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pág. 1 HISTÓRIA DO DIREITO Prof.ª M.ª Yolanda Maria de Menezes Speranza Prof. Guilherme Bernardes Filho Diretor Presidente Prof. Aderbal Alfredo Calderari Bernardes Diretor Tesoureiro Prof. Frederico Ribeiro Simões Reitor UNISEPE – EaD Prof. Me. Alexander Lopes Neves Coordenador EaD de área Prof. Dr. Renato de Araújo Cruz Coordenador Núcleo de Ensino a distância (NEAD) Material Didático – EaD Equipe editorial: Fernanda Pereira de Castro - CRB-8/10395 Isis Gabriel Alves Laura Lemmi Di Natale Pedro Ken-Iti Torres Omuro Prof. Dr. Renato de Araújo Cruz – Editor Responsável Apoio técnico: Alexandre Meanda Neves Anderson Francisco de Oliveira Douglas Panta dos Santos Galdino Fabiano de Oliveira Albers Gustavo Batista Bardusco Kelvin Komatsu de Andrade Matheus Eduardo Souza Pedroso Vinícius Capela de Souza Revisão: Miriam da Costa Leite, Maria Ferreira da Conceição. Diagramação: Diego Macedo Pedroso, Hilário Alves Raimundo SOBRE A AUTORA: Advogada. Professora supervisora de estágio acadêmico no Juizado Especial Cível - Anexo Unisantos (2016). Bacharel em Direito (2008) e Mestra em Direito Internacional pela Universidade Católica de Santos (2019). Conciliadora e mediadora judicial capacitada pelo NUPEMEC-TJ/SP (2013), com atividade no anexo do Juizado Especial Cível - Anexo Unisantos. Mediadora certificada pelo Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos (ICFML). Integrante do grupo de pesquisa em Direitos Humanos e Vulnerabilidades, coordenado pela Prof. Dra. Liliana Lyra Jubilut. Professora do curso de Direito da Universidade Católica de Santos na disciplina de Conciliação, Mediação e Arbitragem. SOBRE A DISCIPLINA: A disciplina História do Direito cuida da retrospectiva histórica das bases fundamentais do Direito, procurando formular o alicerce de estudos como matéria propedêutica essencial ao bacharel em Direito com vias à habilitação profissional e formação sólida. A disciplina tem como ementa: O Direito: origem e conceito. Significados múltiplos do termo direito. O Direito na Grécia e em Roma. Os antecedentes das Instituições Jurídicas. O Direito Germânico. O Direto Feudal. O Direito Canônico: Noções Básicas e Normas Gerais. O Código de Direito Canônico. O Direito e Formação do Estado Moderno. O Direito e a Ascensão da Burguesia. O Direito Natural. Sistemas jurídicos comparados. O desenvolvimento do Direito brasileiro. O pensamento jurídico contemporâneo. Pluralismo jurídico. O contexto histórico para a inserção da proteção jurídica às minorias étnico- raciais. A ementa é construída através da cronologia histórica e da evolução dos períodos que marcam a formação do Direito enquanto ciência e enfatiza o seu desenvolvimento social ao longo dos séculos de evolução humana. Os ÍCONES são elementos gráficos utilizados para ampliar as formas de linguagem e facilitar a organização e a leitura hipertextual. SUMÁRIO UNIDADE II ............................................................................................. 05 3º Renascimento e iluminismo....................................................... 05 4º O surgimento do constitucionalismo.......................................... 16 5 UNIDADE II CAPÍTULO 3 – RENASCIMENTO E ILUMINISMO No término deste capítulo, você deverá saber: ✓ O Renascimento e surgimento da Idade Moderna; ✓ Racionalismo de Descartes; ✓ Rompimento do Poder da Igreja; ✓ O Tratado de Westfália; ✓ O Iluminismo e a crise do Absolutismo. Introdução O fim da Idade Média, marcado pelo assolamento da população pela Peste Negra, bem como pelo declínio da crença na Igreja, devido ao avanço da praga sobre o clero, colocou o Homem em uma época de reabertura do pensamento e retomada da filosofia e das ciências. Iniciou-se, assim, a era Moderna, e, com ela, o forte avanço das ciências Humanas e Sociais. Esse período foi marcado pela retomada do pensamento científico, pela reabertura do mundo às novas ideias e avanços tecnológicos, compreendendo todo o período do Renascimento e as influências do Iluminismo, bem como compreende toda a evolução dos Direitos Humanos e das Garantias Fundamentais. Neste contexto histórico, o homem ressurgiu filosoficamente como ser pensante, se desenvolveu através das ciências, distanciando-se das crenças religiosas e dogmas impostos pela Igreja. A Igreja, nesse contexto, também sofreu certo declínio, inclusive com a cisão da Igreja Católica com a Reforma Protestante. Também, é nesse período de ampliação da ciência que, por buscas econômicas, começaram as grandes navegações, na busca de rotas comerciais eficazes para a Índia, cuja necessidade emerge do fim das rotas terrestres em razão da existência das Cruzadas. Com as navegações, o novo continente foi descoberto, formando-se colônias, que, em seguida, iniciaram suas lutas pela independência. Foi no contexto dos descobrimentos que novos avanços para a História do Direito emergiram, com o reconhecimento dos direitos dos nativos, bem como pelas cartas de independência e processos de libertação das colônias, sobretudo, das colônias inglesas, que resultaram na formação dos Estados Unidos da América. 3.1 O Renascimento e o surgimento da Idade Moderna Com o fim da Idade Média, emergiu no poder político e econômico dos Estados a classe da burguesia, tendo como berço do nascimento o movimento renascentista da Itália que migrou de um sistema de riqueza baseado no domínio da terra para um conceito relacionado à riqueza proveniente do comércio. 6 O Renascimento surgiu como uma retomada do pensamento Grego da Antiguidade, desvinculando o domínio sobre o conhecimento do monopólio do clero e forçando-o a migrar para as mãos do Estado com maior difusão para o povo. Neste contexto, surgiu o pensamento que reconhece o homem como centro das coisas e afasta, em partes, o Teocentrismo, para colocar o Homem como centro do pensamento e do universo, através das doutrinas de Antropocentrismo e Humanismo. Com o fortalecimento da Burguesia, neste momento histórico, nasceram também as correntes do capitalismo e o fortalecimento da economia e do poder dos comerciantes, que exerciam, também, forte influência nas artes, tornando-se patrocinadores dos artistas (mecenas) que passaram a custear as artes desvinculadas da égide religiosa. Para o Direito, surgia, historicamente pela primeira vez, a discussão sobre o primordial Direito Humano intrínseco, a Dignidade da Pessoa Humana, por Pico dela Mirandola, colocando o ser humano como centro do Direito e da proteção Estatal. O ensino, não só de outras ciências, mas também do Direito passou a ser exercido também pelas Faculdades do Estado, e não mais apenas pelo monopólio da Igreja, fortalecendo conceitos mais livres e desvinculados dos dogmas religiosos, embora eles não tenham sido descartados. Evidentemente que os Tribunais Eclesiásticos ainda exerciam domínio nas