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© 2022 by Paco Editorial Revisão: Marcia Santos Capa: Matheus de Alexandro Diagramação: Larissa Codogno Edição em Versão Impressa: 2022 Edição em Versão Digital: 2022 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) A368a Alencar, Evandro Luan de Mattos Uma abordagem bioética sobre os direitos reprodutivos/ Evandro Luan de Mattos Alencar - 1. ed. - eBook - Jundiaí, SP: Paco Editorial, 2022. Recurso digital Formato: ePub Requisitos do sistema: Multiplataforma ISBN 978-65-8647-642-2 1. Biologia 2. Genética 3. Bioética 4. Direitos Reprodutivos I. Título. CDD: 571.8 Livia Dias Vaz – Bibliotecária – CRB – 1681352 Conselho Editorial Profa. Dra. Andrea Domingues (UNIVAS/MG) (Lattes) Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi (FATEC-SP) (Lattes) Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna (UNESP/ASSIS/SP) (Lattes) Prof. Dr. Carlos Bauer (UNINOVE/SP) (Lattes) Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha (UFRGS/RS) (Lattes) Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa (FURG/RS) (Lattes) Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes (UNISO/SP) (Lattes) Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira (UNICAMP/SP) (Lattes) Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins (UNICENTRO-PR) (Lattes) Prof. Dr. Romualdo Dias (UNESP/RIO CLARO/SP) (Lattes) Profa. Dra. Thelma Lessa (UFSCAR/SP) (Lattes) Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt (UNIPAMPA/RS) (Lattes) Prof. Dr. Eraldo Leme Batista (UNIOESTE-PR) (Lattes) Prof. Dr. Antonio Carlos Giuliani (UNIMEP-Piracicaba-SP) (Lattes) Av. Dr. Carlos Salles Bloch, 658 - Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 Telefone: 11.4521.6315 atendimento@editorialpaco.com.br pacoeditorial.com.br http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4771296D1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=S219507 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=N133032 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4784829U9 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4703614A6 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4700965H9 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=P468677 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4707925D1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4704828P6 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4780765Z3 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4763549E2 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4737948P1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4759425A1 http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4730996E0 mailto:atendimento@editorialpaco.com.br%0D?subject=Livro_Teoria_da_Hist%C3%B3ria_-_Paco_Editorial http://www.editorialpaco.com.br/ AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, pois sem ele nada é possível em nossas vidas. Sou grato também ao meu orientador, professor Raimundo Wilson Gama Raiol, pela sua humanidade, sensibilidade e paciência no auxílio do meu progresso intelectual no decorrer de toda minha vida acadêmica, a quem dedico este livro em homenagem à sua trajetória profissional e vida. Registro também o apreço pelas considerações precisas realizadas pelo professor José Cláudio Monteiro de Brito Filho e pelas professoras Marlene Freitas e Valena Jacob, que colaborram para o amadurecimento deste projeto. Sou grato à minha família, meu pai, minha mãe e meu irmão Evander, pelo apoio, carinho e suporte. Agradeço à minha amada Camille, pelo amor e parceria durante essa jornada, e aos meus amigos Renã e Romário, pela amizade e companheirismo durante o curso de mestrado. Meu muito obrigado a todos que me apoiam e que torceram pelo êxito deste trabalho. Evandro Alencar SUMÁRIO ROSTO AGRADECIMENTOS NOTA DO AUTOR APRESENTAÇÃO PREFÁCIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1: BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA 1.1. A gênese da bioética 1.2. Implicações práticas do contexto biotecnocientífico e paradoxos biopolíticos 1.3. Avanços da ciência: bioética e os direitos humanos 1.4. A bioética protetiva e as pessoas com deficiência 1.5. A pessoa com deficiência e o paradigma de Direitos Humanos CAPÍTULO 2: DIREITOS REPRODUTIVOS: ENTRE O UTILITARISMO MÉDICO E O RECONHECIMENTO DA VIDA COM DEFICIÊNCIA 2.1. Medicina reprodutiva e a expansão dos direitos reprodutivos 2.2. Saúde reprodutiva e genética: Um novo leque de possibilidades 2.3. Bioética e conflitos sobre o melhoramento humano 2.4. A bioética utilitarista e a vida com deficiência 2.5. Reconhecimento e dignidade das pessoas com deficiência CAPÍTULO 3: CONTROLE POPULACIONAL, NEOGENIA E DISCRIMINAÇÃO 3.1. Controle populacional e riscos: eugenia e neoeugenia 3.2. Medicina preditiva e reprodutiva: práticas e procedimentos 3.2.1. Esterilização e aconselhamento genético 3.2.2. Reprodução assistida e manipulação genética 3.2.3. Diagnóstico genético pré-natal e abortamento eugênico 3.3. Institucionalização, poder e discriminação CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS SOBRE O AUTOR NOTA DO AUTOR A presente obra que tem por objetivo analisar, sob o enfoque da bioética e dos direitos humanos, o atual panorama biotecnológico e suas repercussões sociais, políticas e jurídicas relacionadas aos direitos reprodutivos, em especial às questões conexas aos direitos das pessoas com deficiência. Realizei a pesquisa com o intuito de popularizar discussões pautadas na bioética e com isso demonstrar a importância da perspectiva crítica da disciplina para promover qualidade em discussões rodeadas de polêmicas morais e políticas. Objetivei ainda esclarecer aos leitores sobre a questão do capacitismo, visão que estigmatiza e marginaliza as pessoas com deficiência, de modo a possibilitar uma reflexão de como esse preconceito está naturalizado em nossa sociedade, a qual ainda percebe, trata e reproduz a deficiência como um problema individual e com muitos estereótipos de doença. Essa percepção medicalizada e excludente urge ser superada, uma vez que são os arranjos sociais os maiores causadores de situações de discriminação e preconceito, muitas vezes, ocasionados pela falta de informação e preparo para um convívio inclusivo com as pessoas com deficiência. Por fim, a reflexão oportunizada por esse livro também está ligada à maneira como nos relacionamos com o avanço da tecnologia, ao modo com o qual fazemos uso dela e a quais fins a utilizamos. Desse modo, desejo que o presente trabalho seja uma importante contribuição à popularização do debate bioético e à proteção às pessoas com deficiência no Brasil. Belém/PA, abril de 2020 Evandro Luan de Mattos Alencar APRESENTAÇÃO Com muita honra, apresento a obra que resultou das pesquisas efetivadas pelo jovem mestre Evandro Luan Mattos de Alencar, das quais se frutificou a dissertação que lhe proporcionou a referida titularidade acadêmica. Ele é um exemplo lídimo de quem sabe aproveitar seu talento e sua juventude para entregar à sociedade uma produção intelectual de elevada qualidade, não só pelo seu perfil redacional, mas também pela abordagem profunda acerca da problemática enfrentada pelo grupo vulnerável corporificado pelas pessoas com deficiência, assim categorizado pelas ofensas aos direitos humanos de quem se ressente dessa singularidade e que, por essa condição, sofre as consequências de muitos preconceitos, estigmas, estereótipos, discriminação e exclusão social. Expressos os conhecimentos do autor acerca dos direitos e da fragilidade social a que se submete esse grupo vulnerável, assim o fazendo mediante linguagem fluente e bem condutora da argúcia do leitor, nota-se que a explanação que empreende acerca dos direitos reprodutivos e das pessoas com deficiência constitui uma pauta catalisadora de muitos debates, no rumo de uma sociedade mais inclusiva. Recomenda-se, pela excelência com que o tema ganha profundidade no âmago da obra ora apresentada, que se torne leitura indispensável por parte de todos e todas que buscam esclarecimentos sobre o polêmico e, ao mesmo tempo, instigante assunto relacionado compreocupação com a questão da violação de direitos humanos ainda é a prática de experimentos científicos em seres humanos. É uma atividade que se deslocou dos procedimentos controlados da medicina acadêmica para o atendimento médico cotidiano, em razão das pessoas estarem mais dispostas a assumir os riscos do desenvolvimento biotecnológico e, especialmente, pela genética69. Em síntese, a relação dicotômica liberdade de investigação versus limites à investigação retrata a tensão entre direitos fundamentais. De um lado, o exercício de um direito que, ao resguardar a capacidade criativa do homem, assegura o progresso da ciência, voltado ao bem-estar individual e social, direito esse que pressupõe a experimentação com seres humanos, sem a qual a medicina não poderia avançar na luta contra enfermidades e na busca do alívio do sofrimento. De outro, os direitos à vida e à integridade corporal, bem como o respeito à dignidade humana, que podem ser violados no trabalho de investigação ou experimentação70. Ocorre que as pessoas passaram a depositar a esperança na cura de suas condições e insatisfações nas intervenções médicas e tecnológicas, de modo que almejam a solução dos seus problemas em procedimentos e medicamentos ainda não seguros para o uso humano. É comum, frente a situações de risco de saúde ou de conflitos sociais, a exploração desse perfil de paciente por segmentos do mercado de saúde, como laboratórios, cientistas, médicos e indústrias. Em geral, a legitimação da experimentação em seres humanos ocorre em um cenário marcado pela instabilidade individual, como aspectos emocionais do paciente em desespero frente às doenças graves, como também pela instabilidade do espaço social, por motivo de guerras civis, turbulências e vulnerabilidades pela pobreza, especialmente pela falta de regulação nesses espaços. Por isso, o movimento do capital global e a indústria médico- farmacêutica têm investido em aproximar-se de comunidades mais vulneráveis em busca de mercadorias científicas, onde pessoas enfrentam carência de tratamentos e crise nos serviços de saúde, para que se submetam a procedimentos nunca antes testados em seres humanos, o que certamente oferece riscos71. Nesse sentido, é possível afirmar que o atual cenário de objetificação da vida humana pela ciência acabou por relativizar direitos fundamentais consagrados relacionados à proteção da vida, da saúde, do patrimônio genético e do meio ambiente em prol da ciência. Certamente, a conjuntura tecnicista aliada com as pretensões políticas e econômicas fragilizaram e violaram um extensivo rol de direitos humanos72. Muitos relatos apontam que é por esses meios que, historicamente, a ciência tem atuado em muitos casos clínicos. Por exemplo, nas experimentações de erradicação da malária em Cuba e nas Ilhas Maurício, na década de 1960, como nos ensaios ligados à vacina contra a AIDS, os quais aliam investimentos governamentais com serviços de saúde e pesquisa experimental73. Outros registros apontam a prática da experimentação humana e suas implicações diretas com violações de direitos humanos, como no caso do estudo da sífilis de Tuskegee ocorrido em 1932, conforme descrito abaixo: O estudo foi conduzido pelo serviço de saúde pública dos EUA, para examinar a história natural da sífilis entre 600 meeiros de algodão, negros e pobres, em Macon County, Alabama; 399 tinham contraído sífilis antes do julgamento e 201 não tinham a doença. Os indivíduos receberam atendimento médico, refeições e seguro funeral gratuitos para participar no estudo. No entanto, os indivíduos não deram consentimento informado; eles nunca foram informados de que tinham sífilis, e tiveram acesso negado à penicilina quando esta se tornou amplamente disponível em meados da década de 194074. Cita-se, ainda, o caso da experiência de inoculação do vírus da sífilis na Guatemala, com iniciativa do governo local e com recursos do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, em 1948, como relata a literatura médica especializada: Os pesquisadores pagavam prostitutas infectadas com sífilis para terem relações sexuais com prisioneiros. Além disso, soldados, prostitutas, prisioneiros e pacientes com transtornos mentais foram infectados por inoculação direta. Todos os sujeitos foram infectados sem seu consentimento informado. No total, foi relatado que 32 experimentos com gonorreia, 17 experimentos com sífilis e um experimento com cancro mole foram conduzidos, envolvendo 1.308 pessoas, incluindo profissionais do sexo, soldados, prisioneiros e pacientes psiquiátricos. As idades dos sujeitos variavam entre 10 e 72 anos, com média na casa dos 20 anos. Desse grupo, apenas metade (678 indivíduos) podem ser documentados como tendo recebido algum tipo de tratamento, mas o tratamento completo foi documentado para apenas 26% dos sujeitos75. Além disso, nesses casos era muito comum que somente os grandes atores políticos desse cenário, como o interesse econômico, a indústria médico-farmacêutica, os cientistas e sua prática, identificassem em suas regulações legais a linha divisória entre o que é aceitável ou quais termos ofendem ou não os direitos humanos desses pacientes76. A busca pela legitimação de algumas práticas identificadas como abusos da ciência e contrárias à dignidade humana gera um contexto de desconfiança em relação à ciência e à pesquisa, bem como de vigilância contra os deslizes sempre possíveis de serem detectados em experimentos e cenários similares77. Frente a esse problema, com a popularização da bioética, começou-se a exigir da comunidade médica e científica que novos estudos científicos fossem conduzidos de modo que protegessem, o máximo possível, os direitos humanos e o bem-estar das pessoas. Com intuito de regulamentar melhor esses procedimentos, a bioética aprimorou conceitos, como autonomia do paciente, criou padrões de consentimento informado, critérios objetivos para avaliar riscos e benefícios, bem como obrigações para oferta de melhor tratamento conhecido78. Decerto, admite-se que existe uma grande dificuldade para a medicina e para a ciência estabelecer seus limites frente à necessidade de tomar decisões que tragam resultados benéficos à população em geral ou apresentem danos potenciais às cobaias em estudos clínicos de experimentações, mas é importante estabelecer medidas que representem transparências e participação da comunidade para apresentar o plano de investigação ético e compatível com uma política de direitos humanos79. Nesse cenário, o papel da bioética se faz muito importante frente às violações de direitos humanos pela ciência, pois possibilita regular a prática de atividades de experimentações científicas, bem como identificar, por meio de seus conceitos e princípios, situações de grave ameaça à dignidade da pessoa humana e o desrespeito aos direitos do paciente. Por essa razão, na tentativa de estabelecer limites e diretrizes comuns à pesquisa científica e às questões éticas humanas inalienáveis, a comunidade internacional apresenta documentos internacionais que declaram direitos, deveres, garantias, práticas e procedimentos que devem ser adotados para que ocorra o respeito aos ditames da bioética e da dignidade da pessoa humana. A aliança entre a bioética e os direitos humanos faz germinar o campo do biodireito, a partir de um processo complexo que se destaca pela pluralidade de fontes jurídicas e a diversidades de instituições criadoras de normas80. Desse modo, a normatização de questões da ciência, da medicina e de garantias aos seus sujeitos de direito evidencia um objetivo estratégico para reestruturar os poderes na esfera médica e científica com intuito de frear os abusos da ciência. Nesse cenário, marcado pela criação de diversificados instrumentos normativos que tratam de regular aspectos dos direitos humanos, da bioética e do avanço da ciência, percebe-se uma ênfase na busca pelo reequilíbrio da relação médico-paciente, a quebra do monopólio normativo das instâncias profissionais e a valorização da bioética em sua dimensão política,tornando-se instrumento principal da promoção de importantes debates na comunidade científica e proteção dos direitos humanos. Dentre os principais documentos normativos, destacam-se a Declaração de Helsinque, a Declaração sobre a Utilização do Progresso Científico e Tecnológico no Interesse da Paz e em Benefício da Humanidade, a Convenção sobre Direitos Humanos e Biomedicina, a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, dentre outros. A Declaração de Helsinque, em 1964, apresentou um conjunto de princípios éticos endereçados à pesquisa médica envolvendo sujeitos humanos, incluindo dados e materiais identificáveis, mas careceu em apresentar em seus dispositivos uma linguagem que abarque mais os conceitos de direitos humanos81. A Declaração sobre a Utilização do Progresso Científico e Tecnológico no Interesse da Paz e em Benefício da Humanidade, de 1975, apresenta os primeiros alertas que o progresso científico e tecnológico, ao mesmo tempo em que possibilita melhorar as condições de vida das pessoas, pode, em certos casos, ocasionar problemas sociais, bem como ameaçar os direitos humanos e as liberdades fundamentais do indivíduo82. Mais adiante, a Convenção sobre Direitos Humanos e Biomedicina, adotada em 19 de novembro de 1996 pelo Conselho de Ministros do Conselho da Europa, apresenta, entre outras considerações importantes, a advertência de que o mau uso da biologia e da medicina pode conduzir à prática de atos que ponham em risco a dignidade humana83. A Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e da Dignidade do Ser Humano face às Aplicações da Biologia e da Medicina, que foi produzida no âmbito do Conselho da Europa, adotada e aberta a assinatura em Oviedo, Espanha, em 1997, foi assinada por 35 países, e ratificada por 29, se apresentou como importante documento que pretende proteger o ser humano na sua dignidade e na sua identidade e garantir a toda a pessoa, sem discriminação, o respeito pela sua integridade e pelos seus outros direitos e liberdades fundamentais face às aplicações da biologia e da medicina. E, mais recentemente, a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, de 2005, tratou de apreciar uma linguagem mais ampla com uma atenção social à necessidade de proteção aos direitos humanos frente aos interesses e avanços do mercado científico, demonstrando especial preocupação com os grupos socialmente vulneráveis, no que tange à pesquisa e às disparidades socioeconômicas que causam impactos a esse segmento da população84. Nessa conjuntura biotecnológica, observa-se que os segmentos sociais mais vulneráveis, como pessoas pobres, com deficiência ou minorias, se deparam com maiores situações de riscos para uso de cobaias e de outros experimentos científicos em nome do progressismo tecnológico e da promessa de melhorias, uma vez que se encontram expostos também à ausência da prestação de serviços de saúde com qualidade. Dentre os grupos socialmente vulneráveis, o segmento das pessoas com deficiência historicamente se depara com situações de violações de direitos humanos, principalmente por ações desastrosas causadas pela medicina e pela prática da experimentação científica sem parâmetros éticos. Nesse cenário marcado pela grande vulnerabilidade desses sujeitos frente às intervenções médicas e inovações biotecnológicas, cumpre dar ênfase a uma vertente da bioética que busca dar embasamento e legitimidade para uma política de proteção que imponha barreiras éticas e regramentos frente aos interesses da ciência e de seus experimentos. 1.4. A bioética protetiva e as pessoas com deficiência A bioética protetiva tem obtido destaque no debate bioético atual, principalmente por oferecer instrumentos para avaliação de políticas públicas de saúde e interessantes aportes teóricos que possibilitam a análise de decisões no âmbito da ética científica e na identificação da moralidade dos avanços biotecnocientíficos. Essa corrente objetiva fortificar a crítica sobre as implicações morais das práticas sanitárias, do avanço tecnológico e da ciência, em especial a utilização das novas técnicas e sua oferta à coletividade em geral, sem violação dos direitos humanos e a concretização de discriminações. Ela parte de alguns pressupostos basilares para a sua fundação, que em síntese refletem: (a) a crença na necessidade de um compromisso governamental/estatal/comunitário de proteger todos os membros da sociedade diante de qualquer intervenção que não seja cientificamente estável; (b) a consciência da vulnerabilidade como uma condição humana intrínseca à sua existência; (c) a filosofia e a política proposta pelo convívio comunitário devem buscar garantir a proteção de seus cidadãos contra qualquer tipo de violência, pobreza e outras violações de direitos humanos85. Assim, se faz salutar aprofundar aspectos sobre a tríade fundadora da bioética de proteção baseada no compromisso comunitário com o vulnerado, a consciência da vulnerabilidade como condição humana e a segurança contra violações de direitos humanos, em especial nas práticas sanitárias. Sobre a questão do compromisso com a proteção de membros vulnerados da sociedade, já é um consenso que a proteção social exercida pelo Estado é necessária também em relação às questões higiênicas e epidemiológicas da coletividade. Essa ética de proteção é fundada em diretrizes de responsabilidade, convivência e solidariedade dentro de uma comunidade moralmente ordenada86. A ética da proteção, nessa perspectiva, é uma proposta que traz a ideia de proteção contra assimetrias, de igualação dos pólos desiguais, em que o polo necessitado de apoio conta com a solidariedade do outro, portador de poder e energia para repartir e assumir a responsabilidade de cuidar do próximo87. O princípio da proteção, por sua vez, apresenta uma correlação com a ética da responsabilidade social estatal para abordar e tratar de problemas morais oriundos das políticas sanitárias, com especial atenção às populações menos abastadas88. A dimensão da proteção adotada na bioética protetiva pode ser compreendida como a atenção estatal ou comunitária ao acesso a recursos e direitos moralmente entendidos como elementares para a sobrevivência da vida humana. Nesse sentido, afirma-se que: Assim, a proteção pode ser entendida como o resguardo ou cobertura de necessidades essenciais, ou seja, a proteção deve garantir que requerimentos moralmente legítimos sejam atendidos, de modo que toda pessoa necessitada possa estar em condições de conseguir outros bens, ou satisfazer outros interesses contidos em seus projetos de vida e que dependem da satisfação das necessidades básicas ou essenciais. Embora seja sempre difícil estabelecer, de forma objetiva e rigorosa, que necessidades essenciais seriam essas – haverá sempre um componente sociocultural em sua formulação e longas discussões sobre o que pode ou não ser considerado como essencial – é possível reconhecer razoavelmente requerimentos plausíveis, que se diferenciam de caprichos ou desejos individuais, que não podem ser exigidos à comunidade89. Percebe-se, portanto, que a perspectiva de proteção proposta pela bioética protetiva aplicada em questões de saúde é clara e objetiva ao evidenciar aquilo que deve ser protegido, quem é o agente que deverá proteger e para quem a proteção tem seu destinatário. Seu pressuposto parte de uma ética de compromisso de proteção fundada em uma compaixão laica, de perceber no outro a condição de desigual, que necessita de medidas efetivas para igualação, acesso a oportunidades, recursos, acolhimento e proteção frente às suas limitações. No mesmo sentido, complementa-se: [...] agir por compaixão laica é, na verdade, proteger o outro – especialmente em situações de desamparo, nas quais sua autonomia esteja muito limitada – dando-lhe condições para exercer um mínimo de autodeterminação em relação às (graves) decisões a serem tomadas. Esta é, precisamente, uma das proposições da bioética da proteção, que pode ser vista como o ato primordial e que, devidamente pensado, pode servircomo referencial teórico-prático, pois pretende resgatar aquele que é, provavelmente, o significado originário da palavra grega ethos, que tem justamente o sentido de “amparo”, “guarita” e “abrigo”; em suma, de proteção90. Esse compromisso de proteção pode ser expandido e aplicado nas relações interpessoais, como na relação paciente-médico, entre Estados e cidadãos, entre gestores de políticas e destinatários, e, por fim, na relação do homem com os demais seres sencientes do planeta, fato que legitima a existência de políticas de ampla proteção ambiental91. De modo geral, o princípio da proteção busca oferecer aos seres humanos em situação de desigualdade, de vulnerabilidade, de limitações naturais ou em relação a terceiros, medidas compensatórias, propositivas, a fim de oferecer ao contexto social uma política de efetiva justiça. Em atenção ao reconhecimento da vulnerabilidade como característica inerente da condição humana, percebe-se que a maior preocupação que a bioética de proteção apresenta, na sua particularidade, se relaciona com as repercussões das ações médico-científicas em atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente com temas como a restrição de acesso à determinadas tecnologias, a distribuição dos recursos da saúde pública, bem como a submissão dessas pessoas à situação de instabilidade e violação de direitos humanos. A vulnerabilidade é igual para todos. A resposta social tem sido a busca por reduzir os níveis de vulnerabilidade mediante algumas medidas de proteção básicas, as quais recebem os nomes de direitos humanos. A vulnerabilidade manifesta-se quando um ser humano sofre algum tipo de incapacidade ou está em condição de suscetibilidade, e, por isso, converte-se à condição de vulnerado.92 Nesse sentido, a vulnerabilidade como condição humana universal apresenta sentido substantivo, é irredutível e inalienável, pois exprime o modo de ser do homem em sua humanidade, o que faz necessário exigir uma resposta responsável e solidária de cada um com o outro e instaura um dever universal de ação humana para com o próximo93. Assim, a reflexão bioética da vulnerabilidade como condição adjetiva perpassa pela identificação de grupos populacionais particulares que apresentam necessidades de serem protegidos, que deve ocorrer mediante o reforço de sua perspectiva de autonomia e não só sob o viés do protecionismo paternalista, de modo a promover a autonomia desses grupos e reforçar o seu empoderamento94. Desse modo, Maria Patrão Neves complementa: Em síntese, a noção de vulnerabilidade é introduzida e persiste no vocabulário bioético numa função adjetivante, como uma característica, particular e relativa, contingente e provisória, de utilização restrita ao plano da experimentação humana, tornando-se cada vez mais frequente na constatação de uma realidade que se pretende ultrapassar ou mesmo suprimir por meio da atribuição de um poder crescente aos vulneráveis95. Por isso, a noção substantiva e adjetiva da vulnerabilidade e seu reconhecimento como condição universal humana na perspectiva bioética é relacionada em inúmeros documentos internacionais e regulamentos éticos de viés médico e científico. Essa confluência pode ser identificada nas Diretrizes Éticas para Pesquisa Biomédica com Seres Humanos, na Declaração de Helsinque, na Declaração de Barcelona, na Declaração Universal do Genoma Humano e Direitos Humanos, na Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos, dentre outros documentos. Destaca-se que é na Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos que se expressa a vulnerabilidade com maior reconhecimento de sua mais ampla e complexa constituição na perspectiva normativa, pois o documento internacional enuncia a obrigatoriedade de atenção com a vulnerabilidade humana, integridade pessoal, a atenção aos grupos socialmente vulneráveis e outros aspectos. Por essa razão, cita-se seu trecho abaixo: Artigo 8º – Respeito pela vulnerabilidade humana e integridade pessoal: Na aplicação e no avanço dos conhecimentos científicos, da prática médica e das tecnologias que lhes estão associadas, deve ser tomada em consideração a vulnerabilidade humana. Os indivíduos e grupos particularmente vulneráveis devem ser protegidos, e deve ser respeitada a integridade pessoal dos indivíduos em causa96. O reconhecimento da dimensão da vulnerabilidade como um princípio se apresenta como importante expressão no campo da bioética. A presença difusa do princípio da vulnerabilidade em inúmeros documentos internacionais concede a esse axioma referências normativas ao seu sentido axiológico, o que serve de diretriz para condutas práticas aplicadas à vida e refletem na atenção especial do ser humano vulnerado e suas necessidades específicas. Com efeito, a qualificação de pessoas e populações como vulneráveis impõe a obrigatoriedade ética da sua defesa e proteção, para que não sejam feridas, maltratadas, abusadas, dentre de um imperativo que exige também o respeito às pessoas, o reconhecimento de sua autonomia e de proteção àqueles que a tem diminuída97. O vulnerado, portanto, é aquele que precisa de ações de proteção terapêutica e é destinatário do dever de proteção social, o qual é exercido por instituições e práticas formuladas para atenuar essa desigualdade e situação de desamparo em que está submetido esse sujeito vulnerado98. Ademais, insta apresentar aspectos sobre a perspectiva de segurança contra violações de direitos humanos, em especial nas práticas ético-médicas que dão fundamento à bioética de proteção. Para isso, conceber-se-á a percepção dos axiomas de prevenção e precaução como instrumentos para diminuição de riscos, preservação de segurança e proteção à saúde, em especial dos socialmente vulnerados. A proposta de segurança da bioética de proteção se baseia, principalmente, nos princípios da prevenção e precaução, os quais foram muito popularizados em debates atuais que envolvem direito ambiental, direito do consumidor e outras questões de liberdade públicas. Entretanto, os princípios da prevenção e da precaução têm seu nascimento na reflexão da macrobioética e obtêm especial atenção na sua perspectiva protetiva, pois busca claramente a diminuição de riscos e incertezas ofertados pelas inovações da biotecnociência. Além disso, a atenção com a perspectiva da prevenção e a precaução de danos também é um debate inerente à filosofia de direitos humanos, pois, como se sabe, busca oferecer valores universalizáveis para a composição de condições existenciais à humanidade99. Os princípios da prevenção e da precaução são distinções conceituais relativamente novas, embora ambas busquem oferecer subsídios norteadores da ação científica. De modo geral, representam a busca da proteção contra o risco e a análise do potencial danoso oriundo de determinadas atividades. É a partir do reconhecimento de que há riscos certos e hipotéticos, que se distingue o princípio da prevenção e da precaução100. O primeiro é dirigido pela ciência e pela detenção de informações certas e precisas sobre o perigo e o risco fornecido pela atividade que revela situações de maior potencial lesivo que a controlada pelo segundo. Dessa maneira, ao distinguir os conceitos, esclarece-se que o princípio da precaução101 significa que diante de riscos graves e irreversíveis deve-se renunciar a agir sob o pretexto da incerteza científica102. Nesse sentido, afirma-se: O princípio de precaução é entendido como “uma concepção relativamente nova e norteadora da ação” diante de “riscos de danos graves e irreversíveis”, representados, por exemplo, pelos problemas ecológicos globais. De acordo com esse princípio, não devemos “renunciar a agir” sob o “pretexto da incerteza científica”. Baseado, de fato, em concepção de racionalidade situada além da mera preocupação com a “eficácia técnica” e a “certeza científica”, é, porém, muitas vezes considerado um “princípio antiprogresso”103. O princípio da precaução trata de uma recomendação, em especial aos governos e à comunidade científica, para que a ausência degarantias científicas não justifique atrasos ou descaso com a adoção de medidas protetivas e preventivas, de maneira a evitar riscos que podem provocar danos graves e irreversíveis à sociedade e ao meio ambiente, de modo geral104. O princípio da prevenção, por sua vez, está fundado em buscar orientar e prevenir a realização de eventos danosos e irreparáveis decorrentes de práticas e intervenções humanas, em circunstâncias que as ações têm consequências conhecidas e/ou previsíveis. O princípio da prevenção é agir antecipadamente com intuito de remediar e prevenir evento danoso previsível. É, portanto, aplicável ao risco conhecido identificado por estudos, pesquisas científicas e eventos registrados na literatura especializada105. Os axiomas da prevenção e da precaução estão claramente ligados ao ideário de riscos, que é aquilo que descreve uma situação de insegurança e exige uma conduta da prevenção, de busca por previsibilidade, como estudo de probabilidades e meios de controlar e prevenir a ocorrência de algo indesejável, bem como de criar sistemas seguros e cientificamente fundados para possibilitar a aferição de insegurança, de modo a evitar eventuais acidentes106. A bioética protetiva, no seu pressuposto que busca promoção de segurança, tem por escopo maior combate às incertezas geradas pelo avanço da biotecnociência e garantir a segurança do uso das técnicas e medicamentos oferecidos pelas inovações científicas. Essa promoção de segurança tem seu viés individual, por exemplo, na tentativa de oferecer garantias na submissão do paciente a determinado tratamento, bem como sua perspectiva coletiva, que trata de regular a venda e de controlar o uso de medicamentos, procedimentos médicos, experimentos e pesquisas com o intuito de diminuir os seus riscos. A busca por proteção na segurança está fundada no conceito de responsabilidade moral estatal para com a permissibilidade de procedimentos médicos, técnicas aplicadas à saúde e à regulação de medicamentos, muito realizada pelas atividades de agências reguladoras, auditorias de saúde, conselhos profissionais e comissões de bioética. A responsabilidade protetora acaba por ser responsável pela prevenção de epidemias, a melhoria do estilo de vida saudável e a garantia de qualidade de vida à população107. Quanto aos desafios propostos pelo avanço da biotecnociência, a bioética de proteção é assertiva em realizar críticas à moralidade dessas novas práticas e também ao oferecer uma saída pelo caminho da precaução e prevenção aos eventuais danos trazidos pelo uso dessas técnicas aos seres humanos, na dimensão individual e coletiva, além de defender um ideal descritivo e normativo para o uso racional e aplicação prescritiva dessas novas técnicas108. Como já evidenciado, os avanços científicos e as sugestões de suas novas práticas, quando desregradas, elegem como seus principais alvos os grupos mais vulnerabilizados, seja para a realização de testes, pesquisas e experimentos, bem como pela medicalização de seu comportamento, prática social ou até mesmo constituição biológica, como no caso das pessoas com deficiência. As pessoas com deficiência integram parte de um grupo vulnerado, e, por muitas vezes, esquecido na efetivação de políticas de proteção comunitária. Por isso, a garantia de cuidado é um direito fundamental para a manutenção da vida e da dignidade da pessoa humana. Por conseguinte, o cuidado e a proteção devem ser pensados como uma responsabilidade da sociedade, de modo que reconheça a deficiência como condição inerente à diversidade humana109. Logo, cumpre dissertar, pela natureza da obra, sobre o atual paradigma de proteção social ao citado grupo, bem como evidenciar a recente política de promoção de direitos humanos conquistada na dimensão internacional, questões que serão oportunamente visitadas no tópico a seguir. 1.5. A pessoa com deficiência e o paradigma de Direitos Humanos Compreender as pessoas com deficiência e sua relação com o atual paradigma de direitos humanos se faz pertinente, pois, como já salientado, é um grupo social frequentemente retratado em outros estudos acadêmicos com abordagens que exprimem um certo distanciamento, preconceito e pouca transversalidade. É preciso, portanto, um correto aprofundamento no conhecimento sobre esse grupo social. Por exemplo, na bioética, que ainda é uma área do saber em que predominam discussões com a visão hegemônica das áreas de saúde, comumente se retrata a pessoa com deficiência com uma visão medicalizada e que se confunde a sua condição de deficiência com doença. Essa visão é equivocada e precisa ser esclarecida com maior ênfase na literatura especializada, embora a crítica sociológica e ética tenha avançado de modo considerável nas discussões atuais sobre os estudos da deficiência. Importa salientar que a deficiência é uma categoria social esquecida em muitas análises acadêmicas, é um fenômeno que não se esgota na individualidade do sujeito e em análises sob o escopo da saúde, mas nas produções sociais e culturais que definem as variações corporais como fora dos padrões hegemônicos de funcionalidade e de corponormatividade110. É imperioso perceber as pessoas com deficiência a partir de uma visão mais moderna, que as reconheça como sujeitos de direitos e observe a construção histórica e social que influenciou na concepção atual de respeito à dignidade da pessoa com deficiência dentro da doutrina dos direitos humanos, de modo a corroborar uma percepção mais inclusiva sobre esse grupo. Preliminarmente, ressalta-se que as pessoas com deficiência sempre existiram no espaço social, sendo que cada cultura e momento histórico lhe reservaram tratamento específico, como a rejeição, o assistencialismo e a integração de maneira tímida, mediante sua reabilitação, readaptação e recentemente a busca pela inclusão social111. Desse modo, em breve síntese, rememora-se que na Grécia e Roma Antiga era comum a realização de práticas para eliminação de recém-nascidos com deficiência. Na Era Cristã, essas pessoas eram segregadas do convívio social em instituições religiosas. No contexto da Revolução Industrial, cresceu o número de formas de deficiência em razão do aumento de acidentes laborais. Na Era Científica, por sua vez, a estética de Francis Galton idealizou métodos eugênicos, os quais influenciaram a política higienista do nazismo112. Essa revisão histórica evidencia que esse segmento social sofreu tratamento, por muitas vezes, desumano e em desacordo com uma política de respeito e proteção mínima aos direitos humanos concebida na atualidade. Ocorre que as pessoas com deficiência foram historicamente segregadas e rejeitadas do convívio social devido ao preconceito e à discriminação, muitas vezes institucionalizadas pelo próprio Estado. Foi somente em um momento histórico mais recente que as sociedades ocidentais passaram a mudar a maneira pela qual se enxergava as pessoas com deficiências, devido ao aumento do número de pessoas com deficiências físicas, auditivas e visuais, em decorrência das guerras mundiais. Esse fato chamou a atenção para a necessidade de uma política de prevenção e de proteção da pessoa com deficiência, no âmbito econômico e social, o que exigiu do Estado uma nova posição de agente protetor113. Esse novo panorama culminou na consolidação de movimentos sociais de pessoas com deficiência pelo mundo com a politização da questão da deficiência e a justa reivindicação de igualdade e inclusão social114. Foi também momento oportuno para o florescimento dos questionamentos trazidos pela corrente sociológica dos estudos da deficiência, liderada por Collin Barnes, da Universidade de Leeds, teoria a qual permitiu um amplo debate sobre a questão da deficiência na sociedade115. O denominado disability studies caracterizava-se como uma área de investigação científica com compromisso político e social de denunciar injustiças e aspirar a uma sociedade mais igualitária e inclusiva116. Dessa maneira, as principais diretrizes dessa teoria sociológica consistem em modificar aconcepção de deficiência, a partir da compreensão desta como uma manifestação da diversidade humana, que nega o viés médico e critica o discurso de patologização da deficiência, proposto por alguns especialistas117. A corrente teórico-política do modelo social de deficiência provocou uma revolução no modelo tradicional e medicalizado, buscando dar uma nova compreensão da deficiência como um fenômeno social, ao afirmar que a origem da desigualdade ou desvantagem da vida com deficiência não está atrelada ao indivíduo, mas ligadas ao convívio em sociedade e ao problema da inclusão118. A superação do modelo médico pela percepção trazida pelo modelo social da deficiência provocou muitas discussões sobre a compreensão da deficiência até o surgimento de um consenso tecnicamente aceito. Esses dois modelos polarizam um embate de ideias sobre a concepção política e a construção social existente no que tange ao fenômeno da deficiência e, por conseguinte, das pessoas com deficiência e dos problemas que as cercam. Para explicar esses modelos, é necessário compreender que há, pelo menos, duas visões em relação ao fenômeno da deficiência. A primeira visão afirma que a deficiência é uma desvantagem natural e que as pessoas “inadequadas” devem se submeter a intervenções médicas para atenuar os seus sinais de “anormalidade”, enquanto a outra proposta concebe a deficiência como uma manifestação da diversidade humana119. Dessa maneira, o modelo social, concebido pela proposta de Collin Barnes, afirma que a maioria das causas de impedimentos, exclusão e preconceito tem sua raiz no âmbito social, econômico e cultural, e, por isso, a visão médico-individualista estrita inflama as circunstâncias de desigualdade socioeconômica120. O modelo médico compreende a deficiência como um problema isolado, personalíssimo e que somente cabe ao acometido pela deficiência se adequar à sociedade e suas construções culturais de estética e saúde. Em oposição ao primeiro, o modelo social adota o entendimento de que é a sociedade que precisa mudar a forma como se organiza para aceitar a existência da diversidade humana, bem como repensar suas construções políticas que criam experiências de exclusão quanto à deficiência121. Sobre a dualidade dos modelos médico e social, assinala-se: De modo geral, o modelo social da deficiência, em oposição ao paradigma biomédico, não se foca nas limitações funcionais oriundas de deficiência nem propõe a ideia tão comumente aceita da necessidade de reparação/reabilitação do corpo deficiente, mas sim a concebe como o resultado das interações pessoais, ambientais e sociais da pessoa com seu entorno. Nesse sentido, as experiências de opressão vivenciadas pelas pessoas com deficiência não estão na lesão corporal, mas na estrutura social incapaz de responder à diversidade, à variação corporal humana122. Os modelos supracitados apresentam a oposição antropológica entre fatores como natureza e cultura. O modelo social, em relação às opressões, discriminações e violações de direitos em geral, oferece muito mais instrumentos capazes de promover a percepção da questão da deficiência como um problema coletivo, pois eleva as pessoas com deficiência ao status de sujeitos de direitos e não os reduz a meros objetos de intervenções clínicas, de reabilitação ou assistencialismo123. Ainda assim, é difícil definir quem são as pessoas com deficiência, uma vez que existe a imprescindibilidade de criar um conceito inteligível e aberto que delimite e abranja a pluralidade de pessoas que compõem esse grupo social e descreva-os com precisão as suas necessidades. É necessário um conceito metamórfico e estritamente técnico. Pela Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes, aprovada pela ONU, em 1975, tem-se: O termo ‘pessoas deficientes’ refere-se a quaisquer pessoas incapazes de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal em decorrência de uma deficiência congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais124. Na Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, a qual foi incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro na forma do Decreto nº 3.956, de 08 de outubro de 2001, deficiência significa: [...] uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social125. O mais recente e mais inclusivo conceito que busca abarcar as pessoas com deficiência foi estabelecido na Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados na cidade de Nova York, em 30 de março de 2007, como resultantes de esforços desenvolvidos pela ONU. Nesse sentido, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência estabeleceu: Artigo 1 [...] – Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade com as demais pessoas126. À luz dessas construções conceituais, pode-se perceber que a terminologia atual busca englobar indivíduos que apresentam alguma limitação de sua capacidade física, motora e sensorial, que impeça ou prejudique o exercício de atividades biológicas, psicológicas e sociais. Além disso, importa frisar que as pessoas com deficiência não se restringem somente àquelas que, por decorrência de algum fator genético, limite suas atividades, mas também pode ser ampliada às que por algum motivo, como envelhecimento, doenças progressivas e acidentes, venham a adquirir certo grau de limitação. Outro aspecto que se apresenta importante questionar é o constructo social que dissemina, por meio de uma prática de etiquetamento, inúmeros estigmas da identidade da pessoa com deficiência, que resulta na criação de estereótipos e exclusão social, uma vez que, não raro, as pessoas com deficiência são tratadas e consideradas dependentes, inábeis, incapazes, isentas de deveres, necessitadas de cura, dignas de pena, vitimadas etc. Essa prática é reforçada pelo capacitismo, o qual se define como a discriminação e o preconceito social contra pessoas com qualquer tipo de deficiência127. Na visão capacitista, a ausência de deficiências é a normalidade, porém, a deficiência é vista como exceção, inaptidão, doença e penosidade. O capacitismo é a ideia de que o sujeito com deficiência é incompleto, incapaz e menos apto para executar qualquer função ou atividade, no trabalho ou no âmbito educacional, ou decidir sobre sua própria vida128. O termo capacitismo é a tradução do vocábulo inglês ableism ou disabilism129. A ideia é usada para descrever a discriminação e preconceitos contra pessoas com deficiência, decorrente da visão de que são inferiores às pessoas sem deficiência. Por isso, o capacitismo está para as pessoas com deficiência tal qual o racismo para as pessoas negras130. Nesse sentido, complementa Anahí Guedes Mello: No caso do capacitismo, ele alude a uma postura preconceituosa que hierarquiza as pessoas em função da adequação dos seus corpos à corponormatividade. É uma categoria que define a forma como as pessoas com deficiência são tratadas de modo generalizado como incapazes (incapazes de produzir, de trabalhar, de aprender, de amar, de cuidar, de sentir desejo e ser desejada, de ter relações sexuais etc.), aproximando as demandas dos movimentos de pessoas com deficiência a outras discriminações sociais, como o sexismo, o racismo e a homofobia. Essa postura advém de um julgamento moral que associa a capacidade unicamente à funcionalidade de estruturas corporais e se mobiliza para avaliar o que as pessoas com deficiência são capazes de ser e fazer para serem consideradas plenamente humanas131. O capacitismo é materializado por meio de atitudes preconceituosas que hierarquizam os sujeitos em função da condição de deficiência, ao considerarfatores como corpos, capacidade funcional e o ideal de beleza e estética predominante na sociedade. Portanto, é com base no capacitismo que se discriminam as pessoas com deficiência. Logo, o capacitismo aliado à visão medicalizada da deficiência é a fórmula que oferece riscos à popularização de opiniões e de práticas baseadas em preconceito e em falsas evidências científicas sobre a compreensão da pessoa com deficiência. Essa questão, quando inserida no contexto de inovações tecnológicas, pode resultar em violações de direitos humanos e violências legitimadas pela ciência e institucionalizadas pelo Estado contra as pessoas com deficiência. Por isso, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência surge como uma resposta às necessidades das comunidades internacionais frente ao considerável histórico de discriminação, exclusão e desumanização das pessoas com deficiência132. Assim, a comunidade jurídica internacional buscou, por meio de iniciativas como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD), antecipar-se a problemas causados por essa ampla possibilidade de uso de instrumentos médicos e científicos contra pessoas com deficiência, bem como busca oferecer a possibilidade de acesso aos benefícios da ciência. Como se percebe no excerto da CDPD, abaixo: Artigo 15 – 1. Nenhuma pessoa será submetida à tortura ou a tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. Em especial, nenhuma pessoa deverá ser sujeita a experimentos médicos ou científicos sem seu livre consentimento. [...] Artigo 25 – Os Estados Partes reconhecem que as pessoas com deficiência têm o direito de gozar do estado de saúde mais elevado possível, sem discriminação baseada na deficiência. Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso a serviços de saúde, incluindo os serviços de reabilitação, que levarão em conta as especificidades de gênero. Em especial, os Estados Partes: a) Oferecerão às pessoas com deficiência programas e atenção à saúde gratuitos ou a custos acessíveis da mesma variedade, qualidade e padrão que são oferecidos às demais pessoas, inclusive na área de saúde sexual e reprodutiva e de programas de saúde pública destinados à população em geral; [...] Artigo – 23 – 1. Os Estados Partes tomarão medidas efetivas e apropriadas para eliminar a discriminação contra pessoas com deficiência, em todos os aspectos relativos a casamento, família, paternidade e relacionamentos, em igualdade de condições com as demais pessoas, de modo a assegurar que: [...] b) Sejam reconhecidos os direitos das pessoas com deficiência de decidir livre e responsavelmente sobre o número de filhos e o espaçamento entre esses filhos e de ter acesso a informações adequadas à idade e a educação em matéria de reprodução e de planejamento familiar, bem como os meios necessários para exercer esses direitos.133 Importa registrar que a previsão da referida Convenção ligada estritamente aos direitos de livre consentimento, de acesso ao melhor tratamento e a proposta de eliminação de discriminação contra pessoas com deficiência em matéria de direitos reprodutivos é propositadamente elaborada com intuito de apresentar diretrizes aos integrantes da comunidade internacional e ao capital científico. Ressalta-se que é na matéria dos direitos reprodutivo que afloram a maior parte das atuais manifestações científicas e médicas que mitigam e violam direitos humanos de pessoas com deficiência. Por essa razão, o tema direito reprodutivo é o objeto que será explorado com maior profundidade no capítulo posterior, de modo a viabilizar a percepção de como muitas expressões do cientificismo estão arraigadas de preconceito, discriminação, capacitismo e posicionamentos utilitários e eugênicos. Notas 18. Pessini, Léo. Bioética: um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 27. 19. Pessini, Léo; Barchifontaine, Christian de Paul. Problemas Atuais da Bioética. 8. ed. São Paulo: Loyola, 2007, p. 38. 20. Alarcón, Pietro de Jesús Lora. Patrimônio Genético Humano e a sua proteção na Constituição Federal de 1988. São Paulo: Editora Método, 2004, p. 152. 21. Carvalho, Fernanda Maria Ferreira; Pessini, Léo; Campos Junior, Oswaldo. Reflexões sobre a bioética ambiental. O mundo da saúde. São Paulo, 2006, p. 615. 22. Pessini; Barchifontainne, op. cit., p. 36. 23. Namba, Edison Tetsuzo. Manual de bioética e biodireito. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2015, p. 09. 24. Roque Junges, José. El nacimiento de la bioética y la constitución del biopoder. Acta bioethica, v. 17, n. 2, 2011, p. 172. 25. Pessini; Barchifontainne, op. cit., p. 51. 26. Fischer, Marta Luciane; et al. Da ética ambiental à bioética ambiental: antecedentes, trajetórias e perspectivas. História, ciências e saúde. Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, 2017, p. 402. 27. Pessini; Barchifontainne, op. cit., p. 27. 28. Ibid., p. 32. 29. Ibid., p. 31. 30. Porto, Dora. Bioética na América Latina: desafio e poder hegemônico. Revista Bioética, v. 22, n. 2, 2014, p. 214. 31. Dos Santos, Emanuelly Poncell. A Bioética Ambiental como instrumento para o aperfeiçoamento do desenvolvimento sustentável. 2014. Dissertação. Universidade Federal de Sergipe. São Cristóvão, p. 74. 32. Fischer et al, op. cit., p. 402. 33. Carvalho; Pessini; Campos Junior, op. cit., p. 615. 34. Ibid., p. 616. 35. Abel, Francecs. Introducción bioética: origen y desarrolho. Madrid: Universidade Pontíficia de Comillas, 1989, p. 16. 36. Pessini, Léo. Bioética: um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 22. 37. Fermin Roland Schramm é um bioeticista suíço radicado no Brasil, percursor da bioética protetiva na América Latina, com vasta produção científica e atuação em diversas discussões bioéticas. Ver mais em: A transformação da bioética na ética do cuidado. Lara Ely. Acesso em: 02 ago. 2019. 38. Schramm, Fermin Roland. A bioética de proteção: uma ferramenta para avaliação de prática sanitárias? Revista Ciência e Saúde Coletiva, v. 22, n. 5, 2017, p. 1533. 39. Rosa, Darci Santa. Bioética: riscos e proteção. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 10, 2009, p. 2258. 40. Schramm, op. cit., p. 1534. 41. Kottow, Miguel. Bioética de proteção: considerações sobre o contexto latino-americano. 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A noção de vulnerabilidade é introduzida no http://bit.ly/2vtIkXb Relatório Belmont para classificar, de forma particular (apenas alguns são ditos vulneráveis) e em termos relativos (comparativamente aos ditos não vulneráveis), tanto pessoas singulares, na seção sobre da voluntariedade, como populações, na seção dedicada à “avaliação sistemática de riscos e benefícios”, que se encontrem numa situação de exposição agravada e que possam vir a ser “feridas”, isto é, serem prejudicadas nos seus interesses pelos interesses de outrem no âmbito da pesquisa biomédica e, mais especificamente, no da experimentação humana: Patrão Neves, Maria. Sentidos da vulnerabilidade: característica, condição e princípio. Revista Brasileira de Bioética. v. 2, n. 2, 2006, p. 158. 68. Patrão Neves, op. cit., p. 158-159. 69. Petryna, Adriana. Experimentalidade: ciência, capital e poder no mundo dos ensaios clínicos. Horizontes antropolológicos, Porto Alegre, v. 17, n. 35, 2011, p. 128. 70. Goulart, et al. Manipulação do Genoma Humano: Ética e Direito. Revista Ciência & Saúde Coletiva. v. 15, n. 1, 2010, p. 1711. 71. Petryna, op. cit., p. 128. 72. Faleiros Jr; Borges, op. cit., p. 17. 73. Petryna, op. cit., p. 133. 74. Greco; Welsh, op. cit., p. 447. 75. Ibid., p. 448. 76. Petryna, op. cit. p. 134. 77. Byk, Christian. Tratado de bioética: em prol de uma nova utopia civilizadora. São Paulo: Paulus, 2015, p. 96. 78. Pessini; Barchifontaine, op. cit., p. 28. 79. Greco; Welsh, op. cit., p. 447. 80. Byk, op. cit., p. 79. 81. Albuquerque, Aline. Para uma ética em pesquisa fundada nos Direitos Humanos. Revista Bioética, Brasília, v. 21, n. 3, 2013, p. 412. 82. Dallari, Dalmo de Abreu. Bioética e Direitos Humanos. In: Costa, Sérgio Ibiapana Ferreira; Garrafa, Volnei; Oselka, Gabriel (org.) Iniciação à Bioética. Brasília: Conselho Federal de Medicina, 1998, p. 233. 83. Ibid., p. 234. 84. Porto, Dora. A importância da Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos para a América Latina. 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Revista Brasileira de Bioética. v. 2, n. 2, p. 158, 2006, p. 165-166. 94. Ibid., p. 160. 95. Patrão Neves, op. cit., p. 161. 96. Unesco, Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos. Lisboa: Comissão Nacional da Unesco, 2006, p. 08. 97. Patrão Neves, op. cit., p. 159. 98. Kottow, op. cit., p. 38. 99. Fonseca, Aline Klayse dos Santos. Responsabilidade Civil: Do Dano à Danosidade. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2019, p. 59. 100. Ibid., p. 57. 101. A precaução foi positivada pela primeira vez no Direito Alemão (vorsorgeprinzip), em 1974, na Lei do Ar Limpo. Disseminou-se por toda Europa Ocidental e ganhou previsão expressa na Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992. Cf. Eler, Kalline Carvalho Gonçalves; Olivera, Marco Túlio Pires; Ramos, Kessia Priscila Miranda. Dianóstico genético pré-implantação (DGPI): Uma eugenia mascarada?. Revista Iberoamericana de Bioética. n. 9, 2019, p. 11. 102. Tavares, Eder Torres; Schramm, Fermin Roland. Princípio de precaução e nanotecnociências. Rev. Bioética. Brasília, v. 23, n. 2, 2015, p. 244-255. 103. Tavares; Schramm, op. cit., p. 245. 104. Brunet, Sébastien; Delvenne, Pierre; Joris, Geoffrey. Princípio da precaução como uma ferramenta estratégica para redesenhar a (sub) política: compreensão e perspectivas da ciência política de língua Francesa. Revista Sociologias, v. 13, n. 26, 2011, p. 177. 105. Cielo, et. al. Uma leitura dos princípios da prevenção e da precaução e seus reflexos no direito ambiental. Revista CEPPG, n. 26, 2012, p. 198. 106. Brunet; Delvenne; Joris, op. cit., p. 179. 107. Schramm, Fermin Roland. A moralidade da biotecnociência: a bioética da proteção pode dar conta do impacto real e potencial das biotecnologias sobre a vida e/ou a qualidade de vida das pessoas humanas? In: Schramm, Fermin Roland; Rego, Sérgio; Braz, Marlene; Palácios, Marisa (org.) Bioética: riscos e proteção. 2. ed. Rio de Janeiro. Editora UFRJ; Editora Fiocruz, 2009, p. 23. 108. Schramm, op. cit., p. 23. 109. Mello, Anahí Guedes; Nuernberg, Adriano Henrique. Gênero e Deficiência: Interseções e perspectivas. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, n. 20, v. 3, 2012, p. 642. 110. Mello; Nuernberg, op. cit., p. 636. 111. Neumann, Katiúscia; Algerich, Eloisa Nair de Andrade. A situação da pessoa com deficiência em relação à sociedade, ontem e hoje. Revista Direito em Debate, n. 21, 2004, p. 121. 112. Leite, Flávia Piva Almeida. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Amplitude Conceitual – A busca por um modelo social. Revista de Direito Brasileiro, v. 3, 2012, p. 08. 113. Araújo, Luiz Alberto David. A proteção constitucional das pessoas com deficiência. 4. ed. Brasília: Corde, 2011. p. 08. 114. Berg, Aleksandra; Fontes, Fernando; Hespanha, Pedro; Martins, Bruna Sena. A emancipação dos estudos da deficiência. Revista Crítica de Ciências Sociais, v. 98, 2012, p. 46. 115. Diniz, Débora. Deficiência e políticas sociais – entrevista com Collin Barnes. Revista Ser Social,n. 32, 2013, p. 237. 116. Berg, et al., op. cit., p. 46. 117. Bernardes, Liliane Cristina Gonçalves. Bioética, deficiência e políticas públicas: percepção de gestores públicos e defensores de direitos.Dissertação de Mestrado. Brasília: UNB, 2011, p. 20. 118. Diniz, Débora; Medeiros, Marcelo. Envelhecimento e deficiência. Série Anis, n. 36, Ed. Letras Livres, 2004, p. 109. 119. Bernardes, op. cit., p. 20. 120. Souza, Luciana Gonçalves de. Da exclusão aos Direitos, dos Direitos as garantias: Um estudo sobre as garantias do direito ao trabalho das pessoas com deficiência. Brasília: UNB, 2006, p. 27. 121. Diniz, op. cit., p. 239. 122. Mello; Nuernberg, op. cit., p. 638. 123. Ibid., p. 638. 124. Organização das Nações Unidas. Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Aprovada pela Resolução n. 3447, de 9 de dezembro de 1975. Nova Iorque, 1975. 125. Brasil. Decreto n. 3.956, de 08 de outubro de 2001. Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. http://bit.ly/2SO1q4k, Acesso em: 13 set. 2019. 126. Brasil. Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Acesso em: 13 set. 2019. 127. Campbell, Fiona Kumari. Refusing Able(ness): A Preliminary Conversation about Ableism. Media Culture Journal. v. 11, n. 3, 2008, p. 02. 128. Alencar, Evandro Luan de Mattos. A pessoa com deficiência no discurso constitucional brasileiro. In: XXVI Encontro Nacional do CONPEDI, 2017, Florianópolis, CONPEDI, 2017, p. 114. 129. Pereira, Ana Maria Baila Albergaria. Viagem ao Interior da Sombra: Deficiência, Doença Crónica e Invisibilidade numa Sociedade Capacitista. 2018. 257f. Dissertação de Mestrado – Universidade de Coimbra, Portugal, p. 18. 130. Rivière-Zijde, Lydia La. Ser mújer com discapacidad: Afrontar La discrimnación múltiple. In: Reconociendo los derechos de lãs niñas y mujeres com descapacidad – Un valor añadido para la sociedad futura Conferência Europeia. USAL. 2007, p. 28. 131. Mello, Anahí Guedes. Deficiência, incapacidade e vulnerabilidade: do capacistismo ou a preeminência capacitista e biomédica do Comitê de Ética e Pesquisa da UFSC. Revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 21, n. 10, 2016, p. 3272. 132. Piovesan, Flávia. Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Inovações, alcance e impacto. In: Ferraz, Carolina Valença; Leite, George Salomão; Leite, Glauber Salomão; Leite, Glauco Salomão. Manual dos Direitos das Pessoas com Deficiência. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 47. 133. Brasil. Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Acesso em: 13 set. 2019. http://bit.ly/2SO1q4k http://bit.ly/2OmWgJg https://bit.ly/3dBrkjl CAPÍTULO 2: DIREITOS REPRODUTIVOS: ENTRE O UTILITARISMO MÉDICO E O RECONHECIMENTO DA VIDA COM DEFICIÊNCIA A seção atual tem por objetivo geral analisar a literatura especializada sobre direitos reprodutivos e as percepções teóricas sobre vida e dignidade humana das pessoas com deficiência. Os objetivos específicos são: (I) descrever o conceito de direitos reprodutivos e sua correlação com a expansão da medicina reprodutiva; (II) analisar, sob a perspectiva do campo da saúde, as novas dinâmicas ofertadas pelo avanço da genética no âmbito da saúde reprodutiva; (III) identificar os posicionamentos das doutrinas que tratam da melhoria das qualidades humanas; (IV) analisar o utilitarismo bioético e sua percepção quanto à vida das pessoas com deficiência; (V) compreender, a partir de uma perspectiva inclusiva, como se percebe o reconhecimento da dignidade e da vida com deficiência. Por isso, em um primeiro momento, buscar-se-á apresentar o conceito jurídico sobre o que são direitos reprodutivos e, por conseguinte, analisar as possibilidades ofertadas pela expansão da genética médica e da saúde reprodutiva. E, posteriormente, identificar posicionamentos que tratam da melhoria das qualidades humanas nas doutrinas especializadas e da concepção médico-utilitarista ao tratar do tema. Por fim, dissertar-se-á sobre a questão do reconhecimento da vida com deficiência. 2.1. Medicina reprodutiva e a expansão dos direitos reprodutivos A medicina reprodutiva é um campo do conhecimento médico que, atualmente, é objeto de importantes reflexões bioéticas sobre as mudanças sociais e progressos da ciência e da tecnologia, uma vez que oferece inúmeros recursos novos para o controle de aspectos biológicos e reprodutivos dos seres humanos, como o controle de natalidade, o combate à infertilidade, a artificiação da reprodução e o domínio da hereditariedade. A esfera da reprodução humana apresenta inúmeras controvérsias sobre sua ética médica e, por isso, resulta em barreiras para sua regulação, tanto no âmbito dos conselhos profissionais, como na legislação ordinária para enfrentar temas complexos, como genética, manipulação de embriões, status moral do embrião, doação de gametas, seleção de sexo embrionário, diagnóstico pré-implantacional, uso de células-tronco, clonagem terapêutica, reprodução póstuma, útero de substituição, dentre outras temáticas polêmicas. Dessa maneira, salienta-se que o tema da reprodução humana é alvo de intenso debate entre grupos sociais que envolvem desde feministas, segmentos religiosos, cientistas, profissionais médicos, ativistas de direitos das pessoas com deficiência e bioeticistas leigos. Por isso, existe uma significativa falta de consenso em relação aos problemas éticos da medicina reprodutiva. Por essa razão, pela finalidade do trabalho, importa esclarecer conceitos elementares sobre a medicina reprodutiva, o reflexo da expansão dessa área da ciência frente à constituição dos direitos reprodutivos, em especial, sob seu aspecto histórico e jurídico, de modo a apresentar, concomitantemente, uma crítica da bioética sobre o panorama em geral desses objetos de discussão. Desse modo, cita-se que a procriação no passado constituía-se um grande obstáculo para o desenvolvimento das mulheres como sujeitos humanos em suas inúmeras dimensões, uma vez que obtinham das ciências médicas tratamento rústico sobre necessidades terapêuticas e paliativas, sendo, portanto, evento causador de inúmeras doenças sexualmente transmissíveis, assim como elevados índices de mortalidade de grávidas e de recém-nascidos134. Para enfrentar esse cenário e ampliar as possibilidades de decisão quanto a ter ou não ter uma prole, a medicina buscou aprimorar artificialmente a viabilidade da concepção, bem como avançou nas técnicas de contracepção com métodos mecânicos, naturais e hormonais. Para a percepção de um conceito técnico de reprodução, entende-se a procriação humana como um ato biológico de gerar um ser semelhante135. A procriação, por sua vez, pode se concretizar por meio de forma natural, tecnicamente conhecido como conjunção carnal, ou também pelo auxílio de tecnologias de reprodução assistida, como inseminação artificial e fertilização in vitro, dentre outras136. No campo jurídico, o ato de procriação, na visão mais moderna, se apresenta como um direito de livre escolha, que busca dissociar-se de uma obrigação derivada da lei natural ou de mandamentos religiosos, o que fundamentou a expansão de direitos atrelados ao exercício da sexualidade e da reprodução humana propriamente dita, e possibilitou o desenvolvimento de novas tecnologias de reprodução assistida. Nesse cenário, técnicas, tecnologias, equipamentos, procedimentos médicos e biomédicos de fertilização de embriões humanos se consolidaram e trouxeram consigo um conjunto de novas possibilidades. A chamada reprodução assistida, reprodução humana assistida ou técnicas de reprodução assistida, que, na prática, se equivalem, ofertaram a chance de intervir em processos vitais humanos da reprodução e da genética137. A medicinareprodutiva, por sua vez, apresenta salutar papel no desenvolvimento dessas novas técnicas e novos medicamentos de controle reprodutivo e fertilização, os quais ocupam importante espaço no debate bioético da atualidade. A medicina da reprodução é área do conhecimento médico que busca, especificamente, tratar da fertilidade humana e oferecer soluções médicas para a reprodução e para a hereditariedade. Sendo assim, a medicina reprodutiva pode ser definida como: A branch of medicine that specializes in fertility preservation, diagnosing and treating infertility, and other reproductive problems. Reproductive medicine also deals with issues related to puberty, menopause, contraception (birth control), and certain sexual problems138. É um campo da medicina que teve início com a assimilação de técnicas e procedimentos utilizados, em regra, como tecnologia de procriação de animais de produção pecuária, como o congelamento de sêmens, a transferência de embriões, a fertilização extracorpórea, a inseminação artificial, dentre outras139. A procriação artificial humana tem sua origem em práticas controversas da ciência, realizadas em circunstâncias que revelam a aplicação de uma ideologia e metodologia, em geral aplicadas com fins eugenistas, as quais buscavam uma padronização de características entendidas como boas e uma suposta finalidade de melhoramento humano. O fato histórico que registra o marco inicial do desenvolvimento da medicina reprodutiva é o estudo desenvolvido no casal Brown, que resultou no primeiro bebê de proveta, técnica a qual consiste na união do óvulo e espermatozoide fora do corpo humano para formar embriões e depois inseri-los no útero140. Posteriormente a isso, as técnicas de fertilização aprimoraram e desenvolveram novas tecnologias de reprodução, que englobam não só aspectos reprodutivos, como também genéticos com fito de superar barreiras biológicas que impedem a fertilidade. A procriação assistida, atualmente, consiste em um conjunto de técnicas capazes de viabilizar a gravidez de uma mulher, até mesmo quando ela ou seu companheiro são inférteis141. A infertilidade, principal objeto de estudo da medicina reprodutiva, trata-se de um problema que atinge aproximadamente 10% dos casais do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), e, tecnicamente, ocorre quando evidenciada a incapacidade de concepção no decorrer de dois anos de exposição ao risco de gravidez, sem o uso de métodos contraceptivos, em um casal sexualmente ativo142. A infertilidade não é o mesmo que uma doença física, é muito mais uma condição social que biológica, uma vez que considerável número de casos de infertilidade são curados com o tempo. Existem, portanto, riscos a se considerar quando se opta por realizar um tratamento para infertilidade, como erros de diagnósticos, fraudes e iatrogenia143. As causas da infertilidade humana são inúmeras e perpassam desde causas emocionais, doenças psicossomáticas, stress, consumo de drogas, medicamentos, consumo excessivo de álcool e cigarro, disfunções sexuais, problemas hormonais, sedentarismo e obesidade144. Ou seja, vários fatores podem contribuir para a infertilidade, como condições sociais precárias, deficiência alimentar, trabalho insalubre, poluição, infertilidade congênita, sequelas de aborto, esterilização compulsórias, infecções e doenças sexualmente transmissíveis não tratadas, postergação da procriação e impedimentos subjetivos de ordem inconsciente145. Sobre o aspecto social, a infertilidade é vivenciada como dano, causadora de isolamento, alienação, medo e perda de status social, comumente inflamado por discursos que buscam justificar a exclusão das pessoas inférteis de programas de assistência pública e mitigar a autonomia de decidirem sobre sua própria reprodução146. A infertilidade fragiliza homens e mulheres, em especial aqueles que convivem e tem o desejo de reproduzir. Nesse aspecto, cita- se: Procriar e constituir família são aspectos altamente valorizados em sociedades como a em que vivemos - e em quase todas as sociedades humanas a infertilidade é repudiada como um infortúnio. Atualmente, a procriação se liga não apenas à ideia de felicidade, mas também a de êxito pessoal. Nesse sentido, na maternidade e na paternidade são mobilizados traços arraigados das identidades individuais e sociais dos sujeitos humanos147. A infertilidade é um problema que tem alcançado maior dimensão social, devido a danos colaterais atrelados aos costumes culturais da vida moderna, visto que a mesma cria diversos fatores não clínicos de interação negativa, como aspectos ambientais e farmacológicos, que facilitam a sua popularização e o surgimento do problema de fertilidade com maior frequência nas mais diversas camadas da população. O número de pessoas atingidas pela infertilidade é bastante elevado e, por isso, constitui-se um problema de saúde pública. Todavia, como a maioria dos problemas socioeconômicos, as pessoas pobres não têm obtido a atenção necessária em políticas públicas, o que evidencia a falta de equidade no acesso ao tratamento e a prevenção do problema148. A abordagem medicalizada desse problema é marcada por contradições, visto que a ausência de filhos não deve ser definida estritamente como doença, embora possa causar sofrimento. Deve ficar claro que a infertilidade não é um problema que só pode ser resolvido com a intervenção médica e tecnológica, uma vez que existem medidas preventivas no campo de saúde coletiva que têm o maior impacto nos usuários do sistema de saúde do que oferecer soluções estritamente ligadas ao custeio de técnicas de reprodução assistida. Todavia, a construção do projeto parental, marcada pelo simbolismo da realização humana na concretização do desejo de maternidade e paternidade, reforça o uso desse subjetivismo para influenciar e motivar a busca desses sujeitos pelo tratamento médico-reprodutivo. Com efeito, a promoção da reprodução assistida interfere e influencia nos desejos individuais e normas sociais no campo da reprodução, do casamento e da família.149 Nesse viés, evidencia-se que o projeto de parentalidade está ligado a aspectos saudáveis da vida de um indivíduo e de um casal, mas ele também pode ser buscado por várias causas, como a busca para resolução de conflitos, o desejo de preencher lacunas na vida dos pais, para evitar a solidão e até mesmo para atender à pressão cultural e familiar, uma vez que filho é visto como um atributo de valor, potência e poder150. Outro fator que merece atenção é a pressão social pró-natalista sobre a mulher, a qual valoriza o papel de mãe e identifica a maternidade como uma identidade necessária, e sobre o homem, que tem sua imagem de virilidade atrelada à possibilidade de gerar filhos, o que os compele à procriação, embora existam diversas formas de parentalidade, como adoção e outras maneiras de afeição familiar151. Sendo assim, o projeto parental, com a centralidade na reprodução, tem considerável influência na expansão das técnicas da medicina reprodutiva, uma vez que a ausência involuntária de filhos gera situações de tensões pelo anseio da constituição de um núcleo familiar. Incide também os interesses comerciais, que estimulam a medicalização da reprodução para fins de deslocar o ato reprodutivo da esfera privada para um contexto laboratorial com novas tecnologias, que se relacionam diretamente com a medicalização social, a partir do surgimento de métodos e diagnósticos terapêuticos, equipamentos médicos, novos medicamentos e aumento do consumo de atos médicos. Essa dinâmica da medicalização social e a correlação com a expansão da comercialização de produtos médicos e tecnológicos ligados a soluções reprodutivas é explicado pelo excerto abaixo: A medicalização social diz respeito à redescrição, em termos médicos, de eventos fisiológicos e comportamentos sociais desviantes, o que reflete no consumo médico e na produção do conhecimento pela medicina, submetendo o item medicalizado a uma prática especializada. Tal seria o caso da reprodução assistida,ao intervir na ausência involuntária de filhos152. Sobre a medicalização, concorda-se com a bioeticista e especialista Fátima Oliveira, que nos lembra que a defesa democrática dos direitos reprodutivos inclui o acesso ao tratamento da infertilidade, nos casos que ela de fato é uma doença, e a segurança no uso de terapias153. Mas, é importante se contrapor à abusiva medicalização da procriação em sua face contraceptiva e conceptiva, uma vez que a medicalização é uma das principais ferramentas de exercício de biopoder, ou seja, pelo poder político. Nesse viés, a atuação do Estado também estimula indiretamente a medicalização de problemas ligados à fecundidade e à expansão da medicina reprodutiva, apresentando alicerces jurídicos e diretrizes biopolíticas que favorecem um projeto de regulação demográfica e controle da melhoria da constituição da população, a partir de uma ótica, em geral, higienista, e com medidas de intervenção nas esferas pública e privada. Decerto, as garantias e deveres do Estado para com a proteção da família, a promoção de saúde e de assistência social apresentam fundamentos jurídicos para viabilizar a expansão de direitos reprodutivos e, por conseguinte, concretizar os objetivos de um projeto médico-estatal de parentalidade. O Brasil, por exemplo, tal qual outros Estados-Nações, apresenta em sua Constituição, explicitamente, dispositivos jurídicos para assegurar assistência à família em políticas de saúde reprodutiva e planejamento familiar, bem como oferece recursos educacionais e científicos para o exercício desses direitos e dos anseios de reprodução154. Se, por um lado, observa-se a anuência estatal para atender aos anseios individuais do projeto parental, por outro lado, é necessário observar que a expansão dessas práticas médicas e o desenvolvimento de tecnologias de auxílio à fertilização humana impulsionam coercitivamente a procura para soluções medicalizadas para problemas reprodutivos. Importa considerar que a revolução sexual também desempenhou salutar influência no processo de medicalização da reprodução, uma vez que trouxe a compreensão e maior aceitação cultural do exercício da sexualidade para fins lúdicos, não somente para fins reprodutivos. A dissociação da prática sexual com finalidade reprodutiva e a disponibilização dessas técnicas de reprodução assistida à maior acesso populacional, ocasionaram a expansão mercadológica das técnicas e mudanças em padrões comportamentais, como evidencia o raciocínio abaixo: No domínio da sexualidade, embora as novas relações de procriação não sejam dessexualizadas, a concepção induzida tende a substituir os efeitos do desejo sexual de homens e de mulheres pela eficácia da medicina. Onde o sexual, a relação sexuada introduz o incalculável, uma ordem do aleatório ligada particularmente ao gozo, o projeto programado fabrica algo calculável, um funcionamento, no modo da racionalização da reprodução bioindustrial, na expressão de Tort (1992), um “desejo frio”. Mas, reservando-se essas técnicas aos casais, procede-se como se o sexual continuasse limitado à privacidade dos mesmos, ocultando a implicação do médico no agenciamento das relações de procriação. Essa operação evacua a relação homem/mulher, com suas contradições, em proveito da exclusiva polaridade pai/mãe, que resulta da articulação das categorias médicas (esterilidade) e jurídicas (pai, mãe)155. Nesse cenário, a procriação passa a ser ressignificada, valorizando o ato sexual para fins de obter prazer, repassando a responsabilidade reprodutiva à artificialidade e ao controle dos laboratórios médicos e sua proposta de reprodução racional, que resulta em uma prole de características calculáveis e outros impactos na ordem social, como mudanças na estrutura tradicional de família e o surgimento das famílias ectogenéticas156. Portanto, em termos gerais, a medicalização da reprodução humana, o desenvolvimento das tecnologias reprodutivas, o oferecimento estatal de subsídios jurídicos para prover recursos científicos de controle da qualidade das massas e as modificações culturais, que ocasionaram a ressignificação do sexo e da reprodução humana, oferecem campo fértil para o surgimento de uma futura sociedade cada vez mais medicalizada, dependente dos laboratórios e tratamentos para alcançar modelos ideais da prole. Existem muitos problemas possíveis a serem enfrentados no cenário da reprodução humana assistida, como a exploração de classes, em que casais ricos custeiam o tratamento em pessoas pobres, o tráfico e a comercialização de embriões, óvulos e sêmen, em uma grande rede de comércio, dentre outros absurdos promovidos pela mercantilização abusiva e industrialização da procriação157. Por isso, é importante não só discutir a necessidade de regulação básica de direitos reprodutivos, como também identificar limites dessa intervenção estatal e da influência mercadológica na matéria, e questionar o quanto esse novo cenário cultural, médico, jurídico e tecnológico pode ser fomentador de violações de direitos humanos, uma vez que existe um vazio ético quanto ao uso das novas tecnologias reprodutivas. Nesse sentido, frisa-se que os direitos reprodutivos e sexuais são Direitos Humanos reconhecidos em inúmeros dispositivos legais nacionais e documentos internacionais, tendo seus conceitos desenvolvidos recentemente e são frutos de uma conquista histórica de busca por cidadania e preservação dos Direitos Humanos158. As questões relacionadas aos referidos direitos fazem parte de uma temática mais ampla sobre Direitos Humanos e reportam a questões da cidadania moderna, idealizadas a partir dos princípios liberais iluministas no século XVIII159, que discutiam a questão demográfica, taxas de natalidade e mortalidade, crescimento populacional e progresso socioeconômico160. Pode-se afirmar que os direitos sexuais e reprodutivos correspondem a um conjunto básico de direitos relacionados ao livre exercício da sexualidade e da reprodução humana. Esse conceito compreende o acesso à saúde sexual e reprodutiva, mediante o que se assegure informações, educação e meios, tanto de controle da natalidade quanto para a reprodução, sem riscos para a sanidade física, mental e psicológica, bem como para a vida humana161. Dentre os marcos de referência no âmbito internacional que discutiram os direitos sexuais e reprodutivos, destacam-se dois grandes eventos organizados pela ONU, que foram a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994, e a VI Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Pequim, em 1995. Os referidos documentos internacionais buscaram conferir à saúde e aos direitos sexuais e reprodutivos uma visão que superasse os anseios estatais de limitar o crescimento populacional como forma de combater a pobreza e as desigualdades sociais, com foco primordialmente no desenvolvimento humano, na igualdade dos gêneros e nos Direitos Humanos em geral162. De maneira mais específica, salienta-se que o termo “direitos reprodutivos” foi usado pela primeira vez no I Encontro Internacional de Saúde da Mulher realizado em Amsterdã, Holanda, em 1984, após o consenso de que essa nova denominação traduzia um conceito mais completo do que “saúde da mulher”, pois se constitui campo teórico para além da pauta feminista163. Uma das mais importantes referências na literatura especializada sobre direitos reprodutivos é o relatório da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, conhecida por Programa do Cairo, de 1994. Nesse documento restou estabelecido que direitos reprodutivos necessitam ter ampla ligação com aspectos da saúde coletiva, e, por isso, o delimitou em seu item 7.3, conforme o excerto a seguir: [...] Esses direitos se baseiam no reconhecido direito básico de todo casal e de todo indivíduo de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de seus filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer, e o direito de gozar do mais alto padrão de saúde sexual e de reprodução. Incluias novas dinâmicas sobre os direitos reprodutivos e a existência das pessoas com deficiência. Belém/PA, novembro de 2019. Raimundo Wilson Gama Raiol1 Notas 1. Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal do Pará. Professor no Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Pará, onde leciona na Faculdade de Direito e na pós-graduação em Direito. Membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas. PREFÁCIO Algumas questões têm atormentado a Filosofia e o Direito há séculos e muitas delas têm relação com a liberdade das pessoas. Duas das mais amplas e comuns têm sido: (1) Qual o limite para a ação das pessoas? (2) Como devem ser distribuídos os direitos decorrentes do ideal político da liberdade? Caso pensemos somente nas mais importantes tradições que se ocupam da resposta à primeira questão, lideradas por Kant e Mill, veremos que as respostas são absolutamente diversas. Enquanto o primeiro diria que o limite seria o dever, sendo válida a ação com autonomia; o segundo, por seu turno, afirmaria que a resposta estaria, simplesmente, na vontade dos indivíduos, o que Immanuel Kant denominaria de liberdade com heteronomia. Por outro lado, voltando os olhos para a segunda questão, acreditamos que a fórmula adotada nas sociedades democráticas é uma só, e aproveitada do pensamento liberal, pelo que devem ser distribuídas as liberdades mais importantes de forma igual a todas as pessoas, só devendo estas serem limitadas a partir de três aspectos: pelo princípio do dano, conforme lição de John Stuart Mill; em nome de um sistema geral de liberdades, como expõe John Rawls; e, toda vez que houver um interesse da comunidade que deva prevalecer, em determinado caso concreto, o que depreendemos das lições de Ronald Dworkin, quando expõe a terceira das bases de sua concepção de justiça. São essas lições dos filósofos que, entendemos, devem ser levadas em consideração no momento de decidir que condutas podem adotar as pessoas, com apoio do Estado, em relação à forma como querem viver e agir, e servem para todos os casos em que a liberdade das pessoas é o ideal que deve ser levado em consideração. No caso da atuação do Estado, isso, como vimos, é relativamente simples, ao menos do ponto de vista teórico: deve o Estado apoiar a ação livre dos indivíduos, desde que não cause danos a terceiros, não conflite com as liberdades de outras pessoas e não atente contra interesses da comunidade, que, na hipótese específica, devam prevalecer. Do ponto de vista dos indivíduos, todavia, não é tão fácil assim. Como temperar o desejo das pessoas como o móvel da ação, como queria Mill, e como tendemos a concordar com a necessidade de praticar atos que não instrumentalizem os outros indivíduos, como defendeu Kant? Será que somente a vontade, na busca da máxima felicidade, como defendem os utilitaristas, pode limitar a ação humana, sem considerações de ordem moral, ainda que possamos nos deparar com a instrumentalização de outros seres humanos? Difícil defender uma posição nesse sentido, especialmente quando lidamos com o direito das outras pessoas, ainda que as ações, aparentemente, possam conduzir a uma melhoria na vida delas. A vontade livre, sem amarras, para além de representar uma forma de escravidão do próprio autor da ação, como dizia Kant, pode, também, exceder o limite aceitável da ação humana. Por outro lado, impedir que o indivíduo conscientemente melhore sua vida e dos que dele dependem, deixando somente ao acaso o resultado de nossas vidas, pode, de outra banda, desnaturar nossa própria condição de seres racionais, capazes de fazer escolhas a partir do que pretendemos para as nossas vidas. Nesses termos, temos nos inclinado na direção da proposta kantiana, mas, sem toda a rigidez que caracterizava o grande filósofo alemão, suavizando suas ideias com base no respeito que todos devemos ter em relação ao projeto de vida de cada pessoa, mas sempre considerando sua lição de que não é possível haver a instrumentalização do ser humano. Todo esse debate, pensamos, anima a discussão travada por Evandro Luan de Mattos Alencar neste livro. Mestre em Direito pelo PPGD/UFPA, onde fui seu professor e, depois, seu examinador na banca de defesa de dissertação, o autor discute direitos reprodutivos a partir de uma análise bioética, contrapondo o que denomina ser o utilitarismo médico com a dignidade das pessoas com deficiência. É um tema sensível e que envolve direitos de integrantes de um grupo vulnerável – ou vulnerabilizado, como também se denomina, atualmente –, e que é enfrentado de forma competente, com a preocupação nítida de não apoiar, em nenhuma circunstância, práticas como o capacitismo e a eugenia. É um texto rico e que, acreditamos, tem potencial para se tornar um dos marcos na discussão por ele travada, o que nos leva a fortemente recomendar a leitura da obra. Belém/PA, novembro de 2019. José Claudio Monteiro de Brito Filho2 Notas 2. Doutor em Direito das Relações Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Vice coordenador do PPGD e editor-chefe da Revista Jurídica do CESUPA. Coordenador da Linha de Pesquisa de Teorias da Justiça do Grupo de Pesquisa de Concretização dos Direito Fundamentais, certificado no CNPq. INTRODUÇÃO A presente obra tem como propósito desenvolver alicerces teóricos e práticos sobre a questão bioética dos direitos reprodutivos e sua conexão com os direitos humanos das pessoas com deficiência. Dessa maneira, tratar de um tema complexo e sua relação interdisciplinar se constitui como um desafio que deve ser pautado pela instigação da pesquisa jurídica com viés científico, porém atento à repercussão social a que cabe a temática. Observa-se que o veloz desenvolvimento de novas tecnologias, característica do momento global atual, implicará em impactar práticas e costumes da vida humana. Nesse contexto, a genética, a nanotecnologia e a robótica apresentam potencial para modificar rapidamente aspectos conhecidos do cotidiano humano, proporcionando facilidades, mas também apresentando novas problemáticas em um contexto biotecnopolítico e ético ainda pouco previsível. Destaca-se nesse panorama o desenvolvimento de novos direitos, dentre os quais evidencia- se uma categoria denominada de direitos reprodutivos. Os direitos reprodutivos, antes estritamente atrelado aos direitos sexuais, apresentaram-se recentemente como uma categoria com maior autonomia graças ao desenvolvimento de novas técnicas de saúde reprodutiva. Isso se deu devido ao controle biológico da reprodução humana, por meio de técnicas médicas, que possibilitou separar o ato sexual de sua finalidade reprodutiva, uma vez que a ciência possibilitou meios artificiais para a realização da reprodução humana por intermédio das técnicas de reprodução assistida. Além disso, a genética também tratou de ofertar possibilidades de manipulação das características genotípicas e, por conseguinte, fenotípicas de um indivíduo, por meio da manipulação do genoma humano e de terapias gênicas. É nesse cenário que a solidificação dos direitos reprodutivos se apresenta conjuntamente com novos dilemas morais sobre a vida humana. Nesse sentido, se torna inevitável o impacto desses novos procedimentos médicos à organização social, à vida em comunidade e à regulação de novos direitos. Um dentre os inúmeros questionamentos morais trazidos pelo aprimoramento das técnicas de saúde reprodutiva é aquele relacionado com o melhoramento das qualidades humanas e das características dos indivíduos. O avanço da medicina reprodutiva e da genética médica, portanto, apresenta novos procedimentos para fins de planejamento familiar, que impactam diretamente no controle populacional, como a reprodução assistida, técnicas de esterilização, métodos contraceptivos, aconselhamento genético, diagnóstico pré-natal e o polêmico abortamento eugênico. Desse modo, se mostra pertinente discutir a formação de uma política de saúde reprodutiva e questionar suas influências e propósitos frente à excessiva medicalização da vida etambém seu direito de tomar decisões sobre a reprodução, livre de discriminação, coerção ou violência, conforme expresso em documentos sobre direitos humanos. No exercício desse direito, devem levar em consideração as necessidades de seus filhos atuais e futuros e suas responsabilidades para com a comunidade164. Dessa maneira, é possível afirmar que os direitos reprodutivos e sexuais são direitos humanos fundamentais, universais e indisponíveis, reconhecidos pelas leis internacionais e nacionais que fundamentam os direitos e obrigações do Estado para com os cidadãos em relação à reprodução e ao exercício da sexualidade165. A constitucionalização desses direitos advém de uma ampla interpretação acerca da pessoa humana no contexto do Estado Democrático de Direito e ao livre exercício de autodeterminação, autonomia, a promoção da dignidade humana e como meio de afirmação individual do sujeito na sociedade. Portanto, os direitos reprodutivos, enquanto direitos humanos, foram recepcionados pela Constituição Federal de 1988 e encontram-se registrados em diversos dispositivos legais, com destaque ao conteúdo elencado como direitos e garantias fundamentais. Os direitos reprodutivos, em especial o direito à concepção e à descendência, são direitos universais, que todos podem exercê-los, sendo um direito do indivíduo decidir sobre a sua descendência e constituição de família, cabendo ao ente estatal o dever de assegurar condições para tal166. Salienta-se que os direitos reprodutivos estão recepcionados a partir do Art. 226, § 7º da Constituição Federal de 1988, que apregoa a ideia de paternidade responsável e de que o planejamento familiar deve ser exercido por livre decisão do casal, de maneira a afastar participação coercitiva de instituições públicas ou privadas na construção do elemento volitivo do casal, garantido pela livre manifestação da autonomia do indivíduo167. No âmbito constitucional, os direitos reprodutivos fundam-se no livre planejamento familiar, na liberdade e no reconhecimento da autonomia privada, de modo que as decisões que envolvem essa gama de direitos implicam em discutir a extensão e limites de sua perspectiva de aplicação com a menor possibilidade de conflitos ético-sociais e menor intervenção estatal168. No que se refere aos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência, conforme registrado na primeira seção, esses direitos englobam a totalidade das informações tuteladas pelo rol de direitos reprodutivos em geral. Todavia, em busca de uma igualdade material, instrumentos jurídicos como a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoa com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão reafirmam a importância de prever legislações específicas para promover direitos a grupos socialmente vulneráveis. Na Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a política proposta pelo referido documento internacional, registrada no Art. 23, item 1169, em suas alíneas, é buscar preservar os direitos reprodutivos das pessoas com deficiência e dar autonomia em relação à liberdade de decisão sobre o número de filhos, o acesso a informações adequadas em matéria de reprodução, de preservação de sua fertilidade e de planejamento familiar. Essa proposição busca não só enfrentar a desinformação em matéria de reprodução, como também posicionamentos médicos e capacitistas que mitigam a liberdade de escolha das pessoas com deficiência, em matéria de reprodução. De igual maneira, a Lei Brasileira de Inclusão buscou reservar especial proteção à matéria dos direitos reprodutivos, com ênfase na necessidade de promoção de igualdade e não discriminação, de modo que positivou em diversos dispositivos legais ao longo da legislação questões relacionadas aos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência170. São exemplos desses direitos legalmente positivados a capacidade civil plena para decisões sobre casamento, o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos, a conservação da fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória, o acesso à educação reprodutiva e o direito à reprodução assistida custeada pelo sistema de saúde, dentre outros. Outra importante característica dos direitos reprodutivos é a interatividade, no sentido de que um depende da observância do outro, em maior ou menor grau171. Pode-se afirmar que os direitos reprodutivos englobam um considerável rol de direitos reconhecidos na literatura jurídica, como direito e proteção à vida, à sobrevivência, à segurança pessoal e à sexualidade, à liberdade reprodutiva, à autodeterminação reprodutiva, à proteção da maternidade, ao acesso à informação nas tomadas de decisões, à saúde e ao acesso aos benefícios do progresso científico. Os direitos reprodutivos relacionados à vida, à sobrevivência, à segurança pessoal e à sexualidade são aplicados para demandar que o Estado elimine barreiras e evite violações nos serviços básicos necessários para a saúde sexual e reprodutiva em geral e ofereça medidas de preservação da integridade e da saúde do indivíduo172. No que tange à liberdade reprodutiva, frisa-se que é um direito constituído pela noção de não ingerência do Estado na esfera de liberdade dos cidadãos, sendo reconhecidamente um direito negativo, que exige um dever de abstenção na esfera de liberdade dos indivíduos, e um direito positivo, quando se refere à reivindicações ligadas ao exercício de autodeterminação do cidadão173. Logo, a liberdade reprodutiva apresenta-se como expressão do direito de personalidade, desde o intuito de reprodução com o propósito de constituição da família ou realização individual, até o planejamento familiar e satisfação de seus membros. A autodeterminação reprodutiva está correlacionada, por exemplo, ao direito de decidir sobre o número e o espaçamento entre os filhos, as decisões da vida privada e familiar, de casamento e proteção da maternidade, dentre outros174. O direito à saúde e acesso aos benefícios do progresso científico se aplicam em questões relacionadas à prioridade governamental no desenvolvimento de políticas públicas e pesquisas de saúde reprodutiva ou quando serviços de saúde sexual não estão financeiramente acessíveis aos indivíduos que estejam em situação de risco175. Ainda no que se relaciona aos direitos reprodutivos, o acesso e a proteção à informação e de tomadas de decisões se apresentam como importantes garantias ao exercício livre e esclarecido em decisões que afetem questões atinentes ao referido conjunto de direitos, uma vez que a educação reprodutiva e o acesso ao máximo de informações corroboram na melhoria da qualidade de decisões relacionadas à reprodução do indivíduo. Nesse sentido, o direito à informação e à saúde sexual englobam informações sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, contracepção, recursos legais para conquista dos direitos, sexualidade e conhecimento do corpo como questões contribuintes para a garantia desses direitos176. Outrossim, é salutar que o acesso e proteção da informação no âmbito dos direitos reprodutivos sejam juridicamente tutelados, uma vez que o avanço da tecnologia reprodutiva e genética altera significativamente questões que se relacionam com o patrimônio genético humano. Por isso, os direitos reprodutivos também englobam aspectos da proteção à informação e à privacidade genética. É no encontro da saúde reprodutiva com a disciplina da genética onde existem as maiores discussões éticas sobre os limites e as possibilidades ofertados pelas novas técnicas de reprodução assistida, melhoramento humano e violações de direitos humanos. Por isso, no tópico a seguir, explorar-se-ão conceitos elementares sobre aspectos da saúde, em especial a reprodutiva e a consolidação da genética como ciência transversal frente às necessidades humanas modernas. 