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BDR ASSOCIAÇÃO DE BYUNG-CHUL HAN o DIREITO Sociedade da transparência Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Han, Byung-Chul Sociedade da transparência / Byung-Chul Han ; tradução de Enio Paulo Giachini. - RJ : Tradução de Enio Paulo Giachini Vozes, 2017. Título original : Transparenzgesellschaft reimpressão, 2017. ISBN 978-85-326-5471-7 1. Autorrevelação Aspectos sociais 2. Internet - Aspectos sociais 3. Liberdade de informação 4. Transparência - Aspectos sociais I. Título. 17-03614 CDD-303.3 EDITORA Índices para catálogo sistemático: 1. Sociedade da transparência : Ciências sociais VOZES 303.3 Petrópolis2012 Matthes & Seitz Verlag, Berlin. Título original em alemão: Transparenzgesellschaft Direitos de publicação em língua portuguesa - Brasil: 2017, Editora Vozes Ltda. Rua Frei 100 25689-900 Petrópolis, RJ www.vozes.com.br Brasil Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da CONSELHO EDITORIAL Diretor Gilberto Gonçalves Garcia Editores Aline dos Santos Carneiro Edrian Josué Pasini Marilac Loraine Oleniki Welder Lancieri Marchini Conselheiros Daquilo de que os outros Francisco Morás Ludovico Garmus não sabem sobre mim, Teobaldo Heidemann Volney J. Berkenbrock disso eu vivo. Secretário executivo João Batista Kreuch Peter Editoração: Gleisse Dias dos Reis Chies Diagramação: Sheilandre Gráfico Revisão gráfica: Nilton Braz da Rocha Projeto gráfico de capa: Pierre Fauchau Arte-finalização de capa: Sérgio Cabral ISBN 978-85-326-5471-7 (Brasil) ISBN 978-3-88221-595-3 (Alemanha) Editado conforme o novo acordo ortográfico. 1. HANDKE, P. Am Felsfenster morgens. Salzburg, 1998, Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda p. 336.Sumário 1 Sociedade positiva, 9 2 Sociedade da exposição, 27. 3 Sociedade da evidência, 39 4 Sociedade pornográfica, 51 5 Sociedade da aceleração, 69 6 Sociedade da intimidade, 79 7 Sociedade da informação, 87 8 Sociedade do desencobrimento, 97 9 Sociedade do controle, 105I msmo 1 Sociedade positiva Discuss publico S Nos dias atuais não há mote que domi- L ne mais o discurso público do que o tema da transparência. Ele é evocado enfaticamente e conjugado sobretudo com o tema da liber- dade de informação. A exigência de transpa- rência, presente por todo lado, intensifica-se de tal modo que se torna um fetiche e um tema totalizante, remontando a uma mudança de paradigma que não se limita ao âmbito da política e da sociedade. Assim, a sociedade da negatividade dá espaço a uma sociedade na qual vai se desconstruindo cada vez mais a ne- gatividade em favor da positividade. Portanto, a sociedade da transparência vai se tornando uma sociedade positiva. As coisas se tornam transparentes quando eliminam de S1 toda e qualquerimages quando se tornam rasas e planas, quando se desconhece seu real alcance. Ela é uma coa- encaixam sem qualquer resistência ao curso sistêmica que abarca todos os processos raso do capital, da comunicação e da informa- sociais, submetendo-os a uma modificação As ações se tornam transparentes quando profunda. Hoje, o sistema social submete se transformam em operacionais, quando se todos os seus processos a uma coação por subordinam a um processo passível de cálculo, transparência, para operacionalizar e acelerar governo e controle. O tempo se torna transpa- esses processos. A pressão pelo movimen- rente quando é aplainado na sequência de um to de aceleração caminha lado a lado com a presente disponível. Assim, também o futuro é desconstrução da negatividade. A comunica- positivado em um presente otimizado. O tem- ção alcança sua velocidade máxima ali onde po transparente é um tempo sem destino e sem o igual responde ao igual, onde ocorre uma evento. As imagens tornam-se transparentes reação em cadeia do igual. A negatividade da quando, despojadas de qualquer dramaturgia, alteridade e do que é alheio ou a resistência do coreografia e cenografia, de toda profundida- outro atrapalha e retarda a comunicação rasa de hermenêutica, de todo sentido, tornam-se do igual. A transparência estabiliza e acelera pornográficas, que é o contato imediato entre sistema, eliminando o outro ou o estranho. imagem e olho. As coisas tornam-se transpa- Essa coação sistêmica transforma a sociedade rentes quando depõem sua singularidade e se da transparência em sociedade uniformizada expressam unicamente no preço. O dinheiro, (gleichgeschaltet). Nisso reside seu traço tota- que iguala tudo com tudo, desfaz qualquer litário, em uma "nova palavra para dizer uni- incomensurabilidade, qualquer singularidade formização: das coisas. Portanto, a sociedade da transpa- pois rência é um abismo infernal (Hölle) do igual. Quem relaciona a transparência apenas 2. Assim lemos no registro feito em seu diário por Ulrich Schacht, de 23/06/2011. Cf. SCHACHT, U. Über Schnee und com a corrupção e a liberdade de informação Geschichte. Berlim, 2012. 10 11m A linguagem transparente é formal; sim, por transparência nivela o próprio ser huma- uma linguagem puramente mecânica, opera- no a um elemento funcional de um sistema. cional, que elimina toda ambivalência. O pró- Nisso reside a violência da transparência. prio Humboldt já chamara a atenção para a in- A alma humana necessita naturalmente transparência fundamental que é constitutiva de esferas onde possa estar junto de si mesma, da linguagem humana: "Na palavra, ninguém sem o olhar do outro. Pertence a ela uma im- pensa justa e precisamente aquilo que o outro permeabilidade. Uma total "iluminação" iria [pensa], e por menor que seja a diferença, ela carbonizar a alma e provocar nela uma espé- oscila, como um círculo na água, e atravessa cie de burnout psíquico. Só a máquina é trans- toda a linguagem. Todo compreender é ao parente; a espontaneidade - capacidade de mesmo tempo um não compreender; toda fazer acontecer e a liberdade, que perfazem de pensamentos e sentimentos como tal a vida, não admitem transparência. é igualmente uma Um mundo Assim, também Wilhelm Humboldt escreve que consistisse apenas de informações e cuja sobre a linguagem: "No ser humano pode sur- comunicação fosse apenas a circulação de in- gir algo cuja razão não encontre explicação formações, livre de perturbações, não passaria nas circunstâncias precedentes; e feriríamos de uma máquina. A sociedade positiva é do- [...] precisamente a verdade histórica de seu minada pela "transparência e obscenidade da surgimento e transformação se quiséssemos informação em uma articulação tal, que já não dele excluir a possibilidade dessas manifesta- há mais qualquer A coerção ções Também a ideologia da post-privacy é algo 3. HUMBOLDT, W. Über die Verschiedenheit des menschli- chen Sprachbaues und ihren Einfluss auf die geistige Ent- ingênuo. Em nome da transparência exige a eli- wicklung des Menschengeschlechts. Berlim, 1836, p. 64. 4. J. Die fatalen Strategien Die Strategie 5. HUMBOLDT, W. Über die Verschiedenheit des menschli- der Täuschung. Munique, 1992, p. 29. chen Sprachbaues.. Op. cit., p. 65. 12 13minação total da esfera privada, que deve levar é próprio e privado no íntimo, mesmo numa a uma comunicação translúcida e repousa so- relação estreita, que abarca o todo do ser hu- bre inúmeros O ser humano sequer mano, e que limite ao direito de perguntar é transparente para consigo mesmo. Segundo pelo direito do mistério"6. À coerção da trans- Freud, o eu nega precisamente aquilo que o parência falta precisamente esse "tato de finu- inconsciente afirma e deseja irrestritamente. ra" (Zahrtheit), que nada mais é do que o tato O Id permanece amplamente oculto no Ego. do respeito pela alteridade que não pode e não Assim, na psique humana é aberta uma fissura deve ser eliminada completamente. Frente ao que não deixa o Ego coincidir consigo mesmo. pathos da transparência que domina a socie É essa fissura fundamental que impossibilita a dade atual, seria necessário exercitar o patho's autotransparência. Obviamente, entre as pes- da distância. Vergonha e distância não podem soas há um fosso divisor. Desse modo, torna-se ser integradas no círculo veloz do capital, da impossível criar uma transparência interpessoal. informação e da comunicação, para que não Tampouco ela é algo desejável; é justamente a sejam eliminados, em nome da transparência, falta de transparência do outro que mantém os lugares de refúgio discretos, tornando-se viva a relação. Nesse sentido, Georg iluminados e saqueados. Com isso, o mundo escreve: "O mero fato do conhecer absoluto, se torna mais desavergonhado e desnudo. do esgotar o conhecimento psicológico nos Também a autonomia de um pressupõe a torna sóbrios, mesmo sem que tenhamos es- liberdade para a não compreensão do outro. tado embriagados, paralisa a vitalidade das Sennet observa: "em vez de uma igualdade da relações [...].A profundidade fecunda das rela- compreensão, de uma igualdade transparen- ções, que adivinha e preza ainda um algo defi- Pgo do nitivo e último por trás do último revelado [...], não passa da recompensa daquele tato de finu- 6. SIMMEL, G. Soziologie - Untersuchungen über die For- men der Vergesellschaftung. Frankfurt a. M., 1992, p. 405 ra e que respeita também o que [Gesamtausgabe, vol. 14 15te, autonomia significa que aceitamos o que à tomada de decisões mais acertadas in- não se compreende no outro uma igualdade / tuição, por exemplo, transcende as informa- Além do mais, uma relação transpa- ções disponíveis e segue sua própria lógica. rente é uma relação morta, à qual falta toda e Hoje, por causa da onda crescente e até mas- qualquer atração, toda e qualquer vivacidade; sificante de informações, está se encolhendo totalmente transparente é apenas o Re- cada vez mais a capacidade superior juízo.) conhecer que há uma esfera positiva, produ- Muitas vezes um minus de informações tiva da existência e coexistência humanas que siona um plus. Não é raro que a negatividade rege legitimamente a coação por transparên- do abandonar e do esquecer tenha um efei- cia seria um novo Nesse sentido, to produtivo. A sociedade da transparência Nietzsche escreve: "O novo iluminismo. [...] não tolera lapsos de informação nem lapsos Não é suficiente que vejas em que ignorância visuais, mas o pensamento e a inspiração ne- vive o homem e o animal; também deves ter, cessitam de um vazio. e também aprender, a vontade para a ignorân- A palavra felicidade (Glück) provém da pa- cia. É necessário que compreendas que sem lavra oco (Lücke). No médio-alto alemão ain- esse tipo de ignorância a própria vida seria da se diz gelücke (felicidade-fortuna). Nesse algo impossível, que ela é uma condição única sentido, uma sociedade que já não admitisse para o vivente se manter e qualquer negatividade do OCO ou da lacuna se- Está comprovado que uma maior quanti- ria uma sociedade sem felicidade. O amor sem dade de informações não leva necessariamente a lacuna do ver é pornografia; sem ou la- cuna no saber o pensamento decai em cálculo. 7. SENNETT, R. Respekt im Zeitalter der Ungleichheit. Ber- lim, 2004, p. 151. NIETZSCHE, F. Nachgelassene Fragmente - Frühjahr- 9. Cf. GIGERENZER, G. Bauchentscheidungen - Die Intelli- -Herbst 1884. Berlim, 1973, p. 226 Gesamtaus- genz des Unbewussten und die Macht der Mu- gabe, VII.2. nique, 2007. 