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LEGISLAÇÃO CIVIL APLICADA II Silvia Cristina da Silva Revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna Bacharel em Direito Especialista em Direito Ambiental Nacional e Internacional e em Direito Público Mestre em Direito Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito Miguel do Nascimento Costa Bacharel em Ciências Sociais Especialista em Processo Civil Mestre em Direito Público Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin - CRB -10/2147 L514 Legislação civil aplicada II / Fabiana Hundertmarck Leal... [et al.] ; [revisão técnica: Gustavo da Silva Santanna, Miguel do Nascimento Costa]. – Porto Alegre: SAGAH, 2018. 380 p. : il. ; 22,5 cm ISBN 978-85-9502-428-1 1. Direito civil. I. Leal, Fabiana Hundertmarck. CDU 347 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 2 22/05/2018 13:31:12 Da posse Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Analisar as formas de aquisição, transmissão e extinção da posse, as suas teorias e modalidades. Explicar os efeitos materiais e processuais da posse. Classificar as espécies da posse. Introdução O artigo 1.196 do Código Civil de 2002 dispõe que se considera possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade (BRASIL, 2002). A posse é uma matéria bastante controversa no Direito Civil, mas ao longo dos anos foi salvaguar- dada pelo Direito, em nome do interesse social e da manutenção da paz. Neste capítulo, você vai analisar as formas de aquisição, transmissão e extinção da posse, bem como suas teorias justificantes. Você também vai aprender os efeitos materiais e processuais da posse e explorar as suas espécies. Generalidades da posse A posse é considerada um dos temas mais controversos do Direito Civil. No ordenamento jurídico brasileiro, a posse está disciplinada no Código Civil de 2002, nos arts. 1.196 a 1.224. De acordo com o artigo 1.196, “considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade” (BRASIL, 2002, documento on-line). Coelho (2012, p. 12), por sua vez, define que: [...] posse é o exercício de fato de um ou mais poderes característicos do direito de propriedade. [...] Quem titula a posse de algum bem age, assim, tal como seu proprietário. O possuidor pode ser, e muitas vezes é, também o titular do Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 279 22/05/2018 13:31:52 direito de propriedade. Mas, mesmo não sendo o proprietário, o possuidor tem certos direitos tutelados pela ordem jurídica. Aliás, ele está protegido, em alguns casos, até mesmo contra o proprietário. Assim, existe a proteção da posse quando esta corresponder ao direito de propriedade; mas também é conferida proteção quando se tratar de figura autônoma e independente do título. Com esse escopo, são dois os fundamentos da posse: o jus possessionis e o jus possidendi. O jus possessionis (posse formal) deriva da posse autônoma e independente de título. Gonçalves (2012) explica que este é o direito baseado no fato da posse, de modo que o possuidor fica protegido contra terceiros e contra o próprio proprietário, situação que só mudará pelas vias ordinárias. É importante compreender que a tutela da posse está calcada no princípio fundamental da inércia (OLIVEIRA ASCENSÃO apud GONÇALVES, 2012); ou seja, mantém-se tudo como está para evitar desgastes desneces- sários, de modo que, quando alguém exerce poderes sobre algo, a aparente titularidade enseja a permissão jurídica para que assim continue aparentando, sem maiores justificações. O outro fundamento da posse é, justamente, o que requer o título devi- damente transcrito, o chamado jus possidendi (posse causal). O possuidor se encontra em uma situação na qual, de fato, aparenta ser o proprietário. Na maioria das vezes, o possuidor é realmente o proprietário — revelando que a inércia é a forma mais adequada de se buscar saber quem é o titular. Entretanto, pode acontecer de o possuidor não ser o proprietário; aí surgem duas possibilidades: se o titular não reivindicar a sua propriedade, a inércia acabará por garantir ao possuidor o direito à aquisição da coisa possuída por meio da usucapião; o titular reclama pela entrega da coisa possuída por outra pessoa, valendo-se dos meios judiciais para reivindicar, por meio de uma ação de reintegração de posse, por exemplo. Em