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Idade Moderna
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Explicar o processo de transição entre a Idade Média e a Idade 
Moderna.
 � Relacionar o surgimento dos burgos com a formação de uma socie-
dade moderna.
 � Analisar a substituição do teocentrismo medieval para o antropo-
centrismo moderno.
Introdução
A Idade Moderna foi um período marcado por transições, rupturas e 
continuidades em relação à sociedade medieval. Houve uma série de 
mudanças nos âmbitos cultural, econômico, político e social, com a 
coexistência do “novo” e do “velho”, que fizeram com que as sociedades 
da Europa Ocidental desenvolvessem uma autoconsciência de viver 
em um “novo tempo”. Nesse sentido, é muito importante estudar que 
transformações foram essas ocorridas entre o século XIV e o século XVIII 
e de que maneira elas impactaram na construção de uma nova visão de 
mundo dos europeus na chamada “modernidade”.
Neste capítulo, você vai estudar de que forma se dá a transição entre 
a Idade Média e a Idade Moderna, compreendendo que essa abordagem 
dá espaço para rupturas e continuidades entre um período e outro. Além 
disso, vai conhecer a forma pela qual os burgos e, mais especificamente, 
o “renascimento” comercial e urbano, contribuíram para a conformação 
da sociedade moderna e, por fim, vai ver o surgimento de preceitos laicos 
na ascensão do antropocentrismo.
1 A transição da Idade Média 
 para a Idade Moderna
Na divisão quadripartite da história, convencionou-se chamar Idade Moderna, 
Modernidade ou, ainda, Tempos Modernos o período que corresponde à forma-
ção do Estado Nacional, juntamente a uma série de transformações culturais, 
econômicas e sociais (Absolutismo, Grandes Navegações, Mercantilismo, Re-
nascimento, Reforma Religiosa), encerrando-se com a Revolução Francesa, em 
1789. Contudo, os historiadores estão cientes das dificuldades de circunscrição 
de movimentos como esses em periodizações em função das continuidades e 
permanências para além das rupturas mais facilmente identificáveis.
Um dos marcos cronológicos normalmente escolhidos para assinalar o fim 
da Idade Média é a tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, principal-
mente pela pretendida relação com outro acontecimento “fundador” da época 
moderna, a chegada de Cristóvão Colombo à América, em 12 de outubro de 
1492, mas a “modernidade” é dificilmente delimitada por acontecimentos ou 
datas específicas. “Não existe um ponto que possamos dizer que tenha marcado 
a transformação do mundo medieval no mundo moderno” (RUNCIMAN, 
2002, p. 11). Além disso, é importante lembrar que as transformações que se 
iniciaram na sociedade europeia a partir dos séculos XV e XVI já estavam 
delineadas no período precedente. Simultaneamente, as profundas mudanças 
referidas não significaram a eliminação instantânea e completa da sociedade 
feudal em seus aspectos culturais, econômicos, políticos, religiosos e sociais, 
de modo que muitas características medievais coexistiram com as modernas.
Podemos afirmar que entre os séculos XV e XVIII ocorreram transfor-
mações significativas na sociedade europeia e suficientes para que homens e 
mulheres percebessem que estavam vivendo em uma “nova época”: as grandes 
navegações e as conquistas territoriais, o advento de uma nova mentalidade 
burguesa e racionalista, a constituição dos Estados Nacionais com a imposição 
de um novo poder político, centrado no rei soberano e absoluto, a ruptura com 
a unidade da Igreja Católica e a expansão do capitalismo.
