da fração orgânica dos resíduos possibilita a avaliação do seu potencial de
produção de metano em sistemas de biodigestão anaeróbia.
O primeiro passo para possibilitar essa avaliação é a obtenção de uma amostra
representativa e a determinação da sua composição gravimétrica, que permite dividir os RSU,
altamente heterogêneos, em frações com composições mais homogêneas, tais como:
orgânicos, sanitários, plásticos, têxteis, papel e papelão e inertes (vidro, metal, eletrônicos e
outros).
Neste capítulo, são discutidas e apresentadas as metodologias para obtenção de
amostras representativas de resíduos sólidos urbanos, com o objetivo de caracterizá-las com
vistas ao seu aproveitamento energético por meio de processos bioquímicos e termoquímicos.
São apresentadas também as principais propriedades físicas e químicas que devem ser
avaliadas para o dimensionamento dos sistemas de aproveitamento energético, bem como as
metodologias disponíveis para essas análises. Todos os métodos apresentados são
exemplificados a partir de dados reais coletados pelos autores em um estudo de caso
realizados em um município do Estado de São Paulo – Santo André.
2.2 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS
2.2.1 Definição e Classificação
De um modo geral, conceituar resíduos sólidos urbanos não é uma tarefa fácil, pois sua
composição varia de acordo com as características de quem o produz e de onde ele é gerado,
CAPÍTULO 2
13
como classe social, localização geográfica e sazonalidade. Ainda assim, é possível tratá-los
como um material heterogêneo, composto por resíduos domésticos, comerciais, industriais, de
atividades públicas, de serviço da saúde e serviço da construção e demolição. A Associação
Brasileira de Normas Técnicas define resíduos sólidos como (ABNT, 2004a):
[...] resíduos nos estados sólido e semi-sólido, que resultam de
atividade de origem industrial, doméstica, comercial, agrícola, de
serviços e de varrição. Ficam incluídos nesta definição os lodos
provenientes dos sistemas de tratamento de água, aqueles gerados
em equipamentos e instalações de controle de poluição, bem como
determinados líquidos cujas particularidades tornem inviável o
lançamento na rede pública de esgotos ou corpos de água, ou
exijam, para isso, soluções técnicas e economicamente inviáveis
face à melhor tecnologia disponível (ABNT NBR 10004, 2004a, p.1)
Os resíduos sólidos, conforme a mesma norma, podem ser classificados de acordo com
sua periculosidade, ou seja (ABNT, 2004a):
⮚ Resíduos Classe I: são considerados resíduos perigosos, pois apresentam
riscos à saúde pública e ao ambiente. Para se enquadrarem nessa
categoria, devem possuir uma ou mais características dentre:
inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e patogenicidade.
Essas características são avaliadas a partir de uma amostra representativa,
seguindo as normas da ABNT, NBR 10007.
⮚ Resíduos Classe II: considerados resíduos não perigosos, são subdivididos
em:
✔ Resíduos Classe II A: resíduos considerados não inertes. São todos
aqueles que não se enquadram na classificação de Resíduos Classe
I, nem na classificação de Resíduos Classe II B (inertes). Apresentam
propriedades como: biodegradabilidade, combustibilidade ou
solubilidade em água;
✔ Resíduos Classe II B: resíduos considerados inertes, ou seja, todos
aqueles que, quando amostrados de uma forma representativa, de
acordo com a norma ABNT, NBR 10007, e submetidos a um contato
dinâmico e estático com água destilada, não tiverem nenhum de seus
constituintes solubilizados a concentrações superiores aos padrões
CAPÍTULO 2
14
de potabilidade de água, executando-se aspecto, cor, turbidez dureza
e sabor.
De acordo com a norma ABNT NBR 16849 (2020) resíduos sólidos urbanos são:
“resíduos originários de atividades domésticas em residências urbanas, como varrição, limpeza
de logradouros e vias públicas, e outros serviços de limpeza urbana, de estabelecimento
comerciais e de prestação de serviços” (ABNT NBR 16849, 2020, pg.6).
A Lei nº 12.305/10, em seu artigo 3º, parágrafos XV e XVI, define:
Rejeitos: resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as
possibilidades de tratamento e recuperação por processos
tecnológicos disponíveis e economicamente viáveis, não
apresentem outra possibilidade que não a disposição final
ambientalmente adequada;
Resíduos sólidos: material, substância, objeto ou bem
descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja
destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado
a proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases
contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem
inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos
d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente
inviáveis em face da melhor tecnologia disponível (BRASIL, 2010,
Art. 3º, Parágrafos XV e XVI)
Segundo a Lei Estadual do Estado de São Paulo, Lei Número 12.300/2006 (SÃO
PAULO, 2009), que institui a Política Estadual de Resíduos Sólidos e define princípios e
diretrizes, objetivos, instrumentos para a gestão integrada e compartilhada de resíduos sólidos,
no Estado de São Paulo, os RSU são os provenientes de residências, estabelecimentos
comerciais e de prestação de serviços da varrição, de podas e da limpeza de vias, logradouros
públicos, sistemas de drenagem urbana, passíveis de contratação ou delegação particular, de
acordo com a lei municipal.
Ademais, cabe ressaltar a diferença entre resíduos úmidos e resíduos secos,
conforme destacado na Figura 2.1:
CAPÍTULO 2
15
Figura 2.1. Definição de Resíduos Úmidos e Resíduos Secos
Fonte: Elaborado pelos autores
Sob condições ideais de procedimentos de coleta seletiva, os resíduos úmidos
deveriam ser compostos, quase em sua totalidade, por restos de comida e material sanitário,
além dos rejeitos de outras categorias que não podem ser reaproveitados e nem reciclados.
No entanto, em situações em que esses processos ainda não são bem estabelecidos, os
resíduos úmidos são compostos por uma mistura heterogênea das diferentes frações que
compõem os RSU: orgânicos, sanitários, plásticos, papéis, têxteis, borracha e metais, dentre
outros.
2.2.2 Resíduos Sólidos Urbanos como fonte de energia
A geração de resíduos está diretamente associada ao desenvolvimento econômico e
não apenas ao crescimento populacional. Com isso, em países de economia capitalista, nos
quais se observa um constante desenvolvimento tecnológico e aumento do consumo, a correta
destinação dos resíduos gerados é um problema iminente, que necessita de uma solução em
curto prazo.
Paralelamente, o crescimento econômico está também associado a um aumento na
demanda energética. A matriz elétrica brasileira, embora seja majoritariamente renovável, é
composta em mais de 66% pela energia de origem hídrica (Figura 2.2), uma fonte altamente
dependente das condições climáticas e cujo crescimento da oferta está limitado à
disponibilidade de recursos naturais. Uma matriz energética diversificada e descentralizada,
composta em sua maioria por fontes renováveis, é uma das soluções para atender à crescente
demanda energética, evitando a susceptibilidade do sistema aos possíveis apagões.
CAPÍTULO 2
16
Figura 2.2 - Matriz Elétrica Brasileira em 2020,segundo dados do Balanço Energético
Nacional (2021)
Fonte: BALANÇO ENERGÉTICO NACIONAL (BEN),(2021)
Dentre as fontes renováveis de energia, os resíduos sólidos urbanos têm uma
perspectiva promissora, uma vez que são produzidos de forma constante e em abundância. O
uso de resíduos sólidos em processos de conversão energética pode contribuir de uma forma
notável com o aumento das fontes renováveis de energia na matriz elétrica brasileira devido ao
poder calorífico dos combustíveis derivados e ao passivo ambiental minimizado, seja por meio
de processos termoquímicos ou bioquímicos. Em diversos países desenvolvidos, o
aproveitamento energético de resíduos já é uma realidade há muito tempo. Globalmente,
existem mais de 2.000 plantas de tratamento térmico, das quais mais de 80% estão localizadas
em países desenvolvidos, liderados pelo Japão, França, Alemanha e Estados Unidos. Por outro
lado, na América Latina e no Caribe, as únicas plantas de tratamento térmico estão localizadas
em território sob jurisdição europeia (KALOGIROU, 2017).
De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS (BRASIL, 2010),
instituída no ano de 2010, o Brasil deve seguir uma sequência de prioridade na gestão e
gerenciamento de resíduos sólidos: não geração, redução, reutilização, reciclagem e
tratamento dos resíduos e, por fim, a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.
As diretrizes da PNRS foram instituídas no sentido de reduzir a geração de lixo na origem,
incentivando programas de educação ambiental, seguindo os moldes da legislação europeia.
CAPÍTULO 2
17
Essas ações, somadas à imposição de encargos e impostos aos geradores de
resíduos em grande escala e ao aumento do estímulo e incentivo à reciclagem, constituem uma
proposta que irá atuar no sentido de estabelecer os processos de coleta seletiva de forma
efetiva e reduzir o volume de resíduos diariamente depositados em aterros. Adicionalmente,
além de priorizar e incentivar a reciclagem, faz-se necessário implementar iniciativas para o
tratamento da fração orgânica e dos rejeitos, antes de sua disposição final. Nesse sentido, os
processos de conversão energética pelas rotas bioquímica e termoquímica permitem,
simultaneamente, recuperar a energia contida nos resíduos e reduzir o volume destinado aos
aterros sanitários. Entretanto, para atingir esse nível de aproveitamento, como se vê no Japão
e nos países mais desenvolvidos da comunidade europeia, é necessário realizar uma série de
processos de caracterização e padronização dos resíduos sólidos, para posteriormente aplicá-
los no desenho e uso de unidades de recuperação energética.
2.3 COMPOSIÇÃO GRAVIMÉTRICA DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS
2.3.1 Conceito de composição gravimétrica
Os resíduos sólidos urbanos são constituídos por uma mistura heterogênea de
diferentes materiais com composições físicas e químicas variadas. A definição da composição
gravimétrica dos RSU tem como objetivo conhecer a representatividade das diversas
categorias que os compõem. Essas categorias, por sua vez, devem ser constituídas por
materiais que possuam composição homogênea entre si. Dessa forma, pode-se definir
composição gravimétrica como o percentual, em massa, das diferentes frações que compõem
os resíduos sólidos urbanos.
A definição das categorias ou frações das quais a composição gravimétrica será
constituída depende do objetivo da análise e do tipo de resíduo que se deseja avaliar. De modo
geral, é feita uma caracterização prévia dos resíduos, como forma de verificar o tipo de
atividade da qual eles são resultantes, ou seja, se foram gerados por atividades residenciais,
comerciais, da área da saúde, de coleta seletiva ou indiferenciada, entre outras (NBR 10007,
2004b; ASTM, 1992; MODECOMTM, 1994).
As frações a serem separadas podem levar em consideração alguns critérios tais
como: semelhança entre as propriedades físicas e químicas (ASTM, 1992); separação entre
resíduos combustíveis e não combustíveis (NORDTEST, 1995); categorização por tipo de
resíduo, que pode ser classificado como orgânico (não reciclável) ou inorgânico (passíveis de
CAPÍTULO 2
18
serem reciclados, porém descartados de forma indiferenciada); classificação por tamanho ou
granulometria (MODECOMTM, 1994; SWA TOOL, 2004; Portaria nº 851, 2009).
As definições de composição gravimétrica, frações e categorias adotadas para fins
deste texto estão destacadas na Figura 2.3.
Figura 2.3. Definição de composição gravimétrica, frações e categorias de resíduos sólidos
urbanos
Fonte: Elaborado pelos autores
Essas classificações variam de localidade para localidade, sendo flexíveis por conta
das particularidades do sistema de coleta, gestão e tratamento existente em cada país, estado,
município e região onde os resíduos são gerados.
Usualmente, a composição gravimétrica é determinada com a finalidade de conhecer
a composição física dos resíduos e determinar as melhores ferramentas para gerenciamento e
implantação de sistemas de tratamento, coleta seletiva e indústrias de reciclagem. Quando
considerada essa finalidade, as principais frações nas quais os resíduos são classificados
estão destacadas na Figura 2.4.
CAPÍTULO 2
19
Figura 2.4. Principais categorias da composição gravimétrica de resíduos sólidos urbanos
Fonte: Elaborado pelos autores
No Brasil, para estudos comparativos da composição gravimétrica dos resíduos nas
diferentes localidades, é comum encontrar a divisão das frações tais como as representadas
na Tabela 2.1, na qual é apresentada a composição gravimétrica média dos resíduos brasileiros
no ano de 2012.
Tabela 2.1. Composição gravimétrica média dos RSU no Brasil
Frações % Participação Quantidade (ton/ano)
Material Orgânico 51,4 28.544.702
Plástico 13,5 7.497.149
Papel, Papelão e Tetra Pack® 13,1 7.275.012
Têxteis 3,1 1.721.568
Metais 2,9 1.610.499
Vidro 2,4 1.332.827
Outros 13,6 7.552.683
Total 100 55.534.440
Fonte: Adaptado de ABRELPE (2012) e GEOTECH (2013)
Entretanto, para regiões que já possuem sistemas de gestão de resíduos mais
avançados, com a coleta seletiva implantada e a indústria de reciclagem operando, é
CAPÍTULO 2
20
importante conhecer a composição gravimétrica de forma mais detalhada, pois são necessárias
informações que direcionem a tomada de decisão no momento da definição de novos
investimentos para melhoria dos processos. Como exemplo, observa-se, na Figura 2.5 as
categorias que são consideradas para análise gravimétrica do município de Santo André,
localizado na grande São Paulo/SP.
Figura 2.5. Categorias da composição gravimétrica dos RSU no município de Santo
André/SP
Fonte: Adaptado de GEOTECH (2013)
O conhecimento da composição gravimétrica em detalhes, como especificado na
Figura 2.5, fornece aos gestores informações, por exemplo, sobre os diferentes tipos de
CAPÍTULO 2
21
plásticos que compõem os resíduos do município, o que possibilita a busca pelas melhores
soluções para a reutilização e reciclagem desse material. Fornece, também, subsídios para o
melhor conhecimento dos hábitos de consumo da população e definição de estratégias para
as ações de conscientização e de educação ambiental.
Considerando-se a recuperação energética dos resíduos, é importante conhecer qual
a sua composição considerando-se elementos combustíveis e materiais inertes. Dentro das
categorias que podem ser consideradas como combustíveis, a fração orgânica dos resíduos
sólidos urbanos (FORSU) é biodegradável e, portanto, apresenta potencial para
aproveitamento em processos bioquímicos, como a biodigestão anaeróbia para produção do
biogás, e também em processos termoquímicos, apesar da sua elevada umidade. Por outro
lado, existem frações que, embora não sejam biodegradáveis, são quimicamente compostas
por cadeias de carbono e, portanto, possuem elevado potencial energético para processostermoquímicos. Nessa categoria, se enquadram materiais sanitários, têxteis, plásticos, madeira
e papel/papelão. As demais frações podem ser classificadas como inertes, pois não possuem
potencial energético associado – vidro, metais, resíduos tecnológicos, entulhos e outros.
Sendo assim, considerando-se a possibilidade de recuperação energética dos
resíduos, a composição gravimétrica deve ser avaliada em termos das categorias combustíveis
e inertes. Dentro das categorias combustíveis, é interessante separar os materiais em função
da sua composição, para haja maior homogeneidade para a avaliação das suas propriedades
físicas e químicas e proposição dos sistemas adequados para sua recuperação energética.
Dentro desse contexto, a composição gravimétrica dos resíduos pode ser avaliada conforme o
agrupamento em categorias apresentado na Figura 2.6.
Resíduos com diferentes composições irão requerer sistemas de tratamento distintos.
O conhecimento da composição e do potencial de conversão energética dos resíduos é
fundamental para facilitar a definição do melhor plano de gestão de resíduos a longo prazo, de
modo que seja efetivo e econômico. Esse conhecimento ajuda também na seleção e operação
dos equipamentos do sistema de aproveitamento energético, bem como no manuseio dos
resíduos e nos sistemas de tratamento de gases. Além disso, com essas informações, pode-
se determinar a viabilidade da instalação de usinas de conversão energética de resíduos
(CHANG; DÁVILA, 2006).
CAPÍTULO 2
22
Figura 2.6. Composição gravimétrica para avaliação do potencial energético de resíduos
sólidos urbanos
Fonte: Elaborado pelos autores
2.3.2 Variáveis de Influência
Resíduos sólidos urbanos são, por sua natureza, materiais com composição
heterogênea. A sua composição gravimétrica, portanto, também é diversificada e a sua
variabilidade é função de uma série de fatores. Dentre as principais variáveis de influência que
interferem na composição dos resíduos, destacam-se as apresentadas na Figura 2.7.
Embora seja fácil enumerar as variáveis que interferem na composição dos resíduos,
é difícil quantificar esse efeito. Entretanto, é importante conhecê-lo, pois regiões com hábitos e
características semelhantes podem apresentar resíduos com características similares, de
modo que podem ser adotadas políticas e sistemas de tratamento equivalentes. De modo
CAPÍTULO 2
23
contrário, propor soluções semelhantes para regiões que apresentem resíduos com
características distintas pode levar a resultados indesejáveis.
Figura 2.7. Variáveis de influência sobre a composição gravimétrica de resíduos sólidos
urbanos
Fonte: Elaborado pelos autores
No que se refere ao efeito das estações do ano e às condições socioeconômicas dos
geradores sobre a composição gravimétrica dos resíduos, diversos estudos foram realizados,
em diferentes municípios e regiões, em todo o mundo. Na análise feita por Aguilar-Virgen
(2013), em Ensenada (México) foram caracterizados os resíduos sólidos urbanos em duas
estações, levando em conta a estratificação socioeconômica dos habitantes da cidade.
Também se fez uma projeção da produção de biogás. De acordo com os resultados, os
resíduos eram compostos principalmente por sobras de alimentos (36,25%), papel e papelão
(21,85%), plástico (12,30%), resíduos sanitários (6,26%) e tecidos (6,28%). Nesta cidade, a
condição socioeconômica e a estação não tiveram efeito sobre a composição dos resíduos, ou
seja, a composição gravimétrica não mostrou variabilidade estatisticamente significativa com
essas variáveis. Entretanto, a máxima capacidade de geração de energia elétrica foi projetada
CAPÍTULO 2
24
em 1,90 MW para o ano 2019, sendo que a energia elétrica que poderia ser obtida usando o
biogás gerado no aterro sanitário equivaleria a 60% da energia necessária para iluminação
pública.
No estudo feito por Gomez et al. (2008), caracterizaram-se os resíduos sólidos
domésticos gerados pelos habitantes de Chihuahua (México). Foram comparados os
resultados obtidos em áreas da cidade com três diferentes níveis socioeconômicos. Para tal
efeito, foram coletadas 560 amostras de resíduos sólidos durante uma semana, as quais se
classificaram em 15 frações. A geração média de resíduos foi de 0,676 kg per capita por dia
em abril de 2006, e as principais frações foram: orgânica (48%), papel (15%) e plástico (12%).
Os resultados, neste caso, evidenciaram um incremento na geração de resíduos associada ao
nível socioeconômico, sendo que aquele de maior poder aquisitivo foi o que apresentou maior
geração de orgânicos e papel, enquanto a classe média foi a que mais gerou alumínio.
Entretanto, de acordo com os autores, essa diferença não foi estatisticamente significativa.
No ano 2009, o mesmo grupo de pesquisa apresentou um trabalho com enfoque mais
aprofundado na influência da sazonalidade (inverno, verão e primavera) e dos níveis
socioeconômicos (três níveis) na composição dos resíduos sólidos gerados em Chihuahua. Os
autores concluíram que os grupos com um nível de renda menor geraram uma menor
quantidade de resíduos e o inverno foi a estação com menor geração. A composição dos
resíduos domésticos, por sua vez, não sofreu alterações significativas: matéria orgânica (45%),
seguido de papel (17%) e outros materiais (16%) (GÓMEZ et al., 2009).
2.4 AMOSTRAGEM – COMO COLETAR AMOSTRAS REPRESENTATIVAS DA POPULAÇÃO
Em muitas situações deseja-se definir propriedades ou coletar informações sobre uma
população. Entretanto, nem sempre é viável – seja em termos técnicos ou econômicos –
realizar a análise de cada um dos elementos que a compõem. Nesses casos, para que se
obtenha dados confiáveis, que possam ser considerados representativos da população, deve-
se fazer uso do procedimento estatístico denominado amostragem.
A amostragem é o mecanismo utilizado quando se deseja fazer generalizações sobre
todo um grupo, sem que, para isso, seja necessário analisar cada um de seus elementos.
Nesse processo, uma parte dos elementos (amostra) é selecionada, analisada e as
propriedades são inferidas para o todo (população) (MORETTIN; BUSSAB, 2010).
Stevenson (2001) define a amostragem estatística como o ato de fazer experimentações
utilizando métodos formais e precisos, incluindo uma informação probabilística. Segundo
CAPÍTULO 2
25
Bolfarine e Bussab (2005), a amostragem é uma teoria fundamentada em diversos conceitos e
termos técnicos e tem por objetivo estruturar o processo de seleção de amostras.
No caso dos resíduos sólidos urbanos, tem-se uma população heterogênea, cuja
composição depende de uma série de variáveis. Na maior parte dos casos, o processo de
amostragem é realizado com o objetivo de coletar uma quantidade representativa dos resíduos
visando determinar suas características quanto à classificação e métodos de tratamento (ABNT
NBR 10007, 2004b).
Considerando-se a heterogeneidade dos RSU e a sua variabilidade em função dos
fatores de influência, o processo de amostragem é uma ferramenta fundamental para garantir
a representatividade da população. Para a elaboração de um plano de amostragem, são
necessárias análises prévias sobre a população da qual serão retiradas as amostras de
resíduos, considerando-se os fatores ilustrados na Figura 2.8 (SWA TOOL, 2004).
Além disso, alguns aspectos importantes da amostragem devem ser levados em
consideração, tais como: área, data, período e local de coleta (NORDTEST, 1995).
Os métodos para a obtenção de amostras são extremamente importantes e esses
procedimentos constituem-se em áreas específicas da estatística, tais como a amostragem e
o planejamento de experimentos. Os procedimentos científicos utilizados para a coleta de
dados amostrais podem ser subdivididos em: levantamentos amostrais, planejamento de
experimentos e levantamentos observacionais (MORETTIN; BUSSAB, 2010).
CAPÍTULO2
26
Figura 2.8. Fatores a serem considerados na análise da população para elaboração de um
plano de amostragem
Fonte: Adaptado de SWA TOOL (2004)
2.4.1 Tipos de Amostragem
Em inferência estatística, existem dois tipos básicos de amostragem: as probabilísticas
e não probabilísticas. As amostragens probabilísticas são descritas de tal modo que se conheça
a probabilidade de todas as combinações amostrais possíveis. A amostragem não
probabilística, por sua vez, é a amostragem feita de forma subjetiva ou por julgamento, em que
a variabilidade amostral não pode ser estabelecida com precisão (STEVENSON, 2001)
Para Bolfarine e Bussab (2005) e Fuller (2009), a amostragem probabilística é o
processo de selecionar elementos de uma população bem estabelecida utilizando um
Número de habitantes Número de famílias
Tipos de residências
(casas térreas,
apartamentos,
condomínios)
Renda per capita
Atividade econômica
que gera o resíduo
(comercial, residencial
e industrial)
Total de resíduo
gerado
Total de resíduo
coletado
Rotas de coleta
percorridas pelos
caminhões
Tipo de veículos de
coleta (compactador,
ou não)
Destinação dos
resíduos
Dentre outros que
forem pertinentes de
acordo com o país,
estado ou munícipio
de coleta
CAPÍTULO 2
27
procedimento que atribui a cada elemento da população uma probabilidade de inclusão na
amostra que seja calculável e diferente de zero.
A amostragem probabilística pode ser subdividida em: (i) amostragem aleatória simples
(com ou sem reposição); (ii) amostragem estratificada (uniforme ou proporcional); e, (iii)
amostragem sistemática ou amostragem por conglomerados. A amostragem não probabilística,
por sua vez, pode ser dividida em: (i) amostragem por julgamento (intencional); e, (ii)
amostragem por conveniência. Na área de resíduos sólidos, o processo de amostragem deve
seguir um destes tipos de amostragem ou uma combinação deles.
Em processos que visam caracterizar os resíduos sólidos para o projeto de sistemas de
recuperação energética, a amostragem com embasamento estatístico é fundamental. É ela que
garante a uniformização e reprodutibilidade do processo, permitindo a confiabilidade dos dados
e análises posteriores, essenciais para o dimensionamento dos sistemas e garantia da sua
eficiência.
2.4.2 Parâmetros para a determinação do tamanho de amostras
A determinação do tamanho da amostra é fundamental em um planejamento amostral,
pois, à medida que o erro padrão do estimador decresce, o número de amostras tende a
crescer. Amostras muito grandes podem resultar em custos e tempos de análise
demasiadamente elevados, ao passo que amostras muito pequenas podem não fornecer as
informações necessárias para que as conclusões sejam confiáveis (BOLFARINE; BUSSAB,
2005).
O tamanho da amostra não é um número único nem exato que deva ser seguido como
padrão, mas sim um valor suficientemente representativo para que se estimem os parâmetros
da população com a precisão desejada, o que depende do objetivo da pesquisa. Além disso,
segundo Stevenson (2001), quando a população é conhecida, o tamanho da amostra pode ser
reduzido. Por outro lado, quanto maior ele for, mais representativa ela se torna.
Os parâmetros relacionados ao tamanho da amostra estão diretamente relacionados ao
nível de confiança e à precisão desejados (ou margem de erro). Os valores desses parâmetros
dependem do nível de assertividade que se deseja alcançar.
O erro para um intervalo de estimação representa o desvio (diferença) entre a média
amostral e a média a ser estimada, a média populacional. Como o intervalo de confiança tem
centro na média amostral, o erro máximo provável é igual à metade da amplitude do intervalo.
CAPÍTULO 2
28
A margem de erro também pode ser definida como o valor que o pesquisador está
disposto aceitar errar na estimativa de um parâmetro da população. Normalmente, quanto
menor o erro amostral escolhido, maior será o tamanho da amostra necessário para obtê-lo.
Assim como o tamanho da amostra, a margem de erro não possui um valor fixo.
Como o tamanho da amostra, o intervalo de confiança e o erro amostral estão
diretamente relacionados e a alteração de qualquer um deles implica na alteração dos outros
dois. Essa relação está explicitada na Equação 2.1 (STEVENSON, 2001):
𝒏 = ( 𝒁𝜶 ×
𝒔𝒙
𝜺
)
𝟐
(2. 1)
Em que 𝑛 = tamanho da amostra; 𝑠𝑥 = Desvio padrão; 𝜀 = Erro amostral e 𝑍𝛼 = Nível
de confiança utilizando a distribuição normal.
Existem várias derivações de equações para a determinação do tamanho da amostra,
sendo que a sua utilização está relacionada à disponibilidade de acesso às informações
necessárias para a sua aplicação. A Equação 2.1 permite estimar o tamanho de amostras
quando o tamanho da população é desconhecido ou não pode ser definido ou ainda quando é
infinito. Quando o tamanho da população é conhecido, entretanto, pode-se utilizar a Equação
2.2 (STEVENSON, 2001):
𝒏 =
𝑵×𝒔𝟐×(𝒛𝜶)
𝟐
(𝑵−𝟏)×𝜺𝟐+𝒔𝟐×(𝒛𝜶)𝟐
(2. 2)
Em que 𝑁 = Tamanho da população; 𝑛 = tamanho da amostra; 𝑠 = Desvio padrão;
𝜀 = Erro amostral e 𝑍𝛼 = Nível de confiança utilizando a distribuição normal.
No que se refere à amostragem de resíduos sólidos urbanos, no Brasil, a norma utilizada
é a ABNT NBR 10007 (2004), porém, ela não trata da questão de representatividade estatística,
ou seja, não indica o tamanho da amostra necessário para representar a população de resíduos
de determinada região, nem os parâmetros utilizados para o seu cálculo.
No ano de 2020, a Associação Brasileira de Normas Técnicas publicou uma norma
específica sobre a recuperação energética de resíduos, a ABNT NBR 16849 (2020). Essa
norma estabelece que há a necessidade de um plano de amostragem que atenda à seguinte
CAPÍTULO 2
29
frequência mínima, sendo que não podem ser utilizados resultados com lotes encerrados há
mais de 12 meses:
a) até que se obtenham 10 resultados de caracterização dos teores
de poder calorífico inferior (PCI), cloro e mercúrio do lote de
resíduos sólidos urbanos para fins energéticos (RSUE): uma análise
de amostra representativa do RSUE a cada 500 t ou uma por dia (o
que for maior);
b) após a obtenção de 10 resultados: no mínimo uma análise de
amostra representativa do RSUE a cada produção que corresponda
à produção média de RSUE de uma por mês.
(ABNT NBR 16849, 2020, Anexo C)
No que se refere ao plano de amostragem, a NBR 16849 cita a NBR 10007 como
referência e estabelece o intervalo de confiança de 95% para o cálculo das médias e limites.
No entanto, a norma não apresenta indicações sobre a metodologia estatística de amostragem
nem se aprofunda em informações sobre o tamanho da amostra. A norma se limita ao
parâmetro estatístico do nível de confiabilidade, sem fornecer informações sobre os
procedimentos mínimos necessários em sua determinação.
As normas internacionais para a determinação do tamanho de amostras em resíduos
sólidos são, em geral, mais específicas quanto aos parâmetros estatísticos. As recomendações
mínimas estão sintetizadas na Tabela 2.2.
Tabela 2.2. Parâmetros estatísticos mínimos indicados por normas internacionais para
determinação do tamanho de amostras de resíduos sólidos urbanos
Norma
Erro
amostral
Nível de
confiança
Observações adicionais
ASTM (1992) 10% 90 – 95% -
NORDTEST (1995) 10% 90 – 95% -
EPA (1998)
Determinado
por
simulações
90 – 95%
O padrão de entrada para
determinação de amostras é
o nível de confiança
MODECOMTM (1994) Não indica Não indica
Determinação proporcional à
população: 10 amostras a
cada 200 mil habitantes
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 2
30
2.4.3 Coleta de amostras, registro de dados e duração do período de amostragemUma metodologia de amostragem e caracterização de resíduos pode incluir a avaliação
prévia do material a ser amostrado, bem como do local onde ocorre a sua disposição e a forma
como isso ocorre, por meio de estudos de campo (TCHOBANOGLOUS; THEISEN; VIGIL,
1993). É requerido que seja feito um registro da localização e estado do material a ser
amostrado.
A metodologia de coleta das amostras deve ser definida de forma que o material
represente estatisticamente a população que se deseja caracterizar. Deve-se, portanto, na
definição dessa metodologia, considerar os conceitos estatísticos de acordo com a precisão e
o nível de confiança desejados. Nessa definição, deve-se também considerar as variáveis
independentes que interferem nas respostas a serem avaliadas.
A duração do período de amostragem é um aspecto importante para se definir na
metodologia de caracterização e análise de resíduos. Considerando-se a variação das suas
propriedades em função da época do ano, dos aspectos ambientais, culturais,
socioeconômicos e políticos, recomenda-se que a amostragem seja realizada ao longo do ano,
contemplando as épocas secas (outono e inverno) e épocas úmidas (primavera e verão),
evitando períodos excepcionais como férias, feriados e datas comemorativas.
O período de amostragem para análise de dados dos resíduos e o seu comportamento
ao longo do tempo está relacionado ao tamanho da amostra pré-definida no planejamento
amostral e à viabilidade de execução.
No Brasil, a norma ABNT NBR 10007 (2004b), que trata da amostragem de resíduos
sólidos, não faz referência ao período de amostragem. A norma ABNT NBR 16849 (2020), que
trata dos resíduos sólidos urbanos para fins energéticos, ao mencionar o plano de amostragem,
especifica que ele deve:
(...) estabelecer definições e requisitos como a metodologia de
amostragem, quantidade de RSUE preparada (por período, unidade
de tempo, lote ou outro critério), efeitos da sazonalidade etc., de tal
forma que se assegure a rastreabilidade e a representatividade dos
resultados de análise para classificação dos lotes de RSUE (ABNT
NBR 16849, 2020, Anexo C).
CAPÍTULO 2
31
As normas brasileiras não estabelecem a metodologias nem fornecem indicações sobre
como os períodos de amostragem devem ser estabelecidos. Algumas normas internacionais,
por sua vez, emitem recomendações referentes a esse período. Essas recomendações estão
sintetizadas no Quadro 2.1.
Quadro 2.1 Recomendações sobre os tempos de amostragem indicados por normas
internacionais para resíduos sólidos urbanos
Norma Recomendações sobre tempos de amostragem
ASTM (1992) A campanha deve ocorrer no período mínimo de uma semana
NORDTEST (1995)
O período de amostragem deve ocorrer entre uma e duas
semanas.
Para a verificação das variações sazonais, a norma recomenda
que a repetição da campanha e análise desses períodos seja
feita de acordo com o objetivo da pesquisa.
Esse procedimento pode ser repetido várias vezes ao ano,
porém, é necessário garantir que sejam amostrados os mesmos
caminhões oriundos das mesmas localidades para a detecção
dos efeitos sazonais
Portugal
Decreto de lei Nº
178/2006
Portaria 851/2009
As campanhas de caracterização gravimétrica devem ocorrer em
dois períodos no ano, um no Outono-Inverno, outro na Primavera-
Verão
MODECOMTM (1994)
Recomenda um período de amostragem por estação do ano, com
exceção de períodos atípicos (férias)
Fonte: Elaborado pelos autores
2.4.4 Metodologia de amostragem para análise da composição gravimétrica
A definição do tamanho da amostra e do período de coleta não é suficiente para garantia
da sua representatividade. Uma vez definidos esses parâmetros, é necessário estabelecer uma
metodologia para o procedimento de amostragem visando à determinação da composição
gravimétrica, o qual, por sua vez, deve considerar a heterogeneidade dos resíduos sólidos
urbanos.
Não existe, na literatura, a definição de um procedimento único para essa amostragem.
No Brasil, como mencionado anteriormente, as normas vigentes são a NBR 10007 da ABNT
(2004b), que trata da amostragem de RSU, e a ABNT NBR 16849 (2020), norma mais recente,
que trata do aproveitamento energético de resíduos por processos termoquímicos. Essas
CAPÍTULO 2
32
normas apresentam algumas diretrizes para o procedimento de amostragem, mas deixam
muitos pontos em aberto.
Internacionalmente, alguns países utilizam normas técnicas para gerir e tratar os
resíduos sólidos urbanos. Nos EUA, por exemplo, a norma utilizada é a ASTM - Método D 5231
(1992).
Com o objetivo de estabelecer um procedimento de amostragem para determinação da
composição gravimétrica de resíduos sólidos urbanos visando à avaliação do seu potencial
para recuperação energética, foi realizado um levantamento das normas e metodologias
nacionais e internacionais existentes, as quais estão listadas no Quadro 2.2.
Das normas analisadas, a ABNT (brasileira) trabalha com amostras pré-
homogeneizadas e a técnica do quarteamento. Trata-se de uma técnica para obtenção de uma
amostra homogênea e representativa, a partir de uma população que apresenta grande
volume. Essa técnica será descrita em maiores detalhes no Tópico 2.4.6.1. Das normas
internacionais, somente a US EPA, a ARGUS e a ModecomTM não definem se o método
utilizado para o preparo de amostras deve ser o quarteamento, as demais também utilizam
esse método para preparação.
Adicionalmente, realizou-se um levantamento e análise das metodologias nacionais e
internacionais adotadas em trabalhos científicos que determinaram a composição gravimétrica
dos resíduos sólidos em diferentes municípios, sendo 10 deles no Brasil e um em Portugal.
Para cada trabalho, identificaram-se as normas utilizadas como referência para a amostragem
e o objetivo da caracterização gravimétrica, as quais estão apresentadas no Quadro 2.2.
Dos trabalhos realizados no Brasil, ficou evidente a utilização da ABNT NBR 10007
(ABNT, 2004). Dos 11 trabalhos listados no Quadro 2.2, somente 3 (no caso, nacionais) não
utilizaram o método do quarteamento.
Uma análise das normas internacionais e dos trabalhos realizados evidenciou que
nenhuma das metodologias e normas estudadas, de forma individual, é totalmente aplicável à
situação dos resíduos sólidos brasileiros. Esse fato já era esperado, uma vez que cada país ou
região possui suas próprias especificidades. As normas brasileiras, por sua vez, são muito
superficiais na definição dos parâmetros estatísticos mínimos.
