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C M Y CM MY CY CMY K ai165756144327_@ AF - livros irmão henrique justos cresça e faça crescer.pdf 1 11/07/2022 14:44:03 C M Y CM MY CY CMY K ai165756144327_@ AF - livros irmão henrique justos cresça e faça crescer.pdf 2 11/07/2022 14:44:04 HENRIQUE JUSTO, FSC CRESÇA E FAÇA CRESCER segundo CARL ROGERS Teoria da Personalidade Aprendizagem Centrada no Aluno Psicologia Humanista 8ª Edição [Comemorativa dos cem anos do autor.... ainda ativo] 1922-2022 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 3MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 3 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 Bibliotecário responsável: Samarone Guedes Silveira - CRB 10/1418 J96c Justo, Henrique, 1922- . Cresça e faça crescer : segundo Carl Rogers / Henrique Justo. – 8. ed. – Porto Alegre : Província La Salle Brasil-Chile, 2022. 248 p. : il. ; 21 cm. Bibliografia. ISBN: 978-65-89486-81-7 1. Psicologia. 2. Personalidade. 3. Psicologia humanista. 4. Aprendizagem centrada no aluno. 5. Rogers, Carl R. (Carl Ransom), 1902-1987. I. Título. CDU 159 .923 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 4MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 4 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 5 Henrique Justo Na PUCRS, foi Professor, Coordenador de Departamentos, Vice-Diretor da Faculdade de Educação (dois períodos) e Diretor do Instituto de Psicologia (dois períodos). É ex-coordenador do Curso de Pós-Graduação “Abordagem Centrada na Pessoa” no Centro Universitário La Salle, Canoas, RS. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 5MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 5 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 DUAS PALAVRAS Além de uma série de retoques, apresenta esta edição diversas páginas (uma quinzena) de vários autores, textos distribuídos ao longo do livro, com o objetivo de auxiliar o leitor a apreender melhor aspectos centrais da Psicologia Humanista, amplamente inspirada na filosofia fenomenológica e existencialista. O livro é particularmente apreciado por quem deseja iniciação na visão humanista em psicologia, especialmente na de Carl Rogers, e entrar em contato com elevado número de autores que, de longe ou perto, partilham esta visão das ciências do homem, perspectiva baseada em sólida base filosófica. Sincero agradecimento às Editoras que autorizaram a transcrição de textos mais extensos na presente edição. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 6MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 6 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 7 LEITOR AMIGO, CARL ROGERS APRESENTA SUA TEORIA Certamente está você interessado/a em ter, inicialmente, visão panorâmica do pensamento rogeriano. Eis algumas das grandes linhas que o caracterizam. (Rogers, in Wexler-Rice, 1974, p. 9-13): 1 - Abertura à experiência: busca permanente de mais e novos dados, com o fito de tornar a teoria cientificamente mais consistente: escoimando-a de falhas, acrescentando-lhe elementos, revendo pontos duvidosos. 2 - O centro privilegiado das preocupações científicas da Psicologia Humanista é a unicidade, a subjetividade da pessoa. Nisso opõe-se à visão predominante da psicologia americana: mecanicista, atomística, determinista. 3 - Outra característica é a importância dada ao enorme potencial do indivíduo. Empenha-se a Psicologia Humanista em criar atmosfera propícia ao desabrochamento destas possibilidades. 4 - Relacionamento profundo é das necessidades mais notórias do homem de hoje. Este elemento foi tomando relevo à medida em que prosseguiam os estudos. Os ‘grupos de encontro’ (grupos de crescimento) constituem tentativa de resposta a esta necessidade. 5 - Outro ponto de vista foi adquirindo peso ao longo dos anos: a existência é vivida agora. A vida não é, portanto, comportamento automaticamente determinado pelos anos iniciais da existência nem mero reflexo do condicionamento ambiental. 6 - A estruturação da personalidade não se realiza unicamente pela via cognitiva, porém, basicamente, de forma experiencial. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 7MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 7 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 8 Para o leitor ter contato direto com o pensamento de Rogers, fiz uso, neste livro, de muitas citações textuais em vez de recorrer a paráfrases que, facilmente, distorcem, mutilam ou empobrecem as ideias de um autor. Estas páginas não passam de singela amostra da grandiosa obra de Carl Rogers, mero aperitivo de um lauto banquete. Estimado leitor, não deixe de saborear ‘pratos’ como “Tornar-se Pessoa”, “Liberdade de Aprender”, ‘’A Pessoa como Centro”, “Grupos de Encontro”, “Carl Rogers sobre o Poder Pessoal’’, “Terapia Centrada no Cliente”… Não se arrependerá. Este ‹regime› lhe fará bem à saúde. Bom apetite! O autor MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 8MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 8 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 9 Retrato desenhado ao vivo por Maria de Lourdes Antunes Pimenta numa sessão do workshop de que foram facilitadores Carl Rogers e Psicólogos do Centro de Estudos da Pessoa de La Jolla, Califórnia, USA. (Aldeia de Arcozelo, Rio, fevereiro de 1977) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 9MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 9 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 10MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 10 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 11 ÍNDICE INTRODUÇÃO .......................................................................... 15 Quem é Carl Ransom Rogers? ....................................................15 Teoria Rogeriana .........................................................................18 CAPÍTULO I ESTRUTURA E DINÂMICA DA PERSONALIDADE I. Confiança no indivíduo ............................................................23 II. Tendência atualizante ..............................................................29 III. O self ......................................................................................37 1. Gênese do self .....................................................................37 2. Definição ..............................................................................37 3. Comportamento ...................................................................39 4. Congruência-incongruência .................................................43 IV. Abertura à realidade ...............................................................47 V. Defesas ....................................................................................52 1. Conceito ...............................................................................52 2. Perturbação da comunicação interna...................................53 3. Educação e ameaça .............................................................57 4. Problema dos limites ............................................................58 VI. Psicologia do desenvolvimento humano ...............................60 1. O self ....................................................................................60 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 11MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 11 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 12 2. Consideração positiva ..........................................................60 3. Desenvolvimento sadio e conflituoso ..................................63 CAPÍTULO II AS 22 PROPOSIÇÕES DE CARL ROGERS I. Proposições referentes às reações do organismo ......................70 1. O indivíduo é o centro de seu mundo de experiências .......70 2. O organismo reage a sua percepção do mundo ...............71 3. O organismo reage como um todo ....................................73 4. O organismo tende a manter-se e a expandir-se ...............75 5. O comportamento é tentativa finalista do organismo .......76 6. A emoção acompanha o comportamento .........................77 7. A compreensão do outro do ponto de vista dele ..............79 II.ideia. Experimente.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 49MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 49 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 50 O médico (a cena se passa no bar do hospital), embora tentado, não achou conveniente ofender a auxiliar com a observação picante que lhe aflorara à mente. Escreve Rogers (1966, I, p. 190) poder a expressão “abertura à experiência” referir-se tanto à totalidade do psiquismo como a setor mais ou menos limitado das vivências. “Seja qual for a extensão, sempre alude a estado psíquico que permite aos estímulos livre trânsito pelo organismo: sem deformações ou interceptações por mecanismos de defesa, e mesmo sem a intervenção repressora da subcepção. Em outros termos: quer se trate de estímulos externos (configurações de linhas, cores ou sons impressionando os nervos aferentes) ou de excitantes internos (sensações, lembranças, prazeres, desgostos, etc.), o organismo se encontra inteiramente aberto ao efeito produzido. Portanto, no caso de pessoa completamente aberta à própria experiência, haveria correspondência perfeita entre a estrutura do self e o conjunto de experiências referindo-se ao indivíduo.” Vejamos este processo em Brás Cubas: “Não lhes disse ainda, – mas digo-o agora que quando Virgília descia a escada, e o oficial de marinha me tocava no ombro, tinha eu cinquenta anos. Era portanto, a minha vida que descia pela escada abaixo, – ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres, de agitações, de sustos, capeada de dissimulação e duplicidade, – mas enfim a melhor, se devemos falar a linguagem usual. Cinquenta anos! Não era preciso confessá-lo. Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias. Naquela ocasião, cessado o diálogo com o oficial de marinha, que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei à sala, lembrei-me dançar uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos olhos bonitos, e do burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E não me arrependo; remocei. Mas, meia hora depois, quando me retirei do baile, às quatro da manhã, o que é que fui achar no fundo do carro? MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 50MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 50 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 51 Os meus cinquenta anos. Lá estavam eles os teimosos, não tolhidos de frio, nem reumáticos, mas cochilando a sua fadiga, um pouco cobiçosos de cama e de repouso. Então, – e vejam até que ponto pode ir a imaginação de um homem com sono, – então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho: Senhor Brás Cubas, a rejuvenescência estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas, – enfim, nos outros” (Assis, 1960, p. 281). Arriscando comparação, poderíamos dizer seguir a pessoa atentamente as imagens de seu circuito interno de televisão: quer conhecer a realidade, seja qual for, sem desviar a vista das figuras. Depois verá qual a atitude, qual o comportamento que melhor se harmonizará com essa realidade. Por isso, “indivíduo com percepção precisa de si e do ambiente sente-se livre de estar aberto a novas experiências e, assim, realizar seu potencial”, isto é, ir se realizando (Engler, 1996, p. 335). Rogers previne contra fácil mal-entendido: Abertura à experiência não significa dever o indivíduo ter consciência de tudo o que nele se passa. Não: o mais importante é a ausência de barreiras que impeçam a experienciação do que estiver organismicamente presente. Organismo significa a pessoa em sua totalidade (Cf. Gobbi-Missel, 1998). À medida em que o indivíduo cresce, amplia-se-lhe o horizonte; há diversificação e acréscimo constante de experiências. Aliás, não mero somatório, mas contínua estruturação e reestruturação das experienciações, com alteração no peso da significação dos vários elementos. Tomará consciência da diversidade, quiçá da divergência de necessidades físicas, psíquicas, sociais, etc., a solicitá-lo. Compete-lhe avaliar o tipo e o grau de satisfação que lhe proporcionarão. Satisfação que nunca será completa. Cumpre-lhe fazer as melhores opções possíveis dentro de sua realidade, tentando harmonizar a série de necessidades entre elas e com os valores que julgar importantes. O desenvolvimento é efeito da convergência de forças internas e exteriores favoráveis, porém, flexíveis, utilizadas em graus diversos pelas pessoas e, pelo mesmo indivíduo, dependendo da área de atuação e outras circunstâncias. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 51MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 51 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 52 Relembremos que o processo favorável – e os processos de autoavaliação e autodireção que supõe – dependem, primeiramente, da medida em que a experiência é disponível à consciência. “O ser mais digno de confiança em nosso mundo incerto é a pessoa inteiramente aberta às duas maiores fontes: os dados da experiência interna e os dados da experiência do mundo exterior” (Rogers, 1977, p. 236). Heidegger diria: o homem que que se abre a si mesmo “transforma- se, muda, se enriquece”. V. Defesas 1.Conceito. Uma cliente contou que sofria de pressão alta, mas havia meses não lhe tomava a medida, receosa do impacto que possível tensão elevada lhe causaria. Tinha extrema dificuldade em sair de casa sozinha, pois temia ser vítima de um ataque. Essa pessoa não apresentava condições de abertura a um setor da experiência. Encontrava-se em atitude, em situação de defesa. Portanto, em estado de incongruência. Hogan (citado por Rogers, 1951, p. 182) concebe a defesa como forma de comportamento subsequente à percepção de ameaça à configuração do self. A defesa é, portanto, provocada por ameaça (objetiva ou imaginária, mas sempre real para o indivíduo). Mostraram as pesquisas que, no caso de entrar a evidência dos fatos em contradição com a imagem do self, a evidência fica ameaçada de distorção. Em outras palavras – textuais de Rogers, 1961, p. 115 – não estamos em condições de apreender tudo o que recolhem nossos sentidos, mas tão somente os elementos que se ajustam à nossa autoimagem. Se me julgo bom motorista, tendo a atribuir a outrem, a deficiências mecânicas, às condições da rua ou estrada, eventual imperícia na direção quando, de fato, foi inabilidade minha. Se o prego, sob os golpes do martelo, MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 52MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 52 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 53 se entorta, martelaço acompanhado de palavrão, evidencia como o indivíduo deforma a realidade a fim de salvaguardar o autoconceito de bom marceneiro. Última ilustração – anedota – visando esclarecer o mecanismo ameaça-defesa: Um aluno era tão travesso, tão arteiro que tudo o que acontecia de anormal na escola, lhe era atribuído. Certo dia, perguntou-lhe a professora, inopinadamente: — Pedrinho, quem descobriu o México? — Não fui eu, professora! Juro que não fui eu! A defesa impede a percepção ou a correta percepção de parte da realidade. Algumas experiências são excluídas do campo da consciência por serem ameaçadoras demais à autoimagem. “Toda mudança destrói algo da segurança de que necessitamos” (Rogers, in Evans, R., 1975, p. 17. Cf. Jourard, S.M., 1979, cap. 8). 2. Perturbação da comunicação interna. No livro autobiográfico “Infância” (1961, p. 77-81), de Graciliano Ramos, temos o exemplo da passagem de um estado de congruência tendo as vivências livre trânsito no organismo – a um de incongruência, em que o indivíduo é instado a reagir a duas fontes de estímulos: aos reais, de um lado; e aos distorcidos, do outro. Um dia, ouvindo novamente a palavra “inferno”, ficou tomado de súbita curiosidade: afinal, o que significava realmente esta palavra? MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 53MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 53 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 54 Perguntou à mãe. Esta estranhou o interesse do pequeno, respondendo- lhe tratar-se de nome feio que não se devia pronunciar. O menino, porém,já havia compreendido que o termo designava “um lugar ruim, para onde as pessoas mal educadas mandavam outras em discussões”. Por isso, não se contentou com a resposta sumária da progenitora. Insistiu para obter pormenores. Cedendo, traçou-lhe a imagem tradicional do inferno: lugar em que homens eram torturados por demônios de rabo e chifres. — ”A senhora esteve lá? – indagou o pirralho. A mãe fingiu não ter ouvido a pergunta. — Eu queria saber se a senhora tinha estado lá. A mulher explicou que não esteve, claro. Mas que era verdade, não havia dúvida: os padres ensinavam que era assim. — Os padres estiveram lá? A mãe se enfureceu. Os padres não estiveram lá, mas são pessoas de muito estudo. E o pequeno, ante a falta de provas convincentes: — Não há nada disso. Minha mãe curvou-se, descalçou-se e aplicou-me várias chineladas. Não me convenci. Conservei-me dócil, tentando acomodar-me às esquisitices alheias. Mas algumas vezes fui sincero, idiotamente.” As linhas finais espelham a situação conflituosa: curiosidade insatisfeita (necessidade interna) e a conveniência de conformar-se, exteriormente, à opinião adulta. Em “Vidas Secas” aparece a mesma narrativa, porém, na terceira pessoa, com análise mais aprofundada dos sentimentos apenas esboçados no final da versão anterior. O garotinho ficou literalmente perplexo, chegando a querer negar o acontecido, isto é, a vivência incômoda. O diálogo introduzira um elemento negativo, insuportável, no “self “que pensariam dele agora? Se o padre o chegasse a saber? “O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 54MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 54 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 55 A cachorra baleia acompanhou-o naquela hora difícil. — Inferno, inferno. Não podia aceitar que palavra tão linda designasse algo tão ruim como lhe contaram. Discutiu com sinhá Vitória. Ela não esteve ali. Ninguém esteve ali. Então, como acreditar? Ela “tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo”. Preocupado, o garoto, falseia a comunicação consigo mesmo: “Diligenciou afastar do espírito aquela curiosidade funesta, imaginou que não fizera a pergunta, não recebera, portanto, o cascudo (...) Foi sentar- se debaixo de outra árvore.” Começou a duvidar: talvez sinhá Vitória lhe contasse a verdade. ‘’Apesar de ter mudado de lugar, não podia livrar-se da presença de sinhá Vitória. Repetiu que não havia acontecido nada e tentou pensar nas estrelas que se acendiam na serra. Inutilmente. Àquela hora as estrelas estavam apagadas. Sentiu-se fraco e desamparado, olhou os braços magros, os dedos finos, pôs-se a fazer no chão desenhos misteriosos. Para que sinhá Vitória tinha dito aquilo?” Mais um exemplo a fim de mostrar que a perturbação da comunicação interna é, talvez, mais comum do que pensamos: Coleguinhas de Guísela explicaram-lhe como eram concebidos os bebês. Confessa ela mais tarde: “Chorei muitas noites, escondida. O belo, espantoso mundo adulto, admirado e cobiçado, escondia coisas inconfessáveis (...). Mais tarde, consolei-me; pensava que aquilo acontecera há muito tempo; agora meus pais dormiam lado a lado no quarto, quietos e puros como os mortos do jazigo” (Luft, L, 1981, p. 65). Escreve Kinget (1966, I, p. 60): ‘’Para se subtrair à autocondenação e ao sentimento de desvalorização que acarreta, o indivíduo procura negar os elementos ameaçadores MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 55MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 55 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 56 de sua experiência. Em outros termos: evita a simbolização desses elementos ou transforma-os de modo a se tornarem aceitáveis. A não simbolização e a deformação aparecem, portanto, como recursos de proteção do self estimulados pela tendência atualizante em nível da subcepção.” É o mecanismo psíquico observado no menino de Graciliano Ramos e na menininha de Lya Luft. Ameaça-defesa. – O indivíduo quer ir na direção “X”. Percebendo a ameaça ‘’B”, desvia para a direção “Y”, dizendo, talvez, que fora este seu objetivo inicial. Teríamos ainda o caso clássico da criança primogênita rejeitando o bebê que vem aumentar a família. Muitos pais costumam reagir sem tato às manifestações dos sentimentos de hostilidade contra o intruso: “Vou matar o nenen.” “Vamos vender o nenen ... “, ficando, a criança com a penosa impressão de ser má, por isso, menos querida dos pais. Nela há dois sistemas motivacionais conflitantes: de um lado, percebe os sentimentos hostis condenados com relação ao bebê e, do outro, sente a necessidade de assegurar-se o amor dos pais – elemento importante de sua autoimagem. Solução: camuflar as representações referentes ao nenê: “Gosto muito do nenen! Como é lindo!” Em tais casos, o indivíduo torna-se confuso, desorientado, neurótico. A sequência parece ser a seguinte: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 56MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 56 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 57 O organismo funciona de modo a manter a consistência nas percepções do self e a congruência entre estas percepções e as experiências. Não procura obter prazer e evitar dores e desgostos, porém manter a própria organização (Pervin, 1970, p. 293). 3. Educação e ameaça. Ideal seria pudesse a pessoa ser educada, desde a infância, sem ameaça alguma, o que, sabemos, é impossível. Se, porém, tais “atentados” à liberdade experiencial, na expressão de Kinget, • forem relativamente raros • e, sobretudo, situados em atmosfera de aceitação, não deixarão, aparentemente, marcas negativas mais profundas no psiquismo. É preciso que o indivíduo sinta ocorrer a divergência no plano das opiniões, das ideias, dos sentimentos; que a desaprovação se refere a uma atitude ou modo de comportamento, e não a sua pessoa. Muitas MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 57MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 57 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 58 vezes deveríamos dizer: “Não gosto do seu modo de falar agressivo ou meloso”. Mas nunca: “Não gosto de você!” “A mim não me agrada seu vestido”, e não: “Você não tem gosto!” Esta distinção é fundamental! Se, porém, as ameaças forem mais ou menos constantes ou, mesmo se raras, caso o indivíduo viver em clima de não aceitação, então podem ocorrer perturbações na comunicação interna. No parecer de Charles A. Curran, assegurar clima isento de ameaças “é o primeiro passo a fim de conseguir que a pessoa encaminhe suas decisões e atos na direção de seus verdadeiros objetivos” (1969, p. 178). 4. Problema dos limites. Haverá leitores (especialmente educadores e pais) que se perguntarão, mais ou menos perplexos: que farei doravante? • Persistirei em pensar que os impulsos negativos devem continuar a ser reprimidos em mim e nos outros? • Ou passarei a deixar rédea solta a tais vivências? Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Como vimos numa citação de Rogers, transcrita páginas atrás. Postula a teoria ser não só conveniente, mas necessário chegar o indivíduo a reconhecer e identificar a natureza de suas vivências a fim de poder assumir posição consciente em face delas, em vez de se converter, eventualmente, em seu joguete: “... a consciente aceitação de impulsos e percepções aumenta consideravelmente a possibilidade do controle consciente. É a razão pela qual a pessoa que conseguiu aceitar a própria experiência também adquire a impressão de possuir o controle de si mesma” (Rogers, 1951, p. 514). As pessoas opostas a tal atitude parecem revelar receio de facilitar a aprovação de sentimentos negativos. Quem acreditar na tendência à autorrealizacão da personalidade está convicto de que ela utilizará, em geral, de forma positiva o conhecimento de si própria. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 58MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 58 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 59 Outros dirão facilitar aexpressão verbal de experiências negativas sua tradução em atos. A probabilidade de ato, de reação agressiva, por exemplo, é proporcional ao grau de tensão experienciado, segundo opinião de Kinget. Portanto, tudo o que reduz a tensão – como a expressão verbal diminui a probabilidade da ação. Ademais disso, situação de tensão limita o campo psíquico, de modo a dificultar o encontro de solução adequada. Poucas palavras trocadas com pessoa tentada de suicídio são, não raro, suficientes para ela tornar a perceber aspectos interessantes da vida ou a entrever saída para situação anteriormente desesperadora. Escutemos mais uma vez o grande mestre Rollo May (1972, p. 92): “As pessoas que manifestam alarme afirmando que se os desejos e emoções não forem reprimidos explodirão de todas as maneiras, e todo o mundo, por exemplo, desejará sexualmente sua mãe ou a mulher de seu melhor amigo, estão falando de emoções neuróticas. Para ser exato, sabemos que são precisamente as emoções e desejos reprimidos que mais tarde voltam a impulsionar compulsivamente a pessoa.” Na medida, porém, em que a pessoa estiver integrada, menos impulsivas se tornarão suas emoções, pois elas aparecem numa estrutura, numa organização, e não selvagemente soltas. Se, num teatro ou filme, aparecer um almoço ou janta como elemento da peça ou da película, não me vem vontade louca de comer, pois não fui ao teatro ou cinema para me alimentar, mas a fim de assistir a um espetáculo. “Naturalmente, conforme indicamos em toda esta obra, nenhum de nós escapa aos conflitos, de vez em quando, mas isto é diferente de ser compulsivamente impelido pelas emoções” (May, p. 93). Os artistas, graças à refinada sensibilidade, não raro, intuem verdades psicológicas: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 59MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 59 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 60 “Falar, contar detalhes, impulsos, reações quase descabidas daqueles que são parte da nossa carne – escreve Adalgisa Nery – diminui muito o movimento do nosso cósmico interior” (1970, p. 14). A manifestação verbal de tendências negativas constituiria incentivo à ação tão somente no caso de a pessoa encontrar aprovação em vez de simples constatação de uma realidade da parte do interlocutor. Tanto a intensificação, resultante da aprovação, como a repressão, impedem a correta simbolização da experiência. VI. Psicologia do desenvolvimento humano 1. O self. À luz dos conceitos rogerianos expostos e um e outro que ainda virá, podemos dizer algo mais sobre o desenvolvimento humano. A criança nasce munida de um dinamismo que a levará a crescimento positivo, isto é, na linha de maior diferenciação e expansão, de crescente autonomia, de progressiva socialização – em suma: de autorrealização do self. O self emerge pouco a pouco do campo experiencial: a criança se vai percebendo, gradativamente, como ser à parte, autônomo; apreende, igualmente, suas relações com as coisas e as outras pessoas, formando, paulatinamente, ideia de si a partir dessas relações. Lentamente, vai o self se enriquecendo e diferenciando. (Cf. Murphy, 1966, cap. 20: The origins of the self.) Para Rogers, Combs, Snygg e outros, o self é adquirido. Maslow acha que é constitucional. 2. Consideração positiva. Da relação com os outros – inicialmente com os pais – nasce elemento fundamental ao sadio desenvolvimento do self: a necessidade de consideração positiva. “À medida que a noção do self se desenvolve, desenvolve-se também o que chamamos de necessidade de consideração positiva. É necessidade universal, aparecendo de maneira contínua e penetrante” (Rogers, 1966, I, p. 219). A ampliação, mais rápida ou mais lenta, depende da constelação familiar, resultando num self ‘aparentado’, na expressão de Gaylio (1997, p. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 60MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 60 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 61 162). Possui o homem a exigência de ser apreciado pelos outros. É maior esta necessidade na proporção em que são importantes para o indivíduo. A opinião dessas pessoas-critério pode tornar-se força diretriz e reguladora mais intensa que o processo de autoavaliação: o indivíduo orientar-se-á, então, mais por essas pessoas do que a própria experiência, entrando em conflito com o dinamismo de autorrealização. Exemplos: Um rapaz é muito dependente dos pais. O sonho destes é vê- lo “doutor”, advogado. O filho, embora não sinta atração pela profissão, não ousa decepcionar os progenitores. Consegue formar-se. Os velhos estão ufanos com o filho, “orgulho da família”. Este, porém, exerce a profissão a contragosto, sem entusiasmo. Falecem os pais. Então, livre de empecilhos, deixa a advocacia para se dedicar à indústria. – O progenitor do escritor João Mohana, autor do best-seller “A Vida Sexual de Solteiros e Casados”, manda o filho estudar medicina. Este obedece. Trabalha na arte de Hipócrates durante oito anos. Após a morte do pai, se torna sacerdote, “médico das almas”. Standal denomina complexo de consideração a configuração de experiências relativas ao self, graças à qual o indivíduo recebe a consideração positiva de outrem. O termo complexo é tomado aqui no sentido junguiano, isto é, conjunto de elementos psíquicos relacionados entre si. Constelação de elementos. Às necessidades básicas da pessoa pertence a de elevado grau de consideração, de reconhecimento da parte dos outros. Tão importante como o ar à respiração, diz Weber (1996). Seria a falta de consideração positiva o gatilho desencadeador da tragédia provocada, numa escola de Denver, USA, no mês de abril de 1999, com um saldo de treze vítimas fatais, mais a dupla causadora da tragédia que cometeu suicídio? Estes dois “acreditavam ser excluídos por seus colegas”. Testemunha um colega haver um deles, no ano anterior, apontado uma arma para um companheiro, dizendo: “Estou farto de rirem de mim. Vou atirar em ti; vou te matar.” Odiavam os estudantes populares por seus MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 61MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 61 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 62 êxitos nos esportes. De outro lado, porém, eram alunos brilhantes.”Seus companheiros os descrevem como gênios.” Consideração positiva facilita a abertura à experiência, portanto, favorece a congruência; consideração seletiva ou parcial produz efeitos opostos. A consideração positiva é incondicional se alguém é estimado como pessoa independentemente dos critérios que poderiam ser utilizados na apreciação dos diversos aspectos de seu comportamento, modo de pensar, preferências... Consiste esta atitude num “interessar-se pelo outro, mas num interessar-se não-possessivo; numa aceitação do outro como pessoa autônoma; numa confiança básica: convicção de ele ser merecedor de confiança” (Rogers, 1969, p. 109). O outro parece tender a comportar-se na linha da nossa expectativa. Certa vez, professor universitário teve que ausentar-se da sala de exame para atender um telefonema, sem haver substituto disponível como vigilante. Comunicou ele à turma a situação, terminando assim: “Tenho confiança em vocês.” Anos depois, ainda comentavam os estudantes de então o fato de ninguém haver aproveitado a oportunidade para colar, como so ía acontecer mesmo na presença de professores. Constitui a consideração positiva incondicional uma das condições basilares da teoria terapêutica rogeriana, ao lado da empatia e congruência. À necessidade de consideração positiva dos outros acrescenta- se a necessidade de consideração positiva de si mesmo. É sentimento de consideração percebido com relação a certas experiências do self, independente da avaliação de outras pessoas. Vem a ser necessidade adquirida, estreitamente relacionada com a exigência de apreciação da parte dos outros. Caso chegar a perceber todas as suas experiências como dignas de apreço, terá a pessoa consideração positiva incondicional de si. Segundo Engler (1996), a autoconsideraçãopositiva é efeito automático da consideração positiva incondicional de que for alvo dos outros. Esses valiosos elementos da dinâmica do self começam a estruturar- se na infância. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 62MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 62 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 63 3. Desenvolvimento sadio e conflituoso. Adequado desenvolvimento do self realizar-se-á num clima em que a criança puder, sem receio, viver aberta à experiência: em que puder aceitar a si mesma; em que for aceita pelos pais, embora estes lhe condenem certas reações ou modos de agir. Eis caso de atitude compreensiva: “Uma senhora estava de visita com a filhinha na casa de família amiga. Na hora do almoço, a pequena saiu-se com esta: — Mãe, eu gosto mais da nossa sopinha. Esta é fedorenta! A mãe soube contornar a situação, compreendendo a criança: A nossa é boa, sim. Mas esta também é boazinha, só que é feita com outra verdurinha. Há muitos tipos de sopinha, e a titia prefere esta” (M.Z.G.). Observa Carl Rogers (1951, p. 499) que sentir-se amada dos pais constitui uma das experiências fundamentais para a criança. É dos elementos significativos e centrais da estruturação inicial do self. Segue exemplo de posição não compreensiva, não centrada na pessoa, tendo reflexos negativos sobre a autoimagem. “Era um bom menino. Gordo, corado, tinha pernas rechonchudas como duas cotilédones. Essas pernas travavam seu andar e prejudicavam um pouco sua dignidade. Os grandes não sabiam que ele tinha aquela dignidade e às vezes, por causa duma falta de jeito sua, riam-se. O menino também gostava de rir, mas havia riso e riso. (...) O menino achava que as pessoas grandes não tinham bastante seriedade e também que nunca se podia contar com elas, porque hoje queriam brincar e amanhã não queriam. Uma coisa agora provocava riso; a mesma coisa que logo trazia castigo” (Corção, 1961, p. 53). Os ventos ora favoreciam a navegação do barquinho do self, ora lhe eram adversos, ocasionando perturbações na mente da criança. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 63MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 63 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 64 Quando há compreensão, “pelo fato de a estrutura nascente do self não estar ameaçada da perda do amor, e de os sentimentos serem aceitos pelos pais, a criança (jovem ou adulto) não precisa negar simbolização às satisfações que está experienciando, nem distorcer vivências devido à reação dos pais. Desta forma, desenvolverá sadia estruturação do self, sem negação nem deformação da experiência” (Id., Rogers, 1951, p. 503). Acertadamente escreveu Peter Wild (1988, p. 73) que só quem ama é capaz de apreender o outro em todo o seu valor. Em termos rogerianos: quem for capaz de atitude empática, isto é, capaz de compreender o outro do ponto de vista dele. Gozando de liberdade – por sentir-se aceita – a criança submete as vivências todas (o mesmo se verifica no adulto) ao processo de avaliação, servindo a tendência atualizante de critério: são valorizadas positivamente as experiências favoráveis à preservação e enriquecimemo do indivíduo, e negativamente as que forem percebidas como nocivas. Progressivamente, dividirá o indivíduo as vivências em dois grupos: favoráveis e desfavoráveis ao organismo. Desejará e há de procurar as primeiras e passará a rejeitar e evitar as demais. Caso, porém, o ambiente for desfavorável, isto é, de ameaça, corre ela o risco de comportamento incoerente. A necessidade de conservar ou reconquistar o amor dos pais – para defender a autoimagem de filho/a amável e amada – levá-la-á a negar ou distorcer a representação das experiências condenadas. Se contar que tem raiva do guri do vizinho, que lhe quebrará a cara... E os pais, em lugar de compreendê-la, a chamarem de má e a ameaçarem com punições, ela, a criança, talvez fantasie tanto, a ponto de chegar a substituir a gana de o agredir com a vontade de lhe dar um presente. Esta metamorfose aparente e superficial restituir-lhe-á a reconfortadora autoimagem de “criança boazinha”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 64MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 64 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 65 Eis fato acontecido: “Um aluno, filho único, criado pelos pais na maior das dependências, gostava de um tipo de caderno de colega seu, por ter capa colorida. Falou à mãe. Esta disse que não gostava. A partir dali, o menino começou a achar o caderno espalhafatoso, feio, como dissera a mãe” (E.B). O comportamento deixa de ser autêntico. Fala e age o indivíduo como se as próprias vivências, falseadas em sua representação, correspondessem à tendência atualizante; como se reagisse à necessidade realmente sentida. A avaliação da experiência é realizada depois de submetida ao crivo de censura prévia. A construção da personalidade, em tais casos, será feita com número maior ou menor de elementos postiços, portanto, sem a desejável consistência. “Um menino viu, aos cinco anos, o amor dos pais repartido com um priminho de sete meses que ficara órfão. Enciumado, disse certa vez ao pai: “Quando tu vais para o trabalho, eu vou atirar o nenê pela janela.” O menino foi severamente repreendido e proibido de assistir os desenhos da TV naquele dia. A ameaça da criança não se repetiu, conseguindo reprimir os sentimentos de hostilidade em relação ao bebê, mas passou a comportar-se agressivamente com os coleguinhas” (D.H.L.S). Cerceou-se-lhe a liberdade experiencial. A agressividade continua existindo, mudando de alvo. Pesquisa de Coopersmith demonstrou terem as manifestações de estima provenientes do ambiente social menor influxo sobre a autoestima do que habitualmente se admite. “Mas – são palavras textuais do autor – as condições do lar e o ambiente interpessoal imediato possuem a mais decisiva influência sobre a avaliação do próprio valor.” Tudo se passa como se as crianças fizessem suas as opiniões emitidas sobre elas por seu ambiente. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 65MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 65 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 66 Estudos de A. L. Baldwin mostraram como atitudes democráticas de aceitação são facilitadoras do crescimento psicológico: da capacidade intelectual, segurança afetiva, originalidade... Ao passo que os filhos de pais autoritários se mostram instáveis, rebeldes, agressivos e briguentos. O tipo de avaliação dos filhos da parte dos pais parece refletir, em grau elevado, a medida em que estes se aceitam a si mesmos. Mães que se aceitam a si mesmas, (“who are self-accepting”) tendem a possuir atitude de aceitação também com relação aos filhos. Esquematicamente, podemos dizer que - a disponibilidade da experiência - e seu enriquecimento progressivo - possibilitam o exercício adequado das funções de autoavaliação e autoconceito - que orientam devidamente reações e comportamento MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 66MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 66 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 67 Abertura a fenômenos e métodos Na imensidade do nosso mundo interior tudo tem significação. Não podemos escolher apenas o que nos convém, ao sabor dos nossos sentimentos, da nossa fantasia, da forma científica e filosófica do nosso espírito. A dificuldade ou obscuridade de um assunto não é razão suficiente para o desdenhar. Todos os métodos devem ser empregados. Tanto o qualitativo como o quantitativo são verdadeiros. As relações suscetíveis de ser expressas em linguagem matemática não são mais reais do que as que o não são. Darwin, Claude Bernard e Pasteur, que não puderam descrever as suas descobertas como o auxílio de fórmulas algébricas, foram tão grandes sábios como Newton e Einstein. A realidade não é forçosamente clara e simples, nem sempre é seguro que nos seja sempre inteligível. Além disso, apresenta-se sob formas infinitamente variadas. Um estado de consciência, o úmero, uma ferida, são coisas igualmente verdadeiras. O interesse de umfenômeno não está na facilidade com que as nossas técnicas se aplicam ao seu estudo. Deve ser julgado em função, não do observador e dos seus métodos, mas do assunto, do ser humano. A dor da mãe que perdeu o filho, a angústia da alma mística mergulhada na noite obscura, o sofrimento do enfermo devorado por um câncer, são de evidente realidade, embora não mensuráveis. Tampouco se tem o direito de desdenhar o estudo dos fenômenos de vidência e do de cronaxia dos nervos, sob pretexto de que a vidência não pode ser produzida quando se queira, ao passo que a cronaxia é exatamente mensurável por método simples. Temos de nos servir, nesse inventário, de todos os meios possíveis, contentando-nos com observar o que não se puder medir. Carrel, s.d, p. 53 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 67MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 67 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 68MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 68 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 69 CAPÍTULO II AS 22 PROPOSIÇÕES DE CARL ROGERS Em 1951, apresentou Rogers esquema de sua teoria da personalidade sob a forma de proposições (Cf. 1951, cap. II). Confessa haver o progressivo contato mais profundo com os pensamentos e sentimentos dos outros provocando radicais mudanças em suas concepções do psiquismo humano. Declara defender agora, graças à experiência, convicções quase opostas às que partilhara no início da vida profissional (Id., p. 482; Rogers et al., 1971, p. 91). “Não passando a teoria de tentativa”, é natural haver aspectos incertos ou obscuros em algumas proposições. “Tomadas como um todo, a série de proposições constitui uma teoria da personalidade, procurando explicar fenômenos previamente e conhecidos, assim como fatos referentes à personalidade e ao comportamento recentemente observados em terapia” (Id. ib.). Mais adiante (1974), nos diz que a teoria da personalidade não constituiu ponto de prioridade de suas indagações científicas. Várias ideias da teoria rogeriana já apresentadas neste livro voltarão nas páginas seguintes. Foi necessário escolher entre esta repetição e a mutilação da série de proposições. Repetitio mater scientae, diziam os antigos. (A repetição é a mãe do saber). Indispensável ter presente a observação de Weinberger (1996, p. 97) de que Rogers não quer se tomem seus conceitos teóricos como dogmas, mas se considere seu modelo de personalidade suscetível de modificações e progressos. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 69MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 69 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 70 I. Proposições referentes às reações do organismo 1. Todo indivíduo vive num mundo de experiências em mutação contínua, mundo de que ele é o centro. Cada qual vive num mundo à parte de experiências. Embora o mundo seja, para todos, essencialmente o mesmo do ponto de vista objetivo, apresenta continuamente aspectos novos e diferenciados em cada pessoa. Maravilhoso caleidoscópio acessível (ao menos em potência), na totalidade de seu colorido e variados aspectos, tão-somente ao próprio indivíduo. “Entre minhas atitudes e concepções fundamentais, há uma que se deve ter particularmente em conta ao avaliar minha teoria: é minha fé inabalável na primazia da ordem subjetiva. O homem vive essencialmente num mundo subjetivo e pessoal. Suas atividades, até as mais objetivas – seus esforços científicos, quantitativos, matemáticos, etc. – representam a expressão de finalidades e escolhas subjetivas” (Rogers, 1966, I, p. 165; 1968, cap. 4). Nenhum instrumento científico nos pode proporcionar maior riqueza de conhecimentos do que a percepção do indivíduo por si mesmo: importante verdade referente ao mundo privado do indivíduo é a de que somente pode ser conhecido, de forma genuína e completa, por ele mesmo. Fato corriqueiro, percebido por uma criança, para ilustrar esta afirmação: “Certa vez, meu filho de sete anos (encontrava-me eu acamada na ocasião) me disse que estava sentindo muito frio. Eu respondi: — Eu estou com muito mais frio que tu. E ele: — Tu não podes saber. Tu não sentes o frio dos outros” (J.N.F.). Aliás, a ciência psicológica ainda pouco sabe do indivíduo; esteve ela demasiadamente voltada, até há pouco, para o homem em geral: “Não muito, creio eu, se conhece a respeito do homem, e o que se conhece diz respeito principalmente ao “homo sapiens”como espécie, e não à pessoa conhecida pelos outros e por si mesma” (Murphy, 1966, p. IX; cf. Ravagnan, 1966, cap. Vl). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 70MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 70 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 71 Isto não significa ser toda experiência individual consciente. Não. O consciente – na frase de Carl Gustav Jung – não passa de ilha cercada pelas águas do inconsciente. Grande parte (a maior parte?) se encontra, porém, disponível à consciência. Aliás, é convicção de Rogers de que fração reduzida das vivências é conscientemente experienciada, porém, vasto conteúdo encontra-se disponível ao consciente. 2. O organismo reage ao campo dos estímulos como o experencia e percebe. Este campo perceptual é a realidade para o indivíduo. Ninguém reage a uma realidade totalmente objetiva, mas à sua percepção da realidade, como vimos ao tratar da noção do self e do comportamento. Tomemos contrabandista a oferecer artigos a dois indivíduos na rua. Um compra, jubiloso, um exemplar, contente com a aquisição. O outro se retrai, desconfiando da qualidade da mercadoria. Com razão escreve Libânio (1988, p. 11) que a realidade, para nós, somente existe já interpretada. Daí a afirmação de Pablo Picasso: ‘’Não vejo a natureza como ela é; ela é como a vejo.” Eis exemplo estampado na crônica policial de uma revista alemã: O caixa de importante joalheria de Viena cobiçava um colar de pérolas de elevadíssimo valor. Não dispondo da soma para adquiri- lo, arquitetou um plano: num momento oportuno, substituiria o exemplar da vitrina por um de pérolas falsas. Para o caso de ser apanhado, comprou uma garrafa de ácido capaz de dissolver rapidamente a joia. No dia aprazado, deixou no apartamento alugado as malas prontas. Depois do furto, no fim do expediente da manhã, voltou de carro para casa. Estacionou em frente do edifício e subiu a fim de apanhar os pertences e fugir, transpondo a fronteira. Apenas havia entrado no apartamento, alguém bateu à porta: era o zelador. — Um policial quer falar com o senhor. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 71MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 71 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 72 Nervoso, pega o colar e o lança no litro de ácido. Desce agitadamente. O que há? perguntou, preocupado, ao policial. Seu carro está mal estacionado: muito afastado da calçada. O que a pessoa percebe como realidade é, de fato, realidade para ela, e comportar-se-á de acordo com essa experiência interior. Por isso, não é suficiente conhecer o estímulo – um relógio, por exemplo, no caso do vendedor de rua, citado há pouco – a fim de prever e/ou explicar o comportamento dos indivíduos. É indispensável conhecer a percepção pessoal que tem da situação. “O determinante específico do comportamento é o campo perceptual do indivíduo” (Rogers, 1947, p. 120). Esta afirmação é prenhe de consequências. Se aceita, requer reviravolta nos métodos de trabalho: dar-se-ia menos importância às informações sobre a pessoa do que à própria pessoa; minimizar-se-ia o valor dos testes; rótulos, como paranoide, pré-esquizofrênico, etc., passariam a segundo plano. O mais importante, o primordial seria “ver com ela, em vez de avaliá-la” (Rogers, id. ib.). Eis um exemplo que ilustra os dois métodos: Um aluno pintara o ovo de Páscoa de marrom. A professora, alarmada, aconselhou os pais a procurarem um psicólogo para o menino. A profissional coletou dados, aplicou testes, fez entrevistas. Um dia, enquanto esperava ansiosamente o resultado, o diagnóstico do problema do menino, perguntou-lhea mãe: — Meu filho, mas por que pintaste o ovo com esta cor? — Ué, mãe! Os ovos de chocolate não são assim? Demasiadas vezes, escreve Gordon W. Allport, esquecemos a mais rica fonte de dados, isto é, o autoconhecimento do indivíduo. Poderá a pessoa saber se a percepção corresponde ou não à realidade objetiva, pois “cada percepção é, essencialmente, uma hipótese – hipótese relacionada com uma necessidade individual”? (Rogers, 1951, p. 486). Sim, recorrendo a outras fontes de informação. Uma pessoa tem a impressão de que tábua colocada por sobre um canal tem suficiente consistência para lhe dar passagem. Avança cautelosamente, observando a reação da madeira. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 72MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 72 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 73 Se consegue passar, terá a confirmação da veracidade da percepção. Outro exemplo: vejo um volume. Deve pesar seus dez quilos, acho eu. A balança poderá decidir sobre a justeza da minha avaliação. Ao lado das experiências assim verificadas, há muitíssimas outras não conferidas. Estas fazem igualmente parte da nossa realidade pessoal, podendo possuir tanto peso quanto as demais. Esta proposição tem importantes consequências para a ciência do comportamento, pois “a maioria dos nossos problemas pessoais e interpessoais não derivam de desavenças sobre a realidade, mas de distorções e falsas percepções da realidade” (Hamachek, 1979, p. 60), ou simplesmente de diferentes percepções da realidade. Há modificação da realidade, diz Capra (s.d., p. 288), logo na porta da percepção. 