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Texto 02 - A Clínica do Trauma 
 
TEMA 1 – As neuroses traumáticas de guerra e o fort-da: a pulsão de morte em 
cena para o entendimento do trauma 
TEMA 2 – A importância da compulsão à repetição 
TEMA 3 – A angústia como excesso de afeto não elaborado psiquicamente 
TEMA 4 – A primeira forma de entender a angústia: a angústia como posterior 
ao recalque 
TEMA 5 – A angústia em inibição, sintoma e angústia, de 1926: angústia e 
trauma 
 
Conversa inicial 
A visão econômica do psiquismo e a importância do irrepresentável para a clínica do 
trauma 
Até aqui, trabalhamos o percurso percorrido por Freud naquilo que chamamos 
de teoria do trauma. Inicialmente, Freud entende a questão dessa forma: um certo 
acontecimento, afeto, impulso muito intenso, que o sujeito não teve condições 
psíquicas de elaborar/incorporar ao seu psiquismo, produz um efeito 
traumático, gera um movimento de repressão (que é emanado pelo eu), que por 
sua vez leva ao recalque e, com isso, à formação do sintoma. O trauma, então, 
seria a causa do adoecimento neurótico/histérico do indivíduo e essa é a base da 
neurótica freudiana. 
A partir do momento em que Freud se atenta para a origem sexual desse 
conteúdo traumático e para o papel que esse conteúdo proveniente principalmente 
da sexualidade infantil tem no inconsciente do indivíduo, ele estabelece a sua teoria 
da sedução. Ele propõe, nesse momento, que a pessoa adoecida (traumatizada) 
haveria sofrido abuso (ou algo similar) por parte de um adulto e que essa 
experiência seria aquilo que deixaria o sujeito traumatizado. Passa a entender 
também o trauma como algo que acontece em dois tempos: num primeiro momento, 
o sujeito sofre o golpe e não tem condições de dar o sentido/elaborar a experiência 
vivida; e, num segundo momento, que remete ao primeiro, o sujeito já tem mais 
possibilidades de dar sentido à experiência e se entende abusado. 
 
A teoria da sedução logo é abandonada, pois, para que se levasse essa ideia 
adiante, dever-se-ia presumir que as famílias normalmente possuíssem pessoas 
abusadoras, e essa generalização é um tanto complicada. Nesse ponto, a noção de 
realidade psíquica torna-se muito importante e cede terreno à noção de fantasia. 
Não importava mais, portanto, que houvesse o abuso real ou não, mas sim as 
impressões particulares e aquilo que o sujeito significou das experiências sexuais 
vividas. Haveria, então, a fantasia do abuso/sedução. Entretanto, com o avanço das 
ideias que sustentavam a formalização de topologia psíquica – na passagem da 
primeira para a segunda tópica, principalmente –, Freud percebe que uma visão de 
economia psíquica era também muito importante para a compreensão do trauma. 
Para o entendimento do funcionamento do sintoma, além dos aspectos 
topológicos, ele nos evidenciou que o psiquismo funcionaria regido por um 
mecanismo importantíssimo: o princípio do prazer. O princípio do prazer seria a 
busca pela homeostase psíquica (excitação demais e excitação de menos seriam 
sentidas como desprazeres e poderiam deixar registros de trauma no psiquismo do 
indivíduo). Além disso, ele entende que a força que rege o psiquismo é a libido. 
Num primeiro momento, ele entende que, para que haja a vigência do princípio do 
prazer, a libido deve se dirigir tanto para o próprio eu (autopreservação) quanto para 
os objetos (o investimento em objetos impede que o psiquismo fique inundado e, 
com isso, produza no indivíduo a sensação de desprazer). 
É com o atendimento às neuroses (traumáticas) de guerra e com o 
aprofundamento da compreensão sobre o sintoma (a compulsão à repetição) que, 
em 1920, Freud (2010a) muda sua concepção sobre o funcionamento econômico do 
psiquismo e postula a existência de duas forças psíquicas que regeriam o 
psiquismo: a pulsão de vida e a pulsão de morte. A pulsão de morte iria em direção 
à aniquilação e à destruição e procuraria o nível zero de tensão psíquica (estado 
nirvânico). Com isso, Freud também muda sua compreensão sobre a angústia e 
essa mudança também gera alterações na forma de se entender a questão do 
trauma. Tenha um bom estudo! 
 