Diante do exposto, torna-se desejável a adaptação de metodologias internacionais à
realidade dos resíduos brasileiros, seja para a determinação do tamanho da amostra ou para
o método de preparo e coleta, de modo a garantir a obtenção de uma amostra representativa
CAPÍTULO 2
33
da população. A confiabilidade dos resultados de caracterização dos resíduos é fundamental
para o projeto e dimensionamento dos seus sistemas de tratamento, especialmente os de
recuperação energética. Entretanto, resultados representativos e confiáveis só serão
alcançados se houver um embasamento estatístico.
CAPÍTULO 2
34
Quadro 2.2. Normas e procedimentos nacionais e internacionais de amostragem de resíduos sólidos urbanos para
determinação da sua composição gravimétrica.
NORMA LOCAL TIPO DE RESÍDUOS COLETA
BASE
ESTATÍSTICA
NBR 10007
ABNT (2004b)
Brasil
Resíduos sólidos
urbanos
Indica a necessidade de um plano de amostragem e especifica que,
no caso de resíduos heterogêneos, em mais de uma amostra sejam
necessárias para caracterização, o método de amostragem e o
número de amostras serão definidos pelos órgãos estaduais ou
federais competentes.
Não mencionada
NBR 16849
ABNT (2020)
Brasil
Resíduos sólidos
urbanos para fins
energéticos (RSUE)
Indica a necessidade de um plano de amostragem que considere a
sazonalidade, dentre outros fatores. Indica uma frequênciade conversão energética, instalações
de potência baseadas em CDR no mundo e a situação atual no país onde ainda não há um
mercado estruturado para o aproveitamento do CDR.
O Cap. 4 apresenta os processos que ocorrem na alternativa de deposição de RSU em
um aterro sanitário e que levam à geração de biogás e sua a extração para utilizar a fração de
metano para a geração de eletricidade. O capítulo inicia apresentando a estrutura geral de um
aterro sanitário com as características necessárias para a proteção do meio ambiente. A seguir
aborda o processo de biodegradação ou biodigestão anaeróbia da fração orgânica que gera
eventualmente metano, segue com modelos matemáticos de previsão da geração de biogás e
metano, de perda de metano por oxidação e com programas computacionais encontrados na
iv
literatura especializada que permitem a estimativa da capacidade de geração de potência a
partir do aproveitamento do metano.
O capítulo também aborda o problema da fuga de metano dos aterros sanitários para o
meio ambiente que é um importante gás do efeito estufa e tem um potencial de aquecimento
global aproximadamente 21 vezes maior que o CO2. Quanto a isso, discutem-se
procedimentos para estimar taxas de oxidação de metano na cobertura do próprio aterro e
técnicas de monitoramento das emissões de metano na superfície do aterro para o meio
ambiente.
O Cap. 5 discute tecnologias específicas para o aproveitamento do biogás oriundo dos
RSU para a geração de energia elétrica antes de ser depositado em aterros sanitários. Em um
aterro sanitário o processo de biodegradação da fração orgânica ocorre naturalmente ao longo
de anos, entretanto, instalações podem ser construídas para acelerar esse processo por meio
da biodigestão anaeróbia e gerar metano em taxas mais elevadas, em menor tempo e,
concomitantemente, reduzir emissões de metano para o meio ambiente. Esse capítulo
apresenta os fundamentos microbiológicos da digestão anaeróbia, ressaltando seus principais
mecanismos e atores e os principais parâmetros bioquímicos e físicos envolvidos. Na
sequência são apresentadas as tecnologias de digestão anaeróbia comercialmente disponíveis
e tecnologias de limpeza e purificação do biogás. Ao final, apresenta-se a situação atual da
implantação dessas tecnologias em escala piloto, demonstrativa e comercial no Brasil.
O Cap. 6 apresenta as tecnologias utilizadas para o uso de gás de baixo poder calorífico
em comparação com o gás natural. O biogás produzido em aterros sanitários ou biodigestores
possui concentração de metano na faixa de 50 a 60 % em volume. O poder calorífico do biogás
está na faixa de 18 a 21,6 MJ/Nm3 ou cerca de 50 a 60 % daquele do gás natural, no qual o
metano predomina e, portanto, se caracteriza como um gás pobre. As tecnologias possíveis
para o uso do biogás são motores de combustão interna, turbinas a gás, ciclos combinados,
microturbinas, sistema a vapor, células a combustível e o ciclo Stirling, sendo as duas primeiras
as de maior penetração.
O uso final do biogás pode ser muito variado: aquecimento de ambiente e processos
industriais, injeção na rede de gás natural (biogás purificado), na evaporação do chorume, uso
veicular e geração de eletricidade. O capítulo foca na geração de eletricidade a partir do biogás,
apresenta as características dos equipamentos para este fim, detalhes de suas especificações
técnicas, requisitos de qualidade do gás a ser utilizado e aspectos de manutenção e operação
das instalações no Brasil que usam o biogás para geração de energia elétrica.
v
O Cap. 7 trata do problema de combustão dos resíduos sólidos urbanos em diversos
tipos de sistemas, processos também conhecidos como incineração de resíduos. Essa
tecnologia data da última década do século 19 e inicialmente visava basicamente reduzir o
volume de resíduo incinerando-o e transformando-o em gases emitidos para a atmosfera (sem
qualquer tratamento) e cinzas, esta segunda parte sendo depositada em aterros. As
tecnologias atuais se baseiam em conceitos de sustentabilidade em que se busca a geração
de energia (waste-to-energy, WTE) e prevê-se sistemas de tratamento de gases e controle da
poluição para evitar emissões de dioxinas, furanos e outros poluentes formados no processo
de incineração. Esses sistemas permitem o controle das emissões até valores mínimos
aceitáveis pela sociedade, ou emissões quase nulas, de forma robusta e confiável.
O capítulo apresenta também o histórico da evolução dos incineradores no Brasil e
segue com duas alternativas de processos de combustão completa: queima direta dos RSU
em caldeiras na forma como ele é recebido (mass burning) e queima de combustível derivado
de resíduos (CDR). Para cada uma das alternativas apresentam-se a visão geral das
instalações, as características das caldeiras, a capacidade das instalações, os parâmetros de
operação, os mecanismos e fatores que causam corrosão em caldeiras de RSU ou CDR. Essas
instalações são complexas com potências variando de dezenas de MW até mais que 100 MW
(elétricos ou térmicos).
O capítulo também descreve e discute os processos envolvidos na proteção da saúde
do público e do meio ambiente. Discutem-se os produtos da combustão, como os gases
passam por processos de limpeza antes de serem emitidos para a atmosfera e também como
ocorre a coleta e neutralização dos materiais particulados (cinzas) e outros poluentes. Emitem-
se para a atmosfera gases de exaustão dentro dos limites regulamentados para garantir a
saúde da população e não causar danos ao meio ambiente. O capítulo também discute as
vantagens e desvantagens do ponto de vista de sustentabilidade das alternativas de
incineração e deposição em aterros sanitários de RSU.
O Cap. 8 apresenta as tecnologias de conversão termoquímica de gaseificação e
pirólise. Inicia-se a discussão apresentando as diferenças entre esses dois processos e a
combustão completa que foi discutida no capítulo anterior. A diferença básica entre esses
processos está relacionada com a quantidade de oxidante envolvida, pois na combustão
completa ocorre a oxidação completa do resíduo e produz-se calor. No processo de
gaseificação há deficiência de oxigênio e tem como produtos diversos gases entre eles metano;
no processo de pirólise ocorre também deficiência de oxigênio e tem como produtos gases
vi
(metano), líquidos e carvão. Os gases gerados (metano, outros gases) e o carvão são
combustíveis que podem ser usados em diversos processos industriais ou de geração de
energia.
O capítulo apresenta uma discussão sobre os processos de gaseificação e pirólise
utilizados no mundo. O número de instalações de gaseificação em operação é bem maior que
o de pirólise. O principal produto dos sistemas de gaseificação é denominado gás de síntese e
é utilizado em instalações de potência com caldeiras em ciclos a vapor.
O Cap. 9 apresenta vários tipos de ciclos térmicos possíveis de serem utilizados para
a geração de potência a partir de RSU. Como já se viu, a variedade da composição do RSU
permite várias possibilidades e ele pode ser utilizado na forma como ele se apresenta, na forma
de biogás ou na forma de diferentes CDRs. Essa variedade, contudo, causa dificuldades nos
processos de conversão de energia. Neste capítulo apresentam-se possibilidades de geração
de potência a partir de ciclos de Rankine (incineração para produzir vapor), ciclos combinados
de biogás e queima de RSU e ciclos combinados baseados em fluidos de trabalho orgânicos
em ciclos Rankine e gás natural ou biogás. Apresentam-se também sistemas de cogeração no
qual gera-se potência térmica para aquecimento distrital e para geração de eletricidade,
múltiplos tipos de combustível, sistemas de gaseificação e pirólise e sistemas baseados em
células a combustível utilizando biogás. Discute-se também como contornar os efeitos
causados pela diferençamínima de
amostragem até que se obtenham 10 resultados de caracterização do
PCI e dos teores de Hg e Cl, sendo o que for maior entre uma análise
por dia ou 1 amostra representativa a cada 500 t.
Não mencionada
ASTM (1992) EUA Não processado
Campanha de coleta de no mínimo 5 dias, considerando a variação
sazonal.
Sim
US EPA (1992) EUA
Processado e não
processado
Campanha de coleta de 7 dias, considerando a variação sazonal. Sim
ERRA (1993) Europeia
Resíduos sólidos
urbanos
Campanha de coleta de 12 meses, considerando a variação sazonal e
excluindo períodos festivos.
Não mencionada
Argus (1998)
Alemanha
(Remecom)
Resíduos sólidos
urbanos
Campanha de 4 coletas, sendo 1 por estação do ano, considerando
variação sazonal.
Não mencionada
IBGE (1998)
Bélgica
(projeto
Remecom)
Resíduos sólidos
urbanos
Campanha engloba 2 coletas, sendo uma no outono e uma na
primavera, considerando variação sazonal.
Não mencionada
ModecomTM
(1998)
França
(projeto
Remecom)
Resíduos sólidos
urbanos
Campanha engloba 4 coletas, sendo 1 por estação do ano, ou cada
dois meses, considerando variação sazonal.
Não mencionada
EPA (1998)
Irlanda
(projeto
Remecom)
Resíduos sólidos
urbanos
A campanha de coleta é de 2 coletas em no mínimo 6 meses,
repetindo-se trimestralmente, considerando a variação sazonal.
Sim
CAPÍTULO 2
35
Quadro 2.2. Normas e procedimentos de amostragem para determinação da composição gravimétrica de resíduos sólidos
urbanos relatados em trabalhos nacionais realizados em diferentes localidades do país
Referência Local Normas Objetivo da análise Quarteamento
Drudi (2017)
Santo André
SP (Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004),
ModecomTM
Propor um modelo estatístico que permita prever o poder calorífico dos RSU a
partir de dados da composição gravimétrica e de dados experimentais de
umidade e de poder calorífico superior das frações combustíveis, além de definir
uma metodologia de amostragem estatística dos resíduos úmidos para
obtenção de dados significativos e representativos da composição gravimétrica
e do poder calorífico.
Sim
Campos, Borba e
Sartorel (2017)
Iomerê SC
(Brasil)
NBR 12809
ABNT
(1993)
Caracterização gravimétrica dos RSU com a perspectiva de influenciar as
autoridades do município a aprimorar a sua gestão, através da implantação de
um sistema de coleta seletiva.
Não
Alkmin e Ribeiro
Junior (2016)
Maria da Fé
MG (Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Determinar a composição gravimétrica dos RSU do lixão municipal, visando
levantar informações dos resíduos predominantes para projetos posteriores.
Sim
Galdino e Martins
(2015)
Mamborê
PR
ABNT
(2004),Mode
comTM
Determinar a composição física dos resíduos sólidos domiciliares visando
contribuir com informações relacionadas à quantidade de materiais
potencialmente recicláveis encaminhados ao aterro e para a elaboração do
Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRS).
Não
Moura Lima e
Archanjo (2012)
Itaúna MG
(Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Fornecer dados sobre a composição gravimétrica dos RSU permitindo o
conhecimento dos fatores que determinam a sua origem e formação.
Sim
Soares (2011)
Rio de
Janeiro
(Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Estudar o potencial energético dos RSU gerados em dois municípios do Rio de
Janeiro.
Sim
Alcantara (2010)
Cáceres MT
(Brasil)
Não
mencionado
Determinar a composição gravimétrica dos resíduos produzidos na cidade,
avaliar a fertilidade e determinar os teores de metais pesados no solo da área
do lixão.
Não
Pessin el al
(2006)
Canela RS
(Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Avaliar os fatores que determinam a origem e a formação de resíduos sólidos
em municípios turísticos.
Sim
Tabalipa e Fiori
(2006)
Pato Branco
PR (Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Caracterizar os resíduos que foram depositados no município. Sim
CAPÍTULO 2
36
Quadro 2.2. Normas e procedimentos de amostragem para determinação da composição gravimétrica de resíduos
sólidos urbanos relatados em trabalhos nacionais realizados em diferentes localidades do país (Continuação)
Referência Local Normas Objetivo da análise Quarteamento
Faria (2005)
Leopoldina
MG (Brasil)
NBR 10007
ABNT
(2004)
Analisar a prática da gestão de coleta dos RSU, bem como sua caracterização
mássica, propondo à administração local a implantação de um centro de
triagem, levando em consideração a quantidade de resíduos gerados e o
potencial de reciclagem.
Sim
Russo (2005)
Matosinhos
(Portugal)
ModecomTM
Aprofundar conhecimentos nos complexos mecanismos de estabilização de
resíduos em aterros de modo a contribuir para identificação de problemas
relacionados com sua concepção, operação e encerramento e estabelecer
metodologias para o controle do processo, envolvendo os procedimentos
operacionais e as técnicas analíticas mais adequadas ao efetivo controle dos
parâmetros operacionais.
Sim
CAPÍTULO 2
37
2.4.5 Planejamento de amostragem de resíduos sólidos urbanos para determinação
da sua composição gravimétrica
Neste tópico, apresenta-se uma proposta de planejamento para a amostragem de
resíduos sólidos urbanos com o objetivo de determinar a sua composição gravimétrica para
avaliação do potencial de recuperação energética. Essa etapa, essencial para garantir a
representatividade das amostras e a confiabilidade dos resultados, antecede o trabalho de
campo e é o ponto de partida para o seu planejamento.
O planejamento de amostragem proposto inclui diversas etapas fundamentais, as
quais serão apresentadas e discutidas, passo a passo. Elas estão descritas de forma sucinta
na Figura 2.9.
Figura 2.9. Etapas do planejamento de amostragem de resíduos sólidos urbanos para
determinação da sua composição gravimétrica
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 2
38
Essa proposta foi aplicada em um estudo de caso em Santo André, um município da
grande São Paulo, para a caracterização dos seus resíduos sólidos. A metodologia definida
neste trabalho possibilitou a padronização de um método para definir o tamanho de uma
amostra estatisticamente representativa dos resíduos gerados em um município, visando à
avaliação das suas propriedades físicas e químicas, de modo a permitir a definição do processo
de tratamento mais adequado para recuperação energética. O método utilizado pode ser
aplicado em outras regiões ou municípios, fazendo-se adaptações para as características
locais.
Acredita-se que o presente trabalho possa complementar a norma utilizada no Brasil
para amostragem de resíduos ABNT NBR 10007 (2004), no que diz respeito à uniformização
da determinação da quantidade mínima necessária a ser coletada de forma representativa,
podendo mostrar um retrato real e padronizado do tipo de resíduo que é gerado no país.
2.4.5.1 Caracterização do Objeto de Estudo
Nessa fase, entende-se por objeto de estudo os geradores dos resíduos sólidos urbanos
que se deseja caracterizar. Deseja-se identificar o grupo gerador e levantar as informações
relacionadas aos processos de geração e gerenciamento dos resíduos. São levantadas
informações essenciais para que se defina a população estudada (no caso, os resíduos sólidos)
e, com isso, estabeleçam-se os parâmetros para o planejamento da amostragem.
Os estudos do processo de gerenciamento dos resíduos devem ser realizados com o
intuito de, a partir do conhecimento do sistema de coleta e da quantidade gerada nas diferentes
regiões dos municípios, definir o tamanho mínimo da amostra a ser coletada, considerando-se
os parâmetros estatísticos de erro e confiança desejáveis. Dentre as informações necessárias
sobre os geradores de resíduos, destacam-se as especificadas na Figura 2.10.
Dependendo do objetivo de estudo, se o efeito das variáveis de influência sobre as
características dos resíduos for considerado, as mesmas devem ser avaliadasnessa etapa.
Por exemplo, caso o estudo deseje avaliar o efeito de fatores socioeconômicos sobre as
propriedades dos resíduos, deve-se fazer esse levantamento de dados.
A título de exemplo, serão apresentados os resultados do estudo de caso realizado pelos
autores. Foi realizado um estudo de análise gravimétrica de resíduos sólidos urbanos no
município de Santo André - SP, cujo gerenciamento é de responsabilidade do Serviço Municipal
de Saneamento Ambiental de Santo André – SEMASA.
CAPÍTULO 2
39
Figura 2.10. Dados dos geradores de resíduos que devem ser determinados para definição
do tamanho de amostra
Fonte: Elaborado pelos autores
Objeto de Estudo: Município de Santo André/SP
Esse estudo foi realizado entre os anos de 2015 e 2016. No ano de 2015, o SEMASA
coletou cerca de 750 toneladas.dia-1 de resíduos e a população estimada no município de Santo
André era de 710.210 habitantes (IBGE, 2016).
A coleta foi realizada para 100% dos resíduos gerados, divididos em duas categorias:
resíduos úmidos e resíduos secos. No que se refere aos resíduos úmidos, além dos setores,
foram realizadas coletas específicas para a Companhia Regional de Abastecimento (CRAISA),
as feiras livres e os Núcleos Habitacionais (ORIUM, 2016).
No município de Santo André, para o sistema de coleta de resíduos úmidos, a área
municipal é dividida em 15 setores, em função das características geográficas e demográficas.
Para facilitar a logística de coleta, os setores foram divididos em um total de 56 subsetores,
1. Número de habitantes da
região estudada.
2. Quantidade de resíduos
gerada anualmente.
3. Sistema de gerenciamento
de resíduos adotado pelo
gestor da região estudada:
forma de coleta e disposição,
sistema de coleta seletiva.
4. Itinerário de coleta: deve-
se conhecer a forma como os
resíduos são coletados.
5. Dados de coleta:
informações sobre a coleta
dos resíduos gerados pelas
diferentes áreas que
compõem a região de estudo,
como dados da massa de
resíduos gerada.
6. Caracterização da região
de acordo com as atividades
exercidas: residencial,
comercial ou industrial.
CAPÍTULO 2
40
sendo que cada um deles foi representado por um veículo coletor (caminhão) de resíduos
úmidos indiferenciados. As informações estão sintetizadas na Tabela 2.3.
Tabela 2.3. Definições básicas sobre o sistema de gestão de resíduos do município de Santo
André
Termo Definição Quantidade
Setores
Delimitação geográfica do município que
contém mais de um bairro.
15
Subsetores
(Caminhões)
Subdivisão de um setor. Para efeitos
operacionais, é representado por um veículo
coletor de resíduo (caminhão).
56
Fonte: Elaborado pelos autores
Para este estudo, foram coletadas amostras dos resíduos úmidos originárias dos
subsetores, das feiras livres e da CRAISA. Adicionalmente, foram analisados também os
rejeitos das cooperativas de reciclagem instaladas no município, que compreendem a parcela
dos resíduos secos que são destinadas ao aterro sanitário e, portanto, são passíveis de
recuperação energética.
2.4.5.2 Parâmetros Estatísticos
Uma vez definidos e conhecidos os objetivos da pesquisa e o objeto de estudo, deve-
se iniciar a fase do planejamento amostral. Nessa etapa, são estabelecidos os parâmetros
estatísticos para a amostragem, os quais são utilizados na definição do tamanho da população
mínimo necessário para que se obtenha uma amostra representativa, dentro da confiabilidade
desejada.
Para a definição de uma metodologia de coleta de amostras de resíduos sólidos
urbanos que possa ser considerada como representativa do total coletado na região de estudo,
com validade estatística, propõe-se um planejamento amostral conforme a sequência descrita
no Quadro 2.3. Esse processo foi elaborado por Drudi (2017), com base no planejamento
amostral proposto por Bolfarine e Bussab (2005), e foi aplicado aos resíduos úmidos coletados
no município de Santo André.
A metodologia adotada e os principais resultados obtidos nessa fase foram descritos na
tese de Drudi (2017), na qual podem ser encontrados maiores detalhes das informações aqui
transcritas.
CAPÍTULO 2
41
A determinação do tamanho de amostras está intrinsecamente ligada à margem de erro
e ao nível de confiabilidade probabilística. Como o objetivo foi determinar um tamanho de
amostra que fosse representativo de uma população, Drudi (2017) considerou as variáveis
margem de erro e nível de confiabilidade com base em trabalhos já realizados na área do
problema em questão (MANN 2015; CHANG et al., 2007; ASTM,1992; Portaria 851/2009;
NORDTEST, 1992).
A partir de dados da literatura associada à caracterização de resíduos, verificou-se que
são utilizados valores de erro amostral entre 1% e 10% e níveis de confiança entre 90% e 99%
(CHANG et al., 2007; ASTM,1992; Portaria 851/2009; NORDTEST, 1992). Considerando-se
esses valores, foi possível simular algumas combinações entre os erros amostrais e níveis de
confiança encontrados na literatura para determinar a quantidade de amostras de resíduos
sólidos a serem coletadas.
CAPÍTULO 2
42
Quadro 2.3. Planejamento Amostral para resíduos
Planejamento Amostral para Resíduos Sólidos Urbanos
Tópicos Opções
Local Região: Município/ Estado/ Pais
Objetivo da
Pesquisa
Descrever o objetivo da pesquisa
Variáveis
Descrever as variáveis de interesse
Componentes Físicos
Componentes Químicos
Materiais combustíveis
Materiais não combustíveis
Umidade
Parâmetros
Determinar: parâmetros e estimadores
Poder Calorífico Superior (PCS) Regressão
Poder Calorífico Inferior (PCI) Regressão
Média da composição gravimétrica Pontual/ Intervalar
Unidade
elementar
Tipo de Resíduo:
Resíduo úmido (indiferenciado) Feiras livres
Resíduo seco (seletiva)
Cooperativas de Reciclagem
(Rejeitos)
Ecopontos
Unidade
amostral
Local de onde serão retiradas as amostras:
Resíduos de veículos coletores
Resíduos de dentro das residências
Resíduos de container fora das residências
Público-alvo
Locais físicos para a coleta de amostras:
Bairros Quarteirões
Quadras Subsetores
Casas
Sistema de
Referência
Banco de dados referente ao público-alvo:
Prefeituras Setor responsável por RSU
IBGE
Tipos de
Investigação
Tipo de pesquisa:
Levantamento de dados Planejamento de experimentos
CAPÍTULO 2
43
Quadro 2.3. Planejamento Amostral para resíduos (continuação)
Método de coleta
de dados
Como os dados serão levantados:
Instrumentos formalizados Verbalizada
Instrumentos não formalizados Observacional
Tipo de
amostragem
Classificação de amostras:
Probabilística
Simples
Estratificada
Com reposição
Sem reposição
Não probabilística
Intencional
Criteriosa
Determinação do
tamanho da
amostra
Equações para determinação do tamanho de amostras:
𝑛 =
𝑁 × 𝑠2 × (𝑍𝛼)
2
(𝑁 − 1) × 𝜀2 + 𝑠2 × (𝑍𝛼)
2
População finita
𝑛 = 𝑍𝛼
(𝑠𝑥)
2
(𝜀)2
População infinita
𝜀 (erro) Entre 1% e 10%
𝑍𝛼 (Nível de confiança)
Entre 90% e 99% (verificar valores
tabelados)
𝑁 = tamanho da população (Verificar público-alvo)
𝑠 = desvio padrão
(Obtido através de amostra piloto ou
da literatura)
Fonte: Drudi (2017)
Estudo de caso: Planejamento amostral para o município de Santo André
A etapa de planejamento amostral foi efetuada para a coleta de amostras dos resíduos
sólidos úmidos resultantes da coleta indiferenciada dos diferentes subsetores que compõem o
município de Santo André.
No caso dos resíduos de feiras livres, CRAISA e rejeitos das cooperativas de reciclagem
do município de Santo André, a heterogeneidade da fonte geradora não é tão grande como
para os resíduos úmidos coletados nos diferentes subsetores do município, de modo que o
planejamento amostral não foi aplicado. Para cada subsetor, a unidade amostral considerada
foi o caminhão coletor.CAPÍTULO 2
44
O cálculo do tamanho das amostras em função dos parâmetros estatísticos foi realizado
com base na Equação (2.2), indicada para os casos em que o tamanho da população é
conhecido. Foram simuladas algumas combinações entre erro amostral e nível de confiança
(STEVENSON, 2001). Os parâmetros estatísticos utilizados para os cálculos estão resumidos
na Tabela 2.4 e os resultados estão apresentados na Tabela 2.5. O critério adotado para
determinar o tamanho da população foi a área que é coberta por um mesmo caminhão coletor,
a qual é definida como subsetor.
Tabela 2.4. Parâmetros estatísticos utilizados para calcular o tamanho da amostra de
resíduos sólidos no estudo de caso aplicado ao município de Santo André
Parâmetro Estatístico Quantidade
Tamanho da população, em caminhões coletores 56
Desvio Padrãoa 0,5
Legenda: (a) Definido conforme dados de literatura (CHANG et al., 2007; MANN 2015;
BOLFARINE; BUSSAB, 2005).
Fonte: Drudi (2017)
Tabela 2.5. Simulação do tamanho de amostras para diferentes combinações de erros e
níveis de confiança
Nível de
confiança
0,90 0,95 0,99
Erro Tamanho de amostras
0,02 54 55 55
0,05 47 49 52
0,10 31 36 42
Fonte: Drudi, 2017
Após as simulações definiu-se o nível de confiança como 95% e o erro como 10%,
resultando em uma amostra de 36 veículos coletores (caminhões) de resíduos úmidos. Para a
definição dos parâmetros estatísticos, foram consideradas referências e normas internacionais
que tratam sobre o assunto, porém, deve-se também ponderar a viabilidade de execução, que
é determinada por fatores como tempo e recursos disponíveis para análise.
CAPÍTULO 2
45
2.4.5.3 Seleção das unidades amostrais
Esta etapa consiste em estabelecer a forma e os critérios para seleção das unidades
amostrais, considerando-se o tamanho da população, as informações sobre o objeto de estudo
relacionadas à unidade amostral e o tipo de amostragem desejável. Todas essas definições
estão relacionadas ao objetivo da pesquisa.
No estudo de caso realizado, as unidades amostrais consideradas foram os caminhões
que, por sua vez, representam regiões geradoras de resíduos dentro do município estudado.
O tipo de amostragem selecionado foi a aleatória simples e a seleção das unidades amostrais
a serem analisadas foi realizada por sorteio.
Com o objetivo de que, no processo de amostragem, fosse garantida a
proporcionalidade da representação das diferentes regiões no total de resíduos gerados nos
municípios, a cada caminhão coletor, atribuiu-se um peso proporcional à sua contribuição para
o total gerado no município, que foi considerado no sorteio. Dessa forma, a chance de um
determinado veículo coletor ser sorteado foi proporcional à quantidade de resíduos gerada pela
região por ele representada.
Para definição desses pesos, na fase de caracterização do objeto de estudo, a massa
de resíduos gerada pelas regiões representadas por cada caminhão (subsetores), em um
mesmo período, foi determinada.
A metodologia adotada para considerar a proporcionalidade de geração de resíduos por
região, no processo de seleção das unidades amostrais que foram coletadas, está resumida
no fluxograma apresentado na Figura 2.11.
CAPÍTULO 2
46
Figura 2.11. Fluxograma para seleção de amostras aleatoriamente
Fonte: Elaborado pelos autores
2.4.6 Trabalho de campo
Uma vez definido o plano de amostragem e realizado o sorteio das unidades amostrais
que foram analisadas, foi possível iniciar o trabalho de campo. Considerando o objetivo de
avaliar o potencial de recuperação energética dos resíduos, além da determinação da
composição gravimétrica, foram necessárias análises laboratoriais de caracterização das
amostras. Nesse contexto, a pesquisa de campo foi dividida em três etapas: amostragem,
análise gravimétrica e processamento e preparo de amostras para as análises laboratoriais,
conforme ilustra a Figura 2.12.
CAPÍTULO 2
47
Figura 2.12. Etapas do trabalho de campo para coleta e preparo de amostras de resíduos
sólidos úmidos do município de Santo André
Fonte: Elaborado pelos autores
Nos tópicos 2.4.6.1 a 2.4.6.3, o procedimento para realização de cada uma das etapas
será descrito de forma detalhada, utilizando como exemplo o estudo de caso das análises dos
resíduos sólidos urbanos do município de Santo André, realizado pelos autores. Os
procedimentos descritos nesse tópico se aplicam às amostras de resíduos úmidos (subsetores,
CRAISA e feiras livres). No caso dos resíduos secos (rejeitos das cooperativas de reciclagem),
os procedimentos adotados foram similares, sendo que as suas particularidades serão
ressaltadas ao longo do desenvolvimento do texto.
Os principais resultados obtidos nessa fase foram descritos na tese de Drudi (2017) e
nas dissertações de Silva (2016), Gutierrez Gomez (2016) e Marana (2017) para os resíduos
úmidos, e de Tiburcio (2018), para os resíduos secos. O trabalho de campo foi desenvolvido
no aterro municipal de Santo André, administrado pelo SEMASA, ao longo de 18 semanas no
período de setembro de 2015 a janeiro de 2016, seguindo o cronograma de coleta estabelecido
pela empresa contratada para realização das análises gravimétricas. Foram caracterizados os
resíduos úmidos (incluindo os das feiras livres e Central Regional de Abastecimento) e secos.
2.4.6.1 Amostragem
2.4.6.1.1 Resíduos Úmidos
A unidade amostral considerada para os resíduos úmidos são os caminhões coletores,
dos quais foram obtidas amostras de 400 litros, distribuídas em dois tambores de 200 litros
CAPÍTULO 2
48
cada um, a partir das quais foi realizada a análise da composição gravimétrica. Para a obtenção
de uma amostra representativa e homogênea, considerando-se a heterogeneidade dos
resíduos úmidos, foi adotado o quarteamento, como é recomendado pela NBR 10007 (ABNT,
2004b).
Para a amostragem, os resíduos de cada caminhão foram despejados em uma área
limpa e impermeável. Com o auxílio de uma pá carregadora, foi realizada a homogeneização
e o quarteamento dos resíduos, de forma sequencial, até que foi obtida uma pilha com
aproximadamente 2,5 toneladas de resíduos. Dessa pilha, com o auxílio de uma pá, foram
extraídas amostras de diferentes pontos – base, topo e centro – até o preenchimento de dois
tambores com 200 litros cada um.
Em função das características da região estudada, como a quantidade de resíduos
coletada, por exemplo, podem ser necessárias ou indicadas algumas pequenas adaptações ao
procedimento.
Para a amostragem dos resíduos úmidos do município de Santo André, devido ao
grande volume de resíduos gerado, a unidade amostral considerada foi de dois caminhões
coletores, o que equivale a aproximadamente 20 toneladas de resíduos. A metodologia de
amostragem dos resíduos de Santo André foi proposta e executada pela empresa contratada
para realizar a análise gravimétrica. O procedimento de amostragem adotado foi o descrito na
Figura 2.13.
As amostras coletadas, dispostas nos dois tambores de 200 litros, foram pesadas e
direcionadas para o processo de triagem para determinação da composição gravimétrica. A
separação foi realizada manualmente, de acordo com as categorias desejáveis, que devem ser
definidas previamente em função dos objetivos da análise. Para cada categoria, deve-se
separar e pesar um tambor de 50 litros, ainda vazio. Durante a triagem, as frações que
compõem os resíduos úmidos foram depositadas no interior dos tambores, que foram ser
pesados novamente ao final do processo. A composição gravimétrica é então calculada como
a fração mássica de cada uma das categorias.
Nos casos em que se deseja estudar a composição gravimétrica considerando-se o
potencial de reciclagem dos resíduos direcionados aos aterros, é recomendável que a seleção
das frações seja realizada de forma mais detalhada, considerando os diferentes tipos de
materiais recicláveis.Por outro lado, caso seja desejável conhecer apenas o potencial de
recuperação energética, a caracterização pode ser realizada apenas em termos das categorias
CAPÍTULO 2
49
combustíveis. Os detalhes sobre as diferentes frações e categorias que compõem a
composição gravimétrica foram descritos no tópico 2.3.1.
2.4.6.1.2 Rejeitos das cooperativas de reciclagem
Os resíduos secos que possuem potencial de recuperação energética são os rejeitos
das cooperativas de reciclagem. A unidade amostral considerada, nesses casos, são as
caçambas nas quais os rejeitos são depositados, após o processo de triagem.
As amostras de resíduos sólidos recicláveis descartados no processo de triagem manual
foram coletadas entre os meses de dezembro de 2015 e janeiro de 2016, na Central de Triagem
de Resíduos Recicláveis de Santo André – SP, onde operam duas cooperativas: a Cooperativa
dos Agentes Autônomos de Reciclagem e a Cooperativa Cidade Limpa.
Foram amostradas seis caçambas de rejeitos entre dez processadas e analisadas
gravimetricamente por intermédio de uma empresa terceirizada contratada pelo SEMASA,
correspondendo a três coletas no período (duas caçambas a cada coleta). O total final
amostrado para realização da análise gravimétrica foi de 400 litros por caçamba. Para a
amostragem, seguiu-se o mesmo procedimento de homogeneização e quarteamento descrito
na Figura 2.13.
CAPÍTULO 2
50
Figura 2.13. Sequência do procedimento de quarteamento para obtenção das amostras para
análise da composição gravimétrica
Fonte: Elaborado pelos autores.
CAPÍTULO 2
51
Estudo de caso: do município de Santo André
No município de Santo André, em que o processo de coleta seletiva e as cooperativas
já operam, as amostras de resíduos úmidos domiciliares foram separadas em 33 diferentes
frações. Após a análise da composição gravimétrica, com a finalidade de avaliar o potencial de
recuperação energética, as amostras foram então reagrupadas em 5 categorias combustíveis
(orgânicos, sanitários, plástico, papel/papelão e têxteis), que foram novamente amostradas e
preparadas para as análises laboratoriais. As frações inertes foram descartadas. Para as
amostras correspondentes à CRAISA e às feiras livres, por sua vez, só foram consideradas as
frações de orgânicos, que apresentam potencial para recuperação energética por biodigestão
anaeróbia. As categorias consideradas nesse processo estão descritas no Quadro 2.4.
Na Figura 2.14 são apresentados os valores médios da composição gravimétrica dos
resíduos úmidos correspondentes às amostras obtidas da coleta indiferenciada e das feiras
livres e CRAISA.
As amostras da CRAISA e das feiras livres apresentaram 67 e 50% de orgânicos em
sua composição, respectivamente. Esse fato era esperado, uma vez que os resíduos são
compostos, principalmente, pelos restos das frutas, legumes e verduras comercializados. Nas
amostras correspondentes à coleta indiferenciada, a concentração de orgânicos foi de 39% e
notou-se um maior teor de plásticos, sanitários e têxteis, em comparação à CRAISA e às feiras
livres. A concentração média de papel e papelão foi da mesma ordem de grandeza para todas
as amostras. Um ponto que merece destaque é a concentração de madeira, superior a 30%
nas amostras das feiras livres. Esse valor é devido ao uso de caixotes para o transporte dos
produtos.
Considerando-se o potencial dos orgânicos para processos bioquímicos de conversão
e o das demais categorias combustíveis para os termoquímicos, as composições gravimétricas
observadas na Figura 2.14. indicam a necessidade de se ampliar o sistema de coleta seletiva,
separando-se a fração orgânica das demais, para que os processos possam ser aplicados de
forma eficiente. Adicionalmente, a presença de elevadas concentrações de materiais
recicláveis nos resíduos oriundos da coleta indiferenciada, em um município que possui
sistema de coleta seletiva, mostra a necessidade de que sejam instalados programas de
educação ambiental e ações para maior conscientização da população.
