Prévia do material em texto
FRENTE MÓDULO HISTÓRIA A 03 Formação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal CRONOLOGIA A arte medieval foi considerada pelos homens renascentistas como grosseira e pobre. Rafael Sanzio, pintor do Renascimento italiano, incorporou esse preconceito utilizando a expressão Tradicionalmente, a Idade Média é caracterizada como o período que se estende do século V, mais precisamente "gótica" (originária do termo "godos", um dos povos da queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., denominados bárbaros) para se referir à arte do período. até o final do século XV. Ainda de acordo com essa divisão, A partir do século XIX, no entanto, a Idade Média o Período Medieval pode ser separado em Alta Idade Média, dos séculos V ao IX, e Baixa Idade Média, dos séculos X ao XV. passou a ser revalorizada e revista. Foram os românticos No período da Alta Idade Média, ocorreu a formação do que se opunham ao racionalismo moderno quem feudalismo, e, ao longo da Baixa Idade Média, assistiu-se à resgataram os medievais, considerando-os formadores das consolidação e à decadência do mundo feudal. nacionalidades europeias. Um dos ápices do resgate medieval Para alguns autores, no entanto, esse período não teria ocorreu durante as invasões napoleônicas do século XIX, tido o seu fim antes do século XVIII. De acordo com o já que, diante da expansão francesa, as nações oprimidas historiador Jacques Le Goff, a Idade Média chegou ao fim com exacerbaram o seu discurso nacionalista. a Revolução Industrial e com a Revolução Francesa, quando ocorreram a consolidação do capitalismo e a crise do Antigo Os historiadores do século XX, por sua vez, passaram Regime. Segundo essa visão, foi somente nesse período a perceber o Período Medieval levando em conta suas que os valores de origem medieval teriam chegado ao fim. especificidades. Sabe-se hoje que o desenvolvimento técnico, em áreas como da agricultura, foi significativo SOBRE A no período. Já na Filosofia, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino são exemplos da sofisticação do pensamento IDADE MÉDIA medieval. A arte e a arquitetura também são valorizadas e as catedrais medievais são símbolos da grandeza artística o mundo medieval foi, durante muito tempo, tratado do período. de maneira preconceituosa. o termo "Idade Média", por exemplo, é fruto dessa visão, visto que nele subjaz a ideia de que esse longo período correspondia a um estágio ALTAIDADE MÉDIA intermediário entre a grandeza da Antiguidade Clássica e do Mundo Moderno. Essa percepção surgiu durante início o período compreendido entre a queda do Império Romano da Idade Moderna, com a crescente valorização dos ideais do Ocidente e uma segunda onda de migrações ocorrida humanistas no contexto do Renascimento. Para o homem nos séculos IX e X é conhecido como Alta Idade Média. renascentista, que valorizava a razão, a Idade Média, Naquele momento, ocorreram transformações que levaram marcada pela intensa religiosidade e pelo predomínio à consolidação do mundo feudal, mundo este marcado pela da Igreja, foi um período de obscuridade e ignorância. combinação de instituições de origem romana e dos reinos A partir desse momento, termos como "Idade das Trevas" germânicos, chamados de bárbaros pelos romanos. ou a "Longa Noite dos Mil Anos" foram comuns para designar tal período. Nesse período, foi registrada uma retração populacional, De acordo com essa visão, na Idade Média, não teriam que já existia desde a crise romana. Assim, é possível perceben ocorrido avanços nas áreas da ciência, das artes e da Filosofia, que a presença dos povos germânicos não representou acreditando-se que o desenvolvimento humano teria sido aumento da população; estima-se que eles constituíam contido e só seria retomado a partir da Idade Moderna. apenas 5% da população na antiga área do Império. Bernoulli Sistema de Ensino 23Frente A Módulo 03 Concomitantemente a esse processo, o êxodo urbano se Após a morte de Clóvis, as disputas entre os merovíngios manteve, o que não significa que a vida urbana tenha levaram ao enfraquecimento da dinastia e à ascensão sido completamente abandonada. É importante ressaltar, dos carolíngios. Essa dinastia se iniciou com Carlos Martel ainda, que, paradoxalmente, a ruralização europeia (686-741), que conteve a expansão em direção à não acarretou uma prosperidade produtiva, já que a Europa Central ao derrotá-los na Batalha de Poitiers em 732. Alta Idade Média foi marcada pela expansão da fome e o auge desta dinastia, no entanto, deu-se com Carlos Magno das epidemias. (742-814) que, durante o período em que esteve no poder, contando com apoio da Igreja e com um reinado de grande Os povos germânicos formaram uma série de reinos na vigor pessoal, conseguiu manter extensos domínios unificados Europa Ocidental. o antigo Império havia se fragmentado, e conquistar novas áreas. Assim, enquanto nos demais reinos dando origem às chamadas monarquias germânicas, como predominavam a fragmentação e a instabilidade política, demonstrado no mapa a seguir: Império Carolíngio desfrutava de relativa unidade. o mapa a seguir demonstra a extensão do Império. Os reinos bárbaros no século VI Império Carolíngio N Jutas A Celtas N Frisões Bretões Saxões A Mar do OCEANO Eslavos Norte Bretões Paris Hunos Lombardos Gépidas Saxônia Ponto Euxino Aachen Roma Armênios Australásia Baviera Nêustria Atenas OCEANO Carintia Cartago Mouros Berberes Borgonha Mar Lombardia Aquitânia Alexandria 0 601 km Roma Reinos anglo-saxônicos Reino dos ostrogodos Demais povos Zona Reino dos visigodos Reino dos vândalos germânicos espanhola Territórios herdados Reino dos francos Império Romano do Oriente por Carlos Magno, 771 Territórios conquistados Reino dos suevos Reino dos por Carlos Magno 319 km Mar Mediterrâneo A expansão do Império Carolíngio acarretou fortalecimento 0 reino dos francos do cristianismo nas regiões submetidas. Em troca do apoio da Igreja, os soberanos carolíngios concederam um vasto Entre os vários reinos formados durante a Alta Idade território na região da Península Itálica à Igreja, que ganhou Média, um deles merece atenção especial, o dos francos. condições de se tornar uma instituição política atuante. Esses povos, que foram aliados dos romanos até o século V, Além disso, reforçando o costume do pagamento do dízimo assumiram o domínio político da Gália sob a liderança de à Igreja, os carolíngios vincularam-na definitivamente Clóvis I (466-511). à economia da época. Clóvis unificou as tribos francas e ampliou suas fronteiras, Nas áreas dominadas, Carlos Magno passou a conceder, conquistando regiões ocupadas por outros povos e ainda, terrenos àqueles chefes que o ajudaram na conquista anexando-as ao seu território. Iniciou-se assim, a dinastia de territórios. A nobreza franca e a Igreja recebiam faixas que recebeu esse nome, pois, nessa época, os de terra e, em troca, juravam fidelidade ao imperador. francos ainda eram pagãos e se consideravam descendentes Começava-se, desse modo, a expansão da relação que daria de uma divindade marinha nomeada Meroveu. origem à vassalagem e à suserania, por meio da qual alguns A importância dos francos está vinculada à consolidação homens criaram uma rede hierárquica de poder. do cristianismo na Europa Ocidental e à generalização No auge do Império Carolíngio, Carlos Magno foi aclamado das relações de vassalagem e suserania. A conversão de imperador do Império Romano do Ocidente, título concedido pelo Clóvis ao cristianismo foi fundamental para o controle das papa Leão III. Durante o seu reinado, ocorreu o Renascimento populações de origem romana, em sua maioria cristã, Carolíngio, momento de valorização da cultura de origem no interior do reino. o reino dos francos foi o primeiro entre romana, como o latim, tendo a escola de Aix-la-Chapelle aqueles de origem germânica a se converter ao cristianismo. se tornado um importante centro intelectual europeu. 24 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal Após a morte de Carlos Magno, vários fatores A relativa centralização característica dos impérios outrora para a desagregação do Império Carolíngio. As disputas existentes daria lugar à pulverização do poder político entre os netos do imperador Carlos, o calvo; em meio à nobreza feudal. A Europa se fechava, dando germânico; e Lotário provocaram a partilha do Império origem ao feudalismo. pelo Tratado de Verdun em 843. Nessa divisão, aparecia o primeiro esboço do futuro mapa político europeu. FEUDALISMO De acordo com Hilário Franco Júnior: A palavra "feudalismo" tem sua origem em feudum, o tratado estabeleceu dois grandes blocos territoriais, que em latim significa posse ou domínio. Para alguns autores, étnicos e linguísticos (dos quais surgiriam as futuras França o feudalismo teve sua origem na França, nos séculos IX e X, e Alemanha) e uma longa faixa pluralista, composta de e seu desaparecimento deu-se ao longo dos séculos XV e XVI. uma zona de personalidade definida (Itália do Norte), De acordo com o historiador Marc Bloch, o feudalismo pode zonas multilinguistas que sofreriam o poder de atração ser resumido em: daqueles primeiros blocos (futuras Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, zonas intermediárias, que seriam objeto Um campesinato mantido em sujeição; uso generalizado de longas disputas (Alsácia, Lorena, Trieste, Tirol). do serviço foreiro (isto é, o feudo) em vez de salário [...]; FRANCO Hilário. A Idade Média: nascimento do a supremacia de uma classe de guerreiros especializados; Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. vínculos de obediência e proteção que ligam homem a homem e, dentro da classe guerreira, assumem a forma específica denominada vassalagem; fragmentação da autoridade [...]. Divisão do Império Carolíngio (843) BLOCH, Marc. A sociedade feudal. Lisboa: N Edições 70, 1987. A Mar do Norte A estrutura feudal clássica predominou na Europa Ocidental, principalmente em sua porção central, e deve ser BRITÂNIA Hamburgo compreendida em suas diversas manifestações, sejam elas Aix-la-Chapelle FRANCA políticas, econômicas, culturais ou religiosas. Verdun ORIENTAL OCEANO Paris. Ratisbona Estrasburgo Política FRANCA Salzsburgo OCIDENTAL Em geral, a política feudal foi caracterizada pela fragmentação Lyon Milão do poder, afinal, as constantes guerras e migrações, bem ESTADOS Toulouse DA IGREJA como as relações de vassalagem e suserania, colaboraram Espoleto para o enfraquecimento do poder real. ESPANHA Roma Apesar da isolada ação do Império Carolíngio, Parte de Carlos, Calvo Sardenha a descentralização teve sua origem no do Império Parte de Lotário Mar Parte de Luis, Germânico Sicilia Romano, quando, gradativamente, o Estado foi concedendo 330 km atribuições estatais aos grandes proprietários de terra. A grande extensão do Império levou à implantação dessa Além dos problemas internos, novas migrações situação, mantida após as migrações dos povos germânicos. dos vikings e magiares ou húngaros - provocaram a A diversidade desses povos e os constantes conflitos fragmentação do Império Carolíngio. o trecho a seguir reflete impediram o retorno à unidade. a situação no Império a partir dessas migrações: Desse modo, os reis que comandavam as monarquias Vedes desabar sobre vós a cólera do Senhor... medievais viram seus poderes serem divididos em meio Só há cidades despovoadas, mosteiros em ruínas ou à nobreza proprietária de terras. Ainda assim, a figura do incendiados, campos reduzidos ao abandono... Por toda rei era revestida de caráter sagrado; a permanência da a parte o poderoso oprime o fraco e os homens são cerimônia de sagração do monarca pela Igreja era prova semelhantes aos peixes do mar que indistintamente se disso. Nessa cerimônia, o monarca era ungido por um devoram uns aos outros. óleo, consagrado anteriormente pela autoridade religiosa, Depoimento dos bispos da província de Reims em 909. que manifestava o elo divino entre o clero e o governo A crença, reiterada durante considerável A partir desse evento, a configuração do mapa período, na capacidade de cura dos reis, mediante o simples europeu se aproximava, então, da realidade feudal. toque deles, também atesta essa visão. Bernoulli Sistema de Ensino 25Frente A Módulo 03 As relações entre Estado e os indivíduos foram substituídas Economia por relações de dependência pessoal. Predominavam os laços de fidelidade entre os homens, colaborando para o Até os séculos IX e X, é possível dizer que a economia enfraquecimento das relações impessoais entre Estado e europeia passou por um período de retração e estagnação. cidadão. Esses vínculos têm suas origens nas tradições As produções agrícola, artesanal e comercial foram reduzidas, guerreiras dos povos germânicos. Uma delas, o comitatus, era principalmente, em razão do retrocesso demográfico um acordo entre os chefes guerreiros germânicos a respeito percebido no período. Predominava, nesse primeiro momento, da fidelidade na guerra e da divisão dos despojos após as a produção agrícola em propriedades que se assemelhavam vitórias nas batalhas. Existia também o beneficium, concessão às vilas de origem romana. Nessas propriedades, existiam da posse de um lote para remunerar determinado serviço. os lotes reservados aos senhores e aqueles destinados Essas tradições difundiram-se pelos reinos medievais aos camponeses. e deram origem às relações de vassalagem e suserania. A produção voltada para subsistência e os constantes Como já foi dito, o reinado de Carlos Magno colaborou para a expansão dessas relações, visto que, naquele contexto, conflitos provocaram a diminuição das transações comerciais o monarca distribuía lotes de terra (condados e marcas) e do uso da moeda, sem causar, no entanto, o seu entre os guerreiros que o auxiliavam nas conquistas de novos desaparecimento. o mesmo pode ser dito em relação às territórios. Aqueles que passavam a deter direitos sobre cidades: o processo de ruralização não provocou o completo essas faixas de terra passavam a ser condes e marqueses, abandono da vida urbana. As relações comerciais ocorriam formando-se, desse modo, uma nobreza fundiária. de maneira esporádica, por exemplo, quando determinado produto não fosse comum em uma região. Mercadores Os laços feudo-vassálicos eram estabelecidos por três judeus tiveram importância nessas transações, trazendo atos, que correspondiam às necessidades recíprocas que seda, especiarias e sal de outras regiões. justificavam sua existência. o primeiro era a homenagem, o ato de um indivíduo tornar-se "homem" de outro. Se os primeiros anos da Idade Média foram marcados por o segundo era a fidelidade, juramento feito sobre a Bíblia instabilidades sociais, a partir do século XI, observa-se ou sobre relíquias de santos e muitas vezes selado por um aumento demográfico na Europa Ocidental. Esse aumento beijo entre as partes. o terceiro era a investidura, pela qual o indivíduo que se tornava senhor feudal entregava ao outro, ocorreu, entre outros fatores, devido ao fim das migrações e agora vassalo, um objeto (punhado de terra, folhas, ramo dos conflitos, bem como em razão das limitações da guerra de árvore, etc.) simbolizador do feudo que lhe concedia. medieval, que nem sempre fazia um grande número de FRANCO Hilário. A Idade Média: nascimento do vítimas e caracterizava-se pelas interrupções constantes Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. [Fragmento] relacionadas às obrigações entre vassalos e suseranos. o desenvolvimento das técnicas agrícolas e a expansão das Após o juramento de fidelidade, constituía-se um laço contratual que unia dois homens livres: o suserano, que áreas cultivadas também para o aumento da contaria com a prestação de serviços militares por tempo produção e para o consequente crescimento populacional. determinado, e o vassalo, que recebia feudo e devia Algumas das inovações apresentadas foram a implantação lealdade ao senhor. Aquele que cedia os direitos perdia parte do sistema trienal (o que permitia que uma faixa de terra de seu poder político, que era transferido para o vassalo, descansasse enquanto outras duas eram cultivadas, e, em troca, recebia proteção no caso de guerras. possibilitando o resgate da produtividade agrícola), A expansão desses laços pessoais contribuiu para o e a utilização da charrua (instrumento puxado por cavalos enfraquecimento do poder do rei, que passou a ser um animais de maior robustez capaz de perfurar em maior suserano, e reforçou os poderes Em seu feudo, profundidade subsolo, preparando adequadamente o portanto, o senhor poderia aplicar a justiça, garantir a solo para ser cultivado), da força motriz animal, do adubo proteção e tratar da administração e da fiscalização. Esse mineral e dos moinhos de água e de vento. contexto reforçou caráter militar da nobreza medieval, constituída como um grupo dedicado às guerras. Assim, Concomitantemente ao aumento da população europeia, as guerras medievais diferiam das contemporâneas, pois observou-se a expansão dos feudos, unidades básicas eram disputadas por um grupo restrito da elite, os cavaleiros. de subsistência e provedoras de toda a sobrevivência do A fragmentação política foi característica da maior parte mundo feudal. Além da produção agrícola, o artesanato e da Alta Idade Média e só começou a ser superada a partir do a manufatura eram atividades praticadas nesse período. século XI, momento em que ocorreram os primeiros passos Os artesãos produziam armas, tecidos, móveis e ferramentas rumo à consolidação dos Estados europeus. destinados ao consumo restrito. 26 Coleção 6VFormação, Apogeu Crise do Sistema Feudal Nos feudos, predominava o poder dos senhores feudais, EXPANSÃO DO FEUDALISMO nobres ou membros do clero, que impunham a administração, aplicavam a justiça e garantiam a ordem. Essa independência o crescimento demográfico, agrícola e comercial, de poderes refletia-se também na economia, já que sistema a partir do século XI, provocou alterações no panorama de pesos e medidas e as moedas, ainda escassas, variavam europeu. Por um lado, o feudalismo atingiu seu apogeu de feudo para feudo, dificultando as relações comerciais. na Europa nesse período, mas, por outro, as mesmas transformações que levaram o sistema feudal a uma As terras feudais eram divididas em mansos: o senhorial, estabilização colaboraram para a desarticulação desse o servil e o comunal. No manso senhorial, encontrava-se mundo e para a formação dos Estados Modernos. o castelo, residência fortificada dos nobres. Nessas terras, As cidades, à medida que se expandiam, aceleravam o o trabalho era executado pelos servos e toda a produção processo de crise do modelo feudal, pois permitiam que era destinada aos senhores. Os mansos servis, por sua vez, uma nova camada social, os comerciantes, progredisse eram terrenos arrendados aos servos em troca de proteção em termos financeiros. Esse fator atraía cada vez mais e explorados pelos próprios servos, que deviam várias descontentes que buscavam tentar a sorte nas cidades, obrigações ao senhor. Já o manso comunal era formado estimulando-os a romper com o modelo feudal ainda por pastos e bosques de uso comum, ou seja, sujeito à em curso. É fundamental, assim, o estudo da expansão exploração tanto dos senhores quanto dos servos. urbano-comercial estimulada pelas Cruzadas, bem como o da crise do século XIV, para se as transformações A relação de trabalho predominante nos feudos foi a que levaram à consolidação de novas formas de organização servidão, que, como já visto, teve sua origem no colonato, política no interior da Europa. ainda no Império Romano. No entanto, o servo estava vinculado à terra, embora, em muitos casos, esse vínculo Expansão comercial e urbana pudesse ser rompido, e devia ao senhor uma série de obrigações, pagas em forma de trabalho. Entre as várias o crescimento demográfico verificado na Europa obrigações, podem ser destacadas as principais, como: a partir do século XI provocou a revitalização urbana e comercial. É importante lembrar que as cidades e o Corveia: trabalho não remunerado nas terras comércio nunca desapareceram por completo durante o do senhor, geralmente três dias por semana, Período Medieval, mas permaneceram como locais das no cultivo ou em outros serviços, como a construção, sedes administrativas da Igreja, da realização de feiras e a manutenção e o transporte. para onde, muitas vezes, prosseguiam grupos de romeiros. Censo: uma pequena renda fixa paga em dinheiro Na medida em que excedente agrícola era ampliado, ou em realizavam-se trocas cada vez mais frequentes dentro Mão-morta: cobrança pela transferência hereditária, dos feudos, dinamização essa que passou a se alimentar taxa cobrada para permitir que o filho do camponês do espaço urbano, rico em mercado de consumo e com permanecesse na terra. diversificada oferta de matéria-prima e mercadorias. Nesse contexto, novas técnicas de produção foram aperfeiçoadas, Banalidades: taxas pelo uso do moinho, do forno e colaborando para que houvesse nítido avanço comercial. de outras instalações de propriedade do senhor. Surgiram, dessa forma, os primeiros núcleos urbanos nas Talha: parcela paga pela produção no manso servil. principais rotas comerciais. Entre 1150 e 1330, o mundo Champart (de campi pars, "parte da colheita"): devida urbano medieval viveu seu apogeu. De acordo com Jacques pelo camponês e proporcional ao resultado da colheita Le Goff, historiador que se destaca como referência nas nas terras servis. pesquisas sobre a Idade Média: Dízimo: taxa devida à Igreja. A atividade econômica, cujo centro são as cidades, Apesar de realizar um trabalho compulsório e, em muitos chega ao seu mais alto nível. Sob a égide de uma Igreja casos, não poder abandonar a terra, o servo não pode ser [...] uma nova sociedade, marcada pelo cunho urbano, considerado como escravo. Esta diferença é relevante, manifesta-se num relativo equilíbrio entre nobreza, que participa do movimento urbano mais do que se tem afirmado, pois o servo não era considerado uma propriedade, por mais burguesia [...] e classes trabalhadoras, das quais uma parte que, em alguns casos, tenha sido comprado ou vendido. urbana fornece a massa de mão de obra às cidades, e a Além disso, o servo podia trabalhar para o seu próprio outra rural alimenta a cidade e é penetrada por seu sustento e deveria ser protegido pelos senhores. dinamismo. A cultura, a arte e a religião têm uma fisionomia Por outro lado, o servo também não era um trabalhador eminentemente urbana. livre, já que estava submetido pelos senhores feudais ao LE GOFF, Jacques. o apogeu da cidade medieval. São Paulo: Martins Fontes, 1993. trabalho e ao pagamento em serviços de forma obrigatória. Bernoulli Sistema de Ensino 27Frente A Módulo 03 Em algumas das grandes cidades europeias desse período, As divisas dos primeiros selos inspiravam-se tanto em a população chegava a 40 mil habitantes e, apesar de símbolos religiosos quanto em heráldicos, em paisagens da vinculada às atividades comerciais, dependia dos alimentos cidade com seus portões e muralhas, e ocasionalmente em vindos do mundo rural. Não é correto, desse modo, associar retratos. o selo de Doullens (Somme) reproduz as cabeças o crescimento da cidade ao dos feudos, visto que os dos Scabini, ou magistrados municipais, por exemplo. feudos, inicialmente, colaboraram para sustentar a expansão LOYN, Henry R. (org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. [Fragmento] urbana mediante o abastecimento agrícola. Nesse contexto, surgiram os chamados forisburgos Nas cidades, a atividade econômica se desenvolveu (do inglês médio, borough = cidade pequena e cercada de principalmente nos setores do comércio e do artesanato. muralhas). Os grandes muros eram estratégia de defesa Os mercadores, chamados também de burgueses, dominavam as atividades comerciais e, em muitas cidades, para resguardar mercadorias, comércio e lucros obtidos, controlavam também o poder político. A revitalização visando à proteção e à regularização do tráfego, assim como do uso da moeda acompanhou a expansão comercial. à organização da cobrança de impostos. Os produtos do grande comércio eram os grãos, o vinho, No mundo urbano, os habitantes desfrutavam de o sal, os couros e as peles, os tecidos, os minerais e os maior liberdade, vendo-se desvinculados de alguns laços metais e, secundariamente, a madeira. feudais. Era comum, em algumas regiões, que servos para lá fugissem, tornando-se livres. Caso, após um dado período, os senhores não conseguissem recuperá-los e levá-los de volta ao feudo, essa liberdade seria então definitiva. Com tal estratégia, arrebanhava-se mão de obra para os centros urbanos em expansão. Por se situarem em propriedades de senhores feudais, no entanto, os citadinos ainda estavam submetidos ao pagamento de tributos e à prestação de serviços ao senhor, embora autonomia administrativa para gerir os centros urbanos. o documento a seguir apresenta algumas das reivindicações dos citadinos: No ano de Nosso Senhor de 1301, quando o rei Filipe Mercadores de Bolonha discutem preços na venda de peles entrou em Gand, o povo ao seu encontro exigindo em de animais (1339). altos brados que o libertasse de um pesado imposto que havia em Gand e em Bruges sobre os artigos de consumo, o poder dos comerciantes nas cidades aumentava especialmente a cerveja [...]