suma, a lei socorre a posse enquanto o direito do proprietário não des- fizer esse estado de coisas e o sobrelevar como dominante. O jus possessionis persevera até que o jus possidendio extinga (GONÇALVES, 2012). A fim de explicar o conceito de posse enquanto direito, a doutrina se divide em dois grupos de teorias principais, as subjetivas e as objetivas. Da posse280 Da posse280 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 280 22/05/2018 13:31:52 A teoria subjetiva se baseia nos estudos promovidos por Savigny, segundo o qual devem ser levados em consideração dois elementos quando se fala em posse: o corpus e o animus. Corpus é o elemento objetivo que tem a ver com a detenção física da coisa; já animus diz respeito à componente subjetiva que reflete a intenção do sujeito em possuir a coisa. Para as teorias subjetivas, portanto, é imprescindível que, para se caracterizar a posse, seja detectado o animus; ou seja, o sujeito precisa ter a intenção de ter a coisa para si. A fragilidade da teoria reside nas situações em que a pessoa possui a coisa, inclusive por meios judicialmente fundados, mas por não ter a intenção de tê-la como sua (o animus), não poderia se tratar de posse e, assim sendo, não haveria qualquer proteção à sua situação por meio das ações possessórias. É o caso do contrato de locação: uma vez que o locatário não tem a intenção volitiva de ter para si o bem alugado, é como senão exercesse a posse. O mesmo se estende a situações como aquelas do arrendatário e do usufrutuário. Por outro lado, o ladrão, o bandido ou quem conseguiu a posse por meio da violência, por ter inquestionado animus de tomar a coisa como sua, teria garantida a proteção da posse por meio dos remédios trazidos pelas ações possessórias. Isso seria um absurdo jurídico, porém, a reflexão é bastante interessante e conduz a um claro entendimento do porquê a teoria objetiva logrou mais êxito que a subjetiva (GONÇALVES, 2012). Para as teorias objetivas, advindas do pensamento de Ihering, bastaria o corpus para se caracterizar uma relação de posse. Entretanto, o corpus não é instituído como mero contato, mas sim como a externalização de uma conduta de dono. Nas palavras de Gonçalves (2010, p. 23): Tem posse quem se comporta como dono, e nesse comportamento já está incluído o animus. A conduta de dono pode ser analisada objetivamente, sem a necessidade de pesquisar-se a intenção do agente. A posse, então, é a exteriorização da propriedade, a visibilidade do domínio, o uso econômico da coisa. Ela é protegida, em resumo, porque representa a forma como o domínio se manifesta. No Brasil, a teoria objetiva teve mais aceitação, como denota a literalidade do art. 1.196 do Código Civil, porém, ela vem sendo permeada pelas teorias sociológicas. Conforme as teorias sociológicas, há que se considerar o caráter econômico e a função social da posse, uma vez que, não sendo observada a importância desses elementos, a posse pode, até mesmo, vir a se sobrepor ao direito de propriedade. 281Da posse 281Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 281 22/05/2018 13:31:52 Para a teoria subjetiva de Savigny, se faltar o elemento animus, não existe posse, mas mera detenção. Para Ihering, a detenção está em último lugar no que se refere às relações jurídicas entre pessoa e coisa. Para o autor, em primeiro lugar está a proprie- dade, em segundo, a posse de boa-fé, em terceiro, a posse, e só depois viria a figura da detenção (GONÇALVES, 2010). O art. 1.198 do Código Civil estabelece que: Art. 1.198 Considera-sedetentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas. Parágrafo único. Aquele que começou a comportar-se do modo como prescreve este artigo, em relação ao bem e à outra pessoa, presume-se detentor, até que prove o contrário (BRASIL, 2002, documento on-line). A detenção tem a ver com aquele que exerce uma relação de domínio, não por interesse próprio, e sim de outra pessoa. Parece muito com a posse, mas não é igual; por isso, não gera os mesmos efeitos daquela. São exemplos de detenção: os caseiros e os zeladores; os soldados em relação às armas no quartel; o preso em relação às ferramentas que utiliza; o servo da posse. Tampouco há posse de bens públicos. Veja os arts. 1.208 e 1.224 do Código Civil, e 183 e 191 da Constituição Federal. Ainda neste tópico, veremos