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UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA URBANISMO Século XIX A CIDADE INDUSTRIAL Depois da metade do século XVIII, com a Revolução Industrial, ocorreram várias mudanças na sociedade, a princípio na Inglaterra e depois no resto do mundo. Alguns fatores influenciaram a conformação das cidades nessa época, como: - o aumento da população, através da diminuição do índice de mortalidade. Inglaterra: 1760: 6 milhões de habitantes 1801: 8.892.000 habitantes 1830: 14 milhões de habitantes Causas dessa redução: melhoria na alimentação, na higiene pessoal, nas instalações públicas, nas moradias, progresso da medicina e melhor organização dos hospitais. - avanço tecnológico, que permitiu um aumento na produção de bens e serviços pela agricultura, indústria e atividades terciárias. - o aumento demográfico e as transformações na produção influenciaram na redistribuição dos habitantes no território. Camponeses se tornam operários das indústrias e se transferem para as proximidades de seu local de trabalho. A princípio próximo aos cursos d´água e depois às minas de carvão. Mas a partir de 1769, com a criação da máquina a vapor as indústrias podem se instalar em qualquer lugar. Assim, as fábricas passam a se localizar em centros urbanos em rápido desenvolvimento ou próximas a cidades existentes, contribuindo para o crescimento da população local. Manchester: 1760: 12.000 habitantes 1850: 400.000 habitantes Londres: final do século XVIII: 1.000.000 habitantes 1851: 2.500.000 habitantes (superando neste momento todas as cidades do mundo antigo e moderno) - desenvolvimento dos meios de comunicação: estradas, canais navegáveis, ferrovias, navios a vapor. O que possibilitou uma maior mobilidade de pessoas e mercadorias. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA - a rapidez com que ocorreram estas transformações não permitiu que se chegasse a um equilíbrio estável. Assim, os problemas não são resolvidos definitivamente e qualquer solução funciona apenas por um período de tempo. O pensamento liberal de Adam Smith também influencia no urbanismo. O que leva os governos a seguirem seus conselhos e venderem os terrenos de propriedade pública, que são comprados pela classe dominante com a intenção de aplicar no campo imobiliário a liberdade da iniciativa privada. A especulação imobiliária começa assim a causar seus efeitos, o trabalhador que só ganhava o mínimo para sua sobrevivência, gastava parte de seu salário com o aluguel de uma moradia inadequada, muito apertada e construída com material de péssima qualidade, para que seu proprietário tivesse o maior lucro possível. As casas eram todas coladas umas às outras para maior aproveitamento do espaço. As ruas eram o local onde o esgoto corria a céu aberto, os refugos se acumulavam, as pessoas e animais transitavam e as crianças brincavam. O rápido crescimento das cidades modificou sua configuração, alterando o núcleo existente, transformando-o em centro e formando uma nova faixa construída ao redor desse centro, a periferia. Até então a cidade era mensurável, agora não possui mais limites precisos e modifica-se a uma velocidade muito maior. Perde assim, uma de suas principais características: a de ser um ponto de referência por sua estabilidade e ritmo lento. O núcleo central possui uma forma estabelecida, em alguns casos já na Idade Média, com ruas estreitas e tortuosas, casas pequenas e onde se encontram seus principais monumentos (palácios e igrejas). Esta estrutura não consegue abrigar o tráfego e a população sempre crescente da cidade industrial. Essa situação leva as classes abastadas a abandonar o centro e a ocuparem a periferia. O núcleo central passa a ser ocupado pelas classes mais pobres. Várias construções históricas são abandonadas, como conventos e palácios, e seus espaços são subdivididos para abrigarem a população operária. Até mesmo as antigas áreas verdes, como os jardins dos palácios e hortos são ocupados por novas construções. A periferia era um território ainda não formado, livre, onde poderiam acontecer várias iniciativas independentes, como bairros de luxo ou pobres, indústrias e depósitos. Em um determinado momento essas iniciativas se unem em um tecido compacto que não foi previamente planejado. Na periferia as classes sociais tendem a se isolar em bairros destinados a classes homogêneas. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA As residências individuais com jardim, antes restritas ao rei e à nobreza, agora passam a ser acessíveis também aos ricos e à média burguesia. Assim, o grau de independência das casas se torna proporcional ao nível de riqueza de seu proprietário. Os mais pobres moram em edifícios de muitos andares construídos colados uns nos outros. Para piorar a situação os bairros mais pobres se localizam nos lugares mais desfavoráveis como nas vizinhanças das indústrias e das estradas de ferro, longe de qualquer área verde. As casas da cidade industrial são mais higiênicas e confortáveis do que suas predecessoras, visto a queda do índice de mortalidade. Mas então, por que tantas reclamações com relação a essas moradias? A casa na cidade pode ser melhor do que a cabana em que a família vivia no campo. Seus muros são de tijolo e não de madeira, a cobertura de ardósia e não de palha, a mobília e os serviços igualmente primitivos ou inexistentes. Entretanto, ao redor da cabana existia muito espaço para a realização de atividades, criação de animais, depósito de refugos, trânsito, etc. Mas na cidade as casas são construídas encostadas umas às outras e praticamente não existe área livre em seu entorno. Além disso, o aumento da qualidade de vida torna inaceitáveis certos inconvenientes que antes eram inevitáveis. Por volta de 1830, a Europa é assolada por uma epidemia de cólera, o que obriga os governos a intervirem mais diretamente na cidade corrigindo, ao menos, os problemas relativos a higiene. Também surgem na Inglaterra vários estudos sobre a condição de vida nas cidades, como Passado e Presente (1843) de Carlyle e A Situação da Classe Operária (1845) de Engels, entre outros. Carlyle constata os males provocados pela Revolução Industrial, mas não propõe nenhuma solução de ordem prática. Le Play acredita que a causa de todos os males é a aplicação desenfreada do liberalismo de Smith. Já o liberal Cobden vê o problema na não aplicação completa do liberalismo. Engels acha que é preciso eliminar a exploração capitalista de uma classe sobre as outras. Todas essas propostas incorrem no mesmo erro: veem a realidade de forma mais simples do que ela é, propondo apenas soluções gerais. Além disso, alguns relatos são acompanhados por um saudosismo pela cidade antiga. Assim, os escritores de economia e política se empenham em um debate ideológico o qual não engloba o ambiente urbano. A cidade industrial não é vista como um problema a ser resolvido, mas como um fato desagradável. Esses trabalhos são levados ao conhecimento da população. A opinião pública então reage e pede por uma atitude por parte dos governantes. Mas foram precisos mais alguns anos para se instituir UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRAa primeira lei sanitarista na Inglaterra, em 1848, na França só em 1850 e depois nos outros países europeus. Essas leis não resolveram o problema imediatamente, foi preciso um período de formação de pessoal adequado para pô-la em prática. Além disso, as restrições impostas tornaram os alojamentos mais caros e os inquilinos que não conseguiam pagar pelos aumentos eram obrigados a se mudarem para novas habitações precárias em locais mais periféricos. Na primeira metade do século XIX, os problemas da cidade industrial são tantos e tão profundos que não se sabe como ajustar a realidade à situação ideal. Surgem então duas formas de intervir e pensar a cidade: 1- Primeiras tentativas localizadas de intervenção 2- Utopias urbanas UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA 1. PRIMEIRAS TENTATIVAS LOCALIZADAS DE INTERVENÇÃO PARIS Entre 1830 e 1850: início da urbanística moderna. Primeiros a procurarem uma solução para a cidade: técnicos e higienistas. Arquitetos nesse período estavam mais preocupados com o estilo que deveriam adotar: clássico ou gótico? Leis sanitárias: início modesto da complicada legislação urbanística contemporânea. Ação dos reformistas limitada a alguns setores, como a insuficiência de esgotos, de água potável e o controle das epidemias. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA Intervenções não atingem toda a cidade por dificuldades políticas. Não existia uma programação pública que estimulasse e coordenasse as iniciativas públicas e privadas, assim não havia uma verdadeira política urbanística. 1848: movimentos sociais e políticos levam ao poder governos mais conservadores, como Napoleão III, na França, e Bismarck, na Alemanha. Essa direita autoritária e popular instituiu um controle mais direto do Estado sobre vários setores da vida social e econômica. Portanto, executou uma série de reformas, que são continuidade das realizadas nas duas décadas anteriores, mas que não podem ser comparadas a elas por sua coordenação e preocupação contrarrevolucionária. A urbanística transforma-se em um dos mais eficazes instrumentos de poder, principalmente na França. Urbanística neoconservadora: responsável pela reorganização das cidades europeias e de colônias independentes na segunda metade do século XIX e início do XX. O maior exemplo desse tipo de urbanística foi a reforma de Paris empreendida pelo Imperador Napoleão III e pelo prefeito da cidade, Barão Haussmann, entre 1851 e 1870. Essa intervenção é assim considerada por uma combinação de fatores: - amplo poder do Imperador Napoleão III; - o conhecimento pessoal de Haussmann; - o alto nível técnico dos engenheiros da École Polytechnique; UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA - a existência de uma lei urbanística avançada, como a lei de expropriação de 1840 e a lei sanitária de 1850; - a importância cultural de tudo o que acontece em Paris. Foi a primeira vez que um conjunto de determinações técnicas e administrativas foi aplicada em uma cidade que já ultrapassava 1 milhão de habitantes de forma coerente e em um curto espaço de tempo. A reforma de Paris tinha como objetivo transformá-la na cidade mais importante da Europa e sanar algumas deficiências características das cidades que se industrializaram rapidamente, como melhorar a circulação de pessoas e mercadorias, construção de edifícios que atendessem às novas demandas (estações ferroviárias, mercados, edifícios administrativos, hospitais, exposições, salas de espetáculos, etc.), áreas verdes para melhorar a salubridade e atender ao lazer da população, sistema de água e esgoto. Preocupações imediatas: manter a ordem pública e conquistar o povo através de obras imponentes. Além da ordem política existem motivos econômicos e sociais para a reforma. A cidade de Paris cresceu rapidamente atingindo 1 milhão de habitantes, assim o centro não conseguia mais suportar as necessidades da cidade. As ruas estreitas e tortuosas eram inadequadas e insuficientes para o trânsito, as casas não se adequavam às necessidades higiênicas da cidade industrial. As obras que Haussmann executou durante os 17 anos que ficou no poder podem ser divididas em cinco categorias: - obras viárias; - construção de edifícios públicos; - construção de conjuntos habitacionais para a população pobre; - criação de parques públicos; - renovação das instalações de Paris. Haussmann tinha a intenção de enobrecer o novo ambiente urbano através da busca da regularidade, escolha de edifício monumental antigo ou contemporâneo como pano de fundo de cada rua, uniformidade das fachadas nas praças e ruas principais. A grande reforma de Paris fez subir os preços dos terrenos próximos às intervenções e favoreceu o crescimento e desenvolvimento de toda a cidade. Nesse período, a população de Paris passa de UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA 1.200.000 para 2.000.000 habitantes. Cerca de 27.500 casas são demolidas e 100.000 são construídas. A intervenção é considerada satisfatória de modo geral, mas não em relação a distribuição de riquezas. Haussmann foi duramente criticado. Intelectuais e artistas o criticam pela destruição de partes da velha Paris, mas ele leva a melhor contrapondo as perdas aos melhoramentos técnicos e higiênicos. Outras cidades foram modificadas na França durante o reinado de Napoleão III, como Lyon, Marselha, Montpellier, Toulouse, e também cidades históricas como Rouen e Avignon. Cidades de diferentes países também adotam essas estratégias, como Bruxelas (1867 a 1871), Cidade do México (1860), Florença, Barcelona (1859), Viena (1857). Essas reordenações urbanísticas foram inferiores ao modelo original. Na maioria dos casos o plano foi abandonado pela metade, deixando cidades antigas destruídas sem a construção de uma cidade moderna no lugar. VIENA Viena era formada por sua cidade interna, a área mais antiga, de origem medieval ainda cercada por uma muralha com uma faixa no entorno não edificada. Para além desse cinturão a cidade havia se expandido para os subúrbios, que ficaram isolados do núcleo urbano pelas fortificações e pela área militar ao seu redor. Essa grande extensão de terra no centro de Viena, livre e pronta para o desenvolvimento moderno, foi uma consequência do atraso histórico. Pois, Viena manteve suas fortificações mesmo não tendo mais necessidade e quando todas as outras cidades europeias já tinham demolido suas muralhas. Em meados do século XIX, após a Revolução de 1848, os liberais tomaram o poder e exigiram o direito a autogestão municipal acabando com o domínio imperial direto e com a política feudal. Além disso, o crescimento econômico da década de 1850 levou para a cidade aproximadamente 500.000 migrantes, o que provocou uma séria crise habitacional. Entre 1840 e 1870, a população e o número de empresas duplicaram em Viena. Também houve um aumento das reivindicações políticas e econômicas sobre a ocupação da zona de defesa, destacando sua importância estratégica. A cidade de Viena então, se tornou capital econômica e centro da vida intelectual austríaca, sendo então remodelada para assumir esta função. A cidade foi dotadade condições razoáveis de saúde e segurança, desenvolveram serviços públicos necessários a uma metrópole: UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA - canalização do Danúbio para evitar inundações; - sistema de fornecimento de água eficiente; - construção do primeiro hospital público da cidade, em 1873; - sistema sanitário público. O cinturão livre ao redor do núcleo de Viena foi o centro da reconstrução urbana e ficou conhecido como Ringstrasse. Termo mais utilizado para descrever as reformas de 1860: “embelezamento da imagem da cidade”. Os vienenses ricos e profissionais liberais foram os controladores do planejamento da Ringstrasse. O programa de desenvolvimento da Ring excluía todo o resto da cidade, que era deixado nas mãos das construtoras particulares, onde a administração pública apenas regulava a altura dos edifícios e a largura das ruas. O exército se opunha aos planos de intervir na área por questões de segurança. As fortificações seriam úteis para proteger a Corte Imperial não de invasores estrangeiros, mas dos revolucionários. Com o tempo, as necessidades econômicas tornaram-se mais importantes do que o medo da revolução. Em dezembro de 1857, foi criada a Comissão de Expansão da Cidade que tinha a missão de transformar a área militar em usos civil. Nos primeiros três anos, a distribuição do espaço e as construções monumentais revelavam ideais do neoabsolutismo. A primeira construção da área foi uma grande igreja, a Votivkirche (1856-79), que simbolizava o laço indissolúvel entre Igreja e Estado. O exército também teve seu lugar no planejamento da Ring. Foram construídos dois quartéis e um arsenal localizados em posições estratégicas para conter possíveis revoltosos. A via principal que circunda o núcleo central, assim como os bulevares franceses, foi construída de forma larga para evitar barricadas e possui escala monumental. Uma década depois do decreto imperial de 1857, o regime neoabsolutista havia se transformado numa monarquia constitucional. Nesta época, o exército perde sua força junto aos governantes e isso se reflete no novo programa da Ringstrasse, com uma série de edifícios públicos. O contraste entre a cidade antiga e a Ring aumentou com a transformação política. O centro era ocupado por construções em estilos barroco e gótico, palácios e igrejas. Na Ring foram edificadas sedes do governo constitucional e da cultura. A monumentalidade arquitetônica antes usada para engrandecer a aristocracia e o clero, agora se tornava propriedade comum dos cidadãos. As ruas que entram na Ring, vindas do centro ou do subúrbio, não cruzam a via principal, mantendo a cidade velha fechada. Passando de isolamento militar para isolamento sociológico. As várias UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA funções representadas pelos edifícios (política, educação e cultura) são dispersas no espaço de forma a não dar destaque a apenas uma delas. A disposição espacial dos edifícios mostra o isolamento e ausência de relações, o que é intensificado pela variedade de estilos históricos em que foram executados. O estilo foi escolhido de forma a se adequar a função da edificação: - Rathaus (edifício da administração municipal): gótico - Burgtheater (teatro): barroco - Universidade: estilo renascentista - Reichsrat (parlamento): grego clássico Apesar dos extraordinários edifícios monumentais, a maior parte da área construída da Ringstrasse era ocupada por edifícios residenciais. Com a venda de terrenos para o setor privado era possível aplicar o lucro na construção de ruas, parques e edifícios públicos. O incentivo á especulação imobiliária era justificada pela grande demanda de habitação nos anos 1850. A Comissão de Expansão julgava que a exploração mais lucrativa dos terrenos seria melhor para a comunidade. E tinha por metas não as habitações populares ou o desenvolvimento de toda a cidade, mas apenas o desenvolvimento dos espaços da Ringstrasse. O controle das construções se limitava à altura, ao alinhamento e, em alguns casos, ao parcelamento do solo. O restante era o mercado que determinava, ou seja, os interesses econômicos das classes mais ricas. Principal construção residencial: prédio de apartamentos com 4 ou 6 andares e poucos apartamentos, no máximo 16 unidades. Nesta época surgiam nos bairros periféricos prédios com vários andares para abrigar a classe operária. O que mostra que ricos e pobres modificaram sua forma tradicional de residência. No primeiro período de edificação da Ring (1864-65): necessidade de moradia para classe média levou a construção de unidades menores e uniformes. No segundo momento (1868-73): construções com diferenciação interna e externa, o que demonstra a estratificação social. O tamanho dos lotes vendidos na Ring era muito maior do que na cidade antiga. Assim, algumas poucas residências palacianas foram construídas para a nobreza, mas a maioria das construções eram de edifícios multifamiliares com um toque aristocrático demonstrados em suas fachadas e entradas imponentes. O térreo era ocupado por comércio, o primeiro andar possuía apartamento(s) UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA espaçosos(s) conhecidos como nobelétage ou nobelstock. Os pisos superiores poderiam reproduzir a divisão do primeiro ou serem subdivididos em apartamentos menores. A diferença interna se refletia na fachada, através da altura das janelas e do requinte dos ornamentos. Como área residencial, a Ring foi um grande sucesso, atraindo todo tipo de moradores: aristocratas, comerciantes, burocratas e profissionais liberais. Mesmo com o desenvolvimento de bairros elegantes no subúrbio. Os edifícios de apartamentos na Ring se tornaram um grande investimento para particulares. Empenho em se ter custo razoável e grandeza para extrair maior rendimento. Palácios de aluguel: combinação entre prestígio e lucro. Tendência liberal: aproximação entre aristocracia e burguesia. Posteriormente, ao se criticar o liberalismo, a Ringstrasse se tornou o centro simbólico dessa crítica. Maiores críticos: Camillo Sitte e Otto Wagner. A construção de habitações de baixo custo e o planejamento social da expansão urbana não estavam presentes na época das obras na Ringstrasse. BARCELONA Desde a metade do século XIX Barcelona apresentava grande adensamento na área entre as muralhas, mas não era permitido construir no entorno do muro. Em 1858, foi aberto um concurso de projetos para a ampliação da cidade. A maioria dos projetos apresentados se