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2 Disponibilidades e Contas a Receber 2.1 Introdução No Brasil, por força da Lei n° 6.404/1976, art. 178, tem-se que no Ativo Circulante as contas deverão ser organizadas das mais líquidas para as menos líquidas. Por essa razão, as disponibilidades são apresentadas inicialmente. Os recebíveis são o tipo mais usual de instrumentos financeiros, respectivamente derivados de vendas ou prestações de serviços. Por conta da sua intrínseca vinculação às práticas negociais das organizações, encontram-se regulados tanto pelo CPC 48 - Instrumentos Financeiros, quanto pelo CPC 47 Receita de Contratos com Cliente. 2.2 Conteúdo e classificação do subgrupo Disponibilidades As aplicações em títulos de liquidez imediata e aplicações financeiras resgatáveis aproximadamente no prazo de 90 dias da data do Balanço são classificáveis como Equivalentes de Caixa, devendo, todavia, ser mostradas em conta à parte, mas apenas quando possuírem baixa probabilidade de risco e liquidez da contraparte. Esse entendimento segue o disposto no CPC 03, item 6, as "aplicações financeiras de curto prazo, de alta liquidez, que são prontamente conversíveis em um montante conhecido de caixa e que estão sujeitas a um insignificante risco de mudança de valor". Posto isso, não há grandes desafios na classificação dos elementos componentes do conceito de disponibilidades, cujo elenco não exaustivo pode ser tomado pelas seguintes rubricas: (a) caixa; (b) fundo fixo; (c) caixa flutuante; (d) depósitos bancários à vista; (e) numerários em trânsito; e (f) aplicações de liquidez imediata. 2.2.1 Do atual tratamento aplicável aos criptoativos o IFRS Interpretations Committee concluiu, no ano de 2019, que tais ativos digitais não se elegem para definição de moeda, à medida que não servem para balizar os preços de outros produtos e serviços (pelo menos por enquanto). Adicionalmente, o mesmo Comitê Scanned with CamScannerMANUAL PRÁTICO DE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e Gelbcke 14 de entendeu que os criptoativos não atendem atualidade às definições não são de instrumentos considerados Interpretações do CPC 39. Em síntese: os criptoativos na de tratamento financeiros instrumentos financeiros. Essa não possibilidade literalidade da como nem caixa e nem financeiro deve-se, segundo aquele órgão, à (no definição atual instrumento de instrumento financeiro que exige a existência de uma contraparte caso, a entidade devedora). Por isso, as interpretações do IFRS Interpretations Committee comerciais com indicaram o propósito que de criptoativos, quando adquiridos ou recebidos em transações ou seja, para quem compra negociação ativa no decurso ordinário das atividades negociais, sob a perspectiva do CPC 16 e vende esses ativos, devem segundo ser tratados esse órgão, como os criptoativos estoques devem ser tratados como ativos intangíveis Estoques. Caso sob a ótica do CPC 04 Ativo Intangível. Em ambos os casos, os criptoativos contrário, devem ser submetidos à regra geral do teste de impairment disposta no CPC 01 Redução ao Valor Recuperável de Ativos. E não cabendo em nenhuma das duas hipóteses, isto é, enquadramento como Estoque ou como Ativo Intangível, a mensuração subsequente dos criptoativos pelo valor justo (a exceção seria a reavaliação de ativos intangíveis, mas vedada na atual legislação brasileira). É óbvio para nós que não se trata da análise mais adequada para os criptoativos que têm mercado ativo. Deixá-los no Intangível, ao valor de custo sem ajuste a valor justo, só reconhecendo mudança de valor se ocorrer perda, não parece fazer com que a demonstração melhor reflita a posição financeira da entidade e seu desempenho. Assim como o real não tem contraparte, esses criptoativos também não têm. Por isso, por que não classificá-los como ativo financeiro mensurado continuamente a valor justo? Componente do Ativo Circulante, mas, por precaução, fora de caixa e equivalentes de caixa? Fica o alerta de que essa posição do IASB pode mudar, inclusive por esse assunto estar na pauta de trabalhos futuros. 