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SINESTESIA
Copyright © Cora Menestrelli
Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera
coincidência. Esta obra foi escrita e revisada de acordo
com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de
qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios –
tangíveis ou intangíveis – sem o consentimento escrito
da autora. A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido pela Lei nº 9.610 de fevereiro de 1998 e
punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Revisão: Ana Maria Mendes
Diagramação: Cora Menestrelli
Leitura crítica: Georgia Hartmann
NOTAS DA AUTORA
Olá! Se você não me conhece e esse é o seu primeiro
contato com a minha escrita: prazer, meu nome é Cora.
Se você já me conhece, eu ainda sou a Cora.
Sinestesia é o meu mais recente lançamento – ou,
pelo menos, é nesse agosto de 2022 –, e eu mal podia
esperar para colocá-lo no mundo.
Acho importante deixar muito claro que, assim como
mais recente e querido, Sinestesia também é o livro onde
eu mais trabalhei alguns sentimentos e situações difíceis
e delicadas. Além de homofobia e menção ao racismo
existente no meio do automobilismo e no nosso dia a dia,
há também assuntos como abandono e abuso
parental, agressão física, morte, pensamentos
autodestrutivos e/ou depressivos.
Também há linguagem e conteúdo sexual
explícitos. Tudo isso torna esse livro indicado para
pessoas maiores de 18 anos.
Dito isso, prosseguir com a leitura é de sua
consciência. Espero que aproveite e goste, e não hesite
em comentar a leitura comigo, por mensagens ou me
marcando em postagens! Eu vou adorar ver.
SOBRE O CORAVERSO
O Coraverso é o universo compartilhado entre os
livros escritos por mim, Cora Menestrelli. Isso significa
que seus personagens podem interagir entre seus livros.
Sinestesia conta com outros personagens presentes
em Metanoia e O que você não vê, mas a leitura
prévia destes não é obrigatória para o entendimento
dessa obra – apesar de recomendada.
PLAYLIST
Sinestesia conta com uma playlist criada para deixar a
experiência de leitura ainda melhor. Você pode encontrá-
la acessando o código abaixo:
Ou pelo link:
https://open.spotify.com/playlist/2ekcpYqpHNCgMteMOyP
moS?si=3aef8c4036814ca5
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Para aquele que me juntou a minha melhor matilha,
me levou aos amores mais genuínos – em outras pessoas
e em mim.
Esse livro não existiria sem você. Ou só existiria em
uma versão bem menos legal – e sofrida.
João Vitor.
PRÓLOGO (flashback)
Você poderia ter sido muito melhor.
Era a única coisa que se passava pela cabeça de
Alexandre Duarte quando ele saiu do carro. Era capaz de
ser o melhor em um treino, e sabia disso. Era ridículo
como aquela semana parecia estar indo contra ele.
Talvez fosse a pista, o clima ou o que parecia não ter ido
embora de um pequeno resfriado da semana anterior.
Ou, talvez, fosse mesmo sua culpa. Talvez não fosse
tão bom assim e não merecesse estar ali.
Ridículo, Alexandre.
O rapaz forçou um sorriso simpático na direção do
mecânico, que deu alguns tapinhas no seu ombro ao
passar por ele. Por alguns minutos, poderia fingir que
estava minimamente satisfeito com aquela manhã.
Não demorou para que ele percebesse que o clima
não era o mesmo de sempre. Ao seu redor, a maioria dos
mecânicos olhava na sua direção sem dizer uma palavra
sequer. Quando perceberam o seu olhar, fingiram estar
ocupados demais com outra coisa.
Bom, merda. Talvez estivesse ainda pior do que o
imaginado.
— Cara, já te falaram de quem tá por aí? —
Alessandro, seu colega de equipe, o acompanhou entre
os corredores da área da equipe. O italiano parecia tão
empolgado que Alex quase considerou que poderia ser
alguém como a Beyoncé ou Doja Cat, talvez.
— Não tô sabendo — negou, livrando-se da parte
superior de seu uniforme. Se Alessandro notou a sua
completa indiferença, não demonstrou.
Não era pessoal, Alex adorava seu colega de equipe.
Eram bons colegas, porque chamar de amigo ainda seria
demais, apesar da rivalidade natural. Mais uma vez, era
apenas o seu dia ruim. Sua semana ruim, na verdade.
Precisava de um banho. Gelado.
— O Nikolaev, cara! — Alessandro exclamou, e uma
parte de Alex pareceu acordar com aquela informação.
Não era a Beyoncé ou a Doja Cat, mas era Ivan
Nikolaev. Não era todos os dias que recebiam um
pentacampeão e diretor-executivo da equipe que mais
chamava a atenção pelas últimas três temporadas. Alex
diria quatro, pessoalmente. Astoria já se mostrava
promissora desde antes da entrada do russo, apenas
com Bruno Campos como piloto. Com ambos como uma
equipe, então, Scuderia Astoria já estava
automaticamente na história.
Alex não precisava nem citar a parte da vida pessoal
dele. Precisava?
De qualquer forma, ainda era Ivan Nikolaev que
estava em algum lugar próximo a eles. Alexandre crispou
os lábios. Astoria não tinha grandes ligações com
qualquer equipe de Fórmula 2, então era difícil imaginar
o que a principal figura deles poderia estar fazendo ali.
— Disseram que ele passou pelo pessoal da Alpha,
então… sei lá, talvez queira conversar com o Beck.
Aposto que tem gente pra caralho de olho nele —
Alessandro continuou, parando ao seu lado quando
chegaram na porta de sua sala. — Eu mataria pra ter a
chance de chegar perto dele. Uns cinco metros tava bom,
nem preciso de um abraço.
— Se brincar, ele até já foi embora. — Alex balançou
a cabeça, passando os dedos entre os fios loiros e suados
antes de abrir a porta. — Pessoas como ele não param
pra fotos. Se você fosse o Beck, talvez conseguisse.
Ele parou, porque havia alguém na sua sala.
Não qualquer pessoa, mas Ivan Nikolaev. O ex-piloto
russo parecia confortável no sofá, folheando uma revista
enquanto esperava por alguém.
Enquanto esperava por Alexandre, claramente. Era a
porra do seu espaço.
Pelo menos, Alessandro não precisaria matar
ninguém para chegar perto dele.
Alex piscou, paralisado. O rapaz genuinamente não
conseguia se lembrar de uma fase em sua vida em que
não soubesse quem Ivan era. Então, lá estava ele. De
perto. No seu território. Olhando na sua direção como se
esperasse por qualquer reação.
Alex adoraria reagir, mas estava ocupado demais
fitando-o para isso.
— Quem de vocês é Alexandre Duarte? — O homem
se pôs de pé. Ele sabia qual deles era Alexandre, a julgar
pela forma como seu olhar continuava preso ao loiro. Era
como um convite, uma nova chance para Alex apresentar
qualquer sinal de vida. Reaja, Alexandre.
Muito se falava sobre a postura intimidadora de Ivan
Nikolaev. Alex achava que era uma besteira, um exagero.
Alguém como Ivan podia intimidar qualquer pessoa, mas
talvez houvesse uma glorificação a mais.
Não, não havia. Ivan era quase dois metros de
energia de alguém que parecia capaz de te esmagar com
duas palavras, sem qualquer força física. Talvez, apenas
uma única palavra.
Um soco de Alessandro em sua costela o fez acordar.
Porra, que dor.
— Oi — guinchou, sentindo a voz falhar como se
ainda estivesse na puberdade. Patético. — Sou eu.
— Perfeito. — Ivan inclinou suavemente a cabeça,
ocupando-se em uma análise. Alexandre estava suado e
acabado, o pior visual possível para encontrar alguém
como Ivan Nikolaev. — Quantos anos você tem,
Alexandre?
Quantos anos eu tenho mesmo?
— Vinte e um.
— Ótimo. — Ótimo para quê? — Eu procurei sobre
você e achei interessante. Ângelo trabalhou comigo por
muitos anos, e eu nunca soube sobre filhos.
É claro que esse assunto viria em algum momento.
— Eu sou adotado — explicou, simplista. Quando
percebeu que poderia ter soado quase ácido demais para
uma conversa com aquele cara, continuou: — O que
vocês devemnão era uma questão de ser cuidadoso
ao extremo. Alexandre sabia que era apenas uma
questão da oportunidade perfeita para que fizessem algo
que não estava no seu roteiro. Foda-se a sua reputação,
existiam pilotos como ele que faziam merdas realmente
grandes e não perdiam nada.
Ser bissexual não deveria ser algo grande.
Realmente não era, no fim. Em um processo de
autodescoberta relativamente recente, se considerasse
que só passou a entender sobre isso depois de se mudar
para a Austrália com Nicole e Ângelo, aos dezoito anos,
ainda era o tipo de assunto que ele preferia manter para
si, para as pessoas em quem confiava, para sua família.
Não em sua vida pública – mesmo que sua vida
romântica e sexual fosse um tópico de suma importância
por onde quer que ele passasse, aparentemente.
Não era nada demais, mas era algo seu. Algo que
não devia ao mundo. Quando se sentisse seguro,
confiante e pronto dentro de si mesmo quanto a isso, não
teria problema algum em contar. Ser um homem
bissexual no automobilismo não seria fácil, Bruno e Ivan
falavam muito sobre isso desde o dia em que foi pego
por eles aos amassos com um mecânico da equipe.
Costumava ser um tanto menos cuidadoso quando o
mundo ainda não o tinha como uma figura de destaque
no esporte.
Mas tinha o direito de querer manter algumas coisas.
Não tinha?!
Deveria ter. Deveria ser mais fácil. Momentos como o
que tivera na noite anterior reforçavam o quanto queria
ser capaz de apenas sair sem se preocupar com quem
estava olhando, quem estava gravando, quem falava
com ele.
Sim, ressaca moral. Era isso que estava o deixando
tão fora de sua zona de concentração fundamental para
um dia de classificatórias.
— Ei, eu vou pegar alguma coisa para comer — disse,
ao sair de sua sala, encontrando Ivan no meio do
caminho. — Quer também?
— Aceito um sanduíche vegetariano, por favor — o
russo respondeu, enquanto digitava algo em seu celular.
— Ah, e outro pro Bruno.
— Eu deveria fingir surpresa? — ironizou, rindo baixo
quando o chefe de equipe chutou levemente o seu pé
quando passou por ele.
Alexandre arrumou os fios acastanhados para trás,
ajustando o boné roxo da Scuderia Astoria sobre eles. O
piloto apoiou os braços sobre o balcão da lanchonete
montada na área da equipe, pedindo por uma salada –
porque não tinha o costume de comer nada que fosse
pesado antes de entrar no carro – e dois sanduíches
vegetarianos.
Enquanto esperava, Alexandre olhou ao redor. Viu
pessoas de outras equipes circulando, preparando-se
para a tarde de classificatórias. Ele acenou para o piloto
de outra equipe que passou por perto, mas parou no
meio do movimento, quando outra pessoa entrou no seu
campo de visão.
Alguém que nunca esperaria ver ali.
Basile. O mesmo cara que havia levado para o seu
quarto na noite anterior.
Com todo o uniforme da Ritz-Carlton. O uniforme da
equipe que infernizava a sua vida e de toda a sua equipe
desde o momento em que pisou em um autódromo para
seu primeiro teste como piloto de Fórmula 1, anos antes.
E antes disso, quando sequer pensava em estar naquela
equipe.
Aparentemente, era difícil aceitar que outras equipes
podem ter resultados melhores que as suas. Por anos
consecutivos.
Baz poderia estar ali – inesperadamente – com o
uniforme de qualquer equipe, e talvez Alexandre não se
importaria tanto. Mas estava com eles. Conversava com
um mecânico deles.
A garganta de Alexandre secou quando seu olhar
cruzou com o do rapaz francês. Não, ele não estava triste
– por que se sentiria triste por alguém que sequer
conhecia? Poupe-me. Estava com raiva pra caralho. Se
pudesse, se não estivessem cercados de pessoas, Alex o
quebraria ali mesmo.
E era o tipo de raiva que já não sentia há tanto, tanto
tempo.
Mas ele manteve a mesma expressão indiferente
antes de desviar o olhar do rapaz tatuado. Não deixaria
que algo vindo da Ritz-Carlton o afetasse em um sábado.
Poderia se importar com isso quando descesse do pódio,
no dia seguinte.
— Obrigado — disse, piscando na direção da
atendente quando ela entregou os sanduíches e a salada.
Alexandre não conseguiu dar uma mordida sequer na
sua comida. Talvez porque estivesse preocupado demais
em quanto tempo teria até que saísse em todos os sites
de fofocas possíveis que alguém – uma fonte anônima,
talvez nem tanto –, um homem, passou uma noite com o
piloto mais recente da Scuderia Astoria. Talvez ainda
comentasse que ele, a revelação da temporada, também
participava de atividades ilegais, como rachas noturnos.
Ou, talvez, tudo aquilo se tornasse apenas uma
grande piada interna entre a equipe. O que não era uma
opção muito melhor, se parasse para analisar.
Alexandre se sentiu tão burro, fodidamente burro.
Porque na única noite em tempos que resolvia abaixar a
guarda, acabava na direção da equipe rival.
Antes de afastar o pensamento, ele mandou uma
mensagem para Jolene.
Alex: Não se surpreenda se a minha carreira for pro
lixo essa semana.
— Quero você no carro em cinco minutos, Alexandre.
— Ivan bateu em sua porta, mas não pareceu esperar por
uma resposta antes de se afastar.
Alexandre grunhiu no instante em que saiu da sala,
porque um homem com uma câmera gigante o esperava
do lado de fora.
Um péssimo momento. Desde o ano anterior, um
aplicativo de streaming havia começado um reality show
que acompanhava todas as equipes durante o ano
inteiro. Seria algo legal, se não fizessem questão de
partir para o sensacionalismo a cada oportunidade.
— Ei, cara. Não é um bom dia — murmurou,
passando pelo homem.
— O que aconteceu, Alexandre?
— Vocês não estavam acompanhando a Adlon esse
final de semana? — resmungou em resposta, passando
os dedos entre o cabelo antes de ajustar a balaclava
sobre a cabeça.
— Estamos passando por todas as equipes dessa vez.
— Bom, eu preciso me concentrar. — O piloto sorriu
simpaticamente na direção da câmera. — Por favor.
Valeu.
Alex não precisou insistir muito mais para que ele se
afastasse, o que foi, de certa forma, um alívio.
Ao se aproximar de Ivan, tentou manter a postura
mais natural possível. Porque se Ivan percebesse o quão
tenso estava desde o dia anterior, depois de toda a
questão com seu convidado, mais um daqueles discursos
sobre foco e concentração rolariam.
— Ei, tá sabendo se a Ritz andou contratando
recentemente?
— Não que eu saiba. Por quê?
— Pensei ter visto uns rostos novos, mas deve ser
engano.
Ivan balançou a cabeça.
— Eles estão quietos esses dias, devem estar
ocupados com algo.
Tipo, usando novos funcionários para conseguir
informações polêmicas sobre mim apenas pelo prazer de
infernizar a nossa vida?
Não, ele não contaria para Ivan. Porque nada seria
capaz de piorar ainda mais o seu final de semana do que
a expressão decepcionada de Ivan Nikolaev. Poucas
coisas faziam com que Alexandre quisesse enfiar a
cabeça em um buraco e nunca mais sair do que essa
possibilidade.
— Ei, tudo bem? — Um dos seus mecânicos bateu no
seu ombro suavemente, quando já estava no carro. —
Você tá quieto.
Alexandre balançou a cabeça.
— Sabe como é, um pouco difícil focar hoje.
— Relaxa, cara. Não é o circuito mais difícil pra nós.
Realmente não era. Pensar nisso foi a sua deixa para
deixar um tanto da tensão para trás.
Porque não podia se deixar afetar por isso a partir do
segundo em que os motores rugiam ao seu redor.
— Certo, Alex. Nós conversamos sobre como seria. —
A voz de Ivan soou no seu ouvido, e Alex apertou o
volante ao ver o carro Ritz-Carlton alguns metros na sua
frente. Aproveitariam a reta da largada para uma
ultrapassagem.
Alexandre estreitou os olhos. Ao lado do carro,
conversando com o piloto, estava Basile. Como um
bom… foda-se o que ele era naquela equipe. Agente
infiltrado. Mecânico. Fazia sentido que ele fizesse parte
dela. Fazia tanto sentido que Alex quase perdeu sua linha
de foco mais uma vez.
Teria perdido se não fosse o rádio soando no seu
ouvido.
Uma corrida nunca era como a anterior, e não
apenas pelamudança de posições e circuitos. O clima,
seu humor e até mesmo o público no autódromo faziam
toda a diferença, e talvez fossem as coisas que
Alexandre mais admirava naquele esporte desde sempre.
As cores, as experiências. Nunca se tornaria repetitivo,
mesmo que ele passasse décadas naquilo.
Quando a largada foi dada, ele não hesitou em usar o
máximo não apenas de si, mas também do seu carro. Os
primeiros segundos eram quase tão importantes quanto
todo o resto, então se prender ao único objetivo inicial de
ultrapassar o carro verde que largou na sua frente era a
única possibilidade.
Alexandre o fez. Pouco antes da curva, na parte
inferior da pista, o piloto acelerou o suficiente para
passar pelo rival.
— Isso foi perigoso, Alex — Ivan alertou no rádio.
— Como o Bruno tá? — perguntou, ignorando o
puxão de orelha.
— Acabou de recuperar e está em terceiro.
Alexandre soube manter a sua posição na primeira
parte da corrida. Laurent, o piloto da Ritz, ainda
conseguiu chegar perigosamente perto em algumas
curvas, mas ainda tinham a vantagem.
Vantagem que pretendiam manter pelo resto da
corrida.
— Box, Alex. Box. — O rádio soou em seus ouvidos, e
Alex devolveu uma afirmação imediatamente.
O pneu macio foi trocado por um duro em pouco
mais de dois segundos, deixando apenas uma vantagem
mínima para a equipe rival.
Uma vantagem que Alexandre, com pneus novos,
não pretendia ter dificuldades para recuperar.
— Pare de ser tão agressivo, Alexandre — Ivan
tornou a alertar após a segunda tentativa do piloto de
ultrapassar o carro. — Você não precisa disso.
Ah, eu preciso. Alex balançou a cabeça, contendo a
resposta.
A disputa pelo primeiro lugar continuou, mas Alex
não estava preocupado. Em algum momento, o outro
carro também precisaria parar nos boxes.
Alexandre recuperou a primeira posição quando
faltavam apenas dez voltas para o final, com Bruno logo
atrás e uma vantagem incrível sobre as outras equipes.
Não tinha absolutamente nada a reclamar sobre sua
equipe, mas a capacidade de seguir com estratégias que
sempre davam certo apesar de imprevistos ocasionais
era a sua parte favorita.
Quando completou a última volta, ele se permitiu
relaxar. Algo tinha acontecido conforme os seus planos
naquele final de semana.
Bruno o abraçou quando saíram dos carros, dizendo
algo sobre “incrível” que Alexandre não conseguiu
entender graças ao zumbido no seu ouvido e, como
sempre, comemorações dos mecânicos e público ao
redor. Cumprimentou Laurent, que parecia satisfeito com
o terceiro lugar.
Mas Alex tornou a fechar a expressão quando, ao
virar-se na outra direção, viu Baz aplaudindo os três
pilotos ao lado do resto da Ritz. Aparentemente, não
conseguiu esconder a expressão, porque Bruno bateu no
seu ombro.
— Ei, já acabou. Relaxa. — O piloto mais velho mirou
na direção em que ele estava olhando antes que pudesse
desviar. — Eles fizeram alguma coisa hoje?
— Eles me irritam naturalmente. — Alex tirou as
luvas para limpar o suor do rosto com uma toalha,
indicando o outro lado da pista com o queixo. — Sua vez
de dar a entrevista.
Bruno ergueu uma sobrancelha, como se a resposta
do mais novo não o convencesse. Ainda assim, se
afastou para dar a típica entrevista de todo fim de
corrida.
Foi um esforço não tornar a olhar para o outro lado,
onde Baz estaria.
Alexandre afastou o pensamento quando a sua vez
de ser entrevistado chegou.
Afinal, era o seu momento. Ninguém iria estragar
isso. Nem mesmo a presença de Baz ao lado de toda a
Ritz-Carlton quando subiu no pódio. Os olhos presos aos
seus, erguendo uma sobrancelha quando não conteve a
expressão irritada na sua direção.
Foda-se. Alex focou na presença e apoio de sua
própria equipe, no abraço que recebeu de Ivan quando
desceu do pódio. Na comemoração dos mecânicos
responsáveis pelo seu carro. Na mensagem que seus pais
enviaram para o seu celular, além de uma de Jolene e até
mesmo de Mariana. Pessoas com quem se sentia seguro
e confortável, pessoas com quem sabia que não
precisava fingir ser alguém que não era.
Alexandre se permitiu, por um momento, esquecer
tudo sobre Basile.
Mesmo que não tenha durado muito. Quando fechou
a porta da própria sala atrás de si, encharcado de
champanhe e suor, viu o francês confortavelmente
acomodado em seu sofá, folheando uma revista
brasileira que ele provavelmente não saberia traduzir
uma palavra sequer.
— Que porra você tá fazendo aqui?
Basile o encarou, a expressão neutra. Parecia
pensativo.
Alexandre parecia possesso. E estava.
— Você quase bateu umas cinco vezes hoje — Baz
disse, calmamente. — Alguma coisa te irritou?
Como caralhos ele havia chegado até ali sem ser
notado?
— Eu não quase bati umas cinco vezes hoje. Dá o
fora.
— Bom, eu acho que quase bateu, sim. — Basile
largou a revista sobre a mesinha, ainda percorrendo a
sala como se tivesse todo o direito de estar ali. —
Parabéns pelo pódio, de qualquer modo. Merecido.
— Não quero que me parabenize. Não cabe a você
dizer o que eu mereço.
— Não seja uma criança, Alexandre.
O queixo do piloto quase caiu.
— Uma criança?!
— Pirraça por conclusões precipitadas não é algo que
eu esperaria de você, para ser sincero.
— A conclusão de que você foi pra cama comigo pra
me ferrar?
— Calma lá, mon chéri — Baz sorriu, quase irônico. —
Até onde eu me lembro, foi você quem me convidou.
Insistentemente.
Sim, e Alexandre provavelmente se arrependeria
disso pro resto de sua vida.
Merda.
— Eu não trabalho com a Ritz — ele completou, em
seguida. — Estou aqui como um mero visitante.
— Visitantes não ficam no box, até onde eu sei.
Baz resmungou o que provavelmente era um
palavrão em francês. Alex não dava a mínima.
— Meu pai é o Beauchene, eu não tenho lá muita
culpa sobre essa parte.
Deus, Alexandre parecia estar realmente tentando
acabar completamente com a própria vida ao ficar com
aquele cara.
— E essa é a informação que deveria me
tranquilizar?! Você ser o filho de uma das pessoas que
mais infernizam a minha vida desde que eu cheguei?
— Não torne isso maior do que realmente é,
Alexandre. Eu sei a dor na bunda que Bernard pode ser
mais do que ninguém, acredite em mim. — Basile se
aproximou, tocando o dedo indicador no seu peito. O
sotaque francês tornou-se mais notável, como se ele
precisasse se esforçar para pensar nas palavras na língua
inglesa no momento de raiva. — Você não me conhece,
mas cogitar que eu fiz qualquer coisa pensando em te
encrencar é, no mínimo, injusto. Eu não sou meu pai. Se
você tivesse qualquer chance, uma vez no ano, de ver o
esporte que você admira acontecer de perto, também se
prestaria ao papel de tolerar até o diabo.
Alexandre o encarou, umedecendo os lábios. Queria
acreditar que Basile realmente não tinha qualquer
segunda intenção quando o acompanhou até o seu hotel
— seria seu dia de sorte, arrancar informações do maior
rival da equipe de seu pai.
Mas era quase impossível.
— Mas você defende essa galera com unhas e dentes
— Basile provocou, descendo o olhar pelo seu uniforme.
— É fofo. E roxo até que fica bem em você.
— Sei.
— Não vou ficar aqui e implorar para que você,
estrelinha do Grid, tesouro da temporada, confie em
mim. Mas eu não ia deixar que você pensasse que sou
um completo filho da puta e não fazer nada.
— Claro — Alexandre disse, indo até a porta para
abri-la. Gesticulou na direção do corredor. — Você vai dar
o fora sozinho ou eu preciso chamar alguém?
Basile estalou a língua, soltando uma risada sem
qualquer humor.
— Uau — ele murmurou. No caminho para sair, parou
na sua frente mais uma vez. Perto demais. — Só pra
registrar também, você fica gostoso pra caralho coberto
de suor e champanhe.
O piloto engoliu em seco.
Seria preso se verbalizasse todas as imagens que se
passaram pela sua mente envolvendo Baz. A boca de
Baz. As mãos de Baz…
— Tchau, Baz — disse, antes que fizesse a milésima
irresponsabilidade daquele fim de semana.
Porque Baz, em toda a sua existência, era a maiorirresponsabilidade que poderia cometer.
SEIS
Alexandre Duarte estava do lado de fora da oficina de
Basile Beauchene há cerca de uma hora.
Mas, se alguém perguntasse, o piloto de Fórmula 1
estava apenas tomando um café com menta e
aproveitando um pedaço de torta de chocolate duplo na
pequena cafeteria que ficava em frente ao local, sua
bagagem e mochila largadas ao seu lado.
Ele não sabia ao certo o que pretendia fazer ali.
Ou sabia. Sabia que, depois de conversar
brevemente com Bruno no dia anterior, após a corrida,
precisava falar com aquele francês.
— Você conhece de perto alguém da Ritz? — havia
perguntado, tentando soar o mais desinteressado
possível.
— Alguns mecânicos, uns engenheiros. Um pessoal
do marketing trabalhava com o meu pai, então eu já tive
algum contato — o piloto mais velho respondeu,
esticando as pernas sobre o sofá. — Acho que não posso
me considerar realmente íntimo de ninguém. Por quê?
— Você conhece o Beauchene?
Bruno o encarou por alguns segundos, pensativo.
— Ele também é amigo do meu pai, eles se
merecem.
— Considerando que você não suporta o seu pai,
acho que isso não é coisa boa.
— Que bom que você sabe, eu não tenho o menor
pique pra pensar naquele cara depois de um pódio. —
Bruno jogou uma toalha úmida e fresca sobre os olhos,
respirando fundo. — Por quê?
— Me pergunto se um cara tão insuportável tem uma
família em casa.
— Eu já disse, ele e o meu pai se merecem. Os dois
não deram a mínima pra família a vida inteira, mas a
esposa morreu faz uns anos. — Alexandre agradeceu
silenciosamente por Bruno estar com os olhos fechados e
cobertos, porque seria estranho se o piloto visse a sua
expressão interessada e surpresa demais sobre o
assunto. — Aposto que eles participam de algum clube
de pais ausentes.
— Ele tem filhos?
— Que eu me lembre, só um. Deve ser uns dois ou
três anos mais novo que você e eu nem sei se eles têm
muito contato. — Bruno fez uma careta, tirando o pano
do rosto para olhar na sua direção. — Ele falou alguma
coisa pra você?
— Não, só fiquei curioso.
Alexandre pensou sobre aquela conversa durante o
resto da noite, e também quando decidiu não aparecer
no aeroporto para voltar para a Austrália imediatamente.
Pensava sobre aquela conversa ali, observando a
oficina do Dom. Seria um local não muito chamativo, se
não fosse pelos carros de luxo estacionados na rua.
Pensava sobre a conversa com Bruno e sobre a que ainda
pretendia ter com Basile quando passasse pela entrada.
Merda, foda-se. Passaria o dia inteiro ali se não
simplesmente levantasse a bunda da cadeira e fosse até
o que queria. Pediria desculpas pelas conclusões
precipitadas e iria embora. Não seria tão difícil.
Alexandre pagou o café da manhã antes de
atravessar a rua e entrar pela porta de clientes.
Foi uma surpresa ver o mesmo amigo de Basile na
recepção, bebendo o que parecia ser uma latinha de
energético e jogando algo em um console portátil.
Realmente dedicado aos dois empregos, podia perceber.
— Baz está? — perguntou, um sorriso sem dentes no
rosto ao ver a expressão surpresa do rapaz.
Ele assentiu, apontando na direção da entrada para
funcionários. Alexandre agradeceu silenciosamente,
passando pela bancada para entrar na área interna da
oficina.
Uma música clássica tocava nas caixas de som, o
volume alto. Entre os carros variados espalhados por ali,
Alexandre viu o Rolls-Royce que parecia muito ser o da
corrida na Palladium.
Mas nenhum sinal de Basile. Não antes que
Alexandre chegasse até os fundos da oficina, onde o
francês parecia inteiramente focado no que quer que
estivesse fazendo no carro da vez, o capô aberto o
impedindo de notar a aproximação do piloto.
— Você não parece do tipo que gosta de música
clássica enquanto trabalha, confesso — Alex soltou,
finalmente chamando a atenção dele. Baz franziu o
cenho, surpreso. Irritado, talvez. Mas provavelmente
apenas surpreso. — Oi.
— Eu não suporto, Moreau coloca pra me infernizar —
ele respondeu, dando de ombros antes de voltar ao
trabalho. — Apostamos que você não venceria a corrida.
— Você apostou contra mim? — Alexandre se
aproximou mais, cruzando os braços.
— Talvez.
— Foda-se. Podemos conversar?
Basile soltou uma respiração pesada, revirando os
olhos antes de olhar na sua direção.
— Eu não posso parar o meu trabalho quando você
bem quiser.
Alex mordeu a ponta da língua, ajustando a postura.
— Quando você estiver livre, podemos conversar?
Baz pareceu dividido entre mandá-lo embora ou
concordar. Alexandre não o julgava. Não mais, pelo
menos.
— Só preciso de cinco minutos aqui, você pode
esperar naquele escritório — ele disse, por fim.
— Você tem um escritório aqui?
Baz riu, seco.
— Até parece. É do Dom, mas ele não tá aqui hoje.
Você nem teria entrado se ele estivesse.
Alexandre tentou pensar em qualquer coisa para
responder àquilo, mas não encontrou. Ele olhou ao redor
no caminho para o escritório, observando os carros e
peças espalhados pelo local.
O escritório de Dom – que não parecia ser o tipo de
pessoa que Alexandre gostaria de conhecer – não era
muito grande, mas parecia aconchegante. Ele olhou as
fotos espalhadas pela parede, o homem coberto por
tatuagens em inúmeros lugares do mundo, com amigos,
talvez familiares, e… Basile. Havia uma foto do dono da
oficina ao lado de Baz, o braço forte sobre os ombros do
rapaz onde parecia ser a fachada do Palladium.
Se não soubesse quem era o pai de Baz, seria fácil
acreditar que Dom e Baz tinham algum grau de
parentesco. Não havia muita semelhança física, mas
Bernard não era lá comparável ao filho. Dom, pelo
menos, parecia ter sido em algum momento uma
influência para Basile.
— Odeio essa foto. — Basile fechou a porta com um
empurrão do pé, olhando na direção da foto.
— É bonitinha.
— Eu ainda não tinha as tatuagens no pescoço. É
estranho de olhar agora. — O francês balançou a cabeça,
dando de ombros. — O que você quer?
— Eu te julguei mal.
Baz sorriu. Talvez realmente não esperasse que a
conversa seguiria para aquele lado, porque arrumou a
postura e o encarou como se esperasse pelo próximo
movimento.
— É mesmo?
— Bom, é. — Alex limpou a garganta, tentando
ignorar o quanto Baz sorria como se estivesse precisando
conter uma risada. — E eu queria pedir desculpas por
pensar que você fez qualquer coisa com intenções…
desonestas.
— E o que te fez chegar a essa conclusão, Alexandre?
— Bruno me falou um pouco sobre o seu pai.
— Ah, as mesmas coisas que eu tentei te falar?
Alex grunhiu.
— É.
Baz descruzou os braços, aproximando-se mais da
mesa onde Alexandre havia se encostado. O piloto
engoliu em seco com a distância cada vez menor.
Não que Basile estivesse muito perto. Não mesmo.
Ainda havia uma distância de cinco ou seis passos entre
eles, mas era o suficiente para que Alexandre quisesse
se afastar.
Ou se aproximar mais. Provavelmente a segunda
opção, e era isso que fazia o alerta de perigo e confusão
se acender na sua mente. O mesmo alerta que, por
algum motivo, desligou quando resolveu chamá-lo para o
seu hotel.
Baz ponderou um pouco mais sobre as suas palavras,
descendo o olhar pelo brasileiro. Alexandre não havia
exatamente se produzido para estar ali, porque
acreditava que Baz mal olharia na sua cara e, além disso,
teria que ir direto para o aeroporto e esperar pelo
próximo voo para a Austrália. Não era como sairia na rua
normalmente, mas nada que Baz já não tivesse visto.
— Você é tão fofo, Alexandre.
— Vai se foder — resmungou, já dando o primeiro
passo para sair dali. Pior que Baz o mandando embora,
seria Baz zoando com a sua cara.
Baz segurou o seu braço, o mantendo no lugar. Mais
uma vez, mais perto do que pretendia.
— O que Bruno disse sobre o meu pai? — ele
perguntou, erguendo uma sobrancelha. Quando
Alexandre hesitou, ele deslizou a mão pelo seu
antebraço, aproximando-se ainda mais. Que merda. — O
que ele disse, mon chéri?
— Nada muito revelador. — Alexandre pretendia
terminar o assunto ali,mas Basile levou uma mão até o
cós da sua calça. Usando um único dedo como gancho
para aproximar-se ainda mais, o francês pairou os lábios
sobre a boca entreaberta de Alex. Bem, aquilo estava
saindo do seu planejamento inicial, mas não era como se
ele fosse reclamar. — Algo sobre ele ser ausente, ou…
— Ou… — ele incentivou, usando a ponta da língua
para umedecer os lábios. Deus, Alexandre deveria estar
a caminho do aeroporto.
— Eu não sei, não me faça perguntas difíceis agora.
— Alex comprimiu os lábios, pensando sobre o quanto
estava novamente se deixando cair no erro de fazer o
que não deveria. Sair e ir até um bar referência para
qualquer um que gostasse de carros e corridas ilegais.
Dormir com um desconhecido. Não assinar a droga do
termo de confidencialidade. Se aproximar novamente do
desconhecido que, quem diria, era filho do chefe de sua
equipe rival.
— Tenho certeza de que você consegue se lembrar,
Alexandre — Baz praticamente ronronou, a sílaba final de
seu nome sendo cruelmente prolongada e evidenciada
pelo sotaque bonito de Baz. Bonito como Baz. Ele era
muito mais bonito de perto. Tentador. A mente de Alex
era uma nuvem de pensamentos que não evitaria ter
com qualquer outra pessoa senão aquele cara. Perigoso
demais. Arriscado demais. E ainda gostava de dizer que
tinha um bom senso de autopreservação. O caralho.
— Ele comentou sobre a sua mãe, acho, e…
Sua frase foi interrompida pela boca de Basile – o que
era irônico, considerando que ele havia perguntado.
Mas, mais uma vez, não era uma reclamação. Longe
disso.
Alex levou as mãos para o rosto do rapaz, se
deixando ser empurrado até que ficasse novamente
contra a mesa do escritório. Baz o beijou do jeito que
Alexandre nunca foi beijado antes, do jeito que o buscava
até o fim, apenas para se afastar e fazer com que
corresse atrás do resto.
Seus primeiros beijos com Baz foram estranhos.
Desajeitados, talvez. Droga, todo o primeiro momento
entre eles havia sido quase tímido, impessoal demais e
completamente desajeitado. Antes de chamar alguém
para sua cama, talvez seja normal que se converse um
pouco sobre suas preferências.
Havia sido bom. Pra caralho. Baz tirara em quinze
minutos toda a tensão que havia se instalado no seu
corpo desde o convite para a festa de noivado de sua
amiga, alguns dias atrás.
Mas tornou-se ainda melhor, porque já podia dizer
com certa facilidade que Baz gostava mais quando
beijava o seu pescoço do que o seu peito. Ou que ele
definitivamente tinha algo com mordidas, porque os
gemidos prolongados que ele soltava a cada vez que
Alexandre mordia o seu ombro não poderiam ser
coincidência.
O mesmo para Basile, definitivamente. Depois de
explorar o piloto como se descobri-lo fosse uma
brincadeira para passar o tempo, Beauchene
simplesmente sabia onde tocá-lo, como e com qual
pressão. Alexandre estremeceu só de lembrar da mão
tatuada envolvendo o seu pescoço.
— Mon chéri — ele chamou, a voz baixa e arfante.
Alexandre tentou se inclinar para prosseguir com o beijo,
mas Baz se afastou com uma risada sem som. — Sua
mão está no meu pau.
— Hm? — Alex olhou para baixo, mordendo a língua
ao perceber que, sim, sua mão estava dentro da calça de
Basile. — Não entendi. Eu deveria pedir desculpas?
Baz soltou o que provavelmente era um palavrão em
francês. Alexandre tinha uma certeza quase absoluta,
considerando que escutara a mesma coisa vindo dele
duas noites antes.
— Quando você precisa ir? — ele perguntou,
parecendo esquecer o tópico da sua mão onde
supostamente não deveria estar.
— Hoje… — Alexandre suspirou, fechando os olhos
quando Baz se inclinou para beijar um ponto pouco
abaixo da sua orelha. Fraco, Alexandre. Muito fraco. —
Amanhã.
— Você fica no meu apartamento.
— Graças a Deus, porque eu já fiz o checkout do
hotel. — Baz soltou uma risada nasal e sem som,
revirando os olhos. — Nós vamos agora?
— Quando você tirar a mão do meu pau, talvez.
— Ah, claro — murmurou, afastando a mão com
cuidado. Alex observou Baz arrumar a calça e o cabelo,
olhando a mesa para ter a certeza de que nada havia
saído do lugar. Tudo em ordem, aparentemente.
Menos a mente de Alexandre. Ele estalou a língua em
um movimento inconsciente quando pensou que ir para o
apartamento de Basile poderia ser – definitivamente era
– mais uma péssima ideia. Mais uma.
— Cara, para de pensar tanto. — Baz balançou a
cabeça. — Ninguém vai te reconhecer. Considerando que
hoje é segunda-feira, duvido até que alguém apareça no
nosso caminho pra te ver. E se te vissem, provavelmente
só pensariam que é alguém muito parecido.
— Onde você mora?
— Vai adiantar se eu te disser o nome da rua? —
Quando Alexandre balançou a cabeça, o francês deu de
ombros. — É um prédio universitário, mas é pequeno e a
maioria mal passa o dia por lá.
— Certo. Tudo bem.
— E se vissem, eu duvido que a primeira reação
deles fosse procurar um site de fofocas. — Alexandre
ergueu uma sobrancelha. — É sério, qual o seu lance em
existir com o medo de alguém te condenar por isso?
Deve ser uma merda. Você esconde até que fuma, e nem
é contra a lei ou algo assim.
— Eu não fumo! — Alex exclamou.
— Não sei se você lembra, mas eu invadi a sua sala
ontem. Você tem cigarros no bolso lateral da sua
mochila. Marca cara, por sinal. Nunca entendi quem paga
cinco vezes o preço de um cigarro normal.
É, Alex tinha se esquecido disso.
— Não é tão simples assim.
— Provavelmente não é, eu não entendo essa coisa
de ser amado pelo mundo inteiro — Baz disse, dando de
ombros. — Ou por mais alguém além das duas pessoas
que fazem parte do meu círculo íntimo.
Por mais que devesse parecer uma piada
depreciativa por parte dele, não soou como se fosse.
Basile não parecia dar a mínima, na verdade. Alex queria
ser assim.
— Eu sinto que você está me zoando, mas não tenho
tanta certeza.
— Talvez eu esteja — ele sorriu. — Só me dá um
tempo pra passar pro idiota da recepção…
— Moreau?
— Esse.
— Pensei que vocês fossem amigos.
— Somos, por isso tenho passe livre pra chamar ele
de idiota. — Baz balançou a mão, desinteressado. — Vou
passar pra ele o que ele pode ou não encostar e fazer. O
Tesla do lado de fora é meu, você pode esperar lá.
— Você tem um Tesla?
— Talvez eu tenha. Não deixe ninguém do Palladium
saber.
— Por quê?
— Porque quando eu corro, é com carros
emprestados — Basile disse, simplista. Alexandre não
imaginava que Basile também participasse das corridas,
mas fazia muito sentido. Ele não parecia do tipo que
apenas olharia algo e não participaria. — Não vou correr
nenhum risco com o meu Tesla. Foi Dom quem me deu.
Alexandre pensou em perguntar sobre Dom, porque
eles pareciam cada vez mais como uma pequena família.
Ou, pelo menos, algum tipo de apoio mais próximo. Baz
não parecia ser do tipo que deixava qualquer pessoa ter
grande acesso a partes mais privadas de sua vida, então
aquele homem parecia… especial. De uma forma que
Baz não verbalizaria.
Ele pegou as chaves que Baz jogou na sua direção,
arrumando o cabelo antes de sair da sala.
O Tesla de Basile estava estacionado do lado de fora
da oficina, do outro lado da rua. Alexandre precisou
esperar no banco do carona por cerca de dez minutos até
ver o rapaz saindo da oficina com uma roupa limpa, não
muito diferente da calça lisa e camiseta que vestia antes.
— Espero que você não tenha tocado em nada — ele
disse, examinando o carro como se Alexandre fosse uma
criança de cinco anos, não um adulto de vinte e três que
lidava com carros muito mais delicados que aquele
diariamente.
— Vou fingir que não estou ofendido com isso e
simplesmente perguntar se eu posso dirigir.
— Não.
— Então me deixe no aeroporto.
Basile sorriu como se dissesse “nem fodendo”.
— Você não quer isso — ele disse, negando com a
cabeça. — Se quisesse, não teria ficado feito um trouxa
na frente da oficina por quase uma hora.
Alex gaguejou.
— Vai se foder.
— Moreau me contou. Você é um amor, mon chéri.
Foi difícil pensar emcomo pedir desculpas?
— Estou começando a realmente querer ir pro
aeroporto.
— Mentira.
Definitivamente uma mentira.
O caminho até o prédio de Basile foi silencioso. Alex
manteve o olhar nas ruas que não havia tido tempo
algum para conhecer durante a estadia, o que era um
ultraje.
Alexandre gostava de viajar, e talvez fosse isso que o
mantivesse sempre tão disposto com sua rotina de estar
em um lugar diferente a cada semana. Mesmo com o
pouco tempo disponível entre uma corrida e outra, o
piloto sentia a necessidade de sair para conhecer um
pouco de cada canto por onde passava.
Usar suas noites para ficar em um bar não era um
evento comum. Ele gostava dos pontos turísticos, dos
lugares movimentados onde conheceria uma infinidade
de pessoas diferentes. Adorava poder levar um pouco de
um país consigo. Seu sonho de criança era conhecer o
mundo e, tendo a oportunidade, não era o tipo de coisa
que desperdiçaria.
— Chegamos — Baz anunciou, parando o Tesla em
um bairro pouquíssimo movimentado. Ainda assim, Alex
colocou os óculos escuros e o capuz do moletom sobre a
cabeça. — Isso é desnecessário.
Alex revirou os olhos, mesmo que o outro não
pudesse ver. O piloto brasileiro acompanhou Baz até o
prédio simples, mas bem cuidado. Claramente
universitário. Havia panfletos e pôsteres de eventos
acadêmicos, palestras e clubes de alunos em um quadro
na entrada.
— O que você cursa? — perguntou, olhando
cuidadosamente ao redor.
— Engenharia. — Baz o encarou como se fosse um
louco em estar tão preocupado em ser visto quando
estavam em um prédio pequeno e aparentemente vazio.
Talvez Alex fosse, mas não era bom em correr riscos
muito grandes.
Quer dizer, aparentemente era, se considerasse os
eventos dos últimos quatro dias.
— Engenharia automotiva, mais especificamente —
ele completou.
— Uau, eu nunca esperaria algo assim — Alex
ironizou, recostando-se na parede do corredor enquanto
Baz procurava pelas chaves do apartamento nos bolsos.
— Você já pensou em trabalhar em alguma equipe? Seu
sobrenome pode servir de alguma coisa, definitivamente.
Basile riu. Uma risada humorada como se aquela
possibilidade fosse realmente cômica.
— Mon chéri, eu não tenho currículo para trabalhar
com a sua turma — ele disse, abrindo a porta com um
empurrão suave do pé. — Tudo o que eu tenho são
algumas notas razoáveis, um currículo com carros de
luxo e três passagens pela polícia.
Alexandre abriu a boca, pronto para perguntar o que
infernos significava três passagens pela polícia – óbvio,
mas ainda queria saber até onde aquela frase poderia
chegar antes de realmente entrar no apartamento de
Baz.
— Entra, alguém pode te ver no corredor — Baz
interrompeu, e Alexandre obedeceu. Apenas porque era
uma possibilidade que não queria correr de verdade.
O apartamento de Basile não era como esperava.
Na verdade, não sabia bem o que esperava. Tinha
consciência que não se podia fazer muita coisa em um
apartamento universitário mas, ainda assim, havia um
toque de Baz ali. Os móveis escuros, uma mesinha com
consoles de videogame no centro da sala minúscula,
algumas plantas – do tipo que não precisavam ser
molhadas com frequência, Alex sabia graças ao gosto
incontrolável de sua mãe por plantas – e…
— Não pise nas coisas da gata — o francês mandou,
passando por Alex para soltar a mochila sobre o sofá.
Baz se abaixou para pegar algo entre o espaço
mínimo que havia entre o móvel e a parede.
Um gato. Branco, um olho escuro e o outro azul. Ele
deslizou os dedos cuidadosamente entre as orelhas do
animal antes de deixá-lo se aconchegar sobre a poltrona
do canto da sala.
— Você tem um gato.
— Gata — Baz corrigiu, passando ao seu lado mais
uma vez. Na cozinha, que não era muito maior que o
corredor, ele se abaixou para pegar o que parecia ser
comida de gato em um armário. Bem, aquilo era uma
surpresa para Alexandre, precisava admitir. — Corvette.
Se quiser fumar, fume na varanda. Corvette odeia a
fumaça e o cheiro.
Deus.
— Sua gata tem nome de carro.
— Ela é linda como ele — ele disse, como se fosse
algo óbvio e que Alexandre definitivamente precisasse
saber. Basile disse algo na direção da gata, em francês
dessa vez, enquanto colocava comida em um dos potes.
— Fica à vontade. Não é muito grande, mas a minha
cama é espaçosa.
— É a parte que importa, acho.
Basile o fitou por alguns segundos, um sorriso
crescendo no seu rosto.
— O que foi? — perguntou, ajustando a postura. Até
onde sabia, não disse nada errado. Ou feito algo errado.
Estava até sem os tênis, porque havia os deixado na
entrada.
— Você é tímido, eu não esperava isso.
Alex bufou.
— Não sou tímido, só não vou sair explorando o seu
apartamento como se fosse meu.
— Fique plantado aí o quanto quiser, eu vou tomar
um banho antes de qualquer coisa. — Baz se aproximou
para passar por Alex mais uma vez, mas parou no meio
do caminho. Frente a frente com ele. — Se você quiser
economizar o meu tempo, vai me esperar na cama. Sem
roupa.
— Apressado? Você me tem até amanhã.
— Justamente. — Alexandre não sabia se Baz estava
tão perto pelo corredor estreito do apartamento ou
porque realmente queria, mas não tinha do que reclamar
enquanto o francês deslizava o polegar pelo seu lábio
inferior. — Eu quero aproveitar bem esse tempo, mon
chéri.
SETE
Basile tinha um prazer estranho em poder desarrumar
Alexandre Duarte.
Isso não se aplicava apenas ao ato de tirar as roupas,
de fazê-lo se desmanchar em seu colchão.
Era o evento de descobrir, mesmo que com poucas
palavras – e em maioria, palavrões –, mais sobre quem
era Alexandre. Um Alexandre que poucos conheciam.
Quantas pessoas tinham a honra de vê-lo fumar um
cigarro, nu em suas camas?
Para alguém que se fazia ser tão apagado – porque
Baz estava começando a achar que era algo proposital –,
Alexandre Duarte tinha mais cores do que poderia
identificar de uma vez só. Talvez ainda precisasse de um
tempo a mais para reconhecer o que era.
Quem mais tinha a honra de ver Alexandre Duarte
tirar as correntes douradas, os anéis coloridos e os
brincos de pressão, bagunçar os cachos tingidos de um
tom mais próximo do castanho — Baz tinha quase
certeza de que sua cor natural era algo loiro — e assumir
uma expressão mais séria? Alexandre Duarte parecia ter
uma expressão quase emburrada na maior parte do
tempo em que estava sozinho ou, pelo menos, longe de
quem tinha o intuito de vigiá-lo, e Baz ainda queria saber
os seus motivos para isso.
Ele não se dava realmente bem com sua equipe? Não
amava correr, como dizia em todas as entrevistas? Tinha
problemas familiares? Por que ele se escondia tanto, em
todos os aspectos possíveis de sua realidade?
Por que Baz conseguia ver alguns desses aspectos?
E ele não era o único que gostava de brincar com
limites. Alexandre percorria e explorava com as mãos,
boca e olhos, provocava e instigava. Pedia por mais,
implorava por libertação. E, de certa forma, ainda parecia
ter sua parcela gigante de comando no que fizeram
naquele quarto até que escurecesse. E depois disso
também.
Basile surpreendeu-se quando ele passou os dedos
longos entre os cabelos para arrumá-los para trás antes
de sentar-se com as costas apoiadas na cabeceira da
cama e acender um cigarro enquanto esperavam pela
entrega do jantar. Optaram pelo mesmo delivery onde
pediram o almoço, porque perder tempo na cozinha
também não era uma opção. Suado, bagunçado e
ofegante, a figura de destaque das principais matérias
dos últimos meses ao redor do mundo havia se reduzido
a muito pouco.
E essa era a parte mais incrível.
Alexandre Duarte era, com poucas palavras, um
mistério que Baz morreria para desvendar até o final.
Para não soar tão profundo assim, precisava admitir que
era apenas uma diversão – se passasse dos limites de
sua cama ou do colchão de um hotel, ele recuaria. A
ingenuidade elegante que se transformava em algo
obsceno e vulgar quando as portas e janelas se
fechavam o intrigava.
Profundamente.A calma que se transformaria em bagunça em
questão de segundos. Sem muita conversa.
Basile tinha um sono leve desde sempre. Por isso,
quando Alexandre se levantou na madrugada e soltou
um palavrão ao pegar o celular na mesinha ao lado da
cama, Baz já estava acordado.
Ele observou o piloto brasileiro ir até a porta do
quarto e parar, como se sair pelo apartamento minúsculo
quando Baz não estava vendo fosse algo gravíssimo de
se fazer.
Alex virou para o outro lado, indo até a pequena
varanda do quarto. Alguns segundos depois, Baz pôde
ouvir um áudio soando do aparelho nas mãos dele.
— Boa noite, querido! Ivan me contou que você
resolveu ficar mais um dia na França, espero que esteja
curtindo o seu tempinho livre. Dei o ingresso daquela
exposição de arte que teríamos hoje para o seu pai, ok?
Mandei algumas fotos porque sabia que você também
queria muito ver, mas Ângelo não é um fotógrafo muito
bom. — Baz não entendeu a parte seguinte, porque Alex
soltou uma sequência surpreendente de palavrões para
si mesmo. Apesar do tom relaxado e divertido da mulher
que falava do outro lado, ele parecia ter acabado de
ouvir a notícia da morte de alguém. — Não se esqueça
da minha lembrancinha! Eu te amo muito, Xander.
Durma bem.
A sequência de palavrões diversos continuou.
E Baz permaneceu imóvel. No canto da cama, ele
sentiu Corvette subir no colchão.
— Boa noite, ma fleur — sussurrou, pegando a gata
com cuidado. — A cama está suja, você realmente não
vai querer ficar aqui.
— Nicole, oi. Eu sinto muito, muito, muito mesmo. Eu
me esqueci completamente da exposição, eu… — Ele
parou, tornando a xingar-se. Sua voz parecia cada vez
mais trêmula. Alexandre pareceu tentar respirar fundo
antes de recomeçar. — Oi, Nicole. Eu fico feliz que a
exposição tenha sido boa, e eu… Merda, mas que merda.
Você é tão… egoísta, Alexandre. Ela vai te odiar pra
sempre. Babaca.