2.2. Saúde reprodutiva e genética: Um novo leque de possibilidades A proposta de discutir temáticas envoltas com aspectos da saúde se apresenta como um grande desafio, uma vez que, na atualidade, o tema se discute com diversificada abordagem dada a existênciade noções subjetivas de saúde, vida e qualidade de vida, bem como diversificadas correntes de política sanitária e abordagens éticas sobre os problemas que a medicina enfrenta, tais como doenças, cuidados terapêuticos, melhoramento biológico e terminalidade da vida. A bioética, como já evidenciado neste trabalho, se impõe como eixo elementar para compreensão de todos os envolvimentos éticos que a prática sanitária exige. Desse modo, é na bioética que se pode compreender a questão de saúde com uma perspectiva ampliada, que abarca não só aspectos da individualidade ou da relação paciente-médico, como também aspectos socioambientais, econômicos e tecnológicos das dinâmicas da sociedade atual e suas complexas relações e estruturas. Nesse sentido, afirma-se que a questão da saúde está estritamente ligada com condicionantes sociais, como a economia, ao tipo de relação social entre as pessoas, ao meio ambiente e ao progresso da ciência médica, os quais são fatores fundamentais para o maior enfrentamento de patologias e para o desaparecimento de doenças do mundo civilizado177. Perceber uma noção de saúde se faz essencial para compreender se as medidas médicas, tecnológicas e interventivas são éticas frente à complexidade dos novos problemas da bioética. Desse modo, identificar um conceito de saúde perpassa por uma análise múltipla da conjuntura social, econômica, política e cultural, pois são inúmeros os fatores para analisar e caracterizar um sujeito ou comunidade dita saudável, como classe social, concepções de consciência individual, tempo-espaço e outros valores178. Cita-se entendimento similar de Moacir Scliar: O conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas. O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças. Aquilo que é considerado doença varia muito179. De igual modo, a percepção de doença e seu espectro, entendido como aquilo que pode ser concebido como o inverso do que é saudável, também foi ou é considerado como tal pelos fatores do contexto da atualidade180, certamente por também ser fruto de uma perspectiva cultural, evolutiva, temporal e plural181. Ademais, também é possível encontrar outras noções de saúde na literatura especializada, que refletem polarizações entre um viés objetivista, que prioriza critérios físicos, individuais e biológicos, e uma perspectiva subjetivista, que engloba aspectos da individualidade, autonomia, meio ambiente e intersubjetividades do homem. Por exemplo, é popularizado que a saúde é ausência de doença. Trata-se de conceito objetivista, que identifica e classifica humanos em saudáveis ou doentes, a partir de critérios de eficiência das funções biológicas e tem como sua principal característica prática a rigidez de protocolos normativos e a identificação de diagnósticos a partir do Código Internacional de Doenças (CID-10)182. A visão objetivista promove um viés conservador de atuação em políticas de saúde, pois reforça a tendência de diminuição das responsabilidades do Estado, delegando, progressivamente, aos sujeitos, a tarefa de tomarem conta de si mesmos183. Por isso, a visão objetivista de saúde não permite maior realização de juízos de valores e, por muitas vezes, sua aplicação resulta em ruídos na relação paciente-médico, como o tratamento restrito à patologia, a retirada da autonomia do assistido e até mesmo violações de direitos do paciente. A noção subjetivista de saúde, por sua vez, consiste em considerar a questão social da deficiência e propor novas formas de pensar o impacto do ambiente social e físico sobre o funcionamento da pessoa184. A referência da literatura especializada sobre essa visão é a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), também produzido pela OMS, para fins de complementar a visão trazida pela percepção promovida pelo CID. Vide citação a seguir: A CIF é um sistema de classificação que descreve a funcionalidade e a incapacidade relacionadas às condições de saúde, refletindo uma nova abordagem que deixa de focalizar apenas as consequências da doença, mas também classifica a saúde pela perspectiva biológica, individual e social em uma relação multidirecional.185 Percebe-se que a visão subjetivista descreve a funcionalidade e a incapacidade relacionadas às condições de saúde, identificando as limitações diárias de uma pessoa, levando em consideração as funções orgânicas, estruturas corporais e as barreiras de participação social no ambiente em que vive186. Por isso, a visão subjetivista da saúde propõe uma perspectiva mais progressista de saúde, com uma proposta de política interssetorial, voltada à qualidade de vida em geral das pessoas, incluindo o meio ambiente que circunscreve as pessoas e inclui elementos físicos, psicológicos e sociais187. Nesse viés, complementa-se que a visão subjetivista introduz um modelo para descrição da saúde e de seus estados relacionados, bem como oferecem um novo paradigma para pensar a deficiência ou as incapacidades não só como uma consequência do estado de saúde ou de doença, mas também explora as determinantes do meio ambiente físico e social188. No que se refere ao conceito de saúde, portanto, quando tecnicamente estudada, percebe-se que pode apresentar uma dimensão conceitual objetiva, fundamentada em aspectos físicos e biológicos, e uma perspectiva subjetiva, baseada em critérios individuais e culturais de concepção de bem-estar, qualidade de vida, dignidade humana e harmonia entre fatores biopsicossociais que constituem o homem enquanto sujeito de direitos e também ser-objeto das intervenções médico-sanitárias. O conceito mais popularizado de saúde é o trazido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o qual afirma que saúde é o mais completo e perfeito bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de estado de doença189. Embora o conceito de saúde promovido pela OMS seja retratado por alguns especialistas como irreal, ultrapassado e unilateral190, a proposta abarcada pela entidade representa um princípio de reconhecimento da plenitude de saúde humana quando alcançar os níveis biopsicossociais indissociáveis para oferecer o almejado bem-estar, a qualidade de vida, harmonia e outros conceitos perseguidos pelas ciências médicas e de saúde191. Mais recentemente, a OMS incorporou em sua visão de saúde uma definição que apresentou uma maior aproximação entre o indivíduo e o seu meio ambiente, delimitando saúde como exposto a seguir: A habilidade de identificar e realizar aspirações, satisfazer necessidades e de mudar ou interagir com o meio ambiente. Logo, saúde é um recurso para a vida diária, não o objetivo de viver. Saúde é um conceito positivo enfatizando os recursos pessoais e sociais, assim como as capacidades físicas192. Nesse entendimento, percebe-se que a noção de saúde, que antes se apresentava somente como uma responsabilidade individual e restrita aos setores tradicionais, de seus atores e profissionais, supera essa visão, optando por uma noção mais coletiva, que também responsabiliza todas as instituições que possam atuar em prol do bem-estar dos indivíduos e de toda a sociedade na promoção de saúde e do meio ambiente. Os conceitos da OMS, divulgados em sua carta de princípios de 7 de abril de 1948, idealizados a partir das aspirações dos movimentos sociais do período pós-guerra, que pugnava pelo direito de uma vida plena e sem privações, e sua revisitação mais recente, implicou na expansão e reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde, bem como na criação de um campo interdisciplinar, denominado de saúde coletiva. A saúde coletiva expandiu-se pautada no modelo health field, idealizado por Marc Lalond, então Ministro da Saúde e Bem-Estar no Canadá, que percebeu a importância de pautar atividades do sanitarismo público em quatro principais áreasde abrangência, a saber: (a) biologia humana, que compreende aos processos biológicos, envelhecimento e herança genética; (b) meio ambiente, que abarca os cuidados com a natureza, meio e trabalho; (c) estilo de vida, que implica em promover decisões que melhorem a qualidade de saúde geral; (d) assistência à saúde, que trata de gerir recursos em decisões de promoção de saúde e infraestrutura médico-hospitalar193. A saúde reprodutiva, entretanto, é um ramo recente dos serviços de saúde, pois oriunda da fragmentação desses serviços voltados exclusivamente para a reprodução humana. Para fins de compreensão conceitual, a saúde reprodutiva pode ser entendida como a possibilidade das pessoas manterem uma vida sexual satisfatória e segura, com condições de se reproduzirem e com a garantia do exercício de seu direito de liberdade de decidir se, quando e com que frequência desejarão manter relações sexuais e reproduzir194. Por muito tempo, o termo saúde reprodutiva foi utilizado para abarcar temas gerais da área de direitos reprodutivos, como saúde sexual, contraceptivos, aborto e outros conteúdos relacionados aos direitos sexuais, de modo a evitar o ataque conservador aos consensos propostos por entidades que trabalham com esses conceitos195. Outrossim, o termo saúde reprodutiva também esteve por muito tempo sob um enfoque biomédico e obteve a quebra dessa hegemonia da visão objetivista somente na Plataforma de Cairo, em 1994. Segundo o referido Relatório da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, saúde reprodutiva pode ser delimitada como: 7.2 A saúde reprodutiva é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não simples a ausência de doença ou enfermidade, em todas as matérias concernentes ao sistema reprodutivo e a suas funções e processos. A saúde reprodutiva implica, por conseguinte, que a pessoa possa ter uma vida sexual segura e satisfatória, tenha a capacidade de reproduzir e a liberdade de decidir sobre quando e quantas vezes o deve fazer. Implícito nesta última condição está o direito de homens e mulheres de serem informados e de ter acesso a métodos eficientes, seguros, permissíveis e aceitáveis de planejamento familiar de sua escolha, assim como outros métodos, de sua escolha, de controle da fecundidade que não sejam contrários à lei, e o direito de acesso a serviços apropriados de saúde que deem à mulher condições de passar, com segurança, pela gestação e pelo parto e proporcionem aos casais a melhor chance de ter um filho sadio. De conformidade com definição acima de saúde reprodutiva, a assistência à saúde reprodutiva é definida como a constelação de métodos, técnicas e serviços que contribuem para a saúde e o bem-estar reprodutivo, prevenindo e resolvendo problemas de saúde reprodutiva. Isto inclui também a saúde sexual cuja finalidade é a intensificação das relações vitais e pessoais e não simples aconselhamento e assistência relativos à reprodução e a doenças sexualmente transmissíveis196. Na mesma linha de definição, a área de saúde reprodutiva pode ser definida como o conjunto de métodos, técnicas e serviços que influenciam a saúde reprodutiva e o bem-estar das pessoas através da prevenção e solução de problemas de saúde197. Dessa maneira, afirma-se que a saúde reprodutiva trata de contemplar um rol de pressupostos éticos como a integridade corporal, a autonomia pessoal, igualdade e diversidade em políticas de saúde. A integridade corporal é um pressuposto ético que remete-se ao direito à segurança e ao controle do próprio corpo, de identidade pessoal e cidadania, o qual prega a inviolabilidade do corpo humano e o respeito como elemento fundamental da dignidade e das liberdades humanas198. A autonomia pessoal, no âmbito da saúde reprodutiva, está conectada ao exercício da autodeterminação observável em sujeitos capazes de tomar decisões sobre um determinado assunto em reprodução e não somente entender os indivíduos como meios para políticas de planejamento familiar e populacional199. O pressuposto ético da igualdade e da diferença se aplica à esfera das relações de gênero e cidadania, uma vez que importa-se de corrigir situações adversas de desigualdade no âmbito do controle de fecundidade e também busca equalizar o papel de homens e mulheres na sociedade, como, por exemplo, na divisão sexual do trabalho e nas decisões atinentes aos direitos reprodutivos, com o necessário respeito às diferenças de seus papéis exercidos200. Como bem observado, o campo da saúde reprodutiva engloba políticas para ambos os gêneros, entretanto, demonstra maior atenção e cautela no tratamento das mulheres, uma vez que um significativo número de doenças que afetam as mulheres está correlacionado com as suas funções biológicas reprodutivas e ao modo como a sociedade cuida ou deixa de cuidar delas, e, por isso, precisam de atenção específica201. A saúde reprodutiva deve estar ao acesso de todas as pessoas, em idades apropriadas, mediante um sistema de atenção básico à saúde. Para isso, o direito à saúde reprodutiva deve estar em pauta nas políticas governamentais, visto a crescente demanda populacional e a necessária atenção às questões conexas com a reprodução humana. Nesse viés, a saúde reprodutiva não deve ser uma percepção estritamente médico-sanitária, uma vez que envolve aspectos ligados ao desenvolvimento individual e aos direitos humanos e seus impactos estarem atrelados às questões envoltas de injustiças sociais, acesso a recursos, dignidade humana e qualidade de vida202. Outra expressão recorrente nas temáticas de saúde, que frequentemente autores remetem, é o termo “qualidade de vida”, o qual tem associação com a possibilidade de satisfação das necessidades básicas, com bem-estar, autonomia e desenvolvimento socioeconômico do sujeito. Para o referido termo, explicita-se: Duas tendências quanto à conceituação do termo na área de saúde são identificadas: qualidade de vida como um conceito mais genérico, e qualidade de vida relacionada à saúde (health-related quality of life). No primeiro caso, QV apresenta uma acepção mais ampla, aparentemente influenciada por estudos sociológicos, sem fazer referência a disfunções ou agravos. [...] O termo qualidade de vida relacionada à saúde é muito frequente na literatura e tem sido usado com objetivos semelhantes à conceituação mais geral. No entanto, parece implicar os aspectos mais diretamente associados às enfermidades ou às intervenções em saúde203. Desse modo, frisa-se que a qualidade de vida se funda em dois aspectos que são a subjetividade, a qual se relaciona com a visão pessoal em relação seu estado de saúde e sobre aspectos não médicos do contexto de vida, e a multidimensionalidade, que se refere ao reconhecimento de que o constructo da qualidade de vida é composto por diferentes dimensões204. Decerto, existe uma proximidade entre uma noção de qualidade de vida e uma noção de dignidade humana dentro do discurso médico e jurídico, principalmente no que se refere à persecução de fins semelhantes. Como se evidencia em seus conceitos, existe uma similitude que se adequa à proposta de promoção de direitos humanos, afinal, parece-nos que promover qualidade de vida, como diretriz basilar das políticas de saúde, corrobora na concretização de direitos humanos ligados à questão da saúde e, por consequência, no alcance de um patamar de dignidade humana. É na dignidade humana, como assegura o Professor José Claudio Monteiro de Brito Filho205, que se assenta o discurso jurídico dos direitos humanos, criando, a partir de seu conceito, um fundamento base e impondo um mínimo de direitos. Outrossim, o referido autor apresenta importante noção de dignidade humana, que pode ser adotada como referência para os fins pretendidos por esse trabalho, que se cita a seguir: A qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todoe qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.206 A dignidade humana, que se apresenta como um princípio jurídico autoevidente, é considerada para muitos especialistas como a última barreira frente às intervenções biotecnológicas irreversíveis da natureza humana, e, por isso, a partir do seu entendimento é que tem se pautado no estabelecimento de certos limites aos poderes crescentes da biotecnologia sobre a humanidade207. É necessário, portanto, que a noção da dignidade humana paute também as condutas e decisões ligadas a questões de saúde, biotecnologia e de racionalidade médico-científica, uma vez que existem razões mais que suficientes para a promoção dessa percepção no meio médico e científico, como problemas de escassez, falência do sistema de saúde, preservação da integridade física de indivíduos e outros cenários de conflitos atuais ligados à expansão das técnicas e tecnologias em saúde, especialmente em dilemas éticos do desenvolvimento e aplicação prático da genética médica. Dessa maneira, a inserção do conceito de dignidade humana no discurso e na prática médica possibilita aprimorar as intervenções em saúde sem agredir ou violar direitos essenciais a existência digna do ser humano, bem como perceber que a dignidade deve ser considerada como atributo do ser humano, algo que dele faz parte, e, portanto, o faz merecedor de respeito de um mínimo de direitos208. A dignidade humana, como princípio jurídico, tem se expressado em vários dilemas éticos- médicos para corroborar na compreensão de vida digna e tomada de decisões no campo da bioética, como nas questões que se relacionam ao limite da vida, como na eutanásia e ortotanásia. Entretanto, essa mesma percepção humanizada do sujeito humano não se manifesta com a mesma expressão na expansão biotecnocientífica, na ciência genética e na instrumentalização de seus destinatários, tendo muito frequentemente sido adotada com uso retórico frente aos avanços práticos da biotecnologia sobre a condição humana. Por isso, faz-se importante analisar aspectos da genética, uma vez que é a principal disciplina que prega a possibilidade do melhoramento humano e, certamente, possibilitou a expansão da medicina reprodutiva. Desse modo, realizar-se-á uma melhor análise crítica sobre as repercussões sociais possíveis em relação ao desenvolvimento de suas novas técnicas biomédicas e as reflexões sobre aspectos da preservação da dignidade humana no referido contexto. Sobre esse tema, Enrique Varsi Rospigliosi assinala que faz pouco tempo que a medicina e a tecnologia decidiram conhecer o homem com maior profundidade por meio da genética. Se antes a ideia de explorar e modificar o genoma humano era muito remota, hoje o descobrimento da genética oferece inúmeros benefícios ao homem, como a especialização de tratamentos e novas técnicas da engenharia genética, medicina biomolecular e biotecnologias em geral209. A genética, por sua vez, é a ciência encarregada de estudar a herança biológica, e, portanto, é responsável por tratar sobre a transmissibilidade das características morfológicas e fisiológicas de geração em geração dos seres vivos210. Sobre esse conceito, insta frisar que a genética é área da ciência médica que busca, sobretudo, tratar aspectos da hereditariedade genética dos organismos vivos com fito de conhecer e manipular informações para fins determinados. A genética e os estudos sobre hereditariedade mesclados com a biologia molecular foram responsáveis pelo aumento do conhecimento e de tecnologias que a humanidade passa no momento atual, sendo responsável pelo aprofundamento do entendimento do funcionamento de organismos biológicos a nível celular211. Pode se conceituar a genética como a ciência que estuda o DNA, sigla para ácido desoxirribonucleico, que é um composto orgânico de moléculas presentes em todos os seres vivos, componente o qual coordena o funcionamento e desenvolvimento biológico do ser, bem como suas características hereditárias212. A ciência genética é uma ciência recente, visto que se desenvolveu com maior relevância durante o início do século XX, e que atualmente ocupa um importante espaço de atuação na vida humana. São inúmeras as aplicações práticas permitidas pelos avanços da ciência genética, as quais englobam a produção de gêneros alimentícios na agricultura, o melhoramento genético de rebanhos de animais e também na medicina genética e molecular. Como se sabe, as raízes da genética clássica se encontram nos estudos do monge Gregor Mendel e outros geneticistas, que utilizavam organismos vivos para compreender os mecanismos de transmissão da herança genética, as repercussões nas características biológicas da prole e de fatores hereditários responsáveis por características genéticas e biológicas, a qual se deu o nome a palavra “gene”213. Posteriormente, com o aprofundamento dos estudos da ciência genética, se deu a identificação das bases moleculares dos ácidos nucleicos. Essa descoberta ocorreu somente em 1954, quando os cientistas James Watson e Francis Crick deduziram o modo de organização e interação química das moléculas do DNA (ácido desoxirribonucleico) e RNA (ácido ribonucleico)214. A descoberta da estrutura do DNA revolucionou o estudo da genética e possibilitou a análise científica da estrutura genética, de modo mais aprofundado. A compreensão molecular das informações genéticas possibilitou identificar a composição da maioria dos organismos vivos e seu DNA, bem como a estrutura de alguns vírus e sua constituição genética, o que possibilitou que cientistas aprofundassem os estudos de catalogação de genes e sequenciamento do DNA215. A pesquisa de sequenciamento de DNA e a catalogação de genes gerou o aprofundamento de estudos de informações genéticas em vários organismos vivos, inclusive seres humanos, que resultou na constatação de que a coleção de moléculas de DNA de um organismo é denominada de genoma. O paradigma de todos os programas de sequenciamento de DNA é o Projeto Genoma Humano, o qual consistiu em um esforço mundial para identificar a sequência de aproximadamente três bilhões de pares de nucleotídeos do DNA humano216. O Projeto Genoma Humano teve como embrião as pesquisas desenvolvidas no Centro de Polimorfismo Humano, localizado na França, as quais objetivavam decifrar o genoma para localizar genes defeituosos, responsáveis por cerca de cinco mil doenças de cunho genético, e apresentava fins exclusivamente humanísticos217. Por conseguinte, cientistas estadunidenses se interessaram posteriormente pelo projeto e expandiram pesquisas com objetivo de recolher informações sobre banco de dados genéticos e realizar o mapeamento do genoma humano e de outros organismos vivos, com um viés para fins mais mercadológicos do que médico-terapêuticos218. Logo, em 1990, o projeto Genoma Humano foi oficialmente instalado com a participação de inúmeros organismos governamentais, incluindo países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Japão e Brasil, dando-lhe um caráter mais universal e internacional, para fins de desvendar a intimidade genética e biológica dos seres humanos219. O referido projeto teve seus principais objetivos alcançados no início dos anos 2000, quando as consagradas revistas científicas Science e Nature publicaram os resultados de anos de pesquisa, constatando a possibilidade de marcação, da capacidade de leitura e da capacidade de sequenciamento do genoma humano220. Os seus principais resultados objetivos foram: Mapear e analisar o genoma a fim de obter a sua sequência ordenada; identificar o que determina as enfermidades, comprovando a função dos genes na etiologia e na patogenia da doença; desenvolver e melhorar os exames que possam ser usados na sequência do DNA e dos testes genéticos e criar formas de aperfeiçoamento para reparação ousubstituição dos genes que apresentem indicadores patológicos221. Desse modo, o Projeto Genoma Humano foi um importante acontecimento que elevou a um nível promissor e temerário, a compreensão da vida e de possibilidades de intervenções sobre a constituição dos seres vivos, o qual ofertou acesso inédito ao acervo de informações da estrutura biológica humana222. Nesse cenário, os esforços atuais da comunidade científica estão engajados na expansão da genética e se concentram em estudar como os genes influenciam a miríade de características dos seres humanos, sua variância genética e de outras espécies. Esse novo campo de estudo denominado de genômica, é responsável por perceber a correlação dos genes a nível molecular em aspectos biológicos dos seres vivos223. Dentre as facetas de estudo e aplicações da ciência genética na prática, encontram-se os segmentos a seguir: (a) genética molecular, a qual se incumbe do estudo, sequenciamento de informações genéticas e manipulação de informações; (b) genética das populações, a qual mapeia a manifestação genética de características em indivíduos de espécie biológicas, para fins de análises macro de saúde e qualidade genética de populações em geral; (c) genética na agricultura, a qual utiliza-se das tecnologias genéticas para fins de produção alimentícia, como na horticultura, na pecuária de bovinos e também na questão polêmica de alimentos transgênicos; (d) genética médica, a qual determina-se a aproximar a ciência genética dos sentimentos médicos e de saúde humana, segmento que se expande para áreas importantes como oncologia, reprodução e outras terapias224. A nova genética ou genômica, portanto, apresenta impactos significativos no comportamento humano, na sociedade, na vida, nas práticas médicas e em uma série de discursos a serem implementados e legitimados no contexto social. Essa problemática perpassa desde os pesquisadores e cientistas que geram o novo conhecimento, a comunidade empresarial que transforma este conhecimento em produto, até na maneira como a população absorve novos valores em suas práticas sociais em relação a percepção das descobertas da genômica como algo beneficente225. Nesse panorama, o uso e manipulação de informações genéticas enfrentam inúmeros dilemas éticos-científicos, principalmente no que se refere ao tratamento das informações genéticas e sua aplicabilidade prática. São inúmeros os interesses de expansão desse campo da ciência, desde o estudo da genômica para fins de encontrar significado médico de patologias, até para atividades agrícolas ou para fins comerciais. Esse enorme avanço científico no campo da genética cerca-se de incertezas éticas, legais e sociais, como aspectos da privacidade da informação genética, a segurança e eficácia da medicina genética e a justiça no uso das informações genéticas. Para os geneticistas, no DNA estariam todos os protos, a principal matéria a qual os seres vivos são constituídos, por isso, poder dominar esse conhecimento possibilitaria um alcance inimaginável do domínio de todos os seres vivos, uma vez que todos são constituídos de DNA226. Dessa maneira, os benefícios médicos alcançados pela possibilidade de acessar o conteúdo do DNA se opõem aos receios da administração de fatores desconhecidos, como o uso das informações genéticas para pretensões eugênicas ou de que a capacidade de manipular o genoma humano é capaz de descontruir a concepção de humanidade conhecida atualmente227. Por isso, a artificiação da vida humana por meio da genética pode gerar um determinismo e reducionismo genético, a partir do momento em que poder-se-á configurar que tipo de ser humano se deseja criar e que descendência se deseja ter228. É um caminho perigoso, pois, ao invés de julgar um indivíduo pelo que ele é, indaga-se sobre o seu status de doente genético em potencial, para tratá-lo como pessoa com alguma falta ou impedimento sem efetivamente o ter.229. O determinismo genético, como se percebe, reduz a condição humana ao seu aspecto gênico, suas informações e características genéticas, trata-se, portanto, de pensar que tudo obedece a determinações genéticas, desconsiderando as influências da natureza, do espaço social e da cultura na constituição do homem230. Dessa maneira, o determinismo genético tende a obscurecer o debate sobre melhoramento humano, pois trata de considerar a natureza humana como algo predeterminado. Por isso, o determinismo genético pode abrir uma grande margem para argumentações para fundamentar intervenções eugênicas, racistas e capacitistas por meio do avanço biotecnológico e da genética231. A Declaração Universal do Genoma Humano e dos Direitos Humanos veda práticas baseadas em determinismo e reducionismo genético, e, por isso, salienta que a personalidade do indivíduo não pode ser reduzida a meras características genéticas, sendo necessário considerar seu caráter único, sua identidade e também sua dignidade232. Nesse cenário, cria-se a necessidade de tutelar o bem jurídico do patrimônio genético individual e a autonomia do sujeito, para fins de evitar riscos à integridade da personalidade e não “genetizar” as relações humanas. A manipulação das informações genéticas pode criar uma espécie de discriminação, uma vez que o conhecimento dessas características genotípicas pode ser usado para legitimar decisões relacionadas à esfera pública e particular da pessoa e resultar, inclusive, em interferências genéticas para fins eugênicos, limpeza étnica e controle populacional. Sobre esse panorama um tanto quanto perigoso, muitos Estados já demonstram preocupação com as possíveis ameaças da genética frente à fragilidade da condição humana em relação ao avanço biotecnocientífico. Nesse sentido, as constituições modernas, como da Suíça, Portugal e Espanha têm procurado ressaltar a tutela contra o uso desregrado da ciência, da medicina genética e da técnica em seus diplomas constitucionais233. É possível perceber uma preocupação com bens jurídicos, como a identidade genética, a qual aparece em inúmeros documentos internacionais, e uma ampla diretriz de proteção jurídica a dignidade humana frente às intervenções biotecnológicas. O acesso à informação genética, por exemplo, evidenciou o uso de práticas médicos seletivas com o objetivo terapêutico conduzidas pelas técnicas de diagnóstico genético. Por isso, especialistas identificaram a necessidade de preservação da identidade genética e da intimidade para fins de evitar a objetificação dos seres humanos e dar abertura para a legitimação de práticas seletivas e eugênicas, em especial das pessoas consideradas deficientes ou inaptas geneticamente. Analisar a questão da deficiência sob o viés da visão medicalizada, que coloca o profissional geneticista como principal vetor no processo de decisões na busca de um suposto melhoramento humano, parece ser a manifestação mais comum quando se confronta com as possibilidades oferecidas pela medicina genética e preditiva234. Entretanto, importa salientar que a visão capacitista e medicalizada sobre as pessoas com deficiência estão superadas, ao menos nas diretivas jurídicas propostas pela Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, a qual sugere uma visão biopsicossocial desses sujeitos, e não reducionista e determinista quanto a sua existência, promovendo o reconhecimento e valorização das diferenças235. Não só a pessoa com deficiência, mas toda uma diversidade humana pode ser colocada em risco por conta das decisões que se correlacionam com a manipulação genética, o que pode incluir escolhas baseadas em critérios sexistas e racistas. É uma necessidade emergencial discutir, no Brasil e no mundo, um código de ética para acompanhar o desenvolvimento da ciência no que diz respeito à reprodução humana e na manipulação genética. Quanto mais a engenharia genética progredir, mais se terá condições de manipular a espécie humana e suas características biológicas, o que pode trazer benefícios desejáveis, mas também ser aliada para uso em fins indevidos. O homem como objeto da sua própriatécnica e a sua submissão ao conhecimento genético é tema de investigação e reflexão na literatura especializada236. Sobre o assunto, o bioeticista Hans Jonas já previa sobre o desejo ambicioso do homo faber237, de tomar a sua mão a própria evolução, a fim de além de preservar sua espécie, melhorá-la e modificá-la segundo seu próprio projeto238. Nesse diapasão, Hans Jonas questiona sobre que padrão será base para essas modificações, a seguir: Saber se temos o direito de fazê-lo, se somos qualificados para esse papel de criador, tal é a pergunta mais séria que se pode fazer ao homem que se encontra subitamente da posse de um poder tão grande diante do destino. Quem serão os criadores de “imagens”, conforme, quais modelos, com base em qual saber? Também cabe a pergunta sobre o direto moral de fazer experimentos com seres humanos. Essas perguntas e outra semelhantes que exigem uma resposta antes que nos deixemos levar em uma viagem ao desconhecido, mostram a forma contundente até que ponto o nosso poder de agir nos remete para além dos conceitos de toda ética anterior239. A preocupação prudencial do autor sobre os avanços tecnocientíficos se faz essencial para refletir sobre a utilização da técnica, seus limites e sua moral de uso, em especial da expansão da genética. Nesse cenário, é possível identificar um vácuo ético, caracterizado por um niilismo normativo científico, que conforme posicionamento de Hans Jonas oferece solo fértil para que o “maior dos poderes se alie ao maior dos vazios, e a maior das capacidades se alie ao menor dos saberes sobre como utilizar toda essa potencialidade oferecida pelo avanço biotecnocientífico”. No mesmo sentido, preocupa-se Fátima Oliveira sobre o constructo social-científico, em especial das biociências, que não fogem à regra da impregnação de ideias de naturalização e banalização da opressão de gênero, de racismo e do capacitismo. Além do que, a genética traz consigo grandes questionamentos sobre a dignidade humana e sua transformação frente às modificações provenientes do avanço da tecnociência240. Nesse panorama que se discute aspectos sobre o melhoramento humano destaca-se a polarização de correntes políticas e ideológicas sobre o modelo idealizado desse futuro sujeito, razão pela qual se apresentará no tópico a seguir o debate bioético, aspectos filosóficos e a discussão moral sobre o melhoramento humano. 2.3. Bioética e conflitos sobre o melhoramento humano A questão do melhoramento humano não é tema novo no debate bioético, se apresenta como uma pretensão antiga de setores da comunidade científica e que já resultou em inúmeras situações de violações e atrocidades no passado. O intuito de ter humanos melhores ou mais aptos é um objetivo traçado pelo progressivismo científico e que busca convencer a sociedade de que isto é uma benesse. Entretanto, deve-se considerar que é uma escolha complexa e que requer reflexões morais, políticas e sociais sobre suas implicações e repercussões no contexto sociocultural humano. Deve se dar especial atenção a abordagens de correntes que expressam um darwinismo social, racismo, eugenismo, dentre outras ideologias que adotam critérios de melhoria das qualidades humanas e conduzem a exclusão de diversos grupos de pessoas que são consideradas inaptas pelos valores dessas correntes. Algumas experiências práticas das novas tecnologias de reprodução assistida demonstram a expressão e crescimento de doutrinas eugênicas que se valem das deturpações de saberes da genética para fazer valer seus valores e ideais excludentes. Nesse rol, por exemplo, podem ser citados os bancos de sêmens, bebês de pranchetas e aborto eugênico, os quais são práticas controversas e que, até os dias atuais, não apresentam um consenso ético. Nesse cenário, evidencia-se o conflito do uso ético do conhecimento científico para controle social, exercício de biopoder e o melhoramento em relação às questões de justiça e exclusão social. Decerto, realizar intervenções científicas e genéticas em seres humanos para fins de melhoramento importa uma conduta de extrema responsabilidade. Para Hans Jonas, o melhorismo, termo que utiliza para se referir à ideologia do melhoramento, não justifica apostas totais, a sobreposição da prevenção do mal maior e não obtenção do bem maior como justificativa de que, em certas circunstâncias, se arrisque, inclusive, interesses alheios para fins de atender determinados desejos de melhoramento241. O melhoramento, portanto, se dá mais aos passos da soberba e do experimento, do que necessariamente da necessidade humana. Por isso, os danos decorrentes de sua prática tecnológica podem ser tão gravosos e irremediáveis. Por outro lado, existe um entusiasmo significativo em relação aos desenvolvimentos proporcionados pela biotecnologia. Esse otimismo tecnológico precisa ser observado com certa cautela, uma vez que os novos procedimentos e ofertas da ciência apetecem de consolidar práticas de segurança e diminuição de riscos aos seus usuários. O desenvolvimento de novas biotecnologias, por conseguinte, promoveu, por meio de suas inovadoras técnicas, a possibilidade de os seres humanos terem a capacidade de assumir muito mais controle sobre suas vidas, diminuindo nossa sujeição à doença, ao destino infeliz, ao acaso e às necessidades242. Com a incidência de relações tecnológicas e prevalência da ciência sobre temas políticos e problemas socioculturais, o homem demonstra maior domínio sobre questões antes consideradas como imprevisíveis, sendo possível mitigar crises como o surgimento de pestes, a excessiva fome, grandes guerras e fenômenos da natureza, com maior poder sobre a gestão de recursos naturais243. Esse domínio tecnocientífico sobre fenômenos naturais, políticos e sociais, antes incontroláveis, possibilitou a comunidade humana enveredar esforços para o desenvolvimento da ciência e alcançar o progresso em temas que buscam a melhoria do bem-estar geral, qualidade de vida, a superação de problemas ligados à saúde coletiva e a realização de diversos anseios humanos. Nesse contexto, o transumanismo surge como uma filosofia moderna que pretende oferecer diretrizes para legitimar o melhoramento humano e alcançar uma denominada condição pós- humana. O seu expoente pensador é Max More que apresenta na obra Transhumanism – Towards a Futurist Philosophy (1990) os fundamentos da corrente que conjuga os valores do humanismo, da racionalidade, do cientificismo, o compromisso pelo progresso e a valorização da existência (pós) humana244. Desse modo, cita-se Max More: Como os humanistas, os transhumanistas privilegiam a razão, o progresso, e os valores centrados no nosso bem- estar em vez de numa autoridade religiosa externa. Os transhumanistas estendem o humanismo questionando os limites humanos por meio da ciência e da tecnologia combinando-o com um pensamento crítico e criativo. Nós questionamos o caráter inevitável da velhice e da morte, procuramos melhorar progressivamente nossas capacidades intelectuais e físicas, e nos desenvolver emocionalmente. Vemos a humanidade como uma fase de transição no desenvolvimento evolucionário da inteligência. Defendemos o uso da ciência para acelerar a nossa passagem de uma condição humana para uma condição trans – humana ou pós-humana245. Pode-se afirmar que a filosofia transumanista se apresenta, para além de um projeto ideológico, uma revisitação ao iluminismo, com viés secularista e biológico, que não busca mais superar as amarras da superstição e do religioso, mas sim os limites do biológico por meio da razão, da ciência e da tecnologia para eliminar doença, melhorar o corpo-mente e superar a morte246. Dessa forma, é notória influência do iluminismo, do racionalismo e do humanismo na citada corrente filosófica, a partir da leitura de Nicolas Condorcet, de 1795, vide excerto a seguir: [...] Nossas esperanças quanto aos destinos da espécie humana podem se reduzir a estas três questões: a destruição da desigualdade entre as nações; os progressos da igualdade em um mesmo povo; e, por fim,o aperfeiçoamento real do homem. [...] Deve a espécie humana melhorar, seja por novas descobertas nas ciências ou nas artes e, por uma necessária consequência, nos meios de bem-estar particular e de prosperidade comum; seja por progressos nos princípios de conduta e na moral prática, seja por fim, pelo aperfeiçoamento das faculdades intelectuais, morais e físicas, que pode igualmente decorrer disso, ou dos instrumentos que aumentam a intensidade e dirigem o uso dessas faculdades, ou até mesmo, naquele da organização natural? Ao responder essas três perguntas, encontraremos na experiência do passado, na observação dos progressos da ciência, que a civilização fizera até agora, na análise do andamento do espírito humano e do desenvolvimento das suas faculdades, os motivos mais fortes para crer que a natureza não impôs nenhum limite às nossas esperanças247. O transumanismo apresenta em um dos seus mais importantes documentos, a Declaração Transumanista (1998), diretrizes e princípios filosóficos, dentre os quais se destacam: a aceitação de um futuro tecnocientífico para a humanidade; a ampliação do potencial humano para superar questões que trazem sofrimento involuntário, como o envelhecimento e as deficiências; a prevenção do uso indevido da tecnologia; a redução de riscos existenciais e meios de desenvolvimento para preservação da vida; a criação de políticas públicas baseadas em uma visão moral de responsabilidade e de respeito para com as gerações futuras; a defesa do bem- estar dos seres sencientes, inclusive intelectos artificiais; a autonomia e ampla escolha pessoal sobre como as pessoas desejam viver suas vidas. O transumanismo constitui-se uma visão científica e axiológica criteriosa, é uma corrente que defende o contexto pós-humano com condições básicas de segurança global, progresso tecnológico, pragmatismo-científico, amplo acesso às oportunidades oferecidas pela tecnociência, liberdade para alteração da natureza biológica, morfológica e reprodutiva do homem, ampliação da inteligência, defesa da diversidade, respeito a todas as vidas sencientes e prolongação da vida248. A existência de inúmeras correntes dentro do transumanismo possibilita a criação de diversos projetos transumanista, os quais objetivam resultados comuns por vias diferentes. Dentre as correntes mais reconhecidas, destaca-se o transumanismo biológico, o qual propugna o melhoramento biológico por meio de técnicas e estratégias atinentes à biologia humana e animal. O contexto “pós-humano” é um cenário que começa a ser desenhado e que torna-se perceptível a partir do momento em que o ser humano, dispondo do domínio de todo aparato tecnológico, científico e informacional, apresenta-se com a pretensão de desafiar o mito do divino, como da onisciência, imortalidade e a quebra da imagem e semelhança. Segundo Harari, a elevação dos seres humanos à condição de “deuses” se dará em decorrência dos avanços em determinadas áreas do saber científico, como a engenharia biológica, a engenharia cibernética e engenharia de seres não orgânicos249. É na engenharia biológica que a técnica se apresenta disposta a realizar todas as modificações necessárias para melhorar as qualidades humanas, como o aprimoramento genético e o controle dos ciclos bioquímicos, e não pretende mais aguardar a dinâmica do processo de seleção natural250. A ela se alia a vertente denominada de transumanismo biológico, que propaga a superação dos limites biológicos, melhores características física, intelectuais e emocionais, por meio de intervenções médicas-científicas, as quais proporcionem um almejado aperfeiçoamento da espécie, um enriquecimento qualitativo de seres humanos251. Dentre todas as tecnologias de reprodução assistida e engenharia genética, a que mais chama atenção é o melhoramento genético e a criação do chamado “bebê de prancheta”, isto é, conforme afirma Francis Fukuyama, geneticistas identificarão o gene para uma característica desejável, como inteligência, cor de cabelo, altura, agressividade e autoestima, para fins de criar uma versão melhorada da futura prole252. O melhoramento genético é uma das principais técnicas oferecidas pela engenharia biológica. A capacidade tecnológica de edição dessas informações genéticas tem crescido de modo instantâneo, o que resultou na descoberta recente de uma técnica denominada “Crispr- Cas9”, que possibilita, grosso modo, cortar e colar as informações constantes em nosso DNA, de maneira muito mais fácil e barata, em um procedimento chamado de biocirurgia253. Certamente, os avanços da genética viabilizam uma possibilidade de tratar inúmeras doenças debilitantes, como também apresenta a possibilidade de manipulação da natureza humana, como melhorar as capacidades, habilidades cognitivas e outras características genéticas dos descendentes, entretanto existe um evidente mal-estar moral quando se trata da engenharia biológica e as pessoas com deficiência254. Novas formas de exclusão se manifestam, como o reducionismo científico, o determinismo genético, as teorias pseudocientíficas, o evolucionismo genético, a eugenia negativa e a discriminação genética que afetam não só as pessoas com deficiência, mas também outros segmentos sociais identificados como minorias sociais, as quais foram historicamente injustiçadas por um sistemático tratamento excludente promovido pela sociedade e muitas vezes institucionalizado pelo poder estatal. Sobre o melhoramento genético, como brevemente citado, muitos especialistas acusam a filosofia transumanista de levar a um novo projeto eugenista. Diferente do antigo eugenismo estatal, de viés totalitário, o “neoeugenismo” se funda em uma ideia liberal, de liberdade individual, supostamente equalizador de condições, de igualdade genética, que busca inclusive observar aspectos de um ideal de justiça, livre da, por vezes injusta, loteria natural255. O transumanismo biológico revela uma faceta de um novo eugenismo, fundado em uma suposta liberdade individual, na equalização de condições, na igualdade genética, na reparação de desigualdades promovidas pela loteria natural e promoção de uma igual dignidade256. Entretanto, é preciso observar com cautela os efeitos práticos desse humano ideal proposto pelo transumanismo biológico, uma vez que a sua aliança com o utilitarismo médico pode provocar ainda mais injustiças, mais segregação e efeitos discriminatórios racistas, além de que pode também promover uma artificiação da vida por interesses mercadológicos. A possibilidade do melhoramento humano assusta a grande maioria dos interlocutores da bioética, uma vez que defendem majoritariamente o progresso regrado e ético da biotecnociência, e, além disso, requerem um uso equilibrado e moralmente correto das novas possibilidades científicas, dentro de uma ética minimamente responsável. O debate sobre o aprimoramento humano pelo melhoramento genético apresenta um espectro moral indissociável. De modo geral, bioconservadores temem pela instrumentalização da biologia humana e prezam pela proteção da essência humana, e progressistas pregam a superação dos limites biológicos como forma de melhorar o humano em todas as suas dimensões a fim de oferecer possibilidades de florescimento humano257. Com relação aos argumentos de princípios filosóficos contrários ao transumanismo, destacam-se dentre os inúmeros pensadores, Francis Fukuyama e Jürgen Habermas, os quais, embora tradicionalmente sejam de espectros políticos diferentes, apresentam argumentações contrárias à ética de um modelo médico-utilitarista de aprimoramento humano. Na visão de Francis Fukuyama na obra Nosso Futuro Pós-Humano: Consequências da Revolução Biotecnológica (2003), as críticas ao progressivismo transumanista biológico na questão do aprimoramento humano pela via da engenharia genética com fins de melhoramento biológico se dá por objeções de viés religiosos, contra-argumentação as considerações utilitaristas e por princípios filosóficos258. Com relação à expansão e legitimação das práticas da engenharia genética e aética da experimentação dessas técnicas em seres humanos, impõe-se a chamada lei das inconsequências involuntárias, a qual considera a causalidade complexa de que a intervenção gênica ocasionaria outros transtornos, afetação de outras características gênicas, possíveis mutações ou novas doenças259. As considerações religiosas, em especial das religiões ocidentais, consideram o entendimento teológico tradicional de que Deus foi o criador do homem e o fez à sua imagem e semelhança, modificar a natureza humana implicaria em afetação ao seu status moral e à dignidade humana. Já para os utilitaristas, os avanços biotecnocientíficos representam alto custo para pouco retorno concreto, e consequências negativas imprevisíveis, os quais se denominam de danos intangíveis260. Por isso, para o bioconservador Francis Fukuyama, é imperioso respeitar a ordem natural das coisas e não pensar como o ser humano pode realizar uma intervenção fortuita, é, portanto, um defensor da sacralização da natureza como norma moral para conter o avanço tecnológico baseado em um transumanismo desregrado261. Sobre o tema, Jürgen Habermas, na obra O Futuro da Natureza Humana: A caminho de uma eugenia liberal (2004), traça as suas considerações no sentido de defender a manutenção de um modelo terapêutico contra a modificação da natureza humana, pois compreende as intervenções eugênicas de aperfeiçoamento como prejudiciais à liberdade ética na medida em que submete as pessoas a intenções fixadas por terceiros, o que também implicaria em ressonâncias psíquicas e morais262. Além disso, o pensador alemão considera em seus escritos uma preocupação central com as atitudes subjacentes à intervenção genética e à ausência de respeito e consideração pela dignidade da vida humana, com uma abordagem voltada à análise de aspectos relacionados com os fundamentos naturais e antropológicos da autonomia e liberdade ética, uma vez que Habermas defende que elementos empíricos e a consciência de manipulação genética, podem impossibilitar pessoas de se compreenderem como iguais e livres263. Jürgen Habermas recorre a uma ética da espécie para impor restrições morais as intervenções biotecnológicas que podem ser realizadas, a qual se utiliza de pressupostos da moral tradicional para fins de legitimar um discurso contrário às manipulações genéticas da natureza humana, como a igualdade, a autonomia, a responsabilidade e dignidade humana. A perspectiva habermasiana compreende que a engenharia genética pode afetar a estrutura geral da experiência moral, por isso, carece ainda de um debate democrático, em especial sobre a noção de saúde e doença, uma vez que apresentam difícil delimitação em virtude do pluralismo da concepção dos termos, e, portanto, almeja amadurecer as ideias envoltas às intervenções médicas e genéticas que se orientam por uma suposta lógica de cura ou de melhoramento264. Habermas, portanto, defende que certos tipos de intervenções genéticas que buscam melhoramento e aperfeiçoamento devem ser restritas e indisponíveis ao arbítrio dos pais, uma vez que ofendem a esfera ética da liberdade do sujeito a ser concebido, o que resulta em diversos conflitos éticos, de cunho individuais e coletivos. Sobre a questão, explica Charles Feldhaus: O ponto de Habermas é que a indisponibilidade [Unversfügbarkeit] não se restringe apenas a quem receba o estatuto de um sujeito de direitos e de quem é dotado de dignidade humana [Menschenwürde]. Com a distinção entre inviolabilidade [Unantastbarkeit] da dignidade humana e indisponibilidade da vida humana pré-pessoal, Habermas (2004) quer ressaltar que não há agressão ao direito de uma pessoa existente, mas sim uma redução do estatuto de uma pessoa futura e um prejuízo à consciência da autonomia. Não há uma privação de direitos, mas uma insegurança no que diz respeito ao estatuto da pessoa manipulada265. Dessa maneira, percebe-se que o autor alemão explicita em seu posicionamento a necessidade de restrição ao livre exercício da liberdade reprodutiva em relação a outros valores, em prol da proteção à pessoa futura que o embrião se tornará. O referido pensador busca ampliar a noção de dignidade humana a fim de abarcar a vida da pessoa manipulada, uma espécie de núcleo de direitos da pré-pessoa, os quais apresentam intercessões com a dignidade humana. Nesses termos, o autor defende: [...] a prática eugênica pode prejudicar o status da futura pessoa enquanto membro da comunidade universal dos seres morais, sem intervir diretamente nas esferas da liberdade da ação do indivíduo em crescimento geneticamente modificado. Nesse caso, ninguém está sujeito a leis gerais – exceto em seu papel de legislador autônomo – de modo que está excluído a heterodeterminação no sentido de submeter uma pessoa ao arbítrio injustificado de outra266. Mais uma vez, remete-se à dignidade humana para fins de solução de conflitos que envolvem direitos humanos. Por isso, propõe-se uma ressignificação do termo dignidade para fins de incluir a proteção a vida pré-pessoal e esses sujeitos no espectro de proteção moral, por considerá-los também sujeitos dotados de dignidade, valores e respeito267. Percebe-se, de modo geral, que para esses bioconservadores, o aperfeiçoamento humano seria moralmente condenável pela sua potencialidade de alterar ou até mesmo destruir a natureza humana, bem como por comprometer nossa capacidade de determinar o bem, uma vez que com a natureza alterada, impossibilita-se sua determinação268. Portanto, é muito importante considerar a argumentação prudencial e rejeitar o otimismo tecnológico, de modo que se possibilite perceber suas repercussões no espaço social e na modificação do status da natureza humana frente às ofertas da biotecnologia, em especial da genômica, principalmente contra os segmentos mais vulnerabilizados da sociedade. Além da proposta transumanista de melhoramento humano que envolve amplo debate sobre questões eugênicas, conforme percebido, a bioética utilitarista, ou também chamada por nós de utilitarismo médico, apresenta propostas que fazem conexão com o panorama neoeugênico promovido pelo avanço da tecnologia. Esse viés é percebido principalmente na tentativa da reformulação de valores da revisitação do utilitarismo proposto por Peter Singer e que busca legitimar decisões médicas excludentes que afetam minorias sociais. Essa perspectiva polêmica sobre as fundamentações das decisões médicas, em especial a respeito da vida com deficiência, será analisada e criticada no tópico a seguir. 