2.2.2 Saldos em moeda estrangeira Valores em moeda estrangeira devem ser registrados em subcontas à parte e seu saldo deve ser traduzido pela taxa cambial de venda na data do Balanço. Isso pode ocorrer caso a empresa tenha dinheiro em caixa em moeda estrangeira ou depósitos bancários em outros países. Nesse caso, devem ser também analisadas as eventuais restrições a que possam estar sujeitos tais valores, seja pela legislação local, seja pela do outro país. As referidas restrições devem ser claramente mencionadas nas demonstrações contábeis ou em nota explicativa. A variação cambial correspondente ao ajuste do saldo em moeda nacional à nova taxa de câmbio deverá ser lançada, em resultado do exercício, no grupo de Despesas e Receitas Financeiras, nas subcontas à parte de Variações Monetárias, conforme previsto no Modelo de Plano de Contas. Como regra, para a conversão em moeda nacional, a taxa de compra utilizada pela instituição financeira é a que deverá ser adotada. Quando houver evidência de que os recursos serão utilizados no exterior para pagamentos de despesas, compras de ativo etc., os saldos em moeda estrangeira poderão ser convertidos pela taxa de venda da instituição financeira na data do Balanço. Scanned with CamScannerDISPONIBILIDADES E CONTAS A RECEBER 15 2.3 Contas a receber A quantidade de contas contábeis cabe a cada entidade, de acordo com a necessidade e a natureza do negócio. Os indicativos, não exaustivos, de contas atreladas ao conceito de contas a receber por este Manual são: a) Contas a receber de clientes: representa o valor da contraprestação do cliente devi- da em função do cumprimento de uma obrigação de desempenho. Contas a receber de clientes é um instrumento financeiro de acordo com o CPC 48 Instrumentos Financeiros, por conta do cumprimento de obrigações negociais sob a ótica do CPC 47 Receita de Contrato com Cliente; é necessário verificar este último CPC, como no Capítulo 18 - Receitas de Vendas, para se saber quando reconhecer essas contas a receber. b) Contas a receber de partes relacionadas (transações operacionais): o CPC 26 Apresentação das Demonstrações Contábeis (item 78b) estabelece que essas contas devem ser segregadas em montantes a receber de clientes comerciais, contas a rece- ber de partes relacionadas, pagamentos antecipados e outros montantes. c) Contas a receber relativas a componentes de financiamento: quando da existên- cia de componente de financiamento significativo no contrato (nas vendas a prazo), a empresa deverá reconhecer a receita separando os componentes da receita do contrato com clientes (equivalente ao preço de venda à vista) e da receita de juros (embutidas no preço de venda). d) Perdas estimadas com crédito de clientes (natureza credora): refere-se ao concei- to de impairment de ativos financeiros disposto no item 5.5.1 do CPC 48. Na conta- bilidade brasileira, tratada como Perdas Estimadas com Crédito de Liquidação Du- vidosa (PECLD), representando o percentual das vendas e prestações de serviços a prazo às quais se tenha alguma expectativa de inadimplemento. e) Ativos de contratos: referem-se ao direito da entidade à contraprestação em troca de bens ou serviços quando esse direito está condicionado a algum fato além da passagem do tempo, como, por exemplo, algum tipo de desempenho futuro. Ca- pítulo 26, sobre Concessões, cuida desses ativos. 2.3.1 Perdas estimadas em créditos de liquidação duvidosa (PECLD) a) CONCEITO Os conceitos de PECLD tratados neste capítulo são também abordados e expandidos no financeiros. Capítulo 10 Instrumentos Financeiros. Veja a discussão de teste de impairment de ativos A estimativa de perdas com créditos de liquidação duvidosa utilizada por instituições não sobre financeiras é normalmente obtida por meio da contagem histórica dos recebíveis inadimplidos o valor total das vendas ou prestações de serviços cujos recebimentos ocorreriam meio de quitação a prazo esse procedimento é denominado de abordagem simplificada, por de acordo com o CPC 48. Mas há critérios mais técnicos. Scanned with CamScannerMANUAL PRÁTICO DE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e Gelbcke 16 de PECLD devem ser contabilizadas pelas estimativas