Para compreender a transição da sociedade medieval para a Idade Moderna, 
é preciso refletir sobre a crise pela qual passava o sistema feudal em meados 
dos séculos XIV e XV e que, de acordo com Franco Júnior (1997, p. 53):
Idade Moderna14
Foi uma crise de grandes proporções, que se projetou nos diversos âmbitos da 
realidade, envolvendo aspectos econômicos, demográficos, sociais, políticos 
e clericais: aspectos econômicos derivados da exploração agrícola predatória 
e extensiva, que fora típica do feudalismo e que inviabilizou o aumento da 
produção; aspectos demográficos oriundos das grandes tragédias, da fome e 
da peste; aspectos sociais advindos da ruptura da rigidez hierárquica anterior, 
seja pela crise demográfica, seja pelo empobrecimento das camadas superiores 
a partir da crise econômica do período ou pela ruptura do próprio conceito 
de ordem; aspectos políticos resultantes da retomada ou reconstituição dos 
poderes públicos centralizados; aspectos clericais originados do questio-
namento da supremacia do poder da Igreja e de seu representante supremo.
Após uma fase de avanços tecnológicos na prática agrícola que levaram 
ao crescimento populacional e ao aumento do comércio, a Europa Ocidental 
passou por uma grave crise econômica e social. As razões dessa crise, como 
já explicitadas por Franco Júnior (1997), na citação anterior, são várias. Pri-
meiramente, a oferta de alimentos se tornou insuficiente para o aumento da 
população. Juntamente à pouca oferta de alimentos, condições climáticas 
adversas e más colheitas agravaram a situação. Somaram-se a esses fatores as 
péssimas condições de higiene, que contribuíam para a proliferação de doenças.
Segundo Burns (1957), na maioria das cidades medievais, as condições 
sanitárias eram péssimas. A população dependia de água proveniente de poços 
ou rios contaminados, e eram frequentes os casos de febre tifoide. Algumas 
cidades tinha sistema de esgoto, mas não há informações sobre a coleta de 
lixo. Há relatos de que os restos eram jogados na rua e eram levados pelas 
chuvas ou consumidos por cachorros e porcos.
A epidemia de peste bubônica, que ficou conhecida como peste negra, 
ocasionou uma mortandade jamais vista na Europa Ocidental. Acreditava-se 
que a peste era um tipo de castigo divino, como outros fenômenos que eram 
explicados a partir da fé e da religião. No entanto, tratava-se de uma doença 
contagiosa e, na maioria das vezes, fatal, que se acredita que tenha chegado à 
Europa por meio de navios mercadores. Nesses navios, estavam ratos infectados 
por uma bactéria, e as pulgas que picavam os ratos acabavam por contaminar 
os seres humanos. Acredita-se que a peste bubônica tenha chegado à Europa 
em 1348, e, como consequência, houve a morte de 30% da população europeia.
15Idade Moderna
Assim, as mortes causadas pela peste negra somavam-se àquelas ocasiona-
das pela fome e pelas guerras, gerando uma crise de produtividade (afinal, não 
havia pessoas para trabalhar no campo) e, por consequência, uma diminuição da 
produção agrícola. Em um efeito dominó, houve o endividamento da nobreza, 
que, como forma de compensação, passou a cobrar mais impostos e tributos 
dos camponeses, gerando descontentamento, fugas e uma série de revoltas.
Essa situação levou ao enfraquecimento do poder da nobreza feudal, que 
passou a se aproximar dos reis como forma de manter a ordem social frente 
às revoltas camponesas. Setores da nobreza optaram por modificar as relações 
sociais, rompendo com os laços vassálicos, ou, então, por vender suas proprie-
dades a agricultores enriquecidos ou burgueses. Houve, também, a libertação 
de muitos servos, que se transformaram em agricultores ou migraram para 
as cidades, a fim de se dedicar ao comércio. Isso significou uma profunda 
modificação da ligação da nobreza com a posse da terra.
Os burgueses já haviam iniciado esse movimento de aproximação, afinal, a 
fragmentação econômica e política não interessava à burguesia, estrato social 
surgido da revitalização das cidades e do impulso às atividades comerciais e 
manufatureiras. Moradores das cidades, os burgueses construíram suas fortunas a 
partir do grande comércio e das atividades bancárias, baseados na ideia de lucro e 
na posse de uma riqueza que não consistia em propriedades rurais. Ou seja, estamos 
falando de um grupo social em ascensão cujo estilo de vida era muito diferente 
daquele que caracterizava o nobre feudal — senhor da guerra eproprietário rural.