2.4. A bioética utilitarista e a vida com deficiência O utilitarismo é uma corrente filosófica com fins práticos e que sempre se apresentou como uma proposta de regulação das relações humanas, políticas estatais e conflitos morais das decisões que circundam o convívio dos seres humanos em sociedade. O utilitarismo se tornou muito popular em incursões médicas e bioéticas que contextualizaram e justificaram decisões de circunstâncias do cotidiano médico e sanitário em geral, por isso é corriqueiro debater o utilitarismo nos debates morais da medicina. O bioeticista do utilitarismo médico reconhece responsabilidades morais pela ótica do consequencialismo, ou seja, pelas escolhas individuais, e as classificam como conduta boa ou correta como sendo aquela que seja útil na promoção e na maximização do bem-estar e da felicidade humana, ou seja, grosso modo, a conduta ética que visa a maximização dos resultados é desejável e a conduta errada é aquela que causa consequências nocivas ao bem estar comunitário269. Dessa maneira, pode-se afirmar que a doutrina do utilitarismo é uma ética consequencialista que prega que as coisas devem ser medidas conforme suas consequências possíveis, e, além disso, compreende a utilidade ou a felicidade como o valor moral que deve ser elevado o máximo possível270. Nesse sentido, explica um dos seus percursores, John Stuart Mill, os fundamentos do utilitarismo: A doutrina que aceita como fundamento da moral a utilidade, ou o princípio da felicidade maior, defende que as açõessão corretas na medida em que tendem a promover a felicidade, e incorretas na medida em que tendem a gerar o contrário da felicidade. Por felicidade se entende o prazer e ausência de dor; por infelicidade, a dor e a privação do prazer271. Os principais representantes do utilitarismo são Jeremy Bentham, John Stuart Mill e, mais recente, Peter Singer. Seu fundador foi Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo moral, que inaugurou a doutrina com a ideia central de que o mais elevado objeto da moral é maximizar a felicidade, assegurando a hegemonia do prazer sobre a dor. Dessa forma, para Bentham, as bases do utilitarismo pregam que a coisa certa a fazer é aquela que maximizará a utilidade, definida como aquilo que produz prazer ou felicidade e que evite a dor ou o sofrimento272 John Stuart Mill tentou revisar a doutrina de Bentham e tornar o utilitarismo uma corrente mais humana com intuito de conciliá-la com os direitos individuais273 e inseriu a ideia de que o mais importante não é a felicidade do indivíduo, mas a quantidade maior de felicidade do maior número de pessoas274. John Stuart Mill também defendia que existem limites à soberania do governo em interferir na esfera individual do cidadão, bem como apresentou o princípio do dano, na qual apregoava que todo indivíduo deveria respeitar os direitos dos demais indivíduos com o fim de que sua conduta não resulte em um dano275. Peter Singer explica que o utilitarismo é uma das teorias consequencialistas mais adotadas até os dias atuais. É uma doutrina em que seus seguidores não justificam suas ações em regras morais, mas em seus anseios individuais, que fundamentam a qualidade das suas ações em prol de seus objetivos276. Por ser pragmática nas respostas das circunstâncias, é muito utilizada nas políticas em saúde e apresentam raciocínios, como o citado a seguir: De acordo com esta corrente bioética, os programas de controle da natalidade são considerados apropriados para reduzir o número de gravidezes não desejadas, que resultarão em abortos induzidos, e o aborto induzido deveria ser legal e executado por médicos ou por pessoal treinado, a fim de diminuir a incidência de abortos inseguros, que resultam na morte ou danos às mulheres277. Sem aprofundar o mérito dessas afirmações e não entrar na moralidade da questão do aborto, percebe-se que a racionalidade utilitarista busca uma política de diminuição de danos e maximização do bem-estar coletivo. No campo da saúde é frequentemente utilizada para discutir a questão de alocações de recursos financeiros em políticas públicas sanitárias e em decisões médicas. Outro exemplo em políticas utilitaristas de alocação de recursos em saúde pode ser analisado no excerto abaixo: Esta ética defende a consagração de uma proporção maior de recursos para tratar ou amenizar distúrbios entre pessoas jovens, a fim de promover as perspectivas de cada um de alcançar a velhice com boa saúde. Ou seja, os cuidados relativamente baratos, necessários para atender aos pacientes jovens são privilegiados em detrimento dos tratamentos excessivamente caros que atendem a um número pequeno de idosos gravemente doentes, refletindo uma orientação ética utilitarista de buscar o melhor benefício para o maior número de pacientes278. As contribuições utilitaristas na bioética, em geral, consistem na formação e no enriquecimento da fundamentação das dimensões individuais dos princípios da autonomia e da beneficência, bem como nas recomendações práticas para a importância do exercício da verdade na relação médico-paciente279. A corrente utilitarista também aprova o uso de técnicas, como pesquisas em embriões humanos, para melhorar o conhecimento e as práticas reprodutivas, como as pesquisas desenvolvidas com células-tronco e clonagem de embriões humanos, por seu potencial de alcançar benefícios para a saúde coletiva em decorrência de um sacrifício menor em prol de um bem maior280. Dentre os seus posicionamentos mais controversos, o utilitarismo médico prega o uso de informações médicas e a busca por descobertas científicas obtidas por práticas que violam os direitos humanos, em prol de uma justificação para tentar alcançar os resultados individualmente desejados. O utilitarista clássico admite uma ação correta ou errada quando a compara com uma ação alternativa e afere a que produz maior quantidade de felicidade a todos que por ela serão atingidos, e, por isso, no utilitarismo, as consequências de uma ação variam conforme as circunstâncias praticadas281. É uma corrente da filosofia política que fundamentou inúmeras decisões governamentais e políticas públicas comunitárias, tendo grande influência em medidas estatais durante o seu desenvolvimento. Já o utilitarismo moderno apresenta como seu maior pensador Peter Singer, filósofo australiano, que produziu grandes influências para discussões do pensamento bioético, em especial na ética prática e nas decisões correlacionadas à medicina e suas inovações tecnológicas. A principal obra de Peter Singer, em língua portuguesa, sobre o tema da bioética é Ética Prática (2002), trabalho onde o autor reuniu seus maiores escritos sobre os temas correlatos ao utilitarismo, aborto, pessoas com deficiência e demais temas da filosofia moral. Singer apresenta uma ideia sofisticada e um raciocínio atrativo, e, por isso, muitos intelectuais e pensadores modernos concordam com parte de seus argumentos, embora não se filiem à sua corrente filosófica de maneira direta. Peter Singer admite ter recebido diversas críticas pela divulgação de seu trabalho, em especial, na sua conturbada passagem pela Alemanha, na década de 1980, ocasião em que ocorreram protestos de ativistas dos direitos das pessoas com deficiência e cancelamento de palestras. É um autor que costuma se apresentar como incompreendido, por receber muitas críticas de leitores que encontram seus argumentos expostos e descontextualizados em artigos científicos dispersos. Entretanto, seu discurso apresenta uma noção conflitiva em relação ao ideal de proteção das pessoas com deficiência que merece ser melhor abordada282. Singer apresenta críticas à atual concepção de igualdade que a apregoa como uma ideia absoluta entre os seres humanos. Dessa maneira, o autor sustenta-se em Rawls para fundamentar que os seres humanos são diferentes entre si, pois apresentam concepções de moral e justiça plurais. É a partir dessa percepção que Singer (2002, p. 28-29) afirma que nem todos os seres humanos são pessoas morais, uma vez que as pessoas com problemas mentais, os bebês e as crianças carecem de um senso de justiça, logo não são iguais aos demais, pois diferem enquanto indivíduo283. Nesse sentido, Singer apresenta o seu princípio da igualdade de interesses, o qual apregoa que a todo interesse deve ser considerado e atribuído peso igual e, dessa forma, questões como raça, sexo, capacidade intelectual ou moral são secundárias para a consideração dos interesses. É uma concepção que não advoga a igualdade entre as pessoas, mas entre os seus interesses, os quais serão mitigados um em prol do outro284. Peter Singer aparenta ter interesse de afastar as bases científicas da moral que identifica a ideia de igualdade enquanto absoluta e impeditiva de afirmar as diferenças biológicas sem que sejam reconhecidas como considerações éticas e políticas sexistas e racistas ou discriminatórias. Ainda assim, o autor trata de dissertar sobre a questão da igualdade e a deficiência, a respeito do que em primeiro momento reconhece a justificativa da adoção de ações afirmativas e a necessidade de igualdade de condições com as demais pessoas, sob a ótica do princípio do igual interesse285. Entretanto, disserta o autor que muitos confundem seu posicionamento inicial com a sua proposta para justificar os argumentos do aborto e do infanticídio de pessoas com deficiência, uma vez que defende que a vida com deficiência é inferior, causa dor, sofrimento e ninguém desejaria ter uma prole com deficiência como interesse da sua felicidade286. Singer também dedica-se a apresentar seusargumentos sobre a prática do aborto, que reconhece como tema delicado da filosofia moral. Ele defende que o óvulo fertilizado é uma célula única que depois de vários dias não deixou de ser um aglomerado de células sem características anatômicas do ser em que se transformará287. Na oportunidade, Singer também discute sobre status do feto e apresenta sua visão sobre a questão a partir dos argumentos conservadores e liberais, para posteriormente adentrar em uma discussão mais ampla sobre o valor da vida e os aspectos correlacionados com o aborto seletivo e o infanticídio de crianças. Para além do debate tradicional e hegemônico sobre o aborto, que se pauta em argumentos com fundamentos na autonomia reprodutiva da mulher em oposição à ética religiosa ou científica conservadora, temas que não são objetivos da discussão desse trabalho (e também por acreditar que é mais salutar dar importância para os resultados práticos do que aos discursos retóricos), descrever-se-á a percepção do conceito de “pessoalidade” proposto por Peter Singer e sua visão moral de vida com deficiência. Assim, Singer disserta sobre as decisões de vida e morte nos casos dos bebês deficientes e apresenta razões pelas quais defende o aborto e o infanticídio como meios de alcançar o objetivo utilitarista de diminuir o sofrimento e a sacralidade da vida humana288. Peter Singer afirma que algumas deficiências apresentam questões mais triviais, mas, no geral, os pais apresentam motivos consistentes para lamentar o nascimento de uma criança deficiente, os quais justificam a morte da criança com deficiência289. O autor defende que os bebês são seres sencientes, que não são seres racionais, nem autoconscientes, por isso não são relevantes para ostatusmoral da sua espécie290. O autor afirma que, nesses termos, a vida de um bebê com deficiência vai ser tão miserável que não valerá a pena viver, o utilitarismo apresentará argumentos favoráveis ao seu extermínio em prol do não sofrimento e rejeição da dor. Singer afirma que existe uma perspectiva de que a vida de uma criança normal será significativamente mais feliz que uma criança com alguma deficiência grave. Portanto, à luz do utilitarismo, a vida da criança com o dito padrão normal da espécie apresenta uma carga valorativa maior do que a vida de uma criança com deficiência291. O autor admite a dificuldade de que a moralidade atual compreenda a morte de uma criança com deficiência longe do espectro do assassinato. Peter Singer adentra na questão do diagnóstico pré-natal e afirma que fetos identificados com hemofilia, síndrome de down e outros transtornos genéticos são comumente abortados e que essa deveria ser uma prática aceitável, pois seria superada pela conquista de uma futura vida melhor para uma criança normal292. Dessa maneira, Peter Singer busca esclarecer que o seu posicionamento não implica em falta de respeito ou igual consideração pelas pessoas com deficiência, mas acredita ser razoável que os pais pudessem ser capazes de tomar essa decisão que resultaria no aborto seletivo293. Portanto, Singer demonstra seu posicionamento ao afirmar que, para o utilitarismo médico, tirar a vida de um bebê deficiente não equivale, moralmente, a tirar a vida de um bebê normal e que essa prática não deveria representar erro algum294. Sintetiza o entendimento do autor a afirmação de que um bebê com deficiência não tem garantido o seu caráter de pessoalidade, pois não tem capacidade de relacionamento social, noção de tempo histórico, linguagem e atributos que um ser vivo com consciência possa desenvolver295. Percebe-se da racionalidade utilitarista que existe uma total incompatibilidade dessa doutrina com a doutrina de direitos humanos, uma vez que apregoa a prática de violações de direitos humanos e direitos individuais em prol de produzir um suposto bem ou diminuir sofrimento, sem considerar as repercussões sociais e culturais do ato. Nesse sentido, ensina José Claudio Monteiro de Brito Filho que o utilitarismo é inadequado para sustentar uma noção de direitos humanos. Por isso, ao se apresentar como uma teoria ética teleológica, isto é, define o que deve ser feito a partir de uma concepção de boa vida humana, se expressa como uma corrente vazia de conteúdo próprio e resulta em uma agregação de preferências e desejos individuais, sem que a motivação ou a validade dessas preferências e desejos sejam debatidas e legitimadas296. Uma importante crítica aos posicionamentos utilitaristas em geral é de que as diferenças e distinções realizada entre pessoas devido a fatores arbitrários morais, como, por exemplo, raça, gênero, idade e deficiência, devem ser consideradas inválidas e sem fundamentação racional, pois as diferenças entre pessoas em sociedades igualitárias devem ser vistas e tratadas com medidas positivas para valorização da diversidade humana297. O utilitarismo caracteriza-se pela predominância do bem sobre o justo, sendo o resultado o que indica o ato como moralmente correto, bem como o fato de que, no utilitarismo, as preferências dos integrantes dos grupos minoritários são ignoradas, desde que se maximize a utilidade e se contemple a maior parte dos indivíduos298. O utilitarismo apresenta-se como uma doutrina bioética excludente, e, portanto, incompatível com o paradigma atual de preservação e valorização dos direitos humanos necessárias nas práticas de intervenções médicas de saúde e de desenvolvimento científico, uma vez que, em especial frente às inovações biotecnológicas, a doutrina não nos diz como deliberar, mas apenas como justificar deliberações a partir de justificações morais individuais299. Os posicionamentos defendidos pelo utilitarismo, em especial pela corrente singeriana, apresentam premissas e fundamentações falsas, pois poderiam ter sido direcionados para qualquer grupo socialmente vulnerável com intuito de justificar iguais medidas de discriminação. O utilitarismo, portanto, impossibilita uma visão de decisões de justiça para todos em relação aos direitos humanos, pois não atinge a totalidade dos indivíduos e ainda exige sacrifícios de alguns para o bem-estar e felicidade de outros300. Desse modo, Peter Singer apresenta afirmações que carecem de verdade, que expressam uma moral arraigada de preconceito social, estigma e que se utiliza de argumentos moralistas e pseudocientíficos para justificar medidas restritivas de direitos humanos, em especial das pessoas com deficiência. Nesse panorama, vale apresentar as razões pela qual se deve reconhecimento e respeito às pessoas com deficiências em sua dignidade, frente às inovações tecnológicas e nas decisões médicas que se relacionam com a vida dessa minoria social, conforme analisado a seguir. 2.5. Reconhecimento e dignidade das pessoas com deficiência Como retratado anteriormente, as pessoas com deficiência, nos mais diversos momentos históricos, receberam tratamento excludente e depreciativo por grande parte das sociedades, as quais, geralmente, rejeitavam completamente ou as integravam socialmente com muita timidez, pautadas em políticas caritativistas, religiosas ou assistencialistas de modo incipientes para suprir as necessidades de sua efetiva inclusão social301. Assevera José Claudio de Brito Filho que dificilmente se encontrará no decorrer da história integrantes de um grupo vulnerável que tenham sido mais discriminados que as pessoas com deficiência, pois, mesmo que depois do momento histórico em que elas eram simplesmente eliminadas, ainda persiste uma convivência bastante complicada com o resto da sociedade que as excluem, devido as suas diferenças e também por acreditar que elas não são capazes de realizar qualquer ato cotidiano da vida302. As pessoas com deficiência, tradicionalmente, foram associadas com estereótipos pejorativos, como uma representação coletiva da fragilidade, da pena, do pagador de carma religioso, da falta de algo, do déficit, do coitado etc., o que resulta em uma característica identitária apregoada por um estigma de inferioridade, gerado pela maioria da comunidade emdas características humanas, bem como a percepção médica ou científica de saúde e do ser humano saudável. São temáticas que podem implicar na retomada de discussões éticas já superadas e rememorar experiências malsucedidas na sociedade contemporânea, as quais resultaram em aplicações de ideologias da ciência para fins biolíticos higienistas e eugênicos no controle da saúde reprodutiva da população. Como no passado, o uso da ciência fora dos ideais de promoção da qualidade de vida e da dignidade humana pode ocasionar ou inflamar problemas sociais, à por exemplo da exclusão, da discriminação e da disseminação de preconceitos contra pessoas com características socialmente indesejadas. Os grupos socialmente vulneráveis apresentam-se como eventuais vítimas dessas práticas médicas e científicas eticamente questionáveis. Importa frisar que, no decorrer da história da ciência, práticas desregradas e antiéticas se utilizaram dos critérios científicos em experimentos que buscavam resultados com fins distantes dos ideais científicos de promover o bem-estar humano. Dentre essas práticas, destacam-se a utilização de cobaias humanas em experimentos, o desenvolvimento de materiais químicos e biológicos para fins bélicos, práticas eugênicas da política ariana-nazista, esterilização em massa e outras atividades questionáveis e moralmente repudiáveis pela ética ocidental. Essas práticas remontam a um passado marcado pelo uso da ciência e da política para subjugar grupos socialmente vulneráveis, como pessoas negras, pobres, mulheres, crianças e pessoas com deficiência, e outros segmentos sociais, como judeus, ciganos e homossexuais. No panorama atual, os avanços científicos também apresentam ameaças à integridade de grupos sociais vulnerados devido, principalmente, à concepção científica que defende o determinismo genético e à propagação de preconceitos e outras ideologias que buscam legitimar discriminações. No caso das pessoas com deficiência, elas se inserem no rol de grupos mais suscetíveis à violação de direitos, especificamente os reprodutivos, devido às práticas institucionalizadas que podem mitigar direitos, tais como o planejamento familiar, a reprodução com saúde e segurança reprodutiva, o acesso à tratamentos médicos e genéticos, e até mesmo atacar o reconhecimento do valor da vida com deficiência. É um cenário dicotômico em que o desenvolvimento da medicina reprodutiva oferece possibilidades desejáveis, como tratamentos e terapias que podem melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Entretanto, também possibilita o estímulo a condutas violadoras de direitos humanos das pessoas com deficiência, como condutas médicas que promovem a esterilização de pessoas com deficiência, bem como a identificação de deficiências e doenças raras no período pré-natal que resultam no sugestionamento ao abortamento eugênico. Historicamente, as pessoas com deficiência foram segregadas e discriminadas. Somente no contexto recente, de promoção de direitos humanos, que elas passaram a ter seus direitos reconhecidos de maneira mais clara, sólida e objetiva pelos Estados-Nações. Prova de tal afirmação é o surgimento da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) da Organização das Nações Unidas (ONU), em 30 de março de 2007, resultado de um duradouro trabalho participativo composto por especialistas, profissionais e ativistas sociais da causa das pessoas com deficiência. A CDPD apresenta extenso rol de obrigações aos integrantes da comunidade internacional que a subscrevem, bem como explicita direitos e garantias às pessoas com deficiência, dentre os quais se tornam mais relevante, pela natureza do trabalho, o direito à vida, à liberdade e à saúde reprodutiva. Nessa perspectiva, é inegável a pretensão de inclusão dessa comunidade de pessoas aos temas da atualidade médica, bem como as vantagens oferecidas pelo avanço biotecnológico e as possibilidades de melhorias da qualidade de vida ofertada pelas benesses da ciência. É nesse cenário que as tensões entre os interesses do desenvolvimentismo científico e os direitos humanos das pessoas com deficiência se confrontam, pois, embora o aprimoramento da técnica médica reprodutiva possibilite inovações e melhorias na qualidade de vida e saúde das pessoas em geral, a percepção medicalizada da deficiência, o preconceito e a incompreensão do valor da vida com deficiência provocam dilemas morais que precisam ser enfrentados. Nessa perspectiva, a bioética apresenta-se como importante campo de estudo para dirimir conflitos e estabilizar interesses decorrentes das novas possibilidades médicas e tecnológicas oferecidas pela ciência e que conflitam com a dignidade da pessoa humana, em especial da pessoa com deficiência. Portanto, é uma disciplina que vem confrontar as inovações da ciência com o juízo sobre sua utilização ética, a partir dos consagrados princípios bioéticos e também de uma perspectiva social, de equidade e de proteção aos mais vulnerados. Dessa maneira, é imperioso realizar uma reflexão bioética para compreender os limites das inovações da ciência, com intuito de certificar que se possa avançar cientificamente sem agredir bens humanos, como vida, liberdade, igualdade e direitos humanos em geral, assim como impor freios necessários à deturpação do interesse médico-científico pelo político-econômico, para que não se relativizem valores morais básicos e proteções jurídicas indispensáveis à dignidade da pessoa humana. Ademais, essa preocupação ética com o desenvolvimento de novas práticas médicas pautadas no apelo à saúde reprodutiva implica em observar também a percepção de um discurso baseado em questões correlacionadas diretamente ao controle populacional e a um darwinismo social, o que resulta numa perspectiva de planejamento do futuro da humanidade, uma artificiação da seleção natural e outras questões de ordem socioeconômica que são questionáveis e merecem aprofundado estudo. No caso do presente trabalho, o objeto de estudo delimita-se na interseção entre os direitos reprodutivos e os direitos das pessoas com deficiência, temas sobre os quais se pretende apresentar reflexões necessárias com uma abordagem bioética. É com esse panorama teórico que o problema de pesquisa se relaciona, e, por isso, a pergunta que se pretende responder no decorrer do trabalho é: quais são as repercussões sociais, políticas e jurídicas do desenvolvimento biotecnológico e dos direitos reprodutivos frente aos direitos humanos das pessoas com deficiência? A justificativa para o desenvolvimento deste trabalho se dá pela atualidade do tema e sua relevância científica. Por isso, solidificar a literatura jurídica especializada e relacionada com novos direitos, como os direitos reprodutivos, e com uma abordagem especialmente voltada aos interesses das pessoas com deficiência, possibilita harmonizar as novas práticas científicas e tecnológicas com uma perspectiva bioética sensível aos direitos humanos e à inclusão social desse grupo socialmente vulnerável. Segundo as informações da Organização das Nações Unidas (ONU), 610 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência3 no mundo, e dados ofertados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que uma em cada sete pessoas no mundo vive com alguma forma de deficiência4. De acordo com o último Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010, 23,92% da população brasileira, 45,6 milhões de pessoas, possuem algum tipo de deficiência ou necessidades especiais5 em sentido amplo. Em uma revisão metodológica dos indicadores do referido Censo, o órgão governamental identificou a existência de 6,7% da população brasileira declara viver com algum tipo de deficiência. Os números oficiais evidenciam que quase 12,5 milhões de brasileiros são pessoas com deficiência, em sentido estrito, e possuem dificuldades relevantes para enxergar, ouvir, caminhar, subir degraus ou declaram ter deficiência mental ou intelectual6. Em breve pesquisa exploratória sobre o tema em bancos de teses e dissertações de variados programas de pós-graduação em Direitorazão da disseminação do preconceito, da discriminação social, da segregação e da desinformação. Exemplifica-se que a disseminação de representações preconceituosas da pessoa com deficiência pode ser ilustrada nas alegorias a seguir: [...] (1) pessoas dignas de dó; (2) alvo de violência de outras pessoas; (3) pessoas ligadas ao mal ou a criminalidade; (4) pessoas que potencializam a miséria e a degradação; (5) aleijados; (6) seres ridicularizados; (7) inimigos de si mesmo; (8) fardos para a família; (9) aberrações sexuais; (10) pessoas incapazes de viver em sociedade.303 Essa rede de crenças e preconceitos sobre os corpos com impedimentos tem profundas raízes nas civilizações greco-romanas, em que se oferecia o infanticídio como saída para uma inviabilidade social de pessoas com deficiência. Nos dias atuais, a manifestação da deficiência ainda ofende o ideário eugênico enraizado na sociedade e evidencia a existência de uma postura preconceituosa que hierarquiza as pessoas em função da adequação de seus corpos à corponormatividade e com a generalização da incapacidade304. Somente em um contexto mais recente que cresceu o interesse para o estudo da deficiência e da busca da qualidade de vida dessas pessoas, o que repercutiu em importantes avanços nas áreas do saber como a medicina de reabilitação e na criação de direitos das pessoas com deficiência, os quais foram especialmente impulsionados pelos movimentos sociais ao longo dos anos de seu desenvolvimento. Essa falta de inclusão, atualmente, pode ser compensada pela existência de uma série de normas jurídicas que buscam a inclusão definitiva dessas pessoas em nossa sociedade, retratando, portanto, o direito das pessoas com deficiência como uma questão de direitos humanos305. Desse modo, foi o ativismo acadêmico e social que possibilitou uma visão mais técnica do fenômeno da deficiência, concedendo-lhe uma percepção social e cultural para criar um modelo de deficiência. A deficiência, portanto, pode ser entendida como uma construção social, um fenômeno cultural que, conforme interação de determinantes biológicas com o meio, resulta em uma experiência sistemática de exclusão ou inclusão306. Isto se dá porque, segundo a teoria crip307, a sociedade contemporânea é regida pelos postulados da corponormatividade, os quais são pouco sensíveis à diversidade corporal, marcado pela opressão em relação àqueles que fogem dos padrões corporais, funcionais e cognitivos308. Sobre o aspecto biológico, a vida com deficiência pode se manifestar de três maneiras a partir de fatores de interação, a saber: no período pré-natal, perinatal e pós-natal. A deficiência no período pré-natal tem origem congênita, podendo ser adquirida por fatores genéticos e bioquímicos309. São exemplos de deficiências que se manifestam na fase pré-natal a síndrome de down e a microcefalia, bem como o caso dos bebês de talidomida, em que a interação medicamentosa durante a gravidez resultou em inúmeras pessoas com más-formações congênitas em decorrência da falta de segurança no uso do referido medicamento oferecido pela indústria farmacêutica a mulheres grávidas. Os casos de deficiência que envolvem o uso de talidomida é um exemplo da necessidade de maior regulação estatal para evitar a utilização de drogas prejudiciais à saúde e comunicar adequadamente o risco de uso de medicamentos310, que infelizmente gerou centenas de pessoas com teratogenia e outros problemas de saúde em decorrência da falta de uma política de farmacovigilância de drogas311. Por conseguinte, a deficiência adquirida no período perinatal é aquela que se relaciona com o momento do parto, podendo ser manifestada a partir de atos de violência obstétrica e de partos com sofrimento fetal, o que pode gerar sequelas para bebês e para as mães. São inúmeros os casos de deficiência em decorrência de erros médicos e de falta de atendimento adequado que resultam em experiências com deficiência por uma vida toda312. Por última, a deficiência no período pós-natal tem se tornado cada vez mais frequente, uma vez que está relacionada com o acontecimento de acidentes, como de trabalho e de trânsito, o aparecimento de doenças debilitantes e também do envelhecimento, os quais são exemplos de situações que geram experiências de deficiência313. Com o evento da diminuição da taxa de mortalidade, o aumento da expectativa de vida e, por conseguinte, o envelhecimento da população, é cada vez mais comum a vivência de experiência de vida com deficiência. Nesse sentido, importa evidenciar essa correlação, uma vez que o envelhecimento traz limitações nas capacidades físicas e intelectuais, por isso, a sociedade precisa mudar a forma que trata essas pessoas, com políticas de cuidado e inclusão, além de permitir entender que muito da experiência de deficiência é resultado de um contexto social e econômico de desigualdade314. O utilitarismo singeriano, como observado no tópico anterior, compreende a deficiência como algo que deve ser extirpado da sociedade, pois a considera como algo incompatível com uma vida satisfatória, e, por isso, eles objetivam curar ou erradicar o surgimento de deficiências315, entretanto, a grande maioria das barreiras ligadas à vida com deficiência decorre de arranjos sociais discriminatórios que podem ser mitigados para promoção de uma vida digna. O utilitarismo apresenta, portanto, uma visão reducionista da experiência com deficiência, uma vez que considera, em sua abordagem, uma análise limitada sobre o fenômeno da vida com deficiência. Assim, percebe-se que essa visão sobre as pessoas com deficiência é baseada no estigma que a elas é impresso. Sobre essa correlação, Erving Goffmann316 já identificava que o estigma se trata de um construto social, reflexo da própria cultura, não uma propriedade de indivíduos, criado por cada sociedade na sua hierarquia de valores e atributos, os quais considera desejáveis e indesejáveis317. Há de se considerar também que as pessoas com deficiência compõem uma parcela considerável da população mundial e brasileira, logo, um contingente populacional que justifica a necessidade de promover ações de inclusão social318, de criação de política de proteção contra qualquer situação de vulnerabilidade, inclusive as de aspecto médico, reprodutivo e genético. Alguns bioeticistas, como já observado, defendem que a experiência da vida com deficiência implica em viver em desvantagem e por isso deve ser inviabilizado seu nascimento por promover um estado de degradação humana, de infelicidade e de elevado custo-benefício para a sociedade319. Sobre essa questão e uma relevante perspectiva ética, cita-se o esclarecimento dado pelo bioeticista Elio Sgreccia: Sob o ponto de vista ético, a presença de uma malformação ou de uma deficiência não diminui em nada a realidade ontológica do nascituro, pelo contrário, a presença de um estado de diminuição – como de uma doença – num indivíduo humano requer com maior motivo, em nome da sociedade, a proteção e a ajuda320. Sobre essa discussão, é inegável que uma vida com deficiência possa compartilhar de dor física, desgaste emocional, exclusão econômica e social, entretanto, deve-se considerar que a maior parte da experiência negativa vivenciada parte muito mais do comportamento inapropriado e despreparado da sociedade em geral, que apresenta uma visão ostensiva e preconceituosa do que é a deficiência, do que necessariamente da condição de existência biológica da pessoa. Nesse sentido, a ativista e filósofa estadunidense Adrienne Asch contraria a percepção médico-utilitarista da deficiência e afirma que a vida com deficiência vale a pena ser vivida, além do que uma sociedade justa e inclusiva deve promover a pluralidade da vida de todas as pessoas, independentemente de sua condição individual, social, econômica, biológica e genética321. Ocorre que, nada pode justificar a legitimação do tratamento desigual, em especial nas matérias de direitos reprodutivos, que mitiguem as possibilidades de vida e de expressão da diversidade, uma vez que tal condutaconsiste em tratamento discriminatório e contrário às atuais proposições de direitos humanos e de promoção de igualdade entre as pessoas. A riqueza e a diversidade humana deve ser exaltada como fator que fortalece a liberdade e o reconhecimento das pessoas com deficiência e suas diferenças, pois estimula inter-relações, múltiplas experiências sociais de vida e inúmeras facetas da cultura322. Frisa-se que o fenômeno da deficiência, portanto, se apresenta dificultoso socialmente, não por conta da existência de uma tragédia pessoal causadora de limitações individuais, mas sim pelas barreiras atitudinais e sociais que se estabelecem frente aos desafios cotidianos das pessoas com deficiência, como o enfrentamento ao preconceito, a discriminação, a falta de acessibilidade, a violência e outras barreiras criadas pela dinâmica social e espacial não atenta à inclusão dessas pessoas. É nesse contexto de contraposição de correntes e posicionamentos que se faz imperiosa uma reflexão bioética, pautada justamente na reflexão da bioética protetiva, em especial no seu pilar de fundamentação de compromisso estatal e social de solidariedade com o outro, de reconhecimento das necessidades alheias e de implicações de medidas práticas de fraternidade e inclusão. Dessa maneira, o pensar no outro se apresenta como um imperativo-ético da atualidade, para superar as decisões exclusivistas, isolacionaistas e autocentradas no utilitarismo médico em relação ao reconhecimento da dignidade humana da pessoa com deficiência. Por isso, o compromisso social com esse segmento vulnerabilizado vem corroborar com a imprescindibilidade de reconhecimento do outro e das suas necessidades, limitações e barreiras que podem ser geradas por aspectos sociais, como a desinformação e o preconceito323. Assim, afirma-se que é errôneo reduzir as pessoas com deficiência a uma ideia de incapacidade biológica, vez que podem desenvolver outras habilidades e serem socialmente capazes de realizar a maioria das capacidades que se exige de um sujeito dito “normal”, tão ou até mais que este. As pessoas com deficiência têm muito a oferecer para a sua comunidade e contribuir com talento, personalidade e humanidade324. Nesse cenário de cultura de inclusão, valorização dos direitos humanos e proteção a dignidade humana, existe a preservação da esfera de reconhecimento da pessoa com deficiência como sujeito de direitos, visto que podem vivenciar práticas de afeto e preocupação mútuas, se compreender como indivíduos com suas próprias limitações e necessidades, perceber a noção de autonomia e obrigações jurídicas, e oferecer habilidades e talentos para a sociedade325. Não há, portanto, dentro de uma moderna teoria de direitos humanos, como aceitar a defesa de um status de superioridade moral para tipos de vidas humanas em relação a outras, conforme prega o utilitarismo médico, pois a igualdade, fundamentada em inúmeras declarações internacionais e documentos normativos constitucionais e infralegais, reconhece, tanto na perspectiva material e formal, a prescrição de igual tratamento para todos os membros de uma comunidade, inclusive as pessoas com deficiência. Além da discussão teórica, importa analisar as aplicações instrumentais das novas técnicas de reprodução assistida, de modo a analisar minuciosamente seus efeitos no meio social, bem como identificar práticas neoeugênicas decorrente das novas possibilidades ofertadas pelo avanço biotecnocientífico. Logo, aspectos sobre controle populacional, eugenia, novas tecnologias reprodutivas, procedimentos de reprodução assistida e discriminação institucional serão observadas com maiores detalhes no capítulo a seguir. Notas 134. Berlinguer, op. cit., p. 14. 135. Oliveira, Fátima. Bioética: Uma face da cidadania. São Paulo: Moderna, 2004, p. 44. 136. Meirelles, op. cit., p. 03. 137. Correa, Marilena; Loyola, Maria Andrea. Tecnologias de reprodução assistida no Brasil: opções para ampliar o acesso. Revista Physis, Rio de Janeiro, v. 25, n. 3, 2015, p. 754. 138. “Um ramo da medicina especializado em preservação da fertilidade, diagnóstico e tratamento da infertilidade e outros problemas reprodutivos. A medicina reprodutiva também lida com questões relacionadas à puberdade, menopausa, contracepção (controle de natalidade) e certos problemas sexuais” (tradução nossa). NIH. National Cancer Institute. NIC Dictionary of Cancer Terms. 2019. Acesso em: 09 jun. 2019. 139. Oliveira, op. cit., p. 52. 140. Luna, Naara. Provetas e clones: uma antropologia das novas tecnologias reprodutivas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007, p. 90. 141. Oliveira, op. cit., p. 58. 142. World Health Organization, Recents Advances in Medically Assisted Conception. Geneva: World Health Organization, 1992, p. 02. 143. Oliveira, Fátima. As novas tecnologias reprodutivas conceptivas a serviço da materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos? Revista Bioética, v. 9, n. 2, 2001, p. 100. 144. Farinati, Débora Marcondes; Rigoni, Maisa dos Santos; Muller, Marisa Campio. Infertilidade: um novo campo da Psicologia da saúde. Revistas Estudos Psicológicos. Campinas, v. 23, n. 4, 2006, p. 433-439. 145. Braz, Marlene. Bioética e reprodução humana. In: Schram, Fermin Roland; Braz, Marlene (org.) Bioética e saúde: novos tempos para mulheres e crianças?. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005, p. 171. 146. Moura, Marisa Decat de; Souza, Maria do Carmo Borges de; Scheffer, Bruno Brum. Reprodução assistida: Um pouco de história. Revista SBPH, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, 2009, p. 23. 147. Correa, Marilena Cordeiro Dias Vilela. Ética e reprodução assistida: a medicalização do desejo de ter filhos. Revista Bioética, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, 2001, p. 72. 148. Braz, op. cit., p. 170. 149. Corrêa, op. cit., p. 72. 150. Farinati; Rigoni; Muller, op. cit., p. 72. 151. Braz, op. cit., p. 175. 152. Luna, op. cit., p. 83. 153. Oliveira, op. cit., p. 100. 154. A Constituição Federal de 1988 apresenta vasta política jurídica de proteção e assistência à família e à saúde reprodutiva, em especial no Art. 226, §7º, que elenca a dignidade humana e a paternidade responsável como diretrizes do planejamento familiar. Além disso, a legislação ordinária, especificamente na Lei Ordinária n. 9.263, de 1 de janeiro de 1996, oferece regulação ao planejamento familiar, aos meios e métodos e técnicas para a fecundidade. 155. Loyola, Maria Andréa. Sexualidade e medicina: a revolução do século XX. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. 4, 2003, p. 882. 156. Sobre o surgimento das famílias ectogenéticas, salienta Marianna Chaves, que com a viabilidade trazida pela Medicina reprodutiva e a Biotecnologia surgiram as famílias ectogenéticas, que são aqueles modelos familiares com filhos oriundos das técnicas de procriação medicamente assistida. Como técnicas reprodutivas, aliadas ao discurso jurídico, psicanalítico e filosófico, promoveram passagens para a fundação de novos vínculos de parentesco. Ver mais informações em: Chaves, Marianna. Famílias ectogenéticas – os limites jurídicos para utilização de técnicas de reprodução assistida. Anais do X Congresso Brasileiro de Direito de Famílias. Belo Horizonte, 2015. 157. Oliveira, op. cit., p. 103 158. Brasil. Cartilha de Atenção Básica - Saúde Sexual e Reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde, Secretária de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, 2013, p. 11. 159. Corrêa, Sonia; Alves, José Euséquio Diniz; Jannuzzi, Paulo de Martino. Direitos e Saúde Sexual e Reprodutiva: marco teórico-conceitual e sistema de indicadores. In: Cavenaghi, Suzana (org.). Indicadores municipais de Saúde Sexual e Reprodutiva. Rio de Janeiro: ABEP, Brasília: UNFPA, 2006, p. 29. 160. Sobre a questão, os supracitados autores esclarecem que Marquês de Condorcet (1743-1794) apresentou, em 1794, uma posição otimista da relação entre população e desenvolvimento, em que previa uma queda progressiva tanto das taxas de mortalidade como de natalidade e uma relação harmônica entre o crescimento populacional e o progresso socioeconômico. Anosdepois, o economista e pastor da Igreja Anglicana, Thomas Malthus (1766-1834), apresentou uma posição pessimista, argumentando que a população tendia, sempre, a crescer mais rapidamente do que os meios de subsistência. Os dois autores iniciaram uma longa polarização entre correntes políticas de controle populacional, pautada na cooperatividade defendida por Condorcet e na coercitividade sugerida por Malthus. 161. Piovesan, Flávia. Temas de Direitos Humanos. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 214. 162. Brasil, op. cit., p. 12. 163. Mattar, Laura Davis. Reconhecimento jurídicos dos direitos sexuais - uma análise comparativa com os direitos reprodutivos. Revista Sur - Direito internacional dos direitos humanos. São Paulo, ano 5, n. 8, 2008, p. 63. 164. Organização das Nações Unidas. Relatório da Conferência Internacional sobre Populações e Desenvolvimento. Plataforma de Cairo. Fundo de População das Nações Unidas. Egito, 1994. p. 62. 165. Ventura, Miriam. Direitos Reprodutivos no Brasil. São Paulo; Câmara Brasileira de Livros, 2004, p. 19. 166. Mafra Lima, Tiago; Burg Conti, Paulo Henrique. Reprodução assistida com material genético de paciente comatoso masculino: um estudo acerca da colisão entre a autonomia/dignidade do paciente e a liberdade reprodutiva da mulher em face dos princípios e direitos fundamentais. Rev. Bioética y Derecho, Barcelona, n. 32, 2014, p. 65. 167. Meirelles, Ana Thereza. Práticas neoeugênicas e limites aos direitos reprodutivos em face da proteção ao patrimônio genético. Direito UNIFACS–Debate Virtual, n. 153, 2013, p. 03. 168. Ibid., p. 03. 169. Na Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, no referido Art. 23, item 1, que trata de direitos reprodutivos em geral, consta, ipsi literis: “1. Os Estados Partes tomarão medidas efetivas e apropriadas para http://bit.ly/30YpZNg eliminar a discriminação contra pessoas com deficiência, em todos os aspectos relativos a casamento, família, paternidade e relacionamentos, em igualdade de condições com as demais pessoas, de modo a assegurar que: (a) Seja reconhecido o direito das pessoas com deficiência, em idade de contrair matrimônio, de casar-se e estabelecer família, com base no livre e pleno consentimento dos pretendentes; (b) Sejam reconhecidos os direitos das pessoas com deficiência de decidir livre e responsavelmente sobre o número de filhos e o espaçamento entre esses filhos e de ter acesso a informações adequadas à idade e a educação em matéria de reprodução e de planejamento familiar, bem como os meios necessários para exercer esses direitos; (c) As pessoas com deficiência, inclusive crianças, conservem sua fertilidade, em igualdade de condições com as demais pessoas”. 170. A Lei Brasileira de Inclusão tratou de positivar os direitos reprodutivos de modo difuso em seus dispositivos legais, por isso, é notória a expressão desses direitos no Artigo 6º e seus incisos, que trata sobre capacidade civil e temas da vida familiar, bem como Artigo 18 e seus incisos, que regulamenta aspectos relacionados à proteção integral da saúde da pessoa com deficiência. 