Prévia do material em texto
27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 1/40 Base das relações privadas Unidade 1 - Da pessoa natural Autor: Marcelo Paiva de Medeiros Iniciar Introdução Nesta unidade, estudaremos temas interessantes, atemporais e que tem uma relevância enorme no cotidiano de qualquer pessoa (seja física, jurídica, pública ou privada). Estamos iniciando uma jornada pelas bases das relações privadas e, desta forma, abordaremos a “natureza jurídica da própria relação jurídica” (por mais estranha que possa parecer, essa expressão fará todo sentido mais à frente), das normas civis, das pessoas e um emaranhado de elementos e qualidades típicas dos direitos da personalidade e capacidade civil. Para tanto, utilizaremos importantes referenciais teóricos (doutrina especializada já apresentada no plano de ensino) e 03 normas importantíssimas ao tema: A Constituição Federal de 1988, o Código Civil de 2002 e a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Lei 4.657/42 alterada pela Lei 12.376/10 – “LINDB”). 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 2/40 Desta forma, algumas de�nições prévias precisam ser bem delineadas, para facilitar o entendimento da matéria. Conceitos como a própria de�nição de “Direito Civil”, diferenciação entre o “público e o privado” bem como linhas históricas ligadas à origem do direito brasileiro são fundamentais à compreensão de institutos futuramente estudados. Apesar das diferentes classi�cações, fato é que, no Brasil, as relações veri�cadas entre os indivíduos nos mais variados aspectos da vida civil, são pautadas com base em uma rica e intrincada produção de regulamentos positivados em lei (inclusive codi�cados). Esta é uma característica que a doutrina chama de “Civil Law”, sistema de origem romano-germânico de direito “legislado”, escrito e positivado. Diferente do “Common law”, típico sistema de origem britânica, no qual a construção jurídica é formada especialmente pelas decisões de juízes, tribunais e regras de costume. Contudo, em que pese alguns doutrinadores empregarem relevância a diferenciação entre ambos, vale nesta unidade destacar que o Direito é “Uno”, “Geral” e somente é segmentado para �ns didáticos ou com intuito de ser melhor compreendido. Esta nova visão foi importante para evolução da disciplina e será mais pormenorizadamente abordada ao longo das unidades. Além de conceitos básicos, traremos à tona importantes discussões, tais como o necessário aprofundamento nos re�exos da LINDB em todo ordenamento jurídico, o processo de publicização do direito (atualmente apelidado de “Direito Civil Constitucional”), curiosidades dos atributos da capacidade civil, da personalidade, nascimento e morte da pessoa natural, dentre tantos outros. Pois bem, feitas estas primeiras considerações, seguiremos no estudo apresentando um a um os tópicos que compõem esta unidade, ressaltando a importância da consulta a bibliogra�a e re�exões propostas nas atividades complementares que completam o material de estudos. Bons estudos! 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 3/40 1. Teoria da relação jurídica O homem é um ser social! Esta a�rmação é um dos pilares da sociologia que reconhece a necessidade dos indivíduos em viver em sociedade. Trata-se de construção histórica, milenar e que remonta à época dos caçadores coletores, que se agrupavam em bandos para obterem melhores resultados em suas buscas, protegerem-se mutuamente e prosperarem enquanto agrupamento. Nos dizeres dos professores Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona Filho (2019), o primeiro passo para conseguir conceituar o direito é reconhecer a sua característica essencialmente humana, de “um instrumento necessário ao convívio social”. E tem razão os nobres professores, pois basta analisarmos a situação da fabulosa história �ctícia de Robson Crusoé. Enquanto a personagem principal vivia sozinha na ilha, não importava o surgimento do fenômeno jurídico (direito civil). Que importância teria reconhecer seu direito de propriedade sobre sua cabana se ele era o único morador da ilha? Porém, após aparecimento do índio, houve a necessidade social de se implantar regras de conduta, capazes de propiciar o convívio ordeiro e pací�co entre ambos. A metáfora de Crusoé traz a rea�rmação de que somos, portanto, animais sociais e nesta relação cotidiana e inevitável “com os outros”, surgem in�nitas possibilidades e necessidades de regulamentação, por parte das ciências jurídicas. O Direito neste contexto, assume função de disciplinar essas relações sociais, ao passo que o faz por meio da produção de leis (como o Código Civil e a LINDB por exemplo), eleva os fenômenos naturais e sociais à condição de fatos e relações jurídicos. Tais relações eminentemente tuteladas pelo direito passam pela concepção do “viver em sociedade sob a regulamentação de um Estado”. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 4/40 Em razão da amplitude do tema, não se poderá abordar com profundidade as teses que explicam a origem e natureza dos Estados como conhecemos hoje, porém, não é demais frisarmos que a base das relações privadas aqui estudada tem ligação umbilical com a disposição do ordenamento público, aqui entendido pela �gura estatal. São as bases do chamado “contrato social”. Hobbes, Rousseau, dentre tantos outros �lósofos teorizaram a existência de um “instrumento �cto”, composto de regras “pactuadas” intuitivamente em que, visando garantir liberdade, propriedade privada, segurança e tantos outros elementos indispensáveis à vida em sociedade, seus indivíduos abriam mão de uma autonomia absoluta, permitindo que o Estado passasse a tutelar por meio das relações jurídicas o cotidiano de seu mais importante elemento: o povo! Pode-se dizer que uma relação jurídica consiste em “vínculo intersubjetivo concretizado pela ocorrência de um fato cujos efeitos são veiculados pela lei, na qual uma relação anteriormente denominada apenas como social, passa a ser tipi�cada por uma norma jurídica e, portanto, elevada a condição de Relação jurídica”. Dois requisitos devem se fazer presentes: a) material – relação intersubjetiva, a saber, entre duas ou mais pessoas; b) formal – tutela dos interesses das partes envolvidas por uma norma jurídica (REALE, 2007). Tais requisitos podem ser detalhados em 4 elementos fundamentais, sendo eles: sujeito ativo, sujeito passivo, vínculo de atributividade e objeto. Conforme exposto no início desta unidade, sendo o homem um ser social, necessitando de contato com seus pares, uma relação será sempre veri�cada entre duas pessoas ou mais – sejam elas pessoas físicas, pessoas jurídicas ou, até mesmo, entes despersonalizados como se verá mais adiante. Na relação jurídica, as pessoas em interação serão denominados de sujeitos, podendo ser considerados como ativos ou passivos, dependendo de sua posição na relação. Via de regra e, considerando a complexidade das relações humanas, o sujeito ativo tem a capacidade de agir em defesa de seus interesses (direito subjetivo) e o sujeito passivo tem a obrigação de prestar uma conduta em favor do sujeito ativo. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 5/40 Sujeito ativo seria, portanto, nas relações jurídicas obrigacionais, um “credor da prestação ou obrigação principal ou o bene�ciário principal da relação” na qual o sujeito passivo passa, nessa de�nição, a �gurar como titular do dever jurídico, de devedor daquelaos bens arrecadados passarão ao domínio do Município ou do Distrito Federal, se localizados nas respectivas circunscrições, incorporando-se ao domínio da União, quando situados em território federal. Logo, se o ausente reaparece após 10 anos do trânsito em julgado da decisão que concedeu a sucessão de�nitiva, não poderá mais reaver seu patrimônio. Síntese Finalizando a unidade 1 das bases das relações privadas e estudadas as linhas introdutórias que servirão de fundamento para os mais variados ramos do direito, difícil imaginar nas ciências jurídicas uma disciplina tão rami�cada e de aplicação subsidiária quanto o Direito Civil. Desse modo, aprendemos juntos: ● Os fundamentos do direito privado: vocês puderam perceber que as normas introdutórias (LINDB), conceitos e normatização civil (art. 1º ao 40 do CC/02) são costumeiramente veri�cados em outros segmentos como Direito do Trabalho, Ambiental, Empresarial, Administrativo, Tributário e tantos outros. ● Diferenciação entre Lei e norma, bem como, mecanismos de validação das leis no plano nacional e internacional, dentre outros aspectos de hermenêutica jurídica foram habilidades essenciais desenvolvidas nesta unidade. ● Compreender que o direito civil, aqui entendido como “direito do cidadão” ou que “disciplina as relações jurídicas da pessoa é, sem sombra de dúvida, a grande base do que se convencionou chamar de Direito Privado, regendo genericamente todas as relações jurídicas dos indivíduos, antes do seu nascimento até a sua morte. O Direito civil “está em tudo”. Do despertar