as formas de aquisição, transmissão e extinção da posse. O art. 1.204 do Código Civil estabelece que: “adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade” (BRASIL, 2002, documento on-line). Para se considerar a aquisição da posse, deverão estar presentes os se- guintes elementos: a apreensão da coisa, o exercício do direito e a disposição facultativa do direito (LISBOA, 2012). A doutrina explica que a posse se adquire originariamente pela apreensão. Os modos derivados da apreensão são a disposição da coisa, o exercício de um direito real e a transmissão da posse, por traditio brevi manu ou por constituto-possessório (LISBOA, 2012). Vejamos cada uma dessas modalidades. Apreensão: é quando o sujeito se apodera de alguma coisa com a intenção de possuí-la, pouco importando o título. A apreensão concreta Da posse282 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 282 22/05/2018 13:31:52 ou real ocorre quando existe o contato físico entre o sujeito e a coisa. Neste caso, pode ocorrer a apreensão concreta da coisa imóvel (seja pela presença do adquirente no imóvel, seja pelo ingresso no imóvel) e da coisa móvel (o mero contato físico com a coisa). Além disso, pode existir a figura da apreensão sem o contato físico; seria a chamada apreensão ficta ou simbólica. Esta também pode ocorrer com a coisa imóvel (por exemplo, pela entrega das chaves de um bem ao adquirente ou ao seu representante) e com a coisa móvel (quando ocorre entrega do bem a terceiro, entrega da coisa em imóvel do adquirente, inserção de marca ou sinal designativo da aquisição do bem). Exercício de um direito real: a possibilidade de alguém exercer um direito real sobre a coisa indica que esta coisa está em sua posse, con- figurando uma forma de aquisição da posse. Transmissão real e ficta: a posse pode ser adquirida pela transmissão, que se concretiza pela tradição (traditio). Para que a tradição ocorra, o transmitente e o adquirente devem ser capazes, observadas as imposi- ções da lei. Ela pode se dar consensualmente, com a entrega do bem ou com sua entrega simbólica. No primeiro caso, se trata de uma tradição real ou concreta; no segundo, de uma tradição ficta ou simbólica. Essa tradição consensual, por sua vez, pode se efetivar de duas maneiras, pela traditio brevi manu ou pelo constituto-possessório. ■ Traditio brevi manu: quando o possuidor de um bem que está em nome alheio passa a possuí-lo como coisa própria (por exemplo, um arrendatário que compra a propriedade pelo exercício do direito de opção de compra). ■ Constituto-possessório: quando um possuidor que possui algo em nome próprio, passa a possuí-lo em nome alheio. Lisboa (2012) ex- plica que o constituto-possessório “é a cláusula contratual mediante a qual se entende realizada a tradição ficta da coisa, mantendo-se o transmitente na sua posse, porém em nome alheio”. Fica autorizado ao transmitente permanecer na posse do bem adquirido por outra pessoa, como quando se reconhece a posse de uma coisa que está registrada no nome de outra pessoa. Durante o constituto-possessório, o adquirente obtém a posse indireta (por exemplo, uma doação com cláusula de usufruto). Uma questão se coloca evidente: quem poderá realizar a aquisição da posse? O próprio interessado, o representante do incapaz, o mandatário e o terceiro sem mandato, que é o caso do gestor de negócios. 283Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 283 22/05/2018 13:31:53 A transmissão da posse se dá nos termos do art. 1.206 do Código Civil: “a posse transmite-se aos herdeiros ou legatários do possuidor com os mesmos caracteres” (BRASIL, 2002, documento on-line). O princípio da continuidade do caráter da posse é aplicável na matéria de transmissão da posse, pois, em regra, deverão ser mantidos os atributos da aquisição da posse. O Código Civil estabelece também que a posse do imóvel presume a posse das coisas que nele estiverem, pelo menos até que se prove o contrário (o acessório segue o principal). Segundo o art. 1.223 do Código Civil: “perde-se a posse quando cessa, embora contra a vontade do possuidor, o poder sobre o bem, ao qual se refere o art. 1.196” (BRASIL, 2002, documento on-line). Quanto às formas de extinguir a posse ou de se perder a posse, podemos citar o abandono, a tradição, a destruição, a colocação fora do comércio, a