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MAGNOLI Bacharel em Ciências Sociais e doutor em Geografia Humana pela USP Especialista em Relações Internacionais e editor do jornal Mundo Geografia e Política Internacional GEOGRAFIA PARA O ENSINO ENSINO MÉDIO EDIÇÃO - 2012 SÃO PAULO Atual EditoraCAPÍTULO Os CLIMAS E AS SOCIEDADES 3 A ENERGIA SOLAR RECEBIDA PELA TERRA AQUECE DESIGUALMENTE A atmosfera, os oceanos e os continentes. As massas de ar e as correntes marinhas são os veículos da circulação do calor. Essa dinâmica extremamente complexa é compreendida apenas em parte pelos cientistas. Sabe-se, no entanto, que os climas apresentam oscilações ao longo do tempo geológico, e os modelos mais aceitos atualmente sustentam a hipótese de que estamos atravessando um ciclo de rápi- das mudanças climáticas. A maior parte da comunidade científica acredita que a humanidade é parcialmente responsável por esse processo. Sabemos pouco sobre a complexa dinâmica dos climas, mas podemos classificar e cartografar os grandes tipos climáticos do planeta com base em parâmetros de temperaturas e precipitações. Os tipos climáticos exercem forte influência sobre a economia e o modo de vida das sociedades humanas. 0 efeito estufa e as mudanças climáticas Atmosfera é a camada gasosa que envolve a Terra. A nossa atmosfera distingue-se, entre os demais planetas do Sistema Solar, por ser um produto da vida. As trocas de gases realizadas pelos organismos produziram uma atmosfera rica em oxigênio e com pouco dióxido de carbono ao contrário do que ocorre em Venus e A interação entre a Terra e o espaço exterior ocorre por meio da atmosfera, cuja massa de gases, mais concentrada na camada inferior, a troposfera, vai se tornando rarefeita à medida que aumenta a altitude. A radiação solar é a principal fonte de energia e a base da vida, vegetal e animal, na Terra. De toda a radiação proveniente do Sol, cerca de 30% é imediatamente refletida para o espaço, sem aquecer o planeta. Essa porcenta- gem é constituída por ondas curtas (luz visível, raios ultravioleta, raios X e raios gama). A porcentagem restante é absorvida pela atmosfera, terras emersas, oceanos e organismos fotossintetizantes. Com o tempo, a Terra dissipa essa energia, emitindo-a de volta para o espaço sob a forma de ondas longas (infravermelho, micro-ondas e ondas de rádio e TV). Essa é a radiação terrestre (veja o esquema na página seguinte). Os gases que compõem a troposfera comportam-se diferenciadamente diante da radiação em diversos comprimentos de onda. Eles são transparentes à maior parte da radiação solar e é por isso que a luz atinge a superfície. Mas são opacos à radiação terrestre, absorvendo-a e aquecendo-se. As trocas de calor entre a troposfera, de um lado, e os oceanos e continentes, de outro, reduzem o resfria- mento do planeta. Esse mecanismo natural é conhecido como efeito estufa. A temperatura média da Terra é de 15 °C. Sem o efeito estufa, seria de 15 °C negativos ou até menos, o que reduziria ao extremo a diversidade da vida no planeta. 45UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico efeito estufa decorre, Balanço energético da radiação solar principalmente, da absorção de SAÍDA DE RADIAÇÃO calor por alguns gases, deno- Ondas curtas Ondas longas minados gases de estufa, como ENTRADA DE 30% 70% RADIAÇÃO 20% 6% 4% 26% 38% 6% vapor de água, dióxido de car- 100% bono, metano, óxidos nitrosos Atmosfera Refletida pelas e ozônio. Atividades humanas nuvens Dispersada Refletida pela Emissão pela aumentam as concentrações de na atmosfera atmosfera atmosfera 18% (H20 e gases de estufa na atmosfera. A Absorção pela Absorvida Absorvida pelas atmosfera queima de combustíveis fósseis diretamente pela nuvens 3% 15% atmosfera 16% Refletida pela e de biomassa provoca emis- superfície Emissão de de dióxido de carbono. A Fluxo de calor radiação de Radiação Radiação Radiação pela evaporação ondas longas criação de gado e as culturas difusa direta difusa Aquecimento do ar pela superfície pela Terra de arroz geram emissões de metano. O uso de fertilizantes Oceanos +14% +26% +11% -7% -23% -21% químicos causa emissões de e +51% -51% continentes dos nitrosos. Representação sem escala. As temperaturas médias globais sofreram Fonte: SALGADO-LABORIAU, Maria Léa. História ecológica da Terra. aumento de 0,8 °C entre meados do século XIX e São Paulo: Edgar 1994. p. 209. 2010. Há fortes indícios de que, ao longo do século gências na comunidade científica, a visão predomi- XXI, ocorra aumento de pelo menos mais 1,8 nante é de que a interferência humana na mistura de Desde o início da era industrial, há dois séculos e gases atmosféricos desempenha papel decisivo nas meio, as concentrações atmosféricas de dióxido de mudanças climáticas. Essa opinião majoritária é o carbono, metano e óxido nitroso aumentaram signi- fundamento das políticas internacionais voltadas para ficativamente (veja os gráficos da página seguinte). o tema das mudanças climáticas, que incidem princi- A maior parte do aumento dessas concentrações palmente sobre a produção e o consumo de energia, ocorreu no último meio século. Embora existam diver- como veremos no capítulo 8. Usina termoelétrica a carvão mineral na Geórgia, Estados Unidos, em 2007. combate às emissões de gases de estufa exige a substituição das antigas usinas baseadas em carvão. 46Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Concentrações de gases de estufa A distribuição do calor na atmosfera A Terra é um geoide, ou seja, uma esfera leve- mente achatada nos polos. O seu diâmetro equatorial Dióxido de carbono é apenas 44 quilômetros maior que o seu diâmetro Partes por milhão 383 polar. Portanto, para quase todos os efeitos, o planeta é uma esfera perfeita. A forma esférica da Terra faz com que a inten- 278 sidade da radiação solar recebida seja desigual nas diferentes latitudes. Dois feixes paralelos de luz com o mesmo diâmetro ao incidirem sobre uma área situada em alta latitude (a), aquecem uma superfície mais extensa que ao incidirem sobre uma área situada 1750 2007 em baixa latitude (b) (veja o esquema a seguir). Em Ano consequência, a intensidade de insolação (energia por unidade de área) é maior nas porções da superfície Metano próximas ao Equador. Partes por bilhão Um feixe de luz na esfera terrestre 1.745 d Feixe de a luz 700 Equador b d Feixe de luz 1750 2007 Ano Óxido nitroso Partes por bilhão Representação sem escala. 314 Fonte: SALGADO-LABORIAU, Maria Léa. História ecológica da São Paulo: Edgar 1994. 230. As diferenças de insolação explicam tanto as ele- vadas médias térmicas anuais das áreas que circundam 270 a linha do Equador quanto as baixas temperaturas das áreas próximas aos polos, onde aparecem extensas calotas permanentemente geladas. Mas, ao longo do 1750 2007 ano, a distribuição da energia solar na superfície é Ano condicionada pelo movimento de translação da Terra. O movimento de translação se completa em um Fonte: PAINEL Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC). Disponível em: . Acesso em: 23 jan. 2012. período de cerca de 365 dias e 6 horas, ou um ano. 47UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico O eixo imaginário em torno do qual a Terra executa eles está a zona intertropical, que abrange toda a faixa o movimento de rotação apresenta uma inclinação da superfície na qual os raios solares incidem de 23°27' em relação ao plano de sua órbita ao redor dicularmente durante parte do Essa zona recebe do Sol. Por isso, a insolação de um mesmo ponto da maior insolação e apresenta os climas mais quentes do superfície da Terra varia de acordo com a época do ano, planeta (veja o esquema ao lado). o que determina a existência das estações. A latitude dos círculos polares é definida, Em dois momentos do ano, o disco solar encon- tamente, pela inclinação do eixo imaginário tra-se no plano da órbita terrestre. A radiação incide Esses paralelos delimitam o cone de sombra polar perpendicularmente ao Equador, de modo que os dois formado no solstício de inverno de cada um dos hemisférios recebem a mesma insolação. Esses momen- férios. As faixas entre as latitudes 66°33' e 90° as tos, chamados equinócios, marcam, no calendário, o zonas glaciais permanecem sem receber insolação início da primavera e do outono. Nessas datas, os dias durante parte do ano. e as noites duram 12 horas em todo o planeta. As faixas delimitadas pelos trópicos e círculos Em dois outros momentos do ano, os raios solares polares, em ambos os correspondem às incidem perpendicularmente aos trópicos. São os cha- zonas temperadas. Nelas, há insolação durante o ano mados solstícios. No solstício de verão do hemisfério inteiro, mas os raios solares incidem sempre em direção sul, os raios solares incidem perpendicularmente ao inclinada. Em consequência, elas recebem insolação trópico de Capricórnio. Isso significa que o hemisfério menor que a zona intertropical, mas maior que as norte está recebendo menor insolação e vive a sua esta- zonas glaciais. ção fria, com dias mais curtos e noites mais longas. No Antes da era industrial, nas sociedades campo- solstício de verão do hemisfério norte, ao contrário, o nesas e rurais, a vida era organizada segundo o ritmo Sol incide perpendicularmente ao trópico de Câncer, das estações do ano, que definiam as épocas do o que condiciona a estação fria no hemisfério sul (veja tio, da germinação e da colheita. Os ciclos naturais e os esquemas abaixo). agrícolas ordenavam os tempos de trabalho e descanso. A latitude dos trópicos é definida, diretamente, pela As festividades marcavam a transição das estações e o inclinação do eixo imaginário terrestre. Os paralelos início ou o fim das principais atividades produtivas. correspondentes delimitam o afastamento máximo do A variedade de temperaturas no planeta exerce disco solar em relação ao plano da órbita terrestre. Entre influência sobre a distribuição da população e a orga- solstício de verão no hemisfério sul solstício de verão no hemisfério norte 21 de dezembro 21 de junho Polo Norte Polo Norte Equador 23°27' Raios solares Raios solares 23°27' Verão do Polo Sul Polo Sul Verão do hemisfério sul 23°27' 23°27' hemisfério norte Representação sem escala. Fonte: elaborado pelo autor 48Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Zonas de iluminação indústria do turismo está condicionada pelo ciclo das Nos Alpes europeus, os centros de esqui ZONA GLACIAL Círculo Polar Ártico funcionam no inverno, enquanto o verão é a estação do ARTICA alpinismo. Nas zonas temperadas, o turismo de praia ZONA TEMPERADA se restringe aos meses de verão. Nas baixas latitudes, 23°27' DO NORTE Trópico de Câncer onde as médias térmicas permanecem elevadas durante ZONA o ano inteiro, o turismo de praia é ininterrupto. As Equador INTERTROPICAL estações do ano continuam a desempenhar funções econômicas, mas seus significados culturais esmaece- 23°27' Trópico de ZONA TEMPERADA Capricórnio ram junto com os modos de vida tradicionais. DO SUL 66°33' ZONA Círculo Polar Antártico Montanhas e massas de água GLACIAL ANTÁRTICA Representação