relações científicas e culturais, porém, com cada vez menos controle sobre as doutrinas científicas que se desenvolviam. Por fim, durante o Renascimento as questões de territorialidade, como as relacionadas ao Direito Comercial, assumiram uma força maior e mais relevante, em decorrência das grandes navegações, que, inclusive, levaram Portugal e a Espanha a se tornarem grandes potências econômicas. Foi no momento do Renascimento que as potências em navegação espalharam seus conteúdos jurídicos ao Novo Mundo, como visto no capítulo anterior, entregando os conceitos já formados e consolidados em suas ordenações ao Novo Mundo. A questão da territorialidade surgiu também neste contexto, com a descoberta das novas terras e a celebração de tratados, dentre os quais o famoso Tratado de Tordesilhas, que impôs limites de dominaçãosobre o Novo Mundo, dividindo o novo continente entre Portugal e Espanha. Neste contexto, também surgiram os conceitos de tráfico negreiro, bem como a comercialização humana que, posteriormente, foram combatidos por todos os Estados, repercutindo em reflexos jurídicos encontrados nos Estados modernos até os dias atuais. 3.2 Racionalismo de Descartes O racionalismo de René Descartes surgiu no contexto do Renascimento e fortalece o rompimento do pensamento religioso, chamando à razão e à ciência desvinculada da fé a incumbência do conhecimento e da busca pela verdade dos conceitos universais. Dentre as premissas de Descartes, houve a desconstituição das verdades impostas pelo clero, ou até mesmo, das verdades popularmente conhecidas, partindo-se para a confirmação das 7 informações através de métodos de raciocínio lógico que impulsionaram todo o desenvolvimento científico do Direito atual. Pelo método do racionalismo de Descartes, questionou-se todas as verdades impostas não só pela Igreja como também por toda a sociedade, de forma que se colocou em dúvida todas as informações que existiam sobre determinados temas. O método ainda acrescentou a compartimentalização e individualização máximas das verdades em análise, tentando-se uma aproximação melhor sobre os temas, sem a aplicação da lógica sobre o todo, mas sim sobre as partes individualizadas do conhecimento. A partir do método de Descartes se reconheceu a construção dos raciocínios lógicos dedutivos e indutivos, como forma de melhor apreensão da verdade dos dados em questão. No racionalismo, emergiu a necessidade de se contestar dogmas, verdades e conceitos antes controlados pelo clero e pela Igreja, como medida de necessidade para a construção das demais ciências, pondo o debate amplo como centro de pensamento da época, em lugar do cumprimento impensado dos dogmas religiosos. A sociedade migrou de um sistema de respeito irrestrito aos dogmas, para um sistema de questionamento e avanço da razão, o que proporcionou uma desvinculação, principalmente do Direito, em relação à crença de punições divinas. Concedeu um aspecto prático e social ao Direito que outrora era controlado pela Igreja Católica. Foi com o racionalismo de Descartes, entre outros fatores, que os Estados passaram a adotar um modelo mais laico, embora não totalmente desvinculado dos dogmas cristãos, dissociando o poder político do poder religioso, ou pelo menos assegurando uma ruptura na estrutura medieval de domínio da Igreja sobre o poderio estatal. Com o racionalismo também surgiu o fim do sistema inquisitorial imposto pela Igreja, com o repúdio à tortura e maior preservação dos Direitos Humanos. Foi neste contexto e através do pensamento racionalista que surgiu para o Direito uma nova estrutura intimamente ligada ao Direito Penal, que impunha o rompimento da inquisição, como dito, bem como fez emergir corolários universais do Direito, como o devido processo legal, a individualização e proporcionalidade das penas, como também a igualdade de tratamento aos jurisdicionados, a taxatividade da previsão dos delitos (hoje ligadas ao princípio da legalidade penal), bem como a irretroatividade, com fundamento na segurança jurídica. Além disso, por essa corrente filosófica, Montesquieu também desempenhou seu papel fundamental com a teoria da tripartição do Poder, que, como visto, já foi esboçada pelos povos antigos, mas em reformulação, ganhou força com o Renascimento e com o Racionalismo, de forma que a estrutura estatal passou a ser baseada na construção dos chamados freios e contrapesos do Poder, de tal forma que pela tripartição tornou-se possível a limitação do Poder, pelo próprio Poder, em favor do povo. 8 3.3 Rompimento do poder da Igreja Durante o Renascimento a Igreja Católica Apostólica Romana, além de enfrentar a perda do monopólio do conhecimento e enfraquecimento de seu poder político, sofreu as cismas com a formação de outras variações do cristianismo e a fundação de outras correntes dogmáticas cristãs. Inicialmente, o momento de rompimento da Igreja nasceu com Martinho Lutero, como se sabe, que iniciou a Reforma Protestante ao se insurgir contra a cobrança das indulgências como perdão divino pautado para aqueles que contribuíssem financeiramente com a Igreja. Diante dessa insurgência, o então padre foi excomungado (expulso da Igreja) e tornou-se recluso, para evitar a perseguição católica. Em ato contínuo tornou a leitura da bíblia e dos textos sagrados popular, realizando as primeiras traduções do latim original, antes em domínio completo da Igreja Católica Apostólica Romana, passando o conhecimento das escrituras sagradas ao povo em geral. Com a Reforma Protestante iniciada por Lutero, que pretendia o retorno da fé católica às suas origens e dogmas baseados na humildade e renúncia as riquezas, vários outros movimentos de reforma se sucederam, não só na Alemanha (com Lutero), como na França, com Calvino, que fundou nova religião baseada em sua interpretação sobre os dogmas cristãos, bem como na Inglaterra, com o surgimento do Anglicanismo. É neste último, o Anglicanismo, que se tem a formação da fé cristã atrelada ao domínio do monarca inglês, uma vez que fora criada pelo Rei Henrique VIII e instituída como religião oficial na Inglaterra, à época, o que causou, necessariamente, grande impacto sobre o domínio da Igreja Católica Apostólica Romana. Após a cisma da Igreja e a formação de outras lideranças religiosas, a Igreja Católica iniciou, também, no momento histórico seguinte, as incursões das Cruzadas ou das guerras santas, para proporcionar a expansão de seus domínios sobre os povos (sobretudo, os muçulmanos), em detrimento de suas fés e domínios territoriais. Neste contexto de declínio do poder religioso, surgiu a corrente filosófica que defendia que o Poder Estatal deveria ser concentrado nas mãos dos governantes e desvinculado da Igreja, emergindo os conceitos de laicização dos Estados, tal qual existe atualmente. Neste contexto histórico, pensadores como Maquiavel, defensor do Absolutismo e concentração do Poder nas mãos do Monarca, como também Hugo Grotius, que enfatizou a laicização dos Estados e, jurista que era, proporcionou o entendimento amplo sobre os conceitos de Soberania estatal e enfatizou a necessidade de respeito mútuo entre os Estados na ordem internacional. Marcando esse contexto e com destaque singular, surgiram as teorias contratualistas, nas quais o povo deveria ceder ao Estado e ao Governante os poderes soberanos de governo para que se pudesse manter a paz social e o bem-estar. 