. gradativamente, o que os levou a se associarem. LE GOFF, Jacques. o apogeu da cidade medieval. Tais associações eram denominadas guildas e tinham como São Paulo: Martins Fontes, 1993. objetivo defender os interesses dos mercadores, como também garantir a isenção de certos impostos e facilitar Em muitos momentos, desejando se ver livres desse a realização das atividades comerciais de seus membros, domínio, os habitantes das cidades organizaram movimentos mediante o controle de preços previamente articulados, comunais, que resultaram na conquista da autonomia política por exemplo. Do mesmo modo que defendiam os negócios de seus associados nas cidades, as guildas os defendiam para a cidade, inclusive subordinando os senhores, o que das relações comerciais empreendidas por seus associados fortaleceu os laços de solidariedade entre os citadinos, no exterior. No mundo urbano, seu poder cresceu de tal rompendo com a dominação feudal. Apesar desses conflitos, forma que extrapolou a esfera econômica, tornando-se os habitantes das cidades e os senhores possuíam forte algumas guildas potências políticas: interdependência, já que, em alguns casos, as cidades necessitavam da proteção que só os nobres poderiam Era o caso dos poderosos mercadores importadores e proporcionar. exportadores pela via fluvial do Sena. Desde o século XII, em Paris, a guilda [...] é uma potência econômica e política. Assim, como forma de reafirmar sua autonomia, os tribunais Em Rouen [...] rege tudo quanto concerne ao porto e ao estabelecidos pelos cidadãos, que também cuidavam da tráfico no Sena [...] e frequentemente entra em choque com o prefeito. administração e da infraestrutura no mundo urbano, adotaram símbolos próprios, tradição essa de origem aristocrática, como LE GOFF, Jacques. o apogeu da cidade medieval. São Paulo: Martins Fontes, 1993. a criação de selos com traços referentes aos centros urbanos: 28 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal Em determinadas cidades, havia outro foco de poder, Nos séculos XII e XIII, as feiras eram os grandes centros representado pelos artesãos. Reunidos nas corporações de de comércio europeus, sendo que algumas recebiam ofício, os artesãos estabeleciam as regras para a produção mercadores de todo o continente. As atividades financeiras artesanal, regulamentando a qualidade, a produção e o e bancárias ganharam espaço, viabilizando as transações recrutamento para diversos ofícios, com base nos interesses financeiras nesses locais e tornando possíveis empréstimos do empregador e do artesão qualificado e estabelecido. e notas bancárias, o que facilitou as trocas realizadas entre pessoas provenientes de diferentes partes da Europa. As corporações favoreciam os interesses dos artesãos das diferentes cidades ao dificultar a concorrência, inclusive As feiras proporcionaram a regularidade do comércio dos produtos vindos de fora. Por isso, uma das medidas europeu na Baixa Idade Média, visto que garantiam o tomadas era a delimitação estrita das áreas de atuação, encontro frequente entre os mercadores de várias regiões. de modo a evitar a sobreposição de competências. Na região de Champagne, na França, as feiras recebiam Procurava-se dificultar, por exemplo, que uma oficina de mercadorias provenientes das regiões de Flandres, Gênova, conserto tivesse permissão de confeccionar peças novas. Veneza e de regiões da atual Alemanha. A inglesa, as especiarias e os corantes mediterrâneos, as peles e os Existiam corporações para cada um dos ofícios exercidos e a linhos alemães, os artigos espanhóis de couro eram as não associação poderia implicar banimento da cidade. Os laços principais mercadorias de troca. de solidariedade entre os associados eram reforçados, já que, em alguns casos, as corporações tinham caráter assistencial. Com o incremento do comércio a longa distância, surgiram Os estatutos e a hierarquia eram rígidos e o não cumprimento agremiações entre os comerciantes de várias cidades, das regras poderia levar a graves punições: chamadas hansas. A mais poderosa entre essas ligas foi a hanseática, que dominava o comércio no norte da Europa. Em Douai, em 1284, um peixeiro é espancado quase até a Os mercadores dessa região estabeleceram monopólio morte por seus concorrentes porque vende sua mercadoria comercial no Báltico, transportando mercadorias como mais barato. peixe, madeira, cereais e peles. Da região de Flandres, LE GOFF, Jacques. o apogeu da cidade medieval. eram levados tecidos e que eram revendidos por toda São Paulo: Martins Fontes, 1993. [Fragmento] a Europa. No sul, as cidades mediterrâneas de Gênova e Veneza passaram a controlar, progressivamente, o comércio A expansão da atividade comercial reanimou o comércio de especiarias vindas do Oriente, em especial após as de longa distância. No entrecruzamento das principais Cruzadas. o mapa a seguir demonstra a vitalidade do rotas comerciais, as feiras medievais se fortaleceram. comércio medieval a partir do século XII. Rotas comerciais durante a Baixa Idade Média N Bergen Estocolmo PESCADO Novgorod BETUME Mar PELES Pskow do MADEIRA PELES Norte Riga CEREAIS PELES CARVÃO PESCADO MEL Könisberg Moscou CERA Kiel Stralsund Hull Rostock Gdansk Lübeck Bremen Hamburgo Londres Breslau Bruges ESTANHO Leipzig Kiev ESCRAVOS CEREAIS Sarai Bruxelas Cracóvia TECIDOS MADEIRA Paris METAIS VINHO Viena Budapeste Chalons Tana OCEANO Limoges Veneza ATLÂNTICO Bordeaux Belgrado Feodosia Pisa Florença Marselha Siena Ragusa Nish Montpellier Roma Negro FRUTAS SECAS CÍTRICAS Barcelona Napoles Constantinopla Durazzo COURO AZEITE DE Sardenha Toledo OLIVA Preveza MEL Maiorca Córdoba Cartago Sicilia Antioquia Creta Chipre Mediterrâneo Damasco TAPETES Tiro MARFIM FRUTAS SECAS Tripoli ESPECIARIAS CORAIS VIDROS AMÊNDOAS Alexandria CERÂMICAS AZEITE DE OLIVA TAPETES 0 400 km Bernoulli Sistema de Ensino 29Frente A Módulo 03 A expansão comercial provocou transformações nas A busca pela Terra Santa era, ainda, uma possibilidade para estruturas da sociedade europeia, que, mesmo tendo escoamento do excedente populacional, direcionado para mantido o seu caráter rural, viu surgir novas forças sociais a composição dessas expedições. vinculadas às cidades. Novas formas de sociabilidade Ao todo, foram realizadas cinco grandes Cruzadas em surgiam no mundo urbano, produzindo efeitos nas estruturas direção ao Oriente e travadas inúmeras batalhas entre feudais. cristãos e Se, para os cristãos, a guerra A Igreja, ainda detentora de grande poder, se posicionava era considerada justa, para seus inimigos, os cristãos contra essas mudanças devido à emergência de uma nova eram selvagens e bárbaros. Apesar dos ataques violentos, fonte de autoridade na sociedade. Além disso, a vida urbana a conquista definitiva de Jerusalém, o principal objetivo estimulava laços de solidariedade fora da Igreja, entre religioso do movimento, não ocorreu. A reaproximação os próprios membros da comuna e seus simpatizantes e com o Império Bizantino foi dificultada devido aos saques agregados. constantes dos europeus ocidentais nessa região. A atividade comercial sofria uma forte restrição ao ser Apesar de fracassar quanto aos objetivos religiosos, combatida pela instituição medieval mais poderosa. Para a é possível afirmar que as Cruzadas provocaram profundas Igreja, as mercadorias deveriam ser vendidas pelo seu justo alterações na Europa feudal. Do ponto de vista econômico, preço e não com a intenção de lucro. Os juros eram vistos o contato com os árabes dinamizou as relações entre os como atividades ilícitas, já que os seus praticantes estariam europeus e Oriente. As especiarias trazidas do mundo lucrando sobre o tempo, pertencente a Deus. oriental pelos árabes ou vindas das rotas que passavam pelo Império Bizantino eram revendidas em toda a Europa CRUZADAS pelos comerciantes das cidades de Gênova e Veneza. A propagação das culturas helênica, bizantina e árabe As Cruzadas foram expedições militares e religiosas que, colaborou, ainda, para o desenvolvimento artístico e inicialmente, tinham dois objetivos principais: a conquista científico da Europa cristã. da Terra Santa, em especial da cidade sagrada de Jerusalém, Em contrapartida, a participação nessas guerras e a contenção do avanço sobre a região do colaborou para o relativo enfraquecimento da nobreza Império Bizantino. A expulsão dos era vista feudal, visto que o envolvimento nas disputas gerava como forma de expansão do cristianismo, e era incentivada gastos e que as derrotas agravaram a situação dos nobres. pela Igreja como uma continuação do movimento de Em muitos casos, os senhores, ao voltarem das expedições, Reconquista ibérica, que também se deu com objetivos se viam obrigados a conceder a liberdade aos servos que, semelhantes. A luta pela retomada da região das mãos naquele momento, eram cada vez mais atraídos para a dos mouros é considerada uma manifestação do espírito vida nas cidades. das Cruzadas. Outro objetivo da Igreja foi a repressão aos movimentos CONTEUDO NO heréticos dos cátaros no sul da França. A perseguição Bernoulli Play 2AOJ às chamadas heresias demonstra que os ataques não se reservaram aos infiéis, como eram chamados Cruzadas os mas também atingiram os cristãos Nesse vídeo, você conhecerá o papel desempenhado pelas europeus que se vinculavam a práticas espirituais que Cruzadas para a expansão do comércio internacional na Baixa não fossem o catolicismo. Idade Média. As Cruzadas apresentavam outras motivações de natureza econômica, afinal, para as cidades do Mediterrâneo, como Veneza, as Cruzadas representavam uma possibilidade de CRISE DO FEUDALISMO lucro nas áreas que viriam a ser conquistadas em direção ao Oriente. Além disso, as riquezas e as terras do Mediterrâneo A partir do século XIV, uma série de eventos levou à crise Oriental eram cobiçadas pelos nobres da Europa Ocidental, do mundo feudal e à organização dos Estados Modernos que começavam a buscar novas fontes de riqueza devido na Europa Ocidental. Vale ressaltar, entretanto, que esse ao crescimento demográfico. processo não foi contínuo, possuindo variações regionais. Do ponto de vista social, as Cruzadas significavam Na França, por exemplo, os impostos de origem feudal e uma possibilidade de diminuir os conflitos, cada vez mais as distinções baseadas no nascimento só foram extintos no constantes, no interior da nobreza europeia, uma vez que século XVIII, durante a Revolução Francesa. Na Península a belicosidade dos nobres seria canalizada para o Oriente, Itálica e na região central, os Estados se unificaram apenas empreendimento esse justificado pelos objetivos religiosos. no século XIX, quando surgiram Itália e Alemanha. 30 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal Peste, fome e guerra As revoltas camponesas o século XIV foi marcado por uma série de calamidades o desenvolvimento comercial e a expansão da atividade que colaboraram para acelerar as transformações no interior urbana já vinham atraindo os camponeses europeus para do feudalismo. Esses acontecimentos tiveram origem na a vida nas cidades durante toda a Baixa Idade Média, pois, própria expansão da economia feudal. o crescimento no mundo urbano, os trabalhadores se viam livres dos demográfico e comercial observado a partir do século XI laços servis. provocou transformações no panorama da sociedade No entanto, foi o aumento da exploração no campo europeia, levando a novos métodos de exploração agrícola, decorrente do declinio demográfico que fez surgir uma como a irrigação, a drenagem e o sistema de rotação de série de movimentos camponeses na Europa. Essas revoltas culturas, que transformaram em terras férteis locais antes tiveram papel fundamental na desagregação do feudalismo caracterizados por pântanos e regiões muito secas. ao colocar em xeque o tradicional papel da nobreza medieval. A destruição de áreas florestais foi típica desse período, Na França, os motins receberam o nome de jacqueries, aumentando a área cultivável em várias regiões da decorrente da expressão Jacques Bonhomme, que pode Europa. Esse processo de expansão das áreas produtivas, ser traduzida por "João Ninguém". Na Inglaterra, as revoltas de John Ball (1338-1381) e Wat Tyler (1341-1381) conhecido como arroteamento, acarretou enormes impactos provocaram temor na nobreza. Foram comuns, durante esses ambientais. No início do século XIV, portanto, foi registrado movimentos, a destruição de propriedades e assassinato um grave desequilíbrio climático responsável por um período de vários nobres. de intensas chuvas entre os anos de 1315 e 1317. Os efeitos dessas alterações foram percebidos na agricultura, que sofreu uma considerável retração. A consequência mais imediata desse fato foi a fome generalizada. A morte causada pela falta de alimentos provocou o início da reversão do crescimento populacional europeu. Outra decorrência da crise de produção foi o aumento da exploração sobre os camponeses, já que, naquele momento, os grandes senhores não aceitavam a queda de seus rendimentos. Essa população, faminta e superexplorada, não teve, desse modo, como resistir à expansão de diversas epidemias, como a Peste Negra. A Peste Negra havia sido epidêmica na Europa medieval no século VI, tendo desaparecido no século VIII, mas retornou no século XIV e continuou endêmica no continente até o período posterior ao século XVII. A partir de 1340, a Peste FROISSAT, Jean. Jacqueries. Biblioteca Nacional da França. se alastrou pelas regiões das atuais Itália, França, Inglaterra, Manuscrito do século XV. Alemanha e Polônia, gerando grande destruição. Nos portos europeus, os ratos e as pulgas foram os portadores da peste. Após à Europa, em 1348, ela se espalhou rapidamente. Algumas cidades Paris, Hamburgo, Florença, Veneza perderam metade de sua população ou mais. Os vilarejos tinham mais chance de escapar da infecção. Ela se espalhava lentamente no inverno e rapidamente no verão. No total, talvez 20 milhões de europeus tenham morrido, ou uma em cada três pessoas. A escassez de alimentos das primeiras décadas foi substituída pela escassez de mão de obra. As terras aráveis já não faltavam. Em algumas regiões da Alemanha, havia mais vilarejos abandonados do que habitados, e os campos que um dia soavam alto com trabalhadores na colheita estavam agora cobertos de mato e de silêncio. BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. 2. ed. FROISSAT, Jean. Morte de Wat Tyler. Biblioteca Nacional da São Paulo: Fundamento Educacional, 2009. [Fragmento] França. Manuscrito do século XV. Bernoulli Sistema de Ensino 31Frente A Módulo 03 A reação da aristocracia contra as revoltas foi igualmente A visão medieval era marcada por essa religiosidade e a violenta, no entanto, tumulto nos campos deixava clara promessa de que os sacrifícios no mundo terreno seriam a dificuldade da nobreza fundiária em manter o controle compensados após a morte, na vida eterna. Dessa maneira, diante das profundas transformações na sociedade europeia, a Igreja conseguia garantir a ordem e a estrutura social, abrindo espaço para fortalecimento do poder real. alegando que os sofrimentos dos trabalhadores na Terra terminariam no reino dos céus. IGREJA MEDIEVAL o culto aos santos e, principalmente, à Virgem Maria constituía um laço que unia os homens medievais. Para compreender a influência da Igreja no Período As peregrinações e os jejuns eram ações importantes na Medieval, é necessário um pequeno histórico do cristianismo luta contra a suposta presença do demônio. A Igreja estava desde a Antiguidade. o cristianismo expandiu-se a partir presente nos momentos principais da vida do homem, como o nascimento, o matrimônio e a morte. Além disso, da região da Palestina pelas regiões em torno do Mar Mediterrâneo chegando até Roma, sede do Império Romano. podia julgar questões relativas ao casamento e excomungar aqueles que não cumprissem suas regras, tendo poder para Nesse período, o cristianismo iniciou a sua penetração excomungar até um rei. entre as classes populares, já que oferecia a possibilidade de salvação ao grupo social que mais sofria. Até o século IV, os cristãos eram perseguidos no Império por serem CULTURA MEDIEVAL monoteístas, por contestarem militarismo da cultura romana e por negarem o caráter divino do imperador. Com o Devido à sua proximidade com a Igreja, a cultura medieval agravamento da crise no Império, no entanto, o cristianismo foi durante muito tempo vista como inferior que lhe passou a se expandir e a conquistar adeptos entre as antecederam e sucederam. Essa visão, contudo, pode ser classes dirigentes. contestada com base em uma análise de aspectos dessa cultura. Em 313 com Édito de Milão, Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos e converteu-se ao cristianismo A cultura medieval alcançou seu apogeu na construção das que, naquele momento, ainda era religião de uma minoria. grandes catedrais, igrejas de cada diocese e normalmente Com Teodósio, através do Édito de Tessalônica, o cristianismo a residência dos bispos. Algumas delas demoraram um foi considerado a religião oficial, e, dessa vez, os pagãos século para serem construídas e, na sua construção, passaram a ser perseguidos. Prestigiados, os cristãos era necessário o trabalho de arquitetos e pedreiros alcançaram altos cargos no Império, e os bispos passaram a remunerados. Dos séculos X ao XII, predominou o estilo cuidar da administração das cidades. o cristianismo tornava-se, românico, caracterizado pela horizontalidade e pelo caráter portanto, uma religião de Estado. de fortificação. o material básico utilizado era a pedra e na sua estrutura eram incorporadas esculturas e murais. Mesmo diante do colapso do Império Romano, a Igreja cristã manteve-se unida, o que favoreceu o seu fortalecimento. A partir do século XII, o estilo gótico ganhou força. De acordo com Hilário Franco Júnior: Sua característica principal era a verticalidade. A altura das torres apontando para o céu reforçava a grandeza da Igreja o cristianismo, por sua vez, foi o elemento que possibilitou Católica. A luz era restrita e penetrava parcialmente pelos a articulação entre romanos e germanos, o elemento que ao vitrais coloridos que retratavam símbolos sagrados. fazer a síntese daquelas duas sociedades forjou a unidade espiritual, essencial para a civilização medieval. FRANCO A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001. [Fragmento] Com a conversão dos reis germânicos, iniciada com Clóvis, do reino dos francos, a Igreja aumentou sua influência no mundo. Para isso, contou com auxílio dos monarcas que, em troca, recebiam a legitimação do seu poder. Em uma sociedade marcada pelo medo, seja da fome, seja das guerras, o cristianismo oferecia alívio em momentos de desespero, o que contribuiu para a sua expansão. Gradativamente, a Igreja tornou-se a instituição mais poderosa do mundo medieval, tendo sido a própria educação, em grande parte, controlada pelo clero por meio do monopólio da escrita e da leitura. Para o homem medieval, a resposta para os questionamentos se encontrava no sagrado, Catedral de Notre-Dame de Chartres, construída no século XII, e era a Igreja que fornecia explicações para essas questões. na França. 32 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal Na Filosofia Medieval, sobretudo na Baixa Idade Média, EXERCÍCIOS DE é possível notar a tentativa de promover a junção entre a RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play Teologia e a Filosofia. Até o século XI, o pensamento foi APRENDIZAGEM influenciado pelas obras de Agostinho de Hipona e, a partir desse período, as obras de Tomás de Aquino passam a ser mais influentes. Através da releitura das obras de Aristóteles, 01. (FGV-2021) Da parte dos bárbaros, tudo parece indicar Tomás de Aquino pretendia promover a conciliação entre a que a forte estrutura hierárquica favoreceu a conversão fé e a razão, sendo as universidades medievais importantes centros de difusão do seu pensamento. das populações, em particular das tribos, uma vez que essa era a forma de estrutura social mais comum. o surgimento das primeiras universidades estava Aqui e ali aparecem resistências de chefes, mas no relacionado ao desenvolvimento da vida urbana e do conjunto a conversão dos chefes leva à conversão comércio, afinal, a formação de funcionários mais qualificados e preparados para as novas funções que surgiram nesse da população. contexto colaborou para a fundação dessas instituições. LE GOFF, Jacques. o Deus da Idade Média, 2017. Inicialmente controladas pela Igreja, as universidades se o processo de cristianização dos povos que ocuparam multiplicaram na Baixa Idade Média por toda a Europa. A primeira delas foi a de Bolonha, na Itália, fundada a Europa Ocidental com o fim do Império Romano do em 1088. Ocidente implicou A despeito dos preconceitos vinculados à Idade Média, A) a imbricação dos poderes seculares e eclesiásticos atualmente a cultura popular do período vem sendo alvo de nas sociedades europeias. inúmeros estudos por parte dos historiadores. Sabemos hoje, B) a divisão de terras da Igreja com as nações por exemplo, que a vida do camponês medieval era marcada recentemente instaladas na Europa. por uma diversidade de manifestações culturais, como as festas. Nelas, camponês conseguia subverter a rígida C) a constituição de um poder político centralizado sobre hierarquia por um breve período. A Igreja e os senhores eram o conjunto da Europa ridicularizados em festas como a do "Asno" ou a dos "Tolos". D) a elitização progressiva do culto monoteísta em meio o conhecimento dessas manifestações revela um lado às populações europeias. alegre e festivo do mundo feudal e que fugia às convenções determinadas pela Igreja. o carnaval também tem sua E) a oposição do clero reformista à absorção de crenças origem na Idade Média e representava um período de pagãs pela Igreja europeia. transgressão, aceito pela própria Igreja, que antecederia a quaresma, período de penitência. 02. (Unesp) Os homens da Idade Média estavam persuadidos A representação a seguir, do século XVI, revela esse de que a terra era o centro do Universo e que Deus tinha aspecto do cotidiano do camponês europeu. Produzida criado apenas um homem e uma mulher, Adão e Eva, por Pieter Brueghel, no contexto da Reforma Protestante, e seus descendentes. Não imaginavam que existissem a imagem ironiza o conflito entre as práticas mundanas e outros espaços habitados. o que viam no céu, religiosas, simbolizadas, respectivamente, pelo carnaval e o movimento regular da maioria dos astros, era a pela quaresma. imagem do que havia de mais próximo no plano divino de organização. DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos 1998 (Adaptação). o texto revela, em relação à Idade Média ocidental, A) o prevalecimento de uma mentalidade fortemente religiosa, indicativa da força e da influência do cristianismo. B) a consciência da própria gênese e origem, resultante das pesquisas históricas e científicas realizadas na Grécia Antiga. C) o esforço de compreensão racionalista dos fenômenos naturais, base do pensamento humanista. D) a construção de um pensamento mítico, provavelmente BRUEGEL, Pieter. o combate entre o carnaval e a originário dos contatos com povos nativos da Ásia e 1559. Tinta a óleo, 118 164,5 cm. Museu da História da Arte do Norte da de E) a presença de esforços constantes de predição do quadro retrata o contraste entre a vida religiosa, representada futuro, provavelmente oriundos das crenças dos pela quaresma, e os prazeres oriundos do carnaval. primeiros habitantes do continente. Bernoulli Sistema de Ensino 33Frente A Módulo 03 03. (Unesp) Nos arredores de Assis, dois leprosários [...] 05. (UFJF-MG) Sobre o contexto de consolidação do poder hospedavam os homens e mulheres de visão repugnante X008 da Igreja na Idade Média, leia as afirmativas seguintes escorraçados por todos: considerava-se que os leprosos e, em seguida, marque a alternativa correta. eram assim por castigo de Deus, por causa dos pecados I. o cristianismo e todas as suas instituições podem ser cometidos, ou porque tinham sido concebidos em pecado. considerados elementos unificadores do mundo europeu Por isso, ao se movimentarem, eram obrigados a bater certas castanholas, para que os sãos pudessem evitá-los, após a crise do Império Romano e as invasões bárbaras. fugindo a tempo. Nessa longa trajetória, a Igreja de Roma assume FRUGONI, Chiara. Vida de um homem: seu papel de liderança religiosa, através do combate Francisco de Assis, 2011. às heresias. A lepra e as demais doenças recorrentes durante a II. Desde os primeiros tempos do Período Medieval, Idade Média a união entre as Igrejas Ocidental e Bizantina A) resultavam do descuido das vítimas e os médicos se representava o símbolo da unidade da dedicavam apenas aos doentes graves ou terminais. Os papas procuravam favorecer o Império Bizantino B) atingiam basicamente as populações rurais, pois as e consolidar a Igreja Ortodoxa, visando a aumentar condições de higiene e saneamento nas cidades eram a influência da Igreja Romana no universo cristão melhores. ocidental. C) atacavam e matavam igualmente nobres e pobres, III. Havia grupos considerados heréticos, como os pois não existiam hospitais ou remédios. valdenses e os cátaros, que criticavam a hierarquia D) eram consideradas contagiosas e, devido a isso, católica e não reconheciam a autoridade papal. Havia não havia pessoas dispostas a cuidar dos enfermos. também outros movimentos que foram incorporados E) eram muitas vezes atribuídas à ação divina e as pela Igreja Católica e que levaram à formação de vítimas eram tratadas como responsáveis pelo mal. ordens religiosas, como franciscanos e dominicanos. 