171. Cooks, Rebecca J.; Dickens, Bernard M.; Fathalla, Mahmoud F. Saúde reprodutva e direitos humanos: integrando medicina, ética e direito. Rio de Janeiro: Editora CEPIA, 2004, p. 162. 172. Ibid., p. 163. 173. Mafra Lima; Burg Conti, op. cit., p. 65. 174. Cooks; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 179. 175. Ibid., p. 199. 176. Lemos, Adriana. Direitos sexuais e reprodutivos: percepção dos profissionais da atenção primária em saúde. Revista Saúde em Debate, v. 38 n. 101, 2014, p. 250. 177. Sgreccia, op. cit., p. 17. 178. Meirelles, Ana Thereza; Silva, Tagore Trajano de Almeida. A informação genética diagnóstica em procriação sob o argumento do direito à saúde e a preservação da naturalidade do patrimônio genético em face do pressuposto da alteridade. RJBL, ano 4, n. 4, 2018, p. 105. 179. Scliar, Moacyr. História do Conceito de Saúde. Revista Saúde Coletiva, Rio de Janeiro. n. 17, v. 1, 2007, p. 30. 180. Curiosamente, sobre a questão Moacir Scliar esclarece que houve época em que masturbação era considerada uma patologia capaz de resultar em desnutrição (por perda da proteína contida no esperma) e distúrbios mentais, que costumeiramente era tratada pela medicina com dieta, por infibulação e por tratamento de choque por aparelhos elétricos que permitiam o choque no paciente quando o órgão genital era manipulado e até pela ablação de parte da genitália, bem como ocorreu de que o desejo de liberdade de escravos era considerado enfermidade mental denominada de drapetomania, cujo tratamento médico proposto era o açoite. Cf. Scliar, op. cit., p. 30. 181. Meirelles; Silva, op. cit., p. 106. 182. Scliar, op. cit., p. 37. 183. Czeresnia, Dina. O conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promoção. In: Czeresnia, Dina; Freitas, Carlos Machado de. Promoção de saúde: conceito, reflexões e tendências. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2009, p. 44. 184. Garcia, Carla Cristina. Sociologia da Acessibilidade. Curitiba: Editora IESDE, 2008, p. 33. 185. Castaneda, Luciana; Bergmann, Anke; Bahia, Ligia. The International Classification of Functioning, Disability and Health: a systematic review of observational studies. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 17, 2014, p. 439. 186. Farias, Norma; Buchalla, Cassia Maria. A classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde da organização mundial da saúde: conceitos, usos e perspectivas. Revista brasileira de epidemiologia, São Paulo, v. 8, n. 2, 2005, p. 189. 187. Czeresnia, op. cit., p. 44. 188. Farias; Buchalla, op. cit., p. 190. 189. Segre, Marco; Ferraz, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Revista de Saúde Pública, São Paulo, n. 31, v. 5, 1997, p. 539. 190. Alguns autores compreendem o termo proposto pela OMS como útopico, por utilizar conceitos indefinidos e subjetivistas como a expressão perfeição e completo bem-estar, além de que o termo considera como dissociado o estado psíquico, físico e social e, por isso, defendem a sua inaplicabilidade prática por ser de extrema dificuldade para um profissional da saúde aferir questões intersubjetivas. Cf. Segre; Ferraz, op. cit., p. 539. 191. Scliar, op. cit., p. 36. 192. Correa; Alves; Jannuzi, op. cit., p. 41. 193. Scliar, op. cit., p. 37. 194. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 08. 195. Correa; Alves; Jannuzi, op. cit., p. 40. 196. Organização das Nações Unidas, op. cit., p. 62. 197. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 12. 198. Corrêa, Sonia; Petchesky, Rosalind. Direitos sexuais e reprodutivos: uma perspectiva feminista. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 6, 1996, p. 161. 199. Ibid., p. 163. 200. Ibid., p. 165. 201. Corrêa; Petchesky, op. cit., p. 08. 202. Corrêa; Petchesky, op. cit., p. 08. 203. Seidl, Eliane Maria Fleury; Zannon, Célia Maria Lana da Costa. Quality of life and health: conceptual and methodological issues. Cadernos de saúde pública, v. 20, n. 2, 2004, p. 583. 204. Ibid., loc. cit. 205. Brito Filho, José Claudio Monteiro de. Direitos Humanos. 2. ed. São Paulo: Ed. LTR, 2018, p. 45. 206. Ibid., loc. cit. 207. Andorno, Roberto. A noção paradoxal de dignidade humana. In: Revista Bioética, v. 13, n. 3, 2009, p. 435. 208. Brito Filho, op. cit., p. 48. 209. Rospigliosi. Enrique Varsi. Derecho y manipulación genética. Lima: Editora Universidade de Lima; Fondo de Dessarrolo Editorial, 1997, p. 53. 210. Ibid., p. 54. 211. Consolaro, Alberto et al. Genetics and heredity concepts applied to the comprehension of dental resorptions during orthodontic movement. Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial, v. 9, n. 2, 2004, p. 80. 212. Snustad, D. Peter; Simmons, Michael J. Fundamentos da Genética. Trad. Cláudia Vitória de Moura Gallo. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2016, p. 03. 213. Ibid., p. 03. 214. Ibid., p. 04. 215. Snustad; Simmons, op. cit., p. 11. 216. Ibid., p. 04. 217. Moser, Antônio. Biotecnologia e bioética: para onde vamos? Petrópolis: Vozes, 2004, p. 21. 218. Ibid., p. 25. 219. Ibid., loc. cit. 220. Moser, op. cit., p. 34.221. Meirelles; Silva, op. cit., p. 108. 222. Vilaça, Murilo Mariano; Palma, Alexandre. A nova genética para além da gestão de riscos e promoção da saúde: prolegômenos ao conceito de Biodesign. Revista Physis, Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, 2011, p. 818. 223. Snustad; Simmons, op. cit., p. 05. 224. Snustad; Simmons, op. cit., p. 12-14. 225. Goulart, et al. Manipulação do Genoma Humano: Ética e Direito. Revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 15, n. 1, 2010, p. 1710. 226. Vilaça; Palma, op. cit., p. 817. 227. Meirelles, op. cit., p. 03. 228. Vilaça; Palma, op. cit., p. 816. 229. Goulart;et. al, op. cit., p. 1711. 230. Raiol, Raimundo Wilson Gama; Alencar, Evandro Luan de Mattos. A discussão dos direitos reprodutivos e as pessoas com deficiência na bioética utilitarista. Revista de Biodireito e Direito dos Animais. v. 3 n. 2, 2017, p. 101. 231. Vilaça; Palma, op. cit., p. 818. 232. Baracho, José Alfredo Oliveira. A identidade genética do ser humano. Bioconstituição: Bioética e Biodireito. Revista de Direito Constitucional e Internacional. v. 32, n. 1, 2000, p. 02. 233. Ibid., p. 01-02. 234. Santiago, Ricardo André Maranhão. Liberdade Reprodutiva e Limites ao Reconhecimento da Diferença na Deficiência. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região. v. 49, n. 97, 2016, p. 42. 235. Ibid., p. 43. 236. Raskin, Salmo. Ética e genética. Educar em revista, Curitiba, n. 11, 1995, p. 27. 237. O homo faber é aquela figura que simboliza o projeto humano de controle e domínio sobre as coisas e as suas próprias capacidades, utiliza a técnica para alterar o meio e a sua própria natureza. 238. Hans, Jonas. O princípio responsabilidade: Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Editora PUC/RJ, 2006, p. 61. 239. Ibid., loc. cit. 240. Oliveira, Fátima. As novas tecnologias reprodutivas conceptivas a serviço da materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos? Revista Bioética, v. 9, n. 2, 2001, p. 100. 241. Jonas, op. cit., p. 85. 242. Pessini, op. cit., p. 226. 243. Harari, Yuval Noah. Homo-Deus: Uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 09. 244. Vilaça, Murilo Mariano; Dias, Maria Clara. Natureza Humana vs. Aperfeiçoamento? Uma crítica aos argumentos de Habermas contra a Eugenia Positiva. Revista Princípios da Filosofia, v. 20, n. 33, 2013, p. 345. 245. Ferry, Luc. A revolução transumanista. Barueri: Editora Manole, 2016, p. 03. 246. Vilaça; Dias, op. cit., p. 345. 247. Ferry, op. cit., p. 07. 248. Vilaça; Dias, op. cit., p. 348. 249. Harari, op. cit., p. 37. 250. Ibid., p. 37. 251. Ferry, op. cit., p. 11. 252. Fukuyama, Francis. Nosso futuro pós-humano: Consequências da revolução biotecnológica. Rio de Janeiro: Rocco, 2003, p. 88. 253. Ferry, op. cit., p. 163. 254. Sandel, Michael. Justiça: Contra a perfeição: Ética na era da engenharia genética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013, apud Raiol; Alencar, op. cit., p. 100. 255. Ferry, op. cit., p. 17. 256. Ibid., loc. cit. 257. Vilaça; Dias, op. cit., p. 350. 258. Fukuyama, op. cit., p. 99. 259. Fukuyama, op. cit., p. 90. 260. Fukuyama, op. cit., p. 102. 261. Ibid., p. 108. 262. Habermas, Jürgen. O Futuro da Natureza Humana. A caminho de uma eugenia liberal? Trad. Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 87. 263. Feldhaus, Charles. Habermas, eugenia liberal e o direito à liberdade reprodutiva. Revista Fragmentos de Cultura- Revista Interdisciplinar de Ciências Humanas, v. 18, n. 4, 2008, p. 544. 264. Feldhaus, op. cit., p. 545. 265. Ibid., p. 547. 266. Habermas, op. cit., p. 109. 267. Ibid., p. 55. 268. Dias; Vilaça, op. cit., p. 234. 269. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 69. 270. Bunnin, Nicholas; Tsui-James, E.P. The Blackwell Companion to Philosophy. Oxford: Blackwell Publisher, 1996, p. 628. 271. Mill, John Stuart. Utilitarismo. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves. Lisboa: Gradiva, 2005, p. 52. 272. Sandel, Michael. Justiça: O que é fazer a coisa certa? 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 48. 273. Sandel, Michael, p. 64. 274. Mill, op. cit., p. 64. 275. Ibid., p. 106. 276. Singer, Peter. Ética Prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 11. 277. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 69. 278. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 79. 279. Clotet, Joaquim. Bioética: uma aproximação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, p. 176-177. 280. Cook; Dickens; Fathalla, op. cit., p. 86. 281. Singer, op. cit., p. 11. 282. Singer, op. cit., p. 10. 283. Ibid., p. 26. 284. Ibid., p. 30. 285. Ibid., p. 63. 286. Singer, op. cit., p. 64. 287. Ibid., p. 147. 288. Ibid., p. 191. 289. Ibid., p. 192. 290. Singer, op. cit., p. 193. 291. Ibid., p. 195. 292. Ibid, p. 197. 293. Ibid, p. 199. 294. Singer, Peter, op. cit., p.200. 295. Diniz, Débora; Guilhem, Dirce. O que é bioética? São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 53. 296. Brito Filho, op. cit., p. 53. 297. Santiago, op. cit., p. 44. 298. Brito Filho, op. cit., p. 54. 299. Das Neves, Dalva Alves. O critério utilitarista será adequado para situação de risco. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, n.10, v. 2, 2010, p. 353. 300. Brito Filho, op. cit., p. 54. 301. Neumann; Algerich, op. cit., 2004. 302. Brito Filho, op. cit., p. 75. 303. Pessoa, Sônia Caldas. Imaginário sociodiscursivos sobre a deficiência: experiências e partilhas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018, p. 85. 304. Mello, op. cit., p. 3272. 305. Brito Filho, op. cit., p. 76. 306. Hall, Melinda G. The bioethics pf enhancement: transhumanism, disability and biopolítics. Lanham: Lexington Books, 2017, p. 29. 307. A terminologia crip tem uma conotação agressiva, pejorativa e subversiva, com o objetivo de desenvolver uma analítica contra a normalização dos corpos daqueles que fogem dos padrões. 308. Mello, op. cit., p. 3266. 309. Oliveira, op. cit., p. 07. 310. Moro, Adriana; Invernizzi, Noela. The thalidomide tragedy: the struggle for victims’ rights and improved pharmaceutical regulation. Revista História, Ciências, Saúde. Manguinhos, v. 24, n. 3, 2017, p. 604. 311. A talidomida foi apresentada nos anos 1950 como droga mágica, e posteriormente proibida por seus efeitos deletérios, e nos últimos anos tem retornado para o tratamento de pacientes com doenças como o câncer e a hanseníase. Dada a tragédia que a circundou, foi um dos medicamentos mais importantes do século XX em termos de mobilização da legislação de saúde, constituindo o ponto de partida para a aplicação dos conceitos de segurança e farmacovigilância dos medicamentos. Desencadeou, também, debates éticos sobre o comportamento da indústria farmacêutica e sobre as condições de vida e os direitos das pessoas com deficiências causadas pelo medicamento. Cf. Moro; Invernizzi, p. 604. 312. Oliveira, Fátima. As novas tecnologias reprodutivas conceptivas a serviço da materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos? Revista Bioética, v. 9, n. 2, 2001, p. 09. 313. Ibid., p. 10. 314. Medeiros; Diniz, op. cit., p. 113. 315. Asch, Adrienne. Diagnóstico pré-natal e aborto seletivo: Um desafio à prática e às políticas. Physis, Rio de Janeiro, v.13, n. 2, 2013, p. 53. 316. Para compreender a origem do conceito moderno de estigma, sua aplicação e a dinamicidade com que é empregado nos diferentes contextos sociais, uma obra de referência, sem dúvida, é Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, de Erving Goffman, publicado em 1963. Goffman desvenda as nuances desse conceito que parece ser o opositor direto do lema que impregnou a sociedade contemporânea e suas diversas instituições encarregadas de propagar, legitimar e reforçar o discurso da aceitação da diferença. Na contemporaneidade, Goffman ratifica que o conceito é aplicado a todos os casos em que uma característica observável é salientada e interpretada como “um sinal visível de uma falha oculta, iniqüidade ou torpeza moral proporcionando ao indivíduo um sinal de aflição ou um motivo de vergonha”. Cf. Schilling, Flávia; Miyashiro, Sandra Galdino. Como incluir? O debate sobre o preconceito e o estigma na atualidade. Revista Educaçãoe Pesquisa, v. 34, n. 2, 2008, p. 249. 317. Goffman, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 15. 318. Nonato, Domingos do Nascimento; Raiol, Raimundo Wilson Gama. Perspectivas da dignidade humana à luz da convenção da onu sobre os direitos das pessoas com deficiência. Revista de Direito Brasileira, v. 10, n. 5, 2015, p. 84. 319. Asch, op. cit., p. 62. 320. Sgreccia, op. cit., p, 469. 321. Asch, op. cit., p. 60. 322. Santiago, op. cit., p. 43. 323. Santiago, op. cit., p. 46. 324. Mello, op. cit., p. 3272. 325. Braga, Mariana Moron Saes; Schumacher, Aluisio Almeida. Direito e inclusão da pessoa com deficiência: uma análise orientada pela teoria do reconhecimento social de Axel Honneth. Revista Sociedade e Estado, Brasília, v. 28, n. 2, 2013, p. 378. CAPÍTULO 3: CONTROLE POPULACIONAL, NEOGENIA E DISCRIMINAÇÃO Este capítulo aborda as manifestações das teorias eugênicas presentes nos debates da atualidade que envolvem a questão da reprodução humana sob o aspecto médico, de modo a destrinchar sobre seus principais procedimentos médicos e analisá-los sob uma perspectiva prática da bioética protetiva. Pretende ainda observar regulamentações e decisões estatais que evidenciam práticas institucionalizadas de discriminação contra pessoas com deficiência. O objetivo geral neste capítulo é apresentar aspectos instrumentais e práticos do avanço biotecnológico e seus reflexos em políticas públicas de saúde reprodutiva e controle populacional, em especial das pessoas com deficiência. Os objetivos específicos são: (I) apresentar o panorama geral sobre controle populacional e as correntes da eugenia e neoeugenia; (II) descrever procedimentos da medicina reprodutiva e preditiva e analisar suas repercussões práticas para uma política de saúde reprodutiva; (III) identificar decisões estatais que evidenciam discriminação contra pessoas com deficiência na temática dos direitos reprodutivos. Primeiramente, tratar-se-á de explorar conceitos sobre controle populacional e planejamento familiar, diretrizes e seus riscos, apresentar uma noção de eugenia e neoeugenia, e, posteriormente, descrever os procedimentos médicos de esterilização, aconselhamento genético, manipulação genética, reprodução assistida, diagnóstico pré-natal e abortamento eugênico, para analisar os resultados de suas repercussões práticas. Por fim, com o propósito de apresentar um panorama crítico sobre a política de direitos e saúde reprodutiva para pessoas com deficiência, almeja-se identificar a questão da discriminação institucional em decisões estatais que envolvem a matéria debatida. 3.1. Controle populacional e riscos: eugenia e neoeugenia A questão populacional e sua correlação com os direitos reprodutivos têm como pano de fundo aspectos sanitários, sociais, políticos e econômicos que revelam uma preocupação estatal ou comunitária com fatores como natalidade, mortalidade, qualidade de vida, pobreza, migrações, comportamento, doenças, meio ambiente e estudo das características populacionais. É uma discussão que deve contemplar uma análise dos impactos sociais gerados pela elaboração e implantação dessas políticas de saúde atinentes aos direitos de saúde, ao aspecto reprodutivo individual, às taxas de natalidade e mortalidade, bem como perceber como se dá o acesso e o uso das novas técnicas da biotecnociência que impactam na expansão ou diminuição da população. Por óbvio, os estudos populacionais devem ser realizados de modo ético, regrado e em consonância com uma perspectiva de realizar intervenções equilibradas e conexas com os direitos humanos. Sobre a dinâmica populacional, enquanto pauta de um governo ou de preocupação comunitária, pode ser analisada sob diversas perspectivas que englobam desde avaliações morais, que podem se referir à sanidade pública, como também a questões culturais, sociais e econômicas que envolvem discussões sobre pobreza, direitos e acesso a recursos esgotáveis. Estudos mais recentes de análises estatísticas populacionais têm dado atenção a temas coletivos como controle de migrações, relacionamento entre gêneros, envelhecimento e justiça intergeracional, principalmente com ênfase sob o aspecto demográfico, ambiental e de recursos, os quais podem impactar significativamente os rumos e planejamento de uma comunidade326. Entretanto, é crescente a preocupação da comunidade científica e política em geral ao equacionamento das escolhas individuais no impacto das dinâmicas populacionais, principalmente com temas que demonstram mais relevância para o exercício da autonomia e responsabilidade individual, que se dá, em especial, no campo da genética, reprodução humana natural e assistida, sexualidade, novos tratamentos médicos e prolongamento da vida humana327. O controle populacional é tema relevante para o convívio em comunidade e o uso das informações que a comunidade científica disponibiliza possibilita a elaboração de políticas públicas eficazes e com fins justos e idealizáveis, uma vez que proporciona boas decisões para melhoria da qualidade de vida, controle de endemias e outras temáticas que promovam a diminuição das desigualdades sociais. Todavia, os estudos de controle demográfico, quando postos em prática sem seguir uma procedimentalidade ética, podem suscitar inúmeros conflitos e, por muitas vezes, resultar em intervenções que evidenciam, no meio social, medidas de um projeto de biopoder. A subjetividade do emprego dos números estatísticos e conceitos demográficos para fins além dos descritivos revela atributos morais, valorações sobre os sujeitos populacionais estudados a partir da ótica ideológica e científica adotada. Sobre tal subjetividade na referida ciência, Giovanni Berlinguer esclarece que: As palavras da demografia e os seus significados obviamente mudam de acordo com os tempos e as aquisições cientificas. [...] As palavras e seus significados também se modificam em relação as ideologias e aos critérios morais dos indivíduos que as introduzem e as utilizam, como se observa por numerosos exemplos328. Dessa maneira, percebe-se que grande risco existente na realização de estudos de controle populacional e compreensão das dinâmicas demográficas é a expressão de ideologias para interpretar dados e sugerir medidas desconexas com a atenção primordial às pessoas, aos direitos humanos e a um senso de justiça equitativa, atento às reais necessidades sociais. O controle populacional implica em medidas estatais que revelam interesses sob determinado aspecto da natalidade ou da mortalidade da população, que, caso seja utilizado de maneira adequada, deve buscar promover um padrão de desenvolvimento e de distribuição de renda que garanta o crescimento do padrão de vida da população, principalmente do segmento mais pobre329. Pode-se afirmar que as políticas de controle populacional devem buscar assegurar medidas que ofertem melhor qualidade de vida à população, como acesso aos recursos para promover suas capacidades, promover dignidade, melhorar o acesso ao sistema de saúde e ofertar melhores oportunidades de emprego e educação, dentre outras soluções para o cidadão. Ocorre que, como já observado, o debate sobre controle populacional e planejamento familiar se manifesta na literatura científica carregado de ideologias, que envolvem fatores religiosos, políticos e econômicos, e resultam na expressão de posicionamentos fundamentados em paternalismo estatal, determinismo biológico, racismo e eugenismo. Esse debate político relaciona-se com a preocupação com o tema promovido no período pós- guerra, ocasião em que as diretrizes do debate se relacionavam com as decisões dos países capitalistas desenvolvidos, os quais optaram por expandir sua população em áreas de fronteira e estimular uma política de planejamento familiar em países capitalistas subdesenvolvidos, embora sua massa populacional não se demonstre adepta de práticas de planejamento, e dos países comunistas, como China e Cuba, os quais adotaram uma política rígida de controle populacional,restrição de nascimento e mitigação da liberdade reprodutiva330. Na atualidade, a preocupação dos estudos demográficos se volta à análise do crescimento populacional nos continentes, com recorte sob a perspectiva dos países centrais e periféricos, com especial análise sobre a relação entre o comportamento cultural e sua ligação com as taxas de natalidade, o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população. Segundo a ONU, a proporção da população idosa está aumentando, enquanto a população de jovens e de adultos está diminuindo, o que influencia no aumento de pessoas economicamente dependentes331. Esse fenômeno de envelhecimento populacional, além do aumento da expectativa de vida, é causado principalmente pela diminuição da taxa de fecundidade de uma população, o que resulta em vazios demográficos. Do ponto de vista demográfico, esse problema pode ser solucionado com duas medidas especiais que englobam aspectos biológicos e sociais, que são o estímulo da reprodução biológica e o estimulo à natalidade, visando sobretudo manter aspectos culturais preservados, e à reprodução social, que se trata de incentivo à imigração e à reposição da população economicamente ativa para alcançar um equilíbrio econômico e social332. Nesse panorama, diversos fatores econômicos que influenciam essa discussão perpassam pela argumentação de alguns economistas que defendem o natalismo como um fator de geração de emprego, produção, renda e desenvolvimento econômico333, embora também existam correntes antinatalistas que se justificam com uma preocupação acerca dos custos econômicos e da existência de recursos para atender as necessidades mais básicas de toda a população. Nesse panorama entre as perspectivas natalista e antinatalista é que se expressa o planejamento familiar, principal instrumento para efetivação de políticas de natalidade. O planejamento familiar é um sistema de orientação e apoio para as famílias, para as quais são ofertadas liberdade para decidir sobre os rumos de sua vida, como o desejo de procriar ou não, o número de filhos que deseja ter na sua prole e o exercício de direitos sexuais e reprodutivos em geral334. O planejamento familiar consiste em uma temática de diversificadas perspectivas visto que é possível tratar de planejamento desde o casamento à família, como planejar a gravidez e ter filhos, ser pai e mãe, de pensar a sexualidade; ou ainda, planejamento populacional. Por isso, é um tema que também requer uma análise bioética335. As diretrizes para uma boa política de planejamento familiar consistem em oferecer meios para a própria família perceber situações em que as escolhas sobre procriação se tornem interessantes para manutenção de recursos econômicos da unidade familiar, bem como para saúde reprodutiva de seus integrantes dentro da seara da liberdade de escolha da própria família, sem intervencionismo e imposições estatais336. Um planejamento familiar adequado permite benefícios e melhor exercício ao projeto de parentalidade, uma vez que proporciona controle sobre a concepção da prole, evitando concepções indesejadas e também o nascimento de crianças em ambientes preparados, bem como promove a responsabilidade dos pais para com seus filhos, desde a reprodução em seus aspectos sanitários e pessoais337. Sobre o ponto de vista dos deveres governamentais para a oferta de programas de controle populacional e planejamento familiar, as medidas ofertadas pelo Estado são caracterizadas por responder às necessidades básicas de saúde pública. No caso do planejamento familiar, os problemas de saúde pública em questão são o controle da natalidade, a redução do aborto, a saúde da mulher, a redução da pobreza, dentre outros338. Todavia, em geral, os programas governamentais de controle populacional e de planejamento de natalidade revelam uma faceta ideológica das pretensões do poder instituído e revela tratamento verticalizado que expressa descaso com as características individuais e familiares dos envolvidos339. Foi por meio de medidas governamentais que a eugenia se expressou com violência e intervenção estatal sobre os direitos reprodutivos individuais em países como os Estados Unidos e a Alemanha. A eugenia é uma discussão que há tempos assombra a ciência, pois suas experiências práticas passadas evidenciaram racismos e preconceitos emanados por meio de critérios científicos, direcionados principalmente contra grupos socialmente vulneráveis. Para entender melhor a questão da eugenia pretende-se abordar aspectos conceituais, fatos históricos e outros precedentes que se utilizaram de políticas eugênicas para legitimar a produção de inúmeras injustiças. Ademais, preliminarmente, assinala-se que a eugenia foi, e ainda é, uma prática rústica de controle populacional utilizada por comunidades primitivas340 e sociedades históricas como uma maneira de inviabilizar a existência de pessoas indesejadas, ditas também de defeituosas ou impuras, de modo a possibilitar uma seleção artificial de critérios estabelecidos por aspectos sociais, como na Grécia e o militarismo espartano, os quais exigiam virilidade e força de seus soldados, ou em comunidades primitivas, que sacrificavam, e ainda sacrificam, crianças com deficiência por motivo de crenças religiosas e culturais341. Ainda que socialmente repudiável, a eugenia é uma ideia que persiste na abordagem médica e científica da atualidade e que, vez ou outra, retoma com uma nova roupagem e apresentação mais sofisticada, utilizando-se de linguagem diferenciada e novos conceitos, ora da saúde e de políticas sanitárias higienistas, ora do utilitarismo médico e da relação custo-benefício, mas que substancialmente apresenta o mesmo objetivo, que é extinguir determinado grupo social que não se adequa à ideia de melhoria da raça proposta pela política eugênica imposta culturalmente nas sociedades modernas. Na literatura científica, a teoria da eugenia tem seus primeiros registros de origem no ideário de seu reconhecido fundador Francis Galton, cientista inglês e primo em primeiro grau de Charles Darwin, na obra Hereditary Genius: An inquiry into its laws and consequences, publicado em 1869, que consistia em um estudo sobre hereditariedade que defendia a reprodução entre humanos saudáveis com o objetivo de melhorar geneticamente a futura população342. A ciência eugênica propõe-se a realizar o controle reprodutivo das especificidades hereditárias dos seres humanos e, por isso, se constitui como um campo de produção de saber que se conecta diretamente com teorias pseudocientíficas e raciológicas, como o determinismo biológico, que propaga, por exemplo, a investigação antropométrica e craniométricas, com o claro ideal de determinar padrões e legitimar discriminações contra aqueles que não se adequavam aos critérios “científicos”343. Logo, o exercício da eugenia apresenta, inevitavelmente, impactos sociais, pois ataca diretamente a existência de grupos que a elite científica entende como responsáveis por reproduzir fenômenos socialmente indesejados, mas, por muitas vezes, racionalmente incompreendidos, como a proliferação de doenças, a criminalidade, a pobreza, a deficiência e outras questões sociais. Posterior ao seu surgimento, o movimento eugênico ganhou força em diversos setores científicos e a teoria eugênica se expandiu em inúmeros estudos com diferentes abordagens, que sugestionavam desde a regulação da reprodução e a proibição da multiplicação de “mal adaptados”, como até mesmo práticas de esterilização e confinamento de famílias eleitas como de “tipos inferiores”, para fins de evitar uma suposta degeneração social e racial344. No início do século XX, em decorrência da popularidade desses estudos eugênicos nos círculos acadêmicos e governamentais, diversas leis implantaram políticas eugênicas de reprodução que fundamentaram a realização de esterilização involuntária contra segmentos sociais desfavorecidos da sociedade, o que consistiu em inúmeros episódios de violação de direitos humanos, em especial dos direitos reprodutivos. Sobretais episódios, Christiane Gioppo apresenta: A partir da cunhagem do termo na Inglaterra do século XIX e fundamentada em teorias científicas, a eugenia passou de popular à científica e foi disseminada por aparatos legais, propiciando métodos eficazes de manipulação, orientação e controle dos considerados menos capazes que, não concidentemente, faziam parte de um estrato da população pertencente às classes trabalhadoras345. Na Alemanha, por exemplo, a eugenia foi difundida, estudada e aplicada em experimentos científicos e práticas sanitárias com apoio de políticas governamentais totalitárias responsáveis por colaborar diretamente no resultado do Holocausto e na morte de inúmeras pessoas inocentes. A ascensão do nacional-socialismo ao poder instituiu uma política racista e xenofóbica de controle populacional que elegeu judeus, pessoas com deficiência, ciganos e outros grupos como principais alvos do programa de eutanásia e eugenia denominado de Aktion T-4, o qual objetivava o extermínio de pessoas afetadas por doenças incuráveis, crianças com deficiência mental e adultos “não produtivos” com fins de purificação da raça e diminuição de custos financeiros346. Os princípios da eugenia germânica conduziram a um racismo científico e a um determinismo biológico radical, que, em suma, proibia uniões afetivas entre raças distintas, principalmente casamento interracial, pois almejava a purificação da raça ariana e compreendia a miscigenação como motor do desenvolvimento da degeneração social347. Nos Estados Unidos da América, a prática da eugenia também foi altamente difundida e institucionalizada por políticas governamentais, em que inúmeras federações sancionaram a legalidade da esterilização eugênica dessas pessoas, a fim de evitar a presumida ameaça de uma degeneração da inteligência derivada da reprodução de pessoas com deficiências mentais e imigrantes348. Houve um reconhecido esforço institucional, acadêmico e financeiros das elites estadunidense para aprofundar os estudos da eugenia, graças ao sentimento de ameaça à hegemonia e superioridade norte-americana causado pela crescente de imigrantes e ao anseio de produzir as melhores disposições hereditárias para a população, projeto o qual foi liderado por Davenport, cientista que articulou grande apoio em setores econômicos, instituições científicas e órgãos universitários para elaborar um dos maiores programas governamentais de promoção da eugenia já relatado em registros históricos349. Nesse sentido, a eugenia estadunidense implicou em influenciar diversos movimentos eugênicos também na América Latina, expandindo aspectos culturais eugênicos para questões como imigração, controle populacional, liberdade para eleger a composição étnica nacional, discriminação racial, segregacionismo social, esterilização compulsória e controle reprodutivo350. No Brasil, as ideias eugênicas chegaram no final do século XIX, com manifestações de segmentos de médicos, cientistas e intelectuais que defendiam a importância dos higienistas na sociedade brasileira e que também promoviam práticas de higienização, disciplinarização, sanitarização e eugenia, evidenciadas em registros históricos de periódicos de Faculdades de Medicina351, nos livros, na literatura especializada e nos debates promovidos pela Sociedade Brasileira de Eugenia352. O eugenismo à brasileira elegeu como alvo a pessoa pobre, o qual seria visto no imaginário higienista dos intelectuais como um selvagem ignorante, rude, animalesco, sujo e que deve ser disciplinado e adestrado com mudanças de atitude em relação à sua higiene, casa e família353. Nesse sentido, o eugenismo da elite política brasileira almejava construir uma nova identidade ao cânone de homem brasileiro, para superar o estereótipo da figura do “Jeca”, preguiçoso e adoecido, ilustrado na obra de Monteiro Lobato, e apresentar um novo perfil racial ao país354. No início do século XX, a eugenia manifestou-se com muita ênfase na literatura intelectual brasileira, em decorrência de grande influência europeia e estadunidense que criou um ideário de progresso, evolução, desenvolvimento e endosso à ciência em geral, aproveitado pelo crescente nacionalismo que predominava na visão política da época355. Em síntese, o projeto eugênico brasileiro consistia, portanto, na tríade elitismo, higienismo e racismo. O elitismo intelectual apregoava um progressivismo científico-social, o higienismo baseava-se em adotar medidas sanitárias e de regulação comportamental das massas pobres, o racismo científico almejava reconfigurar a composição étnica da população, fator este marcado pela proposta de branqueamento racial356. Embora banidos pela indignação coletiva demonstrada por essas práticas no período pós- guerra, os procedimentos eugênicos prosseguiram silenciosamente em muitas regiões do mundo, como Suécia, Áustria, Noruega, Dinamarca e outros países que continuavam a disseminar tais práticas eugênicas como a esterilização de mulheres com deficiências, indigentes de raças mestiças ou mesmo pessoas com atraso escolar357. O eugenismo, portanto, é um fenômeno que não é novo e que, na atualidade, apresenta inúmeras facetas e argumentações para convencimento de sua utilidade, mas que se revela perigoso, principalmente por promover posicionamentos pseudocientíficos, que refletem, geralmente, determinismo biológico, racismo científico e violações de direitos humanos, como integridade física, vida e uso do próprio corpo. De modo conceitual, a eugenia é, etimologicamente, um termo que deriva da palavra grega eugenés, que origina do prefixo “eu-”, que tem sentido de bem, e “-génos”, que significa raça, espécie ou linhagem e tem similaridade nas traduções das línguas modernas com o ideário de bem nascido, boa raça, de boa linhagem etc.358 A eugenia é um termo genérico do século XIX, que indica a ciência que estuda as condições mais propícias à reprodução e melhoramento da espécie humana359. Segundo as palavras do próprio Francis Galton, a eugenia pode ser definida como a ciência que trata daquelas agências sociais que influenciam, mental ou fisicamente, as qualidades raciais das futuras gerações360. Do ponto de vista prático, a eugenia se constituía uma espécie de “hominicultura”, fundada no ideal de melhorar as qualidades e reduzir as imperfeições humanas, com objetivo de obter o melhor espécime, conforme os padrões genéticos, o que refletia em ações de eugenia positiva e eugenia negativa, de permissão de reprodução de certas famílias e proibição para outras361. Em síntese, o ato de eugenia pode ser distinto conforme sua finalidade destinada, e, portanto, comumente classificada em eugenia negativa e positiva, sendo que a eugenia negativa visa à eliminação da descendência indesejada, como na eliminação de embriões defeituosos e no abortamento eugênico, e a eugenia positiva é pautada na seleção de características desejadas e de melhoramento das qualidades humanas, como a determinação de padrões fenotípicos362. A eugenia positiva consiste na orientação de reprodução para pares considerados eugenicamente aptos para tal, a partir de critérios como hereditariedade, temperamento, inteligência, raça e segmento social363. É a ideia de que a eugenia positiva se trata da escolha racional e artificial de características corporais, especialmente as chamadas “secundárias”, como por exemplo, cor dos olhos, altura, forma física etc.364 A eugenia negativa objetiva diminuir o número de sujeitos não eugênicos, assim entendidos, por essa corrente, como pessoas indesejadas, defeituosas ou com características disgênicas, por intermédio de práticas de procriação desaconselhada, medidas anticoncepcionais, esterilização e aborto eugênico365. Nesse sentido, a eugenia negativa trata de buscar meios científicos para viabilizar a eliminação das futuras gerações de “geneticamente incapazes”, assim chamados também de enfermos, racialmente indesejados e economicamente empobrecidos, por via da proibição de casamento, procedimento de esterilização compulsória, eutanásia passiva,extermínio e outras violações de direitos humanos366. De modo geral, essas são as bases da eugenia clássica, a qual causou discriminação e violações de direitos humanos a inúmeras pessoas e produziu efeitos devastadores na história da humanidade, como o Holocausto na Alemanha nazista, a guerra contra os fracos nos Estados Unidos, elencada no livro de Edwin Black, e a inflamação do racismo na América Latina. Logo, a eugenia clássica tem como característica a promoção de injustiça a partir da utilização de critérios pseudocientíficos, racistas e de determinismo biológico. Além disso, ela pode ser percebida como fruto do totalitarismo estatal, do intervencionismo coletivo e governamental em aspectos da individualidade, na excessiva regulamentação de escolhas privadas, como as decisões de reprodução, matrimônio e o domínio da própria corporalidade. No âmbito ideológico, o eugenismo é uma ideologia política que preconiza medidas de controle social da reprodução a serviço de uma imagem normativa do homem, sejam elas por medidas coercitivas, como na expressa pelo totalitarismo estatal, ou iniciativas individuais para melhorar as qualidades humanas, como as oferecidas pelo avanço tecnológico367. O eugenismo apresenta-se conjuntamente como uma ideia de progresso, seja no aspecto social ou cultural, como também tecnológico, sendo, portanto, um vínculo crucial de seu fundamento e pressuposto teórico368. No contexto atual, as inovações biotecnocientíficas oferecidas pela engenharia genética, medicina reprodutiva e molecular reforçam ainda mais esse estereótipo de progresso explorado pelo eugenismo. Hodiernamente, a eugenia apresenta uma nova roupagem para influenciar aspectos correlatos aos seus ideais dentro das decisões existentes no âmbito da utilização das novas técnicas e possibilidades científicas ofertadas pela medicina reprodutiva. A eugenia, em sua abordagem contemporânea, manifesta-se na eugenética, que é a ideologia que trata de buscar reduzir os genes ruins e características indesejáveis nas gerações futuras, a partir da utilização da tecnologia genética369. A eugenética, portanto, se apresenta como pensamento e prática biotecnocientífica resultante da junção entre o conhecimento racional da biologia molecular e o saber operacional da engenharia genética. Logo, se considera como ideologia inseparável do eugenismo, isto é, de uma nova eugenia projetada e em via de realização na época da biotecnociência370. O aprofundamento da ciência genética causou uma genetização das doenças e das pessoas e maior busca na correlação das informações genéticas com a saúde e o bem-estar. Nesse cenário, a nova eugenia ou neoeugenia, como alguns autores gostam de conceituar, surge com características diferenciadas da eugenia clássica, que tinha como características o totalitarismo estatal e a faceta de políticas públicas de controle de natalidade e planejamento familiar. O avanço das tecnologias reprodutivas, inseridas no atual contexto socioeconômico de índole liberal, foi determinante para permitir uma nova roupagem às práticas seletivas, o que possibilitou uma realidade de riscos não conhecidos e fez surgir uma necessidade de revisão ao conceito clássico de eugenia, criando um neologismo denominado de neoeugenia371. A neoeugenia pode ser compreendida como uma revisitação ao ideal eugênico sob o viés moderno neoliberal, pautado no individualismo, na identificação de um sujeito consumidor do biomercado, livre para escolher as tecnologias e os conhecimentos que assim desejar e que estiver dentro do acesso de seu poder econômico. Ainda sobre o panorama da neoeugenia, assinala-se: O termo “neoeugenia” é usado em referência às formas contemporâneas, trazidas pelos avanços da medicina especializada e da biotecnologia, de propiciar escolhas seletivas, pautadas em critérios que são formados a partir das informações trazidas pelos recursos empregados no processo procriativo372. Essa nova dimensão eugênica explora uma apologia ao direito de escolha e de decisão individual, visto que coloca os direitos reprodutivos na esfera privada do indivíduo interessado ou da família ectogenética, sem considerar os impactos sociais existentes que podem ser causados a partir das possibilidades oferecidas pelas novas tecnológicas de reprodução e genética. A eugenia clássica buscava, de modo autoritário e estatal, produzir cidadãos a partir de um cânone ideal, enquanto a eugenia moderna, de tradição liberal, defende a abstenção do Estado quanto à espécie de filho que os pais desejam ter373. Desse modo, é possível perceber e afirmar que o conceito de eugenia apresenta uma percepção histórica que agrega, conforme o progresso das relações humanas, realidades contextualizadas por anseios sociais diferentes374. Dessa maneira, enquanto a “velha” eugenia operava repressivamente via autoridade estatal na busca e repressão dos desvalidos, a genômica moderna, assim chamada de eugenética ou neoeugenia, atua sobretudo pelos mecanismos de mercado, explorando os desejos de consumo do sujeito com o uso de uma linguagem de empowerment individual e de liberdade de escolha375. Nesse mesmo sentido, cita-se: Diferentemente das práticas eugênicas tradicionais, que normalmente abrangiam grande quantidade de pessoas, as práticas neoeugênicas dizem respeito à esfera individual. São permeadas, muitas vezes, pela relação médico- paciente, uma vez que são quase sempre pertinentes à saúde de um indivíduo ou casal interessado, ao concepto (quando se trata de técnicas de reprodução assistida), seus familiares e às gerações futuras, mediante a possibilidade de não preservar o genoma humano, que é patrimônio da espécie376. Essa abstenção estatal com as práticas neoeugênicas vai além da permissividade sobre as decisões individuais que se relacionam com as características genéticas das próximas gerações. Pode-se afirmar que a permissividade estatal, e até mesmo uma ausência de normatização ética sobre o tema, permite o surgimento de um mercado com tendência biologizante e reducionista do ser humano, para além das influências do meio ambiente377. Sobre a constituição teórica da neoeugenia, cumpre salientar que ela é caracterizada pela prática eugênica em suas formas contemporâneas, trazidas pelos avanços da medicina especializada e da biotecnologia, de propiciar escolhas seletivas, pautadas em critérios que são formados a partir das informações trazidas pelos recursos empregados no processo procriativo controlado378. Essa nova construção da eugenia e maior admissibilidade de uma procriação qualitativa ocorrem claramente por conta do avanço comercial do setor biotecnológico, que vislumbra um rico mercado econômico para explorar o desejo e o estado de carência das pessoas em relação aos seus direitos reprodutivos e sexuais379. Essa expansão do biomercado demonstra que inúmeras empresas de biotecnologia estão atentas ao domínio e hegemonia das técnicas de reprodução assistida e da genética. Por conseguinte, existe um interesse econômico sólido na consolidação de uma neoeugenia de mercado, que institui prerrogativas de consumidor ao paciente tanto para exercer seu direito de ser informado, como para dispor de sua “liberdade” na escolha de tecnologias380. A exploração desse mercado por um cânone da saúde, atrelado ao subjetivismo moral de um modelo eugênico individual, instiga as pessoas a crer nas possíveis benesses de um progressivismo tecnológico, ofertado pela ilimitada capacidade da ciência de atender aos interesses e desejos humanos frente às necessidades de saúde e de realização pessoal. Por isso, a perspectiva liberal complementa com uma falácia de livre arbítrio, que restringe a reflexão das consequências para a esfera individual, livrando o sujeito de um julgamento ético coletivo ou um questionamento mais fundamentado para buscar justificativas de práticas que implicam na revisitação da ideia eugênica com a nova roupagem oferecida pela genética. Esse cenário de enorme complexidade sociocultural, econômica e tecnológica apresenta inúmeras repercussõespráticas para a vida das pessoas, dentre as quais pode se elencar a oferta de mecanismos de medicina preditiva, os quais apresentam a possibilidade de identificação de riscos, doenças, deficiências e más-formações oriundas das informações genéticas e também das interações do sujeito com o meio ambiente como meio de gatilho de moléstias. Desse modo, as práticas e os procedimentos mais debatidos na medicina preditiva e reprodutiva serão descritos e debatidos no tópico a seguir. 3.2. Medicina preditiva e reprodutiva: práticas e procedimentos A medicina preditiva, diferentemente da abordagem determinista ofertada pela genética, apresenta instrumentos mais seguros e eficazes para identificação de riscos e o surgimento de doenças e deficiências. Esse ramo da medicina oferece a capacidade de analisar quanto a possibilidade de um indivíduo vir a manifestar alguma enfermidade genética, considerando o grau de interação do gene pesquisado com a própria moléstia e com o meio que o circunda381. A medicina preditiva apresenta-se determinante na condução dos processos de decisão em reprodução humana e evidencia a manifestação de práticas e posicionamentos eugênicos, que podem ocorrer em diferentes fases do processo reprodutivo assistido, como na fase de pré- concepção e gestacional, o que geraria a violação de bens jurídicos assegurados por inúmeros ordenamentos jurídicos tradicionais, inclusive o sistema jurídico-constitucional brasileiro382. Assim, cita-se: A medicina preditiva identifica pessoas saudáveis e assintomáticas portadoras de genes mutantes ou de risco para determinadas doenças, objetivando preveni-las e remediá-las, podendo ser estendida ao terreno do diagnóstico pré-natal e ao ramo do diagnóstico embrionário pré-implantação383. Sobre esse contextualizado panorama é que pretende-se descrever os principais procedimentos discutidos na medicina preditiva e reprodutiva, que são a esterilização, o aconselhamento genético, a manipulação genética, a reprodução assistida, o diagnóstico pré- natal e o abortamento eugênico. A partir do conhecimento dessas técnicas, é possível identificar o seu uso enquanto meio de controle de características humanas por meio de práticas eugênicas e/ou neoeugênicas. 