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Conteudista: Prof.ª Esp. Jussara Petranski Revisão Textual: M.ª Maiara Stéfani Costa Brandão Objetivo da Unidade: Estudar como os sonhos são interpretados por Freud, e se há um fim nesse trabalho de análise e interpretação dos sonhos. 📄 Material Teórico 📄 Material Complementar 📄 Referências Interpretação dos Sonhos Introdução Ao longo desta disciplina, estudamos diversos conceitos psicanalíticos que nos amparam na compreensão dos sonhos. Nos preparamos para enfrentar a árdua tarefa de desbravar o inconsciente e seus segredos revelados através do sonho. Os sonhos são atos psíquicos válidos, valorosos, e que quando comunicados, ajudam no processo de cura do paciente. Montamos nosso arcabouço e agora concluiremos nosso mergulho neste fascinante universo. Vamos juntos! Página 1 de 3 📄 Material Teórico Figura 1 – Mecanismo do cérebro Fonte: Getty Images O Sonho Freud (2010) nos diz que o sonhar nasce do desejo de dormir, da necessidade de estar alheio ao mundo exterior, de descanso. Assim, o aparelho psíquico entra em modos mais primitivos de operação, a repressão diminui e o inconsciente fica menos preso, possibilitando o sonho. Os pensamentos latentes, desejosos de realização, pressionam para que sejam realizados, mas, durante o sono, a mobilidade do corpo fica restrita, e, por isso, esses pensamentos necessitam percorrer o caminho inverso e se realizam através do processo alucinatório do sonho. Assim, os pensamentos oníricos se apresentam em forma de imagens, de cenas, o que, como vimos anteriormente, dificulta a transcrição das conjunções. A utilidade do sonho é manter o estado de sono, dar continuidade ao dormir, evitar o acordar e, assim, proporcionar o descanso adequado ao corpo. A realização de desejos que o sonho proporciona acontece para que o indivíduo não acorde, permaneça dormindo. Nasce a Interpretação dos Sonhos A interpretação dos sonhos nasceu na própria prática da clínica psicanalítica. O início do trabalho de Freud foi com as pacientes histéricas e a hipnose, técnica que abandonou, porque nem todos os pacientes eram suscetíveis a ela. Foi com o estudo do caso da paciente chamada de - FREUD, 2010, p. 142 “O sonho, que se origina desse modo, já é uma formação de compromisso. Ele tem uma dupla função: é, por um lado, conforme o Eu, pois serve ao desejo de dormir, lidando com os estímulos que perturbam o sono; por outro lado, permite a um impulso instintual reprimido a satisfação possível nessas circunstâncias, na forma de uma realização alucinada do desejo. Mas todo processo de formação do sonho, admitido pelo Eu que dorme, é sujeito à condição da censura. Exercida pelo resto da repressão conservada.” Anna O. (atendida inicialmente pelo médico Josef Breuer, colega de Freud, com quem ele trabalhou nos primeiros anos) que Freud começou a utilizar a técnica da associação livre. A paciente de codinome Anna O. era uma jovem que foi atendida por Breuer por cerca de dois anos, a jovem levava uma vida devotada à família, e que, pela ocasião da doença de seu pai, começou a apresentar sintomas histéricos. Durante as consultas, ela gostava de falar, de contar suas histórias, e cunhou o método de “cura pela fala”, ou jocosamente de “limpeza da chaminé”. O caso de Anna foi fundamental para que Freud resolvesse adotar a fala como processo de cura e, a partir daí, a interpretação dos sonhos. - FREUD, 2019, p. 132 “Os pacientes, que eu havia obrigado a me comunicar todos os pensamentos e associações que lhes ocorressem sob determinado tema, contaram-me seus sonhos e assim me ensinaram que um sonho pode estar inserido na concatenação psíquica que podemos rastrear na memória a partir de uma ideia patológica. O passo seguinte foi tratar o próprio sonho como sintoma e aplicar a ele o método de interpretação desenvolvido para os sintomas.” Figura 2 – Caso de histeria, circa 1895 Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma mulher sentada em uma cadeira, de olhos semicerrados e mãos para cima, no primeiro estágio da hipnose. Fim da descrição. O que é Interpretar um Sonho Chamamos de estado de vigília o ato de estar acordado e ter consciência da realidade em nosso redor. Entretanto, nem sempre, mesmo em vigília, estamos atentos ao que acontece à nossa volta. Podemos estar acordados e, ao mesmo tempo, envoltos em nossos pensamentos ou em alguma ação que estejamos realizando, sem necessariamente nos darmos conta dos eventos em nosso entorno. Uma das diferenças entre a vida psíquica em vigília e o sono é que a vida psíquica em vigília acontece através de conceitos e a onírica, de imagens. Devido a essa característica da vida psíquica onírica, de acontecer de forma imagética, é que se faz necessário realizar a interpretação dos sonhos. Mas o que é interpretar um sonho? Interpretar significa trazer à luz, explicitar, revelar. Ao interpretar um sonho, nós não criamos um sentido para ele, nós trazemos à luz um sentido que já existia. E, possivelmente, não apenas um sentido, mas múltiplos, visto que os sonhos têm a característica de serem sobredeterminados, de carregarem diversos significados, porque a linguagem do sonho opera através de mecanismos de condensação, de deslocamento e de figuração, que permitem que isto seja possível. Mas por que interpretar os sonhos? Para que através da resolução dos desejos reprimidos, não realizados, o paciente tenha a descarga de energia psíquica necessária para estar em homeostase, por assim dizer, em equilíbrio. Existem ao menos três métodos de interpretar um sonho. A forma simbólica, a criptográfica e a psicanalítica. Vamos relembrar? Importante! Interpretar um sonho é trazer à luz desejos reprimidos, proporcionando o processo de cura para o indivíduo. Figura 3 – Interpretação Fonte: Getty Images Interpretação Simbólica A interpretação simbólica é o método de interpretação que trata o sonho como uma mensagem que possui um significado específico, algo como uma mensagem divina, uma premonição do futuro, um aviso ao sonhador. Nas religiões, existem muitos exemplos de sonhos tratados como mensagens divinas. Conforme Freud (2019), a interpretação simbólica é o tipo de interpretação do senso comum, que as pessoas leigas fazem. É uma forma de interpretação que requer, segundo Freud (2019), certa intuição e engenhosidade de pensamento. - FREUD, 2019, p. 127 “[...] desde sempre o mundo leigo se esforçou em “interpretar” o sonho, recorrendo a dois métodos essencialmente diferentes. O primeiro desses procedimentos mantém em vista o conteúdo onírico como um todo e procura substituí-lo por outro conteúdo compreensível e, em certos aspectos, análogo. Essa é a interpretação simbólica do sonho; naturalmente, ela fracassa desde o início no caso daqueles sonhos que parecem ser não só incompreensíveis, mas também confusos. Um exemplo de seu procedimento é, por exemplo, a interpretação que o José bíblico faz do sonho do faraó. Sete vacas gordas, às quais seguem sete magras, que devoram as primeiras — isso é uma substituição simbólica da profecia dos sete anos de fome que consomem toda a riqueza gerada durante sete anos férteis.” Figura 4 – José interpreta o sonho do Faraó Fonte: Getty Images Método Criptográfico No método criptográfico, os sonhos são lidos como um conjunto de símbolos que tem um significado predefinido, e podem ser decifrados com o uso de uma ferramenta, como um dicionário dos sonhos, por exemplo. Conhecendo o relato do sonho e de posse da chave para a decifração, no caso, um dicionário dos sonhos, o indivíduo procura, em seus verbetes, os elementos com os quais sonhou para decifrar seu significado através da união dos seus sentidos. Artemidoro de Daldis, apud Freud (2019), decifrava sonhos incluindo a análise das circunstâncias da vida do sonhador. Em sua