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Importante pela vida que levou e pela atividade sócio-literária que exerceu, inclusive por influência à obra de Alexandre Herculano. Sua poesia, publi- cada em 1844, Obras Poéticas, oscila entre o culto dos clássicos e o dos românticos. BOCAGE O maior poeta do século XVIII português foi Ma- nuel Maria de Barbosa du Bocage, concorrente de Camões na vida e na obra. Foi membro da Nova Arcádia, teve uma vida aventurosa e inquieta, que ele próprio comparou com a de Camões, de quem admirava o lado “romântico” (avant la lettre) da sua vida e obra. Bocage foi talvez o autor dos melhores sonetos da língua portuguesa depois do seu mode- lo, foi também grande repentista e improvisador em assembléias e tornou-se efetivamente o autor mais popular e mais lembrado em Portugal até hoje, tal- vez por certa facilidade de verso e por certa vulgari- dade de situações em que se apresenta. Os român- ticos consideraram-no seu precursor e Herculano resumiu, provavelmente, um juízo coletivo quando escreveu que Bocage trouxe a poesia dos salões para a praça pública. Morre na miséria e arrependi- do pela vida desregrada que levou. Seu pseudôni- mo arcádico era Elmano Sadino, formado com as letras do seu prenome e do rio Sado, que banha Setúbal, sua terra natal. Em sua vida, Bocage publi- cou Idílios Marítimos recitados na Academia das Belas-Artes de Lisboa e as Rimas. Postumamente, Obras Poéticas e Verdadeiras Inéditas Obras Poéti- cas. Segundo Moisés “existem dois Bocages: o que o vulgo fixou através de anedotas, verdadeiras al- gumas e falsas outras, mas todas raiando na obs- cenidade grosseira, e o que a tradição literária nos legou. Este é que importa, pois o primeiro segue trajetória secundária e infensa a qualquer configura- ção, visto o povo atribuir-lhe todos os ditos picantes que, não tendo paternidade conhecida, devem for- çosamente pertencer a alguém. (...) O segundo Bocage escreveu uma vasta obra poética fracionada em dois sectores fundamentais: o satírico e o lírico. Quanto ao primeiro, Bocage alcançou ser estrela de primeira grandeza, ao lado dum Gregório de Matos, graças ao temperamento agressivo, impulsivo, cor- tante, amparado no dom da improvisação feliz e certeira. Contudo, a sátira ocupa lugar menos rele- vante em sua obra, seja porque de cunho pessoal e bilioso, seja porque dura tanto quanto o aconteci- mento que lhe dá causa e sentido”. VII – ROMANTISMO (1825-1865) O Romantismo é a expressão literária e plástica da consciência burguesa. Acredita no progresso, porque o progresso foi a mola econômica da bur- guesia; entoa o canto da liberdade, porque para o burguês parece evidente que a liberdade não é se- não o exercício do poder por ele próprio; exalta o sentimento contra a barreira das convenções, por- que o sentimento é ele e as convenções são as sobrevivências das barreiras sociais que ainda se opõem à sua caminhada triunfal; inventa a alma do povo, ou o espírito nacional, porque se considera o legítimo representante desses mitos; reinventa a história porque a história lhe permite reconstituir um pergaminho coletivo e apresentar-se como sendo ele o verdadeiro nobre, o representante das gera- ções que, durante séculos, desbravaram o caminho da liberdade. O romantismo português normalmente é associ- ado à revolução liberal de 1834. Essa revolução representa um corte com a tradição, pois confiscou os bens da nobreza, da Igreja e aboliu as ordens religiosas. Era necessário criar uma nova literatura, com novas formas e novos temas, para uma nova sociedade, uma vez que os românticos da primeira geração ainda estavam muito ligados aos árcades. Garrett e mesmo Herculano, ambos conheceram “in loco” o novo gosto literário, porque foram força- dos a emigrar para a Inglaterra, como refugiados políticos. Antônio Feliciano de Castilho procurou mostrar-se ao corrente da moda romântica