ao adormecer, cada um de nós somos bombardeados por seus conceitos, de�nições e regramentos, ainda que na maioria 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 38/40 das vezes, imperceptíveis. Diante de tais constatações, é possível passar a reconhecer os fenômenos jurídicos em seu próprio cotidiano. Apenas a título de ilustração, se pensarmos numa rotina básica de quem acorda em sua residência, toma café, pega um transporte para trabalhar, estuda a noite em uma instituição de ensino e retorna para o conforto do lar, poderíamos identi�car incontáveis relações jurídicas típicas e que guardam regulamentação no direito civil. Nesta pequena rotina acima descrita, facilmente destacamos: ● Direitos da Personalidade (proteção ao Nome, Intimidade); ● Capacidade civil (para aquisição de bens como o pãozinho); ● Atos e negócios jurídicos (celebração de compra e venda de passagens); ● Obrigações (pagamento, contraprestação); ● Contratos (com instituição escolar, de trabalho, de transporte); ● Propriedade privada (proteção à moradia), dentre outras. Assim, enveredar-se pelos férteis campos do Direito Civil é, antes de mais nada, propiciar correto entendimento sobre os direitos da personalidade, seus mecanismos de proteção e importância da separação entre pessoa física e patrimonial (especialmente para evitar “confusão” patrimonial). Por �m, após concluirmos esta unidade, será possível discernir entre as diferenças de tutela jurídica para o caso de “Ausência” de uma pessoa, com ou sem representante nomeado e os requisitos delegados pela norma civil para efetiva partilha de bens. Assim, em síntese �nal, destacamos que nesta primeira unidade observou-se que a condição humana, a proteção de sua dignidade e dos direitos a ela inerentes foram alvo de especial atenção do legislador civilista e constitucional. “O novo direito civil”, ou “direito civil contemporâneo” vem sendo irradiado de in�uência constitucional e também por disposições do plano internacional (matérias 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 39/40 de direitos humanos, tratados internacionais, como o Estatuto da Pessoa com De�ciência) estando em franca ebulição conceitual e demandando diversas releituras, conforme serão abordadas nas unidades a seguir. O direito como um todo vem sofrendo, ao longo dos anos, um processo de publicização no qual, independentemente da maior ou menor participação do Estado, normas e garantias constitucionais ou de ordem pública vem sendo aplicados diretamente no âmbito privado, havendo doutrinadores da lavra do professor Luiz Edson Fachin, Flávio Tartuce, Rodolfo Pamplona Filho e Pablo Stolze, referindo-se ao “Direito Civil-Constitucional” em reforço da aplicação horizontal dos direitos fundamentais nas relações privadas. Download do PDF da unidade Bibliografia BEVILAQUA, Clovis. Teoria geral do Direito Civil , Campinas: RED livros , 1999, p 81. DINIZ, Maria Helena. Curso Direito Civil Brasileiro - Teoria Geral do Direito Civil - Vol. 1 - 36ª Ed. Saraiva: São Paulo. 2019 FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil , 1: parte geral e LINDB. São Paulo: Atlas, 2015. LOPES, Miguel Maria Serpa. Lei de Introdução ao Código Civil . Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1959, v.1, p.8 NADER, Paulo. Introdução ao Estudo do Direito . p.297-303.38ªed.- Rio de Janeiro: Forense, 2016 REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito . 26º ed. Saraiva: São Paulo, 2002. p. 216 STOLZE, Pablo, PAMPLONA Filho, Rodolfo. Novo Curso De Direito Civil - Parte Geral - 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 40/40 Vol. 1 - 21ª Ed. Saraiva: São Paulo, 2019. TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil - Vol. Único - 5ª Ed. Saraiva: São Paulo 2015.prestação principal (STOLZE; PAMPLONA FILHO, 2019). Ambos passam, portanto, a contrair obrigações entre si, que podem ser de “dar, fazer e não fazer”. A título de exemplo, se Ana decide vender seu celular para um vizinho, entre eles será realizado um contrato de compra e venda. Considerando-se a obrigação de entregar o celular, Ana é o sujeito passivo – tem o dever de entregar o bem, e o vizinho é o sujeito ativo – terá o seu interesse de receber o celular satisfeito. Se consideramos a obrigação de dar dinheiro – de pagar pelo celular no exemplo supra, os polos se invertem. Veja-se que, em uma relação jurídica obrigacional, há direitos e deveres recíprocos, de modo que a posição no polo ativo ou passivo da relação muda conforme a prestação sob análise. Esse conjunto de direitos e deveres recíprocos constitui o vínculo de atributividade ou intersubjetivo. Ele pode ser de�nido como liame, vínculo reconhecido juridicamente entre os sujeitos. Pode decorrer estritamente da lei ou de acordo de vontades, a exemplo dos contratos. A inexistência deste liame acarreta a inexistência da relação jurídica. Já o objeto é entendido como “elemento motriz da relação”, é a pessoa, a prestação ou a coisa sobre a qual recai o vínculo de atributividade. A relação jurídica gira em torno do objeto. Como exemplo de uma relação jurídica, podemos citar a relação entre um motorista de ônibus e um passageiro que sobe ao veículo em um determinado ponto. Os sujeitos, que até então não haviam estabelecido uma relação jurídica, agora têm um vínculo entre si, cujo objeto será a e�ciente prestação do serviço de transporte contratado pelo passageiro (obrigação de fazer). O passageiro nessa relação tornou-se o sujeito ativo, recebeu o direito de exigir uma prestação de serviços e�ciente e de qualidade. O motorista, por sua vez, tornou-se, 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 6/40 então, o sujeito passivo, ele terá a obrigação de prestar os serviços dentro dos padrões previstos na relação jurídica instalada. Os exemplos são incontáveis e podem ser observados nas suas atividades cotidianas, bastando re�etir sobre os pontos destacados aqui. Veja-se que, quando o objeto é uma prestação obrigacional, os sujeitos ativo e passivo são determinados – exemplos dos contratos de compra e venda e transporte. Tal não ocorre quando o objeto da relação jurídica é uma coisa (direito reais) ou a própria pessoa (direitos da personalidade). O proprietário de um imóvel tem o direito de usar, gozar e dispor da sua propriedade conforme os parâmetros legais. Espera-se que qualquer pessoa, que a coletividade em geral, respeite o exercício do seu direito real. A mesma dinâmica se dá em relação aos direitos da personalidade, como os direitos à honra e à imagem. Se alguém invade o imóvel ou divulga informações falsas sobre o titular do direito em questão, haverá descumprimento do dever geral de não provocar danos a outrem, surgindo o dever de reparar o dano causado. Nessas situações, descreve-se a relação jurídica da seguinte forma: o sujeito ativo é o titular do direito real ou pessoal, e o sujeito passivo é a coletividade. O sujeito passivo apenas será individualizado em hipótese de lesão ao direito (REALE, 2007). 2. Lei de introdução às normas do direito brasileiro O direito brasileiro sempre foi �liado a escola do Civil Law, de origem germânica- romana, pela qual a lei é fonte primária do sistema jurídico. Deste modo, por uma tendência natural, buscou-se normatizar até mesmo alguns conceitos e referências hermenêuticas aplicadas a todo o ordenamento jurídico, tamanha necessidade do estado nacional positivar suas regras de conduta. Assim, chegou-se a produção de uma “norma de sobredireito”, ou seja, uma norma jurídica que visa regulamentar outras normas (FARIAS; ROSENVALD, 2015). 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 7/40 Nascida como “LICC” (Lei de Introdução ao Código Civil), a Lei ainda n.º 4.657/42, posteriormente foi alterada pela Lei 12.376/10 e renomeada como “Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB”. Originalmente, a Lei de Introdução possuía 19 (dezenove) artigos que trazem em seu conteúdo regras quanto à vigência das leis (art. 1º e 2º), aplicação da norma jurídica no tempo (3º a 6º) e no que concerne à sua subsistência no espaço, em especial nas questões de direito internacional (art. 7º a 19º). A Lei 13.655/2018 incluiu novos dispositivos referentes à atividade hermenêutica no âmbito do Direito Público. Em linhas gerais, a LINDB aponta ainda as fontes do direito privado em completo da própria lei e, em seu artigo 4º, de�ne o que seriam as “fontes formais secundárias”, destacando: analogia, costumes e os princípios gerais do direito. Dentro dessa gama de previsões legais, no momento, nos interessa especialmente o estudo dos arts. 1º ao 6º. Os demais serão objeto de estudo em disciplinas futuras. Importantíssimo destacar que a LINDB não faz parte do Código Civil, sendo de�nida na clássica obra de Serpa Lopes (1959) como uma espécie de lei anexa, publicada originalmente junto ao Código Civil para facilitar sua aplicação. Apesar de promulgada na qualidade de Decreto-Lei em 1942, entende-se que foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988 enquanto lei ordinária. Aprofundando em parte os estudos, apresentamos a seguir 4 (quatro) conceitos essenciais ao estudo das normas no direito brasileiro, quais sejam, a de�nição terminológica de lei, vigência, lacuna e antinomia legal. 