técnica, ensinava-se que o que vem à mente do intérprete é o significado daquele sonho. Nesse método, um mesmo elemento pode significar coisas diversas para uma pessoarica, pobre, solteira, casada, jovem ou idosa. Mas, ainda assim, no caso específico de Daldis, há o problema de que a interpretação depende muito do intérprete e da chave, e não do sonhador. Em linhas gerais, nesta forma de interpretar, há uma dependência da chave usada para a interpretação. - FREUD, 2019, p. 129 “[Nota acrescentada em 1914] Artemidoro de Daldis, nascido provavelmente no século II de nossa era, nos deixou o tratado mais completo e mais cuidadoso da interpretação dos sonhos do mundo grego-romano. Como destaca Theodor Gomperz (1866), ele atribuiu grande importância à fundamentação da interpretação dos sonhos em observação e experiência e separou rigorosamente sua arte de outras artes enganosas. Segundo a exposição de Gomperz, o princípio de sua arte interpretativa é idêntico à magia, o princípio da associação. Uma coisa onírica significa aquilo que ele traz à memória. À memória do interprete do sonho, é claro! Resulta então uma fonte insegurança e arbitrariedade do fato de que o elemento onírico pode lembrar ao intérprete coisas diversas, e a cada intérprete, outras coisas.” Figura 5 – Livro antigo Fonte: Getty Images Método Psicanalítico Os sonhos, segundo Freud, são fruto, dentre outras coisas, de desejos não realizados, reprimidos ou não. Em primeiro lugar, temos que nos lembrar de que o sonho que nos recordamos é o que Freud chamou de texto do sonho, ou sonho manifesto. O que nos interessa na interpretação do sonho é todo o material que originou esse sonho que recordamos, que é o conteúdo escondido, os pensamentos oníricos latentes. A passagem dos pensamentos oníricos latentes para o sonho manifesto se dá através do trabalho do sonho. Você se recorda do trabalho do sonho? O trabalho do sonho é todo o trabalho realizado para que os desejos reprimidos, os pensamentos oníricos, sejam camuflados, disfarçados, distorcidos para que se tornem apresentáveis ao consciente. No método psicanalítico, o paciente relata o sonho, e enquanto ele o faz, evitamos a reflexão a respeito do que ouvimos. Apenas ouvimos. O que ouvimos do paciente é o sonho manifesto. Sabemos que ele é fruto do trabalho do sonho, que é o que pode ser relatado. Após ouvir, pedimos ao paciente que verbalize o que lhe vem à mente a respeito de cada elemento do sonho. A ordem na qual o paciente vai comunicar os pensamentos que lhe ocorrem a respeito dos objetos do sonho pode ou não ser cronológica. Dessa forma, o paciente nos apresenta as associações. Devemos ter em mente que as associações não são os pensamentos oníricos, mas elas contêm esses pensamentos ou pelo menos o caminho para chegar até eles. Alguns elementos do sonho, sempre os mesmos, devem ser interpretados de forma específica. São elementos recorrentes que têm um significado universal, que são interpretados de forma - FREUD, 2010, p. 132 “[...] podemos orientar o sonhador a buscar primeiro os restos diurnos do sonho, pois a experiência nos ensina que quase todo sonho inclui um resíduo de lembrança ou uma alusão a um evento – frequentemente a vários – do dia anterior ao sonho, e, quando seguimos com tais ligações, muitas vezes damos com a passagem do mundo onírico aparentemente remoto para o mundo real do paciente. Ou lhe dizemos para iniciar com os elementos do sonho que mais impressionam pela nitidez e intensidade. Sabemos que lhe será bastante fácil ter associações a partir deles. Não faz diferença por qual dessas duas formas nos aproximamos das associações buscadas.” simbólica. Possuem significado fixo, que, muitas vezes, vem do folclore, da mitologia e até de rituais. Nós não vamos discorrer sobre os símbolos fixos neste material, porque nossa intenção é de que você adquira conhecimento que lhe proporcionarão se