04. (USC-SP) Nas sociedades do Antigo Regime, os grupos A) Todas estão corretas. sociais estavam divididos em três estamentos: clero, B) Todas estão incorretas. nobreza e servos. Associe os três estamentos, listados na coluna A, às características que os identificam, elencadas C) Apenas a I e a II estão corretas. na coluna B. D) Apenas a I e a III estão corretas. Coluna A E) Apenas a II e a III estão corretas. 1. Clero 2. Nobreza EXERCÍCIOS RESOLUÇÕES NO 3. Servos Bernoulli Play Coluna B PROPOSTOS ) Eram os portadores da tradição cristã e deviam zelar pela manutenção de seus princípios no seio da 01. (FGV-MG) Caro, o pão faltava nas mesas dos pobres. comunidade. Na Inglaterra, após mais de cem anos de estabilidade, ( ) Formavam a maioria da população e eram encarregados seu valor quintuplicou em 1315. Na França, aumentou dos trabalhos necessários à subsistência da sociedade. 25 vezes em 1313 e multiplicou-se por 21 em 1316. ( ) a direção militar da sociedade, empunhando A carestia disseminou-se por toda a Europa e perdurou por suas armas contra os inimigos da fé e os décadas. [...] Faltava comida não por ausência de braços agressores externos. ou de terras. [...] Afinal, se os camponeses esteio do ( ) Por pertencerem ao único grupo social que tinha crescimento demográfico verificado desde o ano 1000 acesso ao estudo, seus membros exerciam forte não conseguiam produzir mais, era porque já haviam controle na sociedade e parte deles ocupava cargos cultivado toda a terra a que tinham acesso legal. Já os administrativos importantes nos reinos medievais. senhores não faziam pura e simplesmente porque não Assinale a alternativa que preenche corretamente os queriam. Moeda sonante não era exatamente a base de parênteses, de cima para baixo. seu poder e glória. A) 2, 1, 2, 3 C) 1, 3, 2, 1 E) 3, 3, 2, 1 FLORENTINO, Manolo. Os sem-marmita. B) 2, 2, 1, 3 D) 1, 2, 3, 2 Folha de S.Paulo, 07 set. 2008. [Fragmento] 34 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal o texto traz alguns elementos da chamada crise do Assinale a alternativa correta. século XIV, sobre a qual é correto afirmar que A) A crítica à institucionalização da Igreja, com a A) resultou da discrepância entre aumento da consolidação da hierarquia em torno do papa e produtividade nos domínios senhoriais desde o dos bispos, teve sua principal manifestação na século XI e o recuo da produção urbana de manufaturas. manutenção de práticas pagãs. B) foi decorrência direta da Peste Negra, que assolou o B) As práticas pagãs eram costumes de origem popular norte da Europa durante todo o século XIV, e fez que respeitados pelas ordens religiosas, como os os salários fossem fixados em níveis muito baixos. beneditinos, mas criticados pelos bispos e pelo clero C) resultou do recrudescimento das obrigações feudais, tradicional. que gerou a concentração da produção de trigo C) A diversidade de práticas religiosas era frequente na e cevada nas mãos de poucos senhores feudais Alta Idade Média, apesar dos esforços institucionais do da França. alto clero católico em combater as crenças populares D) foi deflagrada, após as inúmeras revoltas operárias, e defender a unidade religiosa na Europa. no campo e na cidade, que quebraram com a longa estabilidade do mundo feudal europeu. D) A presença do cristianismo não significou o desaparecimento de todas as práticas religiosas E) teve ligação com as estruturas feudais que impediam consideradas pagãs, pois algumas delas foram toleradas que a produção crescesse no mesmo ritmo do crescimento da população em certas regiões da Europa. pela Igreja, como o e as festas populares. 02. (Unesp) Observemos apenas que o sistema dos feudos, 04. (Unicamp-SP) Estamos acostumados a considerar que 4KID a feudalidade, não é, como se tem dito frequentemente, o sistema centro / periferia, ao menos no Ocidente, é um fermento de destruição do poder. A feudalidade surge, um eixo essencial da estrutura e do funcionamento no ao contrário, para responder aos poderes vacantes. Forma espaço das economias, das sociedades, das civilizações. a unidade de base de uma profunda reorganização dos o historiador Fernand Braudel estimou que tal sistema sistemas de autoridade [...]. só existiu e funcionou plenamente a partir do século XV. LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade Média. 2008. Essa definição não se aplica à Cristandade Medieval sem importantes correções. A noção de centro e a oposição Segundo 0 texto, o sistema de feudos centro / periferia são menos decisivas que outros A) representa a unificação nacional e assegura a imediata sistemas de orientação espacial. o principal sistema centralização do poder político. é o que opõe o baixo ao alto, quer dizer, o Aqui, esse "mundo" imperfeito e marcado pelo Pecado Original, B) deriva da falência dos grandes impérios da Antiguidade ao céu, morada de Deus. e oferece uma alternativa viável para a destruição dos LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude. Centro / Periferia. poderes políticos. In: DICIONÁRIO temático do ocidente medieval. 2. C) impede a manifestação do poder real e elimina os São Paulo: Edusc, 2002. p. 203 (Adaptação). resquícios autoritários herdados das monarquias A partir do texto anterior, assinale a alternativa correta. antigas. A) Usada nas Ciências Humanas para a compreensão de D) constitui um novo quadro de alianças e jogos políticos períodos históricos desde a Antiguidade, a noção de e assegura a formação de Estados unificados. centro / periferia perdura até a atualidade e estrutura E) ocupa o espaço aberto pela ausência de poderes o sistema econômico global contemporâneo. centralizados e permite a construção de uma nova B) As noções de baixo e alto têm um sentido histórico ordem política. mais preciso para a compreensão da Cristandade 03. (Unicamp-SP) São mais ou menos constantes as queixas Medieval do que o sistema centro / periferia. FHSO dos bispos e dos clérigos sobre a manutenção das C) o sistema centro / periferia é aplicável ao estudo da práticas pagãs no mínimo até o século X. Um conjunto Cristandade Medieval, já que os feudos constituíam de práticas pagãs se mantém quase intacto, sem levar o centro da vida econômica e cultural naquele em conta festas públicas pagãs como a de 1° de janeiro, contexto. que sobreviveu durante muito tempo. D) o sistema centro / periferia aplicado durante a Era ROUCHE, Michel. Alta Idade Média Ocidental. In: VEYNE, Medieval espelhava o sistema de orientação baixo Paul. (org.). História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 504 e alto, sendo o baixo o mundo do pecado e o alto o (Adaptação). mundo da virtude cristã. Bernoulli Sistema de Ensino 35Frente A Módulo 03 05. (FUVEST-SP) A cidade é [desde o ano 1000] o principal lugar das trocas econômicas que recorrem sempre mais a um meio 3NVV de troca essencial: a moeda. [...] Centro econômico, a cidade é também um centro de poder. Ao lado do e, às vezes, contra poder tradicional do bispo e do senhor, frequentemente confundidos numa única pessoa, um grupo de homens novos, os cidadãos ou burgueses, conquista "liberdades", privilégios cada vez mais amplos. Le Goff, Jacques. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2010 (Adaptação). o texto trata de um período em que A) os fundamentos do sistema feudal coexistiam com novas formas de organização política e econômica, que produziam alterações na hierarquia social e nas relações de poder. B) o excesso de metais nobres na Europa provocava abundância de moedas, que circulavam apenas pelas mãos dos grandes banqueiros e dos comerciantes internacionais. C) o anseio popular por liberdade e igualdade social mobilizava e unificava os trabalhadores urbanos e rurais e envolvia ativa participação de membros do baixo clero. D) a Igreja romana, que se opunha ao acúmulo de bens materiais, enfrentava forte oposição da burguesia ascendente e dos grandes proprietários de terras. E) as principais características do feudalismo, sobretudo a valorização da terra, haviam sido completamente superadas e substituídas pela busca incessante do lucro e pela valorização do 06. (Unicamp-SP) A ideia de que a demanda de especiarias resultava da necessidade de disfarçar o gosto da carne e do peixe putrefatos é um dos grandes mitos da história da alimentação. Na Europa medieval, os alimentos frescos eram mais frescos que os atuais, pois provinham da produção local. Os alimentos em conserva mantinham-se em salga, curtição, dessecação ou gordura, assim como hoje em dia são enlatados, refrigerados, liofilizados ou embalados a vácuo. De qualquer forma, os aspectos determinantes do papel desempenhado pelas especiarias na gastronomia eram o gosto e a cultura. A cozinha muito temperada com especiarias era objeto de desejo por ser cara e por "condimentar" a posição social dos ricos e as aspirações de quem ambicionava sê-lo. Além disso, a moda gastronômica predominante na baixa Idade Média europeia imitava as receitas árabes, que exigiam sabores doces e ingredientes fragrantes: leite de amêndoa, extratos de flores aromáticas e outras iguarias orientais. Felipe. 1492: o ano em que o mundo começou. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.27 (Adaptação). A partir do texto anterior e de seus conhecimentos históricos: A) defina o que são as especiarias e explique seu significado social na Europa medieval; B) explique como era feito o comércio de especiarias na baixa Idade Média. 07. (FUVEST-SP) Assim como o camponês, o mercador está a princípio submetido, na sua atividade profissional, ao tempo meteorológico, ao ciclo das estações, à imprevisibilidade das intempéries e dos cataclismos naturais. Como, durante muito tempo, não houve nesse domínio senão necessidade de submissão à ordem da natureza e de Deus, mercador só teve como meio de ação as preces e as práticas supersticiosas. Mas, quando se organiza uma rede comercial, tempo se torna objeto de medida. A duração de uma viagem por mar ou por terra, ou de um lugar para outro, o problema dos preços que, no curso de uma mesma operação comercial, mais ainda quando o circuito se complica, sobem ou descem tudo isso se impõe cada vez mais à sua atenção. Mudança também importante: o mercador descobre o preço do tempo no mesmo momento em que ele explora o espaço, pois para ele a duração essencial é aquela de um trajeto. LE GOFF, Jacques. Para uma outra Idade Média. Petrópolis: Vozes, 2013 (Adaptação). o texto associa a mudança da percepção do tempo pelos mercadores medievais ao A) respeito estrito aos princípios do livre-comércio, que determinavam a obediência às regras internacionais de circulação de mercadorias. B) crescimento das relações mercantis, que passaram a envolver territórios mais amplos e distâncias mais longas. C) aumento da navegação oceânica, que permitiu o estabelecimento de relações comerciais regulares com a América. D) avanço das superstições na Europa ocidental, que se difundiram a partir de contatos com povos do leste desse continente e da Ásia. E) aparecimento dos relógios, que foram inventados para calcular a duração das viagens ultramarinas. 36 Coleção 6VFormação, Apogeu e Crise do Sistema Feudal SEÇÃO ENEM RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play 03. (Enem) No início foram as cidades. o intelectual da Idade Média no Ocidente nasceu com elas. Foi com o desenvolvimento urbano ligado às funções comercial 01. (Enem) A existência em Jerusalém de um hospital e industrial digamos modestamente artesanal que voltado para o alojamento e o cuidado dos peregrinos, ele apareceu, como um desses homens de ofício que se assim como daqueles entre eles que estavam cansados instalavam nas cidades nas quais se impôs a divisão do ou doentes, fortaleceu o elo entre a obra de assistência trabalho. Um homem cujo ofício é escrever ou ensinar, e de caridade e a Terra Santa. Ao fazer, em 1113, e de preferência as duas coisas a um só tempo, um do Hospital de Jerusalém um estabelecimento central da homem que, profissionalmente, tem uma atividade de ordem, Pascoal II estimulava a filiação dos hospitalários professor e erudito, em resumo, um intelectual esse do Ocidente a ele, sobretudo daqueles que estavam homem só aparecerá com as cidades. ligados à peregrinação na Terra Santa ou em outro lugar. LE GOFF, J. Os intelectuais na Idade Média. A militarização do Hospital de Jerusalém não diminuiu a Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. vocação caritativa primitiva, mas a fortaleceu. o surgimento da categoria mencionada no período em DEMURGER, A. Os cavaleiros de Cristo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002 (Adaptação). destaque no texto evidencia o(a) o acontecimento descrito vincula-se ao fenômeno A) apoio dado pela Igreja ao trabalho abstrato. ocidental do(a) B) relação entre desenvolvimento urbano e divisão do A) surgimento do monasticismo guerreiro, ocasionado trabalho. pelas cruzadas. C) importância organizacional das corporações de ofício. B) descentralização do poder eclesiástico, produzida pelo D) progressiva expansão da educação escolar. feudalismo. E) acúmulo de trabalho dos professores e eruditos. C) alastramento da peste bubônica, provocado pela expansão comercial. 04. (Enem) D) afirmação da fraternidade mendicante, estimulada Calendário medieval, século XV pela reforma espiritual. E) criação das faculdades de medicina, promovida pelo renascimento urbano. 02. (Enem) Mas era sobretudo a que os compradores, 91BX vindos da Flandres ou da Itália, procuravam por toda a parte. Para satisfazê-los, as raças foram melhoradas através do aumento progressivo das suas dimensões. Esse crescimento prosseguiu durante todo o século XIII, e as abadias da Ordem de Cister, onde eram utilizados os métodos mais racionais de criação de gado, desempenharam certamente um papel determinante nesse aperfeiçoamento. DUBY, G. Economia rural e vida no campo no Ocidente medieval. Lisboa: Estampa, 1987 (Adaptação). o texto aponta para a relação entre aperfeiçoamento da atividade pastoril e avanço técnico na Europa Ocidental feudal, que resultou do(a) Disponível em: www.ac-grenoble.br Acesso em: 10 maio 2012. A) crescimento do trabalho escravo. Os calendários são fontes históricas importantes, B) desenvolvimento da vida urbana. na medida em que expressam a concepção de C) padronização dos impostos locais. tempo das sociedades. Essas imagens compõem D) uniformização do processo produtivo. um calendário medieval (1460-1475) e cada uma E) desconcentração da estrutura fundiária. delas representa um mês, de janeiro a dezembro. Bernoulli Sistema de Ensino 37Frente A Módulo 03 Com base na análise do calendário, apreende-se uma SEÇÃO FUVEST / UNICAMP / UNESP concepção de tempo A) cíclica, marcada pelo mito arcaico do eterno retorno. B) humanista, identificada pelo controle das horas de atividade por parte do trabalhador. C) escatológica, associada a uma visão religiosa sobre GABARITO Meu aproveitamento o trabalho. D) natural, expressa pelo trabalho realizado de acordo Aprendizagem Acertei Errei com as estações do ano. E) romântica, definida por uma visão bucólica da 01. A sociedade. 02. A 05. (Enem) A casa de Deus, que acreditam una, está, 03. E portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, 04. outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem 05. D não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas; Propostos Acertei Errei cada uma por sua vez encarrega-se de aliviar o conjunto... Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz. 01. E ALDALBERON DE LAON. In: SPINOSA, F. Antologia de textos históricos medievais. 02. E Lisboa: Sá da Costa, 1981. 03. A antologia apresentada por Aldalberon de Laon foi 04. B produzida durante a Idade Média. Um objetivo de tal 05. A ideologia e um processo a que ela se opôs estão indicados, respectivamente, em: 06. A) Justificar a dominação estamental / revoltas camponesas. A) As especiarias eram produtos oriundos da Índia B) Subverter a hierarquia social / centralização como pimenta, cravo, canela, etc. Na Europa C) Impedir a igualdade jurídica / revoluções burguesas. Medieval tinham intenso valor e significado, uma D) Controlar a exploração econômica / unificação vez que era uma forma de diferenciação social devido ao intenso sabor que proporcionavam aos E) Questionar a ordem divina / Reforma Católica. alimentos e a dificuldade para obtenção. Além dessas características eram importantes do ponto 06. (Enem) Se a mania de fechar, verdadeiro habitus da de vista medicinal, pois promoviam o bem-estar. mentalidade medieval nascido talvez de um profundo sentimento de insegurança, estava difundida no mundo B) o comércio de especiarias na Baixa Idade Média rural, estava do mesmo modo no meio urbano, pois que era realizado sobretudo por duas a Rota da uma das características da cidade era de ser limitada por Seda e a Rota portas e por uma 07. DUBY, G. et al. Séculos XIV-XV. In: P.; DUBY, G. História da vida privada da Europa Feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 (Adaptação). Seção Enem Acertei Errei As práticas e os usos das muralhas sofreram importantes 01. A mudanças no final da Idade Média, quando elas 02. B assumiram a função de pontos de passagem ou pórticos. Este processo está diretamente relacionado com 03. B A) o crescimento das atividades comerciais e urbanas. 04. D B) a migração de camponeses e artesãos. 05. A C) a expansão dos parques industriais e fabris 06. A D) o aumento do número de castelos e feudos. E) a contenção das epidemias e doenças. Total dos meus acertos: de % 38 Coleção 6VFRENTE MÓDULO HISTÓRIA A 04 Organização dos Estados Nacionais o processo de formação dos Estados Modernos deve ser Diante das pressões provocadas pela crise do século XIV, considerado paralelamente às transformações ocorridas o Estado Moderno, ainda de acordo com Anderson, seria a na Baixa Idade Média, período cujas contradições levaram "carapaça política de uma nobreza atemorizada". A nobreza, ao declinio dos particularismos feudais em favor do nesse contexto, viu-se obrigada a abrir mão de seu poder fortalecimento da autoridade real. As alterações pelas militar, transferindo-o para o Estado, afinal, somente com o quais a nobreza passava possibilitaram a formação de uma monopólio da força, o Estado poderia garantir a submissão das classes que se levantavam contra o poder dos nobres. conjuntura favorável à centralização político-administrativa sob a forma de um Estado unificado. As transformações econômicas operadas ao longo da desagregação do poderio feudal nobre também conduziram A nobreza viu-se diante da crise do mundo feudal, com à centralização do poder. o desenvolvimento do comércio severas dificuldades de controlar as rebeliões camponesas, e da urbanização alteraram as estruturas econômicas do manter suas rendas e reafirmar seu poder político. Tornou-se feudalismo, levando à crise desse modo de produção. viável, assim, que a figura do monarca fosse reabilitada e, A oferta de trabalho nas cidades, por exemplo, colaborou junto dela, as funções de convocação de um único Exército para a desestruturação da servidão, pois estimulava a fuga capaz de reprimir com sucesso as insurreições por todos de servos dos feudos, rompendo os elos necessários à os lados e de uniformização dos impostos permitindo manutenção das relações de suserania e vassalagem, que, novamente o controle financeiro entre outros aspectos. por sua vez, permitiam às engrenagens feudais continuarem funcionando. Não se pode afirmar, no entanto, que a nobreza perdeu A crise do século XIV afetou de forma menos contundente sua influência sobre a política europeia, visto que o caráter os grandes comerciantes, que passaram a atrair a mão aristocrático e estamental dessa sociedade permaneceu de obra camponesa que emigrava dos feudos em razão inalterado. Além disso, a nobreza permaneceu lado a lado da superexploração. Por possuirem reservas em dinheiro, com o poder vigente, tecendo suporte político que permitia esses comerciantes foram capazes, ainda, de conceder ao monarca realizar a gestão do governo. Isso se deu na empréstimos aos nobres em dificuldade financeira, medida em que, para auxiliar a governança rompendo com o controle do poder dos senhores feudais. necessitou-se de um corpo burocrático que ajudasse na A burguesia se interessava em colocar um fim aos articulação política e econômica. Para tanto, convocou-se a particularismos regionais que dificultavam as transações nobreza, que permaneceu, assim, influenciando os destinos comerciais. Era necessário demolir as barreiras ainda políticos europeus. presentes nos feudos, como impostos pagos para trafegar o Estado Moderno, desse modo, foi um novo arranjo nesses locais, para expandir o comércio de mercadorias. político que garantiu a manutenção da estrutura social Além disso, a fragmentação feudal impunha uma diversidade aristocrática e estamental forjada ao longo da ameaça ao de sistemas de pesos, medidas e moedas que emperrava poder nobre. o historiador Perry Anderson, que se debruçou o lucro mercantil. A centralização, nesse caso, garantiria a unidade em todos esses aspectos, inclusive a taxação sobre tais questões, afirma que: sobre produtos estrangeiros visando à proteção dos mercados nacionais. A unificação dos mercados por meio Durante toda a primeira fase da época moderna, a classe desse processo mostrava-se, assim, fundamental para os dominante econômica e politicamente era, portanto, interesses dos mercadores. a mesma da própria época medieval: a aristocracia feudal. Tal cenário nos leva a concluir que o monarca estava ANDERSON, Perry. o Estado Absolutista no Ocidente. perante uma situação cuja tendência era a de absorção do In: Linhagens do Estado Absolutista. poder, visto que tanto a nobreza quanto a nascente burguesia Porto: Afrontamento, 1984. [Fragmento] tinham interesses na centralização Bernoulli Sistema de Ensino 39Frente A Módulo 04 CARACTERÍSTICAS DOS No século XI, o nobre francês Henrique de Borgonha, que havia lutado contra os na Guerra de Reconquista, ESTADOS MODERNOS recebeu de Afonso VI, rei de Leão, o condado Portucalense, que se estendia desde o norte da Península Ibérica até o Rio Tejo. Os Estados Modernos caracterizavam-se pela centralização o condado, desse modo, passou a ser governado pelos Borgonha, do poder nas mãos dos monarcas europeus e pela redução vassalos dos reis de Leão. Contudo, Afonso Henriques, filho de dos poderes locais, situação que se manifestou nas mais Henrique de Borgonha, reconquistou a região de Algarves, diversas esferas da vida pública. A formação de uma ao sul da Península Ibérica e rompeu a relação de suserania com burocracia estatal, ou seja, de um corpo de funcionários Leão, dando início à primeira dinastia portuguesa. que compunha as engrenagens do Estado, foi fundamental Os reis de Borgonha promoveram a centralização por meio para a garantia da fiscalização e para a cobrança de das seguintes medidas: impostos. o fim das barreiras tarifárias entre os feudos concessões das cartas de franquia que libertavam as e o estabelecimento de um sistema tributário nacional cidades do domínio dos senhores feudais; possibilitaram a manutenção da estrutura dos Estados. expansão dos domínios territoriais portugueses; Os Exércitos nacionais garantiam ordem interna e a instituição da Lei das Sesmarias, que determinava soberania. A nobreza, desse modo, perdia o poderio a perda da posse das terras pelos nobres, caso eles bélico e este passava a ser exercido pelos mercenários, não as tornassem suas terras produtivas; em muitos casos estrangeiros, que compunham as forças estímulo à libertação dos servos e transformação militares estatais. destes em trabalhadores assalariados. A aplicação da justiça também passou a ser atribuição Os portugueses foram beneficiados, ainda, pela guerra entre dos Estados, e não privilégio dos senhores feudais, França e Inglaterra, durante o século XIV. Posto que o conflito como antes, visando a promover de modo mais eficaz a instalado interrompeu as rotas comerciais que cortavam a regulamentação das transações comerciais e a pacificação Europa Central, a solução foi a criação de rotas marítimas que dos conflitos sociais do período. A centralização se permitissem comércio entre o norte europeu e as cidades completaria, enfim, com a imposição de uma língua italianas, passando por Portugal. Essas rotas para desenvolvimento das cidades do litoral lusitano, o que fortaleceu nacional e com o estabelecimento de uma religião oficial, o que garantiria a unidade. É importante lembrar, a classe mercantil portuguesa. no entanto, que crescente poder dos reis impôs limites As atividades comerciais sofreram expansão durante esse período, com destaque para a pesca e para a navegação de ao domínio universal da Igreja, que se manifestava desde cabotagem, isto é, entre os portos do país, pelo litoral ou por a Idade vias fluviais. Portugal A morte de D. Fernando I, último rei da dinastia Borgonha, deu início a uma crise sucessória. o fato de a herdeira do Portugal foi o primeiro Estado centralizado da Europa. trono ser casada com o rei de Castela, poderia levar Portugal a Seu processo de formação esteve intimamente relacionado anexar esse reino e dominá-lo, o que era desejo de uma parte à Guerra de Reconquista, travada contra os da tradicional nobreza portuguesa. considerados inimigos pela cristandade. Essa união entre os reinos, entretanto, não interessava à burguesia, à pequena nobreza e à população urbana, que A expansão islâmica atingiu a Península Ibérica no defendiam a ascensão ao trono de D. João I, irmão ilegítimo de século VIII. Os mouros, como eram conhecidos os povos D. Fernando e chefe da ordem militar de Avis. Contando com islâmicos, permaneceram na região até o século XV e apoio financeiro dos comerciantes, o Exército liderado por só não atingiram o norte da Península Ibérica, no reino D. João, derrotou as forças inimigas na Batalha de Aljubarrota, das Astúrias, que se tornou o foco da resistência cristã. em 1385. Posteriormente tais ações políticas foram denominadas Em 1492, os mouros foram expulsos de Granada, na Revolução de Avis. atual Espanha, completando o movimento denominado D. João de Avis ascendeu, então, ao trono e completou Reconquista, considerado, naquele período, uma Cruzada. a centralização do Estado português, aproximando-o da burguesia lusa. Tal situação possibilitou que Portugal reunisse Destacaram-se, nesse processo, linhagens nobres, como esforços para a Expansão Marítima, que teve como primeira as de Leão, Aragão e Castela. conquista a tomada de Ceuta, no norte da África, em 1415. 