A burguesia enriqueceu com o comércio praticado nos burgos, nas vilas e 
nas cidades, além das rotas comerciais estabelecidas entre a Europa e a Ásia 
Central, bem como no Mar Mediterrâneo. Juntamente ao desenvolvimento de 
seu poder econômico, adquiriu prestígio político e social e passou a reivindicar 
melhores condições para o exercício da economia e da política, tornando-se 
uma das fomentadoras do processo de centralização política que resultaria na 
conformação do Estado moderno.
A mudança nas relações de trabalho, com o início da especialização, o controle 
do tempo, a expansão das rotas comerciais e a ampliação do mundo conhecido, 
torna o estado medieval um modo de vida ultrapassado, e uma das mais importantes 
revoluções da história, que tem início no século XIV, associada à peste negra e a 
guerras que duraram mais de um século, transforma o mapa da Europa.
Além disso, é importante lembrar que, durante a Baixa Idade Média, 
havia uma profunda descentralização no poder político devido à fragmen-
tação territorial ocasionada pela divisão de terras entre a nobreza feudal. 
Idade Moderna16
Essa descentralização gerou inúmeras guerras de sucessão (já que as terras 
eram hereditárias e havia muitos casamentos por interesses). Citemos, como 
exemplo, a Guerra dos Cem Anos, ocasionada por um problema de sucessão 
no trono francês, quando o rei inglês crê ser legítima a sua coroação como 
rei da França, pois na Normandia estariam localizadas terras de senhores 
ingleses. A resolução da guerra é feita quando os Valois são substituídos 
por Habsburgos no trono francês. O resultado da guerra é a abertura rumo à 
centralização política. Além da Guerra dos Cem Anos, também se destacou 
a Guerra das Duas Rosas, provocada pela disputa entre duas famílias, Yorks, 
as rosas brancas, e Lancasters, as rosas vermelhas, pelo poder. 
2 Os burgos e a modernidade
Uma série de transformações ocorridas entre o século XIV e o XV fragilizou o 
sistema feudal, compreendido em seus âmbitos cultural, econômico, político e 
social. Em relação à economia, a melhoria nas técnicas de plantio, somada a outros 
fatores, permitiu o aumento da produtividade agrícola, gerando um crescimento 
demográfico na Europa. Entretanto, as estruturas feudais (alimentos, espaço, 
governo, leis) não deram conta do aumento no número da população, gerando 
diminuição das condições de vida, mortandade e uma alta geral de preços.
Em meio a esse processo de instabilidade, as cidades recuperaram o po-
der econômico e político. Mas você sabe de que forma os burgos e, mais 
especificamente, o “renascimento” comercial e urbano, contribuíram para a 
conformação da sociedade moderna? 
Com as novas rotas comerciais surgidas durante a Baixa Idade Média em 
decorrência do movimento das cruzadas e a retomada do comércio marítimo 
pelo Mar Mediterrâneo, as feiras, que eram periódicas, tornaram-se fixas, 
dando origem aos burgos (cidades). As feiras eram espaços em que eram co-
mercializados produtos locais e outros vindos do Oriente, como as especiarias, 
os perfumes, os tecidos e as porcelanas, que se tornaram objetos de luxo e 
cobiça por parte da nobreza feudal. As feiras também atraíam muitas pessoas, 
sendo um verdadeiro espaço de encontro entre culturas diferentes. Assim, ao 
mesmo tempo que as cidades foram fundamentais para o desenvolvimento do 
comércio, o comércio também foi indispensável para o surgimento de novas 
cidades e para o desenvolvimento de outras.
