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Luiz Fernando de Lara Campos Métodos e Técnicas de Pesquisa em PSICOLOGIA Edição I Revisada AlíneaFormas de conhecimento: religioso, filosófico E científico M uito se fala ou se escreve a respeito da ciência no Brasil e no mundo, mas pouco tempo é despendido em sua compreensão e princípios. Há muitos críticos da ciência, mas estes normalmente são incapazes de propor uma alternativa que seja mais direta e pertinente, revelando apenas sua incapacidade de pensar e produzir conheci- mento científico. As conquistas da ciência são inegáveis, bastando que o leitor olhe a sua volta para perceber um mundo recheado por frutos de descobertas científicas. Computadores, telefones, televisões, fornos microondas, remédios, vacinas, anestesias, entre outros, são apenas produtos tecnológicos que surgiram devido a pesquisa A ciência surgiu como uma etapa natural da evolução humana, marcada pela capacidade de produzir e transmitir conhecimento. o homem parece nascer programado para aprender (Maturana, 1987), ou seja, nasce com a capacidade de gerar conhecimento e, provavel- mente, de transmitir a outros Seres Humanos. Isto ocorre em razão do homem não possuir respostas prontas para todos os problemas que enfrenta, assim quando a regularidade na natureza é quebrada, ele procura entender e explicar os motivos destes fatos, ao contrário dos animais que parecem nascer com um grande repertório de respostas28 Luiz Fernando de Lara Campos prontas reproduzir e suficientes preservar. para garantir as funções principais de suas cies: e Esta situação é facilmente bastando que aconteceria se fosse colocado um cervo nascido no zoológico analisar 0 uma floresta. Muito provavelmente, ao aparecer um predador em como um leão, o cervo fugiria, já que seu organismo está programado natural para isto. Com um homem a situação é Suponha-se que habitante de uma ilha onde não exista nenhum tipo de um colocado no meio de uma selva hostil onde a quantidade de seja grande. A falta de conhecimento cobra, cobras seja venenosas do homem sobre existência de cobras venenosas poderia determinar sua a morte em questão de poucas horas! Desta forma, é possível considerar que sem conhecimento não há respostas corretas para o Ao longo de sua evolução, a humanidade gerou diversas formas de conhecimento, as quais possuem diferentes características e limites na explicação dos fenômenos que se apresentam ao homem no seu dia-a-dia. Com o desenvolvimento do conhecimento humano e da linguagem necessária à sua transmissão, surgiram duas formas de conhecimento que dominaram a Humanidade por milhares de anos conhecimento empírico (ou senso comum) e conhecimento religioso, posteriormente surgiram o conhecimento filosófico seguido da ciência, a qual é uma proposta historicamente muito recente. Conhecimento empírico A primeira forma de conhecimento humano surgiu a milhares de anos atrás, sendo impossível precisar exatamente quando e como surgiu. Este "conhecimento" era provavelmente uma forma mentar de explicação de um fenômeno, a qual havia sido vivenciada por um grupo de Seres Humanos e perpetuada inicialmente através da linguagem oral (Ferrari, 1982). É um conhecimento vivencial. conhecimento empírico é aquele comum a todo Ser Humano por ser produzido pela sua própria existência. Sendo assim, todo indi- víduo produz conhecimentos a partir de sua interação com mundo,Métodos técnicas de pesquisa em psicologia 29 sendo este conhecimento o resultado da experiência individual do sujeito, e dependente diretamente da cultura, da sociedade, do mo- mento histórico, do meio ambiente no qual vive. Nenhum Ser Humano consegue viver sem o conhecimento empírico ou vivencial. Por ser fruto da experiência individual, o conhecimento empírico não serve genericamente, ou seja não pode ser uma lei. Para compreender a situação, pode-se considerar a situação na qual duas adolescentes podem possuir experiências diferentes com seus namorados, gerando assim conhecimentos vivenciais divergentes sobre o Mesmo que ambas namorassem o mesmo rapaz em momentos diferentes da vida, não há como