desenvolver como profissional da área psicanalítica, que tenha entendimento dos processos, não que decore coisas que poderá facilmente acessar em seu dia a dia. Os demais elementos que fazem parte do sonho serão analisados conforme o paciente faça associações. Para que sejam feitas as associações, é necessário que o paciente suspenda seu julgamento a respeito do sonho. Mas como isso acontece? Auto-observação Acrítica - FREUD, 2010, p. 149 “Um exemplo desse tipo era o símbolo do manto ou casaco (Mantel). Dizíamos que no sonho de uma mulher o manto significava um homem. Espero que fiquem impressionados ao ouvir o que Theodore Reik nos relatou em 1920: “Na antiga cerimônia nupcial dos beduínos, o noivo cobre a noiva com um manto especial, denominado ‘aba’, dizendo as seguintes palavras: ‘De agora em diante, ninguém te cobrirá, exceto eu’” (conforme Robert Eistler, Weltenmantel und Himmelszelt [Coberta do mundo e tenda do céu, Munique, 2 vols., 1910]).” A auto-observação acrítica é o ato de suspender seus juízos a respeito tanto do sonho quanto dos pensamentos que vêm ao pensar os elementos do sonho. Quando o psicanalista pede para que o paciente, após o relato do sonho, tome cada elemento do sonho e lhe diga quais associações vem à mente, é necessário que seja praticada a auto- observação acrítica, pois o julgamento pode fechar as portas abertas pelo trabalho do sonho e impedir a interpretação. Isso acontece porque todo sonho é a realização de um desejo, mas não de qualquer desejo, de um impulso do instinto. Assim que a reflexão é subtraída, e o paciente observa os pensamentos que surgem a respeito dos elementos do sonho, aparecem ideias que, segundo o auto-observador, não são relevantes, não possuem relação com o sonho, cujas causas o paciente desconhece. São exatamente essas associações que são significativas e que trazem conteúdos que estavam reprimidos, e é através delas que poderemos solucionar o sonho. Freud, em “A Interpretação dos Sonhos” (2019, p. 132), nos diz que para que o paciente possa desligar a crítica e realizar a auto-observação, é interessante que esteja em posição de repouso, de olhos fechados. Figura 6 – Divã Fonte: Getty Images - FREUD, 2019, p. 132 “Para os fins da auto-observação com atenção concentrada, é vantajoso que ele assuma uma posição de repouso e feche os olhos; a renúncia à crítica dos pensamentos que ele percebe tem de ser imposta explicitamente. Então lhe dizemos que o êxito da psicanálise de ele observar e comunicar tudo o que passa pela mente e não ceder à tentação de suprimir um pensamento porque lhe parece irrelevante ou não pertencente ao tema, ou despropositado. Tem que adotar uma postura completamente imparcial em relação aos seus pensamentos; pois é justamente devido à crítica que ele normalmente não encontra a resolução que se busca do sonho, da ideia obsessiva etc.” Reflexão Refletir pode ser definido como o ato de pensar a respeito de algo, de considerar uma questão. É importante que saibamos que, para a interpretação dos sonhos, a reflexão acaba por ser um empecilho, pois quando consideramos uma ideia, quando pensamos a respeito de uma ideia, corremos o risco de dispensá-la prematuramente, e justamente as ideias que a reflexão descarta é que são as mais importantes, são justamente elas que escondem o reprimido que o sonho realizou. A reflexão implica em julgamento, que é justamente o que se quer evitar durante a interpretação dos sonhos. A auto-observação implica apenas em observar, e a reflexão é uma observação com caráter de apreciação, de juízo a respeito do que se observa. - FREUD, 2020, p. 382 “[...] para cada ideia patológica obtemos um material que basta para a solução dela, se dirigimos a nossa atenção justamente para as associações "não desejadas", que "perturbam a nossa reflexão", que costumam ser rejeitadas pela crítica como detrito sem valor.” “Durante o trabalho