16 17A sociedade positiva se despede tanto da Para Nietzsche, a alma humana deve sua pro- dialética quanto da hermenêutica, sendo que fundidade, grandeza e fortaleza precisamente a dialética repousa na negatividade. Assim, o ao demorar-se junto ao negativo. Também o "espírito hegeliano" não se desvia do negativo, espírito humano é um nascimento doloroso: mas o sustenta e o conserva em si. A negati- "aquela tensão da alma na infelicidade, que vidade nutre a "vida do espírito"; o outro no nela acende a fortaleza [...], sua inventividade mesmo, que gera uma tensão negativa, con- e valentia no suportar, perseverar, interpretar, serva vivo o espírito. Segundo Hegel, ele só é explorar a infelicidade e a tudo aquilo que só é o "poder se olhar 'no rosto' o negativo, se se presenteado a ela em profundidade, mistério, demorar junto a ele"10 Esse demorar é a "for- máscara, espírito, astúcia, grandeza não lhe foi ça mágica que o converte no ser". Quem se presenteado sob o sofrimento, sob a disciplina volta contra só por meio do positivo não tem do grande A sociedade positiva espírito. Este é lento, pois se demora no nega- está em vias de reorganizar a alma humana de tivo e o processa para si mesmo. O sistema da uma maneira totalmente nova. No curso e transparência elimina toda negatividade para empuxo de sua positivação, também o amor acelerar a si mesmo; o demorar-se junto ao é nivelado em um arranjo de sentimentos negativo se desvia e evita o precipitar-se verti- agradáveis e de excitações complexas e sem ginoso no positivo. consequências. Assim, em Lob der Liebe (Lou- A sociedade positiva tampouco admite vor do amor), Alain Badiou chama a atenção qualquer sentimento negativo. Desse modo, para o site de encontros Meetic: "O homem esquecemos como se lida com o sofrimen- pode estar enamorado sem cair na paixão! to e a dor, esquecemos como dar-lhes forma. (sans tomber amoureux), ou: "É bem simples 10. HEGEL, G.W.F. Phänomenologie des Geistes. Hamburgo, 11. NIETZSCHE, F. Jenseits von Gut und Böse. Berlim, 1968, 1952, p. 30. p. 167 [Kritische Gesamtausgabe, VI.2]. 18 19estar enamorado sem sofrer!"12 O amor é do- sentido, a teoria se avizinha da cerimônia, mesticado e positivado para a fórmula de con- que separa o iniciado do não iniciado. É um sumo e conformidade, no qual todo e qualquer erro admitir que a massa positiva de dados e ferimento deve ser evitado. Mas sofrimento informações, que hoje cresce mostruosamen- e paixão são figuras da negatividade. De um te, torne supérflua a teoria, que o nivelamento lado eles evitam a fruição do que não é nega- de dados substitua os modelos. A teoria como tivo; de outro, em seu lugar entram perturba- negatividade está estabelecida antes dos da- ções psíquicas como/esgotamento, cansaço e dos e informações positivos, como também depressão, que remontam em última instância dos modelos. A ciência positiva, baseada em ao exagero de dados, não é a causa, mas a consequência do Também a teoria no sentido enfático é fim da teoria iminente, em sentido próprio. A uma manifestação da negatividade. Ela é uma teoria não pode ser simplesmente substituída decisão que estabelece o que pertence a ela e pela ciência positiva. A esta falta a negativida- o que não. Enquanto uma narrativa altamente de da decisão, que é a única que decide o que seletiva, ela traça uma senda de distinção. Em é ou deve ser. A teoria como negatividade faz virtude dessa negatividade, a teoria se torna com que a realidade se manifeste ela própria, violenta. Ela está "destinada a impedir que as cada vez de modo diferente e de súbito, no coisas se toquem" e "separar aquilo que está qual aparece uma nova luz. Sem a negatividade da distinção A política é um agir estratégico. Já por é inevitável que as coisas cheguem à prolife- causa disso lhe é própria uma esfera ocul- ração e à promiscuidade generalizada. Nesse ta. Uma total transparência iria paralisá-la. Assim, o "postulado da publicidade [segundo Carl Schmitt] tem seu opositor específico na 12. BADIOU, A, Lob der Liebe. Viena, 2011, p. 15. ideia de que pertencem àquela política arca- 13. BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strategien. Op. cit., p. 219. na mistérios técnico-políticos que são de fato 20 21tão necessários ao absolutismo como os mis- O partido dos piratas, como partido da térios dos negócios e das empresas para uma transparência, faz avançar a pós-política, que propriedade privada e para a vida econômica, se equipara à despolitização. É um antipar- que se baseia na Somente na tido, o primeiro partido sem cor. A transpa- teatrocracia é que a política aparece sem mis- rência não tem cor. Nela, as cores não são térios. Aqui a ação política dá espaço à mera admitidas como ideologias, mas apenas como encenação. Segundo Schmitt, a "plateia de Pa- opiniões desprovidas de ideologia. E opiniões pageno" faz desaparecer o arcano; "O século não têm consequências, não são mordentes e XVIII ousava apresentar excesso de autosse- penetrantes como as ideologias, faltando-lhes gurança e o conceito aristocrático do mistério. a negatividade repercutiva. Assim, a atual so- Em uma sociedade com essas características ciedade da opinião deixa intocado aquilo que não há hierarquia, diplomacia oculta já existe. A flexibilidade da liquid democracy e sequer qualquer política, pois os fa- consiste em trocar cores, dependendo da si- zem parte daquela grande política. Tudo deve tuação, e o partido dos piratas é um partido de desenrolar-se frente ao cenário (frente a um opinião sem cores. palco de Nesse sentido, o fim A política dá lugar à violência das necessi- do mistério seria o fim da política, e Schmitt dades sociais, que deixa intocados os quadros das relações socioeconômicas já existentes, chega a afirmar que a política precisa de mais aferrando-se nesse propósito. Enquanto an- "coragem para o tipartido, o partido dos piratas não está em condições de articular uma vontade política e 14. SCHMITT, C. Römischer Katholizismus und politische produzir novas coordenadas sociais. Form. Stuttgart, 2008, p. 48. A coerção por transparência estabiliza o p. 47. sistema existente de maneira bastante efetiva. 16. p. Em si a transparência é positiva. Dentro dela 22 23não se encontra qualquer negatividade que acúmulo de informações, por si sós, não pro- pudesse colocar em questão o sistema políti- duzem qualquer verdade; faltam-lhes direção, co-econômico vigente; ela está cega em rela- saber e o sentido. É precisamente em virtude ção ao lado exterior do sistema; simplesmente da falta de negatividade do verdadeiro que se confirma e otimiza o que já existe. Por isso, a dá a proliferação e massificação do positivo. sociedade da transparência caminha de mãos A hiperinformação e hipercomunicação gera dadas com a pós-política. Totalmente trans- precisamente a falta de verdade, sim, a falta parente só pode ser o espaço despolitizado. A de ser. Mais informação e mais comunicação política sem referência desanda em referendo. não afastam a fundamental falta de precisão do O veredicto da sociedade positiva é este: todo. Pelo contrário, intensifica-a ainda mais. "Me agrada". É significativo que o facebook se negue coerentemente a introduzir um emotion de dislike button. A sociedade positiva evita todo e qualquer tipo de negatividade, pois esta paralisa a comunicação. Seu valor é medido apenas pela quantidade e velocidade da troca de informações, sendo que a massa de comu- nicação também eleva seu valor econômico e veredictos negativos a prejudicam. Com like surge uma comunicação conectiva muito mais rápida do que com o dislike. Transparência e verdade não são idênti- cos. A verdade é uma negatividade na medi- da em que se e impõe, declarando tudo o mais como falso. Mais informação ou um 24 252 Sociedade da exposição Segundo Walter Benjamin, para as coisas que estão a serviço do culto "é mais impor- tante que existam do que sejam Seu "valor cultual" deve-se à sua existência, e não à sua exposição. A prática de colocá-las reclu- sas em espaço inacessível, limitando o acesso a elas, eleva seu valor cultual. Há imagens que permanecem encobertas a maior parte do ano. A negatividade do apartar (secret, secretus), delimitação, reclusão é constitutiva para o va- lor cultual. Na sociedade positiva, na qual as coisas, agora transformadas em mercadorias, têm de ser expostas para ser, seu valor cultual desaparece em favor de seu valor expositivo. 17. BENJAMIN, W. Das Kunstwerk im Zeitalter seiner tech- nischen Reproduzierbarkeit. Frankfurt a. M. 1963, p. 21.Em vista desse valor expositivo, sua existên- cultual da imagem teria ainda seu "último re- cia perde totalmente a importância. Pois, tudo Na "expressão fugidia de um rosto hu- o que repousa em si mesmo, que se demora mano" ainda se veria um aceno da aura a partir em si mesmo passou a não ter mais valor, só da fotografia primitiva. Seria isso que perfazia adquirindo algum valor se for visto. A coação a "beleza pesarosa e incomparável". Mas onde por exposição, que coloca tudo à mercê da o ser humano se ausentou da fotografia, ali visibilidade, faz desaparecer a aura enquanto meçou a aparecer o valor expositivo no lugar "manifestação de uma distância". O valor ex- do valor cultual. positivo constitui a essência do perfeito capi- Já de há muito que o "semblante humano, talismo e não pode ser reduzido à contrapo- com seu valor cultual, desapareceu da foto- sição marxiana entre valor de uso e valor de grafia. Na era do facebook e do photoshop o troca. Não é um valor de uso porque está afas- 'semblante humano' se transformou em face, tado da esfera do uso; tampouco é um valor que se esgota totalmente em seu valor expo- de troca porque não reflete qualquer força de sitivo. A face é o rosto exposto sem qualquer trabalho. Deve-se unicamente à produção do 'áurea da É a forma de mercadoria chamar a atenção. do "semblante humano". A face como super- Benjamim aponta, de um lado, que na foto- fície é mais transparente do que aquele rosto grafia o valor expositivo rechaça completamen- ou semblante que representa para Emmanuel te o valor de culto. Por outro lado, ele observa Lévinas o lugar excepcional no qual irrompe que o valor cultual não se retira sem oferecer a transcendência do outro. A transparência é resistência, mas arma uma última trincheira, uma contrafigura da transcendência, e a face que seria o "rosto humano". Assim, não é por habita a imanência do igual. acaso que o portrait ocupa o ponto central da fotografia primitiva. No "culto da memória aos 18. Op. cit., p. 23. entes queridos distantes ou falecidos", o valor 19. BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strategien. Op. cit., p. 71. 