sem escala. As temperaturas médias e as variações térmicas Fonte: elaborado pelo autor. não dependem apenas das latitudes. O relevo modifica nização das atividades produtivas. O frio intenso das as médias térmicas, e a posição dos lugares em relação altas latitudes, que limita a diversidade biológica, reduz às massas líquidas tem forte influência sobre a curva as potencialidades agrícolas e as densidades demográ- anual das temperaturas. ficas. No Canadá, por exemplo, cerca de 90% da popu- A radiação solar não aquece diretamente a atmos- lação se concentra em uma faixa de 500 quilômetros ao fera da Terra: são as superfícies, sólidas ou líquidas, longo da fronteira com os Estados Unidos, enquanto que transformam a energia radiante em calor e trans- os imensos territórios setentrionais permanecem desa- ferem esse calor para o ar As massas de bitados. Algo similar ocorre nos países escandinavos, ar baixas e aquecidas ascendem e, nesse movimento, na Europa do norte. encontram uma pressão atmosférica cada vez menor. Os hábitos alimentares, a indústria de confec- O ar ascendente consome a energia do seu calor para ções, as redes de transportes e a engenharia civil são se expandir e, por isso, perde calor. Esse é o motivo diretamente influenciados pela insolação e pelo com- pelo qual a temperatura atmosférica tende a diminuir portamento das temperaturas. Em muitas regiões, a constantemente com a altitude, em 1 °C para cada 100 metros. Pressão atmosférica é peso da coluna de acima de determinado ponto da superfície terrestre. As massas líquidas se aquecem e se resfriam mais lentamente que as terras emersas. As águas profun- das se aquecem muito devagar. Depois, através de movimentos verticais demorados do meio líquido, o calor armazenado retorna à superfície e aquece as terras circundantes. Por isso, o hemisfério norte, onde se concentra a maior parte das terras emersas, exibe Antibes, na Côte d'Azur francesa, em junho de 2009. As praias do Mediterrâneo pulsam no ritmo do turismo de médias térmicas menores e invernos mais rigorosos verão europeu. que os do hemisfério sul. 49UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico metros de altitude, espalham-se horizontalmente para o norte e para o sul. Por volta de 30° de latitude, quando já se tornaram mais frias e densas, elas iniciam um movimento descendente. Em seguida, em baixas alti- tudes, tomam o rumo do Equador, reiniciando o ciclo de aquecimento, dilatação e ascensão. Esse movimento constitui a célula Tropical (ou célula de Hadley). Na célula Tropical podem-se identificar os ventos alísios e os ventos contra-alísios. Os alísios sopram a baixas altitudes, das faixas subtropicais para o Equa- dor, nos dois hemisférios. Devido ao sentido do movi- mento de rotação da Terra, essas massas de ar se Vegetação de araucárias, típica de climas subtropicais inclinam para oeste. Assim, apresentam direção geral e temperados, em Campos do Jordão, na Serra da nordeste-sudoeste, no hemisfério norte, e sudeste- Mantiqueira, em São Paulo. A cidade situa-se na zona intertropical, mas as altitudes, superiores a 1.500 metros, noroeste, no hemisfério sul. No sentido oposto, os amenizam as temperaturas. contra-alísios sopram em altitudes elevadas, das zonas equatoriais de baixa pressão para as zonas subtropi- Oceanos, mares e grandes lagos funcionam como cais de alta pressão. "reservatórios de calor". As áreas litorâneas são sub- A célula Tropical redistribui calor e umidade metidas ao chamado efeito de maritimidade: o calor entre as latitudes equatoriais e subtropicais. Na faixa lentamente liberado pelos oceanos e mares ajuda a equatorial, a ascensão e resfriamento do ar úmido pro- manter as temperaturas mais elevadas durante a noite voca condensação e chuvas o ano inteiro. Os contra- e ao longo do inverno. Nas áreas afastadas do mar, sob alísios, enquanto se deslocam para o norte e para o sul, o efeito de continentalidade, a superfície perde mais perdem calor, tornando-se cada vez mais pesados. Ao rapidamente o calor recebido através da insolação. Em descerem, estão bastante secos. Assim, absorvem toda consequência, são maiores a amplitude térmica diária a umidade existente nas proximidades da superfície. e a amplitude térmica anual. É por isso que a maior parte dos desertos do planeta situa-se nas latitudes tropicais. A circulação de calor Modelo da circulação geral atmosférica Altitude (km) O calor circula no planeta por meio das massas de ar e das correntes marinhas. Isso significa que os 20 climas são largamente condicionados pela circulação Frente Frente polar polar atmosférica e pela circulação oceânica. 10 A circulação geral da atmosfera decorre das dife- CT CT CM CM renças de pressão atmosférica. O ar quente é mais leve CP CP que o ar frio. As massas de ar aquecidas ascendem, enquanto as massas mais frias deslocam-se e ocupam o 90° N 0° 60° 90° S Latitude seu lugar. Esse é o mecanismo básico que comanda os Alta Baixa Alta Baixa Alta Baixa Alta Pressão ventos e, em escala planetária, a circulação atmosférica (veja o esquema ao lado). CP célula Polar CM célula de Meia Latitude CT = célula Tropical Na faixa equatorial, massas de ar aquecido se Fonte: SALGADO-LABORIAU, Maria Léa. História ecológica da dilatam, ascendem e, quando atingem cerca de 10 mil São Paulo: Edgar 1994 p 244 50Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Um mecanismo semelhante forma uma segunda são geralmente bastante frios e os bastante célula de circulação, a célula de Meia Latitude, nos quentes. O deslocamento da frente é responsável dois hemisférios. As massas de ar que a constituem se pelo deslocamento das nuvens e, portanto, das chu- deslocam junto à superfície, da faixa subtropical para vas. A frente polar regula o calendário agrícola das os círculos polares. Esses ventos ocidentais encontram, zonas temperadas. na altura do paralelo de 60°, as massas frias originadas nos polos. Forma-se uma zona de baixa pressão, pois Os oceanos e os climas os ventos tropicais, mais quentes, se ao ar polar, descrevendo uma trajetória ascensional. As águas oceânicas, em permanente movimento, Um terceiro circuito, a célula Polar, forma-se entre formam um imenso mecanismo de regulação climática e 90° de latitude, nas zonas glaciais ártica e antár- que ainda é pouco conhecido. As correntes marinhas tica. As massas de ar polares provocam o fenômeno desempenham importante papel nesse mecanismo. das frentes ao se encontrarem com os ventos da célula Elas são porções das águas oceânicas que se distin- de Meia Latitude. guem pela temperatura, densidade e salinidade, e A interface entre o ar frio originário das altas lati- movimentam-se empurradas pelas massas de ar que tudes polares e os ventos.de oeste é denominada frente se deslocam sobre os oceanos. No seu deslocamento, polar. Essa superfície de instabilidade que separa o elas carregam consigo as temperaturas de suas áreas de ar frio do ar quente se desloca de acordo com as origem, exercendo influência sobre as médias térmicas estações do ano. No verão, é empurrada na direção e pluviométricas das fachadas litorâneas e, mesmo em do Equador; no inverno, na direção dos polos (veja certos casos, de áreas interiores dos continentes. esquema abaixo). A trajetória das correntes reflete, até certo ponto, os As áreas temperadas que se encontram na faixa padrões da circulação atmosférica. Mas elas são desviadas de atuação da frente polar apresentam, sazonal- pela disposição das terras emersas. Nas proximidades mente, temperaturas baixas e altas, pois recebem dos círculos polares, originam-se correntes marinhas influência alternada do ar que sopra dos polos e do frias, que se deslocam na direção da zona intertropical. ar que sopra dos trópicos. É por esse motivo que em Misturando-se com as águas dos mares quentes, elas se países situados nas zonas temperadas os invernos aquecem e retornam para as altas latitudes, reiniciando o ciclo (veja o mapa na Deslocamento sazonal da frente polar página seguinte). Ventos Ventos Zona As águas frias das de oeste Ventos Ventos de oeste frontal alísios alísios profundezas dos oce- anos Ártico e Antár- tico podem demorar JL um século ou mais para chegar à superfície. Elas JL realimentam as correntes marinhas que derivam, empurradas pelos ven- JL JL tos, para as baixas latitu- des. Assim se formam as Polo Norte 30° Equador 60° Polo Sul correntes frias dos dois no Pacífico e Representação sem escala. Fonte: EARTH Science Curriculum Project; FUNDAÇÃO Brasileira para Ensino de Investigando a Terra. São Paulo: McGraw-Hill, 1973. V. p. 281. no 51UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico Modelo da circulação oceânica global de Circulo Artico de Câncer C. do C. Norte Equatorial C. das Monções Norte -Equatorial Equador das C. Sul-Equatorial C. Trópico de de do Brasil de C. do Pacifico Sul de C. do Atlântico C. Antártica Circulo Polar Antártico C. Antártica C. das Falkland N A Corrente quente Corrente fria 0 2400 km Fonte: FERREIRA, Graça Maria Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. As correntes frias retiram calor do ar sobre os rísticas quase tropicais, enquanto as médias do norte oceanos, reduzindo a evaporação e condicionando são bastante frias. a formação de litorais secos. É o que acontece, sob a Correntes marinhas têm influência direta na eco- influência da corrente do Peru (ou de Humboldt), no nomia. A água fria dissolve melhor o oxigênio que a litoral norte do Chile e sul do Peru, onde se estende o água quente, do que resulta maior atividade biológica e deserto de Atacama. Um fenômeno parecido ocorre, piscosidade. Por isso, a distribuição das áreas pesqueiras sob a influência da corrente de Benguela, na fachada nos oceanos está associada, principalmente, à trajetória atlântica da África meridional, onde se estende o das correntes frias (leia o texto do boxe a seguir). deserto da Namíbia. Empurradas pelos ventos, as correntes frias Ciclos térmicos do Pacífico ganham as baixas latitudes e se misturam às águas Os cientistas utilizam modelos matemáticos sofis- aquecidas. Na zona intertropical, tornam-se correntes ticados e poderosos computadores para investigar as quentes, que causam aumento da evaporação e das complexas relações entre as terras emersas, a atmos- precipitações nas terras emersas sob sua influência. fera e a hidrosfera que formam a dinâmica climática. É o que acontece em quase todo o litoral brasileiro, Mesmo assim, resta muito a ser esclarecido. banhado pelas correntes do Brasil e das Guianas. É Um dos maiores desafios é compreender as também o que acontece na fachada atlântica do con- influências dos oceanos sobre os climas. No maior dos tinente europeu, sob ação da corrente do Atlântico oceanos, o Pacífico, os cíclicos El Niño e Norte, que é um prosseguimento da corrente do Golfo. La Niña repercutem sobre o sistema climático global No Japão, por causa da influência das correntes mari- e parecem estar ligados a ciclos de mais longa duração, nhas, as médias térmicas do sul apresentam caracte- ainda pouco investigados. 52Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Limites da pesca As maiores áreas pesqueiras do mundo são Pacífico Noroeste, sob a influência da corrente do Oiasivo, e Pacífico Sudeste, sob a influência da corrente de Humboldt, como mostra gráfico a seguir. A abundância de pescado nas águas costeiras do Japão e do Peru estimulou desenvolvimento da indústria de pesca nesses países. Embora atualmente a China ocupe primeiro lugar no ranking de captura de peixes oceânicos, Peru e Japão continuam a ser grandes potências pesqueiras. estoque de peixes é sensível a mudanças naturais nas condições dos oceanos. No início da década de 1970, um pronunciado episódio do El Niño aqueceu as águas do litoral peruano, que reduziu drasticamente O estoque de anchovas. Isso provocou um colapso da indústria pesqueira nos anos seguintes e afetou a economia peruana como um Captura oceânica de pescados em 2006 As atividades humanas têm impacto ainda maior Pacífico Noroeste 21,6 sobre a piscosidade. A pesca excessiva ocorre quando Pacífico Sudeste níveis de captura impedem a plena reposição biológica 12,0 do estoque de peixes. Desde os anos 1990 registra-se Pacífico Centro-Ocidental 11,2 pesca excessiva em várias áreas oceânicas. No mar do Atlântico Nordeste 9,1 Norte e em porções da costa atlântica da América do Índico Oriental Norte, a redução radical dos estoques de peixe provocou 5,8 forte econômico em comunidades organizadas Índico Ocidental 4,5 em torno da atividade pesqueira. A Convenção da ONU 0 5 10 15 20 25 sobre a Lei dos Mares, que entrou em vigor em 1994, milhões de toneladas estipula as obrigações dos Estados costeiros de proteção Fonte: FOOD and Agriculture Organization of the United Nations Dispo- dos estoques de peixes nas águas sob seu controle. nível em: . Acesso em: 23 jan. 2012. O El Niño caracteriza-se pelo aquecimento mais intenso Anomalias nas temperaturas superficiais durante El Niño das águas superficiais do oceano OCEANO GLACIAL ÁRTICO Pacífico, nas suas porções leste e central. A instalação do El Niño evidencia-se no início do verão, quando as águas frias da Trópico de corrente de Humboldt, na costa OCEANO OCEANO PACÍFICO ATLÂNTICO Equador peruana, são interceptadas por OCEANO ÍNDICO águas quentes que vêm do norte de e do oeste. Entre 1993 e 2011, ocorreram cinco episódios do El Niño (em 1993-94, 1997-98, Circulo Polar Antártico N OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO 2002-03, 2006-07, 2009-10). Os 0 3880 km registros das variações térmicas médias durante episódios do El Niño na segunda metade do °C -2,5 -2,0 -1,5 -0,5 0 0,5 1 1,5 2 2,5 °C século XX possibilitaram carto- Fonte: NATIONAL Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). grafar o (veja o mapa Disponível em: . Acesso em: 23 jan. 2012. ao lado). 53UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico O fenômeno regional adquire dimensões globais, por causa do volume imenso de águas do Pacífico, alterando padrões climáticos nas Américas, Ásia, Oceania e África. Em diferentes áreas, ocorrem processos de elevação das médias térmicas mensais, aumento significativo das precipitações ou lon- gas O El Niño tem como contrapar- tida o Anti-El Niño, também deno- minado La Niña, que se caracteriza pelo resfriamento anormal das águas do oceano Pacífico. Os registros de episódios La Niña revelam variações médias de até 1,5 nas temperatu- Embarcações repousam sobre o leito seco do rio Negro, no Amazonas, em ras do Pacífico tropical, com nítidas outubro de 2010. Uma das maiores secas registradas na região amazônica decorreu dos efeitos do fenômeno El Niño. repercussões nas temperaturas e nas precipitações do Índico, do Atlântico e da América atmosférico no planeta. O clima é a história do Sul. pretada das condições de tempo atmosférico numa Os ciclos curtos do El Niño e do La Niña não determinada região. Isso significa que a definição são, aparentemente, eventos isolados. Registros que de tipos climáticos decorre da generalização dos cobrem a maior parte do século XX indicam a exis- registros do tempo atmosférico ao longo de certo tência de uma Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), tempo. que se manifesta em ciclos de 20 a 30 anos. Nas A caracterização de tipos climáticos em escala oscilações positivas, ocorre maior número de even- global é uma operação de síntese, na qual são omi- tos El Niño e as águas superficiais apresentam-se tidas as variedades climáticas regionais e os micro- geralmente mais quentes. Nas oscilações negativas, climas. Dessa síntese resulta um mapa dos grandes ocorre maior número de eventos La Niña e as águas tipos climáticos (veja na página seguinte). superficiais apresentam-se geralmente mais A zona intertropical é dominada pela presença de Há indícios de que uma oscilação positiva desen- climas quentes, que se distinguem pela quantidade e volveu-se entre 1925 e 1946, seguida por uma oscilação distribuição das chuvas. Num extremo dos registros negativa, entre 1947 e 1976. Depois disso, iniciou-se pluviométricos encontra-se o tipo tropical úmido; outra oscilação positiva, que provavelmente acentuou na posição intermediária, o tipo tropical; no extremo as tendências de aquecimento global. oposto, o tipo desértico. O clima tropical úmido exibe, em geral, as maio- res médias térmicas anuais do planeta, em função da Os grandes tipos climáticos intensa insolação recebida pelas baixas latitudes. As amplitudes térmicas, tanto anuais como diárias, são O tempo atmosférico é o registro das condições muito reduzidas. Mas as suas características distin- climáticas singulares em determinado momento. O tivas, que decorrem do mecanismo da convecção dos deslocamento das massas de ar é responsável pela ventos alísios, são as intensas precipitações e a ausência ocorrência simultânea de diversos tipos de tempo de estação seca. 54.Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Tipos climáticos Chicago, EUA Londres, Inglaterra Roma, Yakutsk, 0 51,5° N, N, I N, 130° I Altitude: 200 m Altitude: m Altitude: m Altitude: 103 m 40 70 40 70 40 70 40 70 30 30 60 30 60 30 60 60 20 20 50 20 50 20 50 50 10 10 40 10 40 10 40 0 40 0 30 0 30 0 30 -10 30 -20 -10 20 -10 20 -10 20 20 -30 -20 10 -20 10 -20 10 10 -40 -30 0 -30 0 -30 0 -50 0 J MAMJJASOND JFMAMJJASOND J Meses do ano Meses do ano Meses do ano OCEANO GLACIAL ÁRTICO de Polar Artico Yakutsk Londres Chicago Trópico de Câncer Cartum Kolkata OCEANO : OCEANO PACÍFICO Equador Mbandaka OCEANO OCEANO PACÍFICO ÍNDICO Trópico de Buenos Aires N de A 0 2450 km OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO Circulo Polar Antártico Estação McMurdo Tropical Semiárido Mediterrâneo Temperado oceânico Subpolar Calota de gelo Gelo não permanente Tropical Desértico Subtropical úmido Temperado continental Polar Frio de alta montanha Cidade Base científica Buenos Aires, Argentina Mbandaka, R.D. do Congo Cartum, Sudão Kolkata, Estação Antártida S, 0 N, I 15,5° N, 32,5° I N, L S, Altitude: 24 m Altitude: 21 m Altitude: 382 m Altitude: m Altitude: m 40 70 40 70 40 70 40 70 40 70 30 60 30 60 30 60 30 60 30 60 20 50 20 50 20 50 20 50 20 50 10 40 10 40 10 40 10 40 10 40 0 30 0 30 0 30 0 30 0 30 -10 20 -10 20 -10 20 -10 20 -10 20 -20 10 -20 10 -20 10 -20 10 -20 10 -30 0 -30 0 -30 0 -30 0 -30 0 J FMAMJJASON J MAM ASOND J FMAMJJASOND JFMAMJJASOND JFMAMJJASOND Meses do ano Meses do ano Meses do ano Meses do ano Meses do ano Fonte do mapa: Tom Lee; HESS, Darrel. Climate zones and the Köppen System. In: Physical geography: a landscape appreciation. New Jersey: Prentice Hall, 2000. p. 200-1. Fonte dos WORLD Climate. Disponível em: Acesso em: 23 jan. 2012. 55UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico O clima tropical distingue-se pela alternância fera, à noite. Assim, as amplitudes térmicas diárias entre uma estação chuvosa e outra seca. As chuvas costumam ser bastante grandes. concentram-se no verão, quando atuam mais ampla- As zonas temperadas exibem ampla diversidade mente as massas de ar originadas nos mares quentes de condições climáticas. Nas faixas de transição entre e na faixa equatorial. No inverno, a ação de massas os climas da zona intertropical e os das zonas tempe- de ar oriundas de latitudes maiores provoca redução radas dominam os tipos climáticos subtropical úmido discreta das médias térmicas. e mediterrâneo. No sul da Ásia, a dinâmica climática tropical é O clima subtropical úmido apresenta controlada pelo regime das monções. As monções quentes e invernos amenos, não se registrando esta- estão associadas à disposição das terras asiáticas e ção seca, por causa da ação de massas de ar oceânicas e do oceano No verão, a massa continental se das chuvas frontais provocadas pelos avanços da frente aquece e sobre ela formam-se centros de baixa pres- polar. Ele aparece, principalmente, em vastas áreas da são. Os ventos sopram do oceano para o continente, bacia platina, na América do Sul, e no sudeste dos provocando chuvas torrenciais que causam enchentes Estados Unidos e da China. nos vales fluviais e inundações em áreas urbanizadas. O clima mediterrâneo é uma variante do tipo No inverno, os centros de baixa pressão deslocam-se para o Índico, que está mais aquecido. Então, ventos subtropical caracterizada por verões quentes e secos secos sopram do continente para o oceano. e invernos amenos e chuvosos. Ele aparece, em sua O ciclo da agricultura tradicional no sul da Ásia, máxima extensão, na Europa meridional, onde os do oeste da Índia até o sudeste é rigidamente verões sofrem influência da expansão das massas de condicionado pelas monções. Os atrasos das chuvas ar quentes e secas que atuam no Saara. Contudo, man- e a sua escassez ou excesso causam perdas de safras e chas de climas desse tipo dominam as extremidades irreparáveis prejuízos a uma imensa população. norte e sul da África, porções meridionais da Austrália, O clima desértico das latitudes tropicais carac- parte do litoral californiano, nos Estados Unidos, e teriza-se pela carência de chuvas: menos de 250 mm certas áreas do Chile. anuais. As áreas mais secas podem receber precipitações de apenas 10 mm anuais. O meca- nismo da descida dos ventos contra-alísios nas zonas de alta pressão tro- picais determina as fracas precipitações. Nos deser- tos tropicais, as médias térmicas de verão são bem mais elevadas que as de inverno. Contudo, em decorrência da ausência de nuvens e de cobertura vegetal, o calor recebido durante o dia perde-se Cultivo de arroz em terraços nas vertentes do norte do Vietnã. o ciclo sazonal rapidamente na atmos- das monções define as etapas do calendário agrícola. 56Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 Os climas frios dominam as altas monta- nhas e as latitudes elevadas. De modo geral, eles se caracterizam por grandes amplitudes térmicas anuais, invernos rigorosos e baixas precipitações, que decorrem da pequena evaporação. Na faixa limítrofe da zona temperada, na América do Norte e Eurásia, domina o clima frio ou subpolar. Nas altas latitudes do hemisfério norte, nas fraldas árticas da América do Norte, Groenlândia e Eurásia, domina o clima polar. Os invernos gelados decorrem da ausência de insolação das longas "noites polares". Vinhedos no Cabo Ocidental, África do Sul. Na faixa de clima O clima frio de alta montanha, ou clima frio de mediterrâneo da África austral, as condições naturais são ideais altitude, apresenta médias térmicas extremamente para a produção de vinhos de alta qualidade. baixas, mesmo no verão, em razão da influência da Os climas temperados distinguem-se pelos con- altitude. Por isso, as amplitudes térmicas anuais são trastes sazonais de temperatura. As médias de verão menores que aquelas registradas nos tipos frio e são controladas pela atuação das massas de ar origi- As precipitações, ao contrário, são muito maiores, pois nadas nas latitudes tropicais; as médias de inverno, as cordilheiras recebem constantes nevascas, provoca- pela atuação das massas de ar de altas latitudes. Em das pela atuação de massas de ar úmidas. consequência, as amplitudes térmicas são maiores que as dos climas da zona intertropical. Os climas no tempo Os efeitos de maritimidade e continentalidade atenuam ou acentuam as amplitudes Os cli- As temperaturas e os climas conheceram profun- mas temperados oceânicos, típicos da fachada atlântica das mudanças na escala do tempo geológico. A história da Europa, são úmidos e exibem invernos amenos. Os dos climas está impressa nas rochas e nos fósseis, que climas temperados continentais caracterizam-se por oferecem indícios dos ciclos de aquecimento e resfria- invernos frios e elevadas amplitudes térmicas. Eles mento da superfície do planeta. dominam a Europa central e oriental e as porções leste No passado geológico distante, ocorreram duas e central dos Estados Unidos. ou três fases longas de resfriamento, ou idades glaciais, com duração de dezenas de milhões de anos. No inte- rior dessas idades glaciais, registram-se intervalos de resfriamento mais intenso, com duração de dezenas de milhares de anos, que são as glaciações. Durante as glaciações, as águas dos oceanos esfriam e se contraem. Uma parte dessas águas se acumula nas altas latitudes, aumentando a extensão e a espessura das calotas polares. Em consequência, acontecem regressões marinhas, fazendo emergir planícies costeiras. Ao mesmo tempo, os glaciares expandem-se até as latitudes intermediárias e ocu- Nevasca de primavera, em abril de 2012, em Ottawa, capital do A corrente marinha fria do Labrador pam cotas mais baixas das vertentes das cordilheiras. acentua os efeitos da latitude na faixa oriental canadense. Por outro lado, nas fases de aquecimento, acontecem 57UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico transgressões marinhas que provocam a submersão "Grande Idade do Gelo". A fase longa de resfriamento de áreas litorâneas, enquanto os glaciares recuam iniciou-se ainda no final do período Terciário, quando para latitudes e altitudes maiores. se formou a calota gelada que recobre o oceano Gla- As glaciações anteriores à formação da Pangeia cial Ártico. Antes disso, no início da era Cenozoica, são pouco conhecidas. Muito mais conhecida é a a Antártica estacionou no polo Sul e vive uma dura- idade glacial que transcorreu durante os últimos doura idade glacial. 50 ou 60 milhões de anos da era Paleozoica, nos Ao longo do Quaternário, a Eurásia conheceu períodos Carbonífero e Permiano. As terras nas cinco grandes glaciações e a América do Norte, três, quais ocorreram as glaciações separadas por interglaciais, ou seja, intervalos entre as encontravam-se unidas no continente austral de glaciações. No hemisfério sul, não se registraram Gondwana, que ocupava as médias e altas latitu- ções. O final da mais recente das glaciações chamada des do hemisfério sul. No movimento de rotação Wurm, na Europa, ou Wisconsin, na América do Norte de Gondwana, porções diferentes do continente - assinala a passagem do Pleistoceno para o Holoceno, atravessaram as latitudes polares, quando foram a nossa época, e a difusão geográfica do Homo sapiens. recobertas pelo gelo. Os fósseis de flora de clima Desde o início do Quaternário, os continentes frio que indicam as glaciações ocupavam as suas posições atuais. Por isso, as foram encontrados na África meridional, ções atingiram as terras emersas em latitudes elevadas América do Sul e Austrália (veja o mapa abaixo). do hemisfério norte, mas não se manifestaram no Essas descobertas estão entre as provas da teoria hemisfério sul, onde - com exceção da Antártica os da deriva continental. continentes não ultrapassam o paralelo de O período Quaternário da era Cenozoica isto Nas glaciações, as geleiras cobriam as latitudes é, o período geológico atual - é conhecido como a altas e intermediárias do hemisfério norte, provocando Flora fóssil de origem permocarbonifera OCEANO GLACIAL ÁRTICO Circulo Polar Artico Trópico de Câncer OCEANO OCEANO ATLÂNTICO PACÍFICO Equador OCEANO OCEANO PACÍFICO ÍNDICO de N de A 0 km OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO Circulo Polar Antártico Flora fóssil de origem Fonte: LEINZ, Viktor; Sérgio Estanislau do. Geologia geral. São Paulo: Nacional, 1995. p. 162. 