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FACULDADE ÚNICA DE IPATINGA DIREITO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL SUMÁRIO Unidade 1: Constitucionalismo ..................................................................................................... Unidade 2: Conceitos fundamentais ............................................................................................... Unidade 3: Direito administrativo: aspectos gerais ........................................................................ Unidade 4: Administração direta e indireta .................................................................................. Unidade 5: Poder Constituinte ...................................................................................................... Unidade 6: Da Administração Pública .......................................................................................... Unidade 7: Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação .............. INTRODUÇÃO Assumir a postura de um profissional que se apresente como mediador do conhecimento é compreender a diversidade e as complexidades que surgem na individualidade de cada educando diante de suas necessidades e potencialidades. Estudar em EaD não é uma tarefa tão fácil como muitos pensam, os desafios são constantes. Vale ressaltar que esta modalidade também permite muitas vantagens na aquisição de um curso superior, como a possibilidade da interatividade entre colegas, tutores e técnicos administrativos que auxiliam na construção da aprendizagem dentro do conforto de sua casa. O Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) disponibiliza uma gama de recursos, tecnologias da comunicação e ferramentas de apoio à aprendizagem que permitem a interação acima, entre elas estão: fóruns, chats, videoconferências, simulações e exercícios on-line. Não poderíamos esquecer que muitas pessoas gostam de ler e estudar o material de maneira física, fazendo suas anotações, grifos e dialogando com os autores a partir de comentários ou apresentando dúvidas para serem sanadas pelo tutor ou para serem compartilhada com os colegas. Buscando mais uma alternativa para apoiar os(as) alunos(as) em seus estudos, esta coletânea foi elaborada com o objetivo de facilitar a impressão de todos os capítulos de livros que estão disponibilizados no Ambiente Virtual de Aprendizado (AVA) para quem deseja estudar no material físico sem precisar imprimir os arquivos separados por unidades. Desta forma, o aluno poderá ter acesso a todos os textos que serão fundamentais para as atividades da disciplina em um só material. Bom trabalho e aproveite cada instante da oportunidade de construir conhecimento, pois este é um pilar fundamental para sua formação. Um abraço, Equipe Pedagógica Revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna Bacharel em Direito Especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional e em Direito Público Mestre em Direito Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin CRB -10/2147 D597 Direito constitucional I [recurso eletrônico] / Miriany Cristini Stadler Ilanes... et al.; [revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna]. – Porto Alegre: SAGAH, 2018. ISBN 978-85-9502-445-8 1. Direito constitucional. I. Ilanes, Miriany Cristini Stadler. CDU 342 BOOK_Direito_Constitucional_I.indb 2 11/06/2018 15:36:44 Constitucionalismo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar a evolução histórica do constitucionalismo: da Antiguidade à época contemporânea. Reconhecer a existência do pós-constitucionalismo e neoconsti- tucionalismo. Apresentar a dinâmica político-constitucional na experiência brasileira. Introdução Constitucionalismo é como designamos o movimento social, político, jurídico e até mesmo ideológico a partir do qual surgem as constituições nacionais. Em termos genéricos e supranacionais, constitui-se de normas fundamentais de um ordenamento jurídico de um Estado, situadas no topo da pirâmide normativa, ou seja, a sua Constituição. Neste capítulo, você verá como surgiu o constitucionalismo e como se deu a sua evolução ao longo da história, tanto no cenário mundial quanto no brasileiro. Evolução histórica do constitucionalismo: do antigo ao contemporâneo “O constitucionalismo antigo é o conjunto de princípios escritos ou consuetu- dinários alicerçadores da existência de direitos estamentais perante o monarca e simultaneamente limitadores do seu poder” (CANOTILHO, 1998, p. 48). Como exemplo de constitucionalismo antigo, podemos citar os constitu- cionalismos hebreu e grego, os quais unicamente almejavam descentralizar a vida política, vez que não existiam leis escritas que regulamentassem a ordem civil nem as penalidades aplicáveis para quem as descumprisse. Esse constitucionalismo apenas objetivava: [...] limitar alguns órgãos do poder estatal como reconhecimento de certos direitos fundamentais, cuja garantia se cingia no esperado respeito espon- tâneo do governante, uma vez que inexistia sanção contra o príncipe que desrespeitasse os direitos de seus súditos (CUNHA JÚNIOR, 2006, p. 24). Os primórdios do movimento do constitucionalismo surgiram entre os hebreus, por meio da lei do Senhor, em um Estado Teocrático, governado pela casta sacerdotal, logo existia um limite no poder político (TAVARES, 2004). Posteriormente, ocorreu o movimento do constitucionalismo nas cidades gregas, onde os cidadãos eram eleitos para cargos públicos por meio de um regime de votação peculiar na época. Por mais primitiva que fosse essa votação, existia uma participação do povo na vida política, consolidando, assim, uma real democracia (TAVARES, 2004). A Idade Média, por sua vez, foi marcada pela época do despotismo, ou seja, pela soberania dos governantes tratados como deuses. Uma verdadeira forma absolutista de governar, vez que não existiam limitações às suas condutas. Aplicavam penalidades e impunham condutas desumanas não previstas em leis, pois não havia um poder maior do que o do próprio governante. Assim, este estava imune de qualquer sanção (TAVARES, 2004). Todavia, foi durante a Idade Média, mais precisamente na Inglaterra, que culminou o anseio por uma luta de liberdades e garantias fundamentais ao indivíduo, objetivando romper com o padrão absolutista e centralizador até então vigente (TAVARES, 2004). Contudo, ainda na Idade Média, o cons- titucionalismo reapareceu como o movimento de conquista de liberdades individuais, como bem demonstra a aparição de uma Magna Carta. Não se limitou a impor balizas para a atuação soberana, mas também representou o resgate de certos valores, como garantir direitos individuais em contraposição à opressão estatal (TAVARES, 2004). O maior legado deixado pela Idade Média, em relação ao constitucionalismo, foi o fato de que todo poder político deve ser limitado em lei para ser justo e democrático, respeitando as garantias e os direitos individuais. O constitucionalismo moderno eclodiu em meados do século XVII com carac- terísticas próprias e com a ideologia de limitação do poder estatal, preservando os Constitucionalismo2 direitos e as garantias fundamentais, bem como transcrevendo os anseios populares com a lei do povo: a Constituição escrita (CUNHA JÚNIOR, 2006). Nesse mo- vimento, a noção de Constituição envolvia uma força capaz de limitar e vincular todos os órgãos do poder político. Por isso, era concebida como um documento escrito e rígido, manifestando-se como uma norma suprema e fundamental, porque hierarquicamente superior a todas as outras, das quais constituía o fundamento de validade, que só poderia ser alterado por procedimentos especiais e solenes previstos no seu próprio texto. Consequentemente,BRASIL. Lei nº 12.376, de 30 de dezembro de 2010. Altera a ementa do Decreto-Lei no 4.657, de 4 de setembro de 1942. Diário Oficial da União, Brasília, 30 dez. 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12376. htm. Acesso em: 12 abr. 2021. BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, nº 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, e nº 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória nº 2.166-67, de 24 de agosto de 2001; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 28 maio 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/ l12651.htm. Acesso em: 12 abr. 2021. CARVALHO, M. Manual de Direito Administrativo. 4. ed. Salvador: Juspodium, 2017. DI PIETRO, M. S. Z. Direito Administrativo. 28. ed. São Paulo: Atlas, 2015. DINIZ, M. H. Compêndio de introdução à ciência do Direito. 27. ed. São Paulo: 2017, Saraiva. FERREIRA FILHO, M. G. Curso de Direito Constitucional. 36. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. MAZZA, A. Manual de Direito Administrativo. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. MELLO, C. A. B. Curso de Direito Administrativo. 32. ed. São Paulo: Malheiros, 2015. MORAES, A. de. Direito Constitucional. 27. ed. São Paulo: Atlas, 2011. PAULO, V.; ALEXANDRINO, M. Direito Constitucional descomplicado. 2. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2008. VENOSA, S. de S. Direito Civil: parte geral. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2012. Leituras recomendadas BRASIL. Decreto-lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro. Redação dada pela Lei nº 12.376, de 2010). Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 9 set. 1942. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/ del4657.htm. Acesso em: 12 abr. 2021. MEIRELLES, H. L. Direito Administrativo brasileiro. 42. ed. São Paulo: Malheiros, 2015. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Direito Administrativo: aspectos gerais10 Poder Constituinte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o que é Poder Constituinte. Reconhecer a quem pertence a titularidade e legitimidade do Poder Constituinte. Identificar as diversas espécies de Poder Constituinte, a sua natureza e os limites implícitos e explícitos. Introdução O Poder Constituinte pode ser conceituado como o poder de elaborar ou de atualizar uma Constituição mediante a supressão, modificação ou acréscimo de normas constitucionais ao texto preexistente. Portanto, é o poder de estabelecer a nova Constituição de um Estado ou de modificar uma já existente. É a expressão da vontade suprema do povo, social e juridicamente organizado. Neste capítulo, você verá no que consiste o Poder Constituinte, a quem pertence a sua titularidade e legitimidade, e ainda identificar as suas diversas espécies. Visão geral do Poder Constituinte: conceito, origens e generalidade Manoel Gonçalves Ferreira Filho (2009) defi ne o Poder Constituinte a partir da hipótese da inexistência de instituições políticas, de Estado. Portanto, o titular do Poder Constituinte normalmente é o povo, que estabelece, por intermédio do agente, os seus representantes, a Constituição sobre um terreno até então vazio. Assim, é o Poder Constituinte que estabelece a organização jurídica fundamental, ou seja, o conjunto de regras jurídicas concernentes à forma do Estado, do governo, ao modo de aquisição e exercício do governo, ao C04_Poder_constituinte.indd 1 28/05/2018 11:29:28 estabelecimento dos seus órgãos e aos limites da sua ação, bem como os referentes às bases do ordenamento econômico e social (FERREIRA FI- LHO, 2009). É o reconhecimento de um poder apto a constituir as regras constitucionais, ao contrário de estabelecer a regra segundo a Constituição, desde que pretendamos que aquelas sejam superiores a esta, uma exigência lógica. A superioridade dessas regras, que se impõem aos próprios órgãos do Estado, possui uma origem distinta, surgindo de um poder que é fonte de todos os demais, pois é o que constitui o Estado, estabelecendo os seus poderes, atribuindo-lhes e limitando-lhes a competência: o Poder Constituinte (FERREIRA FILHO, 2009). Muitas são as doutrinas que entendem que o Direito só é Direito quando positivo. O Poder Constituinte é um poder de fato, no sentido de que funda a si próprio, não se baseando em regra jurídica anterior. Porém, existem aquelas regras mais usadas e, de acordo com pensamento jurídico de Ferreira Filho, prevalece a de que o Poder Constituinte é um poder de direito, fundado em um poder natural de organizar a vida social de que disporia o homem por ser livre (FERREIRA FILHO, 2009, p. 22). Portanto, há um direito natural superior ao direito do Estado, e deste temos a liberdade de o homem estabelecer as instituições pelas quais será governado. O Poder Constituinte é o poder de criar uma Constituição. A sua carac- terística básica é a mudança originária da ordem jurídica fundamental e suprema do Estado. Entre extremos opostos, discutimos, porém, a amplitude do conceito do Poder Constituinte. Conforme Luiz Pinto Ferreira (1985), diversos mestres, como Schmitt, Heller, Carl Friedrich, afirmam que a sua essência está na capacidade de formação originária do Direito, ou seja, é um poder de criar a Constituição. O mesmo autor indica que outros estudiosos, como Walter Dodd, Kelsen, Hauriou e Rui Barbosa, defendem uma definição mais ampla, vendo no Poder Constituinte a capacidade e mudança da Constituição. A produção originária do Direito implica o que chamamos de Poder Constituinte. Ferreira Filho (2009) argumenta que nem toda substituição ou reforma da Constituição representa uma produção originária do Direito, nem inaugura um novo sistema jurídico, tampouco determina uma solução continuada com referência à ordem anterior. Uma Constituição pode ser modificada ou substituída normalmente, seguindo para tanto o processo de reforma previsto explícita ou tacitamente na Constituição anterior, a que se modifica ou substitui. Então em nada se rompe a continuidade da vida jurídica, posto que ao cimento constitucional se superpõe um outro nele alicerçado. Poder Constituinte2 C04_Poder_constituinte.indd 2 28/05/2018 11:29:28 A validez da nova Constituição não representa algo primário, não é algo radicalmente originário, não é algo de uma essência nova, mas deriva da Constituição precedente, que serve de fundamento à nova. A elaboração geral da teoria do Poder Constituinte nasceu, na cultura europeia, com Emmanuel Joseph Sieyés, pensador e revolucionário francês do século XVII. A concepção da soberania nacional foi aprimorada na época e coube a Sieyés sintetizar uma distinção entre o pouvoir constituant, que reside sempre no povo, e os pouvoirs constitués, necessitando derivar a sua existência e competência do Poder Constituinte. Schmitt (apud FERREIRA FILHO, 2009) observa uma analogia metafisica entre essa doutrina e a filo- sofia panteísta de Spinoza, na equivalência ideal entre potestas constituta e natura naturata. Entretanto, com a secularização do pensamento humano, a ciência se propôs a separar da teologia política a nova doutrina positiva do Poder Constituinte, no qual descansam todas as faculdades e competências atribuídas à Constituição. Justamente Sieyés é um dos representantes dessa secularização do mundo, que atribui o Poder Constituinte ao povo, à própria comunidade social, com a doutrinado pouvoir constituant da nação. Ele afirma que objetivo da assembleia representativa de uma nação (a ideia de nação aí aparece como algo maior que o povo, diferente da ideia de povo como aqueles que se sentem parte do Estado nacional, desenvolvida em outro momento) não pode ser outro senão aquele que ocorreria se a própria população pudesse se reunir e deliberar no mesmo lugar. Ele acreditava que não poderia haver tanta insensatez a ponto de alguém ou um grupo, na assembleia geral, afirmar que os ali reunidos deveriam tratar dos assuntos particulares de uma pessoa ou de um determinado grupo. À conclusão da escola clássica francesa — que coloca a Constituição como um certificado da vontade política do povo nacional, sendo que, para que isso ocorra, deve ser produto de uma assembleia constituinte representativa da vontade deste povo —, opõe-se Hans Kelsen (1986), que afirma que a Constituição provém de uma norma fundamental. 