3. O organismo reage como um todo organizado ao seu campo fenomenológico Afirma Gordon Allport: ‘’As teorias europeias tendem a considerar o homem como totalidade; as teorias anglo-americanas, ao invés, se preocupam, a miúdo, mais com as partes do todo: traços, atitudes, síndromes, fatores ou condutas (1968, p. 8; cf. Brammer-Shostrom, 1970, p. 34-35). Daí uma das causas da resistência americana às tipologias ou caracterologias ou classificação dos temperamentos, que abarcam o homem como totalidade. Entretanto, como bem frisaram Hall e Lindzey (1966, p. 591-2), referindo-se a autores de teorias da personalidade, “a maioria dos teóricos contemporâneos pode ser considerada, seguramente, como organísmica. Encaram o indivíduo como unidade de funcionamento total. Somente Eysenk e Miller Dollard parecem não aceitar esta afirmação e põem em dúvida a necessidade de estudar o indivíduo em sua totalidade” (Cf. Bühler, Ch., 1962, p. 244). O enunciado da terceira proposição rogeriana enquadra o autor na moldura das teorias organísmicas ou holísticas. “O fato saliente que deve ser levado em consideração é que o organismo constitui um sistema total organizado, no qual a alteração de uma parte produzirá mudanças em MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 73MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 73 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 74 outra” (Rogers, 1951,p. 487). E logo acrescenta tratar-se de “organização dirigida para um objetivo” (a goal-directed organization). Brentano (1874) exumara a esquecida noção da intencionalidade, tornando-se ela um dos conceitos básicos da fenomenologia de Edmundo Husserl (1859-1938). Rogers rejeita, por simplista, a explicação do comportamento humano pelo esquema behaviorista “estímulo-resposta”. (Entretanto, foi ele formado dentro dos parâmetros dessa escola, não esqueçamos.) O enunciado da proposição é válido tanto para reações fisiológicas como para as psicológicas: o organismo psico-físico-social age como um todo. “Ele trabalhava na capital, enquanto ela residia no interior. Eram noivos. Nos fins de semana, o rapaz ia visitar a noiva. Com a aproximação do casamento, cada vez a encontrava acamada, com fortes dores de estômago. Encaminhada ao médico, verificou-se não padecer ela de nenhum mal fisiológico. Consultou um analista. Em pouco tempo, certificou-se que as dores não passavam de rejeição do casamento, pois a moça não queria separar-se da mãe, já que deveria ir morar com o futuro marido na capital” (M.N.C). Ensina Rollo May: “É bem sabido, por exemplo, que os diferentes tipos de doenças podem servir a finalidades permutáveis ao indivíduo. A moléstia física tem condições de aliviar perturbações psicológicas dando foco a uma ansiedade ‘indefinida’. Assim a pessoa tem algo concreto com que se preocupar, o que é menos penoso do que sofrer ansiedade’flutuante”; ou então pode constituir o alívio necessário aos que não aprenderam a assumir uma responsabilidade. Muita gente, graças a uma doença séria, ‘alivia’ os sentimentos de culpa, por menos construtivo que seja o método” (1972. p. 91). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 74MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 74 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 75 O ator Elliot Gould, nascido em 1938, teve mãe dominadora. O menino era sensível e tímido. Aos oito anos, foi matriculado na Escola de Arte Dramática de Charlie Lowe. Mas representar era pouco. Conseguiu a mãe fosse o menino aceito como manequim de roupas infantis. Lembrando esta época, confessa o ator: “Eu tinha tanto medo de minha mãe que não ousava dizer não...” E a mãe, discordando: “Ele diz isto só para me aborrecer. Na realidade, gostava ele do trabalho. Só uma coisa não conseguia eu entender: todas as vezes que tínhamos compromisso para fotografias, Elliot vomitava no ônibus” (Cf. “Cláudia”, fev. 1972, p. 52). 4. O organismo possui uma tendência básica: • manter-se, • realizar-se, • expandir-se. Como vimos no início do presente estudo, esta proposição é fun- damentalíssima na teoria de Rogers. Segundo ele, as diferentes necessidades psico-físico-sociais constituem expressões parciais desta tendência, que forma a motivação básica do organismo. Este se atualiza no sentido de maior: - diferenciação, - expansão, - autogoverno, - autorregulação, - autonomia, - e socialização (Rogers, 1951, p. 488). Cita uma série de autores que aceitam a mesma orientação: Angyal, Horncy, Sullivan, Goldstein, Kluckhohn, Mowrer. A tendência à autorrealizacão pode verificar-se no organismo físico desde a concepção até à maturidade: energia intrínseca assegura, em condições normais, plena realização do indivíduo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 75MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 75 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 76 No plano psicológico, evidencia-se esse mecanismo no atendimento terapêutico, às vezes de forma dramática, quando o indivíduo se encontra à beira da psicose ou do suicídio. Seria, porém, errôneo pensar que esse crescimento se opera sempre de modo suave e fácil, como que automaticamente. Rogers compara-o às tentativas penosas da criança que aprende a caminhar. Existe uma condição para esse dinamismo poder atuar adequadamente: a correta simbolização da experiência e sua conveniente diferenciação. Caso contrário, poderá o indivíduo confundir comportamento regressivo com atitude construtiva. Exemplo de indivíduo que achou meio de satisfazer a “tendência básica do organismo”: “Conheço um senhor, hoje uma das grandes fortunas de cidade do interior do Rio Grande do Sul. Quase no final da terceira década de existência, não passava de um semialfabetizado, de condições econômicas inferiores. Com muito esforço pôs-se a estudar, chegando a concluir o curso universitário e elevando-se a nível econômico invejável. Ele, porém, ainda não se sente completamente realizado: quer expandir-se mais ainda” (M.A.). Na palavra do filósofo espanhol Miguel de Unamuno, a gente sente- se viver em processo de criação contínua, apresentando todo momento visão nova, diferente (1952, p. 52). 5. O comportamento é, basicamente, uma tentativa finalista do organismo: isto é, satisfazer as necessidades como são experenciadas e dentro do campo como este é percebido. A proposição anterior explicou a primeira parte do enunciado acima: a tendência à atualização, à realização pessoal, como motivação essencialque é, por assim dizer, enfeixa ou orienta todas as necessidades a fim de assegurar a consecução desse grande objetivo do organismo. A outra parte já foi considerada na segunda proposição. Rogers, apresenta, aqui, dois aspectos novos: Pergunta se todas as necessidades têm sua origem em tensões fisiológicas, como pesquisas de Ribble e outros parecem indicar. Assim, uma MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 76MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 76 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 77 criança, sem adequado contato físico com a mãe, continuaria em estado de tensão fisiológica de insatisfação. Mas, as pesquisas, nesta área, foram, até hoje, precariamente planejadas e insuficientemente controladas. O segundo aspecto novo, deveras importante, é o seguinte: “Também deve frisar-se que nesta conceituação da motivação, todos os elementos efetivos existem no presente. O comportamento não é causado por algo ocorrido no passado. As tensões presentes e as necessidades presentes são as únicas que o organismo tenta reduzir ou satisfazer. Embora seja verdade que experiências passadas certamente contribuíram para modificar o sentido que será percebido nas experiências do momento, ainda assim, não há comportamento a não ser para satisfazer necessidade presente” (Rogers, 1951, p. 492). Estas afirmações colidem frontalmente com a opinião largamente difundida sobre o papel primordial das motivações inconscientes. “...A teoria de Freud dá a mais forte ênfase aos fatores inconscientes, e uma grande variedade de teorias, influenciadas pela posição psicanalítica ortodoxa, como a de Murray e Jung, fazem o mesmo. No outro extremo, encontramos teorias como as de Lewin, Allport, Goldstein e Rogers, em que não são tão valorizadas as motivações inconscientes; elas são consideradas como importantes apenas no indivíduo anormal” (Hall/Lindzey, 1966, p. 588, cf. G.W. Allport, 1969, cap. 7: O Extrato Inconsciente). Note o leitor, que esses últimos autores não negam a existência de fatos inconscientes; simplesmente dão relevo maior ao papel do consciente e as melhores formas de a pessoa acessar os fenômenos psíquicos nesse nível. Na opinião de Jourard (1997, p. 151), o indivíduo não é joguete do inconsciente: se não for na maioria dos casos, em elevado número de circunstâncias goza de liberdade para escolher como será e como vai agir. 6. A emoção acompanha e, em geral, facilita este comportamento orientado para um objetivo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 77MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 77 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 78 “O tipo de emoção está relacionado com os aspectos de procura versus satisfação do comportamento; sua intensidade vincula-se à significação percebida da experiência para a conservação e progresso do organismo.” Há dois tipos de emoção: - desagradáveis e excitantes, - e agradáveis e calmantes. As primeiras acompanham a procura de um objetivo exigido pela tensão criada; as segundas ocorrem com a satisfação das necessidades, isto é, depois de alcançado o objetivo. Exemplo: “Quando eu soube da explosão dos fogos de artifício “Fulgor” aqui em Porto Alegre, senti-me emocionada ante a extensão do sinistro: mortos, feridos, casas destruídas... Minha emoção se acentuou muito ao me lembrar que uma pessoa amiga residia na mesma rua. Fui imediatamente ao mapa para ver a que distância da explosão se localizava a casa dela. Tranquilizei-me ao verificar que era distante de lá” (H. R). Foi, naturalmente, sob o efeito de emoção muito desagradável, excitante, que a pessoa consultou a planta da cidade. Emoção agradável e calmante seguiu ao saber a pessoa amiga salva do acidente. A intensidade da emoção depende da significação maior ou menor que a experiência tiver para a conservação e o crescimento do organismo. Assim, o salto para escapar de um atropelamento de veículo é acompanhado de forte emoção, ao passo que a contemplação de bela paisagem desperta emoções mais suaves. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 78MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 78 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 79 As duas últimas proposições foram apresentadas como se estivessem relacionadas tão-somente com a expansão do organismo, o que, de fato, não acontece: “Como será visto em outras proposições, o desenvolvimento do self pode introduzir modificações aqui, pois o comportamento é, então, muitas vezes, mais bem descrito como consecução das necessidades do self, às vezes contrariando as necessidades do organismo. Neste caso, a intensidade da emoção será antes aferida pelo grau de envolvimento do self do que pelo grau de envolvimento do organismo” (Rogers, 1951, p. 493/4). 7. A atitude mais adequada para compreender o comportamento consiste na adoção do centro de referência do próprio indivíduo. Segundo Francis Jeanson (1951), podem-se adotar duas atitudes no estudo do homem: explicação e compreensão. Explicá-lo quer dizer analisá-lo como objeto; é esquecê-lo como sujeito. Compreendê-lo é entrar no processo de sua subjetividade, de sua liberdade, de suas iniciativas, de seus valores. Pois bem: a sétima proposição de Rogers postula atitude compreensiva, indicando o modo de consegui-la da maneira mais exata possível. Relembra o autor o que foi dito na primeira proposição: ninguém pode conhecer tão profunda e amplamente a própria área de experiência como o próprio indivíduo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 79MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 79 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 80 Por isso, se pudéssemos sentir o que o indivíduo experiencia no seu campo fenomenal, tanto os elementos conscientes como os que não atingem este nível, estaríamos nas melhores condições de compreender o sentido de seu comportamento e predizer suas reações futuras. É, naturalmente, um ideal inatingível. Esta compreensão, a compreensão fenomenológica, supõe renunciar, pelo menos momentaneamente, às nossas categorias (pô-las entre parênteses, diria Husserl), aos nossos ‘pré-conceitos’, a fim de procurar apreender, em sua originalidade integral, a experiência do autor. Ir “às coisas mesmas”, e não confiar em nossa interpretação das “coisas”. A adoção de atitude compreensiva não é nada fácil. Fala o autor da “dificuldade para compreender as percepções do outro”. Ao comentar o mesmo tema na sétima proposição, aponta duas dificuldades: Somos drasticamente limitados quanto à possibilidade de entrar no campo experiencial consciente do outro. A dificuldade toma proporções enormes se tentarmos compreender-lhe os elementos inconscientes. Corre- se o perigo (apesar de preparação especializada e embora se lance mão de técnica projetiva) de a compreensão não passar de projeções subjetivas de quem tenta compreender (sem êxito) o outro. Um segundo obstáculo é o fato de nosso conhecimento do quadro de referência do outro depender sobretudo da comunicação que ele nos fizer. Ora, a comunicação é sempre imperfeita e lacunar. Por isso, apesar dos esforços, nunca nos é dado ver claramente o campo fenomenal de outro indivíduo. Eis o exemplo de pessoas incapazes de adotar o padrão de referências e compreender a escala de valores de outra. Trata-se de um diálogo entre Romão e Miranda, personagens do conhecido romance “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo (1981, p. 29): “A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal; mas para isso havia remédio: com muito pouco compravam-se umas dez braças daquele terreno do fundo, que ia até à pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 80MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 80 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 81 Miranda foi logo entender-se com o Romão e propôs-lhe negócio. O taverneiro recusou formalmente: — O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. Nem só não cedo uma polegada do meu terreno, como ainda lhe compro, se mo quiser vender, aquele pedaço que lhefica ao fundo da casa! — O quintal? — É exato. — Pois você quer que eu fique sem chácara, sem jardim, sem nada? — Para mim era de vantagem... — Ora, deixe-se disso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe propus. — Já disse o que tinha a dizer. — Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo. — Nem meio palmo! — Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para alargar-se. E eu não cedo, porque preciso do meu terreno! — Ora qual! Que diabo pode lá você fazer ali? Uma porcaria de um pedaço de terreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha casa! Quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda! — Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali! — É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, a sua parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira, e escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a meter-se pelo meu. Quer saber? Não amuro o quintal sem você decidir-se! — Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha a dizer já disse. — Mas, homem de Deus, que diabo! Pense um pouco! Você ali não pode construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janelas sobre o meu quintal?... MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 81MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 81 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 82 — Não preciso abrir janelas sobre o quintal de ninguém. — Nem tampouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janelas da esquerda! — Não preciso levantar parede desse lado... — Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?... — Ah! isso agora é cá comigo!... O que for soará! — Pois creia que se arrependerá de não me ceder o terreno!... — Se me arrepender, paciência! Só lhe digo é que muito mal se sairá quem quiser meter-se cá com a minha vida! — Passe bem! — Adeus!” Eis exemplo oposto: professora entra no quadro de referência do aluno: “O Padre não existiu antes do Filho nem do Espírito Santo, porque todas as pessoas divinas são eternas.” Para mim, o Catecismo estava errado. Disse a um menino que eu não acreditava naquilo. Foi botar logo nos ouvidos da mestra. — No que é que você não acredita, meu filho? — Eu não disse nada, professora. — Não, diga. Não tenha medo. E aquela palavra mansa me animou à controvérsia. — Eu disse que o Filho tinha nascido depois do Pai. Porque Jesus nasceu há dois mil anos na Galileia. — Sim, disse ela. Deus mandou à terra o seu Filho para redimir o pecado dos homens; mas antes de Ele nascer da Santa Virgem, já existia como Deus” (Rego, p. 75). II. Proposições referentes ao self 8. Uma porção do campo perceptual total diferencia-se gradualmente, formando o self. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 82MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 82 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 83 Relembremos que self é a imagem que fazemos de nós mesmos. “É a identidade única e especial, a pessoa, a personalidade” (Jourard, 1997, p. 156). Rogers concorda ser extremamente difícil o estudo do desenvolvimento do self. Segundo ele, poucos foram os progressos feitos nesta área, isto apesar do número de pesquisadores do problema: Mead, Cooley, Angyal, Lucky e outros. Sabemos que, gradativamente, parte do mundo privado é reconhecido com “eu”, “eu mesmo”. É o “self”, “a consciência de ser e funcionar”. Uma experiência ou objeto é considerado parte do self na medida em que for controlado por ele. Assim, membro anestesiado me dá a impressão de fazer menos parte de mim mesmo: olho-o, nesta situação, mais como objeto (Cf. Murphy, 1966, p. 481). Também há fatos psicológicos que, por assim dizer, se subtraem ao nosso controle. Testemunho de mãe: “Outro dia, a filha mais velha brigou comigo. Ficou tão furiosa que se postou na porta do edifício e ao eu passar para ir à escola, me disse que não gostaria mais de mim; que desejava que furassem dois pneus do carro para que eu tivesse o trabalho de trocá-los. À tarde, quando voltei, beijou-me e perguntou se eu estava aborrecida com ela pelo que havia dito. Eu lhe respondi que não, por saber que ela não havia dito aquilo de coração. Então me confessou que “não sabia porque agia assim”, mas quando dava vontade de dizer, dizia, e depois ficava triste” (N.B.C.). Alguns pontos ainda não esclarecidos: É o contato social necessário ao desenvolvimento do self? Em outros termos: desenvolver-se-ia o self de quem crescesse fora do contato com outros homens? É o self constituído unicamente pela fração simbolizada da experiência? Apareceria o self tão-somente através de processo mental, sem a intervenção da experiência? – Questões abertas. 9. Como resultado da interação como o ambiente e, particularmente, como efeito da interação avaliativa dos outros, forma-se a estrutura do self: estrutura conceitual organizada, fluida, mas consistente de percepções das características do “eu” ou do “me”, juntamente aos valores associados a esses conceitos. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 83MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 83 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 84 Segundo Gardner Murphy, as partes do próprio corpo da criança formam o núcleo inicial do self. Percebe vagamente, por exemplo, que o pezinho ou a perninha com que brinca é dela. Vai diferenciando, pouco a pouco, o que pertence a ela e o que é dos outros (Cf. Murphy, 1966, p. 479- 503: The Origins of the Self). No relacionamento com os outros, vai formando conceitos a respeito do ambiente, a respeito dela mesma e em relação ao meio. Esse conhecimento diferenciado vem acompanhado de valorização, muito importante, segundo Rogers, para a compreensão do desenvolvimento ulterior. A criança costuma valorizar as experiências com a maior naturalidade ou espontaneidade: “Gosto de caramelos.” “Não quero deste prato.” “Gosto do titio.” “O titio é feio.” ‘’... na minha frente, teciam (os adultos) comentários contra a vida e o caráter de determinada pessoa que frequentava nossa casa. Eu ouvia e orientava-me por esse conceito, acreditando que fora emitido dentro da maior lealdade. Mas, quando essa mesma pessoa voltava a nossa casa, para meu espanto, era recebida com efusão, com exclamações de carinho e amizade. Confusa, um dia perguntei diante da visita se essa criatura da qual eu ouvira tantas condenações, era a mesma que no momento elogiavam desmedidamente. Houve surpresa e susto. E para terminar o mal- estar, fui marcada de “menina imprudente” (Nery, 1970, p. 11). Tudo se passa como se a criança valorizasse positivamente tudo o que contribui ao progresso, ao crescimento dela mesma. O que, porém, é percebido como ameaça, como prejudicial ou menos útil, é valorado negativamente. A esta valorização pessoal – nem sempre verbalizada – vêm cedo acrescentar-se as contínuas apreciações dos outros, particularmente dos progenitores. ‘’A influência dos pais é essencial nesta fase da estruturação do self” (Bischof, 1968, p. 430). “Tu és boa criança”. “Que belezinha.””Tu és um amor.” “Assim a mãe gosta de ti.” “Assim procede um bom menino.” Ou: “Como isto é feio!” “Isto não se faz.” “Boa criança não faz isto.” “Assim não gosto mais de ti.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 84MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 84 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 85 Gestos, mímica, ordens, convites, comentários, podem ter o mesmo efeito. Exemplo: Uma professora pediu a um aluno de apagar o quadro-negro. Reparando que era baixinho, solicitou a colaboração de outro de estatura mais avantajada. O primeiro, que já sofria de complexo devido à pequena estatura, ficou profundamente magoado. A professora o soube através da mãe. A educadora recorreu, desde então, seguido à ajuda do garoto. Este, comentando o fato com a mãe, disse que a mestra já não o achava mais baixinho, pois mandava-o seguido apagar, sozinho, o quadro. Tais apreciações vêm a constituir grande parte e parte importante do campo perceptual da criança. No self encontram-seelementos Valorizados positivamente pelos outros ....................................+ Valorizados negativamente pelos outros................................... – Valorizados negativamente pelo indivíduo mesmo................... / Valorizados positivamente pelo indivíduo mesmo .................... x Valorizados positivamente por ambos ......................................= Valorizados negativamente por ambos ......................................\ MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 85MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 85 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 86 Ponto fundamental para sadio desenvolvimento psicológico é sentir- se a criança amada. Daí a importância de ela não se perceber rejeitada quando os adultos não lhe podem aprovar um comportamento. Ela gosta, por exemplo, de brincar em poças de água, naturalmente molhando e sujando a roupa. Mãe compreensiva não pensa, em primeiro lugar, no trabalho de ter que lavar a criança e a roupa dela. Mas, na satisfação experimentada pelo filho. Em sua reação deverá fazer ressaltar este aspecto: compreender a criança do ponto de vista dela, porém, sem negar os próprios sentimentos de desagrado, se ocorrerem. Depois estará em condições de corrigir eventuais excessos ou comportamento inoportuno ou inadmissível. A criança não deveria, no relacionamento com os outros, experenciar ameaça a seu autoconceito de ser amada (Rogers, 1951, p. 502-3). Pode, Iivremente, aceitar, por ex., ser bom brincar na água, mas que a mãe não gosta. Seja qual for a satisfação que se procure, sentir-se-á pessoa amada, embora sabendo que nem todas as suas preferências ou reações são do gosto dos pais ou de outras pessoas. 10. Os valores ligados às experiências e os que formam parte da estrutura do self são • ora vivenciados diretamente pelo organismo, • ora introjetados ou tomados de outras pessoas, mas percebidos de maneira distorcida, como se tivessem sido experienciados diretamente. Um aluno, filho único de pais abastados, estava resolvido a interromper o segundo ciclo de estudos para se dedicar à mecânica de automóveis. Motivo: julgava-se pouco inteligente e só com muito esforço terminaria o segundo grau. No serviço de orientação foi submetido a dois testes de inteligência, revelando em ambos um nível superior. Na entrevista, ao revisar seus anos de escola, veio-lhe à lembrança a exclamação de uma professora do segundo ano primário, apreciando um trabalho seu, casualmente menos feliz: “Como tu és burro, Carlos!” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 86MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 86 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 87 Houve dupla distorção: o menino entendeu a observação da mestra como se referindo a sua capacidade intelectual em si; e ele mesmo aceitou esta opinião como própria. Bastou o resultado dos testes para mudar este elemento da autoimagem e, consequentemente, a atitude do aluno. De outros aspectos da deformação ou negação da experiência já falamos ao tratar das “defesas” e das “perturbações da comunicação interna”: isto é, o indivíduo nega as próprias experiências para não desagradar a outras pessoas. Um rapaz, por ex., dirá não gostar de certa moça pela qual está apaixonado a fim de não magoar os pais e, ilusoriamente, acha brotarem dele os sentimentos da falta de simpatia. Esse indivíduo estará em conflito consigo mesmo. Desconhecendo ou negando as correntezas mais profundas e contemplando apenas a superfície calma das águas, muitas vezes estranhará a mudança de rumo, aparentemente sem explicação, do barquinho do self (Cf. Rogers, 1967, p. 17-20). Ameaças levarão crianças e adultos a deformar ou negar as próprias experiências a fim de as tornar aceitáveis ao self e harmonizá-las com as expectativas do ambiente. Se irromperem na consciência, provocarão, inevitavelmente, grau maior ou menor de ansiedade. 11. À medida em que as experiências ocorrem na vida do indivíduo, são • ou simbolizadas, percebidas e organizadas em alguma relação com o self, • ou ignoradas, por não haver relação percebida com a estrutura do self, • ou negadas ou simbolizadas de maneira deformada, por ser experiência incompatível com a estrutura do self. Há, portanto, segundo Rogers, quatro atitudes possíveis com relação às vivências: a) Parte das nossas experiências é aceita e incorporada pelo self. São as experiências que harmonizam com ele ou com o self-ideal. Se acho bom ter atitude autoritária em face dos outros, experimento satisfação após tal comportamento. Ocupado em escrever sobre a teoria rogeriana, não hesito em adquirir novo livro sobre o assunto, pois o volume corresponde à necessidade minha. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 87MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 87 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 88 b) Muitíssimas – a maioria – das experiências não atingem o nível consciente, portanto, não as relacionamos com o organizado conceito do self (Rogers, 1951, p. 504). É suficiente examinar o que se passa com os milhares de sensações (visuais, auditivas, táteis, térmicas...) que temos ao dar uma volta pela cidade: porcentagem mínima (a conscientemente significativa para nós) é relacionada com o self. c) Existe também parcela da realidade vivencial cuja entrada no campo da consciência é vetada (Cf. Maslow, 1972, p. 218-219: causas sociais e intrapsíquicas da repressão). Casos há em que essa atitude é mais ou menos consciente. Um cliente de Rogers tinha autoconceito muito negativo. A certa altura da entrevista, confessa: ‘’Ao me dizerem ser eu inteligente, simplesmente não acredito. Melhor: suspeito que eu não queira admiti-lo. Tão sei porque. Simplesmente não quero” (Id. ib.). Existe outra espécie de negação da realidade, que entra no conceito freudiano da repressão: a experiência não é simbolizada ou, então, desfigurada. Quem julga ser modelo de caridade com o próximo, por exemplo, facilmente confundirá sentimento de ciúme ou inveja com zelo pelo bem da vítima. Engenhosas experimentações de McCleary e Lazarus demonstraram “ser o indivíduo capaz de fazer discriminação entre estímulos ameaçadores e não ameaçadores, e reagir de acordo, embora incapaz de reconhecer conscientemente o estímulo ao qual reage” (Id., p. 506). Deram o nome de “subcepção” a esta percepção. O fenômeno parece constituir elemento importante no mecanismo da ansiedade. d) Finalmente, fatos inaceitáveis pelo indivíduo são a tal ponto evidentes que sua negação se torna impossível. Neste caso, o self recorrerá à distorção:”as uvas são verdes”. “O público não tinha nível para apreciar devidamente minha peça.” Em suma, o self exerce uma função seletiva sobre o material da experiência: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 88MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 88 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 89 • aceita a parte que lhe convém, • ignora outra • e rejeita uma terceira. • Se, apesar de rejeitada, uma experiência percebida como ameaçadora continuar a bater às portas do self, este é capaz de fazer entrar o lobo, revestindo-o com pele de ovelha, isto é, deformando as vivências para torná-las aceitáveis. 12. A maior parte das formas de comportamento adotadas pelo organismo são coerentes com o conceito do self. Numa aventura do Barão de Münchhausen, “No Polo Norte”, lemos: “Da superfície das águas erguiam-se imponentes “iceberg” e blocos de gelo com intenso brilho prateado. Sobre um deles avistei dois enormes ursos. Tive a impressão de que brigavam. Decidi, então, pôr fim ao desentendimento das feras, e conseguir duas valiosas peles. Armado de MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 89MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 89 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 90 espingarda e faca, dirigi-me para a montanha de gelo. Muitas vezes pensei em desistir da empresa, apavorado com os medonhos precipícios que via abrirem-se a meus pés. Sentir-me-ia, porém, profundamente ferido em meu amor-próprio, se meus amigos, que me observavam da pontedo navio, percebessem o medo que cada passo me fazia estremecer. E continuei, fazendo das tripas coração” (Münchhausen, 1965, p. 111). O Barão se tinha por valente e estava convicto que os demais (os companheiros e o capitão do navio, do qual saltara), tinham dele a mesma ideia. Foi esse autoconceito que o levou a se portar corajosamente. Quem se julga bom aluno, terá dificuldade em comportar-se de outra maneira. Quem se tiver por muito pontual, fará todo o possível a fim de não desmerecer esta fama. Certa professora, com renome de pontualíssima, disse um dia, preferir faltar quando prevê chegar tarde à escola. Existem comportamentos, por exemplo, a necessidade de dormir, como que neutros em relação ao conceito do self. A mulher, porém, com o autoconceito de ser mãe dedicada, e convicta de que mãe dedicada não irá dormir sem todos os filhos estarem em casa, embora exausta, não se deitará ou não pregará olho enquanto um deles se encontrar fora. A necessidade de se comportar de acordo com o self é mais forte que a necessidade física do repouso. Nas neuroses, o organismo satisfaz certa necessidade, não reconhecida pela consciência, por meio de ações e reações coerentes com a autoimagem e, portanto, conscientemente aceitas. Estudo de Aronson e Mettee (1968) comprovou a tese de Rogers de que o indivíduo se comporta segundo modalidades congruentes com o conceito do self (Cf. Pervin, 1970, p. 297). 13. O comportamento pode ser provocado, em alguns casos, por experiências e necessidades não simbolizadas. – Comportamento desses pode estar em desacordo com a estrutura do self; em tais momentos, contudo o comportamento não é sentido como ‘propriedade’ do indivíduo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 90MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 90 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 91 Certa vez, ao chegar em casa, a mulher atirou, furiosa, uma cadeira sobre o marido, acusando-o de infiel. O homem ficou perplexo. Nunca houve problema entre os dois nesta área. Posteriormente, tentou a mulher jogar-se do carro guiado pelo esposo... Em entrevista, reconheceu não saber porque fizera isso. O marido sempre fora exemplar. Não tinha motivos de se tirar a vida. A três alunos fora cedida sala de aula para estudo em grupo. Quebraram uma mesa e várias cadeiras. Perguntados porque haviam feito isto, um deles respondeu: “Não sei como foi possível... Isto não tem explicação!” Os exemplos citados mostram como as pessoas se comportaram de forma não coerente com a estrutura consciente do self; por isso, reconheceram como estranhas, como não delas, tais reações. Daí as expressões: “Não sei onde tinha a cabeça!” Não sabia o que estava fazendo.” “Custa acreditar que eu me tenha portado assim.” “Estava fora de mim.” Graças à subcepção, pode o indivíduo ter igualmente reação adequada sem tomar consciência da situação (ver Rogers, 1951, p. 491). Reação ajustada, porém, não chama tanto a atenção como a aparentemente inexplicável. “Considerando-se as proposições 12 e 13 conjuntamente, parece que Rogers reconhece dois sistemas reguladores do comportamento: self e organismo. Os dois sistemas podem ou trabalhar associadamente, em harmonia e cooperação, ou opor-se um ao outro. Opondo-se, resultará estado de tensão e desajustamento, segundo a proposição 14; se trabalham conjuntamente, a consequência é o ajustamento, nos termos da proposição 15” (Hall/Lindzey, 1966, p. 530). Criança pequena só age e reage organismicamente. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 91MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 91 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 92 Embora nem sempre o faça, a pessoa tem condições de enfrentar seus problemas A minha evolução foi singela. Quando eu estava ainda contente, desejava estar descontente e por todos os meios do século e tradicionais que me podiam servir, atirava-me ao descontentamento. Achava-me, por isso mesmo, sempre descontente, até do meu descontentamento. É interessante que com suficiente sistematização qualquer coisa tenha nascido desta comédia. A minha ruína espiritual principiou por um jogo pueril, porém consciente. Por exemplo, simulava tiques faciais, ou passeava no Graben com os braços cruzados por trás da cabeça, puerilidade horrível, porém coroada de sucesso. Sucedeu, identicamente à evolução de minha atividade literária, evolução que mais tarde desventuradamente se interrompeu. Se houvesse a possibilidade de obrigar a desventura a tombar sobre nós, deveríamos consegui-lo deste modo. Por mais que a minha evolução pareça confutar-me e que esteja em desacordo com a minha natureza refletir desta maneira, tanto mais me é impossível reconhecer que os primeiros inícios de minha desventura fossem intimamente precisos; pode ser que houvesse uma necessidade, porém, nunca uma íntima necessidade: chegados como moscas, teriam podido ser expulsos com tanta facilidade quanto elas (24.01.1923). Eu sou um fim ou um começo. É um mandato. Eu não posso assumir por causa de minha natureza senão um mandato que nenhuma pessoa me deu. É em contradição e apenas em tal contradição que eu posso viver. (1924.) - Franz Kafka, 1964 14. Há desajustamento quando o organismo nega reconhecer experiências significativas que, consequentemente, não são simbolizadas nem organizadas na Gestalt da estrutura do self. Neste caso, existe tensão psicológica básica ou potencial. O caso dos comportamentos que escapam ao controle do eu denotam discrepância entre a experiência do organismo e o conceito do self: organismo e self solicitam o indivíduo em direções diferentes: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 92MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 92 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 93 O organismo exige a satisfação de alguma necessidade da qual o self não tem, não pode ou não quer ter conhecimento. “O controle consciente se torna mais difícil quando o organismo tende a satisfações não aceitas conscientemente... Então sobrevém tensão. Se o indivíduo chega a ter algum grau de consciência dessa tensão ou discrepância, sentirá ansiedade; sentirá não estar unificado ou integrado, nem seguro em sua orientação” (Rogers, 1951, p. 511). A tendência do self é no sentido de preservar ou restaurar a coerência, mantendo o controle. Pode lançar mão de dois recursos: enfrentar a realidade ou distorcer os fatos. Rogers cita exemplo da segunda atitude: Progenitora agressiva, com autoimagem de boa mãe, rejeita as tendências hostis com relação ao filho. Boa mãe, contudo, pode e deve censurar comportamento não adequado da prole. Assim, ela, mãe agressiva, encontrará ocasiões de punir o filho sem entrar em conflito com o autoconceito positivo. A agressividade não se ajusta ao conceito de boa-mãe (1). Mas, disfarçada sob a forma de corrigir o filho, poderá ser aceita (2). Fica, assim, restabelecida, no plano consciente, a unidade entre as tendências do organismo e as do self. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 93MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 93 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 94 15. Existe ajustamento psicológico quando o conceito do self é tal que todas as experiências significativas do organismo são ou podem ser simbolizadas numa relação coerente com o conceito do self. Nesta proposição, Rogers descreve a harmonia entre o organismo e o self: “...todas as experiências significativas têm acesso à consciência graças à exata simbolização, e podem organizar-se em sistema internamente consistente, formando a estrutura do self ou relacionando-se com ele. Quando ocorre este tipo de integração, então pode a tendência ao crescimento expandir-se ao máximo, movendo-se o indivíduo na direção normal própria da vida organísmica” (1951, p. 514). Assim (o exemplo é de Rogers), a pessoa que percebe e aceita as próprias necessidades sexuais, e também percebe como parte de sua realidade o valor moral dado ao controle desses desejos, aceitará e assimilará todas as sensações do organismo nesta área. Mas isto é somenteProposições referentes ao self ................................................82 8. Porção perceptual forma o self ..........................................83 9. A estrutura do self constitui-se a partir de inter-relações .....83 10. Os valores são vivenciados ou introjetados .......................86 11. As experiências são vivenciadas corretamente ou não ......87 12. O comportamento depende do self ..................................89 13. Há comportamentos em desarmonia com o self ...............90 14. Compreensão do desajuste entre self e comportamento ...... 92 15. Comportamento ajustado com o self ................................94 16. Percepção da experiência e ameaça ..................................94 17. Condições para inclusão de novas experiências no self ........96 18. Indivíduo integrado é mais compreensivo .........................97 19. Processo contínuo de avaliação .........................................98 20. Interesse pela estima social ..............................................100 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 12MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 12 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 13 21. Necessidade de autoestima .............................................101 22. Atitude de valor pessoal ..................................................101 CAPÍTULO III FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE: VIDA PLENA I. Características de pessoa de funcionamento ótimo ..............104 1. Crescente abertura à experiência .....................................105 2. Vida progressivamente mais existencial ...........................110 3. Organismo digno de confiança ........................................111 4. Centro interno de avaliação .............................................114 5. Vontade de ser um processo ............................................117 II. Processo de crescimento .......................................................118 1. Da rigidez à fluência ...........................................................118 2. Para longe de .....................................................................124 3. A caminho de .....................................................................128 4. A pessoa que funciona plenamente ...................................131 III. Teoria “se-então” .................................................................135 IV. Uma teoria otimista ..............................................................136 CAPÍTULO IV ALGUMAS APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS I. Aprendizagens nas relações com os outros ...........................141 II. Ações e juízos de valor ..........................................................153 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 13MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 13 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 14 CAPÍTULO V PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM ROGERIANO I. Novas perspectivas ................................................................163 II. Reações contra um iconoclasta .............................................165 III. Os princípios rogerianos da aprendizagem .........................169 IV. Método democrático versus método autoritário.......................177 V. Professor: facilitador da aprendizagem .................................184 VI. Avaliação ..............................................................................189 VII. Método inviável? .................................................................190 VIII. Resumo da aprendizagem centrada no aluno ........................197 IX. Valores cultivados por este método ....................................199 X. Diário da metamorfose de uma professora de Didática .......201 CAPÍTULO VI PSICOLOGIA HUMANISTA I. Introdução ..............................................................................213 II. Características da Psicologia Humanista ...............................220 BIBLIOGRAFIA CITADA OU CONSULTADA .............................237 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 14MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 14 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 15 INTRODUÇÃO QUEM É CARL RANSOM ROGERS? Nasceu Rogers a 08 de janeiro de 1902, em Oak Park (Chicago, USA), sendo o quarto de seis filhos de abastada família de fazendeiros. 1919-1924 frequenta o “College” da Universidade de Wisconsin. Bacharel em História em 1924. 1922: Delegado a Congresso mundial da Federação dos Estudantes Cristãos em Pequim. 1924: Casamento. - Frequenta, durante dois anos, a “Union Theological Seminary” de New York City, como candidato a pastor. - Início dos estudos de Psicologia e Psicologia Clínica no “Teachers College of Columbia University”. 1927: “Master of Arts”. Ingresso no “Institut for Child Guidance”. 1931: Tese de doutorado. 1935: Professor no “The Clinical Treatment of the Problem Child”. 1939: Publicação do livro “O Tratamento Clínico da Criança Problema”. 1940-45: Professor na Universidade de Ohio. 1941-42: Presidente da Associação Ortopsiquiátrica Americana. 1942: Publicação do livro “Psicoterapia e Consulta Psicológica”. 1944-45: Presidente da Associação Americana de Psicologia (APA). Professor-visitante nas Universidades de Harvard, Brandeis e Berkeley e no Occidental College. 1945-47: Professor-Pesquisador na Universidade de Chicago. 1951: Publicação do livro “Terapia Centrada no Cliente”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 15MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 15 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 16 1954: Publicação, com Roslind F. Dymond, do livro “Psychotherapy and Personality Change” (Psicoterapia e Mudança da Personalidade). Ainda não foi traduzido ao português. 1956-58: Presidente da Academia Americana de Psicoterapeutas. 1957-63: Professor na Universidade de Wiconsin. 1961: Publicação do best-seller “Tornar-se Pessoa”. Membro da Academia Americana de Artes e Ciências. 1962-63: Colabora no Centro para Estudos Avançados na Ciência do Comportamento (Stanford). 1962: Edição, com G. Marian Kinget, da obra, em dois volumes, Psicoterapia e Relações Humanas. 1964: No Instituto Ocidental de Ciências do Comportamento (La Jolla – Califórnia) – Fundação do Centro de Estudos da Pessoa. Edição, com outros, do livro Behaviorismo e fenomenologia. (Não traduzido.) 1967: Publicação, com outros autores, de Pessoa para Pessoa. Lançamento, com diversos colaboradores, do alentado volume “A Relação Terapêutica e seu Impacto: estudo de terapia com esquizofrênicos”. (Não traduzido.) 1967: A History of Psychology in Autobiography. 1968: Publicação, em colaboração, de O Homem e a Ciência do Homem. 1969: Edição de Liberdade para Aprender. 1970: Lançamento de Grupos de Encontro. 1972: Publicação de “Como Tornar-se Cônjuges” (“Novas Formas de Amor”). 1973: Recebe da APA (Associação Psicológica Americana) o prêmio de “Notável Contribuição Profissional”. 1977: - Janeiro-fevereiro: primeira visita ao Brasil. - Edição, com Rachel L. Rosenberg, da USP, do livro A Pessoa como Centro. - Lançamento do livro Sobre o Poder Pessoal. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 16MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 16 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 17 1978: Segunda visita ao Brasil. 1980: Publicação do livro Um Jeito de Ser. 1982: Foi reconhecido, na avaliação de terapeutas americanos, a figura de maior influência em psicoterapia no século XX, ultrapassando mesmo Freud. 1983 - Edição, com outros, do livro Em Busca de Vida: da Terapia Centrada no Cliente à Abordagem Centrada na Pessoa. - Liberdade de Aprender em nossa Década. (Reedição, com reformulações, de ‘Liberdade para Aprender’ - 1969). + 1987 (04 de fevereiro) falece em La Jolla, de parada cardíaca, durante uma cirurgia. 1989: - Aparece O livro Carl Rogers Reader: Selections from the Life time Work of America’s Preeminenst Psychologyst - Houghton Mifflin. (Leitor de Carl Rogers: Seleções da obra do Psicólogo Americano mais Eminente). Carl Rogers: Diálogos (Com Buber, Tillich, Skinner, May, etc.) Obs.: 1ª Carlpossível quando seu conceito neste setor é suficientemente amplo a fim de nele incluir as tendências sexuais e, ao mesmo tempo, o propósito de viver em harmonia com a moral reinante no ambiente. Uma senhora admite poder, às vezes, ter raiva do filho e, assim mesmo, ser boa mãe. Na medida em que o self conseguir acolher e integrar em sua estrutura adequadamente todas as experiências, será o comportamento mais espontâneo e menos “autoconsciente”, pois o self reconhece atitudes e reações como integrantes dele mesmo. Rogers enfatiza a importância do fato não de os dados estarem presentes à consciência, mas tenham a possibilidade de acesso a ela, isso é, não haja defesas, denotadoras de mal-estar. Há integração quando todas as experiências viscerais e sensoriais têm acesso à consciência através de adequada simbolização, podendo organizar-se em sistema interno consistente. O indivíduo sente-se, então, em linhas gerais, unificado. 16. Qualquer experiência incoerente com a estrutura do self pode ser percebida como ameaça; quanto maior o número dessas percepções, tanto mais rijamente se organiza a estrutura do self a fim de se manter. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 94MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 94 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 95 Se um rapaz se julga filho amoroso e modelar, terá dificuldade em aceitar o fato de experienciar sentimentos de raiva ou rivalidade com relação ao pai. Tentará explicar de todas as formas não se tratar de sentimentos negativos. Procurará deformar a significação de fatos que são evidentes para os não envolvidos na situação ou para quem tiver estrutura mais flexível do self. Hogan esquematizou em oito itens o mecanismo fundamental ameaça-defesa: Experiências percebidas como incongruentes com a estrutura do self geram ameaça. Ansiedade é a resposta emocional à ameaça. Levado pela dinâmica da ansiedade, procura o self organizar a defesa contra a ameaça. A defesa (negação ou distorção da experiência) tenta reduzir a incongruência entre a experiência e a estrutura do self. A reação defensiva consegue reduzir a consciência da ameaça, porém não a ameaça em si mesma. (Manobra de avestruz: enterrar a cabeça na areia, fingindo subtrair-se, desta maneira, ao perigo.) O comportamento aumenta a sensibilidade à ameaça. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 95MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 95 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 96 Ameaça e defesa tendem a repetir-se em cadeia, ampliando-se o campo dos distorcidos. Contudo, não consegue alastrar-se indefinidamente: a cadeia defensiva é limitada pela necessidade de reconhecer a realidade. Em situação defensiva, qualquer fato é mais facilmente percebido como ameaçador, pois o indivíduo pressente a fragilidade da estrutura artificial do self. 17. Em certas condições, mormente se houver completa ausência de ameaça à estrutura do self, experiências incoerentes com esta estrutura podem ser percebidas e examinadas, e a estrutura do self revisada ou corrigida a fim de incluir tais experiências. Ao notar que as experiências verbalizadas são aceitas como realidades acontecidas – sem condenações ou desaprovações, caso forem negativas ou simplesmente não do agrado do interlocutor – o indivíduo sente-se livre para adentrar na exploração das vivências. Desta forma, estende-se o conceito do self, integrando novos elementos. Retomemos o exemplo do moço com autoimagem de filho modelar. Vendo-se aceito, poderá reconhecer que ama e admira o pai, mas que, apesar disso, o “velho” às vezes é chato, quadrado... E que em algumas coisas “já era “... Percebe, então, que os dois sentimentos podem coadunar- se perfeitamente. Quais os fatores que possibilitam a reorganização da estrutura do self? • apreensão do novo material pelo self (facilitando o terapeuta ou possível interlocutor a exploração); • aceitação, da parte do psicoterapeuta ou interlocutor, de todas as experiências, atitudes e percepções da pessoa. (Aceitação quer dizer reconhecimento tranquilo de que existem, não supondo necessariamente aprovação.) Observa Rogers (1951, p. 500) que, não raro, a aceitação de experiências inconsistentes ocorre no intervalo das entrevistas. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 96MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 96 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 97 Já que a ausência de ameaça é a condição fundamental para alguém poder encarar experiências contraditórias, conclui-se ser possível ao indivíduo chegar, em princípio, sozinho, a esta atitude, ao menos nos casos de ameaças menores. Assim, um autor pode, num primeiro momento, negar base às críticas feitas a obra sua. Contudo, ponderação mais calma talvez o leve a aceitar-lhe a justeza total ou parcial. Postula Rogers a necessidade de análise mais acurada das condições necessárias à reorganização do conceito do self e à assimilação de experiências contraditórias (1951, p. 519). Esta observação de meio século atrás, continua válida hoje, apesar dos pequenos avanços nesta área sumamente complexa. 18. Quando o indivíduo percebe e aceita num sistema consistente e integrado todas as experiências, será necessariamente mais compreensivo para com os outros e os aceitará melhor como indivíduos separados, diferentes. Esta proposição constitui descoberta inesperada da terapia centrada no cliente, descoberta confirmada pelas investigações de Sheerer. Qual a razão dessa atitude compreensiva com os outros? A ausência de ameaça, consequentemente, a eliminação de defesa. O indivíduo seguro de si (Cf. Rogers, 1961, p. 118, 175), habitualmente capaz de auscultar o organismo e captar e reconhecer o que realmente nele ocorre: “Não havendo necessidade de se defender, não existe razão de atacar. E não MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 97MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 97 05/07/2022 15:24:3705/07/2022 15:24:37 98 havendo necessidade de atacar, o outro é percebido como realmente é: indivíduo separado (“a separate individual”), agindo na linha do seu pensar, baseado no próprio campo perceptivo” (Rogers, 1951, p. 521). Resulta desta situação psicológica liberdade, espontaneidade de ação e reação.”Ser espontâneo é ser capaz de reagir diretamente ao quadro total ou, como se diz tecnicamente, à “configuração figura-base”. A espontaneidade é o eu ativo integrando-se na figura-base” (Rollo May, 1972, p. 93). Rogers consagra várias páginas à autoaceitação (“self-acceptance”) e à aceitação dos outros (1970, p. 24-27; Cf. 1961, p. 87-90), afirmando: “Temos aqui base teórica para relações interpessoais, de grupo ou internacionais salutares” (1951, p. 522). Consagrou ele, com êxito, os últimos anos de existência (faleceu em 1987) à reconciliação de grupos antagônicos: negros e brancos nos Estados Unidos e na África do Sul; de católicos e protestantes na Irlanda; de comunistas e democratas na Europa (Polônia). Sua hipótese mostrou-se válida. 19. À medida que a pessoa percebe e aceita em sua autoestrutura mais experiências, verifica estar substituindo seu sistema atual de valores – baseado amplamente em introjeções deformadamente simbolizadas – por contínuo processo organísmico de avaliação. Indivíduo aberto à realidade terá self constituído de duas fontes de experiências: • Experiências introjetadas devido à influência social: pais, parentes, amigos, convenções sociais... • E experiências vividas diretamente. O valor das primeiras deverá ser testado à luz da evidência pessoal: evitar a mentira é experenciado por mim como elemento capaz de enaltecer meu self? Contribui o trabalho, de fato, para meu crescimento? Tem a prática da religião, realmente, validade para mim? “Os maiores valores para o enriquecimento do indivíduo aparecem quando a todas as experiências e atitudes é permitida simbolização, e quando o comportamento vem a ser a significativa e equilibrada satisfação de todas as necessidades, necessidades essas acessíveis à consciência” (Rogers, 1951, p. 524). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb98MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 98 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 99 Mas não terminará esse contínuo processo pessoal de avaliação numa anarquia social? Não, já que todos os indivíduos possuem basicamente as mesmas necessidades, inclusive a de ser aceito pelos outros. O que resultará não será anarquia, mas elevado grau de concordância e genuíno sistema socializado de valores. Finaliza o autor a décima nona proposição com afirmação-resumo importante: “Uma das últimas e definitivas consequências da hipótese - da confiança no indivíduo, - e em sua capacidade de resolver os próprios conflitos é a emergência de sistemas de valores únicos e pessoais para cada indivíduo, sujeitos a alterações com a evidente mudança da experiência organísmica, sendo, contudo, ao mesmo tempo, profundamente socializados, possuindo, no essencial, elevado grau de semelhança” (Id. ib.). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 99MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 99 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 100 Congruência-incongruência Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades sólidas e finas: amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava-lhe a glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o voo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia; tratei de combatê-la. — Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode imaginar o que tenho passado. Vira o teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito! Soberbo cenário, vida, movimento e graça na representação (...) Não há constância de sentimentos, não há gratidão, não há nada... nada... nada... Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria e riam todos. (Machado de Assis) À relação das 19 proposições, acrescentou Rogers, posteriormente, mais três. Embora presentes, há muito tempo, em suas obras, só mais mais tarde deu-lhes o autor maior destaque, sem receberem formulação tão perfeita como as anteriores (Cf. Bischof, 1968, p. 432 e Rogers, 1976, cap. II). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 100MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 100 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 101 20. A vigésima proposição refere-se ao interesse pela estima social. Com o desenvolvimento do self, surge e cresce a necessidade de consideração positiva dos outro, isto é, “todos sentem a necessidade de serem apreciados pelos outros, sobretudo por certas pessoas julgadas importantes. Pode mesmo ocorrer que tais ‘pessoas-critério’ se tornem força diretriz mais forte que o processo de avaliação organísmica” (Rogers, 1966, I, p. 220) o que, evidentemente, prejudica o impulso do crescimento pessoal. 21. Necessidade de autoestima ou consideração positiva de si. Paralelamente à necessidade de estima social, desenvolve-se a necessidade de autoestima (‘self-esteem’) ou ‘consideração positiva de si’. “Embora a experiência de sentir-se objeto da consideração positiva da parte dos outros pareça preceder a experiência da consideração positiva de si, esta última experiência leva a uma atitude positiva de si que não é mais diretamente função das atitudes dos demais. O indivíduo assume a respeito de si mesmo o papel de pessoa-critério.” (Id. ib.) O processo de autoestima, baseado, primeiramente em critérios externos, depois em pontos de vista pessoais, aparece em Lucien de “O Muro” de Sartre (1948, p. 217): “Lucien, pela segunda vez, sentiu-se cheio de respeito por si mesmo. Mas desta vez não tinha necessidade dos olhos de Guigard: era a seus próprios olhos que ele parecia respeitável.” 22. Atitude de valor pessoal. A exigência de estima social e autoestima desenvolve atitude de valor pessoal (‘an attitude of selfworthiness’). Assim, a consciência de ter algum valor ajuda a reforçar a autoestima e a possibilidade de alcançar estima social. (Bischof, 1968, p. 432.) Comportamento orientado por elementos introjetados será denominado “valorização condicional”. O ideal, dificilmente ou nunca atingido, é o nível de valorização incondicional. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 101MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 101 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 102 Observa Rogers (1978, p. 67) que a sequência dessas três proposições, importantes no desenvolvimento da personalidade, constituem mérito de Standal. Rogers termina o último capítulo de um de seus livros fundamentais (1951, p. 532), dizendo “ser a teoria basicamente de caráter fenomenológico, dependendo muito do conceito do self como elemento explicativo. Apresenta o ponto final do desenvolvimento como congruência entre o campo fenomenal da experiência e a estrutura conceptual do self. Se esta situação chegasse a realizar-se completamente, representaria estado livre não só de tensão interna e de ansiedade, como de tensão potencial. Isto significaria o grau máximo de adaptação orientada realisticamente; significaria a formação de um sistema de valores tendo considerável identidade com o sistema de qualquer outra pessoa bem ajustada”. Wolf-Ruediger Minsel (1975, p. 17-22) distribui as 19 proposições originais de Rogers como segue: Relação indivíduo-ambiente: 1, 2, 3, 7. O “self “: 8, 9, 10, 11. Adaptação e adaptação falha: 4, 14, 15, 16. Comportamento e suas causas: 5, 6, 12, 13. Mudança da experiência e do comportamento: 17, 18, 19. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 102MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 102 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 103 CAPÍTULO III FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE: VIDA PLENA A grandeza d’alma consiste menos em se elevar e avançar do que em se ordenar e se circunscrever. (Montaigne, III, 1961, p. 355). A vida do indivíduo nada mais é do que o dar nascimento a si mesmo. Em verdade só deveremos ter nascido completamente ao morrer. (Fromm, 1959, p. 39). Minha fantasia é rede planetária de indivíduos ajudando-se mutuamente a vir-a-ser mais plenamente humanos. (Satir, 1981, p. 15). Vida plena, funcionamento ótimo da personalidade, eis uma das constantes dos escritos de Rogers. Consagra-lhe – para citar algumas fontes – dois capítulos inteiros de “On Becoming a Person” (Cap. 6. “O que significa tornar-se pessoa”, e 9: “O funcionamento pleno da personalidade”), retomando o tema em seu livro “Freedom To Learn” (Cap. 14), com o expressivo título: “O objetivo: a pessoa funcionando plenamente.” Os três capítulos apresentam essencialmente as mesmas ideias. A experiência terapêutica obrigou Rogers a rejeitar a ideia de igualar vida plena com satisfação, felicidade, espécie de nirvana ou satisfação. Consiste tampouco na redução das tensões, numa situação homeostática. Sugerem esses termos haver-se alcançado o objetivo, a meta da existência. Ora, a meta nunca é atingida: vida plena é processo, e não estado fixo; vida plena é direção, e não ponto de chegada. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 103MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 103 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 104 “Os indivíduos se movem, através da mudança, como estou começando a perceber, não de um ponto fixo ou homeostase para novafixidez, embora esse processo seja possível; mas, de longe o mais significativo ‘continuum’ é da fixidade para a mudança, da estrutura rígida para a fluidez, da ‘stasis’ para um processo” (Rogers, 1961, p. 131). O autor define assim o funcionamento ótimo da personalidade: “Vida plena – do ponto de vista da minha experiência – é o processo, o movimento numa direção escolhida pelo organismo humano quando interiormente livre de se mover para qualquer rumo” (Id., p. 187). Vida plena é processo, é direção. Faz décadas, escreveu belamente Fromm que a vida do indivíduo consiste em dar, incoativamente, nascimento a si mesmo. Na hora da morte deveria o nascimento estar completo. Lamenta morrer a maioria sem esse parto ideal de si. I. Características de pessoa de funcionamento ótimo Podemos reconhecer se estamos no processo continuamente renova dor, avançando no caminho da plenificação das nossas potencialidades? Sim. Rogers nos fornece uma série de características reveladoras. Eis algumas: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 104MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 104 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 105 1. Crescente abertura à experiência. O traço fundamental, da qual os demais não passam de meras decorrências, consiste na abertura à realidade, à experiência.”No sistema de Carl R. Rogers, o ponto de partida é a concepção da realidade” (Zavalloni, s/d, p. 124). Numa pessoa funcionando plenamente, qualquer estímulo tem livre trânsito no organismo, isto é, não é rejeitado nem distorcido. Merece exame mais ou menos cuidadoso de acordo com a importância relativa que possa ter para o indivíduo. Este procura reagir do modo mais conveniente para ele, segundo a percepção do momento. A pessoa é capaz de escutar-se, tomar consciência de seus estados psíquicos, quer negativos: desânimo, irritabilidade, inveja, ânsia...quer positivos: ternura, admiração, otimismo, satisfação, alegria, entusiasmo... “É livre de viver subjetivamente os sentimentos como nela aparecem, e também livre de ser consciente de tais sentimentos. É mais capaz de viver plenamente as experiências de seu organismo, em vez de as excluir do campo da consciência” (Rogers, 1961, p. 188). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 105MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 105 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 106 O grau de abertura à experiência revela o grau de maturidade da pessoa. Maturidade e abertura à experiência parecem ser termos equivalentes em Rogers: “Há maturidade psíquica quando o indivíduo tem percepção diferenciada e realista, isto é, quando não recorre à defesa: • assume a responsabilidade de sua individualidade; • assume corajosamente suas convicções; • julga de modo autônomo, com base em suas próprias experiências; • trata os outros como indivíduos diferentes dele mesmo; • tem sentimentos positivos tanto com relação a si como aos outros” (Rogers, 1966, 1, p. 191). A abertura à experiência abre um leque de perspectivas sempre mais amplo. A pessoa em processo de crescimento não é rotineira, não trilha eternamente os caminhos batidos. Com Richard Bach, pode indagar (1977, p. 48): “Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida?” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 106MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 106 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 107 Eis expressivo caso de maior abertura à experiência, tendo como consequência vida mais satisfatória: “Uma colega de trabalho contou-me que era muito criticada de não acompanhar o marido aos passeios e jantares, por sentir-se cansada. Vivia ela tentando sair para ‘agradar’ a todos: ao marido, à mãe, à tia, mas aquilo era um sacrifício para ela em vez de um prazer. Um dia, resolveu fazer uma pausa e refletir sobre o caso: Seu dia começava às 6 horas da manhã: atendia os filhos, ia lecionar 40 crianças; voltava para casa, atendia os filhos, preparava os trabalhos de aula para o dia seguinte e, assim, ia até meia-noite. Feita esta consideração sobre seus dias, verificou que era muita tarefa por dia, e não havia porque não falar ao marido que era cansaço mesmo que sentia o que lhe tirava a vontade de passear. Contratou mais uma empregada, podendo, então, dar com satisfação seus passeios, não mais violentando-se para agradar aos outros”(I.N.R.). A fim de apreendermos melhor a noção de abertura à experiência e suas consequências, eis o exemplo de pessoa fechada à realidade de sua experienciação orgarnísmica, acarretando comportamento não só inadequado, mas até ridículo. Estava-se jogando víspora na casa de João Maciel da Mata Gadelha, “conhecido em Fortaleza por João da Mata” (Caminha, A., s/ d, p. 17-31, passim). — Víspora! Saltou de repente um rapazola de óculos, bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara. Toda a gente o conhecia – era o Zuza, quintanista de Direito, filho do coronel Souza Nunes. (p. 17.) Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 107MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 107 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 108 À direita, mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos... Era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos na vida privada de D. Teresinha. Ao pé de D. Teresinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça, morena-clara, olhos cor de azeitona, carnes rijas, e cuja atenção volvia-se insistentemente para o Zuza. (p. 17-18.) A sua grande paixão (de João da Mata), o seu fraco era a Maria do Carmo, a menina de seus olhos, a afilhadinha; queria um bem extraordinário à rapariga e tratava-a com um carinho lânguido de amante apaixonado no supremo grau de amor incondicional. (p. 22.) João começou a intranquilizar-se com as frequentes visitas do Zuza. Por fim notara certas tendências do estudante para a pequena, certo quebrar de olhos, uma como insistência atrevida em dizer coisas por metáforas... Isso o incomodava, punha-lhe pruridos na calva, enraivecia-o. Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor da luz, gritou víspora! numa voz triunfante e clara, João esteve quase atirando-lhe com o cartão. Vieram-lhe desejos imoderados de estourar, de dar escândalo, trêmulo, nervoso, a semicalva reluzente de suor. Sim, senhor, disse secamente, devolvendo o cartão. Vamos à última... Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. A Campelinho suplicou mais uma partida, o Loureiro também foi de opinião que se jogasse ainda uma vez; todos, enfim, desejavam continuar, mas João da Mata opôs-se tenazmente: era tarde, tinha muito que escrever. Zuza foi o último a retirar-se, fitando em Maria um olhar embebido de ternura. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 108MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 108 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 109 Assim que se foram os habitués do víspora, João da Mata desabafou: – Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem dúvida abusar de sua confiança, plantar a desordem no seio da família, mas estava muito enganado. Ali era casa de gente pobre e honesta. Estava muito enganadinho, seu pelintra. — Mas eu sei quem é a culpada, acrescentou furioso, a culpada é a Sra. D. Maria do Carmo porque se atreve a olhar para ele! Aquilo não podia continuar, o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa sob pretexto algum. Não se portava sério? Pois então – fora pra rua. E colérico, soprando o bigode, sacudindo os braços, esmurrando a mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se D. Teresinha. Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre a mesa de jantar, onde ardia uma vela de carnaúba. Debalde D. Teresinha aconselhava, aflita, que não desse escândalo, que fosse dormir. João da Mata, porém, estavafora de si, tinha a cabeça a arder como uma brasa. Após de invectivar diretamente Maria do Carmo, terminou, depois de uma pausa, com ternura: — Vá dormir, ande... Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher, na alcova. — Pois não achas, Teté, dizia ele em camisa de dormir, aconchegado a D. Teresinha,... não achas que é um desaforo aquele patife vir à nossa casa para namorar? — Não, que tolice! O Zuza até é um rapaz sério... Vem, coitado, porque nos estima. — É boa! Fez João. Então vem porque nos estima, hein? Esta cá me fica. Sra. Teté, esta cá me fica! MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 109MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 109 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 110 — Homem, trata de suas hemorroidas que é melhor... — Ora, sabe o que é mais? Você é outra! E deram-se as costas, fazendo ranger a cama. 2. Vida progressivamente mais existencial. Como decorrência de maior receptividade da experiência, aparece comportamento mais diretamente relacionado com a situação presente ou ditado por ela. A pessoa é capaz de avaliar, por ex., um livro ou um discurso pelo que é, sem deixar-se influenciar (ao menos notavelmente) pelo fato de o autor ou orador ser ou não de sua religião, partido político, etc. Percebe facilmente a novidade de toda situação, já que tanto estímulos internos como de fora têm livre trânsito no campo da consciência. Por isso, ela, em fluxo perpétuo, não sabe o que será e o que fará amanhã. O curso é o mesmo, contudo, as águas do rio da vida podem tornar-se mais claras ou turvas; mais calmas ou turbulentas; mais lentas ou impetuosas. Pessoa com amplo grau de abertura foge à exatidão das predições. Sabe- se, porém, que agirá com maturidade. Diz Engler não “necessitar de estruturas preconcebidas para interpretar cada evento, já que é flexível e espontânea” (1996, p. 336). Pessoa rígida e insegura não consegue dispensar o corrimão para avançar na escada da existência. Tal indivíduo apresentaria as características de receptividade, fluidez, capacidade de adaptação. Benjamin Franklin parece ter sido uma ilustração realmente extraordinária de abertura à experiência e de consequente capacidade de viver adequadamente em função da situação pessoal e social do momento (Cf. Burlingame, R., 1959). O professor primário de Fagundes Varela, ao contrário, agiu com relação ao jovem versejador guiado por preconceitos, isto é, por dados anteriores à experiência do momento: o mestre-escola, em vez de animar, desencorajava o menino em seus ensaios, dizendo não possuir ele talento poético. O garoto, porém, não desanimou. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 110MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 110 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 111 Certo dia, solicitou a apreciação de dois sonetos: um levava o nome de Camões e o outro, o dele, Fagundes Varela. O professor começou a leitura do último: achou-o, como sempre, falto de verdadeira inspiração, cadência deficiente, rimas forçadas... Ao ler a composição camoniana, a fisionomia se lhe iluminou, não poupando encômios aos catorze talentosos versos. Varela partiu satisfeito: havia assinado um soneto de Camões e atribuíra ao compositor de “Os Lusíadas” uma de suas próprias composições... Para Rogers, “quem vivesse de maneira existencial, encontrar-se- ia em estado de fluxo contínuo. Os únicos elementos constantes de sua personalidade e de seu eu seriam as capacidades e limites fisiológicos do organismo e as necessidades organísmicas – contínuas umas, intermitentes outras – de sobrevivência, de alimentação, de bem-estar, de afeição, de relações sexuais, etc. As características mais constantes da personalidade consistiriam precisamente num estado de abertura à experiência e num esforço flexível e equilibrado em vista de prover às necessidades presentes em condições dadas” (1966, 1, p. 300). Pessoa assim enfrenta as situações da vida como o bom motorista a estrada: atento às condições do terreno, reage, a cada instante de modo a assegurar a melhor viagem ou passeio possível; isto acontecerá na medida em que for capaz de tomar a opção mais acertada a cada momento, consequência do grau de atenção, do grau de abertura à realidade. Lembra Geenwald o evidente – muitas vezes esquecido – já que a vida pertence a cada um, cada qual deverá cuidar dela, pois somos os primeiros e últimos responsáveis por nossa existência. Giordani (1997, p. 136) observa que essa forma de conceber o processo da vida humana é típica do existencialismo. 3. Organismo digno de confiança. Outra consequência da atitude receptiva em face da realidade é a crescente confiança no organismo: “Quando aberto à experiência, o indivíduo começa a achar o organismo mais digno de crédito” (Rogers, 1961, p. 119). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 111MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 111 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 112 A pessoa sabe que o organismo recolheu o máximo, talvez todos os dados da situação. Por isso, poderá reagir com certeza. Voltemos à comparação com o motorista: conhecendo-o exatamente sua habilidade e resistência na direção, de um lado, e as condições do carro e da estrada, do outro, poderá calcular com muita aproximação o tempo que levará para ir de Porto Alegre a Florianópolis, por exemplo, e irá mais confiante. “Perfeitamente aberta a sua experiência, teria a pessoa acesso a todos os dados da situação: as exigências sociais, suas próprias necessidades – complexas e, por vezes, antagônicas – a lembrança de situações similares, a percepção do caráter único e novo da situação, etc. A “Gestalt” total de cada situação seria, é óbvio, extremamente complexa. Entretanto, esta pessoa poderá permitir a seu organismo total – com a participação de sua percepção consciente – de se abrir a qualquer estímulo, a toda necessidade e a qualquer exigência. Poderia avaliar a intensidade e a importância de cada um desses fatores e, sobre a base de todos estes elementos, teria possibilidade para determinar a linha de comportamento mais apta a satisfazer todas as necessidades em situação dada” (Rogers, 1966, 1, p. 301). Em tais condições, seria o organismo guia competente e seguro no grau máximo. O autor o compara a calculadora eletrônica. É como se todos os elementos disponíveis do organismo – impressões sensoriais, lembranças, experiências passadas, tendências convergentes ou discordantes, sentimentos, ânsias, etc. – fossem convertidos em dados para o computador. Este trabalharia a multiplicidade de elementos, pesando o valor relativo de cada um deles, e quase instantaneamente indicaria a solução mais favorável a fim ele tirar o melhor partido da situação. Na prática, porém, não atingimos esse grau de perfeição, e isso por três razões: 1ª Devido à inclusão de dados inexistentes na realidade: se, ao somar meus depósitos bancários, não me lembrar de um cheque passado dias atrás, terei ideia errada de minhas disponibilidades financeiras por haver incluído na soma um elemento que na realidade não existe mais. 2ª O organismo às vezes se engana por excluir ou, simplesmente, por omitir algum dado: caso esquecesse, ao somar meus depósitos bancários, a MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 112MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 112 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 113 inclusão de um deles. Uma senhora contou que o marido não queria tomar medidas contra o filho maconheiro, pois, segundo ele, em sua família, essa infâmia simplesmente não podia acontecer. 3ª Finalmente, ocorrem, com maior ou menor frequência, distorções de dados da experiência. Foi o caso de João da Mata, citado páginas atrás. Se o organismo aberto à realidade não deixa de estar exposto a tais falhas, prontamente, contudo, as poderá corrigir, justamente devido à atitude amplamente receptiva. É como o navio a registrar prontamente o desvio da rota: esse registro possibilita constante retificação do rumo. No plano emocional, não tardará, por ex., em reconhecer sinais de ciúme nascensuras feitas ao namorado de uma senhorita. Na área intelectual, verificam-se casos interessantes nos indivíduos chamados por Alfred Binet de “tipos inconscientes ou de inspiração”. O grande matemático francês Poincaré é uma ilustração: preocupado com um problema, sem encontrar solução, abandonava-o. Horas ou dias depois, estando a fazer compras ou passeando pela cidade, inesperadamente entrevê a saída. Em casa, senta-se e completa o trabalho. A atitude receptiva à experiência possibilitou que o organismo continuasse a elaborar a solução (Cf. Binet, A., 1942, p. 258 e ss. ou Justo, 1997, Cap. VI). Por isso, observa Rogers, “parece dever atribuir-se à mesma complexa seleção organísmica o comportamento da pessoa criativa. Ela se surpreende a mover-se em certa direção muito antes de poder dar base inteiramente consciente e racional a isso. Neste período, simplesmente confia na reação organísmica total” (1969, p. 287). Harinan (1981, p. 9-10), estudioso do conhecimento intuitivo, da criatividade e experiência subjetiva, afirma ter nossa mente um “plano”. Olhadela retrospectiva nos convencerá que esse “plano” atuou, quiçá como fator não consciente ou superconsciente, em decisões passadas. Adler, ex-discípulo de Freud, insistiu muito no “plano de vida’’, substituindo, posteriormente esse termo por “estilo de vida”. Um dos seus livros leva o título de “O Sentido da Vida”, tema aprofundado, como sabemos, nas últimas décadas, por Victor Frankl, transformando-o numa das vigas mestras de sua visão da pessoa. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 113MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 113 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 114 É evidente que tais pontos de vista “somente podem ser sustentados por pessoas que veem as facetas não conscientes da nossa vida sob luz positiva” (Rogers, 1977, p. 246). Numerosos experimentos, longa experiência terapêutica e cuidadosas observações levaram Maslow a dizer que “o organismo humano é mais digno de confiança e mais capaz de autogoverno do que habitualmente se tem admitido” (1979, p. 366). Já dizia Camões, talvez, com algum exagero “... o coração pressago nunca mente” (Os Lusíadas, I, 84). 4. Centro interno de avaliação Pessoa aberta à experiência toma consciência gradativamente mais clara de ser ela a fonte das decisões, apreciações e escolhas. Orientar-se-á progressivamente mais por si mesma e menos pelos outros, pelo que pensarão e dirão ou a fim de lhes agradar. Em crianças, até certa idade, é comum este comportamento dependente: “Ela tinha tamanha ternura por mim que eu acho que ficava bonzinho só para ela não se decepcionar comigo” (Vasconcelos, s/d, p. 110). O processo de tornar-se pessoa supõe gradual autonomia de atitudes e reações. Um cliente escreve na última etapa de terapia: “Finalmente senti que devia simplesmente começar a fazer o que queria fazer, e não o que pensava devia realizar, e sem olhar o que os outros achavam que eu devia fazer. Foi uma reviravolta total em minha vida. Sempre senti dever fazer coisas porque as esperavam de mim ou, mais importante ainda, para gostarem de mim. Mandei tudo isso às favas! De agora em diante, quero ser eu mesmo – rico ou pobre, bom ou mau, racional ou irracional, lógico ou ilógico, célebre ou desconhecido. Grato fico ao senhor por me haver ajudado a redescobrir o conselho de Shakespeare: “Sê verdadeiro a ti mesmo” (Rogers, 1961, p. 170). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 114MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 114 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 115 O velho Sêneca (04-65 d. C.) dava o seguinte conselho a Lucíolo: “Eis a promessa que me deves fazer: toda vez que estiveres rodeado de pessoas que te querem persuadir de que és desgraçado, pensa não no que ouves, mas no que sentes; nada decidas senão de conformidade com teu sofrimento; interroga-te a ti mesmo, tu que conheces teu caso melhor do que ninguém: existe no meu caso mal real ou quase tudo não passa de odioso renome? Pergunta-te: será que não estou a me atormentar e a me afligir sem razão? Talvez não haja mal de verdade: eu é que o fabrico. (...) Sim, meu caro Lucíolo, nós nos rendemos prontamente à opinião” (1962, p. 61-62, passim). Dois princípios basilares da teoria rogeriana — em destaque no texto foram, portanto, exarados há dois milênios atrás. Autores modernos redescobrem, não raro, em contexto mais amplo, cientificamente mais bem comprovado, judiciosas observações dos ancestrais. Em vez de ser barco a vela, dependente dos ventos, a pessoa em processo de funcionamento mais pleno é semelhante a navio com motor próprio a impulsionar-lhe a existência, em condições de manter-lhe o rumo desejado, não obstante correntezas e ventos menos favoráveis. Filósofo-sociólogo espanhol, José Ortega y Gasset, lembra que “a vida nos é disparada à queima-roupa. (...) depois de nascer, temos de sair nadando, queiramos ou não” (1960, p. 81). Muitos, contudo, se deixam levar simplesmente pela correnteza. A vida não nos é dada feita: “Cada um de nós tem de fazê-la para si, cada qual a sua. Essa vida que nos é dada, nos é dada vazia, e o homem tem de ir enchendo-a, ocupando-a” (Id. ib.). E a grande tarefa da existência: enchê-la. Enchê-la de quê? Como? Cliente de Rogers (1961, p. 120-122), em corajosa abertura à experiência, dera-se conta de que a solução do problema “realmente depende de mim”. Reconhecera que isto implicava na “modificação do modelo que tinha, acho eu”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 115MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 115 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 116 Terapeuta: Espécie de alteração de um modelo significativo. Cliente: (pensa, depois, cautelosamente, porém, com convicção): “Eu, eu penso, não sei, mas tenho a sensação de que estou para começar a fazer mais do que sei que devia... Há tantas coisas que tenho necessidade de fazer. Parece que há tantas avenidas da minha vida em que devo ensaiar novas modalidades de comportamento, mas, talvez, posso ver-me fazendo um pouco melhor várias coisas.” Espero que este excerto tenha dado alguma ideia da energia experienciada por alguém sentir-se pessoa única, responsável por si mesma e, ao mesmo tempo, o mal-estar que acompanha esta aceitação de responsabilidade. Reconhecer que “eu sou o único que escolhe” e “sou o único que determina o valor de uma experiência para mim” é, a um tempo, constatação revigoradora e assustosa. Eis experiência narrada por estudante universitária de Porto Alegre, experiência que lhe permitiu tomar nas mãos o comando do barquinho da vida: “Quando completei quinze anos, ganhei uma viagem para o exterior. Nos primeiros dias, senti uma sensação de desamparo, mas depois vi que havia chegado a hora de tomar decisões, que ali não contava com papai e mamãe, para me ajudarem a decidir. Eu estava além do oceano, e para toda escolha e avaliação e juízo que eu fosse elaborar só poderia contar comigo mesma. Reagi ao desamparo inicial e me coloquei como centro da situação: quem gosta de mim sou eu mesma. Tenho que agir, decidir e avaliar, não farei nada que me possa prejudicar, mas usarei o bom senso e farei uma tomada de consciência frente a qualquer experiência que surgir. Confesso que fui muito feliz, porque me senti como alguém que se encontrou a si mesma.” Esta atitude, a de assumir a própria existência, é insistentemente aconselhada por Raul de Leoni: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 116MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 116 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 117 Vai pelos próprios passos, num assomo De quem procura por si próprio o fundo Da eterna sensação que as coisas têm. Existe, em suma, por ti mesmo, como Se antes da tua sombra sobre o mundo Não houvera existido mais ninguém. A devida canalização das energias em função do objetivo geral da existência ou em vista de finalidade mais limitada, supõe, no dizer de Kirk (1993, p. 134), adequada combinação entre as tendências expansivas e constritivas,conceitos explorados por esse autor. A fim de mover usina, as águas “expandidas” do rio hão de ser devidamente canalizadas, “constritas”. Algo parecido ocorre no psiquismo de pessoas autorrealizadas, melhor: em processo de autoatualização, pois somente as coisas, os objetos têm o ser “já dado e obtido”, na expressão de Gasset: ser homem é ser programa, plano em execução, somente interrompido ao morrer. 5. Vontade de ser um processo. No início do presente capítulo, já aludimos a esta importante característica da pessoa que funciona em plenitude ou, melhor dito: em direção da plenitude. Pessoa aberta à realidade não se considera ser produto acabado, mas processo, isto é, ser em contínuo aperfeiçoamento. Não se propõe objetivos fixos, porém, alvos que lhe sirvam de pontos de apoio a metas ulteriores. Rogers supõe, escreve André de Peretti, “ser a vida psíquica equilibrada precisamente vida na qual não há fixação em nenhum momento. Nossa personalidade é estruturação suficientemente maleável para se decompor e reconstituir de acordo com novas necessidades”(Peretti, 1966, p. 40). Como se pode ver, a teoria rogeriana não propõe como ideal de vida plácida, acomodada. Esta não corresponde ao dinamismo organísmico. O ideal é “pessoa em mudança” (cf. Rogers, 1970, cap. 5:”The Person in Change: The Process as Experienced”). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 117MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 117 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 118 Certo indivíduo, após tratamento exitoso, descreve, como segue, a fluidez ou vivência existencial: “Toda esta série de experiências, e a significação que nela fui descobrindo, parece haver-me lançado num processo que é, a um tempo, fascinante e, às vezes, assustador. Parece-me significar que eu me deixe levar por minhas experiências numa direção que vai para diante, para objetivos que apenas consigo entrever obscuramente ao procurar compreender ao menos a significação corrente desta experiência. Minha sensação é de flutuar numa complexa torrente de experiências, com a fascinante possibilidade de procurar compreender sua complexidade sempre mutável” (Rogers, 1961, p. 123). Chama o autor a atenção sobre sua convicção de que este processo não se verifica somente em terapia, mas ocorre em qualquer clima psicológico favorável. É a antítese do ideal de existência cantado em verso por Virgílio Lopez Lemus, aedo cubano: Feliz quem vive num país adormecido Junto a um lago ou junto ao mar... Viver na paz do Nada, como se fosse um morto Que não espera retornar. Keen (1979, p. 73) ensina que “ser livre é caracterizado pela reformulação criativa de significações à medida que nos modificamos, o que nos deixa, portanto, num estado de fluxo entre o que fomos, somos e nos estamos tornando”. II. Processo de crescimento 1. Da rigidez à fluência. Pessoa empenhada em “tornar-se ela mesma”, quer individualmente (Rogers, 1961, Cap. 7), quer em grupo (Rogers, 1970, Cap. 2), atravessa, neste processo, certo número de fases que, em seus altos e baixos, vão MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 118MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 118 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 119 de maior rigidez a maior flexibilidade, do imobilismo à mudança. A este processo chama Rogers de “continuum”. Alerta ele para o fato de que estas fases são como que imagens fixas selecionadas de filme animado. Em cada etapa do processo examina o autor sete elementos ou aspectos organísmicos (Cf. Rogers, 1961, p. 156-58): • grau de relacionamento com os sentimentos, • grau de incongruência, • relação com a experiência, • capacidade de autocomunicação, • rigidez das estruturas pessoais, • atitude em face dos problemas, • modo de relacionamento com os outros. Por “ser verdadeiramente difícil distinguir esses elementos uns dos outros” (Ito, 1971, p. 139), apresentamos aqui somente visão esquemática das diferentes fases, aliás suficiente para o nosso objetivo, que não é o da investigação, mas de compreensão da teoria rogeriana. O próprio autor já ofereceu esquema simplificado, reduzindo as etapas a três: inferior, média e superior (Puente, 1970, p. 129). Quando as condições atitudinais estiverem presentes no terapeuta ou colega de diálogo, observar-se-á, na maioria dos casos, progressiva abertura ao campo fenomenal. a) Tomemos, como ponto de partida, pessoa “em que se verifica sério bloqueio na comunicação entre o self e a experiência’’. Foi o caso do aluno, grave problema em aula, encaminhado ao SOE da escola. À pergunta do psicólogo como ia, respondeu: “Vou bem em tudo.” Nestas condições psicológicas, observa Marquet (1971, p. 72), “o indivíduo se recusa a estabelecer relações profundas com o outro, pois este lhe aparece como ameaça’’. b) Se, porém, experienciar clima de aceitação, já lhe será possível matizar a situação psicológica e os problemas. Retornemos ao exemplo do aluno acima. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 119MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 119 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 120 Depois que o psicólogo lhe explicou a finalidade do SOE, o semblante do rapaz se tornou menos desconfiado, e reconheceu: — Para ser franco, em algumas matérias não vou lá muito bem. Responsabilizou pela situação o fato de haver interrompido o estudo durante dois anos. Nesta segunda etapa, o problema é localizado fora do indivíduo, que recusa assumir-lhe a responsabilidade (Rogers, 1961, p. 133-134). c) Se o clima de aceitação existe e é percebido, acentuar-se-á, pouco a pouco, no indivíduo, a flexibilidade, permitindo-lhe expressão menos policiada. Referir-se-á, porém, a si mesmo genericamente (“a gente” sente; “os homens “experimentam; “os filhos” são muitas vezes; há professores, pais, motoristas... que são...). Ou descreverá experiências e sentimentos passados (Cf. Rogers, 1970, p. 17, 3). Elevado número de pessoas que procuram ajuda do psicólogo encontra-se neste nível de abertura à experiência, levando certo tempo para dar o passo adiante. d) O indivíduo passa a descrever sentimentos atuais, mas como se fossem objetos: “O fato de me sentir dependente me desanima, por significar que não confio em mim.” Em situações favoráveis, passará a pessoa a sentir-se em condições de expressar livremente os sentimentos como se fossem experienciados no presente. Exemplo: Um cliente, falando da infância infeliz, começa a chorar e, soluçando, diz: “Sinto tudo como se o experimentasse agora.” De fato, tinha, no momento, um sentimento de abandono semelhante ao da infância. e) Participante de encontros de dinâmica de grupo, pela metade de uma sessão, declara (apontando para o noivo, a seu lado, e outro elemento): MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 120MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 120 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 121 “Vocês dois me perturbam e perturbam todo o grupo. Querem obrigar a gente a ir mais depressa do que podemos. Isto me chateia. Faz tempo queria ter dito o que digo agora. Isto me custa para dizer.” O último exemplo lembra observação de Rogers: “É bastante curioso o fato de a primeira expressão de sentimentos significativos “aqui e agora” com relação a membros do grupo ou ao coordenador ser de natureza negativa” (Rogers, 1970, p. 18). f) Desaparecem os bloqueios parciais que dificultam ou retardam a tomada de consciência da realidade psíquica: os sentimentos atuais podem ser experienciados imediatamente em toda a sua riqueza (Rogers, 1961, p. 145). O self tende a desaparecer como objeto: o self é, no momento, este sentimento (Id.,p. 147). O indivíduo acaba de alcançar relativa liberdade experiencial. Entrou num processo praticamente irreversível (Id., p. 150). Sempre mais clara fica para o indivíduo a seguinte verificação: “Não sou obrigado a ser simplesmente um produto dos outros, modelado por suas expectativas, moldado por suas exigências. Não sou compelido a ser vítima de forças desconhecidas existentes em mim mesmo... Sou cada vez mais oarquiteto do meu self. Sou livre de querer e escolher. Posso, pela aceitação de minha individualidade, da minha “isness”, acentuar minha unicidade, tornar-me mais o que sou em potência” (Rogers, 1967, p. 47-48). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 121MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 121 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 122 Medo de crescer “Há em mim duas forças que entram em conflito: a primeira impele-me a realizar-me numa utilização progressiva de todas as minhas potencialidades e a revisar constantemente a minha adaptação à realidade exterior; a outra me impele a agarrar-me àquilo que sustenta minha segurança e gera medo de colocar em risco aquilo que foi conseguido. Sou movido por desejo de existir plenamente e paralisado por tentação permanente de me renegar como indivíduo para identificar-me com a multidão. Tenho sede de ser livre e tenho medo da minha liberdade. Prefiro submeter-me a um poder autoritário e alienar-me na conformidade por medo do desconhecido sobre o qual pode desembocar minha liberdade. Aquilo que eu acreditava ser um combate contra o mundo acaba sendo muito mais um combate comigo mesmo: a realidade do mundo exterior pode me promover ou me empobrecer, mas, afinal, sou eu quem decide. Esse confronto que eu hoje sinto em mim não é completamente novo: passei por ele a cada etapa do meu crescimento. A cada vez que necessidades novas me forçavam a explorar o desconhecido, eu me agarrava primeiramente ao conhecido. Portanto, é porque a inquietação interior é provocada por uma necessidade de atualização de si; é porque ela significa que alguma coisa que era mantida fora da consciência, ainda inacabada, tende a se aperfeiçoar que as resistências se manifestam. A personalidade se protege contra todo elemento novo que ameaça a sua estabilidade, contra toda intrusão que arrisca desequilibrar suas referências. O estado de tensão que resulta disso tudo revela a luta travada no interior do psiquismo entre uma imagem de si que se deseja conservar a todo custo e uma perspectiva nova que tende a modificá-la.” Artaud, 1983, p. 89-90 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 122MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 122 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 123 g) Por haver atingido estágio irreversível, o indivíduo “parece entrar na sétima e última fase, sem grande ajuda do psicólogo” (Rogers, 1961, p. 151). Pode alguém elevar-se a este nível tanto dentro como fora da relação terapêutica. “A experiência imediata se amplia, de certa maneira, para abranger novos sentimentos, servindo de critério perfeitamente claro, mesmo se os sentimentos forem desagradáveis e assustadores. Sentimentos e situações são vividos na sua novidade, e a experiência imediata torna-se precisamente a experiência da mudança” (Marquet, 1971, p. 76). Chegamos, assim, de novo, à pessoa que tende a funcionar mais plenamente. Ou, na expressão de Libânio (1992, p. 233): ‘’A pessoa está sempre num processo de personalização, através do exercício livre de ser pessoa.” Observa que a qualidade desse ser-pessoa depende da qualidade das opções feitas. Segundo Bohart (1990, p. 483), nessas pessoas, há mais fina diferenciação de novos significados na interação experiencial com o mundo. Portanto, a pessoa em processo de sempre melhor funcionamento se distancia gradualmente de constructos simplistas, globais, rígidos, o que supõe, de um lado, abertura a toda informação, mormente à proveniente de significações captadas, efetivamente sentidas por ela; de outro lado, presume-se diálogo transparente entre os níveis conceitual e experiencial. Resultado: nova integração e reorganização da experiência. Estágio Inferior Estágio Médio Estágio Superior A pessoa é - fechada - rígida - incongruente A pessoa é - menos fechada - menos rígida - menos incongruente A pessoa é - aberta - maleável - congruente Rogers chama a atenção sobre o fato de “a pessoa nunca se encontrar totalmente numa ou noutra fase do processo” (1961, p. 139). No decorrer de uma entrevista, oscilará de um nível para outro, embora seja possível situá-la predominantemente neste ou naquele. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 123MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 123 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 124 Outra observação do autor: Não tem certeza se este é ou não o único processo de mudança da pessoa. É certo, porém, ocorrer esta modalidade ao sentir-se o indivíduo plenamente aceito. Por isso, não sabe se o esquema convém a outras orientações psicoterapêuticas (ib., p. 155). Indivíduo empenhado na dinâmica de se tornar cada vez mais ele mesmo luta, por assim dizer, em duas frentes, que apresentam correlação inversa uma da outra, isto é, quanto mais se distanciar do estágio inferior, tanto mais se aproximará da fase média e superior da personalização. “Esta aprendizagem (de ser livre) compõe-se de um movimento de (“from”) e de um movimento para (“toward’’). (Rogers, 1967, p. 49; cf. p. 25-26; 48-49; 1969, p. 253-255). Para que este processo possa desencadear-se e ter continuidade, é necessário que, no relacionamento, o indivíduo • sinta-se apreciado como pessoa autônoma, • sinta-se empaticamente compreendido e valorizado, • goze de liberdade para experienciar os próprios sentimentos (Rogers, 1969, p. 252). 2. Para longe de... (“away from”) O objetivo a ser alcançado é “ser o que realmente se é” (Kierkegaard), o que exige: a) Fora as máscaras: o indivíduo se despoja, em meio a dúvidas e lutas, do que realmente não é, descobrindo, paulatinamente, sua verdadeira imagem. Pode ser processo doloroso. Testemunha-o Fernando Pessoa: “Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara.“ (‘Tabacaria”) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 124MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 124 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 125 Em Érico Veríssimo, assistimos a essa luta interna ao receber ele a notícia do falecimento do pai: “Morava sozinho e na miséria. Isso me doeu, dando-me um sentimento de culpa que eu repelia com o intelecto, mas sentia intensamente com o corpo inteiro” (1974, p. 258). Machado de Assis diria: “... sacudir a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser” (1960, p. 77). E haverá quem reconheça seu autorretrato no poemeto da escritora gaúcha Maria Dinorah Luz do Prado: É tal o espanto que me perturba quando me encontro, que me ignoro e sigo, em busca. Será que acaso eu não procuro fugir de mim? (‘’Será?’’) b) Para longe o “você deve”. Todos ficamos mais ou menos marcados por frases como estas: “criança deve”, “menino faz ou não faz”, “menina é assim ou assim”... A sociedade costuma reforçar tais refrões dos pais. Escreve Barry Stevens: “No começo, eu era uma pessoa, não conhecendo outra coisa a não ser minha experiência. Depois, contaram-me coisas, e eu me tornei dois indivíduos: Senta direito. Deixa a sala para assoar-te. Puxa a água do banheiro à noite para não dificultar a limpeza. Não deves puxar a água do banheiro de noite a fim de não despertar a gente. Deves ser sempre gentil para com todos. Mesmo não gostando de alguém, não deves magoá-lo... O mais importante é ter uma profissão. O mais importante é casar. O mais importante é o sexo. O mais importante é ter dinheiro no banco. O mais importante é vestir bem... MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 125MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 125 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 126 No começo era eu, e eu era bom. Então entrou o outro eu. Autoridade exterior. Isto me confundiu... Havia dois eu: um eu ia fazendo o que o outro desaprovava” (Rogers/Stevens 1967, p. 9). Acaso não tem razão o autor de “Assim Falava Zaratustra” ao dizer que o nome do grande dragão é “tu deves”, contrapondo-lhe o espírito de leão firmando-se: “eu quero”. Chega o momento em que o indivíduo se dá conta de ser, muitas vezes, espécie de teleguiado. Procurará, então, comportar-se cada vez mais de acordocom suas próprias necessidades e pontos de vista. Tornar-se-á progressivamente mais ele mesmo. c) Para além do que os outros esperam de mim. Outra forma de viver teleguiadamente consiste em tomar como bússola do comportamento as expectativas dos outros a nosso respeito. Assim, na voz de Rollo May, “... o ego não passa a um “selfhood” responsável” (1953, p. 73). Ao contrário, como escreve Karen Horney, psicanalista de vanguarda, com pintas humanistas, salientando a necessária autonomia na dinâmica da personalização: “Deve a pessoa procurar exprimir o que sente realmente, e não o que deve sentir por força de tradições ou de seus próprios padrões morais. Deve, ao menos, dar-se conta de que pode haver um hiato imenso entre os sentimentos genuínos e os adotados artificialmente” (1959, p. 182). O indivíduo há de empenhar-se por ser ele mesmo. Houvessem seguido o desejo dos pais, Berlioz e Olavo Bilac teriam sido médicos (talvez medíocres) em vez de eminentes artistas: músico o francês e poeta parnasiano o brasileiro. Semanário alemão (“Der Pilger”, n. 14, 1972, p. 417) traz relação de homens de projeção mundial que não seguiram a profissão destinada a eles pelos pais (acrescidos de alguns mais): MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 126MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 126 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 127 Devia ser Foi Goethe Franz Schubert Pestalozzi Robert Koch Nietzsche Albert Einstein Manoel Bandeira Hermano Hesse Friedrich Engels Berlioz advogado professor agricultor professor pastor violinista arquiteto teólogo industrial médico poeta músico pedagogo bacteriologista filósofo físico poeta escritor filósofo músico Quanto a Manoel Bandeira, a falta de saúde modificou-lhe o roteiro profissional traçado pela autoridade paterna: Criou-me, desde eu menino, Para arquiteto meu pai. Foi-se-me um dia a saúde... Fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor, perdoai. d) Livre de agradar aos outros. “Tenho observado se formarem muitos indivíduos procurando agradar aos outros mas, quando livres, desistem de serem tais pessoas” (Rogers, 1961, p. 170). “Hoje briguei com a mãe, disse uma cliente, estudante universitária. — Por que seria? — Até hoje, eu devia trajar-me conforme o gosto dela. Isto se me tornou insuportável. Havia combinações de cores que me repugnavam. Daqui em diante, vestir-me-ei como eu quero.” Muitas vezes, observa Rogers, manifestam as pessoas seus próprios objetivos de forma um tanto negativa: falam das direções que não querem seguir. Não seria o caso dos hippies? MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 127MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 127 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 128 Em resumo: a pessoa se vai distanciando de ser pessoa - impulsionada por forças internas dela desconhecidas, - temerosa e desconfiada dela mesma e dos sentimentos mais profundos, - vivendo de valores tomados dos outros (Rogers, 1967, p. 49). 3. A caminho de... (“Toward”) Muitas ideias nucleares (a maioria?) dos autores hodiernos já aparecem nos sábios antigos. Assim, referente à epígrafe que nos ocupa, temos um pensamento do filósofo português Baruch Spinoza: distingue ele, pessoas “que se esforçam por viver”; outras, tratam simplesmente de “evitar a morte”, de sobreviver (1968, p. 99). Quem conseguiu cortar os cabos que o prendiam ao cais, esforçando- se por sempre viver mais e melhor, poderá encetar a viagem que lhe aprouver. Que rumos irá tomar? a) O caminho da autodireção. – “O indivíduo se encaminha para a autonomia” (Rogers, 1961, p. 170-171): escolherá seus objetivos, sentindo- se responsável por eles. Decidirá quais as atividades e comportamentos que lhe serão vantajosos ou não. Não se pense constituir tarefa fácil a de assumir a direção de si mesmo: é exigente, cheia de responsabilidade. Por que se admirar, por isso, preferirem muitos indivíduos (a maioria?) percorrer as sendas batidas a enfrentar a ansiedade inseparável da empreitada de construir o próprio caminho? Assumir a autodireção não significa fazer a pessoa sempre escolhas acertadas. Não. Espera-se, porém, que aprenda das consequências advindas das opções feitas. A abertura à experiência assegurará esse “feedback”. Entretanto, na afirmação de Unamuno, “nem todos sentem o próprio espírito; nem todos sentem-se ser e existir como núcleo de seu universo (...) Carecem da intuição da própria substancialidade” (1952, p. 44, 45). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 128MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 128 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 129 b) A caminho de ser processo. – Repetidamente aparecem, ao longo destas páginas, as noções de processo, mudança e dinamismo, em contraposição a concepções mais ou menos estáticas. Quem se libertar das amarras e da tranquilidade monótona do cais, encontra satisfação em enfrentar as águas ora calmas ora agitadas do alto mar. Aberto à experiência, deixa-se modelar por ela: de ideal de “ser sempre o mesmo”, passará a modelo dinâmico: transformar-se de acordo com as mudanças internas e externas. Inicialmente perturbadora, a atitude será experienciada cada vez como mais satisfatória. Ser rio corrente e não lago tranquilo. É a passagem de personalidade estruturada – mais ou menos rígida, estática – a personalidade-processo. c) A caminho da complexidade. – Os sentimentos do homem, além de extremamente complexos em si mesmos, apresentam acentuadas flutuações, chegando, não raro, a situações conflitantes e, mesmo, contraditórias. Qual a atitude a tomar? Aceitá-los na complexidade de suas alterações. d) A caminho da abertura à experiência. – Pode a pessoa ir do ponto de negar ou distorcer a experiência até o extremo oposto: aceitar a realidade como se apresenta e reagir a ela em harmonia com as preferências pessoais. A caminhada pode ser longa e a estrada árdua. “É penoso para mim remexer este passado. Mas sei que é preciso: nada adianta querer enganar-me a mim mesma”, dizia corajosamente uma cliente. Gradativamente aprende o homem ser a experiência recurso amigo e não inimigo temível (Rogers, 1961, p. 173). e) A caminho da aceitação dos demais. “Estreitamente ligada a esta abertura geral à experiência interna e externa é a abertura a outros indivíduos e sua aceitação.” (Id. ib.) A aceitação do outro é consequência da autoaceitação. Ninguém se queixa da umidade da água nem da dureza da rocha – diz Maslow. Aceitamos estas realidades, tomando-as na devida consideração e utilizando-as prática (Cf. Maslow, 1972, p. 47). Quem tiver ampla abertura à realidade experiencial, estenderá esta atitude de aceitação a si mesmo e, progressivamente, aos demais. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 129MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 129 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 130 f) Relacionamento profundo com os outros. – Constitui necessidade íntima de toda pessoa o estabelecer elos de comunicação real e profunda com outros indivíduos (Rogers, 1967, p. 26). g) O fato de ser real, congruente, é positivamente avaliado. – A pessoa tende a ir na direção de ser ela mesma, sendo seus sentimentos reais: sendo o que é. h) A caminho da confiança em si. – A congruência desenvolve o sentimento de autoconfiança. Monteiro Lobato lia muito a Manuel Bernardes: “Como este raio de Padre escreve bem!” – dizia. Mas nem por isso deixou de cultivar seu próprio estilo, alçando-se a posição destacada na literatura nacional. Tinha confiança nos próprios recursos. À medida em que a pessoa consegue desenvolver confiança em si mesma, tornar-se-á original, criativa em sua esfera: será capaz de cultivar seus valores e aceitar calmamente eventuais discordâncias. *** Em resumo: “O indivíduo parece mover-se, com conhecimento e atitude de aceitação, na linha de ser o processo que internamente e atualmente é. Afasta-se de ser o que não é:uma fachada. Não procura ser mais do que é... nem menos do que é... É gradualmente mais atento às profundezas do seu ser fisiológico e emocional, com desejosempre maior e em maior profundidade de ser aquele self que realmente é” (Rogers, 1961, p. 175-176). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 130MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 130 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 131 Tal pessoa, de acordo com o mestre de La Jolla, move-se na direção de ser pessoa que • aceita e mesmo aprecia os próprios sentimentos; • valoriza as camadas profundas de sua natureza, confiando nelas; • encontra energia no fato de se reconhecer individualidade única; • vive valores experienciados por ela mesma (Rogers, 1967, p. 49). 4. A pessoa que funciona plenamente. Em poucas linhas, como nos apareceria esta pessoa ideal ou esse ideal de pessoa? a) Estaria em condições de sentir livremente e aceitar plenamente todas as experiências: reações, sentimentos, desejos, pensamentos... Portanto: abertura máxima à realidade interna e externa. É aberta aos dados de qualquer proveniência; ela constitui seu próprio crivo. b) Embora disponha, assim, do maior número possível de elementos da situação existencial, reconhecerá ser, às vezes, mais prudente deixar- se guiar pelos dados do organismo total do que pelos do campo da consciência. c) Estará em condições de se confiar ao seu organismo, orientando-se por ele em face de alternativas, certa de que lhe indicará o comportamento capaz de lhe obter a mais completa e autêntica satisfação do conjunto de necessidades do momento. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 131MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 131 05/07/2022 15:24:3805/07/2022 15:24:38 132 Ser pessoa é ser processo Por muito bem que acreditemos conhecer uma pessoa, por muito seguros que nos sintamos a respeito dos traços que constituem o seu caráter, ao nos arrojarmos a um prognóstico sobre qual será o seu comportamento em um assunto que verdadeiramente nos importe, notaremos que aquele convencimento a respeito do seu modo de ser vacila, e, ultimamente, admitimos a possibilidade de que essa sua futura conduta seja diferente da presumível. Ora, tal não ocorre com as antecipações de conhecimento que são as leis físicas e boa parte das biológicas, sem falarmos das matemáticas. Ao reparar nisto, descobrimos que o saber científico é fechado e firme, enquanto o nosso saber vital, sobre os demais e sobre nós mesmos é um saber aberto, nunca firme, de um ‘dintorno’ flutuante. A razão disso é claro: o homem, seja o outro ou seja eu, não tem um ser fixo ou fixado: o seu ser é precisamente liberdade de ser. Isto acarreta que, enquanto vive, o homem sempre pode ser diferente do que foi até aquele momento... Mais ainda: é de fato sempre mais ou menos diferente. O nosso saber vital é aberto, flutuante porque o tema desse saber, a vida, o homem é já por si também um ser sempre aberto a novas possibilidades. Sem dúvida, o nosso passado gravita sobre nós e nos inclina a ser isto mais do que aquilo no futuro, mas não nos acorrenta nem nos arrasta. Só quando está morto o homem, o tu tem já um ser fixo: isso que foi e que já não pode reformar, contradizer nem suplementar. Este é o sentido do famoso verso em que Mallarmé vê Edgar Poe morto: Tel qu’en lui-même enfin l’Éternité le change. A vida é troca; em cada novo instante se está sendo algo diferente do que se era, sem ser, portanto, nunca definitivamente ‘si mesmo’. Só a morte, ao impedir uma nova mudança, muda o homem no definitivo e imutável si mesmo; jaz dele para sempre uma figura imóvel, isto é, liberta-o da mudança e o eterniza. Gasset, 1960, p. 191 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 132MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 132 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 133 d) Tem confiança no organismo não por considerá-lo infalível, mas por estar bem informada, graças à abertura à experiência: esta atitude de abertura possibilitar-lhe-á a pronta correção de eventuais erros de avaliação da realidade. e) Sadia e realisticamente social, está comprometida em se tornar ela mesma, vivendo intensamente o momento presente. Tendo mais clara consciência de si mesma, facilita ao organismo mais pleno funcionamento, enfocando livremente as experiências. Para Schneider (1993, p. 134), estudioso dos processos de constrição e expansão, “as pessoas ideais possuem centros bem desenvolvidos – são mais capazes de se recolher quando devem se recolher e quando devem se expandir, enquanto que nas pessoas disfuncionais e convencionais essa capacidade é fortemente diminuída”. Em termos piagetianos, a pessoa se encontra em processo de equilibração, isto é, possui modelo autorregulador como resultado dos processos de assimilação (incorporação de novos elementos nos esquemas existentes) e acomodação (modificação de esquemas existentes em virtude das novas experiências). Algumas destas características prenunciam as “qualidades das pessoas de manhã” (Rogers, 1980, p. 350-352). Diz ele já haver experienciado tais pessoas, que possuem certos traços comuns: a) Abertura ao mundo interno e exterior. b) Desejo de autenticidade, rejeitando hipocrisia, fraude, duplicidade. c) Ceticismo com relação à ciência e tecnologia, a não ser que sirvam ao crescimento e bem-estar das pessoas. d) Desejo de totalidade, não apreciando as dicotomias corpo-mente, saúde-doença, intelecto-sentimento, trabalho-lazer, indivíduo-grupo. Veem tudo na ótica da integração. e) Desejo de intimidade: novas formas de comunicação, de proximidade. f) São pessoas-processo: conscientes de estarem em mudança contínua. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 133MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 133 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 134 g) Solicitude: empenhadas em ajudar aos que realmente necessitam. h) Respeitosa atitude em face da natureza: têm mentalidade ecológica. Preferem a aliança com a natureza a sua conquista. i) São anti-institucionais: com aversão a instituições complicadamente estruturadas, inflexíveis e burocráticas, pois dificultam o atendimento da pessoa. j) Autoridade interna: confiam na própria experiência e têm profunda desconfiança da autoridade exterior. k) Somenos importância das coisas materiais: são indiferentes ao conforto e à recompensa material. Sabem viver na riqueza, mas não lhes é necessária. l) Anseio pelo espiritual: são pessoas em busca. Estas pessoas querem encontrar vida com sentido e objetivo que transcendam a esfera do individual. Abrem mão de valores mais egocentrados em favor de outros que ultrapassam o indivíduo. Seus protótipos são homens de horizontes amplos do porte de Gandhi, Martin Luther King, Teilhard de Chardin. As posições da pessoa do futuro contrastam com certo número de slogans, tais como: o Estado acima de tudo, a tradição antes de tudo, o intelecto acima de tudo, os seres humanos deveriam ser moldados, o “status quo” para sempre, nossa verdade é a verdade... A pessoa do futuro encontrará estas barreiras no seu caminho e, adverte Rogers, poderá, inclusive, ser esmagada por elas. Em todo caso, tal pessoa “saberá lealmente gozar do próprio ser”, na expressão de Montaigne (1961. III. p. 359). Que restou a Viktor Frankl, por exemplo, no campo de concentração, a não ser o “próprio ser”? Não se conclua, porém, ser ela perfeita ou quase perfeita: indivíduo em processo de autorrealização – inclusive em estágio adiantado – não está livre de falhas e defeitos, de sentimentos de culpa, de ansiedade, autocrítica e outros conflitos internos (Rowan, 1988, p. 215). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 134MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 134 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 135 III. Teoria “se-então” A teoria de Carl Rogers supõe a existência no organismo de certas tendências ou dinamismos, de certas necessidades. A possibilidade de pleno desabrochamento dessas tendências é função de determinadas condições. Por isso, foi essa teoria chamada de “if-then-theory”: teoria se-então. Se determinadas condições estiverem presentes, então ocorrerá o esperado desenvolvimento das potencialidades. A teoria contém,igualmente, a noção de “funcionamento ótimo” da personalidade, que vem a ser o ideal a ser colimado. A sociedade aguarda do indivíduo, a partir de certa idade, funcionamento maduro; o indivíduo, por sua vez, tende, mais ou menos conscientemente, a ele. Eis apresentação esquemática: A teoria humanística “se-então” se preocupa mais com o “como” do funcionamento da personalidade. As correntes tradicionais enfatizam o “porquê” do comportamento. A visão humanista também se interessa pelo “porquê”, mas em função do “como”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 135MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 135 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 136 IV. Uma teoria otimista Descoberta não derivada de hipóteses, inteiramente inesperada do acendimento terapêutico de Carl Rogers e colegas deu colorido otimista à visão de personalidade: ‘’Um dos conceitos mais revolucionários derivados da nossa experiência clínica foi o reconhecimento gradativo de que o núcleo mais íntimo da natureza do homem, a camada mais profunda de sua personalidade, a base de sua natureza animal tem características positivas. Esse núcleo é fundamentalmente socializado, orientado para frente, racional e realista” (Rogers, 1961, p. 91). Reconhece o autor ser esta descoberta tão extraordinária que dificilmente será aceita. A Religião, mormente a tradição protestante, diz ele, apresenta o homem fundamentalmente pecador. Em Psicologia, a corrente freudiana nos oferece o “id’’, cujos instintos não reprimidos levariam ao incesto, ao assassinato e outros crimes. O homem seria irracional, antissocial, destruidor de si e dos outros. “Ao descrever o comportamento humano, Rogers, em contraste com Freud, é um otimista” (Bischof, 1968, p. 428). Convém lembrar que a ala dos “ego-psicólogos”, como lhes chama Erich Fromm (1971, p, 32), “sublinha o papel da vontade e da energia libidinal inclusive a volitiva” (Id., p, 34). O conceito de conflitos entre opostos é substituído pelo de um crescimento desenvolvimentista, dentro de uma hierarquia estruturada. Como se vê, “a principal escola dentro do movimento psicanalítico... adaptação da Psicanálise à ciência social do século XX e ao espírito dominante na sociedade ocidental” (Id., p. 39), já defende psicologia menos distante da rogeriana. Menos distante e não mais próxima, por se basearem ambas em pontos de vista diferentes: a ego-psicologia filia-se às teorias nomotéticas, à cata de leis gerais aplicáveis aos indivíduos, enfatizando o determinismo nas reações; a concepção rogeriana pertence à corrente fenomenológica, MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 136MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 136 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 137 sublinhando a unicidade do homem e o papel da livre decisão (Cf. Penrvin, 1970, p. 60-65). São duas correntes “tão dissemelhantes como o são o dia e a noite” (Binswanger, 1971, p. 149. Cf. Rollo May e outros, 1967). Já que citamos Fromm, observemos, en passant, possuir também ele concepção otimista do homem (1969, p. 13;Bischof, 1968, p. 652). Karen Horney esposa igualmente ponto de vista positivo sobre a natureza humana (Id., p. 310; 315-316), assim como Maslow (1972, p. 180, 221), Rollo May (1976, p. 161-162). Maslow fala nas “consequências verdadeira-mente revolucionárias da descoberta de que a natureza humana tem sido subestimada, que o homem possui natureza “superior” que é tão instintiva como sua natureza “inferior”, e que essa natureza superior encerra as necessidades de trabalho significativo, de responsabilidade, de criatividade, a necessidade de ser honesto e justo, de fazer o que vale a pena e de preferir o bem“ (1972, p. 253). Aludindo à visão pessimista do homem, escreve Rogers: “Sou franco: pouca atração exerce sobre mim a concepção amplamente difundida de ser o homem fundamentalmente irracional, cujas pulsões – caso não fossem controladas – terminariam por aniquilá-lo a ele mesmo e aos demais, com uma complexidade subtil e ordenada, para os fins propostos pelo organismo. O que é trágico para a maior parte de nós é que uma atitude de defesa nos impede de nos dar plenamente conta desta racionalidade. De conseguinte, os dados da nossa consciência nos orientam numa direção determinada enquanto nosso organismo nos impele na direção oposta. A pessoa que vive plenamente a vida não é vítima de tais conflitos, e participa da racionalidade fundamental de seu organismo” (Rogers, 1966, I, p. 310). Em outro livro, volta ao tema para nos dizer que um conjunto de pessoas reunidas para o exercício da “dinâmica de grupo” merece a mesma confiança: “Confio no grupo ao qual é dado clima facilitante, no sentido de desenvolver sua própria potencialidade e a de seus membros... Gradativamente manifesta-se acentuada confiança no processo grupal” (Rogers, 1970, p. 44). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 137MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 137 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 138 Insiste, porém, em não ser mal compreendido. Vai outra citação textual, já que esse ponto de vista é polêmico: “Não possuo visão ingênua da natureza humana. Tenho bem consciência de que, para se defender e movido por medos intensos, indivíduos se podem comportar e, de fato, se comportam de modo incrivelmente destrutivo, imaturo, regressivo, antissocial e nocivo. Porém, um dos aspectos mais agradáveis e animadores da minha experiência consiste em trabalhar com tais indivíduos e descobrir a vigorosa tendência positiva que neles existe, como em nós todos, nos níveis mais profundos” (Rogers, 1961, p. 27. 1977, p. 244). Como se vê, o assim chamado “angelismo rogeriano” é destituído de fundamento. Rogers é cientista aberto à realidade, sempre disposto a mudar de opinião se fatos devidamente comprovados o exigem. Eis outra descoberta, talvez mais facilmente aceitável do que a anterior. Refere-se ao processo de repressão, no qual inclui não somente aspectos negativos, como é hábito fazer-se, mas também características elogiáveis. Haverá alguém que ainda não fez essa dupla experiência? “Consoante a visão tradicional, somente os impulsos ‘maus’, socialmente proibidos, são objetos de repressão. Segundo nossas observações, esta concepção de repressão é inadequada. Com efeito, a experiência clínica mostra que, muitas vezes, os sentimentos mais profundamente recalcados são de natureza positiva: amor, bondade, confiança” (Rogers, 1966, J, p. 182). Portanto, uma concepção otimista, porém, não ingênua do homem. Aliás, na Psicologia hodierna, encontramos, ao lado de Rogers, muitos partidários desta visão mais positiva. Fromm e Karen Horney já foram citados. ‘’Maslow censura a Psicologia pela sua concepção pessimista, negativa e limitada do homem. Para ele, a Psicologia se tem ocupado mais das deficiências do que das virtudes do ser humano” (Hall/Lindzey, 1966, p. 360). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 138MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 138 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 139 Fora desta hipótese positiva sobre a natureza humana, pergunta Peretti, como se justificaria a psicoterapia, a pedagogia? (1969, p. 69; 1966, p. 64-67). Maslow diz ser tão difícil a quem acredita na bondade fundamental do homem aceitar ser ele basicamente ruim, como alguém, convencido do último modo de pensar admitir a visão otimista a respeito do ser humano. Unamuno (1952, p. 47), filósofo sisudo, explode, poeticamente entusiasmado, referindo-se às pessoas comprometidas no crescimento pessoal: “Plenitude de plenitude e tudo plenitude! A este grito de júbilo e libertação e persistência somente pode chegar-se abraçando a própria alma com os próprios braços dela, e sentindo-a espiritualmente material, em meio às burlas de uns, rancores de outros, desprezo destes, inveja daqueles e indiferença dos demais.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 139MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 139 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 140 Visão otimista “O interior sempre terminaRansom Rogers escreveu 16 (dezesseis) livros e mais de 200 artigos profissionais e estudos de pesquisa (Thorne, 1993, p. 59). 2ª Além da Autobiografia (1967), existem ao menos dois livros de natureza biográfica que merecem ser lidos: Kirschbaum, H. On Becoming Carl Rogers. Nova Iorque: Delatorte, 1979 e Peretti, A. Présence de Carl Rogers. Paris. Éres, 1997. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 17MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 17 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 18 TEORIA ROGERIANA O título talvez não seja totalmente exato: a teoria de Carl Ransom Rogers não é, na realidade, elaboração exclusivamente sua, embora ele tenha sido a alma desta concepção do homem. O que ele disse no prefácio do grande livro de 1951 (p. IX), pode estender-se, mutatis mutandis, a grande parte de sua teoria: ‘’Este livro é o produto de muitas mentes e o resultado de muitas interações de grupo. Primeiramente e, sobretudo, constitui o produto da equipe do ‘Couseling Center’ da Universidade de Chicago: do trabalho realizado em psicoterapia e pesquisa psicoterapêutica.” A teoria desdobrou-se em várias direções, contudo, o ponto de partida, ao qual Rogers acaba de aludir na citação acima, é constituído pela teoria da psicoterapia. Também é a parte mais solidamente estabelecida pela pesquisa experimental (1966, I, p. 166). As preocupações psicoterapêuticas levaram à reflexão e a pesquisas sobre a estrutura e dinâmica da personalidade. Foram as teorias behaviorista e freudiana que lhe serviram, inicialmente, na atividade clínica e investigação. O primeiro filho, a esposa e ele procuraram educar em harmonia com as normas do comportamentalismo watsoniano. Felizmente, a intuição maternal de Helen, segundo Rogers, soube flexibilizar a rigidez do esquema científico. Observações próprias e de colegas de equipe, assim como numerosas e, às vezes, engenhosíssimas comprovações experimentais, foram-no distanciando progressivamente da visão freudiana e watsoniana do homem: “Atitude profundamente enraizada no meu modo intelectual de ver refere-se à teoria (...): toda teoria contém, no momento de sua formulação, certo número desconhecido (então, naturalmente não cognoscível) de erros e definições falhas (...). A consciência aguda do fato de o conhecimento científico ser essencialmente provisório se me afigura, igualmente, como exigência primordial da atitude científica.” (1966, I, p. 163). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 18MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 18 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 19 Lamenta “o doloroso espetáculo da história da teoria freudiana”, por epígonos do grande mestre vienense “substituírem a filigrana do pensamento especulativo do mestre pelas cadeias do dogmatismo do qual somente agora começa a psicologia dinâmica a se libertar” (Id. ib. – Cf. Fromm, ‘A Crise da Psicanálise’, ‘A Missão de Freud’ e ‘Grandeza e Limitações do Pensamento de Freud’). No final da década de 30, numa conferência sobre psicoterapia, na Universidade de Minnesota, descobriu Rogers serem seu modo de pensar e trabalhar considerados novos e controvertidos, radicais e ameaçadores (Rogers in Hart-Tomlinson, 1970, p. VII). A Psicologia Humanista é mais inclusiva que exclusiva, assumindo atitude mais integrativa do que dicotômica em face de outras linhas psicológicas (Maslow). Não tomou atitude contra a teoria psicanalítica, mas posição franca e indagadora em face da realidade humana. A essa atitude especulativa acrescentou a experimental, com iniciativas pioneiras: “Rogers foi o primeiro a praticar, com sua escola, para verificação e controle, gravações sistemáticas de terapias completas: não somente registro sonoro, mas também transcrições integrais e documentação cinematográfica” (Peretti, 1966, p. 27; if. Strupp, in Bachrach, 1972, p. 732). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 19MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 19 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 20 Na mente de não poucas pessoas cultas, está arraigada a ideia de que os três grandes modelos atuais existentes em Psicologia, isto é, psicanálise, behaviorismo e psicologia humanista, são mutuamente excludentes. Abraham Maslow (1979, p. 268) – um dos maiores nomes da Psicologia contemporânea – está convencido de que, uma vez superado o ‘espírito de clube’ ou ‘fraternidade’ por atitude inteiramente científica, será possível incluir esses modelos numa estrutura mais ampla. Quem conseguir essa posição atingiu o nível de conhecimento “S” (de ‘ser’ ou “B-cognition”), complementar ao conhecimento ‘D’ (de ‘deficiência’ ou “D-cognition’’), na nomenclatura do autor (Ib. p. 249-255). Aos poucos, foi Rogers reunindo e organizando observações sobre o ‘organismo humano’ e a dinâmica da personalidade, resultando, finalmente, sua “teoria da personalidade” (1966, I, p. 167). Não tardou Rogers em verificar serem as condições e características da relação terapêutica, em suas linhas fundamentais, igualmente válidas para as relações humanas em geral. Esta verificação levou à elaboração da teoria das relações humanas. ‘’Esta nova perspectiva permitiu entrevíssemos, com clareza progressiva, serem nossas teorias suscetíveis de aplicação a todos os campos da atividade e da experiência envolvendo relações humanas e mudança atual ou potencial da personalidade” (Ib. família, educação, ministração, solução de conflitos de grupo (Rogers, 1968, p. 55; Maslow, 1972, p. 189, 3). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 20MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 20 05/07/2022 15:24:3405/07/2022 15:24:34 21 Representemos os diversos aspectos da teoria rogeriana ter relações num quadro único: Posteriormente, estendeu-se a teoria à catequese (Varona, Pons, Regidor, Laporta), à teologia (Vázquez), à orientação pastoral (Arnaud, Clinebell, Godin, Hostie, Hiltner), à compreensão da parte humana na caminhada mística (González). Diz este último autor (1980, p. XIV): “Para estabelecer a correlação entre a experiência humana e a experiência de Deus, escolhi o marco teórico de São João da Cruz e Carl R. Rogers”. Na área da orientação pastoral, nem todos os autores se guiam cem por cento pela visão rogeriana. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 21MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 21 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 22 Escreve Godin, Jesuíta belga: “O estudo científico das leis que regem o início e o desenrolar das relações psicológicas entre conselheiro e consulente por ninguém foi estudado tão bem como pela escola psicoterapêutica de Carl Rogers” (1963, p. 165). O presente volume limitar-se-á a três aspectos deste vasto leque: 1º Teoria da personalidade e seu funcionamento ótimo (Capítulos 1-4) 2° Teoria do processo ensino-aprendizagem centrado no aluno (Capítulo 5) 3º Noções de Psicologia Humanista, na qual se inscreve a visão rogeriana (Capítulo 6) Obs.: Repetidas vezes declarou Carl Rogers detestar fazer discípulos, constituir escola da qual fosse o ‘guru’, pois levaria os seguidores a se instalarem nas conquistas realizadas... (Cf., por ex., Hart-Tomlinson, 1970, p. 507). Podem aplicar-se-lhe as palavras de Nietzsche: “Vós ainda não vos havíeis procurado quando me encontrastes (...). Agora vos mando que me percais e vos encontreis a vós próprios.”(s.d., p. 87). O homem criador “não quer nem rebanhos nem fiéis. Procura criadores para se associarem a ele, desses que gravam valores novos em tábuas novas” (Id, p. 25). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 22MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 22 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 23 CAPÍTULO I ESTRUTURA E DINÂMICA DA PERSONALIDADE I. Confiança no indivíduo A atmosfera que envolve toda a teoria de Carl Rogers é a da fé nas possibilidades, nas potencialidades do indivíduo, assim expressa por Marian Kinget: “O ser humano possui capacidade, latente senão manifesta, de se compreender suficientemente a si mesmo e de resolver suficientemente seus problemas a fim de experimentar a satisfaçãorevelando-se profundamente positivo, inclusive nos casos em que se inicia o projeto de baixíssima qualidade” (Gendlin, 1997, p. 431). “Nossas consciências são sadias na medida em que sabemos descobrir em nós mesmos e depois nos outros as tensões íntimas para o bem, o belo e o verdadeiro” (Häring, 1994, p. 103). O chefe da Igreja Católica, João Paulo II, fez ecoar clarinada de moderado otimismo: “Deus Criador parece estar dizendo ao mundo criado por Ele: ‘É bom que existas!’ E esta sua alegria se transmite especialmente mediante a Boa Nova, segundo a qual o bem no mundo é maior do que todo o mal que nele existe. O mal, com efeito, não é nem fundamental nem definitivo. Também neste ponto o Cristianismo se distingue nitidamente de toda forma de pessimismo existencial. A criação foi entregue e confiada como tarefa ao homem para que constitua para ele não uma fonte de sofrimento, mas fundamento de uma existência criativa no mundo. Um homem, quando crê na essencial bondade das criaturas, pode descobrir todos os segredos da criação, para continuamente aperfeiçoar a obra que lhe foi confiada por Deus. (...) Há, porém, um grande desafio a aperfeiçoar aquilo que foi criado: tanto a si mesmo como ao mundo. A alegria da vitória sobre o mal não ofusca a realística consciência da existência do mal no mundo e no homem (...). Assim, portanto,a alegria do bem e a esperança do seu triunfo, no homem e no mundo, não excluem o temor por este bem, pela decepção da esperança’’ . 1994, p. 40 e 41. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 140MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 140 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 141 CAPÍTULO IV ALGUMAS APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS “Gostaria mais de entender bem o que se verifica em mim do que compreender perfeitamente Cícero.” (Montaigne, 1961, III, p. 328) Os capítulos precedentes tentaram esboçar uma visão de conjunto da teoria de Carl Rogers. Como esta concepção implica certa atitude em face do outro e de si mesmo, talvez seja útil passar em revista o que o autor chama de “algumas aprendizagens significativas” (1961, p. 15-27). No capítulo inicial do livro, apresenta a si mesmo: “This is me” (Este sou eu). Depois de haver traçado o roteiro exterior de sua existência e atividade profissional, passa a mostrar-nos algo do seu interior, “algo do que aprendi nas milhares de horas que despendi auxiliando intimamente indivíduos com perturbações pessoais”. Não quer absolutamente impor tais aprendizagens. Longe disso. Afirma lhe serem muito importantes, embora nem sempre consiga agir em harmonia com elas. Continua se aprofundando em sua aprendizagem. Apresentam configuração variável: ainda que todas lhe sejam significativas; o relevo que possuem não é constante. I. Aprendizagens nas relações com os outros 1. Nas minhas relações com os outros, aprendi não servir de nada, a longo prazo, agir como se eu não fosse o que sou. Certa moça arranjou dois namorados. Para um disse chamar-se Maria; para o outro, Susana. Certo dia, encontrou-se face a face com os dois rapazes: cada um a interpelou como a conhecia. Pode imaginar-se facilmente a perplexidade dos namorados... e as consequências para a moça. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 141MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 141 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 142 Outro exemplo: Numa escola, caiu a conversa sobre quem tocava algum instrumento musical. Certo garoto, não querendo ficar atrás, disse saber guitarra. Tempos depois, surgiu a ideia de organizar um conjunto. Lembraram-se do guitarrista que, não achando outra saída, teve que declarar não entender nada de música. A lição de Rogers não se limita, porém, a estes aspectos mais imediatamente comprometedores, digamos assim. No relacionamento, acha ele, não ser nem útil nem eficaz aparentar um exterior que não corresponda ao sentimento íntimo. Tal atitude, “creio, não me torna eficaz na minha tentativa de estabelecer relações construtivas com outros indivíduos (...). Parece-me que a maior parte dos erros cometidos nas minhas relações interpessoais e a maioria das vezes em que falhei nos meus esforços de ajuda a outrem se explicam pelo fato de, como reação de defesa, meu comportamento se situar, em nível superficial quando, na realidade, os sentimentos iam em sentido contrário” (Rogers, 1961, p. 17). Nem sempre é esta lição de Rogers bem compreendida. Há pessoas que perguntam, espantadas: “Então, devo sempre exteriorizar o que sinto e penso?” Não. É fundamental reconhecer o que realmente se passa em nós. As circunstâncias vão indicar se e como os sentimentos e ideias serão expressos. Que é que nos diz Rollo May sobre o assunto? “Ter consciência dos próprios desejos e sentimentos não supõe, de modo algum, expressá-los indiscriminadamente em toda parte. Julgamento e decisão fazem parte da autoconsciência da pessoa amadurecida. Mas como ter uma base para julgar o que se fará ou não, a menos que antes se saiba o que se quer? Para o adolescente tomar consciência do impulso erótico em relação a sua mãe, ou a pessoa do sexo oposto, sentada diante dele no ônibus, não significa absolutamente que agirá baseado nesse impulso” (Rollo May, 1953, p. 92). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 142MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 142 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 143 Necessário, porém, é salvaguardar a congruência. Se eu receber uma visita em momento inoportuno ou de pessoa menos simpática – o que fazer? Mostrar-me cortês, disponível, mas não dizer: “Que surpresa agradável!” “Que bom que você veio!” – ou quejandas mentiras sociais. E quando esta visita tencionar ir embora, por que insistir: ‘’Ainda é cedo.” “Por que tanta pressa?” – em vez de: “Como quiser.” Sirva de exemplo o comportamento do personagem principal de “Domingo à Tarde”, de Fernando Namora (1971, p. 37): “No corredor, esbarrei com o Guedes. O seu sorriso tinha um melaço pegajoso. O meu gesto instintivo era logo o de levar o lenço ao rosto, a cada polegada de carne desprotegida, e limpá-la do contágio. Ou, então, de desapertar o cinto e vomitar antes mesmo de ser acometido de náusea. Os sorrisos, os modos e as palavras do Guedes eram cubos de açúcar a derreter-se no estômago, até que o conjunto, mucosa e açúcar, formassem uma geleia tão detestável e eficaz como um vomitório. — Trago aqui uns artiguinhos que lhe interessam, meu caro Jorge. Quando vou à biblioteca, penso sempre em si. Ele não era pederasta, mas, com certas atitudes, passaria bem por isso. Se me dissesse uma palavra mais, naquele momento, a geleia ia fora. — Você é um homem prestável. Mas agora não tenho tempo; deixe- os em qualquer parte. Amanhã falaremos – e sacudi-lhe os dedos que, lestos e insistentes, lagartas açuladas, me apertavam o braço”. O homem agradeceu o interesse do Guedes, mas não disse agradar- lhe a presença. Pelo contrário, congruente, manifestou pressa em ir-se embora. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 143MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 143 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 144 Equação vital: proporção do convencional e do autêntico “Aquela realidade radical, tão minha e somente minha, fica coberta, aos meus próprios olhos, com uma crosta formada pelo recebido dos outros homens, por suas habilidades e dizeres, e me habituo a viver normalmente de um mundo presuntivo ou verossímil, criado por eles, mundo que costumo dar, sem mais nada, por autêntico e que considero como a realidade mesma. Somente quando a minha docilidade ao que os outros homens fazem e dizem me leva a situações absurdas, contraditórias, somente então me pergunto que há de verdade em tudo isso, isto é, me retiro momentaneamente da pseudorrealidade, da convencionalidade em que com eles convivo, para a autenticidade da minha vida como radical solidão. De modo que, num ou outro grau, dose e frequência, vivo efetivamente uma dupla vida, cada uma delas com sua ótica e perspectiva próprias. E, se observo ao redor de mim,me parece suspeitar que a cada um dos outros acontece o mesmo; é digno de notar, porém, que a cada um em dose diferente. Há quem viva quase nada senão a pseudovida da convencionalidade, e há, o outro energicamente fiel à sua autenticidade. Entre ambos os polos aparecem todas as equações intermédias, pois que se trata de uma equação entre o convencional e o autêntico que em cada um de nós tem cifra diferente. Mais ainda: em nosso primeiro momento de trato com o outro, sem atentarmos especialmente nisso, calculamos a sua equação vital isto é, quanto há nele de convencional e quanto de autêntico.” Gasset, 1960, p. 180 2. Minha intervenção é mais eficaz ao conseguir escutar-me ao me aceitar; e poder ser eu mesmo. Outra das grandes lições de vida do autor de “Tornar-se Pessoa”, lição com depoimento cheio de humildade. Leiamos: “Encontro muita satisfação em poder ser real, em poder achegar-me ao que está passando em mim. Fico satisfeito ao poder escutar-me a mim mesmo. Saber o que realmente estou experienciando em dado momento não é, de forma alguma, fácil; me estimula, porém, o fato de haver feito MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 144MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 144 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 145 progressos ao longo dos anos. Entretanto, estou convencido de que se trata de tarefa para toda a vida” (Rogers, 1969, p. 227/8: “I want to be real” – Quero ser real. Cf. p. 227-232: cinco páginas repletas de maravilhosas indicações para vida mais harmônica.) Esta abertura à experiência permitiu chegasse Rogers elevado grau de congruência, isto é, de coerência entre experiência, consciência da experiência e comunicação das vivências. Sem maiores receios, tornou- se capaz de estudar atentamente o organismo a fim de lhe detectar os sentimentos de entusiasmo, impaciência, irritação, antipatia, simpatia, etc. “Poder-se-ia dizer haver eu aprendido a querer ser o que sou. Tornou-se mais fácil aceitar-me como pessoa realmente imperfeita, que de modo algum funciona todo o tempo como desejaria” (1961, p. 17). Nova confissão de humilde autenticidade. Essa atitude de escuta tem, para o autor, importantes consequências: a) Somente podemos mudar se nos aceitarmos, isto é, reconhecermos sinceramente como somos. A mudança torna-se, então, quase automática. Escreve especialista em física quântica (o marido é psiquiatra): “Minhas experiências são o que realmente importa, e eu deveria ter quantas quisesse. Devo ser leal a mim mesma” (Zohar, 1990, p. 188). b) As relações se tornam reais e dinâmicas. “Relações reais tendem antes a mudar do que a se manter estáticas ... Quando aceito todas as atitudes como um fato, como partes de mim mesmo, minha relação com o outro torna-se no que é, podendo crescer e mudar mais facilmente”. Em trabalho sobre este ponto, universitária transcreveu o seguinte depoimento pessoal: “Certa vez, descobri sentimentos hostis em relação a um amigo do meu marido. Ao sondar-me para discutir os motivos daquela antipatia, descobri que aquilo que me desagradava no indivíduo eram seus hábitos de solteirão. Embora fosse casado, costumava ter noites na semana destinadas ao encontro com amigos. Aos domingos pela manhã, deixava a família para também se reunir no “café”. O que eu realmente sentia era medo que estes hábitos MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 145MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 145 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 146 atraíssem meu marido. Ciente disso, conversei com meu esposo a respeito, o qual me tranquilizou plenamente. Perdido o medo, o amigo começou a me parecer mais simpático; passei a tratá-lo com maior cordialidade, a ponto de um dia ele me dizer: “Como me sinto bem com vocês; a casa de vocês é tão acolhedora!” Aproveitei para convidar a esposa dele. Daí em diante, ele passou a trazê-la, e hoje somos dois casais muito amigos.” Nosso psiquismo está repleto de ilhas formadas de fatos não conscientes, cercadas por mecanismos de defesa. Autoanálise – como fez a senhora que via ameaça no amigo do marido – ou terapia pode romper as defesas, sumindo “ilhotas” Segue ensinamento repleto de sabedoria de um dos meus professores de curso de especialização em Paris, o profissional mais parecido, nas atitudes, com Carl Rogers que já encontrei em minhas andanças pelo mundo. [Devo dizer ao leitor que tive o privilégio de conviver com Rogers, tête-à-tête, durante 5 semanas; com Peretti, um ano acadêmico inteiro.] Eis o ensinamento: “Aceitar totalmente o outro e, contudo, ser totalmente eu mesmo: eis o paradoxo da comunicação. É na medida em que eu não estiver em situação defensiva em face do outro e com relação a nenhuma parte de MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 146MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 146 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 147 mim mesmo, e na medida em que eu tiver profundamente meus valores pessoais, estarei em condições de aceitar que o outro viva também profundamente seus valores próprios: nesta relação, ocorre intercâmbio significativo” (Peretti, 1966, p. 170). 3. Dou valor muito grande ao fato de poder pemitir-me de compreender outra pessoa. Escutar realmente o outro, isto é, escutá-lo com o fito de o compreender do ponto de vista dele, não é tarefa cômoda. Nossa tendência natural é julgar a pessoa do nosso ponto de vista, da nossa experiência: Está certa! Está errada! Notável! Que coisa! “Acho importantíssimo que se saiba escutar... Somos realmente capazes de escutar? Se observardes a vós mesmos, vereis quanto é difícil escutar, visto que tendes ideias preconcebidas, opiniões e juízos baseados nas vossas tradições, na experiência própria e nas influências culturais, e tudo isso está intervindo constantemente. Essas coisas são como que cortinas estendidas entre vós e o que desejais ouvir e, consequentemente, nunca há verdadeira escuta, mas, tão só, uma tradução do que ouvis, de acordo com o vosso próprio condicionamento... Na realidade não estais escutando; tendes já uma opinião a respeito do que se vai dizer, tendes conclusões, fórmulas, certas ideias bem definidas, e o saber ou a experiência que tendes acumulado vos está corrompendo a mente. Nessas condições, vossa mente nunca será tranquila, jamais está serena para descobrir o que é verdadeiro” (Krishnamurti, J. 1959, p. 9). A essas causas das dificuldades da escuta, assinaladas por Krishnamurti, acresce Rogers outra: a escuta representa um risco. A compreensão do outro pode obrigar-me a mudar... e eu tenho resistência à mudança. Daí ser verdadeira escuta, escuta empática, algo muito raro. Quais as consequências da minha escuta? a) Quem escuta se enriquece. b) A pessoa escutada experimenta sentimento de gratidão, qual MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 147MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 147 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 148 prisioneiro encerrado num calabouço ao perceber que sua mensagem através de um código Morse foi captada por amigos. c) Sentindo-se mais livre, está em condições e deseja desvendar mais amplamente seu próprio mundo interior. d) Minha compreensão lhe permite mudar. Os sentimentos compreendidos, ensina o autor, é possível aceitá-los em si mesmos. Ocorre, então, dupla mudança: nos sentimentos e na personalidade. Universitária da PUCRS ilustra com belo exemplo esta “experiência fundamental” de Rogers: “Lecionava eu uma classe de quarto ano. Minha turma era bastante heterogênea, não só em adiantamento como em idade. Uma de minhas alunas, quase mocinha, apresentava sérios problemas de disciplina. Pensei em tudo que poderia fazer para que ela melhorasse, mas tudo em vão. Várias vezes, na minha inexperiência, precisei pedir ajuda à diretora na resolução do problema. A menina, mesmo assim, ia de mal a pior, prejudicando também o trabalho das colegas. Já estava desanimada, quando resolvi ter mais uma longa conversa com minha aluna: cheguei a saber que era órfã, residindo com uma madrinha desde pequena; levantavaainda escuro para dar conta do serviço; não tinha tempo para brinquedos ou diversões. Assim, em aula, queria fazer tudo o que lhe dava prazer; tinha necessidade de ser notada. Bem: escreveria páginas e páginas sobre esta aluna porque, conhecendo-a, procurei compreendê-la e cheguei a admirá-la. Passados oito anos, dias atrás, recebi um bilhete que dizia: ‘’Querida Professora: Tenho sempre lhe procurado, mas nunca lhe encontro. Quero convidá-la para o meu casamento... Um beijão bem grande de sua aluna de sempre. L. A.