9 Nas teorias contratualistas, destaca-se a teoria de Thomas Hobbes, que colocava o Estado como um monstro mítico (O Leviatã), mas necessário para o controle da natureza intrínseca autopredatória do ser humano. Apenas através do contrato social o Estado poderia evitar que o homem se autodestruísse, dada a sua natureza eminentemente maléfica. 3.4 O Tratado de Westfalia Foi no momento de declínio do poder da Igreja sobre os Estados e reafirmação da soberania que surgiu o Tratado de Westfália, pautado pela laicização dos Estados e pela afirmação da Soberania estatal e mútuo respeito entre nações. Assim, com a elaboração desse tratado, surgiram os Estados Modernos e, com eles, a liberdade de culto, a desvinculação da religião individual com a religião do governante, visto que os Estados como entes jurídicos não professariam fé imposta aos governados. Além disso, no Tratado de Westfalia alguns pontos centrais do Direito Internacional foram estabelecidos, como o respeito à soberania interna e o princípio da não-intervenção, em que não caberia a um Estado intervir no que competiria a soberania do outro. Com isso, neste momento histórico as doutrinas contratualistas surgiram com força, assegurando ao Estado a formação do caráter de ente jurídico próprio,independente da pessoa do governante ou daqueles que trabalhassem em seu desenvolvimento. Neste contexto também surgiram os conceitos de nação e os aspectos pautados pela identidade nacional como a união de pessoas que se juntam para o bem comum e através de crenças e culturas próprias e com aspectos comuns ao todo unido formador da nação. Surgiram também as ideias do Direito Natural e das questões humanitárias que seriam de interesse transnacional, emergindo, inclusive, como fator legitimador das guerras a manutenção da condição humana que fosse violada pelo exercício do poder soberano por algum governante. Neste ponto, surgiu a ideia não só dos conceitos de soberania interna, como externa, reconhecido de um país para outros, porém, subordinada às exigências da condição humana e preservação da humanidade. O momento histórico é marcado pela presença dos Estados Absolutistas, que viviam às custas do sistema tributário e dos processos de arrecadação de riquezas da burguesia, que, através do comércio, forneciam ao Estado os insumos necessários ao desenvolvimento de sua atividade de governo e sustento dos Monarcas. 3.5 O Iluminismo e a crise do Absolutismo Com a concentração do Poder nas mãos do Governante absoluto e a insatisfação da burguesia em relação à alta tributação que sofria em suas atividades comercias que sustentavam diretamente não só as estruturas do Estado, mas também todos os envolvidos no governo, surgiu o declínio do Absolutismo, começando pela Inglaterra e terminando pela derrocada do então forte Absolutismo francês. 10 Além disso, o período de crise do Absolutismo foi marcado por custosas campanhas militares que resultaram no desenvolvimento da insatisfação popular com os governantes, bem como em uma grave crise financeira que assolou o mundo moderno da época. Neste contexto de declínio dos regimes absolutistas, surgiu o Iluminismo, marcado pela Revolução Francesa e pelo rompimento do Estado absolutista francês, que foi precedido das sérias restrições impostas à monarquia inglesa, alguns anos antes. Notadamente, nessa época, a Inglaterra já vivia um estado de Direito Constitucional, marcado pela restrição do poder absoluto do Estado, como visto anteriormente, pela assinatura da Carta Magna por João sem Terra, porém, inúmeros outros atos legais foram também publicados no panorama inglês e ecoaram por toda a Europa absolutista. Já na França, a Revolução Francesa, que se verá no capítulo seguinte, foi marcada pela insatisfação das classes burguesas com os altos gastos e a forte ingerência do Monarca francês, forçando o rompimento do Estado absolutista então vigente e pela institucionalização de um estado democrático, cujo poder, embora cedido pelo povo ao governante, era exercido por via de contrato social e de acordo com os anseios de seu titular. Com o Iluminismo rompe-se o paradigma da concentração de poderes nas mãos dos monarcas e institucionaliza o que hoje se tem por estado democrático, cujo povo é o detentor e destinatário de todo o poder do Estado. Vale mencionar que os ideais do Iluminismo repercutiram não só na criação dos Estados democráticos e na queda dos regimes absolutistas, como também na independência das colônias no novo mundo. Os modelos impostos pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa ecoaram pela história de todas as nações do globo, dando início não só ao mundo moderno atual, pela doutrina democrática, como também enfatizaram a condição humana e a necessidade de preservação de direitos fundamentais replicados por todos os Estados modernos e referendados pelos novos Estados que surgiram com a independência das colônias no novo e novíssimo mundos. Considerações Finais Após o declínio da Idade Média, surge na Europa a era moderna, com o desenvolvimento dos Estados e das sociedades da época pautados pela busca da razão e aprimoramento das ciências, sobremaneira, do Direito, com o reconhecimento dos princípios de formação dos Estados e da preservação dos Direitos Humanos Fundamentais. Foi durante o Renascimento que a Igreja perdeu seu domínio sobre os Estados e também o monopólio sobre o saber, de tal sorte que os Governos começaram a difundir o conhecimento entre seus povos e proporcionar o maior avanço do saber científico. Com a desvinculação da Igreja do domínio estatal também houve a derrocada dos procedimentos inquisitoriais e o surgimento dos princípios de resguardo relativos e basilares ao moderno Direito Penal, como a legalidade penal, a isonomia, individualização das penas e demais garantias aos acusados contra a tortura ou práticas antes corriqueiras na inquisição. 