psicanalítico, percebi que a disposição psíquica do homem que reflete é totalmente diferente daquela do homem que observa seus processos psíquicos. Na reflexão entra em jogo uma atividade psíquica a mais do que na mais atenta auto-observação, como revelam também a fisionomia tensa e a testa Observar é diferentede refletir. É a reflexão, o juízo, que impede que certos desejos venham à tona. São demasiado fortes, impactantes, contrários ao que o indivíduo acredita ser o correto e isso os impede de se manifestarem. - FREUD, 2019, p. 133 Importante! Quando o paciente consegue se posicionar de forma acrítica, abre espaços para que esses pensamentos se manifestem, o que permite a interpretação dos sonhos e auxilia enormemente no processo de cura. enrugada do homem que reflete, em contraste com a expressão tranquila daquele que se observa. Em ambos os casos precisa haver uma concentração da atenção, mas o homem que reflete também exerce uma crítica, em virtude da qual ele rejeita uma parte dos pensamentos que nele emergem, após tê-los percebido; outros ele interrompe imediatamente, de modo que deixa de seguir os caminhos que teriam aberto; diante de outros pensamentos ele se comporta de maneira tal que nem chegam a alcançar sua consciência, porque são suprimidos antes de serem percebidos.” Observação Ao observar o relato do sonho e depois fazer a associação livre com os seus elementos, percebe- se que essas associações não são os pensamentos oníricos, mas, como Freud diz, elas os contêm, de certa forma. Através da observação das associações feitas pelo paciente, é possível perceber as conexões mentais que tiveram de ser realizadas para se chegar à interpretação, mas nem sempre os pensamentos oníricos estão contidos nas associações. Em algumas vezes, segundo Freud, as associações fazem alguma alusão, se aproximam dos pensamentos latentes, mas não se identificam. Alguns elementos do sonho não requerem associações feitas pelo sonhador, eles comumente possuem um significado fixo, simbólico, que se repete nos sonhos. Esses elementos são traduzidos por si só, mesmo que o sonhador não consiga realizar nenhuma associação com eles. Método da Divisão Para conseguir realizar a auto-observação acrítica, é importante, segundo Freud, que o indivíduo compreenda que não é possível fazê-la olhando para o sonho como um todo. É necessário olhar os elementos. A interpretação dos sonhos é uma atividade complexa, e por isso é importante manter um registro do sonho, pois, ao longo do dia, os detalhes se esvanecem. Assim, é interessante o paciente registrar o sonho logo ao despertar. Sabemos que, ao registrar o sonho, você realiza uma elaboração sobre ele, mas é importante manter todos os detalhes vivos na memória, pois os pequenos elementos normalmente são os mais significativos. Após ouvir o relato inicial, solicite ao paciente que relate tudo o que lhe vem à mente em relação a cada elemento do sonho, mesmo que pareça insignificante. Essas associações podem ser memórias, sentimentos ou pensamentos. Isso deve ser feito com todas as partes do sonho. Coletadas as associações, tente encontrar conexões entre elas e os elementos do sonho. Isso ajuda a revelar pensamentos inconscientes, desejos reprimidos ou conflitos internos. Com base nas associações e símbolos, trabalhe junto com o paciente para chegar a uma interpretação que possa fornecer insights sobre a mente inconsciente. O Sonho da Monografia Botânica Vamos juntos analisar um sonho de Freud, no qual ele mostra como as situações do dia a dia se mesclam com desejos reprimidos, sentimentos e pensamentos para compor um sonho. Note que o desejo realizado pode não estar explícito no sonho, e pode não ser algo muito estrondoso e espetacular, pode ser até bastante simples. Importante! Lembre-se de que alguns elementos do sonho são símbolos com significados universais, como o simbolismo sexual. Preste