40 Coleção 6VOrganização dos Estados Nacionais A Reconquista da Península Ibérica N Final do século XI Século XII Século XIII A Navarra Navarra Leão Navarra Leão Aragão Leão Castela Castela Porto Porto. e Coimbra Castela Toledo Toledo Lisboa Lisboa Lisboa Córdoba Córdoba Córdoba Mar Mar Mar Sevilha Sevilha Sevilha Granada Granada Granada OCEANO OCEANO Reino Mouro OCEANO ATLANTICO de Granada ATLANTICO 1275-1492 280 km Reinos cristãos (já reconquistados): Portugal Leão e Castela Navarra Aragão Domínios Espanha A luta pela expulsão dos da região da Península Ibérica foi fundamental para a formação dos reinos que deram origem ao Estado espanhol. À medida que os territórios ocupados pelos mouros eram conquistados, surgiam progressivamente os reinos de Leão, Navarra, Castela e Aragão. Com a união dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, restando apenas a reconquista de granada, ao sul da península. Com a tomada desse reino, em 1492, estava completa a unificação territorial da Espanha. BERRUGUETE, Pedro. São Domingos presidindo um auto de 1495. Técnica mista sobre madeira, 154 92 cm. Museu do Prado, Madrid, Espanha. Além da unificação religiosa, foi fundamental a unidade linguística por meio da propagação do castelhano -, política e NORTIZ, Francisco Pradilla. Rendição de Granada. 1882. administrativa. A partir do fortalecimento de Castela, foi criado Óleo sobre tela, 330 550 cm. Senado da Espanha. um corpo de funcionários responsável pela centralização e pela Foi fundamental, nesse contexto, a presença da religião fiscalização. Muitos desses funcionários faziam parte da pequena católica. A atuação da Inquisição, controlada pelos monarcas nobreza, que apoiava o processo de centralização personificado desde 1478, foi responsável por garantir a unificação pelo rei, em troca de privilégios, pensões e cargos políticos. religiosa mediante a perseguição aos judeus e aos mouros, A unificação do Estado espanhol não garantiu, no entanto, o que reforçou a unidade interna em construção. a unidade irrestrita, visto que havia diferenças culturais e Após o fim da Reconquista, os inquisidores perseguiram políticas entre os diversos reinos que o constituíam. Em meio à e puniram também os judeus e convertidos busca por uma nacionalidade em comum, estavam presentes ao catolicismo, acusados de ainda praticarem suas as culturas basca, catalã, judaica e o que antigas religiões. Nos autos de fé, os acusados de heresia imprimiu um viés de diversidade ao processo de unificação. recebiam, em praça pública, a punição pelo suposto A descentralização administrativa pôde ser percebida durante pecado cometido. A expulsão desses grupos permitiu o a exploração da América, uma vez que a arrecadação das enriquecimento da Coroa, que confiscava os bens dos riquezas coloniais não foi igualmente distribuída pelas regiões, considerados hereges. sendo controlada pelo reino de Castela. Bernoulli Sistema de Ensino 41Frente A Módulo 04 No século XIV, Inglaterra e França iniciaram um longo NO Bernoulli Play conflito, a Guerra dos Cem Anos, que se estendeu entre 1337 e 1453 e se constituiu em uma série de batalhas Guerra da Reconquista entre ingleses e franceses. As origens do conflito estavam relacionadas às disputas dinásticas e atingiram em grande A consolidação dos Estados de Portugal e Espanha foi possível somente após a reconquista do território YZJG parte o território da França. Entre as causas da Guerra, em uma luta entre cristãos e mouros. Assista a esse incluíam-se questões como a pirataria no Canal da Mancha, vídeo para entender como foi esse processo. disputas territoriais, rivalidades comerciais na região de Flandres e reivindicações dinásticas envolvendo as dinastias Capetíngia (reinante na França) e Plantageneta. Inglaterra Possessões inglesas e francesas no período anterior à Guerra Os anglo-saxões, povos de origem germânica ocidental, N se instalaram na parte oriental da no século V e Inglaterra vieram a exercer domínio sobre a Inglaterra e também sobre partes da Baixa Escócia no decorrer dos séculos seguintes, Flandres Canal da Mancha regiões que, no século VII, se converteram ao cristianismo. ILHA DO CANAL Em 1066, os normandos, originários do norte da França, Normandia Paris conquistaram a Inglaterra. Liderados por Guilherme, Champagne o Conquistador, esse povo de origem viking derrotou os anglo- -saxões e, no século XI, a Inglaterra assistiu ao reforço das Blois estruturas feudais. Império Romano No século XII, com a ascensão da dinastia de Plantageneta, França inicia-se o reforço do poder central com o rei Henrique II. o estabelecimento da justiça real e da Common Law, o conjunto de leis aplicado em todo o território, marcou as tentativas de unidade desse período. Henrique II foi então sucedido por Ricardo I, conhecido como Coração de Leão. Em seu reinado, participou da terceira Cruzada e entrou em conflito com a França, quando veio a morrer. A constante ausência de Ricardo voltou a enfraquecer o poder central, Espanha Mar situação que foi mantida durante o reinado de seu sucessor, Mediterrâneo Territórios sob suserania inglesa o rei João Sem Terra. no território francês Possessões francesas 0 146 km Irmão de seu antecessor, o rei João envolveu-se em conflitos com a França e com o papa, provocando a insatisfação de A longevidade da Guerra impeliu a nobreza a se unir e, setores da sociedade inglesa. Parte da nobreza inglesa, assim, propiciou a centralização nos dois reinos. do baronato, e do clero formou uma assembleia, obrigando o Além disso, é possível dizer que: rei a assinar um documento, conhecido como a Magna Carta. De acordo com esse documento, assinado em 1215, ficavam Houve, por certo, uma consolidação da consciência nacional vedadas ao rei a alteração de leis ou a criação de impostos em ambos os lados do Canal. o francês tinha deixado de ser sem prévia aprovação de um conselho composto pela a língua palaciana oficial da Inglaterra por volta de 1380, nobreza e o clero. e houve um belo florescimento da língua inglesa nas últimas décadas do século XIV, sobretudo nas obras de Chaucer. o grande Conselho daria origem, em 1258, ao Parlamento. Materialmente, a Inglaterra sofreu menos do que a França, Alguns princípios jurídicos também eram garantidos, que foi devastada por sublevações camponesas a Jacquérie. como aqueles que "estabeleceram que ações contra homens LOYN, Henry R. (org.). Dicionário da Idade Média. livres somente devem ser instauradas pelo julgamento de Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. pares e / ou da Lei da Terra, e que a justiça não será negada, vendida ou protelada." (LOYN, H. R. Dicionário da Idade Com o fim da Guerra dos Cem Anos e da dinastia dos Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.). Plantagenetas, estava em curso uma crise econômica e nítido Devido a essa peculiaridade, o poder dos reis ingleses teve da nobreza inglesa. A Inglaterra mergulhou então em como contraparte a presença do Parlamento da Inglaterra. um novo conflito: a Guerra das Duas Rosas, disputa interna pelo A existência desse órgão, no entanto, não evitou posteriores controle do trono inglês, quando se enfrentaram a dinastia de momentos de concentração do poder nas mãos do rei. York (rosa branca) e a de Lancaster (rosa vermelha). 42 Coleção 6VOrganização dos Estados Nacionais Em 1485, aproveitando-se das disputas internas, A reunião, ocorrida em 1302, contou com a participação de Henrique Tudor destronou Ricardo III, da casa dos York, nobres, clero e burguesia, que manifestaram o seu apoio e assumiu o trono, sendo reconhecido pelo Parlamento como ao poder real. Vale ressaltar, no entanto, que, após essa Henrique VII. Ao longo da dinastia Tudor, completou-se a primeira convocação, os Estados Gerais só se reuniram centralização monárquica na Inglaterra. esporadicamente ou em momentos de crise da monarquia. Com a morte do papa Bonifácio VIII, que chegou a França ameaçar o monarca de excomunhão, Felipe IV impôs o reino dos Capetíngios possuía posição estratégica, o nome do cardeal francês Clemente V, desde que este estando situado entre importantes vias comerciais, o que se comprometesse a dissolver a Ordem dos Templários, colaborou para enriquecê-lo por meio da cobrança de o que apenas poderia ser feito por um papa. Mediante um novo acordo com Clemente V, transferiu-se a sede do impostos. Essa arrecadação e a formação de uma burocracia papado para Avignon, na França. o episódio, conhecido e de um exército propiciaram o aumento do poder dessa como Cativeiro de Avignon, durou cerca de 70 anos. família no território francês, o que, por sua vez, possibilitou Nesse período, a cristandade viveu o Cisma Ocidental, a centralização a partir dessa casa dinástica. Assim, ou seja, a existência de dois papas, o romano e o francês. foi com a dinastia Capetíngia, originada com Hugo Capeto Assistiu-se, assim, no reinado de Felipe IV, a ações que no século X, que se iniciou o processo de centralização do consolidaram a centralização monárquica francesa. poder monárquico na França. Apesar dos esforços unificadores, é importante ressaltar Durante o reinado de Felipe Augusto, no começo do que a Guerra dos Cem Anos interrompeu temporariamente século XIII, a centralização foi acelerada devido aos o processo de centralização, afinal, necessitando do apoio seguintes fatores: da nobreza para a manutenção do longo conflito, o poder Necessidade de um poderoso Exército para o da monarquia enfraqueceu-se. As derrotas iniciais, a fome e a Peste geraram insatisfação para a burguesia, o que enfrentamento dos conflitos com os ingleses. colaborou para o aumento das tensões no campo e para a Cobrança de impostos por fiscais nomeados pelos eclosão das jacqueries, revoltas servis surgidas no contexto reis, os bailios ou senescais. de superexploração, após a retração demográfica ocasionada pela Peste Negra. Centralização da Justiça. No século XV, as vitórias obtidas pela França na Guerra Os reis que sucederam a Felipe Augusto deram continuidade dos Cem Anos fortaleceram a consciência nacional, momento ao processo de concentração dos poderes. Durante o reinado em que se destacou a figura de Joana d'Arc, grande mito de Luís IX canonizado após sua morte como São Luís da história francesa. A luta só terminou com a expulsão no século XIII, a unificação monetária promovida garantiu dos ingleses em 1453, pela dinastia dos Valois, que havia o aumento das transações comerciais no interior do reino. ascendido ao poder em 1328 com Carlos IV. Após a guerra, Cerca de duas décadas depois, foi a vez de Felipe IV, o Belo, o Estado francês estava materialmente desgastado, mas o que, apesar de seguir com processo de centralização, enfraquecimento da nobreza e o fortalecimento do Exército chocou-se com o poder da Igreja. permitiram o reforço do poder Enquanto esteve no poder, Felipe IV anexou as regiões de Navarra e Champagne e recuperou parte da região da Aquitânia, antiga possessão inglesa. Intensificou ainda a tentativa de racionalizar a administração, criando um tribunal de contas e decretando novos impostos. o rei também diminuiu o poder da nobreza ao reprimir a Ordem dos Templários, criada durante as Cruzadas. Um dos motivos para a repressão era a enorme dívida financeira que seu reino acumulou em relação a essa ordem. o choque com a Igreja, já motivado pela questão dos templários, agravou-se no momento em que o rei ameaçou cobrar impostos sobre os bens eclesiásticos do clero francês e impedir a saída da França de recursos destinados à Santa Sé. A tensão foi tanta que levou o ARQUIVOS NACIONAIS. Joana d'Arc. Entre 1450 e 1500. monarca a convocar, pela primeira vez, os Estados Gerais. Óleo em pergaminho. França. Bernoulli Sistema de Ensino 43Frente A Módulo 04 EXERCÍCIOS DE RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play APRENDIZAGEM 01. (FUVEST-SP) No processo de formação dos Estados Nacionais da França e da Inglaterra, podem ser identificados os seguintes aspectos: A) Fortalecimento do poder da nobreza e retardamento da formação do Estado Moderno. B) Ampliação da dependência do rei em relação aos senhores feudais e à Igreja. C) Desagregação do feudalismo e centralização política. D) Diminuição do poder real e crise do capitalismo comercial. E) Enfraquecimento da burguesia e equilíbrio entre o Estado e a Igreja. LENEPVEU, Jules Eugène. Joana d'Arc na coroação de Carlos 02. VII em Reims. Entre 1889 e Panteão de França (UFPR) Sob o ponto de vista político, todos os reis TTE8 medievais ibéricos se consideravam herdeiros legítimos e descendentes dos antigos monarcas visigodos. Por isso, consideravam sua qualquer terra ganha aos Assim surgiu a palavra Reconquista. A guerra permanente tinha-se por justa, até que fosse alcançado o objetivo último. Mais do que um conflito religioso, a Reconquista surgia a todos, na Europa cristã, como uma questão de herança. MARQUES, Oliveira. Breve história de Portugal. Lisboa: Presença, 2001. p. 72-73 (Adaptação). Sobre o fenômeno da Reconquista, é correto afirmar que A) favoreceu o nascimento dos reinos ibéricos independentes. B) promoveu a conversão em massa das populações para o cristianismo. C) deslocou integralmente o interesse e a ação dos LENEPVEU, Jules Eugène. Joana d'Arc na fogueira em Rouen Entre 1886 e Panteão de Paris, cruzados para a Península Ibérica. Joana d'Arc nasceu em 1412, no vilarejo de Domrémy, França, D) fomentou a migração imediata dos para e pertencia a uma família de camponeses. Aos 13 anos, a jovem o norte da África passou a acreditar que ouvia vozes de São Miguel, Santa E) encerrou a coexistência entre cristãos e Catarina e Santa Margarida. Acreditava que deveria coroar o no medievo ibérico. herdeiro do Carlos VII, na catedral de Reims e salvar a França dos ingleses. Acredita-se que Joana d'Arc tenha 03. participado de inúmeras batalhas, garantindo a vitória francesa. (UEM-PR) A respeito do Estado Nacional centralizado que N29G A heroína foi capturada pelos ingleses e condenada à morte na emerge na Europa entre final da Idade Média e início dos fogueira pela Igreja. tempos modernos, assinale o que for incorreto. 44 Coleção 6VOrganização dos Estados Nacionais A) Pode-se dizer que o Estado Moderno é uma organização EXERCÍCIOS RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play política em cujo interior coexistem instituições e costumes herdados do feudalismo com instituições e PROPOSTOS costumes da sociedade burguesa em formação. B) Esse Estado representou um grande obstáculo ao 01. (UESB-BA) A crescente centralização de poder a partir do desenvolvimento da burguesia comercial-manufatureira, início da Baixa Idade Média, na Europa Ocidental, permitiu visto que impediu a formação do mercado interno o processo de fortalecimento dos reis e de constituição dos (nacional) para os produtos manufaturados. Estados Nacionais. Para esse acontecimento, contribuiu, C) Na Alemanha e na Itália, o Estado Nacional dentre outros fatores, centralizado foi organizado somente no século XIX. A) o controle dos árabes sobre o Condado Portucalense, D) Maquiavel foi um grande pensador renascentista que garantindo a definição do território em califado, defendeu o fortalecimento do poder monárquico. rigidamente delimitado. E) Na Inglaterra, o Estado centralizado desempenhou B) a Guerra dos Cem Anos, que despertou forte papel importante no desenvolvimento do capitalismo, sentimento de nacionalidade entre franceses e ao criar leis rigorosas para combater a vadiagem dos ingleses, impulsionando-os a definir os limites camponeses expulsos da terra e obrigá-los ao trabalho territoriais de cada um desses países. assalariado na manufatura ou na agricultura. C) o movimento das Cruzadas, responsável pelo deslocamento de grandes contingentes de população 04. (Unimontes-MG) Para a formação dos Estados absolutistas europeia para o Oriente, despovoando os centros europeus, na transição entre a Idade Média e Moderna, urbanos e enfraquecendo o proletariado das fábricas. não contribuiu D) o espírito empreendedor dos mercadores, ao doarem A) o auxílio econômico da camada mercantil, interessada suas terras e condados em favor dos reis, investidos em obter proteção para suas rotas comerciais e ver-se do "direito divino". livre das extorsões dos senhores feudais. E) o empobrecimento da burguesia, durante o extermínio B) o apoio dos camponeses, superexplorados pelos dos templários, acontecimento que impossibilitou a nobres que poderiam proporcionar a defesa dessa participação dos burgueses no processo de formação camada menos favorecida socialmente. dos Estados (Nacionais) absolutistas. C) a retomada do Direito romano, que ofereceu suporte 02. (UFRGS-RS) Assinale a alternativa correta sobre a jurídico tanto para as atividades das camadas 1P7D chamada Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre mercantis como para a centralização política. Inglaterra e França. D) a capacidade de certos grupos da nobreza de A) o conflito marcou a gradual transformação dos alcançarem vitória em guerras civis, ainda que exércitos feudais em forças militares profissionalizadas dizimando grande parcela dessa camada social. e iniciou o lento processo de decadência da aristocracia 05. (UEL-PR) A formação do Estado espanhol constituído da feudal nos respectivos países. aliança entre a monarquia, a nobreza fundiária e a Igreja B) A guerra foi vencida pela Inglaterra e teve como Católica implicou uma estrutura fundiária patrimonial consequência a eclosão de rebeliões na França que com uma sociedade hierárquica e nobiliárquica. culminaram com a deposição da dinastia dos Valois do trono francês. Sobre o tema, é correto afirmar que C) o confronto consolidou a transformação da Inglaterra A) a fragilidade da burguesia das cidades comerciais na principal potência econômica do período moderno, espanholas foi superada com a formação do Estado. por meio do processo de pacificação interna que se B) o Estado Nacional espanhol, ao se constituir, deixou seguiu à guerra. de lado os valores aristocráticos. D) A consequência da guerra para os dois países foi a C) o setor religioso não teve importância na formação consolidação de estruturas sociais feudais, tornadas do Estado Nacional espanhol. mais fortes com o enfraquecimento das monarquias D) a monarquia espanhola católica foi o resultado de centrais. uma aliança marcada pelo predomínio de valores E) A origem do conflito foi a invasão da Inglaterra pela aristocráticos. França e a subsequente instalação de uma dinastia E) a nobreza fundiária estava desinteressada na pró-França no trono inglês, derrubada ao longo constituição da monarquia espanhola. da guerra. Bernoulli Sistema de Ensino 45Frente A Módulo 04 03. (Unimontes-MG) No processo de unificação nacional português, após a morte de Dom Fernando I, no século XIV, ocorreu a MA8X união de alguns setores sociais em torno de Dom João, mestre da Ordem de Avis, configurando a chamada Revolução de Avis. Essa união pode ser associada à(ao) A) desejo da alta e da pequena nobrezas latifundiárias portuguesas de formar a União Ibérica, aumentando o número de camponeses e servos disponíveis para produzirem dentro do regime feudal. B) apreensão da pequena nobreza, grupos mercantis e artesãos portugueses, em relação à possibilidade de perda da autonomia nacional e da anulação social e política lusa, face ao reino de Castela. C) preocupação das camadas populares rurais em garantir o acesso a terras, de modo a permitir a manutenção e ampliação da economia de plantation, fundamental para a economia lusa. D) necessidade de assegurar, pela conquista e domínio da região de Castela, um fornecimento constante de mercadorias e metais preciosos, com vistas a aumentar o poder político português. 04. (UFG-GO) É notório que os reis que deixaram boa memória, cada um no seu tempo, buscaram a maneira de acrescentar as suas rendas e fazendas, sem dano e prejuízo dos seus súditos, para sustentar o seu estado real, a boa governança dos seus reinos, bem como a guarda e conservação deles para a conquista e guerra. ARCHIVO GENERAL DE Diversos de Castela. Livro 3, fólio 85 apud Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000. p. 256 (Adaptação). Escrito no século XV, o texto é parte de uma instrução régia de Fernando de Aragão e Isabel de Castela. Ele revela, como aspecto característico das monarquias europeias centralizadas, a organização das finanças régias, A) considerando as despesas com a administração dos negócios militares. B) implementando uma política de favorecimento da burguesia emergente. C) estabelecendo uma remuneração à nobreza pelos serviços burocráticos. D) impondo o controle estatal às atividades econômicas privadas. E) justificando a intervenção na economia com base nos princípios de autossuficiência. 05. (UEPG-PR) Resultado das grandes mudanças ocorridas a partir da desagregação do mundo medieval, os Estados Nacionais ZRKV Modernos expressam um novo momento vivido pela humanidade e se estruturam a partir de uma nova ordem econômica, política e social. A respeito desse tema, assinale o que for correto. 01. A unificação das leis, da circulação monetária e da justiça são algumas das características comuns aos Estados Nacionais Modernos. 02. Nos Estados Nacionais Modernos, os reis tiveram suas atuações limitadas por constituições elaboradas a partir dos anseios populares, o que, de certa forma, lançou as bases para os modelos de democracia contemporâneos. 04. A montagem de um corpo burocrático, mantido por meio de tributos cobrados pelos reis com intuito de pagar as despesas públicas, tornou-se típico nos Estados Nacionais Modernos. 08. Espanha e Portugal são exemplos de Estados Nacionais Modernos que se estruturam sem qualquer auxílio, vínculo ou suporte da Igreja Católica, diferentemente do que ocorreu, por exemplo, com a França. Soma 06. (UFMG) Leia o texto. T4LL Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para a noite. Despiram-no os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias santas, e isto se passa na presença de outros criados e pajens, este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um dos fidalgos retifica a prega final, outro ajusta o cabeção bordado. SARAMAGO, José. Memorial do convento. 46 Coleção 6VOrganização dos Estados Nacionais Nesse texto, Saramago descreve o cotidiano na Corte no período de consolidação do Estado Moderno. Todas as alternativas referem-se ao Absolutismo exceto A) A classe dominante, durante toda a época moderna, não era mais a mesma do período feudal, tanto política quanto B) A história do absolutismo monárquico é a história da lenta reconversão da nobreza a um papel parasitário, o que lhe permitiu regalias. C) A nobreza passou por profundas transformações no Período de centralização, mas nunca foi desalojada do poder político D) o absolutismo era um rearranjo do aparelho de dominação, destinado a sujeitar as massas camponesas, que, sublevadas, questionavam o papel tradicional da nobreza. E) o Estado Absolutista era uma nova carapaça política de uma nobreza atemorizada, que passou a ocupar um lugar junto ao rei, se tornando cortesã. 