3Poder Constituinte C04_Poder_constituinte.indd 3 28/05/2018 11:29:28 Os conceitos dos diversos autores são influenciados pela compreensão da natureza do Poder Constituinte — seja um poder de fato ou um poder de Direito. Alguns autores entendem que o Poder Constituinte se limita à criação originária do Direito, enquanto outros compreendem que o Poder Constituinte é bem mais amplo, incluindo uma criação derivada do Direito por intermédio da reforma do texto constitucional, adaptando-o aos processos de mudança sociocultural. E ainda temos o Poder Consti- tuinte decorrente, característica essencial de uma federação, quando os entes federados recebem (ou permanecem com) parcelas de soberania expressas na competência legislativa constitucional (DANTAS, 1978). Titularidade e legitimidade do Poder Constituinte A doutrina moderna indica que a titularidade do Poder Constituinte pertence ao povo. Apesar disso, não podemos esquecer que o seu grande teórico, o abade francês Emmanuel Joseph Sieyès, menciona como titular a nação. O conceito de Poder Constituinte originário é devedor dos estudos de Sieyès. No seu livro O que é o Terceiro Estado?, verdadeiro manifesto da Revolução Francesa, Sièyes assinala que o chamado Terceiro Estado — que engloba quem não pertencesse à nobreza ou ao alto clero e que, portanto, inclui a burguesia —, embora fosse produtor da riqueza do País, não dispunha de privilégios e não tinha voz ativa na condução da política do Estado. No livro, o Terceiro Estado reivindica a reorganização política da França. Nesse contexto, Sieyès teoriza sobre o Poder Constituinte originário (MENDES; BRANCO, 2012). Celso de Mello (1997), corroborando essa perspectiva, ensina que as assembleias constituintes não titularizam o Poder Constituinte, mas são apenas órgãos aos quais se atribui, por delegação popular, o exercício dessa magna prerrogativa. Em suma, em uma linha atual, é predominante que a titularidade do Poder Constituinte pertence ao povo, como mencionamos, já que o Estado decorre da soberania popular, cujo conceito se mostra mais abrangente do que o de nação. Assim, a vontade constituinte é a própria vontade do povo, que se expressa por meio dos seus representantes, criando um novo Estado, uma nova Constituição, um novo ordenamento jurídico. Assim, a titularidade do Poder Constituinte pertence ao povo, pois o Estado decorre da soberania popular e, dessa maneira, a vontade constituinte é a vontade do povo — representado ao fazer uso do voto na escolha dos seus candidatos. Poder Constituinte4 C04_Poder_constituinte.indd 4 28/05/2018 11:29:28 O povo pode ser reconhecido como o titular do Poder Constituinte, mas não é jamais quem o exerce. É ele um titular passivo, ao qual se imputa uma vontade constituinte sempre manifestada por uma elite. Diante disso, criamos o Estado que, em nome do povo, edita a Constituição (MELLO, 1997). Assim, embora a titularidade do Poder Constituinte seja do povo, o seu exercício pode muitas vezes afastar o fator democrático. Assim, podemos distinguir duas formas de exercício do Poder Constituinte: 1. a revolução, caso em que o grupo revolucionário, que se tornou hege- mônico, edita uma Constituição; 2. a assembleia constituinte, que pode tomar o cuidado de se submeter à vontade popular direta (plebiscito e referendum) as suas conclusões. A questão da titularidade do Poder Constituinte pode ser explicada no campo sociológico ou político, isto é, no mundo do “ser”. Nessa linha de raciocínio, a doutrina dominante entende que o titular, ou seja, o sujeito do Poder Constituinte, é o indivíduo e só a coletividade pode criar uma nova Carta Magna. Existem alguns apegados ao formalismo que chegam até a sustentar que a ordem constitucional somente pode ser inovada por meio de movimentos revolucionários (NASCIMENTO, 1985). O sujeito do Poder Constituinte é o titular individual ou coletivo capacitado para criar ou revisar a Constituição. Esse titular da função constituinte pode ser ora um rei ou um ditador, ora uma classe, ora o próprio povo (NASCIMENTO, 1985). A questão da legitimidade é a que expressa a própria essência do Poder Constituinte em toda a sua plenitude. Traduzimos como um fundamento ético fundado em valores historicamente realizáveis e socialmente atuantes (NASCIMENTO, 1985). Não há outra legitimidade democrática que, embora suponha o consentimento dos cidadãos, não se esgote em tal apoio. Não há senão duas medidas na política contemporânea: a que se fecha no círculo do poder e se arrima na força, configurando todas as formas de autocracia, e a que decorre da democracia ancorada na legitimidade. A legitimidade implica na sua adequação à vontade do povo. Por isso, quanto maior o sufrágio e menores 5Poder Constituinte C04_Poder_constituinte.indd 5 28/05/2018 11:29:28 as limitações e restrições à participação, tanto maior será a legitimidade do poder. Somente o povo pode ser titular do Poder Constituinte legítimo, mesmo considerando que o seu exercício seja limitado, por meio de delegação, a uma assembleia ou órgão. A soberania que exerce sobre os cidadãos não provém de fora, mas de dentro. Essa é, via de regra, um produto da própria vontade dos sujeitos. O Estado, em suma, é a síntese das vontades e dos direitos individuais: corresponde ao momento ideal de convergência daqueles direitos em uma suprema expressão protestativa. A soberania tem a sua sede no próprio povo, enquanto este está organizado em Estado (NASCIMENTO, 1985). Espécies de Poder Constituinte e limites implícitos e explícitos O Poder Constituinte se classifi ca em: 1. Poder Constituinte originário, genuíno, de 1º grau, inicial ou inaugural; 2. Poder Constituinte derivado, secundário, instituído, constituído, de 2º grau ou remanescente. O poder capaz de editar uma nova Constituição, substituindo a Constituição anterior ou dando organização a um novo Estado, é normalmente qualificado como Poder Constituinte originário. O poder que, uma vez instituído, é capaz de modificá-la, completá-la (poder de revisão) ou institucionalizar os Estados Federados que dela provenham (Poder Constituinte dos estados-membros) é geralmente qualificado como Poder Constituinte derivado. Poder Constituinte originário Ressaltamos a ideia de que surge um novo Estado a cada nova Constituição, provenha ela de um movimento revolucionário ou de assembleia popular. Não importa a rotulação conferida ao ato constituinte, mas a sua natureza. Se dele decorre a certeza de rompimento com a ordem jurídica anterior, de edição normativa em desconformidade intencional com o texto em vigor, de modo a invalidar a normativa vigente, temos um novo Estado (TEMER, 1995). Poder Constituinte6 C04_Poder_constituinte.indd 6 28/05/2018 11:29:28 Pedro Lenza (2011, p. 175) afirma que o Poder Constituinte se divide em dois: ■ formal — é o ato de criação propriamente dita e que atribui a “rou- pagem” com status constitucional a um complexo normativo; ■ material — é o lado substancial do Poder Constituinteoriginário, qualificando o Direito Constitucional formal com o status de norma constitucional. Assim, será o orientador da atividade do constituinte originário formal que, por sua vez, será o responsável pela “roupa- gem” constitucional. O material diz o que é constitucional; o formal materializa e sedimenta como Constituição. O material precede o formal, estando ambos interligados. O Poder Constituinte formal confere estabilidade e garantia de permanência e de supremacia hierárquica ou sistemática ao princípio normativo inerente à Constituição material. Confere estabilidade, visto que a certeza do Direito exige o estatuto da regra. Confere garantia, visto que só a Constituição formal coloca o Poder Constituinte material (ou o resultado da sua ação) ao abrigo das vicissitudes da legislação e da prática quotidiana do Estado e das forças políticas (LENZA, 2011). Dessa forma, a doutrina caracteriza o Poder Constituinte originário como inicial, autônomo e incondicionado. Ele é limitado pelas forças materiais que levam à manifestação inauguradora do Estado. Estabelece o Poder Constituinte originário à Constituição de um novo Estado, organizando-o e criando os poderes capazes de comandar os interesses de uma sociedade. O Poder Constituinte originário se classifica como inicial, pois não se funda noutro, mas é dele que derivam os demais poderes. De acordo com a escola positivista, trata-se de um poder ilimitado em face do Direito positivo. É soberano e não sofre qualquer limitação de direito. Consiste em um poder incondicionado porque não tem de submeter-se a qualquer forma prefixada de manifestação, bem como se classifica como um poder de fato e um poder político, caracterizado como uma energia ou força social, tendo natureza pré-jurídica. O Poder Constituinte originário não se esgota com a edição da nova Constituição, pois sobrevive a ela e fora dela como forma e expressão da liberdade do povo (MORAES, 2006). 7Poder Constituinte C04_Poder_constituinte.indd 7 28/05/2018 11:29:28 O Poder Constituinte originário é: inicial, porque dá início a uma nova ordem jurídica, rompendo com a ordem ju- rídica anterior; autônomo, porque tem prerrogativas suficientes para determinar a estruturação da nova Constituição; ilimitado juridicamente, porque não se vincula aos limites impostos pelo Direito anterior (limita-se aos padrões e modelos de conduta espirituais, culturais éticos e sociais, aos princípios de justiça e aos princípios de direito internacional); incondicionado e soberano na tomada das suas decisões, porque não se submete a qualquer forma prefixada de manifestação. Costumamos denominar as limitações do poder originário de limites extrajurídicos (gênero), que se dividem em pelo menos três espécies: limites ideológicos; limites institucionais; limites substanciais. Os limites ideológicos se exteriorizam por meio das crenças, da expe- riência dos valores, da influência dos grupos de pressão, das exigências do bem comum, da opinião pública. Os limites institucionais fornecem ao Poder Constituinte ideias reguladoras de situações sociais (como a família, a propriedade, a educação etc.), sempre buscando os fins supremos, respon- sáveis pelo bem-estar dos membros da comunidade. Já os limites substan- ciais estabelecem parâmetros para o Poder Constituinte originário plasmar o conteúdo dos princípios e preceitos constitucionais e são subdivididos em transcendentes, imanentes e heterônomos (BULOS, 2015). Poder Constituinte derivado O Poder Constituinte derivado pode ser reformador, revisor e decorrente. É reformador o poder de alterar, reformar ou atualizar uma Constituição já existente por meio das chamadas emendas constitucionais dispostas nos arts. 59, I, e 60 da Constituição de 1988. Esse poder está inserido na própria Constituição, pois decorre de uma regra jurídica de autenticidade constitu- Poder Constituinte8 C04_Poder_constituinte.indd 8 28/05/2018 11:29:28 cional, portanto, conhece limitações constitucionais expressas e implícitas e é passível de controle de constitucionalidade (MORAES, 2006). Apresenta as características de derivado, subordinado e condicionado. É derivado porque retira a sua força do Poder Constituinte originário; su- bordinado porque se encontra limitado pelas normas expressas e implí- citas do texto constitucional, às quais não pode contrariar, sob pena de inconstitucionalidade; e, por fim, condicionado porque o seu exercício deve seguir as regras previamente estabelecidas no texto da Constituição Federal (MORAES, 2006). O Poder Constituinte derivado reformador, denominado, por parte da doutrina, de competência reformadora, consiste na possibilidade de alterar o texto constitucional, respeitando a regulamentação especial prevista na própria Constituição Federal. É exercitado por determinados órgãos com caráter representativo. No Brasil, pelo Congresso Nacional. Só está presente nas Constituições rígidas. O Poder Constituinte derivado decorrente, por sua vez, consiste na possibilidade que os estados-membros têm, em virtude da sua autonomia político-administrativa, de se auto-organizarem por meio das suas respectivas Constituições Estaduais, sempre respeitando as regras limitativas estabelecidas pela Constituição Federal. (MORAES, 2006). As limitações explícitas no texto constitucional se subdividem em: cir- cunstanciais, materiais e formais. Os limites implícitos do poder de reforma, que são os que derivam dos limites expressos, dividem-se em dois grupos: as normas sobre o titular do Poder Constituinte reformador e as disposições relativas à eventual supressão das limitações expressas. Segundo Araújo (2010), os limites ao Poder Constituinte derivado podem ser resumidos da seguinte forma: Materiais — são matérias petrificadas pelo art. 60, § 4º, da Constituição que, nos seus incisos I a IV, torna imutáveis a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico, a separação dos poderes e os direitos e garantias individuais. Essas limitações impedem que deter- minadas matérias sejam objeto de reforma constitucional por parte do Poder Constituinte derivado. Tais limites materiais podem ser expressos ou implícitos, conforme previstos ou não expressamente previstos no texto constitucional. As cláusulas de limites materiais expressos são reconhecidamente de natureza declaratória e não constitutiva, pois, via de regra, elas criam os limites materiais, que decorrem da coerência dos princípios constitucionais e exercem função de garantia. 9Poder Constituinte C04_Poder_constituinte.indd 9 28/05/2018 11:29:28 Circunstanciais — elencam determinadas circunstâncias em que não pode haver trâmite de emenda constitucional, justamente diante da necessidade de tranquilidade social. Estão presentes no § 1º do art. 60 da Constituição Federal. Procedimentais — durante o processo de emenda, se esta for rejeitada ou tida como prejudicada, só poderá ser reapresentada na sessão le- gislativa seguinte. Além dos limites explícitos anteriormente mencionados, há limites materiais implícitos ao Poder Constituinte derivado, decorrentes dos próprios princípios adotados pela Constituição. Esses limites também são denominados como inerentes ou tácitos. Como exemplos, Silva (2007, p. 68) aponta: 1. os concernentes ao titular do Poder Constituinte, pois uma reforma constitucional não pode mudar o titular do poder que cria o próprio poder reformador; 2. as referentes ao titular do poder reformador, pois seria um despropó- sito que o legislador ordinário estabelecesse novo titular de um poder derivado só da vontade do constituinte originário; 3. as relativas ao processo da própria emenda, distinguindo-se quanto à natureza da reforma, para admiti-la quando se tratar de tornar mais difícil o seu processo, não a aceitando quando vise atenuá-lo. Essas restrições se justificam por razões lógicas: se pudessem ser mudadas pelo poder de emenda ou ordinário,de nada adiantaria estabelecer vedações circunstanciais ou materiais (SILVA, 2007). Poder Constituinte10 C04_Poder_constituinte.indd 10 28/05/2018 11:29:28 ARAÚJO, L. A. D.; NUNES JÚNIOR, V. S. Curso de Direito Constitucional. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. BULOS, U. L. Curso de Direito Constitucional. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. DANTAS, I. Poder Constituinte e revolução. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1978. FERREIRA, L. P. Teoria geral do Poder Constituinte: as constituições do Brasil e a consti- tuição da 6ª República. Revista de Informação Legislativa, Brasília, v. 22, n. 87, p. 139-152, jul./set. 1985. FERREIRA FILHO, M. G. Do processo legislativo. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. KELSEN, H. Teoria geral das normas. Porto Alegre: S. A. Fabris, 1986. LENZA, P. Direito Constitucional esquematizado. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. MELLO, C. A. B. Curso de Direito Administrativo. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 1997. MENDES, G. F.; BRANCO, P. G. G. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Sa- raiva, 2012. MORAES, A. Direito Constitucional. 19. ed. São Paulo: Atlas, 2006. NASCIMENTO, C. V. Poder Constituinte: natureza e perspectivas. Revista de Informa- ção Legislativa, Brasília, v. 22, n. 87, p. 153-166, jul./set. 1985. Disponível em: . Acesso em: 22 maio 2018. SILVA, J. A. Curso de Direito Constitucional Positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2007. TEMER, M. Elementos de Direito Constitucional. 11. ed. Malheiros, 1995. 11Poder Constituinte C04_Poder_constituinte.indd 11 28/05/2018 11:29:29 http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/181632/000418294.pdf?sequence=3 C04_Poder_constituinte.indd 12 28/05/2018 11:29:29 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. DIREITO CONSTITUCIONAL II Rodrigo Flores Fernandes Da Administração Pública Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar os princípios explícitos aplicáveis à Administração Pública. Comparar a Administração Pública Direta com a Administração Pública Indireta. Distinguir servidor público de empregado público e os seus respec- tivos regimes previdenciários. Introdução Nos seus arts. 37 e 38, a Constituição Federal de 1988 expressa disposições gerais acerca da Administração Pública e, nos arts. 39 e 40, aborda a ques- tão dos servidores públicos e das particularidades deles, com destaque para o regime jurídico único que recai sobre esse grupo. Neste capítulo, estudaremos os princípios explícitos aplicáveis à Admi- nistração Pública e os institutos de desconcentração e descentralização, por meio dos quais se formam órgãos e pessoas jurídicas pertencentes à Administração Pública Indireta. Para isso, devemos reconhecer o que é a Administração Pública Direta e o que é a Administração Pública Indireta, comparando-as entre si. Por fim, distinguiremos servidor público de empre- gado público e analisaremos os seus respectivos regimes previdenciários. Princípios básicos da Administração Pública Ao estudarmos os princípios expressos aplicáveis à Administração Pública brasileira, necessariamente devemos colacionar o art. 37 da Constituição Federal de 1988, uma vez que, no seu caput, encontram-se tais princípios: A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência [...] (BRASIL, 1998, documento on-line). A partir da leitura desse dispositivo, depreendemos que são cinco os prin- cípios explícitos relativos à Administração Pública: legalidade; impessoalidade; moralidade; publicidade; eficiência. O princípio da legalidade evidencia a busca constante pela lei e se aplica tanto ao âmbito público quanto ao privado, tendo em vista que o art. 5º, II, da Constituição dispõe que “[...] ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (BRASIL, 1988, documento on-line). Assim, para o particular, há a possibilidade de fazer tudo o que a lei não proíbe. Por outro lado, no caso da Administração Pública, devemos adotar a interpretação vinculativa e restritiva, segundo a qual a Administração só pode realizar os atos previstos em lei. Paulo e Alexandrino (2017, p. 357) explicam o funcionamento da legalidade na esfera pública e na privada: O princípio da legalidade administrativa tem, para a administração pública, um conteúdo muito mais restritivo do que a legalidade geral aplicável à con- duta dos particulares (CF, art. 5º, II). Por outro lado, para o administrado, o princípio da legalidade administrativa representa uma garantia constitucional, exatamente porque lhe assegura que a atuação da administração estará limitada estritamente ao que dispuser a lei. A impessoalidade, por sua vez, possui duas formas distintas de aplicação. A primeira maneira de aplicar esse princípio consiste na proibição de promoção pessoal por meio da maquinaria pública, de modo que o administrador público não pode valer-se dos atos administrativos em prol de interesses pessoais. O art. 37, § 1º, determina: A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos (BRASIL, 1988, documento on-line). Da Administração Pública46 Assim, o desrespeito à Constituição pode levar o responsável a responder por ato de improbidade administrativa, regulado pela Lei nº. 8.429, de 2 de junho de 1992 (BRASIL, 1992). A segunda forma de aplicar o princípio da impessoalidade visa proibir o administrador público ou o responsável pelo ato de afastar-se do interesse público, pois não pode haver pessoalização do ato administrativo. Logo, quando a Administração Pública age, não deve buscar o favorecimento de ninguém em particular, mas o bem público. Com o intuito de respeitar a legalidade, a Administração Pública realiza concursos públicos e licitações para só então efetuar contratos, por exemplo. O terceiro princípio, a moralidade, impõe aos agentes públicos a atuação profissional honesta, que consiste em agir com probidade. O termo “probo” significa “honesto”, “reto” e, portanto, o agente que não atuar de forma proba, isto é, honesta, responde pelo que chamamos de improbidade. É certo que a expressão “moralidade administrativa” não é de compreensão instantânea e rigorosa, embora tenha sido erigida em princípio constitucional a ser atendido pela Administração Pública (art. 37). Ela abrange o sentido ético da conduta do administrador, visando a fazer coincidir o licitum com o honestum. Quer dizer: em face da moralidade administrativa o que não é honesto é ilícito, mesmo que formalmente se atenha às normas vigentes. A moralidade repudia frontalmente o brocardo non omne quod licet honestum est (FERREIRA FILHO, 2012, p. 276). O art. 37, § 4º, da Constituição versa que “[...] os atos de improbidade ad- ministrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível” (BRASIL, 1988, documento on-line). Nesse contexto, a violação do princípio da morali- dade acarreta as consequências previstas no referido dispositivo, bem como a declaração de nulidade do ato administrativo. Já a publicidade determina que a atuação da Administração Pública deve ser transparente e de acesso público, o que fundamenta o direito de acesso à informação de todos os atos realizados. Esse sempre foi compreendido como um princípio administrativo, pois se entendeque o Poder Público, justamente por ser público, deve agir com a maior transparência possível a fim de que os administrados tenham, a qualquer hora, conhecimento do que os adminis- tradores fazem. Sobretudo, exige-se que se publiquem atos que devem surtir efeitos externos, ou seja, fora dos órgãos da Administração (SILVA, 2005). 