TEMA 1 – AS NEUROSES TRAUMÁTICAS DE GUERRA E O FORT-DA: A 
PULSÃO DE MORTE EM CENA PARA O ENTENDIMENTO DO TRAUMA 
Favero (2009) nos diz que, com base nas primeiras formalizações de Freud 
acerca do funcionamento do psiquismo (a questão do inconsciente, do recalque 
etc.), pode-se concluir que a relação estabelecida entre o trauma e o sintoma nos dá 
subsídios para afirmar que ele seria a forma encontrada pelo inconsciente para 
obter satisfação e trazer à tona (e de volta) o conteúdo traumático, mesmo que esse 
conteúdo pertença ao campo da fantasia. A formação sintomática seria como uma 
atualização do trauma, fazendo aflorar os conteúdos libidinais do sujeito, que, em 
momento muito anterior, por lhe gerarem um conflito ético e moral, precisaram ser 
esquecidos, recalcados. 
A autora (Favero, 2009) ainda nos situa que, no período em que Freud 
estabelece a sua neurótica, tem-se uma concepção de que as fantasias funcionam 
como fachadas psíquicas diante dos eventos que são realmente importantes na 
etiologia das neuroses (os conteúdos e impulsos provenientes da sexualidade 
infantil), que estariam ocultos, à primeira vista, cifrados pelo sintoma. Freud, nesse 
momento, entende o papel crucial e a importância da fantasia e da realidade 
psíquica e se preocupa menos com reencontrar elementos realmente ocorridos 
(factuais), que poderiam estar na base da irrupção de um quadro histérico, 
preocupação que tinha no início das suas investigações sobre a histeria. Nesse 
momento de suas elaborações, ele já se dá conta de que o acontecimento 
concebido como desencadeador da neurose pode ser um elemento imaginário, que 
provoca o trauma. 
Ainda sobre a formação e a importância do sintoma, Vitorello (2015) nos 
assinala que a pulsão tem uma busca imperativa por satisfação, e a forma como ela 
a encontra é por meio daquele que seria o derivado mais importante da fantasia: o 
sintoma. Segundo o autor, a fantasia funciona como um tipo de matriz ou script que 
fixa a forma com a qual o sujeito se relaciona com o real. Determina, por exemplo, 
sua forma de se relacionar e suas escolhas pulsionais e de objeto. Sintetizando, a 
fantasia é uma forma de organizar a relação do sujeito com uma realidade que a 
própria fantasia transforma. Trauma e fantasia, nesse início das formulações de 
Freud sobre o tema, portanto, estão profundamente interligados. Mas, com as 
 
observações e reformulações de Freud acerca do aparelho psíquico (a transição da 
primeira para a segunda tópica, por exemplo), entram em cena novas concepções, 
agora com alguma ênfase na economia psíquica, que é crucial para o entendimento 
do impacto do trauma, no psiquismo. 
De acordo com Favero (2009), a ideia de trauma retorna modificada entre os 
anos 1915 a 1929. Essa nova forma de entender a questão acabou sendo imposta a 
Freud devido aos casos de neurose traumática pós-guerra, que resultavam de 
acidentes dolorosos recentes e que, aparentemente, não tinham nenhuma relação 
privilegiada com objetos sexuais, concepção primordial em seu primeiro 
entendimento da questão. Freud, a partir daí, passa a entender que os sintomas 
provenientes do trauma (com base nas neuroses de guerra) resultam de uma 
fixação no momento do acidente traumático. O momento traumático/acidente passa 
a ser reeditado nos sonhos e a ressurgir em ataques histeriformes, ataques esses 
que transportam o sujeito, de forma repetitiva, para a situação do trauma. Sendo 
assim, não seria mais uma questão de se impedir o aparelho psíquico de ser 
tomado por grandes somas de excitação; há uma outra tarefa que se faz mais 
importante: dominar a excitação e ser capaz de estabelecer ligações psíquicas nas 
somas de excitação que penetraram de maneira abrupta no indivíduo, para levá-las, 
em seguida, à liquidação. 
[...] o desprazer do neuróticonão passa de um prazer que não 
pode ser sentido como tal. A transformação de uma situação 
prazerosa em desprazer perceptivo seria de responsabilidade 
do princípio da realidade. Resta esclarecer o que confere 
benefício à atualização do evento traumático sob a forma de 
sintoma. O que faz um sujeito recordar o que, em princípio, é 
um acontecimento doloroso, se o aparelho psíquico é 
orientado, em seu funcionamento, pelo princípio do prazer, que 
supõe a evitação do desprazer? (Favero, 2009, p. 322) 
A questão principal, aqui, seria: por que revivemos experiências claramente 
desprazerosas se o psiquismo funciona regido pelo princípio do prazer? Por que o 
conteúdo traumático volta através dos sonhos, dos sintomas e da repetição? Como 
isso deve ser conduzido e compreendido, clinicamente? Seja essa repetição a 
 