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 148MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 148 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 149 4. Eu gosto de ser escutado Escuta real do outro é difícil. Di-lo o poeta Mário Quintana: “Mas que quer dizer interlocutor? Eu só conheço locutores...” Entretanto, à cata de ouvinte atencioso, possuímos arsenal de coisas para comunicar, perguntas para fazer. Continua o genial poeta do cotidiano: ‘’Que artista teria inventado o nosso ponto de interrogação? Ele já teria a forma de uma orelha que escuta.” Conta Rogers haver passado, diversas vezes, por situações difíceis, com problemas aparentemente insolúveis, esmagado por sentimentos de inutilidade... Encontrou, então, pessoas compreensivas, que o escutavam sem avaliar, sem julgar. Declara que essa atitude, em tais momentos, lhe fizera “tremendamente bem”. A escuta compreensiva, atenta, possibilita encarar o mundo interior de outra forma ou outro lado desse mundo, convertendo, inclusive, sentimentos temerosos em suportáveis. O campo fenomenal é iluminado como que por jato de luz, tornando solúveis problemas aparentemente sem saída ao se desfazer a neblina de estados confusos. Rogers aventa a hipótese de muitas pessoas se tornarem psicóticas por não se sentirem compreendidas. Não devemos, contudo, pensar que a falha, no caso de não compreensão, sempre esteja do lado do ouvinte. Leonilda E. Stefani resume muito bem a dificuldade, já experienciada por todos nós, de comunicar adequadamente a outrem nossos sentimentos, nossa percepção da realidade: “Há momentos em que sinto não conseguir fazer-me entender, não conseguir expressar-me de tal maneira que outro me compreenda. São momentos de grande frustração ou de profunda solidão, que me faz tomar consciência das limitações da nossa capacidade de expressão ou comunicação, da misteriosa interioridade de cada ser humano, muitas vezes incompreensível para ele mesmo.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 149MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 149 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 150 5. Achei enriquecedor abrir canais por meio dos quais outros possam comunicar-me esses sentimentos, seus mundos perceptuais privados. Convicto das vantagens da compreensão, procura Rogers eliminar ou, ao menos, reduzir as barreiras entre ele e os demais, com o objetivo de facilitar a comunicação. Nas relações de pessoa a pessoa, tenta, através de atitudes, primeiramente, criar atmosfera de segurança; em seguida, apurar a capacidade de compreensão, esforçando-se no sentido de “percebê-la (a pessoa) como ela aparece a si mesma, e aceitá-la com suas percepções e sentimentos”. Como professor, “procuro, nem sempre com muito êxito, criar na aula clima tal que favoreça a expressão dos sentimentos e a possibilidade de os estudantes discordarem entre si e do mestre” (1951, p. 392-397). A imensa maioria dos alunos aprecia tal método. Um deles escreveu: “Nunca pensei chegar a haurir tal alegria e satisfação de um curso. Devorei simplesmente tudo: as reuniões de aula, as leituras, os relacionamentos que se estabeleceram” (Rogers, 1969, p. 95). Uns poucos não se adaptam a ele: “Experimento sentimento de indefinível repulsa com relação ao clima da aula” (ld., 1961, p. 20). Referente a outros grupos, em que Rogers teve papel de administrador ou de líder, é igualmente fecunda essa atitude, criando clima sem necessidade de medo ou defesa, podendo as pessoas, então, comunicar livremente os sentimentos. Compete ao ‘facilitador’ criar essa atmosfera propícia ao relacionamento, tanto quanto possível, sem fachada nem artificialismo. Num grupo, gosta o autor conceder tanto aos participantes como a si mesmo o máximo de liberdade de expressão. 6. Achei altamente enriquecedor o poder aceitar outra pessoa. Não é só difícil compreender o outro como também aceitá-lo como é. Com a fina sensibilidade de poeta, escutemos novamente a Mario Quintana, que tinha o dom de observar o extraordinário no óbvio: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 150MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 150 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 151 “Há críticos que, em vez de me julgar pelo que eu sou, julgam-me pelo que eu não sou. É como quem olhasse um pessegueiro e dissesse: – Mas isto não é um trator!” Como temos pendor a querer nivelar os modos de ver e sentir dos outros com os nossos! Custa-nos aceitar que o outro seja gremista quando somos fãs do Internacional. Até que ponto aceitamos a religião ou o modo de praticar a religião do outro? Como aceitamos os sentimentos positivos (amor, admiração, simpatia) do outro por nós? Custa-nos aceitar tanto atitudes negativas como positivas dos outros a nosso respeito. Rogers escreve: “Nem sempre, nem mesmo agora, sou capaz de aceitar sentimentos calorosos e afetuosos dos outros; mas, ao consegui-lo, experimento sensação libertadora” (1969, p. 233). Linhas adiante, lemos: “Descobri ser realmente enriquecedor ao conseguir apreciar outra pessoa ou interessar-me por ela ou amá-la, e ao poder deixar fluir esse sentimento para ela. Como outros muitos, temia ser apanhado numa armadilha. (...) Aos poucos, fui aprendendo não constituírem os sentimentos positivos perigo, quer em sua manifestação quer na aceitação” (Id., p. 235). Todo ser é uma ilha. Somente ilha sólida, isto é, pessoa que é ela mesma, autêntica (e não porção de terra flutuando à mercê das correntezas) pode lançar ponte a outra ilha, igualmente consistente, que é preciso aceitar, “especialmente aceitar-lhe os sentimentos, atitudes e crenças que constituem o que há de real e de vital nela”. Somente assim posso ajudá-la a tornar-se pessoa. Comentando esta afirmação de Carl Rogers, escreve estudante de Porto Alegre: “Minha experiência, neste sentido, foi um pouco difícil, mas muito válida. Quando minhas filhas se tornaram adolescentes, foram expondo suas ideias, gostos e conceitos condizentes com o mundo moderno. Eu não as aceitava. Esperava que reagissem conforme os padrões em que eu fora educada. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 151MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 151 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 152 Uma delas, que em sua autoimagem incorporara o conceito que a família tinha dela de “boazinha e obediente” lutou muito consigo mesma e comigo. Lutou para ser ela mesma e não o que eu queria que ela fosse. Discutimos frequentemente, embora acabássemos sempre chorando abraçadas. Não foi sem dificuldade que venci a mim mesma e nem sem relutância que aceitei uma série de modificações. Eu era considerada mãe muito compreensiva, mas mesmo assim relutei. Os meses foram passando e eu fui aceitando. Senti que, à medida que eu aceitava as ideias e conceitos delas, mais eu era aceita por elas, até mesmo em minhas críticas. Meu conceito de mãe compreensiva, sensivelmente abalado, voltou a solidificar-se. Voltamos a nos entender, e hoje até me pergunto: como poderia eu parar no tempo? Como poderia deixar de aceitar a realidade? Eram modificações simples que, naquela época, achava absurdas.” 7. Quanto mais aberto eu for à realidade em mim e na outra pessoa, tanto menos desejarei, a todo custo, remediar as coisas. Boa abertura à realidade leva a compreensão mais profunda de si e dos outros, tendo como consequência grau maior de aceitação de si e dos demais. “Aos poucos, me senti menos apressado em arranjar as coisas, em impor objetivos, em modelar indivíduos, em forçá-los paracaminhos que eu desejava seguissem. Estou muito mais satisfeito em ser simplesmente eu mesmo e deixar o outro ser ele mesmo. Sei que isto deve parecer um ponto de vista estranho, quase oriental” (Rogers, 1961, p. 21). É digno de nota o fato de o autor haver observado ser esta a atitude mais fecunda em mudanças tanto na pessoa que a adota como na que é alvo dela. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 152MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 152 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 153 II. Ações e juízos de valor “Permitam-me lançar, agora, um olhar para outras descobertas vinculadas menos às minhas relações interpessoais do que a minhas ações e a meus valores” (Id., p. 22). Essa revisão feita por Rogers pode servir de incentivo a fazermos o mesmo: que valores me orientam o viver, o julgar? Em longo artigo publicado em 1964, incluído num livro em 1967 e novamente transcrito em 1969 (cap. 12), apresenta o autor uma série de cinco proposições com relação aos valores. a) Existe base organísmica responsável por organizado processo avaliativo do indivíduo. É exigência de todo organismo sadio, pois este se orienta, obrigatoriamente, por valores (objetivos ou fictícios, mas reais para ele). b) A medida da eficiência desse processo avaliativo é função do seu grau de abertura à experiência pessoal. c) Abertura à realidade requer atmosfera favorável, quer dizer, de não ameaça. Que se entende por clima propício? É clima; - em que é apreciada a autonomia da pessoa; - no qual suas experienciações são empaticamente compreendidas e avaliadas - e no qual pode livremente expressar os sentimentos e os dos demais sem temor de censura. d) Entre as pessoas em processo de maior abertura à experiência se nota semelhança organísmica referente à direção dos valores. e) Essa direção comum é de molde • a favorecer o crescimento próprio e dos demais, • e a assegurar tanto a conservação como a evolução da espécie. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 153MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 153 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 154 Percorramos, agora, a relação de descobertas feitas, nesta linha, por Rogers. Suas experiências, caso as duas últimas proposições supra forem aceitas, teriam validade mais ou menos universal. 1. ‘’Posso confiar na minha experiência”. Ouçamos outro conselho do vetusto Montaigne: “Escutemos nossa experiência, e veremos que nos diz tudo aquilo de que temos necessidade especial” (1961, III, p. 328). Rogers confessa haver levado muito tempo até se convencer de “que minha avaliação organísmica de uma situação é mais digna de confiança do que a apreensão intelectual (...), embora não seja infalível” (1961, p. 22). Desde que começou a se orientar por aquilo que sentia estar certo, embora contrariando o parecer da maioria, geralmente só teve que louvar- se de havê-lo feito. Textualmente: ‘’Aprendi a respeitar mais essas ideias vagas que, às vezes, me aparecem e que sinto como significativas.” Elisabeth Kübler Ross, a conhecidíssima especialista no atendimento a doentes terminais, havia comprado uma fazenda para descanso e, talvez, para crianças carentes internadas na cidade e/ou “centro para nossos encontros”. Por que não concretizou o plano? “Meu trabalho parece ter me afastado noutra direção. Como sempre, sigo meu guia interior, senti que não havia outra opção (...); enterrei os sonhos para seguir em outra direção” (1988, p. 62). Rogers, contudo, alerta para o fato de a intuição organísmica não ser infalível. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 154MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 154 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 155 Assumir-se Pelo fato de o homem ser o único ente que conhecemos em que se corporificou de certa forma a categoria da possibilidade e cuja realidade é constantemente cercada pelas possibilidades, é o único que precisa de confirmação. Todo animal está firmado em seu ser no mundo, suas modificações estão predeterminadas e mesmo quando algum se transforma em lagarta e em crisálida, sua transformação é limitada. Ele é em todo o seu conjunto o que é; não tem nenhuma necessidade de confirmação. Seria um contrasenso se alguém lhe dissesse ou ele dissesse a si mesmo: você tem que ser o que é. A pessoa humana, enquanto pessoa, é um desafio da vida, indeterminado e não fixado. Precisa, portanto, de confirmação, e esta só pode recebê-la, naturalmente, como pessoa individual, ao receber dos outros e dele mesmo a confirmação de seu ser-esta-pessoa. Sempre de novo precisa ouvir o sim que lhe é dito pelo olhar do confidente ou pelo estímulo do próprio coração para livrá-lo do medo de ser abandonado, o que é um prelibar da morte. Em última análise, pode-se dispensar a confirmação pelos outros quando a própria confirmação se intensifica tanto que torna dispensável a complementação daqueles. Mas o contrário não pode acontecer: o incentivo dos companheiros não basta quando o autoconhecimento impõe a recusa interna, pois o autoconhecimento é sem dúvida o mais competente. Quando a pessoa não consegue corrigir o autoconhecimento a ponto de mudá-lo, tem que tirar dele o poder sobre o sim e o não. Tem que fazer com que o sim se torne independente de qualquer resultado e deve fundamentá-lo sobre um ‘querer-a-si mesmo’ soberano, ao invés de um ‘julgar-sobre-si mesmo’. Tem que escolher a si mesmo, não como ‘ele é considerado’ – esta imagem deve ser completamente apagada -, mas como ele exatamente é, como ele mesmo resolveu considerar-se (...): já não precisa procurar o ser fora – ele está aqui. A pessoa é aquilo que deseja ser, aquilo que é. É disso que fala o mito quando relata que Yima se pro clamou criador de si mesmo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 155MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 155 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 156 2. “A opinião dos outros não me serve de guia.” “Aos doze anos comecei a namorar um rapaz de vinte e dois. No tempo de namoro e noivado, muitas pessoas, que se diziam experientes, no intuito de ajudar-me, aconselharam-me a deixar o rapaz: que eu era muito nova, que não sabia o que queria, que o namoro nunca ia dar certo... É melhor cortar o mal pela raiz antes de crescer e tomar conta de ti. Essa avalanche de opiniões e conselhos não cessaram. Mas nunca procuraram sentir que o sentimento que nos unia era puro e cheio de amor. Nunca quiseram saber que eu o amava e só concebia meu futuro ao lado dele. Felizmente, todas essas barreiras, esses obstáculos eu os ultrapassei: aos 17 anos me casei com ele. Somos imensamente felizes, tendo dois filhinhos que adoramos” (Z.V). Devemos, diz Rogers, levar as opiniões alheias em consideração, lembrando-nos, contudo, não nos poderem servir diretamente de bússola. Os outros nos apreciam, necessariamente, mais do ponto de vista deles que do nosso, o que implica em perspectivas ao menos parcialmente diferentes. Mais quatro exemplos, mostrando ser a decisão pessoal a melhor: Beethoven, o grande Beethoven, manuseava o violino de forma bizarra, e preferia tocar suas próprias composições em vez de aperfeiçoar a técnica. Seu professor dizia que ele nunca tinha chances de se tomar um compositor. E sabemos muito bem que foi dos maiores autores de obras musicais que a humanidade já teve. O mestre do famosíssimo cantor de óperas Enrico Caruso afirmou que ele, Caruso, tinha voz débil demais, sendo inapto para cantar óperas. Ver ele a encher os salões com sua voz potente, vibrante, sem usar microfone. O conhecido Walt Disney foi demitido de um jornal por lhe faltar criatividade. Ele próprio faliu várias vezes antes de construir a primeira Disneylândia. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 156MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 156 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 157 Impressionante é o caso de Richard Bach: 18 (dezoito!) editores recusaram o posteriormente best-seller “Fernão Capelo Gaivota”, que já vendeu mais de 7 (sete) milhões de exemplares somente nos Estados Unidos.[Talvez o leitor não saiba: a inspiração do célebre livrinho teve-a ele depois de uma ou duas semanas de grupo de encontro com Carl Rogers.] O próprio Rogers foi desaconselhado por colegas psicólogos de grande prestígio a não se dedicar à psicoterapia, pois não levaria a nada... Mais tarde, já nesta profissão, foi acerbamente criticado como “inventor de método terapêutico muito superficial e perigoso”. Outros, ao contrário, o defenderam com não menos calor. “Não me deixei impressionar demasiado por haver chegado à conclusão de que só uma pessoa pode saber se procedo com lealdade, precaução, franqueza e rigor científico ou, se o que faço é falso, defensivo e fútil: esta pessoa sou eu mesmo. Sou feliz em ouvir a opinião dos outros sobre o que faço (...) Não é, porém, possível delegar a alguém a tarefa de avaliar sua evidência e determinar-lhe a significação e utilidade” (Rogers, 1961, p. 23). Personagem de Sartre é o oposto: Odete não pensava. Esperava, e tinha certeza disso, que lhe diriam o que deveria pensar, dizer e fazer (1958, p. 26). 3. “Para mim, a experiência é a autoridade suprema.” ‘’Minha própria experiência é a pedra de toque da realidade. Nenhuma ideia, minha ou dos outros, possui a autoridade da minha experiência” (Rogers, id. ib). A experiência, contudo, não goza dessa autoridade por ser infalível, mas pelo fato de poder ser confrontada de maneira mais ou menos imediata com a realidade e, portanto, submetida a revisão e correção. Sem a conquista prévia da autonomia e adequada abertura em face de si e em relação aos outros, a veracidade dessa assertiva não é viável. No caso ideal, autonomia e abertura supõem “a possibilidade de viver sem restrições as próprias percepções, sentimentos e necessidades. Tal experiência decide sobre a unidade ou cisão do desenvolvimento da personalidade” (Gruen, 1996, p. 11). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 157MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 157 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 158 4. “Sinto satisfação em descobrir ordem na minha experiência.” Esse pendor fez com que “Rogers fosse o primeiro a iniciar, com sua escola, com fins de verificação e controle, gravações sistemáticas de terapias inteiras; não só gravações sonoras, como transcrições integrais e filmagens. Os documentos resultantes constituem objeto de acurados estudos, linha por linha” (Peretti 1966, p. 27. Cf. Kinget, 1966, 11, Cap. V). Peretti (1997, p. 259) fala nas modalidades múltiplas e obstinadas de pesquisas às quais Rogers deu impulso ininterrupto, aprofundamento e simplificação sutis. Daí resultou visão da ordem do que já foi experienciado e a possibilidade de aventar conjeturas sobre fatos ulteriores do processo. É a tarefa de quem se dedica à pesquisa científica, como fez Rogers durante décadas. Alfredo Adler já estava convicto de haver uma ordem em toda existência, chamando lhe “estilo de vida”, como já ficou mencionado.”O exame profundo de sua conduta (da pessoa) nos revelará que todas as suas experiências se encaixam no seu estilo de vida, no mosaico de suas estruturas de vida” (1967, p. 21; 1956, cap. IV). 5. Os fatos são amigos. Refere-se o autor aos fatos com relação à ciência, portanto, com relação à verdade científica. No começo, ao procurar testar uma ideia ou teoria, confessa, entrava em estado de ansiedade, considerando, então, os fatos como eventuais inimigos, capazes de lhe desmentir convicções longamente acariciadas.”Se as hipóteses não fossem confirmadas? Se nos tivéssemos enganado? Fui, talvez, lento em compreender serem os fatos sempre amigos. A menor parcela de evidência adquirida, seja em que área for, leva-nos mais perto da verdade. Ora, aproximar-se da verdade nunca é prejudicial nem perigoso ou insatisfatório” (Rogers, 1961, p. 25). Ficou o autor profundamente marcado pela decidida recusa da maior parte dos psicoterapeutas e, em particular, dos psicanalistas, a realizar o estudo científico das respectivas teorias ou permitir que outros o fizessem. Mas, diz, compreender-lhes a atitude por havê-la experienciado pessoalmente. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 158MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 158 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 159 Os fatos, observa Maslow (1979, p. 120) podem ser ótimos guias na vida: imprimirão sentido, direção à existência e dir-me-ão o que fazer. Mas, adverte, os fatos significativos costumam falar baixinho, dificilmente audíveis. É preciso escutá-los com atitude acolhedora. 6. “O que é mais pessoal é o que é mais geral.” Esta descoberta está relacionada com as duas últimas proposições citadas no início do presente subtítulo. “Quando realmente escuto alguém, é como se ouvisse a música das esferas, pois, além da mensagem pessoal imediata, seja qual for o assunto, existe o universal, o geral. Ocultas em todas as comunicações pessoais, que realmente escuto, parece haver leis psicológicas regulares, aspectos de impressionante ordem encontrada por nós no universo como um todo. Assim, existe simultaneamente a satisfação de escutar esta pessoa particular e, também, a de sentir espécie de contato com o que é universalmente verdadeiro” (Rogers, 1969, p. 222). Despertou o autor para este fato ao reparar na ressonância que tiveram sentimentos muito pessoais seus nos ouvintes e leitores. Acha que poetas e artistas nos atingem por ousarem expressar o que neles há de único. Em sessões de dinâmica de grupo ocorrem seguido casos dessa natureza. “Faz tempo tinha vontade de comunicar ao grupo o que disse o colega, mas achei que era coisa tão minha que não podia interessar a todos’’, disse, certa vez, um dos participantes. Mario Quintana (as intuições dos artistas, não raro, superam ou antecipam as verificações dos homens da ciência) escreveu: “O mais íntimo – sempre o mais universal.” 7. “Mostrou-me a experiência que, fundamentalmente, todos os homens possuem orientação positiva.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 159MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 159 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 160 Já discorremos sobre esta convicção do autor no subtítulo “Uma teoria otimista”. Acrescentemos, aqui, ideia omitida então: Rogers afirma ter esta verificação validade mesmo nos indivíduos profundamente perturbados e antissociais: “Quando chego a compreender efetivamente os sentimentos que exprimem; quando sou capaz de aceitar esses clientes como personalidades distintas, autônomas (“separate persons’’), como têm direito, então verifico, que tendem a orientar-se em determinadas direções” (Rogers, 1961, p. 26). Quais são essas direções? São positivas, construtivas, voltadas para a atualização da pessoa, sua maturidade e socialização. Verificar-se-á este resultado na medida em que forem compreendidas e aceitas. 8. A vida, no que tem de melhor, é um processo fluente, mutável, onde nada é fixo.” É um resultado da abertura à experiência. Os esquemas psicológicos – na esfera intelectual, emocional, etc. – encontram-se em contínua reformulação enriquecedora ao contato com a realidade. Por isso, o rogeriano não procura aconselhar e, muito menos, impor. “Somente posso tentar viver minha interpretação da significação pre sente da minha própria experiência e permitir aos outros desenvolverem a própria liberdade interior e, assim, a própria interpretação significativa da sua experiência” (Id., p. 27). Para Rogers, a vida é, basicamente, processo ativo e não passivo (Quitmann, 1986, p. 164). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 160MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 160 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 161 Mensagem de doente terminal: “crescer” — Se fosse morrer hoje, quais seriam suas últimas palavras, que despedida gostaria de dar? — Oh, Deus! Gostaria de dizer uma coisa para cada pessoa. Minha mensagem a todo o mundo seria viver, crescer a cada dia, não ter medo de arriscar-se, aproveitar a vida e permitir que as coisas aconteçam. Em meus dias, houve muitomedo de viver, pouca autoconfiança. Isto me impediu de explorar mais a fundo meu potencial como ser humano. Acho que enquanto estamos vivos somos chamados a crescer e arriscar. Sem riscos não há crescimento. ‘Quem não arrisca, não petisca’, como dizem. Acho também que a pessoa tem de ser honesta consigo mesma. No meu caso, sou artista, poeta e escritor; um sonhador. No entanto, acabei me tornando um bancário porque era isso que se esperava de mim. Permiti que me colocassem em situações que não eram as que queria para mim e sinto que com isso prestei um grande desserviço a mim mesmo. Não me culpo, mas minha mensagem é para que todos levem a vida sendo honestos, principalmente consigo mesmos, sem medo de crescer, a cada dia, e que, se possível, para que ajudem outros a fazerem o mesmo. Ironicamente, só agora, quase a morrer, estou aprendendo a viver. A doar- me sem condições, sem julgar, simplesmente amando. Tudo o que eu der, retornará para mim. Só agora, nesse meu calvário, é que aprendi. Passou despercebido quando estava bem. Provavelmente porque eu não me amava. Era excessivamente crítico ou severo comigo e com os demais. Não senti amor. Estive na Califórnia, trabalhando para um jornal, por cerca de dois anos, mas tinha o espírito morto. Qual o significado disso? Significa que eu simplesmente não mantinha contato com uma parte essencial de meus sentimentos com relação ao amor. Como dizem, não amava realmente, e também não era amado. Procurava pelo amor nos lugares errados.” Ross, 1988, p. 161-2, 165 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 161MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 161 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 162MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 162 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 163 CAPÍTULO V UM PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM SEGUNDO A TEORIA DE CARL ROGERS - Aprendereis, primeiro, a aprender; a aprender bem (Nietzsche, 1988, p. 232). - Aprenderei por mim mesmo; serei meu próprio aluno (Hess, 1974, p. 33). I. Novas perspectivas Não obstante os congressos, os rótulos de “escolas novas”, publicações, leis e decretos anunciando melhores eras na educação – na realidade, pouco se transformou a escola. Os conteúdos se atualizaram; os livros didáticos têm, em geral, melhor apresentação... O método didático, porém, em grandes traços, é o mesmíssimo: professor que fala, orienta, ensina, de um lado e, do outro, alunos que escutam, anotam para, oportunamente, reproduzir o mais exatamente possível o que lhes foi transmitido, regurgitando os conteúdos... Resultado: conhecimento mal assimilado, desgosto da aula, repetições, desistências em massa, país de enormes recursos patinando, teimosamente, no clube das nações dependentes do terceiro mundo... Na quase totalidade dos casos, o processo da aprendizagem do aluno continua centrado no professor. As “escolas novas”, após primeira guerra mundial, haviam, no parecer de muitos, operado verdadeira revolução coperniciana. De fato, não chegaram a tanto, afora uma ou outra exceção: o professor continua sendo o astro central na constelação da escola. O que houve foi, sobretudo, mudança nos métodos e técnicas usados pelo mestre. “Estas últimas (as pedagogias novas) insistem, sobretudo, nos métodos pedagógicos como instrumentos de informação” (Max Pages, 1965, p. 111). Quanto mais subirmos nos anos de escolaridade, em geral, menor a mudança. As “escolas novas” quase só atingiram as séries elementares. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 163MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 163 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 164 Essa atitude do magistério tem a cumplicidade de alunos e estudantes: ‘’A maioria das pessoas prefere definições e se sente melhor quando o mundo ao seu redor é bem estruturado, sentindo-se ameaçada quando se remove essa estrutura” (Flach, 1991, p. 214). Entretanto, os avanços da ciência do homem parecem estar a exigir mudança de perspectiva. Vejamos observação de Filloux (1966, p. 51), velha de trinta anos, porém ainda válida hoje. É longa, porém, tão justa, tão repleta de ensinamentos que simples paráfrase das ideias lhes tiraria ao menos parcialmente o vigor. “Toda pedagogia implica, de um lado, opção referente aos fins da educação e, do outro, um conjunto de concepções de ordem psicológica relativas à natureza humana, à evolução da personalidade, etc. Na hora atual, parece que a finalidade da educação aparece menos como transmissão do saber do que como desenvolvimento da personalidade: problema de evolução no nível dos valores e dos ideais democráticos; problema também de evolução no nível dos conhecimentos acerca do homem, de sua história individual da infância à idade adulta. De modo geral, os progressos consideráveis efetuados de meio século até esta parte no domínio das ciências psicológicas e psicossociológicas deviam, necessariamente, ter incidências tanto sobre a determinação mais clara do fim educativo como sobre os métodos e atitudes apropriadas do educador para a consecução desta finalidade. A revolução copérnica realizada entre as duas guerras pelos métodos ativos foi solidária com o desenvolvimento da psicologia da criança.” O volume de estudos sobre diferenças individuais é enorme (Justo, 1997): diferenças na evolução da personalidade; diferenças nos traços e em certas aptidões entre os gêneros; diferenças de QI e nos tipos de inteligência; diferenças nas aptidões específicas para este ou aquele setor do conhecimento humano, etc. Na prática escolar, contudo, ignoram-se tais diferenças: bem ou mal, os alunos devem acomodar-se no leito de Procusto da uniformidade. Em estilo contundente e irônico, fustiga Nietzsche, com razão, tais métodos de ensino: Os alunos, “à semelhança dos que param na rua, a olhar de boca aberta para quem passa, assim eles esperam e aguardam, de boca aberta, MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 164MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 164 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 165 os pensamentos que outros inventaram (1988, p. 139). Estudos recentes abriram horizontes novos à ciência da educação: mais importante que o acúmulo de conhecimentos é a adequada estruturação da personalidade. As descobertas da Psicologia das Relações Humanas, por sua vez, estão reclamando a revisão dos vínculos entre binômio professor-aluno. II. Reações contra um iconoclasta Em abril de 1952, provocou Carl Rogers reações explosivas ao pôr em dúvida certo número de “dogmas didáticos” (1961, p. 273-278): suas ideias representavam guinada na direção de aprendizagem autocentrada. Na ocasião, foi atacado como espécie de iconoclasta ou heresiarca. Eis algumas das ideias então expostas por ele: ‘’De acordo com a minha experiência, não posso ensinar a outra pessoa a ensinar.” ‘’Estou convencido de que a aprendizagem que age significativamente sobre o comportamento é unicamente a aprendizagem descoberta pelo indivíduo e autoapropriada por ele.” “Tal tipo de aprendizagem não pode ser comunicado diretamente a outra pessoa. “ “Consequentemente, dei-me conta de haver perdido o interesse em ser professor.” “... os resultados do ensino são ou sem importância ou prejudiciais.” “Acho extremamente compensador aprender em grupos, nas relações com outra pessoa (como na terapia) ou por mim mesmo.” Estas afirmações categóricas constituíam violentas marretadas contra veneráveis colunas-mestras do consagrado edifício da arte de ensinar. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 165MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 165 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 166 Anos mais tarde, procurou Rogers elencar os pressupostos implícitos na tradicional maneira de orientar o processo da aprendizagem escolar (Rogers, 1969, cap. 8). Ao leitor caberá dizer até que ponto vem a realidade da escola brasileira retratada por ele neste diagnóstico: 1. Não se pode ter confiança na autoaprendizagem do estudante: é preciso indicar-lhe a matéria, dirigi-lo, controlá-lo.Nosso professor, diz McLuhan, é como o cão de Pavlov: ao tocar a campainha, começa a salivar. 2. Os exames constituem a melhor técnica de avaliar a aprendizagem e a competência profissional. 3. Avaliação é educação; educação é avaliação. O aluno vive sob a ameaça constante da espada de Dâmocles dos exames. “Os exames tornaram-se o início e o término da educação”(p. 174). “Para o aluno – escreve educador francês – o que é “sério” é o exame: as disciplinas constituem um meio com relação a ele. Não se trata, para o aluno, de se preparar a ser um homem, mas de “preparar a um exame” (Hameline/Joel, 1967, p. 83). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 166MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 166 05/07/2022 15:24:3905/07/2022 15:24:39 167 No ensino tradicional, o programa, o conteúdo ocupa o primeiro plano. Através dele, o professor se comunica com o aluno ou comunica simplesmente um conteúdo aos discípulos. (Esquema inspirado em Yves Saint-Arnaud, 1969, p. 176.) – ”Assim como os pássaros vão às vezes em busca de grão que trazem aos filhotes sem sequer sentir-lhe o gosto, vão nossos mestres pilhando a ciência nos livros e a trazendo na ponta da língua tão somente para vomitá-la e lançá-la ao vento” (Montaigne, M., 1961, p. 207). Em seu diário, ”Minha Vida de Menina”, anotou a pequena Helena Morley a 24 de março de 1895: “...ela (a mãe) nunca estudou e não sabe que a gente, na escola, vai dar lição e não estudar.” 4. Ensino é igual a aprendizagem. – Em outras palavras: matéria ensinada pelo professor é matéria aprendida pelo aluno. “Quantidade de matéria é despejada sobre você, e você deve regurgitar a maior parte das verificações”, escreveu um estudante. Não se pode aplicar a todo o ensino brasileiro o que Lauro de Oliveira Lima afirmou do ensino superior? “A universidade brasileira é uma instituição sem tubo digestivo.” 5. Saber é acumular conhecimentos assim como se sobrepõe tijolos. É a “filosofia tijolo-sobre-tijolo”. 6. As verdades são Psicologia são conhecidas. – Generalizando esta proposição, diz Puente (op. cit., p. 266): na ciência existe uma ortodoxia, um dogmatismo. Rogers acha desastroso para uma ciência em desenvolvimento admitir como aceitável só um ponto de vista (1969, p. 179). Chama tal atitude “procedimento de estudo por citações”. 7. Método é ciência. – Muitas vezes, na opinião de Rogers, dá-se mais importância ao aparato e rigor do método científico do que a “observações significativas de problemas significativos”. 8. Métodos passivos de aprendizagem produzem cientistas criativos. 9. Reprovar a maioria dos alunos é método satisfatório de produzir cientistas e clínicos. Lamenta que, nos USA, somente parcela pequena de universitários consigam aprovação final nos cursos. Atribui muitos fracassos escolares aos pressupostos que estamos comentando. Além disso, os MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 167MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 167 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 168 talentos com pintas de originalidade facilmente desistem, decepcionados, ou são reprovados por não se adaptarem ao processo “engolir-regurgitar”. 10. O aluno é tratado mais como objeto manipulável do que como pessoa. Essa atitude é fruto de duas mentalidades: - Da concepção behaviorista, que tende a ver o homem como simples máquina manejada por meio de recompensas e punições. - Da quase impossibilidade de o professor achegar-se aos alunos quando sua função básica é a de avaliador e juiz. Manfred Bayer et al. (1980, p. 73) observaram que a maioria dos manuais sobre métodos de ensino colocam o professor no centro do processo da aprendizagem: “sua tarefa consiste em mediar, para os alunos, conhecimentos sobre determinado conteúdo da maneira mais adequada.” Embora mais resumido e de traços mais suaves, não é muito diferente o perfil traçado por Gílles Ferry do papel do mestre na maioria das escolas (1966, p. 23-26). Apesar de haver passado três décadas, o quadro, infelizmente, não se alterou sensivelmente. Eis testemunho vindo dos Es tados Unidos onde, faz meio século, há difusão das ideias rogerianas: “Nós ainda não descobrimos um sistema de educação que não seja um sistema de doutrinação. Você está sendo ensinado por pessoas que foram capazes de se acomodar a um regime de pensamento estabelecido por seus antecessores. É um sistema que se autoperpetua” (Lessing, in McClaren, 1992, p. 24). O leitor terá percebido como esses pressupostos contrastam com a teoria da personalidade de Rogers. Seu modo de encarar o processo ensino-aprendizagem foi-se formando simultaneamente com a elaboração da concepção da personalidade. Houve, em consequência da mudança de ideias, mudança de atitude, e a nova atitude estendeu-se aos vários tipos de relacionamento humano, inclusive ao pedagógico. Aliás, tanto na terapia como na educação (a terapia, em última análise, é processo de educação ou reeducação), segundo Rogers, as atitudes são mais importantes e decisivas do que os métodos e as técnicas. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 168MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 168 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 169 Métodos sofisticados são os mais rendosos? Dois grupos de alunos de Física: O primeiro seguiu o método Keller. Os estudantes receberam, além do livro texto: título do assunto, introdução, objetivos e procedimento sugerido. “Quando, ao reler os objetivos, o aluno concluir que domina a matéria da unidade, ele se dirige ao monitor, na sala de aula, para realizar o teste correspondente .” Um dos quatro testes era sorteado para o estudante. O segundo grupo foi orientado pelo método audiotutorial. Os objetivos, os testes e o mecanismo de avaliação foram os mesmos do método Keller. O estudante tem à disposição: fita de som para introduzi-lo no assunto e orientá-lo nas demais atividades; guia de estudo ou roteiro com os objetivos de aprendizagem e o procedimento sugerido e as atividades complementares; diapositivos com orientações ou respostas de questões e problemas; livro de texto, filmes ‘loops’; roteiro de laboratório. O aluno trabalha em cabine individual, encontrando à sua disposição o material de aprendizagem da unidade e os equipamentos e aparelhos que necessita.” Resultado: “De modo geral, os resultados indicam não haver diferença significativa entre os dois grupos, considerando o conhecimento adquirido, o número médio de testes realizados por unidade e o tempo do curso.” Buchweitz, 1979 III. Os princípios rogerianos da aprendizagem As ideias de aprendizagem centrada no aluno remontam às primeiras experiências de magistério de Rogers (Peretti, A., 1967, p. 23-39; 1997, p. 81-84). Durante décadas, foi elaborando e publicando seu pensamento sobre o tema (1951, cap. 9; 1969, por ex.). Um livrinho de cento e cinquenta páginas, traduzido do italiano, propagava já em 1956 estas nas perspectivas entre nós (Zavalloni, cap. III: Educação centrada-sobre-o-sujeito). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 169MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 169 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 170 A hipótese ou princípio central de Rogers sobre o ensino centrado no estudante é o seguinte: ‘’Não se pode ensinar diretamente a uma outra pessoa; pode-se, tão-somente, facilitar-lhe a aprendizagem” (Rogers, 1951, p. 389). Segundo Puente (1970, p. 232), as demais hipóteses, inicialmente em número de cinco (Rogers, 1951, p. 388-391), mais tarde elevadas a uma dúzia (Rogers, 1961, p, 275-277: reprodução do texto, da conferência da Universidade de Harvard, abril de 1952), giram em torno desta hipótese central. Em 1969 (p. 157-164), aparecem, mais extensamente formuladas, em número de dez. Anos mais tarde, 1980, reduzi-las a nove, reproduzindo- as em 1983. Antes de comentar o decálogo, examinemos a hipótese central. A afirmação: “não podemos ensinar diretamente a outra pessoa; podemos tão-somente facilitar-lhe a aprendizagem’’, não passa de reafirmação – diz Rogers – do velho adágio: “Podes conduziro cavalo junto à água, mas não podes obrigá-lo a beber” (Id. ib.). Na prática, entretanto, agimos como se ignorássemos esta verdade indiscutível. Em vez de perguntar-se: o que interessa o aluno? Quais seus objetivos nesta matéria? Que deseja aprender? Como posso facilitar-lhe a aprendizagem e o crescimento pessoal? – Continua o professor encarando sua atuação profissional do ponto de vista dele, professor: o que vou ensinar? Como vencer o programa? No programa de que ano inserir este ou aquele ponto? Etc. Os astros continuam girando em torno do centro antigo... Eis o decálogo de princípios que embasam a didática rogeriana (Rogers, 1969, p. 157-164). Não constituem elaborações de gabinete, como não o foram os elementos básicos de sua teoria da personalidade e do método terapêutico (Rogers, 1951, p. 157). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 170MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 170 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 171 1. Todos os seres humanos têm natural potencialidade para aprender: Em outros termos, o homem é naturalmente curioso, querendo conhecer o mundo que o rodeia. Os outros, particularmente os professores, podem embotar a vivacidade dessa tendência que, aliás, não deixa de apresentar certa ambivalência: a aprendizagem, mesmo significativa, tem seus aspectos penosos: requer esforço, quiçá renúncia a experiências,embora menos satisfatórias a longo termo, porém muito atraentes no momento atual; além disso, aprendizagem supõe reformulação, nem sempre fácil, de esquemas de sabe: já estruturados, talvez mesmo defendidos com denodo. O processo de aprender – como já vimos – compara-o Rogers às tentativas da criança para caminhar: apesar dos tropeços e eventuais contusões, recomeça e torna recomeçar. A satisfação de caminhar com pensa os sacrifícios do esforço e do sofrimento. Em outro capítulo da mesma obra (Rogers, 1969, p. 99/200), lemos: “O estudante possui a potencialidade e o desejo de aprender, desde que haja ambiente favorável. Muito poucos professores acreditam nisso.” Em que estriba esta potencialidade? Na tendência à autoatualização dos alunos. Esse dinamismo entrará naturalmente em ação, se as condições mínimas forem satisfatórias: em “contato real com os problemas da existência, querem estudar, desejam crescer, procuram descobrir, esperam dominar, almejam criar. O processo tomará como tarefa sua a de estabelecer relação pessoal tal com os estudantes, e tal clima na sala de aula, para essas tendências naturais poderem vir à tona” (Id. ib.). 2. Aprendizagem significativa ocorre quando o aluno percebe a relevância da matéria de estudo para seus objetivos. “Em termos mais formais, poder-se-ia dizer que a pessoa aprende de modo significativo somente as coisas percebidas por ela como associadas à manutenção ou à valorização do próprio self” (Id., 1951, p. 158). Muito mais empenhado no estudo estará, por ex., universitário para quem o conhecimento representa a possibilidade de acesso à profissão dos seus sonhos, do que outro, unicamente interessado na posse de um diploma como elemento decorativo: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 171MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 171 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 172 — É verdade que da Europa Voltaste feito doutor? — Parece-te isto impossível? É verdade, sim, senhor. — E por qual Academia? E qual a ciência, então? — Isso não sei: o diploma É escrito em alemão. (Gonçalves de Magalhães) Conhecimento autêntico, significativo é função de necessidade pessoal. Estudo significativo acelera o ritmo da aprendizagem, chegando a reduzir, “provavelmente, a um terço ou a um quinto o tempo que atualmente lhe é reservado” (Rogers, 1969, p. 159). 3. Aprendizagem implicando mudança da organização do self — na percepção de si mesmo — é ameaçadora, tendendo a provocar resistências. Racista terá dificuldade em aceitar os argumentos — embora evidentes — contra o “apartheid”, por implicarem numa reformulação de elementos importantes do self. E quanto mais esses elementos tiverem sido reforçados por discussões e lutas, mais difícil se tornará a reconsideração. Não foram os “hippies” condenados por constituírem ameaça ao sistema de valores geralmente vigentes na classe média? A aceitação do comportamento “hippie” suporia a rejeição de tais valores. Muitos desaprovam os “cabeludos” e outras modas “heterodoxas”: não, o que rejeitam é, no fundo, o inconformismo alardeado desta maneira, ameaçando o valor habitualmente ligado ao conformismo social. “Leciono faz trinta anos, e agora vem gente nova querendo me ensinar como dar aula!”–me disse, indignado, colega universitário. Aprender novo método de história, por ex., é reconhecer a inferioridade da velha técnica utilizada até então. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 172MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 172 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 173 A resistência é explicável, embora não admissível, como é explicável mas não admissível o caso do “matuto mineiro” – conto de Urbano Duarte. Contrário à construção da via-férrea, continuou ele “a viajar no seu burrico, pelas suas estradinhas, fazendo o meio-dia para comer à beira d’água o seu “tutu com torresmos’’, armando a rede em dois pés de árvores, ‘quentando’ fogo e contando anedotas do tempo de “quarenta e dois”. O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo, demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e cômoda. Porém, o matuto não se convencia. Certa vez, contudo, tem urgência de chegar à cidade. Vai à estação e pergunta quanto custa o bilhete. O agente regozija-se: — Ora, até que afinal convenceu-se, hein? — Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro... — Para um burro?! — Sim, seu compadre. O agente consulta a tabela e diz: — Treze mil e trezentos. — Então, dê-me um. Vendido o bilhete, o muar foi metido dentro do vagão próprio, e o dono também entrou. Na ocasião em que o comboio se punha em movimento. — Então, grita o agente, o senhor não salta? Não senhor, eu também You. — Como assim? Não comprou bilhete! O matuto meteu o pé no estribo, montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora da estação: — Eu vou a cavalo!” (Werneck, 1943, p. 113-114). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 173MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 173 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 174 4. As aprendizagens ameaçadoras do self são mais facilmente percebidas e assimiladas quando as ameaças externas forem reduzidas ao grau mínimo. Típico é o caso do aluno deficiente em alguma disciplina: se, devido a isso, for castigado, humilhado, privado de jogos,TV – numa palavra: ameaçado e incompreendido, a dificuldade tende a aumentar. “A ameaça ao self aparece como barreira à aprendizagem significativa” (Rogers, 1951, p. 391). Se, porém encontrar ambiente favorável, que o estimule, livre de medos, poderá fazer progressos na área. Já reza adágio antigo: “Pegam-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre.” 5. Se a ameaça ao self for débil, a experiência pode ser percebida de modo diferenciado, possibilitando a ocorrência da aprendizagem. “Qualquer aprendizagem supõe progressiva diferenciação do campo da experiência e a assimilação da significação dessas diferenciações” (Rogers, 1969, p. 16). Esse discernimento, segundo o autor, é facilitado especialmente por duas conjunções claramente distintas: a) Nos casos de ameaça intensa ao organismo físico, a pessoa costuma distinguir rapidamente plantas, frutas ou serpentes venenosas das outras. A aprendizagem é estimulada por tais ameaças com o fito de preservar a integridade do organismo. b) Já não ocorre o mesmo no caso de ameaças ao self, como desprezos, humilhações, ridicularizações, etc. Tal tipo de ameaça interfere negativamente no processo da aprendizagem. Uma universitária esteve com vontade de desistir do curso de artes, “embora só faltassem poucas semanas para concluí-lo,revoltadíssima contra as calúnias” constantes em sua ficha de estágio. 6. A maior parte da aprendizagem significativa é adquirida pela prática. Possibilitar aos estudantes contato direto com problemas de toda classe: sociais, filosóficos, literários, técnicas... É das melhores formas de levá-los a estudar. “Não estará trabalhando questões simplesmente apresentadas por outros” (Rogers, 1969, p. 200). O interesse maior de profissionais nos cursos intensivos ou de pós-graduação é convincente ilustração desta tese. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 174MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 174 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 175 “Colega minha não gostava das aulas de Estatística e ia mal nas provas. Este ano, conseguiu um emprego em que necessita desta disciplina. Pediu minha ajuda para a revisão da matéria. Ficou surpresa ao verificar como assimilava os conteúdos e como era bom trabalhar com Estatística” (Vânia Regina La Sálvia). Faz quatro séculos, escrevia o genial Camões (Lusíadas, X, 153): Não se aprende, senhor, na fantasia Sonhando, imaginando ou estudando Senão vendo, tratando e pelejando. 7. A aprendizagem é facilitada quando o aluno participa responsavelmente no processo de aprendizagem. Aprendizagem ativa, participada, é superior à passiva e puramente dependente. Se lhe for possibilitado ir na linha dos seus interesses, estudar os problemas que o preocupam e desafiam, escolher a forma e o ritmo para estudar-lhes a solução, o aluno mobilizará intensamente seus recursos (Cf. Peretti, 1966, p. 231: “O aluno quer participar”). Em lugar de parasita, possibilitar-lhe o desenvolvimento de árvore robusta e frondosa. Em vez de carona, propiciar-lhe a satisfação de manejar o guidão. Consequência importante decorre desta aprendizagem participada: 8. A aprendizagem voluntária, a engajar totalmente o estudante – tanto sensibilidade como inteligência – é mais duradoura e a mais percuciente. “É da divergência ou da concordância emocional e intelectual entre as experiências que vai nascer ou não a possibilidade de aprender” (Peretti, 1966, p. 228/9). 