3.2.1. Esterilização e aconselhamento genético A esterilização e o aconselhamento genético são dois procedimentos da medicina reprodutiva que tem suas características peculiares dentro da política de natalidade. O primeiro objetiva o controle reprodutivo pela via da incapacidade biológica de procriar e o segundo oferece orientações médicas e técnicas sobre a perspectiva genética e reprodutiva do paciente, bem como da futura prole. Cada um deles apresenta questionamentos bioéticos específicos quanto à violação de direitos humanos. Ainda que existam inúmeras incertezas e dissensos sobre a configuração dos direitos reprodutivos e o ato de procriação, existe um consenso difundido por bioeticistas sobre o direito de não ser privado arbitrariamente sobre tais faculdades, o qual se dá em razão do já mencionado precedente histórico, que registra a participação da ciência médica conjugada à motivações políticas e ideológicas estatais, que utilizaram a esterilização reprodutiva com fins discriminatórios e seletivos384. A esterilização, como o próprio nome diz, é um procedimento médico, de viés químico ou cirúrgico, o qual torna a pessoa estéril, incapaz de procriar385. Desse modo, a esterilização pode ser definida como uma intervenção médica que elimina a capacidade de reprodução ou como a ação de privar de forma permanente ou duradoura a capacidade de gerar uma pessoa, supõe a utilização de procedimento não natural para impedir a junção do espermatozoide com o óvulo e resulta na perda de uma função corporal386. As práticas de esterilização cirúrgica mais conhecidas são o procedimento de esterilização masculina, denominada vasectomia, e a esterilização feminina, conhecida como laqueadura ou ligação das trompas. É um procedimento que oferece consideráveis riscos, pois trata de utilizar a técnica médica para mutilar determinado segmento do órgão biológico reprodutor de modo a inviabilizar a reprodução de maneira natural. A vasectomia é uma cirurgia invasiva que consiste em uma intervenção de bloqueio dos canais deferentes, os quais são responsáveis por carregar o sêmen até a ejaculação do material espermático387. Com a realização desse procedimento, os espermatozoides são impedidos de realizar seus fins reprodutores em decorrência da lesão dos canais deferentes, o que impede, portanto, o desenvolvimento do processo biológico de reprodução. A laqueadura, por sua vez, é uma operação realizada também com finalidade esterilizadora, a qual consiste no corte das trompas que unem os ovários ao útero, impossibilitando que ocorra a fecundação. É um método tido como seguro e irreversível, uma vez que o risco de voltar a engravidar é de menos de 1%. É um método tido como seguro e irreversível, uma vez que o risco de voltar a engravidar é de menos de 1%388. A laqueadura e a vasectomia são procedimentos de esterilização muito populares, pois são procedimentos contemplados dentro do sistema público de saúde brasileiro. No Brasil, exige-se que os serviços de saúde que realizam a esterilização ofereçam atendimento multiprofissional, informação e acesso a todos os métodos contraceptivos, desencorajando a esterilização precoce389. De acordo com a legislação brasileira, esse procedimento só pode ser feito em homens e mulheres maiores de 25 anos ou com pelo menos dois filhos vivos. No caso de risco para a mãe ou para o filho, tendo testemunhado o quadro clínico em relatório escrito e assinado por dois médicos, observado um prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade do casal e a realização da cirurgia390. São inúmeras as circunstâncias que levam uma pessoa a se submeter ao procedimento de esterilização, que pode ocorrer desde a opção oriunda de um livre consentimento esclarecido até por fatores biológicos, de saúde e questões socioeconômicas. A esterilização classifica-se em três modalidades, a saber: voluntária, induzida ou involuntária, que também pode ser chamada de compulsória391. A esterilização voluntária se dá quando o paciente decide encerrar, em definitivo, a sua viabilidade reprodutiva392. Consiste em circunstância em que o sujeito, por vontade própria, decide que não tem objetivo de reproduzir e gerar prole. A esterilização induzida ocorre quando existe influência direta ou indireta sobre a vontade do paciente, por determinantes de aspectos políticos e socioeconômicos que influenciam na submissão do paciente ao procedimento de esterilização, como práticas culturais costumeiras que incentivam a realização do mencionado procedimento393. Sobre a esterilização induzida, complementa-se: [...] da esterilização induzida, isto é, aquela que se mostra como voluntária, porém, é determinada por pressões ou coerções concernentes, por exemplo, à admissão da mulher no trabalho, à estigmatização, à marginalização. Sobretudo em termos de trabalho, existem muitos casos conhecidos (e outros ocultados) de empresas que condicionaram a admissão no trabalho à comprovação de esterilidade das aspirantes394. Por último, a esterilização involuntária ou compulsória é quando o paciente é submetido ao procedimento de esterilização contra a sua vontade ou sem seu consentimento, ocasião em que pode ocorrer por motivo de saúde, incapacidade ou por razões de políticas públicas governamentais que obrigam as pessoas a se esterilizarem independentemente de sua vontade395. A prática da esterilização imposta por políticas sanitárias estatais é uma das mais cruéis violações de direitos humanos e exemplifica uma característica totalitária do Estado que, por meio de políticas públicas, ataca pessoas vulneradas política, social e economicamente. Não à toa, as pessoas com deficiência apresentam um grande histórico de situações em que foram vítimas de procedimentos forçados de esterilização e que foram determinados, inúmeras vezes, por critériospreconceituosos e utilitários. A realização da esterilização, muitas vezes, foi justificada como uma vantagem para mulheres, a fim de não as sobrecarregar com responsabilidades procriativas que não poderiam enfrentar, a qual resultava em uma intervenção forçada, mascarada por um falso consentimento. São poucos os registros de esterilização masculina não consentidas396. Um exemplo dessa prática de esterilização forçada é o caso paradigmático Buck versus Bell, em que uma mãe solteira de 17 anos foi internada em um sanatório e teve de ser submetida à esterilização por decisão de um julgado pela Suprema Corte estadunidense, em 1927397. Em Buck versus Bell, o então premiado acadêmico juiz Oliver Wendell Holmes Jr, em seu voto- relatório, registrou uma histórica manifestação de eugenia e discriminação institucionalizada, visto que realizou extensa defesa à legislação de esterilização do estado da Virgínia, o qual teve o apoio majoritário da corte, vide excerto: É melhor para o mundo todo que, em vez de esperar para executar filhos de degenerados por crimes ou deixá-los morrer de fome vitimados por sua imbecilidade, a sociedade possa impedir os que são manifestamente inaptos de dar continuidade à sua estirpe. O princípio que fundamenta a vacinação compulsória é abrangente o bastante para abarcar o corte das trompas de falópio. Três gerações de imbecis é o suficiente398. Até mesmo na atualidade, a esterilização ainda é tema controverso quando se trata de pessoas com deficiência. A experiência precedente desse grupo vulnerável com essa prática realizada de maneira forçosa provocou a busca pela preservação da saúde e autonomia reprodutiva nos dispositivos legais modernos que tratam sobre direitos das pessoas com deficiência. Na Lei Brasileira de Inclusão, por exemplo, no capítulo que se refere à busca por igualdade e não discriminação, o legislador no Art. 6º, inciso IV399, garantiu à pessoa com deficiência a capacidade civil plena para decidir sobre a conservação de sua fertilidade e vedou a prática de esterilização compulsória. Embora exista clara disposição legal sobre o tema, ainda hoje existem inúmeros casos400 de violação dos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência ocasionados pela esterilização compulsória, permitida por familiares e até mesmo pela intervenção médica estatal nas decisões judiciais que envolvem reprodução. Já sobre o aconselhamento genético, Guilam (2013, p. 166) explica que se trata de uma prática de informação e comunicação para controle de riscos no processo reprodutivo. O procedimento objetiva orientar pessoas ou casais em relação às possibilidades de sucesso no processo reprodutivo, de modo a oferecer a maior quantidade de informação possível401. Nesse sentido, Ana Thereza Meirelles complementa que: O aconselhamento genético, usado nos planejamentos reprodutivos, antes ou depois da concepção natural ou artificial, tem a finalidade de saber sobre a probabilidade de manifestação de doenças no filho pretendido. O ato está associado à decisão reprodutiva do casal que buscou o estudo. Sobre o propósito do aconselhamento, Carlos Maria Romeo Casabona afirma que é um processo de informação sobre as consequências e riscos de uma doença que pode ser transmitida hereditariamente com o intuito de evitá-la402. Para a American Society of Humans Genetics403, o aconselhamento genético trata-se de um processo comunicacional que lida com problemas humanos relacionados à ocorrência ou o risco de ocorrência de uma doença genética em uma família. Assim, importa esclarecer que o aconselhamento genético almeja: [...] (1) compreender os fatos médicos, incluindo o diagnóstico, provável curso da doença e as condutas disponíveis; (2) apreciar o modo como a hereditariedade contribui para a doença e o risco de recorrência para parentes específicos; (3) entender as alternativas para lidar com o risco de recorrência; (4) escolher o curso de ação que pareça apropriado em virtude do seu risco, objetivos familiares, padrões éticos e religiosos, atuando de acordo com essa decisão; (5) ajustar-se, da melhor maneira possível, à situação imposta pela ocorrência do distúrbio na família, bem como à perspectiva de recorrência do mesmo404. No Brasil, o suporte ao aconselhamento genético é incipiente, pois é oferecido apenas por serviços universitários e centros especializados. Consequentemente, muitas famílias e pacientes acometidos de doenças genéticas desconhecem a condição médica que possuem e não foram submetidos à investigação clínica para evidenciar os fatores genéticos envolvidos405. Por isso, a legislação especializada buscou garantir o acesso ao procedimento de aconselhamento genético para fins de oferecer assistência a todas as pessoas com deficiência no processo de decisão e procriação, vide dispositivo da Lei n. 7.853/89: Art. 2º Ao Poder Público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à previdência social, ao amparo à infância e à maternidade, e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem seu bem- estar pessoal, social e econômico. [...] II - na área da saúde: a) a promoção de ações preventivas, como as referentes ao planejamento familiar, ao aconselhamento genético, ao acompanhamento da gravidez, do parto e do puerpério, à nutrição da mulher e da criança, à identificação e ao controle da gestante e do feto de alto risco, à imunização, às doenças do metabolismo e seu diagnóstico e ao encaminhamento precoce de outras doenças causadoras de deficiência. A realização do aconselhamento genético pode ser dividida nas etapas de coleta da história genética do casal, a concessão de informações sobre riscos de malformações na gravidez em curso, a disponibilização de informações sobre testes pré-natais, seus riscos e seu potencial preditivo, bem como os seus desdobramentos, e, por fim, a tomada de decisão por parte do casal406. De modo geral, o aconselhamento genético pode ser realizado antes da fecundação e nas suas fases sucessivas, o que possibilita medidas anticonceptivas, ou até mesmo eugênicas. Assim se esclarece: A par do resultado do aconselhamento, os indivíduos passarão à tomada da decisão reprodutiva, podendo-se vislumbrar distintas possibilidades. O exame pode ser realizado não somente antes da fecundação, mas nas fases sucessivas a ela. Se for pré-conceptivo, pode-se optar por medidas anticonceptivas, como a não procriação com o uso de material genético próprio, a seleção do sexo do futuro filho para evitar a transmissão de algumas doenças ou o uso de material genético doado; se o teste genético ocorrer após a concepção (portanto, no embrião), também pode-se optar por implantá-los, mantendo-os congelados, ou automaticamente descartá-los. Sem prejuízo da vedação legal, feito o diagnóstico na fase pré-natal, discute-se, em sede de direitos reprodutivos, a possibilidade de legitimar abortos seletivos ou eugênicos, por conta de comprometimentos graves do feto e/ou de ausência de potencialidade de vida extrauterina, como nos casos de diagnósticos anencefálicos407. A prática do aconselhamento genético tem por característica a não diretividade ou também entendida como neutralidade, para fins de evitar a caracterização da prática como instrumento eugênico408. A neutralidade na concessão de informações genéticas aos indivíduos, de forma clara e simples, tem por objetivo oferecer subsídios para a decisão soberana do paciente. As decisões provenientes das informações obtidas por meio do aconselhamento genético são de caráter personalíssimo e individual, e que por isso, a autonomia do paciente e a não diretividade do procedimento são essenciais para o respeito aos direitos do interessado409. Entretanto, a existência de possibilidades terapêuticas para a realização da reprodução de modo seguro e saudável exige, em algumas situações, uma conduta diretiva, o que imprime na ação médica um viés intervencionista, prescritivo ou paternalistastricto sensu no Brasil, foi encontrado um número relativamente pequeno de dissertações sobre o tema abordado7. Desse modo, a escassez de referências bibliográficas e o número ainda restrito de pesquisas acadêmicas nas interseções do Direito e da Bioética acerca da questão ora problematizada demonstram que a temática, apesar de ter grande importância e impacto na vida e realidade de milhares de pessoas, foi pouco explorada e posta à margem pelos pesquisadores, cientistas e membros da academia. Por isso, o presente trabalho apresenta uma abordagem inédita com o propósito de superar a invisibilidade social das pessoas com deficiência e apresentar questões atuais de um panorama recente de avanço biotecnológico, que pode viabilizar melhorias na qualidade de vida dessas pessoas e apresentar novos questionamentos morais sobre vida, reprodução e dignidade humana, os quais precisam ser minuciosamente estudados. Além disso, o atual contexto de saúde reprodutiva no Brasil apresenta questões que estão sendo enfrentadas no debate público sem o devido amadurecimento de ideias e observações das contribuições científicas e jurídicas sobre os seus temas. Nesse sentido, no Poder Legislativo, são diversas as propostas de projetos de leis que trazem conexão com a temática dos direitos reprodutivos e envolvem a tentativa de regulação de aspectos técnicos e científicos na questão reprodutiva. Tamanha relevância do assunto justifica o destaque no Legislativo brasileiro aos Projetos de Lei nº 5.730/2009 e nº 5.899/2009, Projeto de Decreto Legislativo nº 1.447/2014, de autoria dos deputados federais Geraldo Resende (MDB/SP), Katia Abreu (DEM/TO) e deputada Mara Gabrilli (PSDB/SP), que tratam a respeito de técnicas de reprodução e do uso do aconselhamento genético, no sistema nacional de saúde. No Poder Judiciário, por sua vez, é possível encontrar registros jurisprudenciais que também abordam a presente temática, como a emblemática Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental-ADPF n. 548, que tratou do aborto de anencefálicos no Supremo Tribunal Federal, e outros julgados que relatam diversas situações correlacionadas à questão das pessoas com deficiência, como a infecção de zika vírus9 e os bebês com microcefalia, documentos que retratam uma percepção institucional e estatal do fenômeno da deficiência. Portanto, a proposta de pesquisa apresenta potencial de impactar positivamente a comunidade jurídica e científica ao apresentar a revisão de conceitos elementares para a compreensão da atual discussão dos direitos reprodutivos e sua correlação com os direitos humanos das pessoas com deficiência. A partir de uma abordagem interdisciplinar, almeja-se coletar importantes resultados a partir dos questionamentos adotados e das evidências surgidas no decorrer desta pesquisa científica para possibilitar um aprofundamento do tema e possíveis contribuições ao debate público sobre reprodução, dignidade humana e vida com deficiência. O objetivo geral desta pesquisa é analisar, sob o enfoque da bioética e dos direitos humanos, o atual panorama biotecnológico e suas repercussões sociais, políticas e jurídicas relacionadas aos direitos reprodutivos, em especial as questões conexas aos direitos das pessoas com deficiência. Os objetivos específicos da presente pesquisa são: (I) descrever o estado da arte da bioética e sua correlação com os direitos humanos das pessoas com deficiência; (II) analisar a literatura especializada sobre direitos reprodutivos e as percepções teóricas sobre vida, existência e dignidade humana das pessoas com deficiência; (III) apresentar aspectos instrumentais e práticos do avanço biotecnológico e seus reflexos em políticas públicas de saúde reprodutiva e controle populacional, em especial das pessoas com deficiência. Trata-se de pesquisa qualitativa que busca investigar a realidade do problema supracitado de modo interpretativo e descritivo, com o intuito de obter embasamento substancial ao objeto de pesquisa10. Dessa maneira, propõe-se uma pesquisa exploratória, tendo em vista a busca por proporcionar maior familiaridade com o problema, de modo a torná-lo mais explícito ou a construir futuras hipóteses11. O procedimento de pesquisa bibliográfica foi realizado para fins de aprofundamento dos aspectos mais relevantes da bioética, dos direitos humanos, dos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência e da repercussão prática do avanço científico em uma política de saúde reprodutiva. Por isso, adota-se nesse trabalho a coleta de dados mediante levantamento bibliográfico, a qual utiliza de dados e/ou de categorias teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registradas12. A técnica de levantamento bibliográfico consiste na pesquisa da bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo13. Logo, as informações são buscadas em fontes como artigos, livros, publicações, revistas especializadas e teses de natureza acadêmica em fontes bibliográficas de língua portuguesa, inglesa, francesa e espanhola. Ademais, utiliza-se o método de abordagem de pesquisa não doutrinária, também chamada de interdisciplinar ou sociojurídica, que busca descrever, explicar e criticar o paradigma do Direito e os fenômenos jurídicos tal qual eles se manifestam na realidade14. Essa vertente será adotada no trabalho com o intuito de realizar uma incursão analítica no âmbito dos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência, em observação aos processos socioculturais e contextos históricos mais amplos, seu tratamento nas instituições jurídicas, políticas e sociais, sem apartá-los de uma percepção aplicada ao estudo da bioética. Com uma perspectiva de oferecer alicerces jurídicos ao tema, a pesquisa adota o método de abordagem de pesquisa doutrinária ou teórico-dogmática, também chamado black letter research, que busca compreender o fenômeno jurídico específico somente em sua área particular, onde se faz necessária coleta documental e análise de um corpo jurisprudencial combinado com a legislação relevante, apoiada em modelos teóricos para encontrar, entender e identificar seu paradigma, limites, conflitos, a sua linguagem e aplicar as regras, princípios, soluções de problemas e critérios de racionalidades para clarificar o Direito15. Esse método implica uma revisão do estado da arte, ao coletar as principais obras, livros, doutrinas, dispositivos de legislações comparadas, convenções internacionais, documentos e demais referências documentais e bibliográficas sobre o tema pesquisado, o que resultará na produção material técnico especializado. A fim de atingir melhores resultados, a pesquisa será baseada na abordagem qualitativa estabelecida pelo emancipatory disability research model, que se caracteriza pela aproximação de um diálogo entre o cientista e a pessoa com deficiência, de modo a potencializar uma abordagem emancipatória do mencionado grupo socialmente vulnerável. Assim, vale citar Collin Barnes16: The Emancipatory Research is dedicated to the systematic demystification of structures and processes that create disability as well as the establishment of a “viable dialogue” between the scientific community and people with disabilities, in order to promote their emancipation. Achieving this goal requires that researchers learn to put their knowledge and skills at the service of people with disabilities17. Por derradeiro, cumpre ressaltar que este trabalho, ao utilizar uma metodologia de investigação adaptável à complexidade do problema e que se compromete com o desenvolvimento de uma ciência ética e aliada politicamente à luta das pessoas com deficiência, tornará possível a compreensão do atual panorama político, social e jurídico dos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência e alcançará os resultados almejados, permitindo a identificação do paradigma teórico-científico acerca da temática estudada. A hipótese principal apresentada na pesquisa é a de que os avanços da biotecnociência apresentam significativas melhoras no processo médico de controle de reprodução humana,em muitos casos. A neutralidade, portanto, é um princípio de complexa concretização e que apresenta ainda muita resistência por parte da comunidade médica, por ainda não compreender e respeitar a autonomia dos casais, em especial das mulheres. Além disso, insta frisar que o aconselhamento genético precisa de uma abordagem biopsicossocial e multiprofissional, pois, muitas vezes, faz com que pessoas com acesso às informações pré-sintomáticas de doenças genéticas ou, até mesmo, de seu grupo familiar apresentem variações emocionais e psíquicas de preocupação e vivência antecipada de uma doença410. O processo de aconselhamento genético é de grande importância para a decisão reprodutiva e pode-se entender como ato de planejamento familiar, que oferece acesso à maior quantitativo de informações médicas, genéticas e reprodutivas, de viés terapêuticos e preventivos, para auxiliar na decisão, com livre consentimento esclarecido, de reprodução saudável do casal por meio natural ou artificial. Desse modo, se o procedimento de aconselhamento genético seguir os normativos éticos de sua execução e, principalmente, o aconselhador seguir uma postura não diretiva sobre as informações disponíveis ao paciente, o aconselhamento genético pode ser um importante instrumento para efetivação do direito à procriação para todas as pessoas interessadas, incluindo pessoas com deficiência. 3.2.2. Reprodução assistida e manipulação genética A reprodução assistida engloba um rol de técnicas da medicina reprodutiva que possibilita a realização da procriação por meios artificiais, dentre as quais se destacam a inseminação artificial humana, a fertilização in vitro e a injeção citoplasmática de espermatozoide. São intervenções médicas que oferecem riscos e que devem ser consideradas para se tornarem opção do postulante à procriação. A reprodução humana assistida é uma prática médica predominantemente privada, de pouco controle e licenciamento das clínicas, e de elevado custo econômico, o que torna uma prerrogativa dos mais favorecidos economicamente, podendo trazer consideráveis reflexos sociais411. Desse modo, a reprodução assistida é o conjunto de técnicas, tecnologias, equipamentos, procedimentos médicos e biomédicos para a fertilização do embrião in vitro, que recebe denominações variadas, tais como reprodução assistida, reprodução humana assistida e técnicas de reprodução assistida412. A finalidade inicial da reprodução humana assistida era possibilitar que casais sem a capacidade biológica de gerar uma prole, por meio da intervenção médica, alcançassem objetivos de seus projetos paternais e procriação. A reprodução assistida, portanto, nasceu para atender ao desejo de ter filhos e formar uma família por meio dos instrumentos da medicina reprodutiva. A grande polêmica que envolve a realização da técnica é que, para alguns especialistas, a reprodução assistida, em especial a fertilização in vitro, se utiliza de um procedimento que pode produzir resultados eugênicos denominado de diagnóstico genético pré-implantação, também conhecido tecnicamente pela sigla DGPI, e, por isso, é necessária uma maior atenção com essa técnica. O diagnóstico genético pré-implantacional é, geralmente, utilizado por casais para identificar geneticamente a saúde dos embriões que serão implantados, bem como ter acesso às características genotípicas, para fins de realizar ações corretivas, por meio de enzimas ou proteínas, identificar o surgimento de algum gene indesejado e o surgimento de doenças com pré-disposição genética413. Assim, conceitua-se esse procedimento como: O DGPI traduz-se num método de análise genética que, com o auxílio da FIV, impede que embriões portadores de doenças hereditárias sejam implantados no útero materno. Para tanto, impõe um padrão na transferência, de sorte que apenas aqueles que possuem certas qualidades genéticas serão de fato transferidos. Entre o público-alvo desse método, estão principalmente casais de alto risco reprodutivo e com histórico de abortos decorrentes de distúrbios genéticos do feto414. Ocorre que é possível identificar previamente as informações genotípicas do embrião e a característica desejada, o que permite a seleção de genes que determinam características desejadas pelo casal, utilizando os embriões conceituados como sadios e descartando os demais embriões415. Jurgen Habermas retrata que no diagnóstico genético pré-implantacional a proteção da vida do feto entra em conflito com as considerações de vida dos pais, que, ponderando a questão como se fosse um bem material, desejam ter um filho, mas recusam a implantação do embrião se ele não corresponder aos seus anseios ou se não atender aos padrões predeterminados de saúde416. Por isso, a possibilidade de escolha para definir quais genes, e, por conseguinte, quais embriões deverão vir a nascer, ou não, é uma política de seleção identificada como eugênica, porque, além de manipular o processo de seleção natural, exerce um determinante controle sobre as características das gerações futuras. E, portanto, resulta em uma instrumentalização da vida evidenciada pela prática de eugenia negativa e positiva. Nesse sentido, no Brasil, o diagnóstico genético pré-implantacional também recebe críticas por carecer de regulação legislativa ordinária, uma vez que recebe regulamentação específica do Conselho Federal de Medicina, na Resolução nº 2.320, de 1º de setembro de 2022. Sendo assim, foge do crivo e análise política exercida diretamente pelo Poder Legislativo, do controle social e do surgimento de conflitos morais. Entretanto, há de se considerar também que a regulação pelo conselho da classe médica permite uma análise mais técnica e criteriosa pela visão da ética médica. Todavia, possibilita também a prevalência de interesses mercadológicos e corporativistas de muitos profissionais que têm interesse na permissão da técnica de medicina reprodutiva, o que repercute em maior assimetria na relação médico-paciente. Para alguns especialistas, o Conselho Federal de Medicina carece de legitimidade democrática para regular a realização de procedimentos de reprodução assistida, visto que na referida resolução propõe-se a legislar sobre temas importantes da bioética, como redesignação de laços parentais, acesso a técnicas de reprodução assistida por mulheres solteiras e casais homossexuais, a viabilidade de reprodução heteróloga e outros temas que ainda não foram posicionados pelo Congresso Nacional417. De modo geral, a Resolução nº 2.320/2022 estabelece medidas sobre a reprodução humana assistida, como aspectos também técnicos quanto ao número de embriões que podem ser implantados conforme idade da paciente, a reprodução assistida post-mortem e apresenta também aspectos que devem ser considerados quanto aos riscos da realização de procedimentos de reprodução assistida. Sobre o diagnóstico genético pré-implantacional, a Resolução nº 2.320/2022 estabeleceu como parâmetro regulatório e ético algumas restrições práticas, como a impossibilidade da escolha do sexo do bebê, de características que sejam estranhas a doenças e a viabilidade de implantação somente de embriões saudáveis418. O diagnóstico genético pré-implantacional apresenta inúmeros dilemas éticos na sua execução e é apontado como procedimento que dispõe livremente da vida humana para fins de seleção de características genéticas das gerações futuras. A polêmica envolve posicionamentos eugenistas, que defendem a utilização da técnica de modo a conter a transferência de doenças genéticas/hereditárias de pais para filhos e no descarte de embriões tecnicamente inviáveis. Esse tipo de controle de qualidade das informações genômicas fetais coloca novo aspecto da instrumentalização da vida humana, produzida sob condições e em função de preferências e orientações axiológicas de terceiros em relação à composição desejada do genoma419. Nesse cenário, torna-se questionável a prática do DGPI pela possibilidade de promover eugenia positiva, quando elege os melhores genes desejados pelos pais para aqueleembrião, e eugenia negativa, quando trata de realizar modificações genéticas com fins terapêuticos para evitar a sucessão de doença genética420. Desse modo, importa trazer à discussão novamente a questão da medicalização da vida e os questionamentos sobre o que é ser saudável e o que necessariamente é uma doença. Muitas doenças genéticas, as quais se realizam intervenções médicas do gênero, permitem que seu portador tenha nível razoável de qualidade de vida e outras são assintomáticas no decorrer da vida e, até mesmo, podem nunca se manifestar.421 É preciso, portanto, ter necessária atenção com a sanha médica compulsória por intervenções nas informações genéticas, uma vez que o DGPI apresenta riscos ainda imprevisíveis, bem como deve-se questionar o estímulo de um atrativo mercado médico ao desejo de consumo dos pais de obter um filho com determinada característica genotípica, aperfeiçoamento genético, capacidades e habilidades específicas. Outra possibilidade questionável oferecida pelo DGPI é a criação dos chamados “bebês medicamentos”422, criados para fins de colaborar no tratamento de doenças de outra pessoa geneticamente compatível. No caso, o bebê medicamento é gerado a partir das necessidades genéticas de um irmão mais velho adoecido e oferece células totipotentes capazes de serem utilizadas no tratamento da doença do irmão423. Nesse panorama de inovação científica, incertezas éticas e pouca regulação, é necessário questionar a influência da intervenção genética no aspecto biológico e psíquico do novo sujeito modificado, a eticidade na reificação e instrumentalização do homem, o impacto social de inserir indivíduos geneticamente modificados no meio populacional comum, assim como a finalidade das técnicas de reprodução assistida, que hoje nos parece desvirtuada, uma vez que surgiu para oferecer possibilidades para casais inférteis e atualmente oferece possibilidades eugênicas de seleção e melhoramento. Ainda mais polêmica, a manipulação genética aparece como outro importante tema a ser considerado no cenário das inovações oferecidas pelas novas técnicas de reprodução e biogenética. Sobre o tema, Michael Sandel predica que os avanços da genética indicam a possibilidade futura de tratar uma série de doenças debilitantes, como também apresenta o dilema da possibilidade de manipulação da natureza humana, para melhorar a capacidade física, memória, escolher o sexo e outras características genéticas dos descendentes424. A manipulação genética, certamente, é uma das maiores inovações oferecidas pela biotecnologia nos últimos anos, e, por consequência, pode ser a causadora de inúmeras modificações quanto à natureza humana, às formas de vida e às possibilidades ofertadas pela genética. Sobre o referido cenário e seu impacto assinala-se que: Estamos à beira de uma nova revolução com um poder assombroso. A revolução da biologia molecular nos dará um alcance sem precedentes. Nos permitirá fabricar novas formas de vida sob demanda, formas de vida de todo tipo. A decisão que se nos coloca não é a de usar ou não este poder, senão como e até que ponto425. O estudo e aprofundamento de técnicas de manipulação e edição do genoma humano irão nos ajudar a compreender como os nossos genes funcionam quando em condições normais e/ou patológicos, além de compreender de que modo interagem entre si e como o ambiente pode influenciar no desenvolvimento e manifestação de doenças e outras características genéticas426. A edição ou manipulação genética pode ser entendida como o procedimento de inserção, eliminação ou substituição de Ácido Desoxirribonucleico (DNA) no genoma de um organismo utilizando enzimas do tipo nuclease, chamada de “tesouras moleculares”, as quais produzem a quebra de cadeias duplas em locais específicos do genoma e possibilitam a reparação dirigida por homólogos, dando lugar a mutações controladas427. A mais popular técnica de edição genética tem o nome de Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats (CRISPR) e CAS (Associated Proteins) – CRISPR/CAS, a qual pode ser descrita como a principal ferramenta de edição genética da atualidade. Essa técnica consiste em utilizar o comportamento celular de combate viral presente em algumas bactérias para realizar intervenções guiadas na estrutura do DNA, conforme explica o trecho a seguir: Oriundo do sistema imune adaptativo de procariontes, este mecanismo reconhece o material genético invasor, cliva- o em pequenos fragmentos e o integra ao seu próprio DNA. Em uma segunda infecção pelo mesmo agente, ocorrem: transcrição do locus CRISPR, processamento do RNAm e criação de pequenos fragmentos de RNA (crRNAs), que formam complexos com as proteínas Cas, e estes reconhecem os ácidos nucleicos estranhos e finalmente o destroem428. Mais recentemente, outra técnica denominada prime editing, foi desenvolvida por cientistas e promete realizar edições genéticas com maior qualidade, precisão e segurança, para corrigir doenças genéticas e mutações em laboratórios, o que pode vir a possibilitar o uso clínico da técnica na solução de questões médicas429. De modo geral, existem quatro possíveis intervenções genéticas no ser humano, que são: a terapia gênica de células somáticas, a qual busca corrigir defeitos genéticos em uma pessoa; a terapia gênica da linha germinal, que consiste na inserção de uma informação genética nas células reprodutoras com a finalidade de corrigir a anomalia da futura descendência; a manipulação genética perfectiva: similar à anterior, mas com finalidade de melhorar um caráter somático da pessoa; e a manipulação eugênica, a qual busca melhorar uma grande parte das características humanas codificadas para fins de atender aos critérios eugênicos de personalidade, inteligência, comportamento, caráter e et cetera430. A terapia gênica de células somáticas e a terapia gênica da linha germinal se apresentam como intervenções que objetivam tratar doenças genéticas ou características genéticas indesejadas com fito de evitar doenças e promover saúde ao indivíduo ou sua prole. A manipulação genética perfectiva e a manipulação eugênica, por sua vez, são intervenções genéticas que objetivam a melhora de características, ou seja, que desejam aprimorar determinada característica individual ou da prole, sendo, portanto, questionadas pelo seu viés neoeugênico, embora as linhas que separam as quatro modalidades de intervenções se apresentem cada vez mais tênue. A terapia gênica da linha germinal é uma das mais questionadas intervenções genéticas em seres humanos, pois vislumbra-se que pode produzir efeitos de alteração do genoma na linha hereditária, com a adição e a supressão de genes, o que implica em inúmeros debates éticos, bem como a ausência de segurança em decorrência de seu estado de conhecimento científico431. A possibilidade de modificações genéticas suscita questionamentos éticos e de avaliação de riscos e implicações morais envolvidas, embora grande parte da comunidade médica e científica aprove a terapia gênica em células somáticas para combater doenças e desordens graves432. Entretanto, os dissensos se apresentam maiores quando as intervenções científicas ultrapassam os limites do ético e do previsível, como no caso dos pesquisadores chineses, que, em 2015, anunciaram a primeira intervenção genética de células embrionárias utilizando a técnica CRISPR-Cas9. Posteriormente, outra equipe de cientistas anunciou a realização de experimento que conferia resistência ao HIV pela inserção de mutações genéticas com a utilização da mesma técnica, onde apenas 4 dos 26 embriões modificados evidenciaram sucesso433. Para alguns bioeticistas, a terapia gênica da linha germinal apresenta implicações sociais perigosas, pois defendem que produzir intencionalmente modificações nos genes das pessoas, de modo transmissível aos seus descendentes, cria critérios de bons e maus genes, o que pode ser utilizado para expressão do preconceito social do seu tempo, o que possibilita que grupos sociais e economicamente privilegiados determinem quaissão essas características tidas como favoráveis434. Desse modo, a terapia gênica da linha germinal pode apresentar em sua aplicação, não só critérios para combater doenças e manifestações genéticas indesejadas, como também critérios de melhoramento humano e de eugenia, resultando na exposição de seres humanos às fragilidades psicológicas, inúmeras situações de injustiça e manutenção de desigualdades sociais. Outra categoria de intervenções genéticas é a terapia gênica em células somáticas, a qual objetiva corrigir defeitos genéticos ou patológicos em uma pessoa por transferência de material genético de um órgão ou tecido, excluindo-se as células geminais435. Essa modalidade, conforme esclarece a geneticista Mariana Zatz, se apresenta com viés mais terapêutico, pois utiliza as células ainda não diferenciadas (stem cells, também chamadas de células-tronco) presentes na medula óssea ou no cordão umbilical para substituir tecidos e desenvolver órgãos, o que pode ser utilizado para o tratamento de inúmeras doenças hematológicas e neurodegenerativas436. As objeções éticas existentes em relação a essa modalidade de intervenção genética são menores, uma vez que, diferente da terapia gênica de linha germinal, os efeitos que produz são estritamente reservados ao sujeito a que se submete, embora ainda importe considerar aspectos como a integridade física, a saúde, a existência de provas clínicas para a realização desse tratamento, bem como a análise de riscos e benefícios que cada caso concreto exige437. As intervenções genéticas de melhoramento objetivam aprimorar as características individuais físicas, como características estéticas, intelectuais e aumento de certa capacidade. Essa perspectiva engloba a limitação de esforços médicos para a correção de disfunções orgânicas, a partir da referência de um padrão de normalidade, do qual o sujeito será novamente restituído e busca ir além da restituição da saúde, conferindo novas capacidades aos indivíduos438. Diferente da terapia gênica somática e da terapia gênica da linha germinal, as intervenções de manipulação genética perfectiva e a eugênica objetivam promover o aprimoramento de uma característica somática ou melhora de uma inabilidade. No caso da intervenção eugênica, promove uma multiplicidade de fatores somáticos com critérios eugênicos identificados em aspectos sociais desejáveis. Isso explicita, dentro das intervenções genéticas, uma grande diferença entre práticas com finalidade terapêuticas e de melhoramento. De modo geral, a manipulação do patrimônio genético humano é uma manobra que afeta a dignidade da espécie, pois suas características evidenciam aspectos negativos para a vida humana, em razão da utilização do homem como um meio, pois trata-se de uma intervenção não terapêutica que atenta contra a identidade, a integridade e a individualidade do ser humano, que altera artificialmente e em definitivo a natureza humana, podendo ser considerada um dano439. Embora grande parte das técnicas apresente ainda necessidade de evolução quanto ao seu aspecto de segurança biológica, de melhorias na sua aplicação e no consenso de questões éticas, é possível observar o intuito de sua finalidade prática, o que ocasiona questionamentos sobre a utilização do saber científico. Um dos principais problemas identificados pela utilização inadequada das informações genéticas é a possibilidade de promoção de manifestações preconceituosas e de visões pseudocientíficas, como o reducionismo biológico e o determinismo genético, que fortalecem a estigmatização e a discriminação por condições biológicas genéticas440. O reducionismo genético é uma concepção que afirma que os genes possuem a explicação para as características de organismos vivos, incluindo os humanos441. Essa corrente afirma que a saúde e o comportamento social são explicados pelas variações genéticas e não sofrem influência do ambiente. Enquanto, o determinismo genético reduz a condição humana ao aspecto gênico, suas informações genéticas e características442. São concepções que levam a questionamentos das práticas propostas pelas terapias gênicas com fins de melhoramento genético, pois exacerbam a crítica do emprego de meios medicinais para fins não medicinais. Esses procedimentos almejam se tornar um instrumento de melhoria da qualidade de vida humana, mas também podem ser uma escolha de consumo ou, até mesmo, o exercício de um duvidoso direito de aprimorar as características humanas em prol de uma suposta qualidade étnica443. A reprodução assistida e a manipulação genética são temas de difícil enfrentamento, pois seu caráter sociocientífico apresenta difícil solução pela perspectiva cultural e seus processos racionais e afetivos, o que amplia o dissenso entre os especialistas. Nesse sentido, ainda pairam inúmeros questionamentos sobre as práticas de manipulação genética e sua conjugação com as técnicas de reprodução assistida, apresentando também uma perspectiva ético-política sobre a aprovação e consenso sobre tais procedimentos, bem como uma reflexão e prevenção quanto aos impactos sociais que poderão causar em um futuro próximo. 3.2.3. Diagnóstico genético pré-natal e abortamento eugênico O diagnóstico genético pré-natal é um dos procedimentos da genética que promovem um dos mais importantes debates éticos relacionados aos direitos reprodutivos na atualidade. O tema apresenta relevantes controvérsias e suscita dúvidas na comunidade científica, uma vez que a literatura especializada expressa posicionamentos éticos distintos em relação ao uso da referida técnica. Sobre o mencionado procedimento, uma das principais polêmicas da genética e da medicina reprodutiva se relaciona com o domínio da hereditariedade, a expansão da medicina fetal e o diagnóstico pré-natal, pois são temáticas que oferecem esperanças e preocupações à medida que desenvolve tecnologia para testagens genéticas coercitivas, cujo caráter eugênico é evidente e inegável444. Entretanto, para superar esses problemas éticos e morais, há de se considerar principalmente aspectos práticos, como questões bioéticas sobre, por exemplo, quem deve ser testado, quando oferecer esse tipo de exame, como driblar os interesses puramente comerciais que circundam a aplicação da técnica e até onde vai o direito de interferir445. O diagnóstico pré-natal permite a detecção de um número crescente de doenças ainda durante a gravidez e viabiliza a gravidez mesmo em situações de alto risco genético. Entretanto, em países que o aborto é permitido, muitos casais interrompem a gravidez de um feto que detém riscos de apresentar determinadas doenças genéticas ou más-formações fetais446. É uma prática que busca se legitimar na possibilidade de identificação de doenças, más- formações e outros fatores de comprometimento à saúde do feto, embora a grande maioria dessas manifestações hereditárias e suas consequências não possam ser tratadas durante o estágio gestacional, o que constitui o núcleo da discussão ética existente sobre a utilização desse procedimento. Nesse panorama, há de se considerar que é na área de conhecimento da obstetrícia, neonatologia e fetologia que a ciência médica trata de cuidar de aspectos da saúde da relação materno-fetal, prescreve cuidados na gestação, realiza o tratamento de intercorrências, possibilita a gestação de um novo ser humano e o nascimento de uma nova vida humana447. Nessa seara médica, o avanço tecnológico permitiu o desenvolvimento de métodos semióticos e terapêuticos que certamente impactaram positivamente os índices de sobrevivência da vida fetal. Todavia, os procedimentos de diagnóstico pré-natal de deficiências possibilitaram a identificação de más-formações congênitas e manifestações de anomalias genéticas em tempo bastante pré-maturo, o que impulsionou uma discussão sobre o aborto terapêutico ou também chamado de aborto eugênico. Dessa maneira, importa esclarecer o conceito técnico do diagnóstico pré-natal, como ocorre na prática, em que circunstância, quais procedimentos médicos possibilitam um diagnósticopré-natal, quando existe a necessidade de realizar tais procedimentos e perceber se sua aplicabilidade demonstra um instrumento para legitimar práticas eugênicas. O diagnóstico pré-natal é uma prática que surgiu em meados do ano de 1969 com o aperfeiçoamento das técnicas de cultura de células fetais suspensas em líquido amniótico para o estudo de cromossomos, onde se realizava o procedimento de amniocentese para coleta dessas informações448. O diagnóstico genético pré-natal, na atualidade, é possível graças às inovações propostas pela técnica de amniocentese, à visualização de cromossomos humanos, às pesquisas de marcadores séricos, à ecografia e outros exames de finalidade obstétrica449. Segundo Elio Sgreccia, o exame genético pré-natal é realizado em um período do desenvolvimento embrio-fetal para confirmar se o nascituro está afetado por malformações, defeitos ou anomalias genéticas que possam influenciar em sua vida futura. Já os exames obstétricos de pré-natal podem ser realizados durante a gravidez para fins de avaliar a saúde materno-fetal, o que implica na análise da boa formação fetal e desenvolvimento saudável da gravidez450. O diagnóstico pré-natal deve ser realizado quando existe uma real prescrição para o caso, uma vez que é uma intervenção que oferece riscos ao feto e, portanto, devem existir fundadas motivações para a realização do procedimento, de modo a evitar a submissão da mãe e do feto a procedimentos desnecessários e medidas invasivas que possam afetar a saúde materno-fetal. A recomendação ética e deontológica para a realização desses procedimentos, em geral, se dá depois da consulta genética e obstétrica, evidenciada a necessidade por razões objetivas, como, por exemplo, a idade avançada da mãe, existência de outro filho com algum tipo de anomalia genética ou um dos genitores apresentem algum traço evidente de alteração cromossômica451. O rastreamento de alterações cromossômicas pode ser realizado ao constatar evidências relevantes no aconselhamento genético ou diretamente pela observação do desenvolvimento fetal por técnicas como punção de líquido amniótico, a amostragem vilo corial, no início da formação da placenta ou exame de ultrassonografia452. Como já dito, o diagnóstico pré-natal é possível graças às inovações propostas pelas técnicas de amniocentese, à visualização de cromossomas humanos, às pesquisas de marcadores séricos e outras técnicas invasivas como a ecografia obstétrica. Essas técnicas empregadas são variadas e apresentam diferentes graus de invasividade, por isso, pela finalidade do presente trabalho, serão descritas para fins de melhor compreensão e para oferecer uma percepção mínima sobre seu risco453. A técnica menos invasiva é a ecografia ou ultrassonografia, que pode ser realizada, em regra, durante o primeiro trimestre de gestação e possibilita avaliar a vitalidade do embrião, a idade de gestação, a existência de gravidez múltipla, eventuais anomalias no feto e outros fatores que impedem o implante e seu desenvolvimento na placenta. Por isso, a ecografia precede os exames mais invasivos454. Sobre a ecografia obstetrícia, explica a literatura especializada: A ecografia, por seu turno, foi em suas origens uma técnica militar adaptada à obstetrícia apenas nos anos 1950- 1960. Inicialmente, sua função era avaliar o tamanho e a posição da criança no útero e detectar as gestações múltiplas. Muito rapidamente, ela foi igualmente utilizada para guiar a retirada do líquido amniótico e limitar o perigo de indução de um aborto durante a amniocentese. [...] Nos anos 1980, o aperfeiçoamento da resolução dos aparelhos de ecografia permitiu a adaptação dessa técnica para o diagnóstico de más-formações fetais, primeiramente as maiores, como a falta de um membro, e depois as mais leves455. Outra técnica também utilizada é o denominado teste triplo, um teste prognóstico em que se coleta material sorológico da mãe e observa-se a possibilidade estatística de manifestação de anomalias cromossômicas no feto, especialmente síndrome de Down. Embora ofereça informações parciais, se apresenta como um exame que possibilita o descarte da necessidade de se submeter a outro exame mais invasivo456. Assim, cita-se: [...] nos anos 1980, os bioquímicos elaboraram o que será chamado de “teste triplo”: um teste sanguíneo que permite medir a quantidade de três proteínas no sangue da futura mãe. Uma taxa excepcionalmente elevada dessas proteínas indica uma possibilidade mais elevada não apenas de trissomia 21, mas também de desordens importantes do desenvolvimento neurológico no feto tal como a espinha bífida457. Dentre as técnicas de identificação de má-formação congênita está o exame de amostragem vilo corial, que consiste na retirada de material genético fetal, por via transcervical ou transabdominal, especificamente com o intuito de coleta de um tecido extraembrionário denominado cório, para proceder a realização de exames laboratoriais genéticos e de doenças infecciosas458. E, ainda sobre as técnicas de diagnóstico pré-natal, a amniocentese é o exame que há mais tempo é empregado para a realização do diagnóstico genético, o qual consiste na retirada de líquido amniótico em que estão presentes células fetais de descamação e são submetidas a exames citogenéticos para identificação das informações cromossômicas dessas células459. A fase do diagnóstico pré-natal muito raramente vai possibilitar uma intervenção