2.1 Vigência Pode-se de�nir a lei como uma regra geral imposta coercitivamente à obediência de todos. Trata-se, portanto, de uma norma vinda de autoridade competente e dirigida a todos, indistintamente, por razão de sua força coercitiva. Essencial faz-se a distinção entre lei e norma. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 8/40 Norma é regra de conduta, um comando que expressa “a vontade estatal”, que atua por meio do Poder Legislativo e sua típica função de legislar. “Esta vontade” é, então, consubstanciada na lei, portanto, o meio clássico de expressão da norma é a lei escrita, o chamado direito positivo. Pode-se dizer, nessa linha, que a norma está contida nas leis. Contudo, a norma jurídica também decorre de outras fontes do Direito, a exemplo dos costumes e princípios gerais do direito. Parte da doutrina se refere à norma como resultado do processo de interpretação das fontes do direito, de modo que ela não se confundiria com o texto legal. As leis guardam hierarquia quanto a sua fonte e origem, devendo em todas as esferas guardar compatibilidade temática e formal para com a Constituição Federal, sob pena de caracterização de inconstitucionalidades. Pois bem, sendo concebida a lei como uma das fontes do direito – mas não a única – a LINDB consagra no artigo 1º regras sobre a vigência legal, dispondo que, salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias depois de o�cialmente publicada. Já no plano internacional, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, inicia-se três meses depois de o�cialmente publicada (art. 1º, §1º). Note-se que o termo “vigência legal” se refere um critério estritamente temporal. Uma norma está em vigor até que ocorra sua revogação, salvo hipótese de lei temporária, a exemplo da Lei da Copa. Trata-se da “força vinculante da norma”, elemento que a torna de observância obrigatória sob pena de aplicação da sanção legal pertinente. Excepcionalmente, uma lei poderá produzir efeitos mesmo tendo sido revogada. Vide, como exemplo, as regras de transição previstas no artigo 2.038 do Código Civil. A vigência é,portanto, a existência social e jurídica da norma. Se ela entrar em vigor, deve ser obedecida e aplicada. Ora, a�rmar que uma determinada lei está em vigência ou que ela entrou em vigor signi�ca dizer que essa lei deve, obrigatoriamente, ser respeitada. Signi�ca que aqueles que não a observarem estarão sujeitos às penalidades previstas. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD2… 9/40 Por outro lado, denomina-se vacatio legis o lapso temporal entre o ato de publicação e a entrada em vigor da lei. A lei não produzirá efeitos durante a vacatio legis (art. 1º LINDB). Segundo a doutrina, existem dois motivos para sua existência: 1- Cognitivo 2- Instrumental Caso venha a ocorrer nova publicação do texto legal dentro do prazo de vacatio legis previsto, o prazo do artigo adicionado ou reti�cado começará a correr da nova publicação. Porém, se a correção do texto legal for providenciada após sua entrada em vigor, será necessária a elaboração e publicação de lei nova (art. 1º, §§ 3º e 4º LINDB). Geralmente, o prazo da vacatio legis conta com previsão em um dos últimos artigos de uma lei. No Código de Processo Civil de 2015 (CPC/2015), por exemplo, consta: “Art. 1.045. Este Código entra em vigor após decorrido 1 (um) ano da data de sua publicação o�cial.” A lei poderá entrar em vigor na data de sua publicação quando sua matéria for de menor repercussão (art. 8º, Lei-Complementar nº 95/1998). Uma vez em vigor, a lei somente deixa de integrar o ordenamento jurídico se modi�cada ou revogada por outra lei (art. 2º LINDB), regra referida pela doutrina como princípio da continuidade (FARIAS; ROSENVALD, 2019). A revogação pode ser total (ab- rogação) ou parcial (derrogação). O CPC/2015, por exemplo, ab-rogou o CPC/1973 e derrogou alguns dispositivos do Código Civil/2002. A revogação poderá, ainda, ser expressa ou tácita. De acordo com o art. 2º, § 1º da LINDB: “A lei posterior revoga a anterior quando expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior”. Logo, havendo incompatibilidade entre as regras de leis diversas, valerá a lei mais nova. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 10/40 Para aplicação desta norma, é preciso que as leis sob análise compartilhem a mesma hierarquia legal: duas leis ordinárias, por exemplo. Lei ordinária posterior à Constituição Federal de 1988 não é capaz de revogar dispositivo constitucional, sendo este último hierarquicamente superior. É importante referir que um costume contrário à lei não é capaz, per si, de provocar sua revogação. Segue-se a chamada vedação ao desuetudo, ou costume negativo. O jogo do bicho, por exemplo, mesmo que amplamente praticado em determinados locais, não faz com que essa prática seja considerada ilícita pelo Direito brasileiro (FARIAS; ROSENVALD, 2019). 2.2 Antinomia jurídica Acerca das antinomias legais, mais precisamente “possíveis con�itos” entre leis, para resolver os casos que lhe são apresentados, o Poder Judiciário procura, dentro da sistemática do direito, a norma que se deve aplicar à hipótese sub judice. Existem basicamente 2 grandes eixos de análise das antinomias. Uma leva em consideração o “Tempo” (art. 6º) e a outra o “Espaço” (art. 7º), sendo objeto de estudo neste momento o primeiro caso. Tais operações consistem em transferir para um caso particular e concreto a decisão que se encontra na regra abstrata. Esta é a premissa maior de um silogismo, e, partindo dela, o juiz aplicará a lei ao caso concreto. A antinomia legal ocorre quando há dúvidas em relação à qual lei deverá ser aplicada em determinada situação. A parte do Direito que trata da questão temporal denomina- se Direito Intertemporal. Em outras palavras, a dúvida instaura-se pois o fato jurídico ocorreu na data X, quando uma determinada lei tinha vigência. Mas ocorre que, posteriormente, essa lei fora revogada, surgindo uma nova lei que disciplina o assunto em questão. Nesse caso, haverá con�ito entre qual lei deverá ser aplicada sobre os efeitos de um fato que ocorreu na vigência de uma lei passada, mas que está sendo discutido sob a égide da lei atual. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 11/40 Estamos diante de um caso típico de con�ito de leis no tempo. Acerca do problema, a LINDB forneceu algumas instruções em seu artigo 6º, que apresenta a seguinte redação: “A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e coisa julgada.” Dessa forma, a regra geral é que as leis não retroagem – a saber, não se aplicam a fatos anteriores à sua entrada em vigor, mas há exceções. Uma nova lei poderá retroagir desde que respeite: a. Direito adquirido - são aqueles cujos titulares possam exercer desde já, a exemplo do cumprimento de todos os requisitos legais para aposentadoria; b. Ato jurídico perfeito - é o que já produziu efeitos, segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou, a exemplo de um contrato já integralmente cumprido; c. Coisa julgada (caso julgado) - decisão judicial sob a qual não cabe mais recurso, já tornada de�nitiva; Portanto, a regra é a irretroatividade da lei. Excepcionalmente, a própria lei prevê hipóteses de retroatividade benigna. De acordo com o art. 5º, inciso XL da CF/88: “a lei penal não retroagirá, salvo para bene�ciar o réu”. Há, ainda, hipótese de ultratividade – aplicação de norma revogada a atos jurídicos futuros, quando já se encontra em vigor outra lei. De acordo com o Código Civil, aplica- se a lei sucessória em vigor no momento do óbito. Sendo assim, o processo de inventário e partilha referente à herança de alguém que faleceu quando estava em vigor o CC/1916 deverá observar sua disciplina legal, mas já estando em vigor o CC/2002. É preciso identi�car, ainda, que a repristinação somente ocorrerá quando a lei revogadora assim expressamente determinar. A repristinação consiste na entrada em vigor de lei revogada, a partir do momento que sua lei revogadora foi, também, revogada. Diz o art. 2º, § 3º da LINDB que: “Salvo disposição em contrário, a lei revogada não se restaura por ter a lei revogadora perdido a vigência”. Imaginemos que lei nova revogue expressamente o Código Civil de 2002. Este fato, por si só, não implica que o CC/1916 passa ao estado de vigência. Para tanto, a lei revogadora do CC atual precisaria indicar, expressamente, a repristinação do CC/1916. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 12/40 Em estreita sintonia com este artigo da LINDB, a CF/88 estabeleceu em seu artigo 5º, XXXVI, que “a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. Para além do critério cronológico de resolução da antinomia jurídica, sintetizado na máxima “lei posterior prevalece sobre lei anterior”, há outros dois: o critério hierárquico – “lei superior prevalece sobre lei inferior” e o critério da especialidade – “lei especial prevalece sobre lei geral”. Diante da crescente complexidade do ordenamento jurídico, muitos doutrinadores têm adotado a teoria do diálogo das fontes. Trata-se de proposta desenvolvida pelo jurista alemão Erik Jayme, introduzida no Brasil pela Profa. Claudia Lima Marques (2004). De acordo com essa proposta, as normas não se excluem, mas se complementam. Em caso de antinomia, deve ser realizada interpretação sistemática, extraindo-se a norma jurídica mais adequada para resolução do caso concreto. 2.3 Lacuna Por vezes, o juiz não encontra na legislação escrita uma norma a aplicar ao casoconcreto. Poderia ele se recusar a decidir sob tal pretexto? Evidentemente não, sob pena de se conturbar a ordem social. Compete ao Estado, através do Poder judiciário, solucionar os con�itos entre particulares, e a esse mister não poderá fugir. Quando a lei é omissa sobre algum aspecto, ou sobre a solução de alguma relação jurídica, diz-se que há uma lacuna da lei. Esta é inevitável em qualquer ordenamento jurídico, porque o legislador, por mais profícuo que seja, não pode prever todos os casos e ocorrências decorrentes das incontáveis relações humanas. De acordo com o art. 4º da LINDB: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito.” Estes são os instrumentos de integração da lei, diante da sua incapacidade de regulação exaustiva das relações sociais. Vejamos cada um deles: Analogia: diante da ausência de lei disciplinadora, o magistrado aplicará ao caso concreto a norma prevista para situação semelhante, dada a identidade de razões ou 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 13/40 �nalidades. O fundamento desse recurso reside no princípio da igualdade jurídica: deve-se conferir a mesma solução para casos iguais ou semelhantes, na medida em que se desigualarem. Há alguns contextos nos quais ela não se aplica, tais como leis �scais e �ança. No direito penal, ela nunca é utilizada para prejudicar o acusado, ou seja, in malam partem . Por ser um princípio democrático, só poderá ser aplicada in bonam partem , em benefício do acusado. A analogia pode ser legal, quando referente a lei em sentido estrito, ou jurídica, quando relacionada à norma jurídica em sentido amplo. Ex. Sobre a admissibilidade do recurso especial, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça considera que, quando a arguição de ofensa ao dispositivo de lei federal é genérica, sem demonstração efetiva da contrariedade, aplica-se, por analogia, o entendimento da Súmula n. 284, do Supremo Tribunal Federal – “É inadmissível o recurso extraordinário, quando a de�ciência na sua fundamentação não permitir a exata compreensão da controvérsia”. A analogia não se confunde com a interpretação extensiva da lei. Nesta segunda hipótese, existe lei aplicável ao caso, apenas se estabelecem novos e legítimos limites da norma, realizando o juiz uma interpretação menos literal para alargar o alcance da regra. Vide, como exemplo, a extensão da Lei Maria da Penha a mulheres transexuais. Costumes: são práticas sociais reiteradas, dotadas de continuidade, uniformidade e obrigatoriedade. Exemplo interessante é o cheque pré-datado. A rigor, o cheque é título de crédito que consiste em ordem de pagamento a vista. Por conta dessa prática social, o Superior Tribunal de Justiça consolidou o seguinte entendimento: “Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque pré-datado” (Súmula nº 370). O cheque é pago na data da apresentação ao banco, independentemente da data prevista no documento cambial. Nesse caso, aquele que antecipa a apresentação do título de crédito viola a boa-fé objetiva – a saber, a expectativa de que o cheque somente seria apresentado na data futura ali inserida. Por isso, será devida indenização por danos morais. Os costumes são classi�cados em: a) Secundum legem 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 14/40 3. Pessoa Física O Código Civil de 2002, a exemplo do seu antecessor (Código de Beviláqua – 1916) cuida primeiro da pessoa natural/física como sujeito de direito. É um dos temas mais importantes de toda a disciplina, visto que inegavelmente o homem e a condição humana representam o cerne das relações jurídicas, como visto em unidades anteriores. Seguindo a teoria utilizada como base para o Código Civil de 2002, podemos de�nir como pessoa natural o ser humano livre de qualquer adjetivação, ou seja, o ser humano independentemente de sexo, crença, idade, religião etc. b) Praeter legem c) Contra legem Princípios gerais do direito: regras abstratas, virtuais, que estão na consciência e que orientam o entendimento de todo o sistema jurídico, em sua aplicação integração. Remontam às bases do direito romano, sendo sintetizados em três máximas: não lesar ninguém, dar a cada um o que é seu, viver honestamente. Você quer ler? Vamos consultar a LINDB? O texto integral está disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/Lei/L12663.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/Lei/L12663.htm 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 15/40 Mas apenas reconhecer a condição humana da pessoa natural não bastaria à legislação civilista. Era preciso dar-lhe atributos típicos, capazes de diferenciá-lo de coisas, objetos e animais não-humanos. Surge, então, outro fenômeno: a personalidade jurídica. 3.1 Personalidade jurídica Clovis Beviláqua (1999), em sua teoria geral do direito civil, leciona que a personalidade jurídica tem por base a personalidade psíquica, somente no sentido de que sem essa última não poderia o homem ter elevado a condição da primeira e, certamente, o indivíduo vê na sua personalidade jurídica a projeção de suas qualidades psíquicas. Todavia, a personalidade jurídica é mais do que um processo superior de atividade psíquica. É uma criação social decorrente da necessidade de pôr em movimento o aparelho jurídico. A nível conceitual, a personalidade jurídica é atributo reconhecido a determinadas pessoas que lhes confere uma aptidão geral e abstrata de ser titular de direitos e obrigações na ordem jurídica, bem como a possibilidade de reclamar uma proteção jurídica mínima – os chamados direitos da personalidade, alvo de estudos em unidade futura (FARIAS; ROSENVALD, 2019). Sendo assim, juridicamente, é pessoa todo ser humano dotado de personalidade jurídica. Logo, em que momento se dá a aquisição de personalidade jurídica? A tendência moderna, valendo-se de uma interpretação mais “constitucional”, busca despatrimonializar o conceito de pessoa natural, tentando não mais tratá-la como sinônimo de “pessoa física”. Esta discussão restringe-se a campo eminentemente acadêmico, vez que, na prática, os conceitos são idênticos. Na primeira parte do art. 2º do Código Civil, o legislador dispõe que “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida”. Desta forma, a normativa civil indica marco temporal especí�co, dispondo que, no momento em que há o nascimento com vida, adquire-se a personalidade jurídica. E 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 16/40 isso faz toda a diferença, visto que da personalidade decorre a titularidade de uma série direitos (extra)patrimoniais. Não podemos, portanto, deixar de mencionar a proteção constitucional da pessoa natural que pode ser veri�cada no art. 1º, III da CF, porque, a�nal de contas, este dispositivo prevê expressamente que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade humana. Seguindo a linha de raciocínio do legislador pátrio, “nascer com vida” signi�ca operar- se o funcionamento do aparelho cardiorrespiratório do recém-nascido (Resolução 01/88 do Conselho Nacional de Saúde), independentemente da forma humana e de tempo mínimo de sobrevida, em respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana. Você sabia? “O Nascimento com vida” não é unanimidade no mundo quando assunto é marco de assunção da personalidade. O art. 30 do Código Civil Espanhol dispõe que “somente se reputará nascido, se possuir forma humana e tempo mínimo de sobrevida.” A segunda parte do art. 2ºdo CC prevê: “Mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. A doutrina diverge a esse respeito, ganhando destaque na controvérsia duas teorias: Teoria Natalista (Eduardo Espínola, Vicente Raó, Silvio Rodrigues): Teoria Concepcionista (Teixeira de Freitas, Silmara Chinelato): 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 17/40 Você sabia? Existe uma teoria intermediária, referida por alguns autores, como a professora Maria Helena Diniz, denominada teoria da personalidade formal ou condicional, segundo a qual, o nascituro teria formalmente personalidade para titularizar direitos personalíssimos, mas, quanto aos direitos patrimoniais, estes só seriam consolidados sob a condição de nascer com vida. Certo é que o nascituro possui vida “intra-uterina” recebendo tratamento diferenciado perante ao embrião que é gerado in vitro . Conforme o entendimento de Limongi França, nascituro é o ente concebido, ainda não nascido, sendo, portanto, sujeito de diversos direitos, como por exemplo, direito à vida, proteção ao pré-natal, legado, dentre outros. Mas qual seria a teoria adotada pelo Código Civil Brasileiro? Não há unanimidade na doutrina. Independentemente de qualquer teoria, o nascituro tem proteção jurídica. A renomada professora Maria Helena Diniz em construção interessante, classi�ca dentro da teoria adotada no código de 2002 (concepcionista), a Personalidade Jurídica em material e formal. Para a professora, a personalidade jurídica formal atribui ao nascituro direitos fundamentais, como a vida, alimentos, dentre outros elementares e dispostos a propiciar, justamente, seu desenvolvimento intrauterino. Já a “material” diz respeito aos direitos patrimoniais, que o nascituro tem a salvo desde a concepção, porém só terá efetivado após certi�cação do nascimento com vida! Você quer ler? 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 18/40 Alimentos: �rme jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ/RS Agravo de instrumento 7000.64.29096) reforçada pela recente lei de alimentos gravídicos (lei 11.804/08), que reconhece ao nascituro o direito (patrimonial) aos alimentos. Dano Moral (Nascituro): Jurisprudência do próprio STJ (REsp 931.556/RS e REsp 399.028/SP) tem admitido, sob inegável in�uência concepcionista, ao sentir de Pablo Stolze, direito à indenização por dano moral em favor do nascituro. O natimorto (nascido morto), segundo a doutrina, como se pode veri�car no enunciado n° 01 da I Jornada de Direito Civil, possui proteção jurídica, como o direito ao nome, à imagem e a sepultura (memória). 3.2 Teoria das incapacidades e legitimidade Nota-se que a “personalidade é invenção do Direito”. Por isso, dizemos que personalidade é atributo ou valor jurídico. Poderá, inclusive, ser atribuída a entes não humanos, a exemplo das pessoas jurídicas – a exemplo das fundações, associações e sociedades. A personalidade possui certos atributos, certos elementos que a caracterizam. São eles, dentre muitos outros, a capacidade, o nome e o estado. Avançando na temática, importante estudarmos o instituto da capacidade. O artigo 1º do CC/2002 prevê que toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil. Alguns autores, como Teixeira de Freitas, entendem que a capacidade é a medida da personalidade, sendo, portanto, possível mensurar seu conceito e re�exos. Para que se possa conceituar capacidade, deve-se desdobrá-la em capacidade de direito, genérica ou geral, na qual a capacidade de direito é aquela que toda pessoa tem. Se a capacidade de direito é genérica, e qualquer pessoa a possui, segundo o ensinamento de Orlando Gomes, ela se confunde com a noção de personalidade. Contudo, com a consagração dos direitos da personalidade na legislação civil, a personalidade jurídica ganhou uma segunda conotação: conjunto de características essenciais à pessoa, como integridade física, nome, imagem, voz, dentre outras. Dessa 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 19/40 forma, deixou de haver uma total coincidência entre personalidade jurídica e capacidade de direito. Além dessa modalidade, a capacidade poderá ser também de fato. Nem toda pessoa possui capacidade de fato ou de exercício. Trata-se da aptidão para praticar pessoalmente os atos da vida civil. Ausente essa capacidade, haverá incapacidade civil, que poderá ser absoluta ou relativa. Assim, somente quando a pessoa natural for dotada de capacidade de fato e de direito, ter-se-á a chamada capacidade civil plena. Não podemos confundir, no entanto, capacidade com legitimação, uma vez que esta última é a idoneidade para o exercício de determinados direitos, ou seja, há situações em que a pessoa, mesmo sendo capaz, não terá legitimação su�ciente para pleitear um determinado direito em juízo. A legitimidade traduz, no dizer de Calmon de Passos, pertinência subjetiva para a prática de determinado ato, ou seja, mesmo capaz, uma pessoa pode estar impedida de praticar determinado ato. Neste caso, falta-lhe legitimidade. (Ex. dois irmãos que, mesmo capazes, não podem casar entre si – art. 1.521, IV do C.C.). Já a incapacidade é a restrição legal para a prática, por si só, de atos na vida civil. Por meio desse conceito, extraí mos que, somente o legislador poderá apontar quem são os incapazes, não sendo admissível a incapacidade negocial ou contratual. A incapacidade comporta gradação nos seguintes moldes: a. Incapacidade civil absoluta (art. 3º CC/2002); b. Incapacidade civil relativa (art. 4º CC/2002). Os absolutamente incapazes são representados (vontade expressa na pessoa do representante), enquanto os relativamente incapazes são assistidos (apenas “auxiliados” mediante prática de atos da vida civil em conjunto). A representação ou assistência legal será prestada por um tutor – no casos das crianças e adolescentes, ou curador, para as demais hipóteses, nas quais se faz necessário o processo de interdição. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 20/40 INCAPACIDADE Segundo o art. 3º do Código Civil, são absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil: os menores de dezesseis anos (impúberes), que são aqueles com dezesseis anos incompletos. Em 2015, foram suprimidos os incisos II e III, que tratavam da pessoa com de�ciência e daqueles que apresentassem di�culdades em se expressar, tendo o legislador respeitado a Convenção Americana das Pessoas com De�ciência (NY) deslocando aquelas pessoas à condição de plenamente capazes, exceto se a dependência for causa de impossibilidade de manifestar vontade – hipótese transferida do art. 3º ao 4º pelo Estatuto da Pessoa com De�ciência. Houve, portanto, signi�cativa mudança na teoria das incapacidades, sendo importante observar que, apesar da exclusão das pessoas com de�ciência do rol de incapacidades, as mesmas poderão passar por interdição ou buscar a tomada de decisão apoiada enquanto mecanismos de proteção limitados ao âmbito negocial e patrimonial. A curatela consiste na nomeação de curador mediante procedimento judicial especial, a saber, representante legal responsável por agir em conjunto com o curatelado na prática de atos negociais e patrimoniais. Na tomada de decisão apoiada, por sua vez, a própria pessoa com de�ciência elege duas ou mais pessoas idôneas para auxiliá-la na prática de negócio jurídico por tempo determinado (art. 1.783-A CC). É importante destaca que as menções a pessoas com de�ciência mental desapareceram dos artigos 3° e 4° do CC/2002. “A�nal, a pessoa com de�ciência, emuma perspectiva digni�cante, passou a ser considerada capaz”, conta Stolze. Muitos apontam que a de�ciência mental pode vir a provocar incapacidade civil, a depender do quadro sob análise, de modo que pessoas capazes poderão ser interditadas – contrariando-se a lógica do sistema. Pela exegese do art. 4º do CC/2002, são incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer: I – os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 21/40 II- os ébrios habituais, os viciados em tóxicos III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade IV- Os pródigos Por �m, o parágrafo único do artigo 4º implementado pelo Código Civil de 2002, trata dos indígenas em remissão a legislação especial. Neste caso, quanto à capacidade dos índios, o art. 8º do Estatuto do Índio (Lei 6.001/73), considera, regra geral, nulo de pleno direito, o ato praticado pelo índio, não representado, ressalvada a hipótese de revelar consciência e conhecimento do ato praticado. Frise-se que o regime de tutela previsto do Estatuto do Índio não foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988, conforme entendimento da Justiça Federal brasileira. Logo, aos indígenas aplicam-se as mesmas regras previstas na parte geral do Código Civil. 3.3 Emancipação No diploma civil brasileiro, a maioridade é atingida aos 18 anos. Trata-se igualmente de uma regra geral etária, porém, como será melhor estudado aqui, pode sofrer supressões nos exatos termos da lei de regência civil. Algumas questões de ordem prática surgem neste caso. A maioridade se completaria no primeiro instante do dia do aniversário ou é necessário que o dia complete 24 h? Washington de Barros Monteiro a�rma que a maioridade é atingida no primeiro instante do dia em que se completa 18 (dezoito) anos. Todavia, mesmo antes dos 18 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 22/40 anos, a capacidade civil poderá ser antecipada, nos termos do parágrafo único do art. 5º do Código Civil, mediante a emancipação. A emancipação é instituto jurídico que antecipa a capacidade plena. A emancipação, no entanto, não repercute na imputabilidade penal e pode ser subdividida por: a. Voluntária: art. 5º, parágrafo único, I, 1ª parte; b. Judicial: art. 5º, parágrafo único, I, 2ª parte; c. Legal: art. 5º, parágrafo único, II a V do C.C. Emancipação voluntária Emancipação judicial Emancipação legal Você sabia? Menor emancipado não comete crime, e eventual conduta por ele praticada, descrita como infração penal, é reputada como ato infracional, devendo ser responsabilizado nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Menor emancipado deve respeitar norma administrativa especí�ca: o art. 140, I do Código de Trânsito Brasileiro estabelece que a imputabilidade penal é condição para ser condutor de veículo. 3.4 Fim da pessoa natural 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 23/40 A extinção da pessoa natural pode ocorrer de duas maneiras: com a morte ou declaração de ausência, sendo que, a depender de sua modalidade, haverá consequências patrimoniais e afetas aos direitos da personalidade (art. 6º do Código Civil). A tanatologia é o estudo da morte no campo da medicina legal. Segundo esta ciência, a morte é um processo. A noção comum de morte, segundo a professora Maria Helena Diniz, é a parada cardíaca prolongada e a ausência de respiração. Todavia, para efeito de transplante, o critério mais seguro é a morte encefálica por ser irreversível – art. 4º da Resolução 1.480 de 1997 do Conselho Federal de Medicina. O óbito deve ser declarado por médico ou caso não haja, duas testemunhas que possam fazê-lo (art. 77 da LRP – Lei de Registros Públicos). O registro é feito no livro de óbitos. Esta é a chamada morte real, aquela veri�cada quando há cessação total das atividades vitais do corpo humano e comprovada pelo atestado de óbito, que será levado a registro. Esta é a espécie de morte mais simples, pois há prova da materialidade e constatação por pro�ssional da medicina. O citado art. 6º do CC/02 de�ne que “a existência da pessoa natural termina com a morte, presume-se esta, quanto aos ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão de�nitiva”. O dispositivo trata, na segunda parte, da ausência! Instituto importante de ser aprofundado e que será melhor abordado mais à frente, em tópico especí�co desta unidade. Antes disso, é preciso apresentar as hipóteses de morte presumida que dispensam o procedimento para declaração da ausência: a. Se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida (art. 7º, I CC); b. Se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra – esgotamento das buscas (art. 7º, II, p. u. CC); c. Pessoas detidas por agentes públicos e desaparecidas em razão da (acusação de) participação em atividades políticas entre 02.09.1961 e 05.10.1988 (Lei nº 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 24/40 9.140/95). Obs1. Morte civil ou �ctícia: ocorre quando uma pessoa, ainda viva, é considerada como se estivesse morta. Existem apenas reminiscências dessa espécie de morte no nosso ordenamento, como podemos notar ao analisar no direito sucessório os institutos da deserdação (art. 1961, C.C.) e da exclusão do herdeiro por indignidade (art. 1.814, C.C.). Em ambas as situações, o sujeito, ainda vivo, é tratado como se morto fosse. Obs2. Comoriência: traduz a situação de morte simultânea. Vale dizer, nos termos do art. 8º do CC, se duas pessoas falecerem na mesma ocasião, sem que se possa precisar, se qualquer delas precedeu à outra, considerar-se-ão simultaneamente mortas. A lei alude à ocorrência da morte na mesma ocasião, e não no mesmo lugar. A comoriência, regida no art. 8º do CC, traduz a denominada presunção de morte simultânea. Com a morte, a transmissão do patrimônio é automática. É, desta forma, regra passível de aplicação, somente se não houver indicação da ordem cronológica dos óbitos. Reconhecida a simultaneidade das mortes, abrem-se cadeias sucessórias distintas, de maneira que um comoriente não herda do outro. O art. 8º do CC/02 dispõe expressamente que, “se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo averiguar se algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir-se-ão simultaneamente mortos”. 4. Direitos da personalidade Uma das mudanças da parte geral do novo Código Civil Brasileiro (2002) consiste na inserção de um capítulo próprio, a tratar dos direitos da personalidade (arts. 11 a 21). Isto porque o estudo dos direitos da personalidade representa a quebra do paradigma estritamente patrimonial que permeou a legislação privada brasileira, desde as ordenações manuelinas e �lipinas. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 25/40 Mas a evolução social e do pensamento mostrou que o homem não deveria ser protegido apenas no âmbito patrimonial. Era preciso, principalmente, proteger sua essência! Na realidade, não se trata bem de uma novidade, tendo em vista a Constituição Federal trazer uma proteção até mais abrangente, principalmente em seu art. 5º, caput, que consagra alguns dos direitos fundamentais da pessoa natural (TARTUCE, 2005). Mas a a�rmação no diploma civil, reconhecido como espinha dorsal da regulação da vida privada, fora um avanço importante na consolidação da proteçãodos direitos da pessoa. 4.1 Conceito Nós já estudamos o conceito de personalidade jurídica e sua correlação com a pessoa natural. Agora, é hora de analisarmos o conjunto de direitos decorrentes deste instituto. Se os direitos da personalidade são inerentes à condição humana, então, podemos conceituá-la como sendo aqueles direitos afetos à pessoa e à sua dignidade. São os direitos que o ser humano possui sobre os seus atributos fundamentais sejam eles físicos, intelectuais, psíquicos e morais. A de�nição da professora Maria Helena Diniz é cristalina. “Assim, são direitos subjetivos da pessoa de defender o que lhe é próprio, ou seja, a sua integridade física (vida, alimentos, próprio corpo vivo ou morto, corpo alheio, partes separadas do corpo); a sua integridade intelectual (liberdade de pensamento, autoria cientí�ca, artística, literária) e sua integridade moral (honra, segredo pessoal, pro�ssional, doméstico, imagem, identidade pessoal, social e familiar).” Parte da doutrina debruçou-se ao longo dos anos na análise sobre a natureza jurídica de tais direitos, desdobrando-se em uma corrente positivista e outra jusnaturalista. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 26/40 Para os positivistas, a exemplo de Gustavo Tepedino, direitos de personalidade seriam apenas aqueles atribuídos, reconhecidos e positivados pelo Estado por meio de leis. Já os adeptos da corrente jusnaturalista, como Fredie Didier Jr., Pablo Stolze e Carlos Bittar, anotam que os direitos da personalidade são inerentes à condição humana, não havendo necessidade sequer de positivação. Defendem os jusnaturalistas que pensar do contrário, seria legitimar, por exemplo, atrocidades cometidas na Segunda Guerra Mundial e Alemanha Nazista, nas quais, amparados no direito positivado, suprimiu-se garantias, reduzindo pessoas a condições sub-humanas ou equiparando-se ao tratamento jurídico das “coisas”. Seja qual for a corrente adotada, o importante é compreender que a dimensão cultural do direito, como criação do homem para o homem, deve sempre conservar o conteúdo mínimo de atributos que preservem a sua própria condição como um valor a ser tutelado (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2019). Nessa linha, de acordo com Luciano Dalvi, “os direitos da personalidade transcendem a positivação, pois são direitos inerentes e indissociáveis à condição humana e, obrigatoriamente, não podem ser tachados de forma a limitá-los.” É notório que a evolução da sociedade seja mais rápida do que as leis, surgindo novas formas de agressão à personalidade humana que reclamam novas formas de proteção pela legislação vigente. 4.2 Classificação e características Como já salientamos ao longo da unidade, classi�cação é o meio pelo qual doutrinadores estudam e tentam explicar os mais variados institutos jurídicos. Assim, apesar de haver diferentes maneiras de apresentar os direitos da personalidade, vamos nos à classi�cação de Rubens Limongi França: direito à integridade física (à vida, ao corpo vivo e morto, a partes separadas do corpo); à integridade intelectual (liberdade de pensamento, direito de autor, de inventor, de 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 27/40 esportista); à integridade moral (liberdade civil, política e religiosa, honra, honori�cência, recato, imagem, segredo, identidade pessoal/nome, familiar e social). Segundo parcela doutrina, o nascituro também possui tais direitos, devendo ser considerado pessoa na ordem civil. Aquele que foi concebido, mas ainda não nasceu, possui personalidade jurídica formal: tem direito à vida, à integridade física, a alimentos, ao nome, à imagem como já visto anteriormente. Assim, personalidade é atributo jurídico que dá a um ser humano o status de pessoa. Da personalidade decorrem os direitos da personalidade, dotados das seguintes características (art. 11 CC/2002): a) Absolutos b) Vitalícios c) Indisponíveis d) Extrapatrimoniais e) Impenhoráveis f) Ilimitados g) Imprescritíveis ou perpétuos 4.3 Disciplina legal 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 28/40 A cláusula geral de tutela dos direitos da personalidade reside na dignidade humana, fundamento da República Federativa Brasileira (art. 1º, III CF/1988). Os meios de tutela estão estampados no art. 12 do CC/2002: “Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.” Observe-se que a tutela dos direitos da personalidade pode ser preventiva ou repressiva. A primeira se dá em momento anterior à lesão, a exemplo do impedimento de publicação de obra que contém informações falsas sobre uma dada pessoa. A segunda tem lugar após o ato lesivo, a exemplo de pedido de retratação por parte do autor de matéria jornalística difamatória. Já o art. 13 do CC/2002, trata da integridade física e veda a disposição do próprio corpo, a não ser em casos de exigência médica e desde que tal disposição não importe em permanente diminuição da integridade física ou contrarie os bons costumes. Considerando a disponibilidade relativa dos direitos da personalidade, a exegese desse dispositivo não é simples, sobretudo a interpretação de quais seriam os bons costumes a serem utilizados como parâmetro em uma sociedade cada vez mais plural. O transplante de órgãos é permitido expressamente, desde que realizado em conformidade com os parâmetros legais. O art. 14 do CC/2002, por sua vez, proíbe a comercialização de órgãos ou partes do corpo, sendo apenas possível sua disposição gratuita, com objetivo altruístico ou cientí�co, sendo possível a revogação do ato de disposição a qualquer tempo. Logo, a doação de corpo para estudos acadêmicos a universidades requer autorização prévia do doador. O art. 15 do CC/2002 se refere ao direito à recusa de tratamento médico. De acordo com o texto legal: “Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica.” Todo ato médico deve ser antecedido do consentimento livre e esclarecido do paciente e/ou do seu representante legal. Atualmente, a jurisprudência brasileira admite uma hipótese em que é possível praticar intervenção médica contrariando a recusa de tratamento médico por parte do paciente: quando este último estiver em situação de risco iminente de morte. Do 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 29/40 contrário, a recusa deve ser respeitada. O exemplo clássico é dos pacientes Testemunhas de Jeová que recusam transfusão de sangue. Esse entendimento foi con�rmado pela doutrina, vide o Enunciado nº 533 do CJF: “O paciente plenamente capaz poderá deliberar sobre todos os aspectos concernentes a tratamento médico que possa lhe causar risco de vida, seja imediato ou mediato, salvo as situações de emergência ou no curso de procedimentos médicos cirúrgicos que não possam ser interrompidos”. Os arts. 16 a 19 do CC/2002 con�rmam a proteção do nome da pessoa natural, sinal que representa a mesma no meio social, bem como do pseudônimo, nome atrás do qual se esconde o autor de uma obra cultural ou artística. Isso, em sintonia com as previsões anteriores da Lei de Registros Públicos (Lei nº 6.015/73) e da Lei de Direito Autoral (Lei nº 9.610/98). O nome, com todos os seus elementos, merece o alento legal, indeclinável, por ser direito inerente à pessoa. Pode ser formado pelas seguintes partes (art. 16 CC/2002): a. Prenome: nome inicial em formato simples ou composto. Ex. João e Maria Júlia respectivamente. b. Sobrenome: nomede família, indicativo da �liação, também nos formatos simples ou composto. Ex. Medeiros, Santos, Villas-Boas. c. Agnome: destaque ao grau de parentesco ou �liação. Ex. Filho, Neta, Júnior. d. Hipocorístico: parcela que representa o diminutivo de um prenome, podendo ser adicionado ao nome civil como se verá. Ex. Chico, Fafá. Além das características compartilhadas com os demais direitos da personalidade civil, o nome civil apresenta algumas características especiais. O nome civil é obrigatório, diante da necessidade de individualização das pessoas; exclusivo, sendo possível a homonímia entre pessoas naturais diante do grande volume populacional; e relativamente imutável – ao longo da vida, é possível a mudança do nome civil excepcionalmente. Vale destacar as principais hipóteses de mudança do prenome ou sobrenome conforme a lei e jurisprudência nacional. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 30/40 Hipóteses de mudança do prenome Hipóteses de mudança do sobrenome Hipótese de relevância social é a reti�cação do nome e sexo de pessoa transexual. O STF, ao julgar a ADIN nº 4.275, estabeleceu que tal averbação no registro civil de pessoas naturais independe de prévia decisão judicial ou realização de cirurgia. Atualmente, uma pessoa transexual pode fazer requerimento perante cartório, observado o procedimento previsto no Provimento nº 73/2018 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A disciplina legal do nome civil prossegue no art. 17 do CC/2002, de acordo com o qual “o nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda quando não haja intenção difamatória”. Havendo �ns comerciais, o uso de nome alheio requer autorização prévia necessariamente (art. 18 CC/2002), ainda que não haja cunho vexatório. Tal ensejaria dano moral in re ipsa, nos moldes como já se dá com o uso comercial de imagem sem autorização prévia (Súmula 403 STJ - “Independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada da imagem de pessoa com �ns econômicos ou comerciais”). O art. 20 do CC/2002 consagra expressamente a proteção da imagem, sub-classi�cada em imagem retrato (aspecto físico da imagem, a �sionomia de alguém) e imagem atributo (repercussão social da imagem). Esse dispositivo tem redação que merece ser esclarecida, com o devido cuidado. A disciplina abarca ainda a proteção dos direitos da personalidade de pessoa morta. Em se tratando de morto que sofreu lesão à imagem por exemplo, terão legitimidade para promover a ação indenizatória os descendentes, ascendentes e o cônjuge, inserido aqui também o convivente. Finalizando o tratamento quanto aos direitos da personalidade, con�rma o art. 21 do CC/2002 o direito à inviolabilidade da vida privada, já reconhecido no art. 5º, X, CF/88, 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 31/40 ao lado da intimidade, da honra e da imagem das pessoas. Sendo, portanto, inviolável a vida privada da pessoa natural e cabendo sempre medidas visando proteger essa inviolabilidade. Nada mais atual do que a�rmar que a intimidade não deve ser concebida somente no plano físico, mas também no plano virtual, do ambiente da internet, sendo inviolável o domicílio eletrônico de uma determinada pessoa (TARTUCE, 2015). Sobre a interpretação dos artigos referidos, vale mencionar a conclusão do STF sobre a publicação de biogra�as não autorizadas na ADIN 4815 (DJ. 01.02.2016). Por unanimidade, julgou-se procedente o pedido para dar interpretação conforme à Constituição aos artigos 20 e 21 do Código Civil, sem redução de texto, para, em consonância com os direitos fundamentais à liberdade de pensamento e de sua expressão, de criação artística, produção cientí�ca, declarar inexigível o consentimento de pessoa biografada relativamente a obras biográ�cas literárias ou audiovisuais, sendo por igual desnecessária autorização de pessoas retratadas como coadjuvantes (ou de seus familiares, em caso de pessoas falecidas). O direito à integridade intelectual reúne tudo aquilo que é fruto da mente humana, a exemplo da liberdade religiosa, liberdade de expressão, liberdade sexual, direitos autorais (L. 9.610/1998) e Direito à propriedade industrial (L. 9.279/1996). Por excederem a disciplina legal da parte geral do Código Civil e serem abordados de modo interdisciplinar em outros momentos do curso, lições a respeito serão aprofundadas em outros componentes curriculares. 5. Ausência Valendo-se dos conceitos inicialmente trabalhados quando da análise das hipóteses de extinção da pessoa natural, tem-se na ausência uma de suas modalidades mais relevantes e que denota um estudo próprio, devido, principalmente, aos desdobramentos jurídicos do instituto. Iniciamos frisando que a “Ausência” é, antes de mais nada, um estado de fato, em que uma pessoa desaparece do seu domicílio sem deixar rastros, notícias ou representante, que administre o seu patrimônio. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 32/40 O Código Civil, a partir do art. 22, estabelece um procedimento de transmissibilidade dos bens: aberta a sucessão de�nitiva, o ausente é reconhecido presumidamente morto. Num primeiro momento, opera-se uma transmissão provisória. Passados 10 anos, da sucessão provisória, abre-se a sucessão de�nitiva, caso em que, os herdeiros recebem os bens em caráter de�nitivo, sendo o ausente, considerado nesta última fase, morto por presunção. A sentença ou decisão judicial que reconhece a abertura da sucessão de�nitiva é registrada em livro especial no cartório, e não no livro de óbito. Haverá também, morte presumida, nas situações descritas no art. 7º do CC, mas sem declaração de ausência, mediante procedimento de justi�cação. As situações consagradas no art. 7º do CC não se confundem com a ausência, pois traz situações de guerra ou tragédias (acidentes aéreos, por exemplo) em que o falecimento das vítimas é extremamente provável. Nas hipóteses do art. 7º do CC, existem fundamentos razoáveis que justi�cam a presunção de morte. A sentença, i n casu, será registrada no livro de óbito. O magistrado procede a uma busca aprofundada, aferindo a probabilidade concreta do óbito e a data aproximada da morte. Nos desaparecimentos ocorridos na época da ditadura, resta viabilizada a utilização dessa via. Devido à importância do instituto, vejamos o diploma em sua íntegra: Art.7º. “Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência: I. Se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida;II. Se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra.Parágrafo único – A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença �xar a data provável do falecimento”. 