17Idade Moderna
A partir do século X, a sociedade europeia era sustentada por uma rede 
de núcleos urbanos, embora suas condições e dimensões variassem 
muito. Na Inglaterra, onde o poder real foi precocemente consolidado, as 
cidades caracterizavam-se por um certo grau de dependência consentida 
e de uniformidade. Por mais danosas que as incursões escandinavas 
tivessem sido, a reação contra elas produziu um sistema relativamente 
bem planejado. O nome em inglês arcaico para um forte, burh, passou 
gradualmente a significar um burgo (borough = cidade pequena e 
cercada de muralhas de defesa) (LOYN, 1997, p. 90).
Os mercados dos burgos possibilitavam o desenvolvimento de ativida-
des laborais assalariadas e a ascensão social em uma sociedade rigidamente 
estratificada. Por isso, os burgos passaram a atrair cada vez mais artesãos, 
camponeses livres, comerciantes itinerantes, servos fugitivos e outras pessoas. 
Localizados no interior dos feudos, os habitantes dos burgos eram obrigados a 
pagar determinadas taxas aos senhores feudais, como o direito de passagem, 
além da realização de câmbios e conversões, em função da inexistência de 
um sistema de medidas e monetário único. 
As dificuldades geradas por essa situação, somadas às taxas, fizeram com 
que os habitantes dos burgos se organizassem em comunas, como associações 
coletivas de trabalhadores, e, dessa forma, conseguiram obter certos direitos 
frente aos senhores feudais (inclusive a abolição de obrigações servis), o que 
possibilitou o desenvolvimento das atividades comerciais. Dessas coletividades, 
surgiram as corporações de ofício, que reuniam profissionais do mesmo ramo 
com o objetivo de proteger seus trabalhadores (ou seja, com caráter assisten-
cialista) e de regulamentar a profissão, como a quantidade e a qualidade da 
produção, com o objetivo de limitar a concorrência dentro de um mesmo ofício.
Com a fixação dos mercadores nas cidades, que traziam produtos do Oriente 
e de média distância, houve a possibilidade de comercialização dos excedentes 
agrícolas e de produtos artesanais produzidos no âmbito do feudo. A partir 
desse processo de “sedentarização” do mercado, cria-se uma demanda por 
novos produtos, gerando lucro e acúmulo crescente de capital. “As cidades 
e as vilas multiplicaram-se tão rapidamente que, em algumas regiões, pelas 
alturas do século XIV, metade da população tinha sido desviada das atividades 
agrícolas para as comerciais” (BURNS, 1957, p. 423).
Idade Moderna18
As principais cidades desse período de transição localizavam-se na Itália, e 
seus habitantes comerciantes estabeleceram relações comerciais com Império 
Bizantino e com as grandes cidades muçulmanas de Bagdá, Damasco e Cairo. 
Os produtos tinham grande procura não somente na Itália, mas também no 
território do que hoje é Alemanha, França e Inglaterra.
Porém, havia alguns problemas para o desenvolvimento pleno das relações 
comerciais. O comércio com moedas se tornou mais frequente, mas havia uma 
pluralidade de moedas diferentes, com valores distintos. Isso fez com que sur-
gissem os cambistas, também chamados de banqueiros, porque analisavam as 
moedas em cima de um banco. A partir dessas atividades, os banqueiros passaram 
a emprestar dinheiro, cobrando juros, e enriquecendo a partir dessa atividade.
Esse processo fez com que Le Goff e Schmidt (2006, p. 223) assim defi-
nissem a cidade na Baixa Idade Média:
A cidade medieval é, antes de mais nada, uma sociedade da abundância, con-
centrada em um pequeno espaço em meio a vastas regiões pouco povoadas. Em 
seguida, é um lugar de produção e de trocas, onde se articulam o artesanato e 
o comércio, sustentados por uma economia monetária. É também o centro de 
um sistema de valores particular, do qual emerge a prática laboriosa e criativa 
do trabalho, o gosto pelo negócio e pelo dinheiro, a inclinação para o luxo, o 
senso da beleza. É ainda um sistema de organização de um espaço fechado com 
muralhas, onde se penetra por portas e se caminha por ruas e praças, e que é 
guarnecido por torres. Mas também é um organismo social e político baseado na 
vizinhança, no qual os mais ricos não formam uma hierarquia, e sim um grupo 
de iguais — sentados lado a lado — que governa uma massa unânime e solidária. 