terapêutica no feto de defeitos cromossômicos, dado o atual status da medicina e de seus recursos, o que provoca um dilema ético de aceitar o nascituro com a sua condição ou recorrer à interrupção da gravidez460. Para a antropóloga Débora Diniz, a impossibilidade de tratamento ou cura para a maioria das doenças identificadas nos procedimentos de diagnóstico pré-natal faz com que se insira no contexto a possibilidade do aborto seletivo da gestação461. A antecipação de diagnóstico de deficiência possibilita o preparo das famílias e do serviço médico para receber um bebê com necessidades especiais, bem como para a utilização de medidas terapêuticas indicadas para cada caso462. No caso de más-formações que resultem em sintomas somáticos, confirmadas por outros procedimentos médicos, pode-se intervir com a terapêutica adequada, de modo precoce, no recém-nascido463. O diagnóstico precoce também é importante para permitir que sejam tomadas medidas que facilitem a vida da pessoa afetada, como a possibilidade de se evitar aparecer alguns futuros sintomas de síndromes e a realização de cuidados terapêuticos464. Sobre as questões morais que a técnica de diagnóstico pré-natal suscita, torna-se evidente a percepção de que a promoção dessa técnica origina-se em um discurso de medicalização de fenômenos sociais e de comportamentos com ênfase nos riscos, que corriqueiramente apresentam e terminam por desdobrar-se em proposições sobre a questão do abortamento de fetos malformados. Na realização de exames para fins de diagnóstico pré-natal, importa considerar o binômio risco ofertado à saúde materno-fetal e a necessidade de realização do procedimento, uma vez que muitos desses exames, por evidenciar grau considerável de complexidade e invasividade, podem resultar na provocação do aborto em razão de intervenções malsucedidas. Outra questão a se observar sobre esses exames – que possibilitam o diagnóstico pré-natal de deficiências e anomalias genéticas – é que a sua excessiva procura e execução em laboratórios também ocorre em consequência de um alarmismo eugênico causador de desinformação. Isso resulta no fato de que diversas gestantes, que não têm indicação para a realização desses exames, se submetem a procedimentos invasivos e desnecessários em decorrência da angústia e ansiedade causada pela desinformação, pelo temor do risco genérico e pela falta de aconselhamento profissional. O diagnóstico pré-natal deve ser realizado enquanto possa servir ao bem da pessoa e ter seu uso adequado às práticas de prevenção, diagnóstico e tratamento de eventuais enfermidades465. Não deveser usado para discriminar pessoas que são portadoras de genes patogênicos ou defeitos congênitos. Assim, complementa-se: O diagnóstico pré-natal, colocado a serviço do binômio materno fetal, é realizado para prevenção, diagnóstico e tratamento de enfermidades. Jamais deve servir para discriminar o nascituro que, quando doente, mais necessita de proteção e de cuidados médicos, razão de ser da medicina. Se o diagnóstico pré-natal conduz à prática do aborto é um atentado à Medicina466. Dessa maneira, o diagnóstico de má-formação fetal é uma das experiências mais angustiantes que uma mulher grávida pode enfrentar, pois existe grande precisão técnica para identificação diagnóstica de más-formações fetais467. Entretanto existe muita limitação para medidas terapêuticas para a grande maioria dos diagnósticos. No Brasil, o diagnóstico pré-natal de deficiências genéticas e deformidades fetais é marcado pela impossibilidade legal de abortamento, visto que há uma limitação jurídica no Código Penal brasileiro que restringe as decisões que visam o aborto seletivo, salvo em situações de risco de vida para a mãe, denominado aborto necessário e no aborto sentimental, decorrente dos casos de estupro468. Entretanto, alguns casos de mulheres com gravidez de fetos com deficiência têm obtido respaldo jurídico por meio de decisões do Poder Judiciário para fins da realização da interrupção da gravidez. Além disso, existe um grande lobby por parte de determinados segmentos sociais que pretendem dar legalidade ou respaldo jurídico ao procedimento de abortamento. Essa situação supracitada pode ser conferida em diversas ações constitucionais que tramitam ou tramitaram no Supremo Tribunal Federal, como na ADPF 54469, ADI 5581470 e outras tentativas pela via judicial, as quais serão debatidas em tópico oportuno. Em 1991, houve no Brasil a primeira emissão de alvará judicial autorizando a realização da interrupção seletiva da gravidez em decorrência da gestação de um feto anencéfalo471. Desde então, mais de dois mil processos semelhantes solicitaram a autorização para a realização do abortamento eugênico de fetos portadores de malformações. Desse modo, ao adentrar na temática do abortamento, é imperioso conhecer aspectos elementares que ilustram o debate, especialmente no cenário brasileiro, a partir de uma análise sobre conceito, técnica, questões políticas, jurídicas e morais que se apresentam relevantes para a percepção do procedimento. O abortamento é entendido conceitualmente como a interrupção violenta da gravidez antes de seu término natural com a consequente morte fetal, ou seja, dois são os pressupostos do abortamento, o perecimento fetal e a interrupção do estado gravídico472. Em um conceito muito popularizado, segundo Ronald Dworkin, aborto significa “matar deliberadamente um embrião humano em formação, circunstância em que se opta pela morte antes de que a vida independente seja iniciada”473. O aborto é “essencialmente a morte do concepto antes da sua viabilidade”, pois, segundo o autor, o abortamento não é a interrupção voluntária da gravidez, uma vez que a gravidez pode ser interrompida para fins de manutenção da vida do feto474. O aborto é um tema que suscita inúmeras questões políticas, jurídicas e morais que englobam desde a perspectiva do valor da vida, da dignidade humana do feto, dos direitos das mulheres, do mercado médico abortista e das políticas estatais sobre o tema. Mais complexo ainda que a discussão sobre a legalidade e moralidade do aborto é a questão do abortamento para fins eugênico. O abortamento eugênico ocorre quando se motiva a realização do aborto por razões ligadas à identificação da saúde fetal, como doenças, deformidades físicas e identificação de deficiências mentais e busca se justificar pela identificação de incompatibilidade fetal com a vida extrauterina, como a existência de baixa expectativa de vida ou simplesmente pela sua condição individual de deficiência475. Segundo os seus defensores, o abortamento eugênico ocorre quando se recorre a realização de aborto para impedir o nascimento de pessoas com deficiências e tem por finalidade impedir a existência dessas pessoas em uma vida dita “não-humana” e assim evitar a sobrecarga e sacrifício da família e da sociedade476. A expressão aborto eugênico não é mais utilizada na atualidade por remeter ao contexto da ideologia nazista, a qual indicava o procedimento quando existia possibilidade de nascimento de pessoa com deficiência com fito a purificação da raça. Por isso, atualmente, optou-se por modificar o nome para aborto terapêutico, em uma estratégia de retórica para suavização dos termos477. Entretanto, o aborto provocado para matar um nascituro percebido como “doente”, pelo utilitarismo médico, não tem a conotação do denominado aborto terapêutico, mas sim de aborto eugênico, pois adota critérios claros para a expansão da legalização do aborto, por meio da justificação terapêutica médica, quando não é este o fim da medicina478. Nesse sentido, essa modalidade de aborto também pode ser chamada de aborto seletivo ou interrupção seletiva da gravidez, e que o mesmo é previsto explicitamente no ordenamento jurídico de alguns países que apresentam artifícios jurídicos para estabelecer critérios menos odiosos para a realização terapêutica do aborto contra pessoas com deficiência479. Porém, de fato, reflete na prática que fetos malformados são rejeitados e selecionados ao aborto na quase totalidade dos casos, por motivo de má-formação. A existência de seres humanos com deficiência precisa ser tolerada, de modo que a eugenia e a prática do abortamento eugênico enquanto elemento caracterizador de discriminação de pessoas com deficiência precisa ser expurgado, para que se faça respeitar os direitos do concepto com deficiência, seja física, sensorial ou mental480. Para a renomada bioeticista Tereza Rodrigues Vieira, em sua clássica obra denominada Bioética e Biodireito, o abortamento eugênico é a clara prática de preconceito e discriminação em relação ao ser humano com deficiência, que viola direitos e mitiga a plenitude do direito à vida, independentemente de sua condição ou aprovação em exames genéticos481. Nesse sentido, o abortamento eugênico ou seletivo se demonstra como uma prática eticamente duvidosa e que representa a conjugação dos valores da sociedade e da ideologia estatal que exprimem clara discriminação pelas possibilidades de diversidade de tipos de vidas humanas. O caráter violador de direitos humanos da referida prática pode ser percebido com mais clareza quando o Estado institucionaliza a prática e passa a se tornar um instrumento de controle e limpeza populacional, conforme será debatida no tópico a seguir. 3.3. Institucionalização, poder e discriminação Na esfera institucional de governos e tribunais, muito tem se discutido sobre os avanços genéticos e as novas possibilidades das técnicas da medicina reprodutiva com fins de legitimar práticas eugênicas, as quais apresentam o intuito exclusivo de alcançar um melhoramento humano ou, até mesmo, a exclusão de determinado segmento social, de modo a efetivar sua inexistência. Nessa perspectiva, tem grande expressão o embate entre o discurso médico-utilitarista, que se utiliza da percepção e de conceitos da área das ciências da saúde e da perspectiva financeira da relação custo-benefício da existência dessas vidas pelos recursos estatais, e o discurso dos direitos humanos de valorização da vida da pessoa com deficiência e da diversidade humana. Na grande maioria dos países, a utilização de estratégias para a legitimação de políticas estatais permissivas e que se adequem às novas tecnologias se apresentam de maneira muito apressada, por ser fruto de um debate de premissas éticas falhas ou rasas em atenção a temas centrais, como, por exemplo, a complexidade das novas técnicas, o interesse mercadológico e o interesse político de normalizar práticas, como o abortamento eugênico, testes genéticos e até mesmo a reprodução assistida como regra. Nesse cenário, marcadopelo avanço das novas tecnologias de reprodução e controle populacional, expressa-se a carência de legislação que regule tais práticas e apresente uma proposta protetiva dos indivíduos em relação aos interesses utilitaristas, mercadológicos da medicina e do neoeugenismo. Por exemplo, no caso da reprodução humana assistida – que é uma prática muito difundida – uma pesquisa, realizada em 2010, pela International Federation of Fertility Societies, que buscava identificar a existência de legislação específica sobre reprodução assistida, constatou-se que dentre os 103 países investigados, apenas 42 (40,7%) responderam que existe legislação específica sobre o tema, outros 26 países (25,2%) responderam que possuem apenas guias de referências ou leis genéricas sobre o tema e, por fim, outros 35 países (35%) operam sem nenhuma lei ou instrução sobre tal prática482. Os números mostram que ainda é controvertida a regulamentação dessas novas tecnologias de reprodução assistida e, por isso, existe grande dissenso em normatizar suas práticas. Esse panorama é marcado pela influência de valores religiosos e culturais na restrição dessas novas práticas, o que implica em uma dificuldade de uma concordância homogênea sobre a licitude ética desses procedimentos483. A regulamentação desses procedimentos, assim como da reprodução humana assistida, é fundamental para definir quais tratamentos e decisões podem ser realizadas em sua aplicação, de modo a assegurar o bem-estar do paciente e das pessoas envolvidas no tratamento, bem como por impor limites ao avanço das inúmeras possibilidades científicas. Com relação ao mapeamento genético, importante considerar, nesse cenário de constantes mudanças e inovações tecnológicas, que as informações ofertadas pela ciência genética, até então, não são deterministas. Portanto, o screening484 genético de algumas doenças monogenéticas não garante a manifestação das mesmas no decorrer da vida do indivíduo. Outrossim, genes mutados ou reveladores de alterações cromossômicas podem até mesmo nunca manifestar a doença, além do que ainda importa somar nesse juízo o impacto de fatores ambientais que permitem, ou não, a manifestação patológica das doenças genéticas485. De melhor maneira, não deve existir um determinismo biológico a partir das informações genéticas coletadas, uma vez que existem inúmeros fatores ambientais que influenciam o surgimento de uma doença prevista geneticamente, dado que pode nunca se manifestar no decorrer de uma vida. O reducionismo biológico é perigoso, pois estimula decisões utilitaristas e, por conseguinte, violações de direitos humanos dentro da relação médico-paciente e da perspectiva da diversidade e existência futura das pessoas com deficiência. A manipulação genética, por sua vez, apresenta tratamento heterogêneo tanto na visão de especialistas, como nos posicionamentos das legislações e de decisões estatais ao redor do mundo. Como ilustrado anteriormente neste trabalho, muitos geneticistas defendem a utilização da manipulação genética como justificativa para evitar doenças hereditárias, e, por conseguinte, evitar sofrimento que elas ocasionam. Todavia, a técnica de manipulação genética apresenta-se ainda ineficiente486 para sua utilização em seres humanos, e, por isso, deve ser avaliada em relação aos reais benefícios que propõe à comunidade humana. É muito cedo para oferecer argumentação propositiva sobre a prática desses novos procedimentos médicos-tecnológicos, uma vez que é notório na visão de geneticistas e outros pensadores a defesa dos procedimentos estudados de maneira usual, em prol de um melhoramento humano, mas, muitas vezes, sem a real necessidade clínica de submissão do paciente ao procedimento em consideração aos fatores como bem-estar e sua qualidade de vida. Desse modo, importa considerar que a expansão da biotecnociência, em especial na área de reprodução humana assistida, ainda apresenta considerável insegurança e riscos para que seus protocolos sejam realizados dentro de um padrão ético e de segurança razoáveis. No caso da manipulação genética, inexiste consenso na comunidade de bioeticista sobre a utilização dessas informações, principalmente quando se percebe a necessidade de proteção do patrimônio genético humano e de outros bens jurídicos que devem ser tutelados e que se relacionam frente às novas tecnologias reprodutivas. Por isso, no Brasil, a Lei n. 11.105/2005, chamada de Lei de Biossegurança, conforme Art. 6, inciso III, impede a realização de procedimentos de engenharia genética em células germinais humanas, zigotos ou embriões humanos. No caso sobre o abortamento eugênico, inúmeros países passaram a adotar tal prática com a permissividade institucional pelo Poder Judiciário, em alguns casos, e pela via da legalização no Poder Legislativo. Dentre o rol de países, é possível destacar casos como no Reino Unido, Islândia e Nova Zelândia, que trataram de enfrentar o debate sobre o polêmico tema que desperta inúmeros sentimentos morais487. No Reino Unido, a legalização dos exames de testagens genéticas evidenciou um aumento das decisões que envolvem interrupção de gravidez nesses casos, uma vez que se constatou que 90% das mulheres decidem abortar ao identificar a possível existência de transtornos de ordem genética no feto488. Na Islândia, encontra-se um cenário de política de erradicação de pessoas com deficiência, em especial no controle de nascimento de crianças com Síndrome de Down por meio de exame triagem da condição genética fetal oferecido pelo governo, o que permite a identificação da condição da genética do feto, e, por conseguinte, a decisão sobre a possibilidade do aborto seletivo489. Na Nova Zelândia, a legalização do aborto seletivo e as políticas governamentais de diagnósticos pré-natais implicaram em grande resistência por parte dos ativistas de direitos humanos e defensores da causa das pessoas com deficiência que acusam o Estado de agir, de modo sistemático e deliberado, na promoção da eliminação de uma categoria de pessoas, devido ao governo local instituir uma política econômica de custo-benefício para a realização do aborto seletivo de crianças com transtornos genéticos, que culminou em uma denúncia junto ao Tribunal Internacional Penal por crime contra humanidade pela prática de genocídio490. No Brasil, eventualmente, se discute a legalização do aborto seletivo e, com frequência, a via judicial oferece amparo para realização dessa categoria de abortamento. As iniciativas emblemáticas se referem a pleitos judiciais realizados no Supremo Tribunal Federal, que requerem a viabilidade do abortamento eugênico no caso de fetos anencefálicos, na debatida ADPF n. 54491, e mais recentemente, na ADI n. 5581492, que buscou viabilizar o procedimento de abortamento eugênico para mulheres infectadas com o zíka vírus em fetos que tenham sequelas de microcefalia. Percebe-se nesses julgados a utilização de diversos recursos retóricos e semânticos, como “interrupção terapêutica da gravidez”, para dar outra caracterização ao que factualmente se requer, trazendo sempre ao debate do cerne da questão referências às políticas sanitárias, às políticas de mulheres e aos aspectos financeiros estatais. Assim, descreve o relato da análise realizada pela antropóloga Débora Diniz: Feto, vida, nascimento e morte, conceitos corriqueiros, tornaram-se “concepto, sobrevida, expulsão e morte”. Esse não foi um mero exercício linguístico de apaziguamento moral, mas sim uma tentativa de, ao substituir os termos descritivos, distanciar o processo dos pressupostos tradicionais do debate sobre a moralidade do aborto. Segundo o advogado, não havia feto, vida, nascimento ou morte, mas algo que, após expulso, se assemelharia a um vegetal. A desumanização do feto, uma estratégia comum aos processos judiciais de aborto seletivo no Brasil, foi apenas metaforicamente sugerida pelo advogado de M.D.S493. Todavia, sem adentrar profundamente no mérito das escolhas individuais e na moralidade do tema, situações de aborto seletivo no âmbitojudicial, como as citadas, sempre carecem de argumentação que perceba e exalte a necessidade de valorização da vida da pessoa com deficiência e do reconhecimento da diversidade humana, o que evidencia o combatido preconceito e esquecimento dessas pessoas por grande parte da sociedade. No Poder Legislativo, também existem inúmeras propostas que buscam regular direitos reprodutivos em geral, que vão desde a inclusão da reprodução assistida na cobertura de serviços oferecidos pelos planos de saúde, como na PL n. 5730/2009, bem como a ampliação dos serviços de aconselhamento genético, constante na PL n. 5899/2009 e no PDC n. 1447/2014. Nessa perspectiva, nota-se uma tentativa de conter e regular procedimentos, ampliar a gama de serviços oferecidos pelo sistema de saúde e viabilizar a cobertura de mais serviços ligados à reprodução e à genética, bem como a ampliação de direitos reprodutivos. Entretanto, ainda se torna dificultosa a percepção dos atores desse poder sobre a necessidade de regulamentação ética de seus usos. A grande dificuldade da criação de legislações que envolvem aspectos da biotecnociência é a dicotomia na qualidade das leis de quem os cria, visto que ora quando feita pelos especialistas, percebe-se um excessivo tecnicismo nos seus termos, bem como o uso de seu conteúdo para atender aos interesses do mercado, ora quando criada por bioeticistas leigos e legisladores ordinários, percebe-se a predominância de posicionamentos morais e religiosos sobre tais práticas. Nesse cenário, a adoção de uma postura baseada em um minimalismo ético, dentro da perspectiva da bioética protetiva, que compreende a necessidade de regular as novas tecnologias reprodutivas, mas respeitar os direitos das minorias e grupos socialmente vulneráveis, se faz importante para viabilizar uma orientação que contemple a necessidade dos avanços da biotecnociência, bem como seu uso sem violar e infringir direitos humanos, em especial das pessoas com deficiência. Por essa razão, alguns autores defendem a utilização de dispositivos penais repressivos para qualificar delitos pela expressão de preconceito e de discriminação contra pessoas com deficiência, os quais podem ser usados para combater a discricionariedade do uso de novas técnicas de reprodução quando afetem diretamente a vida da pessoa com deficiência. Nesse viés, a própria Lei Brasileira de Inclusão apresenta a ideia de discriminação em razão de deficiência como uma estratégia jurídica penal para desestimular práticas que prejudiquem os direitos humanos das pessoas com deficiência494. Porém, é necessário considerar que as novas tecnologias de reprodução assistida oferecem uma enorme gama de possibilidades de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Entretanto, é importante ter cautela quanto aos posicionamentos que buscam a eliminação das pessoas com deficiência do convívio social. A matéria da deficiência, sob a perspectiva médica e sanitária, deve ser encarada com medidas preventivas, com especial atenção às práticas perigosas que levam ao comprometimento da formação fetal saudável, como fatores ambientais, controle de poluição, diminuição do consumo de drogas, alimentos industrializados e outras práticas não saudáveis que podem ser comprometedoras. Portanto, sobre a perspectiva da doutrina dos direitos humanos, não se sustentam justificativas para legitimar uma política de combate à existência das pessoas com deficiência, sendo, portanto, uma prática médica e utilitária que deve ser rejeitada, pois apresenta evidente caráter discriminatório e neoeugenista. Notas 326. Berlinguer, op. cit., p. 65. 327. Berlinguer, op. cit., p. 65. 328. Ibid., p. 67. 329. Pereira, Luiz Carlos Bresser. Controle da população e ideologia. Revista de administração de empresas, São Paulo, v. 18, n. 4, 1978, p. 45. 330. Pereira, op. cit., p. 45. 331. Envelhecimento e transição demográfica. BNDES, 2017. Acesso em: 03 set. 2019. 332. Oliveira, op. cit., p. 14. 333. Pereira, op. cit., p. 47. 334. Pereira, op. cit., p. 45. 335. Sanches, Mário Antônio; Simao-Silva, Daiane Priscila. Planejamento familiar: do que estamos falando?. Revista Bioética, Brasília, v. 24, n. 1, 2016, p. 74. 336. Pereira, op. cit., p. 48. 337. Simão-Silva; Sanches, op. cit., p. 74. 338. Santos, Júlio César dos; Freitas, Patrícia Martins de. Planejamento familiar na perspectiva do desenvolvimento. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, 2011, p. 1817. 339. Ibid., loc. cit. 340. No Brasil, discute-se a prática do infanticídio indígena sob o aspecto da polarização entre universalismo dos direitos humanos e o relativismo cultural. Nessa dicotomia, o relativismo cultural defende a tolerância de práticas locais, baseado na inexistência de uma verdade cultural, já o universalismo dos direitos humanos apresenta a concepção de que os direitos humanos são inerentes ao sujeito, e, portanto, inalienáveis, indisponíveis e universais. Nessa seara, faz-se necessária uma avaliação sobre fatores antropológicos de comunidades que realizam esse tipo de controle eugênico. 341. Sobre o infanticídio indígena no Brasil, vide estudos propostos por: Santos, Natália de França. O infanticídio indígena no Brasil: o universalismo dos direitos humanos em face do relativismo cultural. Derecho y cambio social, v. http://bit.ly/2GtLM66 8, n. 25, 2011, p. 01. 342. Lapa, Fernanda Brandão. Bioética e Biodireito: Um estudo sobre a manipulação do genoma humano. Dissertação (Mestrado em Direito) – UFSC, 2002, p. 52. 343. Del Cont, Valdeir. O controle de características genéticas humanas através da institucionalização de práticas socioculturais eugênicas. Scientiae studia, v. 11, n. 3, 2013, p. 512. 344. Lapa, op. cit., p. 55. 345. Gioppo, Christiane. Eugenia: a higiene como estratégia de segregação. Educar em revista, Curitiba, n. 12, 1996, p. 167. 346. Da Fonseca, Pedro Miguel dos Santos Braga. Gênese e principais precursores da bioética. Revista Pensar. v. 23, n. 4, 2018, p. 02. 347. Santos, Vanessa Cruz, et al. Eugenia vinculada a aspectos bioéticos: uma revisão integrativa. Revista Saúde em Debate, v. 38, n. 103, 2014, p. 988. 348. Berlinguer, op. cit., p. 18. 349. Del Cont, op. cit. p. 517. 350. Stepan, Nancy Leys. Eugenia no Brasil, 1917-1940. In: Hochman, G., and Armus, D., (org.). Cuidar, controlar, curar: ensaios históricos sobre saúde e doença na América Latina e Caribe. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2004, p. 367. 351. O médico e escritor paulista Renato Kehl, fundador da Sociedade Brasileira de Eugenia foi um dos maiores entusiastas brasileiros reconhecidos em inúmeros registros de trabalhos que incluíram discussões sobre raça, imigração, controle matrimonial, higiene mental e eugenia em geral. Cf. Wegner, Robert; Souza, Vanderlei Sebastião. Eugenia negativa, psiquiatria e catolicismo. Revista História, Ciência e Saúde, Manguinhos, v. 20, n. 1, 2013, p. 265. 352. Gioppo, op. cit., p. 169. 353. Ibid., p. 171. 354. Wegner; Souza, 2013, p. 264. 355. Ibid., loc. cit. 356. Sobre o tema, a imigração branca era vista como meio de aumentar rapidamente a proporção de brancos. Os higienistas brasileiros acreditavam que os cruzamentos entre mulatos e brancos favoreceriam o branqueamento, não só por crerem em uma superioridade biológica dos brancos, como também pelo fato de que os mulatos preferiam parceiros mais brancos que eles próprios.Cf. Stepan, op. cit., p. 358. 357. Berlinguer, op. cit., p. 19. 358. Schramm, Fermin Roland. Eugenia, Eugenética e o Espectro do Eugenismo: considerações atuais sobre a Biotecnociência e Bioética. Revista Bioética, Brasília, v. 5, n. 2, 2009, p. 204. 359. Ibid., loc. cit. 360. Del Cont, Valdeir. Francis Galton: eugenia e hereditariedade. Scientiae Studia, v. 6, n. 2, 2008, p. 209. 361. Mai, Lilian Denise; Angerami, Emília Luigia Saporiti. Eugenia negativa e eugenia positiva: significados e contradições. Revista Latino Americana de Enfermagem, São Paulo, v. 14. n. 2, 2006, p. 253. 362. Meirelles, Ana Thereza. Práticas neoeugênicas e limites aos direitos reprodutivos em face da proteção ao patrimônio genético.Direito UNIFACS–Debate Virtual, n. 153, 2013, p. 12. 363. Mai; Angerami, op. cit., p. 254. 364. Vilaça; Palma, op. cit., p. 821. 365. Mai; Angerami, op. cit., p. 254. 366. Guerra, Andréa Trevas Maciel. Do holocausto nazista à nova eugenia no século XXI. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 58, n. 1, 2006, p. 04. 367. Salanskis, Emmanuel. Sobre o eugenismo e sua justificação maquiaveliana em Nietzsche. Cad. Nietzsche, São Paulo, n. 32, 2013, p. 176. 368. A análise de Emmanuel Salanski sobre a associação do eugenismo ao progressivismo se apresenta muito interessante ao utilizar o exemplo da literatura para demonstrar a proximidade ideológica das correntes, bem como a crítica existente no discurso de Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, que ataca a eugenia pregada como ciência do progresso. Cf. Salanski, op. cit., p. 176. 369. Mai; Angerami, op. cit., p. 255. 370. Schramm, op. cit., p. 01. 371. Meirelles, op. cit., p. 12. 372. Ibid., loc. cit. 373. Sandel, op. cit., p. 56. 374. Meirelles, Ana Thereza. Possibilidades neoeugênicas em procriação humana artificial e preservação do patrimônio genético. In: Mezzaroba, Orides; et al. Biodireito. Coleção Conpedi. Curitiba: Editora Clássica, 2014, p. 243. 375. Cardoso, Maria Helena Cabral de Almeida; Castiel, Luis David. Saúde Coletiva, nova genética e a eugenia de mercado. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, 2003, p. 658. 376. Fraga, Ivana de Oliveira; Aguiar, Mônica Neves. Neoeugenia: o limite entre a manipulação gênica terapêutica ou reprodutiva e as práticas biotecnólogicas seletivas da espécie humana. Revista Bioética. v. 18, n. 1, 2010, p. 125. 377. Cardoso; Castiel, op. cit., p. 657. 378. Meirelles, op. cit., p. 12. 379. Mai; Angerami, op. cit., p. 255. 380. Cardoso; Castiel, op. cit., p. 657. 381. Astoni Junior, Ítalo Márcio Batista; Ianotti, Giovano de Castro. Ética e medicina preditiva. Rev. Bras. Saude Mater. Infant., Recife, v. 10, supl. 2, 2010, p. 378. 382. Meirelles, op. cit., p. 03. 383. Astoni Junior; Ianotti, op. cit., p. 378. 384. Berlinguer, op. cit., p. 18. 385. Oliveira, Fátima. As novas tecnologias reprodutivas conceptivas a serviço da materialização de desejos sexistas, racistas e eugênicos? Revista Bioética, v. 9, n. 2, 2001, p. 47. 386. Albuquerque, Aline. Esterilização compulsória de pessoas com deficiência intelectual: análise sob a ótica do príncipio da dignidade da pessoa humana e do respeito à autonomia do paciente. Revista Bioethikos. São Paulo, n. 7, 2013, p. 21. 387. Oliveira, op. cit., p. 47. 388. Fontenele, Claudia Valença; Tanaka, Ana Cristina d’Andretta. O fio cirúrgico da laqueadura é tão pesado!: laqueadura e novas tecnologias reprodutivas. Saúde e Sociedade. São Paulo, v. 23, n. 2, 2014, p. 588. 389. Marcolino, Clarice. Planejamento familiar e laqueadura tubária: análise do trabalho de uma equipe de saúde. Cadernos de Saúde Pública, v. 20, 2004, p. 772. 390. Ibid., loc. cit. 391. Oliveira, op. cit., p. 48. 392. Ibid., loc. cit. 393. Ibid., loc. cit. 394. Berlinguer, op. cit., p. 21. 395. Oliveira, op. cit., p. 48. 396. Berlinguer, op. cit., p. 19. 397. Murkherjee, Siddhartha, O gene: uma história íntima. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 71. 398. No original consta: “It is better for all the world, if instead of waiting to execute degenerate offspring for crime, or to let them starve for their imbecility, society can prevent those who are manifestly unfit from continuing their kind. The principle that sustains compulsory vaccination is broad enough to cover cutting the Fallopian tubes. Three generations of imbeciles are enough”. Case Buck vs. Bell (1927) United States Supreme Court. Contemporary issues in Bioethics. Belmont: International Thomson Publishing, 1994. p. 607-608. 399. Disciplina a Lei Brasileira de Inclusão, no Art. 6º, A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: [...] IV - conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória. 400. Janaína: esterilizada “mesmo contra sua vontade”. 2018. Acesso em: 02 ago. 2019. 401. Guilam, Maria Cristina Rodrigues. O discurso do risco na prática do aconselhamento genético pré-natal. In: Fermim Roland Scharmm; Sergio Rego; Marlene Braz; Marisa Palácios (org.). Bioética: riscos e proteção. Rio de Janeiro: UFRJ; Fiocruz, 2006, p. 166 402. Meirelles, op. cit., p. 06. 403. Genetics in healthcare pratice. Acesso em: 20 Jun. 2019. 404. Brunoni, Décio. Aconselhamento Genético. Revista Ciência e saúde coletiva, São Paulo, v. 7, n. 1, 2002, p. 101. 405. Ibid., p. 102. 406. Guilam, op. cit., p. 167. 407. Meirelles, op. cit., p. 06. 408. Goldim; Matte, apud Brunoni, op. cit., p. 166. 409. Guilam, op. cit., p. 167. 410. Astoni Junir; Ianotti, op. cit., p. 381. 411. Eler, Kalline Carvalho Gonçalves; Olivera, Marco Túlio Pires; Ramos, Kessia Priscila Miranda. Dianóstico genético pré-implantação (DGPI): Uma eugenia mascarada?. Revista Iberoamericana de Bioética. n. 9., 2019, p. 03. 412. Corrêa, op. cit., p. 754. 413. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 03. 414. Ibid., p. 04. 415. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 03. 416. Habermas, op. cit., p. 43. 417. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 05. 418. Ibid., loc. cit. 419. Habermas, op. cit., p. 43. 420. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 08. 421. Para mais informações sobre o tema, consultar a obra: Ataíde, Camille. Medicalização da Vida: Desafios à proteção do consumidor de saúde. Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Juris, 2020. 422. Os argumentos que defendem a geração de “bebês medicamentos” afirmam que é do interesse dos pais um filho não somente por sua utilidade de “curar” um outro filho, mas pelo desejo de serem pais outra vez. Entretanto, a obtenção do bebê-medicamento ainda tem técnica ineficiente, o que implica na destruição de um elevado número de embriões. Chao (2010, p. 235), visto que para conseguir 49 embriões úteis é necessário produzir 2.796 embriões, o que consiste em uma eficiência de apenas 1,75%. Cf. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 09. 423. Eler; Oliveira; Ramos, op. cit., p. 06. 424. Sandel, op. cit., p. 13. 425. Bergel, Salvador Dario. O impacto ético das novas tecnologias de edição genética. Revista Bioética. v. 25, n. 3. 2017, p. 455. 426. Zatz, Mayana. A biologia molecular contribuindo para a compreensão e prevenção de doenças hereditárias. Ciências e saúde coletiva. v. 7, n. 1, 2002, p. 94. 427. Bergel, op. cit., p. 455. 428. Goncalves, Giulliana Augusta Rangel; Paiva, Raquel de Melo Alves. Terapia gênica: avanços, desafios e perspectivas. Einstein, São Paulo, v. 15, n. 3, 2017, p. 373. http://bit.ly/2RvXXpp http://bit.ly/2RvDG39 429. Nova técnica de edição de DNA poderá curar até 89% das doenças genéticas no futuro. BBC News, 22 out. 2019. Acesso em: 11 nov. 2019. 430. Rospigliosi, op. cit., p. 61. 431. Bergel, op. cit., p. 455. 432. Gonçalves; Paiva, op. cit., p. 373. 433. Ibid., loc. cit. 434. Bergel, op. cit., p. 456. 435. Ibid., p. 458. 436. Zatz, op. cit., p. 94. 437. Bergel, op. cit., p. 458. 438. Furtado, Rafael Nogueira. Desafios éticos das tecnologias de melhoramento humano. Kínesis-Revista de Estudos dos Pós-Graduandos em Filosofia, v. 9, n. 20, 2017, p. 236. 439. Rospigliosi, op. cit., p. 63. 440. Seone Rodriguez, apud Hammerschmidt, Denise. Direito e discriminação genética. Revista do Direito Privado da UEL. v. 1, n. 2, 2008, p. 08. 441. Penchaszadeh, Victor B. Problemas éticos do determinismo genético. Revista Bioética. v. 12, n. 1, 2002, p. 61. 442. Echterhoff, Gisele. A terapia gênica e a eugenia. Revista da AJURIS. v. 36, n. 114, 2009, p. 134. 443. Sandel, op. cit., p. 15. 444. Oliveira, op. cit., p. 107. 445. Zatz, op. cit., p. 95. 446. Zatz, Mayana. Genética: Escolhas que nossos avós não faziam. Porto Alegre: Globo, 2011, p. 60. 447. Brandão, Denivaldo da Silva. O embrião e os direitos humanos: aborto terapêutico. In: DIP, Ricardo Henry Marques (org.); Penteado, Jaques de C. A vida dos direitos humanos: Bioética Médica e Jurídica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1999, p. 18. 448. Sgreccia, op. cit., p.348. 449. Lowy, Ilana. Detectando más-formações, detectando riscos: dilemas do diagnóstico pré-natal. Revista Horizonte antropológico, Porto Alegre, v. 17, n. 35, 2011, p. 105. 450. Sgreccia, op. cit., p. 345. 451. Ibid., p. 349. 452. Verreschi, Ieda Terezinha dos Nascimento. As síndromes: Matar ou curar? In: DIP, Ricardo Henry Marques (org.); Penteado, Jaques de C. A vida dos direitos humanos: Bioética Médica e Jurídica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1999, p. 118. 453. Löwy, op. cit., p. 105. 454. Sgreccia, op. cit., p. 352. 455. Löwy, op. cit., p. 106. 456. Sgreccia, op. cit., p. 353. 457. Löwy, op. cit., p. 106. 458. Sgreccia, op. cit., p. 358. 459. Sgreccia, op. cit., p. 358. 460. Ibid., p. 345. 461. Diniz, Débora. Apresentação: diagnóstico pré-natal e aborto seletivo. Physis, Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, 2003, p. 14. 462. Guilam, op. cit., p. 169. 463. Sgreccia, op. cit., p. 360. 464. Verreschi, op. cit., p. 177. 465. Brandão, op. cit., p. 30. 466. Ibid., p. 44. 467. Diniz, op. cit., p. 14. 468. Guilam, op. cit., p. 169. 469. Acordão disponibilizado na nota 486. 470. Trata-se de ação constitucional que busca a permissibilidade em casos de infecção de grávidas por zika vírus. Ainda em trâmite e sem decisão definitiva, pode-se verificar as movimentações processuais em: Acesso em: 30 jul. 2019. 471. Guilam, op. cit., p, 173. 472. Teodoro, Frediano José. Aborto eugênico. Tese (Doutorado em Direito). PUC/SP, 2005, p. 178. 473. Dworkin, Ronaldo. O domínio da vida: Aborto, eutanásia e liberdades individuais. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 01. 474. Brandão, op. cit., p. 26. 475. Casagrande, Vanessa Geremias. Aborto eugênico.Monografia de Especialização. UNESC. 2010, p. 57. 476. Sgreccia, op. cit., p. 468. 477. Ibid., p. 468-469. 478. Brandão, op. cit., p. 30. 479. Sgreccia, op. cit., p. 347. 480. Casagrande, op. cit., p. 58. 481. Vieira, Tereza Rodrigues. Bioética e Biodireito. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira, 1999, p. 65. 482. Leite, Tatiana Henriques; Henriques, Rodrigo Arruda de Holanda. Bioética em reprodução humana assistida: influência dos fatores sócio-econômico-culturais sobre a formulação das legislações e guias de referência no Brasil e em outras nações. Physis, Rio de Janeiro, v. 24, n. 1, 2014, p. 34. 483. Leite; Henriques, op. cit., p. 43. https://bbc.in/2t2fnRb http://bit.ly/2Ru6ysO 484. Screening genético é o teste genético de diagnóstico realizado em células do embrião com o objetivo de identificar alterações cromossômicas, conhecido também como mapeamento, trata-se de uma extensão lógica do princípio de que o prognóstico de uma doença é quase sempre melhor quando o paciente procura assistência logo após o surgimento dos primeiros sintomas (diagnóstico em fases menos avançadas). A detecção de doença, antes mesmo do indivíduo apresentar sintomas, permitiria instituir o tratamento em fases ainda mais iniciais, diminuindo a morbidade e a mortalidade devidas à doença. No caso em questão, como já salientado, o uso do mapeamento genético é questionado, visto a grande quantidade de possíveis doenças diagnosticadas, o possível uso para medidas eugênicas, bem como a imprecisão da manifestação dessas doenças em vida, o que pode levar a biologização e genetização dos sujeitos. Cf. Eluf-Neto, José; Wünsch-Filho, Victor. Screening faz bem à saúde? Revista da Associação Médica Brasileira, v. 46, n. 4, 2000, p. 310. 485. Meirelles, op. cit., p. 12. 486. No famoso estudo conduzido pelos chineses, dos 54 embriões utilizados no experimento, somente quatro tiveram o gene corrigido. Além disso, eles também tinham alterações genéticas em outros locais não planejados do genoma. Mais informações em: Pereira, Lygia. Limites da manipulação genética. 2015. Acesso em: 01 ago. 2019. 487. From Termination to Extermination: The International Down Syndrome Genocide. Jul. 2018. Disponível: Acesso em: 29 jun. 2019. 488. La prueba médica que podría acabar con el síndrome de Down (y por qué algunos no quieren que eso ocurra). out. 2016. Acesso em: 22 jun. 2019. 489. Síndrome de Down e sentimentos morais: o caso dos abortos na Europa e EUA. set. 2017. Acesso em: 02 ago. 2019. 490. Na Nova Zelândia, grupo de pais busca frear o “genocídio” de pessoas com síndrome de Down. set. 2011. Acesso em: 29 jul. 2019. 491. ADPF 54 é julgada procedente pelo ministro Gilmar Mendes. abr. 2012. Acesso em: 30 jul. 2019. 492. Defensores públicos questionam lei sobre combate a doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Agosto de 2016. Acesso, acesso em: 02 ago. 2019. 493. Diniz, op. cit., p. 18. 494. A Lei Brasileira de Inclusão assevera que Art. 4 - § 1º considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas. Complementa o Art. 88. Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência, com pena de reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. https://glo.bo/37v4Blf http://bit.ly/2U06yCo https://bbc.in/2U3dSNE http://bit.ly/2tLfNfe http://bit.ly/38GB20k http://bit.ly/2RwY2cq http://bit.ly/2U2EvCy CONSIDERAÇÕES FINAIS Pela contextualização do tema, bem como a partir dos argumentos analisados, tem-se como intuito final demonstrar as evidências, os resultados e as conclusões coletadas no desenvolvimento dessa pesquisa, os quais se correlacionam com os objetivos metodologicamente traçados. O objeto de estudo do presente trabalho delimitou-se na interseção entre os direitos reprodutivos e os direitos das pessoas com deficiência, a partir de uma abordagem bioética. A pergunta problema de pesquisa se funda no questionamento sobre quais são as repercussões sociais, políticas e jurídicas do desenvolvimento biotecnológico e dos direitos reprodutivos frente aos direitos humanos das pessoas com deficiência. A reflexão realizada sobre o tema da bioética e dos direitos reprodutivos, em especial dos direitos reprodutivos das pessoas com deficiência, os quais não são muito trabalhados nas discussões acadêmicas, se demonstrou importante para entender parte do contexto atual marcado pelos impactos do avanço biotecnológico em que toda a comunidade humana está inserida. Dessa maneira, frisa-se que o objetivo geral desta pesquisa era analisar, sob o enfoque da bioética e dos direitos humanos, o atual panorama biotecnológico e suas repercussões sociais, políticas e jurídicas relacionadas aos direitos reprodutivos, em especial as questões conexas aos direitos das pessoas com deficiência. Para tanto, o primeiro capítulo tratou de discorrer sobre a finalidade da bioética frente às inovações científicas e a ausência de regulamentação ética sobre o uso de novas tecnologias, demonstrando a importância da bioética como disciplina contestadora frente às imposições científicas, políticas e mercadológicas, e apontou a necessidade de aproximação dessa disciplina com a teoria dos direitos humanos. A bioética em sua perspectiva crítica e protetiva, como evidenciado, se mostra como campo de estudo muito similar às proposições apregoadas pelos direitos humanos, em especial, com sua preocupação com os segmentos sociais mais vulnerabilizados e com a reificação dos seres humanos em experimentos e pesquisas que sacrificam direitos humanos em prol de um progressivismo científico. Outro aspecto a ser salientado que se verificou no desenvolvimento do trabalho foi que as situações de conflitos morais trazidas pelo desenvolvimento biotecnocientífico, por serem imprevisíveis e desregulamentadas, possibilitam uma maior percepção sobre os posicionamentos biopolíticos entre bioconservadores e progressistas, acentuando uma dicotomia entre posicionamentos que envolvem a relação desenvolvimento-proteção, ciência- consciência e liberdade-cautela. Ademais, a percepção histórica do avanço da ciência estudada atéentão demonstrou a existência de inúmeras violações de direitos humanos que foram realizadas em prol do avanço científico, elegendo sempre setores da sociedade em maior situação de vulnerabilidade, como pobres, pessoas com deficiência, mulheres e grupos étnicos específicos. Nesse sentido, a bioética, frente a essas violações, desempenha um importante papel na atualidade, que é poder regular e criticar a prática dessas atividades e identificar situações que ameaçam a integridade das pessoas que depositam suas esperanças em melhorias de qualidade de vida e de saúde nas promessas da ciência. Por isso, a reflexão bioética deste trabalho dá crédito à proposta de que se busque promover a ciência sob uma perspectiva mais protetiva, para fins de ampliar as diretrizes científicas e sanitárias, com finalidade de aprimorar a relação médico e paciente, cientista e uso da ciência, homem e tecnologia, para que seu exercício e desenvolvimento se deem sempre mais próximos das necessidades humanitárias. Nesse cenário, a aliança entre direitos humanos e bioética resulta em uma normatização ética mínima de questões sobre o uso da ciência, o que oferece mais segurança jurídica e proteção individual para todos os atores interessados no progresso científico, e oferece freios à repetição de abusos do uso ideológico da ciência. A criação de diretrizes normativas, como a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, é importante instrumento para oferecer parâmetros à proteção dos direitos humanos frente aos interesses do avanço do biomercado, especialmente, no que se refere à proteção dos grupos socialmente vulneráveis, uma vez que são expostos à maiores situações de riscos. Nesse contexto biotecnológico, evidenciou-se que as pessoas com deficiência se apresentam como grupo social vulnerabilizado, devido à carência de atenção comunitária e estatal frente às suas necessidades específicas e à diversidade na sua existência. Por essa vulnerabilidade, acabam por ser postas como alvos de experimentações científicas, bem como por decisões médico-científicas que mitigam a sua existência e não consideram sua dignidade. Além disso, as pessoas com deficiência enfrentam o estigma social do preconceito e da discriminação, o que os relega à condição de invisibilidade e exclusão social. Percebe-se que no cenário dos avanços biotecnológicos e das políticas sanitárias eugenistas, o capacitismo se expressa com maior clareza, o que resulta em riscos de práticas e decisões fundadas em preconceito e falsas percepções científicas sobre a vida dessas pessoas. Por isso, a bioética protetiva, enaltecida neste trabalho, vem apresentar forte crítica a moralidade dos avanços científicos, a partir de suas proposições que englobam a necessidade do compromisso estatal de proteger todos os membros da sociedade diante de intervenções científicas não estáveis, a ampliação da consciência do estado de vulnerabilidade das pessoas como uma condição humana intrínseca à sua existência e a importância de proteger todos os cidadãos contra qualquer tipo de violência e violações de direitos humanos. Sob essa perspectiva, observa-se que a reflexão bioética se apresenta como um importante instrumento de promoção e proteção dos direitos humanos das pessoas com deficiência, uma vez que levanta uma perspectiva crítica sobre os avanços biotecnológicos, especialmente sobre as questões ligadas com o otimismo tecnológico, o progressivismo científico, o melhoramento humano e a afronta da dignidade humana por meio das intervenções médicas e científicas. O segundo capítulo tratou de apresentar as críticas existentes ao estabilishment do que se compreende como direitos reprodutivos na atualidade, englobando aspectos da medicina reprodutiva e das novas possibilidades ofertadas pela ciência genética em relação às suas aplicações em matéria de promoção de saúde. Dessa maneira, percebeu-se a correlação existente entre a expansão da medicina reprodutiva com um campo do direito denominado de direitos reprodutivos, o qual se estabeleceu com mais importância após o desenvolvimento de técnicas de reprodução humana assistida, métodos contraceptivos e as modificações socioculturais ocasionadas por essas inovações médico- científicas. Em linhas gerais, a partir da literatura utilizada, identificou-se que o avanço da medicina reprodutiva ocorreu baseado na busca por controle biológico da fertilidade, da medicalização de comportamentos sociais que se apresentam como obstáculo para a fertilidade e pela necessidade de atender aos desejos de casais inférteis que pretendem executar seus projetos parentais. Sobre os direitos reprodutivos, abordou-se como expressão dos direitos individuais, pautados na livre escolha, ligados à autonomia, à liberdade de escolha, à liberdade reprodutiva e biológica. Nota-se que grande parte desses direitos nasceu das necessidades de estabelecer diretrizes básicas para a proteção das mulheres, que enfrentam a reprodução com muitos percalços, de regular limites da intervenção estatal e de oferecer serviços básicos de saúde reprodutiva. Constatou-se que a pedra fundamental dos direitos reprodutivos é a liberdade reprodutiva, que se constitui de um direito de personalidade baseado na autodeterminação individual, na abstenção e não ingerência estatal ou de instituições privadas sobre as decisões que envolvem as matérias de reprodução de qualquer cidadão. Sobre o aspecto jurídico-legal, os direitos reprodutivos aparecem positivados em diversos dispositivos no ordenamento jurídico brasileiro, assim como na legislação internacional. Por isso, pode-se considerar que os direitos reprodutivos devem ser respeitados, pois estão constitucionalizados e com extensa legislação específica que regula e protege os cidadãos das violações estatais e do biomercado em relação aos direitos humanos. Evidenciou-se, também, que existe uma clara correlação entre a saúde reprodutiva, os direitos reprodutivos e os avanços da ciência genética, porque são claros os interesses do mercado biotecnológico em interferir em valores individuais do cidadão quanto à sua fertilidade e em questões subjetivas relacionadas à reprodução assistida, como o melhoramento humano. Sobre a genética, por sua vez, depreendeu-se que se apresenta como um ramo da ciência que oferece inúmeras inovações para a promoção de saúde. Decerto, é uma área do conhecimento que muito se espera em relação à possibilidade do oferecimento de benefícios aos seres humanos. Todavia, ela também é fator para questionamentos éticos sobre os limites da ciência. Nesse cenário, compreendeu-se a dificuldade de obter consensos sobre conceitos elementares para a prática médica, pela subjetividade da compreensão do significado de saúde e de doença e as diversas correntes médicas deontológicas existentes. Porém, é imperativo notar que o contexto moderno exige do profissional de saúde uma visão biopsicossocial e que busque a compreensão integral do sujeito que se submete aos procedimentos médicos, em especial os relacionados à promoção de saúde reprodutiva. Mais adiante, explorou-se também os conflitos éticos existentes sobre a questão do melhoramento humano e toda a moralidade que existe no que se refere a essa discussão. Nesse contexto, identificou-se as correntes teóricas que tratam sobre o referido tema, bem como elas percebem o fenômeno do melhoramento humano. Constatou-se que o transumanismo se apresenta como principal vertente filosófica que busca arregimentar argumentos favoráveis às intervenções biotecnológicas, que resultam em melhoramento humano. Todavia, é inevitavelmente uma percepção que apresenta muitos questionamentos quanto à instrumentalização da vida humana e sobre sua aproximação com uma forma nova de eugenia. Em autores como Francis Fukuyama e Jurgen Habermas, encontrou-se questionamentos salutares sobre a predominância do transumanismo na defesa das intervenções biotecnocientíficas desregradas, evidenciando críticas ao neoeugenismo, à falácia do livre arbítrio e do exercício da liberdade sem responsabilidadeentretanto suas consequências quanto ao uso evidenciam práticas eugênicas e políticas discriminatórias em relação ao reconhecimento da vida e existência de pessoas com deficiência. Da hipótese principal, é possível perceber hipóteses secundárias, a saber: (I) O avanço da biotecnociência apresenta novas possibilidades de melhorias na qualidade de vida humana e no aprimoramento de processos biológicos; (II) A excessiva manipulação das técnicas da medicina reprodutiva possibilita a criação de políticas eugênicas de saúde reprodutiva e higienistas de controle populacional; (III) A discriminação contra pessoas com deficiência se evidencia quando institucionalizada nas jurisdições e regramentos estatais. Para alcançar as pretensões deste trabalho de discutir efetivamente os direitos reprodutivos e suas implicações com os direitos das pessoas com deficiência, desenvolver-se-á a presente obra em três capítulos. O primeiro capítulo tratará de abordar o estado da arte da bioética e aprofundar aspectos da relação entre a ética do desenvolvimento científico, aspectos sociais e a teoria dos direitos humanos, em especial a proteção das pessoas com deficiência e de seus direitos. O segundo capítulo realizará uma análise sobre a literatura especializada que trata dos direitos reprodutivos, saúde e medicina, bem como abordar concepções teóricas políticas que dissertam sobre a vida, a existência e o reconhecimento da dignidade da vida com deficiência. Por conseguinte, o terceiro capítulo tem o propósito de apresentar uma perspectiva instrumental dos avanços da biotecnologia, procedimentos e sua correlação com políticas de controle populacional e de saúde reprodutiva nos regramentos institucionais do Estado e em suas manifestações. Por fim, a conclusão da pesquisa possibilitará coletar evidências sobre a discussão bioética que circunda o atual panorama biotecnológico dos direitos reprodutivos, em especial as questões conexas aos direitos das pessoas com deficiência, que ofertará importantes reflexões sobre o objeto de estudo deste trabalho e o desenvolvimento de estudos futuros. Notas 3. Verificar dados estatísticos aprofundados em United Nations. World Population Prospects. New York: Departament of Economic and Social Affairs, 1999. 