repetição de um ato, de um sonho ou do próprio sintoma, é como se o trauma não 
cessasse de tentar se inscrever no psiquismo, de alguma forma. Com esses 
questionamentos e a importante passagem anterior de Favero (2009), seguimos 
para o próximo item de nossa etapa. 
TEMA 2 – A IMPORTÂNCIA DA COMPULSÃO À REPETIÇÃO 
De acordo com Presa (2016), até o momento em que Freud postula a existência 
da pulsão de morte, o que importa, em sua visão a respeito do psiquismo, é o 
equilíbrio das pressões pulsionais que existem nele, e esse equilíbrio se daria por 
intermédio de ações que protegessem o aparelho psíquico dos excessos 
energéticos. A autora (Presa, 2016) ainda pontua que o princípio do prazer é a 
busca de satisfação com base numa descarga energética imediata e funciona nos 
moldes do processo primário (inconsciente); já o princípio da realidade funciona nos 
moldes do processo secundário (consciente) e retém essa livre descarga 
transformando a energia livre em energia ligada, sob o domínio das representações. 
Ela afirma que não se pode dizer que “[...] o princípio do prazer não se opõe 
definitivamente ao princípio de realidade, já que ambos buscam a satisfação e se 
prestam a lidar com esse acúmulo energético que se tornou insuportável.” (Presa, 
2016, p. 72). Ainda nesse primeiro momento, antes que Freud postulasse a 
existência da pulsão de morte, entendia-se que: 
[...] para o bom funcionamento do aparelho psíquico [...]: i) o 
princípio do prazer fosse modificado pelo princípio 
derealidade; ii) o recalque agiria sobre as pulsões que 
comprometeriam a integridade egoica; iii) as pulsões 
recalcadas buscariam atingir suas metas de satisfação por 
viassubstitutivas e, consequentemente, a satisfação seria 
vivenciada como desprazer, graças à ação do recalque. 
(Presa, 2017, p. 73) 
Nesse momento, Freud se atenta para o fato de que tal explicação dada para a 
dinâmica psíquica não era suficiente para explicar o que acontecia com alguns dos 
 
pacientes, que pareciam manifestar sofrimentos de outra ordem e extrapolavam 
essas variações do eixo prazer-desprazer em tais manifestações. Em Além do 
princípio de prazer, de 1920, Freud (2010a) escreve sobre suas observações e 
dificuldades no atendimento dos quadros das neuroses traumáticas de guerra. O 
manejo/condução e a compreensão clínica desses casos de trauma pós-guerra 
extrapolavam a compreensão de neurose da psicanálise, até então. Sobre essa 
questão, Presa (2017, p. 73) ainda contribui afirmando que: 
Essas patologias, assim como as manifestações masoquistas, 
autoataques e reações terapêuticas negativas sobre as quais 
o autor discorre, constituíam verdadeiros obstáculos à 
efetividade do tratamento analítico e confrontavam o autor com 
seu postulado de que ‘o que é prazer para um sistema é 
desprazeroso para o outro’. Nesses casos, ficava cada vez 
mais evidente que se tratava de algum tipo de determinação 
no aparelho psíquico que condenava o sujeito a repetir um 
sofrimento que nunca trouxera satisfação e, que, portanto, 
estava além da repetição dos desejos inconscientes 
recalcados orquestrados pelo princípio de prazer. Como 
explicar, então, o caráter “demoníaco”, bizarro, representado 
na compulsão à repetição, se o próprio princípio de prazer não 
promovia tal inteligibilidade? 
Com base nisso, podemos focar nesse outro aspecto importante que leva Freud 
a repensar a dinâmica do princípio do prazer e a teoria da libido, que é o fenômeno 
da compulsão à repetição. Com a observação da brincadeira infantil do fort-da, ele 
se atenta a que, no psiquismo, nem tudo o que acontece vai pela via da evitação do 
desprazer. O jogo do fort-da baseou-se na observação de Freud de uma brincadeira 
de seu neto, constatando que o menino realizava, por meio da brincadeira, a 
repetição de uma experiência vivida como desprazer, que era a ausência de sua 
mãe. O menino jogava o carretel e emitia o som de ôôô..., identificado por Freud 
como a palavra alemã fort (longe, ausente); e, quando o puxava de volta, 
alegremente dizia aaa..., identificado como da (cá, aqui). Esse jogo evidencia uma 
 