07. (UFTM-MG) Leia os trechos. 7LYI o processo de transformações [...] ocorridas na Europa ocidental, a partir do século XI, culminou no século XVI com uma grande revolução espiritual. Essa revolução, que eclodiu sob a forma de movimentos de contestação à autoridade e ao poder da Igreja de Roma, tomou nome genérico de Reforma Protestante. o processo histórico que levou à centralização monárquica na Europa Ocidental deu origem [...] às monarquias nacionais. [...] Em sua dinâmica [...] o rei continuou a acumular poderes cada vez mais amplos e de maior alcance. Desse processo surgiu, no curso do século XVI, em vários lugares da Europa, um novo tipo de formação política: o Estado absolutista. PAZZINATO, Alceu; SENISE, Maria Helena. História Moderna e Contemporânea. Durante o século XVI, a grande revolução espiritual relacionou-se à nova formação política, pois essa revolução A) dividiu a Europa em dois grandes blocos, o católico, sob a hegemonia da França, e o protestante, sob a da Holanda, países onde se implantou o absolutismo de direito B) garantiu a transferência das rendas arrecadadas pela Igreja Católica para os Estados que assegurou o enriquecimento, por exemplo, do Império alemão. C) não só retardou a consolidação do absolutismo, como na França, devido às guerras de religião, mas também fortaleceu os reis, como no caso da criação da Igreja anglicana na Inglaterra. D) permitiu aos monarcas a escolha da religião de seus súditos, favorecendo, por exemplo, a afirmação das monarquias absolutistas ibéricas, que aderiram ao protestantismo. E) estimulou conflitos entre países com religiões diferentes, o que gerou a Guerra dos Trinta Anos e, consequentemente, contribuiu para consolidar o absolutismo no Sacro Império. 08. (Unesp) A singular história portuguesa, sulcada interiormente com a marcha da supremacia do rei, fixou o leito e a moldura das relações políticas, das relações entre o rei e os súditos. Ao afirma-o prematuramente um documento de 1098, incumbe reinar (regnare), ao tempo que os senhores, sem a auréola feudal, apenas exercem o dominare, assenhoreando a terra sem governá-la. FAORO, Raymundo. Os donos do poder. A partir do texto, explique os fatores que marcam a singularidade da história política portuguesa. 09. (UFMG) No Velho Mundo, a formação dos Estados Nacionais centralizados sob o comando de um soberano absoluto foi também um processo longo e nada pacífico. Em Portugal e na Espanha, por exemplo, antes mesmo da expansão para outras terras, povos de línguas e costumes diferentes como judeus, mouros e ciganos foram perseguidos, expulsos ou submetidos [...]. Na Europa, as unidades nacionais tiveram de ser construídas a ferro e fogo, nos campos de batalha ou nas fogueiras da Inquisição. Pátria Amada Esquartejada. São Paulo: DPH / SMC / PMSP, 1992. p. 58. A) Cite dois fatores constitutivos do processo de construção dos Estados Nacionais ibéricos que justifiquem a afirmativa de que as unidades nacionais foram "construídas a ferro e fogo". B) Cite três características dos Estados Nacionais que traduzem a expressão "fé, lei e rei". Explique cada uma das características citadas. Bernoulli Sistema de Ensino 47Frente A Módulo 04 SEÇÃO ENEM 01. Desde antes do papa Bonifácio VIII, multiplicavam-se os conflitos no seio da Igreja e desta com o poder dos monarcas. Depois de condenar o pagamento de impostos pelos clérigos e ameaçar de excomunhão seus opositores, Bonifácio VIII formulou a Bula Unam Sanctam, que diz: "Ambas, a espada espiritual e a espada material, estão em poder da Igreja. Mas a segunda é usada para a Igreja, a primeira por ela; a primeira pelo sacerdote, a última pelos reis e capitães, mas segundo a vontade e a permissão do sacerdote. Por consequência, uma espada deve estar submetida à outra, e a autoridade temporal sujeita à espiritual [...]" JOHNSON, Paul. La historia del cristianismo. Buenos Aires: Javier Vergara Editor, 1989. p. 221. A organização dos Estados Nacionais não significou apenas a contestação do poder dos senhores feudais. Também o poder da Igreja foi contestado. A Bula Unam Sanctam do Papa Bonifácio VIII foi uma resposta a essa contestação e defende a ideia de que A) a Igreja é a maior rival política do soberano uma vez que detém o poder da espada espiritual e da espada material. B) os monarcas têm permissão de cobrar impostos dos clérigos, desde que uma parte do que foi arrecadado seja repassada para a Igreja. C) o rei detém a autoridade temporal cujo poder se iguala ao poder espiritual controlado pela Igreja. D) a Igreja tem o direito de cobrar impostos sobre as populações dos Estados, além de interferir em seus assuntos internos. E) o poder material somente pode ser exercido pelos reis com a permissão do Papa e de acordo com a sua vontade, uma vez que todas as criaturas estão sujeitas a ele. SEÇÃO FUVEST / UNICAMP / UNESP GABARITO Meu aproveitamento Aprendizagem Acertei Errei 01. 03. B 05. D 02. A 04. B Propostos Acertei Errei 01. B 03. B 05. 02. A 04. A 06. A 08. A história política de Portugal é singular, pois seu Estado Nacional foi formado precocemente na Europa, com a figura de um rei centralizador. Isso se deu após a Guerra de Reconquista, que provocou a expulsão dos mouros da Península Ibérica. 09. A) Os dois fatores a que texto se refere foram a atuação da Inquisição e o processo da Reconquista. B) Fé: os Estados modernos uma religião oficial e eram, em geral, intolerantes em relação às demais. Tal fato, além de promover uma homogeneização cultural, servia também como instrumento de reforço do poder das coroas. Lei: os Estados modernos buscaram implementar um corpo jurídico unificado que atendesse a todo o reino. Dessa forma, os particularismos feudais eram superados, e o poder dos monarcas se sobrepunha ao poder local, preponderante durante o mundo medieval. Rei: a centralização presente no Estado moderno acabava por terminar nas mãos dos reis. Os monarcas, agora soberanos, dispunham de amplos poderes, como uma burocracia e um exército permanente. o reforço da centralização levaria ao absolutismo Seção Enem Acertei Errei 01. Total dos meus acertos: de % 48 Coleção 6VFRENTE MÓDULO HISTÓRIA A 05 Absolutismo A progressiva centralização política observada desde o Os demais segmentos sociais, como camponeses, Período Medieval, atingiu o seu auge entre os séculos XVI e trabalhadores urbanos e a burguesia, eram responsáveis XVIII, na Idade Moderna, com a hipertrofia das atribuições pelo sustento do Estado e dos grupos privilegiados. A antiga do poder dos monarcas. Em Estados como França, Portugal, nobreza medieval, de caráter militar, transformara-se em Espanha e Inglaterra, os reis agiram na tentativa de uma nobreza palaciana ou que passou a ocupar fortalecer seu poder, impondo-se diante das demais camadas cargos políticos e, em muitos casos, a viver de forma sociais. o modo como se organizava o poder monárquico parasitária, sustentada pelo Estado. A concessão desses europeu durante esse período é denominado absolutismo. privilégios foi fundamental para que o rei conseguisse Não se pode pensar, no entanto, que poder desses ampliar seus poderes sobre a nobreza e o clero. soberanos europeus era exercido de maneira arbitrária. As ações dos reis, em muitos casos, chocavam-se com ABSOLUTISMO NA FRANÇA os interesses de diversos grupos sociais e a eficácia administrativa estava vinculada ao atendimento de Foi provavelmente na França que a monarquia absolutista determinadas expectativas no interior da sociedade. atingiu seu auge. Durante a dinastia dos Bourbon, No caso da França, por exemplo, a centralização nas o poder político se concentrou nas mãos dos reis até atingir mãos dos Bourbon só pôde se consolidar após reformas seu ponto máximo no reinado de XIV (1643-1715), que reduziram a resistência de grupos como a nobreza. que foi proclamado o Rei Sol. No entanto, alguns obstáculos Em Portugal, a concessão das mercês permitia que rei dificultaram processo de concentração do poder político exercesse, com maior efetividade, seu poder no interior ao longo da história do absolutismo francês. do Império, enquanto a noção da defesa do "bem comum" Os Bourbon ascenderam ao poder em um período impunha limites à atuação do monarca. Ainda no caso português, a preferência pela utilização do termo "Coroa" conturbado da história francesa, quando as disputas no lugar de "Rei" demonstra que a última decisão, tomada religiosas dividiam reino. A expansão do calvinismo pelo rei, era fruto do trabalho da burocracia portuguesa. provocava conflitos entre católicos e protestantes, opondo a nobreza católica, do Partido Papista, aos nobres e burgueses Ao longo desse processo, várias teorias surgiram na protestantes, do Partido Huguenote. As guerras de religião, tentativa de justificar a concentração de poder por parte desse modo, dificultaram a consolidação do absolutismo dos monarcas, como a teoria do direito divino dos reis, na França. que afirmava ser o poder temporal monárquico de origem divina. Alguns pensadores, como Maquiavel e Nesse contexto, foi planejado o casamento entre Margarida Thomas Hobbes, forneceram justificativas laicas para o de Valois, a católica rainha Margot, e Henrique de Bourbon, estabelecimento do poder político absoluto. protestante. o casamento de Margot e Henrique foi acertado por suas mães, Catarina de Médici e Jeanne d'Albret. o objetivo SOCIEDADE DO era não só consolidar a paz entre católicos e protestantes, mas também estabelecer uma aliança entre os Valois e os ANTIGO REGIME Bourbon. Os Valois estavam no trono da França há dois séculos, já os Bourbon nunca haviam chegado ao poder. À organização da sociedade europeia, em especial da francesa, que se desenvolveu frente à nova concepção política, A rainha-mãe, Catarina de Médici que, na prática, foi dado o nome de Antigo Regime. A sociedade do Antigo governava visava, ainda, com o casamento, à consolidação Regime era marcada por rígida hierarquia e pela presença do poder de sua família e à contenção do poder de outra de privilégios de nascimento. A nobreza e o clero, que importante família, a dos Guise. A política de Catarina repudiavam o trabalho braçal, estavam isentos do pagamento consistia em aliar-se ora a um, ora a outro dos partidos de impostos e regalias, como o recebimento de em luta, evitando que um deles tivesse força suficiente pensões e a ocupação de altos cargos públicos. para derrubá-la. Bernoulli Sistema de Ensino 49Frente A Módulo 05 Após o casamento de sua filha, a rainha, ao perceben o aumento do poder dos protestantes, tramou, junto ao duque de Guise, o assassinato do almirante Coligny, principal chefe huguenote. A situação saiu de controle e o que se observou foi o massacre dos protestantes comandado pela população francesa, de maioria católica, episódio conhecido como a Noite de São Bartolomeu, em 1572, quando cerca de trinta mil protestantes foram assassinados. DUBOIS, François. Massacre de São Entre 1572 a 1584. pintor protestante retratou os massacres contra os protestantes na França. Do lado direito, é possível o almirante Coligny sendo duplamente representado. Primeiramente sendo lançado da torre, e já embaixo, sendo esquartejado. A rainha Catarina é representada de preto no fundo e do lado esquerdo, observando os corpos dos protestantes no chão e à frente de um grupo de católicos que tentam impedir os protestantes de do castelo. A situação só foi pacificada com a ascensão de Henrique XIII, seu sucessor, por ainda ser criança, não poderia de Bourbon ao trono francês. Ao assumir o trono como assumir o trono, que ficou sob controle do cardeal Richelieu. Henrique IV, o rei, de origem protestante, manteve o Nesse período, ocorreu o fortalecimento do Exército francês catolicismo como religião oficial, mas garantiu relativa e da centralização administrativa, com a criação de um tolerância aos huguenotes. Através do Edito de Nantes, ainda corpo de funcionários, os intendentes. A França também que de maneira limitada, direitos religiosos, civis e políticos envolveu-se em um conflito internacional, a Guerra dos foram garantidos aos protestantes. Abria-se, assim, espaço Trinta Anos (1618-1648). para o fortalecimento do poder dos reis franceses, após o A centralização completa, entretanto, ocorreu apenas fim dos problemas internos. A tolerância estabelecida só foi no reinado seguinte, quando XIV assumiu o poder. interrompida no reinado de XIV, que, com o Edito de Ainda assim, o Rei Sol (como ficou conhecido) enfrentou a Fontainebleau, revogava o Edito de Nantes, ordenando a resistência de alguns grupos sociais contrários à concentração destruição de igrejas huguenotes e o fechamento de escolas de poder, como foi o caso das frondas, rebeliões iniciadas protestantes. ainda no período em que o rei era menor. Aproveitando-se Ao refletirmos sobre o jogo político-administrativo do descontentamento generalizado, setores da nobreza e da percebemos que o absolutismo francês burguesia lideraram campo e cidade contra o absolutismo definiu-se ao longo da dinastia dos Bourbons, mas sua monárquico. As revoltas, todavia, acabaram por fracassar. construção paulatina deparou-se com a disputa de diversas A centralização promovida por Luís XIV realizou-se por meio famílias nobres ligadas ao poder vigente. Isso comprova o do aprimoramento da máquina burocrática, aumentando o quão duradoura ainda era a influência política dos nobres controle dos sistemas de cobrança de impostos e gerando sobre a monarquia em curso, que, com a Reforma, diluiu-se maior arrecadação para o Estado. Com essa riqueza acumulada, em meio ao conflito entre protestantes e católicos. o ministro de Estado, Colbert, pôde disputar com ingleses e A promulgação do Edito de Nantes, na medida em que holandeses as áreas do Caribe e do Atlântico Norte. pacificava a oposição entre os nobres, impulsionava o absolutismo até que ele chegasse ao seu ápice no solo No plano social, foram reduzidos os controles feudais sobre os campos e as cidades, auxiliando na eliminação Retomando o reinado de Henrique IV, é válido ressaltar que das barreiras que impediam a circulação das mercadorias ele se caracterizou pela centralização administrativa e pelo pelas várias regiões da França, favorecendo os burgueses. incentivo ao comércio e à agricultura. o Estado arrecadou As reformas jurídicas também estabeleceram um novo recursos por meio da concessão de títulos de nobreza aos modo de relacionamento entre o Estado e a sociedade, grandes comerciantes enriquecidos, que passaram a pois a criação dos tribunais ligados ao rei fez com que a nobreza de toga. Ainda assim, seu reinado terminou de os camponeses pudessem apelar ao monarca diante da forma trágica, com o seu assassinato. opressão dos poderes locais. 50 Coleção 6VAbsolutismo Colaborando para engrandecer o absolutismo real, estava ABSOLUTISMO NA a construção da imagem poderosa do rei, erigida a partir da força da propaganda, dos escritores, historiadores, escultores INGLATERRA e pintores convocados para sua glorificação. De acordo com Para alguns historiadores, como o inglês Christopher Hill, o historiador Peter Burke, as obras de arte que retratavam a monarquia na Inglaterra teria se desenvolvido de maneira o rei não deveriam "fornecer uma cópia reconhecível dos particular. A razão para tal fato estaria na existência da Magna traços do rei ou uma descrição sóbria de suas ações. Carta (1215) e da instituição que esse documento originou: o Parlamento inglês. Apesar de pouco poder entre os Ao contrário, a finalidade era celebrar glorificá-lo, séculos XIII e XVI, quando raramente fora evocado, em outras palavras, persuadir os espectadores, ouvintes e o documento representava certa restrição ao poderio dos leitores de sua grandeza" (BURKE, Peter. A fabricação do rei. monarcas ingleses. A construção da imagem pública de XIV. Rio de Janeiro: A ascensão dos Tudor, após sucessivos conflitos como Jorge Zahar, 1994.). as Guerras dos Cem anos e das Duas Rosas intensificou o processo de unificação inglesa. Foi com Henrique VIII, no século XVI, que a resistência à centralização foi vencida e o poder real se consolidou. Para isso, o rei Tudor reprimiu violentamente a oposição e eliminou a influência da Igreja Católica com a criação da Igreja Anglicana (1534). A Reforma Protestante na Inglaterra, além de estabelecer o rei como chefe supremo da nova Igreja, permitiu o enriquecimento do Estado por meio do confisco de terras e bens do clero católico. Uma vez mais, percebe-se a confluência entre o delineamento do Estado nacional, estabilidade interna (eliminação da oposição social, política e religiosa) e externa (envolvimento em conflitos bélicos) para o pleno desenvolvimento do absolutismo. Após a morte de Henrique VIII, a Inglaterra passou por um período de instabilidade. Seu sucessor, Eduardo VI, teve um curto reinado, morrendo aos quinze anos, ascendendo ao trono, então, a rainha Maria. A monarca, casada com o rei católico Felipe II da Espanha, restaurou o catolicismo no país, instaurando, por conta disso, a perseguição a anglicanos e a calvinistas, o que lhe rendeu o título de Bloody Mary (Maria, a Sanguinária). Após a sua morte, subiu ao trono sua meia-irmã, a rainha Elizabeth I. RIGAULT, Hyacinthe. Retrato de 1701. o reinado de Elizabeth foi caracterizado por uma agressiva Tinta a óleo, 277 184 cm. Museu do Louvre, Paris. política mercantilista. Os esforços se concentraram na criação de companhias de comércio, no apoio à pirataria Elaborada tal qual um grande teatro, um teatro do Estado, e ao desenvolvimento da Marinha inglesa. Além da força a atuação do rei se transforma em performance; os seus trajes comercial, a Marinha de guerra se fortaleceu, culminando viram fantasia. Na verdade, esculpida de maneira cuidadosa, na vitória sobre a Invencível Armada espanhola em 1588. a figura do rei corresponde aos quesitos estéticos necessários à construção da "coisa pública". Saltos altos para garantir um olhar acima dos demais, perucas logo ao levantar, vestes mesmo nos locais da intimidade; enfim, trata-se de projetar a imagem de um homem público, caracterizado pela ausência de espaços privados de convivência. Tal qual um evento multimídia, o rei estará presente em todos os lugares, será cantado em verso e prosa, retratado nos afrescos e alegorias, recriado como um Deus nas estátuas e tapeçarias. GOWER, George. o Retrato da armada. 1588. Óleo sobre madeira, 105 133 cm. Woburn Abbey, Reino Unido. BURKE, Peter. A fabricação do rei. A construção da imagem pública de XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. 254 p. o quadro de 1590, assinado por George Gower, apresenta elementos Resenha de: SCHWARCZ, Lilia K. Moritz. [Professora que caracterizaram reinado de As joias representam do Departamento de Antropologia USP]. Revista de a realeza e poder da rainha. As pérolas simbolizam a pureza e Antropologia, São Paulo, 43, n. 1, 2000. Disponível em: castidade de Elizabeth I, que ficou conhecida como "a virgem". A mão sobre globo retrata o momento em que poder inglês se Acesso em: 26 out. 2010. expande pelos outros continentes. Atrás da monarca, é possível ver duas imagens representando, à direita, a tentativa de ataque da [Fragmento] Marinha espanhola e, à esquerda, a derrota da Invencível Armada. Bernoulli Sistema de Ensino 51Frente A Módulo 05 No plano religioso, a rainha anulou as medidas de sua antecessora e fortaleceu a Igreja Anglicana. Após sua morte, sem que Elizabeth tenha deixado herdeiros, a dinastia Tudor chegava ao fim. Completa-se, assim, um período de aprofundamento da estrutura estatal inglesa, não apenas no que se refere à política, que ganhou formato absolutista, mas também no que se refere às bases econômicas. Isso foi possível pelo fato de os governos absolutistas serem interventores, com condições necessárias para dirigir a economia segundo os interesses dominantes. Somados tais aspectos, estava tecido o arcabouço necessário para tornar o reino inglês progressivamente uma potência. NO Bernoulli Play ZI5K Absolutismo Assista a esse vídeo para entender as diferenças entre o regime monárquico da França e o da Inglaterra. ABSOLUTISMO NA ESPANHA A consolidação do poder nas mãos dos reis espanhóis só foi possível após o movimento de Reconquista, processo pelo qual foram expulsos os mouros da Península Ibérica. Nesse contexto, a atuação da Inquisição, sob controle dos reis espanhóis, foi fundamental para o fortalecimento do poder A perseguição aos judeus também fez parte desse processo, mostrando a íntima ligação entre a monarquia espanhola e a religião católica. No século XVI, a riqueza em metais preciosos proveniente das possessões americanas fez da Espanha o maior império do continente, dominando regiões na América, na Ásia e na própria Europa durante os reinados de Carlos V e Felipe II. Áreas de controle ibérico século XVI N A Controle espanhol Possessões espanholas 0 km Controle português na Europa ABSOLUTISMO EM PORTUGAL Para alguns historiadores, o absolutismo português teria atingido o seu auge durante o reinado de D. João V, no século XVIII. Rei de Portugal entre 1707 e 1750, seu poder pôde ser percebido no incentivo às artes e em construções como Convento de Mafra e o Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa. Parte da riqueza portuguesa nesse período era originária da região das Minas. Assim como na Espanha, a relação com a Igreja Católica foi fundamental para a consolidação do poder dos reis portugueses. A instituição do Padroado, que permitia ao Estado intervir na instituição católica, admitia que a Coroa portuguesa interferisse diretamente nos cargos eclesiásticos em seu reino. A atuação do Tribunal da Inquisição também fortaleceu os monarcas ao defender a unidade religiosa em Portugal, permitindo a garantia dos interesses deles. 52 Coleção 6VAbsolutismo TEORIAS DO PODER Visando à manutenção de seu poder, o deve compreender que a ação política não deve levar em Acompanhando o fortalecimento do poder dos reis europeus, consideração "as coisas como elas devem ser" e sim "como surgiram teorias que tentaram justificar tal situação, elas são". o conhecimento da História, da atuação de ou foram apropriadas pelos defensores do absolutismo, outros grandes políticos e da realidade em que se vive é explicitando os elos teóricos que permitiam compreender a fundamental para o planejamento das atitudes do relevância de tal realidade. Tais teóricos argumentavam a Esse tipo de ação, racional e planejada, está vinculado favor de um poder forte e centralizado nas diversas regiões à que pode ser definida como esse conjunto de do continente. capacidades do governante. A atuação virtuosa possibilitaria ao estar preparado para o imprevisível, o acaso, Nicolau Maquiavel a chamada fortuna. o florentino Nicolau Maquiavel viveu entre 1469 e 1527 Não se deve confundir a ou ação virtuosa, e observou a fragmentação e a instabilidade da região da no entanto, com os valores cristãos. A ruptura com a cultura Península Itálica no período. A formação da Itália unificada cristã medieval conferiu a Maquiavel um papel fundamental só viria a ocorrer na segunda metade do século XIX e, na fundação da política moderna. Para ele, a ação política durante a vida de Maquiavel, tal região foi marcada por não deve estar vinculada aos valores morais e religiosos. diversos conflitos. Na parte central, os Estados da Igreja o bom governo, durante o Período Medieval, estava vinculado entravam em constantes disputas com as demais regiões. No norte, enquanto Gênova e Veneza eram importantes às atitudes de um príncipe cristão. Já para Maquiavel, repúblicas autônomas, outras localidades estavam o governante deveria pensar mais em seus êxitos do que submetidas ao Sacro Império Germânico, também uma nos valores morais ou naquilo que é considerado como certo região de poder fragmentado. De acordo com Maquiavel: pela religião. De acordo com o autor: A tirania impera em pequenos principados, governados o não precisa ser piedoso, fiel, humano, íntegro e despoticamente por casas reinantes sem tradição dinástica religioso, bastando que aparente possuir tais qualidades. ou de direitos contestáveis. A ilegitimidade do poder gera [...] Um não pode observar todas as coisas a situações de crise e instabilidade permanente, onde somente que são obrigados os homens considerados bons, sendo o cálculo político, a astúcia e a ação rápida e fulminante contra frequentemente forçado, para manter o governo, a agir contra os adversários são capazes de manter o a caridade, a fé, a humanidade, a religião [...]