[...] Essa sociedade laica urbana conquistou um tempo comunitário, em que 
sinos laicos indicam a irregularidade das chamadas à revolta, à defesa, à ajuda.
Contudo, esse processo de “urbanização” da sociedade não ocorreu sem 
conflitos. Nas cidades, houveum processo de exploração dos trabalhadores nas 
próprias corporações de ofício que levou à sua extinção, e, no campo, uma série 
de revoltas camponesas em função da exploração realizada pelos senhores feudais, 
além do descontentamento com as limitações impostas pelas relações vassálicas.
A valorização das atividades comerciais, somada à ascensão dos centros 
urbanos, e as possibilidades de unificação da moeda e do sistema de medidas 
levariam ao desenvolvimento de relações capitalistas de trabalho e produção e ao 
surgimento de novos estratos sociais, como a burguesia, com interesses próprios. 
As relações sociais, os estratos dessa sociedade citadina e suas sociabilidades 
são resultados de mudanças culturais, econômicas, políticas e sociais.
19Idade Moderna
E quem era o burguês? O burguês era o habitante do burgo, um homem livre 
(no sentido de não submetido às relações de poder que envolviam suseranos, 
vassalos e servos), que exercia profissões liberais como artesão ou comerciante. 
Os burgueses foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento das cida-
des, um processo que foi impulsionado com a abertura de rotas comerciais que 
ligavam o Ocidente ao Oriente e a retomada do comércio marítimo pelo Mar 
Mediterrâneo a partir do movimento das Cruzadas. Aos poucos, tornaram-se 
numerosos e, então, estabeleceu-se uma hierarquia entre os próprios burgueses 
de acordo com o tamanho de seus comércios e sua capacidade produtiva. O 
esquema da Figura 1, a seguir, representa uma síntese do fortalecimento das 
cidades e das mudanças ocorridas que levariam à modernidade.
Figura 1. As cidades e a modernidade.
Em resumo, podemos estabelecer o seguinte encadeamento de eventos 
para explicar a relação dos burgos com a modernidade: 
 � a produção de artigos no Oriente (especiarias, tapeçarias e tecidos finos) 
desperta o interesse da nobreza feudal no Ocidente; 
 � o comércio com o Oriente exige a utilização de moedas, que também 
desperta a busca por metais preciosos; 
 � as mercadorias do Oriente levam a um processo de “sedentarização” 
dos mercadores nos burgos, rompendo com o caráter local do comércio 
e estabelecendo rotas comerciais; 
 � há um processo de enriquecimento dos mercadores; 
 � as mudanças nas atividades comerciais afetam a produção agrícola e 
artesanal, levando a críticas nas estruturas feudais. 
Idade Moderna20
Todo esse processo ocorre nas cidades, ainda que a maioria da população 
europeia fosse rural. Esse é um alerta que faz o historiador Fernand Braudel 
(1985, p. 13) e que demonstra, mais uma vez, os traços de continuidade e 
ruptura presentes durante a Idade Moderna: 
[...] por um lado, os camponeses nas aldeias, vivendo de uma forma quase 
autônoma, quase autárquica; por outro lado, uma economia de mercado e um 
capitalismo em expansão [...]. O perigo reside, evidentemente, em vermos 
somente a economia de mercado, em a descrevermos com tal exuberância de 
detalhes que denote uma presença avassaladora, persistente, não sendo ela 
afinal senão um fragmento de um vasto conjunto.