Deve-se, de na valores data do que cubram As rubricas diversas contas desse subgrupo. Balance a expectativa de perdas da composição nas de cada uma das contas, estimando-se mais as prováveis perdas efetuar uma análise saldo receber ao valor provável de realização. As contas suscetíveis cobrança. a essas e perdas reduzindo são as o de valores a a receber de clientes, títulos a receber, cheques em b) MENSURAÇÃO E CONTABILIZAÇÃO constituição da perda estimada tem como contrapartida contas de despesas operacionais E essa A conta vai gerando mais despesas quando o valor esperado de perda cresce, ou receitas por reversão de saldo quando o valor esperado cai. Quando um saldo se torna efetivamente incobrável, ou seja, quando se esgotaram sem sucesso os meios possíveis de cobrança e uma perda estimada se converte em uma perda certa, sua baixa da conta de clientes deve ser feita tendo como contrapartida a própria conta de PECLD. Exemplo prático Admita-se um saldo de R$ 100.000 de Duplicatas a Receber, com valores e prazos, a vencer e já vencidos, conforme o Quadro 2.1. Quadro 2.1 Não A vencer A vencer A vencer A vencer A vencer vencidas Total + 180 Duplicatas a 22.500 25.000 20.000 15.000 15.000 receber 2.500 100.000 % de perda 2% 5% 10% 20% estimada 50% 100% PECLD 450 1.250 2.000 3.000 7.500 2.500 16.700 Reconhecimento da despesa de PECLD Débito Crédito Despesa com PECLD a PECLD (redutora do Ativo) 16.700 16.700 revisada Após pelo o reconhecimento menos mensalmente da PECLD, a análise por categoria seguinte à mensuração da ocorrem com o objetivo de atualizar seu de saldo. vencimento No decorrer deve do mês ser seguinte o por modelo conta da sua liquidação a receber, enquanto outras novas duplicatas duplicatas são são baixadas geradas, aumentando o saldo de Duplicatas diversos eventos, por exemplo, um saldo inferior de da PECLD demonstre Dessa forma, suponha que no despesa de PECLD: ao do período anterior. Nesse caso, será um necessário valor de realizar R$ 10.000, a reversão da Scanned with CamScannerCap.2 DISPONIBILIDADES E CONTAS A RECEBER 17 Reversão da despesa de PECLD Débito Crédito PECLD (redutora do Ativo) 6.700 a Receita de reversão da PECLD (resultado) 6.700 Considere agora que o modelo de mensuração aponta a necessidade de uma perda estimada de R$ 25.000, portanto, seria necessário acrescentar em $ 15.000 o saldo atual (não há evidências ainda de que a perda estimada se torne efetiva). Após o novo ajuste realizado, o saldo da conta redutora do Ativo PECLD será de Considere que, no período seguinte, o Cliente B, que devia uma duplicata no valor de R$ 3.000, vencida há mais de 150 dias, e que já tinha 50% do saldo em perdas estimadas, entrou em recuperação judicial, esgotaram-se todas as possibilidades de recebimento do valor devido e a duplicata a receber desse cliente foi considerada incobrável. o registro será a utilização da conta de PECLD para abater a conta a receber de clientes (afinal, a despesa já foi reconhecida no passado): Débito Crédito PECLD (redutora do Ativo) 6.700 a Duplicatas a receber (ativo) 6.700 Ou seja, não se reconhece como despesa porque a despesa já foi reconhecida antes. Finalmente, suponha que, supreendentemente, o Cliente B, após ter sido considerado incobrável, apareceu e pagou integralmente a duplicata no valor de R$ 3.000, com ou sem outros acréscimos. Nesse caso, como o título já havia sido baixado da conta Duplicatas a receber, deve-se reconhecer uma receita do resultado do exercício: Reconhecimento da receita Débito Crédito Bancos 3.000 a Receita de recuperação de crédito 3.000 É importante lembrar que, para efeitos fiscais, a despesa só é reconhecida após determinados fatos que aqui não vamos discriminar. Para isso, deverá haver o devido controle contábil e ajustes no LALUR. 