4. A OMS acredita que a população de pessoa com deficiência atinge até 1 bilhão de pessoas no mundo todo. Consultar informações em: A ONU e as pessoas com deficiência. Acesso em: 11 nov. 2019. 5. É possível confirmar os dados estatísticos apontados em Cartilha do Censo 2010 – Pessoas com deficiência. Brasília. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e Secretaria Nacional de Promoção de Direitos das Pessoas com Deficiência, 2012. Acesso em: 07 ago. 2019. 6. A revisão metodológica dos indicadores buscou indicar um número mais exato de pessoas com deficiência. Diferentemente da abordagem anterior, a revisão tratou de especificar melhor os seus critérios, o que possibilitou números estatísticos mais precisos sobre essa população. Mais informações em: Conheça o Brasil – População Pessoa com Deficiência. 2018. Acesso em: 11 nov. 2019. 7. Realizei pesquisa nos sites de repositórios institucionais de programas de pós-graduação em Direito no Brasil, como UFPA, USP, UFBA e UFRGS, por considerá--las centro de pesquisas relevantes para o tema. Como resultado, encontrei um número reduzido de pesquisas que trata sobre direitos reprodutivos, bioética e pessoas com deficiência, o que tornou a elaboração do presente trabalho um grande desafio. 8. Trata-se de ação constitucional discutida no Supremo Tribunal Federal, em que buscou a permissibilidade da realização do abortamento seletivo em caso de feto anencefálico. Acesso em: 22 abr. 2020. 9. O surto de zika vírus atingiu o mundo todo, inclusive ao Brasil entre os meses de abril de 2015 e novembro de 2016. Além das características de doença tropical, a doença expôs milhares de mulheres grávidas a situações de riscos e muitos de seus bebês nasceram com microcefalia. Para entender mais sobre esse drama, recomenda-se a leitura obra de Diniz, Débora. Zika: Do sertão nordestino à ameaça global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. 10. Condurú, Marise Teles; Pereira, José Almir Rodrigues. Elaboração de Trabalhos Acadêmicos: normas, critérios e procedimentos. Belém: Editora UFPA, 2010, p. 74. 11. Gerhardt, Tatiana Engel; Silveira, Denise Tolfo. Métodos de Pesquisa. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2009, p. 35. 12. Severino, Antonio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 122. 13. Marconi, Marina de Andrade; Lakatos, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010, p. 166. 14. Mcconville, Mike; Chui, Wing Hong. Research methods for law. Edinburgh: Edinburgh University Press. 2007, p. 77. 15. Ibid., p. 16. 16. Barnes, Colin. Qualitative Research: valuable or irrelevante. Disability, Handicap and Society. v. 7, n. 2, 1992, p. 122. 17. “A Pesquisa Emancipatória é dedicada à desmistificação sistemática de estruturas e processos que criam a experiência de deficiência, bem como ao estabelecimento de um “diálogo viável” entre a comunidade científica e as pessoas com deficiência, a fim de promover sua emancipação. Atingir esse objetivo requer que os pesquisadores aprendam a colocar seus conhecimentos e habilidades a serviço das pessoas com deficiência” (tradução nossa). http://bit.ly/2O1llsG http://bit.ly/3aLIclH http://bit.ly/30ZZyHm http://bit.ly/2uAV2mj CAPÍTULO 1: BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA O presente capítulo tem por objetivo apresentar o estado da arte da pesquisa teórica sobre bioética, bem como a correlação entre os avanços da ciência com a teoria social dos direitos humanos, em especial os direitos das pessoas com deficiência. Para alcançar os objetivos pretendidos neste capítulo, é imperioso apresentar o conteúdo relacionado à literatura especializada de bioética, para contextualizar seu processo de solidificação como campo de estudo recente que busca tratar de questões conexas as inovações biotecnocientíficas e o uso ético da ciência. Além disso, cumpre apresentar um arcabouço teórico sobre os direitos humanos e sua recente consolidação como doutrina norteadora de todas as práticas no contexto dos Estados contemporâneos, principalmente a sua relação com proposições protetivas e emancipadoras das pessoas com deficiência. Para efetivar tais pretensões, divide-se metodologicamente a seção em cinco momentos: (I) apresentar aspectos elementares da pesquisa em bioética, como conceito, objetivo e gênese; (II) ilustrar dilemas morais atuais decorrentes do avanço biotecnológico e sua percepção bioética; (III) analisar a perspectiva desenvolvimentista da ciência frente às violações dos direitos humanos; (IV) analisar o campo teórico da bioética de proteção e sua correlação com os direitos das pessoas com deficiência; e (V) descrever a atual concepção teórica de pessoas com deficiência frente ao atual paradigma de proteção de direitos humanos. 1.1. A gênese da bioética A bioética é um campo de discussão da ética científica que, com sua abordagem plural e transdisciplinar, busca enfrentar problemas morais que se relacionam com a temática das inovações científicas, as quais são capazes de impactar significativamente aspectos da vida, saúde, tecnologia, biotecnologia, meio ambiente e outros assuntos alcançados pelas descobertas da ciência moderna. Nessa esteira, cumpre apresentar, com suficiência de detalhes, o sentido geral da bioética, sua gênese, conceito, objetivo, estágios, divisões metodológicas, extensão e demais aspectos introdutórios relevantes para fins de ilustrar o campo teórico que alicerça e possibilita a realização das críticas e proposições trazidas por esse trabalho. Primeiramente, a palavra bioética, etimologicamente, é um neologismo derivado das palavras gregas bios (vida) e ethike (ética) e, portanto, pode-se defini-la como sendo o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo visão, decisão, condutade uma reflexão moral sobre o estatuto humano. Além disso, analisou-se também as percepções teóricas sobre vida, existência e dignidade das pessoas com deficiência, em especial na oposição entre o utilitarismo e a teoria dos direitos humanos. Nesse interim, investigou-se a relação do moderno utilitarismo singeriano, sua percepção sobre a existência das pessoas com deficiência e a sua incompatibilidade com a doutrina dos direitos humanos, em especial pelo desrespeito ao reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência. Desse modo, nessa investigação, confirmou-se a incompatibilidade do utilitarismo para atender às necessidades atuais das escolhas em políticas públicas em questões sanitárias, as quais devem ser pautadas, prioritariamente, na bioética protetiva e em uma política reconhecidamente de proteção aos direitos humanos e no reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência e seu direito de existência. Em seguida, o terceiro capítulo reservou um aprofundamento sobre aspectos conceituais sobre controle populacional e a constituição das políticas demográficas, bem como apontou a necessidade de haver uma precaução com o discurso eugenista e sua nova faceta neoeugenista. Logo, verificou-se as raízes históricas do movimento eugenista nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, assim como a sua influência em aspectos culturais até os dias atuais e que refletem em higienismo, racismo e preconceito arraigado em muitas sociedades. Nesse panorama, se mostrou importante a compreensão da eugenia clássica, caracterizada pela intervenção e totalitarismo estatal e da repaginação da eugenia em neoeugenismo, que explora os desejos individuais e as escolhas dos indivíduos para reproduzir seus valores de extermínio contra grupos sociais vulneráveis. Em seguida, analisou-se os procedimentos da medicina preditiva e reprodutiva, bem como apresentou-se os questionamentos éticos existentes em suas práticas como esterilização, aconselhamento genético, reprodução assistida, manipulação genética, diagnóstico pré-natal e abortamento eugênico. No que se refere à esterilização, percebe-se que é um procedimento utilizado corriqueiramente como instrumento estatal de violação de direitos humanos, visto que sua prática, em muitos contextos históricos, ocorreu de maneira forçada, desrespeitando a autonomia da vontade de inúmeras pessoas, até os dias atuais. O aconselhamento genético, embora seja uma importante ferramenta que possa assessorar o planejamento familiar, seu uso deverá ser pautado através de uma conduta não dirigida do profissional aconselhador, para fins de não mitigar o livre convencimento esclarecido e conduzir a parte aconselhada para decisões baseadas em critérios eugenistas e preconceituoso. No que tange à reprodução assistida, percebe-se que sua técnica foi desenvolvida para atender um mercado específico de pessoas que almejavam o desejo de alcançar a fertilidade. Entretanto, nos dias atuais, a sua conjugação com a manipulação das informações genéticas tem possibilitado o surgimento dos bebês de prancheta e de um mercado disposto a violar diretrizes éticas com finalidade de oferecer um “produto” com características que atendem aos seus “consumidores”. Assim como a reprodução assistida, a manipulação genética é criticada pela objetificação dos seres humanos, devido ao determinismo genético e biológico das informações que utiliza em seus protocolos de decisões, embora exista um grande otimismo tecnológico com a possibilidade de prevenção de doenças. Contudo, a precariedade das suas técnicas ainda demonstra a precocidade para o seu uso com segurança biológica. Em seguida, analisou-se sobre o diagnóstico pré-natal e as questões biopsicossocial que envolvem a antecipação de diagnósticos de doenças genéticas e más-formações fetais frente ao baixo grau de intervenção médica segura em situações similares. Outro fator a ser considerado é a utilização do diagnóstico pré-natal para fins de justificar a prática do abortamento com fins eugênicos. Sobre o abortamento seletivo, examinou-se a caracterização dessa modalidade como um procedimento objetivamente eugênico, baseado pela intolerância e discriminação da pessoa com deficiência, sendo eticamente duvidosa e claramente uma prática violadora de direitos humanos, principalmente quando utilizada como instrumento estatal de controle e limpeza populacional. Por último, comentou-se sobre as políticas discriminatórias com a pessoa com deficiência pelo poder estatal. Sobre esse aspecto, evidenciou-se a existência pouca regulamentação sobre reprodução humana assistida, manipulação genética e as novas técnicas da medicina reprodutiva. A ausência de legislação específica gera insegurança jurídica e pouca proteção ao cidadão destinatário dessas novas possibilidades oferecidas pelo biomercado. Outra crítica pertinente é que a legislação, quando existente, busca atender aos interesses corporativistas e mercadológicos. Além disso, apresentou-se o cenário de países que legalizaram o procedimento de aborto seletivo e o impacto que a permissividade de tal prática resultou na diminuição da comunidade de pessoas com deficiência, em especial das pessoas com Síndrome de Down. Identificou-se, também, que o debate sobre a prática do aborto eugênico é pautado em argumentos e fundamentos que não consideram o reconhecimento da vida e o reconhecimento da dignidade das pessoas com deficiência, deixando de lado considerações que defendam o interesse dessas pessoas. Ao final, apresentou-se uma reflexão bioética sobre o cenário contextualizado, repudiando medidas eugênicas que pregam o extermínio das pessoas com deficiência e violam direitos humanos, reservando a questão da deficiência na via médica e sanitária a via preventiva, como o combate aos fatores ambientais que ofereçam riscos à saúde em geral. Desse modo, no decorrer do desenvolvimento do presente trabalho, percebeu-se a confirmação das hipóteses trabalhadas inicialmente, uma vez que as repercussões sociais, políticas e jurídicas do desenvolvimento desenfreado da biotecnociência podem impactar significativamente costumes, concepções culturais e práticas sociais, que repercutem em temas fundamentais da vida humana, como, por exemplo, direito à vida, à liberdade, à autonomia, à justiça e à reprodução. A grande crítica que se realiza nesse trabalho é quanto ao tratamento dado pela comunidade médica e geneticistas em relação às pessoas com deficiência, visto que a visão utilitarista aparenta ser predominante nessa comunidade de especialistas, o que pode ocasionar na reprodução de capacitismo. Não se deve negar que são inúmeras as contribuições biotecnológicas na melhoria de qualidade de vida e bem-estar dos seres humanos em geral, permitindo inúmeros benefícios na prevenção e no tratamento de doenças. Contudo, é imperativo observar que esses avanços científicos devem sempre vir acompanhados do questionamento ético, se é correto e devido submeter-se a tudo o que as possibilidades e inovações científicas na área da medicina reprodutiva nos oferecem. Por essa razão, os direitos reprodutivos, em continuidade ao seu movimento de expansão, devem se tornar um campo de debate central de estudos científicos e jurídicos que vão determinar as novas práticas em relação à reprodução humana e à aceitabilidade ética dos procedimentos da medicina reprodutiva. Dessa forma, em consideração ao cenário de muitas mudanças sociais devido à tecnologia, bem como a importância do assunto, faz-se necessário o desenvolvimento de novas pesquisas que tratem sobre o tema dos direitos humanos e a relação com a ciência e a tecnologia. Deve-se, portanto, dar atenção especial sobre o transumanismo e sua correlação com as pessoas com deficiência, visto a possibilidade de construir aportes teóricos e avanços práticos significativos sobre condições tecnológicas que viabilizam modificações positivas nas relações de justiça e igualdade. Portanto, pode-se concluir que é pertinente uma regulação bioética, com finalidade protetiva, dee normas morais – das ciências da vida e da saúde, utilizando uma variedade de metodologias éticas em um contexto interdisciplinar18. Logo, é uma área teórica que apresenta importante capacidade crítica para enfrentar as vicissitudes das ciências da saúde, em sentido amplo, que engloba o homem, seus instrumentos, a técnica e o meio ambiente. O objetivo da bioética, enquanto finalidade teórica e área de estudo, é o de encorajar o debate público, ético e profissional em duas questões elementares e que se apresentam urgentes, a saber: a responsabilidade em manter a ecologia generativa do planeta, da qual depende a vida em geral e a vida humana, e as futuras implicações da rapidez do avanço da ciência da vida em relação a potenciais modificações da natureza humana maleável19. De modo geral, pode-se afirmar também que a bioética é um recente campo de estudo que almeja nortear questões éticas e morais sobre as ciências, os avanços biotecnológicos e a vida humana. Essa discussão sobre o progresso da ciência, por óbvio, reflete diretamente em esferas da saúde coletiva e meio ambiente, uma vez que, antes de apresentar soluções, traz novos questionamentos que modificam aspectos sociais e políticos historicamente concebidos. Desse modo, faz-se crucial compreender a gênese dessa disciplina e sua importância na atualidade, a qual, segundo registros históricos, surgiu na segunda metade do século XX como um ramo do conhecimento pautado em uma dimensão de preocupação ecológica e também de crítica ao progressismo médico e científico. A palavra bioética foi utilizada pela primeira vez por Vans Rensselaer Potter, professor e biólogo da Universidade de Wisconsin, em 1971, na obra clássica intitulada Bioéthics: bridge to the future, com o intuito de afirmá-la como “a ciência responsável pela participação racional, porém cautelosa, no processo de evolução biológica e cultural”20. Imagina-se que Vans Rensselaer Potter, influenciado por Aldo Leopold, engenheiro florestal e professor na Universidade de Yale, almejava criar uma área do saber que aproximasse as preocupações dos problemas ambientais, os modelos de desenvolvimento econômico, os seres humanos e a necessidade de preservação do meio ambiente com os conhecimentos biológicos e os valores humanos21. Notoriamente, Potter foi um autor precursor da bioética sob a perspectiva ambiental, que demonstra preocupação com o meio ambiente em geral, evidenciando uma disciplina com relevante dimensão ecológica, com finalidade também de questionar as ações promovidas pela intervenção humana na natureza e de perceber seus impactos socioculturais no mundo. Outro precursor da bioética identificado na literatura especializada foi André Hellegers, médico holandês e professor da Universidade de Georgetown, fundador de um grande centro de estudos denominado Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioetichs. Hellegers idealizou a bioética com uma proposta voltada à saúde, alicerçada na crítica ao progresso médico-tecnológico, em especial aos novos procedimentos tecnológicos de reprodução, concepção, manipulação da vida e modificação da natureza humana22. Essa dimensão sanitarista da bioética foi consagrada, posteriormente, por Warren Reich no livro Encyclopedia of bioethics, em 1978, obra que registrou com maior profundidade a dimensão médica e de ética científica da bioética ao considerá-la como o estudo sistematizado da conduta humana, examinada à luz dos princípios e valores morais, especialmente na área da ciência da vida e da atenção à saúde23. O surgimento da bioética, portanto, também ocorre como uma forma de reclamar direitos e diretrizes morais de pacientes diante de inúmeros abusos médicos em atendimentos clínicos, pesquisas científicas e experimentos utilitaristas que evidenciavam a necessidade e emergência de um melhor enfoque sobre as dinâmicas socioculturais e econômico-políticas de gestão da vida24. Após seu surgimento, a bioética historicamente se desenvolveu em três estágios teóricos, os quais são marcados por características, contextos e provocações críticas diferentes. Essas três fases do desenvolvimento da disciplina podem ser conceituadas metodologicamente como fase educacional, filosófica e globalista, respectivamente. O primeiro estágio é marcadamente educacional, por apresentar linguagem de valores humanos e influência médica e teológica; o segundo estágio é de características mais filosóficas, frente à necessidade de responder aos problemas do desenvolvimento da pesquisa biológica e do meio ambiente; e, por fim, o terceiro estágio pode ser identificado como um paradigma globalista, caracterizado por uma abordagem interdisciplinar com o direito, a antropologia e outras ciências sociais25. Nesse mesmo sentido, complementa-se a ideia com uma sistematização histórica da consolidação da bioética como disciplina, buscando retratar as fases de construção dos pressupostos bioéticos conhecidos nos dias de hoje, como se percebe do excerto de Marta Fischer, a seguir: [...] a primeira, na década de 1970, denominada “microbioética”, é caracterizada pela ação pessoal na autogestão do corpo, sobretudo pela reivindicação dos direitos civis e dos pacientes; (b) a segunda, na década de 1980, denominada “mesobioética”, caracteriza-se pela ampliação das reivindicações sociais que levou à reflexão sobre a economia, distribuição de recursos, justiça sanitária, influenciando principalmente decisões institucionais; (c) e a terceira década, de 1990, denominada “macrobioética” ou “ética global”, cujos aspectos como a globalização, proteção do meio ambiente e direito das futuras gerações ampliaram para sua gestão o horizonte dos direitos à vida, os quais já não são individuais nem sociais, porém globais e atemporais26. Desse modo, o movimento acadêmico da bioética passou a se consolidar com a formação de escolas, centros de estudos e o surgimento de inúmeros especialistas no tema. Nesse cenário, a bioética amadureceu sob a égide da ética médica e se consolidou como uma filosofia moral praticada pelos profissionais da saúde influenciando os processos de decisão médica27. Só posteriormente, com o processo de abertura das discussões da medicina para a sociedade em geral, pessoas “leigas” na medicina e profissionais de outras áreas do saber, como sanitaristas, teólogos e juristas, começaram a apresentar suas contribuições ao que se percebe como bioética nos dias atuais. Na atualidade, os bioeticistas tratam de mediar a relação da bioética frente ao progressismo médico-biotecnológico com base em críticas amplas que permeiam o direito dos indivíduos, a questão da justiça social e políticas de equidade no acesso aos benefícios da tecnologia, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e a outros direitos e projeções das gerações futuras. A visão crítica da bioética médica perpassa pela dimensão moral e filosófica, ao criar critérios e argumentos morais para embasar decisões. Tem por intuito harmonizar a técnica médica às necessidades, direitos, preferências e possibilidades, bem como corroborar na percepção do paciente como pessoa e não como “órgão”, “número” ou “consumidor”28. Pode-se afirmar que a bioética, na atualidade, busca provocar uma resposta sobre as novas tecnologias da medicina, de maneira sensível às dimensões éticas dos direitos individuais e contrária ao abuso das instituições poderosas e suas tecnologias, e, portanto, marcadamente defensora da autonomia, da necessidade e das preferências do paciente29. Para além de uma nova ética científica, a bioética tem influência na reflexão jusfilosófica acerca dos direitos individuais e coletivos em saúde e na noção de autonomia, o que reflete na desconstituição da faceta paternalista da medicina e, assim, desconstruir o mito da autoridade médica30. Por isso, a bioética atualmente é um campo de reflexão que também questiona o poder instituído, desde a dinâmica da relação profissional e paciente, a atenção ao progresso médico ético e, até mesmo, aspectos concernentes às políticas públicasde saúde e impactos sociais das novas práticas da medicina na sua dimensão coletiva. Por outro lado, a bioética, como já dito, também apresenta uma dimensão de preocupação ecológica-ambiental. A bioética ambiental alinha-se com as principais discussões sobre ambientalismo, como a clássica dicotomia ética do antropocentrismo e do biocentrismo, as quais, embora apresentem diversificadas correntes e tendências, implicam em grandes contribuições para a discussão sobre o meio ambiente, o modo de geri-lo e a diminuição dos limites entre homem, sociedade e natureza31. Os bioeticistas ecologistas propunham uma visão de sustentabilidade com o uso mitigado dos recursos naturais, o desenvolvimento de tecnologias de energias renováveis e maior preocupação ambiental. É uma proposta de reflexão que exige uma mudança na referência de compreensão do homem autônomo, onipotente, isolado e descontextualizado de seu entorno, que se apresenta diametralmente oposta ao processo de instrumentalização desenfreada da natureza e da crença desenvolvimentista do livre consumo dos recursos naturais32. A bioética ambiental apresenta faceta reflexiva, crítica e contestadora da relação humana com a natureza, o meio ambiente e o avanço da biotecnologia. Por isso, questiona desde o modelo de desenvolvimento socioeconômico, o modo de utilização de recursos naturais, a sua visão sobre a natureza, seus valores e até sobre a inserção do ser humano sob o domínio e harmonia com a natureza. Reforçam-se, concomitantemente, os pressupostos bioéticos médico e ambiental ao constatar em estudos que muitas das doenças em seres humanos são ocasionadas por desequilíbrios ambientais, o que evidencia uma clara ligação entre bioética, meio ambiente e saúde. Essa correlação implicou na necessidade de especialização da bioética para discutir temas específicos da ética médica, das ciências ambientais, da ecologia e da saúde coletiva33. Por isso, o atual paradigma da bioética, na perspectiva global, aspira proporcionar interdisciplinaridade entre as ciências e criar um espaço destinado à ética ambiental e aos seres vivos, bem como demonstra a pretensão de ser um campo de discussão da ética médica, das ciências da vida e seus problemas atuais, como a tecnologia, a vida, a natureza, a reprodução, a morte, a genética e outros temas. Evidencia-se que a bioética é um conceito de grande amplitude que abrange a diversidade do conhecimento humano com aspectos biológicos, médicos e ambientais, pois se constitui como uma ciência fundada em prioridades médicas e ambientais para a sobrevivência aceitável dos seres vivos, logo seus pressupostos são tanto a saúde, como as questões ecológicas34. Assim, constitui-se como um campo de discussão de uma moral de fronteira, visto que seus limites se estendem ao universo inteiro e às futuras gerações35. É importante afirmar que a bioética apresenta uma faceta reflexiva, crítica e contestadora da relação humana com a natureza, o meio ambiente, a saúde e o avanço da biotecnologia. Reflete e critica desde o modelo de desenvolvimento socioeconômico e o modo de utilização de recursos naturais, como também perpassa sobre a ética médica e a aplicação da tecnologia à manipulação da natureza humana. Na atualidade, a bioética apresenta um pluralismo moral, que resulta da diversidade teórica oriunda das diversas correntes filosóficas, sociológicas, políticas e ideológicas que lhe acompanham. Dentre as suas variáveis, destacam-se paradigmas de modelos teóricos como o principialista, o libertário, o liberal-utilitarista, o casuístico, o fenomenológico e hermenêutico, o do cuidado, o do direito natural, o contratualista, o personalista, entre outros que evidenciam visões antropológicas, políticas e filosóficas diferentes36. Por isso, cada visão bioética oferece método e percepção diferenciados para encarar os problemas práticos e os dilemas morais enfrentados por essa disciplina, o que implica em resultados diferentes e também limitações científicas sobre a compreensão dos fenômenos estudados. Cumpre salientar que a análise preponderante neste trabalho se vincula a uma abordagem social, que visa a proteção de grupos vulneráveis, em especial das pessoas com deficiência, e que está presente em discussões e debates políticos e acadêmicos da bioética na América Latina, denominada de bioética protetiva. A bioética de proteção ou ética protetiva busca questionar a moralidade de práticas sanitárias e suas intervenções no âmbito individual e coletivo, com atenção especial a pessoas e grupos em condição de evidente riscos e suscetibilidades socioeconômicas. Desse modo, cita-se Fermin Roland Schramm37: A expressão bioética da proteção foi introduzida recentemente no campo da bioética construída na América Latina, sendo, inicialmente, denominada “ética da proteção” e entendida como reflexão ética sobre a justiça sanitária em situações de escassez. Ela surge, portanto, como um projeto bioético e político pensado por pesquisadores latino- americanos para poder pensar as políticas públicas de saúde com conteúdos e práticas a serem analisadas a partir da aplicação e adaptação das ferramentas do saber bioético tradicional aos conflitos e dilemas morais que surgem em Saúde Pública e depois de constatar os limites das ferramentas bioéticas tradicionais, essencialmente restringidas aos conflitos no campo das práticas biomédicas38. A bioética de proteção identifica-se como uma corrente que reconhece as desigualdades sociais e preocupa-se com a maioria da população que sofre com o cerceamento de liberdades sociais oriundo de privações econômicas, falta de empoderamento e predisposição ao aumento de suscetibilidades39. Assim, a bioética de proteção é um campo recente do estudo, claramente ligado a uma cultura de direitos humanos, que surge considerando as carências e especificidades das situações do mundo globalizado, de modo a enfrentar temas como a pobreza, a privação de liberdade econômica, social e política, as quais causam violações de outras liberdades, em especial das populações vulneráveis e das gerações futuras. Ela também pode ser aplicada à “pacientes morais”, que não são capazes de se protegerem sozinhos ou que não possuem amparo familiar, do Estado e da própria sociedade40. Ou seja, a bioética de proteção se estabelece em face da saúde e da conflituosidade moral trazida por suas práticas, em especial ao seu aspecto biopolítico, em relação aos grupos sociais vulneráveis, dentre os quais podem se incluir mulheres, crianças, pobres, negros, indígenas e pessoas com deficiência. Esse último grupo é objeto de maior interesse e estudo do presente trabalho. A bioética de proteção tem ampliado seu campo de discussão principalmente em países ditos de terceiro mundo, que passaram a assimilar que os modelos tradicionais da bioética apresentam fórmulas limitadas, baseadas, em geral, em máximas de derivação da bioética principiológica quase sempre hegemônica nas discussões e que pressupõem uma igualdade cívica de todos os cidadãos. Apesar de ser necessário considerar o panorama tradicional da bioética, os pensadores e bioeticistas de países assim chamados de subdesenvolvidos, como os da América Latina, devem desenvolver um discurso próprio, que reflita e forneça orientação sobre as práticas biomédicas, em especial as públicas, que ocorrem nas sociedades marginalizadas41. Portanto, essa corrente ganha importante relevância ao propor uma ampliação da dimensão ética da proteção, principalmente para abarcar grupos sociais vulneráveis e/ou pessoas vulneradas. A bioética protetiva apresenta fundamentos próprios baseados na ética da proteção, como: (a) o compromisso político de todo o Estado com os mais vulneráveis; (b) uma ética da convivência com o outro; (c) limitações ao pensamento principialista e a necessidade de uma bioética voltada para os problemas locais e à realidade de países subdesenvolvidos, dentre outros42. Aspectos sobre a bioética de proteção e as pessoas com deficiência serão estudados mais adiante a partir do desenvolvimentode temas comuns, como a relação de justiça, riscos, cuidados, ética científica e sua atenção especial com as pessoas com deficiência nas práticas bioéticas da ciência e da medicina. 1.2. Implicações práticas do contexto biotecnocientífico e paradoxos biopolíticos O avanço científico e as inovações tecnológicas oportunizaram diversos benefícios práticos para as necessidades humanas, criando, assim, situações antes inimagináveis de estar ao alcance e controle humano. Entretanto, essa perspectiva de progresso científico, graças à utilização das descobertas da ciência em prol dos desejos do homem, gerou dilemas morais que desafiam práticas e costumes postos. Sobre esse cenário, concorda-se com Ana Thereza Meirelles, importante especialista do tema, que afirma que o conjunto de possibilidades ofertadas pela racionalidade científica, sem uma mínima regulação, cria uma sociedade de riscos potencialmente elevados e descontrolados, marcado pela imprevisibilidade, inovações promissoras, novas formas de resolver os problemas humanos e realizar seus desejos43. Desse modo, torna-se inevitável observar os efeitos antropológicos do desenvolvimento técnico e científico sobre o ser humano racional. Nesse cenário, o ser humano torna-se sujeito da produção científica e também objeto de inúmeras intervenções de tecnologias aplicadas à sua própria construção social, superando a divisão cartesiana entre sujeito e objeto, e que resulta em um sentimento de poder e autonomia sobre aspectos cotidianos e a diminuição da percepção de limites éticos do uso da ciência44. Esse panorama de mudanças científicas redefiniu percepções e conceitos, antes pacificados pela literatura médica e especializada, como a vida, a reprodução e a morte. O avanço da ciência médica oportunizou novas possibilidades de tratamentos e procedimentos, por exemplo, de transplantes de órgãos, reprodução assistida, métodos contraceptivos, mudança do sexo biológico, melhor compreensão de patologias e a cura de diversas doenças. A tecnologia, além de se apresentar como um importante auxílio da atividade médica, possibilitou também melhor assistência ao paciente e também foi responsável, inclusive, pela fundação de algumas novas especialidades médicas, como a microbiologia, a genética, a radiologia, a medicina nuclear, a bioquímica, a medicina molecular, entre outras45. De modo geral, as biotecnologias atuais vêm modificar significativamente questões essenciais do processo humano de individuação ao multiplicar e aperfeiçoar objetos técnicos, como medicamentos e instrumentos, tais como os utilizados em instituições biomédicas. Por isso, é possível afirmar que as biotecnologias criaram meios para modificar as normas vitais implicadas no devir humano de cada um46. Nesse cenário, com maior compreensão dos mecanismos biológicos, é crescente o surgimento de conflitos éticos e morais decorrentes das manifestações da tecnociência, os quais se distribuem nas práticas de pesquisa laboratorial, nas intervenções clínicas e nas decisões no campo das políticas de saúde47. A esse panorama, congrega-se a tensão do avanço biotecnológico com os padrões culturais não hegemônicos, com a desigualdade de acesso às políticas de saúde, a exclusão socioeconômica, a vulnerabilização de grupos e outros problemas que dificultam uma solução razoável e inflamam esse debate. Na perspectiva prática, podem-se citar como atuais dilemas morais enfrentados pela bioética, por exemplo, a redefinição do conceito de morte com vistas aos transplantes de órgãos, o debate sobre o acesso ao patrimônio genético natural e os direitos dos povos que dele fazem uso, as tecnologias de reprodução assistida, a utilização de células embrionárias humanas em pesquisa biomédica, o direito à morte com dignidade, a revisão ética na pesquisa com seres humanos, a interrupção induzida em gravidez com concepto anencefálico, dentre outros. Todas essas questões acompanham o fenômeno da judicialização de ações conexas com o direito à saúde, ao meio ambiente e ao reconhecimento da dignidade humana48. Como já visto, a bioética é um conceito de grande amplitude, que abrange ciência, política, direito e ética, estando em constante evolução e representando um estudo acerca da conduta humana no campo da vida, da saúde humana e do perigo da interferência nesse campo pelos avanços das pesquisas biomédicas e tecnocientíficas49. É, portanto, função da bioética buscar elucidar esses dilemas morais e oferecer argumentação para solucionar os conflitos práticos acima enumerados. Para compreender a discussão dos dilemas morais existentes no debate bioético, é necessário apreender os conceitos mais pertinentes e que se manifestam com maior intensidade nas controvérsias dessa disciplina, como biotecnociência, biotecnologia, biopolítica, biopoder, biomercado e outras. A biotecnociência, por sua vez, pode ser entendida como o conjunto interdisciplinar e integrado de saberes teóricos, habilidades tecnocientíficas e aplicações industriais referentes a sistemas e processos vivos chamados de biotecnologias50. É um conceito que abrange as possibilidades tecnológicas e científicas atreladas ao conhecimento de organismos vivos, como seres humanos, fauna e flora etc. Enquanto a biotecnologia pode ser entendida como processos e produtos que oferecem o potencial de alterar, controlar o fenômeno da vida, em plantas, animais e seres humanos, ela surge como a mais recente e vibrante aspiração progressiva e de expressão tecnológica do desejo e da disposição racional de compreender, ordenar, predizer e finalmente controlar os eventos e trabalhos da natureza para beneficiar o homem51. É na seara de aplicação das técnicas da biotecnociência onde surgem questionamentos sobre a moralidade de suas práticas e o impacto sobre toda a comunidade humana. Desse modo, faz- se perceptível uma aproximação da biotecnociência e da biopolítica, que implica em conflitos práticos, de interesse e de valores, os quais podem resultar no uso da técnica como uma ferramenta para controle e domínio com fins políticos. A biopolítica, na definição clássica de Michel Foucault52, consiste em práticas de governo de biopoder, que visam garantir e reforçar a saúde da população pelo controle e intervenção sobre nascimento, mortalidade, habilidades e ambientes, assim como afirma Fermin Roland Schramm53, também se dá pelo controle, gestão e intervenção sobre os corpos humanos. Nesse sentido, apresenta-se o conceito de biopolítica: O conceito de biopolítica expressa uma visão histórica sobre um modo de governo da vida, sobre a entrada da vida biológica, não individual, mas coletiva, em uma ordem política baseada, fundamentalmente, nas ideias de gestão de riscos e promoção da saúde dos seres vivos de uma população54. Nesse viés, a noção de biopolítica perpassa pelo controle das vidas e gestão das populações, o qual se dá, especificamente, pelo exercício de poder na regulação de conduta das pessoas e controle populacional, que, na prática, seleciona conhecimentos, organiza e aplica técnicas e instrumentos, arraiga discursos e instituições de ordem linguística, médica, judicial e social, com intuito de naturalizar práticas e pensamento, eliminando outros considerados inaptos55. Essa faceta de biopoder, que envolve avanço e desenvolvimento da ciência e questões de saúde, tem desencadeado questionamentos sobre o uso dessas técnicas e novas tecnologias, principalmente sobre o aspecto dos benefícios de uso e da possibilidade de melhoria de qualidade de vida, bem como sobre os riscos oriundos de posicionamentos discriminatórios fundamentados em práticas científicas. Esse debate existente sobre as questões biológicas, melhoramento e a decisão individual integram o rol das discussões existentes na seara da biopolítica da atualidade. Logo, faz-se imperiosa uma reflexão sobre os fins a que se destinam o desenvolvimento técnico e científico, de modo que as diretrizes que os oriente não sejam excludentes, injustas e antidemocráticas, e para que não resultem em intervenções negativasno espaço social ou que gerem mais problemas, como segregação, exploração das misérias e desigualdades. Desse modo, um fator perturbador proporcionado pelo desenvolvimento científico é a ideologização dos instrumentos médicos e tecnológicos, a qual consiste na busca por executar um projeto-programa que, prescindindo da avaliação do bem objetivo e global das pessoas, pretende conseguir objetivamente determinados resultados de poder56. Para o problema da ideologização da ciência, em geral, se faz imprescindível uma reflexão deontológica e de consciência acerca do uso não instrumental das inovações biotecnocientíficas com finalidades outras que não o bem-estar, a qualidade de vida, a proteção do sujeito, a assistência para com a saúde do assistido e o respeito para com toda a comunidade humana. Concomitantemente à problemática das inovações tecnológicas e à ideologização da ciência, é crescente também uma política de medicalização da vida, que tem como reflexo a expansão de hospitais, indústrias, farmácias e tratamentos médicos diversificados, agregando ao discurso médico aspectos da condição humana, como fatores sociais, econômicos e existenciais, para fins de diagnóstico, cura e terapêutica, o que implica, necessariamente, no controle social por via da medicina e da racionalidade médica57. Dessa forma, uma nova agenda médica se impõe, a qual busca incessantemente usar a medicina como a chave para a felicidade e a realização dos desejos humanos em sua esfera individual, com propósitos gerais ligados a temas como o domínio da vida, da reprodução e da morte, o progresso da técnica aliado à estética, à manipulação bioquímica humana, ao surgimento de novas drogas e de terapias para aprimorar habilidades e curar doenças, aumentando consideravelmente as intervenções médicas nos indivíduos. Esse cenário estimula o crescimento de um biomercado, fundado em uma biopolítica da vida e nos investimentos do mercado financeiro, que almejam os atrativos lucros da comercialização de tratamentos e curas vitais aos seres humanos58. Esse biomercado é marcado pela tentativa de conciliar princípios morais com os interesses industriais, comerciais e mercadológicos, e, por isso, tem apresentado práticas questionáveis, como contratos que incluem desde a venda de óvulos de top models para fecundação, esperma de gênios e a gestação por mães substitutas59. É sabido que os temas ligados ao progresso científico, médico e tecnológico sempre suscitam discussões sob as mais diversas e plurais perspectivas morais, o que implica no enfrentamento e necessário debate de problemas correlatos, principalmente, para o amadurecimento de ideias. Nesse cenário, surgem temas controvertidos que precisam ser confrontados, como o interesse mercadológico, a modificação da condição humana e de seu núcleo protetivo de dignidade, que são exemplos de conflitos e temáticas específicas da bioética que apresentam uma dimensão social, política e moral em sua matéria. Nas temáticas que envolvem a discussão sobre a moralidade do uso das tecnologias, identifica-se a existência de uma dicotomia argumentativa composta por ideais conversadores e liberais, os quais objetivam exprimir o que é importante evitar, promover e apoiar no avanço da biotecnociência, em procedimentos de saúde e na extensão prática do estudo da bioética. Os posicionamentos conservadores são constituídos, em geral, por: (I) rejeitar a liberdade do indivíduo como dimensão principal e objeto dos avanços das técnicas; (II) considerar os problemas individuais e sociais provocados por novas tecnologias, as quais devem ser aplicadas com cautela se não forem devidamente controladas e conhecidas em suas consequências; (III) julgar importante a cautela e necessário aprofundamento do conhecimento sobre as técnicas antes de adentrar em campos pouco explorados do conhecimento genético e da manipulação da vida60. Em oposição, os progressistas defendem que: (I) o indivíduo está acima do caráter público e social, portanto é seu único agente moral; (II) a liberdade individual se sobrepõe à regulação e imposições restritivas estatais; (III) é imperiosa a resolução pacífica de conflitos, com formas jurídicas para tolerâncias e aceitação de casos diversos, bem como considera o homem, enquanto indivíduo, o fim da técnica, dos avanços genéticos e de manipulação da vida61. Nesse panorama, percebe-se que a questão central da bioética é o problema da relação ciência-consciência, liberdade-cautela e desenvolvimento-proteção. A bioética, portanto, se apresenta como uma resposta racional, lógica e equitativa frente à aplicação do biopoder e à eficácia da biomedicina e dos avanços tecnocientíficos62. Evidencia-se que o núcleo das discussões políticas e morais existentes na bioética abrange o debate público em relação à liberdade de escolha do indivíduo, em oposição à regulamentação das liberdades individuais, com relação aos avanços do conhecimento científico e sua aceitação pela moralidade pública. Isso, por conseguinte, reflete em conflitos na busca da estabilização desses interesses políticos nos instrumentos normativos de conduta apresentados pelo Direito. Essa dualidade também pode ser traduzida em uma relação antinômica entre paternalistas e liberais, que apresenta implicações diretas na biopolítica e na bioética. A visão liberal contempla uma centralidade atribuída ao indivíduo, aos seus direitos e liberdades e seu poder de decisão, enquanto a visão paternalista consiste em tratar outrem em conformidade com o que se pensa ser o seu bem63. Portanto, de modo geral, o grande desafio que o panorama de avanços biotecnocientíficos apresenta está atrelado a como o ser humano lidará com a sua subjetividade autônoma para exercer escolhas e mensurar o impacto das intervenções da biotecnociência e do conhecimento humano no convívio em sociedade. Dessa maneira, importa tratar sobre a relação existente entre os avanços da ciência e a sua ligação com a bioética e com os direitos humanos, pois é nesse campo que existem os mais pertinentes e delicados debates que precisam ser analisados, conforme proposta do tópico a seguir. 1.3. Avanços da ciência: bioética e os direitos humanos Os avanços da ciência e as descobertas científicas identificadas nos últimos séculos possibilitaram a expansão de inúmeras tecnologias que ofereceram novas possibilidades aos seres humanos. Esse progressismo científico cresceu acompanhado de inúmeros conflitos causados não só pelo impacto na vida das pessoas e seus costumes, mas também pela finalidade e uso ético dos achados proporcionados pela ciência, principalmente quando utilizado contra os grupos sociais mais vulneráveis. Como visto anteriormente, essa perspectiva de valorização do tecnicismo científico resultou em conflitos teóricos e filosóficos sobre a concepção da natureza humana e, em alguns momentos, possibilitou a sobreposição dos métodos científicos sobre o sujeito, o que resultou em graves violações de direitos humanos64. O julgamento de Nuremberg, em 1945, por exemplo, revelou diversas condutas antiéticas em experimentações científicas, praticadas por médicos e cientistas em prisioneiros nos campos de concentração nazistas, e trouxe relatos históricos que retratam indícios de problemas da natureza da moderna tecnologia biomédica, quando aliada ao comportamento humano racista65. As atrocidades cometidas pelos nazistas contra as minorias sociais registram na literatura médica e científica um capítulo de vergonha pela sua crueldade e planejamento, uma vez que quase 6 milhões de judeus, 200 mil ciganos e 100 mil homossexuais e demais ativistas políticos e pessoas com deficiências foram presos e mortos em guetos e campos de concentração66. Durante o século XX, a exploração da vulnerabilidade67 das pessoas no contexto da experimentação humana é determinada por fatores históricos que elegem como principal alvo grupos de pessoas desprotegidas ou institucionalizadas, como órfãos, prisioneiros, idosos, judeus e outros grupos étnicos68. Nos dias atuais, o que mais causa