9. Independência, criatividade, autoconfiança são facilitadas quando autocrítica e a autoavaliação são básicas, passando a avaliação dos outros a segundo plano. Sem liberdade, não pode desenvolver-se a criatividade. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 175MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 175 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 176 Recomenda o autor aos pais de oferecerem modelos de comportamento aos filhos. Mas, à medida em que avançarem em idade, devem estimulá-los à autoavaliação a fim de chegarem a conclusões pessoais. Pertinente a observação de Nietzsche: ‘’Recomenda-se mal um mestre se ficamos sempre apenas discípulos” (s.d., p. 23). Na mesma linha, o mundialmente conhecido especialista em Teologia Moral, Häring: “Quem se faz mestre sem ser condiscípulo será mestre dominado!” (1994, p. 118). 10. A aprendizagem socialmente mais útil no mundo moderno consiste em aprender o processo da aprendizagem, permanente abertura à experiência e a assimilação do processo da mudança. O professor não ensina: procura facilitar ao aluno a aprendizagem. O aluno está em primeiro plano, e não o conteúdo da aprendizagem. O objetivo da aprendizagem não é a homeostase freudiana, mas o ‘equilíbrio fluido’ de organismo concebido como sistema aberto (Wulf, 1982, p. 98). “Se nossa cultura sobreviver, será devido ao fato de termos sido MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 176MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 176 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 177 capazes de desenvolver indivíduos para os quais a mudança é o elemento central da existência, podendo viver satisfatoriamente com este dado fundamental” (Rogers, 1969, p. 163). As vertiginosas transformações do mundo de hoje devem alertar- nos para a imperiosa necessidade de propiciar aos estudantes de todos os níveis a possibilidade e a satisfação de viverem a aventura da existência em tendas intelectuais movediças, em lugar de lhes oferecer o conforto de casas prontas e fixas, reconhecidas como inadequadas já no ato da inauguração. Rogers não é único a pensar assim. Mais um entre inúmeros autores da mesma linha de pensar: “ ... se o mundo novo a se elaborar diante de nossos olhos... parece prometer ao homem lazer maior e generalizado, impor-lhe-á, em troca da própria mobilidade, mudanças contínuas na maneira de agir e de pensar” (Osterrieth, 1967, p. 9). Entre “as qualidades necessárias aos adultos de amanhã”, assinala o educador belga a “aptidão para a mudança, as alterações periódicas”. IV. Método democrático versus método autoritário 1. Rogers propugna o “estabelecimento de relação e atmosfera que leve a tipo de aprendizagem automotivada, autoatualizante e significativa” (1961, p. 292). O autor se apressa em acrescentar: “Esta, porém, é orientação claramente discrepante das tendências e práticas educacionais correntes.” Reconhece tocar no ponto nevrálgico: o objetivo da educação. ‘’A finalidade específica e dá sentido à vida humana. O fim é, em suma, a resposta que nós encontramos para responder ao diligente ‘para quê?’ de todas as nossas ações” (Hoz, 1969, p. 89: Causa final da educação). Daí a razão do alerta de Rogers – quem não quiser esposar a finalidade que propõe, que adote outro método na educação: “As perspectivas por mim apresentadas são úteis à consecução de MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 177MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 177 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 178 certos objetivos, mas não à obtenção de outros” (Rogers, 1961, p. 293). É ilusória a aparente unidade de objetivos educacionais, mesmo em cultura batizada de democrática, como o demonstrou objetivamente um dos meus grandes professores rogerianos num curso de pós-graduação em Paris, André de Peretti (1969, p. 113-121: As contradições do sistema educativo. p. 94-110: Pontos de vista contraditórios). No capítulo “Ensino centrado no aluno”, já em 1951 (p. 387- 388), portanto, há meio século, insistia Rogers neste ponto de extrema importância: “Não é (o nosso) sistema de educação indicado para uma cultura autoritária nem para servir a uma filosofia autoritária. Se a finalidade da educação for a produção de técnicos bem informados que docilmente executarão ordens de uma autoridade constituída, sem questioná-las, então o método que descrevemos é inteiramente inapropriado.” Esse método só pode ter acolhida em quadro democrático e neste, só em pessoas de estrutura democrática. Não esquecer que nossa cultura está “só parcialmente organizada em bases democráticas e, segundo alguns, a escola deveria espelhar esta ambivalência” (Id., p. 388). Observação superficial nos convence do “fato de os hábitos correntes na educação estarem longe da liberdade. Hoje há tremenda pressão cultural e política – para o conformismo, a docilidade, a rigidez” (Rogers, 1967, p. 56). Em nossos dias, ainda proliferam mestres da categoria de Aristarco (cf. “O Ateneu”, de Raul Pompeia) ou, mais próximo de nós, professores extremamente autoritários que desfilam em “Doidinho”, de José Lins do Rego. O escopo de educação verdadeiramente democrática consiste em propiciar aos alunos as condições para se tornarem indivíduos (Rogers, 1951, p. 387): • capazes de decisões pessoais, e sentir-se por elas responsáveis; • capazes de escolhas inteligentes e de orientação pessoal; • capazes de espírito crítico, isto é, em condições de avaliar as contribuições feitas pelos outros; • munidos de conhecimentos aplicáveis à solução dos problemas; MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 178MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 178 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 179 • capazes (e isto é mais importante) de se adaptar com maleabilidade e inteligência a novas situações problemáticas; • que assimilaram modo adaptativo de enfrentar os problemas, utilizando, de forma livre e criadora, todas as experiências pertinentes;• capazes de cooperar efetivamente com outros nessas diferentes atividades; • capazes de trabalhar não para obter a aprovação dos outros, mas em termos de seus próprios objetivos socializados. Rogers é muito coerente com a posição democrática: somente alunos capazes de iniciativas, automotivados para o estudo tornar-se-ão cidadãos em condições de viver construtivamente num mundo caleidoscopicamente mutável. Concluamos com Peretti: “A orientação não diretiva se baseia numa fenomenologia da confiança... O desafio de Rogers, a questão que nos propõe a cada instante é, precisamente, a da liberdade do outro e a de seu crescimento” (1966, p. 48). Pessoas de projeção mundial, como Virgínia Wolf, Charlie Chaplin, Harry Truman, Walt Disney, Bernard Shaw, Pablo Picasso, Henry Ford e tantíssimos outros não tiveram formação universitária. Maurice Gibbons (1980, p. 41-56) apresenta as quarenta características comuns, em graus variáveis, a vinte destas personalidades: perseverança, curiosidade, autoconfiança, maleabilidade natural, inteligência, espírito de observação, não conformismo, ambição, motivação altruística, otimismo, senso de humor, etc. A escola, diz ele, teve papel insignificante em sua formação especializada. Gibbons já elencou 450 personalidades autoformadas, suficientemente célebres em suas áreas para merecerem biografias ou autobiografias impressas. Amador Aguiar se aposentou aos 80 anos, em 1984, depois de haver feito do BRADESCO o maior grupo financeiro da América Latina. ‘’A minha formação, declarou, se resume aos estudos no grupo escolar. Eu só tenho o primário.Tudo o que sei aprendi no dia a dia, e é esse tipo de experiência que valorizamos aqui no banco. Não damos muita importância a uma pilha MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 179MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 179 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 180 de diplomas. (...) Na escola perde-se muito tempo e, não raramente, o aluno sai sem saber ao menos redigir uma carta. No banco, como nas empresas em geral que dão apoio a seus funcionários, aprende-se muito mais. O BRADESCO é como se fosse uma universidade, a melhor que existe” (Machado, 1984, p. 5 e 8). A escola não é indispensável Mozart Camargo Guarnieri, nascido em Tietê, SP, no ano de 1907, quase não frequentou escola. Teve de interromper os estudos no segundo ano primário, pois sua família não tinha condições de custeá-los. Eram nove irmãos e poucos recursos financeiros. A sua cultura veio da biblioteca de Mário de Andrade, com quem conviveu por muitos anos; da amizade com intelectuais da “Semana de Arte Moderna” (1922) e da natural vontade de aprender. Foi também durante o período em que conviveu com Mário de Andrade que Guarnieri se conscientizou do sentimento nacional de sua música. Até 1922, não tinha estudado composição. Tudo o que eu fazia era empírico. Seu primeiro professor foi o maestro Lamberto Baldi, com quem ficou até 1932, época em que seu mestre foi para Montevidéu. A partir desta data, Mário de Andrade lhe serviu de guia, a pessoa que o tornou músico consciente de seu talento e que o impulsionou a desenvolver toda aquela brasilidade de sua obra através de pesquisas do folclore negro e indígena. Em 1938, obteve viagem-prêmio a Paris, lá permanecendo alguns anos estudando composição e estética musical com Charles Koeclin e regência com François Ruhmann, primeiro maestro da Ópera de Paris. Foi agraciado com numerosos prêmios nacionais e estrangeiros. Entre os últimos, destaca-se o primeiro prêmio da Biblioteca Pública de Filadélfia pelo Concerto para violino e orquestra (1942); primeiro prêmio no concurso organizado pela RCA Victor e a Chamber Music Guild de Washington, com o segundo Quarteto de Cordas. Compôs outras músicas para orquestra, duas óperas, uma centena de canções, com acompanhamento de piano, sobre textos de vários poetas. Campos, 1974 e Enciclopédia MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 180MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 180 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 181 2. A adesão a esse método democrático, interessado em oferecer condições para cada aluno “tornar-se ele mesmo”, “tornar-se pessoa”, supõe determinadas atitudes da parte do educador. “A facilitação de aprendizagem significativa estriba em certas qualidades atitudinais existentes no relacionamento pessoal entre o facilitador e o aprendiz” (Rogers, 1969, p. 106). O ponto central do problema pedagógico, na linha rogeriana, não é • a habilidade docente do mestre, • sua cultura, • o planejamento curricular, • o uso dos meios audiovisuais, • o recurso ao ensino programado, • as aulas expositivas, • a riqueza bibliográfica, embora possam constituir recursos importantes, mas certo tipo de relacionamento entre professor e aluno (Rogers, 1969, p. 105/6; Max Pages, 1969, p. 111; Peretti, 1997, p. 258). Com leves variações, encontramos nas publicações de Rogers a mesma relação de atitudes ao longo dos últimos anos (1961, p. 286-289, p. 58-60; 1969, p. 106-112; 1977, p. 69-90; p. 269-289; 1985, 3ª Parte). a) Uma das atitudes é a de confiança no organismo humano. – Já sabemos tratar-se de elemento fundamental na teoria rogeriana, como, aliás, nos sistemas pedagógicos de Aichorn, Neil e Montessori, por exemplo. “Se desconfiarmos do ser humano, devemos abarrotá-lo com informações da nossa escolha, sob pena de ele enveredar por sendas erradas. Mas, se confiarmos na capacidade de que o indivíduo humano pode cultivar suas potencialidades, então podemos oferecer-lhe a oportunidade de escolher os próprios caminhos na aprendizagem” (Rogers, 1967, p. 59; 1969, p. 114). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 181MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 181 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 182 b) Outro requisito é a congruência, a autenticidade de atitudes. – É a capacidade de viver no relacionamento com os alunos como pessoa real e não como “personagem”, isto é, indivíduo exercendo o “papel” de professor, usando, enquanto na função docente, a “máscara” de educador. A autenticidade, no parecer de Rogers, é a mais importante das atitudes para um facilitador da aprendizagem. O professor “é pessoa e não a encarnação abstrata de exigência curricular ou tubulação estéril pela qual o saber é transmitido de uma geração a outra” (Id., 1961, p. 287). Mostrar-se-á o educador como é: entusiasmo com os bons estudantes e seu descontentamento com os demais; aceitará tanto os assomos de agressividade como os momentos de compreensão. Externará sua concordância ou discordância, sem que o aluno se sinta na obrigação de aceitar-lhe a opinião.”Pelo fato de aceitar seus próprios sentimentos, não terá necessidade de impô-los aos alunos. Pode não gostar do trabalho de um deles, sem que isto implique em ser a tarefa objetivamente má ou o estudante medíocre. É simplesmente verdade que ele, como pessoa, não gostou (Rogers, 1967, p. 59). O autor propõe à nossa meditação hipótese importantíssima, decisiva para a escala de valores do mestre: “Talvez importe menos ao professor vencer todo o programa estabelecido ou utilizar os melhores recursos audiovisuais do que ser congruente, autêntico em suas relações com os alunos” (Rogers, 1961, p. 287). O educador há de ser “alguém que é, e os alunos crescem ao contato com alguém que realmente abertamente é” (Id., 1969, p. 107). c) Ocorre aprendizagem autêntica na medida em que o professor aceita o aluno tal qual é e lhe compreende os sentimentos. O estudante deseja levantar vôo em busca do saber. Pista adequada e segura para a decolagem oferecerá o educador • capaz de acolhida calorosa, • de consideração positiva incondicional, • de empatia com relação aos sentimentos de receio, expectativa e desânimo presentes quando o aluno enfrenta nova disciplina. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 182MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 182 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 183 Relembremos que aceitação não implica, necessariamente, em aprovação.e a eficácia necessárias ao funcionamento adequado” (1966, I, p. 28). Este princípio costuma gerar dúvidas em quem o escuta a primeira vez e não o entende corretamente. Rogers não diz que todas as pessoas mobilizam ou conseguem mobilizar as energias para solucionar problemas corriqueiros ou não habituais. Afirma ser o indivíduo depositário de recursos para isso. O germe desta noção, porém, é antigo, mormente na sabedoria Oriental. Escutemos um dos grandes oráculos do Ocidente, o filósofo e teólogo Agostinho de Hipona, falecido em 430: “Talvez o médico esteja escondido no teu interior”. O mestre de La Jolla formulou assim esta crença na pessoa do outro: ‘’Para expressar em forma mais resumida ou definitiva a orientação de atitude que aparece como ótima num terapeuta centrado no cliente, diremos que ele procurará agir em consonância com a hipótese de que o indivíduo possui capacidade suficiente para enfrentar, de forma construtiva, os aspectos da vida que podem aflorar-lhe no campo da consciência” (Rogers, 1951, p. 17). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 23MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 23 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 24 O psicoterapeuta, o orientador ou, até, simples amigo, somente ajudam a despertar as forças inerentes à pessoa; somente podem motivá- la a se ajudar a si mesma. Não é isto que faz o médico? Propicia condições ao organismo a reagir. A reação deve provir deste. Se isto não acontecer, o doente não cura. O terapeuta parte do princípio de que o consulente dispõe de recursos para solucionar o problema que apresenta. Procura o profissional criar clima que possibilite a mobilização desses dinamismos construtivos. Talvez não consiga seu intuito por deficiência dele, profissional; talvez a pessoa não chegue a utilizar suas possibilidades por falhas estruturais psíquicas ou limitações ambientais. Em todo o caso, vale o princípio, até prova contrária: ‘’...em seu nível mais profundo, o organismo é digno de confiança; a natureza não é algo a ser temido, mas a ser liberado para autoexpressão responsável“ (Rogers, 1977, p. 17). Reparemos na observação: “em seu nível mais profundo”. Geralmente vivemos de forma superficial e apreciamos as pessoas por este nível de comportamento. Rogers teve acesso, na terapia, às profundezas humanas. Quem sondou essas ‘profunduras’ em si mesmo e/ou em outrem não terá dificuldade em aceitar a hipótese rogeriana. Aliás, não é ele o único a pensar assim. Maslow (1972, p. 4) afirma que a natureza humana está muito longe de ser tão má quanto se pensava. Habitualmente, se lhe preteiam as sombras e se lhe minimizam as facetas positivas. Apesar dos egoísmos, crimes e maldades em geral, o homem “não deixa de confiar na bondade radical do homem” (Boff, 1972, p. 15). Continua o autor: na família, no trabalho, no lazer, “afirma inconscientemente e pré- reflexivamente: a vida é boa! Vale a pena viver e sacrificar-se”. Além desta opinião de um teólogo de projeção internacional, seguem outras de representantes ilustres da Igreja Católica, tradicionalmente um tanto reticentes a respeito da prevalência da bondade no homem. Citações textuais, a fim de não pairarem dúvidas, já que as paráfrases lhes poderiam tirar o vigor ou suscitar dúvidas no leitor atento. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 24MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 24 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 25 Paulo Evaristo Arns: “Entre os fatores positivos que favorecem a evangelização, figura a bondade natural dos homens, a busca da verdade e do amor” (1981, p. 28). João Paulo II: “O coração humano procura instintivamente o melhor, o que é mais elevado e está mais no alto” (1982, p. 8). Ainda: “A Igreja tem também confiança no homem, embora conhecendo a perversão de que ele é capaz, porque sabe bem que (...) há na pessoa humana qualidades e energias suficientes, há nela bondade fundamental (cf. Gn 1,31), porque é a imagem do Criador colocada sob o influxo redentor de Cristo” (1988, nº 47). Não somente autores isolados sintonizam com a visão rogeriana. O episcopado da América Latina escreveu: “O homem latino-americano tem uma tendência inata a acolher as pessoas, a partilhar com os demais; à caridade fraterna e ao desprendimento, particularmente entre os pobres, a compadecer- se com o sofrimento alheio. Valoriza muito os vínculos de parentesco e amizade, a família e os compromissos dela decorrentes” (Doe. de Puebla, 1971, nº 17). Na China antiga, Mencius acreditava na bondade inata do homem: Hsun Tzu dizia ser-lhe inata a maldade. Hobbes e Freud seguiram a linha de Hsun Tzu. Os enciclopedistas franceses e os behavioristas acreditam não existir natureza humana básica: ela se forjaria na experiência. Rousseau, Maslow e Rogers, entre muitos, e com nuances, harmonizam com Mencius. Afirmação, crença não é, contudo, um ponto de vista científico. Entretanto, a opinião que se tiver sobre o homem repercute diretamente sobre a autopercepção e a percepção dos outros; o modo de encarar a psicoterapia; serve de crivo de avaliação de atitudes, de publicações, da História, etc. Óculos claros ou escuros através dos quais é contemplado o mundo. Portanto, a adesão a uma das três correntes – behaviorista, lítica ou humanista – terá reflexos importantes sobre nossa autoimagem e o inter- relacionamento. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 25MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 25 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 26 O que nos diz a ciência sobre o assunto? Há evidências, sobretudo clínicas, mas também já com alguma base em pesquisas, que praticamente todo ser humano possui “tendência ativa para a saúde; impulso ao crescimento ou à atualização das potencialidades” (Maslow, 1979, p. 24). As corajosas e exitosas iniciativas de August Aichorn na reeducação de jovens delinquentes e de Neil em Summerhill ilustram eloquentemente a confiança na capacidade construtiva do ser humano (Rogers, 1967, p. 67). Os novos métodos da chamada erroneamente antipsiquiatria baseiam-se, igualmente, mais que as técnicas tradicionais, nas virtuais possibilidades dos indivíduos atendidos. Grupos de crescimento realizados com grande êxito por Carl Rogers com facções inimigas, como pretos e brancos nos Estados Unidos e na África do Sul, comunistas e não comunistas na Polônia, protestantes e católicos na Irlanda, constituem outra comprovação da bondade latente nas pessoas (Rogers, 1970, cap. 8). Suficiente é que alguém consiga formar atmosfera propícia ao seu afloramento. Lawrence LeShan (1980, p. 12-14) planejou pesquisa em larga escala para testar as duas hipóteses fundamentais: 1ª A natureza básica do homem é má. 2ª A natureza básica do homem é boa. Eis as grandes linhas do experimento: O porto de Veneza foi escolhido para a observação, com a participação de mais de 5.000 pessoas, divididas em grupos de 250 ou mais indivíduos, passageiros de navios que entravam ou saíam, cruzando- se à distância entre 70 e 100 metros aproximadamente. Um grupo não via os demais da mesma nave a fim de assegurar reações independentes. Os grupos selecionados provinham da Itália, França, Noruega, Rússia, Grécia, Turquia, Romênia, Iugoslávia, Alemanha Ocidental, Inglaterra e Estados Unidos. Portanto, do norte ao sul da Europa, mais a Turquia; do leste e do oeste; de países democráticos e comunistas; de nações amigas e inimigas nas últimas guerras mundiais. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 26MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 26 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 27 Todos se achavam em situação de não ameaça, tendo certeza quase absoluta de nunca mais se encontrarem com pessoas dos outros navios. A hipótese era a seguinte: se a suposição de Hobbes-Freud sobre a natureza fundamental do ser humano for verdadeira, nas condições do experimento, os indivíduos terão manifestações hostis a respeito dos grupos dos outros navios, através de gestos e palavras. Que aconteceu no dia do experimento (29 de agosto deÉ atitude que consiste em receber o aluno como ele é, sem recriminar-lhe tais ou quais deficiências. Espera-se, naturalmente – e para isso frequenta a escola – que haverá de crescer. A compreensão empática é a habilidade de compreender o aluno do ponto de vista dele. Assim, (exemplo de Rogers) é mais útil responder ao aluno que se declara incapaz de um estudo ou tarefa: “Estás achando realmente impossível este trabalho, não é verdade?” – do que: “Estou certo de que és capaz.” Chama ele a atenção não somente sobre a importância ligada pelos alunos ao fato de serem simplesmente compreendidos do ponto de vista deles, sem julgamento, sem avaliações, mas também sobre o crescimento personalizante dessa atitude. Em tal situação, escreve Osterrieth, “como não está nem arbitrariamente constrangido, nem forçado, nem ameaçado de desvalorização por autoridade exterior e temível, necessariamente superior a ele, o indivíduo tem menos necessidade de se defender, de buscar álibis: pode encarar as ações e o próprio comportamento com maior objetividade e cuidar mais do bem comum. E ainda quando, inevitavelmente, vier a encontrar-se, por vezes, em oposição aos companheiros ou vier a entrar em conflito com eles, esse conflito não é desfigurado antecipadamente pela necessidade da submissão à onipotência adulta: a criança pode defender- se, fazer valer seus direitos ou suas opiniões” (Op. cit., p. 114). Essas atitudes do professor contêm “tríplice apelo” aos alunos: • desejo de autonomia, • vontade de participação, • e preocupação de autenticidade (Hameline, 1967, p. 64). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 183MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 183 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 184 V. Professor: facilitador da aprendizagem “Vejo a facilitação da aprendizagem como • o objetivo da educação, • a modalidade de desenvolver o homem-aprendiz, • a forma de aprender a viver como indivíduos-em-processo” (Rogers, 1969, p. 105). Além das atitudes gerais que já passamos em revista, enumera Carl Rogers uma série de indicações práticas na linha da aprendizagem centrada no aluno. A relação de 1951 (p. 401-402) continua a mesma em 1969 (p. 164- 166), com os itens enriquecidos de breves comentários em 1985 (cap. 9). 1. O facilitador terá muito que fazer para criar adequada disposição ou clima do grupo. Novo tipo de processo de aprendizagem requer novo ambiente psico-social: “Liberdade, estímulo, compreensão humana dos objetivos e frustrações – eis o que constitui clima adequado a esse tipo de aprendizagem” (Rogers, 1969, p. 200). Em “Terapia Centrada no Cliente” (1951, p. 392-397), sublinha a importância desse ponto fundamental. As demais indicações são, a um tempo, como que decorrências desse clima e reforçadores do mesmo. 2. O facilitador auxilia a explicitar e esclarecer tanto os objetivos individuais como os propósitos mais gerais do grupo. É tarefa importantíssima: ajudar a elucidar constantemente os vagos e, não raro, contraditórios e ambíguos objetivos individuais que, progressivamente, se entrelaçarão para formar um objetivo ou objetivos do grupo. 3. O facilitador confia no desejo de cada aluno para alcançar os objetivos significativos para ele, como força motivadora subjacente à aprendizagem significativa. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 184MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 184 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 185 Mas não estranhará as tensões que a nova situação didática pode mobilizar nos aprendizes. Tomará a mão do aluno inseguro que lhe pede ajuda. Saberá graduar convenientemente a iniciação ao novo método, que não visa à criação de situação ansiógena, mas facilitar a aprendizagem autodirigida. Escreve Eda Barbosa Coutinho (1980, p. 138): “O aluno é ativo procurador de estímulos e não apenas um respondedor da estimulação do ambiente. Por esta razão, o papel do professor deve ser visto como o de facilitador do desenvolvimento das capacidades do aluno para pensar e agir responsavelmente.” 4. Diligencia o mestre por organizar e tornar facilmente acessível a mais ampla série de recursos para a aprendizagem. Não somente livros, revistas, dispositivos, filmes, gravações, vídeos, mas também pessoas em condições de contribuir à ampliação dos conhecimentos do aluno. “Em vez de organizar planos de aulas expositivas, tal professor empenhar-se-á em proporcionar matéria-prima aos estudantes” (Rogers, 1967, p. 60; 1961, p. 288-289). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 185MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 185 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 186 5. O mestre considerar-se-á a si mesmo como recurso flexível, utilizável pelo grupo. Porá à disposição dos alunos seus conhecimentos e experiência, sua prontidão para aulas expositivas e palestras; sua disponibilidade para encontrar outras fontes. Oferece, não impõe. Caso for solicitado, exporá seu modo de ver e organizar os conhecimentos, sem insistir nem esperar que os alunos lhe sigam os passos. Repetimos a opinião de Häring, eminente professor de Teologia Moral, com obras traduzidas para muitos idiomas: “Quem se faz mestre sem ser condiscípulo, será mestre dominador” (1984, p. 61). 6. Reagindo às manifestações da aula, aceita, ao mesmo tempo, o conteúdo intelectual e as atitudes emotivas, procurando dar a cada aspecto o grau de ênfase que tem para o indivíduo ou o grupo. “Na medida em que puder ser autêntico, procedendo assim, aceitará, tanto racionalizações e intelectualizações como sentimentos profundos e pessoais” (Rogers, 1969, p. 165). 7. Uma vez estabelecido o adequado clima na aula, o facilitador estará apto a se tornar, progressivamente, um aprendiz-participante (“a participant-learner”), um membro do grupo, expondo suas opiniões como qualquer indivíduo. Inicialmente, tem o professor um papel bem definido: criar a desejada nova atmosfera na sala. Na proporção que isto ocorre, atenuar-se-á esta função, para dar lugar a de um elemento integrante do grupo. “Minha esperança, no grupo, é tornar-me, gradualmente, membro tão participante como facilitador” (Rogers, 970, p. 45). 8. Tomará a iniciativa de partilhar com o grupo tanto sentimentos como ideias, porém, de modo a não exigir nem impor, mas denotando simplesmente participação pessoal, que os estudantes podem admitir ou recusar. Sentir-se-á livre de expressar os próprios sentimentos com relação aos membros do grupo e partilhar os sentimentos deles, mas sem julgamentos ou avaliações. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 186MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 186 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 187 9. No decorrer desta experiência, ficará atento às expressões indicativas de sentimentos profundos ou intensos. Procurará compreender tais sentimentos do ponto de vista do aluno e comunicar-lhe sua compreensão empática. Desta forma, tanto sentimentos positivos: alegrias, amizade, entusiasmo, confiança, etc., como negativos: impaciência, rivalidade, raiva, decepções, desânimo, etc., poderão ser objeto de compreensão construtiva. 10. Em sua função de facilitador da aprendizagem, procurará o mestre reconhecer e aceitar as próprias limitações. Resumamos as importantes observações do autor: O professor se dará conta de poder dar liberdade aos alunos só dentro dos limites suportáveis para ele mesmo. Será compreensivo na medida em que desejar ou puder entrar no mundo pessoal dos alunos. Sua participação é função do grau de abertura à experiência. Pouca abertura implica, necessariamente, em participação limitada. Só poderá manifestar o grau de confiança na motivação de estudar dos alunos na proporção em que realmente sentir esta confiança. Haverá atitudes suas nada facilitadoras da aprendizagem: • desconfiança em relação aos alunos, • impossibilidade de aceitar-lhes certas atitudes, • incapacidade de compreender-lhes alguns sentimentos, • ressentimentos provocados por atitudes dos alunos a seu respeito e outros comportamentos deles, • tendênciaa julgar e avaliar. A expressão de tais sentimentos como algo pessoalmente sentido: “Parece-me...” “Sinto que...” “Pessoalmente acho...”; e não como fatos objetivos, purificará a atmosfera do relacionamento, vindo a ser mais eficiente como facilitador da aprendizagem. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 187MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 187 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 188 A meu ver, diz Rogers, encontramo-nos em face de situação educacional inteiramente nova, cujo objetivo, se quisermos sobreviver, é a facilitação da mudança e da aprendizagem. Educado é tão-somente • a pessoa que aprendeu como aprender; • a pessoa que aprendeu como se adaptar e mudar; • a pessoa que se deu conta de que nenhum conhecimento é seguro; que somente o processo de procurar o saber fornece embasamento sólido. Mudança, confiança num processo, de preferência a um conhecimento estático, é a única atitude a ter sentido como alvo para a educação no mundo de hoje (Rogers, 1969, p. 104). Em 1972 (p. 215), acena o autor para outra modalidade “escolar”: laboratórios de aprendizagem, livres de imposições burocráticas, pois os alunos aprendem apesar de nós, como indicam pesquisas. Lamenta que alguém possa receber, hoje, diploma de curso superior sem haver aprendido a comunicar-se, a resolver seus problemas, sem saber o que fazer com a raiva e outros sentimentos negativos. Parece estar implícita a ideia de que essas lacunas seriam preenchidas nos laboratórios de aprendizagem. Descentrado do aluno Hartmut Gagelmann, adulto, narra a frustração sofrida na segunda ou terceira série primária. A professora solicitara uma composição sobre o tema ‘jardim’. O aluno sentiu-se inspirado: escrevera na página, à direita, reservando a da esquerda para ilustração a cores: pradaria com girassol e macieira, ave pousada num dos galhos. A professora percorria os bancos. Hartmut estava faceiro de seu trabalho. Ao se aproximar a mestra, ergueu o busto a fim de ela poder apreciar melhor sua obra-prima: descrição do jardim, acompanhada de ilustração colorida. Tomou um susto quando a professora se pôs a gritar, ao mesmo tempo que lhe arrancava do caderno as duas páginas: “Isto não é aula de pintura!” – bradou. Sonntag, Olten, Suíça, n. 31, 1988 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 188MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 188 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 189 VI. Avaliação O crescimento da personalidade é perturbado e retardado por avaliação externa, quer seja favorável ou não (Rogers, 1951, p. 417). Esta assertiva foi demonstrada experimentalmente (ld., p. 418). Daí a melhor forma de avaliação ser a autoavaliação. De fato, somente o estudante mesmo poderá saber até que ponto atingiu os objetivos propostos e em que medida se esforçou para alcançá-los. “Não lembrei nenhum processo de avaliação dos progressos dos estudantes em termos de critérios externos. Em outras palavras: não falei em exame. Penso que medir os êxitos dos alunos para verificar se atingiram o alvo fixado pelo professor, é diretamente contrário à aplicação da terapia à aprendizagem autêntica. Em terapia, os exames são feitos pela vida. O cliente os enfrenta, triunfando algumas vezes, fracassando outras. Descobre que pode utilizar os recursos e a experiência que lhe oferece a relação terapêutica a fim de se organizar a si mesmo de modo a poder enfrentar mais satisfatoriamente os testes da vida. Creio ser este esquema igualmente válido para a educação” (Rogers, 1961, p. 290). Em 1985 (p. 167), enfatiza que o aluno deve assumir a responsabilidade da escolha dos critérios e objetivos a serem alcançados. A quase totalidade dos estabelecimentos de ensino requerem, porém, a atribuição ao aluno de nota ou conceito pelo professor. Rogers apresenta diversas formas para contornar a dificuldade: Propor a questão aos alunos a fim de sugerirem formas de avaliação. Outra modalidade consiste em anexar o estudante autoavaliação ao trabalho, justificando o grau ou conceito que se atribuiu. Caso o professor não puder aceitar a nota, discutirá as razões de sua divergência com o estudante a fim de chegarem a um acordo. Sistema cumulativo de avaliação tem a preferência de certos professores; outros, ao contrário, antepõem-lhe avaliação global. Embora seja sempre mais ou menos perturbadora, a hetero-avaliação, em certos casos, é inevitável: a preferência por um de três candidatos, por ex., só é possível após avaliação. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 189MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 189 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 190 O bem comum exige que a competência de médicos, arquitetos, advogados, psicólogos, educadores, etc. seja aferida antes do exercício profissional. Ainda que esta avaliação seja mais ou menos prejudicial ao indivíduo, a salvaguarda da sociedade, isto é, de muitos indivíduos, a requer e justifica (Rogers, 1951, 417/18). VII. Método inviável? Certamente é o método de estudo centrado no aluno difícil para quem foi educado em outra modalidade distante da proposta rogeriana. Sua aparente facilidade esconde exigência desconhecida nos hábitos didáticos tradicionais. Segundo Passerou (in Peretti, 1997, p. 268), para ser eficaz, o ensino não diretivo requer mais trabalho tanto do mestre como do estudante. E nota, perspicazmente: trabalho de que ambos tendem a esquivar-se... Fomos vítimas de educação “pseudo-democrática’’, reconhece Puente. (1970, p. 229) Seguimos, qual rebanho, nossos professores pelas sendas seguras de um livro didático ou de apontamentos que, afinal, não passam, geralmente, de cópia de algum autor ou compilação de vários autores. Muitos (a maioria?) dos professores não passavam/passam de “walking textbooks”(Rogers, 1969, p. 108), “livros didáticos ambulantes”, não raro apoiados na bengala, nas muletas de um “livro do mestre”. Método saliva-giz-cópia-regurgitação – ou, na expressão de Rogers: caneca-jarra. Outra comparação: funil-vasilhame. A avaliação não passava de espécie de confronto de “impressões digitais”. Só havia uma pequena brecha para a criatividade nas composições de português. Os numerosos ensaios feitos em diversos países constituem prova não só da viabilidade da proposta rogeriana, mas igualmente das vantagens por ela oferecidas: (cf. Rogers, 1969, p. 9-97; Hameline/Dardelin, 1967, 340 páginas; “Orientations”, Paris, abril, 1966, p. 85-102; Daniel le Bon, in “Pédagogie et Psychologie des Groupes”, vários autores, Paris, 1966, MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 190MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 190 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 191 p. 117-146; Brugidou, p. 147-170; Pages, 1965, p. 171-186, Tausch, 1981, etc.) Pessoalmente, lhe tenho pesquisado os efeitos, publicados nas revistas “Educação” da PUCRS e “La Salle’’, do Centro Universitário La Salle, Canoas, RS. Algumas amostras do testemunho de alunos: “O curso não termina para mim com o fim do semestre, mas continua ... Não conheço outra vantagem maior de um curso do que o desejo de mais conhecimento” (Rogers, 1969, p. 121). “Gostei da experiência desse curso. Se descubro alguma insatisfação: é o desapontamento comigo mesmo, por não haver tirado toda a vantagem das oportunidades oferecidas por ele” (ld. ib.). Um estudante de Psicologia (PUCRS, 1981) declara: “Pela primeira vez, desde o primário, fiz um trabalho para mim, como eu queria e não pensando que nota tiraria ou coisa parecida. Temos mais de dez anos sem iniciativa escolar e mais uma vida toda de empurrões. Que raio de aprendizagem é esta que estamos tendo até hoje, onde justamente isto, a iniciativa, nos é tolhida?” (E.A.D.F) Uma aluna do mesmo curso e ano escolar ressalta uma série de benefícios colhidos do método: “Pela primeira vez, consegui realizar uma tarefa em que, no final, me senti satisfeita comigo mesma. Isto em termos de responsabilidade, disponibilidade, iniciativa. Consegui assimilar como nunca os conteúdos propostos no trabalho, tantoque mesmo após o seu término continuei lendo e discutindo sobre ele com outras pessoas. Como experiência foi muito válida, primeiro porque a cada etapa eu sentia que poderia dizer o que desejava sobre os temas. O sentido de autodeterminação e autodisci- plina se acentuou significativamente em mim” (S.R.L.). Depoimentos mais recentes: “Fui grata a surpresa de ver e viver na prática forma diferente de ensino na Universidade, em que fala e ação não estão dissociadas. Foi marcante a disponibilidade encontrada no professor em todos os momentos” (M.F.P.O., 1994). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 191MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 191 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 192 Estudante de curso de especialização em Psicologia: “Foi experiência única e insubstituível. Tenho por ela o maior carinho e senti como alavanca para muitas coisas que sempre quis realizar e não tinha coragem” (L.P. 1997). Colega do mesmo curso: “Estou aproveitando melhor meu tempo; sinto-me mais responsável por minha liberdade. Acho que esse processo foi um grande investimento em mim mesma. Dei o máximo de mim em quase todas as situações. Percebi uma falha no meu entrosamento com o grupo na hora da troca de ideias. Ainda guardo sequelas do ensino que tive e, principalmente, do curso de psicologia, que me tornou mais defensiva, fechada e com dificuldade para expor meus sentimentos” (V.A.H.).1 A autoavaliação é bem acolhida: “O que valorizei foi a chance de poder me autoavaliar após cada trabalho, fazendo-me ver que não é só a presença que é importante, mas, sim, uma participação ativa. Questionei-me muito sobre como venho usando o tempo das catorze às dezoito horas e muitas noites em sala de aula” (M.A.F.). Hameline, professor de Filosofia na Universidade de Angers (França), estava com a intenção de se fazer substituir parcialmente por motivos de saúde. Pediu ao conselho de alunos parecer sobre o caso. “O grupo de Filosofia não vê dificuldades maiores em que o professor Hameline seja aliviado de parte dos cursos de Filosofia. Uma condição: que o sistema autodiretivo seja mantido integralmente” (Hameline/Dardelin, 1967, p. 211). Na França, todos os alunos passam por exame oficial no fim do segundo grau. Não é, portanto, nem o professor da disciplina nem a escola que promove o estudante. Não esquecendo haver outras variáveis além do 1 O leitor interessado poderá consultar meu artigo: “Aprendizagem Centrada no Aluno: depoimentos de universitários”, publicado na revista “Educação” da PUCRS, nº 15, 1988, p. 71-85, em que categorizei várias centenas de avaliações do método por acadêmicos das Faculdades de Educação e Psicologia da PUCRS, dos cursos de graduação e pós-graduação. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 192MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 192 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 193 método (Q.I. médio da turma, personalidade e disposição do professor...), examinemos as tabelas seguintes: Método tradicional: 24 candidatos: 11 aprovados no exame escrito, 2 com menção “Bom”. 6 sobre 8 aprovados no exame oral. Método centrado no aluno: 26 candidatos: 17 aprovados no exame escrito, 1 com menção “Muito Bom” e 5 com menção “Bom”. 3 sobre 4 obtiveram aprovação no exame oral (Id., p. 228). Pesquisas na Alemanha e Áustria confirmaram a superioridade da aprendizagem centrada no aluno sobre o dirigismo do mestre (Tausch, 1981, p. 155). Em levantamento de opiniões sobre o método centrado no estudante empregado no curso de Mestrado em Psicologia (PUCRS), resultou o seguinte quadro: O método de estudo utilizado me agradou: Muito .......................... 42 Mais ou menos ........... 15 Pouco ......................... 02 Os dois que gostaram “pouco”, acrescentaram a observação: “Pouco no início, muito no fim.” O fato de um terço haver apreciado o método com restrições confirma a experiência de Rogers: “Nem todos os estudantes respondem favoravelmente ao método de estudo centrado no aluno” (1951, p. 423). Um estudante do Instituto de Psicologia da PUCRS escreveu: “A disciplina que trouxe maiores benefícios, no que concerne à aprendizagem, para a turma do segundo ano foi, sem dúvida alguma, Psicologia Diferencial. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 193MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 193 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 194 Além disso, foi a que mais se identificou com os anseios e necessidades da turma, a que foi mais aberta ao diálogo, à comunicação, ao entendimento. Por isso tudo, acredito que tal método deve não apenas ser preservado por esta cadeira, como ser aplicado pelas demais disciplinas que compõem o elenco do segundo ano do curso de Psicologia” (O.S.T.). Porém, nem tudo é ouro sobre azul: Depois de mencionar as vantagens que o método oferece: ausência de linhas rígidas, possibilidade de aprofundar os temas de maior interesse para o estudante etc., acrescentam dois colegas do autor da opinião acima: “A maioria das aulas das outras disciplinas são expositivas, cansam. Então, os períodos de Psicologia Diferencial servem, algumas vezes, para espécie de “relax”, fato que influi negativamente no rendimento global. Isso acontece por não estarmos habituados à responsabilidade com liberdade, isto é, só trabalhamos com “guardas” ao lado – o que nos veio conscientizar das consequências funestas do método de ensino tradicional ao qual estávamos/estamos habituados” (P.R.G.S. e E.M.Z). O depoimento sincero destes dois estudantes, hoje profissionais de projeção, confirmam a opinião de Rousseau (1971, p. 210): “Enquanto o governo e as leis provêm a segurança e o bem-estar dos homens reunidos, as ciências, as letras e as artes, menos despóticas e quiçá mais poderosas, estendem guirlandas de flores às cadeias de ferro a que os homens estão presos, neles sufocam o sentimento dessa liberdade original para a qual pareciam ter nascido, fazem-nos amar a própria escravidão.” Não prefere a maioria das pessoas a tranquilidade das grades à insegurança da liberdade, da responsabilidade? Segundo Dostoiewski, “nada jamais foi mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do que a liberdade”. Huxley (s.d. p. 243) afina com o célebre escritor russo ao dizer que grande parte da juventude clama: “Deem-nos televisão e cachorros- quentes, mas não nos assustem com as responsabilidades da liberdade.” Avaliando as primeiras experiências com o método de estudo centrado no aluno, uma estudante de Psicologia escreve, após haver indicado as dificuldades e tateios iniciais, expondo ideias que Rogers provavelmente não hesitaria em subscrever: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 194MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 194 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 195 “O mundo de hoje não permite, sob hipótese alguma, termos à nossa frente o mestre “despejador” de aulas e o aluno “copista” ou simples registrador de lições apenas ouvidas. É necessário o professor animador, estimulador e motivador que abra nossos olhos, nossa mente ao mundo de hoje e seu processo constante e que, com esse abrir de olhos, procuremos buscar, pesquisar, indagar...” (G.M.VC.) Professor de Química do segundo grau (R.M.), acadêmico no curso de Mestrado em Pedagogia da PUCRS, após um mês de estudos de Carl Rogers, escreve: “Continuo a ler ‘Liberdade Para Aprender’. Tenho discutido, durante esta semana, alguns aspectos da teoria da personalidade de Rogers, assim como alguns pontos de dessemelhança com os tipos de aprendizagem de Gagné. Estou em sérias dúvidas: vim para cá skinneriano, e confesso que ainda sou skinneriano, ao menos mais do que rogeriano” (13.4.1972). Semanas após (11.5), anota em seu “diário”: “Cheguei cedo hoje. Antes mesmo do professor. Acho muito bom isto porque, inclusive, sinto que estou chegando cedo por gostar deste meu estudo de Rogers.” Já quase no final do primeiro semestre: “Faço agora uma pequena interrupção em minha leitura (estava pensando há pouco que, sinceramente falando,sempre tive certa ‘ânsia’ ou vontade de vir para estas sessões de estudo. O mesmo não poderia afirmar com relação às outras disciplinas ...). O Teste-Glória chegou ao seu final, e resta apenas recolher os diários e fazer as avaliações. Deixou-me muito satisfeito; as falhas que houve certamente poderão ser corrigidas, e se devem principalmente à falta de tempo para dedicar-me mais ao trabalho.” O Teste-Glória consistiu na utilização do método rogeriano com uma turma de 52 alunas para o estudo de uma unidade de química, abrangendo uma vintena de lições, escalonadas ao longo de um mês. Eis algumas apreciações de alunas sobre esta experiência didática: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 195MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 195 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 196 “Professor, foi muito bacana da tua parte ter feito este tipo de trabalho. Tu conseguiste quebrar a rotina e assim despertar meu entusiasmo pela Química; e não só isto: tu nos deixaste liberdade para escolher o local de trabalho, o que é muito importante. Embora eu, no começo, não levasse o trabalho muito a sério, acabei gostando de Química, e sabendo aquilo que estudei. Me esforcei bastante, pois detestava Química.” As vozes discordantes são raras, mas existem: “Gosto mais de estudo em conjunto: professor e alunas.” A quase totalidade apreciou positivamente o novo tipo de aprendizagem: “Este método utilizado pelo professor faz com que se desenvolva em nós a criatividade, o senso de responsabilidade e a livre escolha de como estudar a matéria. Durante o mês, podíamos ir à biblioteca, consultar outros livros, fazer comparações e esclarecer as dúvidas. Também fazíamos experiências no laboratório referentes aos assuntos estudados durante as aulas. De modo geral, isto desperta mais o nosso interesse, e eu consegui aprender muito bem todos os assuntos abordados no livro. Quando surgiam dúvidas que não conseguia resolver com as pesquisas na biblioteca, perguntava ao professor.” Referindo-se ao livro “Liberdade para Aprender”, de Rogers, declara o professor R.M.: “Creio que se trata de espécie de “bíblia” de uma ideia nova em relação ao ensino. E eu gosto desta bíblia... Sem dúvida, sou um defensor de Rogers.” Sirva de fecho a estas considerações uma observação de Jean Piaget (1968, p. 72): Afirma ele que nos ramos de atividade, como pedagogia, medicina e outros, que são ao mesmo tempo ciência e arte, “os melhores métodos são os mais difíceis”. * MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 196MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 196 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 197 Conclusão: É preciso ‘descolonizar’ professores e alunos. Os primeiros, para deixarem de ser ‘colonizadores’; os segundos, a fim de sacudir o jugo de ‘colonizados’. (Cf. Freire, Pedagogia do Oprimido). A escravatura continua sutilmente nas escolas, nas universidades, sendo pacificamente aceitos os papéis de ambos os lados: ‘senhores’ e ‘escravos’. Por que devem os colégios continuar a se parecer com manicômios, presídios ou quartéis, em vez de se assemelharem a lojas, salões de beleza, a ‘shoppings’? A comparação é de Ivan Illich, que pleiteia a ‘desescolarização’ da sociedade. Os depoimentos e resultados mencionados acima testemunham ser isto possível. Não somente possível: necessário, em função da dignidade e do desenvolvimento da personalidade de alunos e acadêmicos. VIII. Resumo da aprendizagem centrada no aluno Max Pages (1965, p. 108-111) apresenta excelente resumo do método didático preconizado por Carl Rogers. Ei-lo nas grandes linhas: A finalidade da educação é menos transmissão de saber do que o desenvolvimento da personalidade. 1. Ideia central: O estudante deseja aprender, criar, desenvolver-se. Aprender, para Rogers, é “aprendizagem significativa”. É significativa a aprendizagem que põe o aluno em contato com sua experiência própria, permitindo-lhe o aprofundamento. 