. o não MAQUIAVEL, Nicolau. Principe. deve se desviar do bem, se possível, mas deve estar pronto São Paulo: Nova Cultural, 1999. [Fragmento] a fazer mal, se necessário. As ameaças francesa e espanhola também pressionavam os MAQUIAVEL, Nicolau. o São Paulo: Nova Cultural, 1999. pequenos Estados italianos, que muitas vezes eram dominados pelos condottieri, mercenários pagos para protegê-los. É diante dessa situação que Maquiavel escreve sua obra mais Maquiavel afirma, portanto, que, em certas ocasiões, a prática daquilo que é considerado mau é necessária, célebre, o o livro, escrito em poucas semanas, eternizou-o como pensador, mas rendeu-lhe má fama, fazendo por mais que essa postura nem sempre seja necessária. com que, do seu nome, surgisse o termo "maquiavélico". o escrito para uma importante figura política Essa imagem foi tão forte que, na Inglaterra, um dos de Florença, Lourenço de Médici, foi visto por muitos sinônimos para termo "diabo" era Old Nick, velho Nicolau. monarcas europeus como um manual para a sua ação, A obra se concentra nas maneiras que o governante quase sempre violenta. A obra de Maquiavel foi associada possui de alcançar poder e em como mantê-lo. Para que a atitudes consideradas tirânicas, como as de Henrique atinja os seus objetivos, o deve levar em conta VIII, que teria forjado a sua separação com Catarina de algumas questões cruciais. Em primeiro lugar, deve ser Aragão, dando início ao conflito que levou à ruptura com a um grande chefe militar, o que garantiria a conquista do Igreja Católica. o massacre dos protestantes na Noite de poder e a posterior estabilidade, evitando que seu reino São Bartolomeu também teria sido planejado por Catarina seja ameaçado. A partir da tomada do poder, o chefe de Médici filha de Lourenço, o Magnífico influenciada político precisa ser astuto, já que deve passar da violência, pela leitura da obra. Entretanto, novas leituras da obra de com a qual conquistou o poder, para uma relação em que Maquiavel apontam para outras possíveis interpretações. os governados consintam em submeter-se ao seu domínio. De acordo com o filósofo brasileiro Renato Janine Ribeiro: Bernoulli Sistema de Ensino 53Frente A Módulo 05 o trecho anterior permite a compreensão da história o foi lido, bem cedo, como um livro de conselhos inglesa no período em que viveu Thomas Hobbes aos governantes, para quem os fins justificariam os meios (1588-1679). Além da situação descrita, que se prolongou (essa frase, aliás, não é de Maquiavel). Ele defenderia despotismo e a amoralidade dos Há aqui, ao longo do século XVII, os ingleses também vivenciaram porém, um problema. Maquiavel escreveu o conturbado processo da Revolução Inglesa. Foi nesse de um jato só, enquanto se dedicou vários anos a outro contexto que o autor inglês produziu sua obra mais projeto os Discursos sobre a primeira década de Tito importante, em que argumenta a respeito da Lívio, um longo comentário ao historiador da Roma necessidade de se estabelecer um poder forte para que a Antiga. Ora, os Discursos são uma obra republicana. ordem e a paz sejam garantidas. E, se Maquiavel foi torturado a mando dos Médici, que Sua teoria se baseia na noção de contrato, que posteriormente acabavam de retomar Florença, isso se deveu a ter sido ele também seria utilizada por pensadores como John Locke e um dos líderes da República florentina. o Maquiavel mais extenso é republicano. Jean-Jacques Rousseau. De acordo com essa concepção, ao firmarem um contrato, os homens aceitam de um estado RIBEIRO, Renato Janine. Maquiavel, do diabo à ética. pré-social, em que vivem isoladamente, o estado de natureza. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/ maquiavel-do-diabo-a-etica/r. Se, para Locke, essa teoria foi utilizada como justificativa para Estado Liberal e, para Rousseau, como justificativa para uma organização democrática, para Thomas Hobbes, a teoria do De acordo com essas novas leituras, baseadas em obras contrato serviu para justificar um poder forte e centralizado. como Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, Maquiavel se posicionaria de forma favorável à República. Segundo Hobbes, no estado de natureza, que não é situado Nessa obra, o autor trata de temas como a igualdade, em nenhum momento histórico específico, existiria o conflito liberdade e participação política a partir da leitura de constante. Nesse estágio, em que não há nenhum poder textos da Antiguidade. Nessa perspectiva, o pensamento de superior que controle os indivíduos, a busca pela satisfação dos Maquiavel se afasta do maquiavelismo das visões tradicionais desejos os leva a lutarem entre si. A vida é insegura e reina a respeito de suas ideias. o trecho a seguir, sobre a República medo entre os homens, principalmente o medo da morte em Roma, ilustra o que foi dito: violenta. No trecho a seguir, Hobbes descreve essa situação: Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, Responderei, contudo, que cada Estado deve ter costumes em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo próprios, por meio dos quais os populares possam satisfazer é válido também para o tempo durante o qual os homens sua ambição. [...] o desejo que sentem os povos de ser livres vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser raramente prejudica a liberdade. [...] Sejamos, portanto, oferecida por sua própria força e sua própria invenção. avaros de críticas ao governo romano: atentemos para o Numa tal situação, não há lugar para a indústria, pois seu fato de que tudo o que de melhor produziu esta república fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, provém de uma boa causa. Se os tribunos devem sua origem à desordem, esta desordem merece encômios, pois o povo, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser desta forma, assegurou participação no governo. E os tribunos importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem foram os das liberdades romanas. instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há Tito Lívio. 3. ed. Brasília: Editora da UnB, 1994. sociedade; e que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, Thomas Hobbes pobre, sórdida, embrutecida e curta. HOBBES, Thomas. o ou Matéria, forma e Existiu na Inglaterra um grande medo de 1588: a nação poder de um estado Eclesiástico e protestante aguardando a invasão espanhola, as povoações São Paulo: Nova Cultura, 1998. [Fragmento] ribeirinhas espreitando o desembarque da armada que se temia invencível. Não faltaram alarmes falsos: especialmente o que se observa no estado de natureza é a guerra de na finisterra inglesa, a Cornualha; num desses pânicos, todos contra todos e a possibilidade de aniquilamento mútuo. nasceu Thomas Hobbes, de parto prematuro "minha mãe Para Hobbes, nesse caso, o homem seria o lobo do homem. pariu gêmeos, eu e o medo", como recordará, autobiógrafo, a noventa anos. Para sair dessa situação e evitar uma morte violenta, os homens devem fazer um pacto, o contrato social através do RIBEIRO, Renato Janine. Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra seu tempo. Belo Horizonte: qual aceitem parte do poder e da liberdade dos quais Editora UFMG, 1999. desfrutam no estado de natureza para uma entidade maior. 54 Coleção 6VAbsolutismo Dessa forma, o Estado e o soberano surgem como essa força a necessidade de concentração do poder dos reis era constituída para garantir a ordem e impedir a destruição. explicada a partir da religião: a soberania dos reis não podia o monstro de origem bíblica, simboliza essa forma ser contestada, já que havia sido concedida diretamente de organização. por Deus. o rei era considerado um representante de Deus na Terra e, por conta disso, opor-se ao seu poder seria não só um crime, mas um pecado. Desse modo, os caminhos necessários à edificação do absolutismo real são delimitados de forma a serem pouco questionados, já que uma autoridade ainda maior, isto é, Deus, atestava a legitimidade real em um contexto histórico no qual a esfera religiosa ainda tinha vital importância no cotidiano do europeu. A crença na divindade dos monarcas permanecia junto à cultura do homem moderno. Desde a Idade Média, era comum a crença de que, caso os reis tocassem os doentes, conseguiriam curá-los. o ritual se manteve na Idade Moderna, dando origem à expressão "o rei toca, Deus cura". BOSSE, Abraham. ou a matéria, forma e poder de uma comum, eclesiástica e civil. 1651. Gravura. A partir dessa concepção sobre o poder real, surgiu a A imagem do sintetiza a teoria de Thomas Hobbes. percepção dos dois corpos do rei: o primeiro deles, mortal, Nela, o rei, coroado, aparece como figura superior aos demais. assemelha-se aos demais e está sujeito aos mesmos vícios e Em uma das mãos carrega a espada, simbolizando o poder defeitos comuns aos súditos; o segundo, sagrado, representa o militar, e, na outra, o cetro, que representa a justiça. o corpo corpo divino do rei, que o diferencia dos demais e que não morre. do rei é composto de corpos de vários indivíduos, representando a associação das vontades individuais transferidas ao soberano Dedicaram-se à teoria do direito divino principalmente os no momento em que o contrato social é estabelecido. franceses, sendo que o próprio Luís XIV escreveu sobre o poder Para Hobbes, apenas o Estado forte e o poder centralizado sagrado da figura real, associando o Estado à pessoa do rei. poderiam garantir a vida em sociedade. Ao abrir mão de parte de sua liberdade, transferindo-a a um poder maior, Jean Bodin os homens afastavam o medo e a possibilidade da morte violenta. Segundo Hobbes: Em sua obra Seis livros sobre a República, Jean Bodin (1530-1596) defende a necessidade da concentração de o fim último, causa final e dos homens (que amam todo o poder nas mãos do rei, poder esse que não poderia naturalmente a liberdade e domínio sobre os outros), ser contestado. Bodin negava a necessidade de existência do ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual Poder Legislativo e defendia a total submissão dos súditos. os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria Suas teorias ganharam muita força durante o período em conservação e com uma vida mais satisfeita. Quer dizer, que a França passava por conflitos intensos, em razão das o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que é a disputas religiosas. A monarquia, que era vista como a consequência necessária (conforme se mostrou) das melhor forma de garantir a ordem pública e a soberania naturais dos homens, quando não há um poder visível capaz dos reis, não estando sujeita às leis, poderia criar, revogar de os manter em respeito, forçando-os por medo do castigo, e modificar a legislação. De acordo com Bodin: ao cumprimento de seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza [...]. Não há necessidade de insistir muito para mostrar que a HOBBES, T. Das causas, geração e definição de um monarquia é a melhor, visto que [...] tem somente um chefe; Estado. In: 2. ed. São Paulo: e todas as leis da natureza nos guiam para a monarquia; Abril Cultural, 1979. p. 103. seja observando esse pequeno mundo que é nosso corpo, no qual existe para todos os membros um só chefe do qual Direito divino dos reis dependem a vontade, o movimento e o sentimento; seja observando esse grande mundo, que tem um soberano Deus; As teorias do direito divino dos reis, que tiveram sua origem seja observando o céu, que tem um só Sol. no Período Medieval, atingiram o seu apogeu no século XVII BODIN, Jean. Los seis libros de la Republica. Madrid: Tecnos, 1992. nos países católicos da Europa. Segundo tais teorias, Bernoulli Sistema de Ensino 55Frente A Módulo 05 Jacques Bossuet As boas maneiras determinavam os hábitos durante as refeições e o comportamento em locais públicos e privados, como o bispo Jacques Bossuet (1627-1704) educou o filho pode ser percebido no trecho a seguir de um manual de 1671: de XIV. Em seu livro, A política extraída das sagradas escrituras, pretendia ensinar ao Delfim, futuro rei da França, Se todos estão se servindo do mesmo prato, evite pôr os princípios do absolutismo. Para o autor, a monarquia seria nele a mão antes que o tenham feito as pessoas da mais a melhor forma de organização política, já que garante a alta categoria, e trate de tirar o alimento apenas da estabilidade, por sua tradição. A origem do Estado advém parte do prato que está à sua frente. Ainda menos deve de um decreto divino, da mesma forma que o poder do pegar as melhores porções, mesmo que aconteça você monarca. Os súditos devem se submeter aos governantes, ser o último a se servir. Cabe observar ainda que você que, por sua vez, devem atuar com poder incontestável. sempre deve limpar a colher quando, depois de usá-la, o único capaz de retirar o poder dos reis seria Deus, aquele quiser tirar alguma coisa de outro prato, havendo pessoas tão que o havia concedido. Para Bossuet: delicadas que não querem tomar a sopa na qual mergulhou a colher depois de a ter levado à boca. E, ainda mais, se estás à mesa de pessoas refinadas, não é suficiente enxugar a Todo o poder vem de Deus. Os governantes, pois, agem colher depois de a ter levado à boca. Não deves usá-la mais, como ministros de Deus e seus representantes na terra. trono real não é o trono de um homem, e sim pedir outra. Além disso, em muitos lugares, colheres mas trono do próprio Deus [...]. Os reis são deuses e são trazidas com o prato, e estas servem apenas para tirar a participam de alguma maneira da independência divina. sopa e o molho. Você não deve tomar a sopa na sopeira, mas o rei vê de mais longe e de mais alto; deve acreditar-se que colocá-la no seu prato fundo. Se ela estiver quente demais, ele vê melhor. é indelicado soprar cada colherada. Deve esperar até que BOSSUET, Jacques. Politique tirée des propres paroles esfrie. Se tiver a infelicidade de queimar a boca, deve suportar de l'Éscriture saint. [A política extraída das sagradas isto pacientemente, se puder, sem demonstrar, mas se a França: Dalloz, 1864. póstuma] queimadura for insuportável, como às vezes acontece, deve, (Tradução nossa). antes que os outros notem, pegar seu prato imediatamente com uma mão e levá-lo à boca e rapidamente passá-lo ao ETIQUETA NO lacaio atrás de sua cadeira. COUTIN, Antoine de. Novo tratado de civilidade. ANTIGO REGIME In: ELIAS, Norbert. o Processo Civilizador: uma História dos Costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. [Fragmento] Entre os séculos XV e XVIII, a etiqueta consistia em um conjunto de regras e costumes que regiam o comportamento Na França, os rituais da família real eram acompanhados e o cotidiano da sociedade. Roupas, formas de tratamento, pela nobreza em Versalhes. Assistir ao rei acordar e fazer uso da linguagem, distribuição no espaço e tipos de comida eram definidos pelas normas da etiqueta. suas refeições era um hábito comum que auxiliava na construção de sua imagem. Os rituais de exaltação do o apogeu dessas práticas deu-se na Corte francesa de monarca ajudaram a ampliar o culto à figura do rei, visto XIV, no entanto, a etiqueta fez-se presente nos hábitos como um sujeito superior aos seus súditos. A observância de outros reinos. Por meio dessas regras, esperava-se que desses modos poderia representar para a nobreza alguns as hierarquias fossem mantidas, em especial aquelas que se benefícios e a obtenção de favores. Segundo Norbert Elias: relacionavam aos nobres, que procuravam sobreviver após a perda do poderio feudal, sustentando-se como articuladoras Todos dependiam, em maior ou menor grau, da pessoa do rei. do jogo político junto ao monarca. Portanto, a menor alteração da atitude do rei para com Em Portugal, os modos de tratamento variavam de acordo qualquer deles tinha muita importância porque tornava com o grupo social a que indivíduo pertencia. Existiam visível uma alteração do seu mérito aos olhos do rei e da sua posição face à sociedade de Corte. Mas esta relação de regras determinando quem poderia ser tratado com vós, dependência determinava também, por um encadeamento vossa mercê e vossa majestade, esse último reservado de elos secundários, o comportamento dos cortesãos uns aos reis. As cores das roupas também podiam simbolizar com os outros. a posição do homem nessa sociedade, como na Inglaterra, onde uma lei reservou a cor púrpura como exclusiva da ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. família real. 56 Coleção 6VAbsolutismo EXERCÍCIOS DE 04. (UNIFEV-SP) A morte de Jules Mazarin em 9 de março RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play de 1661 marca o nascimento do absolutismo de XIV. APRENDIZAGEM o próprio rei anunciou a morte do cardeal na manhã seguinte. Ele reuniu todos os oito ministros, 01. (Unesp) A monarquia absoluta foi uma forma de que esperavam ansiosamente o nome do sucessor de monarquia feudal diferente da monarquia dos Estados Mazarin. Para surpresa geral, o rei voltou-se para o medievais que a precedeu; mas a classe dominante chanceler Séguier e declarou solenemente: "Senhor, permaneceu a mesma, tal como uma república, eu lhe pedi que se reunisse com meus ministros e uma monarquia constitucional e uma ditadura fascista secretários de Estado para dizer que até agora eu deixei podem ser todas [elas] formas de dominação burguesa. o falecido senhor cardeal conduzir os assuntos de Estado; HILL, Christopher. Um comentário apud ANDERSON, Perry. já é hora que eu próprio governe. Vocês me auxiliarão Linhagens do Estado com seus conselhos, quando eu lhes pedir". o texto apoia a seguinte afirmação: CASALI, Dimitri. Disponível em: www.historiaviva.com.br A) Os Estados medievais precederam a monarquia. É possível afirmar que o reinado de XIV B) A expressão "monarquia feudal" não é aplicável aos Estados medievais. A) promoveu aguda centralização política, reforçando a C) Os Estados medievais podem ser considerados figura e o papel do rei e transformando a França num Estados de transição. Estado absolutista. D) o absolutismo foi uma forma de dominação feudal. B) estabeleceu a tripartição dos poderes, evitando E) o absolutismo foi politicamente neutro do ponto de o predomínio do Executivo sobre o Legislativo e vista social. assegurando a autonomia do Judiciário. C) eliminou a hegemonia aristocrática sobre o Estado 02. Minas) Ainda sobre o contexto do reinado de XIV, francês, incentivou as atividades comerciais e ampliou que ficou famoso como Rei Sol e por sua paixão por a influência da burguesia na administração sapatos, é correto afirmar que D) representou um esforço de unificação do poder A) estabeleceu uma política de alianças entre burguesia político, mas fracassou na tentativa de submeter os e Igreja contra a aristocracia para a elaboração de senhores feudais ao comando real. uma Constituição democrática. B) produziu imagens que tinham, como objetivo único, E) determinou o início do Estado moderno na Europa, retratar, como uma cópia, os traços reais e, assim, com sua estrutura rigidamente hierarquizada e sua ser reconhecido pelos seus súditos. lógica absolutista. C) assentou-se sobre o movimento do absolutismo francês, configurando uma concentração e controle 05. (UEFS-BA) A história do Reino Unido (ex-Império 7NE0 do Estado e suas instituições pelo monarca. Britânico) registra o governo de três rainhas rainha D) foi resultado de um período de ameaça territorial, Elisabeth I (Isabel Tudor) / rainha Vitória / rainha que exigiu que XIV lutasse ao lado do exército Elisabeth II em cujos governos importantes questões francês e se constituísse assim como herói. de caráter político-econômico foram estabelecidas e cujos desdobramentos influenciaram não apenas 03. (UFJF-MG) o absolutismo real surgiu na Europa em meio a própria história inglesa, como também resto à transição da sociedade feudal para a ordem capitalista, do mundo. a partir do século XV. No reinado de Elisabeth I, embora existisse a instituição Sobre o absolutismo, pode-se afirmar que do Parlamento, A) acarretou a perda completa do poder da nobreza, A) o absolutismo monárquico foi fortalecido, como agora destituída dos privilégios que detinha, diante resultado, em parte, da articulação política entre a de outros grupos. Coroa e a Igreja Anglicana, que foi declarada a Igreja B) em sua versão francesa, revelou-se mais permeável oficial. à representação política, dada a grande importância do Parlamento, especialmente sob XIV. B) o Reino Unido aliou-se à Espanha e à França para C) o estabelecimento de impostos regulares, para apoderar-se das terras conquistadas por Portugal no financiar o Exército e a administração reais, colaborou litoral africano. para a efetivação desse absolutismo. C) a Inglaterra tornou-se parlamentarista, confirmando D) enfraqueceu-se a autoridade da Igreja com a afirmação os limites ao poder monárquico no plano político. do poder real, tal como se verifica em Portugal e D) a burguesia mercantil foi excluída do processo político, Espanha, onde se promoveu uma rígida separação entre Igreja e Estado na administração civil. resultando no atraso dos ingleses na expansão colonial. E) a burguesia tornou-se a classe politicamente dirigente, instituindo-se, desta forma, uma ordem E) a nobreza assumiu o controle do Estado, reduzindo econômica baseada no livre mercado. o poder do monarca ao papel figurativo. Bernoulli Sistema de Ensino 57Frente A Módulo 05 EXERCÍCIOS D) Princípio de governo defendido pelos líderes da RESOLUÇÕES NO Bernoulli Play "reforma", movimento religioso preocupado com a PROPOSTOS legitimação dos Estados vigentes no período. E) Ideia de sacralização do poder régio, promovido pela alta cúpula da Igreja Católica, que queria 01. (UNIFESP) [...] doentes atingidos por estranhos males, a supremacia do poder do papa sobre todas as FJ85 todos inchados, todos cobertos de úlceras, lamentáveis monarquias do período. de ver, desesperançados da medicina, ele [o Rei] cura-os pendurando em seus pescoços uma peça de ouro, 04. (FGV) o paradoxo aparente do absolutismo na Europa com preces santas, e diz-se que transmitirá essa graça 8QFI ocidental era que ele representava fundamentalmente curativa aos reis seus sucessores. um aparelho de proteção da propriedade dos privilégios SHAKESPEARE, William. Macbeth. aristocráticos, embora, ao mesmo tempo, os meios pelos quais tal proteção era concedida pudessem assegurar Essa passagem da peça Macbeth é reveladora simultaneamente os interesses básicos das classes A) da capacidade artística do autor de transcender a mercantis e manufatureiras nascentes. Essencialmente, realidade de seu tempo. o absolutismo era apenas isto: um aparelho de dominação B) da crença anglo-francesa, de origem medieval, feudal recolocado e reforçado, destinado a sujeitar as no poder de cura dos reis. massas camponesas à sua posição tradicional. Nunca foi C) do direito divino dos reis, que se manifestava em seus um árbitro entre a aristocracia e a burguesia, e menos dons sobrenaturais. ainda um instrumento da burguesia nascente contra a aristocracia: ele era a nova carapaça política de uma D) da mentalidade renascentista, voltada ao misticismo nobreza atemorizada. e ao maravilhoso. ANDERSON, Perry. Linhagens do E) do poder do absolutismo, que obrigou a Igreja a Estado absolutista. p. 18, 39 (Adaptação). aceitar o caráter sagrado dos reis. Segundo Perry Anderson, o Estado absolutista 02. (USP) Na Europa da Idade Moderna, os chamados A) não tinha força política para submeter os trabalhadores "Estados absolutistas" são aqueles nos quais do campo e a aristocracia com a cobrança de pesados impostos e, simultaneamente, oferecer participação A) a ausência de consensos sociais mínimos é tão política e vantagens econômicas para o crescimento acentuada que apenas o poder real consegue se impor da burguesia comercial e manufatureira. e eliminar todos os outros poderes menores. B) nunca se submeteu aos interesses da burguesia B) o poder espiritual da Igreja é forte o suficiente para mercantil e manufatureira em detrimento da impedir o exercício de outros poderes menores. aristocracia, mas, ao contrário, tornou-se um escudo C) a burguesia luta permanentemente para destituir a de proteção dos camponeses contra domínio feudal nobreza do poder, o que só ocorrerá com o início da exercido por meio de pesados impostos. Idade Contemporânea. C) garantiu, sob a sua proteção, o domínio econômico e D) o poder político compete com o poder espiritual, político da aristocracia sobre os camponeses e, para até a definição daquele que, em exclusão dos demais, sobreviver economicamente, atendeu aos interesses se tornará o poder hegemônico. de expansão do mercado da burguesia mercantil e E) o poder político do rei é exercido na inversa proporção manufatureira, mas a afastou do poder político. do poder de instâncias representativas de outros D) preservou a propriedade feudal e os interesses dos extratos sociais. camponeses, mas, para que isso se efetivasse, submeteu-se à pressão da burguesia mercantil e 03. (UFOP-MG) Assinale a alternativa que define com maior manufatureira ao aproximá-la do poder político, exatidão o direito divino dos reis. oferecendo cargos públicos a essa classe. A) Ideia de legitimidade de um governo baseada no E) não protegeu a aristocracia nem os camponeses que, princípio da delegação divina do direito de comandar para sobreviverem, estabeleceram alianças pontuais um povo, que deve prestar obediência ao governante com a burguesia comercial em ascensão econômica e com crescente participação política, com o intuito assim empossado. de obter acesso à terra. B) Princípio de legitimidade de um governo, baseado na obrigatoriedade de o povo obedecer ao governante 05. (UFC-CE) A etiqueta foi, nos séculos do seu apogeu que foi eleito pela parcela da população. M8SF (do XV ao XVIII), minucioso cerimonial regendo a vida C) Fundamento de governo das monarquias absolutas, em sociedade, [...] tudo isso esteve determinado pela cuja base principal se assentava na premissa de lei e pelo costume. que o líder espiritual da religião deveria ser RIBEIRO, Renato Janine. A etiqueta no Antigo Regime: o monarca. do sangue à doce vida. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 58 Coleção 6VAbsolutismo Em relação à importância da etiqueta para as relações D) Em torno de uma prática democrática havia uma sociais no Estado Moderno, assinale a alternativa correta. liberdade na organização econômica do Antigo Regime A) A etiqueta, na sociedade de Corte, configurou-se como que era estruturada a partir do mercantilismo que instrumento de dominação social dos banqueiros e de pregava a ausência do estado no controle do sistema incentivo à descentralização política e econômica do econômico. Estado Moderno. E) Mediante a servidão voluntária, o texto apresenta as B) A sociedade de Corte identificou-se com a formação bases da monarquia parlamentar e constitucional, do Estado Moderno, cujo processo de constituição aspectos jurídicos fundamentais para o fortalecimento deu-se contra a fragmentação política e econômica do poder real a partir do apoio servil. praticada pelos senhores feudais. C) A constituição do Estado Moderno propiciou à realeza 07. (Mackenzie-SP) a oportunidade de eliminar as práticas mercantilistas 6QRI e de impor o retorno à economia desmonetarizada. D) A sociedade de Corte, dominada pela burguesia, notabilizou-se por desprezar as boas maneiras, o uso da linguagem, o luxo e a moda como formas de distinção E) A etiqueta, além de recorrer ao uso de costumes provenientes das civilizações Inca e Asteca, propiciou a difusão de valores estéticos oriundos das mitologias egípcia e grega. 06. (UFJF-2021) o filósofo francês do século XVI Etienne La Boétie é autor de um discurso que se coloca como um manifesto à liberdade, questionando as causas da dominação de muitos por poucos e quais as razões que levavam os povos a se submeterem à vontade de um tirano. Em Discurso da Servidão Voluntária, afirma que: "Se os habitantes de um país encontraram algum grande personagem que lhes tenha dado provas de "O Estado sou eu", frase atribuída ao rei francês grande previdência para protegê-los, grande audácia para defendê-los, grande cuidado para governá-los, XIV, traduzia o grau de centralização de poderes se doravante cativam-se em obedecê-los e se fiam típica dos Estados absolutistas europeus. Tal forma tanto nisso a ponto de lhe dar algumas vantagens, de organização política destacava a figura do não sei se seria sábio tirá-lo de onde fazia o bem monarca como bem caracteriza a imagem anterior. para colocá-lo num lugar onde poderá malfazer; mas Assinale a alternativa correta que expressa o papel da certamente não poderia deixar de haver bondade em não monarquia absolutista. temer o mal de quem só se recebeu o bem." A) o regente, ao aparecer publicamente com trajes LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da Servidão suntuosos, exprimia a união entre o poder temporal São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 12. e o espiritual, apoiado publicamente pelo Papa em A partir da teoria desenvolvida pelo filósofo e dos seus cada aparição pública. conhecimentos, marque a opção correta sobre o poder B) o monarca, ao se utilizar da pompa e da suntuosidade, único e autoritário existente na França no século XVI: sintetizava os anseios da própria nação e dos diversos A) No contexto da monarquia absolutista as rebeliões grupos religiosos existentes no território francês. eram ações autorizadas pelo rei, cuja autoridade C) A exposição pública da figura do monarca enfraquecia emanava da vontade e dos anseios populares. a nobreza e as tradições aristocráticas, ao mesmo B) A organização política do Antigo Regime foi tempo em que fortalecia os interesses burgueses. caracterizada em torno da monarquia absolutista, em que o poder não era alcançado somente pela força, D) o rei, ao simbolizar o próprio Estado consegue pois parte da sociedade era fiel e obedecia ao rei. articular o anseio do grupo mercantil em ascensão, articulando-os com os interesses da nobreza nacional. C) A monarquia absolutista era convergente com o pensamento protestante que funcionava de recurso E) Eliminar as revoltas camponesas francesas, recorrendo básico para o fortalecimento do poder real e que ao luxo e majestade configurados na imagem do possuía apoio dos servos e dos escravos. monarca, garantia estabilidade a nação. Bernoulli Sistema de Ensino 59Frente A Módulo 05 08. (UFMG) Observe esta imagem: C) ambos rejeitam o absolutismo, por considerarem que ele impede o bem público e a democracia, valores que jamais podem ser sacrificados e que fundamentam a vida em sociedade. D) Maquiavel defende o absolutismo, por acreditar que os fins positivos das ações dos governantes justificam seus meios violentos, e Hobbes recusa-o, por acreditar que o Estado impede os homens de viverem de maneira harmoniosa. E) ambos defendem o absolutismo, mas Maquiavel acredita que o poder deve se concentrar nas mãos de uma só pessoa, e Hobbes insiste na necessidade de a sociedade participar diretamente das decisões do soberano. 10. (UFPA) o trecho a seguir é de um dos mais importantes DMLN historiadores da Idade Moderna. Nele, Fernand Braudel descreve um aspecto da relação entre a política e a sociedade na Espanha moderna governada por Felipe II. da edição da obra de Hobbes, (1651). Leia-o atentamente. Thomas Hobbes (1588-1679) ficou conhecido como um Diz-se, com razão, que o Estado Moderno foi inimigo dos teóricos do absolutismo. Nessa ilustração da sua obra, das nobrezas e dos feudalismos. Contudo, é preciso sintetiza-se a formação do Estado absolutista. entendermo-nos: foi ao mesmo tempo seu inimigo e 1. Cite três características do Estado absolutista. seu protetor, o seu associado. Reduzi-los à obediência, primeira tarefa, aliás nunca terminada; em seguida 2. Explique a representação de poder expressa nessa imagem. usá-los como instrumento de governo. Para além deles e por eles manter o peuple vulgaire [povo 09. (UNIFESP) o fim último, causa final e dos homens BRAUDEL, Fernand. mediterrâneo e mundo mediterrânico (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre na época de Felipe II. 2. ed. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1995. p. 71. os outros), ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, é o cuidado com A alternativa que melhor descreve a relação entre sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. Estado Moderno espanhol e a sociedade é: Quer dizer, o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que é a consequência necessária (conforme se A) Felipe II era um rei sábio e ilustrado, o qual ao mostrou) das naturais dos homens, quando não lado de seus súditos criou leis e também a primeira há um poder visível capaz de os manter em respeito, Constituição na Espanha moderna, que se tornou um forçando-os, por medo do castigo, ao cumprimento de símbolo social do monarca constitucional. seus pactos e ao respeito leis de natureza. B) o monarca era absoluto e superior a todos os HOBBES, Thomas (1588-1679). outros componentes da sociedade que governava. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores). No entanto, seu governo devia agradar à nobreza, o príncipe não precisa ser piedoso, fiel, humano, pois esta era elemento importante para subjugar íntegro e religioso, bastando que aparente possuir tais povo não nobre. qualidades [...]. o não deve se desviar do bem, C) o rei era um déspota esclarecido: ao mesmo tempo mas deve estar sempre pronto a fazer o mal, se necessário. em que dominava a todos, os tratava de forma MAQUIAVEL, Nicolau (1469-1527). o sensata, equilibrada e bem organizada, garantindo São Paulo: Abril Cultural, 1986. (Os Pensadores). com esta ordem uma dominação integral de nobres Os dois fragmentos ilustram visões diferentes do Estado e povo. moderno. É possível afirmar que D) Felipe II era um monarca absolutista caracterizado A) ambos defendem o absolutismo, mas Hobbes vê o por ser inimigo da nobreza e dos pobres em Estado como uma forma de proteger os homens de geral, os quais reduzia pessoalmente à sua sua própria periculosidade, e Maquiavel preocupa-se ordem e obediência, auxiliado por suas tropas em orientar o governante sobre a forma adequada e exército. de usar seu poder. B) Hobbes defende o absolutismo, por tomá-lo como E) o rei, embora absolutista, estava preocupado em a melhor forma de assegurar a paz, e Maquiavel controlar o povo espanhol influenciado pelos ideais da recusa-o, por não aceitar que um governante deva Revolução Francesa. Daí sua necessidade de acordos comportar-se apenas para realizar o bem da sociedade. políticos com a nobreza local. 60 Coleção 6VAbsolutismo SEÇÃO ENEM 03. (Enem) 01. (Enem) o século XVIII é, por diversas razões, um século diferenciado. Razão e experimentação se aliavam no que se acreditava ser o verdadeiro caminho para o estabelecimento do conhecimento científico, por tanto tempo almejado. o fato, a análise e a indução passavam a ser parceiros fundamentais da razão. É ainda no século XVIII que o homem começa a tomar consciência de sua situação na história. ODALIA, N. In: PINSKY, J.; PINSKY, História da cidadania. São Paulo: REX LUDOVICUS LUDOVICUS REX Contexto, 2003. Charge anônima. BURKE, P. A fabricação do No ambiente cultural do Antigo Regime, a discussão Rio de Janeiro: Zahar, 1994. filosófica mencionada no texto tinha como uma de suas Na França, o rei XIV teve sua imagem fabricada características a por um conjunto de estratégias que visavam sedimentar A) aproximação entre inovação e saberes antigos. uma determinada noção de soberania. Nesse sentido, B) conciliação entre revelação e metafísica platônica. a charge apresentada demonstra C) vinculação entre escolástica e práticas de pesquisa. A) a humanidade do rei, pois retrata um homem comum, sem os adornos próprios à vestimenta real. D) separação entre teologia e fundamentalismo B) a unidade entre o público e o privado, pois a figura religioso. do rei com a vestimenta real representa o público e E) contraposição entre clericalismo e liberdade de sem a vestimenta real, o privado. pensamento. C) o vínculo entre monarquia e povo, pois leva ao conhecimento do público a figura de um rei 02. (Enem) Nasce daqui uma questão: se vale mais ser despretensioso e distante do poder político. amado que temido ou temido que amado. Responde-se D) o gosto estético refinado do rei, pois evidencia a que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque elegância dos trajes reais em relação aos de outros é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que membros da Corte. amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque E) a importância da vestimenta para a constituição dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que são simbólica do rei, pois o corpo político adornado ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de esconde os defeitos do corpo pessoal. lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, 04. (Enem) o portanto, não deve se incomodar com como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo chega, revoltam-se. unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros MAQUIAVEL, N. o poderá ser mais clemente do que outros que, por muita Rio de Janeiro: Bertrand, 1991. piedade, permitem os distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo. A partir da análise histórica do comportamento humano MAQUIAVEL, N. o São Paulo: Martin Claret, 2009. em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser No século XVI, Maquiavel escreveu o reflexão sobre a monarquia e a função do governante. A) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros. A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na B) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para A) inércia do julgamento de crimes polêmicos. alcançar na política. B) bondade em relação ao comportamento dos C) guiado por interesses, de modo que suas ações são mercenários. imprevisíveis e inconstantes. C) compaixão quanto à condenação de transgressões D) naturalmente racional, vivendo em um estado religiosas. pré-social e portando seus direitos naturais. D) neutralidade diante da condenação dos servos. E) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas E) conveniência entre o poder tirânico e a moral do com seus pares. Bernoulli Sistema de Ensino 61Frente A Módulo 05 05. (Enem) A) desnudaram a verdadeira condição humana, mostrando a necessidade de se suprimir os direitos individuais. I. Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), o estado de natureza é um estado de guerra universal B) determinaram que compartilhassem a ideia de sociedade e perpétua. Contraposto ao estado de natureza, e defendessem a mesma forma de Estado e soberania. entendido como estado de guerra, o estado de paz é C) justificaram a anulação política dos indivíduos pelo a sociedade civilizada. Estado onipotente e protetor, reconduzindo-os à condição natural. Entre outras tendências que dialogam com as ideias de Hobbes, destaca-se a definida pelo texto a seguir: D) mostraram-se, na contemporaneidade, essencialmente ultrapassadas em seus princípios, conjecturas e II. Nem todas as guerras são injustas, e, correlativamente, conclusões. nem toda paz é justa, razão pela qual a guerra E) significaram, na modernidade, momentos de laicização nem sempre é um desvalor, e a paz nem sempre do pensamento político ao interpretar a realidade social. um valor. BOBBIO, N.: MATTEUCCI, PASQUINO, G. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Universidade de Brasília; São Paulo: SEÇÃO FUVEST / UNICAMP / Imprensa Oficial do Estado, 2000. p. 30. Comparando as ideias de Hobbes (texto I) com a UNESP tendência citada no texto II, pode-se afirmar que, A) em ambos, a guerra é entendida como inevitável e injusta. B) para Hobbes, a paz é inerente à civilização e, segundo o texto II, ela não é um valor absoluto. C) de acordo com Hobbes, a guerra é um valor absoluto GABARITO Meu aproveitamento e, segundo texto II, a paz é sempre melhor que a guerra. Aprendizagem Acertei Errei D) em ambos, a guerra ou a paz são boas quando o fim 01. D 03. 05. A é justo. 04. A E) para Hobbes, a paz liga-se à natureza e, de acordo com o texto II, à civilização. Propostos Acertei Errei 01. B 06. As teorias políticas foram sempre fundamentais para 02. E justificar e legitimar uma determinada concepção de sociedade e de Estado. Neste sentido, ganha destaque 03. A pensamento de Hobbes, teórico do século XVII cuja 04. C obra fundamentou o Estado absolutista, e Rousseau, 05. B teórico iluminista que sistematizou o conceito de Estado 06. B democrático. Apesar de ideologicamente divergentes, 07. D suas doutrinas compartilham essencialmente de duas 08. ideias originais: a teoria do "direito natural" e do "contrato". 1. Enquanto, para Hobbes, o homem no estado de Intervenção estatal na economia. natureza vivia em guerra permanente um com o outro, Legitimação do poder monárquico pela Igreja. para Rousseau, a criação da propriedade privada dá Hereditariedade do poder. origem a uma desigualdade que aboliu os estados de 2. A imagem faz alusão ao soberano, aquele que felicidade e igualdade originais, nos quais os humanos detém poder máximo, acima de qualquer outra existiam sob a forma do bom selvagem. Daí para ambos a esfera de poder na sociedade. necessidade de um contrato social pelo qual os indivíduos 09. A concordam em transferir a um terceiro o soberano o 10. B poder para criar e aplicar as leis, tornando-se autoridade política. Sendo que, para Hobbes, o pacto institui o Seção Enem Acertei Errei Estado. Enquanto, para Rousseau, o pacto cria a vontade geral, o corpo moral coletivo ou o Estado. 01. 05. B Nesse sentido, as concepções de estado de natureza e 04. E 06. de contrato, como presentes no pensamento de Hobbes e de Rousseau, Total dos meus acertos: de % 62 Coleção 6VFRENTE MÓDULO HISTÓRIA A 06 Mercantilismo o conjunto de práticas econômicas dos Estados europeus A principal intenção dessas práticas era garantir uma balança principalmente das monarquias absolutistas durante a comercial favorável aos países da Europa, uma vez que, Idade Moderna recebe o nome de Esse termo durante a Idade Moderna, pensava-se que todas as riquezas foi cunhado a posteriori por economistas do século XIX que do mundo estavam numa posição estática e constante, criticavam tais medidas. As primeiras práticas mercantilistas razão pela qual o comércio era tido como uma atividade em tiveram origem em meados do século XV, quando a Europa sofria com a escassez de metais preciosos, e atingiram seu que havia um ganhador e um perdedor, sendo o seu resultado auge no século XVI. equivalente a uma soma zero. Nesse sentido, a nação que A crença na intervenção do Estado na economia era um conseguisse um saldo positivo em suas transações comerciais dos fundamentos do mercantilismo. Nesse contexto, com o garantiria sua superioridade em relação às demais. objetivo de fortalecer os países europeus, os chefes de Estado Para garantir o sucesso na acumulação de riquezas, aprovavam leis que regulavam as atividades econômicas era necessário, ainda, que houvesse a regulamentação do em seu território, impondo limites ao livre mercado. Tais medidas visavam, principalmente, à acumulação de comércio de produtos vindos do exterior. o aumento das metais preciosos e à consequente sustentação dos Estados. tarifas alfandegárias foi o principal método para alcançar tal o ouro e a prata, transformados em moeda, garantiram objetivo, uma vez que a taxação sobre produtos estrangeiros a formação da burocracia estatal e a manutenção de um reduzia as chances da entrada destes em um Estado e, como poderoso Exército e de uma frota naval. consequência, impedia a saída de metais preciosos. Nos reinados de Henrique VIII e de Elizabeth I, ao Se, no plano internacional, a tendência foi o estabelecimento longo do século XVI, o Parlamento inglês "aprovava de taxas aduaneiras, internamente havia a necessidade da de que controlavam muitos aspectos da vida eliminação das barreiras. Dessa forma, a unificação dos econômica, da defesa nacional, níveis estáveis de salários e mercados dentro de um mesmo país foi uma característica preços, padrões de qualidade dos produtos industriais, apoio desse período e também colaborou para o fortalecimento aos indigentes e punição aos preguiçosos, e outros desejáveis econômico dos objetivos sociais". o investimento nas manufaturas nacionais também foi STONE, Lawrence. As causas da Revolução Inglesa comum, posto que o fortalecimento da produção manufatureira 1529-1642. São Paulo: Edusc, 2000. [Fragmento] impedia a concorrência no mercado internacional e evitava Apesar de ter sido uma prática predominante durante a necessidade da aquisição de produtos estrangeiros. boa parte da Idade Moderna, a intervenção do Estado na Os monarcas incentivavam a produção interna por meio da economia foi alvo de severas críticas pelos teóricos liberais concessão de privilégios aos interessados. do século XIX. Para eles, a atuação estatal provocava uma limitação ao desenvolvimento econômico e o atraso das [...] a fim de ajudá-los no grande investimento necessário nações. Desse modo, a consolidação do sistema capitalista a esse estabelecimento concedemos aos ditos industriais a no século XIX foi acompanhada da redução do papel do Estado no plano econômico. soma de 180 libras, soma essa que conservarão por 12 anos sem o pagamento de juros, e no fim desse tempo PRÁTICAS MERCANTILISTAS serão chamados a nos devolver apenas libras e as restantes lhes serão dadas como prêmio. As práticas mercantilistas variaram com o passar dos séculos e de um Estado para outro. Algumas HUBERMAN, Leo. História da do homem. 20. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. [Fragmento] estratégias comuns, no entanto, podem ser verificadas. Bernoulli Sistema de Ensino 3Frente A Módulo 06 Em muitos casos, a determinado produtor era concedido Estabeleceu-se que apenas a poderia negociar até o monopólio da produção de certos artigos em regiões na colônia; e isso com grande razão, porque a finalidade específicas do reino. do estabelecimento foi a constituição do comércio, e não a fundação de uma cidade ou de um novo império [...]. Desejando tratar favoravelmente o senhor Van Robais e servir-me dele como exemplo para os estrangeiros MONTESQUIEU. Do das leis (1748). São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 387. que primam em qualquer espécie de manufatura, a fim de que venham estabelecer-se em nosso reino, pedimos ao prefeito e Sendo o comércio a principal atividade geradora de aos magistrados que lhe forneçam alojamentos convenientes riquezas, era fundamental, naquele contexto, o investimento para a instalação dos teares [...]. Queremos que ele em uma potente Marinha mercante. o incentivo à produção [Van Robais] e os trabalhadores estrangeiros sejam naval garantia o controle dos mares, principal rota de considerados súditos do rei e naturalizados [...]. Ele será comércio entre a América e a Europa. Uma poderosa Marinha ainda isento de impostos, da corveia e de outros encargos de guerra também poderia significar a proteção das frotas públicos durante a vigência da presente concessão [...]. comerciais e vitórias nas inúmeras batalhas entre os recém- Permitimos a esse empresário e aos operários que continuem -formados Estados, já que muitas das disputas entre os a professar a religião reformada [...]. Proibimos a outras países foram, na época, resolvidas por meio da guerra. pessoas limitar ou falsificar a marca dos ditos tecidos, pelo Apesar do esforço das em manter prazo de vinte anos, bem como que se estabeleçam na cidade inabalável o exclusivo colonial, é válido ressaltar que de Abbeville e a dez léguas de seus arredores oficinas de esse monopólio nem sempre foi tão rígido. Em maior ou tecelagem semelhantes [...]. menor escala, as colônias de Portugal, da Espanha e da LUÍS XIV, ao autorizar o estabelecimento Inglaterra desfrutaram de certa liberdade no interior de manufatura em Abbeville, no ano de 1651. [Fragmento] desse sistema. o estabelecimento dos monopólios foi prática comum entre as nações mercantilistas, pois a concessão do controle MERCANTILISMO NA de determinadas atividades econômicas a particulares PENÍNSULA IBÉRICA garantia a presença do Estado na regulação da economia e atendia aos interesses dos grandes comerciantes. A conquista colonial determinou as características do Tais restrições impostas à livre-circulação de mercadorias mercantilismo na Península Ibérica, pois as riquezas foram fundamentais para o enriquecimento dos comerciantes provenientes das colônias favoreceram a tendência durante parte da Idade Moderna. metalista de suas economias. o monopólio sobre Outra forma de enriquecimento dos comerciantes foi comércio com a América foi fundamental para Portugal e Espanha. Estima-se que 18 mil toneladas de prata e a utilização do monopólio sobre as atividades coloniais, 200 toneladas de ouro foram extraídas da América e levadas conhecido como exclusivo colonial, que também fez parte para a Europa. Também conhecido como bulionismo, desse conjunto de práticas. Teoricamente, a colônia o mercantilismo ibérico caracterizava-se pela preocupação deveria oferecer melhores condições comerciais ao país com o acúmulo de metais preciosos, o que levou ao a que estava submetida a metrópole fornecendo estabelecimento de uma rígida política colonial por parte matéria-prima de maneira exclusiva e consumindo os das Coroas produtos manufaturados metropolitanos, como é exposto no trecho a seguir. A Espanha, privilegiada pela riqueza das suas colônias, estabeleceu uma série de métodos para garantir os o objetivo das colônias é o de fazer o comércio em melhores lucros com a exploração dos metais preciosos condições [para as metrópoles] do que quando é praticado com os provenientes das minas do México e do Peru, como sistema de comboios anuais e o regime de porto povos vizinhos, com os quais todas as vantagens são recíprocas. único, que visavam ao controle sobre o ouro e a prata. 