47Da Administração Pública Atentemos ao fato de que o princípio da publicidade encontra limite no próprio Texto Constitucional, conforme constamos com base no art. 5º, XXXIII, acerca do sigilo ser imprescindível à segurança da sociedade e do Estado: [...] todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu in- teresse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado [...] (BRASIL, 1988, documento on-line). O último princípio expresso é o da eficiência, segundo o qual a Admi- nistração Pública deve agir de forma eficiente, mediante ações qualificadas nas atividades administrativas e, para tanto, outros princípios que facilitam o entendimento podem ser somados, como o princípio da economicidade (atuação que busque a economia de gastos) e o princípio da celeridade (busca pelo agir mais rápido possível), dentre outros. Assim, restam expostos os princípios expressos, também conhecidos como princípios básicos, aplicáveis à Administração Pública Direta e à Administração Pública Indireta. Neste momento, cabe explicarmos o que são a Administração Direta e a Indireta, atentando às distinções entre uma e outra. Administração Pública Direta e Indireta Para entendermos o que são a Administração Pública Direta e a Indireta, devemos conhecer os institutos da descentralização e da desconcentração. A desconcentração ocorre quando uma pessoa jurídica desconcentra a sua atuação ao criar órgãos dentro da sua própria estrutura. Assim, há a divisão de funções e prestações de serviço dentro da própria pessoa jurídica. Con- tudo, os órgãos criados não possuem personalidade jurídica própria. Por outro lado, quando se trata de descentralização, sucede a criação de novas pessoas jurídicas para que sejam concedidas as competências para a atuação do serviço público: A Administração Pública pode ser classificada em direta e indireta. A Ad- ministração Pública direta é constituída por um conjunto de órgãos admi- nistrativos ligado diretamente ao Poder Executivo de cada ente federativo. A Administração Pública indireta é constituída de forma descentralizada, por um conjunto de órgãos que está ligado a entidades personalizadas, que, por sua, Da Administração Pública48 vez são ligados ao Poder Executivo de cada ente federativo. A Administração Pública indireta compreende as autarquias, as empresas públicas, as socie- dades de economia mista e as fundações públicas (AGRA, 2018, p. 431-432). Assim, o Estado presta o seu serviço público de forma: centralizada, quando executa as tarefas atribuídas diretamente por intermédio de órgãos e agentes da Administração Direta; descentralizada, quando desempenha algumas das suas atribuições por meio de outra pessoa jurídica e não pela Administração Direta; desconcentrada, quando a execução das funções é dívida em órgãos, de modo que a distribuição das atribuições se dá internamente, ou seja, dentro da mesma pessoa jurídica. A Administração Pública Direta é composta pelos entes federativos, que são a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios, sobre o quais exerce atuação direta. Assim, a Constituição Federal de 1988 define quais são as competências e a autonomia político-administrativa de cada um dos seus entes. Em contrapartida, a Administração Pública Indireta é o conjunto de pessoas jurídicas vinculadas (não são subordinadas) à Administração Pública Direta. A sua competência é descentralizada, ou seja, diz respeito às pessoas jurídicas que restaram criadas pela Administração Pública Direta pelo instituto da descentralização para realizar os serviços públicos de forma indireta. Essas pessoas jurídicas são as fundações, as autarquias, as sociedades de economia mista e as empresas públicas. O fundamento para a descentralização da Administração Pública Direta encontra-se no art. 37, XIX, da Constituição Federal: “[...] somente por lei específica poderá ser criada autarquia e autorizada a instituição de empresa pública, de sociedade de economia mista e de fundação, cabendo à lei com- plementar, neste último caso, definir as áreas de sua atuação” (BRASIL, 1988, documento on-line). Na esfera federal, há o Decreto-Lei nº. 200, de 25 de fevereiro de 1967, que dispõe acerca da organização da Administração federal e que também pode ser consultado para o entendimento da Administração Pública estadual, distrital e municipal, pois estabelece no seu art. 4º: Art. 4º A Administração Federal compreende: I — A Administração Direta, que se constitui dos serviços integrados na estrutura administrativa da Presidência da República e dos Ministérios ; 49Da Administração Pública II — A Administração Indireta, que compreende as seguintes categorias de entidades, dotadas de personalidade jurídica própria: a) Autarquias; b) Empresas Públicas; c) Sociedades de Economia Mista ; d) fundações públicas . Parágrafo único. As entidades compreendidas na Administração Indireta vinculam-se ao Ministério em cuja área de competência estiver enquadrada sua principal atividade (BRASIL, 1967, documento on-line). Nesse sentido, vale destacarmos algumas características das pessoas jurídi- cas que compõem a Administração Pública Indireta. É o que faremos a seguir. Assim como os entes federativos, as autarquias são pessoas jurídicas de direito público, conforme explicitado no art. 41 do Código Civil: Art. 41 São pessoas jurídicas de direito público interno: I — a União; II — os Estados, o Distrito Federal e os Territórios; III — os Municípios; IV — as autarquias, inclusive as associações públicas; V — as demais entidades de caráter público criadas por lei. Parágrafo único. Salvo disposição em contrário, as pessoas jurídicas de direito público, a que se tenha dado estrutura de direito privado, regem-se, no que couber, quanto ao seu funcionamento, pelas normas deste Código (BRASIL, 2002, documento on-line). As autarquias contam com personalidade jurídica de direito público porque são as únicas criadas por leis específicas na Administração Pública Indi- reta. As demais pessoas jurídicas são autorizadas como instituições. Além disso, é interessante notarmos que as autarquias estão sujeitas à tutela, que é o controle finalístico para verificar se a entidade está cumprindo as suas finalidades, e possuem autonomia administrativa e financeira, embora não possuam autonomia política. Os seus atos e contratos são administrativos e, portanto, sujeitam-se à Lei nº. 8.666, de 21 de junho de 1993, e ao controle dos tribunais de contas. São dotadas de patrimônio próprio, transferido do ente que a criou, que, logo, são bens públicos. As autarquias também possuem os mesmos privilégios conferidos à Administração Direta; possuem dirigentes próprios, podendo haver a participação do Poder Legislativo na escolha (art. 52, III, d); e os seus agentes são servidores públicos estatutários. São exem- Da Administração Pública50 plos de autarquias o Banco Central do Brasil (Bacen), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), o Instituto Nacional de Serviço Social (INSS), entre outras (BRASIL, 1993). As fundações são autorizadas a instituição por lei específica, mas a sua constituição depende do registro no registro civil de pessoas jurídicas (art. 45 do Código Civil) (BRASIL, 2002). Portanto, trata-se de pessoas jurídicas de direito privado e a definição das suas áreas de atuação ocorre por intermédio de lei complementar (art. 37, XIX, da Constituição) (BRASIL, 1988). Além disso, os seus servidores são regidos pela Consolidação dasLeis do Trabalho (CLT) e a sua finalidade possui caráter social, cujo viés pode ser a pesquisa, a educação, a cultura, etc. Para exemplificarmos algumas fundações, podemos pensar, por exemplo, na Fundação Nacional do Índio (Funai), na Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam) e no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As empresas públicas também são autorizadas a instituição por lei espe- cífica. Entretanto, a sua constituição também depende do registro no registro civil de pessoas jurídicas (art. 45 do Código Civil), como no caso das fundações (BRASIL, 2002). Assim, as empresas públicas são pessoas jurídicas de direito privado, prestam serviços públicos e podem explorar atividades econômicas, possuem capital exclusivamente público, podem adotar qualquer forma societá- ria e os seus servidores também são regidos pela CLT. Como exemplos, temos a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBTC), o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a Caixa Econômica Federal. Por fim, as sociedades de economia mista se assemelham às empresas públicas, uma vez que também são autorizadas a instituição por lei especí- fica, mas a sua constituição depende do registro no registro civil de pessoas jurídicas (art. 45 do Código Civil), e, logo, são pessoas jurídicas de direito privado (BRASIL, 2002). Ademais, as sociedades de economia mista também prestam serviço público e podem explorar atividades econômicas. Todavia, elas apresentam diferenças em relação às empresas públicas por possuírem capital público e privado e pelo seu tipo societário ser o de sociedade anônima. Como exemplos, podemos recorrer ao Banco do Brasil S/A e à Petrobras S/A. Entendidas a Administração Pública Direta e a Indireta, assim como a forma como se desconcentram ou se descentralizam para melhor atender o interesse público, resta-nos distinguir o papel do servidor público e o do empregado público, bem como os regimes previdenciários próprios de cada grupo. 51Da Administração Pública As agências reguladoras são autarquias em regime especial. Além das características próprias das autarquias, essas agências possuem prerrogativa de dirigente com mandato fixo, de forma que os seus agentes só podem ser dispensados mediante processo administrativo disciplinar, renúncia ou condenação judicial transitada em julgado. São exemplos de agências reguladoras a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entre outras. Servidor público versus empregado público Para melhor distinguirmos servidor público de empregado público, primei- ramente precisamos ressaltar que: A expressão agentes públicos tem sentido amplo. Significa o conjunto de pessoas que, a qualquer título, exercem uma função pública como prepostos do Estado. Essa função, é mister que se diga, pode ser remunerada ou gratuita, definitiva ou transitória, política ou jurídica. O que é certo é que, quando atuam no mundo jurídico, tais agentes estão de alguma forma vinculados ao Poder Público. Como se sabe, o Estado só se faz presente através das pessoas físicas que em seu nome manifestam determinada vontade, e é por isso que essa manifestação volitiva acaba por ser imputada ao próprio Estado. São todas essas pessoas físicas que constituem os agentes públicos (CARVALHO FILHO, 2018, p. 707). Assim, os servidores públicos são uma categoria de agentes públicos, con- forme determina a própria Constituição Federal. Perante a Constituição de 1988, com as alterações introduzidas pela Emenda Constitucional nº. 18, de 1998, pode- -se dizer que são quatro as categorias de agentes públicos (DI PIETRO, 2018): 1. agentes políticos; 2. servidores públicos; 3. militares; 4. particulares em colaboração com o Poder Público. Em sentido amplo, trata-se de toda pessoa física que presta serviço pú- blico às Administrações Direta ou Indireta, tem vínculo empregatício e cuja remuneração é paga pelo erário público. Da Administração Pública52 São denominados por uns de agentes administrativos, mas a expressão não é adequada, porque diz menos do que o sentido que se deve emprestar à expressão servidores públicos. Na realidade, existem muitos servidores públicos que de- sempenham funções diversas da função administrativa do Estado. Por outros, são denominados de funcionários públicos, expressão também inadequada, já que, além de banida da Constituição, tem sentido mais restrito do que a de servidores públicos, e isso porque, na verdade, eram assim considerados apenas os servidores estatutários que integravam a estrutura dos entes federativos (Administração Direta), o que indica que se tratava de uma categoria dos servidores públicos. Estes, por sua vez, integram a Administração Direta, as autarquias e as fundações públicas autárquicas, sob qualquer regime funcional (CARVALHO FILHO, 2018, p. 710). Dentro da categoria dos servidores públicos, estão compreendidos: os servidores estatutários, sujeitos ao regime estatutário e ocupantes de cargos públicos; os empregados públicos, contratados sob o regime da legislação traba- lhista e ocupantes de emprego público; os servidores temporários, contratados por tempo determinado para atender à necessidade temporária de excepcional interesse público (art. 37, IX, da Constituição). Esses indivíduos exercem função sem estarem vinculados a cargo ou emprego público. Com base nesses conceitos, podemos afirmar que há uma distinção entre os servidores estatutários, que são todos os que ocupam cargo público efetivo, ou seja, que foram aprovados em concurso público de provas ou de provas e títulos (art. 37, II, da Constituição) e têm por regime previdenciário o regime jurídico único. Vejamos o disposto no art. 40 da Constituição Federal: Art. 40 Aos servidores titulares de cargos efetivos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, incluídas suas autarquias e fundações, é assegurado regime de previdência de caráter contributivo e solidário, mediante contribuição do respectivo ente público, dos servidores ativos e inativos e dos pensionistas, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial e o disposto neste artigo (BRASIL, 1988, documento on-line). No que tange aos empregados públicos, compreendem os ocupantes de emprego público, ou seja, que foram contratados pela Administração Pública com regime de contratação regido pela CLT e cujo regime previdenciário é o regime geral da previdência social, conforme disposto no art. 201 da 53Da Administração Pública Constituição. São exemplo aqueles que trabalham nas entidades da Admi- nistração Pública Indireta de natureza privada, como empresas públicas, sociedades de economia mista e fundações. AGRA, W. M. Curso de Direito Constitucional. 9. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. BRASIL. Decreto-Lei nº. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Administração Federal, estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 27 fev. 1967. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. BRASIL. Lei Federal nº. 8.429, de 2 de junho de 1992. Dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na administração pública direta, indireta ou fundacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 jun. 1992. Disponível em: . Acessoem: 24 ago. 2018. BRASIL. Lei Federal nº. 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 22 jun. 1993. Dis- ponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. BRASIL. Lei Federal nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2018. CARVALHO FILHO, J. S. Manual de Direito Administrativo. 32. ed. São Paulo: Atlas, 2018. DI PIETRO, M. S. Z. Direito Administrativo. 31. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018. FERREIRA FILHO, M. G. Curso de Direito Constitucional. 38. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. PAULO, V.; ALEXANDRINO, M. Direito Constitucional descomplicado I. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. SILVA, J. A. Curso de Direito Constitucional positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. Da Administração Pública54 Leituras recomendadas BARCELLOS, A. P. Curso de Direito Constitucional. Rio de Janeiro: Forense, 2018. LENZA, P. Direito Constitucional esquematizado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. MORAES, A. Direito Constitucional. 33. ed. São Paulo: Atlas, 2017. NOVELINO, M. Curso de Direito Constitucional. 11. ed. Salvador: JusPodivm, 2016. 