posse de outrem e o constituto-possessório (GONÇALVES, 2010). Vejamos sinteticamente cada uma delas: Abandono: quando o possuidor renuncia à posse (por exemplo, quem joga fora algum objeto que lhe pertencia). Tradição: quando existe a intenção definitiva de transferir a posse a outrem (por exemplo,venda de coisa com a transmissão da posse ao adquirente). Destruição: o nome é autoexplicativo; uma vez que o bem ou a coisa possuída for destruída, não haverá mais a posse. Colocação fora do comércio: quando o bem ou coisa possuída se torna inaproveitável ou inalienável. Posse de outrem: quando surgir uma posse nova, mesmo que a con- tragosto do antigo possuidor. Constituto-possessório: assim como forma de aquisição, é forma de perda da posse para uma das partes envolvidas. Por exemplo, quando um proprietário aliena seu imóvel, mas segue nele residindo por meio de um contrato de locação; desse modo, ele perde a posse indireta na figura de dono, se tornando o locatário, o possuidor indireto. Efeitos da posse A doutrina se estende exaustivamente acerca dos efeitos materiais e pro- cessuais da posse. O Código Civil encara as situações decorrentes da posse Da posse284 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 284 22/05/2018 13:31:53 nos arts. 1.210 a 1.222. Neste tópico, serão analisadas, de forma bastante resumida, as consequências desse instituto. A posse assegura a proposição de determinadas ações judiciais em defesa dos direitos do possuidor. A posse é um instituto que muito se aproxima da teoria civilista, com a aplicação processual do tema, como explica Coelho (2012, p. 25): “as relações complexas entre os direitos do possuidor e os do proprietário somente se entendem no contexto das medidas processuais ma- nejáveis por cada um deles”. Pode-se dizer que um dos efeitos processuais decorrentes da posse cor- responde à garantia de defesa da posse por meio das ações possessórias, ou seja, por meio da manutenção e da reintegração da posse, dos interditos possessórios e da autodefesa. Antes de detalharmos as possíveis ações possessórias, é imprescindível compreender dois conceitos: o esbulho e a turbação. A turbação é o ato que tem o poder de limitar, agredir ou embaraçar o direito de uso da posse, por exemplo, cortar árvores, derrubar cercas. Pode ser uma turbação de fato, quando implicar em uma agressão material contra a posse, ou pode ser de direito, quando judicial ou administrativamente alguém contesta a posse. O esbulho ocorre quando, por meio de violência, clandes- tinidade ou abuso de confiança, a posse for retirada do possuidor, total ou parcialmente (por exemplo, imóvel não devolvidoou invadido). Para defender a posse, então, caberão diferentes tutelas civis, como as que seguem. Autotutela ou autodefesa: é a possibilidade de o possuidor defender a sua posse por meio da legítima defesa, desde que o faça logo e dentro do que seria considerado suficiente para manter ou restituir a posse (veja o art. 1.210, § 1º, do Código Civil). Legítima defesa da posse: é a resistência contra a turbação. Desforço imediato: resistência ao esbulho. É mais amplo que a mera defesa, pois implica em um esforço para recuperar a posse subtraída. Manutenção e reintegração de posse: ambas consistem em defender a posse judicialmente. Em caso de turbação, o possuidor mantém sua posse; já no esbulho, fica privado dela. Portanto, a ação de manutenção de posse é ajuizada pelo possuidor que sofrer turbação, com o fim de se manter na posse, receber indenização ou obter a penalização de quem o molestar. 285Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 285 22/05/2018 13:31:53 A ação de reintegração de posse é ajuizada por quem tem a sua posse esbulhada (perdida por meio de violência, clandestinidade ou precariedade). O possuidor poderá intentá-la contra o esbulhador e contra quem receber a coisa esbulhada, tendo conhecimento da sua origem. Veja, a seguir, os mecanismos processuais de defesa da posse. Interdito proibitório: é a ação que previne eventuais ataques à posse; é um meio de defesa que o possuidor tem para situações em que preveja um futuro esbulho ou uma futura turbação. Nunciação de obra nova: é uma ação que pretende impedir que a posse venha a ser molestada por uma obra nova que um vizinho almejar construir. Tem o condão de embargar a obra