restringia a urbanização do espaço entre as muralhas e as vilas próximas. A proposta vencedora foi de Ildefonse Cerdá que previa uma expansão da cidade até seus limites naturais. Na verdade, Cerdá não projetou uma expansão apenas, mas uma nova cidade diferente da existente, transformando a cidade antiga em uma parte da nova estrutura urbana. O ensanche criado por Cerdá é uma malha ortogonal, com quadras de forma quadrada com as mesmas dimensões. As vias possuem medida única para evitar a preferência de alguma por causa de seu tamanho. Todas possuem 20 metros de largura. O gabarito dos edifícios era determinado pelo tamanho das UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA ruas, para Cerdá a altura da edificação deve ter como limite o correspondenteda largura da via. Sendo assim, ele mantém um gabarito único em toda a expansão. Uma das características mais importantes do projeto de Cerdá são as esquinas com suas edificações chanfradas. Criando assim, espaços mais largos que permitem o desenvolvimento de uma série de atividades, como o comércio ambulante, sem interferir no tráfego de pedestres. A quadra-tipo era constituída de dois blocos localizados em dois lados paralelos. Mas não era mais do que uma referência a partir da qual se poderia desenvolver muitas variantes. Existem três tipos fundamentais de disposição das edificações nas quadras: paralelas, em ângulo reto e em três lados do quarteirão. Entretanto, a necessidade de se adaptar às imposições de um maior adensamento, obrigou Cerdá a estudar novas soluções. A área livre dentro das quadras era destinada ao lazer, um espaço público. Mas isso não acontece completamente. O plano original de Cerdá é de 1859, mas existe uma segunda versão de 1863. Este pode ser considerado como um processo de definição arquitetônica do plano, com a procura de uma maior riqueza do espaço urbano. 2. UTOPIAS URBANAS EBENEZER HOWARD (1850 – 1928) Trabalhou como taquígrafo, embora tenha sido muitas vezes chamado de planejador urbano, devido aos seus ideais e diretrizes que enorme influência exerceram no campo do urbanismo. Suas propostas englobavam todo o sistema de gestão territorial, econômica e social. Howard desenvolveu suas ideias influenciado pelo ambiente londrino do final do século XIX. Nascido em Londres, mudou-se para os EUA aos 21 anos. Morou em Chicago onde, em 1871, presenciou a reconstrução da cidade após um incêndio, quando surgiu o subúrbio-jardim de Riverside, a nove milhas de Chicago, projetado por Frederick Law Olmsted. De volta à Inglaterra, produziu uma das mais importantes obras da história do urbanismo, o livro Garden Cities of Tomorrow (As Cidades-Jardins de Amanhã), publicado pela primeira vez em 1898. Suas propostas, que perpassam todo o sistema de gestão territorial, econômica e social, foram aceitas por apresentarem viabilidade financeira e serem economicamente realizáveis, além de não estarem vinculadas a nenhuma posição política. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA Howard propôs uma solução para a cidade industrial do final do século XIX, que seria uma nova cidade com estreita relação com o campo. Esta cidade-campo teria no máximo 32 mil habitantes em uma área de 1.500 acres, sendo a área rural de 2.000 habitante e a parte urbana com 30.000 habitantes dividida em 6 partes ou bairros com 5.000 habitantes cada. Possuiria uma forma circular dividida em seis setores delimitados por bulevares arborizados que iriam do Parque Central até o perímetro externo e mais 5 avenidas concêntricas ao Parque. Externamente a cidade seria circundada por uma ferrovia que faria sua ligação com outras cidades. Caso o número de habitantes ultrapassasse o máximo estabelecido, a população excedente deveria fundar uma nova Cidade-Jardim a uma distância razoável da anterior. Formando assim, o que Howard chamava de uma “constelação de cidades” ligadas por um sistema de ferrovias e rodovias, sempre circundadas por uma faixa verde evitando, assim, a formação de uma megacidade. A questão sanitária é uma parte importante do plano, por isso, no entorno da cidade haveria um cinturão verde com belos jardins e pomares. Um refúgio para