55Da Administração Pública Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. INSTITUIÇÕES DO PROCESSO ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL Magnum Eltz Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses de dispensa e inexigibilidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Compreender a competência legislativa, o conceito, as finalidades e os princípios informadores das licitações. Diferenciar a dispensa da inexigibilidade de licitação. Analisar as modalidades de licitação e os respectivos procedimentos, bem como a revogação da anulação de licitações. Introdução As licitações são meios pelos quais a administração pública aplica os crité- rios necessários à contratação de determinados produtos e serviços. Isso ocorre a partir da seleção de propostas e pessoas (físicas e jurídicas) habili- tadas nas diferentes modalidades dessa espécie de processo administrativo. Neste capítulo, você vai estudar as modalidades de licitação. Vai co- nhecer suas finalidades, seus procedimentos e suas possibilidades de anulação, revogação, dispensa e inexigibilidade. Competência legislativa, conceito, finalidades e princípios informadores das licitações As licitações são procedimentos administrativos. Por meio delas, um ente público, no exercício da função administrativa, abre, aos interessados que se sujeitem às condições fi xadas no instrumento convocatório, a possibilidade de formular propostas. Entre essas propostas, o Estado selecionará e aceitará a mais conve- niente para celebrar o respectivo contrato público (DI PIETRO, 2017). Segundo Meirelles (2016), a licitação é o ato prévio ao contrato admi- nistrativo. Ela somente é dispensada, dispensável em inexigível, nos casos expressamente previstos em lei e que constituírem caráter externo. A licitação é um antecedente necessário do contrato administrativo, que, por sua vez, é uma consequência lógica da licitação. Trata-se, portanto, de um procedimento preparatório do futuro ajuste, de modo que não confere ao vencedor nenhum direito ao contrato, mas uma expectativa de direito. O procedimento tem como finalidade a seleção da proposta mais van- tajosa de acordo com o interesse da administração. Inclusive, considera o desenvolvimento econômico sustentável e o fortalecimento das cadeias produtivas de bens e serviços domésticos, tendo como pressuposto a com- petição (MEIRELLES, 2016). De acordo com Meirelles (2016), a Constituição Federal de 1988 (CF) atribuiu à União a competência para legislar sobre normas gerais de licitação e contratação em todas as suas modalidades. Isso para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios (obedecido o disposto no art. 37, XXI), bem como para empresas públicas e sociedades de economia mista (con- forme o art. 173, § 1º, III) (BRASIL, 1988). O art. 37, XXI, estabelece que, ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratadas mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos termos da lei (BRASIL, 1988). Nesse sentido, a lei somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações. Já o art. 173, § 1º (BRASIL, 1988, documento on-line), dispõe que [...] a lei estabelecerá o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias que explorem atividade econômica de produção ou comercialização de bens ou de prestação de serviços, dispondo sobre: [...] III – licitação e contratação de obras, serviços, compras e alienações, obser- vados os princípios da administração pública. A lei referida não é exigida para entidades privadas que atuam em co- laboração com a administração pública (BRASIL, 2002b). Finalmente, o Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...198 art. 175 (BRASIL, 1988), que dispõe sobre a ordem econômica, prevê que incumbe ao poder público prestar serviços públicos sempre por meio de licitação, sendo as normas gerais previstas na Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993 (MEIRELLES, 2016). Di Pietro (2017) ressalta que, ao se falar em procedimento administrativo, se faz refe- rência a uma série de atos preparatórios do ato final objetivado pela administração. Esses atos vão desde o edital ou convite ao recebimento de propostas, habilitação, classificação, adjudicação e atos intermediários ou posteriores. Entre eles, você pode considerar: o julgamento de recursos interpostos pelos interessados, a revogação, a anulação, os projetos, as publicações, os anúncios por parte do particular, a retirada do edital, a proposta, a desistência, a prestação de garantia, a apresentação de recursos e impugnações. Em relação aos princípios norteadores da licitação, não há uniformidade entre os doutrinadores. José Roberto Dromi indica o da livre concorrência e o da igualdade entre os concorrentes. Já Sayaguéz Laso o da igualdade de todos frente à administração e o estrito cumprimento do edital. Adilson Abreu Dallari fala em três: igualdade, publicidade e observância das condições do edital. Helly Lopes Meirelles (2016), por sua vez, relaciona o maior número de princípios: procedimento formal, publicidade, igualdade entre os licitantes, sigilo das propostas, vinculação aos termos do instrumento, julgamento objetivo e adju- dicação compulsória. Além disso, a própria licitação constitui princípio a que se vincula a administração pública em virtude do princípio da indisponibilidade do interesse público. Isso, como você pode notar, já constitui uma restrição à liberdade administrativa na escolha do contratante (DI PIETRO, 2017). O princípio da igualdade, segundo Di Pietro (2017), constitui um dos alicerces da licitação. Nesse sentido, a licitação visa não apenas permitir a escolha da melhor proposta, mas também assegurar a igualdade de direitos a todos os interessados em contratar. O princípio da legalidade, por sua vez, vincula o procedimento inteiramente à lei, estando suas fases rigorosamente disciplinadas na Lei nº 8.666/1993, que prevê a fiel observânciado procedi- mento nela previsto (DI PIETRO, 2017). Segundo Meirelles (2016, p. 314), o princípio do procedimento formal é aquele que impõe a vinculação da licitação às prescrições que a regem 199Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... em todos os seus atos e fases. Essas prescrições podem ser legais, regula- mentares ou decorrentes do edital ou convite, aproximando-se do princípio da legalidade objetiva que rege os processos administrativos em geral. O princípio da impessoalidade, segundo Di Pietro (2017), aparece na licitação intimamente ligado aos princípios da isonomia e do julgamento objetivo: todos os licitantes devem ser tratados igualmente, em termos de direitos e obrigações. A administração, em suas decisões, deve pautar-se por critérios objetivos, sem considerar condições pessoais do licitante ou vantagens por ele oferecidas, salvo as expressamente previstas em lei ou no instrumento convocatório. Os princípios da moralidade e probidade são caracterizados como uma exigência de comportamento não apenas lícito, mas também moral e corres- pondente aos bons costumes e princípios da justiça e da equidade, a ideia comum de honestidade (DI PIETRO, 2017). O princípio da publicidade tem conteúdo mais abrangente do que apenas a divulgação do procedimento para conhecimento de todos os interessados. Os atos da administração praticados nas várias fases do procedimento também devem ser documentados e abertos aos interessados para assegurar a todos a possibilidade de fiscalizar a sua legalidade (DI PIETRO, 2017). O princípio da vinculação ao instrumento convocatório é intrínseco à licitação, de modo que a inobservância dele enseja a nulidade do procedimento, vinculando estritamente o licitante e o administrado.. O princípio do julga- mento objetivo é mencionado como decorrência do princípio da legalidade e do princípio da impessoalidade, de modo que o julgamento deverá observar os critérios fixados no edital e na lei (DI PIETRO, 2017). O princípio da adjudicação compulsória é compreendido por Meirelles (2016) como a vedação, após o procedimento, da atribuição do objeto da licitação a outrem que não o vencedor. Isso salvo se este desistir expressa- mente do contrato ou não o firmar dentro do prazo prefixado, salvo justo motivo. A compulsoriedade também veda a abertura de nova licitação enquanto válida a adjudicação anterior. Além disso, o princípio da ampla defesa, como em qualquer procedimento, também deve ser respeitado em matéria de licitação, permitindo aos licitantes manifestarem-se em caso de irregularidades do descumprimento dos demais princípios norteadores (DI PIETRO, 2017). Finalmente, há o princípio da licitação sustentável. Ele é ligado à possibi- lidade da promoção da preservação do meio ambiente por meio da licitação. O primeiro passo nesse sentido foi dado pela Lei do SISNAMA (Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981). Essa lei definiu entre seus princípios a compatibilização Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...200 do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente (BRASIL, 1981). Por sua vez, o art. 170 da Constituição (BRASIL, 1988), em seu inciso VI, inclui a defesa do meio ambiente entre os objetivos da ordem econômica. Além disso, o art. 225 da CF (BRASIL, 1988) estabelece o direito a um meio ambiente equilibrado como direito fundamental que irradia a todos os demais âmbitos jurídicos (DI PIETRO, 2017). As distinções e hipóteses de dispensa e a inexigibilidade de licitação A licitação, como você viu, é um procedimento que, em regra, é utilizado como um conjunto de atos preparatórios para a contratação administrativa de produtos e serviços. Assim, ela é realizada a partir da investigação dos aspectos que melhor enquadram os proponentes às necessidades e valores relacionados às atividades administrativas de determinado Estado Democrático de Direito. Além disso, a licitação compõe o conjunto de princípios que regem a própria administração pública. Afinal, ela veda o tratamento diferenciado aos concorrentes e administrados que buscam contratar com o Estado. No entanto, há situações especiais previstas na legislação que dispensam ou mesmo reconhecem a inexigibilidade da licitação para a contratação de produtos e serviços específicos. Segundo Di Pietro (2017, p. 394), o art. 37, XXI, da Constituição Federal, ao exigir a licitação para os contratos que menciona, ressalva “[...] casos especificados na legislação”. Ou seja, deixa em aberto a possibilidade de serem fixadas em leis ordinárias hipóteses em que a licitação deixa de ser obrigatória. A autora ressalta que o art. 175 da CF não reafirma essa pos- sibilidade ao utilizar os vocábulos “[...] sempre através de licitação”, sendo afastado esse requisito somente em situações de inviabilidade de competição (DI PIETRO, 2017, p. 394). A Lei nº 8.666/1993 (BRASIL, 1993) prevê, no art. 17, I e II, e no art. 24, os casos de dispensa; no art. 25, prevê os de inexigibilidade. A diferença básica entre as duas hipóteses é que a dispensa ocorre quando há possibilidade de competição, de modo que a lei faculta a dispensa, que fica inserida na compe- tência discricionária da administração. Já nos casos de inexigibilidade não há possibilidade fática de competição, porque só existe um objeto ou uma pessoa que atenda às necessidades da administração (DI PIETRO, 2017). As hipóteses de dispensa podem ser categorizadas em razão do pequeno valor, de situações excepcionais, em razão do objeto ou em razão da pessoa. Já 201Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... a inexigibilidade pode ocorrer quanto à aquisição de equipamentos, materiais ou gêneros que só possam ser fornecidos por produtor, empresa ou represen- tante comercial exclusivo, vedada a preferência de marca. Nesse sentido, a comprovação de exclusividade deve ser feita por meio de atestado fornecido pelo órgão de registro do comércio do local em que se realizaria a licitação, a obra ou o serviço, pelo sindicado, federação ou confederação patronal ou entidades equivalentes. A inexigibilidade também se aplica: à contratação de serviços técnicos enumerados no art. 13, ou seja, de natureza singular com profissionais ou empresas de notória especialização; e à contratação de pro- fissional de qualquer setor artístico, diretamente ou por meio de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública (DI PIETRO, 2017). A dispensa e a inexigibilidade de licitação devem ser necessariamente justificadas e instruídas com elementos que demonstrem a caracterização da situação emergencial ou calamitosa que as justifique. Ou, se for o caso, deve ser justificada a razão da escolha do fornecedor do bem ou executante da obra ou serviço, bem como o preço. A atual lei dispensa a licitação para doações, permutas, dações em pagamento e investiduras de bens públicos (MEIRELLES, 2016). As modalidades de licitação e os respectivos procedimentos Como você viu, a licitação é o processo administrativo que, em regra, an- tecede a contratação pública de produtos e serviços, à exceção dos casos dispensados ou inexigíveis previstos em lei. Esse processo administrativo, por sua vez, apresenta-se em diferentes modalidades, com procedimen- tos complexos ou simplifi cados, conforme os ritos defi nidos pela Lei nº 8.666/1993 (BRASIL, 1993). O procedimento com maior notoriedade nas licitações é a modalidade de concorrência. Ela goza de ampla publicidade para assegurar a participação de quaisquer interessados que preencham os requisitos previstos no edital, tendo como características básicas a ampla publicidade e a universalidade (DI PIETRO, 2017). Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...202 O procedimento da concorrência compreende as seguintes fases: edital, habilitação, classificação,homologação e adjudicação. A fase do edital é o ato pelo qual a administração divulga a abertura da concorrência e fixa os requisitos e regras para participação, o objeto e as condições básicas do contrato, convidando todos os interessados para apresentarem suas propostas (DI PIETRO, 2017). A habilitação, por sua vez, ocorre quando há a abertura dos envelopes contendo a documentação para apreciação. Isso ocorre em ato público, em que a documentação deve ser assinada pelos presentes e pela comissão para impedir qualquer substituição posterior em benefício ou prejuízo das partes. A documentação exigida pela Lei nº 8.666, art. 27, refere-se à habilitação jurídica, à qualificação técnica, à qualificação econômico-financeira, à regularidade fiscal e trabalhista e ao cumprimento da proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 18 anos e de qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo sob condição de aprendiz a partir dos 14 anos (DI PIETRO, 2017). A terceira fase do procedimento é a classificação, ocasião em que a ad- ministração faz o julgamento das propostas, classificando-as por ordem de preferência, de acordo com critérios objetivos estabelecidos pelo edital. Se- gundo Di Pietro (2017), essa fase pode ser subdividida em duas. A primeira é a abertura dos envelopes de proposta e o recolhimento das rubricas; e a segunda é o julgamento propriamente dito. Os dois últimos atos do processo de concorrência, a cargo da autoridade superior à comissão de licitação, correspondem à homologação e à adjudica- ção. A homologação é a aprovação do procedimento precedida do exame dos atos que a integraram pela autoridade competente para verificar eventuais vícios de legalidade. Já a adjudicação é o ato pelo qual a administração atribui ao vencedor o objeto da licitação, não se confundindo, no entanto, com a celebração do contrato, que configura procedimento posterior à licitação (DI PIETRO, 2017). A segunda modalidade de licitação apontada pela doutrina é a chamada tomada de preços. Ela é realizada entre interessados devidamente cadastrados ou que preencham os requisitos para cadastramento até o terceiro dia anterior à data do recebimento das propostas, observada a qualificação (DI PIETRO, 2017). Segundo Meirelles (2016), a tomada de preços possui procedimento idêntico ao da concorrência, diferenciando-se apenas pela habilitação prévia dos licitantes por meio dos registros cadastrais. Assim, a habilitação se resume à verificação dos dados constantes nos certificados de registro dos interessados e da sua capacidade técnica e financeira exigida no edital. 203Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... Os registros cadastrais são assentamentos que se fazem nas repartições administrativas que realizam licitações para fins de qualificação dos interessados no ramo de suas atividades. O certificado de registro cadastral, por sua vez, deve refletir fielmente a situação do inscrito. Precisa trazer, além dos dados identificadores do profissional ou empresa e do seu prazo de validade, a categoria ou grupo a que pertence, a quantidade e a qualidade do aparelhamento técnico, o nível da equipe técnica e administrativa, o montante do capital realizado, o faturamento do exercício anterior e o lucro líquido, a indicação do desempenho em contratos anteriores e demais elementos esclarecedores que propiciem o pleno conhecimento do pretendente à contratação licitada (MEIRELLES, 2016). O convida é a modalidade de licitação entre, no mínimo, três interessados do ramo pertinente a seu objeto, cadastrados ou não, escolhidos e convidados pela unidade administrativa. Dele podem participar também aqueles que, não sendo convidados, estiverem cadastrados na correspondente especialidade e manifestarem seu interesse com antecedência de 24 horas da apresentação das propostas (DI PIETRO, 2017). Segundo a autora, essa é a única modalidade de licitação em que a lei não exige publicação de edital, já que a convocação se faz por escrito, com antecedência de cinco dias úteis, por meio da chamada carta-convite (DI PIETRO, 2017). Segundo Meirelles (2016), o convite é a modalidade de licitação mais simples, destinada a contratações de pequeno valor. A lei determina que uma cópia do instrumento convocatório seja afixada em local apropriado, para que seja estendido automaticamente aos demais cadastrados. Dada a sua singeleza, dispensa a apresentação de documentos, mas quando exigida deve ser apresentada na forma de envelope distinto da proposta. O convite é julgado pela comissão de julgamento das licitações ou por servidor formal- mente designado para esse fim. Uma vez julgadas as propostas, adjudica-se o objeto do convite ao vencedor, formalizando-se o ajuste por simples ordem de execução de serviço, empenho de despesa, autorização de compra ou carta-contrato, fazendo-se as publicações devidas no órgão oficial. O convite é admissível nas contratações de obras, serviços e compras dentro dos limites de valor fixados pelo ato competente. O concurso, segundo Di Pietro (2017), é uma modalidade de licitação entre quaisquer interessados para escolha de trabalho técnico, científico ou Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...204 artístico, mediante a instituição do prêmio ou remuneração dos vencedo- res. A publicidade é assegurada por meio da publicação do edital, com ao menos 45 dias de antecedência. Tratando-se de projeto, o vencedor deverá autorizar a administração a executá-lo quando julgar conveniente. Segundo Meirelles (2016), o concurso é destinado à escolha de trabalho técnico ou artístico predominantemente de criação intelectual. Ele normalmente envolve a atribuição de prêmios ou remuneração aos classificados. O concurso é uma modalidade especial de licitação. Embora se sujeite aos princípios da publicidade e da igualdade entre os participantes, objetivando a escolha do melhor trabalho, dispensa as formalidades específicas da concorrência. As condições devem ser fixadas no regulamento do concurso, que indicará a qualificação exigida e estabelecerá as diretrizes e a forma de apresentação do trabalho, além das condições de realização e dos prêmios a serem concedidos, da comissão julgadora e dos critérios de julgamento. O regulamento deve ser anunciado por meio de edital com ampla divulgação pela imprensa oficial e particular, com prazo mínimo referido de 45 dias, exaurindo-se com a classificação dos trabalhos e pagamento dos prêmios, não conferindo direito a contrato com a administração. O leilão é a modalidade de licitação entre quaisquer interessados para a venda de bens móveis inservíveis para a administração ou de produtos legalmente apreendidos e penhorados, ou a alienação de bens imóveis a quem possa oferecer o maior lance, igual ou superior à avaliação, ou ainda a outorga e a prorrogação de concessões e permissões de serviços públicos (DI PIETRO, 2017). O leilão deve ser amplamente divulgado no município em que vai se realizar. Quando se tratar de alienação de imóveis, a licitação obrigatória é a