3 Do teocentrismo ao antropocentrismo
Antes de nos dedicarmos ao estudo das novas formas de pensamento surgidas 
na modernidade e seu reflexo nas práticas e nos valores da sociedade moderna, 
é necessário lembrar quais eram as bases da sociedade medieval no que diz 
respeito à sua visão de mundo.
Durante a Idade Média, a religião era estruturante dos âmbitos cultural, 
econômico, político e social das sociedades da Europa Ocidental, e não havia 
uma nítida distinção entre essas esferas e a religiosa, que permeava todo 
o social. Em outras palavras, pode-se afirmar que a visão de mundo dos 
europeus durante a Idade Média é religiosa, mesmo que houvesse diferenças 
entre algumas concepções e práticas, de acordo com o local ou o tempo, o 
que também faria com que a Igreja Católica se esforce para a normatização 
e unificação de cultos, dogmas, práticas e rituais. A marcação do tempo do 
calendário e do relógio vincula-se a essa visão de mundo religiosa, ou seja, 
a organização da vida cotidiana se faz a partir da relação do homem com o 
sagrado, assim como as explicações para os fenômenos naturais e sociais eram 
encontradas nos dogmas religiosos.
Nessa sociedade, em que todo o conhecimento se dava a partir da fé, refletir 
sobre o mundo a partir de outros parâmetros, como outras crenças ou por 
meio da natureza, era considerado heresia. Entretanto, essa situação começa 
a se modificar a partir do século XI, quando se inicia uma aproximação das 
formas de se conhecer o mundo a partir da lógica, do estudo de observação 
e da investigação.
21Idade Moderna
A Igreja Católica era a instituição mais importante da Idade Média, regu-
lando todas as esferas da vida em sociedade, funcionando como um agente 
unificador e forjando ou mediando a relação dos homens e das mulheres com 
o mundo. Como afirma Bedin (2012, p. 25), “[...] a Igreja passou a exercer uma 
dupla função: a de instituição oficial do mundo medieval e a de instituição 
guardiã e intérprete autorizada do conhecimento”.
Assim, uma das marcas da “modernidade” no que diz respeito à autocom-
preensão de homens e mulheres e sua compreensão em relação ao mundo 
será um rompimento com essa visão unívoca e a existência de outras formas 
de se compreender e compreender o mundo. Isso, no entanto, não significa 
um movimento de rompimento com a percepção religiosa do ser humano e 
da sociedade. É importante destacar a continuidade dos valores e visões de 
mundo religiosos paralelamente a mudanças e rupturas. Não podemos, dessa 
forma, dizer que houve um processo de laicização, e, sim, uma progressiva 
separação entre os componentes religiosos e seculares das sociedades. Há, 
sem dúvida, uma diminuição do poder da Igreja Católica frente à emergência 
de outros saberes, principalmente os científicos, mas esses não implicam um 
total rompimento com certas interpretações religiosas.
Essa abordagem, que implica continuidades e rupturas, ou seja, a com-
preensão da Idade Moderna como uma transição, é muito importante para 
compreendermos a progressiva valorização do homem e do indivíduo, o cha-
mado antropocentrismo, em detrimento de uma visão de mundo teocêntrica, 
característica do medievo. Nesse sentido, a universidade enquanto instituição 
terá um papel bastante importante.
De acordo com Burns (1957, p. 464-465),
Ainda que as universidades modernas tenham copiado muito dos seus pro-
tótipos medievais, o programa de estudos mudou radicalmente. Nenhum dos 
currículos da Idade Média incluía um número razoável de aulas de história 
ou de ciências naturais, e pouca coisa continham de matemática e literatura 
clássica. O educador tradicionalista moderno, que acredita formarem a espinha 
dorsal do ensino universitário a matemática e os clássicos, não encontrará base 
para os seus argumentos na história das universidades medievais.