em o- bras como A Noite do Castelo, de cenário afetada- mente medieval. Didaticamente, costuma-se dividir o romantismo em três fases: a) 1ª fase (de 1825 a 1838): momento, ainda, em que atuam os valores neoclássicos. São represen- tantes dessa fase Almeida Garret, Alexandre Hercu- lano e Antônio Feliciano de Castilho. b) 2ª fase (de 1838 a 1860): há, então, a incorpora- ção do chamado movimento ultra-romântico. Camilo Castelo Branco é seu principal representante. c) 3ª fase (de 1860 a 1865): fase de transição para o Realismo. Tem como representantes Júlio Dinis e João de Deus. Além das características gerais (individualismo e subjetivismo, ânsia de liberdade, culto da natureza, idealização da mulher, insatisfação ou “mal do sécu- lo”, etc.), convém destacar que o Romantismo por- tuguês caracteriza-se por um retorno ao passado. Os escritores portugueses procuram ambientar seus romances na Idade Média, tentando recuperar ide- ais de hora e coragem. Esta tendência dá forte cu- nho nacionalista às obras do Romantismo portu- guês, pois ao evocar o passado, exalta-se a Pátria, cultuam-se as tradições lusitanas. Trata-se da evo- cação saudosista de um passado de glórias. O PRIMEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO O primeiro "momento" romântico, que se desen- volve mais ou menos entre 1825 a 1838. O Roman- tismo foi introduzido em Portugal por Almeida Gar- ret, com a publicação, em 1825, do poema Camões, obra que, apesar de não representar fielmente os ideais românticos, traz consigo algumas caracterís- ticas deste movimento literário. GARRETT O Romantismo, em Portugal, teve como marco a publicação do poema “Camões”, de Almeida Gar- rett, em 1825, a partir do exílio, na Inglaterra e pos- teriormente na França. Garrett, através destas cir- cunstâncias, parece ter compreendido a necessida- de de existir um novo gênero de relações entre o escritor romântico e o novo público, isto é, os espec- tadores do escritor passam a ser o povo e burguesi- a, e a sua obra a maneira de chegar até este. Se- gundo Garrett, o novo público desejava assuntos sentimentais e focados na recuperação do naciona- lismo posto de lado pela cultura clássica. O seu principal modelo literário é Filinto Elísio. Em Camões, poema narrativo em torno de um herói byroniano, Garret canta as amarguras e a saudade da pátria. As descrições remetem ao cená- rio romântico, os versos brancos (não rimados). Já no prefácio, o autor afirma o seu nacionalismo e declara não ser clássico, nem romântico, repudian- do, tanto as regras de Aristóteles e Horácio, como a imitação de Byron, anunciado seguir apenas "o co- ração e os sentimentos da natureza". Em “D. Branca”, obra contemporânea de “Ca- mões”, reconta a história em verso de uma infanta portuguesa raptada pelo último rei mouro, introdu- zindo ingredientes exóticos, folclóricos e mágicos, orientais e medievais. A obra Viagens na minha terra, em seu conjunto, narram um passeio pelas paisagens portuguesas. Obra híbrida em que impressões de viagem, de arte, paisagens e costumes se entrelaçam com uma novela romântica sobre fatos contemporâneos do autor e ocorridos na proximidade dos lugares descri- tos. A naturalidade da narrativa disfarça a complexi- dade da estrutura desta obra, em que alternam e se entrecruzam situações discursivas, estilos, narrado- res e temas muito diversos, em especial críticas sociais e políticas. Garrett inovou também na poesia. Em Flores sem fruto e Folhas caídas, introduz a espontaneidade e a simplicidade como em "Pesca- dor da barca bela", pela proximidade com a poesia popular ou das cantigas medievais. A liberdade métrica, o vocabulário corrente, o ritmo e a pontua- ção são marcas de sua obra. Garrett empenhou-se intensamente na renova- ção do teatro em Portugal, objetivando uma produ- ção de qualidade que elevasse o gosto e a cultura do povo. Sua vocação pela dramaturgia