4 Coleção 6VMercantilismo o país contava, ainda, com a Casa de Contratação, com sede Durante o reinado de Elizabeth (1533-1603), o estímulo à em Sevilha, que foi um poderoso órgão de regulamentação pirataria foi uma outra fonte de arrecadação para o Estado do comércio colonial, e com uma forte Marinha de guerra, inglês. Os corsários recebiam autorização da Coroa para conhecida como a Invencível Armada, que auxiliava a pilhar galeões espanhóis carregados de riquezas coloniais. Espanha na proteção das riquezas. Além disso, os Atos de Navegação, editados anos mais A Coroa portuguesa também se esforçou, embora de tarde, durante o processo revolucionário inglês do forma menos organizada, no sentido de controlar a extração século XVII, dificultaram a entrada de navios estrangeiros dos metais preciosos. No século XVIII, auge do período de exploração aurífera nas Minas Gerais, uma série de impostos em seus portos, atacando, principalmente, os interesses foi criada visando a impedir os desvios e o contrabando do holandeses. Tais estímulos ao fortalecimento da Marinha metal. Além disso, foi criada a Casa de Fundição e delimitado foram fundamentais para o controle inglês sobre os o Distrito Diamantino, com o objetivo de ampliar o controle oceanos, principalmente após as vitórias sobre a Invencível na região das Minas. Armada espanhola e sobre as frotas holandesas. Tanto na colonização espanhola quanto na portuguesa, Além de consolidarem uma estrutura comercial na própria a excessiva dependência das riquezas coloniais provocou Europa, os ingleses atuaram também em outras partes consequências negativas nas economias metropolitanas. Se entre os séculos XVI e XVII esses países viveram o seu do mundo. Nas Índias, a atuação inglesa era coordenada período áureo, nos séculos XVIII e XIX, sua força econômica pela Companhia das Índias Orientais. Já na América, foi reduzida. A pouca preocupação com o desenvolvimento a colonização das Treze Colônias e das Antilhas inglesas interno de suas economias levou a um cenário de garantiu o fornecimento de gêneros agrícolas e mercado dependência externa e pouco crescimento logo no início da consumidor para a Inglaterra. Idade Contemporânea. MERCANTILISMO ACUMULAÇÃO PRIMITIVA DE CAPITAIS NA FRANÇA As práticas mercantilistas colaboraram para o As medidas adotadas pela monarquia francesa, desenvolvimento da economia capitalista, estando ligadas à principalmente no século XVII, receberam o nome de sua consolidação no século XIX, afinal, as riquezas originárias industrialismo ou colbertismo graças ao ministro de desse período permitiram a ocorrência do processo conhecido Luís XIV, Jean-Baptiste Colbert, que foi o responsável pela aplicação de práticas de incentivo ao desenvolvimento como acumulação primitiva de capitais. A pilhagem do mundo das manufaturas francesas. o colbertismo, que se colonial e os lucros oriundos do tráfico de escravizados caracterizou pela produção de artigos de luxo, tecidos também contribuíram para a chamada Revolução Comercial e finos, tapeçaria, vidros e papel, visava a manter a balança para o fortalecimento da classe burguesa. Esse acúmulo levou, comercial favorável. As conquistas coloniais também foram no século XVIII, à eclosão e à expansão do capitalismo responsáveis pelo fortalecimento do Estado francês, que, industrial cujo foco era a Inglaterra. De acordo com Karl Marx: por meio do investimento na Marinha e na pirataria, atuou sistematicamente na América, conquistando, assim, metais A descoberta de terras de ouro e prata na América, preciosos e o fortalecimento do poder absolutista. o extermínio, escravização e enterramento da população nativa nas minas, o início da conquista e pilhagem das MERCANTILISMO NA Índias Orientais, a transformação da numa coutada para a caça comercial de peles-negras assinalam a aurora INGLATERRA da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são momentos principais da acumulação original. Segue-lhes de o incentivo às manufaturas, principalmente têxteis, perto a guerra comercial das nações europeias, com o globo a limitação das importações e a tentativa de controle da terrestre por palco. saída de matéria-prima também foram comuns à Inglaterra, caracterizando, assim, a variação mercantilista denominada MARX, Karl. o capital. São Paulo: Nova Cultural, 1988. comercialismo. Bernoulli Sistema de Ensino 5Frente A Módulo 06 EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM Na busca de tais objetivos, os Estados europeus, na época moderna, A) adotaram políticas intervencionistas, regulando 01. (UEG-GO) o mercantilismo refletia a concepção a respeito funcionamento da economia, como protecionismo. das relações entre o Estado e a nação que imperava na B) suprimiram por completo a propriedade privada da época anterior ao começo do romantismo. Era o Estado, terra, submetendo-a ao interesse maior da nação. C) ampliaram a liberdade de ação dos agentes econômicos, não a nação, o que lhe interessava. vistos como responsáveis pela prosperidade nacional. HECKSCHER, Eli F. In: MARQUES, A.; D) determinaram o fim da livre iniciativa, monopolizando BERUTTI, F.; FARIA, R. História moderna através de textos. as atividades econômicas rurais e urbanas. São Paulo: Contexto, 1999. p. 85. E) buscaram a formação de uniões alfandegárias que o texto trata do conjunto de diferentes práticas econômicas, levassem a prosperidade aos países envolvidos. conhecido como Mercantilismo. Entre suas principais concepções estava o Ideal Metalista, que consistia na 04. (FAMERP-SP-2020) A base comum das ideias mercantilistas consiste na atuação de dois novos fatores: os Estados A) noção de que metade do metal produzido por um Modernos nacionais, ou seja, as monarquias absolutas, e os Estado deveria ser doado para a Igreja em troca de efeitos de toda ordem provocados pelas Grandes Navegações apoio político e descobrimentos sobre a vida das sociedades europeias. B) perspectiva de que a atividade mineradora de ouro, FALCON, Francisco. Mercantilismo e transição. 1986 (Adaptação). prata e bronze deveria ser monopolizada pelo Estado. Os dois fatores mencionados no texto expressam-se, C) noção de que a riqueza de um Estado dependia da respectivamente, quantidade de metais preciosos dentro de suas fronteiras. A) no intervencionismo econômico dos Estados Modernos D) perspectiva de que o metal precioso produzido nas e no aumento dos metais nobres entesourados. colônias deveria ser utilizado como lastro do dinheiro B) na redução significativa do comércio interno europeu circulante na e na colonização da América e da África. 02. (UEFS-BA) A íntima relação observada entre o Estado C) no desenvolvimento de teorias voltadas à defesa do livre comércio e na política de degredo de Absolutista e a teoria e prática do mercantilismo nos encarcerados. séculos XVII e XVIII indica D) na difusão das ideias sociais libertárias e no A) o crescente fortalecimento da classe dos mercadores, aperfeiçoamento dos instrumentos e das técnicas de tornando-se uma força política hostil à concentração do navegação. poder na figura dos monarcas. E) no controle político burguês dos Estados Modernos e no surgimento de órgãos regradores do comércio B) a expansão do colonialismo e a crescente perda do poder internacional. do Estado no controle das populações coloniais. C) o financiamento do Estado à burguesia comercial para 05. (Mackenzie-SP) Fundamental para a estruturação a expansão marítima, sem o que seria impossível a do sistema colonial português na Idade Moderna, organização das expedições. o chamado "exclusivo colonial" visava, sobretudo, a A) estimular, nas colônias, uma política de industrialização D) a permanência da ideologia religiosa que apoiava as que permitisse à metrópole concorrer com suas atividades lucrativas, se fossem orientadas pela Igreja rivais industrializadas. e pelo Estado. B) reservar a grupos ou a companhias privilegiadas ou E) a intervenção do Estado nas práticas econômicas, como mesmo ao Estado o comércio externo das colônias, instrumento para o fortalecimento do próprio Estado. tanto o de importação quanto o de exportação. C) restringir a tarefa de doutrinação dos indígenas 03. (Unesp) o mercantilismo é entendido como um conjunto americanos exclusivamente aos membros da de práticas, adotadas pelo Estado absolutista na época Companhia de Jesus, assegurando, dessa forma, o poder real entre os povos nativos. moderna, com objetivo de obter e preservar riqueza. D) impedir, nas colônias, o acesso de fidalgos mazombos A concepção predominante parte da premissa de que a a cargos administrativos importantes, reservados a riqueza da nação é determinada pela quantidade de ouro fidalgos reinóis. e prata que ela possui. E) orientar a produção agrícola conforme as exigências Disponível em: www.historianet.com.br da população colonial, evitando, por esse meio, crises Acesso em: 3 mar. 2008. de abastecimento de alimentos nos centros urbanos. 6 Coleção 6VMercantilismo EXERCÍCIOS RESOLUÇÕES NO A) Todas as afirmações anteriores são verdadeiras. Bernoulli Play B) Apenas a afirmativa IV é correta. PROPOSTOS C) Apenas as afirmativas II e IV estão corretas. D) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. 01. (Unesp-2021) As práticas econômicas mercantilistas são E) Todas as afirmações anteriores são falsas. frequentemente relacionadas aos Estados Modernos e representam A) uma concentração de capitais, alcançada principalmente 04. (UFRN) o fragmento textual seguinte se refere a uma K646 por meio da exploração colonial e de mecanismos de característica de sociedades africanas em épocas proteção comercial. anteriores à expansão marítima e comercial europeia. B) uma difusão do comércio em escala mundial, obtida com a globalização da economia e a multipolaridade A forma como uma sociedade organiza a distribuição geoestratégica. dos bens que produz ou adquire revela muito do caráter C) uma redução profunda no grau de intervenção do desta sociedade, de seus valores, usos e costumes. Estado na economia, que passou a ser gerida pelos No caso das sociedades de linhagens da África negra, movimentos do mercado. todo o sistema social estava baseado nas esferas da D) o resultado da concentração do poder político nas mãos de governantes que defendiam, sobretudo, os reciprocidade e da distribuição, como forma de garantir a valores e interesses da burguesia industrial. coesão social do grupo. Os velhos guardam a experiência E) o combate sistemático às formas compulsórias de e o conhecimento dos costumes. Assim, não era uma trabalho, que impediam o crescimento dos mercados sociedade dirigida pelos mais produtivos e dinâmicos consumidores internos nos países europeus. (como na lógica capitalista) e, sim, pelos que guardavam a tradição e o saber mágico. 02. (UEPB) o modelo econômico dos Estados Nacionais, BCNI conhecido genericamente por mercantilismo, corresponde SILVA, Francisco C. T. da. Conquista e colonização da América ao estágio inicial do capitalismo. portuguesa. In: LINHARES, Maria Yedda (org.). História geral Assinale a alternativa que é compatível com a referida etapa. do Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990. p. 48 (Adaptação). A) Nessa fase, o maior volume de capitais investido por Ao estabelecer uma comparação entre a organização países como Portugal está voltado para a produção de artefatos industriais. social expressa no fragmento e as sociedades africanas B) Em um momento de crescimento das atividades exploradas pelos europeus à época das Grandes comerciais, o desmonte de barreiras alfandegárias Navegações, é correto afirmar: é prática comum entre os países europeus. A) A organização da sociedade de linhagens sofreu C) A intervenção do Estado na economia objetiva mudanças a partir da generalização do comércio garantir o acúmulo de capitais através da exploração escravista promovida por interesses mercantilistas colonial, viabilizando, por consequência, a obtenção na África. de resultados favoráveis na balança comercial. D) A opção pelo modelo econômico mercantilista B) A existência prévia da escravidão na África possibilitou descartou a utilização de escravos como capital móvel, a manutenção da sociedade de linhagens, sem centrando as atenções exclusivamente na utilização transformações sociais significativas. dos cativos na produção agrícola. C) o papel social desempenhado pelas lideranças nativas E) A instalação de monarquias fortes e centralizadoras permaneceu inalterado apesar da ampla divulgação não foi condição indispensável para a implementação do cristianismo entre os povos africanos. de medidas econômicas que permitiram a acumulação de capitais por parte dos setores burgueses na Europa. D) o conquistador europeu encarava a organização societária de linhagens como uma ameaça à sua 03. (UFPI) Entre os séculos XV e XVIII, vigorou na Europa dominação e, por isso, subjugou inicialmente os uma série de doutrinas e práticas econômicas que se anciãos. tornaram conhecidas como mercantilismo. Sobre essa doutrina, podemos afirmar 05. (Unifor-CE) Considere a ilustração. I. que tinha como objetivo fortalecer o Estado e a SQJP burguesia, numa fase de transição do feudalismo ao de capitalismo. Estado II. que tinha no intervencionismo estatal uma estratégia Latifúndio chave para promover a acumulação primitiva de Dependência externa capital nos Estados Modernos. Monocultura III. que tinha no metalismo, na balança comercial favorável, no protecionismo e no intervencionismo Escravidão estatal os seus princípios basilares. IV. que teve características específicas em diferentes ALENCAR, Francisco et al. História da sociedade brasileira. países europeus. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1981. p. 25. Bernoulli Sistema de Ensino 7Frente A Módulo 06 Com base no conhecimento do processo histórico da América D) o metalismo foi uma prática portuguesa que consistia em Portuguesa, é possível afirmar que a ilustração refere-se acumular metais através da extração de ouro e prata das A) à estrutura política e social da colonização de povoamento. colônias ultramar, primeiramente descobertos no Brasil. B) ao sistema colonial de produção de manufatura E) A Inglaterra e a França se destacaram no comércio de algodoeira. artigos luxuosos, enquanto os ingleses produziam os ricos tecidos, os franceses os compravam para usar C) à estrutura administrativa autônoma da colônia em suas roupas, uma espécie de colaboracionismo portuguesa. que perdurou durante todo o período. D) ao poder dos senhores feudais na organização das colônias. 07. (UFU-MG) mercantilismo foi um conjunto de doutrinas E) ao sistema de colonização baseado no monopólio e práticas econômicas que vigoraram na Europa desde a comercial. metade do século XV até meados do século XVIII, sendo vital para a acumulação capitalista. 06. (PUCPR) Acontece que XIV provavelmente tinha A respeito desse contexto, podemos afirmar que excelente faro para os negócios sem falar que o monarca A) Inglaterra e França foram as nações pioneiras devia achar muito sem graça ver todo mundo vestido de nas Grandes Navegações, impulsionadas pelas preto constantemente -, pois ele convocou seu Ministro novas descobertas científicas e pela centralização das Finanças, Jean-Baptiste Colbert, para uma conversinha administrativa, proporcionada pelo Estado absolutista, sobre indumentárias. Aconselhado pelo político, o rei responsável pelo combate aos contrabandistas e aos proibiu a importação de tecidos estrangeiros e estabeleceu piratas espanhóis e portugueses. uma gigantesca indústria têxtil no país para suprir as B) através da produção de artigos manufaturados, Portugal necessidades da população mais abastada. Além disso, se firmou como a maior potência do final do século XVII, Luís XIV e Colbert determinaram que novos modelos de enquanto a Inglaterra, restrita à acumulação de ouro e roupas fossem criados duas vezes ao ano com tecidos de prata extraídos de suas colônias, ficou dependente inéditos. Assim, os costureiros que atendiam à nobreza da importação de manufaturados. passaram a apresentar uma coleção de roupas no inverno C) a colonização, sustentada pela grande utilização de e outra no verão sem se esquecer de incluir acessórios trabalho escravo de índios e negros nas chamadas como leques, capas, sombrinhas, casacos, etc. entre os colônias de povoamento, foi vital para o acúmulo itens. o rei decretou ainda que os nobres que desejassem de capitais naquele momento, quando Portugal e visitá-lo no Palácio de Versalhes deveriam se vestir apenas Espanha incentivaram a produção manufatureira e o com modelos da última moda, e teve a ideia de financiar comércio interno. a produção de catálogos que apresentavam as novas D) com o intervencionismo estatal e protecionismo, coleções. Dessa forma, a aristocracia francesa e do resto o Estado Moderno estimulava o progresso burguês e da Europa podia selecionar os itens que desejava comprar. evitava a concorrência comercial de países vizinhos, RINCON, Maria Luciana. Você sabia que Rei XIV da França fixando tarifas alfandegárias, controlando preços e foi o inventor da alta costura? Disponível em: http://www. dificultando a importação de produtos concorrentes. megacurioso.com.br/personalidades/75642-voce-sabiaque-rei- Acesso em: 12 fev. 2017. 08. (UPF-RS) Entende-se por mercantilismo o conjunto de ideias e práticas econômicas dominantes na Europa o Mercantilismo foi uma série de práticas de enriquecimento entre os séculos XV e XVII. Seu período de dominação dos Estados Nacionais entre os séculos XV e XVIII, como corresponde à fase de transição do feudalismo para exemplo, na França o Rei XIV e seu ministro Colbert capitalismo e ficou marcado pela intervenção estatal na tentaram ampliar os ganhos da coroa com o aumento economia, caracterizado de taxas e também do comércio de artigos de luxo, A) pela limitação das atividades das companhias chamado Colbertismo. comerciais privadas, em função dos privilégios Acerca das práticas mercantilistas dos Estados Nacionais, concedidos às empresas estatais. marque a afirmativa correta: B) pela preocupação com o enriquecimento da burguesia A) o protecionismo era aumentar as taxas dos produtos em detrimento da nobreza feudal, garantindo a exportados e diminuir dos importados, assim ganharia aliança de burgueses de vários países. mais com a venda e facilitaria a compra. C) pelo monopólio metropolitano sobre as colônias da B) Uma das práticas do Mercantilismo, usada ainda hoje América, o qual passou a estimular as disputas entre para equilibrar as finanças dos países, é a balança as grandes empresas comerciais de propriedade da comercial favorável, que consiste em exportar mais do burguesia. que importar para evitar o endividamento e aumentar D) pelas teorias metalistas, que, ao defender práticas os ganhos. protecionistas, promoveram grande rivalidade entre C) Espanha e Portugal foram as primeiras a conquistar as nações europeias. colônias e extrair metais para enriquecer, assim E) pelo controle exclusivo externo, em contraposição à conseguiram um excedente que propiciou serem livre concorrência interna, tanto nas áreas coloniais pioneiras no investimento industrial. quanto nas metropolitanas. 8 Coleção 6VMercantilismo 09. (UFMG) o objetivo das colônias é o de fazer o comércio 11. (UFPel-RS) A causa principal, quase única, da alta em melhores condições [para as do que dos preços (que ninguém até agora mencionou) é a quando é praticado com os povos vizinhos, com os quais abundância do ouro e da prata existente hoje em dia neste todas as vantagens são recíprocas. Estabeleceu-se que reino, em escala bem maior do que há quatrocentos anos. apenas a metrópole poderia negociar na colônia; e isso Mas, diria alguém, de onde pode ter vindo, desde então, com grande razão, porque a finalidade do estabelecimento assim tanto ouro e tanta prata? [...] Os castelhanos, foi a constituição do comércio, e não a fundação de uma submetendo ao seu poder as novas terras ricas em cidade ou de um novo império [...]. ouro e prata, abarrotaram a Espanha. Ora, a Espanha MONTESQUIEU. Do espírito das leis (1748). que só vive graças à França, vendo-se inevitavelmente São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 387. forçada a vir buscar aqui cereais, linhos, tecidos, papel, Considerando-se as informações desse trecho, é incorreto corantes, livros, artefatos de madeira e todos os tipos afirmar que as colônias europeias, na Época Moderna, de manufaturas, vai procurar para nós, nos confins do A) deveriam levar ao estabelecimento e ao incremento mundo, o ouro e a prata. do comércio, regulando-se em função dos interesses BODIN, Jean. Da República. recíprocos entre as colônias. As afirmações de Bodin apontam para B) deveriam oferecer às metrópoles melhores condições de comércio que as verificadas entre os países A) uma crítica ao mercantilismo metalista (bulionismo) europeus e seus vizinhos. e seus malefícios sobre as manufaturas, assim como sobre o valor monetário, no início da Idade Moderna. C) estariam sujeitas ao exclusivo comércio das metrópoles, cujos negócios essas colônias deveriam B) uma explicação da valorização monetária, com o incrementar. afluxo de metais preciosos para a Europa, e da D) foram estabelecidas com finalidades comerciais, pois, autonomia econômica ibérica, durante a Revolução inicialmente, não era objetivo das metrópoles fundar Comercial. um novo império. C) a importância do ouro e da prata no crescimento das manufaturas espanholas, com consequente prejuízo 10. (UFU-MG) Com o objetivo de aumentar o poder do Estado para a agricultura. CAA1 diante dos outros Estados, [o mercantilismo] encorajava D) a eficiência maior do protecionismo francês, em a exportação de mercadorias, ao mesmo tempo em que relação ao devido à precedência dos gauleses proibia exportações de ouro e de prata e de moeda, na no colonialismo moderno. crença de que existia uma quantidade fixa de comércio e riqueza no mundo. E) o início da Revolução Industrial de 1760, na França, ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado absolutista. provocada pela exploração e pela comercialização de São Paulo: Brasiliense, 1998. p. 35. metais preciosos pelos ibéricos, na América. o trecho anterior refere-se aos princípios básicos da doutrina mercantilista, que caracteriza a política SEÇÃO ENEM econômica dos Estados Modernos dos séculos XVI, XVII e XVIII. Com base nessa doutrina, marque a alternativa correta. 01. (Enem) A ocasião fez o ladrão: Francis Drake travava A) A doutrina mercantilista pregava que Estado deveria sua guerra de pirataria contra a Espanha papista quando se concentrar no fortalecimento das atividades roubou as tropas de mulas que levavam o ouro do produtivas manufatureiras, não se envolvendo em Peru para o Panamá. Graças à cumplicidade da rainha guerras e em disputas territoriais contra outros Estados. Elizabeth I, ele reincide e saqueia as costas do Chile e do Peru antes de regressar pelo Oceano Pacífico, e depois B) Uma das características do mercantilismo é pelo Índico. Ora, em Temate ele oferece sua proteção a competição entre os Estados por mercados a um sultão revoltado com os portugueses; assim nasce consumidores, cada qual visando fortalecer as o primeiro entreposto inglês ultramarino. atividades de seus comerciantes, aumentando, consequentemente, a arrecadação de impostos. FERRO, M. História das colonizações. Das colonizações às Independências. Séculos XIII a XX. C) Os teóricos do mercantilismo acreditavam na São Paulo: Cia. das Letras, 1996. possibilidade de conquistar mercados por meio da livre-concorrência, de modo que era essencial A tática adotada pela Inglaterra do século XVI, conforme desenvolver produtos competitivos, tanto no que diz citada no texto, foi o meio encontrado para respeito ao preço como em relação à qualidade. A) restabelecer o crescimento da economia mercantil. D) A conquista de áreas coloniais na América é a base B) as riquezas dos territórios americanos. de qualquer política mercantilista. Tanto que o ouro e C) legalizar a ocupação de possessões ibéricas. a prata, de lá provenientes, possibilitaram ao Estado espanhol figurar como o mais poderoso da Europa D) ganhar a adesão das potências europeias. após a Guerra dos Trinta Anos. E) a fortalecer as rotas do comércio marítimo. Bernoulli Sistema de Ensino 9Frente A Módulo 06 02. o mercantilismo não é, efetivamente, uma política econômica que vise ao bem-estar social, como se diria hoje; visa ao desenvolvimento nacional a todo custo. Toda forma de estímulo é legitimada, a intervenção do Estado deve criar todas as condições de lucratividade para as empresas poderem exportar excedentes ao máximo. NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1981. [Fragmento] o texto trata do objetivo central da política econômica do mercantilismo presente nos Estados absolutistas. A prática econômica diretamente associada a esse objetivo visava garantir o A) desenvolvimento manufatureiro por meio do estímulo às importações. B) estabelecimento de uma balança comercial favorável por meio da colonização. C) fortalecimento da frota naval para exportar metais preciosos. D) intervencionismo estatal pelo crescimento da oferta de trabalho. E) protecionismo alfandegário pelo aumento da produção agrícola. SEÇÃO FUVEST / UNICAMP / UNESP GABARITO Meu aproveitamento Aprendizagem Acertei Errei 01. C 04. A 02. E 05. B 03. A Propostos Acertei Errei 01. A 07. D 02. C 08. C 03. A 09. A 04. A 10. B 05. E 11. A 06. B Seção Enem Acertei Errei 01. B 02. B Total dos meus acertos: de % 10 Coleção 6V