58Os climas e as sociedades CAPÍTULO 3 as ilhas Britânicas. No auge da glaciação, a regressão marinha rebaixou o nível dos oceanos entre 70 e 180 metros, descobrindo quase toda a extensão das atuais plataformas continentais. Entre a Sibéria e Alasca, o estreito de Bering secou, ligando por uma ponte de terra a Ásia à América. A teoria clássica afirma que essa ponte, chamada representou a via de penetração original dos seres humanos na América. Essa teoria atualmente sofre contestações de pesquisadores que estudam sítios arqueológicos aparentemente mais antigos. Mas nin- guém discute que a rota da Beríngia constituiu pelo menos um dos caminhos do povoamento pré-histórico das Américas. A plataforma continental é O prosseguimento sub- marino do relevo continental. Localizadas nas bordas dos continentes, as plataformas exibem suave declividade desde a linha da praia até O início do talude continental, que é a rampa inclinada entre a plataforma e as profun- dezas do leito Geralmente a profundidade das plataformas não ultrapassa cerca de 200 metros. 0 paredão rochoso do El Capitán, no vale de Yosemite, nos Estados Unidos, foi modelado pela ação dos glaciares ao longo do período Quaternário. Climas e história "Tomemos a história da Terra como a antiga rebaixamento do nível dos oceanos e expansão das medida da jarda inglesa, isto é, a distância entre o nariz bordas dos continentes. A redução da água em estado do rei e a ponta da sua mão com o braço estendido. líquido causava diminuição da evaporação e amplia- Uma lixada na unha do seu dedo médio aniquilaria ção do efeito de continentalidade. No mundo todo, a história humana." Essa notável comparação entre a os climas tornavam-se mais secos, as manchas áridas história geológica e a humana é relatada pelo especia- avançavam e as florestas se contraíam. lista em história natural Stephen Jay Gould. Nos interglaciais, as tendências climáticas se inver- Na escala da existência das civilizações, os cli- tiam. A fusão dos glaciares enchia as bacias oceânicas, mas não apresentaram variações tão grandes como as que submergiam as bordas continentais. A evaporação que ocorreram ao longo das eras geológicas. Mesmo e as chuvas aumentavam, assim como se intensificava assim, as reconstruções das temperaturas médias dos efeito de Climas amenos e úmidos últimos 2 mil anos mostram significativas oscilações. invadiam terras secas, fazendo recuar os desertos e Essas reconstruções baseiam-se em métodos indi- promovendo a reinstalação de florestas. retos, sofrem de imprecisões importantes e são alvo A glaciação mais recente terminou por volta de 12 de acesas polêmicas. Contudo, na sua maior parte, mil anos Os três grandes sistemas de glaciares são interpretadas como retratos de dois períodos de recobriram Canadá e a metade norte dos Estados anomalias anteriores ao aquecimento global do último Unidos, a Sibéria, a Europa central e setentrional e século (veja o gráfico na página seguinte). 59UNIDADE 1 Meio natural e espaço geográfico água como o Tâmisa, na Inglaterra, e os Reconstrução das temperaturas médias canais holandeses. No gélido inverno 0,6 de 1780, a baía de Nova York conge- 0,4 lou e extensas placas de gelo cercaram Período Quente a Islândia, impedindo a navegação. 0,2 Medieval resfriamento da Europa provavelmente 0 contribuiu para a crise agrícola que -0,2 detonou revoltas camponesas nos anos da Revolução Francesa (leia o texto do boxe abaixo). -0,6 As duas grandes oscilações cli- máticas foram fenômenos naturais, -0,8 Pequena Idade possivelmente causadas por oscilações -1 do Gelo na atividade solar. Alguns cientistas 0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 Ano argumentam, com base nisso, que Períodos pesquisados (ordenados pela data de publicação) período atual de mudanças climáticas, (1000-1991): 1998 (200-1995): 2004 com tendência de aquecimento global, (1000-1980): 1999 (1500-1980): 2004 seria apenas mais uma oscilação natural. (1000-1965): 2000 (1-1979): 2005 (1402-1960): 2001 (1600-1990): 2005 Contudo, a maior parte da comunidade (831-1992): 2002 (1856-2004): Registro instrumental científica está convencida da influência (200-1980): 2003 humana no em decorrên- cia dos efeitos das emissões de gases Fonte: ROHDE Robert A. Global Warming Art. Disponível em: Acesso em: 23 jan. 2012. de estufa. A comparação de diferentes reconstruções de tem- peraturas com a média térmica do ano 2000 conduz inverno e a revolta pesquisadores a se referirem a um "Período Quente Evidentemente, a Revolução Francesa não foi causada Medieval", entre 800 e 1300, e a uma "Pequena Idade por motivos climáticos. Mas não se deve descartar uma do Gelo", entre o século XVI e meados do século XIX. influência natural no ambiente socialmente explosivo do campo francês daqueles anos. No auge do primeiro, as médias seriam semelhantes às No inverno gelado de 1788-89, as nevascas incessantes atuais. Nas décadas mais frias da segunda, as médias bloquearam estradas, paralisando parcialmente trans- estariam pouco mais de 1 °C abaixo das atuais. porte de mercadorias e afetando comércio. A fusão das Quente Medieval" pode não ter ocor- neves espessas, na primavera, inundou campos cultivados rido globalmente, configurando apenas um fenômeno e destruiu safras agrícolas. A escassez de trigo inflacionou preços do pão. regional, na Europa e no Atlântico Mas foi no As revoltas por pão eclodiram em março de 1789 e final do século X que os vikings navegaram pelas altas atingiram Paris no mês seguinte. Nas estradas, multidões latitudes do Atlântico Norte, então livres de gelo, e atacavam carregamentos de pão e, nas cidades, invadiam implantaram colônias na Groenlândia. e saqueavam armazéns. Em setembro, as vendedoras dos A "Pequena Idade do Gelo" caracterizou-se pela mercados lideraram as agitações que culminaram na céle- bre marcha popular ao Palácio de Versalhes. Começava a expansão da calota ártica e dos glaciares de monta- Revolução. nhas e pelo congelamento, no inverno, de cursos de 60