atenção a esses elementos. A primeira informação que a análise de Freud nos traz é que, pela manhã do dia do sonho, ele tinha visto uma monografia sobre uma planta. Também faz a associação com as flores favoritas de sua esposa, cíclames, e que não lhe dava flores com muita frequência, o que lhe dava certo sentimento de culpa. Freud conta que, certa vez, uma paciente sua, Sra. L., chorou, porque seu marido esqueceu seu aniversário e não lhe deu flores, ao que ela interpretou como um sinal de desinteresse. Essa paciente tinha recentemente se encontrado com a esposa de Freud e perguntou sobre ele. São resquícios de acontecimentos recentes mesclados com o sentimento de Freud. Faz também uma ligação com um ensaio que escreveu sobre a coca, mencionando a propriedade anestésica do alcaloide cocaína, e que, nos dias anteriores, havia pensado a respeito dessa planta, inclusive devaneando a respeito de uma cirurgia de glaucoma que faria (de forma fantasiosa) incógnito e na qual seria mencionado pelo cirurgião o uso anestésico da planta, sem saber que estava operando Freud, que um dia mencionou seu uso em um ensaio. Freud conta que não deu continuidade a essa pesquisa, mas a comentou com um amigo, que levou adiante esse estudo e apresentou a descoberta como sendo de sua autoria, situação sobre a qual ele tinha ressentimentos. Assim, ao escrever uma monografia sobre uma planta, ele realizava um desejo de ser reconhecido por um trabalho nessa área. A menção ao herbário carrega lembranças da época do ginásio, quando Freud, não muito familiarizado com a botânica, precisou limpar um herbário. São recordações de sua juventude. Sobre ele estar vendo a monografia, faz referência ao fato de um amigo dizer que "via" (visualizava) o trabalho de Freud a respeito dos sonhos antes de sua publicação, e que Freud invejava essa capacidade de visualização do colega. - FREUD, 2019, p. 204 “Escrevi uma monografia sobre determinada planta. O livro está diante de mim, estou abrindo uma página com uma ilustração colorida dobrada. Cada exemplar contém um espécime da planta, semelhante a um herbário.” Sobre a folha de ilustração dobrada, Freud diz que se trata do interesse que ele possuía nas ilustrações de arquivos sobre medicina, além de elementos de sua infância. A análise de Freud a respeito do sonho não está completa, nem foi feita até os limites possíveis, mas, a partir dela, podemos ver como diversos elementos diferentes podem se combinar e aparecerem simultaneamente em um mesmo elemento de um sonho. O Umbigo do Sonho Nem todo sonho pode ser interpretado, porque a resistência opera com intensidades diferentes em cada sonho. Além da resistência, há um momento no qual não conseguimos mais interpretar um sonho, o que Freud chamou de umbigo do sonho: “[...] Cada sonho tem pelo menos um ponto em que ele é insondável, um umbigo, por assim dizer, com o qual ele se vincula ao desconhecido” (FREUD, 2019, p. 143). - FREUD, 2010, p. 135 “As manifestações dessa resistência não podem ser ignoradas no decorrer do trabalho. Em alguns lugares as associações se fazem sem hesitação, e já a primeira ou segunda coisa que ocorre ao paciente traz a explicação. Em outros ele para e vacila antes de apresentar uma associação, e é frequente ouvirmos uma longa série de coisas que lhe ocorrem, até obter algo de útil para a compreensão do sonho. Quanto mais longa e tortuosa a cadeia de associações, tanto mais forte é a resistência, é a nossa fundamentada opinião.” Freud (2019) descreve claramente o umbigo do sonho: Esse ponto, o umbigo do sonho, é um ponto no qual não se encontram mais associações, por mais que se tente. Ainda assim, não é correto dizer que se interpretou o sonho à exaustão, ou que se encontrou todas as associações, porque pode acontecer de, ao longo do tempo, aparecerem novas associações que ajudam a elucidar o sonho. O fim da interpretação não está necessariamente