5.1 Curadoria dos bens do ausente 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 33/40 Ocorrerá, no momento da constatação do desaparecimento da pessoa, quando algum interessado busca o Poder Judiciário, informando o fato. Nesse momento, ocorrerá a declaração da ausência e será nomeada pelo juiz uma pessoa que terá o munus público de administrar os bens do ausente, isso porque ainda há a esperança de retorno da pessoa desaparecida. O curador deverá ser o cônjuge do ausente, sempre que não esteja separado judicialmente e nem de fato por mais de dois anos antes da declaração da ausência. Na falta do cônjuge, a curadoria será exercida pelos pais ou descendentes,nessa ordem, sendo que os mais próximos precederão aos mais remotos. Caso o ausente não seja casado, mas viva em união estável, o seu companheiro poderá ser nomeado como curador. Enunciado nº 97, CJF: Art.7º. “Pode ser declarada a morte presumida, sem decretação de ausência: I. Se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo de vida;II. Se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra.Parágrafo único – A declaração da morte presumida, nesses casos, somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e averiguações, devendo a sentença �xar a data provável do falecimento”. Ao curador aplicar-se-á, no que couber, as regras referentes à tutela e curatela previstas nos capítulos do direito de família e sistematizadas nos arts. 759 a 763 do novo CPC. Assim, a lei estabelece cautelas no sentido de preservar o acervo patrimonial para um possível retorno do ausente ou para eventual e futura sucessão, no caso de o retorno não ocorrer em um determinado espaço de tempo. Cabe ao juiz, conhecendo o pedido de declaração de ausência, veri�car eventual estado de abandono patrimonial para nomear o curador. O curador nomeado é civilmente responsável pelos prejuízos que vier a causar por dolo ou mera culpa (art. 160 do CC). 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 34/40 Entre as obrigações do representante dos bens do ausente, estão o exercício da boa guarda e conservação dos bens, a arrecadação de outros existentes, a prestação de caução, a prestação de contas ao �nal da gestão, além da apresentação de balancetes mensais das receitas e despesas. É necessário que o curador tenha a livre administração de seus bens; excluem-se os condenados por crime de furto, roubo, estelionato, falsidade contra a família ou contra os bons costumes, tenham ou não cumprido a pena; pessoas de mau procedimento, aqueles que exercem função pública incompatível com a boa administração da curatela. Note que a curadoria é para os bens do ausente, e não para a pessoa do ausente, ou seja, o objetivo da curadoria não é a regência de pessoas, mas a administração de seus bens. A curatela perdura, em regra, por um ano, durante o qual o magistrado ordena publicação de editais, de dois em dois meses, convocando o ausente a reaparecer para tomar posse dos seus bens. A curadoria cessa pelo comparecimento do ausente, do seu procurador ou de quem o represente, pela certeza da morte e pela sucessão provisória. 5.2 Sucessão Provisória Dentro de 01 ou 03 anos da arrecadação dos bens, os interessados dispostos no art. 27 do CC/02 requererão a abertura da sucessão provisória, uma vez que não cabe ao juiz declarar de ofício a ausência e, consequentemente, abrir, ainda que provisoriamente, a sucessão. Será o prazo de 01 ano na situação do desaparecimento da pessoa sem deixar representante, e de 03 anos, se a pessoa desaparecida deixar representante com poderes su�cientes para gerir seu patrimônio e assim aceitar fazê-lo. O objetivo da diferença dos prazos dá-se em razão da eventualidade do retorno do ausente. O mandante ou representado, provavelmente, está convenientemente 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 35/40 resguardado da lapidação de seus bens se deixou alguém que lhe inspirou con�ança. Logo que passe em julgado, a sentença que determinar a abertura da sucessão provisória, o testamento será aberto, se existir, e ocorrerá o inventário e a partilha dos bens. Conforme o art. 28 do CC, a sentença que determinar a abertura da sucessão provisória só produzirá efeito cento e oitenta dias depois de publicada pela imprensa. Doravante, os herdeiros poderão imitir-se na posse dos bens do ausente, mediante garantia da restituição deles (penhores e hipotecas), em caso de reaparecimento do ausente. O herdeiro que tiver direito à posse provisória, mas não tiver condições patrimoniais de prestar a garantia que lhe é imposta �cará excluído da sucessão provisória, devendo o juiz nomear curador que administre os bens que lhe caberiam, ou, pode ainda se con�gurar a possibilidade de a administração ser exercida por outro herdeiro que lhe preste garantia. No entanto, atendendo aos princípios da probidade e da boa-fé objetiva, essa exclusão pode ser atenuada, uma vez que é permitida a este herdeiro justi�car sua falta de meios na impossibilidade patrimonial de manutenção dos bens que lhe caberiam, garantindo, assim, pelo menos metade dos rendimentos do respectivo quinhão (art. 34, CC). Em se tratando de herdeiros necessários (ascendente, descendente e cônjuge), esses poderão entrar na posse dos bens do ausente, independentemente de garantia (art. 30, § 2°, CC/02), o que também deveria ser concedido ao convivente diante da regra do art. 226 da CF. Esses herdeiros adquirem desde logo a posse com seus frutos e rendimentos e são liberados do dever de prestar contas. Já quanto aos outros sucessores, para maior proteção dos bens no caso do retorno do ausente, deverão capitalizar metade do que lhes couber, prestando contas anualmente ao juiz (art. 33, CC/02). Em caso de retorno do ausente e se constatar que a ausência foi de má-fé, o ausente perde para os sucessores os frutos e rendimentos de seus bens durante o período em 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 36/40 que esteve ausente, uma vez que se valoriza o trabalho do sucessor e a posse justa, aplicando-se consequentemente uma sanção ao que não assumiu os seus deveres, afastando, assim, a possibilidade de enriquecimento ilícito (art. 33º, parágrafo único do CC/02). Os herdeiros, em posse dos bens do ausente só poderão alienar ou hipotecar esses bens, com autorização judicial, no sentido de evitar perda ou ruína. Em caso de desapropriação, forma de alienação compulsória, esta poderá ocorrer mesmo no caso presente em razão dos interesses e necessidades públicos. Ademais, os sucessores provisórios �carão representando ativa e passivamente o ausente, correndo contra eles as ações pendentes e futuras (art. 32º, C.C.), ou seja, os sucessores provisórios são herdeiros presuntivos, por isso, estando os herdeiros empossados nos bens do ausente, possuem a representação processual, seja como autor, seja como réu. O curador deixa assim de representar os bens do ausente. O múnus da defesa da posse caberá aos que nela serão imitidos. 5.3 Sucessão definitiva Após passados dez anos do trânsito em julgado da sentença que concede a abertura da sucessão provisória, poderão os interessados requerer a sucessão de�nitiva e o levantamento das cauções prestadas (art. 37 CC). Nessa etapa, consolida-se a presunção de morte do ausente e os sucessores passam a ser proprietários dos bens por ele deixado, conforme as regras do Direito Sucessório. A sucessão de�nitiva também pode ser providenciada se o ausente já contar com oitenta anos de idade e as últimas notícias a seu respeito são de cinco anos atrás (art. 38 CC). De acordo com o art. 39 do CC, “regressando o ausente nos dez anos seguintes à abertura da sucessão de�nitiva, ou algum de seus descendentes ou ascendentes, aquele ou estes haverão só os bens existentes no estado em que se acharem, os sub- rogados em seu lugar, ou o preço que os herdeiros e demais interessados houverem recebido pelos bens alienados depois daquele tempo”. 27/05/2022 20:54 FE_BL3_DIR_BARELP_19_E_1 https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=Xf10kRYqEJNmBNxYaVik8A%3d%3d&l=hOdswcC7BMxmDzbrnNK6xQ%3d%3d&cd=lWD… 37/40 O parágrafo único do artigo referido determina que, se o ausente não retornar nesse período e nenhum interessado promover a sucessão de�nitiva,