concorrência, com ressalva das hipóteses do art. 19 (BRASIL, 1993). Sendo a modalidade de bens móveis, se deve observar a exigência de demonstração do interesse público e a avaliação, configurando o preço mínimo de arrematação. O leilão deve ser feito por leiloeiro oficial ou servidor designado pela admi- nistração. São pagos pelos bens valores à vista ou em percentuais estabelecidos no edital, não inferiores a 5% após a assinatura da ata lavrada no local do leilão, sendo os bens entregues ao arrematante, que se obrigará ao pagamento 205Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... do restante no prazo previsto no edital (DI PIETRO, 2017). Meirelles (2016) diferencia ainda o leilão comum, regido pela legislação federal pertinente, do leilão administrativo, instituído para a venda de mercadorias apreendidas,observadas as normas regulamentares das alfândegas, armazéns ferroviários ou repartições públicas em geral. O pregão é uma modalidade de licitação para aquisição de bens e serviços comuns, qualquer que seja o valor estimado da contratação. Nele, a disputa pelo fornecimento é feita por meio de propostas e lances em sessão pública. O pregão também pode ser realizado por meio de tecnologias da informação nos termos de regulamentação específica (DI PIETRO, 2017). Como em todas as modalidades de licitação, o pregão precede de vários atos da administração e dos licitantes, de acordo com rito respectivo, previsto na Lei nº 10.520, de 17 de julho de 2002 (BRASIL, 2002a). Ele se inicia pela fase preparatória, que precede a abertura do procedimento público, e tem também uma fase externa, que se inicia com a publicação do aviso de edital de convocação (DI PIETRO, 2017). As normas da fase interna exigem basicamente a justificativa da neces- sidade de contratação, a definição do objeto do certame, as exigências de habilitação, os critérios de aceitação das propostas, as sanções por inadim- plemento e as cláusulas do contrato, inclusive com fixação dos prazos para fornecimento. Já a fase externa corresponde ao edital, ao julgamento e à classificação, à habilitação do licitante vencedor e à adjudicação seguida pela homologação. Nessa fase, será designado o pregoeiro e a respectiva equipe de apoio. Eles devem receber as propostas e lances, analisar sua aceitabilidade e classificação, realizar a habilitação e a adjudicação do objeto vencedor. Você pode notar que são as mesmas fases da concorrência, com a peculiaridade da inversão das fases de classificação e habilitação. Finalmente, Di Pietro (2017) refere o regime diferenciado de contratação (RDC) como modalidade diferenciada de contratação. Essa modalidade de licitação foi instituída pela Lei nº 12.462, de 4 de agosto de 2011, resultante da Medida Provisória nº 527, de 18 de março de 2011. Ela se aplica exclusi- vamente a licitações e contratos necessários à realização (BRASIL, 2011, documento on-line): I – dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, constantes da Carteira de Projetos Olímpicos a ser definida pela Autoridade Pública Olímpica (APO); e II – da Copa das Confederações da Federação Internacional de Futebol As- sociação — Fifa 2013 e da Copa do Mundo Fifa 2014, definidos pelo Grupo Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...206 Executivo — Gecopa 2014 do Comitê Gestor instituído para definir, aprovar e supervisionar as ações previstas no Plano Estratégico das Ações do Governo Brasileiro para a realização da Copa do Mundo Fifa 2014 — CGCOPA 2014, restringindo-se, no caso de obras públicas, às constantes da matriz de respon- sabilidades celebrada entre a União, Estados, Distrito Federal e Municípios; III – de obras de infraestrutura e de contratação de serviços para os aeroportos das capitais dos Estados da Federação distantes até 350 km (trezentos e cin- quenta quilômetros) das cidades sedes dos mundiais referidos nos incisos I e II. Embora a lei tivesse originariamente aplicação restrita aos referidos contratos, o RDC vem sendo estendido a outros contratos após a alteração pela Lei nº 12.688, de 18 de julho de 2012. Esses contratos envolvem a aplicação dos regimes ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a realização de obras e serviços de engenharia no âmbito dos sistemas de ensino público. Além disso, a Lei nº 12.745, de 19 de dezembro de 2012 (BRASIL, 2012), acrescentou hipóteses de uso do RDC nas obras e serviços de engenharia celebrados no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Por sua vez, a Lei nº 12.815, de 5 de junho de 2013 (BRASIL, 2013a), prevê a aplicação subsidiária da lei do RDC às licitações de porto organizado e de arrendamento de instalação portuária. A Lei nº 12.873, de 24 de outubro de 2013 (BRASIL, 2013b), autorizou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a utilizar o RDC nos contratos que especifica. O art. 49 da Lei nº 8.666/1993 (BRASIL, 1993) prevê a possibilidade de revogação da licita- ção por interesse público decorrente de fato superveniente devidamente comprovado, pertinente e suficiente para justificar tal conduta. Também prevê a obrigatoriedade de sua anulação por ilegalidade de ofício ou por provocação mediante parecer escrito e devidamente fundamentado, sem dever indenizatório. Nesse sentido, é ressalvada a hipótese de a ilegalidade ser imputável à própria administração (ocasião em que há direito de indenizar a parte prejudicada) (DI PIETRO, 2017). A anulação, portanto, é a invalidação da licitação ou julgamento por motivo de ilegalidade; enquanto a revogação se dá por interesse público (MEIRELLES, 2016). 207Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... 1. As licitações são processos administrativos. A competência para definir suas regras gerais é: a) privativa dos estados. b) privativa dos municípios. c) concorrente entre estados e municípios. d) concorrente entre estados, municípios, Distrito Federal e União. e) privativa da União. 2. Segundo Meirelles (2016), o procedimento licitatório tem como finalidade a seleção da proposta mais vantajosa de acordo com o interesse da administração, inclusive considerando o desenvolvimento econômico sustentável e o fortalecimento das cadeias produtivas de bens e serviços ______________, tendo como pressuposto a competição. Assinale a alternativa que preenche corretamente a lacuna. a) internacionais b) sul-americanos c) domésticos d) do BRICS e) do Mercosul 3. Segundo a teoria de Hely Lopes Meirelles (2016), constitui princípio norteador dos procedimentos administrativos licitatórios: a) autonomia da vontade. b) autorregulação. c) livre contratação. d) vinculação ao instrumento convocatório. e) informalidade. 4. Segundo Di Pietro (2017), a diferença básica entre a dispensa e a inexigibilidade é que a dispensa ocorre quando há possibilidade de competição, de modo que a lei faculta a dispensa, que fica inserida na competência discricionária da administração. Já nos casos de inexigibilidade não há possibilidade __________ de competição, porque só existe um objeto ou uma pessoa que atende às necessidades da administração. Assinale a alternativa que completa corretamente a lacuna. a) formal b) ideológica c) fática d) teórica e) política 5. O prefeito de Galiápolis publicou edital de uma concorrência para compra de 10 caminhonetes, cujo valor aproximado da contratação era de R$ 2 milhões. Contudo antes de homologar o procedimento, verificou que a comissão da licitação não tinha oportunizado adequadamente os prazos de recursos entre as fases da licitação, ferindo diretamente o art. 109 da Lei nº 8.666/1993 (BRASIL, 1993). Nesse caso, o prefeito deve: a) anular a licitação. b) retificar a licitação. c) realizar nova licitação. d) dispensar a licitação. e) alterar a modalidade da licitação. Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...208 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: . Acesso em: 14 dez. 2016. BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Brasília, DF, 1981. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. BRASIL. Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Cons- tituição Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. Brasília, DF, 1993. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. BRASIL. Lei nº 10.520, de 17 de julho de 2002. Institui, no âmbitoinstitui-se um sistema de res- ponsabilização jurídico-política do poder que a desrespeitar, inclusive por meio de controle de constitucionalidade dos atos do Parlamento (CUNHA JÚNIOR, 2006). O constitucionalismo moderno rompeu com as barreiras de garantias fundamentais limitadas pelos Estados absolutistas, destruindo o paradigma de soberania e supremacia das forças estatais. Trouxe o ideal de justiça, de direito igualitário e, acima de tudo, de organização na seara da política go- vernamental, limitando o poder de atuação do Estado e descentralizando os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, pautando em um documento de lei: a Constituição. Portanto, a Constituição deixou de ser concebida como simples manifesto político para ser compreendida como uma norma jurídica fundamental e suprema, elaborada para exercer dupla função: garantia do existente e programa ou linha de direção para o futuro (CANOTILHO, 1998). A primeira Constituição escrita, formalmente elaborada com as leis que regulamenta- vam as condutas e determinavam a estrutura de poder, foi a Constituição da França, editada em 1791, a qual tinha como preâmbulo a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada em 1789 (TAVARES, 2004). Com o fim da Primeira Guerra, os Estados perceberam a necessidade de intervir na sociedade de forma a promover o bem-estar social, a paz e a recondução à vida pública dos cidadãos, por meio de serviços públicos, saúde, alimentação, tratamentos médicos e educação, com fulcro sempre na promoção do desenvolvimento econômico-social, haja vista a barbárie social que eclodia no mundo (TAVARES, 2004). A Constituição brasileira de 1988 elenca, nos seus arts. 170 e 193, ideais de um constitucionalismo moderno, em uma política democrática socioliberal, o conhecido Estado Democrático de Direito (TAVARES, 2004). 3Constitucionalismo Por fim, insta salientar que a elaboração do Texto Constitucional teve formação e influência nos movimentos contratualistas que justificavam a agremiação do homem em sociedade com base em um pacto, o famoso contrato social de Rousseau (TAVARES, 2004). Atualmente, o constitucionalismo não se deu por pronto e acabado. Está em constante desenvolvimento, sempre observando as necessidades dos cidadãos e o desenvolvimento socioeconômico. O constitucionalismo deverá ser influenciado até se identificar com a ver- dade, a solidariedade, o consenso, a continuidade, a participação, a integração e a universalização (TAVARES, 2004). Para André Tavares (2004), o constitucionalismo da verdade existe em duas categorias de normas: uma parcela constituída de normas que jamais passam de programáticas e são praticamente inalcançáveis pela maioria dos Estados; uma outra sorte de normas que não são implementadas por simples falta de motivação política dos administradores e governantes responsáveis. As primeiras precisam ser erradicadas dos corpos constitucionais, podendo figurar, no máximo, apenas como objetivos a serem alcançados a longo prazo, não como declarações de realidades utópicas, como se bastasse a mera decla- ração jurídica para transformar-se o férreo em ouro. As segundas precisam ser cobradas do Poder Público com mais força, o que envolve, em muitos casos, a participação da sociedade na gestão das verbas públicas e a atuação de or- ganismos de controle e cobrança, como o Ministério Público, na preservação da ordem jurídica e na consecução do interesse público vertido nas cláusulas constitucionais (TAVARES, 2004). O autor quis evidenciar que, em uma norma jurídica posta, não podem existir normas mortas, sem eficácia concreta na sociedade. Se a lei é posta, ela deve ser cumprida; se existem leis programáticas, elas devem atender às necessidades dos indivíduos e não permanecer estáticas e cristalizadas como meras declarações utópicas (TAVARES, 2004). Em relação àquelas não implementadas pelo Poder Público, deve haver uma participação popular cobrando a presteza dos serviços públicos, pois se trata de um direito coletivo, o qual não é respeitado pelo gestor responsável. Assim, somente a força popular é capaz de mobilizar o aparelho estatal e fiscalizá-lo, para que tenha consentimento de suas obrigações, a fim de que cumpra com deveres preestabelecidos em lei e ofereça uma continuidade na prestação de serviços públicos e sociais. Constitucionalismo4 Em contrapartida, quanto ao constitucionalismo da continuidade, o autor assevera que é muito perigoso em nosso tempo conceber Constituições que produzam uma ruptura da lógica dos antecedentes, uma descontinuidade com todo o sistema precedente (TAVARES, 2004). No tocante à globalização, é notório que a União Europeia visa consolidar uma Constituição única para os países que integram o bloco econômico. Com a ocorrência de tal fato, poderíamos falar em um constitucionalismo globalizado com uma miscigenação de povos, culturas, costumes, princípios, regras e condutas que acabariam por eclodir na formação de uma única nação, com uma única Constituição, a qual propagaria a unificação dos ideais humanos consagrados juridicamente (TAVARES, 2004). Existência do pós-constitucionalismo e neoconstitucionalismo O pós-constitucionalismo (novo Direito Constitucional — ou neoconstitu- cionalismo) identifi ca, nas palavras de Barroso (2005, documento on-line): [...] um conjunto amplo de transformações ocorridas no Estado e no direito constitucional, em meio às quais podem ser assinalados, (i) como marco his- tórico, a formação do Estado constitucional de direito, cuja consolidação se deu ao longo das décadas finais do século XX; (ii) como marco filosófico, o pós-positivismo, com a centralidade dos direitos fundamentais e a reaproxima- ção entre Direito e ética; e (iii) como marco teórico, o conjunto de mudanças que incluem a força normativa da Constituição, a expansão da jurisdição constitucional e o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação constitucional. Desse conjunto de fenômenos resultou um processo extenso e profundo de constitucionalização do Direito. A forma e o modus operandi do ordenamento jurídico brasileiro vem sofrendo reiteradas mudanças. Essa quebra de paradigmas na teoria jurídica e na prática dos tribunais, desenvolvidos sob a égide da Constituição da Re- pública de 1988, pode ser chamada de neoconstitucionalismo (BARROSO, 2005, documento on-line). O termo empregado para essa nova ordem, forma e modelo é derivado da doutrina espanhola e italiana, mas a difusão do termo no Brasil se deve principalmente à coletânea do doutrinador mexicano Miguel Carbonell, que a intitulou de neoconstitucionalismo. O marco histórico do neoconstitucionalismo foi estabelecido na Europa pós- -guerra, marco que alterou a realidade mundial em diversos fatores e principalmente 5Constitucionalismo a mentalidade da sociedade da época, com um motivo simples: o receio de passar pela mesma experiência árdua novamente. Dessa forma, a Europa Ocidental se encontrava devastada e com a esperança de encontrar um modelo novo em que se sustentar, com base em aspectos suprimidos pelo contexto político e social da época, surgindo assim uma ênfase maior nos direitos fundamentais da pessoa. A Constituição servia como base, mas não tinha força normativa, pois era um instrumento para o Legislativo se inspirar. Assim, só a partir da lei em si que poderia ocorrer qualquer proteção, punição ou caráter axiológico no ordenamento jurídico. A influência da Constituição só ocorreu com o fim da Segunda Guerra, primeiramente na Alemanha e, logo após, na Itália. A principal referência no desenvolvimento do novo Direito Constitucional foi a Lei Fundamental de Bonn (Constituição alemã), de 1949, e, especialmente, a criação do Tribunal Constitucional Federal, instalado em 1951. A partir disso, teve início uma fecunda produção teórica e jurisprudencial, responsável pela ascensão científica do Direito Constitucional no âmbito dos países de tradição romano-germânica. A segunda referênciada União, Estados, Dis- trito Federal e Municípios, nos termos do art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, modalidade de licitação denominada pregão, para aquisição de bens e serviços comuns, e dá outras providências. Brasília, DF, 2002a. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. BRASIL. Lei nº 12.462, de 4 de agosto de 2011. Institui o Regime Diferenciado de Con- tratações Públicas - RDC; altera a Lei no 10.683, de 28 de maio de 2003, que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, a legislação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a legislação da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero); cria a Secretaria de Aviação Civil, cargos de Ministro de Estado, cargos em comissão e cargos de Controlador de Tráfego Aéreo; autoriza a contratação de controladores de tráfego aéreo temporários; altera as Leis nos 11.182, de 27 de setembro de 2005, 5.862, de 12 de dezembro de 1972, 8.399, de 7 de janeiro de 1992, 11.526, de 4 de outubro de 2007, 11.458, de 19 de março de 2007, e 12.350, de 20 de dezembro de 2010, e a Medida Provisória no 2.185-35, de 24 de agosto de 2001; e revoga dispositivos da Lei no 9.649, de 27 de maio de 1998. Brasília, DF, 2011. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. BRASIL. Lei nº 12.745, de 19 de dezembro de 2012. Altera as Leis nos 11.759, de 31 de julho de 2008, que autoriza a criação da empresa pública Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada S.A. - CEITEC, 11.578, de 26 de novembro de 2007, que dispõe sobre a transferência obrigatória de recursos financeiros para a execução pelos Estados, Distrito Federal e Municípios de ações do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC, e 12.462, de 4 de agosto de 2011, e dá outras providências. Brasília, DF, 2012. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. 209Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses... http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6938. http://www.planalto.gov/ http://planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10520.