Da mesma forma, o movimento ao qual se vincula a ascensão do antropo-
centrismo, o Renascimento, não pode ser visto apenas como um movimento 
de elites letradas, mas como um fenômeno que abrange os diferentes estratos 
da sociedade, com características específicas.
Em relação ao Renascimento, cabe destacar, neste momento, que esse “mo-
vimento” não se tratou apenas do acúmulo de obras científicas, filosóficas ou 
Idade Moderna22
literárias nem de mudanças estéticas e técnicas nas artes plásticas, mas significou 
uma transformação muito mais ampla, com a difusão da escrita e da leitura 
para além dos espaços religiosos ou das elites, da alfabetização vinculada às 
necessidades do comércio e das cidades, da releitura dos textos da Antiguidade 
Clássica a partir desses próprios textos, e não das interpretações religiosas a 
eles atribuídas. 
Vejamos, resumidamente, nas considerações de Burns (1957), quais foram 
as causas da renovação artística e intelectual ocorrida nos séculos XII e XIII 
que gerariam o Renascimento:
 � influência das culturas bizantina e sarracena;
 � desenvolvimento do comércio;
 � crescimentodas cidades;
 � renovação do interesse pelo estudo dos textos da Antiguidade Clássica 
greco-romana;
 � desenvolvimento de um pensamento cético e crítico;
 � abandono progressivo do asceticismo e do misticismo característicos 
da Alta Idade Média;
 � retomada do estudo do direito romano;
 � surgimento das universidades;
 � influência do aristotelismo;
 � presença do naturalismo nas artes plásticas e na literatura;
 � desenvolvimento da observação e da pesquisa científica.
Em relação à religião, esse aspecto de continuidade do medievo, mas sujeito 
a transformações, uma das marcas da “modernidade” é a reivindicação da 
livre interpretação das escrituras, sem negar o valor e a verdade da Bíblia, mas 
questionando o privilégio de apenas os clérigos poderem comentá-la. Durante 
a Idade Média, a leitura das escrituras era orientada pela escolástica por meio 
da hermenêutica (SILVA; SILVA, 2009). Há outra visão de ser humano e de 
religião em disputa, e aqui se apresenta uma distância menor entre homens e 
mulheres e Deus. Juntamente ao antropocentrismo, haverá o desenvolvimento 
de outras formas de pensamento, todas vinculadas entre si, como o humanismo, 
o individualismo e o racionalismo.
Vejamos como Silva e Silva (2009, p. 193) definem o humanismo, esse 
grupo heterogêneo de intelectuais que compartilhavam o entusiasmo pelo 
estudo dos escritos da Antiguidade Clássica: 
23Idade Moderna
O termo humanismo surgiu no século XVI para designar as atitudes renas-
centistas que enfatizavam o homem e sua posição privilegiada na Terra. [...] 
O humanismo é comumente definido como um empreendimento moral e 
intelectual que colocava o homem no centro dos estudos e das preocupações 
espirituais, buscando construir o mais alto tipo de humanidade possível. [...] 
Alguns autores consideram o humanismo um fenômeno dialético, pois, de um 
lado, valorizava o humano, contrariando a mentalidade teocêntrica da Filosofia 
medieval, mas, ao mesmo tempo, possuía fortes preocupações religiosas, sendo 
o movimento incompreensível sem suas preocupações espirituais e o anseio 
por uma reforma da Igreja Católica. Ou seja, o contexto humanista apesar 
de seu antropocentrismo, foi intensamente influenciado pelo Cristianismo e 
pelos dilemas da Igreja Católica no início da Idade Moderna.
Percebe-se, novamente, a importância de compreender a modernidade 
entre a continuidade e ruptura: até mesmo os valores antropocêntricos tinham 
conotações religiosas. Contudo, também é importante destacar os rompimentos: 
o humanismo foi um movimento surgido em algumas cidades italianas com 
forte desenvolvimento urbano e comercial e teria sido burguês. 
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