está repre- sentada pelas obras: Um Auto de Gil Vicente, O Alfageme de Santarém, Frei Luís de Sousa, D. Fili- pa de Vilhena, além das comédias, Falar verdade a mentir, Profecias do Bandarra,Um Noivado no Da- fundo, entre outras. Frei Luís de Sousa é indubita- velmente o que melhor realiza o seu ideal de sobri- edade artística, combinando o fato da tragédia clás- sica e a atualidade do drama familiar, permanece ainda hoje um texto modelar da literatura dramática nacional. É, segundo Saraiva, “um dos pontos mais altos atingidos pela Literatura Portuguesa”. ALEXANDRE HERCULANO Alexandre Herculano nasceu em Lisboa, em 1810. De família modesta, não pode fazer curso universitário, entretanto, fez vários cursos entre os quais o curso de Diplomática na Torre do Tombo, onde conhece a Marquesa de Alorna. Herculano exilou-se na Inglaterra e na França, criando polêmica com o clero, por participar da lutas liberais. Em 1836, inicia sua carreira de prestígio intelec- tual com a publicação d’ A Voz do Profeta. Nos anos seguintes, inicia a publicação de suas obras de fic- ção: as Lendas e Narrativas, O Bobo, o Monge de Cister. É a fase mais intensa de sua atividade literária, e política, na defesa das idéias liberais. Interpretan- do com desassombro e espírito crítico alguns fatos da história de Portugal, como a batalha de Ourique, cujo aspecto lendário destrói com sólida argumenta- ção, acaba provocando enérgica reação do clero. Junto com Garrett, foi um intelectual que atuou bas- tante nos programas de reformas da vida portugue- sa. Herculano é o verdadeiro teorizador do Roman- tismo em Portugal. Pensava que uma revolução política e social se devia refletir na literatura. Assim, na ficção de Herculano, prevalece o caráter histórico dos enredos voltados para a Idade Média, enfocan- do as origens de Portugal como nação, temas de caráter religioso e na sua obra não-ficcional, reno- vou a historiografia, introduzindo o conflito de clas- ses sociais para explicar a dinâmica da história. Segundo Moisés, “Alexandre Herculano é diame- tralmente oposto a Garrett em todos os aspectos: personificação da sobriedade, do equilíbrio, do rigor crítico; espírito germânico, dir-se-ia, enquanto o outro é latino, sobretudo francês. A obra de Hercu- lano reflete-lhe o temperamento e o caráter: mante- ve-se imperturbável na posição de homem que ape- nas se julga convicto das idéias que defende depois de longa e cuidadosa meditação. Daí sua intransi- gência e sua indignação diante da pouca receptivi- dade de suas idéias”. Suas principais obras são: poesia (A Vox do Profeta, mais adiante incluído na Harpa do Crente), romances (O Bobo, O Monge de Cister, Eurico, o Presbítero), contos (Lendas e Narrativas), historio- grafia (História de Portugal, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, Portu- galiae Monumenta Historica). Impõe-se observar que o forte de Herculano era a historiografia, por se identificar com o mais íntimo de seu temperamento e formação, e a tal ponto que tudo quanto escreveu reflete essa afinidade e pre- disposição. Para Massaud Moisés, “embora romântica pelos temas, a poesia de Herculano caracteriza-se por uma contensão que jamais cede a qualquer impulso para o derramado. Antes, solene, hierática, teatral, majestosa, é mais poesia pensada que sentida, denotadora duma inautêntica inclinação para o gê- nero: tendo-a cultivado apenas nos anos juvenis (...). De sua poesia merece algum destaque o poe- ma "A Cruz Mutilada", onde perpassa, apesar de tudo, muito pensamento sem emoção, além de sub- sistir a tendência para o declamatório altissonante”. Em sua essência, Herculano era demasiado histori- ador para se entregar a uma visão poética do mun- do e dos homens: faltava-lhe a necessária imagina- ção transfiguradora da realidade sensível, e sobeja- va-lhe o espírito crítico e a erudição. ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO Castilho nasceu em Lisboa, em 1800 e aos seis anos, acometido de sarampo, fica praticamente cego para o resto da vida. Com a ajuda de seu ir- mão Augusto Frederico de Castilho, faz o curso secundário e ingressa na Faculdade de Cânones de Coimbra. Publica as Cartas de Eco e Narciso e A Primave- ra e se torna figura central da Sociedade dos Ami- gos da Primavera, organizada em sua homenagem. Em 1865, provoca a Questão Coimbrã com sua carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas. Cercado de glória e do carinho de seguido- res fiéis, falece em 1875, em Lisboa. A carreira poética de Castilho inicia-se sob a égide do Arcadismo, especialmente de Bocage, quando escreve Cartas de Eco e Narciso, A Prima- vera e Amor e Melancolia. Em 1836, publica suas obras sob a influência romântica: A Noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo, seguidos mais adiante de Escavações Poéticas. O SEGUNDO MOMENTO DO ROMANTISMO O segundo "momento" romântico, que se desen- volve mais ou menos entre 1838 e 1860, diverge segundo Moisés, do anterior: desfeitos os laços arcádicos que inibiam os escritores do tempo, entra um período que corresponde ao pleno domínio da estética romântica. Soares de Passos nasceu no Porto, de família burguesa, vê-se obrigado a trabalhar no balcão do armazém paterno enquanto faz seus estudos. Vai estudar Direito em Coimbra, onde funda O Novo Trovador. Já formado recolhe-se no seu quarto me- ses a fio, indiferente a tudo, inclusive à poesia, em virtude da tuberculose adquirida nos tempos da faculdade. Soares de Passos reuniu suas composições num volume, Poesias, onde se entrega a um negro pes- simismo, a um desalento derrotista, próprio de quem sente a morte próxima e cultiva sua presença, um tanto por morbidez, um tanto por "literatura": é a poesia da decomposição, do cemitério, como em "O Noivado do Sepulcro." Segundo Herculano, o poeta estaria “destinado a ser o primeiro poeta lírico português deste século”. Soares de Passos constitui a encarnação perfeita do "mal-do-século", pois viveu segundo Moisés, “na própria carne os desvarios de que se nutria sua fértil imaginação de tuberculoso narcisista e misantropo, sua vida e sua obra espelham claramente o prazer romântico da fuga, fuga, no caso, das responsabili- dades concretas do mundo social”. CAMILO CASTELO BRANCO Camilo transita do Ultra-Romantismo para um Naturalismo coerente com suas tendências de cro- nista da sociedade burguesa da segunda metade do século XIX. Reflete a angústia do ideal romântico e o desmontar das novas correntes ideológicas de origem Francesa. A biografia de Camilo é uma no- vela camiliana. Filho bastardo, órfão de pai e mãe desde a infância, ficou aos cuidados de parentes religiosos em Trás-os-Montes, onde foi iniciado no latim e conheceu a literatura dos seiscentistas e onde, também, “aprendeu a caçar bichos e rapari- gas, iimpulsivo participou de guerrilhas miguelistas. Batia-se com freqüência em jornais e duelos por amores e por rixas literárias. Viveu amores passa- geiros e escândalos pessoais até seu grande ro- mance da vida real, quando conheceu Ana Plácido. Ela fugiu do marido para viver com ele, o que era neste tempo um escândalo passível de ação judiciá- ria. O casal passa algum tempo como fugitivos, escondendo-se de terra em terra, até que os dois amantes se vêem forçados a entregar-se à prisão, onde Camilo escreveu seu romance “Amor de Per- dição”. Julgados e absolvidos, posteriormente se casaram. Por fim, a cegueira, o levou a matar-se. Na vastíssima produção de Camilo, é possível distinguir o romance-folhetim, à maneira de Eugênio Sue ou Alexandre Dumas: Mistérios de Lisboa, Livro Negro do Padre Dinis; o romance do amor trágico: Amor de Perdição; o romance-sátira: A Queda de Um Anjo, O Que Fazem Mulheres; o romance de costumes aldeãos: Novelas do Minho, Brasileira de Prazins; o romance histórico: O