respirar um ar limpo e ter contato com a natureza. Outra preocupação, além da higiene, era a criação de residências a baixo custo, mas com qualidade, para a população pobre. Howard propõe a criação de uma cooperativa entre os moradores antes mesmo de a cidade ser construída, dentro de um sistema socioeconômico com base no autogoverno e gerenciamento local. Grande parte de seu livro é dedicada a explicação de como este empreendimento seria realizado. Todos seriam donos das terras e ninguém teria a posse de sua casa, comércio, indústria ou terra rural, as propriedades seriam geridas e estariam submetidas às leis do Governo Central, que seria o poder municipal e não estaria ligado ao poder federal, já que o autor não acreditava na atuação do Estado inglês liberal nem do Estado socialista controlador. A proposta da Cidade-Jardim foi baseada em vários estudos anteriores como o de Edward Gibbon Wakefield de onde surgiu a ideia da formação de aglomerados formados por membros de todas as classes sociais e o de Hebert Spencer que propôs a transformação da propriedade particular em comunitária. Também contribuíram os livros Looking Backward de Edward Bellamy, grande influência na formação do movimento cooperativista americano, e o de Henry George, Progress and Poverty, apesar de ser criticado por Howard. Alfred Marshall contribuiu amplamente com suas teorias econômicas, sendo dele o nome mais citado no livro Cidades-Jardins de Amanhã. Na Espanha, Arturo Soria y Mata (1844-1920) desenvolveu conceitos semelhantes à cidade-jardim, em Madrid. Na França, o arquiteto Tony Garnier (1869-1948), de ideal anarquista, deu ênfase à propriedade comum, rejeitando símbolos de opressão burguesa em sua cidade industrial. Na UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA Alemanha, Theodor Fritsch publicou o livro “A Cidade do Futuro” em 1896, onde apresenta características formais próximas aos ideais propostos por Howard, porém com visão segregacionista de exclusão racial. Por não ser arquiteto ou urbanista, Howard se utilizou de diagramas para ilustrar suas ideias e deixou claro que os desenhos não são plantas da cidade. Estas só deveriam ser feitas após a escolha do terreno. O primeiro diagrama, que sintetiza sua proposta, é o dos três imãs onde ele expõe as atrações e desvantagens que a cidade e o campo oferecem; sendo sua proposta a união das vantagens do campo e da cidade em uma aglomeração humana, sem as deficiências. Foi a primeira proposta de uma cidade autossustentável, mesmo antes deste conceito existir, além de ser autogerida. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA O sucesso de suas teorias permitiu que Howard fundasse, em 1899, a Associação das Cidades- Jardins e, em 1903, comprasse um terreno em Letchworth onde seria construída a primeira Cidade- Jardim, projetada pelos arquitetos Unwin e Parker. Em Letchworth foi projetado todo um centro urbano, onde observam-se elementos formais, como avenidas radiais e uma grande praça central. O terreno adquirido era cortado no sentido leste-oeste pela ferrovia que liga Londres a Cambridge, por isso a estação ferroviária foi implantada no centro da cidade. A ligação entre os dois lados é feita por duas avenidas na direção norte-sul que passam sob a linha férrea. Entre a duas avenidas ficam a Praça da Cidade e os edifícios municipais. O comércio se localiza entra a Praça e a estação, e a indústria fica fora da cidade, onde o vento favorece a dispersão dos poluentes, e próxima da ferrovia. Foram criadas quatro unidades de vizinhança com cinco mil habitantes, tendo elas toda a infraestrutura necessária como escolas, comércio, salas comunitárias, etc. Em 1913 a cidade contava com 8.500 habitantes e atingiu 26 mil em 1962, abaixo da expectativa de trinta mil moradores. O desenho de Letchworth apresenta blocos de casas isoladas entre si, recuadas e com jardins na frente; as ruas são arborizadas e não retilíneas e as ruas secundárias em “cul de sac”.A intenção era introduzir o convívio com a natureza e valorizar a escala humana. Outra preocupação, inerente às ideias de Howard, era a construção de casas para operários de boa qualidade, a baixo