CAPÍTULO 2
52
Quadro 2.4. Frações correspondentes à caracterização gravimétrica dos RSU úmidos do
município de Santo André, em campanha realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016
Frações Categorias
Frações combustíveis processadas
Material orgânico (alimentos e podas)
Orgânicos
Material orgânico (materiais inseparáveis)
Material orgânico (sanitário)
Sanitários
Fraldas
Borracha
Plásticos
Isopor
PET [1] - politereftalato de etileno
PEAD [2] - polietileno de alta densidade
V [3] – pvc
PEBD [4] - polietileno de baixa densidade
PP [5] – polipropileno
PS [6] – poliestireno
Outros plásticos
Sacos plásticos (sacos de lixo)
Sacos plástico (supermercado)
Embalagens aluminizadas
Papel branco
Papéis
Papelão
Tetra pack®
Jornais e revistas
Tecido, pano Têxteis
Madeira natural
Madeira Frações Combustíveis não processadas
Madeira processada
Outro (Sem identificação) Outros
Fração não combustível
Resíduos tecnológicos-pilhas
Inertes
Resíduos tecnológicos-lâmpadas
Resíduos tecnológicos-informática
Resíduos tecnológicos-outros
Entulho
Vidro
Metal (ferroso)
Metais não ferrosos
Alumínio
Fonte: Drudi (2017)
CAPÍTULO 2
53
(a) Resíduos Úmidos – Coleta Indiferenciada
(b) Feiras Livres
(c) CRAISA
Figura 2.14. Composição gravimétrica média das frações combustíveis dos resíduos sólidos
urbanos úmidos oriundos de coleta indiferenciada, feiras livres e CRAISA do município de
Santo André/SP, na campanha gravimétrica realizada entre set/2015 e fevereiro/2016
Fonte: Adaptado de (a) Drudi (2017); (b) e (c) Silva (2016)
CAPÍTULO 2
54
2.4.6.2 Definição e preparo das amostras
Os resíduos sólidos urbanos, da forma como são coletados, necessitam de um preparo
inicial para que seja possível avaliar, em análises laboratoriais, suas propriedades e seu
potencial energético, seja para processos termoquímicos ou bioquímicos. A definição de uma
metodologia de preparo das amostras de RSU é uma etapa muito importante e de difícil
definição devido à heterogeneidade dos materiais e à quantidade de amostras com que se tem
que lidar. Adicionalmente, essa etapa é fundamental para a confiabilidade das análises, pois
amostras coletadas e armazenadas de forma inadequada podem gerar resultados errôneos e
acarretar o mau dimensionamento dos equipamentos utilizados nas usinas de recuperação
energética.
Para que sejam avaliadas as propriedades físicas, químicas ou térmicas dos RSU, após
a separação das categorias específicas dos resíduos (gravimetria), as amostras devem ser
depositadas sobre uma manta de PEAD e homogeneizadas. Em seguida, deve ser realizado
um novo quarteamento, até que se atinja a massa especificada pela norma adotada. As
recomendações da norma Nordtest (1995) são de 5,0 kg para orgânicos ou 3,0 kg, para as
demais categorias combustíveis. As etapas de preparo de amostra para envio ao laboratório
são apresentadas na Figura 2.15.
Após a separação da quantidade necessária de cada categoria combustível, as
amostras devem ser trituradas em equipamento específico para essa finalidade. A escolha do
equipamento deve considerar as características físicas das amostras.
Vale destacar que, em função do grande número de amostras coletadas em uma
caracterização com representatividade estatística, o planejamento do passo a passo das
etapas de coleta e preparo é fundamental para a confiabilidade dos dados. Caso as amostras
estejam com umidade baixa, é possível armazená-las trituradas, sem um prévio tratamento. No
caso de amostras que apresentem elevada umidade ou que estejam contaminadas com a
umidade de outras frações, como é esperado em amostras oriundas de coleta indiferenciada,
é necessário um tratamento adicional, após a sua trituração. Para isso, recomenda-se o
processo de secagem até peso constante,em estufa com circulação de ar, à temperatura de
75°C para os plásticos e de 105°C, para as demais frações.
Após a secagem, as amostras devem ser embaladas a vácuo e devidamente
identificadas para o transporte até o laboratório onde serão realizadas as análises.
CAPÍTULO 2
55
Figura 2.15 - Etapas do preparo de amostras para envio ao laboratório para caracterização
Fonte: Drudi (2017); Gutierrez Gomez (2016); Tiburcio (2018)
Nos trabalhos realizados por Drudi (2017), Marana (2017), Silva (2016) e Gutierrez
Gomes (2016) no Aterro Municipal da cidade de Santo André – SP, ao longo de 4 meses, foram
coletados, processados e encaminhados para o laboratório de análises aproximadamente 612
1. Homogeneização
2. Determinação da
densidade a granel
3. Trituração
4. Embalagem a vácuo e
envio para laboratório
5. Secagem - Plásticos: 75oC;
Demais frações: 105oC
6. Embalagem a Vácuo e
Armazenamento
CAPÍTULO 2
56
kg de resíduos sólidos urbanos úmidos referentes a todos os setores analisados, o equivalente
a 6% dos resíduos coletados por 1 veículo coletor (caminhão) com capacidade média de 10
toneladas. Esse número pode ser comparado à geração de resíduos per capita, ou seja, à
quantidade média de resíduos gerada por aproximadamente 600 pessoas em um dia ou à
quantidade gerada por uma única pessoa ao longo de quase 2 anos. Esse volume de amostras,
além de evidenciar a importância dos trabalhos, valoriza a necessidade de outras pesquisas
nessa área para que se obtenham informações relevantes e representativas para a
recuperação energética de resíduos.
2.5 CARACTERIZAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS DOMICILIARES PARA RECUPERAÇÃO
ENERGÉTICA POR DIFERENTES ROTAS TECNOLÓGICAS: PARÂMETROS FUNDAMENTAIS
A recuperação energética dos RSU pode se dar por diferentes processos de
conversão, sendo que os mais difundidos são os das rotas termoquímica (pirólise, liquefação,
gaseificação e combustão) e bioquímica (biodigestão anaeróbia). A rota bioquímica só é
aplicável aos resíduos orgânicos, que, no processo, são biodegradados em ausência de
oxigênio e parcialmente convertidos em outro combustível, o biogás. Dentre os processos da
rota termoquímica, a combustão direta, também conhecida como mass burning, é a mais
aplicada no tratamento de resíduos domiciliares, permitindo a recuperação energética de todas
as frações combustíveis que os compõem.
Quando se fala em recuperação energética de resíduos sólidos urbanos, qualquer que
seja a rota escolhida, é de extrema importância, além da composição gravimétrica, conhecer
as suas propriedades físicas, químicas e térmicas. Essas propriedades são a base para
dimensionamento dos sistemas de recuperação energética e para o projeto dos seus
equipamentos.
Com base no conhecimento de propriedades como umidade, composição imediata,
poder calorífico, composição elementar, composição centesimal, entre outras, é possível
estimar o potencial de recuperação energética dos resíduos por diferentes rotas tecnológicas
e gerar dados para o adequado dimensionamento dos equipamentos e processos. Tem-se,
dessa forma, informações seguras que fornecerão subsídios para o direcionamento para os
melhores tratamentos.
Cada rota tecnológica de recuperação energética (termoquímica e bioquímica)
apresenta as suas particularidades e necessita do conhecimento de propriedades específicas
para seu correto dimensionamento. Dentre essas propriedades, uma das mais importantes é a
CAPÍTULO 2
57
umidade, cujo conhecimento é fundamental para a indicação da rota tecnológica mais
apropriada. Por exemplo, altos teores de umidade são indesejáveis nas rotas termoquímicas e
desejáveis na bioquímica. Sendo assim, a elevada umidade da fração orgânica é um fator
adicional para que seja indicada a sua segregação na fonte e direcionamento para o processo
de biodigestão anaeróbia. As demais categorias, ainda que – quando oriundas da coleta
indiferenciada – possam apresentar elevado teor de umidade; como é o caso das categorias
papel/papelão, sanitário e têxtil; possuem características adequadas à rota termoquímica de
recuperação energética (MARANA, 2017; DRUDI, 2017).
Neste tópico, são apresentadas as principais propriedades dos RSU que devem ser
conhecidas para cada uma dessas rotas. Para cada uma das propriedades, são descritas as
metodologias seguidas para sua determinação experimental e são apresentados dados
resultantes da caracterização dos resíduos sólidos urbanos do estudo de caso realizado pelos
autores no município de Santo André.
Na Figura 2.16 são apresentados os parâmetros fundamentais dos resíduos sólidos
urbanos que devem ser determinados para o dimensionamento dos processos de recuperação
energética pelas rotas termoquímica e bioquímica. Cada uma dessas propriedades segue
normatizações e metodologias específicas, que serão apresentadas nos próximos tópicos.
Figura 2.16. Propriedades dos resíduos a serem determinadas para avaliação do potencial de
recuperação energética pelas rotas termoquímica e bioquímica
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 2
58
2.5.1 Rota Termoquímica: parâmetros fundamentais para caracterização dos resíduos
Para o tratamento térmico com aproveitamento energético, é fundamental o
conhecimento de propriedades dos resíduos que possibilitem a estimativa do seu potencial de
recuperação energética, o qual está diretamente associado à sua composição física e química.
Dessa forma, além da composição gravimétrica, o conhecimento de propriedades como
umidade, composição imediata, composição elementar e poder calorífico é essencial.
Adicionalmente, a composição das cinzas é um outro parâmetro importante de ser
avaliado tanto para o projeto dos equipamentos quanto para o sistema de gestão de resíduos.
No que se refere ao projeto de equipamentos, a importância está associada à sua durabilidade,
em função de possíveis interações entre os materiais utilizados na fabricação dos
equipamentos e os componentes das cinzas. Quanto ao sistema de gestão de resíduos, deve-
se considerar a possibilidade de recuperação de minerais e compostos químicos presentes nas
cinzas e, na sequência, a necessidade de sua disposição final em aterros sanitários.
As propriedades fundamentais dos resíduos relacionadas aos processos
termoquímicos, bem como suas normas específicas, estão sintetizadas no Quadro 2.5. É
importante ressaltar que, a fim de que sejam obtidos dados confiáveis a partir dos quais seja
possível fazer uma avaliação estatística, todas as análises devem ser realizadas no mínimo em
triplicata, exceto a umidade, que deve ser realizada em quintuplicata.
Quadro 2.5. Parâmetros e metodologias específicas a serem considerados nos processos
termoquímicos
ANÁLISE NORMA
Umidade Standard Methods EPA 2540G (EPA, 1997)
Composição Elementar Standard Methods ASTM (2011) E 870-82
Composição Imediata
ASTM E 897-88 - Standard Test Method for Volatile
Matter in the Analysis Sample of Refuse-Derived Fuel
ASTM E 830-87 (1996) Standard Test Method for Ash in
the Analysis Sample of Refuse-Derived Fuel
Composição elementar das
cinzas
Standard Test Methods ASTM E 1755 (2007)
Poder calorífico superior e
inferior
Standard Test Method for Gross Calorific Value of
Refuse-Derived Fuel by the Bomb Calorimeter
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 2
59
Para demostrar a importância do conhecimento das propriedades dos resíduos, podem
ser considerados exemplos de alguns casos em que variações delas tiveram consequências
sobre os equipamentos e processos. Segundo relatos de Ryu e Shin (2012), na Coreia do Sul,
plantas de incineração apresentaram um problema operacional por conta da mudança do tipo
de resíduo que foi coletado no país. A maior parte das plantas construídas na Coreia foram
projetadas para receber resíduos que possuíam um PCI de 7,1 MJ/kg,sendo seu limite de
operação mínimo de 4,2 MJ/kg e o máximo, de 10 MJ/kg. No entanto, após alguns anos, a
composição gravimétrica apresentou uma diminuição na quantidade de alimentos, o que
aumentou o PCI dos resíduos. Essa mudança acarretou danos às paredes das fornalhas por
conta das altas temperaturas, o que manteve algumas plantas em manutenção, diminuindo,
assim, a disponibilidade de operação.
Na China, Zhou et al. (2014) descreveram um problema ocorrido pela falta de uma
metodologia padronizada para a caracterização dos resíduos. Em decorrência da falta de
padronização, os dados da composição gravimétrica de um mesmo local apresentaram
diferenças significativas, ou seja, os percentuais de componentes físicos de uma mesma
localidade, avaliados por dois métodos diferentes, resultaram em valores divergentes. Como
consequência, materiais que possuíam cloro em sua composição foram processados em
sistemas termoquímicos de recuperação energética. Trata-se de um componente altamente
corrosivo para os equipamentos e que, quando submetidos a altas temperaturas, produz
dioxinas e furanos, substâncias que oferecem riscos à saúde humana.
Nos próximos tópicos serão descritas, para cada uma das propriedades listadas na
Figura 2.16, a metodologia indicada para sua determinação em laboratório e, ao final, serão
apresentados os valores médios dessas propriedades, obtidos pelos autores em amostras
estatisticamente representativas de cada uma das categorias combustíveis dos resíduos
sólidos urbanos do município de Santo André, localizado na Grande São Paulo.
2.5.1.1 Umidade
A umidade é, por definição, o percentual mássico de água presente na amostra. A
umidade da biomassa influencia muito na sua qualidade como combustível, pois interfere no
consumo energético nas etapas de pré-tratamentos e no seu potencial energético (NOGUÉS
et al., 2010). Dessa forma, a umidade é uma propriedade muito importante na definição do
processo mais indicado para tratamento e recuperação energética dos resíduos. A umidade
elevada é desejável nos processos bioquímicos, pois melhoram o contato entre os
CAPÍTULO 2
60
microrganismos e o substrato, contribuindo positivamente para o potencial de produção de
metano. Por outro lado, interfere negativamente no poder calorífico, diminuindo o rendimento
da combustão, sendo, portanto, indesejável em processos termoquímicos de conversão.
O ideal é que se conheça a umidade das frações dos RSU in loco, ou seja, assim que
chegam no aterro, denominada umidade em base de trabalho. Para a sua determinação com
o mínimo desvio possível, é recomendável que a análise seja iniciada no local de coleta das
amostras. No momento em que as amostras forem separadas, pesadas e pré-trituradas, uma
porção de cada fração deve ser reservada em cadinhos de alumínio (limpos, secos e de massa
conhecida). Uma amostra com 5 a 10g deve ser colocada no interior dos cadinhos e sua massa
determinada, em balança semi-analítica. É recomendável que essa análise seja realizada, no
mínimo, em quintuplicata, devido à heterogeneidade da amostra.
As amostras devem, então, ser levadas para as estufas de circulação forçada, para
secagem até massa constante. No caso de a estufa não estar no mesmo local de coleta das
amostras, recomenda-se que, logo após a pesagem, os cadinhos sejam tampados e
embalados para o transporte. Chegando-se ao laboratório, deve-se proceder nova pesagem
para verificação da variação de massa no transporte.
Conforme a metodologia apresentada pela Standard Methods EPA 2540G (EPA,
1997), em laboratório, todos os cadinhos com as amostras dos resíduos orgânicos, sanitários,
papel/papelão e têxteis de cada dia de coleta devem ser secas em estufa com circulação
forçada de ar a uma temperatura de 105°C até massa constante (NORDTEST, 1995; ADEME,
1998; CHRISTENSEN, 2011). Para as amostras de resíduos plásticos, o procedimento é o
mesmo, porém, a temperatura de secagem deve ser de 75ºC, de modo a evitar a possível
degradação da amostra quando submetida a temperaturas mais elevadas (JANSEN et al.,
2004).
2.5.1.2 Composição Imediata
A análise imediata tem o objetivo de determinar as propriedades combustíveis das
frações dos resíduos sólidos urbanos, consistindo na determinação da concentração mássica
de umidade, material volátil, carbono fixo e cinzas. É uma das análises mais importantes para
o estudo de processos térmicos de conversão, pois fornece informações importantes sobre
como o combustível irá se comportar de forma rápida e com baixo custo.
Como mencionado anteriormente, altos valores de umidade diminuem o rendimento
da combustão. O material volátil corresponde aos vapores condensáveis e não condensáveis
CAPÍTULO 2
61
(excetuando-se a umidade) que são liberados quando os resíduos são aquecidos. Elevadas
concentrações de materiais voláteis indicam que a ignição pode iniciar sob temperaturas
relativamente baixas, o que significa uma alta reatividade na combustão.
O carbono fixo representa o carbono que permanece carbonizado (char) no processo
de transformação termoquímica, após a etapa de volatilização. Varia com a taxa de
aquecimento, de modo que não apresenta um valor fixo e não pode ser determinado
diretamente. Entretanto, representa um importante parâmetro de avaliação do rendimento dos
resíduos como combustíveis em processos térmicos, o qual está diretamente relacionado à
taxa de pirólise, gaseificação ou combustão. A relação material volátil/carbono fixo fornece
indicações sobre a reatividade do combustível. As cinzas, por sua vez, por serem materiais
inertes, diminuem o potencial de recuperação energética dos resíduos, além de terem efeitos
significativos sobre o desgaste dos equipamentos e de impactarem negativamente os custos
de transporte, manuseio e gerenciamento do processo.
As metodologias de referência para a determinação dos materiais voláteis e das cinzas
são, respectivamente: ASTM E 897-88 - Standard Test Method for Volatile Matter in the
Analysis Sample of Refuse-Derived Fuel e ASTM E 830-87 (1996) Standard Test Method for
Ash in the Analysis Sample of Refuse-Derived Fuel. Estas análises são realizadas em forno
mufla, com amostras distintas. A temperatura indicada na norma para a determinação do teor
de cinzas é de 575 (± 25) °C, até peso constante, e, para a determinação do material volátil,
975 (± 20) °C, por 7 minutos, para todas as frações combustíveis. O carbono fixo é determinado
por diferença e recomenda-se que as análises sejam feitas, minimamente, em triplicata.
Na Tabela 2.6 estão apresentados os valores médios da composição imediata das
diferentes categorias combustíveis dos resíduos sólidos urbanos do município de Santo André.
Apresenta-se também o resultado da amostra RSUcombustível, que consiste em uma amostra
representativa dos resíduos da forma como chegam ao aterro, construída pela combinação das
categorias combustíveis de forma proporcional à sua presença na composição gravimétrica.
Esses resultados foram calculados a partir dos dados apresentados por Gutierrez Gomez
(2016), Leite et al. (2021) e Drudi (2017).
Como pode ser observado na Tabela 2.6, a umidade das categorias combustíveis
variou de (24,60 ± 8,50) %, para os plásticos, a (65,47±9,26) %, para os orgânicos. A umidade
da categoria RSUcombustível (47,66%) foi calculada ponderando-se a umidade de cada categoria
pela sua representatividade na composição gravimétrica do município.
CAPÍTULO 2
62
Tabela 2.6. Composição imediata das categorias combustíveis dos resíduos úmidos do
município de Santo André em amostragem realizada na campanha gravimétrica realizada
entre setembro/2015 e fevereiro/2016
CATEGORIA
COMBUSTÍVEL
Umidade
(% bu)
CF
(% bs)
MV
(% bs)
Cinzas
(% bs)
MV/CF
Matéria orgânica
65,47
(±9,26)
15,71
65,96
(±2,89)
18,33
(±0,53)
4,2
Resíduos
sanitários
52,27(±12,36)
10,73
80,75
(±3,30)
8,52
(±1,86)
7,53
Plásticos
24,60
(±8,50)
2,52 88,88
(±3,97)
8,60
(±0,80)
35,27
Papel/papelão/Tetr
a Pak®
30,51
(±10,31)
9,91
78,76
(±2,69)
11,33
(±0,40)
7,95
Têxteis
32,26
(±11,93)
8,86
86,62
(±1,97)
4,52
(±1,34)
9,78
RSUcombustível
a 47,66 10,34
76,62
(±1,47)
13,04
(±1,59)
7,41
Legenda: CF = Carbono Fixo; MV = Material Volátil. (a) Amostra composta pela combinação das categorias
combustíveis (Matéria Orgânica, Plásticos, Papel/Papelão/Tetrapak, Resíduos Sanitários e Têxteis) na proporção
em que foram encontradas na composição gravimétrica média dos resíduos locais. A umidade foi calculada de
forma proporcional, em função das categorias que compuseram a amostra.
Fonte: Adaptado de Gutierrez Gomez (2016); Leite et al. (2021); Drudi (2017).
Conforme mencionado anteriormente, a umidade é um fator extremamente relevante
para os processos de recuperação energética dos resíduos. De acordo com Nogués, Galindo-
Garcia, Rezeau (2010), a umidade indicada para processos termoquímicos deve ser inferior a
50%. Por outro lado, para os processos bioquímicos, Borba (2006) e Dmitrijevas (2010) indicam
que a umidade deve estar entre 60 e 90% para que haja uma produção favorável de biogás.
Os dados da Tabela 2.6 mostram que a mistura RSUcombustível apresentou umidade próxima do
limite para a recuperação termoquímica, o que indica que a separação na fonte poderia
melhorar a eficiência do processo. Os resíduos orgânicos apresentam umidade adequada para
a biodigestão, ao passo que os plásticos, papéis e têxteis são mais indicados para os processos
termoquímicos. Os resíduos sanitários, embora apresentem umidade superior a 50%, podem
ser misturados aos demais e direcionados para a recuperação termoquímica.
Camargo et al. (2020) apresentaram dados da composição imediata do bagaço de cana-
de-açúcar, uma fonte renovável amplamente utilizada na geração de energia, no Brasil. As
CAPÍTULO 2
63
amostras apresentaram 48,21% de umidade; 89,48% de materiais voláteis; 8,92% de carbono
fixo e 1,6% de cinzas, com uma reatividade de 10. A amostra composta de RSUcombustível
apresenta valores comparáveis aos observados pelos autores para o bagaço, com a exceção
do teor de cinzas, que é superior nos resíduos sólidos.
No trabalho de Chang et al. (2007), realizado para analisar os RSU de Taiwan, a
umidade média dos resíduos foi de 55,6% e, nos trabalhos analisados por Zhou et al. (2014),
a umidade média foi 48,12%. Já no trabalho de Kathiravale et al. (2003), conduzido para os
resíduos da Malásia, a umidade média foi de 55,01%. No caso dos resíduos de Santo André,
a umidade média foi de 47,66%, inferior às apresentadas pelos trabalhos mencionados.
Entretanto, quando considerado o desvio, pode-se dizer que os valores são comparáveis.
Em relação à composição imediata, os teores médios de voláteis, carbono fixo e cinzas
da fração combustível dos RSU do município de Santo André foram de
(13,04 ± 1,59)% de cinzas; (76,62 ± 1,47)% de material volátil; e (10,34)% de carbono fixo.
Nogués et al. (2010) indicam que a relação entre os teores voláteis e de carbono fixo estabelece
um indicador de facilidade de ignição. De acordo com os dados apresentados, os orgânicos
precisam de maior tempo de residência para sua combustão e os plásticos, de menor tempo,
sendo esta a mais reativa das categorias combustíveis analisadas em resíduos sólidos.
Quando considerada a composição imediata da categoria de plásticos, Shi et al. (2016),
em trabalho realizado no Canadá, observaram 90,62% de voláteis, 8,28% de carbono fixo e
1,10% de cinzas. Zhou et al. (2014), em trabalho realizado na China, observaram 99,44% de
voláteis, 0,08% de carbono fixo e 0,48% de cinzas. Para os resíduos de Santo André, os
plásticos apresentaram 88,88% de voláteis, 2,52% de carbono fixo e 8,60% de cinzas. As
diferenças podem ser devidas aos diversos fatores que influenciam as características dos
resíduos de cada localidade, mas também à forma de preparo das amostras. Zhou et. al. (2014)
avaliaram somente plásticos livres de Cloro, ao passo que, em Santo André, foi analisada uma
mistura de todos os tipos de plástico.
Para os papéis, os valores observados nos resíduos de Santo André (78,76% de
voláteis, 9,91% de carbono fixo e 11,33% de cinzas) foram próximos aos observados por Zhou
et al. (2014) para os resíduos da China (76,14% de voláteis, 11,66% de carbono fixo e 12,20%
de cinzas).
Para a categoria de têxteis, Shi et al. (2016) encontraram 74,36% de material volátil,
0,89% de carbono fixo e 24,75% de cinzas, nos resíduos canadenses. Zhou et al. (2014)
observaram 82,69% de voláteis, 13,75% de carbono fixo e 3,56% de cinzas, nos resíduos
CAPÍTULO 2
64
chineses, valores mais próximos aos obtidos para os materiais têxteis em Santo André (86,62%
de material volátil; 8,86% de carbono fixo e 4,52% de cinzas).
2.5.1.3 Composição Elementar
A análise elementar determina a concentração mássica, em base seca, dos elementos
químicos envolvidos nas principais reações que ocorrem nos processos termoquímicos e
bioquímicos de conversão energética, a saber: carbono (C), hidrogênio (H), nitrogênio (N),
oxigênio (O) e enxofre (S). Os valores encontrados na análise da composição elementar
indicam a quantidade total de cada elemento, ou seja, em todas as formas que o determinado
elemento se encontra nos RSU ou em suas categorias.
Considerando-se os processos termoquímicos, o conhecimento da composição
elementar, em conjunto com outras propriedades, é fundamental para que se estude a
eficiência dos processos, bem como para que se possam predizer, além do poder calorífico, os
produtos e subprodutos das reações estequiométricas envolvidas. A partir da relação atômica
H/C e O/C, é possível classificar os combustíveis de acordo com o diagrama de Van Krevelen.
Este permite identificar que, para uma elevada proporção O/C, se apresentam altos teores de
material volátil e se dificulta a transformação dos resíduos em combustíveis líquidos (JONES
et al., 2006; BASU, 2010).
A metodologia mais utilizada na determinação da composição elementar para
biomassa é a Standard Methods ASTM (1982) E 870-06. A análise de carbono, nitrogênio,
hidrogênio e enxofre se dá basicamente por meio da separação dos gases formados
(cromatografia gasosa) após a combustão a 900°C das amostras sólidas, os quais são
analisados sob a forma de CO2, N2, H2O, H2SO3, respectivamente. Estes gases sofrem arraste
por outro gás, por exemplo o hélio, através de uma coluna, e são detectados por condutividade
térmica. O teor de oxigênio pode ser obtido por diferença, quando utilizado um equipamento
que não o determine diretamente e, nesse cálculo, deve ser descontado o teor de cinzas
determinado na análise imediata.
Na Tabela 2.7 são apresentados os resultados das análises de composição elementar
das categorias combustíveis dos resíduos úmidos do município de Santo André e da amostra
de RSUcombustível, calculados a partir dos dados apresentados no estudo de Leite et al. (2021).
CAPÍTULO 2
65
Tabela 2.7. Composição elementar das categorias combustíveis dos resíduos úmidos do
município de Santo André em amostragem realizada na campanha gravimétrica realizada
entre setembro/2015 e fevereiro/2016
RSU ÚMIDO (CATEGORIA) N (%) C (%) H (%) S (%*) O2
(%*)
Matéria orgânica
1,17
(±0,02)
36,59
(±0,18)
5,43
(±0,26)
NI 38,48
Resíduos sanitários
0,23
(±0,01)
42,19
(±0,54)
6,20
(±0,11) NI 41,99
Plásticos
0,05
(±0,03)
77,02
(±1,21)
12,55
(±0,00)
NI 1,78
Papel/papelão/Tetra Pak®
0,27
(±0,04)
41,11
(±1,29)
5,83
(±0,23) NI 41,47
Têxteis
0,15
(±0,04)
50,95
(±1,48)
5,38
(±0,16) NI 39,00
RSUcombustível
1,40
(±0,30)
52,28
(±3,00)
7,72
(±0,36) NI 25,56
Legenda: * calculado por diferença; NI = não identificado. (a) Amostracomposta pela combinação das categorias
combustíveis (Matéria Orgânica, Plásticos, Papel/Papelão/Tetra Pak, Resíduos Sanitários e Têxteis) na
proporção em que foram encontradas na composição gravimétrica média dos resíduos locais
Fonte: Adaptado de Leite et al. (2021).
Analisando a Tabela 2.7, é possível observar que os percentuais de carbono variaram
de (36,59 ± 0,18)% para os orgânicos até (77,02 ± 1,21)% para os plásticos. O maior percentual
de hidrogênio foi identificado nos plásticos (12,55 ± 0,00)% e o menor, para os orgânicos (5,43
± 0,26)%. Nenhuma das amostras apresentou teores de enxofre detectáveis pela metodologia
utilizada.
Em comparação aos resíduos caracterizados em outras localidades, em outros
trabalhos, Meraz et al. (2003) encontraram, para os orgânicos, 48% de carbono e 6,4% de
hidrogênio. Já para os plásticos, os autores observaram 60% de carbono e 7,2% de hidrogênio.
Zhou et al. (2014), em análise de resíduos na China, determinaram 47,22% de carbono
e 7,04% de hidrogênio nos orgânicos e 86,22% de carbono e 12,97% de hidrogênio, nos
plásticos. Os valores apresentados pelos autores foram mais próximos dos valores medidos
nos resíduos de Santo André.
Para as categorias de papéis e têxteis, as concentrações de carbono e hidrogênio nos
resíduos de Santo André foram próximas às observadas por Zhou et al. (2014), em resíduos
da China (45,62% de C e 6,01% de H para os papéis e 54,08% de C e 5,84% de H para os
têxteis).
CAPÍTULO 2
66
Kathiravale et al. (2003) apresentaram em seu trabalho a composição elementar média
para os resíduos da Malásia e observaram 46,11% de C e 6,86% de H. Considerando-se os
desvios, os valores estão próximos aos observados para os resíduos de Santo André: (52,28
± 3,00)% C e (7,72 ± 0,36)% H.
2.5.1.4 Composição Elementar das Cinzas
Nos processos termoquímicos de conversão energética, os compostos inertes não
reagem, permanecendo sob a forma de cinzas. As cinzas são constituídas por materiais
inorgânicos que, quando em presença de altas ou moderadas temperaturas, reagem e
provocam problemas como corrosão e incrustação nos equipamentos. O conhecimento da
composição elementar das cinzas permite que seja verificada a presença de elementos
indesejáveis para o processo, cuja presença pode causar danos aos equipamentos ou formar
gases nocivos ao ambiente e à saúde humana.
Como exemplo de componentes inorgânicos indesejáveis comumente presentes nas
cinzas de resíduos sólidos urbanos, podem ser citados o óxido de cálcio (CaO), óxido de
potássio (K2O), óxido de sódio (Na2O), óxido fosfórico (P2O5), óxido férrico (Fe2O3), óxido de
alumínio (Al2O3), óxido de silício (SiO2) e óxido de magnésio (MgO). Esses elementos, mesmo
presentes em menores proporções, podem provocar problemas de incrustações e corrosão nas
tubulações e equipamentos.
Um elemento cuja determinação da composição é fundamental por ser altamente
indesejável é o cloro, que está presente em muitos materiais, como o PVC, por exemplo. Trata-
se de um elemento corrosivo que, nos processos de combustão, em presença de oxigênio e
água, pode reagir e formar as dioxinas e furanos, elementos tóxicos relatados como
cancerígenos (ASSUNÇÃO; PESQUERO, 1999). Além disso, o Cloro, em conjunto com o K2O,
provoca a emissão de cloreto de potássio, que irá se depositar nas superfícies metálicas e
reagir com o dióxido de enxofre, originando cloretos e sulfatos que atacam essas superfícies
(LEAL, 2010).
A metodologia utilizada para o preparo das cinzas está descrita na Standard Test
Method ASTM E 1755 (2007), empregada na determinação da composição imediata das
frações de amostras de RSU. Amostras de cinzas resultantes da análise imediata devem ser
armazenadas para posterior avaliação da sua composição.
A espectrometria é uma técnica indicada para identificar e quantificar os elementos
presentes nas cinzas. O espectrômetro de fluorescência (XRF) e o espectrômetro com fonte
CAPÍTULO 2
67
de plasma (ICP) são exemplos de equipamentos que podem ser utilizados nessa quantificação.
Para uma análise semi-quantitativa dos elementos presentes nas cinzas, pode-se utilizar a
Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) com microanálise por Espectroscopia de Dispersão
de Energia de Raios X (EDS).
Para a análise no MEV-EDS, as amostras devem ser fixadas em porta-espécimens
metálicos (stubs) de tamanho adequado para o equipamento, através do uso de uma fita
adesiva de dupla face convencional ou de carbono. Uma vez que as amostras analisadas não
são metálicas, é necessário realizar uma metalização (sputtering) com ouro, recobrindo-as com
uma camada fina do metal para evitar o efeito de charging up durante a observação no
microscópio eletrônico.
A metodologia consiste na incidência de um feixe de elétrons sobre a amostra
metalizada, gerando interações elétron-matéria que produzem diferentes sinais que,
transformados em sinais elétricos, formam uma imagem de alta resolução da superfície e
permitem a determinação da composição da amostra. A análise deve ser realizada
minimamente em triplicata.
Na Tabela 2.8 são apresentados os resultados médios da composição elementar das
cinzas das diferentes categorias combustíveis dos resíduos sólidos urbanos do município de
Santo André, determinada por MEV-EDS. Os dados indicam a abundância média dos
elementos encontrados nas categorias, bem como os possíveis óxidos formados. Os dados
foram reportados por Tiburcio et al. (2018).
Como mencionado, o óxido de cálcio (CaO), óxido de potássio (K2O), óxido de sódio
(Na2O), óxido férrico (Fe2O3), óxido de silício (SiO2) e o óxido de magnésio (MgO), elementos
indesejáveis pelos danos que podem provocar nos equipamentos, foram encontrados em todas
as categorias combustíveis. O óxido fosfórico (P2O5) só foi encontrado na fração orgânica.
Embora seja um elemento indesejável para os processos termoquímicos, se presente na
proporção adequada, pode favorecer a biodigestão anaeróbia. O óxido de alumínio (Al2O3) só
foi encontrado nas amostras de Papel/Papelão/TetraPak®, possivelmente devido à presença
de embalagens aluminizadas.
À exceção das amostras de papel/papelão, todas as categorias apresentaram Cloro
em sua composição, o que indica a necessidade de uma avaliação quantitativa para verificar
se a proporção está dentro dos valores aceitáveis pela legislação.
CAPÍTULO 2
68
Tabela 2.8. Óxidos encontrados nas cinzas de fundo com respectiva abundância para as
categorias combustíveis dos RSU do município de Santo André/SP obtidas na campanha
gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016.
Compostos
(%, massa)
Matéria
Orgânica
Plásticos Têxteis
Papel/
Papelão/
TetraPak®
Sanitários
Na2O 6,52 (±0,37) 5,47 (±0,35) 6,13 (±0,23) 2,92 (±0,33) 31,14 (±1,61)
MgO 7,36 (±0,38) 8,64 (±0,45) 8,87 (±0,52) 3,66 (±0,23) 2,85 (±0,25)
Al2O3 Nd Nd Nd 17,73 (±3,97) Nd
SiO2 23,61 (±1,04) 25,95 (±0,83) 21,75 (±0,59) 15,48 (±1,05) 15,52 (±0,96)
P2O5 7,58 (±0,94) Ni Ni Ni Ni
SO3 Ni Ni 7,02 (±0,43) Ni Ni
Cl 4,85 (±0,34) 0,72 (±0,14) 1,45 (±0,10) Ni 9,46 (±1,11)
K2O 8,84 (±0,29) 1,94 (±0,12) 4,06 (±0,18) 1,75 (±0,22) 7,99 (±3,17)
CaO 32,25 (±0,66) 30,52 (±0,92) 39,34 (±1,34) 55,84 (±3,10) 17,18 (±0,79)
TiO2 Ni 19,35 (±1,03) 3,66 (±0,55) Ni 11,72 (±4,30)
FeO 7,57 (±0,57) 6,31 (±0,43) 6,51 (±0,41) 1,20 (±0,32) 1,40 (±0,36)
ZnO Ni Ni Ni Ni Ni
Legenda: Ni = Elemento não identificado; Nd = Elemento não determinado
Fonte: Tiburcio et al. (2018).
2.5.1.5 Poder Calorífico Superior e Inferior
2.5.1.5.1 Determinação experimental
Pode-se definir o Poder Calorifico Superior (PCS) como a quantidade de energia
térmica liberada por unidade de massa ou volume de combustível na combustão completa
quando, ao final do processo, a água formada se encontra na fase líquida, à mesma
temperatura do combustível antes da combustão. O Poder Calorífico Inferior(PCI) é obtido a
partir do PCS, subtraindo-se a energia necessária para condensar o vapor formado no
processo, ou seja, considera-se que a água formada durante a combustão se encontra na fase
gasosa, à mesma temperatura inicial do combustível. O PCI fornece, portanto, uma medida do
calor disponível por unidade de massa do combustível liberado durante a combustão (BASU,
2010; VAN LOO & KOPPEJAN, 2008).
CAPÍTULO 2
69
A partir dessa definição, pode-se afirmar que o poder calorífico é um parâmetro
importante na determinação do potencial de recuperação energética dos resíduos sólidos em
processos termoquímicos. A determinação experimental do poder calorífico superior de
resíduos sólidos é realizada segundo a metodologia ASTM E711 - Standard Test Method for
Gross Calorific Value of Refuse-Derived Fuel by the Bomb Calorimeter.