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12745. BRASIL. Lei nº 12.815, de 5 de junho de 2013. Dispõe sobre a exploração direta e indireta pela União de portos e instalações portuárias e sobre as atividades desempenhadas pelos operadores portuários; altera as Leis nos 5.025, de 10 de junho de 1966, 10.233, de 5 de junho de 2001, 10.683, de 28 de maio de 2003, 9.719, de 27 de novembro de 1998, e 8.213, de 24 de julho de 1991; revoga as Leis nos 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, e 11.610, de 12 de dezembro de 2007, e dispositivos das Leis nos 11.314, de 3 de julho de 2006, e 11.518, de 5 de setembro de 2007; e dá outras providências. Brasília, DF, 2013a. Disponível em: . Acesso em: 14 dez. 2016. BRASIL. Lei nº 12.873, de 24 de outubro de 2013. Autoriza a Companhia Nacional de Abastecimento a utilizar o Regime Diferenciado de Contratações Públicas - RDC, instituído pela Lei no 12.462, de 4 de agosto de 2011, para a contratação de todas as ações relacionadas à reforma, modernização, ampliação ou construção de unida- des armazenadoras próprias destinadas às atividades de guarda e conservação de produtos agropecuários em ambiente natural; e dá outras providências. Brasília, DF, 2013b. Disponível em: . Acesso em: 14 dez. 2016. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade: ADI 1864 PR. Ministro Maurício Corrêa. DJ, 19 jun. 2002b. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. DI PIETRO, M. S. Z. Direito administrativo. 30. ed. São Paulo: Forense, 2017. MEIRELLES, H. L. et al. Direito administrativo brasileiro. 42. ed. São Paulo: Malheiros, 2016. Leitura recomendada SANTANA, G. Direito administrativo. 4. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2015. (Série Objetiva). Licitações: princípios, modalidades, procedimento, anulação e revogação e hipóteses...210 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ https://stf.jusbrasil.com/ Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.de destaque foi a Constituição da Itália de 1947 e a subsequente instalação da Corte Constitucional, em 1956. Ao longo da década de 1970, a redemocratização e a reconstitucionalização de Portugal (1976) e da Espanha (1978) agregaram valor e volume ao debate sobre o novo Direito Constitucional (BARROSO, 2005, documento on-line). Esse novo contexto histórico que batia à porta da Europa Ocidental propiciava uma teoria jurídica diferente do modelo anterior, com base, como dito anterior- mente, em uma Constituição normativa e de valor, sendo amplamente estruturada em proteção de direitos fundamentais e baseada principalmente na dignidade da pessoa como sustento da Carta normativa. O papel exercido pela Constituição teve um alcance maior e a finalidade de proteção a direitos extintos da sociedade no período que acabara, dessa forma, o que atribuiu valor e caráter axiológico à Constituição terminava por ser uma tentativa de modelo em que se privilegiava um respeito aos direitos mencionados (BARROSO, 2005, documento on-line). Dessa forma, o papel da Constituição referente às instituições contemporâ- neas foi alterado, passando, assim, ao centro do ordenamento jurídico, com um peso de referência e também um caráter normativo atribuído, expressamente demonstrado no Texto Constitucional dessas cartas e facilmente percebido. Assim, com a introdução desse novo modelo na Europa, a segunda metade do século XX foi pautada no crescimento e na expansão desse novo formato constitucional. No Brasil, em 1988, com a promulgação da Constituição da República, ocorre sua recepção no País (BARROSO, 2005, documento on-line). A recepção no ordenamento jurídico brasileiro surgiu em um momento similar ao do contexto europeu. O Brasil acabava de passar por um regime Constitucionalismo6 totalitário, da mesma forma que a Europa. Assim, o fim da ditadura brasileira ficou caracterizado como o marco histórico da redemocratização e da recepção do neoconstitucionalismo (BARROSO, 2005, documento on-line). A promulgação da Carta de 1988 trouxe esse novo modelo, com uma nova concepção de direitos e valores, tendo como proteção basilar os direitos fundamentais e a dignidade da pessoa, fruto de um momento de procura por suprir a falta de participação democrática no período da ditadura e todos os desrespeitos cometidos. A dignidade da pessoa passa a exercer um papel diferenciado, amplo e com um peso maior no sentido de relevância e base para os direitos fundamentais. Diversos preceitos constitucionais inalienáveis se originam no princípio da dignidade da pessoa, como se observa na Lei Maior pátria de 1988 (BRASIL, 1988): a cidadania, os valores sociais do trabalho e da livre-iniciativa (art. 1º, II, III e IV); os objetivos fundamentais da República de construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discri- minação (art. 3º, I e IV); a prevalência dos direitos humanos (art. 4º, II). Todos esses preceptivos revelam a preocupação do legislador constituinte com a dimensão em que a dignidade da pessoa se mostra superior em si e como razão de uma série de outras garantias e princípios de raiz constitucional. É devido à elevação e extensão da importância do homem no mundo que decorrem direitos fundamentais como os citados a seguir, entre outras prerrogativas essenciais à própria existência do ser humano, as quais podem ser encontradas na Constituição Federal brasileira: a liberdade; o direito de integridade física e moral, sendo possível o dever de inde- nização dos danos morais e materiais causados; o necessário respeito, mesmo pelo Estado, da vida privada e da inti- midade das pessoas; o livre-arbítrio, tendo assim a liberdade para o exercício de profissões, reunião e credo religioso; a ajuda para casos de necessidades básicas como a alimentação; o trabalho como fonte de sobrevivência legítima e honesta, demons- trando assim o valor social do trabalho; 7Constitucionalismo a saúde; a educação; o lazer; o repouso corporal e mental; a não submissão a tratamento desumano; a justiça; a pluralidade de ideias e orientações políticas; a vedação ao preconceito e à discriminação racial. Houve, a partir do texto promulgado, uma centralização da Constituição no ordenamento jurídico brasileiro. Sob a Constituição de 1988, o Direito Constitucional no Brasil passou da desimportância ao apogeu em menos de uma geração. Uma Constituição não é só técnica. Tem de haver, por trás, a capacidade de simbolizar conquistas e de mobilizar o imaginário das pessoas para novos avanços. O surgimento de um sentimento constitucional no País é algo que merece ser celebrado. Trata-se de um sentimento ainda tímido, mas real e sincero, de maior respeito pela Lei Maior, a despeito da volubilidade do seu texto. É um grande progresso. Superamos a crônica indiferença que, historicamente, mantínhamos em relação à Constituição. E, para os que sabem, é a indiferença, não o ódio, o contrário do amor (BARROSO, 2005). Como a realidade se alterou, a Constituição passou a disciplinar uma diversidade de temas antes não abordados. A lei antes valia muito mais, pois o peso das leis e decretos era mais significativo: antes, o Código Civil; hoje, a Constituição. Essa substituição de importância foi estabelecida exatamente nesse momento, quando a Carta de 1988 traz um elenco de temas antes não abordados: direitos individuais, políticos, sociais e difusos, além de trazer uma série de princípios dotados de carga axiológica, o que termina por dar ensejo ao processo de constitucionalização do Direito. Nessa nova ordem constitucional, o papel do Poder Judiciário foi fortalecido e, em conjunto com o Ministério Público, ganhou uma maior autonomia, que, com o passar do tempo, resultou na questão do controverso ativismo judicial. Com essa Constituição dotada de diversos princípios abrangentes de diferentes aspectos, ocorreu a chamada filtragem constitucional, em que as matérias Constitucionalismo8 dos inúmeros ramos do Direito passariam pelo crivo constitucional, adiante analisado. Essa questão só se tornou possível pela importância que o Direito Constitucional passou a conter. A participação da doutrina brasileira foi de fundamental importância para difundir esse novo modelo. A recepção do neoconstitucionalismo no Brasil foi pautada por esse momento histórico e baseada nele, sendo importante demonstrar essa questão no aspecto filosófico chamado pós-positivismo. Dinâmica político-constitucional na experiência brasileira O Brasil já editou oito Constituições e, sem sombra de dúvidas, os movimentos constitucionalistas serviram de grande infl uência para cada Carta elaborada. Boa parte delas expressou, ao menos textualmente, as tendências globais da sua época. A questão brasileira foi a pouca efetividade das regras e o desrespeito às condicionantes do poder (TAVARES, 2004). O avanço do constitucionalismo, como movimento político e jurídico, sobre o continente americano teve importância primordial na independência das colônias em relação às suas metrópoles europeias. Nesse cenário de libertação, a Constituição era o instrumento mais precioso para selar a independência, rompendo com as amarras do regime de submissão à metrópole e instalando uma nova organização, de acordo com o poder de autodeterminação de cada Estado emergente naquele momento (TAVARES, 2004). Essa extensão fulminante do movimento a todo o mundo civilizado não significa, porém, que em toda parte o governo moderado, constitucional, tenha deixado raízes. Em muitos casos, o êxito do constitucionalismo não foi além das aparências, fornecendo roupagem brilhante para vestir uma realidade adversa. Diferentemente dos demais processos revolucionários americanos, o Brasil não imprimiu, no seu território, guerras sangrentas para se sagrar independente de Portugal. Contudo, a contradiçãodestacada anteriormente também esteve presente no constitucionalismo brasileiro do século XIX (TAVARES, 2004). 9Constitucionalismo A experiência constitucional brasileira teve início em 1824, ainda sob a forma de governo imperial, com a outorga da primeira Constituição do Brasil em 25 de março daquele ano. Descontente com os rumos da constituinte, o imperador D. Pedro I a dissolve e propõe a elaboração de um novo projeto da Constituição, que incorporou a cláusula de separação de poderes, estabelecendo a clássica divisão de funções estatais: Poder Legislativo, Poder Executivo e Poder Judiciário. Além desses, o Brasil instituiu a figura de um quarto poder, chamado de Poder Moderador, que permitia amplos direitos ao monarca e nenhum tipo de responsabilização deste. A proteção da Carta de 1824 foi dada ao Poder Legislativo. Para o Poder Judiciário, houve a criação de um órgão de cúpula, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), mas sem qualquer controle sobre a constitucionalidade das leis (TAVARES, 2004). Como podemos perceber, o início do constitucionalismo no Brasil foi tímido durante a Constituição de 1824, pois havia uma nítida incoerência entre a realidade social brasileira e o que se apregoava nos movimentos constitu- cionalistas (TAVARES, 2004). A inovação trazida pela nova Constituição ao Poder Judiciário foi a criação de um novo órgão de cúpula, o Supremo Tribunal Federal (precedido pelo já citado STJ), com sua estrutura também federativa e dual, com uma Justiça Federal e outra Estadual (SOUZA NETO; SARMENTO, 2014). No âmbito social, a Constituição de 1934 trouxe grande inovação ao prever não só as garantias dos direitos individuais e sociais, como também as ações estatais em defesa dessas garantias. O absenteísmo estatal não era mais bem visto, e o Estado, por meio dos poderes públicos, deveria atuar para a defesa de direitos dos seus governados. Essa Carta, porém, gozou de passagem efêmera, pois não suportou as pressões internas proporcionadas pela disputa entre capitalismo e socialismo. Já em 1937, o governo, sob o comando de Getúlio Vargas, outorgou uma nova Constituição brasileira, instaurando, no Brasil, a ditadura varguista. A legitimidade para a instauração desse novo regime foi trazida pela justificativa de uma possível invasão comunista. O País permaneceu na escuridão da ditadura até o ano de 1946, quando então foi promulgada a terceira Constituição brasileira, com conteúdo predo- minantemente constitucionalista, tendo em vista que o mundo acabava de pôr fim à Segunda Guerra. Houve o retorno da figura do vice-presidente, ausente desde a Carta de 1934, e a Justiça do Trabalho foi integrada ao Poder Judiciário; houve também a recomposição da Justiça Eleitoral; além da instituição de um Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal continuou o órgão de cúpula e aos magistrados foram dadas as seguintes garantias: Constitucionalismo10 vitaliciedade; inamovibilidade; irredutibilidade de subsídios. As decisões sobre a inconstitucionalidade das leis proferidas pelos tribunais não mais poderiam ser submetidas ao Parlamento. Outro importante marco foi a consagração do direito à inafastabilidade da tutela jurisdicional. O ano de 1964 marca a história brasileira, pois foi dado o maior golpe ditatorial sofrido pelo País, com os militares tomando o poder. Em 1967, foi derrogada a Constituição de 1946. Durante quase 20 anos, o País viveu em quase plena democracia e estabilidade governamental. Mesmo com a promulgação da Constituição, o governo ainda lançava mão de vários atos institucionais que, do dia para noite, modificavam o rol de garantias e liberdades individuais, bem como concentrava cada vez mais o poder nas mãos dos militares. O mais severo ato institucional foi o AI-5, que definitivamente deixou claro os novos traços do regime político que o País iria vivenciar até o ano de 1984. A partir dessa data, o País passou por um novo processo de redemocratiza- ção, cuja solidificação se deu em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da Carta cidadã. Essa nova Constituição brasileira de 1988 inovou porque tratou da matéria não no capítulo dedicado à Ordem Econômica e Financeira ou à Ordem Social. Antes, cuidou deles enquanto verdadeiros direitos fundamentais e não expressões de uma determinada ordem. Tratou como verdadeiros direitos fundamentais os contemplados no art. 6º (BRASIL, 1988): o direito à saúde, na verdade, à proteção da saúde; o direito ao trabalho, do qual o direito do trabalho é uma dimensão; o direito ao lazer, porque nem só de trabalho vive o homem; o direito à moradia, incorporado mais tarde pela Emenda Constitucional nº 26, de 14 de fevereiro de 2000; o direito à educação; o direito à previdência; o direito à segurança; o direito à assistência aos desamparados; o direito à proteção da infância; o direito à proteção da maternidade. 11Constitucionalismo A Islândia, país com apenas 320 mil habitantes (menos da metade da população de Campo Grande/MS), decidiu por uma nova Constituição motivada pelo colapso eco- nômico de 2008. Elegeu, então, um grupo de 25 cidadãos, entre 552 que se ofereceram como candidatos a representantes-constituintes, o qual apresentou uma proposta constitucional compilada a partir de contribuições enviadas por redes sociais, como Facebook, Twitter e YouTube (ISLÂNDIA..., 2012). BARROSO, L. R. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do direito constitucional no Brasil. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 240, abr./jun. 2005. Disponível em: . Acesso em: 2 abr. 2018. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: . Acesso em: 2 abr. 2018. CANOTILHO, J. J. G. Direito Constitucional e teoria constitucional. 6. ed. Coimbra: Al- medina, 1998. CUNHA JÚNIOR, D. da. Controle de constitucionalidade: teoria e prática. Salvador: Jus Podvm, 2006. ISLÂNDIA referendo aprova nova Constituição feita por cidadãos. A Folha, out. 2012. Disponível em: . Acesso em: 2 abr. 2018. SOUZA NETO, C. P. de; SARMENTO, D. Direito Constitucional: teoria, história e métodos de trabalho. 2. ed. Belo Horizonte : Fórum , 2014. TAVARES, A. R. Curso de Direito Constitucional. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2004. Constitucionalismo12 http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ http://afolha.pt/islandia-referendo-aprova-constituicao-cidadaos Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. DIREITO CONSTITUCIONAL I Miriany Stadler Ilanes Conceitos fundamentais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explorar a ciência do Direito Constitucional e o seu objeto. Expor a relação do Direito Constitucional com os outros ramos do Direito. Determinar o Direito Constitucional como o Direito de nível funda- mental do ordenamento jurídico. Introdução O Direito Constitucional ou Direito Constitucional Positivo é o conjunto de normas jurídicas constitucionais, isto é, o conjunto de normas que forma o Estado, define os direitos e as garantias fundamentais, disciplina a relação entre os Poderes, entre outros assuntos. O Direito Constitucional é o ramo do Direito especializado no estudo da Constituição, ou seja, das leis máximas de um Estado. Também cha- mada de Carta Magna ou Lei Maior, a Constituição se insere no topo do ordenamento jurídico, que é a relação hierárquica entre as leis. No Brasil, a Constituição é seguida por leis, decretos e jurisprudência, então pelos atos normativos e, na base, pelas demais normas. Tal analogiapressupõe que nenhuma lei subordinada pode desrespeitar a Constituição, ocasião em que se configura ação de inconstitucionalidade. Nesse ramo, avaliam-se as origens, a natureza e os efeitos do Texto Constitucional, bem como os responsáveis por redigi-lo. Neste capítulo, você vai ler sobre os principais elementos do Direito Constitucional. Ciência do Direito Constitucional e o seu objeto O Direito Constitucional está situado na clássica dicotomia jurídica entre Direito Público e Privado, como um dos ramos do primeiro. Essa tese clássica é imprestável na atualidade, tendo em vista a supremacia da Constituição e a constitucionalização do Direito (TAVARES, 2012). C01_Conceitos_fundamentais.indd 1 25/05/2018 08:04:20 Podemos distinguir o Direito Constitucional dos demais ramos do Direito Público pela natureza específica do seu objeto e pelos princípios peculiares que o informam. “Configura-se como Direito Público fundamental por referir-se diretamente à organização e ao funcionamento do Estado, à articulação dos seus elementos primários e ao estabelecimento das bases da estrutura política” (SILVA, 2017, p. 35). Vocaciona-se à estruturação do Poder, fornecendo-lhe os contornos de atuação e limites da sua atividade, tendo sido, desde o final do século XX, o berço natural da positivação dos direitos humanos. Pragmaticamente, o Direito Constitucional (escrito) se identifica como um conjunto normativo especial: a Constituição do Estado, as suas leis constitucionais (no Brasil, chamadas de emendas à Constituição) e a jurisprudência constitucional definitiva (prolatada pelo Supremo Tribunal Federal, no Brasil, e por tribunais constitucionais, na maioria dos países da Europa) (TAVARES, 2012). A Constituição (positivada de um país) é considerada um conjunto nor- mativo fundamental, adquirindo, por isso, cada um dos seus preceitos a ca- racterística da superioridade absoluta, ou seja, da supremacia, em relação às demais normas