28 29Na fotografia digital toda negatividade é e sem evento. O destino não é transparente, e expurgada. Não precisa mais de câmara es- à fotografia transparente falta o adensamento cura nem de processamento, não precisa ser semântico e temporal. Assim, ela não fala. precedida por nenhum negativo. É um puro A figura temporal do "foi assim" é para positivo. Extintos estão o devir, o envelhecer, o Barthes a essência da fotografia; a foto dá tes- morrer: "não só partilha (a foto) o destino do temunho do que foi. Por isso, seu humor de papel (perecível), mesmo que seja fixado em fundo é a tristeza. Para Barthes, a data é parte material mais duro, nem por isso torna-se me- da foto, "porque faz que se note a vida, a mor- nos mortal: como um organismo vivo é gera- te, o desaparecer inevitável das A do de grânulos nucleares de prata, floresce por respeito de uma foto de André Kertész, Bar- um momento para logo envelhecer. Atacado thes observa o seguinte: "É possível que Ernest, pela luz e pela umidade, empalidece, esgota-se o pequeno aluno, tenha fotografado Kertész e desaparece Roland Barthes liga à fo- em 1931, e hoje ainda vive (Mas onde? Como? Que A fotografia de hoje, total- tografia uma forma de vida para a qual a nega- mente tomada pelo valor expositivo, mostra tividade do tempo é constitutiva. Mas em suas uma outra temporalidade. Está determinada ligações técnicas, nesse caso, ela está acoplada pela atualidade sem negatividade, sem destino, à sua analogicidade. A fotografia digital cami- que não admite nenhuma tensão narrativa, nha de mãos dadas com uma forma de vida to- nenhuma dramaticidade de "romance". Sua talmente distinta, que se afasta cada vez mais expressão não é romântica. da negatividade. É uma fotografia transparen- Na sociedade expositiva cada sujeito é seu te sem nascimento e sem morte, sem destino próprio objeto-propaganda; tudo se mensura BARTHES, R. Die helle Kammer Bemerkung zur Photo- 21. Op. cit., p. 93. graphie. Frankfurt a. M. 1989, p. 104. 22. Op. cit., p. 93s. 30 31em seu valor expositivo. A sociedade exposta de desempenho masculino; o prazer expos- é uma sociedade pornográfica; tudo está vol- to, colocado sob holofotes, já não é prazer. A tado para fora, desvelado, despido, desnudo, coação expositiva leva à alienação do próprio exposto. O excesso de exposição transforma corpo, coisificado e transformado em objeto tudo em mercadoria que "está à mercê da cor- expositivo, que deve ser otimizado. Já não é rosão imediata, sem qualquer A possível morar nele, sendo necessário, então, economia capitalista submete tudo à coação expô-lo e, assim, explorá-lo. Exposição é ex- expositiva, é só à encenação expositiva que ploração, e seu imperativo aniquila o próprio gera valor, deixando de lado todo e qualquer morar. Quando o próprio mundo se transfor- crescimento próprio das coisas. Ela não desapa- ma em espaço de exposição, já não é possível rece no escuro, mas na superiluminação: "con- o habitar, que cede lugar à propaganda, com o sideradas do ponto de vista geral, as coisas vi- objetivo de incrementar o capital da atenção síveis não acabam no escuro ou no silêncio, do público. Habitar significa originariamen- mas se volatizam naquilo que é mais visível do te "estar satisfeito, estar em paz, permanecer que o mais visível: a onde se A permanente coação por ex- O porno não aniquila apenas o eros, mas posição e por desempenho ameaça a paz, fa- também o sexo. A exposição pornográfica não zendo também desaparecer totalmente a coisa no sentido heideggeriano. Ela não é passível causa apenas uma alienação do prazer sexual, de exposição, pois está plena de valor cultual. mas torna-o impossível; torna impossível vi- Obscena é a hipervisibilidade, à qual fal- ver o prazer. Assim, a sexualidade se dissolve ta qualquer traço de negatividade do oculto, na performance feminina do prazer e na visão do inacessível e do mistério. Obscenos são 23. BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strategien. Op. cit., p. 71. 25. HEIDEGGER, M. Vorträge und Aufsätze. Pfullingen, 1954, 24. Op. cit., p. 12. p. 149. 32 33também os canais rasos da hipercomunica- que anela pela otimização do valor expositivo. ção, libertos de toda e qualquer negatividade A coação por exposição nos rouba, em última da alteridade. Obscena é a coação de colocar instância, nossa própria face; já não é possível tudo à mercê da comunicação ou da visibili- ser sua própria face. Desse modo, a absoluti- dade. Obsceno é o pornográfico colocar corpo zação do valor expositivo se expressa como e alma sob foco da visão. tirania da visibilidade. O problemático não é O valor expositivo depende sobretudo da o aumento das imagens em si, mas a coação bela aparência. Assim, a coação por exposi- icônica para tornar-se imagem. Tudo deve tor- ção gera uma coação por beleza e por fitness; nar-se visível; o imperativo da transparência a "operação beleza" tem como objetivo ma- coloca em suspeita tudo o que não se submete ximizar o valor expositivo. Nesse sentido, os à visibilidade. E é nisso que está seu poder e paradigmas atuais não transmitem qualquer sua violência. valor interior, mas medidas exteriores, às Hoje, a comunicação visual se realiza como quais se procura corresponder, mesmo que às contágio, ab-reação ou reflexo. Falta-lhe qual- vezes seja necessário lançar mão de recursos quer reflexão estética. Sua estetização é, em úl- violentos. O imperativo expositivo leva a uma tima instância, anestésica. Por exemplo, para o absolutização do visível e do exterior. O julgamento de gostar I like (eu gosto) - não vel não existe, pois não possui valor expositivo se faz necessário qualquer consideração mais algum, não chama a atenção. vagarosa. As imagens preenchidas pelo valor A coação por exposição explora o visível. expositivo não demonstram qualquer comple- A seu modo, a superfície brilhante é transpa- xidade; são univocamente claras, i. é, porno- rente, não tendo necessidade de sofrer qual- gráficas. Falta-lhes qualquer tipo de fragilida- quer outro questionamento e não possuindo de que pudesse desencadear uma reflexão, um estrutura hermenêutica profunda. Também reconsiderar, um repensar. A complexidade a face é um rosto que se tornou transparente, retarda a velocidade da comunicação, e a hi- 34 35percomunicação anestésica, para acelerar-se, na a percepção tátil e palpável, sendo que a reduz a complexidade. Ela é essencialmente taticidade significa um contato sem toque, um mais rápida do que a comunicação sensorial; "entrechoque de olho e imagem" pele a os sentidos são morosos, sendo um empecilho Por falta de distância, não há consideração ou para o circuito veloz da informação e da co- contemplação estética, não sendo possível de- municação. Assim, a transparência caminha morar-se junto à imagem. A percepção tátil passo a passo com um vazio de sentido. A mas- é o fim da distância estética do olhar, sim, o sa de informações e de comunicação surge de fim do olhar. Por isso, a falta de distância não um horror vacui. é a proximidade; ao contrário, ela a aniquila. Na sociedade da transparência, toda e A proximidade é rica de espaço, enquanto que qualquer distância se mostra como negativi- a falta de distância a aniquila. À proximida- dade, devendo ser eliminada, pois impõe um de está inscrita uma lonjura, sendo ampla e empecilho ao aceleramento do circuito da vasta. É por isso que Heidegger fala de uma comunicação e do capital. Por isso, a partir "proximidade pura que sustenta a de sua lógica interna, a sociedade da trans- Mas a "dor da proximidade da é parência elimina toda e qualquer forma de uma negatividade que pretendem eliminar. A distância. A transparência é, em última ins- transparência dis-tancia tudo num afastamen- tância, a "total promiscuidade do olhar com to uniforme, que não é distante nem próximo. aquilo que ele a saber, a ela se expõe às irradiações permanentes das coisas e das imagens. A falta de distância tor- 27. BAUDRILLARD, J. Transparenz des Berlim, 1992, p. 64. 28. HEIDEGGER, M. Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung. Frankfurt a. M., 1981, p. 146 [Gesamtausgabe, vol. 3]. 26. BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strategien. Op. cit., p. 71. 29. HEIDEGGER, M. Vorträge und Aufsätze. Op. cit., p. 108. 36 373 Sociedade da evidência A sociedade da transparência é inimiga do prazer. Dentro da economia do prazer hu- mano, prazer e transparência não conseguem conviver; a transparência é estranha à econo- mia libidinosa, pois é precisamente a negati- vidade do mistério, do véu e da ocultação que aguilhoa o desejo e intensifica o prazer. Mas o sedutor joga com máscaras, ilusões e formas de aparência, e a coação da transparência aniqui- la espaços de jogo do prazer; a evidência não admite sedutor, mas apenas procedimentos. O sedutor traça caminhos que são contornáveis, cheios de encruzilhadas e tortuosos. Ele im- planta sinais ambíguos: "A sedução apoia-se às vezes em códigos ambíguos, o que transforma o sedutor, prototípico da cultura ocidental, em representante exemplar de umaforma de liberdade da moral. Os sedutores se clareza e obscuridade na imagem de nossos servem de um linguajar ambíguo, pois não se elementos vitais"31 Com base nisso, a transpa- sentem presos às normas da seriedade e da si- rência retira das coisas todo e qualquer atra- metria. Suas práticas tivo, "proibindo à fantasia tecer suas possibi- ao contrário, exigem transparência e recusa lidades, para cuja perda não há realidade que da ambiguidade para assegurarem o máximo possa nos compensar, pois é propriamente in- possível de liberdade e igualdade, e assim fa- dependência que, com o passar do tempo, não zer tombar no vazio o nimbos tradicional re- pode ser substituída por nada que se receba ou tórico e emocional da O jogo com se frua". Simmel continua dizendo "que, para ambiguidade e ambivalência, com mistério nós, uma parte da pessoa que nos é próxima - e enigma eleva a tensão erótica, e, assim, a para que seu atrativo continue sendo algo transparência ou a univocidade levaria ao fim elevado - deve permanecer na forma da não do eros. Não é por acaso que a sociedade da clareza e A fantasia é es- transparência é hoje, igualmente, sociedade sencial para a economia do prazer. Um objeto pornográfica. Também a práxis da post-priva- apresentado desvelado desliga essa economia, cy, que em nome da transparência exige um e somente um recuo e uma retirada do objeto mútuo desnudamento ilimitado, é totalmente podem acendê-la novamente. O que aprofun- prejudicial ao prazer. da o prazer não é a fruição em tempo real, mas Segundo Simmel, não só estamos "de tal modo direcionados e precisamos de uma cer- um jogo imaginativo prévio e posterior, o adia- ta proporção de verdade e erro como base de mento temporal. Uma fruição imediata que nossa vida, como também dependemos da 31. SIMMEL, G. Soziologie Untersuchungen über die For- 30. ILLOUZ, E. Warum Liebe weh tut Eine soziologische men der Vergesellschaftung. Op. cit., p. 404. Erklärung. Berlim, 2011, p. 345s. 32. Op. cit., p. 405. 40 41não permite qualquer contorno imaginativo a sua medida, aquilo que condiz ao mundo ou narrativo é pornográfica. Também a super- não são os homens que poderão encontrar, nitidez hiper-real e a supranitidez das imagens mas é para isso que vem o As coi- mediáticas paralisam e sufocam a fantasia. Se- sas são deslocadas apenas um pouquinho para gundo Kant, a força da imaginação reside no poder edificar o reino da paz. Essa modifica- jogo. Ela pressupõe espaços de jogo no qual ção mínima, observa Agamben, não aconte- nada está definido de antemão e onde não há ce nas próprias coisas, mas nas suas "redon- contornos claramente delineados, necessitando dezas". Ela lhes concede um clarão (clarior) de imprecisão e falta de clareza. Não é trans- misterioso. Essa "auréola" surge através de parente para si mesma, ao passo que a auto- um "tremer", por um "cintilar" em seus con- transparência é que caracteriza o entendimen- Assim, continuando o pensamento to. Este não joga, mas trabalha com conceitos de Agamben, esse tremer suave provoca um claros e devir obscuro, que envolve a coisa a partir de Em "Comunidade vindoura", Giorgio Agam- seus contornos com um brilho misterioso. O ben aponta para o mistério do reino do Mes- sagrado não é transparente; ao contrário, ele é sias, que certa noite Benjamin narrou a Ernst caracterizado por uma imprecisão misteriosa. Bloch: "Um rabi, um rabi verdadeiramente reino vindouro da paz não irá se chamar so- cabalístico, disse certa vez que para edificar o ciedade da transparência, pois a transparên- cia não é um estado de paz. reino da paz não se deveria destruir todas as Como o espaço do sagrado, o do desejo coisas e começar um mundo totalmente novo; também não é transparente; eles são "curvos"; mas essa xícara ou aquele arbusto ou aquela pedra, e assim todas as coisas, devem ser des- locadas um pouco. Mas visto que esse pouco é 33. AGAMBEN, G. Die kommende Gemeinschaft. Berlim, 2003, p. 51. tão difícil de ser feito e é tão penoso encontrar 34. Op. cit., p. 53. 42 43"a amada [frouwe*] só pode ser conquistada Lacan também o chama de a "coisa" (das Ding) indiretamente, só por caminhos tortuosos, da qual não é possível fazer qualquer imagem A frouwe, o objeto de desejo em virtude de sua impenetrabilidade e oculta- do amor cavalheiresco, é um "buraco negro" mento. Foge a qualquer representação; que em torno do qual vai se adensando o desejo. está ali é a coisa, esse é o real Segundo Jacques Lacan, é "introduzido pela A transparência é um estado de sime- porta estranha de um retiro, de uma inaces- tria. Assim, a sociedade da transparência bus- Lacan compara-o com a "figu- ca eliminar todas as relações assimétricas. ra não decifrável" da Anamorfose, na qual o Entre elas está o poder que, em si, não é dia- conteúdo da imagem só aparece desfigurado, bólico; em muitos casos ele é produtivo e pro- É qualquer outra coisa menos motor. Ele gera um espaço livre e um espaço evidente (lat. videre = ver). Segundo Lacan, de jogo para a configuração política da socie- o amor cavalheiresco é Seu dade. Em grande parte o poder também par- objeto é uma anamorfose também na perspec- ticipa da produção do prazer, pois a economia tiva temporal, pois o objeto pode ser alcan- çado por meio de um adiamento libidinosa segue uma lógica de poder econô- mico. Também à pergunta Por que o homem tende a exercer o poder?, Foucault responde * Palavra do médio-alto alemão, para Frau (mulher). Signifi- ca a dama, objeto de amor e reverência das cantigas de ges- indicando para a economia do prazer, ou seja, ta e da dedicação dos cantadores de gesta medievais [N.T.]. quanto mais livres forem as pessoas em suas 35. ZIZEK, S. Metastasen des Begehrens Sechs erotisch- relações maior será seu prazer em determinar -politische Versuche. Viena, 1996, p. 50. o comportamento dos outros. O prazer será 36. LACAN, J. Seminar 7 - Die Ethik der Psychoanalyse. Wei- nheim/Berlim, 1996, p. 183. tanto maior quanto mais diversificados forem 37. p. os modos de jogo pelos quais se dirige o com- 38. p. 171. 39. ZIZEK, S. Metastasen des Begehrens. Op. cit., p. 51. 40. LACAN, J. Seminar 7. Op. cit., p. 59. 44 45portamento dos outros. Aos jogos estratégi- [...]. Há ações de amor e de orgulho dissoluto cos pertence grande parte de intransparência às quais seria mais aconselhável tomar um bas- e imprevisibilidade. Por também ser um jogo tão e bastonar as testemunhas [...]; não é um estratégico, o poder joga em espaço aberto: ardil por trás de uma máscara - há tantos bens "poder significa jogos estratégicos. Sabe-se na astúcia. [...] Todo espírito profundo preci- muito bem que o poder não é o mal. Vamos sa de uma máscara; mais ainda, em torno de tomar, por exemplo, as relações sexuais ou de todo espírito profundo cresce constantemente amor: exercer poder sobre o outro em uma uma máscara O espírito profundo sur- espécie de jogo estratégico aberto em que as ge protegido por uma máscara, e ela cresce ao coisas podem se inverter não é algo ruim, faz seu redor como pele protetora. O totalmente parte do amor, da paixão, do prazer outro, o novo, só medra por trás de uma más- Aquele "prazer" nietzscheano, que busca cara, que o protege contra o igual. E astúcia "eternidade", tem origem medieval. Nietzsche não é igual a ardil; ela é mais eficiente e menos dizia que não nos afastamos de Deus enquan- violenta do que a ação guiada pelo imperativo to acreditamos na transparência. Contra o categórico. Assim escreve Nietzsche: "Astúcia, olhar intruso, contra a tendência de tornar melhor que Ela é mais maleável, tudo genericamente visível, Nietzsche defende mais flexível na medida em que olha ao redor a aparência, a máscara, o mistério, o enigma, o de si e haure esgotando o respectivo potencial embuste e o jogo. "Tudo o que é profundo ama da situação. Assim, ela tem melhores olhos do a máscara; as coisas mais profundas inclusive que os do imperativo categórico, que deve sua guardam ódio da imagem e da comparação 42. NIETZSCHE, F. Jenseits von Gut und Böse. Op. cit., p. 54. 41. FOUCAULT, M. Freiheit und Selbstsorge - Interview 43. NIETZSCHE, F. Nachgelassene Fragmente Juli 1882 bis 1984 und Vorlesung 1982. Frankfurt a. M. 1985, p. 25s. [Ed. Winter 1883-1884. Berlim, 1977, p. 513 [Kritische Gesam- de H. Becker et al.]. tausgabe, VII.1]. 46 47transparência à sua rigidez. A violência está coisas do oculto. Assim, se ele se apresenta mais próxima da verdade do que a astúcia; ela encoberto (obscurantur), isso não ocorre como gera mais "evidência". Aqui, Nietzsche conjura desvantagem aos que querem aprender, mas é uma forma de vida mais livre, que não seria exposto ainda mais para que a pessoa se veja possível em uma sociedade de total ilumina- mais inflamada quando, por assim dizer, o ção e de controle. É livre também no sentido que investiga se retira e se encontra aquilo que de que não permite ser determinada pelo pen- se busca, então, com tanto mais O samento contratual, não se baseando na sime- manto figurativo erotiza a palavra, elevando-a tria, na igualdade nem na economia de troca. a um objeto de desejo, pois ela tem um efeito Não é raro o surgimento do diante sedutor quando é apresentada recoberta. Nesse do mistério e do obscuro. Segundo Agostinho, sentido, a negatividade da ocultação transfor- Deus teria colocado metáforas e obscurecido ma a hermenêutica em erotismo; já a desco- berta e o decifrar se desvelam prazerosamente. a Sagrada Escritura intencionalmente para Ao contrário, a informação é desnuda; a nudez gerar maior prazer: "Essas coisas são recober- da palavra retira-lhe todo e qualquer encanto, tas com um manto figurativo para que man- nivelando-a. tenham o exercício compreensivo da reflexão A hermética do mistério não é algo dia- fiel da pessoa que as escrutina e não pareçam bólico que deva ser afastado a qualquer custo sem valor, se forem apresentadas desnudas em nome da transparência. É uma simbologia, (nuda) e abertas (prompta). Mesmo assim, uma técnica cultural específica que gera pro- aquilo que em outros lugares é dito de forma fundidade, mesmo em sua aparência. aberta e manifesta (manifeste), de modo que se pode absorvê-lo com facilidade, renova- do de certo modo em nosso conhecimento, 44. Die Lüge und Gegen die Lüge. Würzburg, e assim renovado, tem um sabor doce (dul- 1986 [apud ANDREE, M. Archäologie der Medienwirkung. cescunt) quando se arrebatam essas mesmas Munique, 2005, 189]. 48 494 Sociedade pornográfica A transparência não é o medium do belo. Segundo Benjamin, "para a beleza é indispen- sável uma interligação indissolúvel entre vela- mento e velado; pois nem o véu nem o objeto velado são o belo, mas objetos em seu véu. Mas, desvelados, iriam se mostrar infinitamente in- visíveis. [...] Não se deve, portanto, designar di- ferentemente aquele objeto ao qual é essencial ser recoberto por um véu. E uma vez que só o belo e fora dele nada mais pode ser essencial- mente velante e velado, o fundamento divino ontológico da beleza repousa no A beleza não é passível de ser desvelada na medi- da em que está necessariamente ligada ao véu 45. BENJAMIN, W. Goethes Wahlverwandtschaften. Ge- sammelte Schriften, vol. 1.1, p. 195.e ao velamento. O que é velado só permanece estavam nus, mas revestidos de uma "veste da igual a si mesmo sob o velamento, e o desve- graça", de uma "veste de O pecado os lamento faz desaparecer o velado. Assim, não arrancou das vestes divinas, e totalmente ex- existe beleza desnuda: "Na nudez sem véus o postos eles se viram obrigados a recobrir-se. essencialmente belo é evitado, e no corpo des- Assim, a nudez significa a perda das vestes nudo do ser humano alcança-se um ser acima da graça. Agamben faz a tentativa de pensar de toda beleza o sublime é uma obra acima uma nudez liberta do dispositivo teológico; ele de todas as imagens -, o ser do Bela amplia o sublime do corpo nu em Benjamin pode ser apenas uma forma ou uma configura- até o nível do pornográfico. Sobre um modelo ção; mas sublime, ao contrário, é a nudez sem de nudez semipornográfico ele observa: "Um forma e sem imagem à qual já não adere o mis- belo rosto que, sorrindo, mostra sua nudez sig- tério como constitutivo da beleza. O sublime nifica uma única coisa: 'Você gostaria de expe- vai além do belo, já a nudez da criatura pode rimentar meu mistério? Você gostaria de ver ser qualquer coisa, menos pornográfica; ela é claramente além do meu véu? Então, vamos lá, sublime e remete para a obra do Criador. Tam- olhe se for capaz, contemple essa ausência de bém para Kant, um objeto é sublime quando mistério completa e [...] E, no supera toda e qualquer representação, toda e entanto, são esse desencantamento da beleza qualquer substituição. O sublime vai muito pela nudez e essa sublime e miserável expo- além da força da imaginação. sição do brilho sem mistério e sem significa- Na tradição cristã, a nudez traz uma "sig- do que estão destinados a dar mais precisão natura teológica Segundo Agam- ao dispositivo teológico Certamente, o ben, antes do pecado original Adão e Eva não 46. p. 196. 48. p. 98. AGAMBEN, G. Nacktheiten. Frankfurt a. M. 2010, p. 97. 49. p. 148s. 52 53corpo nu exposto à visão pornográfica é "mi- para fazer com que a carne se manifeste, para serável", mas não "sublime". Ao sublime, que fazer com que o corpo do outro assuma vio- Benjamin contrapõe o brilho belo, falta todo e lentamente tais posturas e posicionamentos qualquer valor expositivo, pois é precisamen- que escancarem sua obscenidade, i. e., mani- te a exposição que destrói a sublimidade da festem sua perda irrecuperável da graça e do criatura. O sublime gera um valor cultual; já rosto exposto pornograficamente, que "flerta" As vítimas da nudez pornográfica citada com o contraposto, pode ser qualquer outra por Agamben são, acima de tudo, a graça e o coisa, menos sublime50. charme. Em virtude de sua origem teológica, A contraposição entre dispositivo e nudez parece-lhe que a graça e o charme (Anmut livre, de Agamben, não é dialética. Violência e grâce) seriam suspeitos, pois se avizinham da poder não são apenas um dispositivo que for- graça divina (Gnade). Agamben apoia-se na ça e impinge uma função, uma máscara, uma tese sartreana de que o corpo deve sua graça expressão ao rosto, mas também a nudez sem e charme a um movimento teleológico, que o forma, pornográfica. O corpo que se torna torna um instrumento. Mas, pela sua fixação carne não é sublime, mas obsceno. A nudez em uma meta, nenhum instrumento pode ser pornográfica se avizinha daquela obscenidade gracioso; ele procura alcançar e estende sua da carne que, como observa o próprio Agam- mão para seu objetivo, sem Mas na ben, é resultado da violência: "É por isso que graça e no charme, ao contrário, inabita algo o sadista usa de todos os recursos possíveis curvo e contornável. Pressupõe-se um jogo li- vre de gestos e formas que, por sua vez, coloca em jogo algo como uma ação, que se retrai da 50. Cf. ibid., p. 147: "O semblante que se tornou cúmplice da nudez, que olha para o objetivo ou que filtra através do observador, apresenta-se em todo seu desnudamento do mistério; nada mais expressa do que o próprio colocar-se sob os holofotes, transformando-se em mero ser exposto". 51. Op. cit., p. 127. 54 55economia do objetivo. Assim, a graça e o char- assim "profanada", tem acesso a um novo uso. me fixaram morada entre a ação teleológica e O rosto desprovido de mistério, que assim a nudez obscena. Agamben não consegue cap- se expõe, nada mais demonstra que o mos- tar esse entre gracioso. Também o colocar-se trar-se. Por assim dizer, tornou-se transparen- sob os holofotes faz desaparecer a graça e o te. Agamben vê nisso um atrativo específico, charme. No "Teatro de marionetes", de Kleist, uma "magia especial", que "parte do puro va- o jovem perde sua graça justo no momento lor A exposição esvazia o rosto em que se posta diante do espelho e visualiza e o transforma em lugar pré-expressivo. Dessa propriamente seu movimento. Aqui o espelho prática da exposição esvaziadora, Agamben desdobra o mesmo efeito que o objetivo no espera uma nova forma de comunicação eró- qual a apresentação pornográfica de Agamben tica: "É uma experiência geral conhecida que o mira atrevidamente para dentro e nada mais rosto de uma mulher perde sua expressão tão expressa que seu próprio logo percebe que é observada. A consciência Agamben considera a exposição como uma de estar exposto a um olhar cria, portanto, um possibilidade privilegiada de fazer surgir aque- vazio, atuando como desencadeador violento la nudez liberta do dispositivo teológico e, de processos de expressão, que ademais vivi- ficam o rosto. É a mais descarada indiferença 52. Cf. KLEIST, H, Über das Marionettentheater: "Os movi- que têm de aprender, antes de qualquer outra mentos que ele fez tinham um elemento tão cômico, que coisa, os modelos e estrelas pornôs e outros tive dificuldades de conter o riso: A partir desses dias, de certo modo a partir desse momento, começou a acontecer profissionais da exposição; a saber, não mos- uma mudança incompreensível naquele jovem. Ele passou trar nada mais do que o mostrar (ou seja, sua a ficar vários dias diante do espelho, abandonando-se a um estímulo atrás do outro. Parece que se estabeleceu um absoluta integração midiática). Desse modo, poder invisível e inconcebível, como uma rede de aço em torno de seus gestos, e depois de um ano já não era possi- vel descobrir nele qualquer traço de amabilidade que pro- vocasse encanto aos olhos dos que estavam ao seu redor". 53. AGAMBEN, G. Nacktheiten. Op. cit., p. 144. 56 57o rosto carrega-se de valor expositivo até em- consiste em expor a consciência desavergo- panturrar-se. Mas justamente através desse nhada de o corpo nu ser colocado sob o holo- aniquilar da expressão, o erotismo penetra até fote. Obsceno é o rosto desnudo, sem mistério, lá onde ele propriamente não poderia se en- tornado transparente e reduzido à sua exposi- contrar; a saber, no rosto humano [...]. Expos- ção. Pornográfica é a face que se sobrecarrega to como puro meio além de qualquer expres- até empanturrar-se de valor expositivo. sividade concreta, torna-se disponível para Agamben não reconhece que a exposição um novo uso, para uma nova forma de comu- em si já é pornográfica. O capitalismo acen- nicação Aqui também se coloca a tua a pornografização da sociedade, expondo questão se o rosto sobrecarregado com o valor tudo como mercadoria e votando-o à hiper- expositivo de fato está em condições de abrir visibilidade. O que se busca é a otimização do um "novo uso coletivo da sexualidade", uma valor expositivo, sendo que o capitalismo não "nova forma de comunicação erótica". Agam- conhece nenhum outro uso da sexualidade. ben observa que essa nudez, liberta de toda e Justamente nas imagens pornográficas de pro- qualquer signatura teológica, alberga em si um paganda se realiza o "uso coletivo da sexua- "potencial profanador" que é aniquilado pelo lidade" exigido por Agamben. O "consumo "mecanismo da pornografia". Contrariamen- solitário das imagens pornográficas" não é um te ao que pensa Agamben, a pornografia não mero "substitutivo" da promessa de um novo bloqueia um novo uso da sexualidade apenas uso coletivo da sexualidade. Ao contrário, tan- posteriormente. O rosto que se tornou cúmpli- to o solitário quanto o coletivo fazem o mesmo ce da nudez já passou a ser pornográfico; em uso das imagens pornográficas. sua exposição, o único conteúdo desse rosto O que escapa à compreensão de Agamben é precisamente a diferença essencial entre eró- tico e pornográfico. A exposição direta da nu- 54. AGAMBEN, G. Profanierungen. Frankfurt a. M., 2005, p. 89. dez não é erótica. O lugar erótico de um corpo 58 59está precisamente ali "onde se bifurca ou se uma beleza misteriosa, uma nudez "para além separa a veste"; a pele que "brilha entre duas do prestígio da graça e da atração da nature- bainhas", por exemplo, entre a luva e a manga. za corrompida. "Mas por trás do véu obscuro A tensão erótica não surge da permanente ex- não se esconde mistério algum: o desnudo mos- posição da nudez, mas da "encenação de um tra-se como pura aparência. [...] nesse sentido, focar e como também a negativi- o mote da nudez reza simplesmente: haecce! - dade da "interrupção", que concede brilho à isso, e nada mais do que isso"56 Porém, não nudez. Já a positividade da exposição da nudez existe um mote do erótico, o erótico esquiva- desvelada é pornográfica, pois falta-lhe o bri- se do "haecce!" A evidência sem mistério do lho erótico. O corpo pornográfico é raso, não é "isso, e nada mais do que isso' é pornográfi- interrompido por nada. A interrupção cria uma ca. Ao erótico falta a univocidade do ambivalência, uma ambiguidade. Essa impreci- Segundo Baudrillard, a força erótica sedutora são semântica é erótica. Assim, o erótico pres- joga "com a intuição daquilo que, em si mes- supõe a negatividade do mistério e do oculta- mo, deve permanecer um permanente misté- mento. Não existe erotismo da transparência. rio para o outro, com aquilo que eu jamais sa- É precisamente onde desaparece o mistério em berei dele e que, mesmo assim, me atrai sob o prol da exposição e do desnudamento total que selo do pornográfico não é atra- começa a pornografia. Ela é marcada por uma tivo nem alusivo, mas contagiante e infectivo; positividade penetrante, incisiva. falta-lhe a distância na qual se torna possível Em todo mistério Agamben supõe haver a sedução, pois pertence à atração erótica, ne- uma signatura teológica que deve ser "profana- cessariamente, a negatividade do retraimento. da", sendo que a profanação tem de produzir 56. AGAMBEN, G. Nacktheiten. Op. cit., p. 55. BARTHES, R. Die Lust am Text. Frankfurt a. M. 1982, p. 16s. 57. BAUDRILLARD, J. Transparenz des Bösen. Op. cit., p. 191. 60 61Barthes distingue dois elementos da fo- tum interrompe o contínuo das informações; tografia. O primeiro elemento ele chama de mostra-se como um rasgo, como uma fissu- studium. Aplica-se ao campo extenso das Sendo um lugar de extrema intensidade e informações que devem ser estudadas e ao condensação, onde inabita algo de indefinível, "campo dos desejos descuidados do interesse faltam-lhe qualquer transparência e evidência sem objetivo, da propensão inconsequente: eu que caracterizam o studium: "A incapacidade gosto / eu não gosto (I like / I Perten- para nomear alguma coisa é um sinal seguro ce ao gênero do to like, e não do to love. Sua de inquietação interior [...]. O efeito está ali, forma de juízo é me agrada / não me agra- mas não pode ser localizado; ele não encontra da. Falta-lhe toda e qualquer ferocidade ou seu símbolo nem seu nome. É penetrante e, paixão. O segundo elemento é o punctum, que mesmo assim, demora-se em uma zona inde- interrompe o studium. Ele não causa prazer terminada do meu eu algum, mas ferimento, ataque, atingimen- Dentre as fotografias uniformes, Barthes to. Falta às fotografias uniformes o punctum, também lista as imagens pornográficas. Elas elas não passam de objeto de studium: "fotos são rasas, transparentes e não apresentam de reportagem são, muitas vezes, fotografias qualquer ruptura nem ambiguidade. Porém, uniformes (a foto uniforme não é necessaria- os traços e a fragmentação interna são caracte- mente pacífica). Nessas imagens não existe rizações do erótico; ele não é raso nem trans- punctum algum; talvez haja choque o literal parente, mas a foto erótica é uma imagem "in- pode traumatizar -, mas não há atingimento; terrompida, Nas imagens porno- a foto pode ser mas não fere. Essas gráficas tudo está voltado e exposto para fora; fotos de reportagem são registradas (com a pornografia não tem interioridade, guarida, um olhar); não mais do que O punc- 58. BARTHES, R. Die helle Kammer. Op. cit., p. 36. 60. p. 60s. 59. p. 51. 61. p. 51. 62 63mistério. "Como uma vitrine, onde se mostra demora junto à coisa, à observação contem- uma única peça decorativa, iluminada, ela se plativa. Mas, segundo Barthes, as imagens volta completamente para a exposição de uma que se seguem umas às outras, ao contrário, única coisa: o sexo; jamais um outro elemen- forçam o observador a uma "constante vora- to que pudesse ser tema de encobrimento, cidade". O punctum se retrai ao olhar consu- retardo ou Obscena é a transpa- mista, ao olhar voraz, no qual não habita um rência que nada encobre, nada esconde, co- mínimo de Muitas vezes não se locando tudo à vista. Atualmente as imagens manifesta logo, mas só posteriormente, num midiáticas são mais ou menos pornográficas. demorar-se recordativo. Não é de se admirar, Em virtude de sua característica de chamar a portanto, que, muitas vezes, por mais clareza atenção, falta-lhes punctum, intensidade se- que apresente, o punctum se manifeste só pos- miótica. Elas nada têm que pudesse tocar ou teriormente, quando já não tenho mais a foto ferir; no máximo, apresentam o objeto que diz sob o meu olhar, e volto a pensar nela. Pode me agrada / I like. acontecer de eu conhecer melhor uma foto De acordo com Barthes, as imagens cine- da qual eu me recordo do que uma foto que matográficas não têm punctum, que estaria li- tenho diante dos olhos [...]. Então, compreen- gado a um demorar-se contemplativo: "Frente derei que, por mais imediato e incisivo que à tela não posso me dar ao luxo de fechar os ela tenha se mostrado, só consegui seguir os olhos; pois, quando voltasse a abri-los, já não vestígios do punctum depois de uma certa la- encontraria mais a mesma imagem tência (mas jamais com auxílio de alguma in- punctum só se abre à contemplação que se vestigação A "música" só surgiria 62. 64. p. 63. p. 65. 65. p. 62. 65 64"ao fechar os olhos". Assim, Barthes cita Kaf- porque as tomo como testemunhas de acon- ka: "Fotografam-se coisas para afugentá-las do tecimentos políticos, seja porque as conside- Minhas histórias são uma espécie de ro como imagens visíveis da história; pois, fechar os A música surge apenas enquanto pertencente a uma cultura (essa de uma distância contemplativa em relação à conotação está contida na palavra studium), imagem. Ao contrário, ela emudece onde se participo nas figuras, nos gestos, nas mímicas, fecha o circuito do contato imediato do olho nas formas exteriores, nas Se a cul- com a imagem, pois a transparência não tem tura consistisse de figuras, gestuais, mímicas, Barthes observa, inclusive, que a fo- narrações e ações especiais, então, o processo tografia "tem de ser silenciosa". Somente no de pornografização do visual hoje se realizaria "preocupar-se com o silêncio" que a fotogra- como uma desculturalização. As imagens por- fia revela seu punctum. É um lugar do silêncio, nográficas, desculturalizadas, não apresentam que possibilita um demorar-se contemplativo. nada que possa ser lido. Enquanto imagens de Mas frente às imagens pornográficas, ao con- propaganda, sua atuação é direta, táctil, infec- trário, as pessoas não se detêm nem demoram. tiva. São pós-hermenêuticas. Elas não guar- Essas imagens são estridentes, agudas, porque dam aquela distância em que se torna estão expostas; falta-lhes, inclusive, a amplidão vel um studium. Seu modo de atuação não é a temporal. Elas não admitem qualquer recor- leitura, mas a contaminação. Tampouco, mora dação, servindo apenas para excitação e satis- em seu interior qualquer punctum. Elas se es- fação imediata. vaziam em espetáculo; a sociedade pornográfi- O studium é uma leitura. A partir dele ca é uma sociedade do espetáculo. "eu me interesso por muitas fotografias, seja 66. p. 65. 67. p. 35. 66 675 Sociedade da aceleração Segundo Sartre, o corpo se torna obsceno quando é reduzido a mera faticidade da carne. Obsceno é o corpo sem referência, que não está direcionado, que não está em ação ou em situa- ção. Obscenos são os movimentos do corpo que são excessivamente numerosos e sobran- tes. A Teoria da Obscenidade de Sartre pode ser aplicada muito bem ao corpo da sociedade, em seus processos e movimentos. Tornam-se obscenos quando são privados de toda nar- ratividade, de todo direcionamento, de todo sentido. Sua quantidade excessiva e sua so- branceria se expressam, então, como adiposi- dade, massificação, proliferação massiva. Eles proliferam e crescem sem objetivo, sem forma, e nisso é que reside sua obscenidade. Obsce- nas são a hiperatividade, a hiperprodução e ahipercomunicação, que se lançam velozmen- cadência específicos. A sociedade da transpa- te para além da meta. Obscena é essa hipera- rência elimina todos os rituais e cerimônias, celeração, que já não é realmente movente e visto que esses não podem ser operacionali- tampouco nada leva adiante. Em seu excesso, zados, pois são impeditivos e atrapalham a lança-se para além de seu para onde. Obsce- aceleração da circulação da informação, da no é esse puro movimento que se acelera por comunicação e da produção. causa de si mesmo: "O movimento desaparece Contrariamente ao calcular, o pensar não menos na imobilidade do que na velocidade e é transparente; ele não segue o curso que cal- no aceleramento; ele se dissolve naquilo que cula um asseguramento prévio, mas se lança é mais móvel do que o movimento, e, se puder no aberto. De acordo com Hegel, no pensar assim dizer, naquilo que impinge o movimen- habita uma negatividade que lhe permite fa- to ao extremo, roubando-lhe a zer experiências transformadoras. A negativi- A adição é mais transparente do que a nar- dade do tornar-se outro é constitutiva para o ração. Só se pode acelerar um processo que é pensar, e nisso reside sua diferença do cálculo, aditivo, e não um processo que é narrativo. To- que permanece sempre igual. Essa igualdade talmente transparente é apenas a operação de é a condição de possibilidade da aceleração. Já um processador, porque seu curso é puramen- a negatividade não apenas cunha experiência, te aditivo. Rituais e cerimônias, ao contrário, como também o conhecimento. Um único co- são processos e acontecimentos narrativos, nhecimento pode colocar em questão e trans- que se esquivam da aceleração. Seria um sacri- formar tudo o que já existe em sua totalidade, légio querer acelerar uma ação sacrificial, pois mas a informação não tem essa negativida- rituais e cerimônias têm seu tempo, ritmo e de. A experiência também tem consequências, fortalecendo a transformação, e nisso ela se distingue da vivência, que deixa intacto aquilo 68. BAUDRILLARD, J. Die fatalen Strategien. Op. cit., p. 12. que já existe. 70 71A falta de narratividade é o que distingue ele se distingue do discurso narrativo, que pre- o processador e a procissão, que é um evento cisa de uma coreografia, de uma cenografia. O narrativo. Contrariamente ao processador, ela processo com uma determinação funcional, ao tem um firme direcionamento. Por isso, ela contrário, é apenas um objeto de governo ou pode ser qualquer outra coisa, menos obsce- de administração. A sociedade se torna obsce- na. Tanto o processador quanto a procissão na quando "já não há mais cenas e tudo recebe remontam ao verbo latino procedere, que sig- uma transparência nifica "avançar". A procissão está tensiona- Em sua última etapa, as peregrinações e da dentro de uma narrativa, concedendo-lhe romarias acabam formando, via de regra, uma uma tensão narrativa. procissão. Em sentido estrito, a conclusão só As procissões apresentam cenicamente uma pode dar-se em meio a uma narração. Em um passagem especial de uma narração. Em virtu- mundo desprovido de narrativa e de ritual, o de de sua narratividade elas têm em seu bojo fim só pode ser visto como uma ruptura que um tempo próprio. Por isso, não é possível e dói e perturba. Somente no contexto de uma tampouco faz sentido acelerar seu procedere. narração que o fim pode ser visto como con- A narração não é uma adição. Mas o procedere clusão. Sem uma aparência narrativa ele sem- do processador está desprovido de qualquer pre será uma perda e uma falta Mas narratividade. Seu fazer não tem imagem, não o processador não conhece narração, por isso tem cenas. Contrariamente à procissão, ele não é capaz de nada narra; apenas conta. A peregrinação é um evento narrativo. Os números são desnudos. Também o pro- Fundamentalmente, o caminho da peregrina- cesso, que remonta igualmente ao verbo latino procedere, em virtude de sua funcionalidade, é extremamente pobre em narratividade. E nisso p. 81. 72 73ção não é uma passagem que deva ser atra- cercas e umbrais, sendo que o espaço se tor- vessada o mais rápido possível; ao contrário, na transparente quando é nivelado, alisado trata-se de um caminho repleto de semân- e desinteriorizado. O espaço transparente é tica. O estar a caminho é carregado de sig- pobre em semântica, já os significados sur- nificados como penitência, cura e gratidão. gem apenas por meio de umbrais e passagens, Em virtude dessa narratividade, a peregrina- de resistências. ção não pode ser acelerada. Além do mais, Também a primeira experiência espacial o caminho da peregrinação é uma passagem na infância é uma experiência de umbral. para um lá. Do ponto de vista do tempo, o Umbrais e passagens são zonas de mistério, de peregrino está a caminho para um futuro no insegurança, de transformação, de morte, de qual se espera encontrar cura, salvação. Nesse medo, mas também de desejo, de esperança e sentido, o peregrino não é um turista, que se de expectativa. É sua negatividade que perfaz mantém preso no presente, no aqui e agora. a topologia da paixão. Ele não está a caminho, pois este não tem sig- A narração exerce uma seleção; o curso nificação própria, não podendo ser visto. Ao narrativo é estreito, só admite determinados turista, a riqueza semântica, a narratividade acontecimentos. É por isso que ele impede a do caminho é algo estranho. Para ele, o cami- proliferação e a massificação do positivo. O nho perde toda e qualquer força narrativa e excesso de positividade que hoje domina a so- de relato, transformando-se em corredor va- ciedade é um indicativo de que esta foi privada zio. Esse empobrecimento semântico e essa de sua narratividade. Nesse processo a memó- falta de narratividade de espaço e tempo se ria também foi atingida. Ela distingue-se do tornam obscenos. Por outro lado, a negati- armazenador, que trabalha apenas adicionan- vidade em forma de empecilho ou de tran- do e acumulando. Em virtude de sua histori- sição é constitutiva para a tensão narrativa. cidade, os traços da memória são submetidos A coação por transparência derruba todas as 74 75a constantes reorganizações e Em cia não tem perfume. A comunicação trans- contraposição a esses, os dados armazenados parente, que já não admite nada indefinido, é permanecem sempre iguais. "A memória de obscena. Também são obscenas a reação e a hoje se caracteriza por um amontoado de lixo ab-reação imediatas. Para Proust, gozo e de dados em 'lojas de sucata' ou diato" não está apto para o belo. A beleza de entulhados de massas e de uma variedade de uma coisa aparece "só bem mais tarde", na luz imagens possíveis e imagináveis, totalmente de uma outra coisa, como reminiscência. Belo desorganizados, malconservados, cheios de não é o brilho instantâneo do espetáculo, do símbolos Nessas lojas de su- estímulo imediato, mas o pós-luzir silencioso, cata as coisas simplesmente estão ao lado de a fosforescência do tempo; a sequência veloz outras, sem qualquer organização. Por isso, dos acontecimentos ou dos estímulos não é a falta-lhes história, não podendo recordar de si temporalidade do belo. Assim, a beleza é um mesmas nem de si se esquecer. A coação por transparência aniquila o odor retardo, um retardatário; só posteriormente é das coisas, o perfume do tempo; a transparên- que as coisas revelam sua essência perfumosa do belo, que consiste de estratificações e sedi- 70. Em carta, Freud escreve a Wilhelm Fliess: "Você sabe mentações temporais que vão fosforescendo. que eu trabalho com a hipótese de que nosso mecanismo A transparência não fosforesce. psíquico surgiu de um processo de estratificação crescente. De tempos em tempos, o material nele existente, formado A atual crise epocal não é a aceleração, mas a de vestígios de recordações, experimenta reorganizações dispersão e a dissociação temporal. Uma discro- em vista de novas relações, uma espécie de transcrição. que há de essencialmente novo em minha teoria, portan- nia temporal faz com que o tempo gire como to, é a afirmação e.que a memória não está simplesmente biruta, sem rumo, transformando-o em mera presente de forma simples, mas é sedimentada em diversos tipos de símbolos" (FREUD, S. Briefe an Wilhelm Flies, 1887- sequência da atualidade pontual, atomizada. 1904. Frankfurt a. M., 1986, p. 173) [Ed. de J.M. Masson]). Com isso, o tempo se torna aditivo e esvazia- 71. VIRILIO, P. Information und Apokalypse Die Strategie der Täuschung. Munique, 2000, p. 39. do de toda e qualquer narratividade. Átomos 76 77não têm perfume. Só uma atração figurativa e uma força de gravidade narrativa poderão 6 unificá-los em moléculas perfumadas; assim, Sociedade da intimidade apenas as configurações complexas, narrati- vas conseguem exalar perfume. E visto que não é a aceleração em si que representa o ver- dadeiro problema, sua solução não reside na desaceleração. A mera desaceleração não cria O século XVIII é caracterizado como thea- cadência, ritmo nem perfume, não impedindo trum mundi, no qual o espaço público é equi- a queda para dentro do vazio. parado a um palco. A distância cênica impe- de o contato imediato entre corpos e almas. O teatral é contraposto ao táctil, pois através de formas e sinais rituais comunica-se aquilo que pesa sobre a alma. Na Modernidade, re- nuncia-se cada vez mais a distância teatral em favor da intimidade. Richard Sennett vê nisso uma evolução perniciosa que retira do ser hu- mano a capacidade de "jogar com autoimagens externas e possuí-las com For- malização, convencionalização e ritualização não excluem a expressividade, pois o teatro é 72. SENNETT, R. Verfall und Ende des öffentlichen Lebens - Die Tyrannei der Intimität. Berlim, 2008, p. 78lugar de expressões, que são sentimentos ob- internas, psíquicas do A intimidade jetivos, e não manifestações da interioridade é a fórmula psicológica da transparência; ima- psíquica. Por isso, elas são representadas, e gina-se alcançar a transparência da alma re- não expostas. Hoje, o mundo não é um teatro velando-se os sentimentos e emoções íntimos, no qual são representadas e lidas ações e sen- desnudando-a. timentos, mas um mercado onde se expõem, As mídias sociais e sites de busca cons- vendem e consomem intimidades. O teatro troem um espaço de proximidade absoluto é um lugar de representação, enquanto que onde se elimina o fora. Ali encontra-se apenas o mercado é um lugar de exposição. Assim, o si mesmo e os que são iguais; já não há mais atualmente a representação teatral dá lugar à negatividade, que possibilitaria alguma mo- exposição pornográfica. dificação. Essa proximidade digital presenteia Sennett admite que a "teatralidade tem o participante com aqueles setores do mundo uma relação específica, e até hostil, com a in- que lhe agradam. Com isso, ela derriba o cará- timidade, e, por outro lado, uma relação mais ter público, a consciência pública; sim, a cons- amistosa com a vida que se desenrola no es- ciência crítica, privatizando o mundo. A rede paço A cultura da intimidade cami- se transforma em esfera íntima ou zona de nha de mãos dadas com a decadência daquele conforto. A proximidade pela qual se elimina mundo objetivo-público, que não é objeto de a distância também é uma forma de expressão sensações e vivência íntimas. Segundo a ideo- da transparência. logia da intimidade, as relações sociais são tan- A tirania da intimidade psicologiza e per- to mais reais, autênticas, fidedignas e verda- sonaliza tudo, e até mesmo a esfera política deiras quanto mais próximas das necessidades não escapa desse processo. Assim, os políti- cos não são avaliados por suas ações. Seu in- teresse está voltado para a pessoa, o que pro- 73. voca neles coerção por encenação. A perda 80 81do caráter público deixa atrás de si um vazio A sociedade da intimidade desconfia dos onde se derramam a intimidade e as estâncias gestos ritualísticos e dos comportamentos ce- privadas. No lugar do caráter público entra rimoniais e formais; estes lhe parecem por de- a publicização da pessoa; o público se trans- mais exteriores e inautênticos. O ritual é uma forma em espaço de exposição, afastando-se ação a partir de formas de expressão externali- cada vez mais do espaço do agir comum. zadas, que têm um efeito desindividualizador, Originalmente, pessoa (latim persona) despersonalizador e Os que significa máscara, dando um caráter, uma for- deles participam "são sem, no ma e uma configuração à que toa por in- entanto, colocar a si mesmos sob holofotes ou termédio dela. A sociedade da transparência, ter de se desnudar. Mas a sociedade da intimi- enquanto sociedade da revelação e do desnu- dade é uma sociedade psicologizada, desritua- damento, trabalha contra qualquer forma de lizada; uma sociedade da confissão, do desnu- máscara, contra a aparência. damento e da falta pornográfica de Também a crescente espiritualização e A intimidade aniquila espaços objetivos desnarrativização da sociedade esvaziam-na de jogo em favor de regulamentações subjeti- de suas formas aparentes e a deixam desnuda. vo-afetivas, sendo que no espaço cerimonial- Nos jogos e nos rituais o decisivo são as regras -ritualístico circulam sinais objetivos, não se objetivas, e não os estados psíquico-subjetivos; deixando tomar por um ambiente narcisista; quem joga com outros se submete a regras de em certo sentido, vazio e O narcisismo jogo objetivas. A comunalidade do jogo não é expressão de distância em relação a si, falta reside na autoabertura mútua, mas as pessoas de autodistância. A sociedade da intimidade é socializam-se mutuamente quando guardam distância umas das outras. A intimidade, ao contrário, destrói essa socialização. 74. Ibid., p. 82 83habitada por sujeitos íntimos narcisistas, aos si, que não se torna possível jogar consigo mes- quais falta qualquer capacidade de distancia- mo. O narcisista, tornado depressivo, engole a mento cênico. Sobre isso, Sennett escreve: "O si mesmo em sua intimidade ilimitada. Não há narcisista não está propenso a fazer qualquer vazio ou distância que consiga dis- cias, mas quer vivenciar; em tudo que lhe vem tanciar o narcisista de si mesmo. ao encontro ele busca vivenciar a si mesmo. Com isso ele desvaloriza toda e qualquer in- teração e cena Para Sennett, as pertur- bações narcisistas estão crescendo muito em nossos dias "porque a sociedade atual organiza psicologicamente seus processos de expressão internos, minando o sentido para interações sociais com sentido fora dos limites do si-mes- mo individual". A sociedade da intimidade elimina sinais rituais, cerimoniais nos quais se escapa de si, se perde. Nas experiências encon- tramos o outro; mas nas vivências, ao contrário, sempre encontramos a nós mesmos. O sujeito narcísico não pode colocar um limite a si mes- mo; os limites de si mesmo desaparecem. Por isso ele não consegue fazer surgir uma imagem estável do si-mesmo; funde-se de tal forma em 75. p. 563. 84 857 Sociedade da informação Olhando com mais precisão, vê-se que a caverna de Platão foi estruturada como um tea- tro. Os presos ali estão sentados como espec- tadores de teatro diante do palco. Entre eles e o fogo por trás de suas costas há um caminho, e ao longo do caminho acompanha um muro baixo, que se assemelha àquelas caixinhas "que os artistas viageiros constroem para re- presentar diante dos espectadores, e nos quais apresentam suas peças"76. . Ao longo do muro são transportados todo tipo de instrumentos, colunas com imagens e outras figuras de pedra ou madeira, que se mostram por sobre o muro e lançam suas sombras na parede ao fundo para onde os presos dirigem atenciosamente 76. PLATÃO. República, 514b.o olhar. Alguns dos que transportam as ima- verdade, os presos estão agrilhoados por cenas, gens falam enquanto as transportam, outros por ilusões cênicas. Entregam-se a um jogo, a se calam. E visto que os presos não podem se uma narrativa. A caverna de Platão não apre- virar e olhar para trás, pensam que são as pró- senta, como se costuma interpretar, diversas prias imagens que falam. A caverna de Platão formas de conhecimento, mas diversas formas é, pois, uma espécie de teatro de sombras; os de vida; a saber, a forma de vida narrativa e a objetos que mostram suas sombras projetadas forma de vida cognitiva. A caverna de Platão é na parede não são coisas reais do mundo, mas um teatro. O teatro como mundo da narrativa figuras teatrais e requisitos. Sombras e espe- se contrapõe à alegoria da caverna do mundo lhamentos das coisas reais existem apenas fora do conhecimento. da caverna. Sobre aquela pessoa que é arrasta- Na caverna, o fogo, enquanto luz artifi- da violentamente para fora da caverna, para a cial, gera ilusões cênicas, lançando aparên- luz aberta do dia, observa Platão: "Ela tem de cias. Assim, distingue-se da luz natural como se acostumar, penso eu, se quiser ver as coisas medium da verdade. Em Platão, a luz tem um que estão lá em cima. Em primeiro lugar, pare- direcionamento bastante preciso; ela jorra do ce-me que teria mais facilidade em ver as som- sol, como sua fonte. Todo ente está subordi- bras, depois as imagens de pessoas e de outros nado ao sol, enquanto ideia do bem; ele for- objetos espelhadas na água, e por fim as pró- ma uma transcendência que reside inclusive prias coisas e Os que estão presos "além do ser", chamado também de "Deus". O na caverna não veem as imagens das sobras do ente deve sua verdade a essa mundo real; ao contrário, eles assistem a um A luz solar platônica é hierarquizada; edifica teatro. Também o fogo é uma luz artificial. Na gradações em relação ao conhecimento, que parte do mundo das meras cópias das coisas que são percebidas pelos sentidos até o mun- 77. 516a. do inteligível das ideias. 88 89A caverna de Platão é um mundo narra- ela uma guirlanda de e acompanhá-lo até a tivo. Nele as coisas não se encadeiam umas próxima cidade Também a sociedade às outras causalmente; ao contrário, seguem da transparência é uma sociedade sem poetas, uma dramaturgia ou cenografia que interliga sem sedução e sem metamorfose. É, pois, o narrativamente as coisas ou os símbolos uns poeta que produz as ilusões cênicas, as formas aos outros. A luz da verdade priva mundo aparentes, os sinais rituais e cerimoniais, con- da narratividade; sol aniquila a aparência; o trapondo-os aos fatos desnudos hiper-reais, os jogo da mimética e da metamorfose dá lugar artefatos e antifatos. ao trabalho na verdade. Platão condena todo A metáfora da luz, que a partir da Antigui- e qualquer enfoque voltado à transformação dade, passando pela Idade Média e chegando em favor da identidade rígida. Sua crítica à até o Iluminismo, acabou se tornando uma mimética aplica-se precisamente à aparência forte referência para o discurso filosófico e e ao jogo. Platão proíbe toda e qualquer apre- teológico. A luz jorra de uma fonte ou de uma sentação cênica e nega inclusive ao poeta a en- origem. É o medium das instâncias do com- trada em sua cidade da verdade: "A um varão, promisso, da da promessa, como é como visto, que pode mostrar-se e apresentar Deus ou a razão. Assim, desenvolve uma ne- todas as coisas em diversas configurações, em gatividade com efeito polarizador e gerando vista de sua sabedoria, se ele próprio viesse à contraposições. Luz e trevas têm igual origem; cidade, querendo nos mostrar suas poesias, luz e sombras são copertencentes. Junto com o iríamos demonstrar-lhe reverência como a bem vem posto também o mal. A luz da razão um varão santo, elegante e digno de admi- e o obscuro do irracional ou do mero sensível ração, mas lhe diríamos que entre nós, em condicionam mutuamente seu surgimento. nossa cidade, não há esse tipo de varão e que tampouco ele pode ali entrar; iríamos ungir sua cabeça com muitos óleos e colocar sobre 78. p. 398a. 90 91Contrariamente ao universo platônico da assim composto transforma-se em informa- verdade falta à sociedade da transparência atual a informação a linguagem humana. aquela luz divina na qual inabita uma tensão Heidegger pensa a "com-posição" a partir do metafísica. Transparência não tem transcen- dominar. Assim, as figuras do pôr, como en- dência; a sociedade da transparência é opaca; comendar (Bestellen), representar (Vorstellen) não é iluminada por aquela luz que promana ou produzir (Herstellen), são corresponden- de uma fonte transcendente. A transparência temente figuras de poder e domínio. O en- não surge de uma fonte de luz iluminadora; o comendar como objeto. Mas a "com- medium da transparência não é luz, mas uma -posição" de Heidegger não abarca aquelas radiação opaca que, em vez de iluminar, tudo formas de pôr que são características de hoje. penetra e torna tudo transparente. Contra- "Ex-por" e "pôr-se à mostra" não servem pri- riamente à luz, ela é penetrante e penetrável. mordialmente para conquistar o poder. que Além disso, seu efeito é a homogeneização e se busca não é poder, mas atenção; o impul- o nivelamento, enquanto que a luz metafísica so interior não é polemos, mas porno. Poder gera hierarquias e distinções, criando assim e atenção não se identificam simplesmente. ordenações e orientações. Quem tem poder tem o outro, o que torna su- Sociedade da transparência é uma socie- pérflua a busca de atenção, sendo que esta não dade da informação. A informação é, como tal, gera automaticamente o poder. um fenômeno da transparência na medida em Heidegger também toma em consideração que está privada de qualquer negatividade; a imagem só a partir da perspectiva do domí- é uma linguagem positivada, operacionaliza- nio: "imagem [...] refere-se àquilo que ressoa da. Heidegger iria chamá-la de linguagem da das expressões: estamos in-formados sobre "com-posição" (Ge-stell). "O falar é interpe- lado a corresponder à disponibilidade do vi- gente segundo toda e qualquer direção. O falar 79. HEIDEGGER, M. Unterwegs zur Sprache. Stuttgart, 2007, p. 263. 92 93algo. [...] colocar-se informado ou informar-se A sociedade da transparência não padece sobre algo significa: representar-se a própria apenas com a falta de verdade, mas também coisa, naquilo e no modo em que ela está em com a falta de aparência. Nem a verdade nem si mesma, e tê-la diante de si constantemente a aparência são transparentes; somente o vazio como estando assim Para Heidegger, é totalmente transparente. Para exorcizar esse a imagem é o medium pelo qual nos apodera- vazio coloca-se em circulação uma grande mos do ente e dele nos assenhoreamos. Essa massa de informações, sendo que a massa de Teoria das Imagens não explica as imagens mi- informações e de imagens é um enchimento diáticas de hoje, pois essas são simulacros que já não representam mais ente algum. Elas não têm como intenção fundamental "representar mentada no elemento oculto, inescrutável e hermético: "A terra faz com que toda tentativa de nela penetrar se esti- um ente diante de si e tê-lo diante de si como lhasse em si mesma. [...] abertamente iluminada como si constantemente representado". Como simu- mesma aparece a terra apenas onde é percebida e con- servada como aquela que é essencialmente inescrutável, lacros, sem referência, elas apresentam como que se retrai a qualquer ato de abrir, i. é, que se mantém que uma vida própria. Proliferam também para constantemente fechada [...]. A terra é essencialmente autofechante" (Holzwege. Frankfurt M., 2003, p. 33). além do poder e domínio. São de certo modo Também no "céu" está inscrito o desconhecido: "Assim, mais entes e mais vivas do que o "ente". A o Deus desconhecido aparece como o desconhecido pela abertura dos céus" (Vorträge und Aufsätze. Op. cit., p. massa informativa e comunicativa multimi- 197). o conceito de "verdade" heideggeriano como "de- socultamento", portanto, permanece igualmente inserido diática é mais um conglomerado misturado no "ocultamento". "desocultamento" é arrancado de (Gemenge) do que uma um "ocultamento" (Wegmarken. Frankfurt, a. M., 1976, p. 223 9]). Através da verdade, portan- to, se dá uma "fissura". Para Heidegger, a negatividade da "fissura" é a "dor", e a sociedade positiva evita a "dor". A 80. HEIDEGGER, M. Holzwege. Frankfurt a. M. 2003, p. 89. verdade enquanto desocultamento não é luz sem negati- vidade nem radiação transparente; nutre-se, ao contrário, 81. Falta ao mundo virtual a resistência do real e a negati- do oculto. É a "clareira" rodeada pela mata escura. Nisso vidade do outro. Heidegger conjurou novamente a "terra" ela se distingue da evidência e da transparência; ou seja, contra sua positividade sem gravidade. Ela estaria funda- falta-lhe toda e qualquer negatividade. 94 95onde ainda se faz sentir o vazio. Assim, mais informações e mais comunicação não clari- 8 ficam o mundo; a transparência tampouco o Sociedade do desencobrimento torna clarividente. A massa de informações não gera verdade, e quanto mais se liberam in- formações tanto mais intransparente torna-se o mundo. Por isso, a hiperinformação e a hi- percomunicação não trazem luz à Em certo sentido os acontecimentos do século XVIII não eram muito diferentes dos ocorridos em nosso século. Naquela época já se conhecia o pathos da desocultação e trans- parência. Assim, escreve Jean Starobinski em seu estudo sobre Rousseau: "O tema do caráter mentiroso da aparência não é mais original no ano de 1748. No teatro, na Igreja, nos roman- ces ou nos jornais, a seu próprio modo, todos se rebelam contra desfigurações, convenções, dissimulação e máscaras. Não se encontram no vocabulário conceitos sobre polêmica e sá- tira que apareciam de modo mais frequente do que desvelar e As Confissões, 82. STAROBINSKI, J. - Eine Welt von Widerstän- den. Munique, 1988, p. 12. 96de Jean-Jacques Rousseau, são característi- "em virtude do que todos os sentimentos, to- cas para o começo da época da verdade e da dos os pensamentos se tornam comuns, de tal confissão. Ele queria, assim já soa no início modo que cada um, na medida em que assim das Confissões, mostrar um homem em sua se sente, como ele deve ser, se mostra a todos "verdade natural intacta" (toute la vérité de la como ele Rousseau convoca todos os seus nature). Sem "empreendimento", que seria to- semelhantes a "desvelar" seu coração "com a talmente "sem precedentes", se prestava a uma mesma sinceridade". Com isso, Rousseau ins- revelação implacável do "coração". Rousseau taura a ditadura do coração. assegura a Deus: "Mostrei-me como eu real- A exigência de Rousseau por transparên- mente era [...]. Desnudei meu interior (mon cia anuncia uma mudança de paradigma. O intérieur), como Tu mesmo Seu co- universo do século XVIII ainda era um teatro; ração deveria tornar-se transparente como o estava repleto de cenas, máscaras e figuras. A cristal (transparent comme le O co- própria moda era teatral; não havia diferen- ração de cristal é uma metáfora básica de seu ça entre vestes do dia a dia e os trajes usados pensamento: "Seu coração, transparente como no teatro. Também as máscaras estavam na um cristal, não pode esconder nada do que moda; era muito comum as pessoas se apai- nele se passa; cada emoção que nele surge é xonarem representando, criavam ilusões nas comunicada, partilhada com seu olho e com cenas. Os penteados das damas (pouf) transfor- seu Exige-se a "abertura do coração", mavam-se em cenas, que representavam acon- tecimentos históricos (pouf à la circonstance) ou sentimentos (pouf au sentiment). Para a re- 83. ROUSSEAU, J.-J. Bekenntnisse. Munique, 1978, p. 9. presentação das cenas também eram inseridas 84. p. 440. 85. ROUSSEAU, J.-J. Rousseau richtet über Jean-Jacques Gespräche, Schriften in zwei Bänden. Munique, 1978, vol. 86. ROUSSEAU, Julie oder die neue Heloise. Munique, 2, p. 253-636, aqui p. 484 [Ed. de H. Ritter]. 1978, p. 724s. 98 99figuras de porcelana nos cabelos; colocava-se de dissimular-se, adotar um caráter diferente um jardim completo ou um navio com todas do seu, mostrar-se diferente do que se é, di- as velas sobre a cabeça. Tanto homens quanto zer algo diferente daquilo que se pensa e isso, mulheres pintavam partes de seu rosto com naturalmente, como se realmente pensasse tal tintas vermelhas. O próprio rosto se transfor- coisa, e por fim, acabar esquecendo totalmen- mava em palco onde se representavam certas te sua própria situação, transferindo-se para a propriedades características com o auxílio de situação de um O teatro é recusado, adesivos de beleza (mouche). Se se anexasse assim, pois seria o lugar da dissimulação, da um canto de olho, por exemplo, significava aparência e da sedução, onde faltaria toda e paixão. Localizado no lábio inferior, indica- qualquer transparência. A expressão não pode va franqueza de quem a portasse. Também o ser uma pose, mas deve ser um espelhamento corpo era lugar de representação cênica. Nisso do coração transparente. não estava em questão dar expressão sincera Em Rousseau é possível observar que a mo- ao "interior" oculto (l'intérieur), mas sim, o ral da transparência total acaba se transmudan- "coração". Ao contrário, o que importava era do em tirania. O projeto heroico da transparên- jogar e brincar com a aparência, com ilusões cia, de rasgar todos os véus, de trazer à luz e expulsar tudo o que é obscuro leva à violência. O corpo era uma boneca vestida sem alma, a ser adornado, enfeitado, equipado com Já a proibição do teatro e da mimética, já pres- crito pelo próprio Platão para seu ideal de Es- símbolos e significados. tado, concede à sociedade da transparência de Rousseau contrapõe àquele jogo de más- caras e papéis seu discurso do coração e da verdade. Assim, por exemplo, ele critica vee- 87. ROUSSEAU, J.-J. Brief an Herrn d'Alembert Über sei- nen Artikel "Genf" im VII. Band der Enzyklopädie und ins- mentemente o projeto de se construir um tea- besondere uber den Plan, ein Schauspielhaus in dieser tro em Genf. O teatro seria, para ele, uma "arte Stadt zu errichten. Apud ROUSSEAU, Op. cit., vol. 1, p. 333-474, aqui p. 414. 100 101