Basile achava que não seria possível ver Alexandre
Duarte demonstrar mais raiva do que na corrida, depois
que ele o viu ao lado da Ritz. O piloto parecia irritado a
ponto de afetá-lo na pista, e só aquilo já era algo que ele
nunca havia demonstrado antes.
Mas, naquele momento, Alexandre parecia possesso
consigo. Baz, que não tinha a boca mais limpa do mundo,
se surpreendeu com o quanto ele podia xingar a si como
se tivesse acabado de matar alguém.
Ele tentou gravar algo citando a tal Nicole mais cinco
ou seis vezes – mas em português, o que impediu Baz de
entender algo além do nome da mulher – antes de
desistir.
Aquilo, sim, foi algo estranho. E Alexandre
provavelmente acreditava que Baz ainda dormia, porque
permaneceu na varanda por quase meia hora antes que
o francês resolvesse se levantar.
Não para falar com ele imediatamente. Não.
Basile fingiu sequer saber que ele estava ali ao
levantar para levar Corvette de volta para a sala. Na
varanda, a figura de quase dois metros e músculos
parecia gigante encolhida no chão enquanto digitava
algo em seu celular.
— Alexandre, que merda você tá fazendo aí? — Baz
ergueu uma sobrancelha, abrindo a porta de vidro
quando voltou para o quarto. — Tá frio pra cacete e você
não tá usando nem uma calça.
Bom, ninguém podia dizer que não era um ótimo
ator.
Alex o olhou com os olhos arregalados, como se não
esperasse ser encontrado. Se estava incomodado com o
frio no corpo seminu, não demonstrava.
— Eu… lembrei que preciso comprar a passagem
para um voo logo.
— Agora? De madrugada?
Ele engoliu em seco.
— Eu esqueci. Foi mal.
Basile revirou os olhos. Malditas desculpas.
— Levanta e veste uma roupa, você pode comprar
pelo meu computador. Da próxima vez, veja isso antes de
desmaiar de exaustão depois de um orgasmo.
Baz saiu do quarto para pegar o notebook na sala, o
deixando sobre o balcão da cozinha para o piloto.
Alex vestiu uma roupa confortável antes de sair do
quarto, limpando a garganta ao sentar-se de frente para
o computador.
— Baz — chamou, após alguns segundos, a voz baixa
e quase… tímida. Como se não tivesse passado um dia
inteiro fodendo com ele.
— O quê?
— Tá tudo em francês.
Baz resmungou, aproximando-se dele para mudar as
configurações do aparelho.
— Você prefere em inglês ou português?
— Português. Não penso direito em inglês de
madrugada — respondeu.
Ou depois de uma crise nervosa. Baz mudou tudo
para a língua materna de Alexandre, afastando-se em
seguida para pegar água.
Alex fungou discretamente uma ou duas vezes,
claramente nervoso. Sua perna direita não parava de
mexer e ele checava o celular a cada dois segundos.
Basile voltou para o quarto, porque não era como se
fosse ser de grande utilidade na cozinha com um
computador em uma língua que não entendia. Ou para
um piloto em um momento… estranhamente tenso.
Ainda não fazia sentido algum para ele – a mensagem
com a reação desesperada que Alexandre demonstrou.
Com uma pesquisa rápida, foi fácil juntar algumas
peças. Nicole Duarte, a mãe de Alexandre. Era sua
família.
Ainda assim... Baz esfregou os olhos, agitado. Por
que Alexandre surtou como se estivesse recebendo uma
bronca? Basile sabia como uma briga deveria soar. Seu
pai infernizava a sua vida gratuitamente há anos. Nicole
não soava como Beauchene de forma alguma e,
lembrando bem do pouco que já havia visto sobre a vida
pessoal do piloto, eles eram próximos. Muito próximos.
Havia uma infinidade de fotos dos dois juntos em
eventos e até mesmo em momentos em que foram
fotografados desprevenidos, e não parecia ser algo
forçado. Baz esperava que não fosse, porque seria ainda
pior saber que Alex fingia tanto até mesmo sobre isso.
Se perguntasse, era provável que Alexandre
recuasse. Seria burrice. Eles pareciam ter uma relação
incrível pelas fotos nas redes sociais, mas até onde podia
confiar no que Alexandre mostrava para qualquer
pessoa?
O rapaz voltou para o quarto alguns minutos mais
tarde, parecendo hesitante em se deitar novamente.
Era o tipo de clima tenso e pesado que Baz odiava.
Carregava o cheiro de queimado insuportável e de
incenso ruim que o incomodava em seus piores
pesadelos.
— Deita, Alexandre. Você precisa de mais alguma
coisa?
— Hm, não. Vou sair antes das seis.
— É antes da minha aula — informou, pousando o
braço sobre os olhos. — Posso te deixar no aeroporto.
— Não precisa se incomodar, eu…
— Corta essa.
Um silêncio se instalou entre eles mais uma vez.
Não havia qualquer indício do Alexandre cheio de
atitude e confiança, de sorriso charmoso e mãos
curiosas. Alexandre Duarte parecia cansado e contido,
ajeitando-se do outro lado da cama.
Baz tinha certeza absoluta de que se tivesse a opção
de ir direto para o aeroporto imediatamente, Alex o faria.
Apenas para não demonstrar demais de si para alguém
que conhecia há menos de uma semana.
Há quatro dias. E nem conhecia tão bem assim.
O francês esfregou nervosamente os olhos.
O que ele precisava tanto esconder?
— Boa noite, Duarte — disse, por fim. Rispidamente
demais, talvez.
— Boa noite, Baz.
OITO
Alexandre Duarte era um fenômeno.
Muito além de piloto de Fórmula 1, era a preciosidade
da família Duarte. O único filho de Nicole e Ângelo,
figuras conhecidas entre o meio das artes, da moda e do
automobilismo.
Desde a primeira vez em que fez uma aparição
pública ao lado da mãe em um evento beneficente aos
dezoito anos, todos os olhares já pertenciam a ele.
Nicole Duarte era reconhecida por sua carreira de
sucesso como modelo, atriz e, especialmente, pelos
trabalhos por várias causas sociais. Ângelo, por sua vez,
como fisioterapeuta e amigo pessoal de pilotos da
Fórmula 1 – Ivan Nikolaev sendo um dos principais e mais
reconhecidos.
Era de se esperar que sua criança se destacasse
como eles. Ou tanto quanto.
Começou como algo pequeno. Alexandre aparecia
nas redes sociais de seus pais – de Nicole, principalmente
– e ganhava alguns seguidores aqui e ali, pessoas
interessadas em conhecer o descoberto membro da
família. Com a rotina de treinos acompanhada pelo pai e
outrosprofissionais perfeitamente capacitados, eventos
de grande prestígio, amizades com figuras públicas e
aparições em entrevistas, era de se esperar que o nome
prosperasse, e não apenas entre categorias do
automobilismo.
Era o gradual nascimento do Garoto de Ouro.
Ninguém sabia ao certo de onde o apelido havia nascido,
mas combinava com ele. Com a companhia constante e
carinho evidente pela família, os amigos sempre
presentes, pelo sorriso charmoso. Alexandre sabia como
conquistar o mundo desde o início.
Mas a Fórmula 1 foi uma surpresa até mesmo para a
própria família. Nicole e Ângelo nunca economizaram
esforços, tempo e dinheiro para investir no filho, mas
todos os méritos ainda eram de Alexandre. Ele era
esforçado, dedicado e inegavelmente talentoso.
Ele nunca quis ser o piloto para o qual olhavam e
pensavam que estava ali apenas pelo dinheiro da família.
Alex sempre quis os melhores resultados, os maiores
números. Cada dia era uma chance – um dever – para
mostrar-se melhor.
E Alexandre era bom em se superar. Mostrou isso
para todos que o viram em seu primeiro ano na categoria
que juntava os melhores do mundo.
Mas, no fim, tudo o que importava para ele era ser
bom para a sua família.
Alex se deixou relaxar ao passar pelo portão da
residência Duarte, um casarão no centro de Port Douglas.
Considerando que era uma terça-feira, o jardineiro estava
de folga – assim como a maior parte dos funcionários que
auxiliavam Nicole em todas as tarefas possíveis.
Mas a julgar pelo cheiro que vinha da cozinha, Aria
não era uma delas. Alex não se surpreenderia se a
própria senhorinha de sessenta e poucos anos tivesse
insistido em estar ali para recebê-lo para o jantar.
— Espero que você tenha tirado os tênis, Alexandre
— ela disse, de costas para ele enquanto tirava uma
travessa do forno. Alex olhou para os próprios pés antes
de chutar os tênis para o canto da bancada
discretamente.
— Sempre, gata. — Ele se inclinou, passando um
braço pelos ombros da cozinheira. — Torta de carne?
— Como você gosta. — Aria beliscou o seu braço. —
Também fiz pavlova.
— Tenho tanta inveja do seu marido — ironizou,
estendendo a mão para roubar uma fatia de torta. —
Nicole tá em casa?
— Deve estar chegando, acho que arrastou Ângelo
para comprar roupas e levar o menino pro salão.
— É claro. Roupas, como sempre. — Um sorriso
cresceu no rosto dele ao ouvir a porta da frente sendo
aberta, a voz de Nicole soando alta enquanto ela
tagarelava sobre algum evento importante com Ângelo.
Alex finalmente se sentia em casa. Seguro.
Os latidos do menino citado por Aria puderam ser
ouvidos antes que o dobermann aparecesse na cozinha,
saltitante e animado ao ver Alexandre ali. William Bonner
– Alex achou que o nome seria engraçado – era grande o
suficiente para, sobre duas patas, ficar do tamanho de
uma pessoa de um metro e meio, talvez mais. O animal
não parou até que Alex se abaixasse para brincar com
ele.
O sorriso natural de Nicole se alargou ainda mais
quando viu o filho na cozinha. Os cabelos longos e
escuros estavam presos em uma trança caprichada – seu
penteado favorito, Alexandre sabia. Ela deixou o casaco
sobre o encosto do sofá antes de se aproximar para um
abraço.
— Você fica cada dia mais lindo, Xander — Nicole
disse, inclinando a cabeça quando Alexandre beijou a sua
mão antes de abraçá-la. — Você cresceu?
— Você só não me via há duas semanas, Nicole. —
Ele beijou a testa da mãe, inspirando o perfume doce. —
E eu já parei de crescer há alguns anos.
Alexandre se afastou para cumprimentar Ângelo com
outro abraço, embora William ainda lutasse pela sua
completa atenção.
— Parabéns pelo pódio, garoto.
— Valeu. — Alex tornou a se aproximar de Nicole,
abraçando-a por trás. — Senti sua falta.
A mulher beijou demoradamente a sua bochecha.
Às vezes, Alex pensava sobre a primeira vez que
conversou com Nicole Duarte.
Ele a odiou. Alexandre a odiou como nunca tinha
odiado alguém em toda a sua vida, provavelmente.
Mas eram tempos diferentes. Ele não fazia a menor
ideia de onde estaria se não fosse por aquela mulher –
por quem ela era, em todos os sentidos possíveis.
— Você parece pensativo, Xander. — Ela estendeu
um prato na sua direção, cheio de torta de carne. Alex
pensou no quanto sua nutricionista acabaria com Aria se
soubesse que estava cozinhando aquilo para o piloto. —
Algo aconteceu?
Ele fitou a mulher por alguns segundos antes de
balançar a cabeça, tornando a se abaixar para brincar
com William. O cachorro parecia desesperado para
arrancar a gravatinha vermelha que colocaram no seu
pescoço.
Alex balançou a cabeça, tirando o acessório e
jogando do outro lado da sala, para fazê-lo correr atrás.
Pelo menos serviria como brinquedo até que alguém
percebesse – e fosse tarde demais, porque os dentes
daquele animal faziam um estrago facilmente.
— Só cansado da viagem. Não ando dormindo bem.
— Bom, nada que um chá não consiga resolver! — A
mulher acenou para Aria, que assentiu. — Você já vai
embora amanhã?
— Depois de amanhã.
— Então, termine de comer. Tome um banho bem
quente, pegue o chá de Aria e descanse. Não quero te
ver acordando antes das onze da manhã. — Ela pegou
um copo de suco, entregando também na sua direção. —
Ah, e seu pai cuidou dos carros dessa vez.
— Jesus, eles estão bem? — brincou, rindo baixo
quando Ângelo mostrou o dedo do meio na sua direção.
— Pra sua informação, eu cuidei de carros por anos.
— Querido, você cuidou de pilotos por anos — Nicole
corrigiu, entregando outro prato cheio de comida para o
marido.
— É a mesma coisa. Um carro não é nada sem seu
piloto. É como um casamento.
— Verdade — Alex concordou, contendo uma risada
com a careta de Nicole.
— Vocês, homens do automobilismo. — Ela revirou os
olhos. — Não sei como aguento viver com tantos.
— Para, você não viveria sem mim. — O mais novo se
inclinou para frente, piscando na direção da mulher antes
de levantar e deixar os pratos sujos sobre a pia. — Eu
vou tomar um banho, não aguento mais estar há quinze
horas na mesma roupa.
— Boa noite, amor. — Nicole acariciou o seu rosto. —
Podemos fazer algo juntos amanhã. Um filme, ou talvez
parar comprar algumas roupas...
— Meu guarda-roupa está ótimo, obrigado. — Ele
acenou, pegando os tênis que deixara no canto da
cozinha. — Aliás, você recebeu as roupas que enviaram
pra mim?
— Nia as arrumou no seu closet! São lindas, seu pai
quase roubou algumas camisas.
— Não toque nas minhas camisas — avisou,
apontando para o pai.
Alexandre suspirou ao entrar no quarto. Como
sempre, estava como o deixara. A decoração neutra em
branco e cinza evidenciava os livros que tinha – apenas
os seus títulos favoritos, porque não tinha mais o
costume de consumir qualquer livro físico com a rotina
de viagens –, os colecionáveis de personagens de filmes
e séries, os pôsteres de clássicos espalhados pelas
paredes.
Nia, a responsável pela organização da casa,
provavelmente havia limpado o lugar antes da sua
chegada, porque ainda era possível sentir o cheiro suave
de produtos de limpeza.
Depois de separar algumas roupas que o deixaria
mais confortável, Alexandre se afundou na banheira da
suíte, soltando um gemido quase dolorido.
Céus, o quanto precisava daquilo e não tinha
percebido?
Alexandre passou uma mão úmida pelo cabelo ao
ouvir o celular tocar, o contato de Jolene brilhando na
tela para uma chamada de vídeo. Se fosse qualquer
outra pessoa, ele desligaria. Mas não Jolene.
— Ai, meu Deus. Você tá na banheira? — Ela ergueu
uma sobrancelha quando atendeu. — Isso é um convite?
— O quão perto você tá?
— Sei lá, uns nove mil quilômetros e um oceano no
caminho. — Ela deu de ombros, acomodando-se na cama
de seja lá qual hotel estava daquela vez. — Enfim,
precisamos conversar.
— Sempre livre pra você, amor.
— Você sabe que eu não acompanho o seu lance, né.
Mas eu preciso muito saber quem era o gostoso com
você no último pódio e por que você cometeu o crime de
cortar a cara delena foto do seu Instagram.
— O Bruno é casado, Jo.
— Não, tonto. — Ela revirou os olhos. — O outro?
Alexandre fez uma careta, ajeitando a postura na
banheira.
— Laurent?
— Esse é o nome dele? Deus, Alex. Ele é lindo. Você
perdeu o seu posto de gato do grid, foi mal. Perdi todo o
meu tesão em você.
— Ele é da Ritz, não vou te apresentar pro meu maior
inimigo. — Ele se inclinou para alcançar o maço de
cigarros que deixou ao seu lado, no chão do banheiro. —
Apesar de que eu não tenho nada com ele,
pessoalmente. Coisa de equipe, acho. Enfim, não.
— Por que você pode dormir com o seu inimigo e eu
não posso tentar conhecer o inimigo do meu amigo?
Ele resmungou um palavrão.
— Cala a boca, eu tô em casa.
— Você escondendo algo de Nicole? Uau, isso é novo.
— Foi algo de um dia, ninguém mais precisa saber.
— Errado. Duas vezes, e você dormiu no
apartamento dele.
— Se juntar as horas, só vai dar um dia — rebateu. —
Sério, eu nunca mais vou ver esse cara.
— Mas não me deixou ver uma foto sequer dele!
Você chama isso de amizade? Eu ficaria feliz até com a
foto do WhatsApp, e essas costumam ser as piores.
Alex revirou os olhos.
— Não peguei o número dele.
— Quando ele te mandar uma mensagem, então.
— Ele também não pegou o meu. — Jo soltou um
arquejo indignado. — Sério, nenhum de nós teve
intenções de fazer algo outra vez. É perigoso demais.
Perigoso. Errado. Irresponsável. Ivan o mataria. Bruno
o mataria. Ângelo o mataria. Porque toda a situação
começou de forma tão errada – por sua culpa –, que não
havia uma possibilidade sequer, em qualquer universo,
em que manter um lance casual com alguém como
Basile poderia funcionar.
Alexandre sequer chegou a considerar. Podia gostar
de sexo o quanto fosse e, mais ainda, como as coisas
aconteceram com o francês, mas não colocaria sua
carreira, o seu sonho, em risco. Nunca.
— Pensei que você tivesse curtido ficar com ele.
— Curti e, acredite, aproveitei pra caralho enquanto
durou. — Ele tragou o cigarro, balançando a cabeça. —
Mas nem tudo que é bom dura pra sempre. Pena.
— Sinto muito por isso. Bom, me arranje o contato do
piloto bonito.
— Não vou te arranjar o contato dele, Jo.
— Ciúmes?
— Autopreservação. Se você tiver algo com ele, ou
eu vou ficar de vela pra um cara que provavelmente não
suporto ou vou te ouvir reclamando sobre como ele é um
babaca. Não gosto de nenhuma das opções. E você sabe
o escândalo que seria se te vissem com outro piloto.
Alexandre Duarte é trocado por rival, e blábláblá. Me
economiza.
— Diz o que saiu pra um bar com rachas ilegais na
programação.
— Foi um momento de recaída.
— Caída no pau de alguém?
— Deus, Jolene. Que piada de merda.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Eu vou te deixar descansar, já que você se recusa
a me ajudar. Te amo.
— Te amo menos — devolveu, piscando na direção da
câmera antes de finalizar a ligação.
Alexandre ficou na banheira até que seus dedos
estivessem enrugados. Porque, por favor, ele merecia.
A sensação de estar em casa era esmagadoramente
boa. Ele amava aquele lugar, amava estar perto dos seus
pais e amava se sentir inteiramente bem, aceito e
amado. Sem grandes cobranças.
Ou, pelo menos, sem grandes cobranças externas.
Algumas outras sempre estariam ali.
Certas cobranças sempre esperavam pelo momento
oportuno para aparecer.
Ele afastou o pensamento antes que se tornasse
grande demais. Como sempre.
Sempre afastando tudo antes que o pior o
alcançasse. Porque não era possível que o alcançariam
algum dia, certo?
Certo?
Ele tinha – quase – certeza que sim.
Afinal, ele era Alexandre Duarte. Piloto, celebridade,
filho de pais incríveis. Nada deveria ser capaz de arruiná-
lo.
Nada além de si mesmo, e ele não tinha planos para
deixar isso acontecer.
— Oi, amor. — Nicole chamou a sua atenção, batendo
levemente na porta do quarto. Alex terminou de vestir a
camiseta que havia separado antes de murmurar uma
confirmação de que ela poderia entrar. — Só queria
checar se não estava precisando de algo.
— Tudo perfeito, relaxa. — Ele se sentou no canto da
cama, olhando-a por um momento. — Olha, Nicole. Sobre
a exposição, eu realmente esqueci. Me desculpa mesmo,
e...
— Ora, Xander. Pare com isso — ela bufou,
balançando a mão. Nicole se aproximou para sentar-se
ao seu lado. — Não se preocupe. Podemos sair outras
vezes. Cá entre nós, foi tudo um saco por lá.
Alex a olhou por mais alguns segundos, apenas para
ter certeza de que não estava mentindo ou dizendo
aquilo apenas para fazer com que se sentisse melhor.
Mas Nicole não mentia, muito menos sabia disfarçar
quando algo a chateava.
Ele já tinha molhado sem querer uma de suas bolsas
de uma marca milionária qualquer. Ele sabia como ela
ficava quando estava brava.
— Tudo bem — suspirou, por fim. — Você não vai
dormir?
— Daqui a pouco. — Nicole arrumou a trança sobre o
ombro, arrumando alguns fios do cabelo loiro do filho
atrás da orelha. — Sabe, eu sempre soube que você iria
pro mundo assim que surgisse a oportunidade. Você
nunca foi de ficar muito tempo em um único lugar.
Alexandre suspirou.
Nicole foi, provavelmente, a primeira pessoa a
entender todos os seus lados. Todas as suas nuances,
curvas e quedas. Antes que ele mesmo pudesse
entender o que o fazia ser quem era, e o que o fazia se
perder no caminho tortuoso que era conhecer a si
mesmo, Nicole o entendeu – ou, pelo menos, pegou a sua
mão para que a jornada fosse um pouco mais fácil.
— Não deixe o mundo te mudar, tudo bem? — Ela
pegou a sua mão, beijando suavemente os dedos.
Alexandre sentiu um nó se formar em sua garganta
porque, Deus, aquela mulher era a pessoa mais incrível
que encontrou em toda a sua vida. — Quando as coisas
estiverem difíceis, você sempre terá a sua casa pra se
esconder.
Ele se inclinou, beijando o ombro da mãe.
— Você é perfeita. Obrigado por tudo.
— Eu fico preocupada. A Internet é tão maldosa,
Xander. Não gosto nem de pensar nas coisas que você
precisa ler e ouvir todos os dias.
— Acredite, ninguém fala a maioria dessas coisas na
minha cara. Não precisa se preocupar.
— É meu dever me preocupar. Que tipo de mãe eu
seria se não me preocupasse, oras?
Ele riu.
— Vá dormir, Nicole.
Ela segurou o seu rosto, deixando um beijo
demorado e molhado na sua testa.
— Você também. Descanse, e talvez eu peça para
Aria fazer aquela torta de morango que você gosta.
— Já estou no meu quinto sono — ironizou. O som da
risada de Nicole foi o suficiente para tirar qualquer resto
de peso ruim que ainda existia em seu peso.
Ele sabia que, realmente, sempre teria a sua casa
para se esconder.
Por um segundo, ele pensou em contar sobre Basile.
Nicole conhecia Beauchene – e não tinha uma opinião
positiva sequer sobre o homem – e definitivamente
saberia o que dizer para que Alexandre se sentisse
menos mortalmente culpado e inconsequente. Todo o
conjunto de frequentar um lugar que não era seguro e,
como se não pudesse piorar, transar com a última
pessoa em quem deveria confiar.
Mas ele não disse. Era o tipo de assunto que deveria
deixar morrer, se queria mesmo que acabasse.
E ele queria muito.
Nicole bateu palminhas animadas quando Alexandre
saiu do provador com a camisa social azul-cobalto.
Ele, por sua vez, revirou os olhos.
— Essa cor é horrível.
— Para, fica linda em você! — A mulher se pôs de pé,
rodeando o filho antes de assentir com a cabeça. — Não
vejo problema algum.
— É brega.
— Azul nunca é brega, querido.
— É um noivado, eu não quero chamar mais atenção
que os noivos. — Na verdade, eu adoraria passar
completamente despercebido. — Acho que vou com um
preto. Básico. Ainda tenho bastante tempo pra pensar
nisso.
Foi a vez de Nicole revirar os olhos. Ela levantou uma
camisa lilás que Alexandre não quis nem olhar duas
vezes para decidir que também não era uma opção.
Eles saíram juntos pela loja, parando para analisar
uma peça aleatória ou outra. Depois de duas semanas
sem ver a mãe, Alexandre podia fazer o sacrifício de sair
para olharalgumas roupas ao lado dela. Mesmo que
tivesse mais que o necessário em casa.
— Noivados são ótimos para encontrar noivas, sabia?
Ou... noivos — ela comentou, casualmente. A risada do
filho a fez bufar. — Estou falando sério! Conheci o seu pai
em uma festa de noivado.
— Não estou procurando por um casamento, Nicole.
— Ora, Xander. Você entendeu. Não precisa sair de lá
casado. — Ela o puxou para a seção de calças, pegando
uma ou outra para colocar na sua frente. Nem sempre
pedindo pela sua aprovação, apenas analisando por cima
se ficaria bom no seu corpo. — Com uma paquera,
talvez.
— Com uma paquera — Alex repetiu, girando o anel
de lobo em seu dedo médio em um gesto entediado. —
Estamos nos anos oitenta?
Ele recuou em outra risada quando Nicole o beliscou.
— Foi mal, você sabe que eu te amo.
— Você é terrível. — Nicole levou as duas peças que
Alexandre havia aceitado levar para a mulher que os
atendia, dando um tapa na mão de Alexandre antes que
ele estendesse o próprio cartão. — É um presente.
— Nicole...
— Quieto, Xander.
— Não gosto quando você paga pelas minhas coisas.
— Ele é tão teimoso... — a mulher sorriu para a
atendente, que lançou um olhar interessado até demais
na figura alta e mais jovem ao lado da mulher elegante.
Não que Alexandre não estivesse bem vestido, mas o
estilo despojado e jeans definitivamente o destoava da
mãe. — Nunca trouxe ninguém pra casa, acredita?
Alexandre sorriu na direção da moça, um pedido
silencioso de desculpas pela mãe.
— Onde você quer almoçar? — ela perguntou quando
as sacolas foram entregues, jogando a trança para as
costas.
— Qualquer lugar bem gorduroso, por favor.
— Não. — Ela sequer hesitou. — Pensei naquele
restaurante em que montamos a salada...
— Por que você perguntou? — resmungou,
inclinando-se para pegar as sacolas das mãos de Nicole.
Ela não protestou dessa vez. — Comida mexicana não é
melhor?
— Talvez — ela cedeu, balançando a mão.
Precisaram parar por um instante, quando uma
garota abordou Alexandre para pedir por uma foto. Nicole
tirou a foto como o que bem era – uma mãe com um
sorriso largo e orgulhoso tomando conta de metade do
seu rosto. Quando a menina que não parecia ter mais do
que quinze anos se afastou, Alex limpou a garganta.
— Querem marcar uma entrevista comigo para
semana que vem. Parte daquela lista de pessoas com
menos de trinta anos que são influentes, coisa assim.
— Oh, que incrível! — Nicole sorriu, animada.
— Pediram para que fosse gravado lá em casa. Eu sei
que vocês não gostam de cruzar essa linha, mas...
— Se você se sente seguro com isso, não vejo
problema algum. — Nicole parou para pedir por uma
mesa mais privada ao atendente do restaurante
mexicano da rua. Alexandre puxou a cadeira para ela,
antes de se sentar. — Bom, você está um pouco acima
de nós há algum tempo.
— Que besteira. — Alex balançou a cabeça. — Tem
certeza que não é um incômodo? Posso pedir para
marcarem em uma semana em que estejam viajando, aí
não precisariam aparecer.
— Tudo bem, querido. Só confirme com Ângelo antes.
Alexandre assentiu, observando a mãe passear com
o olhar pelo cardápio como se não fossem pedir a mesma
coisa de sempre no fim.
— Acho que vou pedir enchiladas vegetarianas.
— Acha? — provocou, acenando para um garçom.
Pediu por uma porção pequena de enchiladas
vegetarianas com pouco molho para Nicole e tacos para
si mesmo. Com molho pra caralho. E Vinho. Vinho era
essencial quando Nicole estava presente.
O de sempre.
— E a equipe, como está? — Nicole se inclinou para
frente, apoiando o rosto sobre a mão delicada.
— Bem. Melhor que o esperado, talvez. — Alexandre
deu de ombros, olhando ao redor brevemente. — Só...
Bruno e Ivan parecem mais estressados ultimamente.
Mas é com o lance da adoção.
— Ainda não deu certo, não é? — a mulher suspirou,
desanimada. — Eles serão pais incríveis quando
conseguirem.
— Bruno ainda consegue fingir que não é grande
coisa, eu acho. Mas Ivan anda com a cara mais azeda
que o normal. — Alex agradeceu quando suas taças
foram preenchidas até um pouco abaixo da metade pelo
Pinot Grigio escolhido pela mulher. Ele esperou que o
funcionário se afastasse para continuar. Mesmo que
conversassem em português, havia sempre o risco de
alguém ali entender bem algo que diziam. — É ridículo,
Nicole. Eu não consigo pensar em pessoas que cuidariam
melhor de uma criança do que eles... E você, é claro.
Mas, é, você entendeu.
— Entendi — Nicole sorriu carinhosamente. —
Acredito que é algo que dará certo, Xander. Basta
esperar.
— A maioria não tem que esperar.
— Eu esperei dois anos por você, não é?
Algo dentro de Alexandre revirou, mas não de uma
forma completamente ruim. Um pouco de culpa o
atingiu, porque parte – a maior dela – da longa espera de
Nicole havia sido sua culpa. Mas ele a amava, e estava
com ela. Havia acabado bem, no fim.
Sua expressão deve ter denunciado o que pensava,
porque Nicole soltou a taça e pegou a sua mão sobre a
mesa.
— O que eu quero dizer é que tudo acontece no seu
tempo. Bruno e Ivan são incríveis e têm profissionais
incríveis ao lado deles, então é apenas uma questão de
tempo.
— Só não gosto de vê-los assim — suspirou, bebendo
um gole generoso do vinho. Nicole fez uma careta, o que
quase o fez engasgar em uma risada. — Não posso beber
o meu vinho em paz?
— Não é assim que se bebe um vinho.
— Você surtaria se visse como eu bebo quando estou
com meus amigos.
Nicole ergueu uma sobrancelha na sua direção, mas
ignorou a provocação.
Alexandre ajeitou a postura quando o celular tocou
em seu bolso. Normalmente, ignorava qualquer ligação
que viesse em um momento com seus pais, mas era
Bruno.
E Bruno nunca ligava. Ivan, sim. De vez em quando,
para dúvidas e questões urgentes sobre o trabalho,
apenas se fosse algo que não pudessem resolver por
mensagens. Mas Alexandre não conseguia pensar em
uma única vez em que recebeu uma ligação do seu
colega de equipe.
— Desculpa, é o Bruno. Preciso atender — murmurou
para Nicole, colocando-se de pé para ir até a área aberta
do restaurante, onde não havia a música suave e o ruído
de pessoas. — Oi, Campos.
— Alex, oi. Hm, você tá ocupado?
A aflição na voz de Bruno era quase palpável. Alex
engoliu a tensão que se formou em sua garganta,
girando nervosamente o anel em seu dedo.
— Parei pra almoçar com a Nicole, mas você pode
falar.
— Você vem pro Brasil semana que vem, né?
— É, eu vou.
— Eu estava pensando… se você não gostaria de nos
ajudar com o processo da adoção antes. Vão lá em casa
conversar com a gente e nosso advogado comentou que
seria bom ter alguém de confiança pra, sabe, dizer que
acha que vamos ser bons pais. — Bruno soltou o ar ao
terminar, como se estivesse o prendendo desde o início.
— Ivan não quis falar com você porque não sabia se você
aceitaria, mas seria bom, você sabe…
Ter a opinião de alguém que também veio de uma
família adotiva. Bruno não terminou, mas Alex sabia o
que ele queria dizer. Conhecia o processo mais do que
gostaria.
— É claro, só me dizer o horário — assentiu, mesmo
que Bruno não conseguisse ver. — Quero ajudar com o
que eu puder.
— Bom, você já vai ajudar muito fingindo que acha
que eu vou ser um pai foda. — Bruno brincou.
— Não preciso fingir sobre isso. Talvez sobre as suas
capacidades de me tratar bem, mas…
— Não gosto de adolescentes — o mais velho
devolveu, já soando extremamente mais relaxado do que
quando Alexandre atendeu a ligação. — A menos que
seja minha criança. Você entendeu.
Alex sorriu. Gostava de Bruno pra cacete. Se já o
admirava antes de conhecê-lo, foi algo que apenas se
intensificou depois.
Por algum tempo, até chegou a considerar a
possibilidade de Bruno não gostar da sua presença na
equipe. Qualquer um sabia de sua amizade com o
espanhol que o acompanhava desde o seu primeiro ano,
e que ele talvez não aprovasse a troca tanto quanto Ivan
dizia que sim. Um novato quando tinham pilotos tão
experientes de sobra.
Se era o caso noinício, Alexandre não sabia. Mas
estaria mentindo se dissesse que Bruno fazia com que se
sentisse desconfortável entre a equipe e o seu círculo
mais próximo.
— Nicole disse que é só uma questão de tempo.
— Eu queria que Nicole me adotasse, e eu amo a
minha mãe — Bruno suspirou. — Valeu, cara. Você não
faz ideia do quanto isso é importante pra nós.
— Acho que eu tenho uma ideia. É por isso que quero
ajudar. — Alexandre se virou quando avistou o garçom
servindo a comida para Nicole em sua mesa. — Ei, a
minha comida chegou. Me ligue se precisarem de mais
alguma coisa, tudo bem?
— Valeu mais uma vez, Alex.
Uau, bom. Aquilo era novo.
Ele suspirou longamente antes de voltar para mesa,
onde Nicole ainda o esperava para começar a comer.
— Algum problema? — ela o fitou quando se sentou
novamente.
— Não, eles só precisam de alguém para conversar
com a assistência social sobre a adoção. Eu aceitei.
— Está vendo? Eles estão quase lá — Nicole sorriu
largamente, estendendo uma garfada das enchiladas
vegetarianas na sua direção, como se ele não provasse a
cada vez que visitavam aquele restaurante. —
Experimenta, Xander. Ah, me diz. Por que você resolveu
ficar mais um dia na França?
Alexandre fez questão de aproveitar a boca cheia
para pensar em uma resposta.
Não valia a pena contar sobre Basile. Não quando o
mecânico francês não cruzaria mais com o seu caminho.
Não quando não era o tipo de coisa que tornaria a
acontecer.
Basile Beauchene havia sido apenas mais um evento
em sua vida. E eventos são passageiros. Não importava o
quanto tivesse gostado do tempo com o rapaz, ou o
quanto tivesse o interesse de conhecê-lo mais a fundo.
Acontece.
— Eu não podia deixar de visitar alguns lugares de
Marselha — mentiu, balançando a cabeça. — Já visitou o
Notre Dame de la Garde?
NOVE
Baz estava ferrado. Muito ferrado, aparentemente.
Dom havia dito que queria vê-lo em sua sala em uma
hora, até que terminasse de resolver algumas coisas em
uma reunião com um fornecedor.
Bom, isso havia sido há cerca de cinquenta e dois
minutos, e Baz estava recostado na parede ao lado da
porta do escritório. Ignorava todo o trabalho que tinha a
fazer na esperança de que Dom o chamasse com alguns
minutos de antecedência, mascando o gosto amargo e
sôfrego da garganta.
Dom não o chamava para conversar em seu
escritório. Nunca. Muito menos marcava a hora para uma
conversa. Quando Dom tinha algo a dizer, bom ou ruim,
ele simplesmente o fazia sem enrolar. Nesse quesito,
eram muito parecidos.
Assim como em muitos outros.
Merda, Baz seria demitido. O que faria sem aquele
emprego? Dificilmente encontraria um lugar para
trabalhar. Se tivesse que levar o bico de entregador do
Palladium como algo fixo, ou até mesmo ficar no bar com
Moreau, surtaria. Tinha economias o suficiente para se
manter por um bom tempo, mas e depois que se
formasse? Seu dinheiro deveria servir para dar o fora do
prédio universitário e dar entrada no seu próprio
apartamento quando se formasse. Não para pagar um
aluguel.
Não poderia ser algo sobre as corridas no Palladium,
porque nada fora do normal havia acontecido. A última
vez que correra havia sido no mês anterior. Também não
poderia ser sobre ter ficado com um piloto mundialmente
famoso, até porque já havia se passado meses e mais
meses que Alexandre Duarte havia pisado ali.
Merda.
Dom não o mandaria embora, certo? Já não tinham
uma relação de chefe e empregado há muito tempo. Se é
que o tiveram em algum momento.
— Basile, pode entrar — Dom disse, a voz grave não
muito alta. Era como se ele soubesse que Baz estaria do
lado de fora, próximo a sala.
Baz limpou a garganta, arrumando a postura antes
de entrar.
As pessoas diziam que Dom era alguém intimidador.
Baz, sinceramente, não se lembrava de pensar o mesmo
nem quando não o conhecia bem, mas não tirava a razão
de quem falava isso. O homem parecia saído de uma
dessas séries sobre motoqueiros que vagavam pelo
mundo em seus veículos de duas rodas, sobreviviam
tranquilamente no meio do nada e almoçavam o que
caçavam. Coisas do tipo.
E não era algo muito longe disso, ao que Baz sabia.
Dom não se abria sobre sua vida pessoal, mas Baz ainda
o conhecia muito bem.
— Senta, garoto — ele mandou, apontando para a
cadeira do outro lado de sua mesa.
— Não — respondeu, antes que pensasse demais.
Não que contrariar seu chefe fosse um hábito, mas
estava nervoso o suficiente para negar aquilo. Quantas
coisas tinham o poder de deixá-lo assim?
Dom ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
Era impossível discutir com Dom.
— Basile, senta.
Baz se sentou. Dom soltou uma respiração pesada,
levantando-se de sua própria cadeira para se acomodar
na ponta da mesa, mais perto de Baz.
— Se é pra me chutar, você podia ao menos me
deixar terminar o mês pra vir o salário completo.
Sugestão, sabe.
— Do que você tá falando, Baz?
— Se eu fiz alguma merda, você pode só me falar —
concluiu. — Não tenho medo de assumir meus erros, só
acho que...
— Por que você não me deixa falar antes de chegar à
conclusão de que eu vou te mandar embora?
Baz mordeu a língua, desviando o olhar para a
parede repleta de fotos. Ainda assim, a inquietação na
sua perna direita não parou. Muito menos o gosto ruim
na língua.
Dom havia entrado na sua vida anos antes, quando a
oficina não fazia nada além da manutenção de carros de
passeio normais. Quando um Basile de catorze anos
passava pela rua da oficina todos os dias, desde que
voltar da escola sozinho porque seu pai esquecia de
buscá-lo havia se tornado uma rotina.
Na verdade, seu pai se esqueceu nas primeiras
vezes. Depois, Baz apenas achou que ele deixara a
obrigação de lado de uma vez quando percebeu que o
garoto era perfeitamente capaz de andar os cinco
quilômetros da escola até em casa.
Mas Baz gostava de carros desde que se entendia
por gente. Não apenas da ideia de dirigir um – ainda
estava longe de ter idade suficiente pra isso –, mas do
funcionamento deles. O pouco que podia descobrir com a
internet não era o suficiente, porque Baz queria entender
mais. Queria ver de perto.
Por isso, quando ele passou por uma oficina onde o
dono fazia algo no carro do lado de fora, Baz se
aproximou.
Dom não lhe deu muita bola no início. Afinal, era
apenas uma criança curiosa e elas apareciam todos os
dias, uma atrás da outra, aproveitando pelo seu gosto de
trabalhar ao ar livre. Logo o menino iria embora.
Mas Baz retornou no dia seguinte. E em todos os dias
que vieram depois, exceto sábados e domingos. Dom
continuava agindo como se não passasse duas a três
horas ali, observando-o, talvez até mesmo ao seu lado.
— Onde você mora, garoto? — Dom perguntou, um
dia, pegando o menino de surpresa.
— No San Felice.
— O restaurante perto do autódromo? — Quando
Basile assentiu, o homem fez uma careta. — Isso é longe,
o que você faz aqui?
— Voltando da aula.
— E você mora em um restaurante? — Dom
perguntou, como se toda aquela história lhe parecesse
uma mentira. Talvez realmente estivesse duvidando. Baz
não prestou muita atenção na época.
— Minha mãe é a dona.
— E por que ela não te busca na escola?
— Porque ela tá no hospital. — Basile se inclinou para
mais perto do carro, apontando para uma peça em
específico. — O que é?
— Não encosta — Dom disse, dando um tapinha na
sua mão. — É o reservatório do lavador de para-brisas. E
o seu pai?
— Viajando, eu acho. — O garoto apontou para outra
peça, esperando que Dom respondesse. — O reservatório
costuma ficar no canto direito, né? Por que esse é
diferente?
Ele não respondeu. Ao invés disso, Dom puxou
chaves do bolso da calça surrada, afastando-se para
chegar até um carro do outro lado da rua.
— Vem, eu vou te levar pra casa — ele disse, não
abrindo muito espaço para discussão. Basile aparecia por
lá em todos aqueles dias, mas ainda sabia do limite a
não ser ultrapassado que era entrar no carro de um
desconhecido. Sua mãe já havia falado muito sobre isso.
Quando percebeuchamar de adoção tardia. Conheci Nicole
com quinze anos.
— Faz sentido, não o vejo há alguns anos. — Uma
parte de Alexandre relaxou com o indicativo de que Ivan
não estava ali para vê-lo por uma possível insistência de
sua mãe. Era a cara de Nicole fazer propaganda sua, mas
Alex odiaria se isso também se aplicasse entre
oportunidades de trabalho. Ela respeitava tal decisão,
mas isso jamais a impediu de falar pelos cotovelos sobre
o filho. — Acha que lidaria bem com um carro de Fórmula
1, Alexandre?
Alex quase se engasgou com a própria saliva.
Correr na Fórmula 1?!
— Eu… eu acho que sim — gaguejou. Ivan ergueu
uma sobrancelha na sua direção. — Digo, sim. É, eu
lidaria.
Lidaria?
— Bom saber. — Ivan ergueu o pulso, olhando o
relógio caro que usava. A careta que apareceu por alguns
segundos mostrou que ele não estava ali apenas para
fazer hora. — Você é bom. Pude comprovar isso vendo-o
hoje.
— Obrigado? — Não deveria sair como uma
pergunta, mas foi quase inevitável. Alex estava confuso.
Por que Ivan estava ali? O que Ivan queria com ele?
O esboço de um sorriso cresceu no rosto do homem.
Perto dele, Alex quase se sentia uma criança novamente.
Catorze anos, assustado e desconfiado. Não era todo dia
que a sorte estava ao seu lado. Podia contar nos dedos
as vezes em que a vida pareceu lhe dar uma folga de
verdade.
— Entrarei em contato. — O russo estendeu a mão
para um aperto que Alexandre aceitou tremulamente e
de forma automática demais. — Até breve.
Alex o observou se afastar em silêncio, ainda parado
na porta de sua sala. Alessandro não estava muito
diferente, talvez até pior.
Entrarei em contato. Até breve.
PARTE UM — MORRER SOZINHO
“E juro que eu não queria ser assim
Só gostar de quem não gosta de mim.”
UM
O maior medo de Alexandre Duarte era morrer
sozinho.
Ele abriu um sorriso na direção das câmeras.
Umedecendo os lábios com a ponta da língua, ele
assumiu uma expressão mais séria. Neutra. As pessoas
sempre gostaram dessa expressão.
Não tanto quanto gostavam do sorriso, talvez.
Estava rodeado de pessoas. Pessoas, pessoas e mais
pessoas. Pessoas que o queriam de todas as formas
possíveis. Para uma entrevista, uma foto, a presença em
um evento que só aconteceria na semana e até no ano
seguinte. Em suas camas, em suas casas. Fora do
esporte que tanto amavam. Todos o queriam de algum
modo.
Com a ponta dos dedos de uma mão, ele ajeitou uma
mecha do cabelo recém-pintado de castanho que havia
caído sobre o seu rosto para trás.
Quando se aproximou de onde os jornalistas e
fotógrafos estavam, a bagunça aumentou. Afinal,
Alexandre não era lá alguém que oferecia muitas
entrevistas quando não estava uniformizado pela Astoria
ou ao lado da equipe dentro de um autódromo, então a
oportunidade era algo perto do único. Os flashes
tornaram-se mais intensos. Aquilo não era algo com o
qual estava acostumado. Algum dia estaria?
Quando atravessasse aquele tapete vermelho, aquilo
acabaria.
— Alex, quais são as expectativas para a temporada?
— um deles perguntou.
Sempre as mesmas perguntas...
— Bom, vencer. — O projeto de piada com seu tom
óbvio arrancou algumas risadas dos repórteres ao redor.
— Mas também crescer como equipe e como piloto, o
que vem se mostrando um objetivo realizado nos últimos
tempos. É o meu segundo ano na Astoria, mas ainda há
muito a aprender. Acho que sempre haverá.
— Você se tornou uma figura de atenção fora das
pistas, na Internet e vem atraindo inúmeros novos fãs
para o esporte. Como é carregar o título de “Garoto de
Ouro”?
O estômago de Alexandre se revirou. Aquele maldito
título. Aparentemente, enquanto não fosse o Campeão
Mundial de uma temporada, teria de lidar com aquele.
O sorrisinho que aquelas pessoas tanto gostavam
não trazia apenas coisas boas, no fim. A opinião geral de
que era um cristal lapidado e extremamente intocável
era algo com o qual precisava lidar. Uma imagem a
manter.
Uma grande imagem a manter.
— Eu não poderia reagir a isso de uma forma
negativa. — Hipócrita. — Gosto das redes sociais por me
permitirem maior contato com fãs, mas nunca pensei
que tantas pessoas achariam a minha rotina entediante
tão legal assim.
Mais risadinhas, e Alex endireitou a postura já
perfeita. Estava prestes a soltar algo como por favor, me
deixem vazar daqui.
— Vejo como uma oportunidade de usar a voz que
tenho para falar de temas que são importantes para mim
— hipócrita, hipócrita, hipócrita. — Sobre a nossa
realidade e a realidade do esporte que eu amo desde que
nasci. Não sei se é algo que faltava antes, mas
definitivamente é algo que eu gosto de fazer. Minha
equipe é feliz em fazer o mesmo, é como estar em casa
mesmo quando estou longe dela.
— O que você tem a comentar sobre a declaração da
Ritz-Carlton sobre...
— Com licença, acho que vocês estão com algo que
me pertence. — A voz suave e calma de Jolene soou
atrás do piloto, e Alex poderia facilmente beijá-la ali
mesmo por interromper aquela tortura. — E eu odeio ser
egoísta, mas pensei que a noite fosse sobre o meu filme.
Jolene deslizou a mão de unhas longas pelo seu
ombro, inclinando-se sobre os saltos para alcançar a sua
bochecha em um beijo antes de usar a mão livre para
ajustar a sua gravata.
— Boa noite, amor — o rapaz disse, baixo, ignorando
o fotógrafo que pediu por um beijo. Hoje não, cara. Jolene
revirou os olhos antes de voltar o rosto na direção das
câmeras, posando para novas fotos ao seu lado.
— Você está excepcionalmente bonito hoje — ela
murmurou, o sotaque inglês destacando-se. Jolene, ao
contrário de Alex, parecia absurdamente segura diante
das câmeras. Ela sabia como agir, como sorrir e o que
dizer. Talvez por isso fosse uma atriz tão boa. — Um
verdadeiro sex appeal. Era a intenção?
— Só pra você, talvez seja.
— Não consegue ficar dois segundos sem flertar,
Alexandre? — Jolene jogou os cabelos em tranças sobre o
ombro, sorrindo ainda mais para as câmeras. O batom
vermelho e o delineado branco e marcante realçavam a
sua pele negra, se é que ela poderia ser mais linda ainda.
Em uma troca de olhares rápida que, definitivamente,
estaria em fotos estampadas em todas as redes sociais
em poucos minutos, ela deu um tapinha no seu peito. —
Se eu já não soubesse que definitivamente não damos
certo assim, talvez caísse no seu papinho.
— Besteira. Nós damos muito certo.
— Depende — ela rebateu, e não era como se
Alexandre pudesse discordar. Além de todo o passado
que tiveram quando realmente achavam que poderiam
ser algo mais, acima de tudo, Jolene era sua melhor
amiga. — Não de outra forma. Para a minha tristeza, só
querem que eu me envolva com alguém se for para ser
um compromisso sério. E você apareceria com outra
pessoa em menos de uma semana se entrasse nessa
publicamente.
— Me ofende achar que eu realmente só saio por aí
arrumando fodas casuais — dramatizou, acenando para
uma câmera que chamou a sua atenção. Com um leve
cutucão nas costas nuas da atriz ao seu lado, esperou
que ela entendesse que queria dar o fora dali. — Eu
também tenho um coração.
— Definitivamente tem. — Jolene segurou a sua mão,
guiando-o para a entrada do evento. O lugar decorado
com flores e luzes coloridas, seguindo a estética do filme
protagonizado pela atriz, parecia incrível. Havia uma
torre de taças de champanhe junto ao buffet para os
convidados, que variavam do pessoal da equipe de
filmagens, produção e direção e seus familiares até
nomes reconhecidos na indústria audiovisual.
Sinceramente, Alexandre não saberia dizer o nome
de cinco pessoas além de Jolene. Mas depois de escutá-la
falando sobre o quanto aquele dia seria importante por
conta de cada uma daquelas pessoas, não era fácil
esquecer.
Engraçado. Enquanto Alex não se sentia confortável
diante de câmeras e mais câmeras, Jolene parecia sentir-
se em casa diante delas, e intimidada diante de pessoas
que simplesmente a olhariam nos olhos.
— O pôster oficial é lindo — comentou, entrelaçando
os dedos nos deque o menino não entraria no
carro, Dom soltou um palavrão.
— Você vai e volta andando todos os dias?
— Só volto — Baz negou, balançando a cabeça
enquanto se inclinava para mais perto do carro com o
capô aberto outra vez. O homem se aproximou apenas
para afastá-lo da lataria com uma mão no seu ombro.
— Não tem ninguém que possa te buscar?
Que possa, sim. Que queira, não. Baz não verbalizou
aquilo, apenas negou com a cabeça outra vez.
Dom não tentou mudar aquela situação, mesmo
quando Baz continuou retornando nos dias seguintes.
Mas algo havia mudado. Ele deixava que o menino se
aproximasse mais, até respondia todas as suas
perguntas. Quando estava de bom humor, ensinava
como o serviço deveria ser feito.
— Posso trabalhar com você? — Basile havia
perguntado em algum momento. Já frequentava o lugar
há quase dois meses. Sabia o suficiente para serviços
básicos e pequenos. Dom tinha que deixar, certo?
— Não — Dom sequer hesitou ao dizer, um cigarro
equilibrado entre os lábios rachados.
— Por quê?
— Quantos anos você tem? Onze?
— Quase quinze. Faltam dois meses.
— Nem fodendo.
— E quando eu tiver quinze?
— Posso pensar.
Basile completara quinze anos, e Dom ainda não
deixou que ele trabalhasse na oficina.
Sabia que Dom estava apenas aguardando pelo
momento em que ele se cansaria da rotina dali e sumiria,
assim como todas as outras crianças curiosas que já
haviam passado por lá. Mas isso não aconteceria, e
perceber que o homem pensava isso dele só lhe deu
algum incentivo a mais para continuar. Baz continuou
indo cada bendito dia da semana, até o momento em
que Dom deixou de comprar apenas uma marmita para o
almoço.
Quando tinha dezesseis anos, Dom o buscou no
colégio. Não porque já eram próximos o suficiente para
que sua relação incomum saísse da oficina, mesmo que
já se conhecessem há dois anos.
Mas porque, pela primeira vez em tanto tempo e sem
dar notícias, Basile não havia aparecido. A primeira
reação do homem foi procurá-lo no colégio. E lá estava
ele.
Na diretoria.
De cara fechada e com os braços cruzados, o garoto
chutava levemente a mochila de um lado para o outro no
chão.
— Cadê o seu pai, garoto? — ele perguntou, porque
já havia desistido de perguntar pela mãe, que estava
sempre no hospital, há muito tempo.
— Ele disse que estava vindo. Três horas atrás.
Dom revirou os olhos.
— Levanta. Você vai comigo.
— Você é o meu pai agora? — Baz perguntou, a ironia
clara em sua voz. Dom não sabia dizer ao certo se isso
era sua culpa, mas o garoto tinha a língua cada vez mais
afiada. Um porre.
— Cala a boca. Quem tem que te liberar?
— A diretora fica naquela sala ali.
Baz duvidava que Dom conseguiria tirá-lo dali.
Duvidava muito. Afinal, não tinham nenhum grau de
parentesco e o mecânico não tinha qualquer contato com
a sua família.
Era um conhecido. Por mais que fizesse parte da sua
rotina há dois anos, ainda era apenas um conhecido.
Dom não demonstrava pensar de forma diferente, então
era isso.
— Levanta — a voz grave do homem soou, e Dom
deu um tapinha na parte de trás da sua cabeça quando
passou na sua frente. Basile trocou um olhar com a
diretora, que o encarava com uma cara feia. — Basile, se
eu ouvir que você arranjou briga no meio da aula outra
vez, vou acabar com a sua raça.
Dom não parecia realmente bravo. O que só fez a
careta da diretora piorar, se é que ela podia ter uma
careta ainda mais feia do que normalmente tinha.
Provavelmente ela estava irritada por vê-lo indo
embora tão facilmente. Baz pegou a mochila do chão,
acompanhando o mais velho até o carro.
— Não vou entrar no seu carro — declarou, cruzando
os braços.
— Garoto, eu te tirei da porra da diretoria.
— Mas não é meu pai, nem meu parente. Você nem
se considera meu amigo — Baz rebateu.
— Ah, vai se ferrar.
— Mas eu entraria no carro do meu chefe se ele me
oferecesse uma carona — completou, rapidamente.
Dom o fitou, estreitando os olhos. Aparentemente,
aquele era o seu jeito de tentar intimidar alguém. Não
funcionava com o mais novo. Nunca havia funcionado.
Em vez disso, Basile sorriu.
— Beleza, tá contratado.
— O que me garante?
— Quê?
— O que me garante que você não vai me chutar do
emprego assim que eu pisar fora do seu carro? — O
garoto ergueu uma sobrancelha.
Dom não era paciente. O homem soltou uma série de
palavrões enquanto pegava algo no carro.
Não tinha paciência, mas era laranja. Como a mãe de
Baz também costumava ser, nos bons tempos.
Uma caneta. Uma caneta e um pedaço de papel.
Dom escreveu algo usando o próprio carro como apoio,
antes de estender para Basile.
Com letras apressadas – ou irritadas –, ele havia
escrito algo como “Eu contrato Basile por período
indeterminado ou até ele acabar de vez com a minha
paciência” e sua assinatura.
— É ótimo negociar com você — Baz disse,
guardando o papel no bolso antes de entrar no carro.
Daquele dia em diante, Dom o buscou no colégio
diariamente. Obrigava-o a fazer todo o dever de casa
antes de permitir que o ajudasse com os carros. O levava
para casa às cinco, mesmo que a oficina só fechasse às
onze da noite.
Eventualmente, Dom conheceu seu pai. Eles se
odiaram desde o primeiro segundo, mas não era como se
Dom já não tivesse as piores impressões sobre um pai
rico que preferia sumir, em vez de cuidar do filho que
não tinha ninguém enquanto a mãe continuava sempre…
no hospital. Outro ponto que nunca conversaram sobre.
Não até que não houvesse mais volta.
Eventualmente, Basile teve dinheiro suficiente para
comprar um carro usado. Caindo aos pedaços, talvez,
mas com o seu dinheiro. Até que ele próprio, com a ajuda
de Dom, consertasse os problemas mais graves no
veículo e remediasse os que poderia ignorar até que se
tornassem os novos mais graves.
Eventualmente, Basile entrou na faculdade. Não que
isso tenha o atrapalhado de qualquer forma. Na verdade,
foi o passo que fez Dom acreditar que já poderia
trabalhar na oficina durante todo o horário em que não
estivesse no campus.
Eventualmente, quando Basile estava velho o
suficiente para se aventurar nas noites de festas
francesas, ele conseguiu novos clientes. Não qualquer
tipo de clientes. Clientes grandes.
Clientes que lhe renderam uma bronca quando Dom
descobriu de onde vinham.
— Corridas ilegais, Basile?!
— Corridas casuais — Baz corrigira, calmo. Ele
observou Dom andar nervosamente pelo escritório.
Revirou os olhos, esticando as pernas sobre a mesa. —
Rendem uma grana boa e o bar é legal. Você também
gostaria, aparece lá qualquer dia.
— Te tirar da cadeia não vai me render uma grana
boa.
— Ninguém é preso por arrumar carros só porque
participaram de corridas ilegais, se liga. — O rapaz deu
de ombros, analisando de modo distraído a tatuagem
que havia feito na semana anterior, no antebraço. Não
era a primeira, e definitivamente não seria a última. — Tô
fazendo o meu trabalho sem fazer a merda.
Uma semana depois, Dom precisou tirar Basile da
cadeia por fazer a merda. Em sua defesa, estava curioso
para conhecer a sensação de passar dos 100km/h em um
carro caro.
Um mês depois, também precisou deixar todo o
trabalho de lado quando a mãe de Basile, Geneviève,
aquela que nunca havia sido um verdadeiro tópico entre
eles, deixou o hospital. Mas não com vida. Porque, muito
mais do que o esperado, o garoto precisava dele. E para
sua surpresa, havia a necessidade de estar lá por ele
também. Não era uma obrigação.
Dom não tinha filhos. Na verdade, nunca havia sido
casado. Saía com mulheres entre um período de tempo e
outro, mas seu trabalho era o seu maior foco. O que mais
amava, o que nunca deixaria de lado por nada… Nada,
além de um rapaz com tendências preocupantes para se
meter em confusões quando deixado sem supervisão por
muito tempo.
— Eu sou gay — Basile disse, em algum momento.
Havia pedido para conversarem em particular no seu
escritório, e Dom estava crente de que ele pediria
demissão. Baz tinha notas ótimas na faculdade, seria
uma questão de tempoaté que lhe oferecessem
oportunidades melhores.
Até que ele procurasse por oportunidades melhores.
Mas não. Não naquele momento, pelo menos.
— O quê?!
— Eu sou gay — Baz repetiu, encarando as próprias
mãos.
— E eu com isso?
O rapaz o fitou. Basile já era extremamente diferente
do garoto que o havia observado trabalhar em silêncio
por dias durante o caminho da escola para casa. Mais
forte, mais alto. Mais um pé no saco, definitivamente. Um
adulto.
— Sei lá, achei que devesse saber.
— Bom, não muda nada na minha vida. Portanto, eu
não dou a mínima.
— Não pensa em me demitir ou algo assim?
— Por que eu te demitiria por isso, garoto? — Dom
resmungou, gesticulando com a mão para que Baz se
levantasse. — Sai da minha sala, tenho mais o que fazer.
Dom observou Basile deixar o escritório com um
sorriso largo no rosto. Ele pensava que não mandaria
aquele garoto embora em ocasião alguma.
Naquele momento, anos depois, Basile tinha a
certeza absoluta de que seus dias com Dom estavam
contados. Por que outro motivo ele o chamaria na sua
sala? Ele parecia sério pra caralho. De um jeito que não
costumava ser na sua presença.
Baz o conhecia como ninguém, sabia quando algo o
estressava. E, bem, estava no contrato que ele iria
embora quando a paciência de Dom se esgotasse. Talvez
fosse o momento.
Por que a possibilidade o incomodava tanto? Baz se
esforçou para engolir o gosto seco e amargo que invadiu
agora as suas narinas, o impedindo de respirar por um
momento.
— Seu pai me ligou.
É, aquilo era pior.
— Por quê? — Baz arrumou a postura.
— Ele quer que eu te libere do trabalho.
— Então você vai me mandar embora.
— Eu vou conversar com você, porque o seu pai quer
que trabalhe com ele.
Baz riu, balançando a cabeça.
— Ele é engraçado.
— Eu acho que você deveria ir. Vão te treinar nos
próximos meses e, na próxima temporada, você vai
trabalhar com eles. Já tá tudo pronto pra você.
— Mas eu não vou, e você sabe disso. Eu não vou
trabalhar pro meu pai.
Dom passou as mãos pelo rosto, respirando fundo.
— Garoto, vai se formar em algumas semanas.
Sempre teve notas ótimas. Tá na hora de procurar algo
melhor.
— Eu não quero algo melhor. Eu quero trabalhar aqui.
— Baz cruzou os braços. — Gosto do meu emprego.
— Você vai mesmo negar uma oportunidade de
trabalhar na Fórmula 1, Basile?
— Não é uma oportunidade, é a porra de um castigo.
Não quero conviver com o meu pai.
— Bom, nesse caso, eu vou ter que te demitir.
— Não, você não vai. — Baz se levantou, indo até
Dom. Impedindo-o de mexer nos papéis da escrivaninha.
— Quanto ele te pagou?
— Nada, Basile. Eu quero o melhor pra você e não
preciso ser pago pra isso.
— Ele te pagou, né? Ele é do tipo que consegue tudo
assim. Eu dou um jeito de te pagar o mesmo valor, tenho
um dinheiro guardado.
Baz tentou segurar o braço de Dom mais uma vez,
mas não forte o suficiente para segurá-lo de verdade.
Não usaria qualquer força maior com Dom. Nunca. Mas
queria que ele parasse com aquela merda.
Imediatamente.
— Basile, seu pai não me pagou. Me solta.
— Eu trabalho de graça, não precisa me pagar —
insistiu.
— Basile, cala a boca. — Dom empurrou o seu ombro.
— Se não fosse o merda do seu pai, você correria até o
inferno pra conseguir uma oportunidade dessas. Não vai
deixar passar porque ele é um bosta. Você vai e vai
mostrar pra ele que você é foda, que ele perdeu a
chance de ter por perto uma criança incrível.
Se aquilo deveria motivar Baz, não funcionou. Porque
Dom não sabia quem o pai de Basile realmente era. Dom
não fazia a menor ideia. Dom nunca entenderia. A
possibilidade de ter que conviver com o pai, preso ao
emprego em uma equipe de Fórmula 1, por melhor que a
Ritz-Carlton pudesse ser, enchia o seu corpo de ânsia.
Queimado. Espesso.
Basile não queria ter que provar ser nada ao pai.
Basile queria ficar ali. Já tinha perdido demais, merecia
escolher onde e com quem ficaria. Na oficina, no
Palladium. Com Dom. Com Moreau, por mais que
dissesse não suportar o amigo.
— Foda-se você — cuspiu, afastando-se do mais
velho. — Foda-se você, Dom. Vai à merda.
— Fique com raiva o quanto quiser, você vai me
agradecer em algum momento — ele rebateu, tranquilo.
Mais tranquilo que Baz gostaria. Dom realmente se
importava tão pouco com o quanto queria ficar? —
Quando estiver amando seu emprego novo, venha me
agradecer.
Basile deixou a oficina sem dizer mais nada.
O único lugar onde se sentia seguro. Onde a única
pessoa que parecia entendê-lo de verdade ficava.
Baz estava completamente sozinho outra vez.
DEZ
Alexandre Duarte foi capturado pelas câmeras da
premiação em sua melhor forma. O recente corte nos fios
novamente dourados, bagunçado e moderno. O blazer
preto e lustroso sobre uma camisa de gola alta. As
correntes prateadas e anéis tão característicos. A mão
relaxada na cintura de Jolene – melhor amiga ou
namorada? – tornou-se motivo de burburinho em pouco
tempo. Ninguém esperava que ele aparecesse
acompanhado. Ou, pelo menos, acompanhado por
alguém além de seus pais, que haviam entrado alguns
minutos antes.
— Quando eles vão parar de insistir por um beijo em
público? — Jolene brincou, baixo. Com uma mão, a atriz
jogou os fios pintados de um loiro acobreado e longos
para trás ao posar para uma nova foto.
— Quando um de nós arrumar um namoro de
verdade. Ou nem isso.
— Esse é o preço para um pouco de paz? Uau.
Alexandre riu, inclinando-se na direção de Jolene
para afastar uma mecha do cabelo que caía sobre o rosto
da atriz. Os cliques dispararam.
— Você também não ajuda, Alexandre — ela disse,
entre um sorriso desajeitado.
— Você gosta da atenção — rebateu. — Quando cair
na rede de alguém que, ao contrário de mim, não gosta
de aparecer também, vai sentir minha falta.
— Isso é um pedido de namoro?
— Não sejamos apressados. Podemos só aproveitar
que estamos dividindo o mesmo quarto do hotel.
— Seja mais romântico, Duarte. Nicole não te criou
assim.
Alex riu. Se não fosse por Jolene, ele tinha a certeza
de que aquela noite seria infinitamente mais chata do
que já esperava que fosse.
Não entenda mal, Alexandre estava feliz por estar ali.
Era a porra do seu primeiro mundial. Era um marco na
sua história, era estar em um lugar onde, há alguns anos,
jamais pensou que estaria. Era ultrapassar inúmeras
barreiras que a vida havia colocado no seu caminho. Era
provar, não apenas para si, que poderia ser mais. Havia
comemorado muito sobre isso desde a última corrida.
Comemorações entre família, entre amigos e entre a
própria equipe. Alexandre diria que estava cansado de
comemorar, se ainda não ficasse tão eufórico sempre
que parava para pensar demais no assunto.
Mas não fazia com que gostasse de eventos formais.
Não quando os eventos formais envolviam gente velha e
chata.
— Vamos entrar, eu estou morrendo de sede — disse,
puxando suavemente a atriz pela mão.
Precisaram parar para cumprimentar e conversar
com um número razoável de pessoas que queriam
parabenizá-lo antes que conseguisse, finalmente,
encontrar alguém que lhe oferecesse bebidas. Ainda
segurando a mão de Jolene, Alex olhou ao redor,
procurando por Nicole e Ângelo. Ou, talvez, Bruno e Ivan.
Seus pais provavelmente estariam onde quer que os dois
estivessem. Até onde sabia, dividiriam uma mesa.
Mas Alexandre não os encontrou. Na verdade, parou
de procurar por eles assim que o viu.
Basile Beauchene. O francês parecia cruelmente
deslocado em seu terno, bebendo champanhe e olhando
diretamente na sua direção também. Por que ele estava
ali? Ele deixou muito claro que não suportava respirar o
mesmo ar que o pai, mas estava ao lado do homem em
uma premiação. Claramente não era o seu ambiente,
mas ele estava ali. Como qualquer outro convidado.
Alex não esperava vê-lo. Inferno, Alex não tinha
plano algum para olhar novamente na cara daquele
homem. Não até o prêmio da França seguinte, talvez,
porque era esperado que Basile aparecesse no
autódromo, assim como fizera da últimavez. Mas poderia
se preparar para isso.
Não para aquilo. Alex desviou o olhar, levando a mão
livre até o rosto para massagear uma têmpora. Péssima
hora para dores de cabeça.
— Achou Nicole? — Jolene perguntou, um tanto
alheia ao que estava acontecendo. Quando percebeu sua
expressão, ela ergueu uma sobrancelha. — O que foi?
— Lembra do cara que eu fiquei na França?
— O filho do Beauchene?
— Basile. Sim, esse. Ele tá aqui.
— Sério?! Onde? — Jolene fez menção para olhar ao
redor, mas Alex segurou o seu rosto.
— Você não pode ser um pouco mais discreta? —
pediu, umedecendo os lábios subitamente secos. Não
deveria ficar tão nervoso em encontrar alguém com
quem tinha ficado, mas estava.
Mas, bem, era o ambiente onde sempre tinha tudo
sob controle. E o seu único erro estava ali, alguns metros
à frente.
— O cara tatuado do lado do Beauchene — disse,
baixo, para a atriz.
Jolene olhou ao redor discretamente, bebendo um
gole de seu champanhe antes de olhar na direção da
mesa certa.
— Uau, ele é gostoso.
— Eu sei.
— Ok, eu te entendo agora. Eu também perderia um
voo por ele.
Então, Basile acenou. Havia um sorriso ácido em seu
rosto.
Quando Jolene devolveu o gesto animadamente,
Alexandre revirou os olhos, virando-se para ficar de
costas para a mesa onde seu… amigo estava...
— Você é uma atriz e não consegue fingir que não tá
encarando alguém?
— Não estou no trabalho, amor — ela disse,
despreocupada. — Não é como se você pudesse fingir
que ele não existe pro resto da noite.
— Eu gostaria.
— Ah, eu odiaria fingir que um cara desses não
existe.
Alexandre estreitou os olhos na direção da mulher.
— Estou um pouco confusa, essa é a sua cara de
ciúmes por minha causa ou por ele? — Jolene provocou.
— Porra, eu preciso de um cigarro — resmungou,
respirando fundo quando finalmente viu onde Nicole e os
outros estavam.
Alexandre fez o que podia para esquecer da presença
marcante do francês ali, mais perto do que pretendia
estar em… em muito tempo. Ainda não fazia sentido
algum que o comparecimento dele ali fosse real.
Mas Alex o ignorou. Ignorou quando se aproximou de
seus pais, porque o sorriso no rosto de Nicole naquela
noite em especial era bonito demais para que perdesse
tempo pensando em qualquer outra coisa. Ela estava
radiante. Orgulhosa.
Orgulhosa. O orgulho de Nicole significava milhões
de vezes mais do que qualquer pessoa poderia pensar.
Alex o ignorou porque aquela era, também, a sua
noite. A sua premiação. O seu sonho de criança.
Foda-se. Basile não apareceria meses depois para
ameaçá-lo com a informação de que já tinham transado,
certo? Ele não faria isso. Não o conhecia, mas se deixara
acreditar na ideia de que Basile não o faria, e esperava
não estar errado.
Alexandre subiu no palco quando seu nome foi
chamado. Recebeu o troféu e disse palavras que havia
treinado em frente ao espelho e no banheiro desde que
vencer aquele título tornou-se uma possibilidade cada
vez mais presente na sua vida. Não olhou na direção
onde ele estava, porque sabia que perderia as palavras
no instante em que o fizesse.
O piloto brasileiro riu ao olhar na direção de Nicole. A
mulher tentava, em vão, limpar as lágrimas que
ameaçavam estragar sua maquiagem impecável.
— Meu discurso foi tão ruim assim? — provocou,
aproximando-se para abraçar a mãe. — Não chora,
Nicole.
— É de felicidade, eu tenho o direito. — Nicole
segurou o seu rosto, olhando-o como se fosse a primeira
vez que o via. Com admiração. Amor. Muito amor. O
sentimento de ser esmagado pelo amor de Nicole era
sempre a melhor sensação do mundo, e Alex ainda não
acreditava que realmente tinha esse amor para si. —
Você é meu filho.
— É, eu sou — concordou, beijando a mão da mãe.
Ao levantar o olhar, Alexandre capturou os olhos de
outra pessoa. De Basile. O rapaz inclinou a cabeça em
um cumprimento silencioso, talvez uma parabenização.
Alex umedeceu os lábios, acenando suavemente em
resposta.
Quando Basile se afastou da mesa em que estava
com o pai, o mais novo dono do título limpou a garganta.
— Eu já volto — disse, lançando um olhar rápido na
direção de Jolene, que dizia para que ligasse caso algo
importante demais acontecesse, antes de se afastar.
Com alguns metros de distância, apenas por
segurança, Alexandre seguiu Basile. Acenou rapidamente
na direção de qualquer pessoa que ameaçou se
aproximar para uma conversa que duraria mais do que
gostaria – naquele momento, dois segundos a mais já
seria muito.
O piloto entrou no elevador junto do francês, fitando
a câmera de segurança do cubículo por um momento.
Mesmo quando as portas se fecharam, nenhuma palavra
foi dita.
Em termos gerais, não se conheciam. Não tinham
nada a dizer um para o outro.
Alexandre observou a tela do elevador indicar que
estavam no último andar, onde o terraço ficava.
— Eu não esperava te ver aqui — disse, quando o frio
da noite de Paris, onde a premiação acontecia, atingiu o
seu rosto.
Basile riu, balançando a cabeça. Ele afrouxou a
gravata, abrindo também os primeiros botões da camisa
branca.
— É o seu jeito de dizer que não me queria aqui?
— Eu não tenho nenhuma opinião formada sobre a
sua presença ou ausência. — Alexandre olhou ao redor,
apenas para ter certeza de que não haveria nenhuma
câmera de segurança ali. — Mas não esperava que a
presença fosse uma possibilidade. Só isso.
— Eu sei, estou te zoando. — O francês cruzou os
braços, recostando-se na parede mais próxima.
Observava o piloto, que permanecia imóvel. Ele tirou o
vape do bolso do terno, tragando demoradamente a
essência. Alex se perguntou se ainda era a mesma de
quando se conheceram. — Parabéns. Foi um bom ano pra
você.
— Foi.
— É estranho te ver no personagem.
— Perdão? — disse, franzindo o cenho. Quando Basile
ergueu suavemente o queixo como se o desafiasse a se
aproximar, Alexandre se aproximou.
— No personagem. Alexandre Duarte, o piloto
exemplar. Você surgiu do nada e é tão impecável em
tudo que se propõe a fazer. Como isso seria possível? —
Basile sibilou, deslizando o olhar por toda a extensão do
piloto mais uma vez. Alexandre não sabia ao certo se
aquilo deveria ser um elogio ou uma ofensa. — Você não
levanta a voz, é tão bonito. Tão carinhoso, sua relação
com sua mãe é admirável. Conquistador, ninguém sabe
se você está namorando a atriz do momento ou se os
boatos de que você fode por cada cidade que passa são
reais. Não te torna menos desejável, de qualquer modo.
Na verdade, a ideia de ir pra cama com você é muito
discutida. Mas você sabe disso. Você gosta de toda a
atenção.
Alex não sabia que merda era aquela. Não sabia até
onde Basile queria chegar.
Mas aquelas palavras o deixavam inquieto. Inquieto
demais.
— Você gosta, porque é divertido saber que está se
saindo tão bem em esconder quem realmente é. Saber
que, quando ninguém estiver olhando, vai ter algo que é
só seu.
— E quem eu realmente sou? — disse, mais na
defensiva do que gostaria. Quem era aquele cara para
dizer que estava fingindo ser alguém que não era? Basile
não o conhecia.
Suas interações eram bastante limitadas a… um
conflito e sexo. Muito sexo. Raiva e a parte de si que
escondia de todos que não faziam parte de sua rotina.
E Baz sabia que isso já era uma parte grande de
quem não demonstrava quando olhos e câmeras
estavam apontados na sua direção. Baz sabia que o que
ele conhecia era o que não deveria, considerando que
não se conheciam de verdade. Que não confiavam um no
outro.
A compreensão o atingiu como um soco. Alex
resmungou um palavrão, recostando-se na parede bem
ao lado de Basile, em derrota. Balançando a cabeça, o
piloto tirou um cigarro do bolso, acendendo com o
isqueiro que, surpreendentemente, foi entregue na sua
direção por Baz.
— Eu não sei, mas eu conheço o Alexandre que não
tenta esconder algo tão idiota quanto o hábito de fumar.
— O francês se inclinou na sua direção, inspirando
suavemente quando Alex soltou a fumaça pela boca. O
brasileiro conteve dentrode si a vontade de se inclinar
para frente, para mais perto dos lábios entreabertos de
Basile. — Um que teria me dado um soco se descobrisse
que quero mexer com ele, porque quem seria o filho da
puta que ousaria bater de frente com ele? E que tem
uma boca surpreendentemente suja quando tá perto de
gozar. O Garoto de Ouro ficaria envergonhado se visse
esse cara, e eu odeio o Garoto de Ouro.
Eu odeio o Garoto de Ouro. Bem, Alexandre também
o odiava pra caralho.
No segundo seguinte, Alex equilibrou o cigarro entre
o dedo indicador e o do meio para puxar Basile pela
gravata frouxa para um beijo. O frio da noite se foi em
questão de segundos, porque as mãos de Baz o
percorrendo foram o suficiente para esquentar cada
centímetro do seu corpo.
Baz engoliu cada suspiro, respiração e arfar que
Alexandre ousou soltar enquanto suas bocas
permaneceram coladas. Quando o francês o obrigou a se
afastar, puxando-o pelos fios loiros com os dedos firmes,
Alex soltou um gemido quase revoltado.
— Bom saber — ele sussurrou, mais para si mesmo
do que para Alexandre.
— Por que você tá aqui? — Alex perguntou, mais
como uma reclamação do que como uma pergunta. Por
que ele estava ali, dizendo tudo aquilo, bagunçando-o
com as mãos, a boca e as palavras?
Baz tornou a se aproximar, como se fosse beijá-lo
outra vez.
Ele não o fez. Em vez disso, observou um Alexandre –
o piloto da noite, a estrela que todos queriam tocar, mas
não podiam – totalmente rendido esperar pelo novo
contato em vão. Basile se afastou com um passo seco,
soltando o cabelo loiro. Se era sua cor natural ou mais
uma pintura do brasileiro, não dava a mínima. Parecia
muito mais ele, de alguma forma.
— Porque eu vou te destruir, não ficou óbvio? — ele
declarou, antes de sair pela mesma porta pela qual
haviam entrado, deixando Alexandre completamente
sozinho outra vez.
Com palavras ditas ao vento, a noite parisiense
gritou para que fosse embora e esquecesse aquilo. O
aviso de que era um erro, algo perigoso, brilhou diante
de seus olhos novamente. De novo, como na noite em
que viu o rapaz no Palladium, meses atrás.
Não o suficiente para fazer com que quisesse se
afastar, aparentemente.
PARTE DOIS — DOCE
“Hoje eu acordei tão cedo
Pra falar que eu quero abrigo
Mas não posso ser seu”
ONZE
O início de uma nova temporada poderia ser
facilmente considerado a fase favorita de Alexandre.
Scuderia Astoria tinha a sua história, e Alexandre a
amava desde sempre. Desde muito antes que ser um
piloto em qualquer categoria do automobilismo fosse
sequer uma possibilidade.
Fazer parte disso era muito. Mais do que poderia um
dia colocar em palavras.
Alexandre gostava da oportunidade de um novo ano
com sua equipe.
E ele sabia que a atenção sobre ele estaria tão
intensa quanto nunca. Algo natural sobre o mais recente
campeão mundial, mas que apenas reforçava o seu
maior mantra – que não era um ano aberto a qualquer
tipo de falha, distração ou perda de tempo. Em hipótese
alguma.
— Alex, como foram as férias de campeão mundial?
— o câmera do reality que ainda acompanhava a
categoria perguntou, seguindo-o entre todas as pessoas
que passavam por perto pela entrada do circuito do
Barcelona. — Ou não é possível descansar quando seus
pais também fazem parte desse meio?
O piloto ajustou os óculos escuros sobre o rosto,
passando os dedos entre os fios claros antes de dar de
ombros.
Família também era um dos principais tópicos ao seu
respeito. Nicole e Ângelo não eram tão abertos para a
mídia, sequer davam entrevistas mesmo antes de adotá-
lo, e Alexandre respeitava isso. Sabia dos motivos de
Nicole, e não queria ser o responsável por um problema
causado por isso.
— Meu pai se aposentou há alguns anos, então ele
não faz muito além de me dar uma bronca por passar
muito tempo sentado com a postura ruim na frente do
computador — brincou, torcendo para que aquela
resposta fosse o suficiente. E não era uma mentira.
Ângelo o acompanhava vez ou outra durante os
exercícios na casa, auxiliava nos alongamentos e até
fazia massagens nos seus ombros quando pedia, só
porque ele era muito bom nisso. Mas não era como se
seu pai cobrasse algo, como um superior. Longe disso. Se
Alexandre acordava indisposto, visivelmente ansioso ou
cansado, Ângelo preparava uma quantidade não muito
saudável de pipoca com manteiga e o chamava para
assistir algum filme de ação ruim apenas para tirá-lo da
cama. — Sabemos quando separar o meu trabalho do
ambiente familiar, a minha preparação para uma nova
temporada não os envolve na maior parte do tempo.
— E Nicole?
Nicole não quer ser citada.
— Nicole é ótima com a parte motivacional —
respondeu, simplista. Alexandre acenou na direção do
piloto de uma outra equipe que passou por perto antes
de voltar a atenção para o câmera que ainda o seguia. —
Se você espera algum tipo de parentesco que fique no
meu pé, talvez deva perguntar sobre Bruno e Ivan.
— Eles estão se dando bem com a adoção, aliás?
— Hora dos testes, até mais tarde — cortou,
acenando antes de entrar na área da equipe. Onde o
homem só teria permissão para entrar com liberação
direta da Astoria. Não era o caso, e obrigado Deus.
Durante as férias, a informação de que Bruno e Ivan
estavam em um processo de adoção vazou. Ninguém
sabia ao certo de onde ou como, mas todos souberam
que havia uma criança cada vez mais perto de entrar
para a família Campos. Uma criança brasileira, de acordo
com as notícias. Uma criança que estava, pouco a pouco
e cuidadosamente, sendo introduzida a uma vida
diferenciada da maioria das famílias que procuravam
pela adoção. Uma vida onde seus pais eram figuras
públicas, viajavam semanalmente e faziam parte de um
esporte considerado de grande risco.
Delicado. Provavelmente mais fácil se não
precisassem ligar com as sanguessugas que procuravam
por informações que não deveriam ir a público antes do
planejado. Mas Alexandre podia ignorar a raiva que
sentia sempre que alguém realmente achava que ele
soltaria alguma novidade que não lhes dizia respeito para
sentir-se feliz porque, finalmente, aquele processo estava
dando certo. Havia, sim, uma criança com Bruno e Ivan.
Não de forma integral, ainda. Mas tudo indicava que, em
breve, todos os documentos seriam devidamente
assinados.
Todos os documentos para que Camilla fosse,
oficialmente, parte daquele lar.
— Bom dia, família — disse, deixando a mochila no
canto da sala de reuniões onde todos já estavam
reunidos. Ivan digitava algo em seu celular com um
sorriso largo no rosto. — Novidades?
O mais novo se inclinou na direção do russo, vendo-o
conversar com a mãe de Bruno, que havia acabado de
enviar uma foto de Camilla. Alex já conversara com a
menina duas ou três vezes no Brasil, nas semanas em
que ela ficava com os dois para uma adaptação.
— Ela tá com a minha mãe esse final de semana —
Bruno explicou. — Não nos acompanharia nas viagens
sempre, então é bom ver como seria a adaptação nesse
caso também.
— Saquei, faz sentido.
— Enfim, podemos começar — Ivan disse, guardando
o celular.
Pela hora seguinte, Alexandre ouviu Ivan e os
engenheiros da equipe repassarem as principais
mudanças e desempenho esperado do novo carro e suas
atualizações. Não apenas isso, mas também sobre as
agendas e compromissos dos pilotos para a semana.
Nenhuma novidade para o mais novo. Ele desviou o
olhar distraidamente para o lado de fora da sala,
observando o fluxo de pessoas andando pela área do
circuito.
Até visualizar a figura alta e inconfundível de Basile.
Deus, estava cansado de vê-lo inesperadamente.
Odiava imprevistos. Odiava ser pego de surpresa. E
genuinamente pensava que, após a cerimônia de
premiação no final do ano anterior, estaria finalmente
livre dele.
Eu vou te destruir. Basile estaria acompanhando a
equipe durante o ano inteiro?
— Porra — Alex soltou, antes que pudesse se conter.
Ele olhou na direção de sua equipe, que o encarava em
confusão. — Foi mal, eu acabei de lembrarque não avisei
pra Nicole que já havia pousado.
Ivan assentiu, voltando a atenção para o que Bruno
falava novamente. Algo sobre a equipe de mídias. Alex já
não estava realmente prestando atenção.
Alexandre ainda não sabia o que Basile queria dizer
quando insinuou que o destruiria, mas as palavras
estavam começando a preocupá-lo pra valer.
Alguém como Baz tinha, de fato, um potencial
interessante para acabar com Alexandre Duarte. De
várias formas. Era uma ameaça para o seu plano de
manter-se longe de qualquer problema.
— Os primeiros testes começam em uma hora, então
nós terminamos por aqui — Ivan anunciou, levantando-se
da mesa. — Alex, me avise se tiver qualquer questão
com os carros. Você costuma perceber os problemas
mais rápido.
— E eu não percebo? — Bruno perguntou, erguendo
uma sobrancelha na direção do marido.
— Você pensa que é um erro seu e não me diz nada.
Felizmente ou infelizmente, Alexandre se acha um piloto
bom demais pra isso.
— Não me faça esfregar o meu título na cara do
Bruno outra vez, acho que vai ficar chato — o mais novo
ironizou, ignorando a revirada de olhos de Campos. —
Até daqui a pouco.
Alexandre deixou a sala em silêncio, olhando ao
redor quando saiu da área da equipe.
Basile não estava mais em lugar nenhum que
pudesse ver. Uma parte de Alexandre torcia para que
permanecesse assim – longe dele.
A outra sabia perfeitamente que isso seria
impossível.
Basile o encontrou no estacionamento privado do
autódromo.
Ele já havia notado isso – Basile sabia quando
Alexandre o queria dizer algo, e vice-versa, como havia
acontecido na premiação. Não era necessário muito além
de um olhar e alguns minutos de espera.
— Bom carro — o francês disse, parando ao seu lado
para recostar-se na BMW também. — É seu?
— Alugado. Não sou tão clichê e não viajo com meus
carros. — Alex cruzou os braços. — Pensei que você
nunca trabalharia em uma equipe de Fórmula 1.
— Eu adoro a forma como você sempre parece tão
triste em me ver.
O piloto soltou uma respiração pesada.
— Tudo bem, vamos mudar de assunto — Basile
sibilou, olhando ao redor. — Como você se sentiu no novo
carro?
— Eu deveria pensar que você quer informações pra
sua equipe?
— Ainda não confia em mim? Isso é uma pena. — Baz
olhou para si mesmo por um momento. — Eu fico tão mal
assim de verde? Meu pai realmente não tem o melhor
gosto na escolha de cores.
Dessa vez, Alexandre não conteve uma risada
anasalada. Cansada, principalmente. Aqueles testes
foram a prova de que talvez precisasse descansar um
pouco mais. Preparar-se para entrar em um carro
novamente era muito diferente de estar dentro do carro –
especialmente se fosse um carro novo, cheio de
atualizações com as quais deveria se acostumar.
— É isso — Baz murmurou, se inclinando para ficar
na sua frente, provavelmente mais perto do que deveria.
Afinal, estavam onde qualquer um poderia vê-los.
Dia 1: Manter-se distante já prova ser uma meta
fadada ao fracasso.
— Isso o quê?
— Você sorri pouco — Baz explicou.
— Dizem que eu sorrio demais, isso é novo.
— Só quando os outros esperam que você sorria. Já
parou pra observar o quanto você sorri quando acha que
ninguém está te observando? É muito pouco. Você tem
uma cara emburrada em período integral e gosta de
fingir que não.
— Você me fez rir com uma brincadeira, qual é a
grande vitória nisso?
— É um passo mais perto de te fazer tirar a roupa pra
mim outra vez, pra ser bem sincero.
Quando Alexandre desviou o olhar, rapidamente,
Basile se inclinou para mais perto. Se não fosse a mão de
Alex em seu ombro, eles definitivamente se tocariam.
— O que você quer comigo, Basile?
— Muita coisa. A lista é extensa.
O brasileiro o fitou.
Não tinha uma única chance de que pudesse mentir
e dizer que Basile não o atraía. Do sotaque puxado no
inglês até as tatuagens, que só fora capaz de ver quando
ele estava sem as roupas, e a boca suja. Ou as mãos
grandes, e…
— No meu hotel — disse, empurrando o ombro do
francês.
— Eu tinha ideias melhores, mas vou respeitar o seu
tempo. — Baz tirou o celular do bolso, estendendo na sua
direção. — Salva o seu número e eu te mando uma
mensagem.
Alex ergueu uma sobrancelha na direção do francês.
Queria saber quais eram as tais ideias melhores, ou o
que ele queria com o seu número. Não seria mais fácil
apenas aparecer na porta do seu quarto?
— O quê?! Eu não vou vazar o seu número, para de
ser tão desconfiado. — Quando Alexandre pegou o
celular entre um palavrão para salvar o contato, ele
bufou. — Eu não aguentaria viver desconfiando de
qualquer um que cruza o meu caminho.
Não que eu aguente, Alex pensou, devolvendo o
aparelho para ele. Trocar mensagens era um passo muito
maior do que o que pretendia dar.
— Mas, falando sério, verde fica ruim em mim? —
Baz ironizou mais uma vez, como se quisesse aliviar o
clima. Ou só aliviar o clima de Alex, especificamente. Baz
parecia sempre tranquilo demais para qualquer coisa ao
seu redor.
— Não. Combina com seus olhos. Mas o carro da sua
equipe ainda tá feio pra caralho esse ano.
— Não é culpa minha, eu só cuido do que vem dentro
do pacote — Baz gesticulou, apontando na sua direção
enquanto se afastava lentamente. — Falando nisso, as
sete vezes que você quase saiu da pista hoje foram culpa
sua ou da sua equipe?
Alexandre ergueu o dedo do meio para o mecânico –
engenheiro, ainda estava processando que ele agora
fazia parte de uma equipe –, mas não conteve um sorriso
torto com a expressão divertida de Baz.
— Até mais tarde, mon chéri.
DOZE
Basile não estava em um de seus melhores
momentos.
Mas, bem, não era como se não soubesse que dividir
o mesmo oxigênio que seu pai por mais que cinco
minutos seria pedir para que sua vida se transformasse
em um inferno.
Sua equipe – ou o que deveria ser sua equipe, porque
Baz ainda não se sentia realmente parte daquilo que
todos juravam que se tornaria a sua segunda família –
não era ruim. Na verdade, todos os seus colegas de
trabalho na Ritz-Carlton pareciam ser pessoas
extremamente talentosas e toda essa baboseira que se
esperava de alguém que trabalhasse na porra da
Fórmula 1.
Mas ainda não era o seu lugar. Ou ele só não estava
fazendo o mínimo esforço, já que não queria estar ali
desde o início.
Não que não fizesse o seu trabalho por isso. Longe
disso. Basile poderia ser o babaca que fosse quando
quisesse, mas não deixaria de cumprir com as suas
responsabilidades.
Ou que fingiria estar adorando a experiência. Nunca
pensou que diria isso, mas daria de tudo pela
oportunidade de desmontar um Fiat velho qualquer na
oficina de Dom.
Dom, a quem não via ou trocava uma palavra há
meses. Meses.
Havia sido, no mínimo, complicado no início. Afinal,
via e conversava com Dom quase diariamente há anos,
sem faltar um dia. Não sabia que sentiria tanta falta do
velho até o momento em que ele deixou de fazer parte
da sua rotina.
Acontece. Era uma fase passada.
Naquela tarde, após os primeiros treinos, sua cabeça
estava um pouco focada demais em certo piloto. Piloto
rival. Fosse lá como deveria enxergar Duarte agora que
estava oficialmente do lado da equipe de seu pai.
Não que um pouco de rivalidade não fosse natural.
Até saudável, na sua opinião. Afinal, era um esporte onde
apenas os primeiros – o primeiro – poderia ser vitorioso.
Acontece.
Enquanto ouvia seu pai falar sobre o desempenho do
carro para a equipe – que poderia melhorar, mesmo que
Basile achasse que o carro havia se saído perfeitamente
bem principalmente nas mãos de Laurent, até mesmo
melhor que Alexandre ou Bruno em suas Astorias –,
Basile digitou uma mensagem para o seu contato mais
recente.
Alexandre. Formal demais, Baz não gostava disso. Ele
mudou o nome para Alex antes de enviar.
Baz: o quão foda é o hotel da vez?
A mensagem foi visualizada em uma rapidez
impressionante. Em questão de segundos, os pontinhos
que indicavam que Alexandre estava digitando
apareceram na tela.
Hm.
Alex: quem é?
Baz: esperandomensagem de outro engenheiro
bonito?
Alex: ah, é você.
Alex: é um hotel bonito. mas o quarto é um pouco
menor que o da França, se é isso que você quer saber.
Baz: o espaço que eu quero é a cama. o serviço de
quarto é bom?
Alex: estou tentando adivinhar onde você quer
chegar.
Baz: lugar nenhum, mas é engraçada a sua cara
confusa me respondendo.
Alex: eu não estou com uma cara confusa.
Baz: você acabou de olhar ao redor pra saber se eu
estou te vendo.
Alex: onde você tá?
Baz: bem longe, mas você é previsível. enfim, me
passa o número do quarto e peça algo legal pro jantar.
não vou comer antes de sair.
— Basile, você tem algo mais importante a resolver?
— seu pai perguntou, chamando a sua atenção.
Sim, eu tenho. Milhões de coisas mais importantes
que isso. Basile se limitou a balançar a cabeça, mas só
porque toda a atenção da sala estava sobre ele.
Mas não era como se conseguisse conter a si mesmo
por muito tempo.
— Eu estava olhando todas as análises que
concordam no mesmo ponto de que o nosso carro se saiu
surpreendentemente bem hoje. Sinceramente, não vejo
motivo para essa reunião.
— Para sermos ainda melhores, Basile — Bernard
falou em seu tom duro de sempre. Quem olhasse de fora
pensaria que era apenas o seu tratamento para o
ambiente de trabalho, que não misturaria a família com o
emprego. Mas Basile sabia bem que aquele era seu pai
sendo gentil com o filho. — Não é o que você quer?
— Obviamente eu quero, mas não é como se eu
concordasse em procurar infinitamente por algo que,
matematicamente, não temos como encontrar outra
resposta. — Basile gesticulou rapidamente na direção
dos papéis na mesa, dando de ombros. — Talvez deva
conversar com a equipe de estratégia. Trocar os pneus
depois de dez voltas no nosso primeiro circuito é, no
mínimo, pedir pra perder vantagem.
— Terminamos por aqui — Bernard anunciou, após
um período longo de silêncio. Quando Baz se levantou
para acompanhar os outros que pareciam loucos para
dar o fora dali, seu pai continuou: — Basile, fica.
Laurent, que estava em silêncio durante toda a
reunião – mas resignado demais ao seu mero cargo de
piloto para ousar abrir a boca contra o chefe –, olhou na
sua direção como se desejasse sorte antes de sair
também.
— Você acha que é bonito me desafiar na frente de
todos? — Bernard perguntou, cruzando os braços. — Que
vai chamar a atenção pra você e todos vão te achar o
incrível?
— Não acho nada além de que você está procurando
por melhoras que não existem. Não faz sentido algum
cobrar algo assim.
— Basile, quando eu disser algo, quero que você cale
a boca e faça o que eu estiver mandando — o mais velho
avisou. — Não sou seu pai aqui, sou seu superior.
— E você foi meu pai em algum momento? — Baz
rebateu, cruzando os braços. Quando Bernard ergueu
uma sobrancelha, o rapaz revirou os olhos. — Não finja
surpresa. Você me arrastou pra cá, lide com a minha
forma de trabalho.
— Isso é um lugar de gente grande, Basile. Não uma
de suas corridas de brincadeira.
— Certo. Vai me demitir?
— Não, eu não vou.
Baz bufou, sentindo o telefone vibrar no seu bolso.
Ao ver o contato de Alexandre brilhar na sua tela, ele
balançou a cabeça.
— Tenho mais o que fazer, bom trabalho pra você —
disse, guardando o celular novamente no bolso para sair
da sala.
Bernard o impediu, segurando o seu pulso com a
mão firme.
— Não me envergonhe, Basile. Você não veio para
brincar.
— Estou fazendo o meu trabalho, mas abaixar a
cabeça pra você nunca não faz parte do contrato —
devolveu, puxando o braço de volta. — Não espere que
eu te adore como um ídolo só porque arranjou o seu
trono aqui. Por sinal, é uma merda. Você não é nenhum
Nikolaev, por mais que tente ser.
Basile pôde ouvir a série de palavrões que deixou a
boca de seu pai conforme se afastava. Não que aquilo o
afetasse de qualquer forma. Não mais, pelo menos.
— Fala, mon chéri — disse, ao atender a ligação de
Alexandre. Baz apoiou o aparelho entre a orelha e o
ombro enquanto procurava pela mochila na sala cheia de
seus colegas de trabalho.
— Finalmente. Você não respondeu as minhas
mensagens mais. — Basile pensou em responder que era
porque seu pai estava infernizando a sua vida mais uma
vez, mas trazer o assunto para um lado familiar com o
piloto brasileiro não estava nos seus planos. Para um
lado familiar ou pessoal, em qualquer outro sentido. — O
que você quer jantar? Porque o hotel oferece um pouco
de tudo no meu cardápio, mas eu não sei do que você
gosta. Em qualquer caso, eu posso só pedir um delivery
de fora.
— Você tá realmente preocupado com isso?
— Bom, eu não quero pedir nada que você não coma
— ele explicou, com naturalidade.
— Eu já comentei como você é fofo? — A provocação
fez o piloto bufar, mas Baz não estava mentindo. E fazia
com que se perguntasse como Alexandre era com as
pessoas realmente próximas dele. Tão atencioso quanto,
sem nem mesmo perceber?
Basile tinha uma imagem muito diferente sobre
quem era aquele cara antes de chegar perto dele. E não
estava errado em pensar que ainda havia muito a
descobrir sobre quem Alexandre era quando não
precisava manter suas defesas tão altas.
Para quem ele se mantinha com os pés atrás? Àquela
altura, não parecia ser apenas para a mídia.
— Eu não sei, mon chéri. Não sou seletivo, você pode
pedir qualquer coisa. — Baz deu de ombros. Não dava a
mínima para o jantar, sendo muito sincero. — O que você
vai pedir?
— Salada.
— Argh, chato. Aceito qualquer coisa provavelmente
saída de um refrigerador.
— Eles têm nuggets.
— Perfeito.
— Esse vai ser o seu jantar?
— Quer algo mais romântico? Você pode pedir para
complementarem com batatinhas — provocou, acenando
na direção de Laurent antes de sair.
Alexandre bufou mais uma vez do outro lado da
linha.
— Chego em uns vinte minutos, mon chéri — disse,
por fim. — Meu nome está na recepção?
— Sim, e… minha segurança sabe que você está
vindo, então não vão procurar por uma faca em você ou
algo assim.
— Eles sabem sobre mim?
— Sabem que você é um amigo — Alex disse,
hesitante. Como se amigo fosse uma palavra
envenenada e Basile nunca devesse estar dentro de sua
definição.
— Um amigo? Mon chéri, você está apressando muito
as coisas.
Baz riu quando a ligação foi finalizada pelo piloto
sem qualquer despedida.
O hotel onde a Astoria estava hospedada não era
muito longe dali, mas Basile optou por pegar um
motorista de aplicativo, por precaução.
Afinal, era a sua primeira vez saindo da França para
trabalhar.
Daquela vez, Basile foi muito bem recebido pela
equipe responsável pela segurança da Astoria. Imaginava
que Alexandre tivesse algum tipo de combinado para
manter aquilo em segredo com o homem que autorizou a
sua entrada. Até mesmo com Bruno e Ivan, porque
duvidava que o piloto fosse abrir a boca sobre ele para os
colegas de equipe. Mesmo com uma história ridícula de
amizade.
Alexandre abriu a porta do quarto no sétimo andar e
o puxou para dentro em um movimento rápido. Basile
pensou em dizer que nada impediria as câmeras de
segurança de vê-lo ali e que era ridículo tentar se
esconder de um corredor vazio, mas não o fez. Alexandre
não mudaria o jeito de se proteger de tudo de um dia
para o outro.
— A comida chegou faz uns cinco minutos — o piloto
informou, apontando para os pratos sobre a mesinha do
quarto.
— Certo. — Basile se aproximou do rapaz, tocando o
abdômen definido para empurrá-lo contra a parede mais
próxima. A respiração de Alexandre acariciou o seu rosto
em um toque doce quando se aproximou mais. — Você
está muito vestido pro meu gosto, considerando que
sabia que eu viria.
— Você não vai comer?
— Não agora — negou, raspando os lábios sobre a
boca entreaberta do piloto.
— Bom, poderia ter me dito antes. Eu pedi agora
porque não queria que você comesse algo frio.
Quando Basile recuou um pouco, erguendo uma
sobrancelha, Alexandre revirou os olhos.
— Você me chamou pra me alimentar ou pra foder
comigo?
— Deus — Alex soltou,exasperado. Ele desviou o
olhar rapidamente, passando os dedos entre o cabelo
claro. Basile queria puxar aqueles fios. A noite inteira.
— Sabe, isso não vai funcionar se você ficar
pensando em quem é o meu pai e esse tipo de merda.
— Não é tão fácil assim.
Basile se afastou. Apenas o suficiente para deixar a
mochila com suas coisas de lado e livrar-se da própria
camisa. Ainda recostado na mesma parede, imóvel,
Alexandre o observava como se, na verdade, estivesse
esperando que Basile desistisse e fosse embora.
Não que a ideia não passasse pela sua cabeça. Seria
melhor para si mesmo e para o piloto que não
continuassem com isso.
Mas também não era como se não gostasse do que
havia ali – absolutamente nada além da atração sexual. E
Alexandre era bonito, tinha uma boca admirável, um
tanto interessante e, principalmente, vida profissional e
social o suficiente pra não ter tempo de encher o seu
saco quando não quisesse. Era o tipo de coisa que
gostava. Nenhum tipo de compromisso, por mais casual
que fosse, quando as roupas voltaram para o corpo.
Mesmo que aquele caso fosse uma ocasião diferente.
Se alguém errado descobrisse, seria um inferno.
Por isso, Basile gostava de contar com a sorte e
ignorar essa parte.
Por isso ele não iria embora. Não daquela vez.
— Relaxa — instruiu, aproximando-se novamente do
piloto. Como o esperado, Alexandre pareceu fazer o
contrário de relaxar quando tornou a se aproximar.
Baz pensou em perguntar o que fez o piloto
desconsiderar tanto todos os riscos que ele estava
remoendo naquele exato momento na noite em que o
conheceu. Ele não parecia nem um pouco preocupado
com o fato de estar em um bar cheio de pessoas
desconhecidas, em meio a uma corrida ilegal, e
convidando um completo estranho para o seu quarto de
hotel.
Se fosse só por causa dos malditos documentos de
confidencialidade, Basile não teria problema nenhum em
assiná-los para que ele parasse de pensar tanto na
possibilidade de alguém descobrir o que estavam
fazendo ali.
Baz afastou os pensamentos quando deslizou uma
mão entre os cabelos da nuca de Alexandre, puxando o
suficiente para fazê-lo erguer o queixo, dando espaço
para que pudesse deslizar a boca pelo seu pescoço. Um
toque superficial, de início. Basile inspirou o cheiro de
perfume masculino caro e desodorante, o que indicava
que ele havia tomado um banho pouco antes.
Alexandre tinha o gosto de pêssego mais uma vez.
Basile ainda não gostava desse fato, apesar de gostar da
sensação.
Também gostou do som que o brasileiro soltou
quando mordiscou o ponto de encontro do seu ombro
com o pescoço e usou a mão livre para abrir o zíper de
sua calça. Movimento suficiente para já poder sentir os
músculos do piloto relaxarem um pouco.
Alexandre era fodidamente receptivo ao toque, e
gostava disso. Agia como se gostasse de ter o controle e
manter-se na liderança em todos os aspectos possíveis, e
então…
— Isso, mon chéri — incentivou em um sussurro,
tocando-o sobre o tecido de sua roupa íntima. — O que
você quer?
Como sempre, Alexandre se inclinou para procurar
pela sua boca, olhando-o como se tivesse acabado de
cometer um crime, quando usou a mão que estava no
seu cabelo para mantê-lo no lugar.
— Eu fiz uma pergunta.
— Quero que você me leve pra cama — Alex arfou. —
E eu quero a sua boca.
— Mesmo? — Quando o piloto assentiu
positivamente, Basile se aproximou para mordiscar o seu
lábio inferior. Só porque Alexandre Duarte tinha uma
boca bonita demais, e seria um pecado não a beijar o
quanto pudesse. — Onde você quer a minha boca,
Alexandre?
Ao invés de uma resposta verbal, soltou algo
parecido com um gemido quando o tocou. Em um
movimento lento, Baz o masturbou e apreciou a vista
que era o piloto simplesmente aproveitando a sensação
da mão o acariciando.
— Alex.
— Você precisa parar de me fazer perguntas em
momentos assim — ele reclamou, entre outro gemido
quando Basile deslizou o polegar pela sua fenda. — Eu
não consigo pensar.
— Eu sei. Acha que eu não lembro de como você
ficou quando eu te fodi no meu apartamento? — Alex
soltou uma respiração pesada, como se a lembrança já
fosse o suficiente para fazê-lo estremecer por dentro.
Basile não duvidava que fosse, pessoalmente. — Você
não saberia responder o seu nome se eu perguntasse.
Alexandre provavelmente diria algo, mas sua boca
aberta soltou um novo gemido quando Baz voltou a
atenção para o seu pescoço.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta —
Basile relembrou.
— Por que eu deveria escolher? — A provocação fez o
francês erguer uma sobrancelha. Corajoso. — Você me
procurou hoje. Me surpreenda.
TREZE
Alexandre Duarte tinha algum problema em se manter
nas suas decisões. Como a decisão de nunca mais trocar
uma palavra com Basile Beauchene – ou, pela política da
boa vizinhança, nunca mais acabar na cama com ele já
seria o suficiente.
Em sua defesa, era difícil pensar em manter qualquer
coisa enquanto o francês o chupava como se fosse o seu
último dia de vida. Alex estava começando a pensar que
a morte em questão seria a sua, porque não havia uma
chance de ainda conseguir respirar normalmente depois
do orgasmo que se tornava cada vez mais próximo.
Aparentemente, a regra de não ultrapassar os limites
na véspera de uma corrida ou treinos – testes, naquela
ocasião – ainda estava na memória de Basile sem que ele
precisasse ser relembrado.
Considerando a última vez, era melhor assim. E por
mais que Alexandre gostasse e estremecesse dos pés à
cabeça com a ideia do rapaz o tomando como bem
quisesse outra vez, a decisão de priorizar seu
desempenho no carro para o dia seguinte se mantinha
intacta.
Pelo menos isso.
Alexandre olhou a bagunça de fios castanho-escuros
que Basile havia se tornado após tempo demais – porque
ele havia parado de contar após cinco minutos,
sinceramente –, provocando-o com a boca. Com as mãos
fortes segurando as suas pernas, para impedi-lo de
fechá-las ou de mover-se demais, Basile chegava perto
de onde Alex o queria, apenas para afastar pouco depois.
Era a porra de uma tortura. E gostava disso. Talvez
não gostasse com outra pessoa, como já havia
acontecido, mas Baz ainda fazia tudo de um jeito tão
bom que Alexandre quase desejava que não acabasse.
Poderia jurar que a sua mente ficou um pouco mais
nebulosa quando os olhos verdes de Basile encontraram
os seus sob a luz fraca e alaranjada do quarto. Alexandre
se arrependeu de não a ter apagado antes de acabar ali,
porque seria um pouco menos vergonhoso se Baz não o
visse tão bem quando estava prestes a colapsar no
colchão.
— Baz. Porra.
— Sim? — Baz ergueu uma sobrancelha, deitando a
cabeça sobre a sua coxa em uma expressão tão
falsamente inocente que Alexandre ficaria com raiva em
qualquer outra ocasião.
Em vez disso, ele revirou os olhos, fitando o teto
quando Basile envolveu o seu pau com uma mão, usando
a outra para provocá-lo mais abaixo. O francês plantou
um beijo na região da sua virilha, quase o chamando de
volta para a conversa.
Foda-se a conversa.
— Eu sei que você já gozou e está muito bem, mas
eu também gostaria da minha vez.
— Quem disse que eu fiquei bem depois de gozar?
Alexandre o fitou como se tivesse acabado de ouvir
que tirou zero em uma prova do colégio. O quê?!
— Calma, mon chéri. É brincadeira — ele riu,
inclinando-se para alcançar a sua boca em um beijo que
derrubou suas costas novamente na cama. Alex o puxou
para mais perto, um braço ao redor do pescoço de Baz.
— Você se preocupa tanto assim com o meu orgasmo?
Que fofo.
— Se você me chamar de fofo outra vez, eu vou
acabar com você — arfou, inclinando a cabeça para que
o rapaz tivesse acesso ao seu pescoço. Basile o beijou e
mordeu, masturbando-o como se não tivesse pressa
alguma. Mas, bem, Alex tinha. Moveu o quadril contra a
mão e a perna de Basile, soltando o que deveria ser um
gemido, mas pareceu ir um pouco além. Era um pedido.
— Baz, por favor.
— Você fica lindo quando implora pra gozar — Basilesussurrou contra o seu ouvido, levando-o até a borda
outra vez. Deus. O francês desceu novamente a boca
pelo seu peito, raspando os dentes pelos seus mamilos.
Deslizando a língua molhada pela sua virilha. — Por favor
o quê?
Alexandre implorou. Por favor. Eu quero gozar. Por
favor, Baz. Eu quero a sua boca. Porque sua dignidade foi
embora a partir do momento em que a visão de Basile nu
o fez pedir para que pudesse fazê-lo gozar antes dele.
Quando Baz finalmente o deixou, Alex deixou que
uma série de palavrões escapasse, e seus dedos
puxaram o cabelo escuro do francês em um aperto forte.
Quando sua mente pareceu clarear um pouco, pensou
que talvez devesse pedir desculpas por isso.
Alexandre levantou a cabeça para se desculpar no
instante em que Basile se aproximou para outro beijo
úmido e bagunçado. Insistente e quase erótico demais
para algo que veio depois do seu orgasmo. Se pudesse –
se conseguisse –, Alexandre pediria para que ele o
fizesse chegar nesse limite outra vez só por causa do
beijo.
Ele não olhou quando o rapaz se afastou, o seu peso
deixando a cama. Alex fechou os olhos, sentindo o
formigamento desaparecer do seu corpo lentamente.
Talvez Basile estivesse se vestindo – sabia que ele não
ficaria durante a noite, nem o queria ali quando
acordasse também. Era mais seguro se ele saísse
durante a madrugada, não quando qualquer pessoa de
sua equipe poderia encontrá-lo.
O piloto soltou um suspiro ao ouvir o barulho do
chuveiro. Banho. Certo, sim. Fazia mais sentido do que
simplesmente se vestir e ir embora, como da primeira
vez, talvez porque estivessem ambos mais suados. Podia
colocar a culpa disso em Baz. Totalmente culpa de Basile.
Ele gostava que fosse mais que um oral que acabaria em
cinco minutos.
Ou, talvez, fosse o que Alexandre gostasse. E Baz
sabia, era o que o entregava. Se lembrava bem, havia
pedido para ser surpreendido.
Enquanto encarava a meia-luz do quarto, Alexandre
se perguntou se deveria entrar no chuveiro com Basile.
Não. Íntimo demais.
Sexo? Sim. Banho juntos? Muito.
Quando o rapaz saiu do banheiro, ele se aproximou.
Basile se inclinou sobre o piloto com uma sobrancelha
erguida, deslizando os dedos pelo cabelo grudado no
rosto de Alexandre pelo suor.
— O que é? — perguntou, imitando o gesto de erguer
a sobrancelha.
— Estou checando se você não desmaiou com o
orgasmo. — Quando Alexandre afastou a mão dele com
um tapinha, Basile sorriu. — É, você parece bem.
— É claro que eu estou bem — resmungou, sentando-
se sobre o colchão.
Alex observou Baz vestir apenas a calça antes de se
afastar outra vez. Quando voltou, ele tinha o prato de
nuggets em mãos.
— No que você tá pensando? — ele perguntou,
analisando a latinha de refrigerante antes de abri-la e
dividir a bebida entre os dois copos sobre a mesinha.
— No meu carro.
Baz o encarou.
— Eu acabei de te dar o melhor orgasmo da sua vida
e você tá pensando no seu carro? Isso é estranho, mon
chéri. Eu deveria me sentir ofendido?
Alexandre soltou uma risada baixa. Ou melhor,
cansada. Talvez ainda não estivesse em seu melhor
estado novamente.
— Eu vou perguntar mais uma vez, já que você não
me respondeu mais cedo — Basile disse, inclinando-se
para se apoiar na moldura do pé de cama. — Como você
se sentiu com o carro novo? Ouvi dizer que fizeram
grandes mudanças.
— Você viu os testes. Eu quase saí da pista umas dez
vezes.
— Nas curvas. Você não conseguiu estabilizar a parte
inferior — Baz concordou, porque realmente havia
prestado alguma atenção especial no carro da Astoria. —
Bruno se saiu consideravelmente bem, então talvez seja
uma questão de costume. Você sentiu essa diferença em
outros momentos?
Alexandre assentiu.
Uma parte dele estava um tanto surpresa por, em
pouco tempo, terem mudado completamente o tom e o
assunto do momento. Basile pareceu pensativo por um
segundo, como se realmente procurasse por algo que
pudesse ajudá-lo.
— Imagino que você não me daria o projeto do carro
pra uma olhada, então acho que eu não sou de muita
ajuda. — Basile pegou mais um nugget do prato, dando
de ombros. — Você anda muito tenso. Isso atrapalha.
— Por que você acha que eu ando tenso? —
perguntou, com uma careta.
— Porque você está. — O francês se inclinou para
frente mais uma vez. — E eu consigo ver você ficando
tenso outra vez só porque eu falei. Relaxa, mon chéri. Vai
acabar morrendo antes dos trinta e cinco se continuar
assim.
— Pare de fazer comigo as piadas que eu faço com
Bruno, é estranho — resmungou, levantando-se da cama.
Alexandre pairou ao lado de Basile por um segundo antes
de se inclinar para inspirar o cheiro de sabão e
desodorante do seu pescoço. E, também… — Você usou
o meu perfume?
— Vai saber quantas vezes na vida eu vou ter a
chance de usar um perfume da Chanel sem precisar
chupar o pau de alguém antes.
— É uma reclamação?
— Não, mas eu genuinamente gostaria de poder
comprar um perfume de quatrocentos dólares sem peso
na consciência. — Basile bebeu um longo gole do
refrigerante, olhando na sua direção por um longo
momento. — Muito bom, aliás.
— Eu sei. — Alexandre pegou uma toalha limpa e
roupas mais confortáveis antes de ir para o banheiro.
Ele tentou não demorar sob o chuveiro. Dez minutos
foram o suficiente.
Mas, quando deixou a água quente, Basile não
estava mais no quarto. Não havia um sinal de suas
coisas, muito menos de sua mochila ou sapatos. Nada.
Alexandre estava sozinho no quarto.
Alexandre chegou ao autódromo de Barcelona cedo.
Com um café gelado em mãos, ele aproveitou alguns
minutos do lado de fora para conversar com alguns fãs e
assinar algumas camisetas. Algo que sempre fazia
quando tinha a chance, o que não costumava ser comum
em dias de corrida, quando os circuitos lotavam de
pessoas e era impossível passar por qualquer lugar que
não tivesse barreiras de metal ou seguranças por perto.
— Bom dia, Duarte — Laurent, o piloto principal da
Ritz-Carlton, o cumprimentou com um aperto leve no
ombro. Alex o encarou por um segundo antes de voltar a
atenção para um garoto que pedia por uma foto.
— Bom dia — respondeu, inclinando-se para a foto.
— Como vão as coisas? — o piloto perguntou, e
Alexandre precisou conter a si mesmo de fazer uma
careta.
Não tinha nada contra Laurent. Longe disso, achava
que ele parecia ser alguém interessante, apesar da
rivalidade estressante que havia se instalado entre suas
equipes. Nunca haviam tentado conversar de verdade ou
sequer foram colocados em um mesmo ambiente para
uma conversa, fora os momentos de coletiva de
imprensa que, no fim, serviam apenas como tentativas
de alimentar mais essa rivalidade.
Mas, bom, desde a cerimônia de premiação, quando
Jolene conseguiu atraí-lo, as coisas pareciam estranhas.
Alexandre não soube de nada até às quatro da
madrugada, quando Jolene finalmente apareceu no
quarto que estavam dividindo no hotel, dizendo que
nunca mais queria vê-lo. Primeiramente, pensou que ele
tinha feito algo. E, Deus sabia, Alexandre não teria
problema algum em acabar com a existência de Laurent
Drumond se esse fosse o caso.
Mas Jolene jurou que ele não fizera nada. Nada
negativo, pelo menos. O que apenas tornava toda a
situação ainda mais estranha, porque ela ainda se negou
a explicar muito além de que haviam se beijado. Muito. O
que não era, de todo, uma surpresa. Jolene já comentou
sobre achar o piloto bonito e ela tinha o costume de
conseguir o que queria – Alexandre incluso nessa
equação.
No fim, ele não sabia absolutamente nada além de
que Jolene estava fingindo que o piloto da Ritz-Carlton
não existia desde então. Ou fazia de conta que ela
própria não existia, considerando que Alex a convidou
para os treinos e ela negou educadamente, dizendo que
tinha algum tipo de compromisso familiar.
Besteira.
Mas Laurent sabia que Alexandre mantinha contato
constante com a atriz. O que Laurent não sabia era que
Alexandre não fazia a menor ideia do que infernos havia
acontecido. Se ele esperavaalgum tipo de notícia ou
ajuda, estava procurando pela pessoa errada.
— Bem — respondeu, afastando-se um pouco para
tirar uma foto com um homem e seu filho. — E você?
— Perfeitamente bem.
Ou não. Alexandre olhou ao redor ao entrar na área
permitida apenas para funcionários, membros e
convidados das equipes e das mídias.
— Bom dia, querido. Você tem uma entrevista com
aquela revista esportiva em vinte minutos, sobre jovens
talentos do esporte. — Marissa, sua gerente de imagem,
se aproximou quando entrou na área da Astoria. — Mais
tarde, você tem a coletiva com o Ronan da Alpha e
gravações para o reality. Não deve demorar muito, eles
querem falar sobre as expectativas para a temporada.
— O que eu falei sobre muitas coisas em um único
dia? — murmurou, mexendo o café com o canudinho
reutilizável de metal. — Não podemos marcar as
gravações do reality pra amanhã?
— Posso tentar, querido. Mas não prometo, você sabe
que eles sempre cobram por um pouco mais de você.
— Eu te amaria pra sempre se você conseguisse,
aposto que isso vale mais — brincou, afastando-se da
mulher. — Já tomou seu café, Marissa?
— Já, Alex — ela riu, revirando os olhos. — Te vejo em
vinte minutos. Não venha puxar o papo sobre minha
família pra tentar me enrolar outra vez.
— Jamais! — disse. Tentaria de uma forma ou de
outra.
Alexandre entrou em sua sala com o celular em
mãos, checando as notícias da manhã e as mensagens
mais recentes.
Ele parou no instante em que percebeu a segunda
presença no espaço.
Basile estava deitado sobre o seu sofá.
— Como você conseguiu entrar aqui? — perguntou,
deixando a mochila de lado.
— É absurdamente fácil. Não fique tão surpreso. — O
Beauchene se levantou preguiçosamente, como um gato
que havia acabado de acordar. — Bom dia, mon chéri.
Alex observou o francês se aproximar e pegar o café
da sua mão, bebendo um gole generoso.
— O que é isso? Frappuccino?
— Basile, você não pode andar na área da minha
equipe — alertou, puxando o café de volta.
— Por quê?! Você ainda acha que eu vou roubar
informações ou algo assim? Supera, Alex. Não sou o
James Bond, tenho preguiça demais pra qualquer
trabalho investigativo, e você não facilitaria a minha
vida.
— Não importa o que eu acho. E se te pegarem?
— Eu me ferro sozinho. Ainda não te entregaria — ele
disse, dando de ombros.
Alex o fitou. Basile não parecia estar mentindo, mas
ainda era estranho que ele estivesse disposto a ser
descoberto sozinho, para não o envolver na confusão que
seria um engenheiro da Ritz-Carlton invadindo o espaço
da Astoria sem permissão – teoricamente.
Caso acontecesse, Alexandre não seria idiota o
suficiente para realmente deixar que ele sofresse todas
as consequências sozinho, todos pensando que ele
estava ali para roubar informações ou afetá-los de
alguma forma. Contaria a verdade, ou a parte menos
chocante dela – se é que haveria algo pouco chocante no
que estavam fazendo.
Mas preferia não correr o risco do que contar com a
sorte. Quando estava no trabalho, pelo menos.
— O que você veio fazer aqui?
— Sei lá, tô matando o serviço.
— Seu pai não vai ficar irritado?
Basile riu.
— Como se ele não estivesse sempre irritado.
Principalmente comigo.
— Eu não entendo. Por que você está na equipe, se
não quer?
— Porque ele não me deu escolha. Simples. — Não
parecia algo simples na visão de Alex, mas não era como
se pudesse perguntar demais. Se Bernard não gostava
da presença do filho, por que tinha o arrastado para fazer
parte da equipe? — Enfim, eu vou te chupar. Você prefere
deitar ou vai ficar em pé?
— Nem fodendo. Eu tenho uma entrevista em uns
quinze minutos.
— Te faço gozar em cinco. Não pretendia demorar
como ontem, de qualquer modo.
Alexandre encarou o rapaz, perguntando-se de que
ala do inferno ele tinha escapado para ser… assim.
— Devo concluir que você vai ficar em pé? — Baz
perguntou, na ausência de uma resposta.
— Como você achar melhor.
— Se eu fizesse o que eu acho melhor, não iria
apenas te chupar. Mas saquei.
Alex olhou para o relógio na parede. Exatamente
quinze minutos para a entrevista que, sinceramente,
estava tentado a pedir que Marissa cancelasse de última
hora.
Normalmente, jamais deixaria que qualquer pessoa
interferisse no seu trabalho. Não estava nos seus planos
jogar tudo no lixo por alguém – principalmente se esse
alguém não passava de uma coisa casual.
Então, havia Basile Beauchene. Que era um
compilado do que deveria evitar se quisesse proteger
não apenas seu trabalho e imagem, mas também a si
mesmo.
Mas, pela primeira vez em anos, Alexandre não
queria se proteger. Merecia uma folga, não? Ser
responsável o tempo inteiro – policiar a si mesmo para
isso – estava tornando-se cada vez mais cansativo. Mais
atenção somada à sensação infinita de que um espirro
errado o destruiria.
Basile, por mais riscos externos que oferecesse,
ainda representava algum tipo de segurança. Não dava a
mínima para a fama ou dinheiro. Na verdade, Alex
achava que o francês o odiaria se dependesse apenas
disso. Ele não queria exposição quase tanto quanto o
próprio Alexandre. Não tinha interesse em conhecer a
sua família ou fazer parte da sua vida. Todas as portas
que Alex mantinha fechadas permaneceriam fechadas se
dependesse dele. Conversariam sobre o que ambas as
partes quisessem, se quisessem.
E, bem, ele era bom na cama. Vários pontos positivos
em um único tópico, mas Alexandre não pensaria demais
nisso se não quisesse gozar antes que Basile tivesse a
chance de realmente começar o que queria ali. Até
então, ele só estava o acariciando contra a porta.
Era difícil afastar algo assim. Alguém que lhe
passasse uma segurança como aquela. Basile era
transparente ao extremo. Não conseguiria esconder se
não gostasse de algo, assim como não escondia que não
dava a mínima para boa parte do que acontecia ao seu
redor. Não conseguiria esconder uma mentira. Não
conseguiria esconder se estivesse com Alexandre por
qualquer outro motivo senão afastar o que quer que o
estressasse para fazer o piloto arquear as costas sobre o
colchão de um hotel caro.
E ir embora sem uma despedida. Alexandre podia
aprender a viver com essa parte.
O piloto mordeu o lábio para conter um ruído quando
a língua de Baz o percorreu. Ao contrário do dia anterior,
o francês realmente não perdeu tempo. Basile o chupou
com toda a confiança e segurança que carregava ao
simplesmente existir. Os dedos cravados dele nas suas
pernas o impediram de ditar qualquer ritmo quando
prendeu uma mão no cabelo bagunçado, mas Alex
gostou.
Gostava que Basile não precisava de qualquer tipo
de direcionamento. Ele apenas sabia o que deveria fazer.
— Isso vai durar uns dois minutos — soltou, fitando o
teto branco da sala.
— É um elogio, certo?
— Silêncio. Você pode continuar.
— Resolveu ser mandão hoje? — Basile provocou,
mas também voltou ao que estava fazendo antes que
Alex tivesse a chance de responder.
Os dedos do seu pé se contraíram conforme o
esforço para não deixar qualquer som alto demais
escapar tornou-se maior.
— Porra, Baz — ronronou, sentindo o rapaz ajoelhado
levá-lo mais fundo. O brasileiro mordeu o lábio o
suficiente para machucar quando gozou. Não o suficiente
para manter o silêncio, aparentemente. Alexandre
recostou a cabeça contra a porta, fechando os olhos.
Estava entre aproveitar um pouco mais a sensação de
formigamento que percorreu o seu corpo quando Basile
se colocou de pé, a fim de prestar atenção a qualquer
sinal de que alguém havia escutado qualquer coisa do
outro lado.
O outro o encarou com um sorriso ridículo no rosto.
Alexandre provavelmente parecia patético e bagunçado.
Em sua própria defesa, Baz o pegou de surpresa ali.
— Te sobraram uns sete minutos pra se arrumar para
sua entrevista.
Alex queria acabar com aquele cara. Em vez disso, se
limitou a empurrá-lo para o lado, para procurar pelo seu
uniforme.
— Você vai se virar pra sair daqui — avisou, livrando-
se das roupas para vestir as coresda Scuderia Astoria.
Roxo e preto. Basile o observou por um segundo, antes
de percorrer a sala para olhar as folhas sobre a mesa.
Relatórios e alguns resultados do carro que Alexandre
não permitiria que qualquer pessoa de fora visse.
Foda-se. Basile não precisaria de nenhum relatório
para conseguir acabar com a sua vida se realmente
quisesse.
— Seu carro tá superaquecendo? — ele perguntou,
franzindo o cenho enquanto folheava os papéis que
Alexandre não tinha sequer olhado.
Mas teria o feito se não houvesse nenhum francês
em sua sala quando chegou.
— Acho que sim. Nada que não possamos resolver.
— É bom resolverem, porque a Ritz tá com um carro
foda pra esse ano. Motor novo.
— Que animador — resmungou. — Você fala como se
torcesse pra nós e a Ritz não fosse sua equipe.
— A Ritz não é minha equipe, eu só existo nela por
obrigação. — Basile o observou livrar-se dos brincos e
correntes, organizando os acessórios na mesa. — Não
torço pra ninguém a esse ponto. Só gosto mais da sua
equipe.
— Gosta?
— Nada pessoal. Mas… — Baz deu de ombros,
balançando a cabeça como se pensasse em suas
próximas palavras. — Mas é legal quando uma equipe
promove tantos assuntos importantes. Primeiro a
questão racial, com Bruno. Mas LGBTQIA+ depois. Vocês
adoram ignorar umas regras pra defender o que pensam,
isso me deixa levemente inclinado a simpatizar com seus
rostinhos bonitos e toda a propaganda de que são uma
família. Melhor que a Ritz, e eu acho que não preciso
discursar sobre o chefe dela.
— Não é uma propaganda — Alex disse, fechando o
zíper do macacão. — Nós somos uma família.
Trabalhamos pra isso. Bruno e Ivan se esforçam pra criar
esse ambiente de verdade. É por isso que todos amam
trabalhar aqui.
— Fofo. — Baz gesticulou, parecendo desinteressado.
— Você tá ocupado essa noite?
— Não que eu saiba.
— Bom saber. — O rapaz soltou os papéis, olhando
ao redor, como se o espaço não muito grande o deixasse
inquieto. Alexandre não se surpreenderia se fosse o caso.
— Aliás, o que rolou com aquela garota do futebol que
você tava namorando?
Alex demorou um segundo para entender – e lembrar
– do que ele estava falando.
Ah, a garota do futebol. Amiga de Mariana. Íris. Sim,
ela mesma.
— Nós não namoramos. Conheci a Íris na festa de
noivado de uma amiga e ficamos por umas duas
semanas. — Deu de ombros. — Mas ela não curte a ideia
de qualquer coisa mais séria com alguém que viaja tanto.
E eu não gosto da ideia de qualquer coisa mais séria com
alguém que vai me culpar por virar notícia. Faz parte da
minha vida, e eu não tenho como mudar isso.
— Mas você queria.
— O quê?
— Alguma coisa mais séria. Foi a primeira vez que
você saiu tanto com alguém em público.
— Por que você tá perguntando sobre isso?
Basile deu de ombros.
Alexandre não sabia ao certo o que queria com Íris
quando a conheceu. Ela era legal, sim. Interessante e
talentosa no campo, tinha muito potencial para crescer
no futebol. Era carinhosa, mesmo que ainda parecesse
não saber conviver com certos bloqueios do piloto.
Mas quando a atenção – invasões e ataques inclusos
– da internet tornaram-se mais intensos, as coisas
deixaram de dar certo. Antes que Alex pudesse se
apegar demais, o que foi bom para que conseguisse
seguir com a sua vida quando acabou, mas uma merda
grande o suficiente para que ele tivesse ainda mais
certeza de que se envolver com alguém seria pedir para
se magoar. Da próxima vez, talvez não tivesse a sorte de
superar tão facilmente.
— Esqueci de perguntar se você tava com alguém
antes de chupar seu pau ontem.
— Eu não ficaria com você se estivesse namorando
alguém.
— Eu não tenho como saber. — Baz fitou o seu
uniforme. — Você fica bem de roxo. Já comentei?
Alex abriu a boca para responder, mas parou quando
ouviu batidas na porta da sala.
— Já vou, Marissa! — exclamou, pegando as luvas e a
balaclava do uniforme sobre o sofá.
— Marissa comentou que você estava quase
atrasado, Xander.
Alex congelou, os olhos arregalados.
Não era Marissa. Era Nicole, sua mãe.
CATORZE (flashback)
Alexandre lembrava-se perfeitamente bem da primeira
vez que viu Nicole Duarte.
Ele não tinha uma casa. Tinha onde deitar-se durante
à noite, onde comer e descansar. Mas não era uma casa.
Em momentos ruins, Alex ainda se perguntava se
isso havia mudado.
Nicole entrou na enfermaria com seu sorriso largo e
caloroso. Os cabelos escuros e longos estavam presos
em uma trança bem arrumada.
Ela se sentou na sua frente, e Alexandre a odiou.
Parando para pensar, anos depois, o ódio do primeiro
momento não fazia sentido algum. Nicole não fez nada
além de sorrir.
Mas, bem, o Alexandre de anos antes não era muito
além de raiva e dor. Mais raiva do que dor. Ele sabia bem
como esconder o que doía sob o ódio. Esconder das
pessoas ao seu redor, de si mesmo.
Nicole parecia ser o contrário. Ela era feliz.
Verdadeiramente feliz, apesar de qualquer problema que
poderia estar no seu caminho. Não precisava conhecê-la
para saber disso.
Ele a odiou tanto por isso.
— Oi, tudo bem? — ela perguntou, a voz baixa.
Baixa, mas aconchegante. A voz de Nicole era como uma
carícia para o garoto de apenas quinze anos.
É claro que não está tudo bem, tem sangue saindo
do meu nariz, Alexandre pensou em responder, mas
Nicole – leu no seu crachá – não merecia a sua palavra.
— Comentaram que você vai pro castigo. Outra vez.
— A mulher se inclinou para alcançar um pano úmido
para o garoto. Alex não conseguiu conter uma risada
seca e anasalada que escapou pelo seu nariz. O
movimento apenas fez o seu rosto doer mais, mas não
era como se ligasse demais para isso também. — Não é
confortável estar lá. Muito menos se você estiver
machucado.
— Vou machucar mais o outro cara da próxima, então
— resmungou, pegando o pano da mão da mulher em um
movimento rápido. Nicole se inclinou para tentar olhar o
corte quase cicatrizado da semana anterior acima da sua
sobrancelha, mas ele recuou. — Não encoste em mim.
Alexandre a fitou, apenas para ter certeza de que ela
não tentaria se aproximar outra vez antes de inclinar a
cabeça para trás.
— Não faz isso! — ela exclamou, quase exasperada.
Quando Nicole tocou o seu braço, o garoto tornou a
fuzilá-la com o olhar. — Não é bom levantar a cabeça
quando o nariz sangra.
— Foda-se — murmurou, pressionando o pano úmido
no rosto. — O que eu faço?
— Só espera um pouco com o pano no rosto. Deve
resolver.
Alex o fez, observando atentamente a mulher
enquanto ela arrumava a enfermaria. Duvidava que ela
fosse enfermeira, considerando que não usava um jaleco
ou qualquer coisa do tipo. Mas nunca tinha a visto ali.
E, bom, estava lá há muito tempo. Muito, muito
tempo. Conhecia todos que trabalhavam ali como a
palma da sua mão. Em quem deveria ficar de olho, de
quem deveria manter distância.
Nicole não duraria um mês naquele inferno. Os
garotos que eram piores que ele acabariam com a paz
dela em duas semanas. Uma, se não pegassem leve. Ela
tinha a cara de quem não aguentaria muita coisa ali
antes de implorar para dar o fora.
E ele ficou ansioso para ver aquilo acontecer. Dor sob
a raiva.
QUINZE
Alexandre passou um braço sobre os ombros de
Nicole, deixando um beijo leve sobre a testa da mulher
ao se afastar da equipe de filmagens.
— Você poderia me avisar que viria, eu teria
encontrado um jeito de arrumar a minha agenda pra
você — disse, pela quinta ou sexta vez.
— Eu só passei pra dar um oi, Xander. Tenho um voo
de volta para o Brasil essa noite. — Nicole olhou ao
redor, acenando para uma pessoa ou outra que conhecia.
O paddock todo, Alex diria. Não havia uma pessoa ali que
conhecesse a figura de Nicole e não a amasse. Se Ângelo
estivesse a acompanhando na viagem, mal conseguiriam
dar cinco passos sem alguém os abordando para um
cumprimento ou uma conversa rápida. — Marissa
comentou que você pediu pra realocar as gravações do
reality. Nós não já conversamos sobre postergar
compromissos?
Droga, Marissa.
— Em minhaJolene. A atriz estava em destaque,
rodeada por rosas vermelhas, os olhos avermelhados
como se tivesse acabado de chorar. Até onde sabia do
pouco que Jolene havia lhe contado e pedido para não
pesquisar, porque queria manter a surpresa, sabia que
era um filme de suspense, apesar da aparência quase
romântica do pôster. — Onde eu vou ficar?
— Na primeira fileira, do meu lado. — Jolene mordeu
o lábio inferior, parando apenas para ajustar o vestido
vermelho ao corpo e arrumar o cabelo, jogando as
tranças impecáveis sobre o ombro mais uma vez. — Eu
tô bem?
— Jo, você é a mulher mais bonita que eu já vi na
minha vida — disse, apertando suavemente a ponta do
nariz da mulher. — Ok, talvez só perca pra minha mãe.
— Não me surpreendo. Afinal, é a Nicole — Jolene
sorriu, sincera, abraçando rapidamente o seu pescoço. —
Obrigada por vir, Alex. Eu sei que você não deveria.
— Ivan vai superar um atraso.
Não tinha tanta certeza disso, mas definitivamente
era capaz de superar uma bronca de Ivan. Não seria a
primeira vez que o chefe de equipe pegaria no seu pé —
na verdade, isso era diário. E não um problema, porque
aquele era o trabalho do russo.
— Você vai sair daqui direto pra um voo e um dia
inteiro de treinos. Deve ser a maior irresponsabilidade
que você inventa, querido.
Provavelmente.
— Bom, tenho minhas prioridades — devolveu, dando
de ombros. — Relaxa, Jo. Eu já tô aqui.
Jolene o puxou para onde o filme seria transmitido
pela primeira vez, não soltando a sua mão por um
segundo sequer.
Alexandre já a conhecia há um bom tempo. Desde
uma festa de um amigo incomum, quando uma Jolene
consideravelmente bêbada o fez cair na piscina com ela.
Um encontro aqui, alguns passeios ali e um beijo
inesperadamente registrado por alguém em uma festa, e
o encontro casual entre a atriz e o piloto de Fórmula 1
tornou-se público, considerado oficialmente mais do que
uma amizade — já que antes não passava de um boato.
Era a primeira e, até então, a única vez que Alexandre
Duarte era visto e registrado com alguém. Para o mundo,
isso claramente significava que tinham algum tipo de
compromisso sério.
Na realidade, só gostavam de passar um tempo um
com o outro. Com roupas ou sem. Era a amizade perfeita,
na sua opinião.
Até Jolene começar a namorar um de seus colegas de
elenco de uma série que havia gravado no ano anterior
— e o relacionamento só durou pouco mais de cinco
meses, Alex pessoalmente odiava o cara tanto quanto a
própria Jolene, porque ele era um bosta ciumento.
E essa era a parte engraçada. Os boatos não
acabaram. Perceberam que mesmo que passassem
meses sem se ver antes de um mísero encontro para
tomar um café, os veículos de fofoca ainda insistiriam
nas mesmas teorias da conspiração que envolviam
traições, amores não superados e tentativas de reatar
um namoro que nunca havia sequer sido considerado
uma possibilidade um dia. Então chegaram à conclusão
de que não valia a pena um distanciamento apenas para
calar a boca de pessoas que não os conheciam.
Ou que conheciam, mas preferiam acreditar em
fofocas sem embasamento. Como o ex-namorado de
Jolene, por exemplo.
Perceberam que era mais engraçado alimentar os
boatos, porque era incrível ver as pessoas comemorando
um simples tocar de mãos despretensioso.
Alexandre não ligava para boatos que jamais seriam
comprovados — embora a sua equipe de assessoria
midiática enlouquecesse todos os dias, quase o levando
junto — e Jolene era gananciosa o suficiente para gostar
desse drama sobre o seu nome, com direito a triângulos
amorosos e infidelidades. Mais uma vez, a amizade
perfeita prevaleceria. Davam-se absurdamente bem
juntos, da forma como quisessem vê-los pelo mundo.
Com qualquer outra pessoa, como alguém que não
quisesse exposição e invenção de boatos, Alexandre se
preocuparia mais. Muito mais.
Nicole, sua mãe, ainda insistia em dizer que se
casariam um dia. Era o tipo de coisa que esperava ouvir
sobre uma amizade no colegial, não na vida adulta.
Mas, bem, Nicole não estava com ele na época do
colegial. Seu colegial sequer havia existido de verdade,
mas de uma forma muito incomum.
Ao fim do filme, Alexandre observou sua melhor
amiga levantar-se sob o som esmagador e alto de palmas
de quem havia amado não apenas o filme, mas sua
protagonista e a atuação da atriz. Jolene era fenomenal,
então não era uma surpresa.
— Eu realmente preciso ir agora — disse,
aproximando-se dela quando Jolene finalmente se livrou
de boa parte das pessoas que a cercaram depois dos
agradecimentos finais. A atriz segurava um buquê
gigante de rosas vermelhas e tinha um sorriso largo no
rosto. — Você é a melhor atriz que eu conheço, Jo. Que
filme incrível.
— Eu sou a única atriz que você conhece,
engraçadinho.
— Na verdade, não. Mas eu também assisto a muitos
filmes, então tenho bagagem.
— Quem é a outra atriz? — ela perguntou,
desconfiada.
— Papo pra outro dia, amor. Eu tenho um voo pra
França em cinquenta minutos e já estou atrasado. —
Alexandre se aproximou, beijando suavemente a testa da
amiga. — Eu amaria ficar mais, sinto muito.
— Se você vencer a corrida e dedicar a vitória pra
mim, talvez eu te perdoe — Jolene disse, inclinando um
pouco a cabeça. — Até algum dia, querido.
A sorte de Alexandre, no fim, era que o evento era
perto do aeroporto para onde precisava ir.
Ele entrou no banheiro minúsculo da área de
funcionários, tirando o terno escuro com dificuldade,
batendo a cabeça e as costas algumas vezes no
processo. Alex vestiu um conjunto de moletom
confortável, o mesmo que costumava usar para viagens
longas e provavelmente era a única combinação que não
o fazia querer pular do avião com meia hora de voo.
Era como ser o Homem-Aranha livrando-se do traje
após uma noite inteira salvando a cidade. Alex soltou
uma risada nasal com a comparação.
Ao sair do cubículo, deslizou os dedos pelos fios
bagunçados e já soltos do fixador que haviam colocado
para mantê-los no lugar. Havia dado a si mesmo o direito
— o luxo — de estar ali naquela noite, mas ainda
precisava chegar até a França antes que os treinos
iniciassem.
E que comece mais um final de semana.
DOIS
No aeroporto, enquanto esperava pelo momento do
embarque, Alexandre discou o número de Nicole. Com o
espaço quase deserto durante a madrugada, a sensação
de que precisava procurar por um lugar completamente
privado desapareceu.
— Bom dia, Xander! — Era quase possível ver o
sorriso caloroso da mulher, mesmo por uma ligação de
voz.
— Boa noite, Nicole — Alex disse, entre uma risada
levemente nasal. Ele olhou para o relógio no pulso,
erguendo uma sobrancelha. — Posso saber onde você se
meteu dessa vez?
— México! Seu pai me trouxe para um hotel, já que é
o nosso aniversário de casamento e…
— Seu aniversário de casamento não foi mês
passado?
— Esse foi o aniversário de noivado, Xander — Nicole
o corrigiu como se aquele erro fosse ridículo. Talvez
fosse, mas, bem, não era do seu casamento que estavam
falando. Tinha o direito de descartar essas datas da
mente. — Enfim, onde você está?
— Aeroporto. Vou pra França em vinte minutos.
— Você ainda não tá com a equipe?
— Não… — disse cautelosamente, umedecendo os
lábios. — O filme da Jo estreou, e eu não queria perder.
— E Ivan sobreviveu a isso?
— Acho que sim. — Deu de ombros.
— Você avisou com antecedência?
— Meia hora antes de pegar o avião pra cá, sim.
— Alexandre, isso não é antecedência!
— Bom, ele poderia me impedir antes disso, e eu não
queria ser impedido. Que pena.
Do outro lado, Nicole soltou uma respiração pesada.
— Relaxa, Nicole. Vou chegar a tempo — completou,
por fim. — Não é como se eu fizesse isso sempre, de
qualquer forma. Você sabe que eu sempre respeitei meus
horários.
— Eu sei. O que me preocupa mais é que você vai
sem uma noite de sono apropriada.
— Ah, para. Eu adoro o barulho de um avião pra
dormir — mentiu, só porque não queria que Nicole se
preocupasse demais. — Como tá sendo o aniversário de
casamento,defesa, eu preciso visitar um museu da
cidade — mentiu. Dizer que estava com preguiça de lidar
com as perguntas de gente de um reality que só
procuraria por brechas para intrigas e sensacionalismos
que não existiam faria Nicole começar seu discurso sobre
lidar também com o lado chato da vida que ele havia
escolhido para si. Sabia que ela estava certa, mas não é
como se fosse concordar em voz alta também. — Relaxa,
Nicole. Está agindo como se eles não pudessem gravar
isso em qualquer momento do ano e depois fingir que eu
falei hoje. Não tem muita coisa autêntica ali pra dizer
que eu seria o único.
Alex relaxou um pouco ao ver Basile cruzar o seu
caminho ao lado de Laurent. Deixara o engenheiro em
sua sala para sair com Nicole, torcendo para que ele
desse um jeito de vazar da área da Astoria sem ser visto.
Não podia dizer que ele não era bom em passar
despercebido. Fosse lá como fizesse isso.
— Nicole, por que não avisou que viria? — Bruno se
aproximou quando voltaram para a área da equipe.
Assim como Alexandre, o piloto mais velho já estava
uniformizado.
— Eu me fiz a mesma pergunta.
— Porque eu gosto de fazer surpresas. — A mulher
olhou ao redor, soltando um suspiro. — Eu não sabia que
sentia tanta falta desse ambiente.
— Ninguém mandou o seu marido se aposentar antes
da hora.
— Ele merecia um descanso — Nicole justificou,
dando um tapinha no ombro do filho quando Ivan se
aproximou. — Vai, hora dos seus testes.
— Não suma, eu vou te levar pra tomar um café
depois — disse, inclinando-se para beijar o rosto da mãe
antes de se afastar.
— Só se você também conseguir uma torta de
morango.
— Tudo pra você, Nicole. Você sabe disso.
Ela sabia, sim.
Enquanto se preparava para entrar no carro,
Alexandre observou Ivan falar algo sobre o desempenho
do carro de Bruno, lembrando-se de Basile falando que
relaxar talvez o ajudasse.
Suspirou, ajustando as luvas nas mãos antes de
entrar no carro.
Um dia a mais com um novo era sempre melhor que
o anterior. Alexandre sentiu-se mais seguro, mais firme.
Respirar fundo sempre que a pressão parecia prestes a
atrapalhá-lo também ajudou.
Quando voltou para a área de sua equipe, Ivan tinha
um sorriso satisfeito no rosto. O suficiente para que boa
parte do bloco de gesso em seu peito sumisse.
— Perfeito, Alex — ele disse, tocando o seu ombro. —
Melhor que ontem. Você se sentiu melhor?
— Definitivamente — assentiu, agradecendo baixinho
quando estenderam uma garrafa de água na sua direção.
— Fui mais rápido?
— O suficiente, o que é ótimo.
— Legal — murmurou, respirando profundamente ao
arrumar os fios suados para trás. Nicole estava ali perto,
observando a transmissão da tela de Bruno, que
continuava na pista. — Tô liberado?
— Vou te liberar da reunião do dia, mas só porque a
Nicole veio. Não pense que vai virar rotina.
— Eu nunca pensaria isso — ironizou, afastando-se
para ir até a mãe. — Eu tomo um banho e em meia hora
podemos sair. Que tal?
— Não vou estar atrapalhando?
— Não, Nicole. — Balançou a cabeça entre um gole
de água. — Relaxa. Ivan me liberou, e eu já planejava
sair.
Nicole o encarou, estreitando os olhos como se
esperasse descobrir alguma mentira com a força da
mente.
— Não me olha assim.
— Tudo bem, mas só porque eu realmente gostaria
de uma torta agora — ela cedeu, balançando a mão. —
Tome um banho e se arrume, Xander.
Alexandre se apressou. A oportunidade de sair com
seus pais durante os finais de semana de corrida eram
raros, acontecendo apenas quando eles viajavam ao seu
lado. Aquela era uma oportunidade atípica, e, enquanto
sua mãe estivesse ali, queria aproveitar o tempo com
ela.
O piloto saiu do chuveiro e alcançou o celular com
uma mão, checando rapidamente as mensagens mais
recentes. Foi uma surpresa ver uma de Basile, precisava
admitir. Enquanto vestia uma calça limpa com uma mão,
ele abriu a conversa com o francês para ler a mensagem.
Baz: suponho que não tenha tempo pra mim hoje
Alex: não vai rolar, foi mal
Baz: tudo bem, deu pra ver que você ficou animado
com a surpresa
Baz: enfim, você foi bem no carro hoje
Alex: tentei relaxar, foi o que você disse
Baz: bom garoto
Alex: isso é um fetiche ou uma tentativa de elogio?
Baz: como se você não gostasse quando eu te elogio
Alex: tchau, eu vou sair com a minha mãe
Alex guardou o celular no bolso da calça com um
resmungo baixo, afastando o Beauchene da mente para
terminar de se arrumar.
O piloto saiu da sala, aproximando-se de onde Nicole
o esperava, ao lado de Ivan.
— O carro que eu aluguei tá lá fora, não precisamos
pegar um de aplicativo — disse, acenando na direção do
mais velho enquanto se afastavam.
Alexandre dirigiu pelas ruas movimentadas de
Barcelona enquanto ouvia Nicole falar sobre a sua
semana, os trabalhos em eventos beneficentes que ela
tanto gostava e os planos para viajar com Ângelo, que
estava ocupado com o trabalho na academia de pilotos,
onde foi contratado após se aposentar da rotina de
viagens das equipes de Fórmula 1.
Era algo que se identificava com Nicole. Assim como
ela, odiava pensar em ficar muito tempo em um único
lugar.
— Vamos levar o Bonner dessa vez — ela disse,
referindo-se ao dobermann alemão. — Ângelo disse que
o hotel oferece um spa para cães, e…
— Você sabe que ele odeia essas coisas — riu,
imaginando o desespero do animal em ter que ficar em
silêncio e imóvel por mais de dois segundos para um
tratamento em um spa. — Ele vai ser o terror de quem
estiver lá.
— Bom, pode ser a oportunidade perfeita para que
ele aprenda a se comportar perto de pessoas
desconhecidas.
— Como se ele soubesse se comportar até com quem
já conhece — ironizou. — Me mande fotos disso, eu
preciso ver o caos.
— Você, Alexandre, é o maior culpado por ele ser
assim. Não educou o William quando ele era pequeno e
agora que é um adulto, acha que pode ser como quiser.
— Eu diria que o nosso William Bonner está na fase
da pré-adolescência. Ele tem um ano e meio.
— E com ela vem a rebeldia. Reconheço isso de
algum lugar.
— Você é tão engraçada. — Alexandre beliscou
suavemente o braço de Nicole ao parar o carro em frente
a uma cafeteria consideravelmente movimentada. Não
conhecia nada ali, mas a internet indicava que era um
bom lugar.
E era. O tipo de lugar que Nicole adorava, com a
decoração elegante e delicada, o cheiro de bolo saído do
forno e chocolate. A mulher soltou um suspiro animado
ao ver as dezenas de opções expostas apenas na entrada
do lugar.
— Duvido que conseguem ter uma torta melhor que
as da Aria, mas vou admitir que parecem boas.
— Pedir qualquer coisa melhor que algo feito por Aria
é demais, Xander — Nicole disse, deslizando a ponta do
dedo indicador pelo cardápio atentamente. — Mas aposto
que são ótimos.
Nicole acabou optando por uma torta de morango – o
que, para Alex, não era uma surpresa de forma alguma –
e café com menta. Alex ficou feliz em pedir apenas por
um brownie e café puro.
— Você só vai pedir isso? — Nicole ergueu uma
sobrancelha, o repreendendo silenciosamente.
— Não vou me entupir de bolo durante o final de
semana.
— Xander, até amanhã de manhã você já vai ter
queimado todas as calorias.
— Eu pego um pedaço do seu, feliz?
— Não, mas não adianta discutir com você — ela
disse, dando de ombros. Alex balançou a cabeça com um
sorriso, agradecendo à atendente quando seus pedidos
foram entregues.
Nicole ainda tinha a mesma calma de quando se
conheceram. Um pouco mais, talvez. Era algo que
gostava de acreditar que construíram juntos, mas
principalmente graças a ela.
Nicole sempre esteve em paz consigo mesma,
mesmo que a vida colocasse obstáculos no seu caminho.
Alexandre foi um deles, e ele sabia disso. Ainda
assim, Nicole o amou.
E o fez desde o primeiro momento. Essa parte ainda
era surpreendente para ele. Antes de ser a sua mãe,
Nicole se tornou sua melhor amiga, uma confidente.
Alguém – a única, na época – em quem sentia que
poderia confiar plenamente sem o medo de uma traição.
Para alguémcomo Alexandre, a necessidade de
segurança e confiança veio muito antes da fama. Era
intrínseco a ele. E Nicole foi a primeira pessoa a
convencê-lo de que era possível encontrar isso em outra
pessoa.
Mesmo que ele tenha se recusado a enxergar isso
por um longo tempo. Quase dois anos, para ser mais
exato.
E, enquanto Nicole falava sobre o quanto estava feliz
com os seus resultados na Astoria – ela nunca deixava de
falar sobre isso –, Alexandre Duarte se deixou relembrar
do quanto era a pessoa mais sortuda do mundo por ter
cruzado o caminho com a sua verdadeira família.
DEZESSEIS
Alexandre nunca havia parado para pensar no próprio
casamento. Afinal, todo mundo tem uma ideia básica do
que quer quando for concretizar legalmente o
relacionamento com a pessoa que ama, não é? Mas não
Alexandre.
Sequer pensava que alguém poderia gostar dele a
ponto de desejar um casamento.
Ainda assim, era o tipo de pessoa que adorava estar
em casamentos. Dos casamentos das amigas de Nicole
até aquele, o de Mariana e Daniel, não havia nada que
Alexandre não gostasse.
O casamento da vez foi organizado na casa de
campo de Daniel, na Irlanda. Nesse quesito, identificava-
se bem com eles: era privativo, quieto e bonito. Não
havia muitos convidados quando chegou, e estava um
pouco atrasado para o início da cerimônia.
Alexandre se aproximou de onde Bruno e Ivan
guardavam um lugar para ele.
— Você não conseguiu vestir algo que não te
transformasse no centro das atenções? — Bruno
reclamou, embora a brincadeira fosse nítida em seu tom
de voz. Alex não estava vestindo nada demais, em sua
própria opinião. O conjunto de terno completamente
preto seria até simples, se não fosse pelo destaque a
mais que as correntes e anéis dessem.
Mas, de acordo com Baz, uma pessoa normal
fecharia os botões de cima da camisa. No mínimo.
Mesmo que ele tivesse dito nas mensagens seguintes à
foto que Alexandre mandou que a roupa o deixava
extremamente gostoso.
— É o que eu normalmente visto. — Deu de ombros.
— Justamente por isso.
— Então a culpa não é da roupa, eu sou
naturalmente o centro das atenções.
Bruno revirou os olhos, virando na direção do marido.
— Eu nunca vou te perdoar por me fazer conhecer
esse cara.
Ivan riu, dando de ombros.
Alexandre acenou para os convidados que conhecia.
Tanto Fernando quanto Paulo estavam na primeira fileira
organizada para a cerimônia, com outro casal de
padrinhos. Enquanto Assis parecia perfeitamente calmo,
Paulo não conseguia parar de tagarelar algo no ouvido do
namorado, que não respondia com muito além de
algumas palavras.
Daniel foi o primeiro a entrar, do lado da mãe. A irmã
mais nova parou ao lado dele para entregar uma
caixinha que provavelmente continha as alianças.
Era esperado que ele estivesse feliz. Afinal, era o seu
casamento. Mas Daniel William parecia radiante ao
acenar para os convidados em seu terno branco. Mesmo
enquanto trocava algumas palavras com Fernando
durante a espera pela noiva, ele mal conseguia conter o
sorriso dentro de si.
— Sabe, isso me lembra que no nosso casamento…
— Ivan começou, olhando na direção do marido.
— Não. Cale a boca. Ninguém mais precisa saber
disso.
— O quê? — perguntou, olhando para Ivan.
— Ele faz questão de contar isso pra todo mundo —
Bruno resmungou, balançando a cabeça. — Vou sair
daqui e ir direto pro divórcio.
— Bruno me ligou faltando quinze minutos pra
começar a cerimônia — Ivan começou, e Bruno cobriu
parte do rosto com uma mão. — Só pra perguntar se eu
queria mesmo casar com ele, porque ia ser muito
trabalhoso se eu desistisse depois de assinar os
documentos.
— Quinze minutos, Bruno?! — exclamou, olhando
para o piloto mais velho.
— Eu estava tenso, tudo bem? Quando você se casar,
vai entender.
— Se eu casar — corrigiu, recostando-se novamente
na cadeira. — E se acontecer, ainda vai demorar um bom
tempo. Eu precisaria encontrar alguém disposto a ficar
comigo primeiro.
— Olhando por esse lado, é realmente difícil — Bruno
ironizou, fazendo-o bufar.
— Eu dizia a mesma coisa, mas já sabemos onde eu
fui parar — Ivan interrompeu. — Um brasileiro chato me
arrastou pra um banheiro de uma festa e me beijou.
— Perdão? Se me lembro bem, você veio no meu
ouvido dizer como a minha bunda ficava linda quando eu
usava jeans.
— Você estava bêbado, nada do que você diz pode
ser confiável. — Ivan se inclinou para beijar o ombro do
marido. — Mas, pensando bem, a sua bunda fica mesmo
linda em jeans.
— Acho que eu vou gorfar — resmungou, virando o
rosto para olhar em outra direção.
Não que não estivesse acostumado em ver Bruno e
Ivan agindo como o que eram – casados – quando não
estava trabalhando, principalmente nas vezes em que
passava alguns dias na casa deles no Brasil ou quando
visitavam seus pais na Austrália. Mas também não
significava que gostaria de ver seu chefe e seu colega de
equipe se beijando.
Seu celular vibrou na hora certa, puxando a sua
atenção.
Baz.
Baz: achou o caminho ou se perdeu no meio do nada
irlandês?
Alex: para a sua felicidade, eu achei o caminho. o
meu motorista, na verdade.
Baz: é claro que você pagou por alguém pra dirigir
pra você, alexandre
Alex: ninguém pode me julgar. queria que eu me
perdesse pra sempre?
Baz: meus finais de semana de corrida seriam muito
mais sem graça sem você me implorando por um pouco
de atenção
Alex: eu imploro por atenção, mas você me mandou
mensagem
Baz: apenas preocupado com a possibilidade do meu
piloto ter se perdido
Baz: sua ex realmente está aí?
Alexandre olhou ao redor, procurando por Íris. Estava
preparado para alguma piada vinda diretamente do
humor único e ácido de Basile, mas queria saber o
quanto teria que se afastar de alguém para evitar
confusões.
Íris cruzou o olhar com o seu do outro lado da fileira
de cadeiras, e estreitou os olhos imediatamente. Certo,
ainda temos ressentimentos.
Alex: é, tá sim
Alex: só não parece muito feliz em me ver
Baz: é uma pena, eu ia pedir que agradecesse por
mim por ter te deixado livre
Alexandre conteve uma risada, comprimindo os
lábios para não chamar a atenção de Bruno e Ivan, que
ainda conversavam tranquilamente.
Alex: foi mais uma decisão minha do que dela
Baz: posso agradecer de outro jeito, então
Baz: esse casamento tá tão chato a ponto de
continuar conversando comigo?
Alex: nem começou, estamos esperando a noiva
Alex: você é um saco, nem tudo gira em torno de
você
Baz: sim, só você mesmo
Baz: pegue o buquê por nós, querido
Sua atenção voltou para a entrada quando a música
tornou a tocar e Daniel quase tropeçou ao arrumar a
postura.
Mariana entrou ao lado do pai, sorridente, assim
como o noivo. Alex ainda a achava fodidamente linda,
mesmo que já não tivesse a mesma queda – ou melhor,
penhasco – de quando a conhecera. O vestido simples e
rendado tinha um decote fundo, mas não muito
revelador. O buquê de rosas vermelhas, clássico, era o
que dava mais cor à combinação, assim como a rosa que
prendia um lado do cabelo cacheado e volumoso.
Daniel sussurrou algo que a fez rir quando ela se
aproximou. Como se não existisse mais ninguém ali,
Daniel continuou dizendo palavras que Alexandre e
outros convidados não conseguiriam ouvir, graças à
distância.
Provavelmente era privado demais, de qualquer
forma.
Alexandre não ligava tanto, não tinha a necessidade
de ter um relacionamento na maior parte do tempo.
Tinha total consciência de todos os fatores de sua vida
que complicariam esse tipo de coisa caso tentasse – seus
colegas de trabalho falavam sempre sobre isso. Algo
assim era, com toda a certeza, apenas um plano para os
próximos anos.
Talvez quando começasse a pensar em se aposentar.
Ainda assim, Alexandre tinha os seus momentos. A
vontade de ter algo apenas para si com outra pessoa. O
privado compartilhado. A certeza de que, no fim do dia,
não estaria sozinho em casa.
Alexandre Duarte temia a sensação de solidão, e
talvez fosse um dos motivos para que ainda se sentisse
tãobem ainda morando com os pais. Na Austrália,
sempre haveria alguém rondando pela casa, mesmo um
dos funcionários – que, parando para observar, era nítido
que eram como parte da família também.
Mas pensar em ter algo diferente – e algo mais – com
alguém era uma ideia atrativa. Porque todos ao seu redor
conheciam o sentimento, mas Alexandre sentia que
ainda não. Independentemente de todas as pessoas com
quem já ficara durante a sua vida, que só começou de
verdade a partir do momento em que foi adotado, ainda
não sentia que alcançara o sentimento como o que Bruno
e Ivan, Mariana e Daniel tinham.
E, no fundo, em uma parte de si que ainda pensava
que talvez não valesse tanto quanto o mundo fazia
parecer que o Garoto de Ouro valia, dizia que
provavelmente nunca alcançasse.
— Como as coisas com Bruno começaram? —
perguntou, quando já estavam sentados em uma das
mesas organizadas no gramado da casa para a festa.
Bruno estava distante, conversando com a família de
Mariana. Ivan parecia mais interessado em aproveitar o
cardápio vegetariano. — Digo, eu sei que vocês
começaram se odiando e tudo mais, mas como isso
mudou?
— Nós nunca nos odiamos, Alex — o russo disse,
balançando suavemente a taça de vinho que tinha em
mãos. — Quer dizer, pelo menos da minha parte. É claro
que havia a rivalidade natural entre equipes, como existe
com você e Laurent, por exemplo. Tivemos uma ou duas
intrigas depois de ultrapassagens, mas nunca chegou a
ser ódio. Você sabe como as notícias andam.
Ivan olhou na direção do marido, soltando um
suspiro.
— Mas Bruno sempre foi transparente sobre
absolutamente tudo, então ninguém duvidava de quem
ele era. Foi uma questão de tempo até que todos
ficassem meio fascinados por ele, porque não existia dia
ruim pra ele. — Ivan coçou distraidamente a barba loira,
pensativo. — E, bem, ele também é bonito. Acho que eu
fiquei mais fascinado que a maioria. Tivemos uma festa
com outros pilotos, e acabou acontecendo.
— Então ele também já estava de olho em você?
— Acho que Bruno ainda demorou um pouco pra me
desassociar da imagem fechada e sem graça que eu
tentava passar na época. Talvez ele só se atraísse
fisicamente, nunca chegamos a conversar sobre isso.
Quando nos beijamos pela primeira vez, eu só queria que
ele me visse. — O mais velho inclinou levemente a
cabeça, abrindo um sorriso torto. — Eu nem sabia que
ele não era hétero, mas não perderia nada tentando.
— Mas ele não é.
— Não, então nós começamos a sair. Depois dos
treinos e das corridas, talvez até antes. Não era grande
coisa mesmo, mas era legal ter alguém com quem eu
não tivesse medo de me relacionar. Quando eu percebi,
já queria conhecer a família dele, vê-lo durante a semana
e usar as férias pra visitar a casa dele no Brasil. — Bruno
voltou para a mesa, e olhou entre eles com curiosidade,
querendo saber sobre o assunto. — Não que eu soubesse
demonstrar muito disso na época.
— Eu achava que você realmente me odiava na
maior parte do tempo. Você e a sua cara fechada —
Bruno reclamou, ao entender. O piloto olhou para
Alexandre. — Sabe a cara que ele faz nas reuniões com
os engenheiros? Era a cara dele. O tempo inteiro.
— Que terror.
Ivan revirou os olhos, mas passou um braço pelos
ombros do marido de uma forma quase protetiva. Se não
soubesse que estavam em um lugar completamente
seguro, quase acharia que havia algo ali ameaçando o
piloto.
— Você ainda se casou comigo — ele argumentou,
por fim.
— Não que eu tenha muita escolha, você meio que é
o único que aceitou minha condição de cozinhar pra mim
e ainda se tornar vegetariano.
Bruno se inclinou para deixar um beijo estalado no
rosto de Ivan.
— Fofos, vai ser estranho ver vocês como colegas de
trabalho de novo depois disso.
— Como se você já me respeitasse como seu chefe
antes — o russo resmungou.
— Oi! — Alex virou o rosto para ver Mariana, que se
aproximou para cumprimentá-los ao lado de Daniel. Ela
havia trocado de roupa, e estava vestindo um vestido
branco de seda que ia até a altura dos joelhos. — Só
estou tendo tempo pra falar com os convidados agora,
me desculpem.
— Relaxe, querida. Você sabe que também foi assim
no nosso casamento. — Bruno gesticulou,
despreocupado. — Parabéns, aliás. Foi tudo lindo.
— Nem me fale, precisei de meia hora pra arrumar a
maquiagem borrada — ela sorriu mais ao abraçar
Alexandre. — Tudo bem?
— Perfeito — assentiu. — Você tá linda, Mari.
— Gostou? — ela girou rapidamente, jogando os
cachos sobre o ombro. — Eu não ia aguentar ficar tempo
demais com um vestido longo e cheio de frescuras.
Enfim, você anda me devendo atualizações sobre outra
coisa, não é?
Alex conteve uma risada.
— Não tem nenhuma atualização, engraçadinha. —
Beliscou levemente o nariz da mulher, balançando a
cabeça.
— Mas vocês ainda estão juntos?
— Juntos é uma palavra muito forte.
— Ah, certo. Vocês ainda fodem? — ela se corrigiu.
Alex olhou ao redor mais uma vez, rindo baixo.
— Jesus, Mari.
— Me responde! — ela protestou, empurrando
levemente o seu ombro. — Ele pareceu tão legal da vez
que nos vimos.
— Baz é interessante e o nosso lance é legal
justamente por não existir qualquer tipo de compromisso
— explicou. — Só isso. Acho que nenhum de nós pensa
no assunto.
— Sabe, talvez você devesse tentar dar uma chance
pra isso… — Mariana sugeriu, inocentemente. — Você
merece, sabe.
— Adoro como todo mundo tenta achar um namoro
pra mim — ironizou. — Estou muito bem solteiro, Mari.
Não precisa se preocupar.
Muito bem.
Muito, muito bem.
Talvez.
— Vou fingir que acredito, mas só porque eu
realmente preciso jogar o meu buquê para as madrinhas
— ela disse, balançando suavemente as flores antes de
se afastar para o pequeno palanque montado na área da
festa, de frente para as mesas.
Alexandre parou de prestar atenção no pequeno
aglomerado de pessoas que se juntou ao redor da noiva,
pegando uma nova taça de champanhe assim que um
garçom passou ao seu lado.
Estava distraído demais em sua própria conversa
mental sobre sua completa falta de sorte quando o
assunto era relacionamentos, que levou um susto
quando algo caiu diretamente no seu colo.
O buquê de Mariana. Tinha que ser piada. A recém-
casada olhava na sua direção em completa surpresa,
então não era como se pudesse dizer que ela jogou
propositalmente na sua direção.
Impossível. Ou nem tanto assim, afinal.
DEZESSETE
Basile não estava brincando quando disse que o carro
da Ritz-Carlton estava tão bom quanto no ano anterior.
Havia mais potencial para brigas pelas primeiras
posições, também envolvendo outras equipes.
Isso tornou-se nítido na primeira corrida. Na segunda
e na terceira. Na quarta, quando quase colidiu com
Laurent em uma curva mais estreita, Alexandre precisou
juntar todas as suas forças interiores, até mesmo as que
nem sabia que existiam, para evitar xingar o piloto e a
equipe. Não era do seu feitio. Não publicamente, pelo
menos.
Na corrida de Miami, já havia um estresse crescente
dentro do último campeão mundial. Não porque
Alexandre não sabia perder – embora essa parte ainda
tirasse algumas noites de sono –, mas porque não havia
nada no mundo que o afetasse mais que a sensação de
estar decepcionando as pessoas que confiaram nele. Em
uma capacidade que deveria ter.
Deveria conseguir fazer algumas ultrapassagens,
cobrir a reta de Bruno quando preciso, apresentar os
melhores desempenhos. Quando se estava em uma
equipe como a Scuderia Astoria, era o mínimo.
E mais ainda, quando se estava em uma equipe
como a Scuderia Astoria e tinha um histórico familiar
como o seu, próximo de tantas figuras do esporte, era
esperado que você tivesse em mãos todas as cartas
necessárias para estar sempre um passo à frente de
qualquer outra pessoa. Não fazia tanto sentido, mas era
a realidade. Ninguém gostava de pensar em uma Astoria
se classificando para a oitava posição em um sábado –
especialmente a de Miami, onde tinham uma torcida
concentrada graças ao períodoem que Ivan e Bruno
moraram por lá antes de voltar para o Brasil, quando se
casaram.
Consequentemente, uma torcida que também
esperava uma corrida boa de Alexandre Duarte.
E é claro, havia o título do ano anterior.
Enquanto saía do autódromo de Miami, ajustando o
moletom sobre a cabeça e os óculos escuros sobre os
olhos, Alexandre olhou ao redor. Ao entrar no carro
alugado da vez, ele suspirou. Ainda se lembrava
perfeitamente do caminho para a maioria dos locais
turísticos que costumava visitar por lá, mas ainda perdeu
algum tempo pesquisando pelos endereços no GPS do
celular.
O piloto pulou no assento do motorista quando
alguém bateu na janela ao seu lado.
Basile riu com o seu susto, afastando-se apenas para
ir até o outro lado do carro e entrar do lado do
passageiro. Alex olhou ao redor mais uma vez,
procurando por qualquer sinal de alguém por perto. Não
havia ninguém.
— Para onde você tá indo? — o francês perguntou,
arrumando os fios escuros antes de colocar um boné da
Ritz-Carlton sobre a cabeça.
— O que você tá fazendo aqui?
— Uau, o jeito que você me recebe sempre me deixa
com o coração quente de amor — ele ironizou. — Te vi
saindo e resolvi dar um oi.
— Oi — disse, esperando que ele saísse em seguida.
Não era como se não o quisesse ali, embora também
não soubesse o que queria de Baz. Não se falavam desde
os treinos em Barcelona, nada além de algumas trocas
de olhares e alguns cumprimentos rápidos. Mesmo tendo
o número um do outro, não era como se tivessem o que
conversar tão frequentemente.
Além disso, não estava lá com cabeça para conversar
com alguém como se nada estivesse acabando com a
sua paz de espírito nas últimas semanas.
— Oi — Baz respondeu, mas não moveu um músculo
sequer para sair do carro. — Laurent comentou sobre um
bairro cheio de restaurantes de comida cubana. Little
Havana, acho. Você conhece?
— Conheço.
— Podemos ir lá?
— Nós?
Basile assentiu, despreocupado.
— Você vai sair com mais alguém?
— Não.
— Podemos dar uma volta juntos, se é assim.
Imagino que você conheça uns lugares legais, já que
seus chefes moram aqui.
— Moravam, eles se mudaram faz tempo.
— Tanto faz, pessoas como vocês vivem mudando de
casa o tempo inteiro. — Ele deu de ombros. — Voltando
ao assunto, você vive turistando por aí, e eu queria fazer
o mesmo. Eu nem sairia da França se não fosse esse
emprego estúpido, então vou tirar algo bom disso.
Ele não falava como se fosse grande coisa. E,
parando para pensar, realmente não era. Basile não
estava pedindo por nada além de um passeio por
qualquer lugar que achasse interessante – no caso, Little
Havana. Talvez fosse legal, talvez o ajudasse a tirar as
coisas da cabeça.
Isso se ignorasse a parte de ser visto e reconhecido
por alguém.
— Se você quiser ir comigo, vai ter que tirar esse
boné — disse, apontando para o boné verde do
engenheiro.
Basile revirou os olhos, mas pegou o boné roxo da
Astoria no compartimento do carro para substituir.
— Feliz?
— Não muito, mas agradeço a consideração.
— Seu humor de merda tá estampado na sua cara há
tempos, não pense que eu estou surpreso. — Basile tirou
o vape do bolso da calça, revirando os olhos.
Alex não o respondeu. Em vez disso, mandou uma
mensagem para Ivan, avisou que estaria ocupado até
mais tarde e deu a partida no carro.
— Você só quer passar por Little Havana? —
perguntou, algum tempo depois.
— O pessoal da equipe comentou sobre alguns outros
lugares, mas eu não conheço nada pra dizer que me
interessei ou não. — O francês apoiou os pés sobre o
painel do carro, balançando os coturnos perfeitamente
limpos. — Se você tiver algum lugar legal, eu animo.
— Eu falaria sobre o Design District, mas você vai
odiar.
— O que é?
— Um bairro com galerias de design, e…
— Não, próximo. Isso tem cem por cento cara de
coisa da sua mãe, fez parte de algum passeio em família
de vocês?
Na verdade, sim. Alexandre revirou os olhos, mas não
escondeu o sorriso torto. Não estava surpreso com o
desinteresse de Basile nas programações que envolviam
as galerias de arte de Nicole. Desconfiava que só havia
gostado tanto nas ocasiões em que o fez por estar
acompanhado da mãe.
— Você é um saco — murmurou, balançando a
cabeça. — Mas sei de um lugar.
— Onde?
— Surpresa. Vamos pra Little Havana depois. — Alex
olhou o relógio no pulso, parando em um sinal vermelho.
— Vou fingir que confio no seu gosto refinado.
— Você entrou no meu carro pra me ofender?
Basile riu. O tipo de risada que denunciava qualquer
tipo de pensamento malicioso que tivesse passado pela
sua cabeça com aquela pergunta.
O piloto parou o carro em frente à construção gigante
que era o Phillip and Patricia Frost Museum of Science.
— Um museu? — Baz se inclinou para olhar ao redor,
ainda dentro do carro.
— Para de reclamar e vem logo.
Basile bufou. O francês saiu do carro pouco depois,
acompanhando-o. Ainda havia uma distância mínima,
apenas para evitar qualquer… problema.
O Frost Museum tinha seu diferencial. Construído e
feito para ser uma experiência diferenciada.
Alexandre amava aquele lugar.
— Você já veio aqui antes? — Baz perguntou, depois
de entrarem.
— Algumas vezes, mas nunca em um final de
semana de corrida — confessou, olhando ao redor. Não
estava tão movimentado, considerando ser um sábado,
mas havia uma quantidade razoável de pessoas ali,
principalmente estudantes do que parecia ser o Ensino
Fundamental. — Sempre fazem uma exposição sobre
Fórmula 1 nessa época.
— Entendi a sua lógica. Ele é engenheiro, vai gostar
de ver uns carros — Baz provocou, ainda olhando ao
redor. Ele até podia tentar esconder, mas seu interesse e
curiosidade sobre o lugar eram visíveis. E nem haviam
entrado em um dos espaços especiais do lugar ainda. —
Seja mais original, Alexandre.
Alex revirou os olhos, parando de frente para o
francês. E Baz estava distraído o suficiente para não
perceber, o que quase o fez bater de frente com Alex.
Próximos demais, considerando que estavam em um
local público.
Quando Basile fez menção de se afastar, mais como
um reflexo automático, o piloto o segurou no lugar.
— Se você tiver a capacidade básica de ser legal por
quarenta minutos, talvez eu seja legal com você
também.
— Depende do seu conceito de legal. Se te envolver
sem roupa, eu posso pensar no caso. — Baz inclinou
levemente a cabeça, fitando-o como se tentasse
compreender exatamente o que estava acontecendo ali.
Como se Alexandre não dando a mínima para a
possibilidade de alguém os ver fosse algo inacreditável.
E era. Até mesmo para si próprio.
— Talvez envolva — disse, por fim, afastando-se para
continuar o caminho até a primeira entrada do museu. —
Vamos, a próxima sessão do planetário deve começar
daqui a pouco.
Basile o acompanhou em silêncio, ainda prestando
atenção em tudo ao redor deles. Não como Alexandre
costumava fazer, procurando por algum imprevisto,
algum problema. Não, o francês estava atento a artes
expostas na paredes, pessoas ao seu redor.
O que normalmente passaria despercebido, Basile
dava sua total atenção. Alex parou ao lado dele em um
dos quadros. Parecia abstrato, sem muitas formas que
realmente passassem uma percepção específica. Cores
quentes, apesar do título da obra. Desespero.
Baz fez uma careta, como se o quadro estivesse
conversando com ele. O francês balançou a cabeça antes
de voltar a atenção para Alex, voltando a acompanhá-lo
até o planetário.
— O que tem de legal aqui? Eu fui em planetários a
minha infância inteira.
— Não nesse planetário — rebateu, revirando os
olhos.
Aparentemente, Baz não demorou para perceber o
que queria dizer. A tela de transmissão do planetário do
Frost Museum não era como qualquer outra. Parecia
próxima e muito maior. Era como ver o céu estrelado
absurdamente perto.
No escuro, Alex se inclinou para puxar o rapaz pela
mão até os assentos vazios mais próximos.
Já havia visitado aquele lugar várias vezes, de fato.
Mas sozinho, e apenas uma vez com o pai. Estarcom
alguém – especialmente com Basile – parecia uma
experiência completamente nova, como se todo aquele
lugar fosse uma novidade também para o piloto.
Ou, talvez, não o lugar. Mas a sua companhia. A mão
de Baz era inquieta, mas não o soltou por um segundo
sequer enquanto todo o local iluminava-se com o show
de luzes de estrelas, planetas e buracos negros.
Por mais simples que pudesse ser, Alexandre gostou
da sensação de simplesmente segurar a mão de alguém.
A mão de Baz. Ele não sabia se lidaria bem caso um dia
essa sensação fosse embora de forma definitiva.
Basile estava encantado com o lugar.
Depois do planetário, da exposição sobre a pré-
história, o aquário e a especial de Sherlock Holmes, Alex
estava convencido de que seria difícil tirar o engenheiro
dali sem que passassem por todas as outras exposições,
mesmo aquelas que jurava que Baz não teria interesse
algum em ver.
Ele parou quando o Beauchene se distraiu com o piso
do andar científico, que acompanhava cada passo com
luzes coloridas. O tipo de coisa que atraía uma
quantidade admirável de crianças – e um cara de vinte e
dois anos. Basile mantinha as mãos nos bolsos da calça
enquanto percorria discretamente a extensão do piso.
Alex tirou o celular do bolso para registrar o
momento no mesmo instante em que Baz levantou o
olhar na sua direção, o que rendeu um dedo do meio
entre as fotos.
— Fofo — provocou, o que parecia uma vingança
justa contra a quantidade de vezes que o rapaz o
chamou da mesma forma.
— É… realista — ele disse ao se aproximar, ainda
pisando com um cuidado impressionante. — Enfim, o que
vamos ver agora?
— A exposição de Fórmula 1, antes que o museu
feche. — Alexandre olhou o relógio mais uma vez.
Estavam lá há quase duas horas, mas ele não daria meia
hora. Não sabia se era o tempo passando muito rápido
ou a presença de mais alguém o mantendo absorto. —
Temos uns vinte minutos até te chutarem pra fora.
— Ninguém vai me chutar pra fora — Baz
resmungou, revirando os olhos. — Você é famoso, vai
conseguir liberar mais uma hora pra gente se pedir com
o seu sorrisinho de galã.
— Eu nunca sei se você fala esse tipo de coisa pra
me ridicularizar ou como um elogio.
— Nesse caso, é um elogio.
— Você precisa mesmo de mais uma hora por aqui?
Achei que quisesse um tour por Little Havana também.
Basile deu de ombros. Ele parecia prestes a dizer
algo, mas parou ao entrar na área da exposição especial
do mês.
Alex não o julgava. Também ficou um tanto sem
palavras quando entrou, pouco atrás dele.
Era suspeito para falar, mas aquela era facilmente a
melhor exposição do museu.
Começava com réplicas perfeitas de carros e
uniformes mais antigos. Telas que carregavam textos
sobre os primórdios do esporte, vídeos de testes, equipes
e pilotos que marcaram história ao longo dos anos. A
cada passo, a história da Fórmula 1 era contada para
quem estivesse ali.
Alexandre poderia dizer que conhecia cada detalhe
de tudo aquilo de cor, mas a experiência de ver, mesmo
que em um museu, os elementos e imagens que
formaram isso de forma tão linear ainda era algo que só
poderia encontrar ali. Parecia inacreditável que fosse o
espaço mais vazio – talvez por estar próximo ao horário
de fechar, mas Alex poderia facilmente morar ali, se
tivesse permissão para isso.
Ao fim da extensa sala, ele parou.
A parede do fim do corredor era um espaço exclusivo
para o último campeão mundial. Para ele. Não era como
se a ficha de que era o piloto número 1 da temporada
anterior ainda não tivesse caído, mas estar no fim de
uma exposição inteira para o esporte era o tipo de coisa
que não esperava ver. Poderia lidar perfeitamente com
as câmeras, com um mundo inteiro de olho na sua vida –
mesmo que, às vezes, não lidasse tão bem assim.
Mas ver que fazia parte – que era – a história de algo
tão incrível como o automobilismo ainda era o tipo de
coisa que lhe tirava o ar de vez em quando. Fazia com
que tudo valesse a pena.
Basile, que havia parado e se separado dele a alguns
metros para ver uma seção menor reservada
especificamente para os construtores, finalmente parou
ao seu lado. Em silêncio.
— Sabe o que é engraçado? — murmurou, enquanto
uma edição de seus vários momentos de pódio, até
mesmo os que vieram antes de fazer parte da Astoria,
passavam em uma tela que ocupava a maior parte da
parede. — Eu passei a maior parte da minha vida com
medo de não ser bom o bastante. E agora eu estou em
um museu com um espaço sobre mim.
— Bom o bastante pra você? — Basile questionou.
— Pra mim? — perguntou, voltando o olhar para o
francês.
— Achei que estivesse óbvio a esse ponto. — Baz deu
de ombros, tirando o boné da sua cabeça ao se
aproximar mais. Alexandre tinha quase certeza de que
aquele lugar tinha mais câmeras de segurança os
vigiando que a casa de Nicole e Ângelo, mas não era
como se fosse impedir Baz de se aproximar. — No fim, a
única pessoa que te cobra tanto é você mesmo.
Basile desceu o olhar para a sua boca por um
segundo, como se fosse beijá-lo.
Mas ele se afastou, deixando-o sem o boné. Não
havia uma chance de que ele saísse dali sem ser
reconhecido por, pelo menos, uma pessoa.
Talvez fosse a intenção de Baz ao sair dali. Não tinha
como saber.
De qualquer modo, o que ele havia dito continuou
ecoando pela sua cabeça enquanto olhava suas imagens
reproduzidas no telão. Havia momentos ao lado de
Nicole, de Ângelo, Bruno, Ivan e outras pessoas de sua
equipe. Pessoas que realmente importavam para ele, que
trabalhavam ao seu lado e o acompanhavam quase
diariamente. Nenhuma delas demonstrava, em momento
algum, que não fosse bom o bastante para a posição que
ocupava. Fosse como piloto, como parte da Astoria ou
como filho.
Ninguém além dele mesmo. Alexandre sabia
reconhecer o momento de alguns daqueles registros a
ponto de lembrar-se bem de seus pensamentos na
maioria delas.
Se era o bastante, se estava fazendo algo errado, se
não havia algum tipo de decepção por trás dos sorrisos
que aquelas pessoas direcionavam para ele.
Olhando como um telespectador, não havia nada.
Nada além dele mesmo.
DEZOITO
Depois de quase uma hora a mais no museu –
puramente por culpa de Basile, porque parte da equipe
do lugar o reconheceu assim que deixou a sala da
exposição –, Alexandre finalmente conseguiu entrar no
carro.
— Você me usou pra conseguir mais tempo no
museu? — perguntou, franzindo o cenho na direção do
rapaz que parecia perfeitamente confortável do lado do
passageiro enquanto mandava fotos do museu para
alguém. Para Laurent, provavelmente. Alex notou que
eles eram amigos próximos.
— Ainda faltava a exposição sobre raio-x em peixes,
e eu precisava de uma distração.
— Você é um bosta.
— Obrigado, mon chéri. Parece ser uma opinião
muito popular sobre mim, então gosto de ver como um
elogio. — Basile tornou a apoiar os pés no painel do
carro, deixando o boné roxo de lado para arrumar os fios
escuros. Ele claramente não gostava daquilo, mas não
chegou a reclamar.
Isso fez com que Alexandre se sentisse um pouco
mal. Por obrigá-lo a manter-se disfarçado para sair. Não
era o tipo de coisa que Basile fazia, obviamente. Mas ali
estava ele.
E pior, sem reclamar. Basile Beauchene não reclamar
de algo que ele não queria fazer era algo fora do comum.
Alex provavelmente se sentiria menos culpado se ele
enchesse o seu saco sobre isso.
— O que é a cicatriz no seu abdômen? — Baz
perguntou, como se não fosse nada demais. Para ele,
provavelmente não era. E nem deveria ser.
Mas, bem, tudo era algo demais quando se tratava
de Alex.
Era a única coisa de uma vida que ele havia deixado
para trás que ele ainda carregava consigo e não tinha
como se livrar.
— Meu apêndice rompeu quando eu tinha uns… —
Alex parou para pensar. Não havia muita coisa que se
lembrasse da época. — Sei lá, sete anos. Talvez oito. Eu
não me lembro.
— Porra. — Baz se remexeu no assento, como se
pensar na situação lhe causasse dor. — Você não estava
com Nicoleainda, né?
— Nicole me adotou dez anos depois — respondeu,
apenas, torcendo para que a falta de detalhes fosse o
suficiente para que Basile entendesse que não era um
assunto que quisesse tratar naquele momento. Nunca,
para ser sincero.
Alexandre parou o carro em um estacionamento
próximo a Little Havana, o bairro típico cubano de Miami,
um dos principais pontos turísticos do local.
Ainda havia uma distância, conforme percorriam as
ruas movimentadas do local. Basile parou uma vez ou
outra para comprar um petisco aqui e ali para si e para
Alex. Mesmo que insistisse para que ele não o fizesse.
— Você não precisa comprar nada pra mim, Basile.
Eu nem posso comer tudo isso tendo corrida amanhã —
bufou quando ele estendeu um sanduíche artesanal na
sua direção.
Ele revirou os olhos, mas insistiu para que pegasse.
Alex aceitou, só porque já estava pago. Baz podia comer
o suficiente para fazê-lo passar mal, mas não podia fazer
o mesmo.
— Para de ser chato — ele reclamou.
— Me perdoe por ser responsável. Isso é mais
gorduroso que o meu cardápio da semana.
— Seu cardápio é horrível, já falamos sobre isso.
Alexandre não se deu ao trabalho de responder. Só
porque Basile parecia animado com toda a experiência
turística desde cedo e não queria ser o responsável por
isso sumir. Se não fosse pela companhia, provavelmente
ainda estaria remoendo suas frustrações por Miami.
Seria deprimente.
Quando já estava tarde o suficiente para que sua
hora de ir para a cama se tornasse uma preocupação – e
Basile já parecesse ter comido o suficiente para se sentir
satisfeito por uma semana –, ele se aproximou do
francês.
— Onde você tá hospedado?
— Não precisa me levar, eu ainda vou dar uma volta
por aí.
Alex o fitou.
— Então eu posso te acompanhar, ou…
— Relaxa, mon chéri. Você tem a sua hora. — Basile
balançou a cabeça, olhando ao redor antes de se
aproximar um pouco mais, considerando o pouquíssimo
movimento da rua. — Mas você tá com uma cara bem
melhor agora, então eu acho que me saí bem.
Alex piscou, confuso.
— Como assim?
— Sei lá, você parecia precisar de alguém de fora do
círculo da sua equipe, trabalho e essa merda toda. Achei
que seria bom te distrair. — Quando o piloto ergueu uma
sobrancelha na sua direção, ele deu de ombros. —
Embora eu tivesse planos que envolvessem uma cama,
pra ser sincero. O museu e isso aqui também foram
legais.
— Você não queria conhecer Miami?
— Bom, acho que sim. Foi legal e talvez eu faça mais
vezes, já que viajar com um bando de gente chata e ficar
longe da minha gata é a minha nova rotina — Baz
confessou, deslizando os dedos entre o cós da sua calça.
— Mas não era meu intuito inicial.
Alexandre o puxou pela gola da camiseta, unindo
seus lábios em um beijo que, se não estivesse encostado
na parede lateral de um restaurante do bairro, teria se
desequilibrado.
Se pudesse, faria todo tipo de coisa suja e errada que
jamais deveria ter pensado em fazer com alguém como
ele. Se não ali, no carro. Não tinha a menor vontade de
esperar até chegar no hotel.
Se pudesse. E por mais que beijar Basile, a boca com
gosto de menta do sorvete que ele havia acabado de
tomar, fosse o suficiente para acordar todos os sentidos
do seu corpo em estado de alerta máximo, não podia.
Não em um sábado. Em termos oficiais, já deveria estar
relaxado em sua cama há um bom tempo.
— Acho que isso foi um agradecimento, então por
nada — o francês provocou, puxando suavemente o seu
lábio inferior entre os dentes.
— Você pode aparecer no meu hotel amanhã. Depois
da corrida — Alex disse entre um sussurro enquanto se
inclinava para deslizar a boca entre o pescoço tatuado de
Basile, que soltou algo que poderia ser facilmente
comparado a um ronronar. — Consigo agradecer melhor
lá.
— Se eu soubesse que só precisava fazer companhia
na sua tarde sem graça de turismo pra te ver animadinho
assim, teria feito isso desde a primeira corrida — ele
rebateu, rindo quando Alex empurrou o seu ombro. Baz
se aproximou o suficiente para beijá-lo outra vez. Da
forma que apenas Baz conseguia beijar, como se fosse
apenas uma preliminar.
Como se ele não quisesse apenas tirar tudo de Alex,
mas que ele o entregasse por escolha própria.
— Você não pareceu achar sem graça enquanto
brincava com o piso do museu — murmurou, soltando
um som em reclamação quando Baz se afastou.
— Até amanhã, mon chéri — ele disse, já se
afastando. — Tente ganhar a corrida.
— Não preciso que você me peça isso.
— Veremos.
Alexandre observou o rapaz se afastar com um
sorriso torto no rosto.
Sim, sentira falta da sensação de sair com alguém
sem o peso de que precisava dar algo em troca.
Alexandre venceu a corrida de Miami com vantagem
sobre os outros pilotos, em um pódio ao lado de Bruno. O
tipo de pódio que pedia por uma comemoração especial.
Depois de comemorar com parte da equipe por
quase duas horas na área exclusiva de um bar – sem
ingerir uma gota de álcool, importante dizer –, Alexandre
encontrou Basile o esperando em seu quarto de hotel. De
verdade, ele nunca entenderia a facilidade do francês em
achar meios para entrar onde não deveria, com ou sem
permissão.
Mas não era, de todo, uma reclamação.
Depois do que pareceu ser a noite inteira sem muitas
palavras, mas provavelmente não havia passado de
pouco mais de uma hora, Alexandre seria incapaz de
abrir a boca para reclamar de Basile. Ou de qualquer
outra coisa.
— Você quer comer alguma coisa? — perguntou
quando Basile se levantou da cama para ir ao banheiro.
— Eu quero o que você escolher, não tenho nenhuma
preferência. — Baz chutou as roupas jogadas pelo chão,
soltando um palavrão baixo. — Me empresta alguma
coisa sua?
— Pode pegar na minha mala — assentiu, apontando
para a mala roxa do outro lado do quarto. — O
compartimento da direita é para as roupas que eu uso
pra dormir, são mais confortáveis.
— Você arruma a sua mala?
Alex ergueu uma sobrancelha, apoiando-se sobre os
cotovelos para olhar na direção do rapaz. Ou das costas
tomadas por mais e mais tatuagens, um dragão
ocupando a maior parte da extensão de pele.
Se não tinha parado para observar o quanto as
costas de Basile eram bonitas até então, fazia-o naquele
momento.
— Sim — respondeu, por fim. — Por quê?
— Que organizado. — Baz o fitou por cima do ombro,
com o sorriso debochado que o fez revirar os olhos. —
Sério, eu nem sabia que era possível encaixar tanta coisa
em uma mala.
— Nicole me ensinou. Ela viaja muito.
— E você também.
— No meu caso, é quase sempre pra correr. Nicole
viaja porque não tem a capacidade de ficar olhando para
o mesmo quintal por mais de alguns dias.
Basile pendurou uma calça de moletom sobre o
ombro, dispensando uma camiseta.
— Se você não viajasse pra correr, seria igual. — Não
parecia uma pergunta. E Baz não estava errado. — E não
é como se você ficasse trancado no quarto, então é
quase a mesma coisa. Você gosta de viajar.
— Você não gosta?
Ele deu de ombros.
— A oportunidade é incrível, mas eu sou mais
caseiro. Gosto de uma rotina fixa. E, por mais irônico que
isso possa parecer, não dê risada, eu gosto de regras.
Alexandre não conteve uma risada, o que fez o
francês fazer uma careta.
— Foi mal. É engraçado e completamente uma
mentira.
— No caso, são regras impostas por mim mesmo —
ele completou. — Não gosto que me tirem do meu
ambiente. Ou que me obriguem a fazer algo. Ou, sei lá,
qualquer coisa que não venha de uma decisão minha.
Parando para pensar, fazia muito sentido. Muito
mesmo. Alexandre ainda conseguia se adaptar de
alguma forma quando algo saía do seu controle, quando
era preciso rearranjar algo em sua rotina – em maior
parte, porque ele não tinha uma formada e fechada.
Basile, sim. Do pouco que sabia, ele tinha uma rotina
muito específica no ano anterior. Algo resumido à sua
faculdade, o emprego na oficina – o que havia acontecido
com a oficina, aliás? – e a hora extra no Palladium. Uma
rotina que, de modo geral, não dependia de outraspessoas.
Algo totalmente diferente do que era trabalhar com a
Fórmula 1. Alexandre sabia disso como ninguém. Baz
provavelmente odiava estar ali quase tanto quanto
Alexandre odiava sentir-se preso a algo.
— Você não podia simplesmente recusar o emprego?
— perguntou, finalmente.
— Não. Meu pai provavelmente ficou entediado e
resolveu que era hora de usar a minha existência para
entretenimento próprio. — Baz não tentou esconder o
tom ácido, mas Alex não se incomodou daquela vez.
Sabia que o problema não era ele. — Você vai me deixar
tomar um banho e pedir o jantar ou vai continuar me
fazendo perguntas no chuveiro?
— Você podia ser um pouco mais legal comigo depois
de me comer por quase uma hora.
Basile forçou um sorriso falso em resposta antes de
se trancar no banheiro.
Alexandre pediu por uma porção de batatas-fritas
com queijo e bacon, só porque parecia bem o tipo de
coisa que Basile gostava. E porque tinha conseguido o
pódio do dia, merecia algum tipo de folga da dieta,
mesmo que duvidasse que aguentasse comer muito
daquilo sem passar mal.
Não se surpreendeu nem um pouco ao perceber que
o francês estava usando o seu perfume outra vez ao sair
do banheiro, quando se levantou para tomar o seu
banho.
— O serviço de quarto deve vir daqui a pouco, eu
pedi pra trocarem os lençóis — disse, um pouco distraído.
Ninguém poderia culpá-lo, certo? Certo.
— Você não quer deixar mais óbvio que transou
comigo? Tipo, sei lá, pedir pra comprarem camisinhas.
— Nenhum funcionário seria irresponsável o bastante
pra expor algo assim e acabar com a reputação do hotel
com um processo de invasão à privacidade que eu
começaria contra eles. — Alex deu de ombros. — Bom,
pode acontecer. Mas as chances são mínimas.
— Isso é ridículo.
— O quê?
— Eu não viveria sem o mínimo de privacidade. Ter
que ficar com alguém pensando na probabilidade de
alguém que não deve, no caso o mundo inteiro, descobrir
é ridículo.
— Bom, eu não quero que o mundo saiba que eu sou
bissexual. Não é o tipo de coisa que eu vá gostar que se
torne o único assunto sobre mim. Ainda. Isso pode mudar
amanhã. — Alex fechou a mala depois de pegar roupas
limpas, revirando os olhos. — Deveria ter pensado sobre
o quanto é ridículo antes de vir. E não só dessa vez.
Alex não esperou por uma resposta antes de bater a
porta do banheiro. Como o de costume, era provável que
Basile já não estivesse mais lá.
Não seria uma surpresa e, enquanto enrolava mais
que o normal sob o chuveiro, Alex quase esperava que
fosse o caso.
Mas, quando saiu, Basile ainda estava ali. Tinha uma
porção generosa no seu colo, mas parou de comer no
instante em que parou ao lado da cama. Os lençóis
realmente haviam sido trocados, aparentemente.
— Eu não estava falando de você — Baz disse, por
fim. — Eu sei o que é ter que esconder isso por…
segurança, seja lá como queira chamar. Eu sou gay e
meu pai é um merda sobre qualquer coisa que saia da
bolha dele. Nós nunca falamos sobre isso, mas
definitivamente faz parte dos mil e um motivos que ele
arranja pra me infernizar, porque eu não faço questão de
que seja um segredo há alguns anos. Desde que eu pude
falar pro Dom, na verdade. Mas eu sei o quanto é uma
merda. Eu sinto muito se dei a impressão de que a minha
opinião era quanto a sua escolha sobre isso. Não era. É…
esse mundo que você precisa viver.
Alex soltou uma respiração pesada. Por mais que
também não gostasse do que a vida como uma pessoa
pública significava, estava acostumado. De uma forma
ou de outra, havia sido preparado para esse tipo de coisa
desde o momento em que deixou o lar adotivo em que
vivia para morar com Nicole e Ângelo. Ninguém esperava
que Alexandre se tornasse tão grande, mas sabiam que
ele chamaria a atenção.
Basile, não. Baz não era uma celebridade, não
precisava lidar com olhos ao seu redor por onde
passasse.
— Eu fico na defensiva com o assunto, acabei te
interpretando mal — assumiu, ajustando-se
desajeitadamente na cama. — Desculpa.
— Você tá sempre na defensiva — Baz rebateu,
embora também não soasse como crítica maldosa. — Eu
não sou muita coisa, você realmente não precisa tentar
ser demais comigo também.
Alex comprimiu os lábios, assentindo, ainda sem
jeito. Não era como esperava terminar a noite – com uma
conversa sobre como lidava com a sua bissexualidade,
ou como o mundo lidaria com ela. Mas falar sobre isso
com Basile era, no mínimo, interessante. Estranho,
mesmo que bom. Importante, ainda que apenas para
Alex.
— Enfim, você realmente sabe como escolher um
jantar pra mim — o francês mudou de assunto,
despreocupado, voltando a atenção para o lanche que
exalava cheiro de gordura e calorias. — Isso tá muito
bom.
Alex sorriu, se inclinando para comer ao lado do
rapaz enquanto checava as mensagens mais recentes no
celular. Respondeu Nicole, que perguntou como havia
sido o seu dia. Jolene, que estava comentando sobre as
gravações de um novo filme.
Naquela noite, Basile dormiu ao seu lado pela
primeira vez. Sem muita conversa ou sem a necessidade
de ser um grande evento – Alex sabia que se ele não
estivesse tão cheio de comida, provavelmente teria dado
o fora. Dividiram a cama até que Basile fosse embora,
apenas na manhã seguinte, ainda antes que o piloto
brasileiro acordasse.
DEZENOVE
Bruno Campos e Ivan Nikolaev assinaram os
documentos de adoção em uma tarde de segunda-feira.
Na terça-feira, Camilla os acompanhou até sua nova
casa.
Havia sido – e continuaria sendo, todos sabiam – um
processo complicado. Delicado. Com várias nuances a
serem observadas com cuidado especial. Bruno e Ivan
sabiam que a criação de uma criança no meio em que
viviam não seria algo simples. Mas estavam dispostos a
fazer o que fosse preciso para que Camilla tivesse a
melhor criação possível.
Ela chegou à casa em um condomínio fechado. O
casal vivia ali desde que decidiram adotar Camilla.
Carregavam uma mala pequena, provavelmente por não
ter muitas roupas. Não que fosse um problema, porque
Alex já tinha visto o quarto preparado para ela, e Camilla
teria mais roupas do que qualquer criança deveria
realmente ter, mas Bruno era exagerado demais para ter
muita noção sobre isso. Ele queria agradar sua filha o
quanto pudesse.
A menina, que já visitara a casa algumas vezes
durante os períodos usados para adaptação, abriu um
sorriso largo ao ver Alexandre lá. Ela deixou a malinha
rosa com Ivan, que foi o responsável por buscá-la, para
correr até o piloto mais novo em um abraço.
— Ei, gatinha — murmurou, beijando a testa da
criança. — Bem-vinda, como você tá?
— Bem — ela disse, como se fosse apenas mais um
dia. Não como se ela estivesse chegando em sua nova
casa. — Eu assisti à corrida de ontem.
— Você acha que eu fui bem? — Ergueu uma
sobrancelha. O circuito de Montreal não foi uma
decepção. Depois de finalizar em terceiro, com Bruno em
primeiro e apenas o piloto alemão de outra equipe na
sua frente, não era como se pudesse chamar a corrida de
fracasso. Mas queria ter sido melhor.
— Sim, mas o Bruno foi melhor.
— Ele teve sorte.
— Eu ouvi isso, Alexandre — Bruno exclamou, da
cozinha. — Pare de tentar transformar a Camilla em uma
das suas fãs.
— Seria muito clubismo se ela chegasse te
escolhendo — rebateu, observando a menina se afastar
para abraçar o mais velho.
— Eu gosto dos dois. — Camilla ficou na ponta dos
pés para ver o bolo de chocolate que estava sobre a
bancada da cozinha. — É pra mim?
— Só depois do almoço — Bruno disse, afastando a
travessa. — Você pode deixar as suas coisas no quarto
enquanto a comida não fica pronta, que tal?
Ivan estendeu a mão na direção da menina,
oferecendo-se para acompanhá-la até o quarto. Camila
olhou rapidamente para Alexandre antes de aceitar,
puxando a malinha rosa consigo.
— Ela parece muito mais aberta com você — Bruno
murmurou, virando-se na direção do fogão.
— É normal, eu também confiava mais em qualquer
pessoa que não fosse meus pais quando eles me
adotaram. E eu já era bemmais velho que ela.
— Mas nós tivemos o período de adaptação.
Alex suspirou, se aproximando de Bruno para ajudar
com a comida.
— Ela não é um bebê, Bruno. Já deve ter visto muita
coisa antes de vocês aparecerem. O que nós mais vemos
são esses adultos que adotam esperando algo que possa
ser domesticado, uma criança que vá atender todas as
expectativas, seja lá qual forem. Quando não atendemos,
eles nos devolvem. — Bruno parou para olhar na sua
direção como se o rumo da conversa o surpreendesse.
Bem, era a primeira vez que o assunto realmente se
tornava um tópico. — Ou só fingem que não existimos
porque não podem nos devolver. Eu fiquei aterrorizado
quando os documentos com Nicole e Ângelo foram
assinados, e eu já tinha dezessete anos. Camilla só deve
estar com medo de se decepcionar, dá pra ver que ela já
ama vocês.
Alexandre não tinha problema algum em falar sobre
a sua adoção. Na verdade, tinha orgulho de qualquer
oportunidade de falar sobre o quanto Nicole e Ângelo
foram incríveis para ele. Era melhor do que quando
tornavam a sua vida antes disso um tópico em potencial.
— Cabe a vocês saber respeitar esse tempo sem
fazer com que ela se sinta sozinha. Tem uma linha muito
tênue entre dar o espaço e deixar a pessoa de lado —
continuou, jogando o molho na panela com o macarrão.
— Mas vocês vão se dar bem, relaxa. Eu sabia que você
entraria em pânico, por isso me ofereci pra vir.
— Eu não tô em pânico — Bruno rebateu, mais na
defensiva do que uma pessoa que não estava em pânico
deveria responder. Ele fez uma careta. — Só não quero
que ela se sinta desconfortável aqui.
— Bruno, você daria o mundo inteiro pra ela se
pudesse. Ivan também. Vocês amam essa menina desde
que a viram pela primeira vez, já é mais do que muitos
que tentaram me adotar antes de Nicole aparecer.
— Mais pessoas tentaram te adotar antes dela?
— Bom, alguns apareceram. Conversaram comigo,
mas não ia muito além disso. Eu não fazia muita questão
na época, só queria chegar à maioridade pra me livrar
daquele lugar por mim mesmo — Alex suspirou, cruzando
os braços. — O pessoal que trabalhava lá também não
tinha muitas esperanças pra mim.
— Ninguém achava que Nicole queria adotar,
também.
— Ela não queria. Eu fui um tropeço no caminho dela.
Longa história.
Bruno parecia prestes a perguntar sobre o assunto,
mas Camilla saiu do quarto em passos saltitantes ao lado
de Ivan.
— Eu tenho um quarto só pra mim! — ela exclamou,
subindo com alguma dificuldade no banquinho da
cozinha.
Alexandre observou a menina conversar com seus
pais sobre como havia sido a sua semana, a despedida
das outras crianças e sobre os brinquedos do seu novo
quarto, enquanto comia um prato generoso de macarrão
com molho branco.
Eles ficariam bem. Muito bem. Assim como ele,
Nicole e Ângelo ficaram bem.
O nome de Basile brilhou na sua tela para uma
chamada de vídeo quando estava se preparando para
dormir.
Estranho. Baz não o ligava.
Depois de Miami, Alex poderia dizer que eram…
amigos. Ou algum tipo de amizade com benefícios. Não
conversavam e não tinham feito nada além de trocar um
cumprimento rápido e discreto em Montreal, uma
semana depois, porque sua agenda estava
especialmente cheia na ocasião, com a gravação de
entrevistas locais e um comercial, além da participação
em um programa de televisão. Em países como o
Canadá, a atenção midiática era maior. Baz entendia isso
– ou, pelo menos, ele não reclamou quando recusou o
convite dele para se encontrarem quando fosse possível.
Era o tipo de coleguismo com benefícios que não lhe
cobrava nada. Gostava disso.
Alexandre atendeu à chamada esperando algum tipo
de emergência, mas a câmera estava simplesmente
apontada para um gato. Não, não um gato. Corvette.
Demorou alguns segundos para se lembrar dela, mas
seria impossível esquecer do nome.
— Baz? — chamou, erguendo uma sobrancelha
enquanto apoiava o celular no espelho para terminar de
se arrumar. — Por que eu estou vendo a sua gata?
— Precisa de um motivo específico pra olhar para
Corvette? — O francês virou a câmera para si mesmo,
embora ainda fosse possível ver Corvette perto dele. Não
parecia ser o mesmo apartamento em que ele vivia no
ano anterior, e Basile estava na cozinha. Corvette se
espreguiçou sobre a bancada antes de pular em direção
ao chão, como se ter que ouvir a conversa não fosse do
seu interesse. — Você sequer tem barba pra estar se
barbeando?
Alex revirou os olhos.
— Tenho, só não deixo crescer o suficiente para que
alguém perceba — disse, molhando o rosto para tirar o
que havia sobrado do creme de barbear. — Eu fico
horrível. O que você quer?
— Sei lá, tô entediado e imagino que você seja
desocupado como eu durante a semana.
— Na verdade, eu não sou.
Era, sim. Não que fosse verbalizar isso, ou assumir
que precisava procurar pelo que fazer durante a semana
para não se sentir entediado.
— Tanto faz, você parece desocupado agora. —
Basile mexeu na comida de sua panela, dando de
ombros. — Onde você tá?
— Brasil. Vou passar a noite no Ivan e no Bruno até a
hora do meu voo pra casa.
— Eles assinaram a adoção hoje, né?
Não era uma surpresa que Basile soubesse. Qualquer
um que trabalhasse com Fórmula 1 sabia de alguma
forma, o que consequentemente fazia com que todo o
mundo soubesse também.
Alexandre assentiu.
— Isso é legal — Baz murmurou, voltando a atenção
para a tela do celular. — Eu era fã pra caralho do Ivan
quando era mais novo.
— Eu também. — Alexandre olhou para a figura de
Basile na tela do celular, percorrendo os olhos pelas
tatuagens que cobriam toda a extensão do seu pescoço
até onde a camiseta branca o cobria. — Você ainda
trabalha na oficina quando não tá viajando?
— Não. Dom me demitiu — ele respondeu, dando de
ombros. — Sabe, agora eu entendo a galera que é meio
obcecada por você sem te conhecer.
Alexandre ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— É uma merda te ver sem camisa e não poder te
tocar. — Alexandre revirou os olhos, desviando o olhar o
quanto antes. — E, considerando a quantidade de vídeos
e fotos sem camisa que você posta, deve ser
insuportável. Você tá corando?
— Não. — Estava. Mas porque elogios sem aviso
prévio o deixavam sem jeito.
— Fofo — Baz riu quando o piloto ergueu o dedo do
meio na sua direção, pegando o celular quando saiu do
banheiro para o quarto de hóspedes. — Você já vai
dormir? Tão cedo?
— Foi um dia cansativo.
— E se eu te pedir pra bater uma pra mim? — ele
provocou, em um tom debochado. Embora, se Alex
concordasse, ele definitivamente não reclamaria.
— Cala a boca, Basile — bufou, se jogando na cama
espaçosa do quarto. — Quem tem tesão nisso?
— Mon chéri, você se surpreenderia.
— Foda-se, o que você tá cozinhando? — Alex
perguntou, mudando de assunto. Se entrasse demais
naquele tópico, talvez não conseguisse afastar a mente
disso. Não era o que queria.
— Sopa. — Baz virou o rosto para falar algo com
Corvette, em francês. Ele se afastou da câmera, voltando
com a gata no colo alguns segundos depois. — Seu
cachorro já teve uma fase rebelde? Corvette anda
insuportável esses dias.
— William Bonner é um dobermann, eles vivem em
uma fase rebelde infinita — disse, observando o francês
deslizar os dedos entre as orelhas da gata delicadamente
antes que ela pulasse do seu colo outra vez. Ele fez uma
careta. — Mas ele é treinado, então conseguimos viver
sem ter tênis mastigados em cinco segundos. Costumava
ser pior quando ele era mais novo.
— Corvette acha que só porque vai fazer um ano
pode agir como quiser. Ela derrubou todos os meus
discos da prateleira.
— Que cruel — ironizou, arrumando os fios loiros para
trás.
— Eu senti a ironia, mon chéri. Você odiaria se o seu
cachorro derrubasse, sei lá, seus troféus. Você sequer
tem espaço pra eles em casa?
— Eles ficam na sede da Astoria — negou. — Mas, se
ficassem em casa, eu faria o óbvio e deixaria em algum
lugar onde o Bonner não conseguisse alcançar.
— Isso se aplica a cães, mas não a uma gata.— Baz
pareceu desligar o fogão, pegando o celular para sair da
cozinha. — Esses bichos fazem o que bem entendem.
— Você diz como se não mimasse essa gata com a
sua vida.
— Não estamos falando sobre mim.
Alex sorriu suavemente com a resposta, levantando
para alcançar o moletom que havia deixado sobre a
mesinha do quarto.
— Você tá ocupado no final de semana de Ímola? —
Basile perguntou, soando um tanto desinteressado.
— Não que eu saiba, Marissa sempre me avisa sobre
maiores programações com algum tempo de
antecedência — respondeu, após pensar por alguns
segundos. — Por quê?
— Quero que você saia comigo.
— Ah, você quer?
— Quero. E você vai.
— Acho que não tenho escolha, então tudo bem. —
Alex olhou o relógio, soltando um suspiro. — Eu vou
dormir agora.
— Claro. Rotina de sono e essas coisas chatas — Baz
assentiu. — É a sua cara.
— Pode reclamar o quanto quiser de mim, mas foi
você quem me ligou.
— Pra te mostrar Corvette, não fique se achando
tanto. — Baz apontou a câmera na direção da gata mais
uma vez, que estava ao seu lado no sofá. — Boa noite,
mon chéri.
— Boa noite. Vou preparar a nossa programação para
Ímola.
Quando a ligação foi encerrada e as luzes do quarto
foram apagadas, Alexandre encarou o escuro de seu
quarto.
De algum modo, dormir foi muito mais fácil após
aquela conversa.
PARTE TRÊS — TRISTE PRA SEMPRE.
“Eu quero ser maior
Eu quero ser melhor
Me quero mais bonito
Eu quero estar contente
Mas eu simplesmente não consigo”
VINTE
O clima de Ímola não era propício para uma
programação turística, mas isso não chegou a impedir
Basile de deixar o hotel na sexta-feira.
Além disso, precisava sair para distrair a cabeça de
alguma forma. Nem mesmo uma nevasca o impediria.
Embora o clima naquele momento não parecesse
muito longe disso.
Alexandre o esperava na esquina, encolhido em seu
casaco grosso, as bochechas e a ponta do nariz
levemente avermelhados. Ele parecia diferente ali.
Mais suave. Mais claro. Talvez fosse porque o hotel
escolhido pela Ritz-Carlton fosse em uma área pouco
movimentada e não precisasse se preocupar com muitas
pessoas ao redor ali, mas Alexandre parecia ter acabado
de sair de um comercial de cotonetes. Qualquer coisa
que lembrasse toda a calmaria e paz que, sinceramente,
Baz estava longe de sentir naquele final de semana.
Talvez por isso fizesse tanta questão de estar ali com
o piloto. Para se distrair. De alguma forma, Alexandre
Duarte era bom em tirar a sua cabeça da merda,
provavelmente sem sequer perceber.
Era como ouvir a melodia feroz de um piano que,
subitamente, tornava-se tranquila.
— Parei pra pensar e acho que eu deveria ser pago
pra ser o seu guia turístico pelo mundo — ele disse,
ajustando a touca sobre os fios loiros ondulados.
— Como se eu não pagasse depois — rebateu.
Alexandre tirou uma mão do bolso do casaco para
deslizar pela sua nuca, inclinando-se para alcançar a sua
boca em um beijo. Lento, provocativo e com o gosto de
algo mais. Confiança. Alex tinha comentado que gostava
de Ímola, mas Basile não sabia que a ponto de deixá-lo
tão animado.
Alex se afastou tranquilamente para entrar no carro.
Basile não tinha o costume de passar mais tempo
que duas ou três noites com as pessoas com quem se
envolvia – por falta de tempo, falta de interesse. Sua
rotina não estava mais tranquila apesar da formação na
faculdade e um único emprego, mas, ainda assim,
Alexandre parecia merecer um tipo de atenção.
O que seria ridículo, se considerasse o quanto achava
ridículo que ele fosse o queridinho da temporada
simplesmente por ter o bônus do carisma. Mas, bem, Baz
nunca prometeu coerência.
E a cada vez que Alexandre dava um pouco de si,
Basile queria mais. Não havia muito o que fazer sobre
isso.
— Eu não quero parecer chato, mas agradeceria se
você me dissesse para onde estamos indo dessa vez —
disse ao entrar no carro alugado da vez.
Alexandre soltou uma risada quase satisfeita, como
se deixá-lo esperando por uma resposta fosse
satisfatório. Quando Basile soltou um palavrão em
francês, o piloto balançou a cabeça.
— Você vai gostar.
Bom, grande resposta. Baz não conseguia pensar em
grandes programações para aquele dia, uma vez que a
tarde foi cheia de reuniões de ambas as equipes para o
final de semana. Depois das cinco horas em uma noite
tão fria não era exatamente o horário ideal para quem
queria passear por qualquer lugar. Talvez Alex o levasse
para comer em algum de seus restaurantes famosos no
mundo inteiro por servir porções mínimas de comidas – e
nem eram tão excepcionalmente boas assim –, mas
poderia reclamar com ele sobre isso depois, se fosse
necessário.
Alexandre parou o carro em frente a uma construção
antiga, mas muito bem conservada. Não havia qualquer
movimentação no lugar. Na verdade, parecia fechado.
Apenas as luzes interiores e algumas da entrada estavam
ligadas.
— O que é isso?
— Teatro Farnese — Alex respondeu, simplista.
— Parece fechado.
— Porque está.
— Ah, legal. Nós vamos encarar a entrada a noite
inteira?
— Não, nós vamos visitar. — Alex girou as chaves do
carro entre os dedos antes de sair.
Basile bufou antes de acompanhá-lo. Na entrada,
havia uma mulher esperando por Alexandre, que o
cumprimentou com um sorriso largo e derretido,
acompanhado por um inglês carregado pelo sotaque
italiano. Tella, como dizia o crachá, demorou alguns
segundos para perceber a presença de Baz, parecendo
surpresa ao ver mais alguém ali.
— Esse é Basile, um colega de equipe. Espero que
ele possa me acompanhar por hoje.
— Claro! — Tella assentiu, entusiasmada. Basile
ainda estava processando a informação, mas não era
difícil perceber o quanto a mulher parecia decidida a
tornar toda a experiência o mais agradável para a figura
famosa dos convidados noturnos. — Bem-vindos, eu vou
acompanhar vocês, e…
— Na verdade, eu já conheço o lugar. Não queremos
incomodar, então podemos fazer o passeio sozinhos.
Tella piscou, claramente dividida entre seguir as
regras que ela definitivamente tinha em seu emprego ou
abrir mão delas para agradar o piloto. Basile quase sorriu
com a expressão da mulher, porque seria cômico se ela
não parecesse tão indecisa. Ela trocou um olhar com o
vigia do teatro por um momento antes de assentir, o
sorriso caloroso voltando ao seu rosto.
— Claro, sintam-se à vontade.
Alexandre respondeu com um sorriso. Não o sorriso
que costumava ser direcionado para Basile, porém. Não.
Era outro sorriso.
Baz o acompanhou em silêncio pelo corredor da
entrada, olhando ao redor antes de falar algo.
— Me diz que você não usou o seu sorriso de galã pra
conseguir entrar em um teatro durante a noite,
Alexandre.
O piloto virou na sua direção, dando de ombros.
— E se eu tiver usado?
— Por quê?
— Porque não tivemos tempo pra sair durante o dia
e, sinceramente, é melhor sem a quantidade de turistas
que vêm em grupos. Isso sem mencionar que a
iluminação noturna daqui é impecável.
Alexandre falava como se nada daquilo fosse grande
coisa. Talvez não fosse para ele. Para quantas pessoas
ele já tinha conseguido a entrada em monumentos
históricos fora do horário normal?
Baz conteve um palavrão. Aquele cara parecia
mesmo viver em uma realidade alternativa.
— Bom, esse é o Farnese. Ou Parma, se quiser soar
íntimo — Alex disse, tirando a touca branca que cobria os
fios ondulados. Ele bagunçou desajeitadamente o cabelo
antes de continuar. — Dizem que é um tipo de plágio
arquitetônico do Teatro Olímpico de Vicenza, mas o
arquiteto nunca escondeu que serviu de inspiração e,
sinceramente, não faz sentido nenhum chamar de plágio.
Mas isso é conversa pra outra hora. Foi construído em
1618, a pedido do duque de Parma e Piacenza, e
surpreendentemente ficou pronto no mesmo ano. Mas só
foi inaugurado dez anos depois.
— Claro, ricos adoram comprar o que não vão usar —
ironizou, olhando ao redor. Basile não podia se importar
menos com toda aquela explicação, mas era adorável ver
o quanto Alexandresabia. E o quanto ele parecia achar
tudo incrível, de uma forma que Baz não conseguia
enxergar.
— Silêncio. O duque ficou doente e só puderam
inaugurar no casamento do filho dele com a filha de um
grã-duque, longa história. — Alex gesticulou, parando na
entrada da área principal do teatro. — Sabe o mais
engraçado? O Teatro Farnese nunca foi usado como um
teatro. Só em casamentos.
— Que romântico.
— Um desperdício. O teatro só voltou a ser utilizado
três séculos depois, em 1990. É recente.
— Se você não fosse um piloto tão bom, eu
aconselharia a realmente seguir a carreira de guia
turístico — provocou, olhando ao redor. Alexandre tinha o
levado não para a área geral do teatro, mas para o palco.
— Nós não poderíamos estar aqui, imagino.
— Você acha que eu sou um bom piloto? — Alex se
aproximou mais, o suficiente para que Basile pudesse
sentir a respiração suave do brasileiro contra o seu rosto.
Uma mistura de amarelo e rosa, um dia de verão
ensolarado.
— Como se você não soubesse.
— Mas eu gosto quando você diz.
Alexandre deslizou os lábios entre os seus, devagar.
Quando Basile se inclinou para finalmente beijá-lo, o
piloto se afastou. Teria xingado, se não escutasse o
barulho dos saltos de Tella se aproximando.
Basile o observou agir como se estar ali, no palco,
tivesse sido um engano, e que já estariam de saída.
Seguiram para outros corredores e ouviu explicações
sobre a história do lugar para as quais ainda não dava a
mínima.
— Por que você sabe tanto sobre esse lugar? —
perguntou quando Alexandre se despediu de Tella com o
sorriso de galã.
— Não só sobre esse. — O piloto colocou as mãos nos
bolsos do casaco, parando ao se aproximar do carro. —
Quando fui adotado, comecei a pesquisar sobre os
lugares que queria conhecer. A história deles, essas
coisas. É uma experiência completamente diferente
quando você sabe de onde aquilo veio. É,
provavelmente, mais informação inútil do que eu preciso.
— Não vou discordar. — Basile olhou ao redor,
checando mais uma vez a estrutura externa do lugar. —
É mais uma diferença entre nós dois.
— Não entendi.
O francês não conteve um sorriso quase irônico com
a súbita preocupação na voz de Alexandre. Não queria
que soasse como uma reclamação, porque realmente
não era uma, mas era adorável que o piloto se
preocupasse com a possibilidade de ser.
— Na verdade, eu não deveria estar surpreso. Você
sempre enxergou tudo de uma forma muito… técnica,
talvez. Você sabe de todas essas curiosidades e fatos
históricos, arquitetônicos e culturais, como o motivo,
época e intuito do seu processo — explicou, colocando as
mãos nos bolsos para protegê-las da brisa fria ao se
aproximar do brasileiro. — Você observa. Eu sinto. Acho
que vou esquecer tudo que você me disse em meia hora,
se é que eu já não esqueci pelo menos da metade.
— Eu meio que já esperava isso, sendo bem sincero
— ele murmurou. — Mas acho que entendo o que você
quer dizer.
Baz piscou. Bem, aquilo era uma surpresa.
— Entende?
— Acho que sim, desde que nós visitamos o museu.
Você nunca pareceu ligar pra quem fez o quadro exposto
ou todo o contexto histórico, o que eu acho fascinante
analisar quando se está olhando para uma obra de arte.
— Alex mudou o peso do corpo de um pé para o outro
desajeitadamente antes de se aproximar mais. Ele
chegou perto até que Basile pudesse alcançar a corrente
prateada em seu pescoço com o dedo indicador,
fechando ainda mais qualquer distância que havia entre
eles. Mas aquele cara estava ali, dizendo que havia
notado algo sobre Baz, que estava acostumado demais a
não ser compreendido ou notado. Significava mais do
que deveria e não tinha culpa sobre isso, droga. — Na
verdade, é como se você conversasse com a arte. E é
legal, o que provavelmente é a pior palavra que eu
poderia usar pra definir, mas acho que também já
comentei que não consigo raciocinar quando você chega
tão perto.
— Meigo — brincou, raspando os lábios sobre a boca
entreaberta de Alexandre. Se afastasse o suficiente para
que ele visse o quanto parecia admirado com a
observação, poderia acabar se envergonhando. — Para
onde nós vamos agora, mon chéri?
— Você tá com fome? — ele perguntou. — Tem um
lugar por aqui com um sanduíche de mortadela que é
incrível. Você precisa conhecer.
Basile tirou o casaco assim que entrou no espaço
aquecido do hotel. Estava exausto, mas, ainda assim, um
tanto leve. Melhor. O tipo de sensação que viria após
uma tarde de trabalho ao lado de Dom, uma noite no
Palladium.
E, ainda assim, diferente. Pela primeira vez, talvez,
não soubesse como definir uma sensação em algumas
poucas palavras.
Não que ela tenha durado muito. Baz parou no meio
da recepção do hotel ao ver o pai sentado em um sofá,
encarando-o como se soubesse de algo que não deveria.
Ele sabia?
— Boa noite — disse, arrumando o casaco sobre um
ombro para procurar o cartão de entrada do quarto nos
bolsos.
— Onde você estava?
Basile parou. Precisou respirar fundo por longos cinco
segundos antes de virar-se na direção de Bernard
novamente, mantendo-se o mais sereno possível. Calmo.
Tranquilo. Demonstrar qualquer coisa além disso seria
dar mais abertura para que o pai o infernizasse.
— Resolvi sair pra dar uma volta. Não vou viajar e
ficar trancado no quarto só porque não estou
trabalhando.
— Com quem?
— Sozinho.
— Mentira.
Basile soltou uma risada seca, antes que pudesse
conter a si mesmo.
— Tanto faz. Acredite no que quiser — murmurou. —
Já terminou o interrogatório?
— Basile, se você estiver levando um dos meus
funcionários pra cama…
O rapaz precisou encarar a parede e prender a
respiração por alguns segundos.
Porra, aquele cara era louco.
— Acredite em mim, eu não tenho a menor pretensão
de foder com alguém dessa equipe. Não que seja da sua
conta.
— Você é meu filho, é óbvio que é da minha conta.
— Não vamos entrar no tópico de paternidade, você
sabe o que eu penso sobre isso — murmurou, afastando-
se para entrar no elevador. Quando Bernard se levantou
para acompanhá-lo, o mais novo soltou um suspiro
cansado. — Você quer ser profissional, então me trate
como um funcionário. Vai ser muito melhor que fingir que
você já se importou de verdade comigo em algum
momento.
— Não ligo pro que você faz desde que não afete a
imagem da minha equipe.
— Porque um dos seus engenheiros chupando o meu
pau definitivamente seria o escândalo do ano, eu sou tão
influente — ironizou, encarando o homem quando ele se
recostou do outro lado do elevador.
O campeão mundial o fazendo, sim, seria o
escândalo do ano. Por isso Basile daria a vida pra não
deixar que a ideia sequer passasse pela cabeça de
Bernard.
— Seu palavreado é uma vergonha.
— Se vamos falar de coisas vergonhosas, talvez eu
deva citar o seu discurso de valores familiares na mídia
que nunca foi realmente colocado em prática. União e
amor?! Poupe-me, Bernard. Minha mãe morreu sozinha
por sua culpa, e você sequer se dignou a aparecer no
enterro.
— Pare de falar sobre o que você não sabe — ele
avisou, devagar.
— Eu sei o suficiente. Que você a deixou em um
hospital, porque não queria o fardo de cuidar da pessoa
que jurou amar até a sua morte em uma igreja. E ainda
tirou o meu direito de vê-la, porque eu ainda precisava
de um acompanhante para poder entrar na ala em que
ela era tratada — Basile cuspiu. — Você sabe quem
começou a me levar, anos depois? Dom. Ele assinava a
merda da autorização para que eu tivesse permissão pra
ver a minha mãe.
— Ele sempre foi um oportunista.
— Ele nunca ganhou nada fazendo qualquer coisa por
mim. Melhor que você, que precisou que a polícia te
ligasse para que eu pudesse te ver depois de seis meses
viajando como se fosse solteiro e sem filhos. Aliás, você
tem filhos por aí. Só nunca assinou um documento de
paternidade pra eles. Eu deveria dizer que tenho sorte
quanto a isso, não é?
Assim que as portas do elevador se abriram, Bernard
o empurrou para fora, a mão forte envolvendo o seu
braço.hein?
— Não mude de assunto, Xander — Nicole
resmungou, mais docemente do que uma bronca deveria
realmente soar. — Mas está incrível, é claro.
— Aproveitem bastante, por favor. Eu daria tudo por
uma semana de férias — disse, colocando a mochila
sobre os ombros quando o primeiro sinal de que o
embarque para o seu voo estava liberado. — Deu a
minha hora, Nicole. Só liguei para dizer um oi e dar
notícias.
— Boa viagem, Xander. — Alexandre faria qualquer
coisa para uma semana com os pais, na verdade. —
Mande uma mensagem quando pousar.
— Pode deixar — concordou, entregando a passagem
e os documentos para o atendente do portão de
embarque.
Alexandre guardou o celular no bolso, acomodando-
se no assento confortável do avião. Ajustando os fones
de ouvido para que não caíssem e procurando por uma
playlist que não o deixasse muito agitado, ele fechou os
olhos.
Uma parte de Alexandre quase torcia para que seu
destino final fosse a Austrália — onde vivia com os pais
desde a adoção, o lugar que já conseguia chamar de
casa há algum tempo.
Quando o avião pousou, porém e obviamente, ele
não estava em casa.
Na verdade, estava na França. O clima frio fez
Alexandre se encolher um pouco sob seu conjunto de
moletom, se arrependendo de não ter separado uma
roupa mais quente na mochila para a estreia de Jolene.
Suas malas estavam no hotel ou o esperando autódromo,
com Bruno e Ivan. Até lá, teria que aguentar um pouco.
Ele mandou uma mensagem primeiro para Nicole,
depois para Ivan, avisou que estava a caminho de Paul
Ricard para os treinos.
Ivan: Precisa de algo? Já estamos te esperando.
Alex: suponho que eu vá direto pro carro, então
aceito um café e um muffin de mirtilo
Ivan: Fresco. Se vira.
Alexandre riu, balançando a cabeça enquanto
chamava por um motorista de aplicativo. Tirou fotos com
irmãos — um garoto e uma garota — que o abordaram
pedindo autógrafos.
Ao chegar no circuito de Paul Ricard e entrar na área
de sua equipe, Alexandre se permitiu relaxar um pouco.
Mesmo entre os colegas de trabalho, era como estar em
uma zona segura. Longe de casa, mas seguro.
— Alexandre, você conhece os benefícios de uma boa
noite de sono antes de correr? — Bruno Campos passou
por ele, erguendo uma sobrancelha. O piloto mais velho,
alguns bons anos mais experiente, bebeu um longo gole
de sua garrafinha de água antes de continuar: — Não sei
se você sabe, mas, até onde eu sei, é essencial. E
envolve não pegar horas de voo antes de entrar em um
carro que ultrapassa os duzentos quilômetros por hora.
— Dormi como um bebê no avião, você não precisa
se preocupar. — Alexandre forçou um sorriso simpático,
mas claramente debochado quando Bruno revirou os
olhos.
— Não é com você que eu me preocupo, é com seu
carro. E com o meu marido, porque ele não pode se
estressar. O coração velho dele não aguenta.
— Sinceramente, a única pessoa colocando a saúde
do meu coração em risco é você — Ivan disse ao marido,
saindo calmamente de uma das salas. Ele parecia
distraído com o celular em mãos, e arrumous os fios
claros e loiros de cabelo antes de olhar na direção de
Duarte. — Mas você realmente se superou dessa vez,
Alexandre. Suas coisas estão comigo, o uniforme
também.
— Quero você no carro em quinze minutos. Se vira.
— Bruno deu as costas, já se afastando do marido e do
colega de equipe.
— Você virou o chefe da Astoria e eu não fiquei
sabendo? — o mais novo provocou, erguendo uma
sobrancelha quando Bruno soltou uma risada, levantando
o dedo do meio para ele conforme desaparecia pelo
corredor.
— Não dê muita importância, ele tá chateado — Ivan
suspirou, deslizando os dedos esguios pelo cabelo mais
uma vez. Mas deixando-os mais bagunçados do que ele
costumava deixar. — Não foi uma semana legal.
— Algo que eu deva saber? — Alexandre olhou por
um momento para a mão do ex-piloto e seu chefe no seu
ombro. Vez ou outra, ainda parecia impressionante que
fosse tão próximo de pessoas como Ivan Nikolaev e
Bruno Campos.
Ele se perguntava se os dois o consideravam da
mesma forma, ou de um jeito semelhante. Eram parte de
sua rotina, uma extensão de sua família. Mais que
trabalho — toda a equipe era, de certa forma, mas eles
especialmente.
— Nada com a equipe, relaxa. É o lance da adoção
outra vez.
Alex sentiu os próprios ombros pesarem um pouco
mais. Não era uma novidade, pelo menos não para ele,
que Bruno e Ivan tentavam seguir com um processo de
adoção há algum tempo. Mas as constantes viagens ao
redor do mundo graças ao trabalho, além do claro risco à
vida que o esporte parecia apresentar para Bruno e à
vida pública diante das câmeras do mundo inteiro, eram
fatores delicados a serem considerados.
Ou, pelo menos, eram as desculpas que inventavam
para o casal. Eles, assim como o próprio Alex, que
acompanhava tudo de perto, sabia bem que os motivos
eram outros. Ainda não era fácil que dois homens
adotassem uma criança. O que era tão, tão
absurdamente ridículo em todos os sentidos possíveis,
porque Alexandre não poderia citar ninguém mais capaz
de adotar e cuidar de uma criança com a vida inteira
como Bruno e Ivan.
Ninguém além de seus próprios pais, mas não era o
caso em questão.
— Não facilitaram ainda?
— Não vão facilitar. — Ivan deu de ombros,
balançando a cabeça. — Foda-se, nós vamos conseguir.
Nem que eu tenha que partir para medidas maiores. Só é
um pouco mais difícil para Bruno lidar com isso.
— Se eu puder fazer algo… — Alex murmurou,
deixando a frase morrer no ar. O que poderia fazer
naquela ocasião? Nada.
— Não durma no volante e isso já vai ajudar muito —
Ivan brincou, dando um tapinha no seu ombro. — Se
arrume, temos uma coletiva depois e eu quero seguir o
horário certo pra tudo. É bom te ver, Alex.
— Foi mal pelo furo, aliás — disse, antes que ele
também se afastasse. — Eu realmente não queria perder
a estreia da Jo.
— Relaxa, não vamos perder tudo por algo assim. E
você sempre cumpriu os seus horários, eu te chutaria se
fosse um hábito.
Alexandre sorriu um pouco.
— Valeu. Vou trocar de roupa e já apareço.
Nikolaev assentiu, pegando o celular do bolso do
casaco para atender uma ligação — em russo,
impossibilitando o piloto de entender uma palavra
sequer.
Alexandre se livrou da peça superior do conjunto de
moletom primeiro, roubando uma garrafinha de água da
geladeira da sala. Se permitiu aproveitar o silêncio,
encarando o uniforme roxo e preto da equipe por alguns
segundos pelo canto do olho. Ele franziu o cenho ao ver
um envelope dourado sobre a roupa, o seu nome
estampado em letras bonitas no papel grosso e brilhante.
Alexandre deixou a garrafa sobre a mesa,
aproximando-se para pegar o envelope. Não estava
esperando qualquer tipo de correspondência —
normalmente, tudo o que fazia era organizado por e-mail.
O piloto rasgou com cuidado a ponta do papel.
Era um convite. Um convite para uma festa de
noivado.
A festa de noivado entre Mariana Dias e Daniel
William.
Não era que Alexandre amava Mariana Dias. Ou algo
do tipo.
Definitivamente não.
Mas, veja bem, quando todas as pessoas com quem
você tenta ter o mínimo de um relacionamento casual
encontram um compromisso sério na semana seguinte, o
padrão torna-se irritante.
Alex estava começando a considerar usar um crachá
dizendo “me beije e atraia o amor da sua vida”.
Mariana era incrível. Bonita, inteligente e muito
decidida do que queria ou não, sabia fazer uma conversa
se estender por horas como se fossem apenas minutos,
jogava futebol e era uma goleira impressionante. Ele
genuinamente esperava que ela fosse feliz para caralho,
porque era o que merecia — e sempre soube que ela
estava bem acima do seu alcance, para ser sincero. Ela
era um ponto de segurança porque, por mais que não
tenham se conhecido a fundo, Mariana jamais contaria
sobre qualquer um de seus segredos para quem não
precisasse saber.
Jolene era incrível. E todas as sei lá quantas pessoas
que ficaram um pouco com ele antes de encontrar
alguém que parecesseBasile soltaria um ruído com a dor causada junto à
pressão da surpresa, mas se limitou a fuzilar o homem
com o olhar.
Apenas com o olhar. Porque sabia bem que, no
momento em que encostasse um dedo em Bernard
Beauchene, mesmo que para autodefesa, ele encontraria
um jeito de usar isso ao seu favor.
— Porque o seu jeito de chamar atenção sempre foi
assim, se envolvendo com o que não deveria. — Bernard
o pressionou contra a parede do corredor mais uma vez.
Mais forte. E Basile adoraria dizer que estava surpreso
com a movimentação, mas não estava. Nem um pouco.
Pelo canto do olho, ele não soube identificar uma maldita
câmera de segurança sequer. Hotéis ricos e seu senso de
proteção do caralho. — Você deveria me agradecer por te
dar a oportunidade de fazer algo além de consertar
carros em uma oficina de lixo, ter o seu próprio
apartamento. Vinte e dois anos e nunca tinha feito nada
que prestasse com a sua vida até agora.
Baz encarou a parede, esperando que o homem o
soltasse. Bernard esperou por uma resposta, por menor
que fosse, antes de finalmente libertar o braço do filho
do aperto.
— Chegue mais cedo amanhã, eu quero que você
analise os gráficos dos treinos pra mim — ele finalizou
antes de entrar no último quarto do corredor.
Então, o silêncio. Ou, pelo menos, era o que Basile
acreditava ter vindo depois. Podia ouvir claramente o
som da própria respiração, antes contida. O pulso
vibrando por todo o seu corpo.
A dor no peito que se tornou mais intensa quando
conseguiu trancar a porta do próprio quarto. O vermelho
junto do escuro nunca foi a sua combinação favorita.
Mas, bem, essa era a vida ao lado de Bernard
Beauchene. Com sorte, só precisaria aguentar mais
alguns meses.
Meses.
O rapaz encarou o número de Dom na tela do celular.
Se ligasse, ele provavelmente não atenderia. O que Dom
ainda iria querer com ele? Porra nenhuma. Não deveria
nem pensar em ligar, muito menos em uma situação
como a que estava.
Chamar Alexandre era uma opção tão ridícula
quanto. Alexandre, o piloto que muito provavelmente não
o via como mais que alguém que poderia passar o tempo
quando não estivesse com sua equipe ou sua família.
Uma distração.
Não que Baz o julgasse por isso – bem, seria
hipócrita.
Mas Alexandre tinha o mundo inteiro. Basile não
tinha ninguém. Mais uma vez.
VINTE E UM
Quando Alexandre saiu do banheiro, Baz já estava lá.
Quando mandou uma mensagem avisando que ele teria
um passe livre para o seu quarto se quisesse aparecer
por lá naquela noite, não achava que ele apareceria tão
rápido.
— Foi uma perda de tempo se vestir, espero que
você saiba disso. — Basile umedeceu os lábios, dando de
ombros um momento depois. — Ou não, eu gosto quando
você tira a roupa pra mim.
— Boa noite — riu, usando a toalha para terminar de
secar o cabelo. — Você veio em menos de quinze
minutos. Sentiu saudades?
— Você pode sonhar com isso, mas eu só estava
desocupado e entediado. — Baz o analisou por um
instante, sentando-se no canto da cama e gesticulando
para que o piloto se aproximasse.
Alex o fez, embora realmente não planejasse fazer
nada tão cedo.
Não ainda.
Basile o deixou se livrar da camisa que havia
acabado de vestir antes de se inclinar para deslizar os
lábios pelo seu abdômen, os olhos ainda presos aos seus.
A resposta de Alex à provocação saiu como uma
respiração densa, os dedos presos aos fios bagunçados
de Baz enquanto o rapaz o provocava com a boca, uma
mão o tocando sobre o tecido grosso da calça que usava
para dormir.
— Se você não tivesse se vestido, seria mais fácil —
o francês ironizou, antes de deslizar a língua pouco
acima do cós da calça.
— Não que você não possa se livrar disso sem muito
trabalho.
— Você sabe que eu gosto de aproveitar o meu
tempo. — Merda, Alex sabia. E gostava disso nele,
também.
Mas não o suficiente para esperar tanto. Não dessa
vez, em específico.
Alex passou os braços ao redor do pescoço de Baz ao
sentar-se no seu colo, beijando o canto da sua boca.
— E se eu quiser fazer no meu tempo? — sussurrou,
a respiração falhando no instante em que as mãos de
Basile tocaram a sua cintura. O pressionando contra a
própria ereção.
Basile se inclinou para alcançar os fios loiros da sua
nuca, puxando-os para que pudesse arranhar os dentes
pelo seu pescoço.
— Vá em frente, mon chéri. Você está no comando
hoje.
Alexandre não sabia como o toque de alguém
poderia ser tão fisicamente superficial e, ao mesmo
tempo, lhe causar tanto. Baz gostava de vê-lo reagir a
inúmeras sensações antes de aproveitar ele mesmo.
Baz tornou a segurar a ponta do seu queixo com os
dedos, fechando os olhos antes de tocar seu lábio inferior
com a boca.
— O que você quer que eu faça?
O brasileiro tinha a leve impressão de que aquilo não
era lá algo que Basile costumava fazer – ceder ao seu
gosto pelo controle, deixar que alguém ditasse os
próximos passos. E Alex gostou da sensação de fazer
parte dessa exceção mais do que imaginou que gostaria.
Ele se inclinou para colar os lábios nos do francês.
Poderia pensar em inúmeras coisas que poderia pedir
para que ele fizesse – sinceramente, estava ansioso para
tentar todas elas dali para frente. Mas uma em específico
permaneceu na sua mente.
— Você já se masturbou pensando em mim?
Baz o fitou. Considerando a expressão no seu rosto –
e surpreendentemente Alexandre já sabia identificar
algumas – ele estava se decidindo entre contar a verdade
ou não. Isso era resposta o suficiente, mas Alex ainda
queria ouvi-lo falar em voz alta.
— Não se sinta tão especial — ele disse, empinando
suavemente o queixo enquanto descia os olhos pelo seu
pescoço e peito. — Por quê?
— Eu quero ver.
Alexandre não costumava ter problemas em existir
perto de pessoas bonitas. Estava acostumado, até.
Mas ele ainda sentia que estava perto de derreter
toda vez que Basile sorria. Não qualquer sorriso, mas os
sorrisos direcionados especialmente para ele.
Talvez fosse a forma como o Beauchene o olhava –
enquanto o fodia ou enquanto conversavam, até mesmo
quando cruzava o olhar com ele após uma corrida.
Independentemente do momento, os sorrisos de canto,
desavergonhados e cheios de pensamentos, que Basile
lhe direcionava eram uma das poucas coisas capazes de
tirar completamente a sua concentração a qualquer
momento.
Como o sorriso que ele abriu naquele instante,
também.
— Você gosta disso?
— Nunca tentei. Só me parece... interessante.
— Me ver batendo uma pra você parece
interessante? Boa escolha de palavras.
— Aja como se eu não estivesse aqui.
— Sim, porque é muito fácil ignorar a sua presença.
— Não precisamos fazer nada que você não queira —
assegurou, embora soubesse que Baz daria pra trás se
não se sentisse confortável imediatamente. Ele estava
longe de ser alguém que não deixava suas vontades
explícitas.
Ele balançou suavemente a cabeça, se inclinando
para beijá-lo mais uma vez. Não da forma suave como
Alexandre havia feito minutos atrás.
Baz livrou-se da camiseta com a estampa de alguma
banda que Alex não conhecia entre o beijo, usando uma
mão livre para deslizar os dedos pelo pescoço do piloto.
— Tu étais complètement fait pour moi.
Alexandre não fazia a menor ideia do que aquilo
deveria significar – mas estava acostumado a escutar
Baz soltar, acidentalmente ou não, palavras e frases em
francês, então provavelmente queria dizer que estava
indo bem.
O piloto soltou um suspiro quase insatisfeito quando
ele interrompeu o beijo.
— Não vou conseguir fazer nada se você continuar
no meu colo, mon chéri.
Baz manteve uma mão firme na sua cintura
enquanto se afastava com cuidado. Já havia percebido
que ele tinha algo com aquela parte do seu corpo em
especial, e era quase engraçado como Baz sempre
parecia encontrar um modo de tocar a região pelo maior
tempo possível.
Alexandre se acomodou em um canto da cama,
acompanhando o francês com o olhar enquanto ele
parecia tranquilo em tirar o vape do bolso da calça e
tragar uma vez antesde se livrar de vez da peça de
roupa. Ele parecia estar indo muito bem na parte de
fingir que Alexandre não estava ali, porque mal olhou na
direção do piloto enquanto isso.
— Ansioso? — ele perguntou, mas o tom de ironia e
provocação era tão óbvio que Alex se limitou a revirar os
olhos e ignorar.
— Você é um exibido, deve estar ansioso pra me
fazer ficar te olhando.
— Não vou negar, também acho a ideia interessante.
— Alexandre estava prestes a comentar o quão
engraçado era estarem batendo um papo tão
casualmente enquanto Baz estava prestes a bater uma,
mas fechou a boca no instante em que ele se livrou da
cueca e estendeu a mão na frente do seu rosto. — Cuspa.
Adoraria dizer que Baz pediu, mas ele ordenou.
Alexandre manteve o olhar preso aos olhos esverdeados
do francês ao fazê-lo, e precisou conter a si mesmo para
não voltar atrás e pedir que pulassem logo para a parte
em que Baz o fodia naquela cama.
Baz inclinou suavemente a cabeça para trás com os
olhos fechados ao tocar a ereção que seria impossível de
ignorar se Alexandre não estivesse tão interessado no
rosto dele e em toda a parte superior do seu corpo.
Basile não era uma das pessoas de corpo mais definido
que conhecia – sabia diferenciar um corpo de academia e
um definido pelo trabalho braçal do dia a dia como o de
Baz –, mas as tatuagens faziam bem o trabalho de
chamar a atenção para ele.
Basile tocou a si mesmo devagar, mas firme.
Provavelmente era como fazia quando estava sozinho,
porque não se importou em deslizar os dedos por todos
os pontos que Alexandre sabia que ele mais gostava de
ser tocado. Ele mordeu o lábio inferior com um sorriso,
provavelmente porque a expressão no rosto do brasileiro
em observar aquilo estava mais afetada que o esperado.
Alexandre pensou em livrar-se das poucas peças de
roupa que tinha no corpo para fazer o mesmo, mas
parecia impossível pensar em desviar o olhar do cara à
sua frente. E maldito o momento em que pediu para que
aquele homem se masturbasse para ele, porque sua
vontade era gravar para que pudesse assistir novamente
depois.
Não são os fios de cabelo que caem pelo rosto de
Baz, ou os músculos de seus braços e pernas que se
retraem e se evidenciam a cada novo toque que ele dá a
si mesmo, e surpreendentemente muito menos o pau
dele – que é muito bonito mesmo assim, inclusive.
É o rosto de Basile. A forma como ele fecha os olhos
ao tocar seus pontos favoritos, ou a mordida no lábio
inferior para abafar os gemidos que ele deixa escapar.
Entre uma pausa de tempo e outra, Baz ainda umedece
os lábios com a ponta da língua, e Alexandre precisa
conter a si mesmo também para não se aproximar e
reivindicar aquela boca.
Bem, foda-se. Alexandre se aproximou devagar,
chamando a atenção do francês pouco antes de beijá-lo.
Baz não pareceu achar ruim, porque o ajudou
prontamente a ficar nu e desceu a mão para tocá-lo,
tendo a audácia de sorrir ao arrancar tão rapidamente
um ruído satisfeito da sua garganta.
— Acho que olhar não é meu lance — murmurou,
deslizando os braços ao redor do pescoço do francês.
— Que pena, eu até que estava me divertindo. — Baz
alcançou a camisinha que havia deixado sobre a cômoda
do quarto. Alexandre se inclinou suavemente para beijar
a curva do pescoço dele, não contendo um sorriso ao
ouvir um suspiro silencioso de Basile. O Baz que não
tinha o costume de ser vocal, mas que soltou um gemido
baixo quando raspou a ponta dos dedos pelos seus
mamilos e mordiscou sua orelha.
Uma vez na cama com Baz nunca era como a
anterior. Talvez porque estivessem se conhecendo cada
vez mais, talvez porque ambos gostassem de
experimentar diferentes sensações um com o outro. Não
importava.
Naquela noite, Baz não parecia provocativo como
sempre. Ele não usou vários minutos para levá-lo até a
boca e carregá-lo até a borda como o de costume. Ao
invés disso, Basile o fodeu duro e lento, entre beijos
desajeitados e molhados, mãos curiosas e que pareciam
decididas a levá-lo do céu até o inferno em questão de
segundos.
Em especial, quando uma dessas mãos envolvia o
seu pescoço. O aperto firme que o fazia revirar os olhos e
potencializava qualquer outra sensação que viesse a
seguir. Alexandre não considerava que pudesse gostar
tanto disso até Baz, mas tinha a impressão que ele
mesmo colocaria a mão tatuada do francês ali caso não
acontecesse.
— Eu quero que você goze depois de mim — Baz
disse, o sotaque francês tão evidente como nunca. Alex
se sentiu um tanto dividido entre reclamar sobre Basile
ter parado de movimentar o quadril ou sobre a ordem
que ele havia acabado de soltar.
Não achava que poderia se conter por mais tempo,
sinceramente. E Baz sabia que seria difícil, porque não
fez questão de esconder o sorriso quando se inclinou
para beijar quase carinhosamente demais o seu lábio
inferior.
— Por quê?
— Não me olhe assim, mon chéri. — Baz se mexeu
minimamente ao beijar um ponto atrás da sua orelha, e
Alexandre mordeu o lábio para conter um ruído. — Você
parece excepcionalmente bonito essa noite, eu quero ver
isso um pouco mais.
O brasileiro fechou os olhos, respirando
profundamente ao sentir as mãos firmes de Baz
percorrendo pela sua cintura, ameaçando tocá-lo onde
ele havia ignorado durante todo aquele tempo.
— Acha que consegue fazer isso por mim, Alex? —
ele perguntou. Não como se estivesse pedindo para
segurar seu orgasmo quando isso parecia impossível,
principalmente quando suas mãos percorriam de forma
cruel sua virilha, mas como se estivesse perguntando se
poderia alcançar algo da prateleira mais alta. Quando
Alexandre não o respondeu, Baz pressionou suavemente
o seu pescoço. — Olhe para mim, mon chéri.
Ele o fez, e se arrependeu no mesmo instante. Basile
também parecia excepcionalmente bonito coberto pela
fina camada de suor, alguns fios negros de cabelo
grudados em seu rosto, as tatuagens das quais jamais se
cansaria de olhar.
— Como você quer que eu te faça gozar? — Baz
passou superficialmente o polegar pelos seus lábios em
uma carícia suave. — Eu posso te chupar ou usar meus
dedos, sei que você não precisa que eu te toque ali pra
chegar lá.
— Fofo da sua parte lembrar como eu costumo gozar.
Também sabe quando é o meu aniversário? — murmurou,
só porque estava impaciente o suficiente para isso.
— Você faz aniversário no Ano-Novo. Deveria ter
perguntado algo que eu não encontraria no Google. —
Baz sorriu, provavelmente porque não conseguiu
disfarçar bem sua expressão surpresa ao ver que seu
ficante casual e completamente proibido sabia sobre a
data do seu nascimento. Era algo básico, de fato, mas
não esperava que ele soubesse. E descobrir isso quando
ele estava o fodendo era, provavelmente, a parte mais
estranha de toda a situação. — Minha boca, então? Tudo
bem.
Quando Basile tornou a movimentar o quadril tão
intensamente quanto antes e Alexandre se viu a um
segundo de alcançar o orgasmo que não estava
autorizado a liberar, ele fechou os olhos.
Alexandre foi o primeiro a se pôr de pé, apenas para
ligar novamente o aquecedor do quarto que havia sido
desligado na hora anterior e procurar por um cigarro.
— Eu vou passar a noite aqui — Baz declarou, não
deixando muito espaço para que Alex protestasse contra
isso. Não que fosse. Basile sabia das recomendações de
segurança.
Sair o mais cedo possível. Não ser visto. Não chamar
atenção.
Se isso fosse devidamente seguido, não precisaria se
preocupar com o resto. Aquele era o tipo de
responsabilidade que nenhum deles ignoraria.
— Você sabe onde ficam as roupas que eu uso pra
dormir — assentiu, recostado na saída do quarto para a
varanda, sabendo que o francês seria o primeiro a
levantar para usar o chuveiro. Como sempre.
Baz separou uma roupa mais quente para si mesmo
antes de se aproximar de onde o piloto se encontrava.
Sem dizer nada, ele pegou o cigarro que estava entre os
seus lábios para tragá-lo demoradamente, soltando a
fumaça pelo nariz antes de se inclinar para capturar asua boca em um beijo.
Baz gostava de beijar depois de gozar, e Alex já
havia notado isso. Não apenas beijar, como se tornava
mais físico, como se quisesse prolongar a sensação de
torpor que acompanhava o toque após o orgasmo.
Quando ele se afastou, Alexandre ergueu uma
sobrancelha.
Havia uma marca arroxeada no seu braço, que se
tornou visível quando estendeu o cigarro na sua direção.
A marca clara de dedos, como se uma mão tivesse o
pressionado com muito mais força que o necessário para
segurar alguém.
Sabia que não tinha feito aquilo. E se não fosse pelo
final de semana movimentado que estavam tendo de
ambas as equipes, até pensaria que Basile podia ter
conseguido aquilo ficando com outra pessoa. Não seria
um problema, não havia qualquer combinado de
exclusividade ou algo assim entre eles.
Mas não era o caso.
— O que aconteceu com o seu braço? — perguntou,
quando o francês já estava a caminho do banheiro. Baz
pareceu ficar confuso por um segundo antes de seguir o
seu olhar e encarar a região.
— Briguei com o Bernard.
Cacete. Sendo sincero, Alexandre não sabia que tipo
de resposta esperava. Mas aquela possibilidade parecia
simplesmente ridícula, porque… porque nunca
considerou que a relação entre Basile e o pai fosse
realmente ruim a esse ponto. A ponto de machucar
fisicamente.
Mas Baz o respondeu como se não fosse grande
coisa, como se fosse parte de uma rotina à qual já
deveria estar acostumado. Que Bernard era um merda,
isso sabia desde sempre.
Aquilo ia além.
— Ou ele brigou comigo, veja da forma como quiser
— Baz continuou, naturalmente. — Não é como se eu
revidasse.
— Baz, que porra?! — exclamou, soando mais
exasperado do que pretendia. O piloto foi até ele,
deixando o cigarro de lado para analisar melhor a marca.
Não era chamativa, mas estava ali. Não era qualquer tipo
de pressão que deixava aquele tipo de rastro. — Por quê?
— Porque ele é assim, Alexandre. Deve ter percebido
que eu ando saindo durante as viagens e enfiou na
cabeça dele que eu tô fodendo com alguém. O que eu
estou, mas ele acha que é alguém da Ritz. — Basile
puxou o braço de volta, estalando a língua. — Ele nem
imagina que pode ser você, relaxa.
Aquela possibilidade nem havia passado pela cabeça
de Alexandre. Estava milhões de vezes mais preocupado
com Baz, e parecia idiota como o francês não notava
isso.
— Ele já fez isso outras vezes?
— Só quando eu era pirralho e ainda tinha que morar
com ele. Mas ninguém muda mesmo.
Alexandre continuou o encarando conforme Baz
continuava seu trajeto até o banheiro do quarto.
Era, no mínimo, revoltante. Por que Basile ainda
estava agindo como se não fosse nada demais?
Era por isso que ele queria passar a noite ali?
Alex entrou no banheiro, observando-o em silêncio.
— Pare de agir como se eu fosse quebrar, Alexandre.
— Baz revirou os olhos, entrando debaixo da água
quente. Quando Alex se aproximou mais, ele abriu um
espaço para que ele se molhasse também. — Ele não faz
isso o tempo inteiro, também. É um pé no meu saco, e o
principal motivo pra que eu odeie essa vaga na equipe é
ele, mas não é tão recorrente assim. Eu mantenho
distância na maior parte do tempo, assim como eu fiz a
minha vida inteira.
— Se acontecer outra vez, quero que você ligue pra
mim.
Baz o encarou, e o espaço no banheiro pareceu ficar
menor.
— Por que eu ligaria pra você?
Boa pergunta, Baz. Alex olhou para a equimose
novamente e o seu estômago se revirou um pouco.
— Porque eu não quero que você lide com isso
sozinho — disse, por fim. — Por isso, caso ele encoste em
você outra vez, eu quero que me ligue. Principalmente se
for semana de corrida e eu estiver por perto.
— E o que você vai fazer? — Baz perguntou, embora
estivesse claramente debochando com a situação. Como
se não acreditasse que faria algo. — Eu sei me defender.
— Mas não deveria pensar em precisar se defender
dele. — Alexandre se aproximou mais, praticamente o
encurralando contra a parede fria do banheiro. — Acho
que você não entendeu o quanto eu estou falando sério
sobre isso, Basile. Nem que eu tenha que arruinar de vez
a carreira e a vida desse cara, ele não vai mais encostar
um dedo em você. E nós dois sabemos que eu tenho a
capacidade de acabar com ele com uma ligação.
— Você ameaçando acabar com a carreira do meu
pai é mais excitante do que provavelmente deveria ser —
Baz murmurou, parecendo um pouco surpreso com toda
a situação. — Obrigado, eu acho.
— Ele faz isso com outras pessoas da equipe?
— Ele não seria tão idiota assim — o francês
suspirou, deslizando os dedos entre o cabelo molhado. —
Você realmente precisa dormir, mon chéri. Tem uma
corrida amanhã.
Alexandre não queria sair do assunto. Na verdade,
queria fazer algo sobre aquilo naquele mesmo instante,
mas não parecia ser o tipo de assunto que Baz ainda
queria prolongar.
Ele responderia suas perguntas, daria os detalhes
que pedisse, porque tinha se convencido de que não era
importante o suficiente ou algo do tipo, mas não
significava que ele não se importava por inteiro. Ou, pelo
menos, que ele admitisse que se importava de alguma
forma.
O resto do tempo no banheiro foi passado em
silêncio. Baz se deitou primeiro, enquanto Alex respondia
rapidamente as mensagens que tinha ignorado pelas
últimas horas.
E mandar outra para Nicole.
Alex: o que você sabe sobre bernard beauchene?
Alex: boa noite, te amo muitoconter um sorriso que insistia em querer aparecer em
seus lábios.
VINTE E DOIS
Alex descobriu que o final de semana de Silverstone
seria também o aniversário de Baz apenas no dia em
questão.
No caminho para a área de sua equipe, um grupo de
funcionários recebeu o filho de Beauchene com uma
pequena comemoração. Alex ainda precisou de alguns
segundos observando a expressão surpresa e um pouco
aborrecida do francês até perceber que cantavam os
parabéns.
Merda. Não fazia a menor ideia de que era o
aniversário dele. Não tinha comprado nada. Não tinha
dito nada.
O piloto bufou, pegando o celular do bolso.
Alex: por que não me disse que é seu aniversário?
Obviamente, Basile não respondeu na hora.
Quando ele respondeu, tempo depois o suficiente
para que Alexandre participasse de uma entrevista,
tivesse uma reunião com Ivan e Bruno e vestisse o
uniforme.
Baz: porque não é importante
Alex: ?
Alex: vai se foder
Baz: meu bem, não me importo com o meu
aniversário
Alex: eu me importo
Por um momento, os três pontinhos que indicavam
que Basile estaria digitando algo apareceram e sumiram
algumas vezes.
Tempo demais para uma resposta tão curta.
Baz: aceito um jantar legal no seu quarto depois que
você ganhar a corrida
Alex pensou em uma resposta, mas não teve a
chance de digitá-la.
— Alex, vamos — Ivan disse, batendo suavemente na
sua porta antes de seguir pelo corredor.
Ele o fez, mas parou no meio do caminho ao ver
Marissa fazendo algo no seu celular. Como estava
sempre fazendo, cuidando de suas redes sociais.
— Marissa, preciso de um favor — soltou,
aproximando-se dela. — Rápido.
A mulher arregalou os olhos, olhando ao redor.
— Eu fiz alguma coisa errada?
— O quê?! Não, pelo amor de Deus — bufou,
balançando a cabeça. — Você pode sair durante a corrida
e comprar algumas coisas pra mim?
— Acho que posso…
— Certo. Eu tenho que ir, então vou falar com
alguém pra te passar a lista e a senha do meu cartão. —
O piloto deu um beijo estalado no rosto da mulher antes
de se afastar. — Dou todas as entrevistas que você
quiser depois. Te amo!
Marissa continuou o encarando como se estivesse
falando com outra pessoa conforme se afastava.
Bom, talvez estivesse. Mas Alex não poderia dizer
que não gostava da sensação.
Alexandre não tinha como deixar o quarto do hotel
mais arrumado. Da comida até os docinhos e a cama,
tudo estava em sua mais perfeita ordem.
Não era uma festa de aniversário perfeita, mas era
um pouco disso. O básico. Se Baz estaria mesmo longe
de casa na noite do seu aniversário, queria fazer o
mínimo para que, pelo menos, fosse uma noite legal.
Mesmo que o dia não parecesse estar ao seu favor.
De uma quinta colocação na corrida até o tipo de ligação
que acabava com o seu humor.
Mas, bem. Nada que não pudesse ignorar enquanto
Basile estivesse ali.
Alex se deixou relaxar ao ouvir as batidas na porta.
— Aberta — disse, observando o francês entrar no
quarto. Baz olhou ao redor como se estivesse com medo
de uma bomba de confetes explodir na sua cara antes de
realmente entrar.
Alex não tinha exagerado. Não tanto assim.
— Eu ainda estou profundamente magoado que você
não me disse que era o seu aniversário. Não por falta de
oportunidade.
— Eu diria que foi por falta de oportunidade, sim.
Minha boca estava um pouco ocupada ontem, antes dos
treinos. — Basile soltou uma risada leve quando o piloto
revirou os olhos, colocando as mãos nos bolsos da calça
escura ao se aproximar da mesinha ao lado da cama. Ele
apontou para a comida. — É pra mim?
— Não é como se o hotel desse algum tipo de buffet
de aniversário, mas sim. — Alex se aproximou, beijando
superficialmente a boca do moreno. — Feliz aniversário.
Se eu soubesse antes, teria planejado algo melhor.
— Cala a boca — ele murmurou, se inclinando para
alcançar um brigadeiro. — Só isso já é melhor que o meu
dia inteiro, pode acreditar. Valeu. Isso é aquele docinho
que todo mundo gosta no Brasil, né?
Baz ainda parecia um pouco desajeitado, talvez até
deslocado. Alex não tinha parado para pensar o que o
aniversário dele podia significar – não é todo mundo que
diz que não se importa com a data do próprio nascimento
–, mas ainda queria fazer algo minimamente legal.
Imaginou que fosse ser bom.
Mas, considerando o sorriso contido no rosto do
francês, como se fosse uma criança ganhando o presente
que havia pedido para a família durante o ano inteiro,
Basile pareceu realmente gostar do pouco que estava ali.
— E nem acabou, você me subestima demais.
Baz ergueu uma sobrancelha, parando antes de
colocar já o terceiro doce na boca.
— Como assim, não acabou?
Alex puxou uma caixa do closet, estendendo na
direção do francês.
— Eu deveria me preocupar com o que você
conseguiu comprar? Porque mal faz uma hora que você
saiu do autódromo.
— Bom, não fui eu. Não pessoalmente. Eu escolhi,
mas…
— Você mandou alguém comprar por você — Baz
concluiu. — É claro.
— Eu não teria tempo! E a intenção segue a mesma
— se defendeu, esticando mais a caixa na sua direção. —
Pega logo. Você vai gostar.
Baz o encarou por mais alguns segundos antes de
pegar o embrulho, sentando-se no canto da cama.
Ele ergueu uma sobrancelha ao ver o que era.
— Você comprou um perfume caro pra mim?
— Não o mesmo que eu uso, seria um pouco
estranho. Mas ainda é Chanel. — Alex tornou a se inclinar
na sua direção, inspirando suavemente o seu pescoço. —
E combina mais com você. Ácido.
— O que isso deveria significar?
— Interprete como quiser — sussurrou, tirando a
caixa do colo de Baz ao raspar os dentes pela curva do
seu pescoço. Basile soltou um ruído baixo, puxando-o
para mais perto. — Ouvi dizer que a sua equipe fez uma
festa pra você.
— Ninguém me beijou lá, então acho que você ainda
sai ganhando. — Baz usou uma mão para deslizar os
dedos entre o seu cabelo, a outra puxando a regata
branca para cima. Um incentivo para que o piloto a
tirasse logo. — Obrigado pelo perfume, mon chéri.
Basile poderia jurar que aquele era o melhor
aniversário que tinha em anos. Não apenas porque havia
um piloto realmente empenhado em fazê-lo soltar todos
os sons e palavrões que nunca achou que soltaria na
cama com alguém, sentir todo o misto de sensações
sufocantemente boas que nunca tinha sentido antes. Mas
porque parecia ser o seu dia de verdade. Um dia com
alguma importância não apenas para si mesmo, mas
para alguém ao seu redor.
Uma pessoa, pelo menos.
O aniversariante o puxou para mais um beijo
molhado quando estavam sob o chuveiro, aproveitando
mais da sensação das mãos do piloto o dedilhando. Sem
muitas palavras.
Ou, pelo menos, até que fosse necessário.
— Você tá ocupado essa semana? — perguntou
quando Alex se afastou para lavar o cabelo. Ele estava
deixando crescer, aparentemente. Os fios loiros já não
tão curtos lhe davam um ar mais maduro, mais velho.
— Tenho um evento com Nicole amanhã, acho. Tenho
que confirmar com Marissa.
— E depois, livre?
— Sim — disse, aproximando-se outra vez. Curioso.
Interessado. Muito interessado. — Por quê?
— Você podia aproveitar e passar a semana no meu
apartamento — Baz respondeu, casualmente. Alex levou
alguns segundos para se dar conta de que a próxima
corrida já seria na França, e Basile morava na França. —
Vai ser a minha vez de ser guia turístico.
Alexandre piscou, pensando por um momento no que
aquele convite significaria. Uma semana longe de suas
responsabilidades, porque o trabalho não o alcançava
quando estava com Baz. Uma semana não se limitando
ao cardápio, segurança e horários de um hotel, a um
espaço menor e impessoal demais. Alexandre podia
gostar de viajar pelo mundo, mas gostava ainda mais
quando seus destinos apresentavam algum tipo de
conforto.
No fim, parecia uma procura infinita por algum lugar
que se parecesse com uma casa para ele.
— Só se você comprar comida suficiente pra manter
a minha dieta — respondeu, por fim.
— O milionário aqui é você, aposto que consegue
comprar e fazer a sua própriacomida. — Basile se
inclinou para prender o seu lábio inferior entre os dentes.
— É um sim?
Alexandre revirou os olhos, empurrando o seu ombro
para continuar o banho.
— É um sim, se minha agenda estiver realmente
livre. Mas separe o espaço na cama pra mim.
— Como se você não invadisse o meu espaço o
tempo inteiro quando estamos dormindo — Basile
rebateu, enquanto puxava a toalha para sair do chuveiro.
— Nós não dormimos juntos muitas vezes.
— Mas em todas, eu saí do quarto depois de meia
hora tentando tirar os seus noventa quilos de cima de
mim.
— Oitenta e sete — Alex corrigiu, como se fosse uma
informação realmente relevante.
— Que seja.
— Se você me acordasse antes de ir embora sem
dizer nada, não seria tão trabalhoso. — Alex desceu o
olhar pelo corpo ainda úmido do francês. Havia uma
tatuagem de uma carta de baralho no seu antebraço
esquerdo que poderia jurar que era recente. Já havia
percorrido aquelas tatuagens o suficiente para saber
bem disso.
— Não gosto de despedidas.
Alexandre estalou suavemente a língua, vestindo a
calça que havia separado para dormir. Depois de secar o
cabelo rapidamente, ele tornou a pairar ao redor de
Basile.
— Qual é o melhor jeito de saber o quanto alguém
quer me ver novamente? — ele perguntou, embora não
parecesse procurar uma resposta de verdade. — Eu amo
despedidas.
VINTE E TRÊS (flashback)
Alexandre soltou um palavrão baixo quando Nicole
apareceu na porta do quarto que dividia com outros
garotos.
— Diga que eu não vou — resmungou, bagunçando o
penteado ridículo que outra pessoa tinha feito no seu
cabelo, arrumando os fios castanhos para trás. Alex
sentia falta do loiro dourado que havia ido embora
naturalmente com o passar dos anos. — Pela milésima
vez. Já que ninguém nessa merda me escuta.
— Alex, eles parecem ser pessoas incríveis. — Nicole
parou ao lado da sua cama, exibindo aquele sorriso largo
que ela carregava de um lado pro outro. — Não é fácil
encontrar casais que procuram adotar alguém com a sua
idade, você sabe disso. Por que não dar uma chance?
— Se eles querem alguém com a minha idade, tem
algo por trás disso. Sempre tem. — Alexandre chutou os
tênis surrados para longe, livrando-se também da
camiseta de colarinho branco que haviam lhe dado.
— Você não precisa se preocupar com isso. Se eles
não tiverem boas intenções, nós vamos descobrir.
— Você é engraçada — o garoto riu, seco. — Adotaria
alguém de dezesseis anos?
— Eu não tenho nada contra a ideia — ela disse,
suavemente. — E você completa dezesseis em dois
meses.
— Besteira. Ninguém liga pra nós depois que
passamos dos cinco anos. Dos seis, no máximo. Eu já
cheguei nesse buraco fora do prazo de validade. — Alex
estreitou os olhos na direção de um garoto que parecia
interessado demais em ouvir a conversa, até que ele
desviou o olhar. Depois de vestir uma de suas próprias
camisetas, aproximou-se mais de onde Nicole estava,
parando de frente para ela. Eram praticamente da
mesma altura, Alex sendo um ou dois centímetros mais
alto. — Mostre a minha ficha para eles. Aposto que vão
mudar de ideia em dois segundos.
Nicole piscou, confusa. O sorriso havia desaparecido
do seu rosto.
— Você nunca olhou a minha ficha, não é? —
perguntou, balançando a cabeça. Quando Nicole negou,
Alex soltou um suspiro. Que previsível. — Não que eu
esperasse que sim. Não é algo que ficam exibindo por aí.
A ficha pra pais em potencial é outra.
— Não mostram a sua ficha completa?
— Por que mostrariam? A maioria aqui teria ainda
menos chances de encontrarem uma família, como todos
fingem procurar pra nós, se fizessem isso. — Alex
apontou para um dos garotos do quarto, que assistia à
televisão distraidamente. — Na ficha falsa, ninguém diz
que aquele cara já tentou fugir umas cinco vezes. E
provavelmente vai tentar mais. Na ficha falsa, ninguém
diz que eu me envolvo em brigas com aquele babaca do
quarto cinco toda semana ou sobre a “tendência
violenta” que eu sei que os funcionários daqui sussurram
sobre mim. Não, Nicole. Isso afastaria todos os futuros
pais que procuram pela criança perfeita. Mudam até as
nossas notas de provas, se for necessário.
— Eu não sabia…
— Eu não esperava que soubesse — interrompeu. —
Agora, se você me permitir, preciso roubar o controle da
televisão daquele cara pra assistir à classificatória da
corrida de domingo. Diga para os pais em potencial que
eu vomitei meu almoço ou algo assim e mostre à Lara,
aquela garota bonitinha de sete anos do quarto rosa.
Aposto que vão querer até comprar a menina. Ninguém
pensa em nós, mas quem fala com ela sempre fica meio
obcecado. Não julgo, ela é um amor.
— Comprar?
Alexandre soltou uma risada pelo nariz conforme se
afastava da mulher. Não estava nem um pouco surpreso
que ela não soubesse – não imaginasse ou não
acreditasse, que seja – sobre as pessoas que pagavam à
diretora daquele lugar pra conseguir adiantar todo o
processo. Não sabia como ela ainda estava ali.
Alexandre sempre via Nicole por lá. Mesmo sendo
recente entre os funcionários voluntários, a mulher já
tinha conquistado boa parte das crianças, e até mesmo
alguns dos mais velhos.
Inesperado. Isso só fazia com que quisesse mais e
mais distância da mulher.
Ele tinha uma rotina dentro daquele lugar, algo que
havia montado com o passar de sua vida.
Domingos de corrida eram um ponto em especial
dessa rotina. Não importava o horário, a televisão era
sua. Nem que precisasse brigar com alguém pelo
controle. Para a sua sorte, sua obsessão pelo
automobilismo não era algo apenas dele, e outras
pessoas também pareciam se interessar.
— Meu marido trabalha com ele — Nicole disse,
sentando-se ao seu lado enquanto uma entrevista com
Ivan Nikolaev passava na tela pequena da sala.
Ele a fitou, erguendo uma sobrancelha.
— Duvido.
Nicole sorriu. Não de forma irônica ou debochada. Ela
tirou o celular do bolso, dando alguns toques antes de
estender o aparelho na sua direção.
Era uma foto onde ela aparecia ao lado de um
homem que Alexandre não conhecia e o piloto da
temporada, Ivan Nikolaev. O russo não parecia o sério de
sempre, mas exibia um sorriso, como se a companhia de
Nicole e o homem o deixasse puramente feliz. Ivan
abraçava os ombros da mulher com carinho. Muito
carinho.
— É seu marido?
— Sim. Ângelo é fisioterapeuta de Ivan.
— E por que você trabalha aqui? — Por que você está
perdendo tempo aqui? Seria a pergunta mais próxima do
que Alex queria dizer.
— Porque eu gosto, Alex — ela explicou, como se não
fosse grande coisa. Deveria ser? Alexandre não
conseguia visualizar alguém realmente gostando daquele
lugar. Outros voluntários pareciam até tentar fingir que
sim, mas nunca conseguiam. — Você gosta de corridas?
Alex ergueu uma sobrancelha na direção de Nicole,
porque não esperava que ela continuasse puxando
assunto.
Ninguém puxava assunto com ele.
— Gosto.
Nicole não o respondeu, porque a transmissão da
corrida parecia mais importante naquele momento. Mas
havia um sorriso no rosto da mulher, como se ela
estivesse feliz com o andamento da conversa.
Ou, talvez, como se estivesse feliz em conseguir
conversar com Alexandre. Não era como se suas
interações anteriores tivessem sido muito boas.
— Você vai ler a minha ficha? — perguntou, em
algum momento durante a corrida.
— Não me importo com isso, não é da minha conta.
Alexandre não sabia ao certo o que pensar sobre
aquilo. Nicole poderia mentir, dizer que não se importava
e apenas fingir que não tinha lido nada.
Só não parecia do feitio dela. Era ridículo que se
sentisse tão seguro sobre isso, considerando que não a
conhecia de verdade. Mas sabia que Nicole não mentiria
caso lesse sobre o seu histórico.
O garoto se deixou relaxar no sofá, voltando a
atenção para a corrida que assistia ao lado de Nicole
Duarte.
VINTE E QUATRO (flashback)
Nicole não levava jeito apenas com crianças e
adolescentes. Ela levava jeito com qualquer pessoa.
Mas, sim. Principalmente os mais novos.
Desdesua adoção, quando pessoas começaram a se
interessar pelo novo integrante da família de Ângelo e
Nicole, ela deixou claro que jamais seria uma obrigação
que ele a acompanhasse em eventos e qualquer ocasião
onde não se sentisse confortável. Não importaria o que
perguntassem ou o que dissessem, ele não precisaria
estar onde não quisesse.
Alexandre já havia levado tudo aquilo em conta
quando concordou com o processo de adoção. Ele sabia
que fazer parte de uma família – qualquer uma, até
mesmo as que não tinham certa atenção da mídia como
aquela – cobraria algumas obrigações, mesmo que Nicole
insistisse que não. Era o mínimo diante de tudo que ela
havia feito por ele, certo?
Certo. Alex estava certo que sim.
Seu primeiro jantar em um evento beneficente foi
assustador, para não dizer aterrorizante. Tanto Nicole
quanto Ângelo deram o seu melhor para que a sua
presença não se tornasse alvo da atenção dos
convidados, mas era inevitável. Alexandre perdeu a
conta de quantas pessoas se apresentaram para ele,
beijaram o seu rosto, elogiaram do seus cabelos aos pés.
Que menino lindo você arranjou, Nicole. Já pensou em
procurar uma agência para ele? Eu conheço um fotógrafo
que tiraria fotos incríveis dele, assim vocês poderiam…
Ele não pertencia àquele mundo. Pensar que todos
seriam pelo menos um pouco como Nicole, até mesmo
como Ângelo, havia sido estupidez. Alex queria vomitar.
Felizmente, em um sentido figurado. Seu estômago
ainda estava vazio demais e seu apetite foi embora antes
mesmo que o jantar fosse servido.
Nicole o encontrou um pouco mais tarde, no corredor
das escadas de emergência do lugar, um cigarro entre os
lábios enquanto jogava um jogo qualquer que havia
acabado de baixar em seu celular novo. Esperava que
conseguisse sumir por uma hora ou duas sem ser notado
antes de voltar para perto da mulher, como se nada
tivesse acontecido. Mas lá estava ela, sentando-se ao
seu lado no corredor empoeirado e sujo, não se
importando muito com o vestido que comprou apenas no
dia anterior.
— O que conversamos sobre cigarros? — ela
perguntou, calma. Alex respirou fundo, apertando o
espaço entre os olhos com a ponta dos dedos antes de
apagar o cigarro no chão. — Você ainda não tem idade
pra fumar e faz mal pra sua saúde, Xander.
— Foi mal. Roubei de um cara antes de vir pra cá —
ele disse, limpando a garganta quando percebeu o olhar
impactado de Nicole na sua direção. — Bom, não roubei
dele. Da mesa dele. Foi um furto, não um roubo. Merda.
Foi mal, Nicole. Essa gente é um saco.
— Eu disse que você poderia ficar em casa, caso não
quisesse vir.
— Eu queria vir. Não faria sentido não fazer parte da
vida de vocês também. — Não quando vocês já são uma
parte tão grande da minha. Não quando vocês mudaram
a minha. Alex não continuou em voz alta. Não por alguns
segundos, pelo menos. O garoto esmagou o cigarro com
um pouco mais de raiva que deveria sob a sola do tênis
vermelho. A única peça colorida no conjunto de camisa
social e calça preta. Também se sentia ridículo naquela
roupa. Mesmo anos depois, ternos e roupas sociais em
um geral ainda não o agradavam. Não da forma
convencional. — Só acho que eu não sirvo pra esse tipo
de coisa. Quem fica do meu lado por mais de cinco
minutos já pode perceber isso. Tipo, o que eu tô fazendo
com vocês? Essa merda toda é completamente diferente
de conversar com você quando eu ainda morava com um
bando de gente como eu.
Nicole permaneceu em silêncio, a ponta do salto alto
batendo suavemente contra o piso de concreto.
— Alex, você quer voltar?
— Não, Nicole. Porra, não. Não foi isso que eu quis
dizer, foi mal. — O garoto esfregou os olhos com os
punhos fechados, esforçando-se para respirar fundo. Que
hora de merda pra não saber escolher as palavras,
Alexandre. É bem a sua cara. Menos de um mês que
havia oficialmente se mudado para o apartamento de
Nicole e Ângelo, e já estava estragando tudo. Achava que
levaria mais tempo, pelo menos. Dois meses, talvez três.
Talvez tempo o suficiente para que completasse seus tão
esperados dezoito anos e Nicole já não tivesse desculpa
nenhuma para mantê-lo por perto. — Eu não quero
voltar. Mas se você quiser que eu volte…
— Eu também não disse isso — Nicole o interrompeu,
deslizando os dedos pelos seus pulsos com cuidado. Se
ele não quisesse ser tocado, diria. Alex sempre dizia
quando ser tocado por qualquer pessoa, até mesmo
Nicole, estava fora de questão. Alex não resistiu, então
puxou os braços dele para que pudesse olhar para o seu
rosto. — O que foi, Xander?
— Por que você me escolheu?
Cedo demais para aquela pergunta, também. Mas
não eram desconhecidos, não haviam começado a
interagir recentemente. Por mais que suas conversas
mais pessoais e íntimas de Nicole só viessem alguns
meses antes que ela mostrasse interesse na adoção, já
se conheciam há três anos.
Nicole sabia tudo sobre ele. Dizendo ou não.
— Porque eu nunca procurei por alguém que se
encaixasse em gostos ou preferências pessoais, eu não
procurava por ninguém — ela explicou, devagar. Algo
que Alex também já sabia, mas talvez precisasse escutar
mais uma vez. Mais outras vezes. Ele se deixou ser
abraçado pelo perfume doce. — Porque eu penso em
você o tempo todo, Xander. E, que eu saiba, isso significa
algo.
Alex esfregou o nariz, fungando profundamente entre
os braços de Nicole. Sabia que a vida fora do ambiente
caótico e desconfortável – apesar de ser uma zona de
conforto – no qual havia crescido seria difícil, mas achava
que seria forte o suficiente para não chorar na primeira
oportunidade. Talvez não fosse tão forte assim. Não tanto
quanto sempre se esforçou para fazer parecer.
— Também penso em você o tempo todo.
Parando para pensar, anos depois, seria muito mais
fácil para ambos dizer eu te amo. Era o que aquilo
realmente queria dizer, no fim. Mas talvez não fosse o
momento.
Definitivamente não era o momento. Nicole sabia
que Alex já estava assustado o suficiente para lidar com
uma confissão do tipo. Dizer que pensava em alguém o
tempo todo era a forma mais leve, simples e igualmente
profunda de dizer que se ama alguém. Por qual outro
motivo você pensaria em alguém o tempo todo, afinal?
— Sobre as pessoas, você não precisa se encaixar. —
Nicole deslizou os dedos delicados entre os fios loiros
bagunçados. — Faça com que gostem de você do jeito
que você é. Na verdade, sem a parte do furto, Xander.
Não vou defender isso.
Alex riu baixo sob o tom mandão de Nicole, porque
até nisso ela seguia sendo a pessoa mais doce que ele já
encontrara na vida.
— Pode deixar, sem a parte do furto.
— Agora, você me dá os cigarros.
— Eu só roubei um — mentiu.
— Alexandre Duarte — ela repreendeu, devagar.
— Gosto do seu sobrenome em mim — comentou,
inocentemente. — Diz mais uma vez?
Nicole revirou os olhos, inclinando-se para roubar o
maço de cigarros do bolso da sua calça.
Mesmo sabendo que Alexandre ainda encontraria um
jeito de conseguir mais depois.
— Vem. Não vou deixar mais ninguém encostar em
você.
Aos vinte e cinco anos, Alexandre Duarte mexeu com
o maço de cigarros guardado em seu bolso enquanto
esperava por Nicole na entrada do elevador. Quando ela
finalmente apareceu, terminando de colocar o par de
brincos dourados, ele revirou os olhos.
— Nicole, você não tinha escolhido os brincos
prateados?
— Não combinavam com meus sapatos — ela
rebateu, se aproximando para fechar os botões abertos
da sua camisa preta, destacada pelos detalhes bordados
em vermelho. Alex tornaria a desabotoar os três
primeiros depois, quando ela estivesse ocupada demais
cumprimentando suas dezenas de amigos no jantar. —
Lindo, Xander.
Alex se inclinou para beijar a testa da mãe.
Nicole era participante ativa de inúmeros eventos
beneficentes. Enquanto Ângelo preferia continuar
trabalhando na Austrália, em uma academia de pilotos,
Nicole preferia viajar pelo mundo. Conhecer e ajudar
pessoas, deixar a sua marca. Alexandre a entendia mais
do que imaginava,mesmo que em aspectos e formas
diferentes.
E Alex gostava de fazer companhia em seus vários
eventos. Gostava de ver o sorriso tomando conta do
rosto da mãe.
— Você deixou suas malas prontas? — ela perguntou,
no caminho. Alexandre aproveitou o sinal vermelho do
trânsito para olhar na direção da mulher. — Sabe que não
vai arrumar nada quando chegar. Você sempre fica
enrolando.
— Sim, senhora — ironizou. — Tudo pronto.
— Lembrou de pegar as suas camisetas lisas, e…
Alex sorriu com a preocupação, apenas assentindo
para todas as perguntas de Nicole.
Anos antes, ele jamais imagina um aspecto sequer
de sua vida atual. Jamais imaginaria ser um piloto de
Fórmula 1, ter um título e correr ao lado de pessoas a
quem admirava desde adolescente. Jamais imaginaria ter
a oportunidade de conhecer o mundo.
Mas, principalmente, jamais imaginaria que faria
parte de algo que pudesse chamar de família. Nicole o
havia proporcionado isso antes mesmo que percebesse –
afinal, o que era família para Alexandre antes de Nicole e
Ângelo? E continuava o fazendo desde então. Não
parecia ter pensado em abrir mão dele por um único
segundo. Não, Alexandre duvidava que abandoná-lo
havia sido sequer uma opção em algum momento. Não
como ele esperava que aconteceria.
Mesmo que ele não merecesse. Mesmo que não
fizesse nada à altura.
VINTE E CINCO
Alexandre não esperava ver o tempo carregado de
nuvens acinzentadas quando saiu do aeroporto. Era, no
mínimo, preocupante. Circuitos com chuva não eram lá
seus favoritos.
Se não chovesse durante o final de semana, ele
estaria feliz.
Ainda assim, o piloto ajustou os óculos escuros e o
boné – não o com a logo de sua equipe, mas um simples
e discreto – sobre a cabeça, olhando ao redor.
O Tesla inconfundível de Basile o esperava no
estacionamento do aeroporto. Alex puxou a mala um
pouco maior do que a que costumava carregar consigo,
já que o período fora de casa seria maior.
O rapaz saiu do carro assim que se aproximou, já
abrindo o porta-malas para que pudesse colocar a
bagagem ali.
— Você veio passar o mês e eu não tô sabendo? —
ele resmungou, encarando a mala prateada. — Você nem
vai precisar de tantas roupas, Alexandre.
— Por precaução — rebateu. — E eu não vou passar a
semana inteira nu na sua cama, Basile.
— Veremos. — Baz deu de ombros, despreocupado.
Alex piscou, observando-o voltar para dentro do carro.
Bom, não era como se esperasse uma festa de boas-
vindas por parte dele. Mas ainda achava um pouco
estranho – não de um modo negativo – o convite para
passar a semana no apartamento dele.
Não, não estranho. Não era a palavra certa.
Inesperado. Do pouco que sabia dos aspectos mais
pessoais de Basile, tinha conhecimento de que seu
apartamento era algo como um refúgio. Privado. É
possível descobrir muito sobre uma pessoa a partir do
lugar em que mora.
Então, bem, não era como se Alexandre se visse em
uma posição na qual Baz confiaria nele para existir nesse
espaço. Não até o convite, pelo menos.
— Tá a fim de passar no Palladium hoje? — ele
perguntou durante o caminho. — Acho que é dia de
apostas.
— Pode ser, sim. — Alex pendurou os óculos escuros
na gola da camiseta. — Você não mora mais no mesmo
lugar, né?
Basile balançou a cabeça negativamente.
— Moro mais perto do autódromo agora.
— Irônico — comentou. — Queria ficar mais perto do
trabalho?
O francês revirou os olhos, sorrindo um pouco.
— Mais perto do restaurante da minha mãe.
Dessa vez, Alex permaneceu em silêncio. Não sabia
como Basile lidava com a partida da mãe, então como
diria algo? Seria como se alguém completamente
desconhecido perguntasse sobre qualquer coisa da sua
vida antes da adoção.
Não que fosse um completo desconhecido para
Basile. Ou, pelo menos, gostava de pensar que não era.
Que seja.
— Eu não sabia que ela tinha um restaurante.
— É a referência pra quem quer comer bem perto do
autódromo. Foi assim que ela conheceu o meu pai. — Baz
soltou uma respiração pelo nariz que deveria ser uma
risada, Alex imaginava, mas não soou como uma. — Eu
passo lá de vez em quando, nada mais justo que arrumar
um lugar por perto.
— Claro — concordou, encarando as próprias mãos.
Baz entrou em um estacionamento fechado de um
prédio, deixando o carro na vaga marcada pelo nome
"DEBRUYNE".
— Não é a vaga errada?
— O quê?! — Baz encarou a parede, levando alguns
segundos para entender a confusão. — Ah, não. É meu
sobrenome. Por parte de mãe, no caso.
Basile Debruyne. Isso era uma novidade.
— Combina com você.
— Eu sei — ele sorriu, saindo do carro.
— Você prefere usar esse sobrenome?
Baz pensou por um segundo antes de dar de ombros.
— Não me importo, na verdade. Usei Debruyne pra
fechar o apartamento, porque não queria chamar
atenção de alguma forma com o nome que vem de
Bernard. E porque gostaram de mim quando eu disse
que, tecnicamente, o restaurante aqui perto é meu. Até
me deram uma cesta de doces esperando que eu, sei lá,
desse descontos em um jantar.
Alex o seguiu até o elevador, olhando ao redor.
Claramente era um prédio mais confortável e
aconchegante que a construção universitária onde ele
morava antes. Não era algo luxuoso, mas se parecia com
um lar.
Alexandre tirou os tênis antes de entrar, mas o pouco
que viu quando a porta foi aberta mostrava bem isso.
Sem muita decoração além de algumas plantas e
brinquedos para Corvette. Cores neutras. Uma bagunça
organizada.
— Oi — Baz disse, fechando a porta atrás do piloto.
— Oi — cumprimentou. — Apartamento legal. É a sua
cara.
— Valeu, eu não quis mudar muita coisa do que era
quando eu cheguei. — Baz olhou ao redor, dando de
ombros. — Espaçoso demais, eu ainda não me
acostumei.
— Você mora sozinho, é comum sentir isso.
— Deve ser — ele suspirou, afastando-se. Parecia
procurar por algo, olhando nos cantos atrás de móveis.
Não algo, Alex concluiu. Basile puxou a gata branca que
estava na extremidade entre o móvel da televisão e a
parede. — Corvette também não se acostumou.
— Ela sempre fica escondida entre os móveis?
— Só quando eu passo muito tempo fora de casa —
ele explicou, sorrindo suavemente ao olhar Corvette. —
Ela faz isso desde que nos conhecemos. E foi difícil
convencer que eu não queria machucá-la quando a tirava
de dentro do armário da cozinha.
Baz a deixou perto dos brinquedos antes de se
aproximar outra vez. Dessa vez, o francês o puxou pela
gola da camiseta larga para um beijo. Como se, só então,
estivesse o cumprimentando como Alex esperava que
fosse quando o viu no estacionamento do aeroporto.
Dessa vez, não antes de um treino ou de uma
corrida. Ainda estava processando a informação de que
teria uma semana livre perto do engenheiro antes de
precisar dividir o seu tempo entre ele e o trabalho.
Não que fosse uma divisão muito justa. Ultimamente,
sua cabeça estava muito mais presa em como
encontraria um jeito entre um sábado e um domingo
para se encontrar com Basile. Um cara com quem não
deveria trocar uma palavra sequer sem ser notado – ou
causar suspeita por parte do seu chefe ou colega de
equipe.
Alexandre pensaria mais sobre isso, se a mão de Baz
não tivesse puxado a sua atenção de volta para ele com
uma facilidade impressionante. Os dedos percorreram a
sua cintura devagar, mas firmes.
— Se você estiver cansado da viagem, pode dormir
até a hora do racha — ele disse, baixo, os lábios pairando
pelos seus.
Para falar a verdade, Alex estava cansado. Entre o
jantar beneficente ao lado de Nicole e o voo, estaria
exagerando se dissesse que dormiu por mais de trinta
minutos. Não que não estivesse acostumado a virar
noites, mas se fosse mesmo para o bar depois, precisaria
de algum descanso.
— Aceito, depois de um banho — cedeu, embora
estivesse profundamente tentado a dispensar para
continuar beijando Basile.
Teria tempo para isso depois. Tempo de sobra. Mais
uma vez, a saída da rotina de contar os minutos para o
momento em que ele deixaria o seu quarto ainda não
fora completamente processada.— Deixei uma toalha pra você no banheiro do quarto
— Baz informou, deixando um beijo sobre o seu lábio
inferior antes de se afastar. — É a segunda porta do
corredor, você pode deixar a sua mala lá.
Alex o observou ir até a cozinha e pegar o que
parecia ser um sachê com comida para gatos antes de ir
para o quarto.
Mandou uma mensagem para Nicole para dizer que
estava tudo bem, que pousou em segurança, e outra
para Jolene, para dizer que já estava com Baz. Não daria
dez minutos para que ela respondesse com algo sobre
não fazer algo que ela não faria – o que era arriscado,
porque Jolene não era lá a pessoa mais responsável do
mundo.
Apenas depois de um banho quente e de se livrar das
roupas da viagem, vestindo algo o mais confortável
possível, Alex saiu do quarto. Baz digitava algo em seu
celular enquanto deslizava os dedos da mão livre entre a
pelagem da gata, que parecia confortável em seu colo.
Ao vê-lo ali, o francês ergueu uma sobrancelha.
— Aconteceu alguma coisa?
— Bom, eu não estou acostumado a chegar na casa
de alguém pela primeira vez e me apossar da cama pra
um cochilo sozinho.
Baz sorriu, e foi o suficiente para fazer Alex revirar os
olhos, porque sabia que sairia alguma piadinha ridícula
da boca dele nos próximos segundos.
— Mon chéri, você poderia simplesmente me pedir
pra dormir com você.
— Convencido, eu só tenho o mínimo de modos.
— Me seduzindo desse jeito, como eu poderia negar?
— Baz continuou provocando, beijando suavemente a
cabeça da gata antes de tirá-la do próprio colo. Corvette
não pareceu se importar, simplesmente se
aconchegando no canto do sofá para continuar
descansando.
— Você é ridículo.
Basile tirou a camiseta que usava, jogando-a sobre a
cabeceira da cama antes de se acomodar sobre o
colchão. Ele deu alguns tapinhas ali para indicar que se
deitasse também.
— Também quer que eu conte uma história? — ele
tornou a provocar, o que lhe rendeu outra revirada de
olhos por parte do piloto.
— Quando eu sair daqui pra passar a semana sozinho
em um hotel, não reclame.
— Você nunca faria isso. — Baz deslizou os dedos
pelos fios escuros e rebeldes, inclinando-se o suficiente
para deslizar os lábios pela curva entre o seu pescoço e
seu ombro. Mesmo se tentasse, Alexandre seria incapaz
de conter o suspiro que saiu de sua boca. — Se eu te
disser pra ficar, você vai ficar.
— Você é muito confiante pro meu gosto.
— Posso citar várias situações em que você fez o que
eu mandei sem reclamar — Baz rebateu. E, merda, Alex
sabia que ele poderia mesmo. O moreno mordiscou o seu
ombro antes de se afastar, apenas o suficiente para
deitar a cabeça no travesseiro. — Durma, mon chéri.
Você não vai ter tempo pra descansar durante a noite.
Só então, talvez, Alexandre tenha realmente se dado
conta do quão cansado estava. Ele dormiu em questão
de poucos segundos, sob a sensação dos dedos de Basile
deslizando pela sua espinha, enrolando no cabelo loiro
escuro e ondulado.
Mas, quando despertou, estava sozinho. O quarto
estava mais escuro do que quando dormiu, o que
indicava que já era noite. Porra, era pra ser um cochilo.
Alex respirou profundamente por um segundo,
passando as mãos pelo rosto antes de se pôr de pé.
Podia escutar uma conversa abafada pela porta fechada
do quarto. Se não tivesse escutado Basile chamando a
outra pessoa pelo nome – Moreau –, pensaria que era
alguém que não deveria saber da sua presença ali.
A conversa cessou momentaneamente quando
apareceu na sala, atraindo o olhar tanto de Moreau
quanto de Basile. Erguendo uma sobrancelha, Moreau
disse algo na direção de Baz, que respondeu com um
sorriso torto.
— Boa noite, eu tenho a impressão de que sou o
assunto dessa conversa e gostaria de, no mínimo,
entender o que vocês estão falando — resmungou,
tentando e falhando em arrumar o cabelo.
— Ele perguntou por que tem um piloto sem camisa
no meu apartamento, porque tem inveja — Baz
respondeu, simplista. Ele parecia pronto para sair, e Alex
se sentiu subitamente mal por dormir tanto quando
tinham combinado que sairiam quando anoitecesse.
— E ele respondeu que é porque queria testar sua
resistência de campeão mundial — Moreau concluiu, o
inglês dele muito mais carregado pelo sotaque francês
do que o do amigo.
— Suas fantasias sexuais sobre mim são tão públicas
assim? — perguntou, observando Basile se levantar e
aproximar.
— Foda-se, ele não vai saber das melhores partes —
Baz disse baixo o suficiente para que o amigo não o
ouvisse. Então beijou o canto da sua boca. — Conseguiu
descansar, mon chéri? Sua cara melhorou um pouco.
Alex ainda precisou de alguns segundos processando
a aproximação e a pergunta feita na frente de outra
pessoa. Não que Moreau fosse uma preocupação – não o
conhecia bem, mas a confiança de Basile nele significava
algo –, contudo por não esperar qualquer coisa na
presença de uma terceira figura. Talvez estivesse
acostumado demais em esconder tudo de todos, até
mesmo daqueles que jamais pensou que esconderia algo
tão simples quanto um ficante.
Ficante? Sim. Ficante.
— Deu pra recuperar as energias — respondeu, por
fim. — Eu nos atrasei?
— Não, ainda é cedo. Eu saí pra comprar as coisas
pro almoço de amanhã. Eu não tinha muito do que você
come.
Considerando que, até onde sabia, a alimentação de
Baz consistia em carboidratos de sobra, aquilo era muita
coisa.
— Baz, eu estava brincando quando disse que você
teria que manter a minha dieta. Eu até pesquisei
restaurantes por aqui que preparassem o que eu
costumo comer.
— Cala a boca, não tenho como devolver as compras
agora — ele resmungou, gesticulando com a mão. — Nós
saímos em vinte minutos, pode ser?
— Me diz uma coisa, Dom sabe sobre isso aí? —
Moreau perguntou, gesticulando na direção dos dois.
Alexandre agradeceu mentalmente o claro esforço que
ele estava fazendo para falar em uma língua que
entendesse na sua frente.
Baz fechou a cara quase imediatamente.
— Não é da conta dele — ele resmungou, ríspido,
antes de completar com algo em francês.
— Vou roubar aquela corrente de prata que você
deixou no banheiro, espero que saiba disso — Alex disse,
mudando o assunto. — Não me deixe ter acesso aos
anéis, você vai acabar perdendo todos pra mim.
— Vou colocar um cadeado no meu armário.
— Não é como se você já não tivesse saído dele há
anos, não faz mais muita diferença — Moreau brincou.
Quando Baz ergueu o dedo do meio na direção dele, o
rapaz sorriu e se levantou. — Eu tenho que chegar mais
cedo pro meu turno, então vejo vocês lá. Bom te ver,
Duarte. Me avise se precisarem de uma terceira pessoa.
— Não tenho nada contra a ideia. — Deu de ombros,
atraindo um olhar quase chocado de Basile.
— Eu vou fingir que você não insinuou isso pra não
ficar pensando sobre pelo resto da noite. — Baz tirou o
celular do bolso. — Você tem quinze minutos pra deixar a
bunda pronta pra ir.
— Sim, senhor — ironizou.
— Hora errada pra me chamar assim, mon chéri.
Alexandre riu a caminho para o quarto.
Não esperava sair para qualquer lugar durante a
noite. Imaginava que Basile o faria visitar um local
turístico qualquer, como normalmente faziam.
Restava-lhe usar uma calça jeans e uma camiseta
preta básica, além da corrente prateada de Basile que
estava sobre a pia do banheiro.
— Com que frequência você faz abdominais? — o
francês perguntou assim que deixou o quarto pela
segunda vez.
— Todos os dias, ou quase — respondeu, erguendo
uma sobrancelha. — Por quê?
— Sua cintura é absurdamente bonita.
— Obrigado?
Baz sorriu, girando as chaves do carro antes de jogá-
las na sua direção.
— Você dirige hoje.
— Sério? — Alex não tentou esconder a animação,
olhando o chaveiro do Tesla em suas mãos.
— Não vamos falar sobre isso, não quero mudar de
ideia. — Basile puxou o casaco de couro que estava
jogado sobre o sofá, inclinando-se para beijar a cabeça
de Corvette. — Um arranhão e eu te chuto pra fora.
— Não seria mais fácil, sei lá, levar no Dom?
— De todos os lugares possíveis,eu levaria meu
carro pra um cinema antes de pensar em levar pro Dom
— Baz disse. Se era para soar como algo irônico ou não,
Alex não sabia. Mas soou ácido, quase magoado. Talvez o
assunto de demissão realmente não fosse tão simples
quanto pensava.
Poderia deixar o assunto para depois.
— Você age como se não tivesse uns dez carros
melhores que esse — Baz zombou, observando-o admirar
o painel do carro. — Eu vi aquela entrevista em que você
mostrou a sua garagem. Sinceramente, é ridículo. Você
mal sai de casa quando não tá viajando.
— Por que todo mundo gosta de julgar minha
admiração por automóveis? — rebateu.
— Porque é o mínimo. É um dos momentos em que
eu me pergunto por que continuo saindo com você. —
Quando Alex o fuzilou com o olhar, Basile sorriu. —
Vamos, mon chéri. Se você se comportar, posso pensar
em te deixar dirigir na volta também.
— Ah, você faria isso? — devolveu, seco.
— Eu sou um cara bem legal.
— Claro — bufou, olhando pelo retrovisor para sair do
estacionamento enquanto Basile colocava o endereço do
bar no GPS.
As proximidades do prédio onde Basile morava eram
tranquilas, apesar de consideravelmente turísticas. Os
restaurantes eram familiares demais para qualquer tipo
de tumulto.
Bem diferente do ambiente que era o Palladium. Ao
virar uma rua, já era possível ver os carros acumulados e
as pessoas entre eles.
O Palladium estava longe de parecer caro, mas tinha
o seu charme. Não apenas pelos carros caros e coloridos
– o que chamou a sua atenção da primeira vez –, mas
pela decoração neon e a música chamativa.
— Para o carro por aqui, não quero deixar entre o
resto do pessoal — Baz instruiu, apontando para uma das
vagas livres no início da rua.
Alex assentiu, parando onde ele havia indicado.
— Não tem mesmo problema em me trazer aqui? —
perguntou, olhando na direção do aglomerado de
sessenta pessoas e um pouco mais, se considerasse que
provavelmente havia mais pessoas dentro do
estabelecimento.
Basile pareceu confuso.
— Por que teria?
— Bom, sei lá. Você sabe, eu não quero causar
confusão caso alguém me reconheça — explicou, dando
de ombros. — Não que eu vá chamar atenção, eu sei
ficar no meu canto, mas…
— Mon chéri, eu vou te explicar algo sobre o
Palladium — Baz disse, calmamente. — Nós permitimos
que essas corridas aconteçam, que essas pessoas
continuem participando disso como se não fosse
proibido. A maior parte da galera é universitária e,
durante uma semana cansativa, é um lugar isolado e
legal pra fingir que o resto do mundo não enche o nosso
saco. Ninguém vai fazer qualquer coisa que chame
atenção da polícia ou de pessoas de fora. Isso inclui
surtar sobre a sua presença.
— Mas, da primeira vez que eu apareci…
— Eu disse que não queria você aqui por isso, eu sei
— ele suspirou, dando de ombros. — Eu só queria que
você vazasse, senso de proteção pro caso de você
implicar com o lugar ou algo assim.
Alexandre o fitou.
— E você foi comigo pro hotel mesmo assim.
— Você é gostoso, o que esperava que eu dissesse?
— Baz usou o espelho do retrovisor para arrumar o
cabelo antes de se inclinar para beijar o seu lábio inferior.
— Resumindo, pode fazer o que quiser ali. Teoricamente,
você é amigo de Moreau, e ele tem a maior moral entre a
galera. Se alguém te reconhecer e ele disser pra não tirar
fotos, não vão tirar fotos. E tem os pontos extras de ser
meu amigo, teoricamente. Eles me amam.
— Amam, é?
— Com exceção dos que deviam grana pro Dom, mas
isso é uma outra situação. — Baz puxou o vape do bolso,
saindo do carro em seguida.
Alex o acompanhou, alguns passos atrás.
Observou algumas pessoas se aproximarem de Baz e
o cumprimentarem como se não o vissem há eras – o que
era o caso, se o trabalho o estivesse impedindo de
aparecer também no bar com a mesma frequência do
ano anterior. Como se a sua presença fosse algum
motivo para comemorar. Mesmo que não entendesse
nada do que diziam ali, era notável como estavam
animados com a sua presença.
— Vem. — Ele gesticulou, indicando o interior do bar.
Moreau estava atrás do balcão bebendo algo
avermelhado, como se não estivesse no meio do seu
turno. Basile disse algo em francês para o amigo, que se
limitou a assentir com a cabeça e empurrar uma cerveja
na direção do moreno.
— Você quer alguma coisa sem álcool? — Baz
perguntou, fazendo uma careta quando o amigo roubou o
vape da sua mão.
— Uma água com gás — assentiu.
— Qualquer coisa pra você, amor — Moreau soltou,
fazendo Basile revirar os olhos.
— Você pode parar de dar em cima dele?
— Ciúmes? — Alex provocou, soltando uma risada
quando ele bufou.
— Não, ele só vai ficar insuportável se você der muita
moral.
Moreau empurrou uma garrafinha de água com gás
na sua direção, e Alex agradeceu com uma piscadela. Só
para irritar Basile.
— Pelo amor de Deus, vocês são nojentos — ele
resmungou.
— Até onde eu me lembro, é no seu apartamento que
eu vou passar a noite. — Alex abriu a garrafinha de água
com gás, olhando ao redor. — Quem vai correr hoje?
Baz acompanhou o seu olhar por um momento antes
de apontar para um pequeno grupo aglomerado do lado
de fora.
— O cara de vermelho e o de verde. Mas eles não
rendem muita coisa, mal sabem usar a marcha direito —
ele explicou. — Gosto do Christian, o que tem o piercing
na sobrancelha.
— Só porque ele vive te pedindo jogos de pneus
novos — Moreau disse. — E pagava a mais quando era
você na oficina.
— Gosto de quem me banca.
— Anotado. — Alexandre analisou o rapaz por mais
alguns segundos, descendo o olhar pelas tatuagens que
tomavam conta de seus braços. Tinha menos que Baz,
mas ainda eram muitas.
Aparentemente, ele percebeu que estava olhando.
Porque acenou com a cabeça na sua direção
suavemente, um meio sorriso tomando conta do seu
rosto.
— Até o final da noite você já vai ter feito o bar
inteiro se apaixonar por você — Baz comentou, revirando
os olhos ao beber mais um gole.
— É o meu charme natural.
— E eu achando que fosse só exagero dos sites de
fofoca. — O moreno soltou parte da fumaça que havia
inspirado pelo nariz antes de liberar o resto pela boca. —
Parabéns, Garoto de Ouro.
Alex poderia jurar que o seu estômago se contorceu
um pouco ao ouvi-lo. O brasileiro se esforçou para beber
um longo gole da água antes de falar algo.
— Não me chame assim — pediu, devagar.
Basile olhou na sua direção, erguendo uma
sobrancelha, como se a reação fosse completamente
inesperada. Alex imaginava que realmente fosse, mas
não era como se fosse explicar algo sobre aquilo para
ele.
Ou para qualquer pessoa.
— Por quê?!
— Só… não. Não me chame assim, Basile — repetiu.
Poderia ignorar o mundo inteiro o chamando daquela
forma, mas não Baz ou qualquer outra pessoa com quem
convivesse.
— Certo. Eu vou falar pro pessoal se preparar, já
volto. — O moreno se afastou, parando para falar com
uma pessoa ou outra.
Ao mesmo tempo em que, depois de cumprimentar
Basile rapidamente, Christian se aproximou. Ele pediu
uma água para Moreau antes de virar-se na sua direção.
— A moral daqui subiu pra termos a honra da
presença de uma celebridade? — o rapaz perguntou,
descendo o olhar pelo seu pescoço. Alex não sabia nada
sobre Christian, mas poderia chutar que ele não era
francês. Havia um sotaque no seu inglês, mas não como
em Baz ou, principalmente, Moreau.
Moreau falou algo em francês, citando o Beauchene.
Christian ergueu uma sobrancelha, exibindo um sorriso
muito mais interessado.
— Amigo de Basile, entendi. — Christian estendeu a
mão. — É um prazer te conhecer, Alexandre. Meu nome é
Christian. Posso pagar uma bebida pra você?
— Chris — Moreau repreendeu.
— O quê?! É só uma bebida, Baz não pode latir pra
mim por isso.
— Sou o motorista da noite, não vai rolar. — Alex
balançou a garrafinha de água. — Mas obrigado.
— Eu até te chamaria pra dar uma volta depois, mas
acho que a minha jogada de usar o meu carro pra
impressionar alguém não funcionaria nesse caso.
Talvez Alex tivesse um tipo. No geral, qualquercara
com mais tatuagens que pudesse contar. Christian era
inegavelmente bonito.
Não que pensasse em ter qualquer coisa com ele,
nem mesmo de uma noite. Mas, bem, sabia que não
tinha lá muita autopreservação.
— Pra sua sorte, eu não sou muito exigente —
respondeu, por fim. Quando notou o olhar de Basile, que
ainda estava do lado de fora, o piloto sorriu um pouco
mais. Porque Baz não parecia irritado, chateado ou
qualquer coisa do tipo ao vê-lo conversando com outro
cara. Na verdade, ele parecia até se divertir com a
situação. — Mas acho que já tá na sua hora de correr.
Ouvi dizer que você é a promessa da noite.
— Claro. — Christian começou a se afastar, ainda
olhando na sua direção. — Se eu ganhar, você bebe
comigo?
— Motorista da noite, Christian — relembrou.
— Eu dou um jeito nisso. — Christian parou ao passar
do lado de onde Baz estava. Eles pareceram trocar
algumas palavras em francês, Basile empurrando o seu
ombro na direção do carro verde estacionado logo ali.
— Chega de flertar, mon chéri — Beauchene disse,
na sua direção dessa vez. — Acho bom você apostar
contra Christian.
VINTE E SEIS
Basile observou Alexandre fumar um cigarro enquanto
conversava com uma garota.
O racha da noite havia se iniciado há cerca de dez
minutos, mas ainda levaria algum tempo para terminar.
Se Alexandre estava interessado em acompanhar no
início, ele não parecia mais.
Não que isso incomodasse Baz. De forma alguma, na
verdade. Sabia que, no fim da noite, ainda seria para o
seu apartamento que o piloto iria, independentemente
de quantas pessoas ele chamasse a atenção ali – e não
eram poucas, mas aquela garota em especial parecia
determinada a arrancar uma casquinha de Alexandre.
Ele era como um camaleão, e Basile já havia
percebido isso há algum tempo. Não de maneira ruim.
Pensava ser uma questão de fingir ser alguém que não
era, mas era algo mais. Alexandre sabia se adaptar a
qualquer ambiente em que estivesse para fazer com que
as pessoas ao redor gostassem dele, aprovassem quem
ele era. Naquela noite, ele não parecia o piloto de
Fórmula 1 mundialmente famoso, a presença requisitada
em inúmeros eventos e entrevistas ao redor do mundo, o
cara que estampava propagandas de marcas grandes e
só tinha em seu closet roupas que pareciam valer mais
que um ano de aluguel do antigo apartamento de Baz.
Parecia um cara qualquer, que talvez Basile encontrasse
andando na rua, entre os corredores de sua antiga
faculdade, comprando macarrão instantâneo e iogurte
natural em um corredor do supermercado.
Autopreservação. Afinal, se ele agisse ali como a estrela
que era, não se encaixaria e chamaria mais atenção.
Basile imaginava que isso viesse de muito antes da
fama, muito antes que ele fosse reconhecido como parte
da família de Nicole e Ângelo. Antes da sua adoção, o
que já parecia ser uma zona de conversa proibida em
todas as hipóteses.
Baz tinha a impressão de que nunca seria uma
conversa, não importava quanto tempo passasse.
Alexandre também cortava o assunto com as pessoas
mais próximas dele, como seus companheiros de equipe
ou até a atriz – de quem Baz nunca lembrava o nome –
que o mundo jurava que era a namorada dele? Com seus
pais adotivos? Era de se imaginar que sua família
soubesse de seu histórico, mas não significava que
falassem disso.
O que tinha de tão ruim no passado de Alexandre?
A garota que o abordou era bonita. Tinha o cabelo
longo pintado de um tom chamativo de laranja e uma
maquiagem bem feita. Parecia o tipo de Alexandre, se é
que o rapaz tinha mesmo algum tipo.
Baz era o tipo de Alex? Não sabia de seu histórico
com outros caras para opinar sobre isso.
— Vai mesmo deixar ele cair na rede da Veronica? —
Moreau se inclinou na sua direção, um sorriso travesso
tomando conta do seu rosto. Quando Baz apenas deu de
ombros, virando o resto de sua cerveja, o amigo ergueu
uma sobrancelha. — Você gosta? O que é isso, algum
fetiche que vocês têm? Quer dizer, eu sempre soube que
essa galera famosa esconde esses fetiches, mas você…
— Não é um fetiche, babaca. Por que eu me
importaria se não namoramos?
— Você genuinamente não liga?
— Não dou a porra da mínima — respondeu, simples.
— Imaginei que vocês tivessem algum acordo sobre
isso. Sabe, já estão nessa há meses.
— Eu poderia citar os acordos que temos quando
estamos fodendo, mas é pessoal demais até pra mim. —
Baz olhou novamente na direção de Duarte, que tinha
uma mão percorrendo a cintura da tal Veronica enquanto
sussurrava algo no ouvido dela. Considerando a
expressão da garota, era algo bom. Talvez bom ainda
fosse pouco. — Você sabe que eu não me importaria de
ter uma terceira pessoa nesses casos, desde que fosse
um homem.
— Bom, mas todas as outras vezes foram com
pessoas que você conhecia em um dia e já podia fingir
que nunca tinha visto depois. Não com um… ficante fixo.
Espera, você o deixaria chamar outro cara?
— Você soa como um conservador. É sexo, Moreau.
— Não sou conservador, só quero colocar o meu
nome na lista.
— Você não vai encostar um dedo nele, menos ainda
se eu estiver junto.
— Nunca me arrependi tanto de ser seu amigo —
Moreau suspirou, inclinando a cabeça para observar a
cena de Alexandre, que já estava com a boca no pescoço
da garota. — Nossa, ele é bom. Garoto de Ouro e coisa
assim, né.
Garoto de Ouro. A reação de Alexandre quando Basile
o chamou dessa forma foi, no mínimo, inesperada. Ele
pareceu irritado, mas também decepcionado. Como se
Baz o chamando pelo apelido que o mundo o havia dado
em seu primeiro ano na Fórmula 1 fosse decepcionante.
Ele nunca reclamou antes, por que naquele momento?
Não se importar com o título também era uma mentira?
— Não o chame assim — murmurou. — Ele não
gosta.
Basile desviou o olhar quando dois carros viraram a
esquina no final da rua, apenas alguns minutos antes do
previsto.
Como o esperado, o carro de Christian estava na
frente. O filho da puta.
— Quem diria que o cara com um 720S venceria
outra vez — Moreau ironizou, afastando-se quando o
carro de Chris parou em uma derrapada que era bem a
cara dele, o típico movimento para chamar ainda mais a
atenção para si.
Basile observou o inglês sair do automóvel, um
sorriso convencido no rosto suado.
— Ele se ofereceu pra pagar uma bebida pra mim. —
Alexandre estava ao seu lado, equilibrando o cigarro
entre os lábios. Poderia jurar que o cabelo dele não
estava tão bagunçado como naquele momento cinco
minutos atrás.
— Você se livrou de Veronica bem rápido —
comentou, descendo o olhar pelos lábios levemente
inchados do rapaz.
— Não me livrei de ninguém, ela só voltou pro grupo
de amigas dela. — Ele acenou na direção da garota, que
estava entre cinco ou seis garotas. Veronica soltou uma
risadinha ao acenar de volta. — Me diz, qual é o seu
lance com o Chris?
— Ele é um cliente antigo do Dom, só isso.
Alexandre ergueu uma sobrancelha.
— Só isso?
— Saímos algumas vezes.
— E..?
— E nada, mon chéri. Ele é bonito e tem a grana que
o pai dá todo mês, mas não é lá muito interessante, se
você separar o carro dele.
— E eu sou interessante? — Alex perguntou,
inclinando levemente a cabeça com seu sorriso divertido,
alguns fios loiros começando a cair pela sua testa. Se ele
não os cortasse, logo precisaria prendê-los para evitar
que caíssem pelo rosto. Se não estivessem em um lugar
aberto, teria o beijado ali mesmo.
Muitas cores. A maioria tão vibrante que Basile
poderia jurar ser o suficiente para fazer a sua cabeça
doer, mas gostava. Gostava muito.
— Você é? — devolveu.
— Me responda você.
— Sua companhia é… prazerosa — soltou, porque
não sabia ao certo como dizer para alguém que gostava
da sua companhia sem parecer ridículo.
— Eu tenho certeza que é a primeira vez que você é
minimamente legal com as palavras — Alex ironizou. —
Doeu muito?
— Não tanto quanto vai doer quando eu te trancar no
quarto mais tarde.
— Kinky, gostei.
É claro que Alexandre gostava. Deveria se
surpreender?
Basile continuouser um partido ainda melhor.
Alexandre não era esse tipo de partido,
aparentemente. Não que perdesse o seu tempo
procurando por alguém com quem pudesse ter algum
relacionamento mais sério, porque sabia que isso viria
como consequência de suas relações diárias, que
encontrar alguém em quem pudesse confiar as partes de
sua vida as quais nem mesmo Jolene e até seus pais
tinham livre acesso não era algo fácil ou que poderia
fazer com qualquer pessoa.
Mas, bem, é um pouco frustrante ser deixado de
lado. Todas as vezes. Não se irritava com as pessoas.
Talvez um pouco consigo.
Bom o suficiente para algo casual, mas não para um
compromisso. Esse é você.
Alex guardou o convite para a festa de noivado de
Mariana e Daniel novamente no envelope, afastando
qualquer pensamento sobre o assunto, para finalmente
se vestir.
Quando aproximou-se do carro depois da rápida
coletiva de imprensa ao lado de Bruno, ajustando a
balaclava sobre a cabeça, todas as recomendações para
aquela pista que já sabia de cor provavelmente desde o
ano anterior foram repassadas mais uma vez, e
Alexandre escutou em silêncio porque, por mais que seu
humor e paciência não estivessem dos melhores e
parecessem piorar a cada minuto, tinha que fingir que
tiraria o pé em curvas mais angulares e economizaria
seus pneus para correr estrategicamente, sob contas
matemáticas e estatísticas com margem de erro mínima.
Não era o seu estilo. Sua equipe já o conhecia o
suficiente para saber disso, sobre ter o momento como
estratégia, as oportunidades inesperadas como vitória.
Sua mãe também, porque não era apenas atrás de
um volante e dentro de um carro em sua máxima
velocidade que Alexandre abominava planos demais.
Poderiam tentar, mas sabiam que simplesmente não
era ele.
Alexandre virou o rosto para engolir uma respiração
profunda de foco, erguendo uma sobrancelha ao ver Ivan
e Bruno conversando seriamente. Bruno balançou a
cabeça negativamente enquanto Ivan parecia
mortalmente sério ao apontar para o carro. Não era uma
briga, mas ainda era incomum vê-los discordando em
algo. Quando Ivan terminou de falar, eles apertaram as
mãos para que Bruno pudesse continuar o seu trabalho e
entrar no carro.
Apertaram as mãos. Eram casados e já tinham anos
e anos de relacionamento, desde muito antes de Ivan
deixar a vida de piloto para comandar a equipe, quando
ainda eram um casal secreto.
Era engraçado, e Alexandre nunca entenderia. Eles
eram casados, mas raramente vistos demonstrando
qualquer tipo de afeto quando não estavam sozinhos ou
perto de pessoas de seu círculo próximo de amizades.
Aquele aperto de mão já poderia ser considerado muito,
se pensasse que costumavam ser ainda mais discretos
que isso.
Se Alexandre tivesse um namorado, provavelmente o
beijaria na frente de todas aquelas pessoas e mais. Era
uma pequena parte da rebeldia, talvez até mesmo da
infantilidade, que vivia sob o Garoto de Ouro. Foda-se se
o bando de homens velhos e conservadores que
mandavam naquele esporte não gostariam de ver dois
homens se amando para o mundo inteiro, tinham o
mesmo direito de demonstrar qualquer coisa como
qualquer casal.
Uma pequena, mínima e irrelevante parte das coisas
que Alexandre Duarte preferia manter apenas para si
mesmo. Para si e ninguém mais.
TRÊS
Basile Beauchene inspirou o gosto acinzentado e
queimado que tomou conta de sua língua quando viu o
piloto de Fórmula 1 do momento entrar no Palladium.
O bar não era nem perto do que alguém como
Alexandre Duarte provavelmente estava acostumado a
frequentar. Mas enquanto substituiu o gosto
desagradável por um gole de Tom Collins, o drink feito
com gim, limão, açúcar e água com gás, Basile acreditou
entender por que o local lhe chamou a atenção.
O Palladium Bar não estava em um local de destaque
noturno, mas soube fazer o seu nome. Em um bairro
completamente comercial, e por isso se apagava pela
noite, a presença de pessoas demais, muito barulho e
música para o incômodo de possíveis vizinhos era zero.
Era tudo o que um bar precisaria para já ser uma boa
opção para quem quisesse curtir a noite, certo?
Bom, isso e os carros. O Palladium não chamava a
atenção apenas pela localização deserta ao redor ou a
decoração neon de centavos que, organizada de forma
inteligente, até passava uma sensação de que valia mais
do que cobrava. Não. Palladium Bar também era o lar
daqueles que gostavam de quebrar algumas regras,
conquistar e roubar com a velocidade de carros de luxo
que eram mais caros que a mensalidade de suas
faculdades privadas, mais caros que a mesada que seus
pais empresários e corruptos davam semanalmente.
Palladium era o ponto de referência para as corridas
ilegais de Le Castellet. Uma pequena zona segura para
os desajustados e rebeldes. E é claro que Basile fazia
parte disso.
E obviamente Duarte seria atraído por aquilo. Ainda
do lado de fora do bar, o piloto parecia querer se
misturar – apesar do casaco Prada que chamaria a
atenção de qualquer idiota que olhasse na sua direção, o
que era uma escolha muito burra da parte dele –
enquanto se abaixava suavemente para ver o aro de
uma das rodas de um Tesla estacionado. Alexandre fez
uma careta.
Aro desproporcional, eu sei, pensou. Basile engoliu
mais uma vez o gosto que era ver aquele cara ali,
virando-se na direção do balcão. Não era como se
pudesse – ou devesse – dar tanta atenção para o piloto.
— Parece que temos um novo tipo de fracassado
frequentando esse lixo — Moreau disse, apoiando os
cotovelos sobre o balcão de madeira escura. O barman
deveria estar trabalhando, mas aquela noite parecia feita
para encher o saco de Basile. — É seu amigo?
— Tenho cara de quem faria amizade com ele? Me
poupe, Moreau. — O tatuado revirou os olhos, sem saber
se estava mais irritado pela provocação do amigo ou pela
simples presença de Alexandre Duarte. Quanto tempo
teriam até que alguém o reconhecesse e começasse uma
bagunça? Ainda pior, quanto tempo teriam até que uma
foto dele parasse na internet e Palladium deixasse de ser
seu pequeno espaço desconhecido, frequentado apenas
por universitários fracassados que gostavam de quase
enfiar o carro em um muro por uma quantidade modesta
de euros? — O cara parece perdido pra caralho aqui.
Basile olhou novamente na direção da entrada
enquanto puxava o vape do bolso, observando duas
garotas conversarem com o piloto. Em inglês,
provavelmente, porque duvidava que Duarte soubesse
mais que duas palavras em francês. Ele tinha o sorriso de
sempre no rosto, o sorriso que pedia por atenção, que a
conseguia facilmente porque ele sabia que era digno
dela. Basile tentou substituir a sensação contínua de que
estava mastigando cinzas na boca com a essência de
pêssego do vape, sem muito sucesso.
Alexandre Duarte era tão apagado, olhando-o
pessoalmente. Nem mesmo os flashes de câmeras
conseguiram mudar isso por muito tempo. Um rostinho
bonito, de fato, mas teria algo mais que isso?
Ok, um rostinho muito, muito bonito. Um corpo
admirável. Basile poderia facilmente chamá-lo para foder
em outras noites, mas sua paciência não estava uma das
melhores nessa em questão.
— Vai chamar ele pra correr? — Moreau perguntou,
empurrando uma dose da mesma bebida avermelhada
que havia tomado antes.
— No meu quarto, sim — ironizou, vendo-o conversar
com uma mulher que havia se aproximado. Basile
duvidava que ela soubesse quem era Duarte, senão que
ele tinha dinheiro pra caralho. A Palladium não era
exatamente o lar de pessoas minimamente interessadas
em esportes como a Fórmula 1. Os que conheciam o
meio, pessoas como Basile, normalmente desprezavam o
esporte. — Puta merda, o que ele tá fazendo aqui?
— Acha que ele vai implicar com a corrida?
Em uma risada áspera, carregada de vapor, Basile
balançou a cabeça negativamente.
— Ele vai gostar.
— Tem certeza de que não são amigos?
— O cara corre uma corrida dessas a cada final de
semana, Moreau, acha mesmo que ele vai encher o
nosso saco só porque nãobebendo quando um grupo de
conhecidos se juntou ao lado de Moreau, Christian
incluso. Pareciam realmente interessados em conversar
com Alexandre, de uma forma que o piloto não pareceu
nem um pouco incomodado. Ele falou sobre a rotina de
treinos em casa, alimentação e preparação para as
corridas e até mesmo sobre toda a parte da engenharia
dos carros.
— Dá pra entender por que você gosta dele. —
Christian se aproximou, recostando-se no carro ao seu
lado. — Ele é meio nerd igual a você.
Baz o encarou, erguendo uma sobrancelha.
— Não sei o que você quer dizer.
— Por favor, Baz. Ninguém tá caindo na conversa de
que você trouxe um cara pro Palladium, que é quase o
seu santuário, e ele é só um amigo — Christian riu. — E,
se estivesse enganando alguém, seu olhar também
denuncia tudo. Você olha a estrelinha como se quisesse
engolir o garoto enquanto ele fala sobre o funcionamento
dos motores do próprio carro.
Revirou os olhos.
— Não te culpo, ele é bem gostoso. — Baz o fuzilou
com o olhar ao ouvir isso. — Ei, relaxa. Ele até se recusou
a beber comigo.
— Baz, acho que já deu a minha hora — Alex disse,
aproximando-se calmamente. Ele acenou com a cabeça
na direção de Christian antes de continuar. — Não posso
abusar dos dias livres pra perder a minha rotina de sono,
você sabe.
— Claro que não pode — disse, tornando a olhar na
direção de Christian. — Até qualquer dia.
— Até. — O rapaz acenou, cruzando os braços sobre
o peito. — Você não vai voltar pra oficina, né? O garoto
novo que o Dom arranjou é uma merda, mal sabe trocar
um pneu.
Baz parou. Sem reação.
— Eu não sabia que ele tinha contratado alguém —
disse, devagar, na direção de Moreau. O merdinha que
não disse nada sobre isso. Moreau o encarou como se o
pegasse no flagra, o ridículo.
— Acho que é mais um estagiário, ele ainda está
ensinando as tarefas mais difíceis.
— Não torna o garoto menos incompetente — Chris
rebateu. — Ele deixou um dos meus pneus novos cair.
— Moreau, quanto tempo depois que eu fui embora
esse… garoto chegou?
— Sei lá. Um mês, talvez.
O queixo de Baz quase caiu.
— Baz, vamos embora — Alex disse. — Depois você
pensa nisso, tudo bem?
— Você deveria ter me dito. — Baz apontou para
Moreau, mas não deu tempo para que ele desse uma
resposta antes de se afastar, ao lado de Alexandre, para
entrar no carro e ir embora.
Alex permaneceu em silêncio enquanto dirigia.
Enquanto estavam no elevador e enquanto Baz colocava
comida para Corvette, segurando-a no colo como se
quisesse impedir que ela fosse embora. Como se ela
tivesse algum motivo para ir embora.
— Eu vou pro chuveiro — o piloto disse, por fim. —
Tem algo que eu possa fazer?
— Não. — Baz se sentou no sofá com a gata.
Alexandre o encarou por mais alguns segundos antes
de virar na direção do quarto. Baz estava claramente
chateado, mas talvez não quisesse falar.
Ou, talvez, só não sentisse que tivesse o direito de
falar sobre. Alex entendia bem esse sentimento.
O piloto voltou para a sala, enfiando as mãos nos
bolsos do casaco tensamente.
— Quer falar sobre o Dom comigo? — ofereceu, com
cuidado. Baz olhou na sua direção com uma sobrancelha
erguida. Alex limpou a garganta. — Se você quiser.
— Não é nada demais, talvez eu só esteja
exagerando.
— Você ficou chateado, então acho que é algo.
Basile respirou fundo, balançando a cabeça.
— Dom deve ser o mais próximo que eu já tive de
uma família, e mesmo assim ele me mandou embora na
primeira oportunidade. Pra achar um outro garoto
qualquer pouco depois. — Baz deslizou os dedos entre as
orelhas de Corvette, que amoleceu um pouco mais no
seu colo. — E é engraçado, porque ele disse que nunca
faria algo que me machucasse.
— E se ele não fez com o intuito de te machucar? —
Quando Baz o encarou, Alex engoliu em seco. — Eu sei
que você pensa que ele fez por algum motivo egoísta ou
simplesmente porque não liga pra você. Mas, bem,
parece que você nunca ouviu a versão completa dele.
Não vale a pena tentar?
— A versão completa é que o meu pai pediu pra me
chutar pra academia de engenheiros da equipe e ele me
demitiu. Simples.
Alexandre suspirou ruidosamente.
— Vocês me pareceram próximos desde que eu fui na
oficina pela primeira vez, e eu mal te conhecia naquela
época — ele explicou. — Eu gosto de pensar que família
de verdade não faz nada com um intuito negativo. Dom é
a sua família de verdade?
Baz não respondeu. Era? Provavelmente. Tinha um
pai que parecia empenhado em infernizar a sua vida,
uma mãe que já havia falecido e Dom. Dom, que ensinou
tudo o que sabia para trabalhar na oficina. Que o fez
estudar mesmo quando não queria, porque seus estudos
deveriam vir antes do trabalho. Que o aceitou quando
tinha certeza de que não seria aceito. Que se certificou
de que estaria em segurança onde quer que estivesse.
Isso era ser família, certo? Era o que filmes
passavam, e mesmo que Dom tivesse o feito de uma
maneira um pouco desviada, ainda havia tornado Basile
quem ele era. E Basile gostava de quem era, de quem se
tornou graças a Dom.
— Amanhã, nós vamos até a oficina e você vai
conversar com ele — Alex declarou, um sorrisinho
cruzando o seu rosto. — Não me olhe assim, você sabe
que quer isso. Nada de ser orgulhoso por aqui. Veja pelo
lado bom, você vai até ver pessoalmente esse tal garoto
que ele contratou.
Alexandre tinha um ponto, Baz precisava admitir. Por
motivos um pouco egoístas demais, queria ver com os
próprios olhos. Para ter a certeza de que quem quer que
fosse o novo funcionário de Dom, não era alguém
melhor.
— Mas agora — Alex continuou, inclinando-se na sua
direção para beijar o seu lábio inferior — nós vamos pro
chuveiro, e eu vou tirar isso da sua cabeça.
VINTE E SETE (flashback)
Basile teve os fones arrancados do seu ouvido quando
Aneurysm, do Nirvana, ainda estava na metade. Ele
olhou na direção de Dom com uma expressão fechada.
— O que foi?
— Hoje é seu aniversário, garoto. O que você tá
fazendo aqui? — o mais velho perguntou, cruzando os
braços.
— Trabalhando. O que mais eu estaria fazendo?
— Sei lá, enchendo a cara. Não é o que os
delinquentes da sua idade fazem com dezoito anos?
— Uau, cara. Você me chama de delinquente na
minha cara bem no meu aniversário. — Baz balançou a
cabeça, voltando a atenção para o carro no qual estava
trabalhando.
— Não finja inocência, não é como se você não fosse
um.
— Mas é indelicado falar isso em voz alta. — Diante
do silêncio, Baz levantou o olhar para o homem. Dom o
encarava como se estivesse se segurando para não socar
a sua cara. Típico. — Não quis comemorar. Acho que vou
dar uma volta no Palladium mais tarde, mas não é nada
demais. É só mais um dia normal.
Dom revirou os olhos, jogando um pano limpo na sua
direção.
— Limpa as patas, nós vamos sair.
Baz o encarou, confuso. Mas logo o acompanhou
enquanto limpava as mãos no pano.
— Para onde nós vamos?
— Tá afim de fazer mais uma tatuagem?
Definitivamente. Perto de Dom, Basile ainda não
tinha muitas aos dezoito anos. Não além de algumas que
lhe cobriam o braço esquerdo e parte do direito.
— Se eu tivesse grana…
— Eu pago. — Dom deu dois tapinhas na bancada da
entrada da oficina, chamando a atenção de Moreau, que
jogava algo em seu celular. Como sempre. Basile não
sabia por que Dom continuava pagando o garoto para
não fazer porra nenhuma naquela mesinha o dia inteiro.
— Fecha tudo, Moreau. Nós vamos sair.
— Tá brincando comigo, né? — Baz perguntou. — Eu
fiz alguma coisa legal e você tá me recompensando?
— Sim. É seu aniversário. — Dom jogou as chaves do
portão principal para Moreau, que já estava fechando as
portas da entrada secundária. — Nós vamos fazer
tatuagens, menos você, Moreau. Sua mãe me mataria.
— Relaxa, eu tenho medo de agulhas. — O garoto,
que ainda era um pouco mais novo que Baz, deu de
ombros. — Mas fico legal se você comprar bolo.
— Pode ser.
Baz iria colapsar.
— Qual é, Dom. Não precisa — disse, devagar.
— Uhum — Dom respondeu, deixando clarotemos autorização pra isso ou
porque não ganhamos uns milhões como ele? — Franziu
o cenho quando uma das garotas que conversava com
Alexandre o puxou para uma mesa cheia. Fácil de fazer
amigos, aparentemente. — E se alguém perguntar, eu
nunca estive aqui.
No caminho, os olhos curiosos e perdidos do piloto o
localizaram. Alexandre o fitou, erguendo uma
sobrancelha, como se não estivesse apenas irritado com
a forma como o encarava descaradamente, mas como se
quisesse perguntar por que caralho o fazia.
Basile ergueu a sobrancelha de volta, imitando-o.
Quando Alexandre parou de olhar na sua direção, mais
pelas pessoas do seu novo grupo de colegas do
Palladium do que por vontade própria, o francês revirou
os olhos.
— Enfim, tenho mais o que fazer do que perder o
meu tempo com a celebridade ali — disse, por fim. Basile
tirou o casaco de couro, jogando-o na direção de Moreau
para que ele o guardasse. Guardou o vape no bolso da
calça antes de sair do Palladium.
O ar fresco e frio da noite não o incomodava. Basile
observou os babacas que participariam da aposta da
noite, dando alguns soquinhos no capô do Bugatti mais
próximo de onde largariam, o que lhe rendeu uma olhada
feia do dono – sequer sabia o nome dele, só o
sobrenome.
Ousado.
— Largamos em dez. Todo mundo já apostou? —
Basile estendeu a mão para um universitário que enfiou
uma nota na sua direção, anotando mentalmente o rosto
dele, embora duvidasse que ele fosse sair vitorioso.
Apostar no cara do Bentley, que ridículo.
A maioria das apostas eram feitas diretamente com
Moreau. Afinal, era o amigo e barman quem cuidava das
finanças extras da Palladium. Mas Basile não ligava de
ajudar uma vez ou outra.
Basile ficava com as sobras, os ferrados do fim da
noite. O nascer do sol após uma corrida no bar era
sempre um café da manhã agradável demais para o
principal mecânico da oficina ali perto.
— Isso me lembra que você ainda me deve — disse,
aproximando-se um pouco mais do corajoso do Bugatti.
Com a menção da dívida, o rapaz franziu um pouco mais
o cenho. Basile estalou a língua, contendo a si mesmo
para desafiá-lo de outra forma. Vamos, onde está a grana
do papai? — Sabe o que Dom faz com os que devem,
cara. Não me faça avisar para ele, a coisa ficaria suja pro
meu lado.
E pro seu também, mas eu não preciso falar disso.
— Vou pagar depois que eu levar a da noite — o
rapaz cuspiu, contrariado.
Basile quase engasgou uma risada nasal, ainda
carregada do vapor da essência de pêssego que havia
acabado de inspirar.
— É, boa sorte.
O cara mal conseguiu participar de duas rodadas
sem enfiar a cara em um poste, achava mesmo que
levaria a da noite?
O sorriso debochado do rapaz desapareceu ao ver
Alexandre Duarte recostado na parede externa do bar, os
braços cruzados enquanto observava a cena com a
expressão curiosa, a testa levemente franzida. Basile
quase mastigou o gosto de queimado que invadiu a sua
boca mais uma vez. O cheiro doce e insistente de
perfume caro, do tipo que o sufocava. O ácido na ponta
dos dedos.
Mesmo enquanto a organização para a corrida da
noite acontecia, Basile podia sentir o olhar do piloto em
suas costas. Acostumado a ser notado apenas quando
precisavam de algo que pudesse fazer, era uma
novidade se sentir o centro das atenções de alguém que
não conhecia – e nem o queria, se falasse com
sinceridade.
Se dar ao luxo de olhar e dar a mesma atenção para
Alexandre Duarte era o tipo de coisa que não podia fazer.
Foi o que reforçou para si mesmo quando, pouco
antes da largada, Moreau parou ao seu lado. Encostado
no Maverick do amigo, Basile estendeu o vape para ele,
que o aceitou de bom grado.
— Seu amigo me perguntou se você é funcionário —
ele anunciou. — Parecia desconfiado.
— Foda-se, o que ele quer comigo?
— Você não é uma das pessoas mais simpáticas do
mundo em um primeiro contato, talvez até no milésimo,
e tá encarando o cara com uma cara feia desde que ele
chegou. Não seja ingênuo, sabemos quem você
realmente é. — Moreau inspirou a essência refrescante,
devolvendo para Baz em seguida. — Ele é gostoso. Será
que também gosta de caras?
— Encrenca demais. E ele nunca falou nada sobre.
— Achei que você gostasse de encrenca.
— Ainda tenho um pingo de autopreservação. —
Basile apontou o dedo na direção do piloto, não dando a
mínima se ele o veria ou não. Duarte não o entenderia,
de qualquer forma. — Aquilo é o tipo de encrenca que
acabaria com toda a merda que eu consegui sozinho em
todos esses anos. Quer falar sobre liberdade ou
privacidade? Isso não existe no mundinho dele. Eu sei de
perto como é.
— Por causa do seu pai, eu imaginei. — Moreau
gritou para que os outros se arrumassem logo, ele não
tinha a noite inteira. — Eu vou ajudar esses caras a se
ajeitarem, já que são crianças demais pra isso. Se o seu
amigo te convidar pra alguma coisa, me indique como
substituto depois de negar educadamente.
— Você faz mais o tipo dele do que eu — ironizou,
desviando o olhar para os próprios coturnos,
arrependendo-se de não ter pegado uma bebida mais
forte antes de se afastar do bar.
Quando os carros dispararam em arrancadas
agressivas, Basile olhou para o relógio em seu pulso.
Então engoliu em seco quando alguém parou ao seu
lado. A quem queria enganar? Sabia quem era.
Ainda assim, ele ignorou, fingindo que não tinha o
visto – ou, no mínimo, que não se importava.
— Eu nunca colocaria um dos meus carros na rua pra
esse tipo de coisa — Alexandre Duarte disse, o que fez
Basile rir. Ele não sabia puxar assunto?! Céus.
Depois de alguns segundos dividido entre responder
ou só dar o fora dali, o francês balançou a cabeça.
— Bom, o que você realmente coloca é bem mais
caro que esses. Qual é a diferença?
— Você me conhece. — Não foi uma pergunta, mas
Duarte pareceu ponderar sobre a conclusão.
— Tenho uma ideia de quem seja.
— É por isso que não me quer aqui?
— Meus motivos para não te querer aqui não são
pessoais, só não gosto da ideia de fãs obcecados
aparecendo pra te procurar. — Basile deu de ombros,
levando o vape até os lábios. Quando olhou para o piloto,
de perto e atentamente pela primeira vez, ele fez uma
careta. — Você não podia tentar ser mais discreto, pelo
menos?
Alexandre olhou para si mesmo como se procurasse
por qualquer defeito que, é claro, ele não encontraria ali.
— Estou normal.
— Claro, vamos contar quantas pessoas aqui estão
com Prada — ironizou. — O que você quer?
O olhar de Alexandre queimou sobre a sua pele,
mesmo depois de desviar os olhos do piloto.
— Primeiramente, seria bom saber o seu nome.
Basile balançou a cabeça, checando o relógio mais
uma vez. Se estivesse certo, o primeiro carro chegaria
em cinco minutos.
— Por quê?
— O cara do bar não quis me dizer.
Obrigado, Moreau.
— Isso deve significar algo — disse, por fim,
estalando a língua. — Não passamos nomes para
desconhecidos.
— Você sabe quem eu sou.
— E isso significa que vou confiar automaticamente
em você? Nem fodendo, conheço o seu tipo.
— Meu tipo — Alexandre repetiu, mais devagar. — É
por isso que você não me quer aqui, eu sou algum tipo
de ameaça?
— Vocês aparecem nesses lugares, acham que
somos menores que vocês porque não corremos em um
carro de milhões de dólares. Ou porque não somos um
bar bom o bastante, você pode decidir entre
menosprezar o bar ou as corridas.
— Uau, e eu só queria pegar o seu número.
Basile o encarou, erguendo uma sobrancelha. Ele
esperava que Alexandre estivesse brincando, mesmo que
ele não parecesse. Essa deveria ser a pior parte, porque
ele era bonito e sabia disso. Com aqueles cabelos
bagunçados, e ainda assim arrumados – estavam mais
escuros que o normal, não? –, as roupas caras sobre a
pele bem cuidada e algumas poucas tatuagens que
Basile só podia ver com poucos detalhes. Não eram como
as suas, que cobriam boa parte de seu corpo.
— Tudo bem, não exatamente pegar o seu número,
porque é improvável que eu tenha tempo pra fazer
qualquer coisa aqui depois de hoje.Mas, quem sabe, me
oferecer pra te pagar uma bebida.
— Uma pena, porque eu posso beber o que eu quiser
aqui e não preciso pagar nada.
A resposta pareceu pegá-lo de surpresa, o que fez
Basile rir mais uma vez.
— Nesse caso, eu precisaria partir pro segundo
passo.
— E seria…
— Te convidar pro meu hotel.
Basile sabia qual era o tipo de Alexandre. O que te
fazia rir por cinco minutos com um charme bonitinho, um
sorriso torto e conversa que exalava uma confiança
irresistível.
Até que você estivesse na cama dele, sem roupas.
Todas as fofocas sempre disseram o mesmo. Ele é tão
engraçado, tão charmoso, tão doce…
Achava que era uma besteira até ver esse evento de
perto. Alexandre Duarte era um conquistador, e ele fazia
o serviço muito bem.
— É uma pegadinha? — perguntou, levando o vape
até os lábios enquanto observava os primeiros carros
virarem a esquina, longe dali. O Rolls-Royce na frente,
embora um tanto irregular. Não se surpreenderia se o
dono dele aparecesse na oficina no dia seguinte graças a
algum problema no motor. O Bugatti, alguns metros
atrás. Só por um milagre ele chegaria primeiro.
— Hm, não. Eu vi você me olhando e decidi que você
me odeia muito porque eu sou incrível, ou não me
suporta porque quer ir pra cama comigo e não sabe
como lidar com isso.
— Seu ego definitivamente não é algo que eu possa
ler na sua página do Wikipédia.
— Own, você até já me pesquisou no Wikipédia?
Basile mordeu a ponta da língua, sentindo-se
extremamente fraco. Porque estava a um passo de
arrancar aquele sorrisinho debochado do rosto de
Alexandre Duarte.
Com a boca.
— Então você simplesmente chegou à conclusão de
que eu quero ir pra cama com você — disse, ignorando a
provocação.
— Não cheguei a lugar algum, mas resolvi testar. —
Alexandre cruzou os braços sobre o peito, erguendo uma
sobrancelha em uma expressão levemente surpresa
quando o Rolls-Royce foi o primeiro a chegar. — E aí,
acha que rola?
— Eu sempre achei que você só ficasse com
mulheres — comentou. Era óbvio, a essa altura, que
Alexandre Duarte estava longe de ser hétero. Mas Basile
ainda estava tentando encontrar uma resposta para o
convite que não pensou que realmente viria.
O piloto de Fórmula 1 deu de ombros, olhando ao
redor rapidamente como se temesse que alguém
escutasse aquela conversa. A maioria das pessoas ali
estavam ocupadas demais comemorando ou vaiando a
vitória do cara do Rolls-Royce que, olhando bem, Basile
percebeu que parecia chapado. O cara do Bugatti olhou
na sua direção com uma expressão que pedia por algum
tipo de pena.
Você vai me pagar hoje, Basile o relembrou
silenciosamente. Foda-se o piloto ao seu lado.
Ou não. Quando percebeu a presença de Alexandre
Duarte ao seu lado, o cara ergueu as sobrancelhas.
Enquanto aproximava-se com um sorriso no rosto,
Alexandre arrumou a postura.
— Quem é esse?
— Um cara que me deve.
— Você vende drogas?
— Não, mon chéri — resmungou, com uma careta. —
Trabalho em uma oficina.
— Oi, cara. Eu não sabia que era amigo do Duarte —
o cara disse, em francês, ao se aproximar. A expressão
confusa do piloto ao ouvir o próprio sobrenome, mas não
entender o resto, apenas confirmou que ele não
entenderia uma palavra sequer em sua língua materna.
Basile puxou o cara para se afastarem dali. — Quanto eu
te devo mesmo?
Fácil assim, por causa de um cara da Fórmula 1?
— Cinco.
— Quinhentos?
Basile sorriu.
— Você é engraçado. Mil, cara. É a porra de um
Bugatti.
— Você nem fez tanta coisa assim — o cara
devolveu, mas tirou a carteira do bolso. Basile poderia
perder tempo explicando por que a simples troca de óleo
de um carro como aquele era tão cara, mas não o faria.
Não quando o estresse não valeria de nada. Ao receber o
dinheiro em suas mãos, após uma demora que parecia
extremamente desnecessária para a contagem de
dinheiro, ele checou rapidamente as notas antes de virar-
se novamente para dar o fora dali.
— Escuta, será que o seu amigo poderia assinar o
meu boné? — o cara perguntou, chamando a sua
atenção.
Basile franziu o cenho, o encarando por alguns
segundos antes de responder.
— Não. Vaza.
Amigo. Poupe-me. O que diriam se soubesse que
Duarte havia acabado de conhecê-lo e já estava o
convidando para transar?
O piloto de Fórmula 1 ainda o esperava no mesmo
lugar, embora conversasse com um rapaz que se
aproximou dele. Uma conversa casual, ao que parecia,
mas Alexandre parecia louco para sair dali.
Basile não conteve um sorriso em diversão quando
percebeu o motivo ao se aproximar. O rapaz, quem quer
que fosse, parecia esperar que Alexandre entendesse a
sua mistura terrível de francês e inglês. E não era como
se o brasileiro não tentasse, porque parecia se esforçar.
Um movimento simpático, já que Basile apenas mandaria
o cara embora se estivesse no lugar dele.
— Ele tem que voltar para o hotel agora, sinto
interromper — disse, gesticulando para que ele se
afastasse. — Treino amanhã. Classificatórias. Que seja.
— O que você disse? — Alexandre perguntou, quando
o fã se afastou após um high-five conformado.
— Que a estrelinha precisa voltar pro hotel e dormir.
Alexandre colocou as mãos nos bolsos, dando de
ombros.
— Eu não disse que faria isso depois daqui.
— Não vou perguntar o que você tinha em mente
porque, sinceramente, eu não ligo.
— Ouvi dizer que você ajuda com as entregas de vez
em quando. Deixei umas cinco cervejas pagas com o seu
amigo, você pode levar no meu hotel?
Basile o fitou, chocado. O rostinho dos sites e páginas
de fofocas e que estampava as principais notícias do
automobilismo umedeceu os lábios enquanto esperava
por uma resposta.
Não era uma grande coisa para ele, obviamente. Não
se conheciam. Alexandre não dava a mínima para quem
Basile era — embora devesse, mas não seria ele a
começar aquele assunto ali, quando menos tinha
paciência para falar de suas questões familiares. Ele
queria alguém que o fizesse curtir a noite. Basile se
perguntou se era algum tipo de hábito em todos os
países para onde ele ia.
E, no fim, por mais que olhar para aquela figura
bonita trouxesse a mesma sensação de queimação no
fundo da garganta que sentia em seus momentos ruins,
Basile não podia negar que a curiosidade ainda o fez
hesitar.
— Você é sempre tão insistente? — resmungou,
estreitando os olhos na direção de Moreau, que
observava a cena com um sorriso travesso no rosto.
Desgraçado.
— Só quando eu sei que a pessoa tá evitando algo
que claramente quer.
— Mon chéri, o que você sabe sobre mim?
— Nada, mas eu adoraria que você me chamasse
assim outras vezes.
Bom, foda-se.
Basile desviou o olhar para inspirar profundamente,
balançando a cabeça. Não era como se uma noite
pudesse destruir a sua vida. Alexandre não falaria sobre
aquilo para ninguém, e o próprio francês não tinha
intenção de deixar que aquilo saísse dali.
— Você deixou o endereço do hotel com o Moreau?
— Completo.
— Eu apareço lá em quarenta minutos. Preciso
arranjar algumas coisas e você não é a minha prioridade.
— Preciso do seu nome — ele disse, mais uma vez. —
Sabe, pra liberarem a sua entrada no hotel.
— Baz.
— Baz. — Alexandre desceu o olhar pelo francês,
como se o seu nome desse todo um novo significado a
ele. — Te vejo em quarenta minutos, Baz.
Basile observou o piloto se afastar com o celular de
mãos, não demorando cinco minutos para entrar em um
carro. Quando o viu sumir na esquina, o francês soltou
uma respiração.
No fim, não é como se o seu gosto por encrencas
fosse algo desconhecido.
QUATRO
No elevador, subindo para o penúltimo andar do hotel
onde Alexandre Duarte e sua equipe estavam
hospedados, após uma longa inspeção de segurança
para ter a certeza de que não estava armado ou com
algum tipo de câmera escondida, Basile Beauchene
arrependeu-se de aceitar aquele convite estúpido para
transar com uma celebridade.
Não era o que costumava fazer. Na verdade, Basile
gostava de explorar linhas tênues. A linha tênue entre
dirigir um carro em alta velocidadenas ruas desertas da
França, mas nunca o seu carro, porque jamais correria o
risco de ter um arranhão em sua própria lataria. A linha
tênue de abominar o pai e tudo o que ele representava, e
saber usar os contatos dele para seu próprio crescimento
e carreira própria também.
Transar com uma celebridade como Alexandre Duarte
era dar alguns milhares de saltos afundo após a linha
tênue de se envolver com alguém que não deveria.
Não deveria, mas queria.
Ainda assim, fez uma careta para a sacola com cinco
cervejas em sua mão. Toda a situação — passar por
seguranças, fingir ser um entregador — ainda era
ridícula.
Ele parou na frente da porta 1943, deslizando os
dedos entre os fios escuros para arrumá-los. Checou,
mais uma vez, se tudo parecia no lugar, mesmo que não
tivesse nada além das chaves da moto de Moreau, que
usava para as entregas, e documentos.
Quando considerou deixar as bebidas na porta e ir
embora, ela foi aberta por um Alexandre diferente do
qual estava acostumado a ver.
Veja bem, Basile nunca foi um idiota. Ele, como
ninguém, sabia que celebridades e figuras públicas
mantinham uma aparência e modos para a mídia. Mas
Alexandre era conhecido por estar sempre carregado de
anéis chamativos nos dedos, correntes grosseiras no
pescoço e brincos prateados ou dourados. Roupas
escuras que, apesar de seguirem um estilo próprio, ainda
pareciam sempre condizentes com a moda do momento.
Alexandre não era apenas uma referência a ser
constantemente citada no automobilismo, como também
uma figura presente no mundo da moda, do
empreendedorismo e até do cinema. Boa parte disso
graças aos seus pais, principalmente. Depois, às suas
amizades.
Aquele Alexandre Duarte que atendeu à porta
parecia o tipo de universitário que moraria no complexo
de estudantes em que vivia. Cursaria qualquer curso da
área de humanas e sairia aos finais de semana para
assistir filmes, jogos e beber com amigos. Uma pessoa
reservada, caseira. Parecia recém-saído do banho, o
cabelo úmido desajeitadamente arrumado para trás, a
ausência de uma camiseta chamando a sua atenção para
algumas poucas tatuagens em peito e braços.
— Você sabe que ligaram para avisar que estava
subindo, certo? — ele perguntou, afastando-se da porta
aberta para que entrasse. O piloto voltou na direção de
uma música baixa que tocava sobre a mesinha de centro
da saleta do quarto de hotel. Basile ficou um pouco
dividido entre prestar atenção no piloto ou no quarto.
No seu mundo, quartos de hotéis eram cama,
banheiro e só. Não mais de um cômodo.
De qualquer forma, o que realmente captou seu olhar
foi o rapaz de cabelos mais escuros que o esperado e
com uma organização impecável – pôde perceber pelas
mudas de roupa separadas sobre o sofá e, se estivesse
certo em suas contas, para cada dia de sua estadia ali.
Além disso, Alex tinha uma cintura que denunciava que
era uma parte do corpo a qual ele trabalhava na
academia. Aquilo definitivamente chamou a sua atenção.
Por um segundo, Baz se viu genuinamente confuso entre
subir um pouco aquela calça de pijama, para recobrar a
sua atenção em outros aspectos, ou fazê-lo livrar-se dela
de uma vez.
— Pra ser sincero, eu achei que você não viria. —
Alexandre se aproximou, inclinando-se na sua direção
apenas para pegar as cervejas da sua mão. — Oi.
— Oi. — Baz observou Alexandre beber um pouco da
cerveja, ainda sem fazer um movimento na sua direção.
— Me dá o seu celular.
— Certo. Eu vou salvar no seu celular, ou…
— Eu falo do aparelho, não do seu número.
Baz ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Precaução — Alex disse, simplista. — Em termos
oficiais, eu deveria te fazer assinar um contrato que te
obriga a ficar de boca fechada sobre tudo isso. Mas não
estou com a menor paciência para lidar com aqueles
papéis, e você também não parece gostar disso.
— Eu não ganharia nada te tirando do armário, cara.
— Na verdade, você poderia ganhar muita coisa.
Acredite em mim, já tentaram antes. — Alexandre
estendeu a mão, insistindo silenciosamente para que Baz
entregasse o celular. Mas nem fodendo. Ao perceber a
expressão de Basile, o piloto suspirou. — Olha, eu vou
me sentir mais seguro assim. Não é nada pessoal.
— Eu não vou te entregar o meu celular. — Baz tirou
o aparelho do bolso, deixando-o sobre a mesinha perto
da entrada. — Você pode ver que eu não estou gravando
nada, mas vai ficar onde eu possa ver. Mais uma vez, eu
não ganharia nada te tirando do armário além de dor de
cabeça, e eu odeio dor de cabeça na minha vida.
Como se estar ali já não tivesse potencial para fazer
a sua cabeça explodir.
— Tudo bem — Alexandre assentiu, umedecendo os
lábios antes de beber um longo gole da cerveja outra
vez. — Foi mal, eu não costumo fazer isso.
— Transar?
— Porra, não. Transar com desconhecidos — o piloto
falou como se a possibilidade anterior fosse ridícula,
balançando a cabeça.
— Só homens ou mulheres também?
— Desconhecidos em geral. — Alexandre revirou os
olhos. — Tem certeza de que não é jornalista?
Baz mordeu um sorriso, deixando as bebidas sobre a
bancada da pequena cozinha do quarto – uma cozinha
em quarto de hotel, porra – e se aproximou de onde o
piloto estava recostado.
— Gosto das suas tatuagens — o brasileiro
completou. Baz podia notar um sotaque no seu inglês.
Não brasileiro, aparentemente. Talvez mais próximo do
australiano. O que fazia sentido, se considerasse que
seus pais moravam lá. — Quantos anos você tem?
— Vinte e dois.
— Legal. Eu vou te chupar.
— Ah, ótimo — Baz disse aquelas palavras antes de
realmente processar que foram ditas. O loiro já estava
ajoelhado na sua frente depois de deixar a cerveja de
lado.
Alexandre Duarte estava ajoelhado na sua frente, e o
olhava como se pedisse permissão para continuar com o
que pretendia.
O que Basile esperava? Um bate-papo digno antes de
começarem? Não que se importasse, mas era óbvio que
alguém como o piloto também não se importaria.
Baz aproveitou a deixa para livrar-se da própria
camisa, atraindo o olhar curioso de Alexandre para o
peito tatuado. Tinha a impressão de que, se deixasse, ele
faria uma lista de todas as figuras espalhadas pelo seu
corpo só para passar o tempo.
Em vez disso, ele se inclinou na direção da
protuberância em sua calça, não quebrando o contato
visual enquanto pressionava os lábios sobre o tecido
Moreaus. Alexandre fez o mesmo movimento duas ou
três vezes antes que a mão de Basile se prendesse ao
seu cabelo, puxando suavemente.
— Você precisa de ajuda para abrir um cinto, mon
chéri?
Em vez de responder, Alex sorriu e umedeceu os
lábios com a ponta da língua.
Ele se inclinou para abrir o cinto, seguido pela calça.
Com a boca. Alexandre o fez com um sorriso novamente
convencido, como se não estivesse se preparando para
um boquete, mas para vencer uma corrida. Baz ficou um
pouco hipnotizado pela facilidade com a qual o brasileiro
fez tudo aquilo enquanto o olhava, e precisou alcançar a
cerveja que deixara na escrivaninha ao lado para molhar
a boca subitamente seca.
Parando para pensar, toda a situação parecia irreal
demais. Deveria esperar que fosse algum tipo de
pegadinha e ele seria o cara arrancado pra fora do
armário para a família?
Não que já não imaginassem de alguma forma, mas
não era a lembrança ideal para o momento.
Baz deixou escapar um arquejo rouco quando a
língua do piloto o percorreu, da base até a ponta. Ele
provavelmente xingou algo em francês também, porque
Alexandre soltou uma risadinha antes de envolvê-lo com
a boca.
Duarte o lambeu e o chupou, usou a ponta da língua
para provocá-lo até a borda de um precipício frio. Mesmo
com os dedos de Basile presos com força aos cachos
castanhos, o piloto parecia extremamente confortável na
posição. E era extremamente irritante que ele parecesse
saber tão bem o que fazer. Ou, se não sabia, tinha
coragem o suficiente para testar o que o fazia reagir
mais.
Basile queria descobrir algo que Alexandre Duarte
não sabia fazer. Uma fraqueza,um medo. Tanto faz. Não
era possível que ele realmente fosse tão bom e resiliente
em tudo.
— Merda, pare. — Baz o puxou para trás. — Porra.
— Precisa de uma parede pra se apoiar? — Alex
provocou, inclinando a cabeça para o lado.
— Tais-toi.
— Eu não sei o que isso significa.
— Significa cale a boca. Vá para a cama.
Alexandre limpou a boca com as costas da mão antes
de se pôr de pé. Enquanto Baz terminava de se livrar da
calça, tênis e meias, o brasileiro o fitou atentamente,
deslizando os olhos pelas tatuagens mais uma vez. Baz
estava a um passo de mostrar cada uma
individualmente, só para matar a curiosidade dele.
Depois, talvez.
— Essa calça é ridícula. Tire — resmungou,
apontando para o tecido de moletom que deixava demais
para a imaginação.
— Por que você não tira? — Alex se apoiou na cama
sobre os dois cotovelos, usando uma mão para afastar os
fios rebeldes do rosto.
Basile balançou a cabeça ao se aproximar, pairando
sobre o corpo do brasileiro. Tempo o suficiente para que
seu cérebro finalmente notasse uma única corrente no
pescoço de Alexandre, menor e mais fina que as outras
que costumava usar – um crucifixo prateado quase
imperceptível. Se ele fosse um cara religioso, tudo aquilo
se tornaria irônico demais.
Alex levou a boca até a sua. Ele parecia relaxado,
cheirava a sabonete natural, um tom claro de verde e…
pêssego. Baz precisou de um segundo para processar a
nova sensação antes de retribuir, ainda pressionando o
joelho entre suas coxas. Alex, que já não estava em seus
melhores momentos de racionalidade, precisou recuar
para inclinar a cabeça para trás e soltar um gemido que
mais se pareceu com um choro. Aproveitando o espaço,
Baz deslizou uma mão pela sua nuca e segurou os fios
bagunçados para fazer que o piloto o olhasse.
— Porque você vai fazer como eu disser. — Ele se
aproximou para mordiscar o pescoço de Alex,
percebendo o quanto o rapaz se arrepiou com o contato.
Sensível, bom. — Do jeito que eu disser. Tire a calça, mon
chéri.
Dessa vez, Alex o fez sem nem hesitar. Com a
respiração irregular, o loiro usou uma mão para livrar-se
da última peça de roupa. E apesar da mão de Basile em
sua nuca, se inclinou para beijá-lo mais uma vez.
Frenético e bagunçado, porque era impossível fazer
qualquer coisa direito quando seus quadris estavam
pressionados um contra o outro, a fricção mínima sendo
o suficiente para fazer com que um alarme tocasse em
alto e bom som na cabeça de Baz.
Estar ali era tão errado.
E Alexandre provavelmente concordaria com ele se
soubesse de tudo.
Se Baz tivesse o mínimo de senso, teria contado
sobre o seu sobrenome. Teria dito que estavam mais
próximos um do outro do que ele imaginava, e…
Jesus, ele estava com a mão no seu pau.
O piloto o masturbou com uma lentidão que poderia
ser considerada uma tortura. Baz o olhou, e o rosto
corado e os lábios dele inchados não eram de muita
ajuda também.
Naquela situação, onde Alexandre Duarte se parecia
com qualquer coisa exceto a figura de sorriso plastificado
que tentava ser em público, Basile podia quase entender
como as pessoas eram tão fascinadas por ele. Quase.
Baz não pensou muito sobre isso antes de deslizar
dois dedos entre aqueles lábios, e Alex também não
pensou muito para chupá-los. A sensação de estômago
revirado se intensificou, mas não de uma forma negativa.
A verdade era que Basile gostava de sexo. Se aquele
cara era uma celebridade ou não, pouco importava,
porque esperava nunca mais ter que trocar uma palavra
com ele. Baz gostava de estar no controle, e Alex parecia
disposto a entregar o que quisesse tomar dele desde o
começo.
Era ridículo. Impossível resistir. Sinceramente,
ninguém poderia julgá-lo por acabar no quarto de um
hotel chique com aquele cara.
Alex parou, arfando quando Basile desceu a boca
pelo seu pescoço, e soltou um gemido estranho quando
seu mamilo foi chupado, mas Baz gostou do som que ele
próprio arrancou do piloto. A mão de Alex envolveu o seu
cabelo tremulamente, em uma tentativa de guiá-lo para
onde queria que ele o tocasse. Com a mão, com a boca,
com o que ele quisesse. Alexandre só queria que Baz o
tocasse.
Ao invés disso, Basile passou a língua pela região
acima da sua virilha, na entradinha que o fez perder o ar
quando entrou naquele quarto e o viu usando apenas
uma calça larga.
Era quase satisfatório ver a mesma reação em
Alexandre.
Ele se ergueu novamente sobre os cotovelos para
fitá-lo. Parecia ter desistido de tentar manter o cabelo
minimamente arrumado, porque alguns fios caíam pela
sua testa e não pareciam ser um problema.
Então Baz chegou lá, bem onde ele queria, e
Alexandre não levou muito tempo para deixar as costas
caírem na cama novamente. Tentou mover o quadril para
ditar algum tipo de ritmo, mas Basile o manteve no lugar.
Não era como se Alexandre não pudesse movê-lo dali se
realmente quisesse, mas ele parecia disposto a deixar a
vitória de lado por algum tempo. Baz diria bom garoto só
pelo prazer de irritá-lo de alguma forma, mas também
não era como se quisesse acabar com aquilo.
Ele desceu dois dedos pela parte interior de sua
coxa, descendo em outra direção, e…
— Puta merda, não. Pare — Alexandre disse, quase
apressado demais. Baz parou, o medo súbito de ter
cruzado alguma linha estranha de Alexandre entre um
boquete e alguns dedos. Mas Alexandre não parecia
estar em um momento ruim. Muito pelo contrário. —
Merda. Desculpe.
Baz franziu o cenho.
— Por…?
— Não podemos… ir além. — Para alguém que
mostrou ter uma boca tão suja nos últimos minutos, o
rosto corado de vergonha tornou o momento um tanto
mais estranho.
— Você nunca fez isso, Alexandre?
— O quê?! Eu não sou virgem! — Alex franziu o
cenho, ainda recuperando a respiração. — É só… Eu não
quero aumentar seu ego.
— Diga de uma vez.
— Não quero ficar dolorido. Seria ruim pilotar assim.
Sabe, prioridades.
Baz piscou, atônito. Depois, ele riu. Sequer tentou
segurar a risada.
Porque era cômico que não pudessem continuar
simplesmente pelo medo de Alexandre com a
possibilidade de acordar dolorido. Foda-se, aquilo
aumentava o seu ego pra caralho.
— Vá a merda — Alex resmungou, tentando empurrá-
lo com o pé. Mas Baz segurou a sua perna, inclinando-se
para beijá-lo mais uma vez.
Deslizou os lábios pela parte interior de sua coxa,
subindo gradativamente.
O fez até que o brasileiro parecesse relaxar mais
uma vez, porque o momento parecia tê-lo deixado
subitamente tenso demais. Basile o mordeu e puxou, o
tocou com as mãos e a língua. Até que Alexandre Duarte
voltasse a ser a bagunça de antes, a conversa estúpida
tornando-se apenas uma lembrança estúpida.
Pêssego. Basile ainda sentia o gosto de pêssego.
— Quero que você me chupe outra vez — disse,
afastando a boca da dele antes que se tornasse algo
grande demais para que pudesse ignorar, e Alex
assentiu. — Depois, talvez eu deixe que você goze
também. Se você merecer, mon chéri.
CINCO
Alexandre soltou uma respiração pesada ao tirar o
rosto da vasilha com água e gelo na sua frente.
— Merda — resmungou, usando o controle por voz
para desligar a música ridícula que Ivan indicava sempre
que precisava relaxar antes de ir para a pista.
Não tinha um motivo específico para estar tão
nervoso. Não um motivo real, pelo menos.
Nenhum além da sua ressaca moral. Depois de
explorar um completo desconhecido com a boca pelo que
pareceu ser uma noite inteira. Deixar-se ser tocado como
não fazia há tempos e observá-lo sair do quarto com a
naturalidade de quem só foi até ali para entregar
algumas cervejas. Alex estava absorto demais na
sensação de ser levado ao limite mais vezes do que
achava ser humanamente possível, apenas para ser
atingido pela consciência de que ultrapassara uma linha
segura.
Estar em um bar onde corridas ilegais aconteciam já
era demais – embora, precisasse admitir, Palladium era
incrível. Chamar um desconhecido faria sua equipe de
gerenciamento de imagem inteira se demitir.
Porque, bem,