garantir que o conheci- mento empírico de ambas seria o mesmo. Isto ocorre pelo fato do conhecimento empírico ser fruto do acaso e não refletir algum prin- constante. Por outro lado, dois agricultores sem nenhuma escolaridade podem plantar feijão do mesmo modo e ter o mesmo resultado. Isto ocorre quando algumas experiências individuais, mesmo que restritas pelo seu caráter empirico, refletem uma lei Ambos os agricultores podem não entender o funciona, mas sabem que funciona. A ciência não se contrapõe, necessariamente, ao conheci- mento empírico. Muito pelo contrário, muitas vezes se aproveita deste conhecimento como ponto de partida para pesquisas que resultarão em leis e princípios Entretanto, não se pode negar que a ciência gera uma nova forma de compreender o mundo e que isto determinou a revisão da validade da explicação do conhe- cimento decorrente da vivência pessoal. Em uma situação prática na área da Psicologia, pode-se anali- sar as implicações que o conhecimento empirico possui. Suponha-se que uma psicoterapeuta está atendendo um caso de uma mulher em crise com o marido causada por problemas financeiros. Utilizando uma técnica denominada auto-revelação, comum aos modelos cogni- tivos-comportamentais, a terapeuta pode utilizar o exemplo de um problema semelhante ao de sua cliente para tentar o risco existente nesta técnica consiste em avaliar até que ponto a sua30 Luiz Fernando de Lara Campos experiência pessoal pode ajudar outra pessoa a encontrar formas de resolver seus Não se deve, portanto, desconsiderar a experiência mas sim como fruto da vivência do sujeito e não uma regra irrestrita, cuja validade é sempre ampla e inquestionável como (Ferrari, 1982). o conhecimento empírico possui três características funda- mentais que o qualificam. o conhecimento empírico é: 1. Ametódico: não é produzido pois depen- de do acaso; 2. Assistemático: não representa, necessariamente, uma regra, um princípio de algo que ocorre e que é válido de modo genérico; e 3. Dependente: é fortemente influenciado pela cultura, socie- dade e ambientes físico e geográfico. Estas três características são muito importantes na limitação do saber empírico. Por ser obra do acaso, este conhecimento torna-se ametódico e assistemático, sendo uma experiência muito individual, além de fortemente influenciado pelas condições do meio Conhecimento religioso Muito provavelmente o conhecimento religioso surgiu parale- lamente ao conhecimento empírico, sendo uma forma de explicar fenômenos para os quais a experiência individual não conseguia for- necer elementos suficientes para sua compreensão. Imagine a situação: algumas dezenas (talvez centenas) de milhares de anos atrás, quando um grupo de Seres Humanos deixou sua caverna para caçar. Com pedaços de rocha em forma semelhante a de um bastão nas mãos, os homens vagaram pela selva até encontrar uma vaca. Com seu pedaço de rocha acertaram a cabeça do animal e acharam que conseguiram jantar para sua tribo por alguns dias. Com muito esforço, carregaram o animal até uma montanha próxima de 3. Existem critérios muito claros para a aplicação desta estratégia psicoterápica, sempre considerando que o impacto não pode ser previsto de forma intuitiva.técnicas de pesquisa em sua caverna, de onde era possível avistá-la. Ergueram seus pedaços de rocha e gritaram chamando seus companheiros a fim de obterem ajuda no transporte do animal. No momento em que sua tribo percebe o sucesso do grupo de está se iniciando uma tempestade e alguns dos bastões dos homens pré-históricos eram feitos de rocha metálica. Os homens gritando por seus companheiros recebem a descarga elétrica de um raio e morrem. Como seus companheiros, através do conhecimento podem explicar o ocorrido? Na realidade não podem, mas de forma religiosa isto é possível. A explicação que eventualmente pode ter surgido no grupo é simples: foram castigados por que mataram o animal preferido de Deus, logo a Vaca - animal divino, não se mata ou come. Esta situação, hipotética, pode ser, por exemplo, a origem da crença existente na Índia de que a vaca é um animal sagrado. Mas no que esta explicação diferencia-se do conhecimento empírico ou vivencial? Para explicar o fato ocorrido não foi suficiente o vivenciado, o empírico. Necessita-se de uma explicação a partir da existência de uma força superior ou de um ser supremo (ou mais de um), no caso Deus, que seria a razão da ocorrência dos fatos não à experiência em si, ou seja, compreensíveis pela lógica do conhe- cimento empírico. o conhecimento religioso, portanto, precisa utilizar um conceito-chave nas suas explicações, sendo este conceito de caráter dogmático, ou seja, aceito como verdade sem ser discutido. Não se pode restringir este tipo de conhecimento às religiões. Obviamente, as religiões são parte do conhecimento religioso, mas este é mais amplo. Qualquer conhecimento que seja baseado em conceitos que não possam ser discutidos, testados ou questionados pode ser religioso (Popper, 1975; Peluso, 1995). Pode-se exemplificar facilmente este tipo de conhecimento pelas religiões. No Cristianismo, a Trindade se constitui em um dos seus dogmas e no Espiritismo, a reencarnação é o seu dogma. Mas por que estes são tão importantes? A resposta é simples: o dogma se constitui um conceito ou idéia central sobre a qual toda a estrutura posterior do conhecimento religioso é construída. Se for analisada a estrutura de construção das duas religiões acima citadas,32 Luiz Fernando de Lara Campos percebe-se claramente que os dogmas são uma espécie de fundamental" que lhes dão sustento. Se o dogma for discutido "pedra refutado, não há como o conhecimento se sustentar. Para os leitores e/ou que preferem uma imagem, pense em uma pirâmide invertida, a da base é o dogma. Se retirada faz tudo desabar! pedra Outra característica do conhecimento religioso é a presença profetas, os quais são indivíduos especiais, escolhidos por Deus de portadores de "dons" especiais, que se tornam o elo de comunicação ou e/ou revelação do conhecimento religioso. A presença do "profeta" ou "pai" só pode ser uma caracteristica do conhecimento religioso, posto que no conhecimento a experiência é pessoal ou cultural e na ciência, como se verá melhor adiante, não se aceita uma idéia só pela força ou autoridade de seu proponente. Entretanto, Popper (1975) sugere claramente que há entre elas algumas teorias que não possuem condição de obter adje- tivo São as chamadas pseudociências (Eysenck, 1993), ou seja, modelos teóricos que parecem ciência por um método exclusivo, mas este método e todo conhecimento por ele gerado são relacionados a uma hipótese central que é assumida como verdadeira, sem questionamento ou testagem, tornado-se assim um dogma. A dialética marxista e a psicanálise são, segundo Popper (1975), dois exemplos de pseudociências, pois o primeiro modelo teórico sempre busca relação entre dominante-dominado e a segunda sempre o inconsciente. espantoso é que nas conclusões de "pesqui- sas" formuladas com estes referenciais quase que em 99,99% (ou mais) das pesquisas com estes métodos/referenciais se chega à conclusão prevista na teoria e no método, o que torna a pesquisa total- mente desnecessária, pois para que pesquisar o que já é conhecido? Isto não seria perda de tempo? Não seria reinventar a roda? A resposta é, obviamente, sim. A compreensão da questão das pseudociências é mais simples do que o leitor pode imaginar. Qualquer que seja o conhecimento ou idéias propostas por qualquer indivíduo só serão científicas se testadas pelos princípios da ciência, pois nenhum método pode ser conside- rado exclusivo e único. Para que a psicanálise e o marxismo sejamE técnicas de pesquisa psicologia 33 considerados ciência, bastaria que seus pressupostos e conheci- mentos fossem testados criticamente pela ciência. Entretanto, a maioria de seus seguidores se nega a aceitar esta solução, o que revela uma atitude anticientífica e dogmática. Assim como o conhecimento muito das informações contidas em textos religiosos como o Velho Testamento ou o Alco- rão, são reveladores de informações embora tenham sido originados via vivência religiosa. Não se pode, portanto, desprezar esta forma de conhecimento, mas assumi-la como verdadeira é muito arriscado, principalmente para o psicólogo, pois o ato de fé que carac- teriza esta forma de conhecimento nem sempre é suficiente para a explicação dos fenômenos psicológicos. o conhecimento religioso possui um campo de explicação e validade muito bem delimitado, mas muitas vezes este se sobrepõe ao conhecimento empírico e à ciência. Assim, o conhecimento religioso possui três características fundamentais: 1. Dogmatismo: baseia-se em uma idéia, conceito ou condição que não é de ser contestada e/ou testada, sempre apresentando motivos não-racionais para esta condição; 2. Não testável: pois não aceita ser testado comprovado: por ser a partir de um ponto-chave de caráter hipoté- tico. o conhecimento religioso não aceita ser testado, exceto por seus próprios princípios ou métodos, o que pode ser considerado tendencioso. Todo conhecimento religioso tem lógica interna (coerência entre seus conceitos, componen- tes), mas isto não garante que é verdadeiro ou e 3. Depende da crença/da como não dispõe de qualquer evidência que não seja atribuída a um profeta, mestre ou mesmo diretamente a Deus, o conhecimento religioso nasce com um ato de fé do individuo. Este ato de pode ser espontâneo, quando ocorre conscientemente, ou induzido, quando determinado por fatores externos ao sujeito (por exemplo, pressões familiares, grupais, culturais etc.). É importante salientar a forte relação entre o dogma e a fé, uma vez que para algumas pessoas a crença é suficiente para dar o status de verdade à explicação. Embora o Ser Humano tenha a capacidade racional, ele não é um ser lógico no sentido mais puro da palavra e crer não é suficiente.34 Luiz Fernando de Lara Campos Um leitor que tenha vivência e/ou formação religiosa estar se perguntando: "Mas eu vejo Deus! Eu sei que ele existe" pode estas pessoas, basta lembrar que só vê Deus quem acredita nele Para quem acredita nele o vê, uma vez que as pessoas que e crêem no que Entretanto, não é esta discussão que se pretende neste pois não se faz a defesa de uma forma de conhecimento em detrimento de outra. Cada forma de conhecimento possui uma muito importante que o futuro psicólogo (ou qualquer outro profissional) saiba separar seus valores pessoais do seu conhecimento cientifico e profissional. o que aconteceria se uma pessoa, em uma pequena cidade do interior do sertão nordestino, procurasse o único médico da cidade com fortes dores no peito e este, por acreditar em uma religião onde "a dor purifica a não examinasse o paciente que está com um ataque cardíaco? profissional que atua baseado na ciência tem o direito de atuar profissionalmente considerando seus valores pessoais e/ou religiosos? Veja a situação que pode ocorrer dentro da Psicologia. Suponha que um psicólogo clínico receba um cliente cujos sintomas e caracte- rísticas indicam um quadro de psicose maníaco-depressiva, uma síndrome psiquiátrica bem conhecida e que desde 1949 (DSM-IV, 1995) já se tem medicamentos altamente eficazes no seu tratamento, mais eficazes inclusive que a própria psicoterapia. o psicólogo, por atuar em um modelo no qual se acredita que todos os problemas orgânicos têm origem no campo psicológico, tem direito de não encaminhar o cliente a um psiquiatra? Tem o direito de tratar seu cliente como se seus problemas fossem exclusivamente psicológicos e não orgânicos, desconsiderando o avanço da Psiquiatria? Qual a responsabilidade do psicólogo se seu cliente, em uma fase depres- siva, sem a presença do medicamento adequado, suicidar-se? Antes de misturar crenças com ciência, o psicólogo precisa avaliar muito os riscos desta atitude, já que na maioria das vezes, quem acaba por ser penalizado é sempre a população que mais precisa do auxílio dessa comunidade profissional.Métodos técnicas de pesquisa psicologia 35 Conhecimento filosófico conhecimento filosófico antecedeu, historicamente, o apare- cimento da ciência, surgindo há algumas centenas de anos antes desta. Embora a diferença histórica não seja significativa, existem dois aspectos que devem ser considerados. primeiro é que, ao contrário da ciência, esta forma de conhecimento teve impacto rapidamente sobre a sociedade, sendo logo reconhecida e valorizada (Chaui, 1995). o segundo aspecto diz respeito à sua importância para o surgimento da ciência, pois foi em seu seio que esta começou a ser pensada, discutida e debatida. Assim, embora a ciência tenha se originado de discussões filosóficas, esta forma de conhecimento não deve ser confundida com a filosófica, pois esta continuou e continua existindo mesmo após o advento da ciência. Ferrari (1982) informa que a filosofia é uma forma racional de conhecimento, não admitindo a intuição ou a fé como origem. É uma forma de conhecimento que tem a condição de colocar suas hipóteses antecipadamente, mesmo que nunca possam ser testadas. conheci- mento filosófico recorre à experiência pessoal e subjetiva, evitando a experimentação, o que a tornaria ciência. Na construção da verdade no conhecimento filosófico, o cerne se encontra na lógica interna entre os conceitos, ou seja, na coerência lógica entre as relações e os seus diversos componentes teóricos. Entretanto, não se deve esquecer que entre o conhecimento filo- sófico e o científico existe uma diferença fundamental, que é a possibili- dade e a obrigação real que se tem de testar hipóteses no segundo caso. Embora a lógica e a coerência sejam de fundamental impor- tância também para o conhecimento científico, não são suficientes para garantir o reconhecimento como verdadeiro, uma vez que não há como decidir entre os diversos modelos e propostas filosóficas. Conhecimento científico conhecimento científico deve ser compreendido como o estágio mais recente na evolução do conhecimento humano. Embora sua postulação tenha ocorrido na Grécia antiga há mais de 2000 anos, seu surgimento efetivo e desvinculado da Filosofia ocorreu com o36 Luiz Fernando de Lara Campos questionamento do antropocentrismo por Foram sários quase dois mil anos para que a ciência pudesse ser compreendida e produzida. Desse momento até o pode observar é uma constante evolução, sobretudo no século que onde os recursos metodológicos e tecnológicos alavancaram desen- volvimento A palavra Ciência se origina no Latim, na palavra Scientia se originou de Scire que significa aprender, conhecer (Abbagnano que 1970). Embora não tenha prometido o à humanidade. ciência muitas vezes é criticada por não ter conseguido acabar com a fome, com a miséria, com as doenças, com a guerra e, a mente, não ter condições de oferecer à humanidade a Na raiz dessas críticas encontra-se uma compreensão errada da missão da ciência e uma visão não-histórica da evolução do conheci- mento Perguntas do tipo "De onde "Para onde vamos?", "Por que crianças morrem de câncer e criminosos entre outras, não são de interesse ou objeto da ciência e, portanto, provavelmente irão ficar sem resposta, uma vez que a ciência busca a vida e não explicações de fatos muitas vezes irredutiveis ao No caso específico de crianças com câncer, a ciência se interessa e busca sua cura, assim como se esforça para entender e descobrir meios eficazes para evitar a criminalidade e recuperar os indivíduos criminosos, mas a ciência não se preocupa em estabelecer relações entre fenômenos tão opostos. Ao longo das páginas até aqui escritas, muitas vezes foi mencionada a palavra método ou um de seus derivativos, sem que sua importância ou significado fosse enfocado. A ciência diferencia-se das demais formas de conhecimento justamente por possuir um método, ou seja, um conjunto de princípios que norteiam a conduta do cientista ao longo da produção do conhe- cimento (Rudio, 1985). o método é a parte mais importante da pesquisa. A palavra método se originou na Grécia antiga e significa como percorrer longo de um caminho. É importante esclarecer que método não é o caminho em si, mas as regras que irão nortear aE técnicas de pesquisa psicologia 37 conduta durante este caminho, pois é o aspecto que irá garantir a vali- dade do conhecimento produzido pela investigação (Ferrari, 1982). Para que um conceito ou idéia obtenha o reconhecimento da ciência, são necessários três aspectos. São eles: 1. Método: necessita ser produzido a partir da aplicação de um conjunto de princípios que tenham o status de científico; 2. Sistemático: deve buscar produzir e retratar regras, princípios ou leis que expliquem a natureza do fenômeno pesquisado; e 3. Objetivo: o conhecimento deve ser relatado da forma mais simples e direta possível para garantir que suas explicações sejam compreensíveis para todos os Não deve necessitar de dons ou experiências especiais para ser compreendido e assimilado. Um bom exemplo de conhecimento científico em Psicologia diz respeito à primeira lei da aprendizagem comportamental: condicionamento clássico. Esta lei foi formulada pelo fisiologista russo Ivan P. Pavlov a partir de uma experiência com cães. Pavlov, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina pelos seus trabalhos sobre o aparelho digestivo, percebeu um dia, acidentalmente, que seus salivavam quando as pessoas que os alimentavam entravam mesmo sem comida em seu canil. Intrigado com esta reação dos Pavlov questionou se era um estímulo neutro (as pessoas) eliciar (provocar) um reflexo (salivação), já que este fato não ocorre em situações naturais. Assim, os famintos foram colocados em uma sala espe- cialmente preparada, com suas cabeças em direção a uma portinhola. Seguidamente, esta portinhola foi aberta revelando um pedaço de carne. Ao mesmo tempo em que a portinhola era aberta, uma campainha era acionada. Após várias repetições deste procedimento, a campainha foi acionada, mas a porta não foi aberta. Para constatação de Pavlov, seu sujeito experimental (cão) salivava diante do som da campainha. Após várias experiências com outros animais, Pavlov desenvolveu a lei do condicionamento clássico, onde um estímulo neutro (som) pareado (apresentado junto) a um estímulo incondicio- nado (carne) por várias oportunidades, gerava uma associação entre o38 Luiz Fernando de Lara Campos estímulo neutro com o reflexo, fazendo com que reflexo eliciado agora (após ter fosse a pelo anteriormente neutro, mas aprendizagem) denominado condicionado (por tornado uma condição do reflexo). o conhecimento precisa ser compreendido dentre os limites naturais de qualquer Ele não traduz toda verdade, nem é a última palavra, e não pretende ser. A ciência busca apenas dar respostas mais confiáveis à humanidade, respostas estas que independam da experiência individual, e que não expliquem a vida humana em função de dogmas. Talvez este seja um bom momento para retomar algumas informações sobre ciência que ainda não foram totalmente explici- tadas: os limites do conhecimento A ciência possui algumas características que num primeiro momento podem parecer incompreensíveis para o leitor Uma delas é a questão da verdade em ciência, já que aqui este conceito não tem um mesmo significado do que no conhecimento religioso e/ou empírico, onde a verdade é definitiva e muitas vezes imutável. Em ciência, algo é verdadeiro até que se prove contrário, ou seja, nunca algo é (ou será) totalmente verdadeiro, já que 0 desenvolvimento do conhecimento científico deve gerar modelos de compreensão cada vez mais precisos, fazendo com que explicações cada vez mais completas substituam explicações Ser cientista, portanto, é trabalhar com a dúvida, conviver com a incer- teza, pois tudo que se sabe hoje pode ser substituído por um novo modelo explicativo amanhã (Popper, 1975). Esta condição do conhecimento científico faz com que um bom modelo em ciência não seja aquele modelo eterno, o qual quase não se modifica por ser extremamente completo. Ao contrário, um modelo cientificamente adequado é aquele que serve de base para um conjunto de pesquisas que possibilitem o aumento da compreensão do conhecimento sobre algo, gerando conceitos mais precisos e, um novo modelo teórico, o qual substitui integralmente o anterior (Popper, 1975; Peluso, 1995). É interessante notar que a motivação para a produção do saber científico pode se originar em várias esferas, como as quebras daE técnicas de pesquisa em psicologia 39 ordem natural dos fenômenos, problemas conceituais, necessidades de ordem prática, curiosidade, além de verificar a veracidade de suposições de origem empírica ou religiosa. Entretanto, a ciência não é uma atividade intuitiva ou desti- nada a poucos eleitos. Na realidade, a ciência é um conjunto de atividades racionais, e metódicas que visam solucionar problemas, de forma a estudar um objeto limitado, passível de verifi- cação, na busca de conhecimentos sistemáticos, verdadeiros e coesos (Ferrari, 1982). o objeto de estudo da ciência pode ser compreendido pela noção de fato e fenômeno (Rudio, Fato é algo que existe independente de qualquer interpretação, julgamento ou enfoque prévio. Já o fenômeno é o fato enquanto percebido no ângulo de interesse de um determinado campo do saber Um bom exemplo para se explicar estes dois conceitos é o da torcida de futebol. A torcida existe e é um fato, mas quando se tenta verificar sua legitimidade legal, estará enfocando-se torcida do ponto de vista do Direito, o que a transforma em um fenômeno jurídico. Se for do ponto de vista de uma manifestação social, tanto a Sociologia como a Psicologia Social poderão se interessar, transformando o fato "torcida de futebol" em um fenô- meno sociológico ou psicológico. o fenômeno, portanto, é o objeto de estudo da ciência, já que atualmente não existem recursos metodológicos e conceituais que possibilitem o estudo do fato em sua totalidade. Este limite é metodo- lógico e impede o estudo integral do fato. Segundo Ferrari (1982), pode-se dividir a ciência em dois campos: formal e factual. As ciências formais são aquelas que tratam de objetos não empíricos, abstratos, cuja veracidade é comprovada por dedução ou por lógica, sem a necessidade/possibilidade de Esta forma de conhecimento científico é bem exemplificada pela Matemática. o segundo campo do saber cienti- fico é aquele no qual a Psicologia se encontra e é denominado de factual por tratar de objetos materiais ou empíricos, com métodos de comprovação baseados na observação e na experimentação.40 Luiz Fernando de Lara Campos Para que um conhecimento tenha o status de ele deve possuir quatro condições a saber (Selltiz, Wrightsman e Cook, 1987; Popper, 1975): Replicabilidade: é a possibilidade de se realizar novamente a pesquisa, com o mesmo padrão e conduta adotada e se atingir resultados estatisticamente seme- demonstrando que o conhecimento reflete uma regra e não uma Fidedignidade: é determinada a partir da replicabilidade da pesquisa. Uma vez que os resultados foram confirmados pela replicabilidade do estudo, uma pesquisa será mais fidedigna na medida em que puderem ser generalizados para condições além de uma pesquisa específica com riscos cientificamente aceitáveis, ou seja, dentro da margem de erro que todo conhecimento possui, uma vez que a desco- berta reflete, de fato, a realidade. Generabilidade: se os resultados foram confirmados através da replicação e são fidedignos, estes podem ser uti- lizados na explicação do fenômeno em condições naturais, ou seja, além dos limites da pesquisa. É determinada pela confiabilidade no método de pesquisa utilizado, sendo uma condição determinada pelo tamanho e forma como a amostra foi escolhida. Falseabilidade: o conhecimento só será se for de ser falseável, ou seja, demonstrar-se que sua vali- dade não é total, que existe erro em sua concepção e que, portanto, não é definitivo nem único, sendo apenas mais um degrau na construção do saber cientifico. Embora os conceitos acima sejam inter-relacionados, é impor- tante salientar que é sua condição que determina a validade do conhe- cimento para que este obtenha o reconhecimento de modo que sua ausência o limita e/ou invalida. Uma das melhores definições de ciência é a formulada por Ferrari (1982): é todo um conjunto de atitudes e de atividades racionais, dirigido ao sistemático conhecimento com o objetivo limitado, capaz de ser submetido à (p. 2).€ técnicas de pesquisa em Uma boa compreensão das diferenças entre estas formas de conhecimento está exemplificado no quadro abaixo, o qual sumariza algumas das idéias de Ferrari (1982). Quadro 1. Características das formas de conhecimento. Característica Conhecimento Empirico Vinculação com a realidade Valorativo Valerativo (factual) Origem Inspiracional Racional Assistemático Comprobabilidade Verificável Não verificável Não verificável Verificável Eficiência Infalível Precisão Inexato Exate Exato Aproximadamente Pode-se verificar no Quadro 1, que a ciência difere das outras formas de conhecimento em diversos aspectos, embora tenha alguns pontos em comum também. Por isso é importante que todas estas condições estejam presentes para que o conhecimento seja cientifico. A limitação ou ausência de uma delas irá comprometer sua confiabi- lidade, podendo chegar a determinar sua não aceitação. Implicações para a psicologia No primeiro momento, o leitor pode se questionar a respeito do que fazer agora, pois provavelmente possui uma religião e desenvol- veu um conhecimento empirico bastante eficaz até o momento. Deve abandonar tudo o que pensa, sinta ou acredita? Deve esquecer tudo que viveu para assumir uma "vida cientifica"? A resposta é não, não deve! Basta separar o que é pessoal e o que é cientifico-profissional, o que certamente não é uma tarefa o psicólogo, como qualquer outro profissional, é um Ser Humano que possui qualidades e defeitos, crenças e comporta- mentos, e que não deve abandonar sua própria identidade pela profissão e ciência que deseja estudar. Ao contrário, deve incorporar a ciência ao seu mundo, revendo-o e ajustando-o novamente face a uma nova42 Luiz Fernando de Lara Campos Psicologia é ciência sim! E embora alguns digam que "várias ciências", desde a obra de Popper (1975) esta postura existem ter sido abandonada. A tarefa maior que fica, consiste em estabelecer parece limites entre o que a ciência psicológica afirma e o que acredita enquanto pessoa, pois a mistura é demasiadamente e iria determinar que toda a atuação deste profissional refletisse valores pessoais, o que seria indevido e perigoso para os diversos seus tipos de consumidores da Psicologia. Para os que ainda acreditam que Psicologia não é ciência e não deve seguir os pressupostos científicos, existe uma questão: suponha que você esteja com uma insuportável dor de dente há mais de 24 horas quando decide procurar ajuda. Ao chegar no endereço onde lhe disseram que haveria ajuda há três portas, cada uma com uma placa "Jonas Dentista Prático", Curandeiro Todas as Doenças" e "Fulano de Tal Cirurgião Dentista". Em qual porta você bateria? Que tipo de profissional você procura quando precisa de ajuda? Por que quando se busca ajuda prefere-se o mais moderno, mais atualizado, o mais confiável e quando se executa a Psicologia pode- se adotar o que é velho, ultrapassado, intuitivo? Atualmente, não há mais dúvida sobre a natureza científica da Psicologia, mas o estudante na área percebê-la como ciência é algo distante em países do terceiro mundo, como já foi indicado. A Psicologia ainda é erroneamente vista como uma "quase" magia, algo próximo ao esoterismo, vidas passadas, religião etc. Assim, gostaria de finalizar este primeiro momento, analisando o final de minha conversa com a aluna relatada anteriormente. Logo após minhas explanações sobre o da disciplina, a aluna me desafiou com outra frase polêmica: "Está bem. Acho que será interessante, mas continuo achando que este negócio de ciência não é para mim, afinal de de contas, nunca estudei nada a respeito, nunca vi nada científico. Para mim é coisa de maluco, de avental branco, cabelos espantados, pensando como dominar o mundo!" Mais uma vez, a questão estava colocada e aqui está a resposta: produzir a aluna, como boa parte dos estudantes, nunca aprendeu a ela ciência, mas ao contrário do que ela afirmava na oportunidade,E técnicas de pesquisa psicologia 43 tinha uma boa formação pois afinal, o que é ensinado no sistema educacional? Grande parte é justamente o conhecimento Utilizando um velho jargão comercial de uma conhecida marca de chinelos: Não aceite imitação. Exija ciência. Este livro se propõe a ensinar o que deveria ser primeiramente ensinado: como compreender e fazer ciência, mas com ênfase ao campo da Psicologia que, como todas as demais áreas de conheci- mento possui alguns aspectos particulares.

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