custo. Em 1905 instalam-se as primeiras indústrias na cidade. Após a Primeira Guerra Mundial, a Europa estava em fase de reconstrução e a necessidade de novas moradias e melhor qualidade de vida fez com que o Estado inglês aprovasse a “Housing Act”, um incentivo à construção de moradias populares. Houve um grande movimento em favor da construção de novas Cidades-Jardins, várias publicações surgiram comprovando o bom desempenho destas cidades. Em Letchworth foram construídas várias casas aprovadas pelo programa do governo. Howard fundou o National Garden Commitee com a intenção de construir 50 Cidades-Jardins e fez uma grande pressão para ser aprovada sua proposta, mas a política habitacional optou por uma solução mais imediatista, construindo o maior número de casas no menor prazo de tempo possível. Somente depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, é que as ideias de Howard têm rebatimento em um programa do governo o “New Tows Act”. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA Depois de se convencer da falta de interesse de uma política urbana em adotar seus ideais, Howard decidiu construir uma segunda cidade-jardim. Com essa intenção, adquiriu uma propriedade a 15 quilômetros de Letchworth, em 1920, com o nome de Welwyn. Nela foram previstos 40000 habitantes podendo ser aumentado para 50000 em uma área total de 2378 acres sendo 1298 acres destinados a área urbana. O arquiteto contratado para projetar Welwyn foi Louis de Soissons. A cidade passou por dificuldades iniciais para ser construída e, assim como Letchworth, apresentou um crescimento lento, mas conseguiu uma alta qualidade ambiental e uma boa relação entre os espaços urbano e rural. Os ideais da Cidade-Jardim de Ebenezer Howard contribuíram para o urbanismo em questões como: - tamanho controlado, - maior contato com espaços verdes, - valorização da escala humana, - transporte público adequado, - reaproveitamento de resíduos sólidos em terras agrícolas. Mas também influenciaram negativamente, e a consequência mais prejudicial foi o processo de suburbanização que causou a ocupação de grandes extensões de terra no entorno das cidades, com baixa densidade e alto custo na implantação de infraestruturas. O maior exemplo deste efeito se encontra nos subúrbios dos EUA e atualmente nos condomínios fechados das metrópoles brasileiras. Este tipo de ocupação acarreta altos encargos tanto para o poder público quanto ecologicamente. CAMILLO SITTE (1843 – 1903) Camillo Sitte discute a cidade segundo seus princípios artísticos, a base de sua discussão é a estética. Seu trabalho se baseia na leitura da morfologia urbana segundo uma metodologia que permite a investigação desse espaço a partir das perspectivas urbanas, da planimetria, da articulação entre o monumento e o tecido urbano. Em seu livro “A Construção das Cidades segundos seus Princípios Artísticos” (1889), analisa o tecido urbano das cidades antigas em busca das razões, do ponto de vista estético, para as pessoas se sentirem bem nessas cidades. Era contra a rigidez e simetria dos projetos urbanísticos de sua época, criticava o isolamento dos monumentos e defendia a preservação dos traçados urbanos tradicionais. UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO ESCOLA DE MINAS DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO DISCIPLINA: ARQ 102 TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E DO URBANISMO II PROFª: Drª PATRÍCIA JUNQUEIRA Sitte preocupava-se com a estética das cidades e defendia o urbanismo como arte e a preservação das edificações históricas. Não percebeu a complexidade da sociedade industrial, sendo considerado retrógrado pelas gerações seguintes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENEVOLO, Leonardo. História da Cidade. São Paulo: Perspectiva, 2003. (Disponível no drive da disciplina) ______. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1998. (Disponível no drive da disciplina) CHOAY, Françoise. O urbanismo: utopias e realidade, uma antologia. São Paulo: Perspectiva, 2005. (Disponível no drive da disciplina) FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (Disponível no drive da disciplina)