Judeu, O Olho de Vidro; o romance naturalista, que caricaturou: n’A Corja e n’O Eusébio Macário. O pensamento mais profundo dos enredos cami- lianos pode talvez considerar-se como tipicamente pré-romântico. Quem quer que se interponha no caminho dos amantes aparece sob uma capade ridículo ou de odioso. A mulher de todas as condi- ções é quase sempre o anjo adorável, capaz de todas as abnegações e sacrificada ao egoísmo, à vaidade ou ao simples capricho masculino. Os he- róis dos seus romances, freqüentemente, são ma- nequins que vestem sentimentos emprestados pelo autor, e a sua vida psicológica desenvolve-se de maneira forçada e incoerente. Camilo é talvez o único escritor português da estirpe de Balzac. No entanto, falta-lhe objetividade e o espírito analítico que caracterizam o escritor realista. Tende a oscilar entre o lirismo e o sarcas- mo. Freqüentemente, em vez de retrato, faz carica- tura. Não é por acaso que a expressão “novela ca- miliana” é freqüentemente usada, em vez de ro- mance de Camilo: a diferença entre um e outro é que na novela camiliana a ação é uma sucessão de acontecimentos independente da dimensão tempo, que tem grande importância no romance de Dickens ou de Balzac. O TERCEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO Esse período é marcado pela presença de auto- res como os poetas João de Deus, Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais e Pinheiro Chagas, e do romancista Júlio Dinis. João de Deus foi um lírico de vibração interior ficando à margem das marcas do tempo e do meio. Mantendo-se fiel até o fim a um desígnio estético e humano que lhe transcendia a vontade e a vaidade. Contemplativo por excelência, sua poesia é a dum "exilado" na terra a mirar coisas vagas e por vezes a se deixar estimular concretamente. Cultiva os mes- tres Tomás Antonio Gonzaga, Camões, Dante, Pe- trarca e a Bíblia. Entre suas obras, destacam-se Campos de Flores. Manuel Pinheiro Chagas teve em Castilho seu grande mestre. Seu Poema da Mocidade motivou a Questão Coimbrã, começo da batalha entre român- ticos e realistas, em virtude da apresentação escrita por Castilho, onde tece elogios aos ultra-românticos e critica os jovens que começam a fazer a literatura realista. Júlio Dinis Os seus enredos ambientam-se entre o meio mercantil do Porto ou a vida doméstica no campo em casa de proprietários-lavradores. Nos romances ambientados no Porto como “Uma Família Inglesa”, a ação gira em torno da praça, onde pululam o grande e o pequeno comerciante, o guarda-livros, o rapaz dos recados, o caixeiro, o capitalista reforma- do, o rico filho-família herdeiro de uma grande firma. Quando nos transporta para a aldeia como em “As Pupilas do Senhor Reitor”, “A Morgadinha dos Canaviais”, “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, o am- biente é mais convencional: a casa do lavrador a- bastado, pintada de maneira muito vaga, com cores frescas, novas, e principalmente o coração dos me- xericos da terra: a venda, onde se reúnem os lavra- dores, o brasileiro, o morgado decadente, o candi- dato a deputado e, de passagem, a beata da aldeia ou a criada do Senhor Abade, o ambiente burguês do proprietário ou ao solar do velho fidalgo. Seus tipos são magistralmente caracterizados com uma leve formação caricatural e humorística, o que não exclui a ternura. Júlio Dinis deu um passo decisivo na nossa pro- sa de ficção ao criar em Portugal o gênero burguês e moderno por excelência, o romance “contemporâ- neo”, amparado certamente por um público que tivera tempo de amadurecer desde os primeiros ensaios do romance histórico. O TEATRO NA ERA ROMÂNTICA O teatro português retorna no romantismo, gra- ças ao esforço despendido por Garrett, a grande figura da época. Com seu dinamismo e imaginação reformou o gênero através de suas obras de feição nacional e de alto sentido patriótico, uma das quais é obra-prima da dramaturgia