11 Assim, o fortalecimento dos Estados e o surgimento das estruturas contratualistas básicas fomentaram o surgimento de Estados Absolutos e dos conceitos de soberania e nacionalidade, intimamente ligados à laicização dos governos e desvinculação da fé dos atos políticos. Com isso, o conhecimento científico se distanciou da imposição dogmática católica e os métodos científicos se alavancaram, com o predomínio da razão e da manutenção da condição humana com centro de preocupações científicas na época. O Direito Internacional surgiu com ênfase na era moderna, impulsionado por guerras e pelos avanços das navegações e comércio internacional, enraizando os conceitos de soberania estatal e não- intervenção nos Estados modernos. Também é durante o Renascimento e o desenvolvimento para o Iluminismo que tivemos o fortalecimento do contratualismo e o surgimento dos Estados democráticos de direito, que decorreram da queda dos modelos absolutistas que entraram em crise devido às campanhas militares custosas e insatisfação da burguesia com os gastos altíssimos dos governantes absolutistas. A era moderna foi de contribuição singular para o Direito tal qual existe nos dias atuais, pois foi nessa era, de Renascimento e reabertura do pensamento humano que surgiu a expansão dos conceitos jurídicos basilares do Direito moderno, bem como foi o período que marcou não só a construção do Estado Democrático de Direito, como também foi o período responsável pela consciência jurídica humana sobre a sua condição de dignidade e de direitos fundamentais. Com o fim da Idade Média, emergiu no poder político e econômico dos Estados a classe da burguesia, tendo como berço do nascimento o movimento renascentista da Itália que surgiu como uma retomada do pensamento Grego da Antiguidade, desvinculando o domínio sobre o conhecimento do monopólio do clero e forçando-o a migrar para as mãos do Estado com maior difusão para o povo. Neste contexto, surgiu o pensamento que reconheceu o homem como centro das coisas, e afastou, em partes, o Teocentrismo, para colocar o Homem como centro do pensamento e do universo, através das doutrinas de antropocentrismo e humanismo, colocando o ser humano como centro do Direito e da proteção Estatal. O racionalismo de René Descartes surgiu no contexto do Renascimento e fortaleceu o rompimento do pensamento religioso, chamando à razão e à ciência desvinculada da fé a incumbência do conhecimento e da busca pela verdade dos conceitos universais. Durante o Renascimento a Igreja Católica Apostólica Romana, além de enfrentar a perda do monopólio do conhecimento e enfraquecimento de seu poder político, sofreu as cismas, com a formação de outras variações do cristianismo e a fundação de outras correntes dogmáticas cristãs. Neste contexto histórico, pensadores como Maquiavel, defensor do Absolutismo e concentração do Poder nas mãos do Monarca, como também Hugo Grotius, que enfatizou a laicização dos Estados e, jurista que era, proporcionou o entendimento amplo sobre os conceitos de Soberania estatal e enfatizou a necessidade de respeito mútuo entre os Estados na ordem internacional. Surgiram também as teorias contratualistas como a de Thomas Hobbes, que colocava o Estado como um monstro mítico (O Leviatã), mas necessáriopara o controle da natureza intrínseca autopredatória do ser humano. 12 Foi no momento de declínio do poder da Igreja sobre os Estados e reafirmação da soberania que surgiu o Tratado de Westfália, pautado pela laicização dos Estados, e pela afirmação da Soberania estatal e mútuo respeito entre nações. Com a concentração do Poder nas mãos do Governante absoluto e a insatisfação da burguesia em relação à alta tributação que sofria em suas atividades comercias que sustentavam diretamente não só as estruturas do Estado, mas também todos os envolvidos no governo, surgiu o declínio do Absolutismo, começando pela Inglaterra, e terminando pela derrocada do então forte Absolutismo francês. Com o Iluminismo, rompeu-se o paradigma da concentração de poderes nas mãos dos monarcas e se institucionalizou o que hoje se tem por Estado democrático, cujo povo é o detentor e destinatário de todo o poder do Estado. Os modelos impostos pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa ecoaram pela história de todas as nações do globo, dando início não só ao mundo moderno atual, pela doutrina democrática, como também enfatizaram a condição humana e a necessidade de preservação de direitos fundamentais replicados por todos os Estados modernos e referendados pelos novos Estados que surgiram com a independência das colônias no novo e novíssimo mundos. Com o fortalecimento da Burguesia, neste momento histórico nascem também as correntes do capitalismo e o fortalecimento da economia e do poder dos comerciantes, que exercem, também, forte influência nas artes, tornando-se patrocinadores dos artistas (mecenas) que passaram a custear as artes desvinculadas da égide religiosa. Reflita sobre como a burguesia, no domínio do poder econômico, pôde ser capaz de fomentar a reabertura do pensamento, desvinculando o poder político da Igreja, na época do Renascimento. Com o Renascimento, o centro do pensamento humano passa a ser o próprio Homem em lugar do que antes era o pensamento religioso, colocando Deus acima de tudo, como começo, meio e fim da razão. Isso proporcionou o avanço das ciências em geral, e em especial do Direito, que passou a ser necessário como meio de pacificação social, migrando as punições por condutas inadequadas da reprovação divina para a punibilidade pelo homem. 13 Mesmo com o Renascimento, Racionalismo e Antropocentrismo dele decorrentes, a laicização dos Estados tem como marco jurídico o Tratado de Westfália. Lembrando que a laicização é a desvinculação da fé ao poder político, sendo que a liberdade de culto toma seu lugar e os Estados passam a não professar fé oficial e impositiva. Convido você a pesquisar um pouco mais sobre o Absolutismo francês, principalmente o datado da época de Luiz XV, conhecido como o Rei Sol, e perceber, com sua investigação, a força da Monarquia francesa vigente, e o tamanho do poder abusivo exercido pela realeza. Que tal conhecer um pouco mais sobre a Guerra dos 30 anos que levou à criação do Tratado de Westfália? Acesse o link: https://www.dw.com/pt-br/1648-paz-da-vestf%C3%A1lia-encerrava-guerra-dos-trinta-anos/a- 660411 QUESTÃO: O racionalismo, inaugurado por René Descartes, no início do Renascimento ficou conhecido como o movimento de reabertura da razão e predomínio da mesma sobre todos os aspectos do conhecimento. Tomando essa informação de base, assinale a alternativa que contém as contribuições do racionalismo para os métodos de raciocínio: a) Institui a percepção do conhecimento pelos métodos dedutivo e indutivo; b) Institui a percepção do conhecimento pelos métodos da interpretação bíblica; c) Institui a percepção do conhecimento pelos métodos de raciocínio baseados na fé; d) Institui a percepção do conhecimento pelos métodos de interpretação sistêmica da bíblia; e) Institui a percepção do conhecimento pelos métodos da verdade sabida imposta pela Igreja; 14 Pela questão, percebe-se que o método do racionalismo se apresenta em contraposição às verdades impostas pelo clero no período da Idade Média, baseando-se em sistemas de raciocínio