Na bomba calorimétrica, em uma câmara pressurizada com oxigênio, realiza-se a
combustão completa de uma amostra de massa e umidade conhecidas e a energia térmica
liberada é utilizada para aquecer a água. Após o resfriamento do sistema até a temperatura
inicial, mede-se a energia térmica liberada pela variação de temperatura sofrida pela água.
O valor do poder calorífico superior varia muito em função da umidade da amostra, de
modo que é recomendável a determinação do seu valor em base seca, de acordo com a
Equação 2.3.
𝑃𝐶𝑆𝑠 =
𝑃𝐶𝑆𝑢
(1 −𝑊𝑢 𝑒𝑞𝑢𝑖)
(2.3)
Em que: 𝑃𝐶𝑆𝑠 = Poder calorífico superior em base seca [𝑘𝐽/𝑘𝑔𝑏𝑠]; 𝑃𝐶𝑆𝑢 = Poder
calorífico superior em base úmida [𝑘𝐽/𝑘𝑔𝑏𝑢]; 𝑊𝑢 𝑒𝑞𝑢𝑖 = Umidade de equilíbrio em base úmida
[𝑘𝑔𝑎𝑔𝑢𝑎/𝑘𝑔𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎].
Para dimensionamento dos sistemas e projeto dos equipamentos de recuperação
energética, utiliza-se o valor do poder calorífico inferior. O seu cálculo pode ser realizado para
as condições de laboratório e do aterro, respectivamente, conhecendo-se as umidades dos
resíduos nessas duas situações e a fração mássica de hidrogênio, determinada a partir da
análise elementar. As equações 2.4 e 2.5 podem ser utilizadas para a conversão do poder
calorifico superior em poder calorífico inferior em base seca e base úmida, respectivamente
(MARTINS, 2016):
𝑃𝐶𝐼𝑠 = 𝑃𝐶𝑆𝑠 − (9𝐻𝑠ℎ𝑙𝑣) (2.4)
𝑃𝐶𝐼𝑢 = [(𝑃𝐶𝑆𝑠 − ℎ𝑙𝑣 × (𝑊𝑠 + 9𝐻𝑠)). (1 −𝑊𝑢)] (2.5)
Em que: 𝑃𝐶𝐼𝑠 = Poder calorífico inferior em base seca [𝑘𝐽/𝑘𝑔𝑏𝑠]; 𝑃𝐶𝐼𝑢 = Poder calorífico
inferior em base úmida [𝑘𝐽/𝑘𝑔𝑏𝑢]; 𝑃𝐶𝑆𝑠 = Poder calorífico superior em base seca [𝑘𝐽/𝑘𝑔𝑏𝑠]; 𝑊𝑠
= Umidade em base seca [𝑘𝑔𝑎𝑔𝑢𝑎/𝑘𝑔𝑀𝑎𝑡é𝑟𝑖𝑎𝑆𝑒𝑐𝑎]; 𝑊𝑢 = Umidade em base úmida
CAPÍTULO 2
70
[𝑘𝑔𝑎𝑔𝑢𝑎/𝑘𝑔𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎]; ℎ𝑙𝑣 = Entalpia de condensação da água = 2,442 𝑀𝐽/𝑘𝑔 𝑎 25𝑜𝐶; 𝐻𝑠 = Fração
mássica de hidrogênio na biomassa [𝑘𝑔𝐻/𝑘𝑔𝑀𝑎𝑡𝑒𝑟𝑖𝑎𝑆𝑒𝑐𝑎].
Na Tabela 2.9 são apresentados os valores de umidade, em base trabalho, PCS e PCI
experimentais obtidos para cada uma das categorias combustíveis das amostras de resíduos
úmidos do município de Santo André (GUTIERREZ GOMEZ, 2016; DRUDI, 2017).
Tabela 2.9. Valores de umidade, PCS e PCI das categorias combustíveis dos resíduos do
município de Santo André/SP obtidas na campanha gravimétrica realizada entre
setembro/2015 e fevereiro/2016
RSU ÚMIDO (CATEGORIA)
Umidade
(%, b.u.)
PCS (b.s.)
MJ/kg
PCI (b.u.)
MJ/kg
Matéria orgânica 65,47 (±9,26) 15,78 3,37
Resíduos sanitários 30,51 (±10,31) 19,78 7,51
Plásticos 52,27 (±12,36) 33,36 22,48
Papel/papelão/Tetra Pak® 24,60 (±8,50) 33,36 10,66
Têxteis 32,26 (±11,93) 17,54 12,53
Valores médios 47,66 16,97 7,06
Legenda: b.s. = base seca; b.u. = base úmida
Fonte: Gutierrez Gomez (2016); Drudi (2017).
No que se refere aos valores do PCS e PCI médios dos RSU úmidos, para as
condições do laboratório, os valores estimados foram de 16,97 MJ/kg (b.s.) e 7,06 MJ/kg (b.u.).
Ressalta-se que os valores apresentados na Tabela 2.9, foram tratados com procedimentos
estatísticos, ou seja, excluindo-se valores atípicos, oriundos de erros de medições e/ou
equipamentos (DRUDI, 2017).
Os RSU úmidos do município apresentam um potencial energético valioso que pode
ser aproveitado para a recuperação de energia, além de ser condizente com aqueles
encontrados na literatura. Segundo Rand et al. (2000), o valor médio mínimo para cada estação
do ano não deve ser menor que 6 MJ/kg, neste contexto, o valor médio estimado dos resíduos
in natura do município de Santo André (7,06 MJ/kg) foi superior ao indicado pelo autor,
denotando um bom potencial de recuperação energética para a estação avaliada (primavera-
verão).
A incineradora VALORSUL, localizada em Lisboa-Portugal, trabalha com PCI médio
em base úmida mínimo de 5,8 MJ/kg e máximo de 10,46 MJ/kg. Nesta central de recuperação
energética são tratadas todas as frações de resíduos da coleta indiferenciada de Lisboa e
CAPÍTULO 2
71
região, ou seja, não existe uma triagem dos resíduos que chegam à central. Desta forma, pode-
se dizer que, para processos termoquímicos, valores de PCI superiores ao valor mínimo
reportado pela VALORSUL são indicados para os processos termoquímicos (VALORSUL,
2020).
2.5.1.5.2 Estimativa do PCI por modelos preditivos
Conforme exposto anteriormente, a determinação experimental do poder calorífico dos
resíduos sólidos urbanos pode ser realizada em bomba calorimétrica. Entretanto, na maioria
das vezes, a análise de amostras estatisticamente representativas, além de muito dispendiosa,
exige mão de obra qualificada e apresenta altos custos, desde a coleta e processamento das
amostras até as análises laboratoriais.
A fim de minimizar os custos associados à avaliação experimental, a estimativa do
potencial energético visando à aplicação das categorias combustíveis de RSU na rota
termoquímica pode ser realizada por modelos estatísticos, que têm como principal objetivo
estimar o PCI a partir de suas características físicas e/ou químicas, sem a frequente
necessidade de medições experimentais (DRUDI, 2017).
Na literatura, são encontrados diversos modelos para predizer os valores de poder
calorífico a partir da composição física (análise gravimétrica), composição química (análise
elementar) e a composição imediata. No entanto, a utilização dos mesmos deve ser feita de
forma cautelosa, uma vez que, em boa parte desses modelos há falta de informação sobre as
condições para as quais foram elaborados: se em base seca ou base úmida, quais foram as
frações utilizadas no agrupamento para determinação dos coeficientes, qual a umidade
considerada (equilíbrio ou in natura), dentre outras (DRUDI et al., 2019).
Além disso, considerando-se que há uma grande variação na composição dos
resíduos entre as regiões, pode-se incorrer em erros consideráveis ao se adotar um modelo
desenvolvido para uma determinada localidade aos resíduos de outra. Sendo assim, tornam-
se desejáveis modelos para predição do poder calorífico dos resíduos sólidos urbanos que
sejam construídos a partir das medições empíricas dos resíduos brasileiros.
No estudo realizado por Drudi et al. (2019), foi desenvolvido um modelo estatístico
para a predição do PCI (Equação 2.6), considerando os dados de umidade média dos resíduos
e a composição gravimétrica das categorias combustíveis do RSU da cidade de Santo
André/SP. Esse modelo pode ser utilizado como subsídio para estudos correlatos no país e em
locais cujas características dos resíduos sejam semelhantes, seja para o dimensionamento de
CAPÍTULO 2
72
plantas de tratamento de resíduos com recuperação energética ou para qualquer outro objetivo
de interesse.
𝑃𝐶𝐼𝑢 = [(15,42 ∙ 𝑀0 + 19,14∙ 𝑆 + 32,68 ∙ 𝑃𝑙 + 8,33 ∙ 𝑃𝑎 + 21,51 ∙ 𝑇) ∙ (1 −𝑊𝑢)] − (2,442 ∙ 𝑊𝑢)
(2.6)
Em que: 𝑃𝐶𝐼𝑢 = Poder calorífico inferior em base úmida (MJ/kg); 𝑀𝑜 = Fração Orgânica:
Resto de alimentos + podas (
𝑘𝑔𝑓𝑟𝑎çã𝑜
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
); 𝑆 = Fração de Sanitários: Resíduos sanitários + fraldas
(
𝑘𝑔𝑓𝑟𝑎çã𝑜
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
); 𝑃𝑙 = Fração de Plásticos (
𝑘𝑔𝑓𝑟𝑎çã𝑜
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
); 𝑃𝑎 = Fração Papel branco + papelão + jornais +
revistas + tetra-pack (
𝑘𝑔𝑓𝑟𝑎çã𝑜
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
); 𝑇 = Fração de Tecidos (
𝑘𝑔𝑓𝑟𝑎çã𝑜
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
); 𝑊 = Umidade (
𝑘𝑔á𝑔𝑢𝑎
𝑘𝑔 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙
).
Para efeitos de comparação dos resultados da aplicação de modelos preditivos nos
dados dos resíduos do município de Santo André, além do modelo proposto por Drudi et al.
(2019), foram aplicados outros dois modelos baseados na composição física, disponíveis na
literatura, para estimativa do PCI (equações 2.7 e 2.8):
𝑃𝐶𝐼𝑠 = 2229,91 + 7,90𝑃𝑝𝑎 + 28,16𝑃𝑝𝑙 + 4,87𝑃𝑔𝑎 − 37,28𝑊 𝑒𝑚 (𝑘𝑐𝑎𝑙/𝑘𝑔) (2.7)
(CHANG et al., 2007)
𝑃𝐶𝐼𝑠 = [41,1(𝑃𝑝𝑙 + 𝑃𝑟𝑢) + 22,9𝑃𝑓𝑜 + 20,7𝑃𝑝𝑎 − 4,5𝑊] 𝑒𝑚 (
𝑘𝐽
𝑘𝑔
) (2.8)
(ZHOU et al., 2014)
Ambas as equações (2.7 e 2.8) predizem o PCI em base seca, sendo necessária sua
conversão para base úmida, para fins de comparação com os dados experimentais obtidos
para os resíduos de Santo André. Os resultados estão apresentados na Tabela 2.10, todos
convertidos para MJ/kg.
CAPÍTULO 2
73
Tabela 2.10. Comparação entre os valores do 𝑷𝑪𝑰𝒖 experimental e predito por modelos da
literatura para os resíduos sólidos urbanos do município de Santo André, considerando-se a
composição gravimétrica da campanha realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016
Equação Fonte
𝑷𝑪𝑰𝒖_𝒆
(MJ/kg)
𝑷𝑪𝑰𝒖
(MJ/kg)
MAPE ABE
2.6 Drudi et al. (2019) 7,06
7,06
6,44% 0,73%
2.7 Chang et al. (2007) 9,28 41,11% 39,37%
2.8 Zhou et al. (2014) 6,69 14,28% -4,46%
Legenda: (i) 𝑃𝐶𝐼𝑢_𝑒 = PCI em base úmida, estimado pelos modelos da literatura; (ii) 𝑃𝐶𝐼𝑢 =
Valor médio do PCI em base úmida da amostra composta pelas cinco frações combustíveis
dos resíduos sólidos urbanos do município de Santo André; (iii) MAPE (Mean Absolute
Percentage Error) é a média das diferenças entre os valores medidos experimentalmente em
relação aos preditos pelo modelo; (iv) ABE (Average Bias Error) = enviesamento dos erros
das predições do modelo.
De acordo com os dados da Tabela 2.10, para o modelo proposto por Drudi et al. (2019),
o PCI foi de 7,06 MJ/kg, com índice MAPE de 6,44% avaliado como excelente (menor que
10%) (CHANG et al., 2007) e índice ABE 0,73%, apresentando um leve viés de alta. A equação
2.6 foi a que apresentou os melhores índices de adequação e performance do modelo, o que
era esperado, uma vez que ela foi elaborada a partir dos mesmos dados experimentais dos
resíduos do município de Santo André.
A aplicação da equação 2.7 resultou em um PCI de 9,28 MJ/kg, com índice MAPE
41,11% e índice ABE de 39,37%. Para Chang et al. (2007), MAPE entre 20% e 50% são
aceitáveis, ao passo que o índice ABE significa que este modelo está predizendo um valor
39,37% maior do que o valor determinado a partir dos dados experimentais (medidos), portanto,
apresenta um viés de alta.
A diferença, nesse caso, dentre outros fatores, pode ser justificada pelo fato de o modelo
representado pela equação (2.7) apresentar um coeficiente linear em sua estrutura matemática.
Os modelos estatísticos elaborados com esses termos podem apresentar resultados
matematicamente excelentes para os coeficientes de correlação e determinação, bem como
para outras análises estatísticas, quando aplicados aos dados experimentais que os
originaram. No entanto, nem sempre sua aplicação prática é adequada. Por exemplo, no caso
da equação 2.7, mesmo que os resíduos não possuam materiais em sua composição, o modelo
irá predizer um PCI de 2229,91 kcal/kg.
Na equação 2.8 o valor de PCI (base úmida) foi 6,69 MJ/kg, com MAPE de 14,28%,
considerado um modelo com boa adequação (CHANG et al., 2007), e um índice ABE de -
CAPÍTULO 2
74
4,46%, o que mostra que o modelo tem um viés de baixa, ou seja, prediz um valor menor do
que o experimental. Esta diferença, dentre outros fatores, pode ser explicada pelo fato de o
modelo ser baseado em mais categorias combustíveis do que as que foram classificadas em
Santo André como, por exemplo, a borracha. Dessa forma, era esperado que o seu valor fosse
menor do que o determinado experimentalmente.
As diferenças observadas corroboram com a necessidade de se utilizar modelos
elaborados a partir de dados experimentais similares em composição e características de
geração, para que as frações neles contidas possam ser agrupadas nas mesmas categorias
combustíveis, que são representadas pelos coeficientes do modelo.
Os modelos aqui utilizados foram equações baseadas na composição gravimétrica dos
resíduos para estimar o poder calorífico. Na literatura, estão disponíveis outros modelos para
o mesmo fim, porém, com necessidade de informações diferentes, como a composição
imediata ou a composição elementar. A utilização dessas equações também deve ser feita com
atenção, pelos mesmos problemas relatados para os modelos baseados na composição física.
2.5.2 Rota Bioquímica: parâmetros fundamentais para a caracterização da fração
orgânica dos resíduos (FORSU)
A biodigestão anaeróbia ocorre de forma espontânea quando os RSU são dispostos em
aterros sanitários, que funcionam como uma espécie de reator; mas também pode se dar de
forma controlada em reatores desenvolvidos em escalas laboratoriais e industriais, a fim de
proporcionar as condições ideais para o tratamento da fração orgânica dos RSU e maximizar
a produção de gás metano.
O aproveitamento energético do biogás produzido em aterros sanitários constitui uma
prática já realizada no Brasil, como, por exemplo, os Aterros Sanitários Bandeirantes, São João
e Essencis, localizados na Região Metropolitana de São Paulo (SP). Porém, ainda são raros
os reatores anaeróbios, em escala comercial, operantes para a biodigestão da fração orgânica
de resíduos sólidos urbanos. Esses sistemas são desejáveis em um processo sustentável de
tratamento dos RSU com recuperação energética e devem, necessariamente, ter início na
coleta seletiva, com a segregação da FORSU e direcionamento para um sistema diferenciado
de tratamento.
Para o dimensionamento desses sistemas, é fundamental o conhecimento das
propriedades da FORSU, que será o substrato do processo. Além da umidade e da composição
elementar, que já foram citadas no processo termoquímico, para o processo bioquímico é
CAPÍTULO 2
75
necessário o conhecimento de outros parâmetros, a fim de avaliar a máxima produção de
biometano que pode ser obtida do substrato. Estas propriedades e suas normas específicas
estão apresentadas no Quadro 2.6. Todas as análises devem ser realizadas em triplicata, à
exceção da umidade, que deve ser determinada em quintuplicata para minimização do erro
experimental.
Quadro 2.6. Parâmetros fundamentais e metodologias específicas a serem considerados nos
processos bioquímicos
ANÁLISE NORMA
Umidade Standard Methods EPA 2540G (EPA, 1997)
Composição Elementar Standard Methods ASTM (1982) E 870-06
Série de sólidos
Standard Methods EPA 2540-B (EPA, 1997)
EPA 2540B
Standard Methods EPA 2540-G (EPA, 1997)
Carbono orgânico total
Standard Methods 5310B e na EPA 9060A (EPA,
2004)
Nitrogênio Kjedahl
Metodologia 960.52 – Microchemical
determination of Nitrogen Micro-Kjeldahl Method,
da A.O.A.C. (AOAC, 1998)
Composição centesimal
Lipídios
Norma 960.02 da Association of Official
Analytical Chemistry (AOAC, 1990)
Proteínas
Metodologia 960.52 – Microchemical
determination of Nitrogen Micro-Kjeldahl Method,
da AOAC International (AOAC, 1998)
Fibrasde composição e de poder calorífico do biogás quando se utiliza
sistemas projetados inicialmente para gás natural e processos de purificação do biogás.
E finalmente, o Cap. 10 discute questões ligadas à gestão, legislação e políticas
públicas relacionadas ao tratamento de resíduos sólidos urbanos em conjunto com o
aproveitamento de seu potencial energético. Nesse capítulo discutem-se formas de gestão,
legislação, agências reguladoras do setor de saneamento e de energia, políticas públicas,
indicadores de sustentabilidade e diagnóstico integrado. Apresentam-se as fontes de dados
para se planejar consórcios intermunicipais de geração de energia a partir de RSU e diversos
tipos de ferramentas para gestão, planejamento e condução estratégica.
Como se vê, o livro trata de diferentes formas de como aproveitar a energia contida nos
resíduos sólidos urbanos reduzindo impactos ambientais, emissão de poluição, emissão de
gases do efeito estufa e viabilizando uma economia circular. Em outras palavras, apresenta um
conjunto de tecnologias sustentáveis para o tratamento dos resíduos sólidos urbanos. Os
autores desse livro, assim, buscam contribuir para estimular o aproveitamento energético
sustentável dos resíduos sólidos urbanos no Brasil. Nos próximos capítulos o leitor vai
vii
encontrar discussões aprofundadas sobre tecnologias que viabilizam a realização dessa
política pública no País.
Finalmente, os autores expressam seu agradecimento pelo apoio financeiro da
PETROBRAS S.A. efetivado através do Projeto intitulado “Arranjos Técnicos e Comerciais para
Inserção da Geração de Energia Elétrica a partir do Biogás oriundo de Resíduos e Efluentes
Líquidos na Matriz Energética Brasileira”, aprovado na Chamada de Projetos de P&D
Estratégico n° 014/2012 da ANEEL, desenvolvido entre outubro de 2013 e junho de 2018, e
que possibilitou a conclusão de várias dissertações de mestrado e teses de doutorado, cujos
resultados são apresentados em vários capítulos dessa obra.
João Manoel Losada Moreira
SUMÁRIO
viii
SUMÁRIO
PREFÁCIO ............................................................................................................................................ i
1 INOVAÇÃO TECNOLÓGICA E SUSTENTABILIDADE ....................................................................... 1
1.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 1
1.2 RECURSOS NATURAIS, REJEITOS ECONÔMICOS E REJEITOS AMBIENTAIS .......................................... 2
1.3 ECONOMIA CIRCULAR OU COM RECICLAGEM ............................................................................ 3
1.4 REGRAS PARA UMA ECONOMIA CIRCULAR SUSTENTÁVEL............................................................. 4
1.5 INOVAÇÃO TECNOLÓGICA PARA VIABILIZAR A SUSTENTABILIDADE ................................................. 6
1.6 COMENTÁRIOS FINAIS ......................................................................................................... 7
1.7 SÍNTESE DO CAPÍTULO ......................................................................................................... 8
1.8 REFERÊNCIAS..................................................................................................................... 8
2 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS: AMOSTRAGEM, PREPARO E CARACTERIZAÇÃO PARA
RECUPERAÇÃO ENERGÉTICA........................................................................................................... 10
2.1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 10
2.2 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS ............................................................................................ 12
2.2.1 Definição e Classificação ............................................................................... 12
2.2.2 Resíduos Sólidos Urbanos como fonte de energia ........................................ 15
2.3 COMPOSIÇÃO GRAVIMÉTRICA DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS ................................................ 17
2.3.1 Conceito de composição gravimétrica .......................................................... 17
2.3.2 Variáveis de Influência .................................................................................. 22
2.4 AMOSTRAGEM – COMO COLETAR AMOSTRAS REPRESENTATIVAS DA POPULAÇÃO .......................... 24
2.4.1 Tipos de Amostragem ................................................................................... 26
2.4.2 Parâmetros para a determinação do tamanho de amostras ........................ 27
2.4.3 Coleta de amostras, registro de dados e duração do período de amostragem
30
2.4.4 Metodologia de amostragem para análise da composição gravimétrica .... 31
2.4.5 Planejamento de amostragem de resíduos sólidos urbanos para
determinação da sua composição gravimétrica ...................................................... 37
2.4.6 Trabalho de campo ....................................................................................... 46
SUMÁRIO
ix
2.5 CARACTERIZAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS DOMICILIARES PARA RECUPERAÇÃO ENERGÉTICA POR
DIFERENTES ROTAS TECNOLÓGICAS: PARÂMETROS FUNDAMENTAIS .................................................... 56
2.5.1 Rota Termoquímica: parâmetros fundamentais para caracterização dos
resíduos .................................................................................................................... 58
2.5.2 Rota Bioquímica: parâmetros fundamentais para a caracterização da fração
orgânica dos resíduos (FORSU) ................................................................................ 74
2.6 SÍNTESE DO CAPÍTULO ....................................................................................................... 86
2.7 REFERÊNCIAS................................................................................................................... 87
3 COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO .................................................................................... 95
3.1 CONTEXTUALIZAÇÃO ......................................................................................................... 95
3.2 DEFINIÇÃO DE COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO ............................................................... 97
3.3 TECNOLOGIAS DE PROCESSAMENTO DE RESÍDUOS PARA OBTENÇÃO DE COMBUSTÍVEL DERIVADO DE
RESÍDUO ............................................................................................................................... 100
3.4 CARACTERIZAÇÃO DE COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO .................................................... 112
3.5 APLICAÇÕES DO COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO ......................................................... 118
3.6 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 125
3.7 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 125
4 POTENCIAL DE GERAÇÃO DE BIOGÁS EM ATERRO SANITÁRIO: APROVEITAMENTO DE METANO
– DESAFIOS, ESTRATÉGIAS E POTENCIALIDADES .......................................................................... 133
4.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 133
4.2 RESÍDUOS SÓLIDOS E ATERROS SANITÁRIOS .......................................................................... 135
4.3 GERAÇÃO DE BIOGÁS E METANO EM ATERROS SANITÁRIOS ..................................................... 141
4.4 OXIDAÇÃO DE METANO NA CAMADA DE COBERTURA EM ATERRO SANITÁRIO .............................. 145
4.5 DISTRIBUIÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DE METANO EM UM ATERRO SANITÁRIO ............................... 146
4.6 MODELOS TEMPORAIS DE TAXA DE GERAÇÃO DE METANO EM ATERROS SANITÁRIOS .................... 154
4.6.1Método n° 985.29 (AOAC, 1985)
Carboidratos Por diferença
Fonte: Elaborado pelos autores
Nos próximos tópicos serão descritas, para cada uma das propriedades listadas no
Quadro 2.6, as metodologias indicadas para sua determinação em laboratório e, ao final, serão
apresentados os valores médios dessas propriedades, obtidos pelos autores em amostras
estatisticamente representativas da fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos do município
de Santo André, localizado na Grande São Paulo.
A FORSU das amostras dos resíduos úmidos, bem como da CRAISA (Companhia
Regional de Abastecimento Integrado de Santo André) e das feiras livres foram analisadas por
Silva (2016) e Marana (2017) para determinação de suas propriedades físicas e químicas
CAPÍTULO 2
76
visando o aproveitamento energético em processos bioquímicos. As amostras foram obtidas
em campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016.
2.5.2.1 Série de Sólidos
A análise de série de sólidos compreende a determinação dos teores de sólidos totais,
voláteis e fixos da FORSU. Os sólidos totais são definidos como o percentual de sólidos
contidos na massa total do substrato e devem ser determinados para a FORSU na forma como
ela chega ao aterro sanitário. A determinação é feita por meio da Equação 2.9, a partir da
determinação da umidade, obtida conforme os procedimentos descritos no Tópico 2.5.1.1.
𝑆𝑇(%) = 100 − 𝑈𝑏𝑢(%) (2.9)
Em que: 𝑆𝑇 = Sólidos totais [
𝑘𝑔𝑠ó𝑙𝑖𝑑𝑜𝑠
𝑘𝑔𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎
%]; 𝑈𝑏𝑢 = Umidade em base úmida [
𝑘𝑔𝑎𝑔𝑢𝑎
𝑘𝑔𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎
].
Os sólidos contidos no substrato podem ser quimicamente classificados como sólidos
voláteis ou fixos. A fração biodegradável da FORSU, ou seja, aquela que pode ser decomposta
pelos microrganismos no processo de biodigestão anaeróbia, é representada pela fração de
sólidos voláteis (SV). A porção não biodegradável do substrato é composta pelos sólidos fixos
(SF).
Para a determinação da série de sólidos, primeiramente deve-se determinar a umidade
de equilíbrio da amostra, ou seja, a umidade absorvida por ela durante o seu armazenamento.
O procedimento a ser seguido é o mesmo descrito no Tópico 2.5.1.1, definido pela metodologia
Standard Methods EPA 2540-B (EPA, 1997).
Em seguida, conforme a metodologia Standard Methods EPA 2540-G (EPA, 1997),
uma amostra de massa conhecida do substrato, após a secagem, deve ser levada a uma mufla
à temperatura de 550°C± 25ºC, até que atinja peso constante. Ao final desse processo, a fração
que permanece no cadinho corresponde aos sólidos fixos. Os sólidos voláteis são calculados
por diferença, conforme a Equação 2.10.
𝑆𝑉(%, 𝑏𝑠) = 100 − 𝑆𝐹(%, 𝑏𝑠) (2.10)
Em que: 𝑆𝑉 = Sólidos voláteis [
𝑘𝑔𝑆𝑉
𝑘𝑔𝑆𝑇
%,𝑏𝑠]; 𝑆𝐹 = Sólidos fixos [
𝑘𝑔𝑆𝐹
𝑘𝑔𝑆𝑇
%,𝑏𝑠].
Os sólidos voláteis de uma amostra fornecem, a partir de uma metodologia simples e
de baixo custo, uma primeira indicação da sua biodegradabilidade, ou seja, da possibilidade do
seu tratamento por biodigestão anaeróbia. Adicionalmente, são uma propriedade fundamental
CAPÍTULO 2
77
para o dimensionamento dos parâmetros desse processo, constituindo a base para cálculos
essenciais, como a proporção entre substrato e inóculo e a avaliação do potencial de produção
de metano.
Na Figura 2.17 são apresentados os resultados médios correspondentes à umidade
em base de trabalho e os sólidos totais (ST), sólidos voláteis (SV) e sólidos fixos (SF) das
amostras da FORSU proveniente da coleta indiferenciada, das feiras livres e da CRAISA do
município de Santo André
Figura 2.17. Umidade e séries de sólidos de amostras da FORSU provenientes da coleta
indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município de Santo André/SP, coletadas durante a
campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016.
Fonte: Adaptado de Silva (2016).
De acordo com os resultados apresentados na Figura 2.17, observa-se que quando se
tem um resíduo com elevado teor de água em sua composição, como frutas, verduras e
hortaliças, presentes principalmente nos resíduos de feira e CRAISA, maior será a umidade da
fração orgânica. Além disso, os valores encontrados para as diferentes origens – rotas de coleta
de resíduos úmidos domiciliares e comerciais, feiras livres e CRAISA – satisfazem o critério
para uma biodigestão anaeróbia com bons resultados para geração de biometano (SILVA,
2016).
Silva (2016) ainda destaca que os resíduos das feiras e da CRAISA apresentaram
maiores teores de SV em relação às rotas (úmidos). Entretanto, sob a perspectiva dos valores
CAPÍTULO 2
78
de SV, a fração orgânica dos resíduos provenientes de todas as fontes geradoras
apresentaram características adequadas para a produção de biogás.
2.5.2.2 Razão Carbono/Nitrogênio
A razão entre os teores de Carbono e Nitrogênio (razão C/N) do substrato é um dos
parâmetros fundamentais para a estabilidade do processo de biodigestão anaeróbia. O carbono
orgânico é a fonte de energia dos microrganismos, ao passo que o nitrogênio tem o papel
essencial no seu metabolismo, atuando na formação das enzimas. A razão ideal entre esses
nutrientes, no processo de biodigestão anaeróbia, situa-se entre 20 e 30. Elevadas razões C/N
acarretam um baixo crescimento dos microrganismos, ao passo que baixos valores podem
favorecer a produção de amônia. Para o cálculo da razão C/N, é necessário determinar os
teores de Carbono Orgânico Total (COT) e Nitrogênio Kjeldahl.
O conhecimento da concentração de COT fornece também um indicativo da
biodegradabilidade da amostra, pois, dentre os tipos de carbono presentes na composição da
amostra, apenas o orgânico pode ser degradado via biodigestão anaeróbia. A determinação
desse parâmetro segue as metodologias estabelecidas pela Standard Methods 5310B e EPA
9060A (EPA, 2004). A análise é realizada em equipamento apropriado, no qual realiza-se uma
combustão completa da amostra, à temperatura de 900ºC. A quantidade de Carbono Orgânico
Total (COT) é determinada por diferença, a partir da medição de teores de carbono total e
inorgânico, subtraindo-se a quantidade de carbono inorgânico da de carbono total.
O teor de nitrogênio é também fundamental na estimativa da quantidade de proteína
que há na amostra avaliada. A sua determinação pode ser realizada pelo método de Kjeldahl,
utilizando a metodologia 960.52 – Microchemical determination of Nitrogen Micro-Kjeldahl
Method, da A.O.A.C. (AOAC, 1998). A concentração de nitrogênio obtida por esse método é
denominada Nitrogênio Kjeldahl. Nesse método, primeiramente realiza-se a extração dos
lipídios da amostra pelo método Soxhlet, que é, em seguida, digerida em meio ácido na
presença de um agente catalisador, neutralizada em meio alcalino em um destilador e, por fim,
titulada em meio ácido, resultando no teor de nitrogênio que compõe a amostra avaliada.
Na Figura 2.18 são observados os valores médios das concentrações mássicas de
Carbono Total, Nitrogênio Kjeldahl e da razão C/N para as amostras de FORSU provenientes
da coleta indiferenciada, da CRAISA e das feiras livres do município de Santo André/SP.
CAPÍTULO 2
79
Figura 2.18. Teores médios de Nitrogênio Kjehdal, Carbono Orgânico Total e razão C/N nas
amostras de FORSU oriundas da coleta indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município
de Santo André/SP, provenientes da campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e
fevereiro/2016.
Fonte: Adaptado de Silva (2016).
Considerando que a faixa ótima da razão C/N é de 20 a 30, de acordo com esse
parâmetro, os valores apresentados na Figura 2.18 mostram que a FORSU dos resíduos do
município de Santo André, independente da sua origem, demonstram um bom potencial para
produção de biogás. As concentrações de Carbono e Nitrogênio também foram próximas,
sendo que as amostras provenientes da coleta indiferenciada apresentaram maiores teoresde
nitrogênio, indicando uma maior presença de material proteico (SILVA, 2016).
2.5.2.3 Composição Centesimal
A fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos é composta, majoritariamente, por
restos alimentares e resíduos de poda que têm, em sua composição, basicamente, uma
combinação de carboidratos, proteínas, lipídios e fibras. A concentração mássica desses
elementos é denominada composição centesimal.
As metodologias utilizadas nesta etapa de caracterização são usualmente empregadas
na caracterização de alimentos. As análises devem ser realizadas com amostras secas do
substrato, para que os resultados sejam obtidos em base seca.
CAPÍTULO 2
80
✓ Lipídios: os lipídios constituem uma parte importante de compostos dentro de uma
classe que inclui os óleos, as gorduras e as ceras. A determinação de lipídios pode
ser realizada a partir do Método de Soxhlet estabelecido na norma 960.02 da
Association of Official Analytical Chemistry (AOAC, 1990). Nesta metodologia é
realizada a extração a quente dos lipídios, utilizando éter de petróleo como
solvente. O teor dos óleos e gorduras corresponde ao peso do resíduo
remanescente após a evaporação do solvente.
✓ Proteínas: a determinação da concentração de proteínas se dá a partir da
metodologia 960.52 – Microchemical determination of Nitrogen Micro-Kjeldahl
Method, da AOAC International (AOAC, 1998), realizada pelo método de Kjeldahl,
após a retirada da fração lipídica da amostra. Nesta análise o teor de proteínas é
determinado a partir da concentração de nitrogênio na amostra, multiplicado por
um fator de correção que varia de acordo com a proteína avaliada. No caso da
FORSU, recomenda-se utilizar o valor 6,25 que corresponde a carnes em geral e
alimentos com mistura de proteína animal e vegetal – composição mais semelhante
ao que é encontrado na FORSU durante o processo de gravimetria.
✓ Fibras: a determinação do teor de fibra alimentar, composta pela fibra alimentar
solúvel e a fibra alimentar insolúvel, é realizada tendo por base o método AOAC
985.29 (1985) (enzimático-gravimétrico).
✓ Carboidratos: após a realização de todas as análises de composição centesimal
apresentadas até aqui, o teor de carboidratos das amostras pode então ser
determinado por diferença entre a totalidade da amostra subtraindo-se os teores
de lipídios, proteínas, fibras e cinzas – obtida a partir da análise imediata – ASTM
E 830-87 (1996), em porcentagem mássica (base seca).
Para a composição centesimal, no trabalho de Silva (2016), foram realizadas as
análises de lipídios e proteínas e os teores de carboidratos e fibras foram determinados por
diferença. Os resultados podem ser visualizados na Figura 2.19 para a FORSU dos resíduos
úmidos provenientes da coleta indiferenciada, feiras livres e CRAISA.
CAPÍTULO 2
81
Figura 2.19. Teores médios de Lipídeos, Proteínas e Carboidratos+Fibras nas amostras de
FORSU oriundas da coleta indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município de Santo
André/SP, provenientes da campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e
fevereiro/2016.
Fonte: Adaptado de Silva (2016).
De acordo com a Figura 2.19, nota-se que as FORSU oriundas das rotas de coleta
indiferenciada apresentaram mais lipídios e proteínas que as provenientes da CRAISA e das
feiras livres, como era esperado, dada a composição desses dois últimos, que é constituída,
basicamente, por alimentos não processados e com baixos teores de lipídios, como frutas e
hortaliças (SILVA, 2016).
Os dados da Figura 2.19 também mostram uma diferença de cerca de 20% no teor de
carboidratos e fibras da fração orgânica dos resíduos domiciliares, quando comparada à das
feiras livres e CRAISA. Essa diferença, além do maior teor de lipídios e proteínas, deve-se à
maior concentração de material mineral (cinzas) nas amostras provenientes da coleta
indiferenciada, possivelmente provocada pelo contato com materiais de composição variada.
Pode-se atribuir essa diferença também à maior velocidade de decomposição dos carboidratos
simples contidos nos restos alimentares processados, que pode ter ocorrido no trajeto dos
caminhões até o aterro sanitário.