2.4 Outros créditos 2.4.1 Conceito e critérios contábeis Esse grupo de contas é composto pelos demais títulos, valores e outras contas a receber, normalmente não originadas do objeto principal da sociedade. Os critérios de avaliação e mensuração são os mesmos, isto é, devem ser demonstrados por seus valores líquidos de realização, ou seja, por valores que se espera sejam recuperados, reconhecendo-se as perdas estimadas apresentadas como contas redutoras. Scanned with CamScannerDE CONTABILIDADE SOCIETÁRIA Santos, Martins e 18 MANUAL classificadas no Ativo ano Circulante após a data todas da constituem as contas realizáveis Ativo seja Não ela de Circulante. em final de normais ou São dentro do as prazo que tiverem de um Créditos vencimento podem ser além agrupados os demais e apresentados Deverão, em de valor um só porém, título, com relevante seu segregados total No não Balanço, for espécie, significativo os Outros com comparativamente destaque para por as contas título indicativo importantes, de Contas. quando sua natureza e origem. As Nesse contas caso, mais por as comuns contas estão devem relacionadas ser descritas no Modelo do Plano de 2.4.2 Tributos a compensar e a recuperar a) CONTEÚDO E NATUREZA podem gerar valores a recuperar de impostos, IRRF e outros. tais como Há saldos que se Há diversas operações na linguagem que fiscal) de ICMS, IPI, PIS, Cofins, devedores fazer a segregação (credores, em subcontas para facilidade de controle. crédito relativo a pagamento de Destaca-se que "tributo não a e que, se não houver é débito o com o qual compensar, pode tributos solicitação da mesma de espécie restituição ou em dinheiro. Já a expressão "tributo a recuperar" deduzido identifica do 0 gerar tributo pago na aquisição de bens, embutido no preço, que poderá ser tributo devido sobre vendas ou prestação de serviços, sendo essa normalmente a única forma possível de sua recuperação. b) IPI, ICMS, PIS E COFINS A RECUPERAR Essas contas destinam-se a abrigar, respectivamente, o saldo devedor de Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS), do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Pela própria sistemática fiscal desses impostos, mensalmente os débitos fiscais pelas vendas são compensados pelos créditos fiscais das compras, remanescendo um saldo a recolher ou a recuperar, dependendo do volume de tais compras e vendas. o normal é que tais saldos sejam a recolher, quando figuram Passivo do Ativo Circulante. mas às vezes ocorrem saldos a recuperar, quando então deverão figurar nessa no conta c) IRRF A COMPENSAR quando A conta o valor é debitada do imposto pela retenção retido for quando do registro da operação que a originou e creditada rendimentos e/ou utilização na guia de recolhimento, compensado mediante conforme sua a sistemática inclusão fiscal na declaração determinar de d) IR CS A RESTITUIR/COMPENSAR A conta é debitada de juros (Selic) quando da definido apuração pelo do valor, bem efetivo recebimento de parcelas governo ou do valor para essas total, ou da como crédito pelo do será valor imposto. feito do quando acréscimo do Scanned with CamScannerCap.2 DISPONIBILIDADES E CONTAS A RECEBER 19 e) IR e CS DIFERIDO Nessa conta, será registrada a parcela do Imposto de Renda e Contribuição Social, representa diferenças temporais entre os valores de lucro apurados segundo as normas fiscais que e o regime de competência. Inclui também créditos relativos a prejuízos fiscais (IR) e bases negativas (CSLL). f) OUTROS TRIBUTOS A RECUPERAR Nessa conta, são registrados outros casos de impostos a recuperar pela empresa. Exemplificando, temos: a) Impostos (ICMS e IPI) que são destacados na saída de bens (mercadorias) em de- monstração, consignação etc., que deverão retornar ao estabelecimento. b) Impostos a recuperar por pagamentos efetuados indevidamente a maior etc. 2.4.3 Recuperabilidade Só para lembrar, todos esses saldos precisam ser constantemente analisados quanto à efetiva possibilidade de serem recuperados. Atenção especial àqueles que não podem ser restituídos, e apenas compensados com valores a pagar no futuro em determinadas situações. É o caso especial de IR e CSLL diferidos, eis que sua recuperação só acontece se lucros futuros tributáveis acontecerem. E lembrar que a prudência tem que ser aplicada sempre. 2.5 Tratamento para pequenas e médias empresas Os conceitos abordados neste capítulo são aplicáveis a entidades de pequeno e médio portes. Scanned with CamScanner

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