de um mesmo ordenamento jurídico estatal (TAVARES, 2012). A estrutura escalonada do Direito apresenta como ápice a Constituição, base a par- tir da qual todas as demais normas se desenvolvem e auferem sua validade última dentro do sistema. Dizemos que há um sistema quando as normas se reconduzem a uma única fonte de produção, mais ainda quando o Direito se reconduz, formal e procedimentalmente, a uma idêntica norma fundamental. Resumidamente, então, podemos definir o Direito Constitucional como o ramo do Direito Público que expõe, interpreta e sistematiza os princípios e as normas fundamentais do Estado. Como esses princípios e normas fundamentais do Estado compõem o conteúdo das Constituições, podemos afirmar que o Direito Constitucional é a ciência positiva das Constituições (SILVA, 2017). Jorge Miranda (1990, p. 138) define o Direito Constitucional como a: [...] parcela da ordem jurídica que rege o próprio Estado, enquanto comunida- de e enquanto poder. É o conjunto de normas (disposições e princípios) que Conceitos fundamentais2 C01_Conceitos_fundamentais.indd 2 25/05/2018 08:04:21 recordam o contexto jurídico correspondente à comunidade política como um todo e aí situam os indivíduos e os grupos uns em face dos outros e frente ao Estado-poder e que, ao mesmo tempo, definem a titularidade do poder, os modos de formação e manifestação da vontade política, os órgãos de que esta carece e os atos em que se concretiza. A ciência do Direito Constitucional, portanto, significa a parcela dos es- tudos científicos que têm por objeto de pesquisa as normas constitucionais. Esse conjunto de estudos, por ter status científico, deve seguir uma série de princípios e regras que busquem assegurar a sua objetividade. Maurice Hauriou (apud SILVA, 2017) declara que o Direito Constitucional tem por objeto a constituição política do Estado. Essa assertiva seria essencial- mente verdadeira não fosse o sentido tão restrito que ele empresta ao conceito de constituição política. Como domínio científico, o Direito Constitucional procura ordenar elemen- tos e saberes diversos, relacionados a aspectos normativos do poder político e dos direitos fundamentais, que incluem: as reflexões advindas da filosofia jurídica, política e moral — filosofia constitucional e teoria da Constituição; a produção doutrinária acerca das normas e dos institutos jurídicos — dogmática jurídica; a atividade de juízes e tribunais na aplicação prática do Direito — jurisprudência. Embora o conceito de ciência, quando aplicado às ciências sociais e, em particular, ao Direito, exija qualificações e delimitações de sentido, a ciência do Direito Constitucional desempenha papel análogo ao das ciências em geral. Nele, estão incluídos (BARROSO, 2010): a identificação ou elaboração de determinados princípios específicos; a consolidação e sistematização dos conhecimentos acumulados; o oferecimento de material teórico que permita a formulação de novas hipóteses, a especulação criativa e o desenvolvimento de ideias e cate- gorias conceituais inovadoras testadas na vida prática. A singularidade da ciência do Direito é que ela não pode servir-se, em escala relevante, da ambição de objetividade que caracteriza as ciências exatas ou as ciências naturais. Nesses domínios, as principais matérias-primas intelectuais são a observação, a experimentação e a comprovação, todas elas passíveis de 3Conceitos fundamentais C01_Conceitos_fundamentais.indd 3 25/05/2018 08:04:21 acompanhamento e confirmação objetiva por parte dos demais cientistas e da comunidade em geral. O Direito, todavia, não lida com fenômenos que se ordenem independentemente da atividade do intérprete, da sua subjetividade e da sua ideologia. Ao contrário, por exemplo, do astrônomo, que observa e revela algo que lá já está, o jurista cria ele próprio o objeto da sua ciência. O Direito, a norma jurídica, não é um dado da realidade, mas uma criação do agente do conhecimento (BARROSO, 2010). De modo geral, cabe ao Direito Constitucional o estudo sistemático das normas que integram a Constituição do Estado. Sendo ciência, há de ser forçosamente um conhecimento sistematizado sobre determinado objeto, e este é constituído pelas normas fundamentais da organização do Estado, isto é, pelas normas relativas a (SILVA, 2017): estrutura do Estado; forma de governo; modo de aquisição e exercício do poder; estabelecimento de seus órgãos; limites de sua atuação; direitos fundamentais do homem e respectivas garantias; regras básicas da ordem econômica e social. Relação do Direito Constitucional com os outros ramos do Direito O Direito Constitucional costuma ser inserido como ramo do Direito Público, junto com o Direito Administrativo, Internacional, Criminal, Tributário e Processual. Essa ideia, contudo, não pode mais prosperar, na medida exata em que a Constituição passou a ocupar um papel central para todos os ramos do Direito, sejam matérias públicas ou privadas. Assim, por exemplo, o Código Civil, classicamente compreendido dentro do Direito Privado, não deixa de sofrer o infl uxo constante dos preceitos constitucionais. Essa constituciona- lização do Direito — que exige a leitura de todas as leis, sejam públicas ou Conceitos fundamentais4 C01_Conceitos_fundamentais.indd 4 25/05/2018 08:04:21 privadas, administrativas ou civis e comerciais, a partir e de acordo com os ditames da Constituição do País — aloca o Direito Constitucional (e a Cons- tituição é seu coração) na posição especial de tronco dos sistemas normativos atuais de modelo ocidental. Nesse sentido, podemos dizer que: “[...] o Direito Constitucional alimenta os demais Direitos, que só podem prosperar e fl orescer validamente dentro desse sistema de alimentação” (TAVARES, 2012, p. 46). Na realidade, portanto, o Direito Constitucional é a base de todos os demais Direitos disciplinados, no Brasil, por leis (leis complementares, ordinárias, delegadas), medidas provisóriase decretos. Portanto, o Direito Constitucional é a base, o fundamento dos demais Direitos, seja qual for a repartição que se queira (ou não) realizar entre eles (TAVARES, 2012). O Direito Constitucional não poderia estar contido, portanto, em um dos clássicos ramos do Direito, pois é superior, englobante e serve de fundamento de validade a todos. Alocando-o no Direito Privado, teríamos a equivocadís- sima impressão de que não guarda relação ou contato com o Direito Privado, a não ser secundária e episodicamente, quando é justamente o oposto que deve ocorrer (TAVARES, 2012). Direito Constitucional e Direito Administrativo — O Direito Constitucional antecede o Direito Administrativo. Este tem como origem o limite de poder que se inaugura com a submissão do Estado ao princípio da legalidade. Quando a norma jurídica igualmente vincula o administrado e o administrador, é possível constituir, com autonomia científi ca, uma área própria de conhecimento dedicada ao estudo do regime jurídico da Administração Pública. O Direito Administrativo é considerado o setor do Direito mais afi m ao Direito Constitucional, ou seja, são as duas disciplinas mais próximas em seus institutos e conceitos. Entre Direito Constitucional e Direito Administrativo, há uma diferença de grau. O Direito Constitucional trata das regras gerais da função pública. Já o Direito Administrativo realiza o detalhamento das funções. Além disso, há um conjunto de regras na Constituição que pertencem ao Direito Administrativo propriamente dito: as normas sobre desapropriação (arts. 182, 184 e 185); sobre os poderes do Presidente e as funções dos ministros de Estado (arts. 84 e 87, parágrafo único); e, fi nalmente, as normas sobre Administração Pública (arts. 37 a 43). Direito Constitucional e Direito Tributário — Todos os princípios apli- cáveis à atividade tributária do Estado encontram-se consignados na Cons- tituição. Por esse motivo, assinala com absoluta propriedade Carrazza que “A Constituição Federal, no Brasil, é a lei tributária fundamental, por conter as diretrizes básicas aplicáveis a todos os tributos”. Íntimo se mostra o rela- 5Conceitos fundamentais C01_Conceitos_fundamentais.indd 5 25/05/2018 08:04:21 cionamento entre esses dois setores do Direito. Tendo em vista que a maior parte da arrecadação do Estado se deve à tributação, a estreita proximidade entre o Direito Constitucional e o Tributário não poderia ser ignorada. Por ser atividade estatal, há de subsumir-se às normas jurídicas, como, de resto, toda a ação praticada pelo Poder Público. No caso, contudo, há o componente constitucional, que, basicamente, decorre de dois elementos. Em primeiro lugar, é preciso mencionar que a tributação interfere na liberdade e na pro- priedade das pessoas, direitos fundamentais que só poderiam ser alcançados pelo próprio contorno que lhes conferiu o constituinte em seu ato originário de elaborar as normas constitucionais. Em segundo lugar, a tributação sus- tenta, no caso dos Estados federativos, a autonomia dos diversos membros federados. Por isso, seria inimaginável atribuir ao Poder Legislativo central a competência para realizar a partilha de competências tributárias, uma vez que equivaleria a praticamente negar qualquer possibilidade de contar com uma federação forte. Direito Constitucional e Direito Penal — A relação entre Direito Penal e Direito Constitucional é profunda e inegável. A Constituição é o marco fundamental do ordenamento jurídico de um Estado Democrático de Di- reito, o que faz todas as normas estarem vinculadas e subordinadas aos comandos constitucionais. Isso quer dizer que o Direito Constitucional exerce infl uência sobre todos os ramos do Direito e, particularmente, sobre o Direito Penal. Os próprios bens jurídico-penais encontram raízes materiais na Carta Magna, assim, cabe ao Direito Penal a tarefa de tutelar os direitos fundamentais nela insculpidos. A leitura atenta dos direitos fundamentais consagrados pelas diversas Constituições bem demonstra que em todas encontraremos normas próprias (em sua origem histórica) do campo penal. Assim, podemos mencionar, verbi gratia, o princípio de que não há crime sem lei anterior que o defi na, nem pena sem prévia cominação legal. A Constituição brasileira de 1988 trata de diversas garantias dessa índole (art. 5º, XXXVII a LXVII). Direito Constitucional e Direito Processual — No campo do processo, houve a constitucionalização, a exemplo do que ocorrera com o Direito Penal, de inúmeros princípios. Assim, temos um conjunto de normas que podemos chamar de princípios constitucionais do processo. Podemos citar, na Cons- tituição brasileira de 1988, as seguintes normas processuais: a) assistência judiciária (art. 5º, LXXIV); b) mandado de segurança (art. 5º, LXIX); c) ação popular (art. 5º, LXXIII). Conceitos fundamentais6 C01_Conceitos_fundamentais.indd 6 25/05/2018 08:04:21 Direito Constitucional e Direito Internacional — O art. 4º, I a X, da Cons- tituição trata dos princípios que regem a atuação internacional do Estado brasileiro. Assim, menciona: I — independência nacional; II — direitos humanos; III — autodeterminação dos povos; e IV — igualdade entre os Estados. Direito Constitucional e Direito do Trabalho — Ramo do Direito Privado, formado por um conjunto de normas que regem as relações entre trabalha- dores e empregadores. Amplo é o rol de direitos do trabalhador assegurados constitucionalmente (arts. 6º a 9º). Direito Constitucional e Direito Privado — A Constituição trata do amparo à família, aos fi lhos e aos idosos (arts. 226 a 230) e da defesa do consumidor (art. 5º), entre outras normas voltadas para a regulamentação do Direito Privado. Direito Constitucional como o direito de nível fundamental do ordenamento jurídico Recebe o nome de ordenamento jurídico todo o conjunto de leis de um Estado, que agrupa Constituição, leis, emendas, decretos, resoluções, me- didas provisórias, entre outras. No Brasil, o ordenamento jurídico nacional tem origem na tradição romano-germânica ou civilista. A Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor desde 5 de outubro de 1988, é a lei suprema do País, defi nindo-o como uma República Federativa, formada pela união indissolúvel de Estados, municípios e Distrito Federal. O Direito Constitucional é um ramo do Direito Público, fundamental à organização, ao funcionamento e à configuração política do Estado. Nesse papel de direito público fundamental, o Direito Constitucional estabelece: a estrutura do Estado; a organização de suas instituições e órgãos; o modo de aquisição e exercício do poder; a limitação desse poder, por meio, especialmente, da previsão dos direitos e das garantias fundamentais. 7Conceitos fundamentais C01_Conceitos_fundamentais.indd 7 25/05/2018 08:04:21 O Direito Constitucional é muito mais do que um ramo do Direito Público. Ele consubstancia a matriz de toda a ordem jurídica de um específico Estado. Figurativamente, o Direito Constitucional é representado como o tronco do qual derivam todos os demais ramos da grande árvore que é a ordem jurídica de determinado Estado (essa imagem tem o mérito de representar a unidade do Direito — por definição, indivisível —, consubstanciada na árvore, e es- clarecer que a alusão a ramos tem função puramente didática) (SILVA, 2017). Como produto legislativo máximo do Direito Constitucional, encontramos a própria Constituição, elaborada para exercer dupla função: garantia do existente e programa ou linha de direção para o futuro. A Constituição deve ser idealizada como lei fundamental do sistema jurídico. Para que uma norma possa ser válida, devemos descobrir seu valor nessa lei afirmada como fundamental. Ela tem a obrigação de estar em conformidade com o ordenamento jurídico, na medida em que a lei fundamental dispuser, ou seja, a Constituição irá indicar a direção, pois é o conjunto de teorias de onde os conhecimentos derivam, a direção paraas demais normas de hierarquia inferior, pois estas assim obterão a validade necessária, encontrarão sua base na lei fundamental, passando a integrar o ordenamento jurídico (MORAES, 2003). Ensina Hans Kelsen que a Constituição é a norma fundamental, a qual dá validade a todas as demais normas de um sistema jurídico, e salienta: Mas a criação da Constituição realiza-se por aplicação da norma fundamental. Por aplicação da Constituição, opera-se a criação das normas jurídicas gerais através da legislação e do costume; e, em aplicação destas normas gerais, realiza-se a criação das normas individuais através das decisões judiciais e das resoluções administrativas. Somente a execução do ato coercivo estatu- ído por estas normas individuais — o último ato do processo de produção jurídica — se opera em aplicação das normas individuais que a determinam sem que seja, ela própria, criação de uma norma. A aplicação do Direito e, por conseguinte, criação de uma norma inferior com base numa norma superior ou execução do ato coercivo estatuído por uma norma (KELSEN, 2003, p. 261). Significa que a Constituição se coloca no vértice do sistema jurídico do País, a que confere validade, e que todos os poderes estatais são legítimos na medida em que ela os reconheça e na proporção por ela distribuídos. É, enfim, a lei suprema do Estado, pois é nela que se encontram a própria estru- turação deste e a organização de seus órgãos; é nela que se acham as normas fundamentais de Estado, e só nisso se notará sua superioridade em relação às demais normas jurídicas (KELSEN, 2003). Conceitos fundamentais8 C01_Conceitos_fundamentais.indd 8 25/05/2018 08:04:21 Podemos afirmar que a estabilidade da Constituição Federal está ligada à aplicação exata do princípio constitucional da segurança jurídica. E, para se obter essa estabilidade e segurança, dispõe a Constituição do controle concentrado de constitucionalidade, com a previsão da ação declaratória de constitucionalidade e de inconstitucionalidade e também do controle difuso, aprimorado por meio da Emenda Constitucional nº. 45, de 30 de dezembro de 2004. A emenda instituiu a concessão para a edição de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal, buscando, com essa modificação constitucional, a estabilidade e a segurança proclamadas, para as hipóteses em que a Suprema Corte não mantém o controle concentrado de constitucionalidade. Para saber mais sobre a Constituição Federal como vértice do sistema jurídico, leia o livro A força normativa da Constituição, de Konrad Hesse, traduzido por Gilmar Ferreira Mendes. BARROSO, L. R. Curso de Direito Constitucional contemporâneo: os conceitos fundamen- tais e a construção do novo modelo. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. KELSEN, H. Teoria pura do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003. MIRANDA, J. Manual de Direito Constitucional. 4. ed. Coimbra: Coimbra, 1990. t. 1. MORAES, A. de. Direito Constitucional.13. ed. São Paulo: Atlas, 2003. SILVA, J. A. da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 40. ed. São Paulo: Malheiros, 2017. TAVARES, A. R. Curso de Direito Constitucional. 10. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2012. Leituras recomendadas HESSE, K. A força normativa da Constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2009. MENDES, G. F.; COELHO, I. M.; GONET, P. G. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 2014. NOVELINO, M. Curso de Direito Constitucional. 12. ed. Salvador: Jus Podium, 2017. 