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35 Em breve síntese, a lógica da teoria limitada da culpabilidade caminha no sentido da distinção entre o erro sobre os pressupostos fáticos, tratado como erro de tipo pela teoria limitada, e erro sobre a existência e limites sobre as causas de justificação, tratados como erro de proibição indireto. Estabelecida a primeira premissa, distintiva e crucial para a solução da questão, tem-se que a questão relacionada ao erro sobre os pressupostos fáticos das causas de justificação, ao receberem o trato na esteira do tipo penal, atrai a lógica compreensiva do dolo e, consequentemente, do crime tentado. Apesar do erro de tipo vencível excluir o dolo e permitir a punição a título de culpa, a compreensão remete, necessariamente, a sua análise conglobada, haja vista que, de fato, há uma decisão direta contra o bem jurídico protegido, naturalmente advinda do conhecimento, ainda que viciado, e vontade. A teoria limitada da culpabilidade, ao conferir o tratamento de erro de tipo ao erro sobre os pressupostos fáticos das excludentes de ilicitude, ainda que juridicamente afaste o dolo, permite a punição a título de culpa. Registre-se que a exclusão dolo, apesar de estabelecida normativamente, não afasta, ontologicamente, a “decisão direta contra o bem jurídico protegido”. Não obstante, ainda que se considere o afastamento do dolo, não se pode olvidar que o erro de tipo vencível permite a punição a título de culpa e, naturalmente, a própria punição a título de culpa imprópria, verdadeiro crime doloso, ao qual o legislador conferiu, por política criminal, a punição a título de culpa. Logo, a assertiva, ainda que no microssistema da teoria limitada da culpabilidade, ao afastar a possibilidade de crime tentado, contraria o entendimento amplamente majoritário na doutrina e reconhecido pela jurisprudência pátria, inclusive pelo Desembargador Júlio Cézar Gutierrez, examinador no certame (GI), de possibilidade de tentativa de culpa imprópria (Apelação Criminal 1.0024.04.197155-7/002). No mesmo sentido é a lição de Nélson Hungria3, apud Erro de Tipo e Erro de Proibição: Há, porém, uma classe de crimes culposos que, como diz De Marsico, não o são propriamente em sua estrutura, mas, antes, por equiparação, nos quais, por isso mesmo que falta a relação entre a vontade e o evento, é perfeitamente possível a tentativa. Em tais casos, há culpa (desatenção, inconsideração, erro inescusável) na avaliação da situação objetiva, mas o resultado não deixa de ser previsto e querido. Dá-se, portanto, uma ampliação do conceito de culpa que o nosso Código consagrou, quer na hipótese de exclusão de dolo por erro de fato (concernente a elemento constitutivo do crime ou causa objetiva de exclusão deste), quer na do excesso culposo de legítima defesa. E arremata Hungria4: 3 apud Erro de Tipo e Erro de Proibição. Luiz Flávio Gomes, p. 151, 1995, ed. Revista dos Tribunais. 4 Idem. p. 152. 36 “Figure-se o seguinte caso: supondo que o vigilante noturno é um ladrão que me invade o quintal da casa, tomo de um revólver e, sem maior indagação, inconsideradamente, faço repetidos disparos contra o policial que, entretanto, escapa ileso ou fica apenas ferido. É inquestionável, em face do Código, que se apresenta uma tentativa de homicídio culposo”. Reforçando a compreensão supra, ainda que indiretamente, pedimos vênia para transcrever trecho da tese de doutorado do examinador, Doutor Wagner Marteleto Filho, Dolo e Risco no Direito Penal, p. 4795: Na Alemanha, o erro de tipo permissivo não recebeu tratamento autônomo, não se subsumindo diretamente nem ao §16, 1 nem ao §17 do StGB, o que permite uma ampla discussão na doutrina, inclusive de lege lata. Em Portugal e no Brasil o erro de tipo permissivo foi expressamente regulado pelo legislador, e equiparado ao erro sobre as circunstâncias do tipo, e sempre conduz à exclusão do dolo, sem que haja qualquer indagação acerca dos seus fundamentos, em alinhamento com a teoria limitada da culpa. O erro só pode justificar, assim, a censura da negligência, caso presentes seus pressupostos, ou seja, caso o erro seja considerado como evitável. A ratio da equiparação do erro sobre as elementares do tipo e do erro sobre a presença de uma circunstância que excluiria a ilicitude do comportamento (caso efetivamente existisse), consiste, na visão da doutrina majoritária, em que o agente atua, nos dois casos, de forma concordante com o valor acolhido na norma. O que se dá é que, no plano ôntico, há um desacordo fático entre a realidade e a representação, que não expressa, contudo, a negativa de reconhecimento de validade da norma, ou uma “decisão direta contra o bem jurídico protegido”. Desta forma, considerando-se a admissão, amplamente majoritária pela doutrina e jurisprudência pátrias, acerca da possibilidade de tentativa de culpa imprópria e que o acolhimento do tratamento do erro de tipo nos casos de erro de tipo permissivos conduzem à possibilidade de punição a título de culpa, dentre as quais se insere a modalidade da culpa imprópria, entendemos que a questão é passível de anulação por não conter alternativa correta. 22. A respeito do concurso de pessoas, assinale a assertiva INCORRETA: 5 https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/42264/1/ULSD733934_td_Wagner_Filho.pdf.