CAPÍTULO 2
82
2.5.2.4 Estimativa do Potencial Bioquímico de Metano (PBM)
O Potencial Bioquímico de Metano (PBM) é uma medida do volume de metano que
pode ser obtido por unidade de massa de sólidos voláteis de determinado substrato, em
mLCH4/gSV, em um processo de biodigestão anaeróbia. Trata-se de uma informação
imprescindível para a avaliação do potencial de produção de metano a partir da FORSU, bem
como para o dimensionamento do sistema para aproveitamento do gás resultante desse
processo.
Existem diferentes métodos para estimar o PBM. O potencial de produção de metano
pode ser obtido experimentalmente submetendo-se as amostras de RSU ao processo de
biodigestão anaeróbia, em condições laboratoriais, ou estimado teoricamente a partir dos
dados resultantes das análises de caracterização das amostras de frações de RSU.
Os métodos teóricos são baseados em modelos empíricos que permitem estimar o
PBM a partir de dados da composição química e bioquímica dos resíduos. A sua aplicabilidade
é reconhecida por permitirem estimar a máxima produção de metano a partir do substrato em
estudo, sob condições ideais, em função da sua composição. Na prática, entretanto, uma série
de outros fatores interferem nessa produção. A presença de materiais lignocelulósicos, que são
de difícil degradação, os parâmetros de processo e a adaptação dos microrganismos ao
substrato interferem muito no valor do PBM encontrado na prática. Nesses casos, os métodos
experimentais fornecem valores mais próximos dos que serão observados no processo.
2.5.2.4.1 Métodos teóricos de determinação do Potencial Bioquímico de Metano
O PBM obtido por modelos empíricos fornece um parâmetro de referência para o
projeto do sistema de biodigestão anaeróbia e até mesmo para a condução dos ensaios
laboratoriais. A vantagem desses métodos é que os resultados podem ser obtidos por meio de
análises mais rápidas e menos dispendiosas do que os ensaios laboratoriais. A estimativa do
PBM pode ser realizada a partir de dados da composição elementar ou da composição
centesimal dos substratos.
Estimativa teórica do PBM pela composição elementar
A estimativa do PBM pela composição elementar tem como base a estequiometria da
reação. Segundo Achinas e Euverink (2016), Boyle modificou a Equação da reação
originalmente proposta por Buswell e Mueler (1952), incluindo os elementos Nitrogênio e
Enxofre, de forma a predizer a formação da amônia e ácido sulfídrico. A reação proposta por
CAPÍTULO 2
83
Boyle está descrita na Equação 2.11 (ACHINAS e EUVERENIK, 2016). Por esse motivo, é
possível considerar o valor resultante como o potencial teórico máximo de conversão em
metano a partir do substrato em estudo.
𝐶𝑎𝐻𝑏𝑂𝑐𝑁𝑑𝑆𝑒 + (𝑎 −
𝑏
4
−
𝑐
2
+
3∙𝑑
4
+
𝑒
2
)𝐻2𝑂 → (
𝑎
2
+
𝑏
8
−
𝑐
4
−
3∙𝑑
8
−
𝑒
4
) 𝐶𝐻4 + (
𝑎
2
−
𝑏
8
+
𝑐
4
+
3∙𝑑
8
+
𝑒
4
) 𝐶𝑂2 + 𝑑 ∙ 𝑁𝐻3 + 𝑒𝐻2𝑆 (2.11)
A determinação da composição elementar do substrato deve ser realizada conforme o
método descrito no Tópico 2.5.1.3. O cálculo do PBMelementar teórico a partir da Equação (2.11)
pode, então, ser realizado segundo a Equação (2.12) (ACHINAS E EUVERINK, 2016)
𝑃𝐵𝑀𝑒𝑙𝑒𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑟 =
22,4∙(
𝑎
2
+
𝑏
8
−
𝑐
4
−
3𝑑
8
−
𝑒
4
)
12,017𝑎+1,0079𝑏+15,999𝑐+14,0067𝑑+32,065𝑒
(2.12)
Em que: PBMelementar = o potencial teórico máximo de produção de metano a partir da
composição elementar em [ml de CH4/g de SV adicionados]; a = número de átomos de Carbono
(C); b = número de átomos de Hidrogênio (H); c = número de átomos de Oxigênio (O); d =
número de átomos de Nitrogênio (N); e = o número de átomos de enxofre (S).
A estimativa do PBM máximo pela composição elementar não diferenciao material
biodegradável do não biodegradável, considerando que o substrato será degradado pelos
microrganismos em sua integridade. Pode-se afirmar, portanto, que esse método superestima
o PBM (NIELFA et al, 2015). Nesse sentido, a estimativa do PBM teórico pela composição
centesimal fornece resultados mais próximos dos valores reais.
Estimativa teórica do PBM pela composição centesimal
A estimativa do Potencial Bioquímico de Metano (PBM) pode ser obtida a partir da
composição centesimal do substrato, a qual é pode ser dividida em materiais facilmente
biodegradáveis – carboidrato, proteínas e lipídeos – e os de pouca biodegradabilidade –
materiais lignocelulósicos (fibras). A estimativa teórica do PBM pela composição centesimal
considera a degradabilidade dos diferentes componentes, fornecendo um resultado inferior ao
do PBMelementar, mais próximo do que seria atingido em condições de processo.
Lesteur et al. (2010) estimam, pela Equação de Bushwell, que a biodigestão anaeróbia
dos carboidratos resulte em 415 LCH4/kgSV. A das proteínas é um pouco mais produtiva,
apresentando um rendimento de 496 LCH4/kgSV. Porém, deve-se considerar que, em excesso,
podem acarretar o aumento da concentração de amônia, que é tóxica aos microrganismos.
Para as gorduras, os autores estimam que a degradação resulte em 1014 LCH4/kgSV, mas
CAPÍTULO 2
84
destacam que, na prática, elevadas concentrações de gordura podem ser inibidoras do
processo por serem prejudiciais à membrana bacteriana. Os carboidratos complexos, por sua
vez, precisam primeiramente ser degradados em monômeros para posteriormente serem
digeridos. A hemicelulose e a lignina não são facilmente degradadas sob condições anaeróbias
Considerando-se os parâmetros relatados por Lesteur et al. (2010), o potencial teórico
máximo a partir da composição centesimal da FORSU pode ser obtido pela Equação 2.13):
𝑃𝐵𝑀𝑐𝑒𝑛𝑡𝑒𝑠𝑖𝑚𝑎𝑙 =
[(415∙%𝑐𝑎𝑟𝑏𝑜𝑖𝑑𝑟𝑎𝑡𝑜𝑠)+(496 ∙%𝑝𝑟𝑜𝑡𝑒í𝑛𝑎𝑠)+(1014 ∙%𝑙𝑖𝑝í𝑑𝑖𝑜𝑠)]
100
(2.13)
Em que: PBMcentesimal = potencial teórico de produção de metano a partir da composição
centesimal em [ml de CH4/g de SV adicionados]; % carboidratos = teor de carboidratos
presente na amostra em [%]; % proteínas = teor de proteínas presente na amostra em [%]; %
lipídios = teor de lipídios presente na amostra em [%].
Pode-se afirmar, entretanto, que o valor calculado pela Equação 2.13 ainda é
superestimado, pois considera que haverá a degradação de todo o material orgânico presente
no substrato. Os modelos teóricos não preveem a interferência de fatores como as condições
de processo (por exemplo, temperatura, pH, agitação) e as necessidades nutricionais dos
microrganismos, que afetam os resultados da biodigestão anaeróbia. Além disso, esses
modelos desconsideram que parte do material biodegradável será utilizado para o crescimento
e manutenção dos microrganismos. Nesse sentido, a obtenção do PBM de forma experimental
fornece resultados mais precisos.
2.5.2.4.2 Potencial de Produção de Biometano Experimental
O ensaio do Potencial Bioquímico do Metano, do termo em inglês Biochemical
Methane Potential (BMP), determina, de forma experimental, a quantidade total de metano
(Volume de CH4) que pode ser gerada por unidade de massa de sólidos voláteis de
determinado substrato (massa de SV).
Diferentemente dos métodos que foram listados até o momento para a caracterização
dos substratos, não existe uma norma única e específica para a determinação do PBMexperimental.
Entretanto, a maior parte dos trabalhos desenvolvidos e publicados na área seguem os
procedimentos para caracterização e quantificação do volume de metano contidos na
recomendação da Associação Alemã de Engenheiros « Fermentation of organic materials –
characterization of the substrate, sampling, collection of material data, fermentation tests - VDI
4630 » (VEREIN DEUTSCHER INGENIEURE, 2006).
CAPÍTULO 2
85
De acordo com a VDI 4630, os ensaios devem ser conduzidos em triplicata, em
reatores de batelada, sob condições controladas, por um período de pelo menos 21 dias ou até
que se observe que a máxima produção de metano possível foi atingida. Com o objetivo de
acelerar o início do processo, devem ser utilizados os inóculos - microrganismos provenientes
de reatores de biodigestão anaeróbia que já estejam em operação contínua. Os inóculos são
misturados ao substrato em proporções pré-definidas entre suas concentrações de sólidos
voláteis (SVsubstrato/SVinóculode resíduos
sólidos urbanos (RSU), com aumento da reciclagem e das tecnologias para tratamento, estão
entre as principais metas dos países em desenvolvimento. No Brasil, cerca de 79 milhões de
toneladas de lixo são geradas anualmente, das quais 55% são destinadas aos aterros
sanitários e 45% ainda são depositadas em lixões ou aterros controlados (ABRELPE, 2019). A
Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS/Lei no 12.305/2010), instituída em 2010,
preconiza o tratamento dos resíduos antes da disposição final em aterros sanitários. As
tecnologias de tratamento de RSU com recuperação energética (processos bioquímicos e
termoquímicos) são desejáveis por reduzirem o volume destinado aos aterros e contribuírem
com a diversificação da matriz energética. A escolha do processo mais adequado e o
dimensionamento do sistema dependem de uma série de fatores, dentre eles, das propriedades
físicas e químicas dos RSU. Entretanto, os resíduos apresentam composição heterogênea e
variável em função das características de quem o produz e dos processos que compõem o
sistema de gestão integrada. Dessa forma, é fundamental o conhecimento das propriedades
CAPÍTULO 2
87
físicas e químicas dos resíduos locais a partir de amostras estatisticamente representativas.
Propriedades como umidade, composição imediata, composição elementar, série de sólidos e
poder calorífico permitem estimar o potencial teórico dos resíduos em processos
termoquímicos e bioquímicos de conversão energética. O primeiro passo para possibilitar essa
avaliação é a obtenção de uma amostra representativa e a determinação da sua composição
gravimétrica, que permite dividir os RSU em categorias combustíveis, com composições
homogêneas, tais como: orgânicos, sanitários, plásticos, têxteis, papel e papelão. Neste
capítulo, foram discutidas e apresentadas as metodologias para obtenção de amostras
estatisticamente representativas de resíduos sólidos urbanos, com o objetivo de prepará-las e
caracterizá-las com vistas aos processos de recuperação energética. Foram apresentadas
também as principais propriedades físicas e químicas que devem ser avaliadas para o
dimensionamento dos sistemas, bem como as metodologias disponíveis para essas análises.
Todos os métodos apresentados foram exemplificados a partir de dados reais coletados pelos
autores em um estudo de caso realizado no município de Santo André (SP).
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CAPÍTULO 3
95
3 COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO
Ana Maria Pereira Neto; Andrea Carolina Gutierrez Gomez; Rodolfo Sbrolini Tiburcio
3.1 CONTEXTUALIZAÇÃO
As práticas de reuso e reciclagem dos diversos produtos encontrados em resíduos
sólidos urbanos (RSU) são preferíveis aos processos de recuperação energética através de
rotas tecnológicas disponíveis e viáveis economicamente, como destacado na Lei nº
12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a qual destaca a disposição
final ambientalmente correta de resíduos na forma de rejeitos, ou seja, resíduos sólidos que,
esgotadas as possibilidades de tratamento e recuperação, não apresentam outra possibilidade
senão a disposição em aterros sanitários (BRASIL, 2010).
No entanto, parte dos produtos são recuperados através da reciclagem e outros são
encaminhados aos aterros sanitários ou destinados a locais ambientalmente irregulares
(vazadouros a céu aberto, fossas etc.), pois muitos encontram-se contaminados ou em estado
físico comprometido ou, ainda, possuem baixo valor de mercado. Além disso, as configurações
e a eficiência de tecnologias de coleta e separação de RSU desempenham um papel
fundamental no potencial de recuperação de resíduos, pois podem amplificar a qualidade dos
produtos segregados.
Em cenários nos quais a reciclagem e o reuso são inviáveis, dependendo das
propriedades físico-químicas e termofísicas dos produtos, estes podem ser processados e
empregados como combustível derivado de resíduo (CDR), sendo este uma fonte alternativa
para rotas termoquímicas de conversão energética (combustão, gaseificação, pirólise etc.),
podendo ser utilizada integralmente ou de forma complementar em segmentos industriais
como, por exemplo, cimenteiras, carvoarias, geradores de eletricidade e incineradores
(PETRECCA, 2014; CHANDRASEKHAR & PANDEY, 2020).
No contexto brasileiro, não há um mercado estruturado para processar CDR (produção,
comercialização e uso), apesar de benefícios socioambientais e econômicos em se obter
combustível a partir de RSU, em virtude da utilização de resíduos potencialmente interessantes
ao aproveitamento energético e que são majoritariamente destinados aos aterros sanitários.
Além disso, embora haja amplas linhas de pesquisa e entidades governamentais atuantes na
área de resíduos, o desenvolvimento de normas técnicas nacionais específicas para
CAPÍTULO 3
96
caracterização de RSU e CDR deve ser encorajado, buscando-se ampliara sustentabilidade
de rotas de destinação de resíduos. Em contrapartida, no contexto internacional, destaca-se a
existência de um conjunto de normas da American Society for Testing and Materials (ASTM –
Tabela 3.5) e do European Committee for Standardization (CEN – Tabela 3.6).
Em 2017, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo instituiu a Resolução
SMA nº 38/2017, onde são estabelecidas diretrizes gerais de licenciamento e operação de
sistemas de recuperação energética de combustível derivado de resíduos sólidos urbanos
(CDRU) em tecnologias de fornos de produção de clínquer, denotando a primeira legislação
sobre CDR a nível nacional (SÂO PAULO, ,2017).
Com relação às perspectivas futuras de uso de CDR no Brasil, destacam-se tendências
estabelecidas no Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PLANARES), previsto na Lei nº
12.305/2010. De acordo com o PLANARES, a recuperação energética de CDR é indicada como
promissora (Figura 3.1 – MMA, 2020; BRASIL, 2022). Além disso, para o ano 2050, com
referência ao ano 2014, espera-se diminuir em 40% o uso de coque de petróleo a partir do
emprego de resíduos industriais não perigosos, resíduos agrícolas e CDRU (SNIC, 2019). É
importante destacar que a regulamentação da recuperação energética como uma das formas
de destinação final ambientalmente adequada dar-se-á por intermédio da Portaria
Interministerial nº 274/2019 (BRASIL 2019).
Figura 3.1. Tendências de uso de combustível derivado de resíduo no contexto brasileiro.
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 3
97
3.2 DEFINIÇÃO DE COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO
Mundialmente, duas terminologias são empregadas para CDR: refuse-derived fuel
(RDF) e solid recovered fuel (SRF). RDF/SRF é produzido a partir de diversos tipos de resíduos
(domésticos, comerciais, industriais, de construção e de demolição), de acordo com as
demandas locais e tecnologias de processamento disponíveis nos países produtores.
O RDF é obtido a partir de um processamento básico de um resíduo não específico para
incrementar seu conteúdo energético e, portanto, refere-se à fração combustível segregada de
RSU, após a remoção de produtos com qualidade para a reciclagem, matéria orgânica e
produtos incombustíveis, tais como metais e vidros (BUEKENS, 2013). O termo SRF define um
combustível oriundo de resíduos não perigosos que cumpre critérios de qualidade definidos em
termos de origem e níveis de propriedades como combustíveis, a partir da aplicação de
métodos analíticos que asseguram uma caracterização físico-química e termofísica confiável
(MAIER et al., 2011). Portanto, trata-se de um CDR certificado e, neste sentido, destacam-se
normas de processamento e caracterização elaboradas pelo European Committee for
Standardization (CEN): CEN/TC 343 – Solid Recovered Fuels, a fim de garantir a produção de
um combustível certificado.
A norma ASTM E 856:2004 (Standard definitions of terms and abbreviations relating to
physical and chemical characteristics of refuse-derived fuel) indica os tipos de RDF que podem
ser produzidos, considerando-se parâmetros como presença de inertes, densificação dos
resíduos, conversão em combustíveis líquidos/gasosos e dentre outros, conforme Figura 3.2.
CAPÍTULO 3
98
Figura 3.2. Classificação de refuse-derived fuel (RDF) de acordo com a norma ASTM E
856:2004
Fonte: Elaborado pelos autores
A Figura 3.3 indica, de modo simplificado, as etapas envolvidas na produção de SRF,
considerando-se a classificação através da avaliação de suas propriedades e os objetivos de
uso como combustível pelo segmento demandante. Os requisitos de classificação são
estabelecidos na norma CEN EN 15359:2011 (Solid recovered fuels – Specifications and
classes), levando-se em consideração o poder calorífico e os teores de cloro e mercúrio no
combustível produzido, conforme apresentado na Tabela 3.1. Destaca-se que a norma não
indica a base de trabalho (seca ou úmida).
CAPÍTULO 3
99
Figura 3.3. Produção e comercialização de solid recovered fuel (SRF).
Fonte: adaptado da norma CEN EN 15359:2011
Tabela 3.1. Classificação de solid recovered fuels (SRF), conforme a norma CEN EN
15359:2011.
Propriedade
Medida
estatística
Classes de SRF
1 2 3 4 5
Poder calorífico inferior
(MJ/kg)a
Média ≥ 25 ≥ 20 ≥ 15 ≥ 10 ≥ 3
Cloro (% em massa)b Média ≤ 0,2 ≤ 0,6 ≤ 1,0 ≤ 1,5 ≤ 3,0
Mercúrio (mg/MJ)c
Mediana
≤
0,02
≤
0,03
≤
0,08
≤
0,15
≤
0,50
80º percentil
≤
0,04
≤
0,06
≤
0,16
≤
0,30
≤
1,00
aDeterminado através da norma CEN EN 15400:2011; bCEN EN 15408:2011; cCEN EN 15411:2011
Fonte: CEN EN 15359 (2011)
No Brasil, segundo a Resolução SMA nº 38/2017, o termo combustível derivado de
resíduos sólidos urbanos (CDRU) foi proposto para resíduos sólidos urbanos processados com
ou sem incorporação de resíduos sólidos industriais não perigosos (SÃO PAULO, 2017). A
Resolução do Estado de São Paulo limita a aplicação energética em processos de
coprocessamento em fornos de produção de clínquer e estabelece que o CDRU deverá atender
as seguintes características: poder calorífico inferior (em base seca) com valor mínimo de 15
MJ/kg; teor máximo de cloro de 1,0% (em massa de combustível); teor máximo de mercúrio de
CAPÍTULO 3
100
0,5 mg/kg. Tais propriedades estão próximas ao SRF de classe 3 (Tabela 3.1). Adicionalmente,
deve ser enquadrado como um resíduo não perigoso, de acordo com a norma ABNT NBR
10004:2004 (Resíduos sólidos – Classificação).
Destaca-se que os fornos de cimento possuem características favoráveis à queima de
resíduos, incluindo longo tempo de residência em temperaturas acima de 1.450 ºC e
degradação total dos componentes orgânicos. Com relação às emissões, os fornos de
produção de clínquer possuem os seguintes limites: material particulado menor que 50 mg.Nm-
3 a 11% de O2; dioxinas e furanos máximo de 0,1 ng.Nm-3 a 11% de O2; SOx e NOx de 350 e
800 mg.Nm-3 a 11% de O2, respectivamente. O coprocessamento, isto é, a produção de cimento
com operação combinada à queima de resíduos, reaproveita o potencial energético e a fração
mineral dos resíduos, em substituição a combustíveis fósseis (coque de petróleo, por exemplo),
minimizando os passivos ambientais causados pela disposição inadequada de resíduos em
ambientes terrestres e aquáticos (ABCP, 2019; SNIC, 2019).
Com relação ao teor de cloro no combustível, este definirá o nível de substituição que
as cimenteiras poderão atingir sem a necessidade de instalação de um by pass de cloro,
buscando-se baixos níveis de cloro nos processos de produção de CDR, bem como ampliar
seu uso em fornos (PLANSAB, 2020). A importância da quantificação de cloro está relacionada
à previsão de problemas de corrosão e formação de depósitos em equipamentos empregados
em sistemas de recuperação de energia, pois o cloro está sujeito à vaporização parcialmente
devido às elevadas temperaturas de combustão e, após arrefecimento, pode ocasionar a
formação de ácido clorídrico. Já o teor de mercúrio pode contribuir significativamente com
emissões prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana, portanto, sua quantificação
também é fundamental (CIEPLIK et al., 2011).
3.3 TECNOLOGIAS DE PROCESSAMENTO DE RESÍDUOS PARA OBTENÇÃO DE COMBUSTÍVEL
DERIVADO DE RESÍDUO
A Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) destaca a importância da
coleta seletiva como item obrigatório nos planos municipais de gestão integrada de RSU
(BRASIL, 2010). Os programas de coleta seletiva são uma importante ferramenta de gestão
integrada e gerenciamento de RSU, visando a recuperação de produtos, e podem contemplar
estações de coleta (ecopontos), pontos de entrega voluntária (escolas, repartições públicas
etc.) e coletas porta a porta (caminhões coletores). A qualidade dos resíduos recuperados
depende, dentre outros fatores, da contribuição da população e, neste sentido,programas de
CAPÍTULO 3
101
educação socioambiental são fundamentais na estruturação e manutenção de um plano de
gerenciamento de resíduos (GUTBERLET, 2015).
Os resíduos oriundos da coleta seletiva são encaminhados às centrais de triagem, onde
são separados manual (Figura 3.4) ou mecanicamente, através de operações unitárias de
segregação (Figura 3.5), em produtos reutilizáveis e recicláveis (papel, papelão, Tetra Pak®,
plásticos etc.) que, posteriormente, são encaminhados aos processos de prensagem e
enfardamento para estocagem e comercialização. Na ausência de coleta seletiva adequada na
fonte, materiais com elevado valor agregado se misturam às demais frações de resíduos e seu
aproveitamento em processos de recuperação ou reciclagem torna-se prejudicado ou mesmo
impossibilitado, pois são formadas misturas de materiais de difícil separação e, como
consequência, são majoritariamente descartadas.
Figura 3.4. Sistema manual de segregação de resíduos de coleta seletiva.
Fonte: adaptado de ECOLIFE (2020)
CAPÍTULO 3
102
Figura 3.5. Sistema mecanizado de processamento de resíduo para obtenção de combustível
derivado de resíduo (CDR).
Fonte: Adaptado de NSWAI (2020)
No Brasil, a implementação de sistemas de coleta seletiva ocorre com a atuação de
cooperativas que possuem um papel crucial na reciclagem de produtos. Considerando-se os
5.570 municípios brasileiros, 73% possuem iniciativas de coleta seletiva em seus planos de
gestão (ABRELPE, 2019) e aproximadamente 15% detêm ao menos uma cooperativa. Por
exemplo, nas cidades de Rio de Janeiro e Belo Horizonte, 5% de todo o resíduo produzido é
destinado à reciclagem; em São Paulo, a proporção é de 7%; em Brasília e Cuiabá, a magnitude
é de 3%; e com maior participação, encontram-se as cidades de Curitiba (16%) e Porto Alegre
(10%) (ABRALATAS, 2020). O material com maior volume coletado em 2017/2018 foi o papel,
representando em média 65% do total coletado, seguido de plásticos com média de 17% (LCA,
2020).
O tratamento mecânico e biológico (TMB) é um modelo tecnológico de gestão de
resíduos, largamente empregados em países europeus (Portugal, Itália, Reino Unido etc.),
Estados Unidos da América e Japão. De acordo com o escritório de estatística da União
Europeia (EUROSTAT), o TMB constitui um sistema projetado para recuperar produtos para
uma ou mais finalidades, concomitantemente à estabilização da fração orgânica, visando
otimizar a segregação, reduzir o volume de resíduos nas cidades e ampliar a vida útil de aterros
sanitários (EUROSTAT, 2020). Trata-se do processamento mecânico de RSU, objetivando-se
a recuperação de produtos recicláveis/reutilizáveis, o tratamento bioquímico para conversão
energética (uso de biogás) e/ou utilização pela agricultura (uso de fertilizante), e a produção de
CDR, uma vez que possibilita a obtenção de uma fração de produtos rejeitados com elevado
poder calorífico, conforme ilustrado na Figura 3.6 (KERDSUWAN & LAOHALIDANOND, 2020).
CAPÍTULO 3
103
Figura 3.6. Esquema simplificado de uma planta de tratamento mecânico e biológico (TMB).
Fonte: Elaborado pelos autores
Em geral, as plantas de TMB incluem a separação de produtos recicláveis (garrafas
plásticas, latas de alumínio etc.), fração orgânica, inertes (metais e vidros) e contaminantes
(policloreto de polivinila – PVC, resíduos eletrônicos etc.), onde são empregadas sequências
de operações unitárias, incluindo triagem preliminar de resíduos orgânicos e recicláveis,
classificação por ar, separação magnética, separação de metais não ferrosos (alumínio, por
exemplo), separação de vidro, redução de granulometria (trituração/moagem), tratamento
biológico (reatores), dentre outras. As operações mecânicas unitárias podem ser integradas no
projeto de uma planta de TMB em diversas configurações, o que depende da quantidade e
composição dos RSU de alimentação, da qualidade da segregação na fonte geradora, da
disponibilidade tecnológica e das decisões orientadas pelos operadores, a fim de obter os
produtos desejados (CHANDRAPPA & DAS, 2012; FITZGERALD, 2013).
Os diversos estágios de classificação e separação de produtos de uma planta de TMB
são baseados na densidade, tamanho de partícula e propriedades magnéticas e ópticas dos
produtos de alimentação. O Quadro 3.1 apresenta os principais equipamentos que podem ser
utilizados em projetos de TMB, visando a recuperação de recursos.
CAPÍTULO 3
104
Quadro 3.1. Equipamentos utilizados em plantas de tratamento mecânico e biológico (TMB).
Equipamento Descrição
Abre-sacos /
Rasga-sacos
Empregado na abertura de sacos de resíduos que entram em uma planta de
TMB.
Trommel /
Tambor
rotativo
Opera com base no equilíbrio entre a força gravitacional e o momento angular
para separar RSU por tamanho de partícula. A abertura da peneira pode variar
de um projeto para outro. A eficiência de separação é determinada,
considerando-se o ângulo de declinação do tambor rotativo, o tamanho da
abertura da malha e a velocidade de rotação (10-20 rpm) do tambor.
Classificador à
ar / Separador
óptico
Processo de separação por diferença de densidade entre produtos leves
(plásticos, papel, latas de alumínio etc.) e pesados (matéria orgânica e itens
metálicos). Os resíduos de alimentação são submetidos a um fluxo de ar
ascendente, onde a fração pesada cai e a fração leve é levada verticalmente
para cima e coletada através de um sistema ciclone. Sistemas de separação
mais avançados podem acoplar técnicas de separação de ar a novos
dispositivos de classificação óptica que são capazes de separar produtos com
base nas propriedades ópticas.
Separador
magnético
Utilizado para extrair produtos ferromagnéticos de uma corrente de resíduos,
empregando-se campos magnéticos promovidos por ímãs.
Separador por
corrente de
Foucault
Técnica de separação avançada utilizada para segregar produtos eletricamente
condutores, mas não ferrosos (alumínio, latão e cobre), dos outros produtos
inertes na corrente de RSU, a partir de correntes circulares induzidas e que
produzem campos magnéticos nos produtos condutores.
Separador
balístico
Utilizado para segregar resíduos finos (matéria orgânica) de resíduos planos
(papéis, por exemplo) e rolantes (garrafas plásticas, por exemplo).
Câmara de
biodigestão
Para realização da digestão anaeróbia da fração orgânica segregada.
Câmara de
compostagem
Para realização da digestão aeróbica da fração orgânica segregada em
ambiente quente, úmido e oxigenado, na presença de microrganismos.
Gasômetro
Empregado no armazenamento do biogás produzido em plantas de TMB que
possuem câmara de digestão anaeróbia (60% de CH4 e 40% de CO2, em
média).
Unidade de
densificação
Empregada para densificar CDR para obtenção do RDF-5, por exemplo,
conforme Figura 3.2.
Triturador
Trituradores e/ou moinhos são amplamente utilizados no processamento de
RSU, visando obter uma uniformidade no tamanho de partícula, principalmente
em função de parâmetros operacionais de equipamentos empregados na
classificação mecânica de resíduos (tamanho máximo de partícula). Além disso,
a trituração também pode ser empregada para processar o CDR, a fim de obter
um produto mais homogêneo.
Motogeradores Queima do biogás para conversão de energia elétrica.
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 3
105
Com relação às configurações de plantas de processamento de RSU, visando a
recuperação de resíduos, a Figura 3.7 exemplifica uma planta de tratamento mecânico de RSU
com baixo teor de fração orgânica, o que inviabilizaria a instalação de reatores para digestão
anaeróbia e câmaras de compostagem.
Figura 3.7. Esquema simplificado de obtenção de CDR a partir do tratamento mecânico.
Fonte: Elaborado pelos autores
A Figura 3.8 indica a configuração de uma planta de TMB completa, destacando-se o
uso dos diversos tipos de operações unitárias, reatoresde tratamento biológico e transporte
dos produtos obtidos no processo (CDR, fertilizante e biogás). Ressalta-se que devido à
presença de produtos volumosos nos resíduos de alimentação como, por exemplo, caixas de
papelão e plásticos, as unidades de TMB podem contemplar uma etapa de separação manual,
a fim de evitar eventuais paralisações.
CAPÍTULO 3
106
Figura 3.8. Planta de tratamento mecânico e biológico (TMB), Portugal.
Fonte: adaptado de Valorização e Tratamento de Resíduos Sólidos, S.A. (VALNOR, 2015)
1 – Recepção
2 – Tratamento mecânico
3 – Tratamento biológico
4 – Tratamento de ar
5 – Área de maturação
6 – Área de afinação
7 – Estoque de composto
8 – Conversão de energia
9 – Comercialização
CAPÍTULO 3
107
No Brasil, a Resolução SIMA nº 47/2020 da Secretaria de Estado e Infraestrutura e Meio
Ambiente de São Paulo, estabelece diretrizes para o licenciamento de unidades de preparo de
CDR a partir de resíduos diversos, exceto resíduos perigosos e de recuperação de energia
proveniente do uso deste combustível, conforme simplificado na Figura 3.9 (SÃO PAULO,
2020). De acordo com a Resolução supracitada, o CDR preparado deverá atender aos critérios
da Tabela 3.2, em função do tipo de fonte a ser empregada (caldeiras industriais, fornos,
gaseificadores, pirolisadores e unidades de recuperação energética). A utilização de CDR em
instalações já em operação estará condicionada ao atendimento dos requisitos legais
estabelecidos em licença, incluindo os limites de emissão de gases. E para o uso em caldeiras
e fornos industriais, o processo de licenciamento deverá ser solicitado à Companhia Ambiental
do Estado de São Paulo (CETESB). Adicionalmente, a Resolução destaca que os resíduos
líquidos e sólidos gerados com a utilização de CDR deverão ser registrados, controlados
sistematicamente, acondicionados, armazenados, transportados e destinados de acordo com
a legislação vigente.
Figura 3.9. Preparo de combustível derivado de resíduo (CDR) e tipo de fonte utilizada,
conforme estabelecido na Resolução SIMA nº 47/2020.
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 3
108
Tabela 3.2. Critérios para utilização de combustível derivado de resíduo (CDR), conforme
Resolução SIMA nº 47/2020.
Tipologia de fontes
Poder calorífico
inferior (MJ/kg)*
Cloro
(% em massa)*
Temperatura
(ºC)
Caldeiras industriais a
biomassa, 50-100 t/h de
vapor
≥ 9,6a ≤ 0,3 ≥ 500 ºCc
Caldeiras industriais a
biomassa, > 100 t/h de vapor
≥ 9,6a ≤ 0,6 ≥ 500 ºC
Fornos de produção de
clínquer
≥ 11,6a ≤ 1,0 não aplicável
Pirólise ≥ 9,6a não aplicável ≥ 400 ºCc
Gaseificação ≥ 9,6a não aplicável ≥ 750 ºCc
Unidade de recuperação
energética
não aplicável não aplicável ≥ 850 ºCc
Fornos industriais com uso de
biomassa e sem contato com
a matéria-prima
b ≤ 0,6 ≥ 500 ºCc
*Dados em base seca;
aAvaliado caso a caso, devendo ser superior ao poder calorífico da biomassa utilizada como combustível
convencional;
bDeverá ser igual ou superior ao combustível convencional utilizado, devendo comprovar a redução de
consumo do combustível convencional;
cTemperatura medida no interior da câmara de combustão ou em ponto equivalente.
Fonte: Elaborado pelos autores
Com relação ao uso de resíduos sólidos Classe I – Perigosos (conforme classificação
estabelecida na norma ABNT NBR 10004:2004) para a produção de CDR para utilização em
coprocessamento em fornos de clínquer, destaca-se a Resolução SIMA nº 84/2021, cuja
nomenclatura estende-se para combustível derivado de resíduos sólidos perigosos – CDRP
(SÃO PAULO, 2021). Os resíduos elegíveis para a produção de CDRP deverão ser
submetidos, previamente, à separação de produtos recicláveis, e ter comprovação de
incremento de energia, a fim de substituir os combustíveis convencionais empregados em
fornos de clínquer, atendendo-se aos critérios de poder calorífico inferior ≥ 11,6 MJ/kg (base
seca) e teor de cloro ≤ 1,0% (base seca, em massa).
CAPÍTULO 3
109
Embora a composição e qualidade do CDR obtido através da tecnologia de TMB
dependam das características dos resíduos de alimentação, do grau de complexidade da planta
e da eficiência das operações mecânicas unitárias, o combustível obtido possui propriedades
combustíveis importantes, incluindo elevado poder calorífico e baixos teores de cinzas e de
umidade. Além disso, os impactos socioambientais e os custos de produção associados
dependem da taxa de recuperação de produtos e do potencial combustível dos produtos
presentes nos resíduos (UNEP, 2005; SARC & LORBER, 2013; EDO-ALCÓN et al., 2016).
Um elevado teor de umidade em resíduos utilizados em plantas de recuperação de
energia dificulta a ignição do combustível, pois retarda as etapas da combustão (secagem,
volatilização e oxidação), uma vez que requer maior tempo na etapa de secagem.
Consequentemente, a volatilização e oxidação também são prejudicadas, reduzindo-se, assim,
a taxa de queima e a eficiência do processo.
Produtos plásticos inviáveis à reciclagem (propriedades físicas danificadas, por
exemplo) são sugeridos como potenciais produtos para compor CDR, em função do elevado
poder calorífico, além de possuírem baixa aderência à umidade. Götze et al. (2016) destacam
valores de poder calorífico inferior de alguns tipos de plásticos encontrados em RSU: 22,9
MJ/kg para politereftalato de etileno (PET); 40,4 MJ/kg para polietileno de alta densidade
(PEAD); 37,8 MJ/kg para polipropileno (PP); e 36,0 MJ/kg para poliestireno (PS). Dentre eles,
PS e PP são os que possuem maiores teores de cinzas (10,3 e 6,0%, respectivamente),
aspecto negativo quando pretende adotar rotas termoquímicas de conversão energética
(CHIEMCHAISRI et al., 2010; GUG et al., 2015).
A Tabela 3.3 apresenta a composição de três tipos de RDF obtidos a partir de diferentes
unidades de TMB do Reino Unido. Por exemplo, o RDF obtido na Planta A possui 1/5 de
resíduos finos e o menor poder calorífico (16,5 MJ/kg), quando comparado com os
combustíveis da Plantas B (17,2 MJ/kg) e Planta C (17,4 MJ/kg), os quais não possuem
resíduos finos em sua composição. Uma vez que a distribuição de produtos (papel/papelão,
plásticos, têxteis etc.) nos combustíveis derivados é distinta, suas propriedades físico-químicas
e termofísicas apresentarão diferenças, o que torna a caracterização laboratorial uma etapa
crucial na avaliação do potencial energético de um CDR.
CAPÍTULO 3
110
Tabela 3.3. Composição de refuse-derived fuel (RDF) processado a partir de três diferentes
plantas de tratamento mecânico e biológico (TMB) localizadas no Reino Unido.