pautados pela dúvida universal. Por tal motivo, as alternativas b, c, d e e se apresentam incorretas, pois repostam ao panorama de conhecimento imposto pela Igreja. Além disso, a alternativa “a” é a única que traz as contribuições reais do racionalismo, com a imposição dos métodos de raciocínio lógico, baseados na dúvida, quais sejam, os métodos dedutivos, que parte de generalizações para uma premissa específica; e o método indutivo, que parte de premissas específicas para generalizações. Além do assolamento da peste, assinale a alternativa que contém fatores que contribuíram para o declínio do poder da Igreja sobre os Estados na era moderna: a) A Primeira e Segunda Grandes Guerras; b) A Primeira Guerra Mundial; c) A cisma e as cruzadas; d) O Absolutismo francês; e) A queda do Absolutismo; GABARITO: C Questão Discursiva Retrate, em poucas palavras, qual foi a contribuição de Hugo Grotius para o pensamento absolutista da época. Obra: CARVALHO, Salo de. Da desconstrução do modelo jurídico inquisitorial. In: WOLKMER, Antonio Carlos. Fundamentos de história de direito. 3. ed. 2.tir. rev. e ampla. Belo Horizonte: Del Rey, 2006. No capítulo o autor aborda os motivos que levaram ao fim do sistema inquisitorial no decorrer do Renascimento, abordando as questões de mudança, bem como o pensamento revolucionário que trouxe ao cabo a atuação inquisitorial da Igreja. Nesse capítulo também é possível ver a abordagem do humanismo como centro do pensamento renascentista que marcou a época e a forte influência que deteve sobre a sociedade e o fim do modelo inquisitorial. 15 • Assolamento – aniquilação • Emerge – surge • Teocentrismo – Deus como centro dos pensamentos • Mecenas – burgueses que patrocinavam artistas • Égide – domínio • Laico – que não professa religião oficial • Atrelada – vinculada • Declínio – decadência ALBERGARIA, Bruno. Histórias do direito: evolução das leis, fatos e pensamentos. 3. ed. São Paulo: Kindle, 2019. WOLKMER, Antônio Carlos (Org.). FUNDAMENTOS de história do direito. 8.ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2015. ALVES, José Carlos Moreira. Direito romano. 16.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014. WOLKMER, Antônio Carlos. História do direito no Brasil. 5.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011. WOLKMER, Antônio Carlos. Pluralismo jurídico: fundamentos de uma nova cultura no direito. São Paulo: Alfa Omega, 1997. 16 UNIDADE II CAPÍTULO 4 – O SURGIMENTO DO CONSTITUCIONALISMO No término deste capítulo, você deverá saber: ✓ Declaração de Direitos na Inglaterra; ✓ Declaração da Independência dos Estados Unidos da América; ✓ Revolução Francesa e a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão; ✓ Das Convenções de Genebra à Declaração Universal de Direitos Humanos; ✓ Código Civil de Napoleão. Introdução Com o Iluminismo e as grandes navegações, inúmeros diplomas legais de suma importância surgiram no contexto histórico do Direito e que devem ser levados em consideração para a formação dos sistemas jurídicos atuais. O surgimento desses diplomas de maior relevância decorreu da mudança do panorama estatal então vigente que migrou do sistema absolutista para um sistema de governo democrático, em que o Estado Monárquico cedeu poderes ao povo contra o abuso. Diante desta situação, há que se destacar a formação das Constituições da Inglaterra, dos Estados Unidos da América e a Constituição Francesa, que trazem o conteúdo basilar relacionado aos Direitos Humanos fundamentais e que servem, atualmente, como a estrutura mestra dos Direitos Fundamentais internos dos países pelo mundo. Além disso, durante o período da era moderna, com o mundo assolado nos pós-guerras, e após a independência das colônias, novos contextos jurídicos se apresentaram e a necessidade de um direito mais sólido com elesemergiu. Dessa necessidade de uniformização do Direito, na França, surgiu, após a Revolução Francesa, o Código Civil de Napoleão, como marco histórico das codificações, sendo que, na história, foi o primeiro diploma legal a unificar a legislação especifica de um único sistema jurídico, qual seja, o Direito Civil. Notadamente, é na era moderna que os maiores avanços na ciência do Direito são realizados em aspectos normativos e inerentes ao reconhecimento de Direitos do Homem. Tais avanços repercutem na sociedade moderna até os dias atuais e tornam o Direito um instrumento válido de pacificação social, tal qual idealizado desde as eras antigas. 4.1 Declaração de Direitos na Inglaterra A Inglaterra, além da Carta Magna, trouxe ao panorama histórico do Direito mais evolução, em 1628, com a Petição de Direitos (Petition of Rights) promulgada pelo parlamento inglês que trazia em seu contexto inúmeros direitos e garantias individuais a serem asseguradas ao cidadão pelo Estado britânico. 17 O documento trouxe em seu bojo direitos importantes e com aplicação em todo o mundo, como a medida de que ninguém poderá ser preso sem a devida sentença condenatória que observe as leis do país (RAMOS, 2018). Tal documento ainda inspirou a criação do devido processo legal, bem como deu seguimento ao surgimento de outro ato importante, o Habeas Corpus Act, que consagra a medida garantidora da liberdade individual, utilizada amplamente até os dias atuais, inclusive no Estado brasileiro. Em seguida, dois anos depois, ainda na Inglaterra, foi promulgado pelo parlamento a Bill of Rights, também conhecida como Declaração Inglesa de Direitos, que consagrou e reafirmou o poder do povo limitando a atuação dos monarcas, quase que removendo todo o poder que antes possuíam. A declaração expressa em duas partes consagrou, na primeira, os motivos de relevância da normativa, expondo a situação abusiva da monarquia inglesa, trazendo à tona a violação de direitos humanos basilares da vida, elencando as restrições para as ações do Monarca em medidas de evitar o abuso de seu poder. Já a segunda parte, trouxe em si os direitos a serem assegurados ao cidadão, bem como a estrutura de representação no parlamento inglês, consagrando assim, os direitos fundamentais e humanos básicos a serem respeitados por todos os Monarcas que se sucedessem no trono. Com isso, percebe-se que as normativas inglesas, sobretudo a Bill of Rights trouxe ao contexto da história do Direito, verdadeiro marco em relação ao reconhecimento dos direitos do povo frente ao Estado, reconhecendo a limitação dos poderes e da Soberania Estatal em relação ao Poder, coibindo sua prática abusiva. 4.2 Declaração da independência dos Estados unidos da América Seguindo a forma inglesa, o Constitucionalismo surge com maior força e reconhecimento com a consagração dos direitos humanos e garantias individuais, com a Revolução Norte Americana e a declaração de independência dos Estados Unidos da América. Com a independência, surge a Constituição norte americana e a Bill of Rights desse país, que consagra, como marco histórico, direitos individuais de extrema importância, com um marco de libertação e estímulo à vida digna e livre. 4.3 Revolução Francesa e a declaração de Direitos do Homem e do Cidadão Voltando ao panorama europeu na evolução histórica, sem dúvida a Revolução Francesa rompe com o modelo de monarquia absolutista existente na França. Vale ressaltar que a monarquia francesa, historicamente, foi o modelo mais puro e concentrador de poder dentro do Absolutismo europeu. Esse rompimento com o padrão absolutista francês refletiu a evidente busca do ser humano por melhores condições de vida digna, com mais liberdade e a garantia de direitos humanos básicos, que, na monarquia absolutista, restavam diminuídos, ou suprimidos. Ramos (2018) retratou o panorama histórico da Revolução Francesa de forma bastante elucidativa, a saber: 18 Já a “Revolução Francesa” gerou um marco para a proteção de direitos humanos no palco nacional: A Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, adotada pela Assembleia Nacional Constituinte francesa em 27 de agosto de 1789. A Declaração Francesa é fruto de um giro copernicano nas relações sociais na França e, logo depois, em vários países. O Estado francês pré-Revolução era ineficiente, caro e incapaz de organizar minimamente a economia de modo a atender as necessidades de uma população cada vez maior. As elites religiosas e da nobreza também se mostraram insensíveis a qualquer alteração do status quo capitaneada pela monarquia. Esse impasse político na cúpula dirigente associado à crescente insatisfação popular foi o caldo de cultura para a ruptura, que se iniciou na autoproclamação de uma “Assembleia Nacional Constituinte”, em junho de 1789, pelos representantes dos Estados Gerais (instituição representativa dos três estamentos da França pré-Revolução: nobreza, clero e um “terceiro estado” que aglomerava a grande e pequena burguesia, bem como a camada urbana sem posses). Em 12 de julho de 1789, iniciaram-se os motins populares em Paris (capital da França), que culminaram, em 14 de julho de 1789, na tomada da Bastilha (prisão quase desativada), cuja queda é, até hoje, o símbolo maior da Revolução Francesa. Assim, com a Revolução Francesa e o surgimento do Constitucionalismo francês nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ou apenas Declaração Francesa de Direitos. Tal declaração inspirou o surgimento da Declaração Universal de Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da ONU após a Segunda Grande Guerra, juntamente com a Declaração Inglesa de Direitos. Todavia, a Revolução Francesa e a Declaração trouxeram para a disciplina de Direitos Humanos os ideais da Revolução, quais sejam, a liberdade, igualdade e fraternidade, que, até os dias atuais, norteiam o desenvolvimento dos Direitos Humanos. No texto da Declaração, em destaque, estão os direitos de liberdade e igualdade (artigo 1º), segurança e proteção contra a opressão (artigo 2º), in verbis: Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, tendo em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo social, lhes lembrem permanentemente seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do Poder Legislativo e do Poder Executivo, podendo ser a qualquer momento comparados com a finalidade de toda a instituição política, sejam por isso mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos, doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à conservação da Constituição e à felicidade geral. Em razão disto, a Assembleia Nacional reconhece e declara, na presença e sob a égide do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão: Art. 1º. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum. Art. 2º. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade a segurança e a resistência à opressão. 19 Assim, percebe-se, desde já, a determinação dos Direitos Humanos, com seu núcleo central, reforçando-se o ideal de vida digna, que deve ser preservado sob todas as formas. 4.4 Das Convenções de Genebra à Declaração Universal de Direitos Humanos Após a Revolução Francesa, outro marco para os Direitos Humanos foram as Convenções de Genebra, que somam quatro Convenções e três Protocolos suplementares. A primeira Convenção de Genebra, na Suíça, foi criada pela união de diversos Estados europeus que tinham o escopo de regulamentarcom maior preservação da dignidade humana as condições dos soldados feridos em campanhas militares, estabelecendo regras básicas sanitárias e de saúde. Com essa Convenção, nasceu a Cruz Vermelha, que apenas veio a ser utilizada na Primeira Guerra Mundial, fazendo valer melhores condições de amparo aos feridos, trazendo maior humanidade ao evento catastrófico da guerra. Em 1906, surge a segunda Convenção de Genebra, com o fito de estender a proteção dos feridos militares para os náufragos de guerra e a terceira Convenção, em 1929, que tratou especificamente dos presos de guerra e seus direitos. Com destaque, a quarta Convenção de Genebra, que ficou conhecida apenas como Convenção de Genebra, foi o documento internacional, pós-Segunda Guerra, que estabeleceu a ajuda humanitária ao cidadão de países envolvidos em guerra, regras sobre os abusos humanos, bem como realizou a revisão das demais convenções, tendo total vigência até a atualidade. Os três protocolos, respectivamente, adotaram: inclusão dos conflitos racistas e coloniais nos conflitos internacionais; proteção das vítimas de guerras civis; inclusão do cristal vermelho como símbolo de proteção das vítimas de guerra. Por fim, dentro da evolução histórica dos Direitos Humanos e sua proteção, encontra-se a Declaração Universal de Direitos Humanos, bem como os Pactos Internacionais de Direitos Civis e Políticos, e, Econômicos, Culturais e Sociais. A Declaração Universal de Direitos Humanos, surgida no pós-Segunda Grande Guerra, como reação aos horrores do evento mundial mencionado, marcado pelo holocausto e genocídio, trouxe ao cenário internacional o reconhecimento dos direitos mais basilares do homem e garantidores da dignidade humana. O documento surgiu em 1948, e tem o escopo de declarar, ou seja, reconhecer por escrito, os Direitos Humanos já existentes e inatos de todo ser, de forma que a Declaração Universal de Direitos Humanos não cria direitos, apenas reconhece e cataloga os existentes. Tal ideologia parte da premissa que todo ser humano nasce com esses direitos básicos e que nenhum dele é criação humana, devendo ser respeitado desde sempre, por todos. Sendo assim, a Declaração, atrelada à Carta das Nações Unidas, não se apresenta como pacto e não possui a força vinculante de um tratado, todavia, importa respeito por todos os países do planeta, por ser representativa de direitos inerentes à vida humana. 20 Tal assertiva pode ser confirmada pela leitura do preâmbulo da Declaração Universal de Direitos Humanos: Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo, Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum, Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão, Considerando ser essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta da ONU, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano e na igualdade de direitos entre homens e mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla, Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades, Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso, A ASSEMBLEIA GERAL proclama a presente DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIRETOS HUMANOS como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios Estados- Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição. Seguindo a Declaração Universal de Direitos do Homem, surge o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, cada um carregado de parte do texto da Declaração Universal, mas reunindo as características vinculantes dos tratados, trazendo ao texto declarado, agora, vinculação expressa das soberanias estatais Evidentemente todas as citadas normativas não resultam no rol taxativo ou limitador da evolução dos Direitos Humanos, sendo meramente exemplificativo, uma vez que não há limite para a regulamentação dos Direitos Humanos. Ainda, como Direitos de suma importância e inerentes à condição humana, devem acompanhar toda a evolução social do homem, com todo seu desenvolvimento mental e tecnológico, devendo, sempre, abranger os direitos essenciais à manutenção da condição humana. 21 4.5 Código Civil de Napoleão Após a Revolução Francesa, surgiu, durante o império napoleônico, a primeira codificação específica da história do Direito, consubstanciada no Código Civil Francês. O Diploma Civil Francês surgiu em um contexto de pressão política exercida pela burguesia, sobre o governo francês da época decorrente da enorme diversidade de sistemas normativos existentes para regular as relações de comércio e da vida em sociedade. Essa diversidade de normas causava no sistema francês uma enorme insegurança jurídica, pois o Direito Civil da nação acabava por ter normas diferentes para cada região, bem como sistemas costumeiros que não eram comuns a todo o território nacional, o que dificultava, naturalmente, a aquisição de terras, bem como o desenvolvimento de atividades comerciais. Assim, para unificar toda a normativa civil, o Código Civil instituiu como única fonte do Direito a Lei, abandonando todo e qualquer sistema costumeiro. Além disso, o sistema tornou-se referência à codificação moderna por se tratar de um diploma que tratava exclusivamente de uma seara jurídica, não confundindo normas de Direito Civil e Penal, por exemplo. O Código Civil Francês trouxe em seu conteúdo uma vasta normativa sobre a vida das pessoas em sociedade, transações comerciais, surgimento de personalidade, aspectos patrimoniais, entre outros, todos de caráter puramente civil, sem mencionar em seu conteúdo caracteres normativos referentes ao Estado ou, até mesmo, sobre o Direito Penal. Surgiu como a primeira codificação específica em matéria civil na história e instituiu o sistema jurídico do Civil Law, no qual, inclusive, o Direito Civil Brasileiro é pautado, abandonando a formação costumeira do Direito (Common Law), presente nos países de origem Anglo-saxã. Por fim, há que mencionar que o Código Civil de Napoleão trouxe aos sistemas jurídicos o fortalecimento do Poder Legislativo, como o único capaz de alterar a lei, não permitindo a alteração pelo desuso ou pela prática dos costumes. Considerações Finais Como visto, foi durante a era moderna que o Estado Constitucionalista se expandiu, contando com o reforço da burguesia na necessidade de contenção do poderio estatal concentrado nas mãos dos então monarcas. O Estado Constitucionalista trouxe em seu conteúdo uma série de limitações ao exercício do Poder Estatal em resguardo aos direitos egarantias fundamentais dos cidadãos, pautando-se pela intervenção mínima e controlada do Estado na vida privada. Com isso, e, acompanhando os ideais da Revolução Francesa, surgiram as primeiras constituições e, com elas, os Direitos Humanos enquanto disciplina jurídica. 22 Aliado a isso, com o intuito de melhor regulamentar as relações interpessoais e fazer com que o Estado desempenhasse as suas funções de forma a alcançar os desígnios do povo, surgiram também as primeiras codificações, com ênfase no Código Civil de Napoleão, como marco do sistema Civil Law, utilizado atualmente inclusive pelo estado brasileiro. Vale mencionar que a era moderna foi marcada pela guerra, não só pelas campanhas militares desenvolvidas pelos Monarcas antigos logo quando do fim da Idade Média, como também pela Primeira e Segunda Grandes Guerras Mundiais. Além disso, os conflitos voltados para a libertação das colônias provenientes das expansões das navegações também marcaram o período. Assim, o que se tem de conclusão é que o grande avanço histórico do Direito foi marcado não só pela abertura dos comércios e pela expansão naval, como, em verdade, pelas guerras que assolaram a humanidade. Por tal motivo, percebe-se a íntima relação entre o Direito, historicamente considerado, com a existência de crises a serem superadas pelas civilizações no avanço histórico, criando assim um vasto conteúdo normativo sempre com vias à garantia da condição humana. Por fim, há que se enfatizar que o desenvolvimento normativo que evoluiu ao longo da era moderna repercute nos moldes atuais, com a construção de direitos que não serão mais suprimidos ou esquecidos, posto que marcados com o sangue e a luta de civilizações inteiras. A construção histórica dos direitos alcançados na era moderna não encontra qualquer precedente e serve de alavanca para impulsionar a dilatação dos conceitos jurídicos atuais e movimentar todos os sistemas político-normativos vigentes. A Inglaterra, além da Carta Magna, trouxe ao panorama histórico do Direito mais evolução, em 1628, com a Petição de Direitos (Petition of Rights) promulgada pelo parlamento inglês que trazia em seu contexto inúmeros direitos e garantias individuais a serem asseguradas ao cidadão pelo Estado britânico. O citado documento ainda inspirou a criação do devido processo legal e deu origem ao Habeas Corpus Act, que consagra a medida garantidora da liberdade individual, utilizada amplamente até os dias atuais, inclusive no Estado brasileiro. Ainda na Inglaterra foi promulgada pelo parlamento a Bill of Rights, também conhecida como Declaração Inglesa de Direitos, que consagra e reafirma o poder do povo limitando a atuação dos monarcas, quase que removendo todo o poder que antes possuíam. Seguindo a forma inglesa, o Constitucionalismo surgiu com maior força e reconhecimento, com a consagração dos direitos humanos e garantias individuais, com a Revolução Norte Americana e a declaração de independência dos Estados Unidos da América. 