2. O professor tem papel importante: o de criar ‘o clima pedagógico’. Como? A - “Ensinar não é outra coisa do que aprender.” Aprender, na linha rogeriana, é mudar, é reduzir o grau de dependência com relação ao professor, renunciando a certas satisfações que essa dependência proporciona: é conquistar maior autonomia e, por isso mesmo, é expor-se a novos riscos. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 197MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 197 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 198 O professor que aceita ensinar no sentido de Rogers, isto é, de facilitar a aprendizagem autêntica, o desenvolvimento do estudante, aceita mudar também ele; está disposto a aprender. B - Rogers distingue quatro condições gerais numa relação pedagógica efetiva: a - Que o estudante seja posto em contato com os problemas. (É um dos princípios dos métodos ativos.) b - Que o professor seja autêntico, congruente: a eficácia do ensino depende do grau de autenticidade que os alunos sentirem no mestre, isto é, que seja ‘ele mesmo’ que está em face deles e que as técnicas pedagógicas exprimam sua atitude real em relação a eles, e não atitude abstrata ou benevolência forçada. c - Que o professor aceite e compreenda (empaticamente) as manifestações dos alunos e lhes testemunhe sua compreensão. d - Que o professor ponha à disposição dos alunos seus recursos particulares sobre o ponto em estudo: • Material, visitas, trabalhos práticos, proporcionando o contato com problemas... • Dando cursos, se estes forem solicitados. 3. Verifica-se diferença fundamental entre Rogers e as pedagogias novas: estas põem o acento nos métodos pedagógicos como técnicas de informação. É evidente que Rogers dá grande valor aos métodos ativos, mas o núcleo do problema pedagógico, para ele, não reside ali: não está na utilização desta ou daquela técnica de informação, mas em adotar certa atitude em relação aos alunos. Segundo Nérice (“Didática Não Diretiva’’, 12 páginas datilografadas, p. 3), “o conceito de didática, de modo geral, sofreu a seguinte evolução: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 198MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 198 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 199 1 - Didática é a arte de ensinar. 2 - Didática é a ciência e a arte de ensinar. 3 - Didática é o conjunto de procedimentos que visam a dirigir a aprendizagem do educando da maneira mais eficiente possível. 4 - Didática não diretiva é o estudo da maneira de comportar-se junto ao educando para que este, livremente, desenvolva a sua personalidade e tome consciência de si e do mundo exterior, a fim de que assuma a forma de comportamento que mais lhe convenha. Diz Ruy Miranda (citado por Nérici): didática não diretiva é a “que procura instituir um clima no qual as experiências na sala se transformam numa experiência pessoal e de crescimento”. IX. Valores cultivados por este método Ao percorrer 40 autores representativos da aprendizagem centrada no aluno, Stewart Shapiro (1985) encontrou 15 valores básicos por eles preconizados. Submetendo-os à análise fatorial, apareceram três fatores fundamentais. O fator 1 é a “autorrealização afetiva”, abrangendo valores como autodeterminação, expressão afetiva, crescimento pessoal, variedade- criatividade, relacionamento, orientação para pessoas, vida como processo. No fator 2: “os grupos apoiam o indivíduo e a autoexpressão’’, sobressaem os valores, participação democrática e individualidade. Fator 3: “os grupos apoiam o consenso e a mudança social”, inclui contexto, inovação e participação democrática em função da dimensão social como valores importantes. Esses valores emergiram também, sob uma ou outra forma, em mais de 20 estudos (a maioria teses de doutorado) feitos na Universidade da Califórnia (Shapiro, S., 1983): MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 199MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 199 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 200 1. Impacto emocional orientado para o crescimento pessoal: maior autoconhecimento, maior contato com os sentimentos, desenvolvimento pessoal,controle da própria existência. 2. Autoconceito geral e autoconceito acadêmico melhorado. 3. Efeito afiliativo orientado ao relacionamento: ganho significativo em atitudes no relacionamento com os outros em geral e com a autoridade em particular; empatia, compreensão de pessoas com pontos de vista diferentes, abertura. 4. Mudanças, para melhor, no estilo de ensino, no currículo e no ambiente da aula: acréscimo no “sentir-se-à-vontade”, informalidade, confiança, espontaneidade, relações mais estreitas entre alunos e professores, e dos alunos entre si. 5. Efeito sobre a filosofia de vida: maior clareza com relação aos objetivos da existência, sensação de controle da própria vida. 6. Efeitos diretos sobre o rendimento escolar ou do professor. Aqui, os resultados não foram inteiramente consistentes: 10 dos 15 estudos não apresentaram conclusões estatisticamente significativas. Hannoun (1972, p. 69) destacou alguns valores contrastantes entre a visão tradicional e a aprendizagem-educação centrada no aluno. (A apresentação esquemática é do autor do presente livro): Pedagogia tradicional Pedagogia rogeriana 1.Como transmitir o saber (técnica)? Como fazer? 2.Finalidade: passar a fração do saber previamente definido. 3.Educação: agir sobre o aluno segundo normas dos adultos. 1.Que atitude adotar em face do aluno? Como ser? 2.Facilitar a autoaprendizagem. 3.Compreender o aluno a fim de lhe possibilitar a autoexpansão. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 200MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 200 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 201 X. Diário da metamorfose de uma professora de Didática Após um mês de estudo centrado no aluno, sendo facilitador da aprendizagem o autor do presente livro, num curso de mestrado em educação, escreve a professora-estudante: “Nunca obtive bons resultados, em termos de satisfação pessoal, em sessões de estudo onde há uma certa coação, excesso de tensão, constantes sabatinas, testes etc. Sempre acreditei que esta forma proposta para o trabalho (aprendizagem centrada no aluno) seria a melhor, a mais compensadora. Mas, para surpresa minha, fiquei durante um mês divagando, saboreando a minha liberdade e, de fato, não realizei quase nada. Tentei, no início do curso, fazer parte de um grupo de estudo, mas como o mesmo era demasiado dispersivo, resolvi trabalhar sozinha. Fiz várias tentativas. Li dois capítulos, assinalando, sublinhando, mas sem registrar as minhas observações. Andei várias vezes com o livro debaixo do braço, nos meus passeios, nas viagens e na cabeceira da cama. De certa forma, fui protelando um trabalho sério sobre o que me foi proposto, uma vez que eu ‘sou livre para aprender’” (p. 1). Após verificar que a ela competia a responsabilidade dos resultados do curso, continua: “Hoje cheguei a uma conclusão: não posso continuar neste ritmo. Passou-se um mês e eu não fiz nada. E o professor não me cobrou nada. Realmente, eu sou livre para aprender. Mas como estou apro veitando esta liberdade? É preciso me impor um método de trabalho. Eu vou estabelecer metas e datas, e as vou cobrar. Registrarei as minhas dificuldades” (p. 1). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 201MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 201 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 202 A leitura de “Liberdade para Aprender”, de Carl Rogers, inspira- lhe uma série de reflexões. Constata que, ao longo das décadas de sua experiência como aluna, estudante e professora, não houve alterações substanciais no processo ensino-aprendizagem. O esquema básico continua o mesmo: o professor ensina, o aluno aprende. “São passados alguns anos dos meus bancos escolares de primário e faculdade, mas a situação não mudou muito. Currículos preestabelecidos, tarefas idênticas para todos os alunos” (p. 2). De vez em quando, ao longo do trabalho, aflora-lhe à mente o novo tipo de “aula” de que participa, interrompendo as considerações sobre o conteúdo do livro que está lendo a fim de respirar os ares do novo método de aprendizagem. “O compromisso que assumi comigo nesta forma de trabalho é diferente do compromisso que assumimos com o professor. É dolorosa a consciência e o reconhecimento de que nós fazemos alguma coisa só em função do professor... Mas é gratificante e estimulante o compromisso com a gente mesma” (p. 4). A estudante delicia-se com a riqueza da nova situação, da qual experiência, feliz, ser o centro: “Este trabalho me dá um sabor de infinito! Quantas coisas eu poderei vir a descobrir. Me dá consciência do verdadeiro sentido da liberdade-responsabilidade. E por quê? Porque eu sou o centro do que estou realizando, e não o professor. Estas entrelinhas, estas observações ou confissões, tão pessoais, talvez nem devessem chegar até o professor para não perderem todo o significado que têm, significado que é meu e não do professor. Nada, neste trabalho, tira a minha liberdade de pensar. Ninguém me obriga a pensar como alguém. Eu vou levantando minhas dúvidas, reconhecendo minhas limitações, descobrindo que minha mente é um poço profundo de águas às vezes claras e transparentes, às vezes escuras e turvas. É um desafio às minhas MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 202MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 202 05/07/2022 15:24:4005/07/2022 15:24:40 203 capacidades de pensar, de refletir, de ser coerente, de ser lógica para uma tomada de posição em relação à minha profissão, a mim mesma e a tudo o que me cerca. Estou radiante, e quero ir adiante para ver os resultados” (p. 5). A liberdade que desfruta a faz refletir sobre suas atitudes de professora: “Há, por parte dos professores, inclusive de Didática e Metodologia, uma forte (e, da parte de alguns, fortíssima) tendência a determinar a realização de qualquer tarefa, para todos os alunos, dentro de um tempo determinado. Mas sentimos que nem todos os alunos conseguem fazer o que propomos dentro de um tempo que nós determinamos” (p. 6-7). Mas, “o sabor de infinito” (p. 5) às vezes é perturbado pelos amargores da dúvida: “Eu acredito no trabalho que estou fazendo, porém, hoje me vieram algumas dúvidas. Será que os meus procedimentos estão corretos? Será que estou explorando bem o livro? Estou aproveitando bem o tempo? Necessito de um encontro com o professor. Sinto curiosidade de saber como os outros estão trabalhando. É um momento de avaliação. É importante ter confiança em mim” (p. 9). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 203MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 203 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 204 Após várias considerações sobre a aprendizagem centrada no aluno, escreve: “Até hoje sempre li, aprendi e ensinei que tornar um curso interessante depende em grande parte do professor”. Mas, quando alunas dela, professoras no primeiro ou segundo grau, lhe vêm dizer “que já tentaram todas as técnicas e procedimentos, que esgotaram todos os seus recursos para entusiasmar os alunos, não o conseguindo, e me perguntam o que fazer, eu não encontro muitas respostas. A reflexão sobre este ponto é muito interessante. Chego à conclusão de que até agora ensinei princípios da escola ativa, da escola nova, mas os elementos básicos do processo não mudaram de lugar: professor e aluno (p. 12-13). Em seguida, vê novos rumos, modificando algo nesta relação: “O professor propõe atividades, mas quem determina objetivos é o aluno. A opção é do aluno. Não é fácil para o professor! Vivemos aprendendo a formular objetivos, a escolher objetivos, mas nunca perguntamos quais os objetivos do aluno. Nunca solicitamos a ele que proponha objetivos” (p. 13). Continuemos a acompanhar o processo de transformação dos pontos de vista didáticos da mestra-estudante. A avaliação do professor é um dos grandes óbices a aprendizagem calma, pessoal, criativa. “... se eu tivesse que fazer um exame, um teste final ou durante o trabalho, teria eu a mesma tranquilidade para o estudo? Não, pois estaria mais preocupada em descobrir o que o professorpoderia perguntar na prova” (lb.). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 204MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 204 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 205 Mas, por gratificante que seja a experiência, de passagem, assalta-a uma incerteza, que fica pairando sem resposta: “Isto é válido para todas as disciplinas e para todos os níveis de estudo?” (lb.). Logo, porém, surge no primeiro plano, uma vantagem do método centrado no aluno: “Quanto a favorecer a criatividade, não há dúvida que este método é mais adequado. Não temos que pensar como todos pensam, fazer tudo igual ao que outros fazem” (lb.). Favorecem os métodos habitualmente adotados na escola a criatividade? Não. “Há, de fato, de nossa parte, professores, uma incoerência entre fins e meios. Queremos que os alunos sejam criativos, mas não lhes damos oportunidade de se exercitarem” (p. 14). Mais adiante, após haver lido algo sobre a importância do aluno como pessoa, desabafa: “Como me frustram minhas aulas como professora! Eu não consigo nem saber o nome de todos os meus alunos; não consigo nem sequer saber se o que eles estão aprendendo é realmente significativo para eles” (p. 15). O estudo pessoal, assimilado, está transformando a estrutura da professora-estudante: “Em nenhum curso eu refleti tanto como neste. Me parece que alguma coisa está mudando dentro de mim e não apenas fora, na minha inteligência (lb.). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 205MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 205 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 206 A leitura atenta do livro “Liberdade para Aprender”, continua ela, me faz pensar muito sobre a minha atuação como professora ... Acho que estou descobrindo muitas das causas do meu insucesso, da minha insatisfação profissional. É porque eu não tenho sido eu mesma! Não tenho confiado nos meus alunos. Quanta barreira eu tenho criado! Sempre controlando o relógio. Tempo marcado para qualquer tarefa...”(Ib.). Este parágrafo alude a elevado número de aspectos. A autora, aliás, disse antes: “Estão-me surgindo mil ideias.” Deu-se conta de haver exercido, no passado, o “papel” de professora no “teatro” da escola. Contrariando princípios elementares de Psicologia, submetera todos os alunos ao mesmo ritmo. Desconfiava da capacidade e/ou da boa vontade deles. Em suma: em vez de um regime democrático, estabelecera uma ditadura na sala de aula. Em seguida, confessa que não sabia “como confiar nos alunos”. “... não é que não se confia no estudante, mas há uma grande diferença entre não confiar e não saber como agir para confiar, e não ter condições outras para agir diferente” (p. 18). Um drama! Mas descobriu o segredo: ser congruente. Conclusão: “Agora passo a entender o que é realmente aprendizagem centrada no aluno” (p. 15). Pergunta importante: “Isto que está ocorrendo comigo não pode ocorrer com meus alunos?” Dá-se conta do que sucede com ela mesma e o que parece acontecer com os colegas da mesma sala. Estabelece um paralelo com a atmosfera da aula em outras disciplinas: “Observo os meus colegas de curso. Todos trabalham. Ninguém perde tempo. O clima é tranquilo. Não constato o mesmo em outros cursos. É curioso” (p. 15). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 206MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 206 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 207 E toma uma resolução: tirar a máscara; em vez de cumprir um papel, será ela mesma, será pessoa, tratando os alunos como pessoas e querendo ser vista e tratada como pessoa. “Eu me quero comunicar com meus alunos como pessoa. Quero que eles sintam que eu também sou gente, sou limitada, sou confusa às vezes. Quero ser amiga de meus alunos. Quero que eles me encontrem no corredor da Universidade, quando não for mais professora deles, e me sorriam, me cumprimentem, não porque fui aquela que dou uma nota para eles passarem no fim do curso. Realmente, estou cansada de colocar o uniforme de professor para entrar em cena” (p. 15). Tomada esta resolução, declara, aliviada: “Sinto um valor imenso nestas reflexões. E não apenas estou sendo informada de um novo método de ensino. Estou, sim, fazendo uma análise profunda de mim mesma, de minha vida profissional. Como cansa representar! É bom tirar a máscara quando se sai do palco!” O fato de “representar” incomodava-a surdamente. Talvez não soubesse o que fazer ou como fazer, já que, afinal, o papel do professor é papel consagrado há séculos. E a professora de Didática não deve ser, acaso, ou vanguardeira ousada (o que supõe ter personalidade fora do comum) ou vigilante salvaguarda do respeitável perfil tradicional da classe? “Dizia sempre de mim para mim: por que, quando estou dando aula, não posso ser eu mesma? Por que tenho que vestir o “paramento” de professor?” Estas considerações, estas resoluções corajosas não ficaram no plano teórico, no plano intelectual. Ela conseguiu tirar realmente a máscara. ‘’As reflexões que fiz... me ajudaram em muito a melhorar meu relacionamento, a ser eu mesma, a eu me aceitar e, em consequência, a ser mais autêntica no meu trabalho”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 207MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 207 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 208 Fato notável para ela é que houve reflexo positivo de sua nova atitude nos alunos: “A partir desta mudança em mim mesma, parece que meus alunos também mudaram. O clima tornou-se favorável para ambos”. Este parágrafo lembra a observação do grande Comênio, do século XVII (1954, p. 33), para o qual a Didática é “a arte de ensinar rapidamente sem tédio para quem ensina e para quem aprende”. Agora usufrui a satisfação de ser ela mesma: jogou fora peso inútil que estava carregando, fatigando-a. Doravante, a caminhada será mais desimpedida, mais leve: “Se eu não tivesse aprendido mais nada de tudo o que li, creio que este despertar, esse alívio que senti ao me dar conta que devo agir como pessoa e não como quem exerce uma função, teria sido suficiente. Me sinto gratificada pelo estudo que fiz” (p. 16). Mas, nem tudo é tranquilo. As novas estruturas ainda não estão completamente ajustadas: “Como este é um trabalho em que eu posso ser honesta, venho registrando o que me está ocorrendo. Pelas minhas análises e MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 208MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 208 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 209 pelo registro das minhas reflexões, eu tenho a impressão de estar livre, de estar preocupada com os meus objetivos, mas, vez por outra, me assalta a pergunta tão desastrosa: Será que é isto que o professor quer? Será que estou fazendo um bom trabalho? Será que eu poderia produzir mais se tivesse conduzido as coisas de outra forma? É preciso muito esforço, e por isso disse acima que a experiência é, até certo ponto, dolorosa, para se desprender da figura do professor como juiz supremo, cuja função absoluta é dizer: certo ou errado; aprovado ou reprovado” (p. 17-18). Logo após, contudo, reaparecem, em realce, os benefícios da aprendizagem centrada no aluno, embora sob a forma de dúvida. “Será que, se me tivesse sido proposto este mesmo estudo nos moldes tradicionais, eu teria feito tantas contestações e afirmações e teria chegado a tantas conclusões como cheguei?” (p. 18). Páginas adiante, toca num ponto central ou, mesmo, o ponto central do processo ensino-aprendizagem: o relacionamento aluno-professor. “Melhorando o nosso relacionamento com os alunos, melhoramos o nosso ensino, melhora a aprendizagem. Os nossos alunos estão ávidos deste tipo de comunicação; eles querem, antes de tudo, ser vistos como pessoas que existem, que amam, que choram, que sofrem, que têm dificuldades. Só os alunos? E nós, professores, também não desejamos ser vistos não só como aqueles que sabem alguma coisa, mas igualmente como pessoas humanas?... Eu quero que meus alunos sejam meus amigos, e quero dar-lhes a minha amizade... O bom relacionamento depende fundamentalmente de mim, de criarum clima propício à amizade, à aceitação, à autenticidade” (p. 21). Estas considerações foram realmente incorporadas pela professora, pois no final do semestre já não conseguiu dar um curso especial dentro da linha rígida que vinha seguindo. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 209MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 209 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 210 “Iniciei, há poucos dias, um curso intensivo com turma nova. Tentei pôr em prática muitas coisas que aprendi, que refleti, principalmente no que diz respeito ao meu relacionamento com os alunos. Procurei descer do pedestal em que eu achava que o bom professor deveria ficar, e me tornei eu mesma ao dar minhas aulas. Procurei confiar mais nos meus alunos, criar um clima sem tensão, mas responsabilizando-os pela aprendizagem ... Os resultados estão sendo excelentes... o clima mudou. Eu é que mudei” (p. 21). Observe o leitor a afirmação final, enfática: “Eu é que mudei.” A mudança de atitude trouxe benefícios à mestra e aos discípulos. Uma aluna chegou a verbalizar a satisfação experimentada: “Professora, nós estamos gostando demais de suas aulas porque, embora a matéria seja difícil, nós nos sentimos livres de tensão, de medo” (Ib.). A professora conquistou, igualmente, maior liberdade, rompendo algumas amarras ‘sagradas’, e sentindo-se feliz com isso: “Eu deixei de ficar tão aflita se parar cinco minutos a aula para bater um papo com os alunos sobre problemas que são importantes para eles. Diminuiu a mania de cronometrar as atividades dos alunos e estar, a cada pouco, empurrando, apressando e, de certa forma, indiretamente, ameaçando” (p. 22). Destaquemos alguns pontos da autoavaliação final (p. 23.): “Obtive um extraordinário crescimento como pessoa. Todo o meu trabalho reflete uma progressiva mudança na maneira de pensar, de sentir e agir, porque pude pensar livremente, porque me libertei de muitos condicionamentos e, principalmente, porque eu pude ser eu mesma, me encontrar. Eu fiz um desafio a mim mesma e me senti gratificada”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 210MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 210 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 211 Logo em seguida, sublinha. “Creio que meu progresso foi mais pessoal do que intelectual. Cresci mais como um todo do que apenas intelectualmente”. Conclusão, chave de ouro na linha da psicologia humanista, na linha da aprendizagem centrada no aluno: “O CURSO VALEU A PENA. E TUDO DEPENDEU DE MIM.” Não é o objetivo principal da psicologia, mormente da psicologia humanista, tipo de compreensão que oportuniza às pessoas a levarem “vida mais plena, rica e exuberante”? (Leshan, 1994, p. 132). O diário acima demonstra quão penosa é a conquista da liberdade criativa na área da aprendizagem, processo simbolicamente retratado por Richard Bach em Fernão Capelo Gaivota, depois de participar num “grupo de encontro” com Carl Rogers. “Por que será – interrogou Fernão – que a coisa mais difícil do mundo é convencer um pássaro de que é livre e de que pode prová-lo a si próprio caso se dedicar a treinar um pouco? Por que será tão difícil?” (1977, p. 141). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 211MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 211 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 212MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 212 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 213 CAPÍTULO VI PSICOLOGIA HUMANISTA I. Introdução “Perspectiva humanista é termo para visão de mundo, incorporando psicologia humanista e ecologia global dentro do contexto da universal evolução em processo. Humanístico sugere: ideias e comportamento centrado na pessoa, orientação para crescimento, consciência do processo holístico; importância central da escolha e própria responsabilidade no processo do desenvolvimento pessoal; relações humanas caracterizadas pela empatia, confiança, abertura, candura e partilha” (Drach, 1982, p. 9). Depois de esperança inicial de aproximadamente um século, quase inopinadamente deu-se a Psicologia conta de haver tomado veredas que não levariam tão longe como esperava. Quando se dissiparam as neblinas da euforia, em vez de edifício mais ou menos acabado, defrontou-se com enorme quantidade de materiais acumulados e a construção cá e lá apenas iniciada. Para a viagem, careceu de correto mapa norteador; não dispunha de planta completa e coerente para o edifício (Cf. Shotter, 1977, p. 17). O mapa, a planta é a imagem que o homem tem do homem: de si mesmo. “... em nossa época, escreve Shotter (ib.), talvez mais do que em qualquer outra, o homem tornou-se um mistério para si mesmo... A nossa época, comparada com as passadas, é um tempo de riqueza e abundância. Mas possuir abundância de fatos não significa, necessariamente, ter riqueza de entendimento.” É o ponto de vista que deve ser mudado, pois dele decorrem os critérios utilizados na avaliação dos fatos observados. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 213MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 213 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 214 A Psicologia adotara o modelo das ciências exatas: observador em face de um objeto, de um fenômeno. Finalidade: formulação de leis gerais do psiquismo segundo o modelo das ciências naturais. Tentou estudar o psiquismo humano qual máquina, em detrimento de questões sumamente significativas e urgentes: agressividade, desentendimentos, problemas pessoais, familiares e sociais... Desenvolvimento das potencialidades do indivíduo, promoção do bem-estar etc. etc. (Leshan, 1994.) Os especialistas não tinham como enfrentar tais problemas pelo simples fato de os haverem descartado do elenco de suas preocupações. Já nos anos vinte publicou Karl Bühler livro alertador: “A Crise da Psicologia” (Bühler, 1968, p. 52). Uma das barreiras que obstruía a estrada da Psicologia, impedindo os estudiosos de avançarem nela tanto quanto desejavam, foi o conceito fundamental da ciência moderna: a causalidade. Este modelo causal, porém, escreve Hutten (1975, p. 21), nunca foi o mais adequado para as ciências da vida, especialmente a Psicologia. Os seres humanos respondem a significados e não somente à força da relação causa-efeito. Formada em física e filosofia, afirma Zohar: “Só se pode afirmar que as correlações mostram que dois eventos podem estar relacionados através do tempo de tal modo que garanta que seu comportamento seja sempre ‘sintonizado’ sendo inútil tentar estabelecer um vínculo de causa e efeito” (s.d. Original inglês de 1990, p. 39). Alfred Adler, durante algum tempo discípulo de Freud, já enfatizara a importância do aspecto teleológico no psiquismo. Ao sopro da filosofia fenomenológica-existencialista (Husserl, Heidegger e outros) cresceu a chama do archote da intencionalidade como propriedade essencial da vida psíquica, lançando luz sobre fatos até então ocultos na penumbra. (Cf., por ex., Binswanger, 1973, p. 15 e ss e Boss, 1975, p. 51 e ss). Afim a esta noção, foi tomando relevo a importância do significado para o homem. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 214MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 214 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 215 Do ponto de vista da Psicologia Humanista, a Psicologia erigiu entre o estudioso e a pessoa estudada uma rede de exigências científicas a impedir-lhe a visão adequada, global dos fenômenos. “A fenomenologia é esforço para tomar os fenômenos tais quais se apresentam; esforço disciplinado para desembaraçar nosso espírito de pressupostos que, com tanta frequência, só nos fazem ver no doente nossas próprias teorias ou os dogmas dos nossos próprios sistemas; é esforço para, ao contrário, experienciar os fenômenos em toda a sua realidade na medida em que aparecem” (May,1971, p. 24). Tornara-se óbvio que, no caso da pessoa, a dualidade observador- objeto não era possível, pois não se pode eliminar um dos termos da palavra-princípio EU-TU (Buber, 1977, p. 9). A maioria dos estudiososda Psicologia havia substituído erroneamente esta palavra-princípio por outra: EU-ISSO ou por seus equivalentes EU-ELE, EU-ELA. Já que “não há EU em si, mas apenas EU da palavra-princípio EU-TU” não é possível observar o “tu” como se observa uma estrela, pois o “tu” se posiciona em face do “eu” observador numa relação de reciprocidade. Adverte Buber (p. 10): “O TU é mais operante e acontece-lhe mais do que aquilo que o ISSO possa saber. Aí não há lugar para fraudes: aqui se encontra o berço da verdadeira vida.” Poderíamos dizer que a Psicologia Humanista nasceu da necessidade de ampliar a visão do homem, que ficara indevidamente limitada nas perspectivas behaviorista e psicanalítica. Escreve Frick (1975, p. 25): “Conquanto não negue suas importantes contribuições, a Psicologia Humanista sustenta a posição de que as imagens do homem apresentadas MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 215MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 215 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 216 por esses dois sistemas teóricos apenas são como páginas arrancadas de um livro, partes que contribuem para um todo maior e, portanto, incompletas.” Aliás, esta estreiteza de propósitos foi denunciada por autores do próprio modelo comportamentista, Bandura e Walters (1974, p. 15), Dollard Miller, Lundin e outros. É oportuno observar como representantes de primeira grandeza do novo enfoque passaram por um ou, até, pelos dois modelos anteriores. Maslow pertenceu à escola behaviorista, e dentro deste esquema elaborou sua tese de doutorado (Goble, 1970, p. 11); fez sua análise na linha psicanalítica (Ib., p.78- 79). A iniciação psicológica de Carl Rogers se realizou na Universidade de Columbia, Nova Iorque, sob a égide das concepções de Watson; até o primeiro filho, declara ele mesmo, “nos esforçamos por educá-lo de acordo com as regras do behaviorismo watsoniano”. (1971, p. 35.) Nesta Universidade, “Freud era palavra obscena” (p. 37). Espírito aberto, embebeu-se, posteriormente, nas teorias psicanalíticas no “Institute for Child Guidance” da mesma cidade. (P. 38). Medard Boss (1975) estudou psicanálise com o próprio Freud, depois com Jones, em Londres; em seguida, com Karen Horney, Fenichel e Wilhelm Reich, em Berlim; trabalhou dez anos com Jung na Universidade de Zurique. Os contatos com Martin Heidegger fizeram dele o autor da “Daseinsanalyse”, mas amigo de Freud até o fim da vida deste. Esta nova corrente em Psicologia não somente não é, portanto, contra as duas tendências citadas, mas, aproveitando-lhes as sendas abertas, procura dilatar o âmbito das conquistas por elas realizadas ou, como diz James Bugental, tenta situá-las em quadro mais vasto da experiência humana (1964, p. 25). Após o estudo do funcionamento de partes, voltamos, continua ele, ao que a Psicologia parece significar para o inteligente homem médio, isto é, o funcionamento e a experiência do ser humano total, holístico. Além de transformar o TU do outro em ISSO ou ELE ou ELA, o estudioso do psiquismo humano punha (e muitos ainda põem) entre si e o outro algum esquema científico limitativo, melhor: grade científica só per mitindo a apreciação de certo número de aspectos, os suscetíveis de MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 216MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 216 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 217 análise na linha das ciências exatas. Os restantes – os mais especificamente humanos, os mais complexos e significativos – escapavam-lhe e continuam lhe escapando da observação, pois “o ser não se comunica na lei deduzida depois de aparecer o fenômeno, mas, sim, no fenômeno mesmo” (Buber, 1977, p. 47; cf. Husserl). A Psicologia Humanista, em vez de separar o pesquisador da pessoa em estudo, procura lançar pontes de comunicação entre o EU e o TU, preferindo ser vaga, mas fiel à realidade, do que ficticiamente precisa “com números sem face” (Buber). Ainda que não tenha métodos totalmente satisfatórios a oferecer, já dispõe a nova corrente de vários modelos elaborados por Kurt Lewin, Rogers, Maslow, Allport, Charlotte Bühler (esposa do psicólogo Karl Bühler), Rollo May, Angyal, Bugental, Moustakas, Jourard etc. (Sargent, SS., 1973, p. 173), Tausch, etc. Escreve Carl R. Rogers (1973, p. 61): “Parece que, se desejo tornar- me cientista, o primeiro passo para isso é mergulhar nos fenômenos da área específica pela qual me interessei... Absorver a experiência como esponja, de tal modo que ela seja recolhida em toda a sua complexidade, com meu organismo total, e não apenas com minha mente consciente, participando livremente da experiência dos fenômenos.” O cientista total, o EU total, em face do outro total, do TU total. Esta atitude ousada e humilde termina com a seleção de problemas para o estudo pelo fato de existirem meios de medir as variáveis envolvidas (Rogers, ib., p. 69; cf Piaget, J., s/d, Cap. II: Psicologia científica e psicologia filosófica). Enfrenta qualquer realidade psicológica, tentando compreendê- la cabalmente ou até o ponto em que os meios disponíveis o permitam. Esta posição corajosa possibilitou a tomada de consciência das sérias limitações do esquema científico geralmente adotado no estudo da pessoa (Rogers et al., 1973). “Do subjetivismo presunçoso, possessivo de Descartes... Heidegger saltou para o modo de enxergar fenomenológico, mais humilde” (Boss, M., 1975, p. 59). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 217MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 217 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 218 As perguntas fundamentais da Psicologia Humanista (Bühler, Ch., 1966, p. 115) são realmente muito abrangentes: “O que quer o homem como homem? Quais as coisas de que é, como homem, especificamente capaz, sendo para ele importante fazê-las?” Macrovisão contrapondo-se à microvisão da chamada psicologia científica. Duas posições epistemológicas diferentes. É o problema do ponto de vista, que vem a ser para a ciência o que é a alavanca, a agulha que permite a passagem do trem de uma via para outra, fazendo com que tome este ou aquele rumo. O “ponto de vista” tem relação estreita com “os valores e os objetivos humanos” (Rogers, 1970, p. 322). Explicitando seu pensamento, escreve este eminente representante da Psicologia Humanista (1973, p. 60): “Qualquer tentativa científica, quer se trate de ciência pura ou de ciência aplicada, necessita de uma escolha anterior pessoal e subjetiva do fim e do valor que esse trabalho pretende servir. A escolha do objeto de estudo é feita em função do valor que representa para o investigador; adota um método de preferência a outros por lhe atribuir valor mais elevado; interpreta o resultado da pesquisa à luz dos critérios cujo valor lhe tem a predileção.” Rogers não é voz isolada. Do outro lado do Atlântico ressoam advertências semelhantes: “O próprio processo de análise fatorial contém certo número de decisões arbitrárias sobre o modo como os dados serão manipulados” (Peck e Whitlow, 1976, p. 60; cf. Piaget, op. cit). Decorrem daí importantes conclusões. Entre outras: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 218MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 218 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 219 1ª Para Rogers, todo conhecimento, inclusive o de natureza científica, é pirâmide a repousar sobre a pequena base subjetiva e pessoal (1973, p.60). É variável que só recentemente foi descoberta, havendo escapado nos experimentos psicológicos passados. Verificou-se ocorrer o resultado esperado pelo cientista com mais frequência do que qualquer outro. É constatação importantíssima demonstrada por Rosenthal e Friedman (apud Hamachek, 1979, p. 13). Ao estudar a pessoa, escreve Hilton Japiassu (1979, p. 83), “a psicologia já pressupõe certa preferência exclusiva por determinado modo de pensar o homem“. (Sem destaque no original). Lo Presti Seminerio (1979, p. 11) nos adverte sobre a influência sutil da ideologia nas pesquisas psicológicas. Gilliéron (1980, p.61), após afirmar que “os próprios discursos científicos não escapam à subjetividade”, cita a opinião de Jean Piaget: “Estas noções (...) como, por outra parte, toda a nossa psicologia das funções cognitivas, provêm de uma intuição ou de um modelo anterior à nossa formação psicológica. Querendo ou não, quase todos os psicólogos se inspiram, inicialmente, em tais modelos, que têm para eles um papel fundamental, ou, ao mesmo tempo, heurístico e interpretativo.” 2ª “Os psicólogos, adverte Wyatt (1973, p. 383-384), não se dão suficientemente conta dos problemas filosóficos implicados quase necessariamente em toda proposição psicológica... Mais do que qualquer outra ciência, tem a Psicologia necessidade de lançar um olhar lúcido sobre MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 219MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 219 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 220 as ideias filosóficas que veicula.”E Van Kaam (1961, p. 96): “Não é a pesquisa experimental que orienta nossa concepção do homem, mas a pesquisa é dirigida por esta imagem. Sentimo-nos interessados pelos problemas e dados em consonância com nossas proposições implícitas.“ Como se vê, uma série de autores harmonizam com a visão rogeriana. II. Algumas características fundamentais da Psicologia Humanista Quais os “pontos de vista” da Psicologia Humanista ou Existencial Humanista? Cabe observar, inicialmente, que ela “não constitui um corpo único de teoria, mas uma coleção ou convergência de numerosas diretrizes e escolas de pensamento” (Matson, 1975, p. 75). Ao lado dos grandes lineamentos, dos grandes valores, comuns aos diferentes autores desta posição, há uma riqueza de posições, pois se estas não existissem ou não fossem toleradas, cair-se-ia novamente no dogmatismo que tem manietado não poucos estudiosos. Bastine et al. (1998, p. 89) afirmam se poder caracterizar o modelo humanista através de quatro elementos nucleares: abordagem fenomenológico-subjetiva, ênfase nas potencialidades humanas, visão holística e compreensão dos distúrbios psicológicos. Detalhemos, contudo, esse de traçado genérico. Várias ideias das páginas anteriores hão de reaparecer – enriquecidas ou sob outra luz. 1. O homem total constitui o campo de interesse da Psicologia Humanista. É o conceito central da Psicologia da Gestalt estendido a toda a personalidade. Visão holística. Segundo James Bugental, é a posição- chave da terceira força (1964, p. 23): “O homem deve ser reconhecido como algo mais do que o resultado da soma de funções parciais. Embora o conhecimento e funções parciais sejam importante conhecimento científico, não é conhecimento do homem como homem, mas conhecimento do funcionamento de partes de um organismo.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 220MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 220 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 221 A análise léxica, sintática e estilística de uma poesia, por ex., ou a leitura atenta de partes dela não nos permitem captar-lhe toda a riqueza da mensagem. Isto somente é possível deixando-nos impregnar pelo texto inteiro. O rio da Psicologia Humanista é formado da contribuição de numerosos afluentes. 2. A psicologia humanista tem visão otimista, positiva do homem e de suas possibilidades. As primeiras teorias da personalidade – como a freudiana, por ex. – concentraram-se nos aspectos falhos, negativos, “doentios”. Tendo objetivos terapêuticos, preocuparam-se mais com os distúrbios do que, diretamente, com a chamada ‘saúde mental’, seguindo o modelo médico. As contribuições que geraram a corrente humanista, pouco a pouco, foram realçando os lados positivos da personalidade, empenhadas em fornecer-lhe meios de crescimento. Escreve representante desta linha: “Um dos conceitos mais revolucionários que se destacaram da nossa experiência clínica foi o reconhecimento progressivo de que o centro mais íntimo da natureza humana, as camadas mais profundas da sua personalidade, a base da sua natureza animal, tudo isso é • naturalmente positivo, • fundamentalmente socializado, • dirigido para diante, • racional e • realista (Rogers, 1970, p. 91.) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 221MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 221 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 222 Por isso admite a Psicologia Humanista ser a tendência à autorrealização, a realização das potencialidades, o dinamismo fundamental da personalidade: em condições favoráveis, a pessoa se desenvolve na direção de crescente maturidade. Alfred Adler já sublinhara “a tendência da criança à perfeição, à maturidade ou à evolução” (1955, p. 32). Contrariamente às concepções comportamentista e psicanalítica – para as quais o homem é determinado por estímulos externos, de acordo com o behaviorismo, e por fatores internos, segundo a doutrina freudiana – a linha humanista sustenta que a pessoa é fundamentalmente livre. Estar em processo... Luypen (1967, passim): A Psicologia Humanista concebe “a existência como projeto ‘já’ (realizado) e como projeto ‘ainda não’ (executado). É o problema da historicidade do ser humano. Toda facticidade envolve um ‘ser-capaz-de-ser’, assim como todo ‘já’ abre as portas ao ‘ainda não’. O homem é projeto que se projeta a si mesmo. Ele ultrapassa continuamente sua facticidade, dirigindo-se para alguma das muitas possibilidades que entranha em sua existência como projeto. O ser do homem é um ter que ser.” Bars: “O homem é um ser que se faz homem.” Gasset: “O homem é, antes de mais nada, um programa como tal: portanto, o que ainda não é, mas que aspira a ser. – Ele não é uma coisa, mas uma pretensão de ser isto ou aquilo. – A vida de cada um de nós é alguma coisa que não nos é dada feita, presenteada, mas alguma coisa que é preciso fazer. – Viver (...), isto é, achar os meios para realizar o programa que se é”. Quanto mais sadia do ponto de vista psíquico e quanto mais madura, tanto mais livre sentir-se-á e há de ser a pessoa. Pesquisas provaram (Maslow, 1954, p. 351) que o indivíduo pode ser mais sadio, até muito mais sadio do que a cultura em que vive. Não é, portanto, vítima ou necessariamente vítima das influências ambientais. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 222MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 222 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 223 ‘’Eu critico no freudismo clássico, em sua expressão extrema, a tendência a imprimir a todas as coisas uma coloração patológica e a não perceber suficientemente as sadias possibilidades do ser humano, a ver tudo através de lentes sombrias” (Maslow, 1972, p. 56. Cf. Rogers, 970, p. 170-172; Bugental 1964, p. 24: Man has choice). Maslow discorda frontalmente do pressuposto freudiano de que as mais elevadas formas do comportamento são adquiridas e não naturais à espécie humana. Diz o mesmo autor que Freud, até o final da longa existência, encarou o inconsciente como predominantemente perigoso e mau (1980, p. 110), não obstante Alfred Binet, antes dos anos vinte, já provasse constituir o inconsciente fonte de inspiração artística e científica. Manuel Bandeira e outros escritores nossos se confessam devedores das elaborações inconscientes, citando exemplos pessoais incontestáveis (Justo, H., 1997, cap. VI). Eis algumas características básicas das três principais correntes atuais da Psicologia. (Coleman-Broen, 1972; Maddi, 1972; Roussève, 1973). Os termos bom, mau, racional etc., devem ser tomados no sentido de predominância e não de exclusividade. O homem é para Daí VISÃO ATITUDE a psicaná- lise mau irracional determi- nado antagônica (conflitiva) pessimista o behavio- rismo neutro pepende da aprendiza- gem determi- nado neutra manipula- tiva o humanis- mo bom racional livre sinergética (de realiza- ção) otimista É, portanto, a razões filosóficas e epistemológicas que se deve a persistência de diferentes escolas em psicologia (Piaget, J., s/d, p. 20). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 223MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 223 05/07/2022 15:24:4105/07/202215:24:41 224 As características da psicologia humanista levaram Capra (1998, p. 337) a escrever: “A essência da abordagem humanista consiste em considerar o paciente pessoa capaz de crescer e se autorrealizar, e em reconhecer os potenciais inerentes a todo ser humano.” 3. O homem é intencional. Se a tendência básica do homem é a da autorrealização, que imprime, segundo Kurt Goldstein, à vida humana o dinamismo e a dimensão criadora, “o homem é organismo que tende para o futuro e não somente um ser cujo comportamento é governado pelo passado e o presente” (Sargent, 1973, p. 171). Em autores clássicos, como Jung, Adler, Murray e Lewin já encontramos a preocupação por todas as direções temporais, sendo o presente, contudo, menos enfatizado. A Psicologia Humanista veio chamar a atenção para a importância do “aqui e agora”, sem menoscabar as outras dimensões cronológicas. Sargent cita Bonner: a psicologia proativa, diz ele, “opõe-se nitidamente às duas grandes abordagens atuais do comportamento humano: a mitologia poética da psicanálise e a tecnologia hipócrita do behaviorismo”. O indivíduo procura atingir aquilo que percebe como valorizador e enriquecedor. Na opinião de Charlotte Bühler (1965, p. 55), o ser humano possui orientação primária ou inata no sentido da criatividade e de valores, o que não exclui a contribuição do processo secundário, isto é, dos elementos adquiridos. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 224MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 224 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 225 O indivíduo não vive ancorado ao passado nem agrilhoado ao presente: influenciado pelo pretérito, vive o presente na esperança de realização dia a dia mais plena no futuro. A intencionalidade é sumamente importante por constituir a base sobre a qual a pessoa constrói a identidade. O indivíduo procura, a um tempo, conservação e mudança. As concepções mecanicistas do psiquismo humano preconizam a redução das tensões em vista de alcançar estado homeostático. Por ex., “o modelo criado por Freud visa à redução da tensão” (Hall-Lindzey, 1966, p. 52). A Psicologia Humanista reconhece que o homem procura repouso, mas, habitualmente, deseja variedade e desequilíbrio (Bugental, 1964, p. 24). Portanto, as intenções do homem são múltiplas, complexas e, quiçá, paradoxais. 4. O homem é ser consciente. Contrastando com o modelo psicanalítico, com ênfase no passado e no inconsciente – o enfoque humanista sublinha a importância do presente e do consciente. Não exclui, é óbvio, o passado e o inconsciente, mas lhes concede peso menor. Escreve Jung (1950, p. 71-72): “A Psicologia não é magia negra; é uma ciência: a da consciência e de seus dados; é também a ciência do inconsciente, mas somente em segundo lugar, pois o inconsciente não é diretamente acessível, precisamente por ser inconsciente (...) do vosso inconsciente ignorais tudo, pois o inconsciente é realmente inconsciente.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 225MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 225 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 226 Para Bugental (1964, p. 23), é dado central da experiência humana o fato de o homem ser consciente. A gradação ao longo de um “continuum” do consciente ao inconsciente é pressuposto básico à compreensão de alguém. A consciência, na comparação de Jourard (1974, p. 33; 1997, p. 159), apresenta-se na estruturação figura-fundo. É preciso ter presente que não existe uma repartição no psiquismo com o nome de inconsciente e outra de consciente. O que há são ‘fatos’ conscientes ou inconscientes. O modelo psicanalítico considera o homem mais influenciado pelo passado e o inconsciente, ao passo que a teoria humanista o percebe mais voltado para o presente e o futuro, com predominância do consciente. O motorista freudiano se norteia mais, na viagem da vida, pelo espelho retrovisor do carro do que pelo panorama que se estende à sua frente. 5. Importância do mundo subjetivo pessoal. Em Psicologia há várias tendências polares: uma delas opõe a orientação nomotética à idiográfica. A visão nomotética está empenhada em descobrir leis gerais em Psicologia, isto é, relação constante entre causa e efeito, segundo o paradigma da Física. Supõe serem os processos psicológicos lineares, não havendo entre eles outra relação afora a de causa e efeito (Wyatt, 1973, p. 379). Existe manifesta preferência, de um lado, pelo estudo dos processos fisiológicos e biológicos em detrimento dos psicológicos e, do outro, predileção pela análise de uma faceta da experiência em prejuízo de outros aspectos. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 226MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 226 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 227 Allport (1966, p. 24-25, passim) escreve que o cientista “está interessado apenas em dimensões isoladas, através das quais pode comparar muitas pessoas (...). Ninguém é normal (no sentido de média) em mais do que alguns atributos (...). Toda pessoa se desvia, sob milhares de aspectos, do hipotético homem médio”. Referindo-se às falácias da análise fatorial, Peck e Whitlow (1976, p. 59) advertem que “a sua própria precisão numérica pode obscurecer a quantidade de juízos intuitivos do processo da pesquisa e subsequente análise dos dados’’. A perspectiva idiográfica procura compreender a “vida real”, na expressão de Wyatt. A “ênfase na pessoa humana, no indivíduo em sua totalidade e unicidade, é uma característica central da Psicologia do Humanismo” (1975, p. 76). Insiste o autor em que esse conhecimento do homem em pessoa, em contraste com o homem em geral, toca no âmago da diferença entre as Psicologias behaviorista e humanista. “A ciência encontra o comum na variação. A fenomenologia encontra a variedade no comum” (Dusen, 1976, p. 248). A psicologia nomotética distancia-se do homem, do ‘tu’, transformando-o em ‘isso’, em objeto, ao passo que a Psicologia Humanista, idiográfica, aproxima-se da pessoa, tentando captar-lhe a imensa riqueza do ‘tu’. Carl Rogers (1973, p. 69) considera a importância fundamental de que seja o “ser humano com sua subjetividade, e não meramente uma máquina, não simplesmente como um objetivo ou uma sequência determinada de causa e efeito o objeto da investigação das ciências do comportamento”. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 227MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 227 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 228 Acentua o peso da subjetividade sem exclusivismo. Talvez se possa aplicar à Psicologia Humanista a afirmação aparentemente um tanto paradoxal de Alceu Amoroso Lima: “O existencialismo entende justamente superar o subjetivismo, mas por uma objetividade rica de todos os valores subjetivos” (1956, p. 152). O fato de não dispormos de instrumentos ideais (e, em certos casos, de nenhum) para o estudo idiográfico, não deve induzir o pesquisador a se limitar ao modelo matemático, demasiado estreito para nele caber o homem em sua totalidade ou na exuberância multifacetada de seus processos psicológicos. Muitos e novos métodos já foram descobertos desde que cientistas admitiram haver outras possibilidades além do esquema considerado, até há pouco, o único possível e válido para o estudo dos processos psíquicos. “Acredito ser o método humanista mais apto a estruturar o homem interior, por ser mais sensível à experiência subjetiva, e isto através da fenomenologia, aberta a toda experiência, ao revés do empirismo estreito, embora mais rigoroso” (Royce, 1973, p. 38-39). Ambas as formas de estudo trazem inestimável contribuição à ciência psicológica: são métodos complementares. “Um psicólogo pesquisador é forçado a escolher entre trabalhar com a abordagem de traços de personalidade menos abrangente, contudo mais exata, e a abordagem dinâmica da personalidade, mais ampla, porém menos precisa... cada uma dessas concepções lhe oferece uma perspectiva diferente, mas válida da personalidade humana” (Smith, 1977, p. 26). Além dessa dicotomia, existe,1978) ao se cruzarem as embarcações? Não se verificou sequer um aceno ameaçador, uma palavra não amiga da parte dos milhares de pessoas presentes. Ao contrário: a demonstração de sentimentos positivos foi maciça. Houve, sim, minoria a ignorar praticamente a passagem dos navios ou a olhá-los sem deixar transparecer emoção. Portanto, o experimento confirmou a hipótese de Maslow-Rogers. Mas, perguntar-se-á com razão, por que tantos indivíduos não usam esta capacidade construtiva? Primeiramente, existe minoria realmente incapaz de o fazer: são vítimas de distúrbios estruturais profundos. Esclareçamos o fato com pequena comparação: simples mecânico está em condições de notar o mau funcionamento do motor de um carro e é apto a regulá-lo apropriadamente, mas carece de meios para fazer o mesmo com motor que apresenta peças quebradas ou mal fundidas. Algo semelhante passa com as pessoas: têm capacidade de regular o funcionamento do psiquismo, mas não dispõem de recursos para restaurar deficiências básicas. Em segundo lugar, a pessoa somente chega a cultivar esta capacidade em potência num clima de relações humanas favoráveis. Em outros termos: não é suficiente que a semente seja boa; ela também requer condições atmosféricas e de terreno propícias a fim de se poder transformar em planta normal. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 27MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 27 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 28 Reconhece Maslow (1979, p. 24) que, embora o ser humano possua impulso — para a saúde, — para o crescimento ou a atualização das potencialidades, à maioria das pessoas faltam condições de crescimento adequado, devido “à ausência de oportunidades no mundo de hoje” (Ib., p. 315). Reconhece ele haver em torno de 3 ou 5% de indivíduos ‘invulneráveis’: atualizam as aptidões apesar da hostilidade do ambiente. A maioria, contudo, “consegue atualizar suas capacidades unicamente em ambiente apropriado a essas capacidades” (Goldstein, 1961, p. 160). De outro lado, a favorabilidade das condições não é suficiente: a colaboração esforçada do indivíduo é indispensável. A participação dele no processo supõe motivação suficiente. A motivação, por sua vez, decorre da percepção de interesses, de valores. É convicção profunda de Carl Rogers de que a imensa maioria dos homens têm estrutura tal que podem enfrentar (ou podem vir a enfrentar) adequadamente a si mesmos, a vida social e profissional, se o ambiente for suficientemente favorável. Que se entende por ambiente favorável? É contexto de relações humanas em que o indivíduo é considerado e tratado de modo positivo: em que é aceito e valorizado. Mais escritores situam-se na mesma linha: O autor de “Assim Falava Zaratustra” o expressa de forma poética: “Eu sou apenas bênção e afirmação, contanto que me rodeies, céu puro, luminoso abismo de luz” (1988, p. 183). Piaget (1970, p. 17-18): ‘’Somos cada vez mais levados a pensar que a qualidade do que é inato consiste essencialmente nas possibilidades de funcionamento.” MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 28MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 28 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 29 Em ambiente propício isto acontecerá. A exigência do grau de favorabilidade é variável. Garmezy e Devine, da Universidade de Minesota (1978), estudando 400 indivíduos vivendo em condições inteiramente adversas, encontraram em torno de 10% que, apesar disso, conseguiram autorrealização normal. Chamaram tais indivíduos, na falta de termo melhor, de “invulneráveis”: tratam de encontrar soluções, em lugar de se queixar; enfrentar a realidade, em vez de fugir dela; aprender a tirar proveito de muito pouco. Uma das mais valiosas contribuições de Rogers é a ênfase na capacidade e responsabilidade do indivíduo na solução de seus problemas, em contraste com o velho paternalismo nas relações de ajuda (Wexler, 1974, p. 3). II. Tendência atualizante Segundo Rogers, constitui essa tendência o postulado fundamental da sua teoria. É, aliás, noção desenvolvida por Kurt Goldstein (1961): o homem luta não somente para a autoconservação, pois vem dotado de capacidade criadora. Textualmente: “O impulso que põe em marcha o organismo são, em realidade, as forças originadas em sua tendência a atualizar-se, como for possível, em função dessas potencialidades” (p. 144). Se, em ambiente propício, a pessoa se desenvolve na direção positiva, quer dizer, da maturidade psicossocial, é que vem dotada de um dinamismo que a impele nesta direção (Rogers, 1977, cap. 11). Já em 1951 (p. 487) dizia Rogers possuir o organismo uma tendência básica, um anelo fundamental: manter-se, atualizar-se, desenvolver-se. Ou, mais extensamente, em outro livro: “Todo organismo é animado de uma tendência inerente a desenvolver todas as potencialidades e a desenvolvê-las de modo a favorecer-lhe a conservação e o enriquecimento.” (1966, I, p. 172) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 29MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 29 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 30 O termo organismo designa a totalidade do indivíduo: o conjunto psico-físico-social. Enriquecimento abrange tudo o que a pessoa considera valioso para ela: tanto o que possui como o que é: bens materiais, amizades, profissão, habilidades, talentos, qualidades, satisfações... Falível que é, pode enganar-se nesta avaliação. Na década de trinta, já expunha Otto Rank o princípio da realização, com ideias semelhantes (Rank, 1975, 1989; Sward, 1980, p. 5-26). Rogers, aliás, se reconhece devedor a Rank em vários aspectos de sua teoria. Goldstein, já citado, fez observações importantes no processo de regeneração de cérebros danificados, com os respectivos reflexos no psiquismo. Os estudos o levaram a formular sua visão sobre “a natureza humana à luz da psicopatologia”, chegando à mesma conclusão enunciada por Rogers em nível da personalidade normal: Diz Kurt: “Dado que a tendência à atualização de si mesmo, tão plenamente quanto seja possível, é o único impulso a mover o organismo enfermo, e considerando que a vida do organismo normal está determinado de modo idêntico, é evidente que o objetivo do impulso não é a descarga de tensão, mas o impulso da atualização” (1961, p. 120). “O homem vive e se expande” (p. 311). Também fala ele na indispensabilidade de ambiente adequado, normal. O ponto de vista de Teilhard de Chardin em “O Fenômeno Humano” (1965) aponta na mesma linha: “A vida se acha desde sempre e por toda a parte em estado de pressão; nada a pode impedir de levar até ao máximo o processo de que saiu” (p. 334) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 30MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 30 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 31 O médico e sexólogo francês Oraison (1967) acentua consistir o empenho da vida não somente para ser, mas para ser sempre mais, pois a vida é tendência à expansão, dinamismo interno que se desenvolve e desabrocha. Nos últimos anos, Rogers tratou várias vezes, além da tendência à atualização, característica da vida orgânica, da tendência formativa no universo como um todo (1980, p. 114), aproximando-se da perspectiva de Chardin. Se a vida física tende a desdobrar-se inexoravelmente em todos os seres, o homem pode barrar-lhe o impulso. Na opinião de Fromm (1986, p. 87) isto acontece na maioria das pessoas: “não querem promover sua autorrealização”, contentando-se com existência rotineira, longe de fazer desabrochar a riqueza das potencialidades latentes. Não lhes faltaria um elemento desencadeador do dinamismo latente? A chave de ignição do motor? Em outras palavras: ambiente favorável? Relapsos ou empenhados, “somos, de certo modo, os nossos próprios pais, ao criarmos” (João Paulo II, 1993, p. 92). O postulado do desenvolvimento ou crescimento (growth) supõe: • de um lado, a tendência de autorrealização do organismo; • e, do outro, a regulação do organismo por si mesmo (avaliação das experiências) a fim de se modificar emcontudo, a possibilidade de conciliação harmoniosa das vantagens de ambas as abordagens: “Carl Rogers penetrou a casa do homem pela porta da ciência, mas foi diretamente ao idiográfico, à vivência única e à descrição do universo de uma pessoa... Quer dizer que trouxe consigo o respeito pelo que pode ser medido e publicamente validado pelos métodos de comunicação da ciência” (Dusen, 1976, p. 245). Fica, porém, bem evidenciado que um dos elementos básicos do modelo humanista é o enfoque da complexidade e singularidade do homem. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 228MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 228 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 229 6. O homem tem orientação social. As expressões de Carl Rogers “aprendizagem centrada no aluno”, “terapia centrada no cliente ou na pessoa”, assim como o realce dado pela teoria humanista à unicidade e autorrealização da pessoa, têm criado a falsa ideia de ela fazer a apologia do individualismo. Não! É dos princípios fundamentais da Psicologia Existencial Humanista de que “o ser individual é descoberto e criado através da interação com o grupo” (Greening, 1975, p. 108). No dizer de Sartre (1970, p. 269), o homem não está fechado em si mesmo, mas presente sempre num universo humano; é a isso que chamamos humanismo existencialista. Na linha de Maslow, quanto mais elevadas as necessidades, isto é, quanto mais especificamente humanas, menos egocêntricas hão de ser (1991, p. 91). Este autor não somente preconiza calorosas relações sociais, mas chega ao ponto de considerar “toda boa relação humana como terapêutica” (1954, p. 320). Concita, por esse motivo, os terapeutas a orientarem os clientes para tal tipo de relacionamento tão logo as possam aceitar, convencido de que a recuperação será abreviada e mais sólida. __ Da concepção humanista decorrem consequências de profundo significado social, tais como: • também às pessoas julgadas normais é oferecida a terapia a fim de melhorarem o psiquismo, para explorarem ao máximo suas virtualidades; • graças à capacidade de relacionamento, de um lado, podem as pessoas evitar que membros da sociedade se tornem neuróticos ou psicóticos e, de outro, estão em condições de facilitar a recuperação de indivíduos perturbados, estejam ou não aos cuidados de algum profissional. Para os humanistas, diálogo, encontro, reunião, intersubjetividade são conceitos básicos. É suficiente atentar ao impulso dado aos “grupos de encontro”, aos “grupos de crescimento”. Encontros em nível EU-TU. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 229MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 229 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 230 Nas últimas décadas de vida, Rogers se limitava quase exclusivamente a essa modalidade de terapia, inclusive com representantes de grupos antagônicos: negros e brancos, católicos e protestantes, comunistas e não comunistas, por ex., atingindo a socialização e estimulando o crescimento de maior número de pessoas do que na terapia individual. Ser com outrem Quem diz existência humana diz já, segundo a Filosofia existencialista, uma existência dada numa relação íntima e viva com outros homens. Jaspers acentua até: “eu só existo em comunicação com o outro”. E Heidegger exprime a mesma ideia na fórmula seguinte: “Existir é essencialmente coexistir (Dasein ist wesenhalf Mitsein). E de notar é que, inclusivamente o fato de o homem poder achar-se só, não constitui argumento contra a sua essencial sociabilidade, porquanto a própria solidão, sabido é, não é indiferente à existência de outros homens; pelo contrário, é precisamente pelo sentimento penoso da ausência do outro que ela nos aponta para a sociedade como o estado normal e natural do homem. Só pode estar só, ser só, um ente que por natureza foi destinado a viver em sociedade. Heidegger diz ainda a este respeito: “O próprio achar-se sozinho na existência é ainda um coexistir.” O mundo dos outros homens é, sem dúvida, aquela parte do mundo em geral que, antes de qualquer outra, é dada ao homem, e a partir da qual, justamente através da experiência da infância, a vida animal e vegetativa e o ser inanimado se destacam uns dos outros. Compreende-se assim a alusão de Heidegger, quando nos diz que, segundo os próprios usos da língua, como a palavra mundo é já o mundo das relações humanas aquilo que antes de mais nada se quer significar. Expressões como: todo o mundo, o grande mundo, um homem do mundo (diz-nos ele no seu Wesen des Grundes) são, de fato, expressões em que a palavra mundo está tomada geralmente no sentido de mundo humano ou mundo das relações entre os homens. Só um coexistir e para um coexistir pode ter sentido o faltar do outro. O estar sozinho é um modo deficiente do coexistir, e a sua simples possibilidade é já uma prova deste. Bollnow, 1946, p. 65-66 MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 230MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 230 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 231 7. Atenção às características mais elevadas do homem. A dificuldade em estudar, sobretudo em quantificar os processos superiores do psiquismo teve por consequência a limitação do campo da investigação. O behaviorismo voltou-se, inclusive, tanto ou talvez mais à pesquisa das reações animais do que às do homem. Segundo Bugental (1964, p. 22), a nova corrente da Psicologia “está primeiramente interessada com as capacidades e potencialidades humanas que tiveram só lugar restrito ou nenhum, quer na teoria positivista ou behaviorista, quer na clássica teoria psicanalítica, como amor, criatividade, “self”, crescimento, organismo, necessidade básica de gratificação, autorrealização, vir-a-ser (becoming), espontaneidade, jogo, humor, afeto, calor, ego transcendência, objetividade, autonomia, responsabilidade, saúde psicológica e conceitos correlatos”. Bell vê na abordagem humanista psicologia das ‘alturas’, em contraposição à psicologia ‘profunda’ (1990, p. 50). Carl Rogers (1970, p. 325) desafia a Psicologia a dar resposta, entre outros, aos seguintes problemas importantes para o homem: • novos modos de vida, mais ricos e mais plenos; • maneira de o homem se tornar colaborador mais inteligente da sua própria evolução física, psicológica e social; • meios de libertar a capacidade criadora dos indivíduos. “Resumindo – pergunta Rogers (p. 326) – poderá a ciência descobrir métodos através dos quais o homem consiga mais facilmente tornar-se processo em desenvolvimento permanente, transcendendo-se a si próprio no comportamento, no pensamento e na ação? Poderá a ciência prever liberdade essencialmente ‘imprevisível’ e encaminhar-se para ela?” O leitor, talvez, ache um tanto descolocada, quiçá um tanto absurda, a pergunta final. Rogers a responde na página seguinte. É possível prever o comportamento, que é essencialmente livre, de pessoa que passou por terapia exitosa: ela será mais autônoma, menos rígida, mais aberta aos dados dos sentidos, mais bem organizada e integrada, mais semelhante ao ideal adotado. É patente ser previsão diferente da pleiteada pela chamada psicologia científica. Esta pretende ser pontual; aquela, holística. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 231MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 231 05/07/2022 15:24:4105/07/2022 15:24:41 232 Num artigo (1973, p.199), sugere que devemos “tentar incluir na ciência muito daquilo que é subjetivo, intuitivo, fenomenológico”. Esta concepção, repetimo-lo, contrasta violentamente com a ótica da “psicologia mecanográfica” (Bugental, 1973, p. 16-18), à cata de leis universais onde possa incluir o caso particular. A oposição entre estas teorias pode reduzir-se a duas concepções divergentes da natureza humana e da ciência psicológica. 8. O self como elemento unificador. Depois de haver aguçado a curiosidade de alguns estudiosos quase um século atrás, por ex., William James (1912, cap. XII), caiu a noção do self praticamente no olvido, vista a dificuldade de submetê-la à observação. Mesmo Carl Rogers declarou emvista de assegurar a consecução dos objetivos. A orientação adequada não pode efetuar-se, evidentemente, sem a capacidade da apreensão da situação real do organismo. A interferência de mecanismos de defesa (o tema será ventilado mais adiante) pode prejudicar a objetividade da percepção. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 31MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 31 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 32 Tendência à atualização O fenômeno do abalamento dos valores, que caracteriza a evolução da nossa cultura, pode desempenhar o papel do fator que provoca a nossa crise de identidade de adultos, retirando obstáculos que entravaram, no decorrer do nosso crescimento, a atualização de algumas das nossas capacidades. Não se pode impor indefinidamente uma violência arbitrária à natureza individual sem que esta, mais cedo ou mais tarde, venha reivindicar os seus direitos. Uma vez que as normas que regravam nossa conduta já não possuem a mesma estabilidade, temos o desejo de nos afastarmos do caminho que nos foi traçado, de experimentar outra coisa, tentar explorar novos aspectos de nós mesmos. Ouvimos, dessa feita, vozes até então silenciosas que nos convidam a nos desvencilharmos da nossa personagem, e nos fazem perceber a estreiteza da imagem que formamos de nós mesmos para respondermos às exigências externas. Essas vozes são o eco daquela tendência a nos atualizarmos, que é nossa tendência mais fundamental e sem a qual em nada poderíamos compreender o desenrolar da História assim como o de nenhuma das nossas existências. Se todas as culturas, qualquer que seja o seu êxito, conheceram momentos de apogeu e de declínio, não seria por que o modelo de homem que elas preconizaram, por mais sedutor que fosse, não podia fazer jus a tudo quanto existe no homem? Chegou, pois, o momento em que aquilo que não foi atualizado ressurgiu para questionar o que, por algum tempo, parecia dever ser definitivo. No decorrer do nosso próprio desenvolvimento, não deixamos de sentir em nós a necessidade de crescer. Os momentos de equilíbrio que, por vezes, atingimos não conseguiram eliminar essa tendência permanente para outras realizações que fariam recuar os limites impostos à atualização das nossas potencialidades. Como nossa identidade pessoal perde a estabilidade que lhe conferiram os valores do nosso meio, vemos, então, abrir-se uma via de acesso a recursos interiores desconhecidos ou negligenciados. Todavia, percebemos instintivamente que penetrar nesse caminho representa tarefa difícil. Ela exige muita coragem da nossa parte. Temos desejo de crescer, mas temos medo de crescer. Artaud, 1983, p. 83-85 passim MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 32MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 32 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 33 Um dinamismo (a) inerente ao indivíduo leva-o a cultivar suas possibilidades a progredir, a realizar opções (b) A tendência atualizante constitui a motivação polimorfa da teoria rogeriana. É a única motivação reconhecida por ele. Qualquer reação da pessoa é, em última análise, ditada pela necessidade ou o interesse em manter ou aumentar a riqueza do próprio organismo: roupa nova, visita a um amigo, trabalho bem feito, conquista de certificado ou diploma... (cf. Rogers, 1969, p. 131: motivação e aprendizagem). Num enfoque sistêmico, teríamos o seguinte quadro: A repressão da tendência à autorrealização é a responsável por inúmeros casos de perturbações psíquicas leves ou profundas, segundo a força da tendência à atualização na vida em geral ou algum setor determinado. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 33MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 33 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 34 Na opinião do Institut de Psychodidactie de Paris, 95% das inadaptações sociais têm solução, sem recaída, sendo-lhes possibilitada autorrealização. Baseia-se essa conclusão no tratamento de 400 (quatrocentos) casos, em mais de vinte anos de experiência. O artigo de Claude Varenne, no jornal France-Soir, de 03 de dezembro de 1966, cita uma série de exemplos de recuperação. Eis um deles. Jaqueline sempre fora incompreendida pelos pais. Não concordam que ela continue os estudos. Emprega-se num mercado. A tarefa material acaba por romper o equilíbrio psíquico. Passa quatro anos em casa de saúde. Finalmente, a Psychodidactie descobre nela personalidade muito rica e vocação tenaz. Classifica-se em segundo lugar entre trezentos candidatos, continuando os estudos num hospital psiquiátrico em vista do diploma de educadora especializada em perturbações psicogenéticas. A tendência à autorrealização, diz Rogers, tem como efeito dirigir o desenvolvimento do organismo no sentido da unidade e da autonomia, isto é, rumo oposto ao da heteronomia, resultante da submissão às vicissitudes de forças externas. A compreensão do postulado fundamental da teoria rogeriana é facilitada pela consideração de outros organismos vivos: animais ou plantas. São dotados de um dinamismo central que lhes orienta o desenvolvimento na direção do modelo adulto da espécie caso não houver obstáculo a impedir a ação das forças de crescimento. Ovo chocado dá origem a pinto e este, em condições normais, transformar-se-á, gradativamente, em galo ou galinha, graças ao complexo dinamismo que lhe rege o organismo. Por que estaria a parte mais nobre da pessoa – o psiquismo – privado de tão maravilhosa tendência com que a natureza favorece generosamente todos os seres vivos, até os mais rudimentares? Podemos, entre outros, citar, em apoio a essa concepção, um dos discípulos prediletos de Freud no início do movimento psicanalítico, Alfred Adler (1870-1937): A prática médica lhe proporcionou a descoberta do ponto de vista teleológico ou finalístico, de tanta importância para a compreensão do psiquismo. Os órgãos do corpo estão como que empenhados em atingir MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 34MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 34 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 35 seus objetivos. Na eventualidade de defeitos orgânicos, a natureza procura sanar a deficiência ou compensá-la com desenvolvimento de outro órgão, destinado a assumir as funções da parte falha. “A energia vital, diz, jamais se rende, sem luta, aos obstáculos externos.” Citação textual algo extensa, porém, muito significativa do iniciador da Psicologia Individual: “O movimento do psiquismo é análogo ao da vida orgânica. Em cada espírito existe um conceito e finalidade ou ideal a atingir, situado além das condições atuais, um desejo de vencer as deficiências e dificuldades do presente, expressos na elaboração de um objetivo concreto para o futuro. Graças a essa finalidade ou objetivo, pode o indivíduo julgar-se e sentir-se superior às dificuldades do presente porque possui, na mente, a imagem do futuro sucesso. Desprovido do sentimento de uma finalidade, a atividade do indivíduo deixaria de ter qualquer significação” (1956, p. 32). Páginas adiante: “Todos os sintomas da vida individual se exprimem em movimento, em progresso” (p. 77). Muitos autores atuais acentuam a importância dessa tendência: Sullivan, Horney, Maslow, Angyal, Goldstein, Fromm, Rollo May. Este último afirma possuir todo organismo uma, e apenas uma, necessidade central na vida: realizar as potencialidades (1972, p. 77). Fromm tem opinião idêntica: o verdadeiro interesse do homem consistiria no pleno desabrochar das possibilidades e em desenvolver-se como ser humano (s.d. p. 38). Esses autores, e Rogers de modo particular, situam-se no polo oposto dos partidários da teoria do organismo vazio que, na dinâmica da personalidade, consideram tão somente o esquema E-R: estímulo-resposta (Cf. Puente, 1970, p. 132). A teoria da autorrealização ou autoatualização (self actualization) foi desenvolvida por Maslow (1954, 1972, 1979). Enfatiza ele visão liberal, otimista, democrática, pluralista (Buss, 1979, p. 43-55). Concepção não aceita por todos ( cf. Geller, 1982, p. 56-73). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb35MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 35 05/07/2022 15:24:3505/07/2022 15:24:35 36 Bondade fundamental – Tendência à autorrealização Bondade 1. “Pensamentos cínicos atravessam o espírito de homens que vivem como santos. Eles os afastam porque o modo de vida aceito por eles não lhes deixa nenhum lugar; porém, suponha que as circunstâncias tenham colocado os mesmos sujeitos numa outra vitrina: sua reação às mesmas imagens teria sido diversa. A recíproca é verdadeira e intenções adoráveis passam, como reflexos, sobre a água, pelas almas dos celerados” (Maurois, s.d., p. 78). 2. “Nossas consciências são sadias na medida em que sabemos descobrir em nós mesmos e, depois, nos outros, as tensões íntimas para o bem, o belo e o verdadeiro” (Häring, 1994, p.103). 3. ‘’A maioria dos psicólogos admite que o homem, por natureza, é mau e unicamente por necessidade modifica seus instintos, de maneira a não se oporem ao bem social. O contrário é precisamente o exato” (Adler, 1953, p. 26). 4. “A mensagem do Evangelho supõe que o homem não é tão mau assim (...). Seu anúncio é ato de fé na possibilidade de relações humanas baseadas na liberdade” (Comblin, 1977, p. 56). 5.”Parece que o grau de destrutividade é proporcional ao grau em que se acha tolhida a expansão das capacidades da pessoa. (...) A destrutividade é o produto da vida não vivida” (Fromm, 1961, p. 194). Autorrealização 6. “Não só o mundo, mas o homem mesmo foi confiado ao seu próprio cuidado e responsabilidade. Deve procurar alcançar livremente a perfeição. Alcançar significa edificar pessoalmente, em si próprio, a perfeição” (João Paulo II, O Esplendor da Verdade, nº 31). 7. “O homem como ser inconcluso, consciente de sua inconclusão e seu permanente movimento de busca do ser mais” (Freire, 1987, p. 72, Subtítulo). 8. ‘’A vida tende levar ao máximo o processo de que saiu” (Chardin, 1965, p. 334). 9. “O dever de ser vivo é o mesmo que o dever de transformar-se em si próprio, isto é, transformar-se no indivíduo que se é em potencial” (Fromm, 1961, p. 28). 10. ‘’Temos um grande impulso, uma necessidade de crescer, de nos tornarmos mais” (LeShan, s.d., p. 154). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 36MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 36 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 37 III. O self A chave de abóbada da teoria rogeriana da personalidade é o con- ceito do “self “– do ‘eu-mesmo’. 1. Gênese do self. – A criança começa, paulatinamente, a perceber os objetos de seu ambiente e a ligar significados a esses objetos. O conjunto desses objetos, com as significações que possuem para ela, constituem seu campo fenomenal. Neste ‘espaço’, há certo número de percepções e significações relacionadas com ela, como indivíduo: constituem elas o ‘self’ (cf. Rogers, 1951, p. 142, 145-149; 221-223; 1961, 1980). 2. Definição. – Self é o conjunto de percepções, organizado, porém mutável de percepções referentes ao próprio indivíduo, refletindo, para ele, sua identidade: características atualizadas ou possíveis qualidades, falhas, capacidade, limitações, valores, recordações, aspirações... (Kinget, I, p. 33). Nos termos do próprio Rogers: “Self, ideia ou imagem de si, estrutura do self, são termos que servem para designar a configuração experiencial composta de percepções referindo-se 1 - ao indivíduo, 2 - às suas relações com os outros, 3 - com o ambiente, 4 - e a vida em geral MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 37MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 37 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 38 5 - assim como aos valores por ele atribuídos a essas percepções” (Rogers, 1966, 1, p. 179; 1951, p. 501, 525). O self resulta, portanto, da diferenciação da experiência organísmica total do indivíduo, sendo um dos aspectos centrais do ‘growth’, do crescimento da pessoa (Rogers, 1961, p. 256). O papel do self é de importância decisiva para a personalidade, pois lhe constitui o núcleo integrador (Hamachek, 1979, p. 3). Com justeza observa o filósofo Unamuno que nem todos se sentem ser e existir como núcleo de seu universo (1952, p. 44). Certa ou errônea, a percepção global ou parcial que a pessoa tiver de si, é ‘verdade’ para ela. É sua realidade. Assim, Michelle Pfeiffer, das mais belas atrizes da atualidade, confessou em 1991: “Eu sempre achei que meu rosto estava completamente fora do lugar... meu nariz é torto... e ainda há gente que diz que fiz plástica.” Para May (1972), self é o centro a partir do qual vemos e temos consciência das diferentes ‘facetas’ de nossa personalidade. Wiley (1996, p. 9) toma esse termo em sentido muito mais genérico: para significar o ser humano, a pessoa. Relacionada com o self, temos a noção do self-ideal, conjunto de características que o indivíduo gostaria que integrassem o autorretrato. Escreve Ortega y Gasset (1963, p. 48): MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 38MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 38 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 39 “Os desejos referentes a coisas se movem sempre dentro do perfil do homem que desejamos ser. É este, portanto, o desejo fundamental, fonte de todos os demais. E quando alguém é incapaz de desejar-se a si mesmo, porque não tem claro um ‘si mesmo’ que realizar, é evidente que não tem senão pseudodesejos, espectros de apetites sem sinceridade nem vigor.” Apresenta o self duas características importantes: • Encontra-se em fluxo contínuo, isto é, em constante mudança, mas sempre organizado e coerente. “O self aparece como gestalt a modificar-se, essencialmente não por via de adição ou subtração, mas através processo de organização e reorganização” (Rogers, 1966, p. 182). • Esta configuração exponencial acha-se disponível à consciência, embora não seja, necessariamente, consciente ou plenamente consciente. Mudança do self sob a ação de forças internas (a) e externas (b) Convém lembrar que, integrando o organismo, o self também é abrangido pela tendência ao desenvolvimento: é tendência à atualização ou realização do self. 3. Comportamento. – Esses dois elementos da teoria rogeriana – impulso ao crescimento e self – explicam as ações e reações, simples ou complexas, do indivíduo: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 39MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 39 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 40 - a tendência à atualização ou realização constitui o fator dinâmico, motivacional, neste processo, - e o self ou autoimagem vem a ser o elemento regulador, orientador. Correndo o risco dos mal-entendidos de todas as comparações, poderíamos dizer ser o organismo semelhante ao conjunto carro-motorista, com a particularidade de que, no caso do organismo, este funciona sempre (tendência ao desenvolvimento), competindo ao ‘motorista’, o self, utilizar adequadamente essa energia a fim de realizar, do melhor modo possível, a viagem da vida. As reações do indivíduo são ditadas pela forma como percebe a si mesmo e a situação ou campo fenomenal. A modalidade de percepção da realidade é gerada pelo conceito que faz de si mesmo, isto é, o self. O jornal parisiense “France-Soir”, de 23 de outubro de 1966, publicou carta de um rapaz (Michel), 16 anos, que perdera a mão direita havia oito meses, a outro adolescente de 15, a quem acabara de ocorrer o mesmo acidente ao explodir-lhe bomba de fabricação caseira. ‘’Querido André: Fizeste uma besteira. Perdeste a mão direita. Eu também, já faz um ano. E tu vês, eu te escrevo. Sabes, não me consideram um ‘handicapped’. Tu tampouco, se te dizes que tua mão esquerda se tornou tua mão direita. Almejo-te coragem e rápida volta ao liceu.” Segue nota do jornal parisiense: “Em entrevista ao jornal, confessou Michel haver aprendido a escrever com a mão esquerda, a vestir-se sozinho, a fazer o nó na gravata, a amarrar os laços dos sapatos, a dirigir motocicleta. André não deve considerar-se um diminuído: então, também ele triunfará”. “Comportamo-nos, escreve Hamachek, de maneira congruente com o nosso autoconceito” (1979, p.99). Amado Nervo, no poema ‘’A Vitória da Vida”, retrata os efeitos da autoimagem negativa: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 40MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 40 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 41 Pobre de ti, se pensas ser vencido! Tua derrota é caso decidido. E da positiva: A força que te impele para a frente É a decisão firmada em tua mente. Asserção importante de Carl Rogers: “O comportamento tem uma causa, e a causa psicológica é uma percepção ou certa forma de perceber” (Rogers, 1951, p. 221). A reação ou comportamento do indivíduo será adaptado na medida em que o self for realista, como no caso de Michel; e será inadequado na proporção em que o self se afastar da realidade. O conhecido conto “Plebiscito”, da autoria de Artur de Azevedo, apresenta exemplo de comportamento não realista. Eis versão simplificada desse conto: Manduca (lendo jornal): Papai, que é plebiscito? Rodrigues finge dormir na cadeira de balanço. D. Bernardina: Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando! Rodrigues: Que é? Que desejam vocês? Manduca: Eu queria que papai me dissesse o que é ‘plebiscito’. Rodrigues: Ora essa, menino! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?! Manduca: Se soubesse, não perguntava. Rodrigues (dirigindo-se à D. Bernardina): Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito! Bernardina: Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei. Rodrigues: Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito? Bernardina: Nem eu, nem você. Aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 41MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 41 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 42 Rodrigues: Ninguém! Alto lá! Eu creio que tenho dado provas de ser nenhum ignorante. Bernardina: A sua cara não me engana. Você o que é, é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito !... Então? A gente está esperando! Diga! Rodrigues: A senhora o que quer é enfezar-me. Bernardina: Mas, homem de Deus! Para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou... E o menino ficou sem saber! Rodrigues: Proletário é o cidadão que vive do seu trabalho mal remunerado... Bernardina: Sim, agora sabe porque foi ao dicionário. Mas dou-lhe um doce se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira. Rodrigues: Que gostinho tem a senhora em tornar-se ridículo na presença destas crianças. (A menina do casal também assiste à cena.) Bernardina: Ridículo é você mesmo que se faz. Seria tão simples dizer: Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito. Vai buscar o dicionário, meu filho. Rodrigues: Mas eu sei... Bernardina: Pois se sabe, diga. Rodrigues: Não digo para não me humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo! (Sai exasperadíssimo.) Menina: Coitado do papai! Zangou-se depois do jantar! Dizem que é tão perigoso! Mamãe, chame papai e façam as pazes. Que tolice, duas pessoas que se estimam tanto, zangarem-se por causa de plebiscito. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 42MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 42 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 43 Bernardina (dá um beijo na filha e vai bater à porta do quarto): Seu Rodrigues, venha sentar-se, não vale a pena zangar-se por tão pouco. (Abre-se a porta e o dono da casa aparece.) Rodrigues: É boa! É muito boa! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!! Plebiscito (olha em torno)... Plebiscito é uma lei romana, percebem? Querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo! (No quarto encontrou o de que precisava: um dicionário.) Mudança autêntica no comportamento requer: mudança prévia da autoimagem, do self. Só depois de reconhecer que o fato de ignorar o significado de uma palavra não lhe tiraria a autoridade moral na casa, estaria o senhor Rodrigues em condições de adotar atitude mais objetiva, mais autêntica, mais congruente, pois, na opinião de Rogers, qualquer aspecto da experiência é assimilado segundo a maneira de se relacionar com o self. O self vem a ser o piloto do navio: depende dele em que medida e como vai reagir às mudanças do mar, da atmosfera, das disposições pessoais... Manterá o rumo inicialmente traçado? Acha melhor encetar rota diferente aconselhada pelos ventos, paisagens, descobertas exteriores e internas? Observa Geri (1998, p. 172) viver cada qual num mundo pessoal em transformação permanente de experienciações, mundo de que é o centro. 4. Congruência-Incongruência – Quando o indivíduo age e reage de acordo com o que experiencia realmente, existe harmonia entre o self e a experiência. Tal indivíduo encontra-se em estado de congruência. Experiência é tudo o que é suscetível de ser apreendido pela consciência. Refere-se aos dados imediatos da consciência e não a um acúmulo de eventos passados. Rogers emprega o termo experiencing. O ‘ing’ indica ser a experiência (‘experience’) considerada como processo, um processo sentido (‘a felt process’). Experiencing ou experienciação constitui elemento básico dos fenômenos psicológicos e da personalidade (Gendlin, 1964, p. 111). Congruência é a harmonia entre a experiência e sua representação e, eventualmente, também, sua expressão. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 43MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 43 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 44 Em linguagem mais familiar, escreve Rogers, diríamos haver integração, autenticidade ou harmonia. Esses termos são aplicáveis quer à personalidade, quer ao seu comportamento. Fernando Pessoa di-lo poeticamente: Quero casar com o que sou. Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. A congruência, observa Peretti (1997, p. 208), não é só baseada na fluidez do organismo, organizada na consciência, mas igualmente na transparência que faz reaparecer esta unificação na comunicação com outrem. Se, porém, não houver correspondência entre minha experiência (o que sei e sinto) e minha reação, encontro-me em situação de incongruência, que vem a ser a decalagem entre o self e a experiência, provocando estado de confusão e tensão. O comportamento neurótico é manifestação do estado de incongruência: a conduta ora se conforma às exigências do self, ora às solicitações do organismo (Rogers, 1961, p. 183). Toda incongruência é baseada em ‘condições de valor’ incompatíveis com o ‘processo organísmico de valorização’ (Speierer, 1990, p. 340). Ilustração: Batem à porta do apartamento: — Miguel, vai ver quem está ali. — Mãe... é a Josefa. — Mãe: Que amolação!... Paciência! Manda entrar. — Boa tarde, Luísa! Como estás? — Boa tarde, Josefa! Que surpresa mais agradável! Bem-vinda, querida! MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 44MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 44 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 45 Outro exemplo: “Moça bonita e elegante, estuda numa das escolas mais caras da cidade. Os pais, ambos operários, fazem verdadeiros sacrifícios para mantê- la estudando em ambiente rico. Ela, porém, age como se nada visse: procede como suas colegas de famílias de alta projeção social. Mente a respeito de sua vida particular, dizendo ser filha de grande industrial e que mora com tia rabugenta, motivo por não convidar as amigas para frequentarem sua casa.” Há incongruências em nível mais profundo: “Certa moça sempre reparava muito nas outras de mal conhecerem um rapaz em reuniões dançantes, e logo ficarem de mãos dadas ou dançarem de rostos colados. Sempre reagia para que tal não lhe sucedesse até que, em dada ocasião, compreendeu que estes desejos também nela existiam.” Lembre o(a) leitor(a) a atitude de Rodrigues no conto ‘Plebiscito’. Incongruente é quem afirma gostar disto ou daquilo quando, de fato, não o aprecia; quemparticipa de ato de culto, mas, no fundo, o qualifica de comédia. Mais um exemplo: Leu-lhe (para Eduardo) poemas de Omar Khayyam, de Rabindranath Tagore. Eduardo escutava e assentia com a cabeça quando Toledo interrompia a leitura para comentar: ‘É uma beleza. Uma maravilha.’ Na realidade não achava beleza nenhuma, maravilha nenhuma, nem sequer conseguia fixar sua atenção a não ser nos cabelos do escritor, que já escasseavam – quantos anos teria? (Sabino, 1983, p. 44). Outro caso de incongruência: — Chore, disse Rirette com calma e dignidade. Chore que isso lhe fará bem. Lulu curvou-se e começou a soluçar. Rirette a tomou em seus braços, apertando-a contra si. De vez em quando acariciava-lhe os cabelos. No íntimo, porém, ela se sentia fria e indiferente (Sartre, 1948, p. 117). MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 45MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 45 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 46 Segundo Julián Marias, o incoerente vive à margem ou contra a verdade por lhe ter medo. Há quem suspire com Goethe: “Eu quereria me pôr de acordo comigo mesmo” (1932, p. 28). Funcionaria de modo absolutamente perfeito a pessoa que conseguisse representação correta de todas as suas experiências, o que é utópico. Gasset fala, por isso, em ‘coeficiente de realidade ou de irrealidade’ (1961, p. 181). Obs.: Representação, simbolização e consciência são termos considerados sinônimos. Referem-se à representação de parte da experiência vivida. Admite graus de nitidez. O autor usa o termo subcepção (tomado de Cleary e Lazarus) para designar a discriminação de estímulos sem representação consciente. Pode o indivíduo testar a correspondência ou não correspondência entre as características que supõe possuir e as que possui de fato? Em outras palavras: se age de forma congruente ou incongruente? Sim, embora os critérios não apresentem as características da infalibilidade, são de natureza a satisfazer as exigências práticas da vida. É dupla a base a fim de controlar o caráter realista ou fantasista do self: A primeira série de critérios é de natureza subjetiva, consistindo na auscultação direta das experiências, gostos, desejos, preferências, simpatias, antipatias, tendências, estados de ânimo, etc., em face de pessoas, situações e coisas. A segunda categoria é objetiva: baseia-se na reação dos outros. Por exemplo, um indivíduo julga-se talhado a cargo administrativo. Para testar a validade da pretensão, pergunta-se, de um lado, se encontra facilidade e satisfação no planejamento, na organização, na execução de planos; se possui suficiente grau de liderança; facilidade para mobilizar cooperadores do outro lado, examina a reação dos demais em face dos possíveis candidatos: se número expressivo indicar seu nome; se louvarem sua atuação em outros postos, então é provável que realmente tenha as características que supõe possuir. MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 46MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 46 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 47 “A mim me agrada – escreve estudante universitária – a arte dramática. Gosto de representar. Acredito, por minha experiência na escola secundária, em teatrinhos de estudantes, que possuo aptidão para isso. Pelos constantes convites que recebia no Colégio, por ocasião das festinhas, sinto reforçada esta convicção.” No caso, os dois tipos de critérios são convergentes. Se, porém, houver divergência entre as duas consultas, é provável ser a autoimagem ao menos parcialmente inadequada. Ilustrando este ponto da teoria rogeriana, estudante de Curso de Pedagogia narra o seguinte fato: “Um adolescente tomara cunhado, médico, por modelo. Aos olhos dos familiares era claro que lhe faltavam condições para realizar os estudos prévios. Mas ele teimou, e tem acontecido repetir pela terceira vez o primeiro ano do segundo grau.” Parece ter ficado claro não poder o self cumprir eficientemente sua missão de guia da personalidade nem assegurar a eficácia do comportamento se não for realista, isto é, se não captar sem deformação (ao menos sem acentuadas deformações) ou filtragens o que realmente experiencia. Portanto, é condição fundamental ao funcionamento autêntico da personalidade a abertura à realidade subjetiva e objetiva. Rogers chama a tal atitude de liberdade experencial ou abertura à experiência. Sartre lhe chama de “boa fé”; e de “má fé”, à incoerência e falta de abertura: “A atitude de uma estreita coerência é a atitude de boa fé. A má fé é evidentemente uma mentira porque dissimula a total liberdade do compromisso” (Sartre, 1970, p. 260). IV. Abertura à realidade Estudante chegou à PUCRS com um curativo no nariz. Indagada pela causa da ferida, informou: MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 47MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 47 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 48 “Indo de carro por uma rua após a chuva torrencial de ontem, percebi, em dado momento, um lençol de água na minha pista. Atribuindo-o a pequena depressão do terreno, nem duvidei em continuar andando. Qual não foi minha surpresa ao cair num buraco de quase meio metro de profundidade. Aí machuquei o nariz .” O incidente mostra: — que reagimos não à realidade objetiva, mas à nossa representação (correta ou errônea) da realidade; — que à vítima faltou maior abertura à realidade, pois tivesse tido presente o fato de que, nessa época, em numerosos pontos da cidade, realizava a Prefeitura obras nas ruas, rápido relance de olhos pelos arredores do “lençol de água” (paralelepípedos e terra removidos) a teriam acautelado. Rogers, porém, refere-se, basicamente, à abertura da pessoa a si mesma. Essa atitude supõe a existência de liberdade experiencial, isto é, a possibilidade de reconhecer a existência de nossas vivências interiores (elogiáveis e desejáveis ou não). Com o decorrer do desenvolvimento, a abertura à experiência possibilita crescente diferenciação na percepção. (Ilustração, p. 38 – adaptada de W. Daim, “Transvaluation de Ia Psychanalyse’’, Paris, 1956, p. 179.) MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 48MIOLO_CRESCA-FACA-CRESCER_NOVO.indb 48 05/07/2022 15:24:3605/07/2022 15:24:36 49 Mostra de liberdade experiencial deu a estudante de Psicologia que, em dinâmica de grupo, na presença do noivo (do mesmo curso) e uma dúzia de colegas, descreveu como, em numerosas ocasiões (festas, saídas...) sentia a liberdade cerceada pelo fato de saber-se noiva. A expressão da fisionomia indicava como lhe era penosa esta verificação. Depois, sorrindo e abraçando o noivo, ao lado: — Mas, quero casar contigo! — E ele, também sorridente e compreensivo: — É bom! Quantos dos presentes terão percebido todo o alcance do ocorrido? Constituiu dos pontos altos do grupo: dois membros poderem manifestar sentimentos extremamente pessoais (ela falando; ele, pela atitude de escuta) na certeza de encontrarem aceitação recíproca. Não se quer insinuar com isso ser desejável que toda vivência interior nossa deva encontrar expressão verbal ou comportamental. Não é esse o pensamento de Carl Rogers. A liberdade experiencial ou abertura à realidade consiste, primordialmente, repetimos, na capacidade de reconhecer (o que não quer dizer necessariamente aprovar) como nossas as vivências que dentro de nós se passam: imaginações, tendências, desejos, disposições, etc., de qualquer natureza que forem. Quanto à sua manifestação em palavras ou atos, depende das circunstâncias. Ser livre também significa ser responsável (Rogers, 1961, p. 359). E ainda: expressar comportamentalmente todos os sentimentos e impulsos nem sempre constitui libertação. Casos há em que a manifestação é limitada pela sociedade, e assim deve ser. Fernando Namora (1971, p. 59-61, passim), apresenta-nos “uma das colegas, um bom humor invulnerável. — Temos de fazer engrossar este grupo das onze horas. Sinto-me mal de ser quase a única mulher entre tantos homens. Estive para lhe responder: “Não há perigo!”, mas disse, antes: — É uma boa