Produtos (% em massa)
Plantas de TMB
A B C
Papel/papelão 35,1 25,0 55,0
Matéria orgânica 2,1 15,0 0,0
Vidro 0,9 4,0 1,0
Resíduos finos* 20,3 0,0 0,0
Metal ferroso 2,2 1,0 0,0
Plásticos densos 23,0 15,0 5,0
Filme plástico 0,0 5,0 4,0
Têxteis 14,0 0,0 5,0
Combustíveis variados 1,6 30,0 30,0
Não combustíveis variados 0,8 5,0 0,0
Poder calorífico inferior (MJ/kg) 16,5 17,2 17,4
*Em Portugal, por exemplo, produtos finos são aqueles com granulometriapelos autores
A avaliação do comportamento do material densificado é indispensável para o
armazenamento, transporte e manuseio do combustível, e sua utilização em alimentadores
industriais de sistemas de recuperação energética. Nesse sentido, as seguintes análises
podem ser empregadas para avaliação do comportamento de amostras combustíveis
densificadas: expansão volumétrica (curva de dilatação), resistência mecânica à tração por
compressão diametral (ABNT NBR 7222:2011), friabilidade (ABNT NBR 8740:1985), dentre
outras.
Dentre as análises indicadas, os ensaios de friabilidade (tamboramento) são
empregados para determinar o índice de quebra e abrasão de combustíveis densificados para
a quantificação da perda de massa no transporte e manuseio, o que possibilita uma avaliação
do desperdício de recurso. Já a expansão volumétrica e a resistência mecânica à tração são
análises importantes para determinar a capacidade máxima de empilhamento de briquete para
armazenamento ou transporte.
CAPÍTULO 3
112
Devido à impossibilidade da densificação de alguns tipos de CDR, em função do
tamanho de partícula, umidade e dentre outros fatores (REZAEI et al., 2020), sugere-se o uso
em sua forma de fluff ou, a fim de viabilizar a compactação, o emprego de blends (co-
densificação) é uma estratégia para aumentar a resistência mecânica do combustível. Uma
alternativa a esta proposição é o emprego de biomassa lignocelulósica (bagaço, palha etc.)
para compor um CDR verde e, nesse sentido, resíduos florestais e agroindustriais são
potenciais matérias-primas. Nobre et al. (2020) avaliaram o uso de carvão de RDF como aditivo
para pellets de resíduos de pinheiro e seu emprego em gaseificador de leito fluidizado
borbulhante.
O emprego de RSU como combustível na forma de CDR é uma importante oportunidade
para valorar o conteúdo energético destes resíduos e diversificar a matriz combustível dos
países, minimizando os passivos ambientais do acúmulo e disposição inadequada de resíduos
nas cidades. No entanto, para chegar a este ponto de aproveitamento, é necessário realizar
uma série de processos de padronização desse produto para aplicá-lo em sistemas de
conversão de energia.
3.4 CARACTERIZAÇÃO DE COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO
A composição e as propriedades de um CDR variam de um local ao outro, pois estão
relacionadas com condições socioeconômicas e culturais, sazonalidade e aplicação de
legislações específicas relacionadas à gestão de resíduos. A obtenção de dados experimentais
de caracterização físico-química e termofísica de CDR é uma etapa crucial para avaliar seu
potencial de recuperação energética e sua utilização em tecnologias de conversão tradicionais
ou inovadoras, visando o aprimoramento/desenvolvimento de rotas alternativas à destinação
de resíduos. As principais análises combustíveis incluem: análise imediata (quantificação de
materiais voláteis, carbono fixo e cinzas); análise elementar (carbono, hidrogênio, oxigênio,
nitrogênio, cloro etc.); densidades a granel, real e aparente; análise termogravimétrica; poder
calorífico e análise elementar de cinzas (GRAMMELIS et al., 2011; FERNANDEZ-ANEZ et al.,
2020; ODETOYE et al., 2020).
O poder calorífico está relacionado à energia sob a forma de calor liberada pela
combustão de uma quantidade mássica (J/kg) ou volumétrica (J/m3) de resíduos.
Experimentalmente é determinado em calorímetro, sob atmosfera oxidante e condições
específicas de operação, porém, modelos matemáticos são frequentemente empregados para
CAPÍTULO 3
113
estimar indiretamente o poder calorífico através da composição elementar e/ou imediata da
amostra combustível (CHANNIWALA & PARIKH, 2002).
Em processos de combustão de resíduos, a formação de cinzas envolve vários
mecanismos (devolatilização, fragmentação, condensação parcial etc.) que levam à
transformação química do material formador de cinzas. Estes mecanismos dependem da
distribuição dos constituintes inorgânicos e dos parâmetros do processo. A presença das cinzas
em sistemas de conversão de energia interfere negativamente no poder calorífico e inibe
notavelmente a combustão, pois absorvem calor, interferindo na transferência de calor por
radiação (WANG, 2014).
O material mineral que forma as cinzas é liberado do combustível sólido durante a
combustão em temperaturas acima das temperaturas de fusão da maioria dos compostos do
material mineral, sendo este liberado como um fluido fundido ou em estado plástico, podendo
aderir nas paredes da fornalha e nas superfícies de aquecimento levando à formação de
depósitos (slagging e fouling) (KITTO; STULTZ, 2005).
Após arrefecimento, parte das cinzas voláteis (fly ashes) é arrastada com os gases de
exaustão e pode promover a formação de depósitos nas partes internas de equipamentos
térmicos e tubulações utilizadas em sistemas de conversão de energia, aumentando a
espessura de parede e reduzindo a taxa de transferência de calor, o que minimiza a efetividade
de um trocador de calor, por exemplo. Logo, a análise de composição elementar de cinzas é
uma avaliação importante e complementar à determinação do poder calorífico.
Os elementos que mais contribuem com a formação de escórias e incrustações incluem,
dentre outros, sódio, sílica, cálcio, potássio e cloro, sendo os dois últimos e o enxofre também
relacionados à corrosão. Destaca-se que a análise elementar de cinzas pode ser realizada
através de diversas técnicas, tais como a espectrometria de massas com plasma indutivamente
acoplado (ICP-MS) e a microscopia eletrônica de varredura com espectroscopia de energia
dispersiva de raios-X (MEV-EDX). Tiburcio et al. (2018) destacam que dentre as vantagens em
se empregar MEV-EDX, as amostras de cinzas não precisam ser digeridas, além da não
necessidade do uso de padrões comerciais e construção de curvas de calibração, como ocorre
para análises em ICP-MS.
O teor de cinzas em amostras de CDR pode ser avaliado através da análise imediata,
empregando-se normas específicas. Esta análise, além de quantificar o percentual de cinzas,
também determina o teor de materiais voláteis e carbono fixo. Os materiais voláteis de uma
amostra de resíduos constituem a fração de compostos voláteis de baixa massa molecular que
CAPÍTULO 3
114
interferem diretamente no startup do processo de combustão, ou seja, um elevado teor de
materiais voláteis indica uma potencial reatividade e ignição do combustível, enquanto que o
teor de carbono fixo está atrelado à manutenção do processo de combustão.
Para a quantificação de cinzas voláteis em combustíveis, visto que estas são arrastadas
pelos gases de exaustão, as amostras a serem analisadas devem passar por processo de
digestão ácida, necessário à fixação da composição química, obtendo-se, assim, as cinzas
totais (cinzas sulfatadas). Dessa forma, as cinzas voláteis podem ser determinadas por
diferença entre as cinzas determinadas sem e com o processo de fixação. Na incineração, por
exemplo, o maior percentual de cinzas corresponde às cinzas de fundo (bottom ashes): de 15
a 35% em massa de resíduos tratados (UNEP, 2005; ALLEGRINI et al., 2014).
Outra propriedade fundamental é a densidade do CDR, pois contribui com o
desenvolvimento de dispositivos utilizados em sistemas de recuperação de energia como, por
exemplo, alimentadores de caldeiras, bem como seu uso em picadores para padronização do
tamanho de partícula para sua utilização em tecnologias já estabelecidas no mercado.
Vários requisitos influenciam o sucesso de uma unidade de tratamento de resíduos e
dados de caracterização são cruciais para a tomada de decisões políticas e de investimento,
visando um planejamento estável e confiável. Deliberações orientadas por dados experimentais
maximizam a eficiência de custo e permitem a sua implementação bem-sucedida,
especialmente com relação à implantação de tecnologias avançadas. AlémModelos de geração de metano de ordem zero ......................................... 155
4.6.2 Modelos de primeira ordem ........................................................................ 158
4.6.3 Modelos de segunda ordem ou mais complexos ........................................ 160
4.6.4 Comentários sobre funções resposta de geração de metano e parâmetros
cinéticos L e k.......................................................................................................... 161
4.7 INSTALAÇÕES PARA O APROVEITAMENTO ENERGÉTICO EM ATERROS SANITÁRIOS ......................... 163
SUMÁRIO
x
4.7.1 Aplicação de um modelo para a geração de metano e aproveitamento
energético no Aterro Sanitário Caieiras (SP) .......................................................... 166
4.8 EMISSÕES FUGITIVAS DE METANO PELA CAMADA DE COBERTURA DOS ATERROS SANITÁRIOS .......... 170
4.8.1 Monitoramento das emissões de metano................................................... 172
4.8.2 Medições do escape fugitivo de metano com placa de fluxo ...................... 176
4.9 QUESTÕES TÉCNICAS IMPORTANTES ................................................................................... 178
4.10 COMENTÁRIOS FINAIS ..................................................................................................... 180
4.11 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 182
4.12 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 182
5 PRODUÇÃO E PROCESSAMENTO DE BIOGÁS ATRAVÉS DA DIGESTÃO ANAERÓBIA DA FRAÇÃO
ORGÂNICA DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS .............................................................................. 188
5.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 188
5.2 O PROCESSO DE DIGESTÃO ANAERÓBIA (DA) ...................................................................... 189
5.2.1 Fatores que afetam o processo ................................................................... 192
5.3 CLASSIFICAÇÃO DOS REATORES DE DIGESTÃO ANAERÓBIA ....................................................... 197
5.3.1 Teor de matéria seca na operação do reator .............................................. 198
5.3.2 Temperatura do processo ........................................................................... 199
5.3.3 Fluxo de alimentação .................................................................................. 199
5.3.4 Regime hidráulico do reator........................................................................ 200
5.3.5 Número de estágios .................................................................................... 201
5.4 TECNOLOGIAS DE DIGESTÃO ANAERÓBIA APLICADAS À FRAÇÃO ORGÂNICA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS
URBANOS .............................................................................................................................. 201
5.4.1 Histórico do desenvolvimento da tecnologia de digestão anaeróbia ......... 202
5.4.2 Desenvolvimento de reatores anaeróbios para digestão da FORSU ........... 208
5.4.3 Reatores contínuos úmidos em uma fase: processo Waasa ....................... 210
5.4.4 Reatores contínuos secos em uma fase ...................................................... 211
5.4.5 Reatores extra-secos em batelada .............................................................. 214
5.5 EXPERIÊNCIAS NO BRASIL COM A PRODUÇÃO DE BIOGÁS A PARTIR DA FRAÇÃO ORGÂNICA DE RSU EM
REATORES ............................................................................................................................. 220
5.5.1 Unidade de demonstração Itaipu em Foz do Iguaçu – PR ........................... 220
5.5.2 Planta da CS Bioenergia em São José dos Pinhais – PR ............................... 222
SUMÁRIO
xi
5.5.3 Planta de biodigestão do Eco Parque Jacareí – SP ...................................... 223
5.5.4 Planta de biodigestão do Ecoparque das Palmeiras em Piracicaba- SP ...... 224
5.5.5 Planta piloto de metanização de Bertioga – SP .......................................... 225
5.5.6 Planta de metanização na Estação de Transbordo do Caju – Rio de Janeiro –
RJ 226
5.6 TECNOLOGIAS DE LIMPEZA E PURIFICAÇÃO DE BIOGÁS ............................................................ 227
5.6.1 Tecnologias de limpeza do biogás............................................................... 228
5.6.2 Tecnologias de purificação do biogás ......................................................... 231
5.7 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 234
5.8 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 234
6 UTILIZAÇÃO DE GÁS POBRE .................................................................................................... 239
6.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 239
6.2 MOTORES COM GÁS POBRE .............................................................................................. 243
6.2.1 Requisitos necessários de qualidade do biogás .......................................... 247
6.2.2 Instalação e manutenção de motores utilizando biogás ............................ 253
6.2.3 Aplicação de motores a biogás no Brasil .................................................... 256
6.3 MICROTURBINAS ........................................................................................................... 263
6.3.1 Princípio de operação e características ....................................................... 265
6.3.2 Turbinas Disponíveis no Mercado e plantas instaladas .............................. 273
6.4 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 274
6.5 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 274
7. COMBUSTÃO DE RSU COM RECUPERAÇÃO ENERGÉTICA ....................................................... 278
7.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 278
7.2 CALDEIRAS PARA QUEIMA DE RSU E CDR ........................................................................... 284
7.2.1 Caldeiras para queima direta (mass burning) ............................................. 284
7.2.2 Caldeiras de Leito Fluidizado Borbulhante e Leito Fluidizado Circulante .... 288
7.3 CARACTERÍSTICAS DAS CALDEIRAS PARA QUEIMA DE CDR ....................................................... 290
7.3.1 Capacidade.................................................................................................. 291
7.4 CORROSÃO EM CALDEIRAS DE RSU .................................................................................... 296
7.4.1 Oxidação ativa ............................................................................................ 298
7.4.2 Corrosão devida a depósitos de cloretos e sulfatos metálicos .................... 299
SUMÁRIO
xii
7.4.3 Fatores que afetam a taxa de corrosão ...................................................... 300
7.4.4 Métodos de proteção .................................................................................. 303
7.5 CINZAS: MANUSEIO E DISPOSIÇÃO ..................................................................................... 304
7.6 FORMAÇÃO DE POLUENTES .............................................................................................. 305
7.6.1 Formação de dioxinas ................................................................................. 306
7.7 TRATAMENTO PARA OS GASESdisso, a viabilidade
econômica e o bom desempenho ambiental só podem ser almejados, a partir de uma eficiente
recuperação de recursos de resíduos.
Visando o preparo de amostras laboratoriais e a caracterização de RDF, o Quadro 3.2
indica as normas da American Society for Testing and Materials (ASTM) que são utilizadas,
incluindo as análises de poder calorífico (E 711), cinzas sulfatadas (E 2403), teor de umidade
(E 790 e E 949) e densidade (E 1109).
Com relação ao SRF, o Quadro 3.3 apresenta as normas do European Committee for
Standardization (CEN), visando a padronização combustível, isto é, a obtenção de um CDR
certificado. Assim como para a caracterização de RDF, as normas para SRF também
contemplam procedimentos de preparo de amostras para análises laboratoriais.
CAPÍTULO 3
115
Quadro 3.2. Normas ASTM para a caracterização de refuse-derived fuel (RDF).
Norma Título
E 711
Standard test method for gross calorific value of refuse-derived fuel by the bomb
calorimeter
E 775 Standard test method for total sulfur in the analysis sample of refuse-derived fuel
E 776 Standard test method for forms of chlorine in refuse-derived fuel
E 777
Standard test method for carbon and hydrogen in the analysis sample of refuse-
derived fuel
E 778 Standard test method for nitrogen in the analysis sample of refuse-derived fuel
E 790
Standard test method for residual moisture in refuse-derived fuel analysis
samples
E 829
Standard practice for preparing refuse-derived fuel (RDF) laboratory samples for
analysis
E 830 Standard test method for ash in the analysis sample of refuse-derived fuel
E 856
Standard definitions of terms and abbreviations relating to physical and chemical
characteristics of refuse-derived fuel
E 897
Standard test method for volatile matter in the analysis sample of refuse-derived
fuel
E 949 Standard test method for total moisture in a refuse-derived fuel laboratory sample
E 955
Standard test method for thermal characteristics of refuse-derived fuel
macrosamples
E 1109 Standard test method for determining the bulk density of solid waste fractions
E 1508 Standard guide for quantitative analysis by energy-dispersive spectroscopy
E 2403 Standard test method for sulfated ash of organic materials by thermogravimetry
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 3
116
Quadro 3.3. Normas do European Committee for Standardization (CEN) para caracterização
físico-química e termofísica de solid recovered fuel (SRF).
Classificação Norma Título
CEN/TC 343 / WG 1
Terminology and
quality assurance
EN 15357
Solid recovered fuels – Terminology, definitions
and descriptions
EN 15358
Solid recovered fuels – Quality management
systems - Particular requirements for their
application to the production of solid recovered
fuels
CEN/TC 343 / WG 2
Fuel specifications
and classes
CEN/TR 15508
Key properties on solid recovered fuels to be
used for establishing a classification system
EN 15359
Solid recovered fuels – Specifications and
classes
CEN/TC 343 / WG 3
Sampling, sample
reduction and
supplementary test
methods
CEN/TR 15591
Solid recovered fuels – Determination of the
biomass content based on the 14C method
EN 15440
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of biomass content
EN 15590
Solid recovered fuels – Determination of the
current rate of aerobic microbial activity using
the real dynamic respiration index
EN 15442 Solid recovered fuels – Methods for sampling
EN 15443
Solid recovered fuels – Methods for the
preparation of the laboratory sample
CEN/TC 343 / WG 4
Physical/Mechanic
al tests
CEN/TR 15716
Solid recovered fuels – Determination of
combustion behaviour
EN 15415-1
Solid recovered fuels – Determination of
particle size distribution – Part 1: Screen
method for small dimension particles
EN 15415-2
Solid recovered fuels – Determination of
particle size distribution – Part 2: Maximum
projected length method (manual) for large
dimension particles
EN 15415-3
Solid recovered fuels – Determination of
particle size distribution – Part 3: Method by
image analysis for large dimension particles
CEN/TR 15404
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of ash melting behaviour by using
characteristic temperatures
CEN/TS 15414-1 Solid recovered fuels – Determination of
moisture content using the oven dry method –
CAPÍTULO 3
117
Part 1: Determination of total moisture by a
reference method
CEN/TS 15414-2
Solid recovered fuels – Determination of
moisture content using the oven dry method –
Part 2: Determination of total moisture content
by a simplified method
EN 15414-3
Solid recovered fuels – Determination of
moisture content using the oven dry method –
Part 3: Moisture in general analysis sample
CEN/TS 15401
Solid recovered fuels – Determination of bulk
density
CEN/TS 15405
Solid recovered fuels – Determination of density
of pellets and briquettes
CEN/TS 15406
Solid recovered fuels – Determination of
bridging properties of bulk material
CEN/TS 15639
Solid recovered fuels – Determination of
mechanical durability of pellets
EN 15400
Solid recovered fuels – Determination of
calorific value
EN 15402
Solid recovered fuels – Determination of the
content of volatile matter
EN 15403
Solid recovered fuels – Determination of ash
content
CEN/TC 343 / WG 5
Chemical tests
EN 15410
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of the content of major elements
(Al, Ca, Fe, K, Mg, Na, P, Si, Ti)
EN 15411
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of the content of trace elements
(As, Ba, Be, Cd, Co, Cr, Cu, Hg, Mo, Mn, Ni,
Pb, Sb, Se, Tl, V and Zn)
EN 15413
Solid recovered fuels – Methods for the
preparation of the test sample from the
laboratory sample
CEN/TS 15412
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of metallic aluminium
EN 15407
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of carbon (C), hydrogen (H) and
nitrogen (N) content
EN 15408
Solid recovered fuels – Methods for the
determination of sulphur (S), chlorine (Cl),
fluorine (F) and bromine (Br) content
Fonte: Elaborado pelos autores
CAPÍTULO 3
118
A caracterização de um combustível permite avaliar parâmetros importantes no
desenvolvimento e dimensionamento de equipamentos empregados em plantas de conversão
energética, incluindo a temperatura de ignição do combustível, o comportamento e a
manutenção do processo de combustão, a formação de escórias devido ao teor e à composição
de cinzas etc. Por exemplo, a presença de cloro é uma das principais preocupações com a
utilização de CDR, uma vez que pode causar corrosão em sistemas térmicos associados,
devido à vaporização e condensação de cloretos alcalinos que se depositam no interior de
dispositivos térmicos (VELIS et al., 2012; LU et al., 2019).
Logo, através de dados experimentais da composição elementar das cinzas é possível
sugerir indicadores de corrosão e incrustação, dependendo das características do resíduo em
questão e, consequentemente, propor adequações ou novas tecnologias para melhoria de
sistemas térmicos.
Há um crescente desenvolvimento de pesquisas técnico-científicas em diversos países,
associadas à caracterização de CDR e avaliação do seu potencial energético, com vistas à
aplicação de tecnologias tradicionais ou integradas. Tiburcio et al. (2016) e Brás et al. (2017)
propõem a produção de RDF a partir de rejeitos de triagem de coleta seletiva. Adicionalmente,
a Resolução SIMA nº 47/2020 (diretrizes para o licenciamento de unidades de preparo e de
recuperação energética de CDR) destaca a importância da caracterização do resíduo a partir
da análise de amostras representativas, empregando-se metodologias analíticas de referência
(SÃO PAULO, 2020).
A obtenção de dados e resultados experimentais confiáveis relacionados ao potencialcombustível dos resíduos está atrelada ao parque de equipamentos disponível, à padronização
das análises, à calibração dos equipamentos empregados e ao desempenho dos
pesquisadores envolvidos. Logo, o envolvimento de instituições e centros de pesquisa,
governos e empresas, buscando-se o conceito de triple helix, é considerado ponto estratégico
na busca pela ampliação da sustentabilidade da cadeia de resíduos, objetivando-se a transição
energética para uma economia verde.
3.5 APLICAÇÕES DO COMBUSTÍVEL DERIVADO DE RESÍDUO
A gestão de resíduos surgiu com o objetivo de lidar com os desafios da higiene da
população, minimizar a proliferação de doenças e reduzir o volume de resíduos nas cidades,
empregando-se fornos de cimento e incineradores. Com o crescimento da população mundial
e o aumento na geração de resíduos, o foco da gestão tornou-se o manejo adequado de
CAPÍTULO 3
119
resíduos provenientes de atividades antropogênicas, com concomitante recuperação de
recursos, empregando-se métodos de tratamento e disposição de resíduos baseados em
parâmetros como tipo, quantidade e propriedade do resíduo; condições econômicas; normas
ambientais locais; fatores específicos de projeto; entre outros.
Quanto à conversão energética de RSU e CDR, destacam-se tecnologias associadas
ao conceito waste to energy (WTE), amplamente utilizado na Europa, Estados Unidos da
América e em países desenvolvidos da Ásia (Japão e Cingapura), que atende aos objetivos
principais do tratamento térmico de resíduos (saneamento e redução de volume em centros
urbanos), bem como à conversão energética e eliminação de substâncias perigosas que não
podem ser recicladas ou recuperadas (GRILLO, 2013; BRUNNER & RECHBERGER, 2015;
WEC, 2016).
Os processos envolvidos em instalações WTE recuperam recursos energéticos através
de rotas termoquímicas (gaseificação, pirólise, combustão etc.), bioquímicas (digestão
anaeróbia e aeróbia) e de produção de CDR. Com relação às emissões, que podem conter
concentrações significativas de metais pesados, material particulado, dióxido de enxofre, ácido
clorídrico, dioxinas, monóxido e dióxido de carbono, plantas WTE modernas contam com
sistemas de limpeza de gases de exaustão, contribuindo, assim, com o controle de emissões
nocivas ao meio ambiente.
Em especial, o CDR pode ser empregado como combustível alternativo em rotas
termoquímicas, bem como em co-combustão, co-gaseificação ou co-pirólise, para obtenção de
insumos energéticos (vapor de processo, energia elétrica, gás de síntese etc. – Figura 3.11),
sendo utilizado como combustível principal ou complementar, a fim de reduzir custos
operacionais, sem comprometer o conteúdo energético de outro combustível, uma vez que o
CDR pode possuir menor valor agregado, a depender das características dos resíduos de
origem (MANNINEN et al., 1997; KOBYASHI et al., 2005; GARG et al., 2007; HWANG et al.,
2014; HAYKIRI-ACMA, et al., 2017; PORSHNOV et al., 2020). E para que se defina a melhor
rota a ser aplicada a potenciais produtos combustíveis, deve-se caracterizá-los de acordo com
suas propriedades físico-químicas e termofísicas, conforme discutido anteriormente (Quadros
3.2 e 3.3).
CAPÍTULO 3
120
Figura 3.11. Rotas tecnológicas de conversão de combustível derivado de resíduo (CDR).
Fonte: adaptado de Demirbas (2011)
No contexto brasileiro, apesar da incipiência de plantas de tratamento térmico de RSU
para obtenção de energia elétrica, destacam-se iniciativas em processo de implantação, como
é o caso da Unidade de Recuperação Energética de Barueri - SP (URE Barueri), projetada para
tratar diariamente cerca de 825 toneladas de resíduos dos municípios de Barueri, Carapicuíba
e Santana do Parnaíba, localizados na Região Metropolitana de São Paulo. Estima-se que este
montante será capaz de converter uma potência nominal de 17 MW (SGW-SERVICES, 2012).
A Licença Ambiental Prévia da URE Barueri foi emitida em 2012 pela Companhia Ambiental do
Estado de São Paulo (CETESB), o que atesta a viabilidade ambiental e estabelece os requisitos
básicos e condicionantes a serem atendidos nas fases de implementação, conforme Resolução
CONAMA nº 237/1997 (CONAMA, 1997).
De acordo com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), há 24 grupos
cimenteiros atuantes no Brasil, 100 fábricas e capacidade instalada de produção total de 102
CAPÍTULO 3
121
Mt/ano, sendo que 38 plantas (70% da capacidade) possuem fornos licenciados para o
coprocessamento de resíduos, o que inclui CDRU, pneus usados, resíduos do agronegócio,
óleos usados, resíduos plásticos etc.). O uso de CDRU para o coprocessamento em fornos de
cimento foi iniciado no ano 2018 na unidade de Salto de Pirapora - SP da empresa Votorantim
Cimentos, onde parte dos resíduos coletados em Piracicaba e Sorocaba é convertida em
energia para a produção de cimento. A licença ambiental do empreendimento foi outorgada em
2019 para uma capacidade de processamento de 65 mil t/ano (ABCP, 2019; PLANSAB, 2020;
VOTORANTIM, 2020).
No Estado do Rio Grande do Sul, destaca-se a produção de CDR pela Unidade de
Energia da Fundação Proamb (planta de blendagem), localizada no município de Nova Santa
Rita, capaz de processar aproximadamente 5 mil t/mês de resíduos de origem industrial. Em
colaboração com a indústria de cimento InterCement, o CDR produzido é empregado no
coprocessamento, substituindo o uso de coque de petróleo em 40%, em média (PROAMB,
2020a; PROAMB, 2020b).
No Japão, devido à disponibilidade limitada de território para disposição final de cinzas,
principal resíduo do aproveitamento energético de CDR, e à legislação estrita sobre medidas
especiais contra as emissões de dioxinas, foi desenvolvido o processo de gaseificação e fusão
denominado Thermoselect, no qual são produzidas cinzas vitrificadas, conforme exigência da
legislação, embora promovam emissões em escalas superiores aos processos convencionais
de combustão de resíduos (REDDY, 2016).
A tecnologia Thermoselect está disponível na planta Fukuyama Recycle Power Co. Ltd.
(Tabela 3.4), estabelecida em 2004, onde são tratados os RSU gerados nos municípios de
Fukuyama, Hatsukaichi, Fuchu, Otake, Shobara, Sera-cho, Jinseki Kogen-cho, Onomichi e
Mihara. Os resíduos gerados são convertidos em CDR em forma de pellets (10–20 mm de
diâmetro e 30–50 mm de comprimento) e apresenta as seguintes características médias: teor
de umidade de 3,6–5,5% (em massa); fração combustível de 80,5–85,1% (em massa); teor de
cinzas de 10,6–14,6% (em massa); poder calorífico de 18,2 MJ/kg (REDDY, 2016; FRPC,
2020).
O CDR é alimentado no forno de um gaseificador com coque e calcário (Figura 3.12). O
coque ajuda a manter a trajetória do fluxo de gás e a pedra calcária é utilizada para formar
escória fluida que pode ser descarregada pela parte inferior do forno. A planta opera a pressão
de vapor de 60 bar e temperatura de 450 ºC, resultando em uma eficiência elétrica de
aproximadamente 27% (WSP, 2013; REDDY, 2016).
CAPÍTULO 3
122
Tabela 3.4. Descrição geral da planta Fukuyama Recycle Power Co. Ltd., localizada no
Japão.
Parâmetros
Capacidade de tratamento 314 t forno/dia
Método de tratamento Forno de fusão de gás de alta temperatura
Potência de saída 21,6 MW
Eficiência final 28,1%
Armazenamento de CDR 2 x silo de 10.000 m3
Fonte: adaptado de FRPC (2020)
Figura 3.12. Tecnologia de gaseificação com emprego de CDR.
Fonte: adaptado de FRPC (2020)
CAPÍTULO 3
123
Outra alternativa para o aproveitamento energético do CDR é a tecnologia de combustão
em leito fluidizado, na qual os resíduos requerem processos de pré-tratamento, tais como,
trituração, segregação ou remoção de material não combustível, visando a obtenção de um
combustível mais homogêneo e com propriedades requeridas pela fluidização. Normalmente,
o combustível é alimentado na câmara de combustão atravésde seções de entrada localizadas
nas paredes do combustor, o qual é composto por um leito de material inerte como areia, por
exemplo (WSP, 2013). Os sistemas de leito fluidizado operam em faixas de temperaturas de
750-850 ºC e com 30-40% de excesso de ar (DUAN et al., 2013).
Figura 3.13. Tecnologia de combustão de CDR em leito fluidizado.
Fonte: adaptado de WSP (2013)
CAPÍTULO 3
124
Há dois tipos de caldeiras empregadas como reatores de leito fluidizado: leito fluidizado
borbulhante (LFB) e leito fluidizado circulante (LFC). Em sistemas que envolvem a tecnologia
LFC, desenvolvida pela EBARA Corporation, a velocidade do ar é muito maior ao ser
comparado com o sistema LFB, resultando em uma circulação do material do leito, das cinzas
e do combustível em combustão, em um circuito constituído pela câmara de combustão e um
ciclone primário, conforme ilustrado na Figura 3.13 (WSP, 2013).
Na Europa, existem cerca de 450 plantas WTE instaladas, sendo que 30 unidades
utilizam tecnologia de leito fluidizado (REDDY, 2016). A maioria das instalações empregam
misturas de lodo de esgoto, CDR, resíduos industriais ou cavacos de madeira.
Quadro 3.4. Plantas de recuperação energética a partir do CDR e respectivos processos e
produtos de conversão.
Planta País
Início da
operação
Processo Produto
DE, Erfut Erfut, Alemanha 2006 Combustão
vapor, energia
elétrica
DE, Witzenhausen
Witzenhausen,
Alemanha
2008
Combustão
(leito fluidizado)
vapor, energia
elétrica
Kymijärvi II Lahti, Finlândia 2012 Gaseificação
energia
elétrica
APP-Albano
Albano Laziale,
Itália
2013 Gaseificação
energia
elétrica
GB, Ferrybridge
West Yorkshire,
Reino Unido
2015 Combustão
vapor, energia
elétrica
GB, Edinburgh
Edimburgo,
Reino Unido
2018 Combustão
energia
elétrica
CN, Changsha Changsha, China 2018 Combustão
energia
elétrica
GB, Ferrybridge
Multifuel 2
West Yorkshire,
Reino Unido
2019 Combustão
energia
elétrica
Advanced Biofuels
Solutions Ltd.
(ABSL)
Swindon, Reino
Unido
2021
Gaseificação a
plasma
assistido (em
dois estágios)
energia
elétrica
Fonte: adaptado de HZI (2020) & JFE (2020)
Tecnologias tais como combustão, combustão em leito fluidizado, gaseificação, pirólise
e processos integrados, estão disponíveis em plantas de recuperação de energia a partir de
CAPÍTULO 3
125
CDR. No Quadro 3.4 são apresentadas algumas instalações e o tipo de produto útil convertido
(energia elétrica e vapor).
3.6 SÍNTESE DO CAPÍTULO
Combustível derivado de resíduo (CDR) é uma fonte alternativa para rotas
termoquímicas de conversão em substituição aos combustíveis de origem não renovável. Há
duas terminologias empregadas para CDR: refuse-derived fuel (RDF) e solid recovered fuel
(SRF). Em cenários nos quais a reciclagem e o reuso são inviáveis, dependendo das
propriedades físico-químicas e termofísicas dos produtos encontrados em resíduos, estes
podem ser processados e empregados como CDR. Este capítulo abordou as tecnologias de
processamento de resíduos para obtenção de CDR, as normas técnicas empregadas em sua
caracterização físico-química e termofísica, as principais tecnologias de conversão energética,
os tipos de plantas de recuperação de energia em operação no mundo e um panorama
brasileiro de produção e uso de CDR.
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CAPÍTULO 4
133
4 POTENCIAL DE GERAÇÃO DE BIOGÁS EM
ATERRO SANITÁRIO: APROVEITAMENTO
DE METANO – DESAFIOS, ESTRATÉGIAS E
POTENCIALIDADES
Giovano Candiani; João Manoel Losada Moreira
4.1 INTRODUÇÃO
O aterramento de resíduos sólidos urbanos é uma técnica de disposição final de
resíduos no solo que utiliza critérios de engenharia para não causar danos à saúde pública e
ao meio ambiente. Esta técnica de disposição de resíduos é uma das mais utilizadas no mundo
por ser confiável do ponto de vista da engenharia, economicamente viável e ambientalmente
adequada se os critérios de engenharia são obedecidos (TEIXEIRA; PINHEIRO, 2018). Um
aterro sanitário é uma instalação industrial com sistemas de engenharia complexos para
recebimento e classificação dos resíduos, disposição nos locais definidos conforme normas
estabelecidas, processamento de lixiviados formados, conhecidos popularmente como
chorume, processamento de gases formados pela biodegradação da matéria orgânica por
microrganismos metanogênicos, o biogás, e exige cuidados específicos para minimizar a
ocorrência de impactos ambientais.
Os possíveis impactos ambientais causados pelos aterros sanitários estão relacionados
ao local de implantação, problemas de saúde pública devido a presença de material orgânico
e materiais perigosos e tóxicos entre os resíduos sólidos encaminhados para o aterro,
contaminação do solo e de águas subterrâneas devido a percolação de lixiviado e emissão
fugitiva de gases nocivos à saúde e gases de efeito estufa como o metano e CO2 (BOSCOV,
2008). Para serem instalados, os aterros sanitários dependem de licenciamento ambiental que
requer a elaboração de um estudo de impacto ambiental (CETESB, 2014), entre outros
documentos, sendo estes implantados somente depois de constatada sua viabilidade ambiental
pelo órgão público licenciador (BARROS, 2012).
Projetos mais recentes de aterros sanitários apresentam sistemas de captação de gás
para aproveitamento de um de seus produtos de biodegradação, o metano, para diversos fins
como a geração de eletricidade, comercialização direta do gás, iluminação, combustível
CAPÍTULO 4
134
veicular e produção de calor (CANDIANI; MOREIRA, 2015). Para o caso da geração de
eletricidade em aterros sanitários, o biogás produzido é coletado por meio de drenos via
extração forçada utilizando-se sistemas de exaustão e encaminhado para pequenas
instalações que produzem energia elétrica por meio da queima do gás metano em
motogeradores (TEIXEIRA JUNIOR, 2016). O biogás de aterro é composto principalmente pelo
CO2 (40 %), CH4 (55 %) e outros gases como NH3, H2S, O2, CO, N2 etc., perfazendo cerca de
5 %. Dada sua composição variada, o biogás deve ser processado e os motogeradores
adaptados para conseguir uma eficiente geração de energia (CANDIANI; MOREIRA, 2015).
No Brasil existem 23 aterros sanitários (ANEEL, 2020) realizando o aproveitamento
energético do biogás, gerando cerca de 193,4 MW. O Capítulo 10 apresenta mais informações
sobre os vários projetos no país.
No estado de São Paulo (ANEEL, 2020), se todo o resíduo disposto em aterros fosse
aproveitado para a geração de energia elétrica (por meio da queima do biogás em motores),
estima-se que a potência instalada atingiria 495 MW. Entretanto, somente 7 aterros sanitários
no estado contemplam instalações de geração, produzindo cerca de 95,1 MW. Os principais
projetos são: Aterro Caieiras, Essencis (29,5 MW), Aterro São João, cidade de São Paulo (21,5
MW), Aterro Guatapará, Estre (5,7 MW), Aterro Bandeirantes, município de São Paulo (4,6
MW), Aterro Santana de Parnaíba, Tecipar (5,7 MW), Aterro Tremembé (4,3 MW) e Aterro
Cabreúva (2,7 MW). Os aterros sanitários, portanto, possibilitam a instalação de unidades de
geração de eletricidade de pequeno porte (ver nos capítulos 7 e10).
O aproveitamento do metano para a geração de energia elétrica apresenta efeitos
benéficos do ponto de vista ambiental e econômico. A combustão do metano (CH4) produz
calor, água e CO2. Do ponto de vista ambiental, a combustão do metano para gerar energia
reduz a emissão de gases do efeito estufa devido ao potencial de aquecimento global do
metano ser cerca de 21 vezes mais elevado que o do CO2 (IPEA, 2012). Embora emita CO2, a
queima do metano no processo de geração de energia é sustentável do ponto de vista de gases
do efeito estufa, pois reduz substancialmente as emissões de CO2-equivalente para a
atmosfera.
Do ponto de vista econômico, o aproveitamento de energia em um aterro sanitário pode,
adicionalmente, gerar recursos devido à comercialização da energia elétrica e de créditos de
carbono por evitar a emissão de gases do efeito estufa. A emissão para a atmosfera de metano
em aterros sanitários sem aproveitamento de energia ocorre por meio de drenos de exaustão
passivos (não forçada) e também a partir da interface aterro sanitário com a atmosfera e são
CAPÍTULO 4
135
normalmente denominadas de emissões fugitivas. Nem todo o metano produzido no aterro
escapa para a atmosfera devido ao processo de oxidação do metano mediado por
microrganismos existentes na terra utilizada como cobertura e proteção dos aterros. A
maximização do processo de oxidação de metano na cobertura dos aterros sanitários também
reduz as emissões fugitivas de metano para a atmosfera que pode ser contabilizada e
proporcionar créditos de carbono quando regulamentado (BOSCOV, 2008).
Neste capítulo são discutidas as questões ligadas ao aproveitamento energético do
metano e à redução de emissões de metano para atmosfera em aterros sanitários. Desta forma,
são apresentadas as características dos resíduos sólidos urbanos, os aterros sanitários, o
processo de biodegradação da matéria orgânica que leva à produção de metano, a oxidação
de metano nas coberturas de aterros sanitários e instalações para a geração de eletricidade.
Em seguida, são analisados os modelos de geração de metano existentes na literatura, a
emissão de metano para a atmosfera a partir de aterros sanitários, técnicas de monitoramento
de emissões de metano e um exemplo de aproveitamento de energia elétrica em um aterro
sanitário paulista.
4.2 RESÍDUOS SÓLIDOS E ATERROS SANITÁRIOS
Os resíduos sólidos urbanos constituem-se nos resíduos domiciliares e resíduos de
limpeza urbana e quando bem gerenciados, são encaminhados para os aterros sanitários,
embora a PNRS advogue que devam ser aterrados apenas os rejeitos dos processos de
tratamento de RSU. Os resíduos industriais e da construção civil devem ser encaminhados
para outros aterros específicos que não os sanitários. Os resíduos domiciliares são aqueles
originários de atividades domésticas nas residências urbanas. Os resíduos de limpeza urbana
são os resíduos procedentes da varrição, limpeza de vias públicas e demais serviços de
limpeza urbana. Os resíduos sólidos urbanos são compostos por resíduos putrescíveis
(resíduos alimentares, resíduos de jardinagem e varrição e demais materiais que apodrecem
rapidamente), papéis e papelões, plásticos, metais, vidros e outros (entulhos, borrachas, couro,
tecidos etc.). Os resíduos orgânicos produzem gases (biogás) e líquidos (lixiviado) por meio da
biodegradação mediada pelos microrganismos aeróbios ou anaeróbios. Devido ao processo de
biodegradação, os aterros sanitários não são sistemas estáveis e requerem décadas para se
estabilizarem, isto é, para concluírem a transformação da fração putrescível dos resíduos
sólidos em gases ou líquidos, restando apenas o biossólido estabilizado (BOSCOV, 2008).
CAPÍTULO 4
136
A composição gravimétrica (em peso) dos resíduos sólidos urbanos (RSU) é expressa
pelo percentual de cada componente em relação ao peso total da amostra. A composição
gravimétrica varia com o local, em função dos hábitos alimentares, padrão de consumo,
condição social, desenvolvimento econômico e industrial da sociedade. Nas cidades
brasileiras, a porcentagem de resíduos putrescíveis é elevada, apresentando cerca de 50 %.
Esta característica favorece a utilização de processos de compostagem e biodigestão para a
sua estabilização. No processo de compostagem ocorre a transformação de resíduos
orgânicos, através de processos de biodegradação físicos, químicos e biológicos, em um
material mais estável, denominado composto, um condicionador orgânico do solo. Na
biodigestão anaeróbia, o processo ocorre em sistemas fechados ou biodigestores onde a
biodegradação dos resíduos orgânicos produz o biogás formado essencialmente pelo dióxido
de carbono e o gás metano.
A questão dos resíduos sólidos e de sua gestão não é um problema ambiental recente
no Brasil. Até 2010 não existia uma política nacional em relação à disposição final de resíduos
e uma parcela significativa era disposta de maneira inadequada em sistemas denominados
lixões e aterros controlados. Do ponto de vista sanitário, estes sistemas não estão em
conformidade com as melhores práticas em termos ambientais, provocando poluição do ar, dos
solos e das águas superficiais e subterrâneas, além de impactos na flora, fauna e aos seres
humanos, devido à proliferação de vetores causadores de doenças.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei Federal n.º 12.305 de 2010,
incorpora novas concepções em relação à gestão dos resíduos sólidos urbanos. Destaca-se a
ideia da valorização ambiental e energética dos resíduos sólidos, priorizando possibilidades de
recuperação e reaproveitamento. O Brasil gera por ano cerca de 80 milhões de toneladas de
resíduos sólidos urbanos e uma parte ainda significativa são dispostos de maneira inadequada.
A condição adequada para a disposição final de resíduos refere-se aos aterros sanitários.
Infelizmente ainda em 2020 ocorre disposição de RSU de forma inadequada em vários locais
do País.
A implantação de um aterro sanitário, que é uma instalação industrial com vários
sistemas e operações complexas, inicia-se pela seleção de um local adequado e aceito pela
população. A Figura 4.1 mostra uma vista do Aterro Sanitário Caieiras em São Paulo onde se
vê no topo a direita um maciço de RSU, no topo à esquerda uma área em preparação para
receber o maciço de RSU e na parte de baixo da figura, instalações queimadoras de metano.
A implantação deve estar de acordo com o zoneamento ambiental do local, localizado a
CAPÍTULO 4
137
distância adequada de residências, mananciais, unidades de conservação e aeroportos. É
desejável que o subsolo apresente solo argiloso, com coeficiente de permeabilidade menor ou
igual a 10-7 m/s para reduzir possível contaminação. O tempo de vida de um aterro é variável,
podendo durar décadas, considerando-se o período que ele se mantém operacional recebendo
resíduos, o período para biodegradação dos resíduos e o período de monitoramento ambiental
(TCHABANOGLOUS et al., 1993).
Figura 4.1 – Aterro Sanitário Caieiras (SP).
Fonte: Acervo pessoal dos autores.
As atividades iniciais no local são a realização da cava e a impermeabilização do solo
realizada por meio da compactação de camadas de argila e pela aplicação de geomembrana
(produto polimérico sintético de baixíssima permeabilidade). A Figura 4.2 mostra o perfil de um
aterro sanitário e salienta a base construída para impermeabilizar e evitar a contaminação do
solo. A construção das camadas de resíduos é realizada pelo descarregamento dos caminhões
(devidamente pesados) e tratores que empurram e compactam os resíduos. Os resíduos
compactados são recobertos diariamente com uma camada de solo, com espessura
aproximada de 50 cm. O aterro é constituído de células, com altura de cerca de 5 m, sendo
CAPÍTULO 4
138
estas sobrepostas sucessivamente formando seções de aterro ou maciço de RSU.Ao se
completar uma seção de aterro este recebe em seu topo uma cobertura final composta por solo
e grama (CANDIANI; MOREIRA, 2015). No aterro são construídos sistemas de drenagem para
águas pluviais, lixiviados e gases e drenos verticais para gases (BORBA et al. 2018).
(A)
(B)
Figura 4.2 – Perfil vertical de um aterro sanitário mostrando desde a preparação da base
visando a impermeabilização do aterro e impedir contaminação do solo, a parte de
recebimento de RSU (A) e a cobertura junto a atmosfera (B)
Fonte: CANDIANI e MOREIRA (2018).
CAPÍTULO 4
139
O RSU depositado nos aterros pode ser considerado um meio poroso no qual o biogás
ocupa os volumes vazios (porosidade) e há também materiais líquidos. O sistema de drenagem
de um aterro compreende drenos verticais e horizontais interligados. Na Figura 4.1 vê-se esses
drenos horizontais na parte superior à esquerda onde a seção de aterro está em preparação.
Para se manter a estabilidade mecânica e estrutural do aterro deve se garantir um equilíbrio
entre as pressões internas ao aterro e a da atmosfera. Isto é garantido com a distribuição de
drenos verticais, mostrado na Figura 4.3, instalados ao longo de toda área ocupada pelo aterro,
aliviando a pressão interna (MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015). Os drenos verticais são
constituídos de tubulações de concreto perfuradas e envoltas por materiais granulares. Os
gases fluem do maciço sanitário até os drenos verticais, por onde sobem à superfície e podem
ter dois destinos (CANDIANI; MOREIRA, 2015). Podem ser queimados em queimadores
(flares) evitando-se a emissão de gás metano para a atmosfera ou podem ser extraídos e
direcionados para tratamento ou aproveitamento energético (ABREU, 2014). A Figura 4.3
apresenta dois tipos de drenos verticais: (A) drenos com extração passiva (o biogás é extraído
de forma natural sem uso de exaustores) e (B) drenos de extração forçada (o biogás é extraído
por meio de exaustores) para aproveitamento energético.
(A)
(B)
Figura 4.3 – Dois tipos de dreno vertical de extração de biogás em aterro sanitário. (A) Dreno
de extração passiva para queima do biogás em aterro sanitário (sistema passivo). (B) Dreno
de extração forçada adaptado para encaminhamento do biogás para aproveitamento
energético (sistema ativo).
Fonte: Acervo pessoal dos autores.
CAPÍTULO 4
140
(A)
(B)
Figura 4.4 – Vistas de uma seção de aterro sanitário e de uma célula de aterro. (A) Vista de
uma seção de aterro sanitário mostrando-o como um conjunto de células compostas de um
dreno vertical e a região de RSU a seu redor de onde é coletado o biogás. (B) Vistas superior
e lateral de uma célula de aterro. Na vista lateral vê-se que próximo ao dreno o fluxo de
metano é maior na direção radial no sentido do dreno e que distante do dreno o fluxo de
metano é maior na direção z no sentido da atmosfera.
Fonte: Elaborada pelos autores.
CAPÍTULO 4
141
A Figura 4.4-a mostra uma vista superior de uma seção de um aterro sanitário
mostrando-o como um conjunto de células compostas de um dreno vertical e a região de RSU
a seu redor de onde é coletado o biogás. O círculo maior representa o raio de alcance de
extração do dreno, pois a uma distância muito grande o sistema não consegue captar o biogás.
A distância entre os drenos é normalmente de 30 a 50 m e depende da capacidade de exaustão
do sistema instalado. Na Figura 4.4-b veem-se as vistas superior e lateral de uma célula de
aterro. Na vista lateral, as setas indicam sentido e magnitude dos fluxos de metano nas direções
vertical e radial. Vê-se que próximo ao dreno o fluxo de metano é maior na direção radial no
sentido do dreno e que, distante do dreno, o fluxo de metano é maior na direção vertical no
sentido da atmosfera.
Os sistemas de extração forçados visando aproveitamento energético do metano
impede que o metano encaminhado para ao dreno vertical seja emitido para a atmosfera. Nesta
situação, somente o metano que flui na direção vertical e chega a atmosfera é emitido. No caso
de não aproveitamento do metano, todo o metano gerado no aterro pode eventualmente ser
emitido para atmosfera. Moléculas de metano que chegam à cobertura dos aterros podem ser
oxidadas por microrganismos metanotróficos aeróbios, pois a região próxima à interface com
atmosfera é rica em oxigênio e permite a reação de oxidação do metano intermediada por
esses microrganismos.
As regiões fora do alcance dos drenos (fora dos círculos maiores) não seriam afetadas
pelos drenos. Nessas regiões o fluxo de moléculas de biogás na direção radial seria nulo
havendo somente fluxo de moléculas na direção vertical rumo à atmosfera.
4.3 GERAÇÃO DE BIOGÁS E METANO EM ATERROS SANITÁRIOS
O processo de biodegradação anaeróbia do resíduo sólido urbano (RSU) e a
consequente emissão de biogás no aterro varia ao longo do tempo (ABREU, 2014), pois
depende de uma sequência de etapas envolvendo complexas interações com fatores físico-
químicos e biológicos, critérios do projeto de engenharia e parâmetros, como característica e
idade do resíduo, sistema operacional do aterro sanitário, camada de cobertura, localização
geográfica e condições climáticas (GONZALEZ-VALENCIA et al. 2016).
O processo de biodegradação anaeróbia em um aterro pode ser representado
esquematicamente conforme a Figura 4.5 em 4 fases ao longo do processo
(TCHOBANOGLOUS et al., 1993): aeróbia (fase I), anaeróbia não metanogênica ou ácida (fase
II), anaeróbia metanogênica não estabilizada (fase III) e anaeróbia metanogênica estabilizada
CAPÍTULO 4
142
(fase IV). Na fase I existe oxigênio na proporção existente na atmosfera entremeado ao resíduo
depositado no aterro e, consequentemente, microrganismos aeróbios predominam e
consomem moléculas de oxigênio (O2). Concomitantemente, ocorre a hidrólise dos resíduos
que se tornam passíveis de consumo pelos micro-organismos metanogênicos. Na fase II
ocorrem processos de acidificação (acidogênese) e continua a hidrólise dos resíduos e o
ambiente no aterro se torna anaeróbio. Nas fases III e IV ocorre a formação de gás carbônico
(CO2) e metano (CH4), inicialmente de forma instável e posteriormente em condições estáveis.
Na fase IV a composição do biogás no aterro é aproximadamente CO2 (40%), CH4 (55 %) e
outros gases como NH3, H2S, O2, CO, N2 etc. (5%).
Figura 4.5 – Evolução da composição do biogás em um aterro sanitário.
Fonte: TCHOBANOGLOUS et al. (1993).
O processo de biodegradação anaeróbia da fração orgânica do RSU pode ser
representado simplificadamente por uma equação química estequiométrica mediada por
microrganismos (BOSCOV, 2008).
𝐶𝑛𝐻𝑎𝑂𝑏 + (𝑛 −
𝑎
4
−
𝑏
2
)𝐻2𝑂
𝑚𝑖𝑐𝑟𝑜𝑟𝑔𝑎𝑛𝑖𝑠𝑚𝑜
→ (
𝑛
2
−
𝑎
8
+
𝑏
4
)𝐶𝑂2 + (
𝑛
2
+
𝑎
8
−
𝑏
4
)𝐶𝐻4 (4.1)
CAPÍTULO 4
143
Onde: a fração orgânica dos RSU é representada por uma biomassa e se produz H2O
e biogás (CO2 e CH4), o processo é mediado por microrganismos anaeróbios metanogênicos,
e as letras n, a e b representam números inteiros (TCHOBANOGLOUS et al. 1993). Este
biogás, composto principalmente de metano e gás carbônico, tem um poder calorífico que está
diretamente associado à quantidade do metano presente nesta mistura (BOSCOV, 2008).
A composição dos resíduos é importante para biodegradação. A composição típica dos
resíduos sólidos urbanos no Brasil é matéria orgânica (65 %), plásticos (16 %), papel e papelão
(13 %) e outros materiais como vidros, metais ferrosos, solo, entulho, tecidos, couros, podas e
madeira (CANDIANI; MOREIRA, 2015). Alguns desses materiais apresentam biodegradação
rápida (1 a 5 anos) como a matéria orgânica (restos de comida etc.), outros como papel,
papelão, madeira, podas, tecidos apresentam biodegradação lenta (entre 5 anos e décadas) e
finalmente outros não se biodegradam. Alguns plásticos são biodegradáveis eoutros
praticamente não se biodegradam permanecendo na natureza por centenas de anos.
A Figura 4.6 mostra os resultados de vazão de metano no dreno vertical de uma célula
experimental de aterro sanitário construída no Aterro Sanitário de Caieiras situado nas
cercanias da cidade de São Paulo (CANDIANI; MOREIRA, 2018). A célula de aterro sanitário
tinha 30 m por 35 m, altura de resíduos de 5 m totalizando 3786 toneladas de RSU, um dreno
central e todos os requisitos técnicos. Os resíduos foram depositados em 12 dias, praticamente
de uma só vez, considerando o tempo de monitoramento que foi de 1000 dias (2,7 anos).
Considerando esta deposição de RSU como uma aproximação de um pulso temporal, a vazão
obtida ao longo do tempo é proporcional a função resposta temporal de geração de metano da
célula ou aterro devido a deposição de resíduos sólidos urbanos.
A célula foi monitorada por 2,7 anos e, portanto, representa o comportamento cinético
ou temporal da componente de materiais de biodegradação rápida de geração de metano em
um clima subtropical. De acordo com as observações feitas nesse experimento, somente após
quase 200 dias ou 6 meses inicia-se uma vazão de metano mensurável que atinge valores
máximos entre 350 dias e 550 dias, isto é, ~ 1 ano após a deposição de resíduos no aterro. O
tempo de latência do resíduo é, portanto, de ~ 6 meses, o período de grande geração de
metano tem duração de cerca de 200 dias e após inicia-se a queda da geração de metano até
um valor residual 1000 dias após a deposição do resíduo.
CAPÍTULO 4
144
Figura 4.6 – Vazão de metano no dreno central da célula experimental construída no Aterro
Sanitário de Caieiras de clima subtropical. A incerteza média das medidas é 8,2 %. Devido a
forma de deposição do RSU (um pulso), esta curva é proporcional a função resposta temporal
de geração de metano devido aos resíduos. Devido ao período de observação (2,7 anos) este
resultado representa a geração de metano dos materiais de mais rápida biodegradação.
Fonte: (CANDIANI; MOREIRA, 2018)
(Estes resultados mostram que a taxa de geração de metano pelo RSU na região de
São Paulo ocorre rapidamente após a deposição do resíduo sólido devido aos resíduos de
rápida biodegradação. Após esse período a vazão de metano cabe principalmente a
biodegradação de resíduos de média e longa duração que pode se estender por 70 ou mais
anos (CANDIANI; MOREIRA, 2015).
A geração de metano envolve várias variáveis, como granulometria do meio,
composição, idade do RSU, umidade, temperatura, disponibilidade de nutrientes, condições do
maciço sanitário etc. (BOSCOV, 2008). As estimativas ocorrem por meio de modelos
matemáticos desenvolvidos, programas computacionais, experimentos laboratoriais, células
experimentais de resíduos e medições em campo nos aterros sanitários (CANDIANI;
MOREIRA, 2018). A seção 4.6 discute vários desses modelos.
CAPÍTULO 4
145
4.4 OXIDAÇÃO DE METANO NA CAMADA DE COBERTURA EM ATERRO SANITÁRIO
A oxidação biológica do gás metano em um aterro sanitário ocorre por meio da ação de
microrganismos metanotróficos que são capazes de utilizar o metano como fonte de carbono
e energia, principalmente quando próximos à superfície da cobertura do aterro, onde existe um
aporte maior de oxigênio (TEIXEIRA et al. 2009). O gás metano que atravessa a camada de
solo de cobertura no aterro sanitário é parcialmente consumido pelos microrganismos
metanotróficos, que o convertem em água, dióxido de carbono, biomassa e energia (MOREIRA;
CANDIANI, 2016).
O uso do metano pelos microrganismos metanotróficos como fonte de carbono e energia
ocorre devido à ação da enzima metano monooxigenase, que oxida o metano e produz o
metanol e água. O metanol é transformado em formaldeído e consumido em diferentes rotas
metabólicas. O processo de oxidação biológica do metano depende de diferentes fatores físico-
químicos, que envolvem tanto características geotécnicas quanto microbiológicas da camada
de cobertura, destacando-se ainda parâmetros relacionados à umidade do solo de cobertura,
concentração de nutrientes e de inibidores. O grau de saturação de água é um dos parâmetros
mais importantes para a oxidação do CH4, devido à influência de espaço disponível para a
circulação de gás (TEIXEIRA et al. 2009).
Os microrganismos metanotróficos estão presentes naturalmente no solo. Estes são
classificados em dois tipos principais: as microrganismos ou bactérias do tipo I são aquelas
encontradas em locais onde a concentração de CH4 é baixa e a concentração de O2 é elevada;
os microrganismos ou bactérias do tipo II são favorecidas quando a concentração de CH4 é alta
e a concentração de O2 é baixa. O tipo I é formado por: Methylomonas, Methylocaldum,
Methylosphaera, Methylomicrobium e Methylobacter e o tipo II é composto por: Methylocystis
e Methylosinus (TEIXEIRA et al. 2009).
A oxidação de metano é estudada em amostras de solos de cobertura em aterros
sanitários e em escala laboratorial utilizando diferentes substratos em ensaios de coluna,
simulando as camadas de cobertura em aterros sanitários. Teixeira et al. (2009) estudaram
amostras de cobertura de três aterros sanitários (Aterro Sanitário de São Giácomo, Caxias do
Sul-RS, Célula Experimental da Universidade de Caxias do Sul-RS e Aterro Bandeirantes-SP),
relatando crescimento positivo de microrganismos metanotróficos. Os resultados deste estudo
sugerem que existe uma relação entre o estado do solo (representado pelo grau de saturação)
e o desenvolvimento de microrganismos metanotróficos. Para reduzir emissões fugitivas os
CAPÍTULO 4
146
autores sugerem neste estudo a instalação nos aterros sanitários de coberturas eficientes para
oxidação de metano
Salim (2011) estudou as taxas de oxidação de metano com diferentes substratos, solo
de cobertura de aterro sanitário, solo com lodo e acréscimo de 15 % e 30 % de cal, em ensaios
laboratoriais em coluna simulando a camada de cobertura em aterros sanitários. Nos ensaios,
a taxa de oxidação máxima de CH4 variou entre 19,3 e 107,6 gm-²dia-1, representando ganhos
de eficiência de 52,28 e 73,35%, respectivamente. Estes resultados demonstram a viabilidade
da utilização da técnica de oxidação na superfície dos aterros sanitários para evitar as emissões
de metano para a atmosfera.
Moreira e Candiani (2016) utilizaram os resultados obtidos na célula de aterro sanitário
para estimar a fração de metano oxidado na sua cobertura por meio de um balanço de metano.
Os resultados referem-se a uma região com clima subtropical próximo a São Paulo. Medições
e cálculos foram realizados para obter a emissão total de metano para a atmosfera, a taxa de
oxidação do metano na cobertura e a taxa total de geração de metano na célula de aterro
sanitário (MOREIRA; CANDIANI, 2016). A taxa de oxidação foi obtida através de um esquema
de cálculo baseado no transporte unidimensional vertical de metano na região de cobertura.
Os fluxos medidos de CH4 máximo e médio para a atmosfera foram 124,4 e 15,87 gm−2d−1,
respectivamente. A taxa total de geração de metano obtida para a célula de teste foi de 3,06 ±
0,61 Nm3/h. Os resultados mostraram que 69 % do metano emitido ocorreu através do dreno
vertical e 31 % através da interface de cobertura com a atmosfera. As avaliações da
percentagem de oxidação do metano na superfície da célula variaram. Na região lateral
inclinada da célula onde a cobertura é menos uniforme e compacta a percentagem de oxidação
chegou a 36 ± 11 %, enquanto para a célula inteira a percentagem de oxidação média foi de
15 ± 10 %. Esses resultados explicam diferenças de observações localizadas e globais de
oxidação em aterros sanitários relatadas na literatura (MOREIRA; CANDIANI, 2016).
4.5 DISTRIBUIÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DE METANO EM UM ATERRO SANITÁRIO
A região de RSU depositada no aterro e as coberturas de terra ou solo feitas diariamenteconstituem um meio poroso por onde metano e outros gases podem migrar
(TCHOBANOGLOUS et al., 1993). O metano gerado na região onde está disposto o RSU,
migra por difusão através da cobertura de solo antes de chegar à atmosfera (STEIN et al., 2001;
PERERA et al., 2002). Perto da interface com a atmosfera, a presença de altas concentrações
de oxigênio permite a oxidação do metano mediada por microrganismos metanotróficos
CAPÍTULO 4
147
reduzindo as emissões de metano (DE VISSCHER; VAN CLEEMPUT, 2003; CETESB, 2006).
A porosidade, ou volume vazio não ocupado por matéria sólida ou líquida das regiões de um
aterro sanitário é grande (HETTIARACHCHI et al., 2007). Após a compactação inicial, a
porosidade da região ocupada pelo RSU é normalmente em torno de 30 %, enquanto na região
de cobertura de terra, em torno de 20% (SILVA, 2010; MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015).
Este volume, inicialmente ocupado por ar atmosférico, tem uma pressão também próxima à da
atmosfera. À medida que os processos descritos na seção 4.3 ocorrem, produz-se gás devido
à biodegradação do resíduo sólido depositado. A composição do gás, que ocupa os volumes
vazios dentro do aterro, se altera. Como mencionado anteriormente, para se manter a
estabilidade mecânica e estrutural do aterro a pressõe interna ao aterro deve ser semelhante
a da atmosfera. Isto é garantido com a distribuição de drenos verticais, mostrado nas Figuras
4.3 e 4.4, instalados ao longo de toda área ocupada pelo aterro, aliviando a pressão interna
(MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015). Ocorre também escape de metano pela superfície do
aterro em contato com a atmosfera. Desta forma, devido à similaridade entre as pressões dos
gases interna e externa, o processo de transporte de gases dentro do aterro é normalmente
descrito por meio da difusão de moléculas de gás no meio poroso (TCHOBANOGLOUS et al.,
1993; STEIN et al., 2001; PERERA et al., 2002; DE VISSCHER; VAN CLEEMPUT, 2003;
CETESB, 2006; HETTIARACHCHI et al., 2007). No modelo adotado para a migração e as
emissões de metano dos aterros sanitários assumem-se parâmetros médios de transporte para
diferentes regiões de aterro e a condição de que o maciço de RSU esteja operando na fase IV
(metanogênica estável) (MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015).
É possível identificar três processos bem distintos relacionados à migração de metano
dentro de um aterro sanitário: a geração de metano pelo processo de biodegradação, o
transporte do metano pelo interior do aterro e os processos de desaparecimento ou remoção
de metano normalmente chamados de oxidação de metano por microrganismos
metanotróficos. A taxa de geração de metano pode ser estimada por meio de diferentes
modelos sendo um dos mais populares os modelos de primeira ordem. Há uma grande
dependência dos parâmetros de geração de metano com a composição dos RSU, condições
de solo e clima do aterro. Aterros em regiões tropicais e subtropicais apresentam taxas de
biodegradação de RSU mais rápidas que regiões temperadas e frias. A taxa de oxidação é
objeto de pesquisa visando minorar taxas de emissões para a atmosfera (MOREIRA; SILVA;
CANDIANI, 2015).
A distribuição da concentração de metano em regime permanente dentro do aterro
sanitário pode ser obtida a partir de uma equação de balanço de metano em um elemento de
CAPÍTULO 4
148
volume do aterro, isto é, a taxa de produção de metano é igual à taxa de desaparecimento de
metano devido a remoção por oxidação e a taxa de escape líquida de metano do elemento de
volume (saída menos entrada de metano pela superfície do elemento de volume). Para uma
situação em que o termo de advecção seja insignificante, isto é, quando a diferença de pressão
dentro do aterro e da atmosfera é pequena o fluxo de metano pode ser descrito pela lei de Fick
de difusão de gases (TCHOBANOGLOUS et al., 1993; STEIN et al., 2001; PERERA et al.,
2002; DE VISSCHER; VAN CLEEMPUT, 2003; CETESB, 2006; HETTIARACHCHI et al., 2007).
Para um problema restrito a uma célula de aterro, como mostrada na Figura 4.4, e assumindo
simetria azimutal, o fluxo de metano dado pela lei de Fick é
𝑱(𝒓) = −𝐷𝛁𝐶(𝒓) = −𝐷
𝜕𝐶(𝑟, 𝑧)
𝜕𝑟
𝒆𝒓 − 𝐷
𝜕𝐶(𝑟, 𝑧)
𝜕𝑧
𝒆𝒛 (4.2)
Onde: C(r,z) é a concentração de metano (g m-3), D é o coeficiente de difusão (m2 d-1)
do metano no meio poroso (RSU ou cobertura) e J(r) é o fluxo de metano (gm-2d-1). A Eq. 4.2
estabelece que o fluxo de metano em uma dada direção é proporcional ao gradiente da
concentração de metano no meio, mas da direção de maior concentração para a de menor
concentração devido ao sinal negativo.
A Figura 4.7 mostra um modelo de aterro sanitário uniforme, homogêneo e
unidimensional (direção vertical) onde z representa a altura do aterro e z = 0 está na sua base.
Este modelo unidimensional na direção vertical representa uma seção do aterro razoavelmente
distante de drenos verticais (ver Figura 4.4) e em regime permanente. A equação de balanço
de metano na direção vertical e desprezando o fluxo na direção radial pode ser escrita como
(TCHOBANOGLOUS et al., 1993; SILVA, 2010; MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015)
−𝐷
𝑑2𝐶
𝑑𝑧2
+ 𝜎(𝑧)𝐶(𝑧) = 𝑅(𝑧) , (4.3)
Onde o primeiro termo no lado esquerdo representa a fuga líquida de metano na direção
z (
𝑑𝐽
𝑑𝑧
), tendo J sido substituído pela Eq. 4.2, σ(z) é o coeficiente de remoção de metano do
meio via oxidação ou outros processos (d-1), o segundo termo representa a taxa de remoção
de metano por oxidação e outros processos (mol m-3 d-1) e R(z) representa a taxa de geração
de metano via biodegradação do RSU (mol m-3 d-1).
CAPÍTULO 4
149
Figura 4.7 – Modelagem unidimensional vertical de um aterro sanitário com duas
configurações: A – aterro sem cobertura no qual o RSU faz interface direta com a atmosfera;
B – aterro com cobertura no qual o RSU está protegido na parte superior por uma cobertura.
A origem está na base do aterro.
Fonte: MOREIRA; SILVA; CANDIANI (2015).
Em seções de aterro onde existem drenos verticais passivos ou ativos (para a extração
e aproveitamento do gás), ocorre a migração transversal (na direção radial) de gás em direção
a eles que reduzem a concentração de CH4 na região de RSU do aterro. Isso reduz a
concentração de CH4 no meio poroso e, consequentemente, reduz o fluxo de metano via
difusão para a atmosfera (MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015). Neste modelo, a migração de
gás transversal é contabilizada com um termo de remoção de metano transversal fictício, σT,
de modo que o coeficiente de remoção total de metano é dado por
𝜎 = 𝜎𝑜𝑥 + 𝜎𝑇 , (4.4)
onde σox é o coeficiente de remoção de metano por oxidação.
A Eq. 4.3 deve ser resolvida com condições de contorno adequadas aos problemas em
estudo: na base (z = 0) J(0) = 0; na interface com a atmosfera, C(H) = 0 (para a configuração
A), C(H+L) = 0 (para configuração B). No fundo do aterro, onde existem membranas e argila
para impermeabilização assume-se que o fluxo de metano seja igual a zero. As moléculas de
metano, colidem na membrana inferior e retornam para dentro do aterro. Assim o fluxo de
metano nesta interface é nulo. Na interface com a atmosfera, é admitida a condição de contorno
sugerida por De Visscher; Van Cleemput (2003). Nessas interfaces, a concentração de metano
pode ser 10 a 20 % maior do que os valores atmosféricos (cerca de 8x10-5 mol m-3), mas ainda
CAPÍTULO 4
150
muito pequena comparada com as concentrações típicas de metano no aterro (cerca de 15 mol
m-3). Assim, a condição de contorno assumida é que a concentração de metano seja
desprezível (nula) na interface com a atmosfera. Para a interface RSU-cobertura foi imposto
que o fluxo de metano e a concentração de metano sejam contínuos na interface entre o RSU
e as regiõesde cobertura de solo (z = H).
Se o problema visasse obter a distribuição da concentração de metano na direção radial
as condições de contorno seriam parecidas: na interface com o dreno a condição de contorno
seria J(r0) A = vazão de metano no dreno onde r0 é o raio do dreno e A é a área externa do
dreno; no limite externo da célula do aterro, re, a condição de contorno seria J(re) = 0, pois
nessa região as moléculas estariam submetidas ao alcance dos drenos vizinhos e ação de um
seria contrabalanceda pela do outro.
Neste modelo assume-se que a taxa de geração de metano R(z) seja constante ao longo
do maciço, isto é, R(z) = R0. Para uma idade dos RSU depositados nesta seção de
aproximadamente 4 anos a taxa de geração de metano R0 = 2,45 X10-5 mol m-3 s-1 (MOREIRA;
CANDIANI, 2016).
A Tabela 4.1 apresenta os dados do modelo que representam o aterro de Caieiras. O
maciço tem uma altura H = 60 m, a cobertura de solo no topo do maciço tem espessura L = 0,5
m e ocorre migração transversal de metano em direção aos drenos verticais localizados a
distâncias em torno de 15 m do ponto em estudo.
A Figura 4.8 mostra a distribuição vertical da concentração de metano para a seção
de aterro em duas configurações: configuração A – maciço de RSU de altura H = 60 m e sem
cobertura. Assim o RSU está diretamente exposto à atmosfera; configuração B – maciço de
RSU de altura H = 60 m e cobertura de espessura L = 0,5 m. Assim a altura total dessa
configuração é 60,5 m e o maciço de RSU não está exposto à atmosfera, mas protegido pela
cobertura. Nota-se que a distribuição em pontos cerca de 6 m para dentro do aterro a partir da
superfície atinge o valor máximo e que este valor se estende até o fundo do aterro. A colocação
da cobertura faz com que a concentração se torne mais elevada na região de RSU próxima à
interface retendo mais moléculas de metano dentro do aterro sanitário.
CAPÍTULO 4
151
Tabela 4.1 – Dados representando o modelo unidimensional de uma seção de aterro o
simulando o Aterro Sanitário de Caieiras (MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015).
Parâmetros Valor
• Porosidade do RSU 0,3
• Porosidade da terra de cobertura 0,2
• Massa específica do RSU 600 kg m-3
• Taxa de geração de metano estimada
• Idade do RSU
2,45x10-5 mol m-3 s-1
4 anos
• D (RSU) – coeficiente de dispersão no RSU 3,14x10-6 m-2 s-1
• D (COB) – coeficiente de dispersão na cobertura 1,36x10-6 m-2 s-1
• σox (COB) – coeficiente de remoção devido à oxidação
de metano na cobertura
3x10-6 s-1
• σT (RSU) – coeficiente de remoção devido à migração
transversal de metano na região de RSU
1,1x10-6 s-1
• Dimensões da seção do aterro sanitário
o Altura do maciço de RSU
o Espessura da cobertura de terra
60 m
0,5 m
Fonte: Elaborada pelos autores.
O metano é gerado no maciço de RSU e migra por difusão em direção a atmosfera
porque lá a concentração de metano é muito menor. Próximo à base a concentração é uniforme
em relação a altura z e à medida que se aproxima da superfície, moléculas de metano escapam
para a atmosfera. Da base do aterro até a altura 54 m a concentração é praticamente uniforme.
A altura do maciço de RSU é tão grande que a concentração de metano não varia nesta região.
A concentração cai a medida que se aproxima da interface com a atmosfera pois há um fluxo
de metano para a atmosfera e oxidação do metano por microrganismos metanotróficos próximo
atmosfera.
CAPÍTULO 4
152
Figura 4.8 – Distribuição da concentração de metano na seção de aterro sanitário para
configurações: a (sem cobertura) e b (com cobertura e coeficiente de oxidação σox = 3x10-6 s-
1).
Fonte: MOREIRA; SILVA; CANDIANI (2015).
A Figura 4.9 apresenta a distribuição do fluxo de metano na direção vertical dentro da
seção de aterro para 3 diferentes valores de coeficiente de remoção de oxidação, σox. Os
valores variam em ordens de magnitude: 7x10-7, 3x10-6, 4,5x10-5 s-1. Esses valores são
encontrados em diferentes tipos de cobertura com tratamentos específicos para maximizar a
taxa de oxidação do solo e dependem de condições de microclima, população de
microrganismos metanotróficos e do fluxo de metano na base da cobertura (MOREIRA; SILVA;
CANDIANI, 2015; SPOKAS et al., 2006; SCHEUTZ et al., 2009).
Da base do aterro até a altura 54 m, onde a concentração de metano é uniforme (Figura
4.8) o fluxo líquido de metano é praticamente nulo pois o gradiente é nulo. Isto significa que o
número de moléculas viajando para cima e para baixo nessa região é a mesma. À medida que
se aproxima da superfície do aterro o fluxo líquido aumenta. Os valores na interface de fluxo
de metano representam as emissões fugitivas para a atmosfera. Nota-se o forte impacto da
CAPÍTULO 4
153
cobertura para a redução das emissões e os fluxos e a importância do coeficiente de oxidação
para abatê-las.
Uma cobertura com coeficiente de oxidação de 4,5x10-5 s-1 (maior valor de σox) reduz as
emissões em cerca de 90% quando compara-se com as emissões do maciço de RSU sem
qualquer cobertura.
Figura 4.9 - Distribuição do fluxo de metano na seção de aterro sanitário para configurações:
A (sem cobertura) e B (com 3 valores de coeficiente de oxidação, σox).
Fonte: MOREIRA; SILVA; CANDIANI (2015).
A cobertura é um impedimento para moléculas escaparem para a atmosfera por duas
razões: é mais uma espessura a mais para as moléculas atravessarem para atingir a atmosfera;
também tem microrganismos metanotróficos que consomem o metano (oxidação) nessa região
reduzindo a quantidade de moléculas que atingem a atmosfera. Assim, esses dois efeitos
fazem com que menos metano atinge a atmosfera. A diferença de fluxo de metano para
CAPÍTULO 4
154
atmosfera entre as situações com cobertura e sem cobertura na Figura 4.9 representa a
quantidade de emissões evitadas. A concentração de metano dentro do aterro tende a ser
maior para a situação com cobertura que tem um menor fluxo para a atmosfera conforme vê-
se na Figura 4.8.
4.6 MODELOS TEMPORAIS DE TAXA DE GERAÇÃO DE METANO EM ATERROS SANITÁRIOS
Voltemos novamente para o problema da biodegradação temporal de RSU por
microrganismos metanogênicos mostrados nas Figuras 4.5 e 4.6. Vários modelos foram
propostos para descrever o fenômeno temporal de biodegradação a partir da observação de
emissões totais de seções de aterro. A complexidade destes modelos é grande se for
considerado que nem todo o metano produzido em um aterro sanitário é emitido e/ou captado,
pois parcelas são oxidadas ou aprisionadas no maciço de RSU. Deve-se ainda estimar as
perdas de metano, associadas às emissões fugitivas pela camada de solo da cobertura na
superfície do aterro e ainda a eficiência do sistema de captação de gás do aterro, formado
pelos drenos verticais e sistema operacional, que pode ser passivo ou ativo, com o uso de
motores elétricos para fazer a sucção dos gases (BOSCOV, 2008).
Nesse contexto, os modelos temporais de geração de biogás em aterros sanitários e de
emissão de gases do aterro para a atmosfera normalmente seguem uma premissa
fundamental: estimam o volume de gás gerado em um determinado tempo considerando o
percentual de matéria orgânica presente inicialmente em uma massa de resíduo e um fator de
conversão da massa de resíduo em volume de gás (BOSCOV, 2008; PINÃS et al. 2016;
SANTOS; ROMANEL; VAN ELK, 2017).
Normalmente os modelos apresentam uma função resposta de geração de metano
devido à deposição de uma massa de RSU. Esses modelos são categorizados de ordem zero,
primeira ordem, segunda ordem ou multifásicos. Existem vários softwares para previsão da
geração de biogás em um aterro sanitário, sendo possível mencionar (BARROS, 2013):
• Biogás, geração e uso energético – aterros, versão 1.0 (CETESB, 2006);
• E-PLUS – Gás de aterro, versão 1.0 (USEPA, s.d.);
• INPCC – National Greenhouse Gas Inventories ProgrammeDE EXAUSTÃO ....................................................................... 307
7.7.1 Material particulado e metais pesados (Cd, Pb e Hg) ................................. 308
7.7.2 Gases ácidos (SO2, HCl e HF) ....................................................................... 315
7.7.3 Compostos orgânicos voláteis, dioxinas e furanos...................................... 320
7.7.4 Óxidos de nitrogênio (NOx) ......................................................................... 324
7.8 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 329
7.9 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 330
8 TECNOLOGIAS DE CONVERSÃO TERMOQUÍMICA: GASEIFICAÇÃO E PIRÓLISE ....................... 337
8.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 337
8.2 GASEIFICAÇÃO ............................................................................................................... 339
8.2.1 Gaseificação: tecnologia para aproveitamento energético de RSU ............ 341
8.2.2 Gaseificador de leito móvel (também chamados de leito fixo) ................... 342
8.2.3 Gaseificador de leito fluidizado ................................................................... 343
8.2.4 Gaseificador de grelha móvel ..................................................................... 344
8.2.5 Gaseificador a plasma ................................................................................. 345
8.2.6 Exemplos de gaseificadores de resíduos sólidos urbanos instalados .......... 348
8.3 PIRÓLISE DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS .......................................................................... 360
8.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................. 364
8.5 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 367
8.6 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 367
9 ESTUDO DE CONFIGURAÇÕES EMPREGADAS EM INSTALAÇÕES DE GERAÇÃO EM CICLO
COMBINADO A PARTIR DE BIOGÁS E RESÍDUOS SÓLIDOS ............................................................ 371
9.1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 371
9.2 BASE DOCUMENTAL ACADÊMICA ....................................................................................... 371
9.3 BASE DOCUMENTAL TÉCNICA ............................................................................................ 396
9.4 ANÁLISE TÉCNICA DAS CONFIGURAÇÕES - OPORTUNIDADES E BARREIRAS ................................... 402
SUMÁRIO
xiii
9.5 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 404
9.6 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 404
10 GESTÃO, LEGISLAÇÃO E GERAÇÃO DE ENERGIA A PARTIR DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS NO
BRASIL ........................................................................................................................................... 407
10.1 PANORAMA BRASILEIRO .................................................................................................. 407
10.1.1 Gestão e Legislação..................................................................................... 407
10.1.2 Fonte de Dados ........................................................................................... 412
10.1.3 Consórcios Públicos Intermunicipais ........................................................... 417
10.1.4 Geração de Energia ..................................................................................... 420
10.1.5 Instrumentos e Políticas .............................................................................. 426
10.2 FERRAMENTAS PARA O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DA GESTÃO DE RSU ............................... 429
10.2.1 Indicadores de sustentabilidade ................................................................. 430
10.2.2 Ferramentas de gestão ............................................................................... 439
10.3 SÍNTESE DO CAPÍTULO ..................................................................................................... 449
10.4 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 449
ÍNDICE REMISSIVO ........................................................................................................................ 459
LISTA DE FIGURAS
xiv
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Organização geral do livro. ............................................................................................... ii
Figura 1.1 – Economia circular (com reciclagem dos rejeitos econômicos) para ............................. 4
minimizar a geração de rejeitos ambientais. As setas pretas ........................................................... 4
representam uma economia linear sem preocupação ..................................................................... 4
com a reciclagem. ............................................................................................................................. 4
Figura 2.1. Definição de Resíduos Úmidos e Resíduos Secos ......................................................... 15
Figura 2.2 - Matriz Elétrica Brasileira em 2020, segundo dados do Balanço Energético Nacional
(2021) .............................................................................................................................................. 16
Figura 2.3. Definição de composição gravimétrica, frações e categorias de resíduos sólidos
urbanos ........................................................................................................................................... 18
Figura 2.4. Principais categorias da composição gravimétrica de resíduos sólidos urbanos.......... 19
Figura 2.5. Categorias da composição gravimétrica dos RSU no município de Santo André/SP .... 20
Figura 2.6. Composição gravimétrica para avaliação do potencial energético de resíduos sólidos
urbanos ........................................................................................................................................... 22
Figura 2.7. Variáveis de influência sobre a composição gravimétrica de resíduos sólidos urbanos
23
Figura 2.8. Fatores a serem considerados na análise da população para elaboração de um plano
de amostragem ............................................................................................................................... 26
Figura 2.9. Etapas do planejamento de amostragem de resíduos sólidos urbanos para
determinação da sua composição gravimétrica ............................................................................. 37
Figura 2.10. Dados dos geradores de resíduos que devem ser determinados para definição do
tamanho de amostra ...................................................................................................................... 39
Figura 2.11. Fluxograma para seleção de amostras aleatoriamente .............................................. 46
Figura 2.12. Etapas do trabalho de campo para coleta e preparo de amostras de resíduos sólidos
úmidos do município de Santo André ............................................................................................ 47
Figura 2.13. Sequência do procedimento de quarteamento para obtenção das amostras para
análise da composição gravimétrica ...............................................................................................do Painel
Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, 2006);
• LandGEM, versão 3.02 da Agência Ambiental Americana (USEPA, 1998);
• Modelo Scholl Canyon do Banco Mundial (2003).
CAPÍTULO 4
155
Embora já mencionamos que a Figura 4.6 representa uma observação experimental da
função resposta temporal de geração de metano de um aterro sanitário, antes de continuar
vamos defini-la com exatidão. A função resposta de geração de metano, R(0,t), expressa no
instante t a taxa de geração de metano em (mol/s) ou (Nm3/h) devido a uma deposição de 1
tonelada de RSU no instante t = 0. Tomando a segunda escolha de unidades, a unidade de
R(0,t) é Nm3 h-1 ton-1. A seguir são apresentados alguns modelos de função resposta de
geração de metano descritos na literatura.
4.6.1 Modelos de geração de metano de ordem zero
Nos modelos de ordem zero o comportamento da função resposta R(0,t) (metano
gerado) é aproximado como constante ou com variação linear em determinados intervalos de
tempo. Exemplos de formas de R(0,t), isto é, da taxa de geração de metano por unidade de
tempo em t e por unidade de massa de resíduo (RSU) depositada em t = 0, são mostradas
nas Figuras 4.10 a 4.12. Nestes modelos R(0,t) tem a forma de retângulos, triângulos ou outras
figuras geométricas. No caso retangular, R(0,t) é uniforme conforme mostrado na Figura 4.10,
a taxa de geração do gás no aterro é constante ao longo do tempo e não depende da idade
dos resíduos (SWANA, 1998; USEPA, 1998).
Figura 4.10 - Função resposta para taxa de geração de metano uniforme no tempo.
Fonte: CANDIANI (2011).
Um exemplo deste tipo é o modelo holandês de geração de metano em um aterro
sanitário, podendo ser classificado de ordem zero e baseado em Hoeks (1983). Este modelo
de ordem zero representado pela Figura 4.10 é dado por
CAPÍTULO 4
156
𝑅(0, 𝑡) =
𝐿0
(𝑡0−𝑡𝑓)
(4.5)
onde L0 (mol CH4/t RSU) é o potencial de geração de metano em volume de massa, t0 é
o tempo (anos) inicial e tf é o tempo (anos) final de geração de gás.
A biodegradação ocorre em taxas diferentes para diferentes materiais
(TCHOBANOGLOUS et al. 1993). A Figura 4.11 mostra um modelo para descrever a
biodegradação rápida e lenta por meio de comportamentos da função resposta na forma de
triângulos. Para o caso da biodegradação rápida, a taxa de geração de metano cresceria
linearmente até um pico em torno de 1 ano e depois decresceria até completar 5 anos após a
deposição. Para o caso da biodegradação lenta, ela cresceria até atingir um pico em torno de
5 anos e depois decresceria até se tornar desprezível em 15 anos após a deposição, isto é,
𝑅 (0, 𝑡) = {
𝑎𝑡, 𝑡50
LISTA DE FIGURAS
xv
Figura 2.14. Composição gravimétrica média das frações combustíveis dos resíduos sólidos
urbanos úmidos oriundos de coleta indiferenciada, feiras livres e CRAISA do município de Santo
André/SP, na campanha gravimétrica realizada entre set/2015 e fevereiro/2016 ........................ 53
Figura 2.15 - Etapas do preparo de amostras para envio ao laboratório para caracterização ....... 55
Figura 2.17. Umidade e séries de sólidos de amostras da FORSU provenientes da coleta
indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município de Santo André/SP, coletadas durante a
campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016 ................................... 77
Figura 2.18. Teores médios de Nitrogênio Kjehdal, Carbono Orgânico Total e razão C/N nas
amostras de FORSU oriundas da coleta indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município de
Santo André/SP, provenientes da campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e
fevereiro/2016. ............................................................................................................................... 79
Figura 2.19. Teores médios de Lipídeos, Proteínas e Carboidratos+Fibras nas amostras de FORSU
oriundas da coleta indiferenciada, CRAISA e feiras livres do município de Santo André/SP,
provenientes da campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016. ....... 81
Figura 3.1. Tendências de uso de combustível derivado de resíduo no contexto brasileiro. ......... 96
Figura 3.2. Classificação de refuse-derived fuel (RDF) de acordo com a norma ASTM E 856:2004 98
Figura 3.3. Produção e comercialização de solid recovered fuel (SRF). .......................................... 99
Figura 3.4. Sistema manual de segregação de resíduos de coleta seletiva. ................................. 101
Figura 3.5. Sistema mecanizado de processamento de resíduo para obtenção de combustível
derivado de resíduo (CDR). ........................................................................................................... 102
Figura 3.6. Esquema simplificado de uma planta de tratamento mecânico e biológico (TMB). .. 103
Figura 3.7. Esquema simplificado de obtenção de CDR a partir do tratamento mecânico. ......... 105
Figura 3.8. Planta de tratamento mecânico e biológico (TMB), Portugal. .................................... 106
Figura 3.9. Preparo de combustível derivado de resíduo (CDR) e tipo de fonte utilizada, conforme
estabelecido na Resolução SIMA nº 47/2020. .............................................................................. 107
Figura 3.10. Combustível derivado de resíduo (CDR) não densificado produzido pela empresa
Valorização e Tratamento de Resíduos Sólidos, S.A. – VALNOR, Portugal. .................................. 111
Figura 3.11. Rotas tecnológicas de conversão de combustível derivado de resíduo (CDR). ........ 120
Figura 3.12. Tecnologia de gaseificação com emprego de CDR.................................................... 122
Figura 3.13. Tecnologia de combustão de CDR em leito fluidizado .............................................. 123
Figura 4.1 – Aterro Sanitário Caieiras (SP). ................................................................................... 137
LISTA DE FIGURAS
xvi
Figura 4.2 – Perfil vertical de um aterro sanitário mostrando desde a preparação da base visando
a impermeabilização do aterro e impedir contaminação do solo, a parte de recebimento de RSU
(A) e a cobertura junto a atmosfera (B) ........................................................................................ 138
Figura 4.3 – Dois tipos de dreno vertical de extração de biogás em aterro sanitário. (A) Dreno de
extração passiva para queima do biogás em aterro sanitário (sistema passivo). (B) Dreno de
extração forçada adaptado para encaminhamento do biogás para aproveitamento energético
(sistema ativo). ............................................................................................................................. 139
Figura 4.4 – Vistas de uma seção de aterro sanitário e de uma célula de aterro. (A) Vista de uma
seção de aterro sanitário mostrando-o como um conjunto de células compostas de um dreno
vertical e a região de RSU a seu redor de onde é coletado o biogás. (B) Vistas superior e lateral de
uma célula de aterro. Na vista lateral vê-se que próximo ao dreno o fluxo de metano é maior na
direção radial no sentido do dreno e que distante do dreno o fluxo de metano é maior na direção
z no sentido da atmosfera. ........................................................................................................... 140
Figura 4.5 – Evolução da composição do biogás em um aterro sanitário. ................................... 142
Figura 4.6 – Vazão de metano no dreno central da célula experimental construída no Aterro
Sanitário de Caieiras de clima subtropical. A incerteza média das medidas é 8,2 %. Devido a
forma de deposição do RSU (um pulso), esta curva é proporcional a função resposta temporal de
geração de metano devido aos resíduos. Devido ao período de observação (2,7 anos) este
resultado representa a geração de metano dos materiais de mais rápida biodegradação. ........ 144
Figura 4.7 – Modelagem unidimensional vertical de um aterro sanitário com duas configurações:
A – aterro sem cobertura no qual o RSU faz interface direta com a atmosfera; B – aterro com
cobertura no qual o RSU está protegido na parte superior por uma cobertura. A origem está na
base do aterro. ............................................................................................................................. 149
Figura 4.8 – Distribuição da concentração de metano na seção de aterro sanitário para
configurações: a (sem cobertura) e b (com cobertura e coeficiente de oxidação σox = 3x10-6 s-1).
152
Figura 4.9 - Distribuição do fluxo de metano na seção de aterro sanitário para configurações: A
(sem cobertura) e B (com 3 valores de coeficiente de oxidação, σox). ......................................... 153
Figura 4.10 - Função resposta para taxa de geração de metano uniforme no tempo. ................ 155
Figura 4.11 - Função resposta para a taxa de geração de metano com variação linear no tempo.
Degradação rápida e lenta (TCHOBANOGLOUS et al. 1993). ........................................................ 156
LISTA DE FIGURAS
xvii
Figura 4.12 - Função resposta para taxa de geração de metano com variação linear no tempo,
mostrando a biodegradação rápida e lenta (LIMA, 2004). ........................................................... 157
Figura 4.13 - Função resposta para a taxa de geração de metano de modelos de segunda ordem
com a fase de latência, crescimento linear e decaimento exponencial. ...................................... 161
Figura 4.14 – Sistema de captação de biogás no Aterro Sanitário Caieiras (SP). .......................... 163
Figura 4.15 - Exautores para sucção do biogás. Unidade de captação de biogás no Aterro Sanitário
Caieiras (SP). ................................................................................................................................. 164
Figura 4.16 – Filtros para remoção de condensado. Unidade de captação de biogás no Aterro
Sanitário Caieiras (SP). .................................................................................................................. 164
Figura 4.17 – Motogeradores a biogás para geração de energia elétrica no Aterro Sanitário
Caieiras (SP). ................................................................................................................................. 165
Figura 4.18 – Motogeradores a biogás para geração de energia elétrica no Aterro Sanitário
Salvador (BA). ............................................................................................................................... 165
Figura 4.19 – Conjunto de motogeradores elétricosda termelétrica no Aterro Sanitário Caieiras
(SP). ............................................................................................................................................... 166
Figura 4.20 – Estimativa da taxa de geração de metano no Aterro Sanitário Caieiras. ................ 168
Figura 4.21 – Potência máxima disponível estimada para o Aterro Sanitário Caieiras ao longo dos
anos. O aproveitamento desta potência disponível depende da motorização realizada no aterro
ao longo dos anos. ........................................................................................................................ 169
Figura 4.22 - Principais métodos diretos de medição das emissões fugitivas de metano em aterro
sanitário. ....................................................................................................................................... 171
Figura 4.23 – Principais tipos de placas de fluxo para medir o escape fugitivo de metano em
aterro sanitário. ............................................................................................................................ 173
Figura 4.24 - Estudos termográficos em aterro sanitário ............................................................. 176
Figura 5.1: Rotas metabólicas e respectivos grupos de micro-organismos .................................. 190
Figura 5.2: Representação esquemática da influência da temperatura sobre a taxa de crescimento
das arqueas metanogênicas ......................................................................................................... 194
Figura 5.3: Vista tridimensional, em corte, do biodigestor modelo indiano. ............................... 203
Figura 5.4: Vista frontal, em corte, do biodigestor modelo chinês .............................................. 204
Figura 5.5: Esquema de um reator CSTR....................................................................................... 205
Figura 5.6: Esquema de um reator anaeróbio de contato ............................................................ 205
LISTA DE FIGURAS
xviii
Figura 5.7: Esquema de um filtro anaeróbio de fluxo ascendente. .............................................. 206
Figura 5.8: Esquema de reatores UASB (esquerda) e EGSB (direita). ........................................... 208
Figura 5.9: Representação esquemática do processo Waasa. ...................................................... 211
Figura 5.10: Representação esquemática do processo Dranco. ................................................... 212
Figura 5.11: Representação esquemática do processo Kompogas............................................... 213
Figura 5.12: Representação esquemática do processo Valorga. .................................................. 214
Figura 5.13: Representação esquemática do reator de batelada de um estágio. ........................ 215
Figura 5.14: Representação esquemática de reatores em batelada sequencial .......................... 216
Figura 5.15: Representação esquemática do reator de batelada híbrido seco/contínuo úmido. 217
Figura 5.16: Representação esquemática tecnologia Bekon. ....................................................... 218
Figura 5.17: Pátio de carregamento da Planta Bioferm de Sogliano, Itália .................................. 219
Figura 5.18: Planta demonstrativa de biometano no complexo de Itaipu. .................................. 221
Figura 5.19: Imagem aérea da planta da CS Bioenergia e São José dos Pinhais – PR. .................. 222
Figura 5.20: Túnel de metanização do Eco Parque de Jacareí ...................................................... 224
Figura 5.21: Vista geral da planta piloto de metanização em Bertioga – SP. ............................... 225
Figura 5.22: Vista geral da planta de metanização da estação de transbordo do Caju- Rio de
Janeiro. ......................................................................................................................................... 226
Figura 6.1 – Opções tecnológicas para utilização de gás de aterro .............................................. 239
Figura 6.2 – Faixa de operação de plantas em função da quantidade de metano ....................... 247
Figura 6.3 – Esquema de instalação típica de geração de energia elétrica utilizando motor a gás
252
Figura 6.4 Número de empreendimentos e potência total das usinas termelétricas classificadas
pela matéria prima utilizada para produção de biogás ................................................................ 263
Figura 6.5: Principais componentes de uma Microturbina de 30 kW Capstone. ......................... 264
Figura 6.6: Detalhe do eixo principal de Microturbina de 30 kW Capstone. ................................ 265
Figura 6.7: Desenho esquemático de uma microturbina. ............................................................ 265
Figura 6.8: Microturbina com um único eixo. ............................................................................... 267
Figura 6.9: Microturbina com dois eixos. ..................................................................................... 267
Figura 7.1: Diagrama do processo de combustão com recuperação energética da planta ASM –
Brescia – Itália. .............................................................................................................................. 282
LISTA DE FIGURAS
xix
Figura 7.2 a) Caldeira utilizando grelha do tipo Reverse Acting Grate Vario®; b) Caldeira utilizando
grelha do tipo Reverse Acting Grate SITY 2000®; c) Caldeira utilizando grelha do tipo horizontal
(Traveling Grate) ........................................................................................................................... 285
Figura 7.3: (a) Caldeira de grelha para resíduos sólidos, projeto Kawasaki (2013). ..................... 285
Figura 7.4: (a) Fornalha de tipo fluxo intermediário (Convencional) e (b) do tipo Fluxo paralelo
(projeto Kawasaki). ....................................................................................................................... 287
Figura 7.5: Caldeira de leito fluidizado. ........................................................................................ 288
Figura 7.6: Caldeira de leito fluidizado circulante. ....................................................................... 289
de grelha ....................................................................................................................................... 291
Figura 7.8: Número de plantas WtE nos países da Europa. .......................................................... 295
Figura 7.9: Quantidade de RSU tratado em 2017 nas plantas WtE (milhões de toneladas) ........ 295
Figura 7.10: Típicos problemas de corrosão em caldeiras de queima de resíduos. ..................... 297
Figura 7.11: Condições de trabalho em caldeiras de biomassa e resíduos, em função da corrosão.
301
Figura 7.12: Mapeamento de incrustações e corrosão na caldeira com a queima de biomassa
e/ou resíduos. ............................................................................................................................... 302
Figura 7.13 – Esquema de um filtro de mangas. .......................................................................... 309
Figura 7.14 - Tipos de sistemas de limpeza dos filtros de mangas: a) limpeza por fluxo reverso de
gás, b) limpeza por sacudimento mecânico, c) limpeza por jato pulsante. .................................. 310
Figura 7.15 - Precipitador eletrostático. ....................................................................................... 311
Figura 7.16 - Precipitador eletrostático de placa e arame. ........................................................... 312
Figura 7.17 - Disposição dos eletrodos no coletor de placas. ....................................................... 313
Figura 7.18 - Esquema de um precipitador eletrostáticotipo úmido indicando a disposição dos
bocais de nebulização da água. .................................................................................................... 314
Figura 7.19- Câmara de spray. ...................................................................................................... 316
Figura 7.20 - Configuração esquemática de um lavador de bandejas: a) bandeja com bubblecaps
(borbulhadores), b) bandeja perfurada. ....................................................................................... 316
Figura 7.21 - Torre com leito empacotado. .................................................................................. 317
Figura 7.22: Spray dryer. ............................................................................................................... 318
Figura 7.23: Eficiência de redução de VOCs.................................................................................. 320
Figura 7.24 - Incineração térmica para destruição de VOCs. ........................................................ 321
LISTA DE FIGURAS
xx
Figura 7.25 - Incineração catalítica. .............................................................................................. 322
Figura 7.26: Adsorção para a destruição de VOCs ........................................................................ 323
Figura 7.27: LNBs (a) de ar estagiado e (b) de combustível estagiado. ........................................ 326
Figura 7.28: Recirculação do gás de escape (FGR). ....................................................................... 327
Figura 7.29: Redução seletiva catalítica (SCR). ............................................................................. 328
Figura 7.30: A SNCR ocorre em temperaturas maiores do que as da SCR. ................................... 329
Figura 8.1: Influência da razão de equivalência nos processos de conversão da energia. ........... 337
Figura 8.2: Apresentação das etapas individuais e total do processo de conversão do Resíduo
Sólido Urbano e os usos finais dos produtos intermediários. ...................................................... 339
Figura 8.3: Composição dos gases produzidos a partir de diferentes conceitos. ......................... 341
Figura 8.4: Gaseificadores de leito móvel em fluxo co-corrente (esquerda) e contra-corrente
(direita) ......................................................................................................................................... 343
Figura 8.5: Gaseificador de leito fluidizado borbulhante ............................................................. 344
Figura 8.6: Gaseificador de grelha móvel. .................................................................................... 345
Figura 8.7 – Esquema típico de gaseificador a plasma de arco não transferido. .......................... 346
Figura 8.8: Esquema do processo de gaseificação em grelha fixa da Energos. ............................ 349
Figura 8.9: Esquema do processo de gaseificação da empresa Lahti II. ....................................... 350
Figura 8.10: Esquema de gaseificador de material fundido ......................................................... 351
Figura 8.11: Fluxograma do processo WtE da Nippon Steel ......................................................... 352
Figura 8.12: Fluxograma do processo de WtE com gaseificador de fusão direta. ........................ 353
Figura 8.13: Detalhe do reator de leito fluidizado internamente circulante da Ebara. ................ 354
Figura 8.14: Fluxograma da planta de gaseificação apresentado pela WEG e ELB....................... 358
Figura 8.15: Concepção da planta de gaseificação em Boa Esperança - MG ................................ 359
Figura 8.16: Diagrama esquemático do processo RWE-Contherm ............................................... 363
Figura 9.1 – Ciclo a vapor (sistema de referência) ........................................................................ 372
Figura 9.2 – Ciclo combinado água/vapor com motor de combustão interna. ............................ 374
Figura 9.3 – Ciclo combinado orgânico com motor de combustão interna: (a)com circuito de óleo
intermediário (b) troca direta de calor. ........................................................................................ 375
Figura 9.4 – Ciclo combinado com fluido térmico orgânico (ORC) ............................................... 376
Figura 9.5 – Unidade de processamento do gás de esgoto .......................................................... 377
Figura 9.6 - Módulo de geração elétrica com célula combustível ................................................ 378
LISTA DE FIGURAS
xxi
Figura 9.7- Caso 1 de Korobitsyn et al. (1999). ............................................................................. 379
Figura 9.8 - Caso 2 de Korobitsyn et al. (1999). ............................................................................ 380
Figura 9.9- Caso 3 de Korobitsyn et al. (1999). ............................................................................. 381
Figura 9.10- Caso 4 de Korobitsyn et al. (1999). ........................................................................... 382
Figura 9.11- Proposta de Udomsri et al. (2010). ........................................................................... 383
Figura 9.12 – Proposta de Poma et al. (2010). .............................................................................. 384
Figura 9.13 – Uma das configurações avaliadas em Branchini (2012). ......................................... 385
Figura 9.14 – Proposta de Balcazar et al. (2013). ......................................................................... 386
Figura 9.15 – Ciclo combinado com estrutura de pirólise de resíduos sólidos ............................. 387
Figura 9.16 - Ciclo Rankine com gaseificação HTGG ..................................................................... 388
Figura 9.17 - Ciclo Rankine com gaseificação LTFBG .................................................................... 389
Figura 9.18 – Ciclo Rankine com gaseificação de RDF .................................................................. 390
Figura 9.19 – Ciclo Rankine com gaseificação de RDF e resfriamento recuperativo. ................... 391
Figura 9.20 – Ciclo combinado com gaseificação de RDF e resfriamento recuperativo. .............. 391
Figura 9.21 – Ciclo combinado com gaseificação de RDF, resfriamento recuperativo e injeção de
vapor. ............................................................................................................................................ 392
Figura 9.22 – Ciclo combinado com gaseificação de RDF associada à tecnologia de plasma e
resfriamento recuperativo. ........................................................................................................... 393
Figura 9.23 – Ciclo IPGCC, proposto. ............................................................................................ 394
Figura 9.24 – Ciclo combinado SOFC-GT com gaseificação de resíduo sólido .............................. 395
Figura 9.25 – Ciclo IPGFC proposto por Galeno, Minutillo e Perna (2011) ................................... 396
Figura 9.26 - Ciclo combinado gás/vapor de Bay View, Estados Unidos ...................................... 397
Figura 9.27 – Ciclo híbrido da unidade Von Roll, Holanda ............................................................ 398
Figura 9.28 – Diagrama típico de corrosão em incineradores ...................................................... 399
Figura 9.29 – Ciclo híbrido de Zabalgarbi ...................................................................................... 401
Figura 9.30 – Ciclo híbrido de Takahama, Japão. .......................................................................... 402
Figura 10.1- Marcos das principais legislações aplicáveis aos RSU ...............................................410
Figura 10.2 - Marcos da gestão de resíduos e geração de energia a partir de fontes renováveis 411
Figura 10.3 – Evolução da quantidade total e per capita de RSU no Brasil (1981-2015).............. 413
Figura 10.4 - Etapas para a formação de consórcios públicos ...................................................... 418
Figura 10.5 - Localização da URE Barueri ...................................................................................... 424
LISTA DE FIGURAS
xxii
Figura 10.6 - Diagnóstico integrado a partir dos indicadores de sustentabilidade ...................... 437
Figura 10.7 - Ferramentas para a gestão dos resíduos ................................................................. 440
Figura 10.8 - Etapas do benchmarking ......................................................................................... 441
Figura 10.9 - Benefícios da aplicação da análise SWOT ................................................................ 446
LISTA DE TABELAS
xxiii
LISTA DE TABELAS
Tabela 2.1. Composição gravimétrica média dos RSU no Brasil ..................................................... 19
Tabela 2.2. Parâmetros estatísticos mínimos indicados por normas internacionais para
determinação do tamanho de amostras de resíduos sólidos urbanos ........................................... 29
Tabela 2.3. Definições básicas sobre o sistema de gestão de resíduos do município de Santo
André .............................................................................................................................................. 40
Tabela 2.4. Parâmetros estatísticos utilizados para calcular o tamanho da amostra de resíduos
sólidos no estudo de caso aplicado ao município de Santo André ................................................. 44
Tabela 2.5. Simulação do tamanho de amostras para diferentes combinações de erros e níveis de
confiança......................................................................................................................................... 44
Tabela 2.6. Composição imediata das categorias combustíveis dos resíduos úmidos do município
de Santo André em amostragem realizada na campanha gravimétrica realizada entre
setembro/2015 e fevereiro/2016 ................................................................................................... 62
Tabela 2.7. Composição elementar das categorias combustíveis dos resíduos úmidos do
município de Santo André em amostragem realizada na campanha gravimétrica realizada entre
setembro/2015 e fevereiro/2016 ................................................................................................... 65
Tabela 2.8. Óxidos encontrados nas cinzas de fundo com respectiva abundância para as
categorias combustíveis dos RSU do município de Santo André/SP obtidas na campanha
gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016. .................................................... 68
Tabela 2.9. Valores de umidade, PCS e PCI das categorias combustíveis dos resíduos do município
de Santo André/SP obtidas na campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e
fevereiro/2016 ................................................................................................................................ 70
Tabela 2.10. Comparação entre os valores do 𝑷𝑪𝑰𝒖 experimental e predito por modelos da
literatura para os resíduos sólidos urbanos do município de Santo André, considerando-se a
composição gravimétrica da campanha realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016 .......... 73
Tabela 2.11. Potencial Bioquímico de Metano Médio teórico e experimental para amostras de
FORSU oriundas da coleta indiferenciada, feiras livres e CRAISA do município de Santo André, em
campanha gravimétrica realizada entre setembro/2015 e fevereiro/2016 ................................... 86
Tabela 3.1. Classificação de solid recovered fuels (SRF), conforme a norma CEN EN 15359:2011. 99
LISTA DE TABELAS
xxiv
Tabela 3.2. Critérios para utilização de combustível derivado de resíduo (CDR), conforme
Resolução SIMA nº 47/2020. ........................................................................................................ 108
Tabela 3.3. Composição de refuse-derived fuel (RDF) processado a partir de três diferentes
plantas de tratamento mecânico e biológico (TMB) localizadas no Reino Unido. ....................... 110
Tabela 3.4. Descrição geral da planta Fukuyama Recycle Power Co. Ltd., localizada no Japão. ... 122
Tabela 4.1 – Dados representando o modelo unidimensional de uma seção de aterro o simulando
o Aterro Sanitário de Caieiras (MOREIRA; SILVA; CANDIANI, 2015). ............................................ 151
Tabela 4.2 – Dados técnicos sobre o Aterro Sanitário Caieiras .................................................... 167
Tabela 4.3 - Emissão fugitiva de metano com placa de fluxo em diferentes aterros sanitários. . 177
Tabela 6.1 – Capacidade instalada de sistemas de geração de energia elétrica utilizando biogás:
mundial e regional ........................................................................................................................ 241
Tabela 6.2 – Quantidade de sistemas, capacidade instalada e de operação de geração de energia
elétrica utilizando biogás nos Estados Unidos .............................................................................. 242
Tabela 6.3 – Características das tecnologias utilizadas com gás de aterro .................................. 243
Tabela 6.4 Classificação dos empreendimentos por faixa de geração de potência. .................... 263
Tabela 6.5 – Custos de investimento e operacional na geração com microturbina e motor. ...... 272
Tabela 6.6 – Participação do custo de componentes e subsistemas no custo total de um sistema
operando com microturbinas. ...................................................................................................... 272
Tabela 6.7 - Principais fabricantes americanos de microturbinas. ............................................... 273
Tabela 7.1 - Plantas de referência para RSU que utilizam combustores de leito fluidizado em
Japão e Europa .............................................................................................................................. 294
Tabela 7.2 Plantas com elevados parâmetros de pressão e temperatura do vapor gerado ........ 296
Tabela 7.3: Pressões de vapor de cloretos metálicos a 450°C, em equilíbrio com óxidos metálicos.
299
Tabela 7.4: Emissões atmosféricas de diferentes fontes combustíveis em termos de dióxido de
carbono equivalente. .................................................................................................................... 305
Tabela 7.5 - Eficiências de redução de alguns contaminantes pelo processo de absorção com
spray dryer .................................................................................................................................... 319
Tabela 7.6 - Faixa de eficiência de queimadores de baixo NOx. ................................................... 326
Tabela 8.1: Condições de operação e classificação dos processos de pirólise ............................ 361
LISTA DE TABELAS
xxv
Tabela 9.1 – Perfil de temperaturas nas seções da caldeira de incineração (gases de exaustão em
°C a 100% de carga com média incrustação). ............................................................................... 400
Tabela 10.1 - Evolução das pesquisas referente aos resíduos sólidos urbanos pelo Sistema
Nacional de Informação sobre o Saneamento do Brasil - 2002-2018 .......................................... 415
Tabela 10.2 - Panorama dos RSU no Brasil – 2019 ....................................................................... 416
LISTA DE QUADROS
xxvi
LISTA DE QUADROS
Quadro 2.1 Recomendações sobre os tempos de amostragem indicados por normas
internacionais