ou impedir a construção. Ação de dano infecto: é uma possibilidade de prevenir que uma demo- lição ou um vício de construção de um imóvel vizinho cause danos ao bem que se possui. Pleiteia-se uma indenização pelos danos futuros. Tem finalidade puramente acautelatória. Ação de imissão de posse: é a aquisição da posse pela via judicial. Embargos de terceiro senhor e possuidor: é um processo acessório que socorre os bens de quem, mesmo não sendo parte no litígio, acaba por sofrer turbação ou esbulho em sua posse, por causa de penhora, depósito, arresto, sequestro, venda judicial, arrecadação, arrolamento, inventário, partilha ou outro ato de apreensão judicial. Outra implicação processual decorrente da posse refere-se ao direito do possuidor em relação aos frutos da coisa possuída. Os frutos poderão ser pen- dentes, quando estiverem unidos à coisa principal, percebidos, quando forem colhidos, estantes, quando armazenados para venda, percipiendos, quando deveriam ter sido, mas ainda não foram colhidos, e consumidos, quando foram utilizados pelo possuidor e por isso não mais existem. Em regra, o possuidor tem direito aos frutos percebidos enquanto a posse perdurar. Os frutos pendentes, caso a posse seja encerrada, deverão ser restitu- ídos. Aquele que possui de má-fé responde pelos frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, não foram percebidos, desde o momento em que se revestiu de má fé. A perda ou deterioração do bem que estava sob a tutela do possuidor pode gerar a obrigação de indenizar o proprietário, sendo observado o co- nhecimento, ou desconhecimento, do vício que poderia prejudicar o bem. O possuidor de boa-fé não terá que arcar com os danos que não tenha originado. O possuidor de má-fé deverá arcar pela perda e pela deterioração que tenha Da posse286 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 286 22/05/2018 13:31:53 levado a cabo, salvo se conseguir provar que o mesmo teria acontecido se o bem ou a coisa estivesse na posse daquele que a reivindica. No que tange às benfeitorias introduzidas pelo possuidor, caso este venha a perder a posse, poderá demandar a indenização, variando conforme a ex- tensão do direito, da natureza das benfeitorias e em função da boa ou má-fé envolvida. O possuidor de boa-fé deverá ser indenizado pelas benfeitorias úteis (as que aumentam ou facilitam o uso da coisa principal) e necessárias (as que visam à conservação da coisa principal), e até mesmo pelas voluptuárias (as supérfluas, mas que de todo modo facilitam a utilização da coisa prin- cipal). Caso não lhe seja pago o valor referente às benfeitorias, o possuidor poderá retirá-las, sem prejuízo da coisa ou do bem em si. Além disso, poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e das benfeitorias úteis. Em se tratando de possuidor de má-fé, a situação será distinta: serão ressarcidas somente as benfeitorias necessárias. Não lhe é garantido o direito de retenção em relação ao valor das benfeitorias úteis, tampouco pode reaver o valor das voluptuárias. A posse pode, por fim, transformar o possuidor em proprietário por meio de usucapião, situação em que a posse mansa e incontestada se transforma em propriedade pelo decurso do tempo. Veja os arts. 1.238 a 1.244 do Código Civil. Principais classificações A posse tem diferentes espécies e pode ser classifi cada de maneira diversa de modo a facilitar a compreensão do instituto, bem como de seus efeitos jurídicos. Na esteira das classifi cações elencadas por Tartuce (2016), vamos analisar cada uma das modalidades a seguir. Primeiramente, quanto ao desdobramento da posse (art. 1.197 do Código Civil), a posse poderá ser direta ou indireta. A posse direta é exercida por quem possui a coisa materialmente (por exemplo, locatário, depositário, comodatário e usufrutuário). A posse indireta é exercida por outra pessoa; geralmente é um desdobramento do direito de propriedade (por exemplo, locador, depositante, comodante e nu proprietário). Quanto à presença de vícios objetivos (art. 1.200 do Código Civil), a posse poderá ser justa ou injusta. A posse justa, como o próprio nome diz, é a posse sem vícios, a posse limpa. A posse injusta é aquela que foi adquirida por meio de ato violento, clandestino ou precário. 287Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 287 22/05/2018 13:31:53 A posse injusta, por sua vez, se desdobra em posse violenta, clandestina e precária. A posse violenta é obtida por esbulho, pela aplicação de força física ou violência moral; é assemelhada ao crime de roubo pela doutrina. A posse clandestina é obtida às escondidas, de forma oculta, sendo aproximada à figura de furto. Já a posse precária é obtida com abuso de confiança ou abuso de direito e remete ao crime de estelionato ou à apropriação indébita; o exemplo seria quando um locatário de um bem móvel não o devolve ao final do contrato. Tartuce (2016) enfatiza alguns pontos acerca da posse injusta, destacando-se os se- guintes pontos: 1. apenas uma das características expostas já é suficiente para classificar a posse como injusta; 2. a posse injusta também pode ser defendida por ações de juízo possessório, não contra aquele de quem se tolheu a posse, mas em face de terceiros; 3. de acordo com o art. 1.208 do Código Civil, combinado com o art. 558 do Có- digo de Processo Civil (CPC), as posses injustas por violência ou clandestinidade podem ser eventualmente convalidadas, o que não se estende à posse precária. Este, pelo menos, era o entendimento majoritário, o qual tem sido questionado pelo enraizamento da teoria da função social da posse, em que, se houver uma alteração substancial na causa, a posse precária pode ser convalidada, impondo uma necessidade de análise caso a caso; 4. os vícios sob análise não interferem nos efeitos da posse, seja na questão dos frutos, das benfeitorias ou das responsabilidades; para isto, o que se considera é se a posse é de boa ou má-fé; 5. quem tiver posse injusta não pode adquirir o bem por usucapião. A classificação da posse poderá ser quanto à boa-fé subjetiva ou intencio- nal (art. 1.201 do Código Civil). Nesse aspecto, a posse poderá ser de boa-fé ou de má-fé. A boa-fé acontece quando o possuidor ignora ou desconhece os víciosou obstáculos que lhe impediriam de adquirir a coisa ou quando exista um título que fundamente a posse. A má-fé ocorre quando o possuidor, sabendo do vício existente, ainda assim pretende concretizar o seu domínio fático sobre o bem; não há um título justo. Vale dizer, todavia, que o possuidor, mesmo na posse de má-fé, tem direito de ajuizar ação possessória para se proteger de um ataque de terceiros. Da posse288 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 288 22/05/2018 13:31:53 Novamente Tartuce (2016, p. 928) destaca um ponto crucial. As classificações quanto aos vícios objetivos e quanto à boa-fé subjetiva não se confundem, justamente por esta tratar de critérios subjetivos que envolvem a crença da pessoa, e aquela focar apenas em critérios objetivos. Logo, posse justa não se confunde com posse de boa-fé, nem a posse injusta com a posse de má-fé. Um exemplo para fixar essa observação é o da pessoa que compra um bem roubado sem saber; seria uma posse injusta, mas de boa-fé. Agora, o locatário que pretende adquirir o bem por usucapião na vigência do contrato exemplifica o caso de uma posse justa, mas de má-fé. Quanto à presença do título, a posse será com ou sem título. Quando existir o título, se trata de um documento ou da vigência de um contrato de locação ou comodato. Sem título, por sua vez, é quando inexiste uma causa representativa da transmissão do domínio fático; por exemplo, quando alguém encontra um tesouro inesperadamente. Quanto ao tempo, a posse será nova se for de até um ano, e velha, a partir de um ano e um dia. Veja o art. 558 do CPC de 2015. Quanto aos titulares da posse, podemos falar em posse exclusiva, composse e posses paralelas. A posse exclusiva é a posse de uma só pessoa. A composse é realizada quando houver duas ou mais pessoas exercendo poderes possessórios sobre a mesma coisa. A composse pode ainda ser classificada em pro indiviso ou pro diviso, indivisível ou divisível, res- pectivamente. Na primeira, os compossuidores terão direito à uma fração ideal da posse (por exemplo, irmãos que são donos de uma fazenda para produção de hortaliças). Na segunda, é possível determinar a parte de cada compossuidor (por exemplo, dois irmãos que são donos de uma fazenda dividida ao meio por uma cerca, na qual de um lado um irmão cultiva laranja e, do outro, um irmão planta cana). A posse paralela é aquela em que há uma superposição de posses, por exemplo, a