em uma relação de identificação com o umbigo do sonho. Podemos dizer que o umbigo do sonho é uma fronteira, depois dele está o inconsciente, que não pode ser diretamente acessado. É como olhar para um buraco negro, há um limite que não pode ser ultrapassado, mas que não necessariamente significa que não tem um conteúdo. - FREUD, 2019, p. 575 Em Síntese Nesta unidade, vimos as formas de interpretar sonhos e qual é o “Com frequência, até mesmo nos sonhosmais bem interpretados há um ponto que temos de deixar obscuro, pois na interpretação percebemos que ali há um novelo de pensamentos oníricos que não é possível desembaraçar, mas que também não contribuiu muito para o conteúdo do sonho. Esse, então, é o “umbigo” do sonho, o ponto em que ele assenta no desconhecido.” esqueleto do método psicanalítico de Freud para fazê-lo. Nesta disciplina, mergulhamos na teoria freudiana sobre a interpretação dos sonhos, desvendando as complexidades e os enigmas que permeiam o mundo onírico. Ao encerrar esta disciplina, é fundamental destacar as principais aprendizagens e reflexões que permearam nossa jornada. Para compreender a interpretação dos sonhos de Freud, é essencial situá-la em seu contexto histórico e na trajetória da psicanálise. O início do século XX viu o florescimento dessa teoria revolucionária, que lançou as bases para a compreensão da mente humana de uma maneira inédita. Freud nos ensinou que os sonhos são portas para o inconsciente, revelando desejos, conflitos e mecanismos de defesa que, muitas vezes, permanecem ocultos em nossa psique. Eles servem como um espelho de nossas angústias e anseios, uma linguagem que nossa mente utiliza para expressar o inexprimível. Na prática clínica, a interpretação dos sonhos mantém sua relevância, auxiliando terapeutas a desvendar os conflitos psicológicos de seus pacientes e oferecendo insights valiosos para o processo terapêutico. A análise dos sonhos é uma ferramenta que permanece viva e dinâmica. Os sonhos, em sua complexidade, nos lembram que a realidade é multifacetada, repleta de camadas que esperam ser exploradas. Eles nos desafiam a ir além do óbvio e a considerar as dimensões ocultas de nossa existência. Encerro esta disciplina com a convicção de que a busca pelo conhecimento e a compreensão é uma odisseia que vale muito a pena. Foi um prazer imenso dividir estes momentos com você! Até a próxima! Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livro A Clínica Psicanalítica na Contemporaneidade BACKES, C. A clínica psicanalítica na contemporaneidade [online]. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007, 118 p. ISBN 978-85-386-0387- 0. Vídeos Mal-estar, Sofrimento e Sintoma Página 2 de 3 📄 Material Complementar Freud Explica nossa Relação com a Tecnologia? Aula com Pedro de Santi | Casa do Saber Mal-estar, Sofrimento e Sintoma | Christian DunkerMal-estar, Sofrimento e Sintoma | Christian Dunker Freud explica nossa relação com a tecnologia? - Aula com Pedro dFreud explica nossa relação com a tecnologia? - Aula com Pedro d…… Freud's Last Session | Teaser Trailer FREUD'S LAST SESSION | Teaser Trailer (2023)FREUD'S LAST SESSION | Teaser Trailer (2023) FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Trad. Walderedo I. de Oliveira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. FREUD, S. Obras completas. Trad. Paulo C. de Souza. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. v. 4. FREUD, S. Obras completas. Trad. Paulo C. de Souza. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. v. 5. FREUD, S. Obras completas. Trad. Paulo C. de Souza. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. v. 13. FREUD, S. Obras completas. Trad. Paulo C. de Souza. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. v. 16. FREUD, S. Obras completas. Trad. Paulo C. de Souza. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 18. Página 3 de 3 📄 Referências