Portuguesa e européia, o Frei Luís de Sousa. VIII – REALISMO (1865-1890) Nos anos seguintes a 1860, o Romantismo entra em declínio e sofre os primeiros ataques por parte da nova geração que surge, os rebeldes estudantes de Coimbra. Em 1861, Antero de Quental funda a Sociedade do Raio, com cerca de duzentos estudantes de Co- imbra, com o objetivo de instaurar a aventura do espírito no seio do convencionalismo acadêmico e político. Num gesto de ousadia, Antero em 1862, escolhido para saudar o Príncipe Humberto da Itália, exalta a Itália livre e Garibaldi, então ferido em com- bate. Empolgados pelas novas idéias revolucionárias, Teófilo Braga publica dois volumes de versos, a Visão dos Tempos e as Tempestades Sonoras, e Antero edita as Odes Modernas. Enquanto isso, no ultra-romantismo, Pinheiro Chagas escreve o Poema da Mocidade e Castilho, seu mestre nas Letras, escreve em um posfácio onde exalta o fiel discípulo e critica os jovens de Coimbra, em especial Antero e Teófilo, afirmando que lhes falta talento e gosto refinado. Estava armada a polêmica, que passou a cha- mar-se Questão Coimbrã: uma intensa polêmica em torno do confronto literário entre os ultra românticos liderados por Castilho e os jovens estudantes de Coimbra, cujo líder era Antero de Quental, iniciada após a publicação do livro Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, onde Castilho escreve um posfá- cio ironizando os jovens de Coimbra com o título "Bom senso e Bom gosto". Os jovens reagem: Ante- ro escreve o folheto "A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais", Teófilo de Braga escreve o folheto "Teocracias Literárias". Ramalho Ortigão e Camilo Castelo Branco destacam-se na defesa de Castilho. Esta polêmica durou meses, com freqüen- tes publicações críticas de ambos os lados, termi- nou com a vitória dos ideais da Geração de 1870, o que provocou uma autêntica renovação cultural e a afirmação do realismo. Mais tarde, este grupo com alguns acréscimos promove, em 1871, As Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, objetivando colocar Portu- gal na modernidade, “estudando as condições de transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa". Com a Questão Coimbrã, estava definida a crise de cultura que inicia o Realismo em Portugal. POESIA DA ÉPOCA DO REALISMO A poesia do Realismo retoma o prestígio lírico de Bocage e Camões seguindo várias direções: a po- esia "realista", a poesia do quotidiano, a poesia metafísica e a poesia de aspiração parnasiana. Sem se confundir com o Parnasianismo, teve caráter revolucionário, serviu como arma de combate, de ação, em suma, poesia "a serviço" da causa realis- ta. Entre os poetas destacam-se Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Antero de Quental, Teófilo Braga e outros. A POESIA METAFÍSICA: ANTERO DE QUENTAL Contrapondo-se à poesia, a poesia metafísica ou transcendental busca responder às indagações que a consciência do homem formula: "que sou?", "por que sou?", "de onde vim?", "para onde vou?", "que é que vale?", "por que a morte?", etc. Nessa época, esse gênero de poesia encontra o seu mais alto representante, Antero de Quental, porém continua presente em Fernando Pessoa, Mário de Sá- Carneiro, José Régio, Miguel Torga e outros. Para Moisés, “a poesia metafísica nasceria sem- pre como uma via de escape à angústia geográfica histórica e cultural em que vive o homem português, encurralado num território diminuto entre o continen- te europeu e o Oceano Atlântico, a sonhar glórias perdidas no século XVI”. De educação católica e de família conservadora, de caráter profundamente religioso, sofreu um pro- fundo abalo ao encontrar-se num meio onde pene- travam idéias e leituras que confrontavam sua cren- ça tradicional. Crente na razão e na justiça, como o tinha sido na fé, questionou e promoveu marchas e protestos contra a academia, a sociedade, a literatura.