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Unidade 1 Introdução à Cooperação Jurídica Internacional

Unidade do Módulo 03 (Recuperação de Ativos; Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro) sobre Cooperação Jurídica Internacional. Aborda conceitos, efeitos da globalização e crime transnacional (Convenção de Palermo art.3) e trata de carta rogatória, auxílio direto e extradição.

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Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
1 
Unidade 1 – Introdução à Cooperação Jurídica 
Internacional 
 
 
Historicamente, a comunidade internacional cultiva a regra de que cada Estado 
tem o exercício da sua jurisdição limitado ao seu próprio território. Dentro dos 
parâmetros estritamente tradicionais desse modelo, um ato jurisdicional que, 
porventura, provoque efeitos, diretos ou indiretos, em territórios diferentes do seu 
pode ser considerado ofensivo aos preceitos da não ingerência e autodeterminação dos 
povos. 
Esse modelo puro revelou-se, na maioria das vezes, adequado. Porém, há 
algumas décadas, o mundo passou a observar franca globalização das relações, jamais 
presenciada em escaladas tão elevadas. Como consequência, o papel das fronteiras 
geográficas, em uma delimitação radical das jurisdições, passa a fazer cada vez menos 
sentido em um contexto em que as demarcações não representam impedimento à 
circulação de bens, serviços, capital, pessoas e, tampouco, às relações comerciais e 
empresariais transnacionais, à difusão global de informações e, claro, à 
internacionalização do crime. 
O cenário descrito, ao mesmo tempo em que inspira maior liberdade de 
circulação, leva os operadores do Direito a importantes questionamentos: “Como 
Ao final desta Unidade, você deverá ser capaz de: 
• Perceber a importância da cooperação jurídica internacional na 
atualidade; 
• Entender a cooperação jurídica internacional como instrumento 
efetivo no combate à lavagem de dinheiro e à corrupção; 
• Conceituar e classificar. 
Parte 1 – Identificar a carta rogatória e o auxílio direto como mecanismos de 
cooperação. 
Parte 2 – Formular pedido de extradição ativa. 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
2 
assegurar que a nova concepção que se tem de fronteira não se traduza em passe-livre 
para a injustiça?”; “Como assegurar a existência de uma cidadania global em que o 
indivíduo possa ter certeza do cumprimento do seu direito mesmo quando esse 
exercício envolve outras jurisdições?”. 
A cooperação jurídica 
internacional representa uma 
das medidas implementadas 
pelos Estados nesse sentido. Por 
meio de um pedido de 
cooperação jurídica, o indivíduo 
ou empresa que busca o seu 
direito ou o Estado que 
necessite realizar atos indispensáveis à boa administração de sua justiça encontrará o 
veículo adequado para fazê-lo, sem ferir a soberania e as regras de jurisdição territorial 
do outro Estado a que se dirige solicitação. A cooperação jurídica, portanto, é um modo 
formal de “bater à porta” de autoridade de outro Estado e pedir ajuda, a fim de que se 
possa afirmar a justiça no caso concreto. 
 
 
O cenário internacional e a cooperação 
 
Se antes a cooperação jurídica era tida como prescindível, ou até mesmo 
potencialmente desrespeitosa aos preceitos mais tradicionais de soberania nacional, 
atualmente entende-se que é vital para a sustentabilidade das relações internacionais, 
conferindo maior previsibilidade aos atos internacionais e maior segurança às nações. 
Com a atual e avançada globalização, a cooperação não pode mais ser compreendida 
como um mero ato de cortesia internacional, mas como um dever do Estado de 
contribuir com a sua contraparte nos aspectos jurisdicionais que esta não pode alcançar 
de forma direta. Trata-se, portanto, de uma obrigação entre as nações, e não de uma 
mera faculdade (OTAVIO, 1942, p. 115). 
 
 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
3 
A cooperação jurídica internacional é particularmente importante no 
enfrentamento à criminalidade organizada, à lavagem de dinheiro e à corrupção, que 
também passou, nos últimos anos, por considerável processo de internacionalização das 
suas atividades. Em outras palavras, a “relativização” do papel desempenhado pelas 
fronteiras geográficas operou não só em favor da circulação de bens, pessoas, capitais 
e informação, mas também da transnacionalização do crime. 
A Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional 
(Convenção de Palermo), definida e trabalhada nas unidades anteriores, traz em seu 
artigo 3º que “a infração será de caráter transnacional se”: 
a) for cometida em mais de um Estado; 
b) for cometida num só Estado, mas uma parte substancial da sua 
preparação, planejamento, direção e controle tenha lugar em outro 
Estado; 
c) for cometida num só Estado, mas envolva a participação de um 
grupo criminoso organizado que pratique atividades criminosas em 
mais de um Estado; ou 
d) for cometida num só Estado, mas produza efeitos substanciais 
noutro Estado”. 
Uma rápida análise do que se vê como resultado das investigações e persecuções 
penais no mundo, nos leva a perceber, que, de acordo com a definição da 
Organização das Nações Unidas (ONU), o 
caráter transnacional está presente na maioria 
das organizações criminosas de maior 
relevância. Possivelmente, contribui para esse 
dado o fato de vivermos atualmente um modelo 
em que as iniciativas voltadas para o controle e 
a regulação das circulações transfronteiriças são 
malvistas pela sociedade internacional, o que 
acaba criando uma situação altamente 
favorável também para a criminalidade transnacional. Soma-se a isso o fato de os 
Estados ainda enfrentarem grandes dificuldades para se coordenar de maneira ágil e 
efetiva nas investigações e persecuções penais. 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
4 
Paralelamente à percepção de que as organizações criminosas têm se 
utilizado, cada vez mais, de jurisdições diferentes da sua como uma forma de dificultar 
a atuação das autoridades investigativas, outro dado chama a atenção, qual seja aquele 
relativo ao poder econômico das organizações criminosas. 
Um estudo realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes 
(UNODC), denominado A globalização do crime: uma avaliação sobre a ameaça do crime 
organizado transnacional, de 2010, aponta dados elucidativos no que diz respeito ao 
lucro gerado por algumas atividades criminosas: 
• O tráfico de 140.000 pessoas para fins de exploração sexual gera o ingresso 
anual de US$ 3 bilhões para seus exploradores na Europa. 
• O tráfico de 2,5 a 3 milhões de migrantes da América Latina aos Estados 
Unidos gera anualmente US$ 6,6 bilhões. 
• O mercado mundial de armas de fogo ilícitas gera entre US$ 170 e 320 
milhões. 
• O número de produtos falsificados detectados na fronteira europeia gera 
um valor anual de mais de US$ 10 bilhões. 
• Estima-se que o fluxo global de ativos originados de atividades criminosas 
seja de US$ 1 a 1,6 trilhões por ano. 
Como vimos nas unidades anteriores, a Convenção de Palermo, em seu artigo 2º, 
esclarece que o “grupo criminoso organizado”, para ser considerado como tal, deve 
contar com três ou mais pessoas, existir há 
algum tempo e atuar concertadamente com 
o propósito de cometer uma ou mais 
infrações graves, ou enunciadas na 
Convenção, com a intenção de obter, direta 
ou indiretamente, um benefício econômico 
ou outro benefício material. 
Reconhece-se, portanto, que toda organização criminosa tem por fim primordial 
a obtenção de lucros, pois são estes ativos que dão fôlego a sua atuação, permitindo 
que se perpetue no tempo e se capilarize geográfica e institucionalmente. 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
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A privação da liberdade de criminosos é medida importante, porém insuficiente 
no enfrentamento à criminalidade organizada. Não por outra razão, o corte do fluxo 
financeiro dessas organizações constitui o foco das políticas públicas mais modernas na 
área desegurança pública, de forma a reduzir a lucratividade e impossibilitar a expansão 
do crime. 
A necessidade de aumentarmos a compreensão, coordenação e cooperação com 
outros países nasce da conjunção dos dois movimentos acima descritos. Em outras 
palavras, a transnacionalização do crime, aliada à percepção de que o verdadeiro 
combate ao crime organizado passa necessariamente por uma política focada no corte 
dos fluxos financeiros ilícitos, transforma a cooperação jurídica em algo imprescindível 
para o próprio exercício das funções soberanas dos Estados. 
Atualmente, os paradigmas mudaram e a cooperação jurídica internacional 
deixou de ser exclusivamente um ato de cortesia entre os Estados e, se antes podia ser 
vista como uma ameaça à soberania, hoje se apresenta como essencial à sua própria 
manutenção. A garantia dos direitos individuais, coletivos e difusos, a manutenção da 
segurança pública, o combate ao crime organizado, a estabilidade do sistema 
econômico-financeiro, entre outros tantos temas, dependem cada vez mais da 
cooperação jurídica internacional. 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
6 
 
Autoridade legitimada a solicitar cooperação jurídica 
internacional em matéria penal 
 
Salvo exceções dispostas em tratado, os pedidos de cooperação jurídica 
internacional em matéria penal podem ser realizados pelas autoridades que, de acordo 
com a legislação de seu país, podem fazer pedido de mesma natureza internamente. 
Normalmente, os tratados de que o Brasil é parte trazem alguma previsão sobre 
o tema. A tendência verificada nos mais recentes define a autoridade competente como 
a “autoridade que conduz a investigação, o inquérito, a ação penal, ou outro 
procedimento relacionado com a solicitação” (artigo 4º do Tratado entre a República 
Federativa do Brasil e a República Popular da China sobre Assistência Judiciária Mútua 
em Matéria Penal – Decreto n. 6.282/2008). 
Infelizmente, também há casos em que as autoridades constam de forma mais 
restrita, como é o caso do Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais 
do MERCOSUL (Decreto n. 3.468/2000) - o qual prevê, em seu Artigo 4º, que “as 
solicitações transmitidas por uma Autoridade Central com amparo no presente 
Protocolo se basearão em pedidos de assistência de autoridades judiciais ou do 
Ministério Público do Estado requerente encarregadas do julgamento ou investigação 
de delitos”. Esta redação, por vezes, cria resistência das autoridades estrangeiras no 
cumprimento dos pedidos conduzidos pela autoridade que conduz o inquérito, tal como 
ocorre com as autoridades uruguaias. 
Por outro lado, em diversos acordos bilaterais de cooperação jurídica 
internacional em matéria penal ratificados pelo Brasil, a legitimidade ativa para elaborar 
pedidos de cooperação não está limitada a uma autoridade judiciária, referindo-se 
nestes textos legais que “os pedidos transmitidos por uma Autoridade Central de acordo 
com o presente Acordo basear-se-ão em pedidos de assistência de autoridades 
competentes da Parte Requerente encarregadas do julgamento ou da investigação dos 
delitos” (Artigo 4º do Acordo de Cooperação Judiciária e Assistência Mútua em Matéria 
Penal entre Brasil e Colômbia – Decreto n. 3.895/2001). 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
Módulo 03: Cooperação Jurídica Internacional 
7 
 
Principais tratados de cooperação jurídica internacional em 
matéria penal 
 
Uma solicitação de cooperação jurídica internacional poderá ser feita com base 
em: 
I. acordos multilaterais; 
II. acordos regionais ou bilaterais; 
III. promessa de reciprocidade para casos análogos. 
O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio do Departamento de 
Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), tem se empenhado 
para estabelecer novos acordos, reforçar os laços por meio da aproximação com os 
países em que já existem, e promover junto ao Poder Judiciário, Ministério Público, 
Polícias Judiciárias, entre outros órgãos, a divulgação da existência desses textos, bem 
como o esclarecimento quanto ao modo de utilização. 
Atualmente, estão em vigor no Brasil vários acordos multilaterais que disciplinam 
a cooperação jurídica internacional, dentre os quais merecem destaque no que se refere 
à matéria penal: 
 
• Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e 
Substâncias Psicotrópicas (Convenção de Viena 1988); 
• Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional 
(Convenção de Palermo ou UNTOC); 
• Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de Mérida ou 
UNCAC); 
• Convenção sobre o Crime Cibernético (Convenção de Budapeste); 
• Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime 
Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do 
Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças; 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
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• Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime 
Organizado Transnacional, relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por 
via terrestre, marítima e aérea; 
• Protocolo contra a Fabricação e o Tráfico Ilícito de Armas de Fogo, suas Peças 
e Componentes e Munições, complementando a Convenção das Nações 
Unidas contra o Crime Organizado Transnacional; 
• Convenção sobre o Combate 
da Corrupção de Funcionários 
Públicos Estrangeiros em 
Transações Comerciais 
Internacionais, da OCDE; 
• Convenção de Auxílio Judiciário 
em Matéria Penal entre os 
Estados membros da 
Comunidade dos Países de Língua 
Portuguesa – CPLP. 
No plano regional, o Brasil promulgou outros tantos instrumentos que preveem 
a cooperação jurídica internacional em matéria penal. Seguem alguns destaques: 
• Convenção Interamericana sobre Assistência Mútua em Matéria Penal 
(Convenção de Nassau); 
• Convenção Interamericana contra a Corrupção (com reserva ao parágrafo 
1º, inciso C, do artigo XI); 
• Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais - MERCOSUL 
(Protocolo de San Luis). 
É interessante registrar que, atualmente, o Brasil mantém 21 (vinte e um) acordos 
bilaterais de auxílio mútuo em matéria penal, a saber: 
• Acordo de Cooperação Judicial em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo da República de Cuba, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.462, de 21 de maio de 2008; 
 
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• Acordo de Cooperação e Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a 
República Federativa do Brasil e o Reino da Espanha, internalizado no Brasil 
pelo Decreto nº 6.681, de 08 de dezembro de 2008; 
• Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo da República Popular da China, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.282, de 03 de dezembro de 2007; 
• Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.810, de 02 de maio de 2001; 
• Acordo de Cooperação Judiciária e Assistência Mútua em Matéria Penal 
entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República 
da Colômbia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.895, de 23 de agosto 
de 2001; 
• Acordo de Cooperação Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo da República Francesa, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 3.324, de 30 de dezembro de 1999. 
• Tratado sobre Cooperação Judiciária em Matéria Penal, entre a República 
Federativa do Brasil e a República Italiana, Decreto nº 862, de 09 de julho de1993; 
• Acordo de Assistência Jurídica em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo da República do Peru, 
internalizado pelo Decreto nº 3.988, de 29 de outubro de 2001; 
• Tratado entre a República Federativa do Brasil e a República da Coréia sobre 
Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo 
Decreto nº 5.721, de 13 e março de 2006; 
• Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre a República 
Federativa do Brasil e a Ucrânia, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 
5.984, de 12 de dezembro de 2006; 
• Tratado de Assistência Mútua em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo do Canadá, internalizado no 
Brasil pelo Decreto nº 6.747, de 22 de janeiro de 2009; 
 
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• Tratado de Cooperação Jurídica em Matéria Penal entre a República 
Federativa do Brasil e a Confederação Suíça, internalizado no Brasil pelo 
Decreto nº 6.974, de 07 de outubro de 2009; 
• Tratado entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da 
República do Suriname sobre Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 6.832, de 29 de abril de 2009; 
• Tratado entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da 
República de Honduras sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 8.046, de 11 de julho de 2013; 
• Acordo de Assistência Jurídica Internacional em Matéria Penal entre a 
República Federativa do Brasil e os Estados Unidos Mexicanos, internalizado 
no Brasil pelo Decreto nº 7.575, de 1º de novembro de 2011; 
• Acordo de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo da República Federal da Nigéria, 
internalizado no Brasil pelo Decreto nº 7.582, de 13 de outubro de 2011; 
• Acordo de Assistência Jurídica em Matéria Penal entre a República 
Federativa do Brasil e a República do Panamá sobre Auxílio Jurídico Mútuo 
em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 7.596, de 1º de 
novembro de 2011; 
• Tratado de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre o Governo da 
República Federativa do Brasil e o Governo do Reino Unido da Grã-Bretanha 
e Irlanda do Norte, internalizado no Brasil pelo Decreto nº 8.047, de 11 de 
julho de 2013; 
• Acordo sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a República 
Federativa do Brasil e a República da Turquia, internalizado no Brasil pelo 
Decreto nº 9.065, de 31 de maio de 2017; 
• Tratado entre a República Federativa do Brasil e o Reino da Bélgica sobre 
Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal, internalizado no Brasil pelo 
Decreto nº 9.130, de 17 de agosto de 2017; 
• Acordo sobre Auxílio Jurídico Mútuo em Matéria Penal entre a República 
Federativa do Brasil e o Reino Hachemita da Jordânia, internalizado no Brasil 
pelo Decreto nº 9.729, de 15 de março de 2019 
 
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Em regra, os acordos bilaterais e regionais excluem a exigência da dupla 
incriminação para cumprimento dos pedidos de cooperação, aplicando-se, desta 
maneira, para uma ampla gama de crimes. 
 
Conceitos e classificação 
 
A cooperação jurídica internacional é o meio pelo qual se busca a realização de 
determinada medida, declaratória, pré-processual, processual ou executória, em 
jurisdição estrangeira. 
 
Os instrumentos por meio dos quais se operacionaliza a cooperação jurídica 
internacional são diversos e variam desde as ferramentas mais tradicionais como a 
extradição, homologação de sentença estrangeira e carta rogatória, até dispositivos 
mais modernos como o pedido de auxílio direto, a transferência de pessoas condenadas 
e a transferência de processos penais. 
A gama de medidas que podem ser requeridas por meio da cooperação jurídica 
internacional em matéria penal é bastante ampla, abarcando a comunicação de atos 
processuais, como a citação e intimação, a tomada de depoimentos ou declarações de 
pessoas, por declaração escrita, por meio de audiência ou videoconferência, a busca de 
provas, por meio, por exemplo, da quebra de sigilo bancário, fiscal ou telemático, a 
localização, identificação e indisponibilidade de bens, a realização de perícias, pedidos 
de busca e apreensão, prisão de criminosos procurados, e outras. 
Quando o Estado brasileiro requer a cooperação de um país estrangeiro, trata-
se de cooperação ativa. Ao contrário, quando um país estrangeiro solicita a cooperação 
É preciso explicar um detalhe importante: cooperação judiciária e cooperação jurídica não 
são expressões sinônimas. A cooperação jurídica é mais ampla do que a cooperação 
judiciária. Esta última se limita à cooperação no momento em que já há processo judicial, 
excluindo, portanto, o momento pré-processual. A acepção mais ampla da cooperação 
estaria traduzida na expressão “cooperação jurídica”. 
 
 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
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12 
do Brasil, diz-se que é cooperação passiva. O país que demanda a cooperação é dito 
Estado requerente, enquanto o país que é demandado é dito Estado requerido. 
Os mecanismos por meio dos quais se dá cumprimento aos pedidos passivos de 
cooperação jurídica são a carta rogatória, o auxílio direto e o procedimento de 
extradição. Estes mecanismos, que serão aprofundados a seguir, são definidos pela lei 
processual de cada país. Por esse motivo, os instrumentos de cooperação e os 
respectivos procedimentos adotados pelo direito brasileiro não coincidirão 
necessariamente com aqueles adotados pelas leis de outro Estado. 
É importante destacar que, no cumprimento do pedido de cooperação passivo, 
as autoridades nacionais não devem levar em conta o título dado ao documento pela 
autoridade estrangeira. A classificação do mecanismo de cooperação jurídica deve se 
dar com base no conteúdo do pedido, de acordo com os critérios adotados pela 
legislação e pela jurisprudência brasileiras. 
 
A carta rogatória e o auxílio direto como mecanismos de 
cooperação 
 
Conforme prescrito no novo Código de Processo Civil e no Regimento Interno do 
STJ (art.216-O), a carta rogatória é o mecanismo de cooperação jurídica internacional 
voltado à execução no Brasil de atos jurisdicionais estrangeiros não decisórios e atos 
decisórios não definitivos. Por meio da carta rogatória em matéria penal, a autoridade 
requerente estrangeira solicita ao Brasil que execute ato jurisdicional já proferido, de 
 
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modo que não cabe às autoridades brasileiras exercer qualquer cognição de mérito 
sobre o bem da vida posto em julgamento no exterior. 
Nesse sentido, a carta rogatória na cooperação em matéria penal possui como 
objetos possíveis pedidos de comunicação de atos processuais (citações, intimações e 
notificações), de obtenção de provas e de medidas assecuratórias. Essa é a melhor 
compreensão da carta rogatória em matéria penal recebida no Brasil, a chamada carta 
rogatória passiva. 
Recentemente, todavia, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) posicionou-se no 
sentido de afastar daquele instrumento atos meramente ordinatórios, despachos de 
mero expediente proferidos pelo judiciário estrangeiro e que, portanto, são incapazes 
de confrontar quaisquer das questões que compõem o juízo delibatório. Desse modo, 
não deve constituir objeto de carta rogatória ato jurisdicional qualquer que não 
represente uma decisão. Não só a teoria tradicional (TENÓRIO, 1976), mas também a 
contemporânea, ainda hoje afirma ser este objeto possível do mecanismo. (ARAÚJO, 
2010). 
Parece-nos,contudo, que o aprimoramento do Direito Processual Internacional 
brasileiro, especialmente a releitura que a noção de ordem pública vem merecendo, 
acaba por retirar deste mecanismo objetos que por definição não podem jamais ferir 
aquele conjunto de princípios fundamentais que se protege na delibação. É justamente 
o que ocorre com pedidos de intimação ou notificação, pois qualquer grave discrepância 
entre o procedimento ou o direito material em disputa no exterior e o ordenamento 
jurídico nacional pode objetar a execução de sentença ou qualquer outra decisão 
estrangeira no Brasil, mas jamais a simples intimação para que alguém tome 
conhecimento de certo ato processual praticado lá fora. 
No mais, as outras questões que formam o juízo de delibação parecem não 
incidir na hipótese. Não nos surge circunstância em que se pode aferir competência do 
juízo rogante, possibilidade de contraditório prévio e ausência de coisa julgada em face 
de simples despachos de mero expediente. Embora ainda pareça ser pensamento 
minoritário, a restrição da carta rogatória ao cumprimento no Brasil de decisões 
proferidas no exterior já encontra respaldo teórico nacional. (ZAVASCKI, 2010). 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
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Cabe reafirmar que a atual regulamentação interna sobre cartas rogatórias no 
Brasil reconhece a possibilidade de utilização do mecanismo também para atos não 
decisórios. No caso da carta rogatória ativa, ou seja, daquela que veicula pedido de 
cooperação enviado do Brasil ao exterior, o sistema de recepção de atos jurisdicionais 
estrangeiros adotados no país destinatário é que deve determinar o conteúdo possível 
do instrumento. 
O cumprimento das cartas rogatórias passivas no Brasil, por força do já citado 
dispositivo constitucional, depende da concessão de exequatur (em origem latina, que 
ao pé da letra significa “execute-se”, “cumpra-se”. O termo é utilizado no Direito 
Internacional Brasileiro para representar um documento autorizador de um Estado para 
executar as funções de um cônsul.) pelo Superior Tribunal de Justiça. Para tanto, deve o 
STJ exercer sobre o conteúdo daquele instrumento o chamado juízo de delibação. 
 
 
Juízo de delibação 
 
Tradicionalmente, a decisão judicial vê sua execução limitada à jurisdição onde 
foi proferida. Cada Estado diz quando e como seus 
juízes, detentores de parcela da função jurisdicional, 
podem proferir mandamentos como tais, mas jamais 
podem dizer quando e como tais mandamentos são 
também decisões judiciais no exterior. Ao Estado não 
é dado pretender ver seu julgado significar mais do 
que um fato em outra soberania. A ordem jurídica 
estrangeira pode, contudo, atribuir efeito diverso àquela decisão. 
Atribui-se a tratados concluídos entre Veneza e outras cidades, no século XIII e 
XIV, o pioneirismo na formulação de dispositivos relativos à execução de atos 
jurisdicionais estrangeiros. Atualmente, quase todos os países admitem a produção de 
efeitos jurídicos aos mandamentos judiciais estrangeiros, seja por meio de uma nova 
 
Recuperação de Ativos e Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro 
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ação de conhecimento, seja por meio de um processo de exequatur. A eficácia de atos 
jurisdicionais estrangeiros representa algo que, por manifestar respeito ao direito 
adquirido, contribui para a estabilidade das relações individuais ao redor do mundo e 
continuidade do exercício da jurisdição por um Estado no território de outro. (SPERL, 
1931). 
Com relação especificamente aos diversos modelos possíveis de recepção de 
atos jurisdicionais estrangeiros nos diversos ordenamentos, são vários os critérios que 
podem ser considerados para classificá-los. Por consequência, varia muito a classificação 
adotada em teoria. Para este estudo separamos uma parcela considerável da teoria que 
indica dois sistemas possíveis, actio judicati e exequatur, sendo este último subdividido 
em exequatur por revisão de mérito e exequatur por delibação. 
O sistema de actio judicati, comum nos países de common law, é aquele em que 
não se reconhece a decisão estrangeira como tal, mas como prova para que o 
beneficiado pelo ato jurisdicional proponha nova ação naquele país. Desse modo, 
advoga em favor do interessado uma presunção de que possui aquele direito, algo 
reversível somente se o réu bem exerce o ônus da prova, que passa a ser seu. O sistema 
de exequatur, por sua vez, seria aquele em que o ato jurisdicional é recepcionado como 
tal, de maneira a produzir efeitos em sua integralidade, sem que novo mandamento seja 
produzido no Estado onde se pretende executá-lo. 
Ocorre que no sistema de exequatur a produção de efeitos do ato estrangeiro, 
embora tenda a ser integral, jamais é automática. Determinada análise sempre 
condiciona o reconhecimento e a execução. Quanto aos meios para concessão do 
exequatur, a teoria indica subdivisões também de forma distinta. Aqui será considerada 
a profundidade de análise da decisão estrangeira, para subdividi-lo em sistema de 
exequatur por revisão do mérito e sistema de exequatur por delibação. Compreende-se 
o sistema de exequatur por revisão de mérito como aquele em que a decisão estrangeira 
produz efeitos desde que observada a aplicação da lei do Estado em cujo território a 
sentença irá produzir efeitos, o que se dá após ampla revisão da causa. Já o sistema de 
exequatur por delibação seria aquele em que a observância da ordem pública e alguns 
outros requisitos é suficiente para a execução. (MOREIRA, 2005). 
 
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16 
 
Sistema europeu 
 
Esse sistema se presta essencialmente para possibilitar a interposição, em 
processos internos, de exceções processuais de conexão, litispendência e coisa julgada, 
em razão de processos findos ou em curso no exterior. Nesses casos, silente a parte 
contrária à exceção, dá- se o reconhecimento automático. Se há impugnação, inicia-se 
processo de reconhecimento incidental, no qual cognição delibatória é exercida pelo 
juízo competente para julgar o processo interno principal, assim como ocorre com 
qualquer outra questão incidental puramente nacional (SILVA, 2004). 
O sistema restringe-se, contudo, ao reconhecimento. Para a execução de decisão 
estrangeira é sempre necessário um processo de homologação principal, mais simples 
do que o tradicional sistema de exequatur por delibação, mas também sujeito àquela 
cognição. Registre-se que, de acordo com o regulamento europeu, o processo de 
homologação principal também se aplica a um caso específico de reconhecimento sem 
execução: quando o favorecido pela decisão busca sanar dúvida quanto à existência do 
direito declarado no exterior – delibação declaratória, portanto, e não executória. 
Deixando-se à parte o peculiar sistema comunitário europeu, os três sistemas 
internacionais informam que a produção de efeitos de decisões judiciais estrangeiras 
jamais é admitida sem análise de certos requisitos. Quando nova ação de conhecimento 
é necessária, tais requisitos são parte de um juízo muito mais amplo, que alcança o 
julgamento do próprio mérito da demanda. Quando se depende de um processo de 
 
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exequatur, os requisitos formam o que é necessário para que se profira a ordem de 
execução. 
 
Exequatur por delibação 
 
A despeito de qual seja a classificação considerada, é pacífica a ideia de que o 
sistema de exequatur por delibação é o mais disseminado no mundo (MOREIRA, 2005). 
Embora as discussões em torno dos sistemas de recepção de atos jurisdicionais 
estrangeiros considerem majoritariamente as sentenças, não difere de modo 
considerável o juízo dedelibação realizado na ação de homologação de sentença 
estrangeira daquele que precede a execução de cartas rogatórias. Tanto um quanto 
outro é baseado em ato de natureza jurisdicional prolatado no Estado requerente e que 
se quer fazer cumprir em outra jurisdição. Não cabe ao Estado requerido prolatar 
qualquer decisão de mérito relativa ao litígio noticiado por um desses instrumentos. Não 
cabe a ele, igualmente, exercer qualquer juízo de mérito sobre a matéria de fundo do 
ato jurisdicional levado ao seu conhecimento. Cabe apenas aferir os requisitos que 
permitem a ele declarar aquele ato executável ou não em seu território. (MADRUGA 
FILHO, 2005). 
Nesse sentido, o sistema de exequatur por delibação acaba por englobar as duas 
espécies de confirmação necessárias para a execução de atos estrangeiros, ou seja, o 
exequatur propriamente dito, fundamento da execução de decisões estrangeiras não 
definitivas (por carta rogatória), e a homologação, fundamento da execução de 
sentenças proferidas no exterior (por ação própria). Ambas as espécies são produtos do 
juízo de delibação e estão sujeitas a diversos requisitos – as questões da delibação. 
De acordo com o sistema de exequatur por delibação, o Estado requerido, 
embora aprecie questões de mérito para decidir sobre a confirmação do ato, não entra 
na apreciação da questão de fundo posta em juízo, do mérito do julgado. Daí porque, 
inclusive, assim é chamado o modo tradicional de cognição do Direito Processual 
Internacional brasileiro. 
 
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Isso nos permite afirmar que há no juízo delibatório uma apreciação material do 
ato estrangeiro, ainda que mínima, restrita à aferição de eventual ofensa à ordem 
pública do Estado requerido. Não desconhecemos afirmação comum em doutrina de 
que no juízo de delibação não se aprecia o mérito da decisão estrangeira. Parece-nos, 
contudo, que a afirmação representa, em verdade, ausência de apreciação do mérito 
sobre o bem da vida posto em julgamento, não sobre todo o julgado. 
 
Questões de delibação 
 
De acordo com o sistema de exequatur por delibação, adotado no Brasil, a 
recepção do ato jurídico estrangeiro depende apenas da observância de certas garantias 
processuais e da não interferência do ato em princípios gerais considerados essenciais 
no ordenamento jurídico. De qualquer modo, ainda que fixado tal pressuposto, a teoria 
mostra-se divergente ao tentar elencar os elementos que compõem a cognição 
delibatória. Parece-nos mais acertada a classificação que despreza elementos formais, 
para indicar quatro elementos apenas: competência internacional do juízo; 
possibilidade de contraditório prévio; ausência de coisa julgada; e não ofensa à ordem 
pública. 
O conteúdo do conceito jurídico indeterminado ordem pública é tão incerto que 
merece tratados próprios só para disso cuidar. Quando se fala em ordem pública no 
Direito Internacional Privado surge logo a ideia de algo que impõe um limite, um 
obstáculo à aplicação do direito estrangeiro. De fato, a regra de que todo Estado, em 
certas circunstâncias, permite a aplicação do direito estrangeiro em litígio que tem lugar 
em seu território encontra exceção justamente quando essa aplicação representa 
ofensa à sua ordem pública. 
É extremamente difícil conceituar ordem pública. As linhas gerais do instituto são 
conhecidas, mas precisar seu âmbito de incidência é tarefa árdua. Em tese, a ordem 
pública é algo que se afere com base na formação profissional e pessoal dos aplicadores 
da norma jurídica, a partir de um conjunto de princípios que compõem o alicerce sócio-
 
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político-jurídico de uma sociedade. Não é com base em ilações que se afere o conteúdo 
do instituto. Sua compreensão não pode estar focada em avaliação abstrata. 
Consequência dessa compreensão é a ideia de que a ordem pública não pode 
mesmo ter seu conteúdo fixado em qualquer norma escrita, ainda que de ordem 
constitucional. A variabilidade do conteúdo da ordem pública impõe aos ordenamentos 
jurídicos a adoção de uma cláusula aberta, a ser preenchida em cada momento histórico, 
por cada magistrado, caso a caso. Não é por outro motivo que os legisladores se 
esquivam da tarefa de definir o conteúdo do instituto. A prudência e a preservação de 
vigência das normas jurídicas assim recomendam. 
Para definir concretamente o conteúdo da ordem pública, cabe ao magistrado 
revelar não uma percepção individual sobre o que pensa quanto ao conceito naquele 
dado momento histórico, mas uma interpretação que traduza o entendimento médio 
do povo sobre a relação entre ordem pública e a específica lei ou decisão estrangeira 
que se pretende cumprir no território brasileiro. 
Postos tais fundamentos, será adotada aqui a noção de ordem pública como o 
conjunto de concepções essenciais do foro (VALLADÃO, p. 496) fundadas nos conceitos 
de justiça, moral, religião, economia e política que orientam o ordenamento para a 
formação de seus princípios e garantias fundamentais. 
 
A Extradição como medida de cooperação 
 
Entre os mecanismos existentes de cooperação jurídica internacional em matéria 
penal, o instituto da extradição mostra-se como uma ferramenta bem eficaz, haja vista 
ser um ato pelo qual um Estado entrega um indivíduo acusado de fato delituoso ou já 
condenado como criminoso, à justiça de outro Estado, competente para julgá-lo e puni-
lo. A extradição é, seguramente, o principal mecanismo da chamada cooperação 
internacional na repressão penal, fazendo com que as fronteiras políticas do Estado não 
funcionem como fator de impunidade e de não-reparação da lesão perpetrada no locus 
commissi delicti. (GUEIROS, 2013) 
 
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O Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional 
(DRCI), após o Decreto n° 8.668, de 11 de fevereiro de 2016, passou a exercer a função 
de autoridade central para o trâmite dos pedidos de cooperação jurídica internacional, 
inclusive em assuntos de extradição, de transferências de pessoas condenadas e de 
execução de penas, coordenando, opinando e instruindo os pedidos ativos e passivos. 
Os procedimentos a serem adotados em relação aos pedidos de extradição, bem 
como à prisão para fins de extradição estão estabelecidos na Portaria nº 217, de 27 de 
fevereiro de 2018, do Ministério da Justiça. 
 
Princípios da extradição 
 
O Princípio da Especialidade dispõe que o extraditando não poderá ser 
processado e/ou julgado por crimes que não embasaram o pedido de cooperação e que 
tenham sido cometidos antes de sua extradição, podendo o Estado requerente solicitar 
ao Estado requerido a extensão ou ampliação da extradição ou extradição supletiva. 
Outro princípio basilar da extradição é o da Dupla Tipicidade, também conhecido 
como Princípio da Identidade ou da Dupla Incriminação do Fato ou Incriminação 
Recíproca. Sob a égide deste, impõe-se que somente seja concedida uma extradição 
para um fato típico e antijurídico, assim considerado tanto no país requerente quanto 
no requerido. 
Outro princípio a ser observado é o do Non Bis In Idem, por meio do qual não 
será concedida a extradição quando já existir sentença transitada em julgado pelo 
mesmo fato em que se baseia o pedido de extradição. Destaque-se, aqui, o termo “fato”, 
já que poderá ser solicitada a extradição de um indivíduo por um determinado crime em 
relação ao qual já tenha sido condenado, mas não em relação ao mesmo fato delitivo. 
 
Classificações 
 
 
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A extradição pode ser classificada em:1. Instrutória 
O indivíduo será entregue ao país requerente para responder a processos-crime. 
2. Executória 
O indivíduo será entregue ao país requerente para cumprimento de pena. 
3. Voluntária 
O indivíduo reclamado concorda em ser entregue de imediato ao Estado 
requerente, após informado sobre todos os seus direitos e assistido juridicamente, sem 
prejuízo da análise legal da autoridade competente sobre o caso. 
 
Espécies 
 
1. Ativa 
No Brasil, a extradição é ativa quando o Governo brasileiro solicita a entrega de 
uma pessoa procurada pela Justiça brasileira a outro país, para fins de julgamento ou 
cumprimento de pena. 
2. Passiva 
É considerada passiva quando a pessoa objeto de processo penal em outro país 
encontra-se no Brasil e o Estado estrangeiro requer sua entrega para instrução de 
processo penal ou execução de sentença, ainda que não transitada em julgado. 
 
Procedimentos dos pedidos de extradição ativa: 
 
Havendo notícia da localização, no exterior, de procurado da Justiça brasileira, o 
Poder Judiciário brasileiro encaminhará o pedido formal de extradição, acompanhado 
dos documentos formalizadores, ao DRCI, que analisará a admissibilidade do pleito, a 
 
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fim de verificar se o pedido está de acordo com o estabelecido no Acordo e/ou legislação 
interna. 
Estando em conformidade com o Acordo e/ou legislação interna, o pedido de 
extradição será encaminhado ao outro país, através do Ministério das Relações 
Exteriores, ou diretamente da Autoridade Central do respectivo país, quando permitido 
em Acordo. 
Antes da formalização do pedido de extradição, poderá o Poder Judiciário 
solicitar a prisão preventiva para fins de extradição do procurado, visando evitar sua 
eventual fuga. Para tanto, o pedido deverá ser acompanhado dos documentos previstos 
na legislação respectiva. Havendo a efetivação da prisão do extraditando, o Brasil será 
notificado a apresentar os documentos justificativos e formalizadores da extradição no 
prazo estipulado no Acordo ou, na falta deste, conforme legislação interna do Estado 
requerido, sob pena de concessão de liberdade à pessoa requerida. Uma vez em 
liberdade, novo pedido de prisão preventiva só será aceito por ocasião do 
encaminhamento de todos os documentos necessários à análise e decisão do pedido de 
extradição. 
Sendo deferido o pedido de extradição, o Estado requerido comunicará a decisão 
ao Brasil, com urgência, para que as autoridades brasileiras retirem o extraditando do 
território estrangeiro no prazo previsto no Acordo, ou na data estipulada pela legislação 
interna do país requerido. 
A entrega do extraditando poderá ser diferida se este estiver sujeito a processo 
criminal, ou estiver cumprindo pena por crime cometido no território do Estado 
requerido. Quando o extraditando estiver apto a ser entregue, o Estado requerido 
comunicará ao Brasil para sua retirada no prazo estipulado. 
Se denegado o pedido de extradição, total ou parcialmente, os fundamentos do 
indeferimento deverão ser comunicados imediatamente ao Brasil e novo pedido não 
poderá ser apresentado ao Estado requerido embasado nos mesmos fatos imputados 
ao extraditando. 
 
 
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Procedimentos dos pedidos de extradição passiva: 
 
Sobre o pedido de prisão preventiva para fins de extradição e deferimento do 
pedido formal de extradição, segue-se a mesma regra em relação à extradição ativa e 
conforme estabelecido na Lei 13.445/17 e Portaria nº 217/2018. 
O pedido de extradição passiva será apresentado pelo Estado requerente, 
diretamente, ou pela via diplomática, ao DRCI, que, após análise de admissibilidade do 
pleito, o transmitirá ao Supremo Tribunal Federal. Essa Corte realiza o controle da 
legalidade do pedido, verificando, por exemplo, se o fato imputado ao extraditando é 
punível na legislação de ambos Estados, se já era tipificado anteriormente a seu 
cometimento, se já foi extinta a punibilidade do delito praticado em qualquer dos 
Estados – requerente e requerido –, e se o crime é ou não de natureza política ou militar. 
No controle da legalidade, é verificado se a pessoa estará sujeita a uma pena 
inexistente ou não admitida no Brasil, sendo que, ainda assim, a extradição poderá ser 
deferida, ficando apenas condicionada a entrega à apresentação pelo Estado 
requerente, a depender do caso, de compromissos formais contidos no artigo 96, da Lei 
 
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13.445/171. 2. Entre os compromissos exigidos pela lei em seu art. 96, está a obrigação 
de que penas corporais, perpétuas ou de morte sejam comutadas em penas privativas 
de liberdade, respeitado o limite máximo de 30 anos. Todavia, a partir de 24 de janeiro 
de 2020, quando entrou em vigor a Lei 13.964/19, vem se construindo novo 
 
1 
Art. 96. Não será efetivada a entrega do extraditando sem que o Estado requerente 
assuma o compromisso de: 
I - não submeter o extraditando a prisão ou processo por fato anterior ao pedido de 
extradição; 
II - computar o tempo da prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição; 
III - comutar a pena corporal, perpétua ou de morte em pena privativa de liberdade, 
respeitado o limite máximo de cumprimento de 30 (trinta) anos; 
IV - não entregar o extraditando, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o 
reclame; 
V - não considerar qualquer motivo político para agravar a pena; e 
VI - não submeter o extraditando a tortura ou a outros tratamentos ou penas cruéis, 
desumanos ou degradantes. 
 
2 
Art. 96. Não será efetivada a entrega do extraditando sem que o Estado requerente 
assuma o compromisso de: 
I - não submeter o extraditando a prisão ou processo por fato anterior ao pedido de 
extradição; 
II - computar o tempo da prisão que, no Brasil, foi imposta por força da extradição; 
III - comutar a pena corporal, perpétua ou de morte em pena privativa de liberdade, 
respeitado o limite máximo de cumprimento de 30 (trinta) anos; 
IV - não entregar o extraditando, sem consentimento do Brasil, a outro Estado que o 
reclame; 
V - não considerar qualquer motivo político para agravar a pena; e 
VI - não submeter o extraditando a tortura ou a outros tratamentos ou penas cruéis, 
desumanos ou degradantes. 
 
 
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entendimento jurisprudencial no sentido de que o limite de 30 (trinta) anos se aplica 
somente a fatos típicos ocorridos antes daquela data, haja vista que a referida lei 
ampliou a pena máxima no Brasil para 40 anos, o que alcançaria pedidos de extradição 
em decorrência de fatos ocorridos posteriormente à sua promulgação. 
Da decisão do Supremo Tribunal Federal não cabe recurso, apenas embargos de 
declaração quando se verificar omissão, obscuridade ou contradição. 
Sobre o pedido de prisão preventiva para fins de extradição e deferimento do 
pedido formal de extradição, segue-se a mesma regra em relação à extradição ativa e 
conforme estabelecido na Lei 13.445/17 e Portaria nº 217/2018. 
Sendo deferida a extradição pelo STF e autorizada pelo Ministério da Justiça, o 
país requerente terá um prazo, fixado em Acordo, para retirar o indivíduo do território 
nacional, caso contrário, o indivíduo deverá ser colocado em liberdade pelo Governo 
brasileiro. Na ausência de prazo definido por acordo ou tratado, de acordo com a Lei 
13.445/17 (Lei de Migração), “o Estado estrangeiro deverá formalizar o pedido de 
extradição no prazo de 60 (sessenta) dias, contado da data em que tiver sido cientificado 
da prisão do extraditando”, devendo ser o extraditandocolocado em liberdade depois 
de decorrido esse prazo sem a sua efetiva extradição. 
Caso o extraditando também possua pendências criminais no Brasil, a sua 
entrega ao Estado requerente ficará diferida até a conclusão do processo ou do 
cumprimento da pena. Entretanto, deve-se observar o disposto no artigo 95, da Lei 
13.445/17 (Lei de Migração), que dispõe que: “quando o extraditando estiver sendo processado 
ou tiver sido condenado, no Brasil, por crime punível com pena privativa de liberdade, a extradição será 
executada somente depois da conclusão do processo ou do cumprimento da pena, ressalvadas as 
hipóteses de liberação antecipada pelo Poder Judiciário e de determinação da transferência da pessoa 
condenada.””. Sendo assim, o Ministério da Justiça poderá, excepcionalmente, entregar o 
estrangeiro ao país requerente independentemente do processo em curso ou do 
cumprimento da pena já imposta, podendo ser submetido simultaneamente à 
extradição e à transferência de pessoa condenada. 
 
 
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Documentos justificativos e formalizadores dos pedidos de 
extradição: 
 
Os documentos necessários à instrução do pedido de extradição podem variar 
conforme o Acordo ou, ainda, segundo a legislação interna do país requerido, sendo 
geralmente os seguintes: 
 
1. Pedido formal de extradição; 
2. Cópia do mandado de prisão; 
3. Cópia dos textos legais aplicáveis ao crime, à pena, e à prescrição; 
4. Informações necessárias à identificação do indivíduo. 
5. Sentença condenatória, se houver; 
6. Cálculo da pena, se houver; 
7. Indícios de que a pessoa procurada esteja no país requerido. 
Salvo disposição diversa em Acordo, os documentos devem estar sempre 
acompanhados da respectiva tradução para o idioma do país requerido. A tradução não 
precisa ser juramentada, bastando sua autenticação pela autoridade judicial autora do 
pedido de extradição. 
Para pedido de prisão preventiva para fins de extradição, os documentos 
geralmente exigidos são: 
1. Pedido de prisão preventiva indicando que a pessoa procurada responde 
a processo ou é condenada por sentença judicial; 
2. Data e os atos que motivem o pedido, bem como o tempo e o local de 
sua ocorrência; 
3. Dados que permitam a identificação da pessoa cuja prisão se requer; 
4. Constar do pedido a intenção de se proceder a um pedido formal de 
extradição. 
 
 
 
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Base legal: 
 
Atualmente, a base legal que rege o procedimento extradicional no Brasil é 
composta pela Lei 13.445/2017, mais conhecida como Lei de Migração, a Portaria nº 
217/2018, o Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal em seus artigos 207 a 214, 
a Portaria 522 de 23 de maio de 2016 do Ministério da Justiça3, além de 28 acordos 
internacionais bilaterais e 6 multilaterais, já internalizados no ordenamento jurídico 
brasileiro por meio de seus respectivos Decretos4. Na ausência de acordo internacional, 
o princípio da reciprocidade é utilizado. 
 
 
3 http://justica.gov.br/sua-protecao/lavagem-de-dinheiro/institucional-2/legislacao/portaria-no-
522-de-3-de-maio-de-2016 
4 http://justica.gov.br/sua-protecao/cooperacao-internacional/extradicao/acordos-de-extradicao-
1/acordos-de-extradicao

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