23 A Revolução Francesa, que rompe com o modelo de monarquia absolutista existente na França, que, historicamente, foi o modelo mais puro e concentrador de poder dentro do Absolutismo europeu, gerou o surgimento do Constitucionalismo francês, de onde emergiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão ou apenas Declaração Francesa de Direitos. Tal declaração inspirou o surgimento da Declaração Universal de Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da ONU após a Segunda Grande Guerra, juntamente com a Declaração Inglesa de Direitos. Após a Revolução Francesa, outro marco para os Direitos Humanos foram as Convenções de Genebra, que somam quatro Convenções e três Protocolos suplementares. A Declaração Universal de Direitos Humanos, datada de 1948, surgida no pós-Segunda Grande Guerra, como reação aos horrores do evento mundial mencionado, marcado pelo holocausto e genocídio, trouxe ao cenário internacional o reconhecimento dos direitos mais basilares do homem e garantidores da dignidade humana. Seguindo a Declaração Universal de Direitos do Homem, surgiu o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, cada um carregado de parte do texto da Declaração Universal. Após a Revolução Francesa, surgiu, durante o império napoleônico, a primeira codificação específica da história do Direito, consubstanciada no Código Civil Francês para unificar toda a normativa civil, o Código Civil instituiu como única fonte do Direito a Lei, abandonando todo e qualquer sistema costumeiro. Surgiu como a primeira codificação específica em matéria civil na história e institui o sistema jurídico do Civil Law, no qual, inclusive, o Direito Civil Brasileiro é pautado, abandonando a formação costumeira do Direito (Common Law), presente nos países de origem Anglo-saxã. Com o fim da Idade Média, as grandes navegações tiveram início, e, com elas, o descobrimento do novo mundo, conhecido como o continente americano. Assim, instituíram-se as colônias no novo mundo e, com o avanço das ideias do Renascimento e do Iluminismo, repercutiram na independência dessas colônias com a formação de novos Estados. Assim, tomando por base esse momento histórico, reflita sobre como a Revolução Francesa teve influência nos movimentos de independência, e quais foram os ideais que marcaram esses movimentos. 24 Com o declínio do absolutismo, o movimento constitucionalista teve uma ampla difusão não só pelo mundo antigo como pelo mundo novo, recém-descoberto, gerando a formação de novos Estados desvinculados da coroa, bem como pautados pela preservação da liberdade e dos Direitos Humanos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o país se viu palco de um conflito de proporções inimagináveis, o que gerou a destruição dos preceitos iniciados durante o Renascimento, que deu origem às primeiras construções sobre os Direitos Humanos. Em razão disso, há uma necessária reconstrução desses Direitos, como base fundamental das relações jurídicas e estatais, de forma que as Nações Unidas se viram compelidas a formar a Declaração Universal de Direitos Humanos, que é o documento responsável por reconhecer a existência desses Direitos Fundamentais como inerentes à condição humana. Para tanto, percebe-se que após um forte rompimento, as normativas internacionais caminharam no mesmo sentido da Declaração, para dar força vinculante à necessidade de respeito a esses direitos. Procure saber mais sobre o Código Civil Francês, da época de Napoleão Bonaparte e como ele influenciou uma série de legislações civis pelo mundo, com efeitos que duram até a presente data, inclusive com forte influência sobre o Direito Civil Brasileiro. Leia o texto integral da Declaração Universal de Direitos Humanos para ter a percepção de quais são considerados os Direitos Humanos Fundamentais, e, principalmente, os motivos que levaram à sua constituição. Para isso, acesse: https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por 25 São ideais da Revolução Francesa que nortearam a criação da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão: a) Igualdade e fraternidade, apenas; b) Liberdade, apenas; c) Fraternidade, apenas; d) Igualdade, fraternidade e liberdade; e) Igualdade, apenas; A Revolução Francesa, como se sabe, foi o movimento que surgiu no Renascimento e sob influência do Iluminismo geraram o rompimento do padrão absolutista francês, pautando as relações jurídicas pela garantia de Direitos ao Homem. Os ideais dessa Revolução eram a Igualdade, estabelecendo a ausência de distinção entre os cidadãos por motivação política, de gênero ou classe social; a Fraternidade, marcando a necessidade de solidariedade entre os homens, unidos pelo bem comum; e a Liberdade, com a abordagem das garantias do Homem contra o poder abusivo dos governantes. Com isso, verifica-se queapenas a alternativa d contém todos os ideais corretos, sendo que todas as demais apresentam apenas parcela dos ideais. Questão Objetiva O Código Civil Francês, como primeira codificação historicamente reconhecida pela reunião dos aspectos legais de apenas uma seara do Direito, marcou a origem de todo um sistema jurídico, que é o sistema da: a) Common law; b) Civil law; c) Imperative law; d) Penal law; e) Administrative law; GABARITO: B Questão Discursiva Aponte os motivos históricos que levaram ao surgimento da Declaração Universal de Direitos Humanos. 26 RAMOS, André de Carvalho. Curso de direitos humanos. 5. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018, ebook. O livro retrata, em sua narrativa histórica de formação dos Direitos Humanos, o contexto histórico do pós- Segunda Grande Guerra e quais foram os fatores que levaram a reconstrução dos Direitos Humanos. Com ênfase nos horrores do Holocausto, o autor narra a retomada pelos pensadores e juristas da necessidade de reafirmação ao respeito dos Direitos Humanos Fundamentais, o que motivou a criação da Declaração Universal de Direitos Humanos, em resguardo das garantias do ser humano contra as perseguições e atos que reduzam a sua condição humana central. Suma importância – alta importância Bojo – conteúdo, corpo Fito – objetivo Escopo – objetivo Atrelada – relacionada, unida MACIEL, José Fabio Rodrigues; AGUIAR, Renan. História do direito. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 2014. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na história: lições introdutórias. 5.ed. São Paulo: Max Limonad, 2014. RAMOS, André de Carvalho. Curso de direitos humanos. 5. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018, ebook. WOLKMER, Antônio Carlos (Org.). FUNDAMENTOS de história do direito. 8.ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2015. WOLKMER, Antônio Carlos. História do direito no Brasil. 5.ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011.