9Conceitos fundamentais C01_Conceitos_fundamentais.indd 9 25/05/2018 08:04:22 DIREITO ADMINISTRATIVO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever o Estado e seus poderes. > Identificar as fontes do Direito Administrativo. > Explicar o Direito Administrativo moderno. Introdução O Direito Administrativo é o ramo do Direito que trata das regulamentações para o exercício da atividade administrativa prestada pelo Poder Público, abordando a vida em sociedade e as relações estabelecidas entre os entes estatais e entre o Estado e o particular. O principal aspecto para a normatividade do Direito Administrativo é com- preender quem é o Estado e como se organizam as atividades estatais. É a partir dessas premissas que se desenvolve o regime jurídico administrativo, responsável por estabelecer diretrizes de atuação da Administração Pública. Esse regime envolve as fontes do Direito e os princípios que regem o Direito Administrativo, destacando-se a supremacia do interesse público e sua indisponibilidade. Neste capítulo, vamos falar sobre o Estado e seus poderes. Especificamente, serão detalhas as fontes do Direito Administrativo e explicado como está esta- belecido o Direito Administrativo moderno, sobretudo no que se refere à forma de atuação e ao controle estatal. Direito Administrativo: aspectos gerais Cinthia Louzada Ferreira Giacomelli Quem é o Estado? É sabido que o ser humano é um ser dotado de sociabilidade, que tende a formar grupos das mais diversas naturezas para atingir seus fins e objetivos. Diante da necessidade de identificar e normatizar esses grupos, a legislação lhes confere atributos típicos, como personalidade e capacidade jurídica, o que os tornam sujeitos de direitos e obrigações. Para Diniz (2017, p. 270, grifo nosso), “[...] a pessoa jurídica é a unidade de pessoas naturais ou de patrimônios, que visa à consecução de certos fins, reconhecida pela ordem jurídica como sujeito de direitos e obrigações”. Na classificação das pessoas jurídicas, destacam-se dois grandes grupos: 1. as pessoas jurídicas de direito público; 2. as pessoas jurídicas de direito privado. As primeiras se subdividem em direito público interno (estados, municí- pios, autarquias, fundações) e direito público externo, como outros Estados (países), por exemplo. Para que um Estado seja constituído, é necessária a união de elementos fundamentais que, como afirma Ferreira Filho (2010, p. 75), “[...] é uma asso- ciação humana (povo), radicada em base espacial (território), que vive sob o comando de uma autoridade (poder) não sujeita a qualquer outra (soberana)”. Diante dessa perspectiva, os Estados podem se organizar de diferentes formas: podem ser unitários ou compostos, bem como federados ou confederados. O Estado unitário é entendido como aquele em que há um poder central exercido sobre todo o território, sem limitações por outra fonte de poder, eventualmente mais regionalizada. O poder é único em sua estrutura e seu exercício, pois, só existe um Poder Executivo, um Poder Legislativo e um Poder Judiciário, todos centrais, com sede na Capital. Não há, dessa forma, divisão interna de unidades autônomas, apesar de alguns países, como a França, serem divididos em distritos para a melhor gestão de seu território. No entanto, permanece a centralização político-administrativa. Já o Estado composto é aquele segmentado por unidades dotadas de relativa autonomia político-administrativa. Não há, nesse caso, um único poder central, mas vários centros de poder, que atuam de forma autônoma e harmônica entre si. As federações e as confederações são formas de Estado composto. Direito Administrativo: aspectos gerais2 A federação, por sua vez, é a forma de Estado adotada no Brasil e é carac- terizada por unidades da federação reunidas por meio de um pacto federativo. Nesse modelo de Estado composto, ocorre uma submissão de cada unidade a uma Constituição, que institui a União Federal. No Estado Federativo, as unidades permanecem dotadas de autonomia político-administrativa, mas dispensam suas soberanias em favor da União. Assim prevê o art. 18 da Cons- tituição Federal: “Art. 18. A organização político-administrativa da República Federativa do Brasil compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos, nos termos desta Constituição” (BRASIL, 1988, documento on-line). Nesse sentido, podemos citar algumas características dos Estados Fede- rados, que são facilmente reconhecidas no Brasil: � um centro de governoresponsável pela manutenção do pacto federativo; � as unidades da federação possuem centros políticos independentes, com leis próprias, que respeitam as normas da Constituição Federal; � o Poder Legislativo é bicameral, ou seja, possui duas casas legislativas; � não há intervenção do governo central nos governos das unidades federadas. No que se refere às confederações, conceituam-se como unidades dota- das de soberania que se unem em prol de um objetivo comum, formalizado, por meio de acordos, tratados ou convenções com prejuízo parcial de sua autonomia, sem perder sua soberania. Nesse tipo de Estado composto, é considerado o direito de secessão, ou seja, cada membro da confederação tem a faculdade de se retirar da União quando lhe convier. O Canadá, por exemplo, foi uma confederação entre os anos de 1867 e 1989, mas hoje é uma federação. Outro aspecto essencial do Estado é a divisão de poderes. Em geral, como ocorre no Brasil, os poderes de Estado são três: Legislativo, Executivo e Judiciário, nos termos do art. 2º da Constituição Federal. Cada um desses poderes tem atividades principais e atividades secundárias, majoritariamente indicadas e regulamentadas no texto constitucional e abaixo detalhadas (BRASIL, 1988). Direito Administrativo: aspectos gerais 3 � Poder Legislativo: a função principal do Poder Legislativo é produzir leis, criar a norma inovadora, de forma que a lei seja a manifestação da vontade popular. � Poder Judiciário: a função principal do Poder Judiciário é resolver con- flitos de interesses que surgirem na sociedade. É importante considerar que, no Brasil, a função jurisdicional tem a característica da inércia, ou seja, só atua mediante a provocação do interessado. � Poder Executivo: a função principal do Poder Executivo é a adminis- trativa, de defender os interesses públicos de acordo com as diretrizes legais. Uma vez expostos o conceito de Estado, sua organização e seus poderes, é fundamental definir Direito Administrativo, que se trata do conjunto de princípios e normas que orienta toda a atuação administrativa. Para Carvalho (2017, p. 59) “[...] o regime jurídico administrativo é o conjunto harmônico de princípios que definem a lógica da atuação do ente público, a qual se baseia na existência de limitações e prerrogativas em face do interesse público”. Os principais aspectos do regime jurídico administrativo serão abordados na próxima seção deste capítulo. Fontes do Direito Administrativo Por fontes do Direito, entendem-se os elementos normativos por meio dos quais é possível regular a vida social que envolve as relações estatais. Quanto à classificação das fontes, consideram-se as fontes formais e as fontes materiais. Na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, estão as fontes formais, que são formadas pela lei, pelos princípios gerais do Direito, pela analogia e pelos costumes, conforme se depreende do art. 4º da Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro, Lei nº 12.376, de 30 de dezembro de 2010 (BRASIL, 2010). Já as fontes materiais são a doutrina e a jurisprudência. Nesse sentido, é importante destacar que a lei é a mais importante fonte do Direito: dela, decorrem as principais diretrizes de atuação, tendo como símbolo máximo a Constituição Federal. Já os princípios gerais são diretrizes que podem ou não estar explícitas na norma e têm a função principal de contextualizar o provimento jurisdicional ou administrativo. Direito Administrativo: aspectos gerais4 No que se refere ao Direito Administrativo, é importante destacar que não há uma codificação, a exemplo do que ocorre em outros ramos do Direito, como o Código Civil e o Código Penal. Por isso, a harmonização das fontes do Direito é fundamental para a normatividade da área. Ainda, a Constituição Federal é o texto fundamental do sistema jurídico brasileiro, de forma que nenhum preceito, independentemente do contexto ao qual se aplica, incluindo o Direito Administrativo, pode desrespeitar as normativas ali estabelecidas. É importante destacar, ainda, que conceito de equidade também possui estreita relação com os princípios gerais do Direito, fundamentalmente porque está vinculado ao ideal de justiça. Para Venosa (2012, p. 25): [...] são frequentes as situações em que se defronta o juiz ao ter de aplicar uma lei, oportunidade em que percebe que, no caso concreto, se afasta da noção do que é justo. O trabalho de aplicação por equidade é de exatamente aparar as arestas na aplicação da lei para que uma injustiça não seja cometida. Ainda em relação às fontes formais, destaca-se que analogia é a aplicação de uma norma próxima ou de um conjunto de normas próximas, não havendo uma norma prevista para determinado caso concreto. Já os costumes consis- tem em uma norma amplamente aceita — se o juiz não consegue preencher a lacuna pela analogia, ele deve preencher pelos costumes, que a lei refere, algumas vezes, pela expressão “usos locais”. Com relação às fontes materiais, temos que a doutrina é a produção aca- dêmica de estudiosos e pesquisadores da área do Direito, que manifestam sua perspectiva jurídica sobre determinado assunto que envolve o Direito. Por sua vez, a jurisprudência é o histórico de decisões dentro do Direito a respeito de determinada questão. A jurisprudência tem valor argumentativo em ações em andamento e é um grande indexador de decisões semelhantes. A partir dessas diretrizes, é importante comentar acerca do Regime Ju- rídico Administrativo, que, para Di Pietro (2015, p. 96), é “[...] o conjunto de prerrogativas e restrições a que está sujeita a Administração e que não se encontram nas relações entre particulares”. Desse conjunto de normas que regulam a atividade pública, depreendem-se poderes e limitações que podem ser sintetizados em dois princípios fundamentais: Direito Administrativo: aspectos gerais 5 1. a supremacia do interesse público; 2. a indisponibilidade do interesse público. No que se refere à supremacia do interesse público, a atividade admi- nistrativa tem, por finalidade, o atendimento das necessidades sociais, ou seja, satisfazer o interesse público. Para Mello (2015, p. 62), interesse público é “[...] o interesse resultante do conjunto de interesses que os indivíduos pessoalmente têm quando considerado em sua qualidade de membros da Sociedade e pelo simples fato de o serem”. Assim, por ser coletivo, esse interesse prevalece em relação aos interesses particulares. É correto afirmar que a supremacia do interesse público sobre o particular confere, à Administração, as seguintes prerrogativas (MELLO, 2015). � Presunção de legitimidade e veracidade dos atos administrativos: as ações da Administração Pública são consideradas verdadeiras e legítimas. � Exigibilidade e autoexecutoriedade dos atos administrativos: de acordo com essa prerrogativa, a Administração pode exigir o cumprimento de suas determinações sem recorrer ao Poder Judiciário. � Poderes da Administração: para o exercício de suas funções, a Admi- nistração é dotada de poderes não atinentes aos particulares. � Possibilidade de constituir ou desconstituir relações jurídicas com terceiros sem a necessidade de concordância da outra parte. Já de acordo com o princípio da indisponibilidade do interesse público, a Administração Pública não pode dispor dos serviços públicos nem dos bens públicos que lhe pertencem sem autorização legal. Dessa forma, sendo o interesse público indisponível, tem-se que o gestor não pode livremente dispor dos bens, direitos e interesses; ou seja, a autoridade não pode deixar de agir quando a lei assim lhe impõe e não pode utilizar a verba pública de acordo com seus livres critérios. O Direito Administrativo moderno Uma vez estabelecido que há uma supremacia do interesse público sobre o interesse privado e que esse mesmo interesse público é indisponível, é importante perceber que, a partir desses conceitos, o Direito Administrativo tende a evoluir no ordenamento jurídicobrasileiro, especialmente quando consideradas algumas recentes mudanças legislativas. Direito Administrativo: aspectos gerais6 Para Mazza (2019), o Direito Administrativo moderno segue algumas ten- dências importantes. Entre elas, é possível destacar as seguintes: � a constitucionalização de temas administrativos, como a improbidade administrativa; � a inversão das fases licitatórias; � a responsabilidade objetiva do Estado; � codificações de temas ambientais. A Constituição Federal deve ser compreendida como a lei fundamental do Estado, caracterizando-se como suprema para sua organização político- -jurídica. Como afirmam Paulo e Alexandrino (2008, p. 5): [...] as normas de uma Constituição devem dispor acerca da forma do Estado, dos órgãos que integram a sua estrutura, das competências desses órgãos, da aquisição do poder e de seu exercício. Além disso, devem estabelecer as limitações do poder do Estado, especialmente mediante a separação dos poderes (Sistema de freios e contrapesos) e a enumeração de direitos e garantias fundamentais. Moraes (2011, p. 6) complementa esse conceito afirmando que “[...] é a Constituição que individualiza os órgãos competentes para edição de normas jurídicas, legislativas ou administrativas”. Destaca-se que as normas de uma Constituição se aplicam a todo o ordenamento jurídico, revogando todas as eventuais disposições constitucionais anteriores que sejam com elas incom- patíveis, apresentando um fundamento às disposições infraconstitucionais e reorganizando a atuação de todo o sistema jurídico, inclusive as relações entre os indivíduos e entre os indivíduos e o Estado. Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 passou a disciplinar di- versos temas pertinentes ao Direito Administrativo, como, por exemplo, a improbidade administrativa, que se refere ao princípio da moralidade, previsto no art. 37 da Constituição Federal. De acordo com esse princípio, o administrador público deve agir com honestidade e ética (BRASIL, 1988). Para Di Pietro (2015), trata-se de um princípio que deve ser observado não apenas pelo administrador, mas também pelo particular, quando se relaciona com a Administração Pública. Assim, agir com desonestidade pode configurar ato de improbidade administrativa, previsto no art. 11 da Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992, sujeitando o administrador a sanções como a perda da função pública, a suspensão dos direitos políticos e o pagamento de multa civil (BRASIL, 1992). Direito Administrativo: aspectos gerais 7 Já a inversão das fases licitatórias surgiu no ordenamento jurídico brasi- leiro por meio da Lei do Pregão, Lei nº 10.520, de 17 de junho de 2002, tendo sido estendida para outros procedimentos, como a concorrência que antecede as concessões de serviço público e as contratações de serviços de publicidade, e para as licitações no Regime Diferenciado de Contratação. Nesses modelos, o julgamento das propostas ocorre antes da habilitação, o que promove uma grande economia temporal e financeira, relacionando-se com o princípio da eficiência: o objetivo inicial de introdução desse princípio, pela Emenda Constitucional nº 19/1998, foi trazer, para a Administração Pública, métodos de gestão já utilizados nas empresas privadas, as quais buscam priorizar a produtividade, a qualidade na prestação de serviços e a maximização de resultados. Por esse princípio, portanto, o administrador público, em sua atividade administrativa, deve atender às necessidades e aos interesses públicos utilizando os recursos disponíveis de maneira eficiente: o objetivo central é atingir mais resultados com menos gastos. O pregão poderá ser utilizado nos contratos de aquisição de bens e de serviços comuns. Bens e serviços comuns são aqueles cujos padrões de desempenho e de qualidade possam, concisa e objetivamente, ser definidos no objeto do edital, em perfeita conformidade com as especificações usuais praticadas no mercado. O pregão também não é realizado por comissão de licitação, mas por pregoeiro, que deverá ser servidor designado pela Admi- nistração, sendo auxiliado por outros servidores. A responsabilidade objetiva do Estado, por sua vez, é uma característica importante do Direito Administrativo Moderno, nos termos do § 6º do art. 37 da Constituição Federal, e, de acordo com Mazza (2019, p. 89): [...] tornou-se regra geral no direito brasileiro a adoção da teoria objetiva na análise da responsabilidade estatal. Assim, praticamente em todos os casos de prejuízos imputados ao exercício de funções públicas, o surgimento do dever de indenizar independe da comprovação de culpa ou dolo do agente causador do dano. Basta à vítima demonstrar ato, dano e nexo causal. Trata-se de uma objetivação da responsabilidade, na medida em que a análise do dever de indenizar está centra- lizada no risco assumido pela conduta causadora do prejuízo, e não em aspectos subjetivos ou volitivos do comportamento do agente. A responsabilidade objetiva do Estado, então, fundamenta-se no fato de que não há qualquer relação entre o agente público e o particular prejudicado, tendo em vista que, quando o agente causou o prejuízo, não o fez na condição Direito Administrativo: aspectos gerais8 de particular, mas na condição de agente do Estado. Assim, a conduta do agente público não deve ser imputada à pessoa do agente, mas ao Estado, que está atuando por meio dele. Essa premissa apresenta forte relação da reponsabilidade objetiva do Estado com o princípio da impessoalidade, que prevê as ações do agente público como desvinculadas de caráter pessoal, de forma que se considera apenas o interesse público. Por fim, cumpre comentar sobre as codificações. Embora o Direito Admi- nistrativo não tenha um código que reúna todas as normas jurídicas sobre o tema, algumas matérias de competência administrativa já são regulamentadas por leis específicas, como o Código Florestal, Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (BRASIL, 2012). É importante destacar que o Código Florestal de 2012 enfrenta alguns entraves para sua implementação, pois muitos de seus dispositivos dependem de regularização e criação de instrumentos específicos para que tenham eficácia. É o caso do Cadastro Ambiental Rural, que consiste em um registro eletrônico com a finalidade de integrar as informações ambientais dos imóveis rurais, cuja disponibilidade atrasou por dois anos. Ainda, o Código prevê que os estados criem e fiscalizem Planos de Regularização Ambiental a fim de que as propriedades recuperem ou compensem áreas de preservação. Ocorre que, até 2017, nenhum estado tinha providenciado o plano. A competência administrativa comum atribuída aos entes da federação refere-se à permissão de que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios dividam a responsabilidade de proteger bens de valor histórico e cultural, como monumentos, paisagens naturais e sítios arqueológicos, mas sempre sujeitando-se às normas federais. Além disso, incumbe-lhes promover programas de habitação, proteger o meio ambiente, combater a poluição e fiscalizar a concessão de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios. É a competência adminis- trativa comum repartida entre os entes da federação para a cooperação em prol de um objetivo comum. Referências BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm. Acesso em: 12 abr. 2021. BRASIL. Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992. Dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na administração pública direta, indireta ou fundacional e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 3 jun. 1992. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8429.htm. Acesso em: 12 abr. 2021. Direito Administrativo: aspectos gerais 9