posse direta e indireta sobre um mesmo bem. Finalmente, quanto aos efeitos, a posse será ad interdicta ou ad usucapio- nem. A posse ad interdicta é a que pode ser defendida pelas ações possessórias diretas ou interditos possessórios. A posse usucapionem, que é exceção, é a posse que, ao se prolongar no tempo, conforme disposto em lei, poderá conduzir à aquisição da propriedade. Deverá ser uma posse mansa, pacífica, duradoura, ininterrupta e com a intenção de dono. 289Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 289 22/05/2018 13:31:53 1. Sobre o conceito de posse, é correto afirmar que: a) a posse deriva do direito de propriedade, sem dele se diferenciar. b) a posse, por não ser expressão do direito de propriedade, não pode ser defendida pelas ações possessórias. c) o Direito não está confortável com a figura da posse, por isso, atua positivamente para transformar a posse em propriedade. d) posse e propriedade são sinônimos. e) a posse é um instituto de direito civil independente e autônomo (jus possessionis). 2. Sobre a posse, podemos afirmar que: a) se o titular não reivindicar a sua propriedade, a inércia nunca terá o condão de acabar por garantir ao possuidor o direito à aquisição da coisa possuída por meio de usucapião. b) o jus possidendi dispensa o título devidamente transcrito. c) a teoria subjetiva leva em consideração o corpus e o animus, dando ênfase a este último. d) a teoria objetiva da posse foi defendida por Savigny. e) a teoria objetiva da posse não leva em consideração o agir como dono do bem ou da coisa. 3. Sobre as modalidades de aquisição da posse, assinale a alternativa correta. a) A apreensão é uma modalidade derivada da aquisição da posse. b) A tradição será apenas real ou concreta. c) Só pode dispor da coisa quem a possui, por isso a disposição da coisa é uma modalidade de aquisição da posse. d) A apreensão pode ser real, ficta ou mista. e) Colocação fora do comércio e abandono são formas de aquisição da posse. 4. Sobre as ações possessórias, pode-se dizer que: a) a autotutela corresponde aos mecanismos de legítima defesa e desforço imediato, sendo que o primeiro coíbe o esbulho, e o segundo, a turbação. b) a ação de reintegração de posse coíbe a turbação, enquanto a ação de manutenção de posse coíbe o esbulho. c) o interdito proibitório tem natureza preventiva. d) ação de imissão de posse, ação de dano infecto, embargos de terceiro senhor e possuidor não têm a ver com ações possessórias. e) a nunciação de obra nova nada tem a ver com o vizinho do bem ou da coisa. Da posse290 Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 290 22/05/2018 13:31:54 BRASIL. Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 8 maio 2018. COELHO, F. U. Curso de Direito Civil: direito das coisas e direito autoral. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. GONÇALVES, C. R. Direito Civil brasileiro: direito das coisas. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 5. GONÇALVES, C. R. Sinopses jurídicas. Direito das coisas. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 3. LISBOA, R. S. Manual de Direito Civil. Direitos reais e direitos intelectuais. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 4. TARTUCE, F. Manual de direito civil. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, São Paulo: Método, 2016. Leitura recomendada SEMENSATO, A. Os efeitos do vício na aquisição da posse. Disponível em: <https://adrie- lesemensato.jusbrasil.com.br/artigos/420362811/os-efeitos-dos-vicios-na-aquisicao- -da-posse>. Acesso em: 8 maio 2018. 5. Acerca das diferentes classificações da posse, assinale a opção correta. a) Não há preocupação com a posse ser de boa ou má-fé, pois ela obedece a teoria objetiva. b) Toda posse justa será uma posse de boa-fé. c) A posse injusta poderá ser violenta ou clandestina, mas nunca precária. d) A posse violenta se equipara ao crime de roubo, enquanto a posse precária remete ao estelionato ou à apropriação indébita. e) A posse injusta não poderá ser protegida pelas ações possessórias. 291Da posse Legislacao_Civil_Aplicada_II_Book.indb 291 22/05/2018 13:31:54 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm http://lesemensato.jusbrasil.com.br/artigos/420362811/os-efeitos-dos-vicios-na-aquisicao- Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Conteúdo: