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Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 1 Unidade 1 – Introdução à Cooperação Jurídica Internacional Historicamente, a comunidade internacional cultiva a regra de que cada Estado tem o exercício da sua jurisdição limitado ao seu próprio território. Dentro dos parâmetros estritamente tradicionais desse modelo, um ato jurisdicional que, porventura, provoque efeitos, diretos ou indiretos, em territórios diferentes do seu pode ser considerado ofensivo aos preceitos da não ingerência e autodeterminação dos povos. Esse modelo puro revelou-se, na maioria das vezes, adequado. Porém, há algumas décadas, o mundo passou a observar franca globalização das relações, jamais presenciada em escaladas tão elevadas. Como consequência, o papel das fronteiras geográficas, em uma delimitação radical das jurisdições, passa a fazer cada vez menos sentido em um contexto em que as demarcações não representam impedimento à circulação de bens, serviços, capital, pessoas e, tampouco, às relações comerciais e empresariais transnacionais, à difusão global de informações e, claro, à internacionalização do crime. O cenário descrito, ao mesmo tempo em que inspira maior liberdade de circulação, leva os operadores do Direito a importantes questionamentos: “Como Ao final desta Unidade, você deverá ser capaz de: • Perceber a importância da cooperação jurídica internacional na atualidade; • Entender a cooperação jurídica internacional como instrumento efetivo no combate à lavagem de dinheiro e à corrupção; • Conceituar e classificar. Parte 1 – Identificar a carta rogatória e o auxílio direto como mecanismos de cooperação. Parte 2 – Formular pedido de extradição ativa. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 2 assegurar que a nova concepção que se tem de fronteira não se traduza em passe-livre para a injustiça?”; “Como assegurar a existência de uma cidadania global em que o indivíduo possa ter certeza do cumprimento do seu direito mesmo quando esse exercício envolve outras jurisdições?”. A cooperação jurídica internacional representa uma das medidas implementadas pelos Estados nesse sentido. Por meio de um pedido de cooperação jurídica, o indivíduo ou empresa que busca o seu direito ou o Estado que necessite realizar atos indispensáveis à boa administração de sua justiça encontrará o veículo adequado para fazê-lo, sem ferir a soberania e as regras de jurisdição territorial do outro Estado a que se dirige solicitação. A cooperação jurídica, portanto, é um modo formal de “bater à porta” de autoridade de outro Estado e pedir ajuda, a fim de que se possa afirmar a justiça no caso concreto. O cenário internacional e a cooperação Se antes a cooperação jurídica era tida como prescindível, ou até mesmo potencialmente desrespeitosa aos preceitos mais tradicionais de soberania nacional, atualmente entende-se que é vital para a sustentabilidade das relações internacionais, conferindo maior previsibilidade aos atos internacionais e maior segurança às nações. Com a atual e avançada globalização, a cooperação não pode mais ser compreendida como um mero ato de cortesia internacional, mas como um dever do Estado de contribuir com a sua contraparte nos aspectos jurisdicionais que esta não pode alcançar de forma direta. Trata-se, portanto, de uma obrigação entre as nações, e não de uma mera faculdade (OTAVIO, 1942, p. 115). Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 3 A cooperação jurídica internacional é particularmente importante no enfrentamento à criminalidade organizada, à lavagem de dinheiro e à corrupção, que também passou, nos últimos anos, por considerável processo de internacionalização das suas atividades. Em outras palavras, a “relativização” do papel desempenhado pelas fronteiras geográficas operou não só em favor da circulação de bens, pessoas, capitais e informação, mas também da transnacionalização do crime. A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo), definida e trabalhada nas unidades anteriores, traz em seu artigo 3º que “a infração será de caráter transnacional se”: a) for cometida em mais de um Estado; b) for cometida num só Estado, mas uma parte substancial da sua preparação, planejamento, direção e controle tenha lugar em outro Estado; c) for cometida num só Estado, mas envolva a participação de um grupo criminoso organizado que pratique atividades criminosas em mais de um Estado; ou d) for cometida num só Estado, mas produza efeitos substanciais noutro Estado”. Uma rápida análise do que se vê como resultado das investigações e persecuções penais no mundo, nos leva a perceber, que, de acordo com a definição da Organização das Nações Unidas (ONU), o caráter transnacional está presente na maioria das organizações criminosas de maior relevância. Possivelmente, contribui para esse dado o fato de vivermos atualmente um modelo em que as iniciativas voltadas para o controle e a regulação das circulações transfronteiriças são malvistas pela sociedade internacional, o que acaba criando uma situação altamente favorável também para a criminalidade transnacional. Soma-se a isso o fato de os Estados ainda enfrentarem grandes dificuldades para se coordenar de maneira ágil e efetiva nas investigações e persecuções penais. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 4 Paralelamente à percepção de que as organizações criminosas têm se utilizado, cada vez mais, de jurisdições diferentes da sua como uma forma de dificultar a atuação das autoridades investigativas, outro dado chama a atenção, qual seja aquele relativo ao poder econômico das organizações criminosas. Um estudo realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), denominado A globalização do crime: uma avaliação sobre a ameaça do crime organizado transnacional, de 2010, aponta dados elucidativos no que diz respeito ao lucro gerado por algumas atividades criminosas: • O tráfico de 140.000 pessoas para fins de exploração sexual gera o ingresso anual de US$ 3 bilhões para seus exploradores na Europa. • O tráfico de 2,5 a 3 milhões de migrantes da América Latina aos Estados Unidos gera anualmente US$ 6,6 bilhões. • O mercado mundial de armas de fogo ilícitas gera entre US$ 170 e 320 milhões. • O número de produtos falsificados detectados na fronteira europeia gera um valor anual de mais de US$ 10 bilhões. • Estima-se que o fluxo global de ativos originados de atividades criminosas seja de US$ 1 a 1,6 trilhões por ano. Como vimos nas unidades anteriores, a Convenção de Palermo, em seu artigo 2º, esclarece que o “grupo criminoso organizado”, para ser considerado como tal, deve contar com três ou mais pessoas, existir há algum tempo e atuar concertadamente com o propósito de cometer uma ou mais infrações graves, ou enunciadas na Convenção, com a intenção de obter, direta ou indiretamente, um benefício econômico ou outro benefício material. Reconhece-se, portanto, que toda organização criminosa tem por fim primordial a obtenção de lucros, pois são estes ativos que dão fôlego a sua atuação, permitindo que se perpetue no tempo e se capilarize geográfica e institucionalmente. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 5 A privação da liberdade de criminosos é medida importante, porém insuficiente no enfrentamento à criminalidade organizada. Não por outra razão, o corte do fluxo financeiro dessas organizações constitui o foco das políticas públicas mais modernas na área desegurança pública, de forma a reduzir a lucratividade e impossibilitar a expansão do crime. A necessidade de aumentarmos a compreensão, coordenação e cooperação com outros países nasce da conjunção dos dois movimentos acima descritos. Em outras palavras, a transnacionalização do crime, aliada à percepção de que o verdadeiro combate ao crime organizado passa necessariamente por uma política focada no corte dos fluxos financeiros ilícitos, transforma a cooperação jurídica em algo imprescindível para o próprio exercício das funções soberanas dos Estados. Atualmente, os paradigmas mudaram e a cooperação jurídica internacional deixou de ser exclusivamente um ato de cortesia entre os Estados e, se antes podia ser vista como uma ameaça à soberania, hoje se apresenta como essencial à sua própria manutenção. A garantia dos direitos individuais, coletivos e difusos, a manutenção da segurança pública, o combate ao crime organizado, a estabilidade do sistema econômico-financeiro, entre outros tantos temas, dependem cada vez mais da cooperação jurídica internacional. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 6 Autoridade legitimada a solicitar cooperação jurídica internacional em matéria penal Salvo exceções dispostas em tratado, os pedidos de cooperação jurídica internacional em matéria penal podem ser realizados pelas autoridades que, de acordo com a legislação de seu país, podem fazer pedido de mesma natureza internamente. Normalmente, os tratados de que o Brasil é parte trazem alguma previsão sobre o tema. A tendência verificada nos mais recentes define a autoridade competente como a “autoridade que conduz a investigação, o inquérito, a ação penal, ou outro procedimento relacionado com a solicitação” (artigo 4º do Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República Popular da China sobre Assistência Judiciária Mútua em Matéria Penal – Decreto n. 6.282/2008). Infelizmente, também há casos em que as autoridades constam de forma mais restrita, como é o caso do Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais do MERCOSUL (Decreto n. 3.468/2000) - o qual prevê, em seu Artigo 4º, que “as solicitações transmitidas por uma Autoridade Central com amparo no presente Protocolo se basearão em pedidos de assistência de autoridades judiciais ou do Ministério Público do Estado requerente encarregadas do julgamento ou investigação de delitos”. Esta redação, por vezes, cria resistência das autoridades estrangeiras no cumprimento dos pedidos conduzidos pela autoridade que conduz o inquérito, tal como ocorre com as autoridades uruguaias. Por outro lado, em diversos acordos bilaterais de cooperação jurídica internacional em matéria penal ratificados pelo Brasil, a legitimidade ativa para elaborar pedidos de cooperação não está limitada a uma autoridade judiciária, referindo-se nestes textos legais que “os pedidos transmitidos por uma Autoridade Central de acordo com o presente Acordo basear-se-ão em pedidos de assistência de autoridades competentes da Parte Requerente encarregadas do julgamento ou da investigação dos delitos” (Artigo 4º do Acordo de Cooperação Judiciária e Assistência Mútua em Matéria Penal entre Brasil e Colômbia – Decreto n. 3.895/2001). Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 7 Principais tratados de cooperação jurídica internacional em matéria penal Uma solicitação de cooperação jurídica internacional poderá ser feita com base em: I. acordos multilaterais; II. acordos regionais ou bilaterais; III. promessa de reciprocidade para casos análogos. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), tem se empenhado para estabelecer novos acordos, reforçar os laços por meio da aproximação com os países em que já existem, e promover junto ao Poder Judiciário, Ministério Público, Polícias Judiciárias, entre outros órgãos, a divulgação da existência desses textos, bem como o esclarecimento quanto ao modo de utilização. Atualmente, estão em vigor no Brasil vários acordos multilaterais que disciplinam a cooperação jurídica internacional, dentre os quais merecem destaque no que se refere à matéria penal: • Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas (Convenção de Viena 1988); • Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo ou UNTOC); • Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de Mérida ou UNCAC); • Convenção sobre o Crime Cibernético (Convenção de Budapeste); • Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças; Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 8 • Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por via terrestre, marítima e aérea; • Protocolo contra a Fabricação e o Tráfico Ilícito de Armas de Fogo, suas Peças e Componentes e Munições, complementando a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional; • Convenção sobre o Combate da Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais, da OCDE; • Convenção de Auxílio Judiciário em Matéria Penal entre os Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP. No plano regional, o Brasil promulgou outros tantos instrumentos que preveem a cooperação jurídica internacional em matéria penal. Seguem alguns destaques: • Convenção Interamericana sobre Assistência Mútua em Matéria Penal (Convenção de Nassau); • Convenção Interamericana contra a Corrupção (com reserva ao parágrafo 1º, inciso C, do artigo XI); • Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais - MERCOSUL (Protocolo de San Luis). É interessante registrar que, atualmente, o Brasil mantém 21 (vinte e um) acordos bilaterais de auxílio mútuo em matéria penal, a saber: • Acordo de Cooperação Judicial em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República de Cuba, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.462, de 21 de maio de 2008; Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 9 • Acordo de Cooperação e Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e o Reino da Espanha, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008; • Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.282, de 03 de dezembro de 2007; • Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.810, de 02 de maio de 2001; • Acordo de Cooperação Judiciária e Assistência Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República da Colômbia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.895, de 23 de agosto de 2001; • Acordo de Cooperação Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Francesa, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.324, de 30 de dezembro de 1999. • Tratado sobre Cooperação Judiciária em Matéria Penal, entre a República Federativa do Brasil e a República Italiana, Decreto nº 862, de 09 de julho de1993; • Acordo de Assistência Jurídica em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Peru, internalizado pelo Decreto nº 3.988, de 29 de outubro de 2001; • Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República da Coréia sobre Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 5.721, de 13 e março de 2006; • Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e a Ucrânia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 5.984, de 12 de dezembro de 2006; • Tratado de Assistência Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo do Canadá, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.747, de 22 de janeiro de 2009; Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 10 • Tratado de Cooperação Jurídica em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e a Confederação Suíça, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.974, de 07 de outubro de 2009; • Tratado entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Suriname sobre Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.832, de 29 de abril de 2009; • Tratado entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República de Honduras sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 8.046, de 11 de julho de 2013; • Acordo de Assistência Jurídica Internacional em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos Mexicanos, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 7.575, de 1º de novembro de 2011; • Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República Federal da Nigéria, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 7.582, de 13 de outubro de 2011; • Acordo de Assistência Jurídica em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e a República do Panamá sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 7.596, de 1º de novembro de 2011; • Tratado de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 8.047, de 11 de julho de 2013; • Acordo sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e a República da Turquia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 9.065, de 31 de maio de 2017; • Tratado entre a República Federativa do Brasil e o Reino da Bélgica sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 9.130, de 17 de agosto de 2017; • Acordo sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a República Federativa do Brasil e o Reino Hachemita da Jordânia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 9.729, de 15 de março de 2019 Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 11 Em regra, os acordos bilaterais e regionais excluem a exigência da dupla incriminação para cumprimento dos pedidos de cooperação, aplicando-se, desta maneira, para uma ampla gama de crimes. Conceitos e classificação A cooperação jurídica internacional é o meio pelo qual se busca a realização de determinada medida, declaratória, pré-processual, processual ou executória, em jurisdição estrangeira. Os instrumentos por meio dos quais se operacionaliza a cooperação jurídica internacional são diversos e variam desde as ferramentas mais tradicionais como a extradição, homologação de sentença estrangeira e carta rogatória, até dispositivos mais modernos como o pedido de auxílio direto, a transferência de pessoas condenadas e a transferência de processos penais. A gama de medidas que podem ser requeridas por meio da cooperação jurídica internacional em matéria penal é bastante ampla, abarcando a comunicação de atos processuais, como a citação e intimação, a tomada de depoimentos ou declarações de pessoas, por declaração escrita, por meio de audiência ou videoconferência, a busca de provas, por meio, por exemplo, da quebra de sigilo bancário, fiscal ou telemático, a localização, identificação e indisponibilidade de bens, a realização de perícias, pedidos de busca e apreensão, prisão de criminosos procurados, e outras. Quando o Estado brasileiro requer a cooperação de um país estrangeiro, trata- se de cooperação ativa. Ao contrário, quando um país estrangeiro solicita a cooperação É preciso explicar um detalhe importante: cooperação judiciária e cooperação jurídica não são expressões sinônimas. A cooperação jurídica é mais ampla do que a cooperação judiciária. Esta última se limita à cooperação no momento em que já há processo judicial, excluindo, portanto, o momento pré-processual. A acepção mais ampla da cooperação estaria traduzida na expressão “cooperação jurídica”. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 12 do Brasil, diz-se que é cooperação passiva. O país que demanda a cooperação é dito Estado requerente, enquanto o país que é demandado é dito Estado requerido. Os mecanismos por meio dos quais se dá cumprimento aos pedidos passivos de cooperação jurídica são a carta rogatória, o auxílio direto e o procedimento de extradição. Estes mecanismos, que serão aprofundados a seguir, são definidos pela lei processual de cada país. Por esse motivo, os instrumentos de cooperação e os respectivos procedimentos adotados pelo direito brasileiro não coincidirão necessariamente com aqueles adotados pelas leis de outro Estado. É importante destacar que, no cumprimento do pedido de cooperação passivo, as autoridades nacionais não devem levar em conta o título dado ao documento pela autoridade estrangeira. A classificação do mecanismo de cooperação jurídica deve se dar com base no conteúdo do pedido, de acordo com os critérios adotados pela legislação e pela jurisprudência brasileiras. A carta rogatória e o auxílio direto como mecanismos de cooperação Conforme prescrito no novo Código de Processo Civil e no Regimento Interno do STJ (art.216-O), a carta rogatória é o mecanismo de cooperação jurídica internacional voltado à execução no Brasil de atos jurisdicionais estrangeiros não decisórios e atos decisórios não definitivos. Por meio da carta rogatória em matéria penal, a autoridade requerente estrangeira solicita ao Brasil que execute ato jurisdicional já proferido, de Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 13 modo que não cabe às autoridades brasileiras exercer qualquer cognição de mérito sobre o bem da vida posto em julgamento no exterior. Nesse sentido, a carta rogatória na cooperação em matéria penal possui como objetos possíveis pedidos de comunicação de atos processuais (citações, intimações e notificações), de obtenção de provas e de medidas assecuratórias. Essa é a melhor compreensão da carta rogatória em matéria penal recebida no Brasil, a chamada carta rogatória passiva. Recentemente, todavia, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) posicionou-se no sentido de afastar daquele instrumento atos meramente ordinatórios, despachos de mero expediente proferidos pelo judiciário estrangeiro e que, portanto, são incapazes de confrontar quaisquer das questões que compõem o juízo delibatório. Desse modo, não deve constituir objeto de carta rogatória ato jurisdicional qualquer que não represente uma decisão. Não só a teoria tradicional (TENÓRIO, 1976), mas também a contemporânea, ainda hoje afirma ser este objeto possível do mecanismo. (ARAÚJO, 2010). Parece-nos,contudo, que o aprimoramento do Direito Processual Internacional brasileiro, especialmente a releitura que a noção de ordem pública vem merecendo, acaba por retirar deste mecanismo objetos que por definição não podem jamais ferir aquele conjunto de princípios fundamentais que se protege na delibação. É justamente o que ocorre com pedidos de intimação ou notificação, pois qualquer grave discrepância entre o procedimento ou o direito material em disputa no exterior e o ordenamento jurídico nacional pode objetar a execução de sentença ou qualquer outra decisão estrangeira no Brasil, mas jamais a simples intimação para que alguém tome conhecimento de certo ato processual praticado lá fora. No mais, as outras questões que formam o juízo de delibação parecem não incidir na hipótese. Não nos surge circunstância em que se pode aferir competência do juízo rogante, possibilidade de contraditório prévio e ausência de coisa julgada em face de simples despachos de mero expediente. Embora ainda pareça ser pensamento minoritário, a restrição da carta rogatória ao cumprimento no Brasil de decisões proferidas no exterior já encontra respaldo teórico nacional. (ZAVASCKI, 2010). Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 14 Cabe reafirmar que a atual regulamentação interna sobre cartas rogatórias no Brasil reconhece a possibilidade de utilização do mecanismo também para atos não decisórios. No caso da carta rogatória ativa, ou seja, daquela que veicula pedido de cooperação enviado do Brasil ao exterior, o sistema de recepção de atos jurisdicionais estrangeiros adotados no país destinatário é que deve determinar o conteúdo possível do instrumento. O cumprimento das cartas rogatórias passivas no Brasil, por força do já citado dispositivo constitucional, depende da concessão de exequatur (em origem latina, que ao pé da letra significa “execute-se”, “cumpra-se”. O termo é utilizado no Direito Internacional Brasileiro para representar um documento autorizador de um Estado para executar as funções de um cônsul.) pelo Superior Tribunal de Justiça. Para tanto, deve o STJ exercer sobre o conteúdo daquele instrumento o chamado juízo de delibação. Juízo de delibação Tradicionalmente, a decisão judicial vê sua execução limitada à jurisdição onde foi proferida. Cada Estado diz quando e como seus juízes, detentores de parcela da função jurisdicional, podem proferir mandamentos como tais, mas jamais podem dizer quando e como tais mandamentos são também decisões judiciais no exterior. Ao Estado não é dado pretender ver seu julgado significar mais do que um fato em outra soberania. A ordem jurídica estrangeira pode, contudo, atribuir efeito diverso àquela decisão. Atribui-se a tratados concluídos entre Veneza e outras cidades, no século XIII e XIV, o pioneirismo na formulação de dispositivos relativos à execução de atos jurisdicionais estrangeiros. Atualmente, quase todos os países admitem a produção de efeitos jurídicos aos mandamentos judiciais estrangeiros, seja por meio de uma nova Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 15 ação de conhecimento, seja por meio de um processo de exequatur. A eficácia de atos jurisdicionais estrangeiros representa algo que, por manifestar respeito ao direito adquirido, contribui para a estabilidade das relações individuais ao redor do mundo e continuidade do exercício da jurisdição por um Estado no território de outro. (SPERL, 1931). Com relação especificamente aos diversos modelos possíveis de recepção de atos jurisdicionais estrangeiros nos diversos ordenamentos, são vários os critérios que podem ser considerados para classificá-los. Por consequência, varia muito a classificação adotada em teoria. Para este estudo separamos uma parcela considerável da teoria que indica dois sistemas possíveis, actio judicati e exequatur, sendo este último subdividido em exequatur por revisão de mérito e exequatur por delibação. O sistema de actio judicati, comum nos países de common law, é aquele em que não se reconhece a decisão estrangeira como tal, mas como prova para que o beneficiado pelo ato jurisdicional proponha nova ação naquele país. Desse modo, advoga em favor do interessado uma presunção de que possui aquele direito, algo reversível somente se o réu bem exerce o ônus da prova, que passa a ser seu. O sistema de exequatur, por sua vez, seria aquele em que o ato jurisdicional é recepcionado como tal, de maneira a produzir efeitos em sua integralidade, sem que novo mandamento seja produzido no Estado onde se pretende executá-lo. Ocorre que no sistema de exequatur a produção de efeitos do ato estrangeiro, embora tenda a ser integral, jamais é automática. Determinada análise sempre condiciona o reconhecimento e a execução. Quanto aos meios para concessão do exequatur, a teoria indica subdivisões também de forma distinta. Aqui será considerada a profundidade de análise da decisão estrangeira, para subdividi-lo em sistema de exequatur por revisão do mérito e sistema de exequatur por delibação. Compreende-se o sistema de exequatur por revisão de mérito como aquele em que a decisão estrangeira produz efeitos desde que observada a aplicação da lei do Estado em cujo território a sentença irá produzir efeitos, o que se dá após ampla revisão da causa. Já o sistema de exequatur por delibação seria aquele em que a observância da ordem pública e alguns outros requisitos é suficiente para a execução. (MOREIRA, 2005). Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 16 Sistema europeu Esse sistema se presta essencialmente para possibilitar a interposição, em processos internos, de exceções processuais de conexão, litispendência e coisa julgada, em razão de processos findos ou em curso no exterior. Nesses casos, silente a parte contrária à exceção, dá- se o reconhecimento automático. Se há impugnação, inicia-se processo de reconhecimento incidental, no qual cognição delibatória é exercida pelo juízo competente para julgar o processo interno principal, assim como ocorre com qualquer outra questão incidental puramente nacional (SILVA, 2004). O sistema restringe-se, contudo, ao reconhecimento. Para a execução de decisão estrangeira é sempre necessário um processo de homologação principal, mais simples do que o tradicional sistema de exequatur por delibação, mas também sujeito àquela cognição. Registre-se que, de acordo com o regulamento europeu, o processo de homologação principal também se aplica a um caso específico de reconhecimento sem execução: quando o favorecido pela decisão busca sanar dúvida quanto à existência do direito declarado no exterior – delibação declaratória, portanto, e não executória. Deixando-se à parte o peculiar sistema comunitário europeu, os três sistemas internacionais informam que a produção de efeitos de decisões judiciais estrangeiras jamais é admitida sem análise de certos requisitos. Quando nova ação de conhecimento é necessária, tais requisitos são parte de um juízo muito mais amplo, que alcança o julgamento do próprio mérito da demanda. Quando se depende de um processo de Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 17 exequatur, os requisitos formam o que é necessário para que se profira a ordem de execução. Exequatur por delibação A despeito de qual seja a classificação considerada, é pacífica a ideia de que o sistema de exequatur por delibação é o mais disseminado no mundo (MOREIRA, 2005). Embora as discussões em torno dos sistemas de recepção de atos jurisdicionais estrangeiros considerem majoritariamente as sentenças, não difere de modo considerável o juízo dedelibação realizado na ação de homologação de sentença estrangeira daquele que precede a execução de cartas rogatórias. Tanto um quanto outro é baseado em ato de natureza jurisdicional prolatado no Estado requerente e que se quer fazer cumprir em outra jurisdição. Não cabe ao Estado requerido prolatar qualquer decisão de mérito relativa ao litígio noticiado por um desses instrumentos. Não cabe a ele, igualmente, exercer qualquer juízo de mérito sobre a matéria de fundo do ato jurisdicional levado ao seu conhecimento. Cabe apenas aferir os requisitos que permitem a ele declarar aquele ato executável ou não em seu território. (MADRUGA FILHO, 2005). Nesse sentido, o sistema de exequatur por delibação acaba por englobar as duas espécies de confirmação necessárias para a execução de atos estrangeiros, ou seja, o exequatur propriamente dito, fundamento da execução de decisões estrangeiras não definitivas (por carta rogatória), e a homologação, fundamento da execução de sentenças proferidas no exterior (por ação própria). Ambas as espécies são produtos do juízo de delibação e estão sujeitas a diversos requisitos – as questões da delibação. De acordo com o sistema de exequatur por delibação, o Estado requerido, embora aprecie questões de mérito para decidir sobre a confirmação do ato, não entra na apreciação da questão de fundo posta em juízo, do mérito do julgado. Daí porque, inclusive, assim é chamado o modo tradicional de cognição do Direito Processual Internacional brasileiro. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 18 Isso nos permite afirmar que há no juízo delibatório uma apreciação material do ato estrangeiro, ainda que mínima, restrita à aferição de eventual ofensa à ordem pública do Estado requerido. Não desconhecemos afirmação comum em doutrina de que no juízo de delibação não se aprecia o mérito da decisão estrangeira. Parece-nos, contudo, que a afirmação representa, em verdade, ausência de apreciação do mérito sobre o bem da vida posto em julgamento, não sobre todo o julgado. Questões de delibação De acordo com o sistema de exequatur por delibação, adotado no Brasil, a recepção do ato jurídico estrangeiro depende apenas da observância de certas garantias processuais e da não interferência do ato em princípios gerais considerados essenciais no ordenamento jurídico. De qualquer modo, ainda que fixado tal pressuposto, a teoria mostra-se divergente ao tentar elencar os elementos que compõem a cognição delibatória. Parece-nos mais acertada a classificação que despreza elementos formais, para indicar quatro elementos apenas: competência internacional do juízo; possibilidade de contraditório prévio; ausência de coisa julgada; e não ofensa à ordem pública. O conteúdo do conceito jurídico indeterminado ordem pública é tão incerto que merece tratados próprios só para disso cuidar. Quando se fala em ordem pública no Direito Internacional Privado surge logo a ideia de algo que impõe um limite, um obstáculo à aplicação do direito estrangeiro. De fato, a regra de que todo Estado, em certas circunstâncias, permite a aplicação do direito estrangeiro em litígio que tem lugar em seu território encontra exceção justamente quando essa aplicação representa ofensa à sua ordem pública. É extremamente difícil conceituar ordem pública. As linhas gerais do instituto são conhecidas, mas precisar seu âmbito de incidência é tarefa árdua. Em tese, a ordem pública é algo que se afere com base na formação profissional e pessoal dos aplicadores da norma jurídica, a partir de um conjunto de princípios que compõem o alicerce sócio- Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 19 político-jurídico de uma sociedade. Não é com base em ilações que se afere o conteúdo do instituto. Sua compreensão não pode estar focada em avaliação abstrata. Consequência dessa compreensão é a ideia de que a ordem pública não pode mesmo ter seu conteúdo fixado em qualquer norma escrita, ainda que de ordem constitucional. A variabilidade do conteúdo da ordem pública impõe aos ordenamentos jurídicos a adoção de uma cláusula aberta, a ser preenchida em cada momento histórico, por cada magistrado, caso a caso. Não é por outro motivo que os legisladores se esquivam da tarefa de definir o conteúdo do instituto. A prudência e a preservação de vigência das normas jurídicas assim recomendam. Para definir concretamente o conteúdo da ordem pública, cabe ao magistrado revelar não uma percepção individual sobre o que pensa quanto ao conceito naquele dado momento histórico, mas uma interpretação que traduza o entendimento médio do povo sobre a relação entre ordem pública e a específica lei ou decisão estrangeira que se pretende cumprir no território brasileiro. Postos tais fundamentos, será adotada aqui a noção de ordem pública como o conjunto de concepções essenciais do foro (VALLADÃO, p. 496) fundadas nos conceitos de justiça, moral, religião, economia e política que orientam o ordenamento para a formação de seus princípios e garantias fundamentais. A Extradição como medida de cooperação Entre os mecanismos existentes de cooperação jurídica internacional em matéria penal, o instituto da extradição mostra-se como uma ferramenta bem eficaz, haja vista ser um ato pelo qual um Estado entrega um indivíduo acusado de fato delituoso ou já condenado como criminoso, à justiça de outro Estado, competente para julgá-lo e puni- lo. A extradição é, seguramente, o principal mecanismo da chamada cooperação internacional na repressão penal, fazendo com que as fronteiras políticas do Estado não funcionem como fator de impunidade e de não-reparação da lesão perpetrada no locus commissi delicti. (GUEIROS, 2013) Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 20 O Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), após o Decreto n° 8.668, de 11 de fevereiro de 2016, passou a exercer a função de autoridade central para o trâmite dos pedidos de cooperação jurídica internacional, inclusive em assuntos de extradição, de transferências de pessoas condenadas e de execução de penas, coordenando, opinando e instruindo os pedidos ativos e passivos. Os procedimentos a serem adotados em relação aos pedidos de extradição, bem como à prisão para fins de extradição estão estabelecidos na Portaria nº 217, de 27 de fevereiro de 2018, do Ministério da Justiça. Princípios da extradição O Princípio da Especialidade dispõe que o extraditando não poderá ser processado e/ou julgado por crimes que não embasaram o pedido de cooperação e que tenham sido cometidos antes de sua extradição, podendo o Estado requerente solicitar ao Estado requerido a extensão ou ampliação da extradição ou extradição supletiva. Outro princípio basilar da extradição é o da Dupla Tipicidade, também conhecido como Princípio da Identidade ou da Dupla Incriminação do Fato ou Incriminação Recíproca. Sob a égide deste, impõe-se que somente seja concedida uma extradição para um fato típico e antijurídico, assim considerado tanto no país requerente quanto no requerido. Outro princípio a ser observado é o do Non Bis In Idem, por meio do qual não será concedida a extradição quando já existir sentença transitada em julgado pelo mesmo fato em que se baseia o pedido de extradição. Destaque-se, aqui, o termo “fato”, já que poderá ser solicitada a extradição de um indivíduo por um determinado crime em relação ao qual já tenha sido condenado, mas não em relação ao mesmo fato delitivo. Classificações Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 21 A extradição pode ser classificada em:1. Instrutória O indivíduo será entregue ao país requerente para responder a processos-crime. 2. Executória O indivíduo será entregue ao país requerente para cumprimento de pena. 3. Voluntária O indivíduo reclamado concorda em ser entregue de imediato ao Estado requerente, após informado sobre todos os seus direitos e assistido juridicamente, sem prejuízo da análise legal da autoridade competente sobre o caso. Espécies 1. Ativa No Brasil, a extradição é ativa quando o Governo brasileiro solicita a entrega de uma pessoa procurada pela Justiça brasileira a outro país, para fins de julgamento ou cumprimento de pena. 2. Passiva É considerada passiva quando a pessoa objeto de processo penal em outro país encontra-se no Brasil e o Estado estrangeiro requer sua entrega para instrução de processo penal ou execução de sentença, ainda que não transitada em julgado. Procedimentos dos pedidos de extradição ativa: Havendo notícia da localização, no exterior, de procurado da Justiça brasileira, o Poder Judiciário brasileiro encaminhará o pedido formal de extradição, acompanhado dos documentos formalizadores, ao DRCI, que analisará a admissibilidade do pleito, a Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 22 fim de verificar se o pedido está de acordo com o estabelecido no Acordo e/ou legislação interna. Estando em conformidade com o Acordo e/ou legislação interna, o pedido de extradição será encaminhado ao outro país, através do Ministério das Relações Exteriores, ou diretamente da Autoridade Central do respectivo país, quando permitido em Acordo. Antes da formalização do pedido de extradição, poderá o Poder Judiciário solicitar a prisão preventiva para fins de extradição do procurado, visando evitar sua eventual fuga. Para tanto, o pedido deverá ser acompanhado dos documentos previstos na legislação respectiva. Havendo a efetivação da prisão do extraditando, o Brasil será notificado a apresentar os documentos justificativos e formalizadores da extradição no prazo estipulado no Acordo ou, na falta deste, conforme legislação interna do Estado requerido, sob pena de concessão de liberdade à pessoa requerida. Uma vez em liberdade, novo pedido de prisão preventiva só será aceito por ocasião do encaminhamento de todos os documentos necessários à análise e decisão do pedido de extradição. Sendo deferido o pedido de extradição, o Estado requerido comunicará a decisão ao Brasil, com urgência, para que as autoridades brasileiras retirem o extraditando do território estrangeiro no prazo previsto no Acordo, ou na data estipulada pela legislação interna do país requerido. A entrega do extraditando poderá ser diferida se este estiver sujeito a processo criminal, ou estiver cumprindo pena por crime cometido no território do Estado requerido. Quando o extraditando estiver apto a ser entregue, o Estado requerido comunicará ao Brasil para sua retirada no prazo estipulado. Se denegado o pedido de extradição, total ou parcialmente, os fundamentos do indeferimento deverão ser comunicados imediatamente ao Brasil e novo pedido não poderá ser apresentado ao Estado requerido embasado nos mesmos fatos imputados ao extraditando. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 23 Procedimentos dos pedidos de extradição passiva: Sobre o pedido de prisão preventiva para fins de extradição e deferimento do pedido formal de extradição, segue-se a mesma regra em relação à extradição ativa e conforme estabelecido na Lei 13.445/17 e Portaria nº 217/2018. O pedido de extradição passiva será apresentado pelo Estado requerente, diretamente, ou pela via diplomática, ao DRCI, que, após análise de admissibilidade do pleito, o transmitirá ao Supremo Tribunal Federal. Essa Corte realiza o controle da legalidade do pedido, verificando, por exemplo, se o fato imputado ao extraditando é punível na legislação de ambos Estados, se já era tipificado anteriormente a seu cometimento, se já foi extinta a punibilidade do delito praticado em qualquer dos Estados – requerente e requerido –, e se o crime é ou não de natureza política ou militar. No controle da legalidade, é verificado se a pessoa estará sujeita a uma pena inexistente ou não admitida no Brasil, sendo que, ainda assim, a extradição poderá ser deferida, ficando apenas condicionada a entrega à apresentação pelo Estado requerente, a depender do caso, de compromissos formais contidos no artigo 96, da Lei Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 24 13.445/171. 2. Entre os compromissos exigidos pela lei em seu art. 96, está a obrigação de que penas corporais, perpétuas ou de morte sejam comutadas em penas privativas de liberdade, respeitado o limite máximo de 30 anos. Todavia, a partir de 24 de janeiro de 2020, quando entrou em vigor a Lei 13.964/19, vem se construindo novo 1 Art. 96. Não será efetivada a entrega do extraditando sem que o Estado requerente assuma o compromisso de: I - não submeter o extraditando a prisão ou processo por fato anterior ao pedido de extradição; II - computar o tempo da prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição; III - comutar a pena corporal, perpétua ou de morte em pena privativa de liberdade, respeitado o limite máximo de cumprimento de 30 (trinta) anos; IV - não entregar o extraditando, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o reclame; V - não considerar qualquer motivo político para agravar a pena; e VI - não submeter o extraditando a tortura ou a outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. 2 Art. 96. Não será efetivada a entrega do extraditando sem que o Estado requerente assuma o compromisso de: I - não submeter o extraditando a prisão ou processo por fato anterior ao pedido de extradição; II - computar o tempo da prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição; III - comutar a pena corporal, perpétua ou de morte em pena privativa de liberdade, respeitado o limite máximo de cumprimento de 30 (trinta) anos; IV - não entregar o extraditando, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o reclame; V - não considerar qualquer motivo político para agravar a pena; e VI - não submeter o extraditando a tortura ou a outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 25 entendimento jurisprudencial no sentido de que o limite de 30 (trinta) anos se aplica somente a fatos típicos ocorridos antes daquela data, haja vista que a referida lei ampliou a pena máxima no Brasil para 40 anos, o que alcançaria pedidos de extradição em decorrência de fatos ocorridos posteriormente à sua promulgação. Da decisão do Supremo Tribunal Federal não cabe recurso, apenas embargos de declaração quando se verificar omissão, obscuridade ou contradição. Sobre o pedido de prisão preventiva para fins de extradição e deferimento do pedido formal de extradição, segue-se a mesma regra em relação à extradição ativa e conforme estabelecido na Lei 13.445/17 e Portaria nº 217/2018. Sendo deferida a extradição pelo STF e autorizada pelo Ministério da Justiça, o país requerente terá um prazo, fixado em Acordo, para retirar o indivíduo do território nacional, caso contrário, o indivíduo deverá ser colocado em liberdade pelo Governo brasileiro. Na ausência de prazo definido por acordo ou tratado, de acordo com a Lei 13.445/17 (Lei de Migração), “o Estado estrangeiro deverá formalizar o pedido de extradição no prazo de 60 (sessenta) dias, contado da data em que tiver sido cientificado da prisão do extraditando”, devendo ser o extraditandocolocado em liberdade depois de decorrido esse prazo sem a sua efetiva extradição. Caso o extraditando também possua pendências criminais no Brasil, a sua entrega ao Estado requerente ficará diferida até a conclusão do processo ou do cumprimento da pena. Entretanto, deve-se observar o disposto no artigo 95, da Lei 13.445/17 (Lei de Migração), que dispõe que: “quando o extraditando estiver sendo processado ou tiver sido condenado, no Brasil, por crime punível com pena privativa de liberdade, a extradição será executada somente depois da conclusão do processo ou do cumprimento da pena, ressalvadas as hipóteses de liberação antecipada pelo Poder Judiciário e de determinação da transferência da pessoa condenada.””. Sendo assim, o Ministério da Justiça poderá, excepcionalmente, entregar o estrangeiro ao país requerente independentemente do processo em curso ou do cumprimento da pena já imposta, podendo ser submetido simultaneamente à extradição e à transferência de pessoa condenada. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 26 Documentos justificativos e formalizadores dos pedidos de extradição: Os documentos necessários à instrução do pedido de extradição podem variar conforme o Acordo ou, ainda, segundo a legislação interna do país requerido, sendo geralmente os seguintes: 1. Pedido formal de extradição; 2. Cópia do mandado de prisão; 3. Cópia dos textos legais aplicáveis ao crime, à pena, e à prescrição; 4. Informações necessárias à identificação do indivíduo. 5. Sentença condenatória, se houver; 6. Cálculo da pena, se houver; 7. Indícios de que a pessoa procurada esteja no país requerido. Salvo disposição diversa em Acordo, os documentos devem estar sempre acompanhados da respectiva tradução para o idioma do país requerido. A tradução não precisa ser juramentada, bastando sua autenticação pela autoridade judicial autora do pedido de extradição. Para pedido de prisão preventiva para fins de extradição, os documentos geralmente exigidos são: 1. Pedido de prisão preventiva indicando que a pessoa procurada responde a processo ou é condenada por sentença judicial; 2. Data e os atos que motivem o pedido, bem como o tempo e o local de sua ocorrência; 3. Dados que permitam a identificação da pessoa cuja prisão se requer; 4. Constar do pedido a intenção de se proceder a um pedido formal de extradição. Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 27 Base legal: Atualmente, a base legal que rege o procedimento extradicional no Brasil é composta pela Lei 13.445/2017, mais conhecida como Lei de Migração, a Portaria nº 217/2018, o Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal em seus artigos 207 a 214, a Portaria 522 de 23 de maio de 2016 do Ministério da Justiça3, além de 28 acordos internacionais bilaterais e 6 multilaterais, já internalizados no ordenamento jurídico brasileiro por meio de seus respectivos Decretos4. Na ausência de acordo internacional, o princípio da reciprocidade é utilizado. 3 http://justica.gov.br/sua-protecao/lavagem-de-dinheiro/institucional-2/legislacao/portaria-no- 522-de-3-de-maio-de-2016 4 http://justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/extradicao/acordos-de-extradicao- 1/acordos-de-extradicao