brincadeira de desaparecimento e retorno, que faz referência à ausência e à 
presença materna. 
Ainda com relação à questão da compulsão à repetição, Barbosa Neto (2010) 
nos situa que, na primeira tópica, Freud se volta para a interpretação do 
inconsciente e a revelação do conteúdo recalcado, e é assim que a repetição 
adquire sua relevância clínica. A preocupação, ali, era desvelar o momento do 
trauma e como se construiu o sintoma. É a partir da segunda tópica – com a 
introdução do conceito de pulsão de morte – que a repetição adquire caráter 
compulsivo e entra em cena uma dimensão irrepresentável da pulsão. 
Agora o interesse de Freud é no sentido de um trabalho 
psíquico com fins de ligação de representações: diante da 
impossibilidade da recordação e/ou “localização” da cena 
traumática, a atenção se dá em relação a todos os eventos 
psíquicos que possam minimizar o caos gerado por afetos sem 
representação, e que ameaçam a estabilidade da vida 
psíquica, gerando sofrimento. (Barbosa Neto, 2010, p. 9) 
Podemos associar a pulsão de morte àquilo que não possui representação 
psíquica, àquilo que se expressa somente por ação e impulso. Fica evidente, aqui, a 
importância, portanto, da questão da pulsão de morte para o trauma: ela nos traz à 
tona o que há de irrepresentável, no psiquismo. E a falta de recursos simbólicos e 
de representação psíquica é o que define se o trauma ocorrerá ou não. 
Outro tema bastante importante para a compreensão da teoria do trauma em 
Freud é a angústia, cuja compreensão também é reformulada por Freud após a 
virada de 1920 e a formalização da existência da pulsão de morte. Seguimos com o 
que Freud falou sobre a angústia e as suas relações com o trauma, nos itens a 
seguir. 
TEMA 3 – A ANGÚSTIA COMO EXCESSO DE AFETO NÃO ELABORADO 
PSIQUICAMENTE 
 
Segundo Pisetta (2008), o afeto pode ser caracterizado e definido como algo 
que vem à consciência e provoca uma sensação; logo, algo que se sente. 
Entender a angústia, sobretudo, como um afeto nos revela a importância de que, 
como clínicos, não a consideremos apenas como algo que surge como 
consequência do processo de recalcamento que gera o sintoma; mas como algo 
que, acima de tudo, nos afeta. Essas ideias ficarão mais claras no decorrer de 
nosso conteúdo; mas, o que precisamos saber, primeiramente, é que a angústia é 
difícil de ser definida. 
Num primeiro momento de suas construções teóricas – na obra freudiana, 
partindo dos rascunhos e incluindo os artigos em que Freud discute a questão das 
neuroses atuais (melancolia, neurose de angústia e neurastenia) e as 
psiconeuroses de defesa –, Freud entende inicialmente que a angústia é uma 
tensão sexual que não encontra as condições suficientes nem as vias satisfatórias 
para que haja a inscrição psíquica/ligações psíquicas desse afeto. Essas 
explicações são provenientes das tentativas de Freud de formalizar e sistematizar 
aquilo que conhecia do fenômeno da histeria, mas sempre levandoem conta que 
outros fenômenos (os citados anteriormente, por exemplo) também se 
apresentavam em termos de adoecimento psíquico. 
Pisetta (2008) nos diz que, para Freud, além da produção clara da sensação de 
desprazer, a angústia vem acompanhada quase sempre de sensações físicas 
(dificuldades de respirar e coração acelerado, por exemplo, típicos sintomas da crise 
de pânico). A autora ainda nos afirma que Freud – devido às observações da 
ligação profunda entre angústia e corpo – considera também um ponto de vista 
filogenético para a compreensão da angústia, ou melhor, uma explicação que leve 
em conta os aspectos evolutivos da espécie. O protótipo (ou modelo) de situação 
em que isso ocorreria seria o trauma do nascimento. Ou seja, a primeira experiência 
de angústia com potencial traumático para o ser humano é o nascer. Os estados de 
angústia seriam, por esse prisma, uma reprodução de tal evento traumático. 
Por este último, ganha importância a apreciação do caráter 
econômico na teorização da angústia, já que há uma 
intrínseca relação entre a descarga afetiva (que caracteriza a 
angústia) e a inervação motora a fisiologia da angústia, 
 
encontraremos um aumento de excitação que encontra seu 
alívio em uma descarga motora. Em última instância, é na 
angústia que o ato encontra sua força energética. (Pisetta, 
2008, p. 407) 
De acordo com Caropreso e Aguiar (2015), por outro lado, Freud aponta 
também, nesse momento inicial da teoria, que se fazia presente a hipótese de que a 
angústia consistiria em uma carga libidinal desligada de suas representações por 
meio da repressão, fenômeno esse que ele pode observar com alguma clareza nas 
neuroses de transferência. O que fica evidente para Freud, nesse momento, é que o 
afeto de angústia trata-se de uma reação à sensação de incapacidade de lidar com 
um perigo externo. “A neurose de angústia, por sua vez, surgiria como uma reação 
a uma excitação endógena. Diante da incapacidade de equilibrar essa excitação 
sexual vinda de dentro, ela seria projetada para fora.” (Caropreso; Aguiar, 2015, p. 
6). Essa excitação endógena, que produz a angústia, seria a excitação sexual que 
não pôde ser adequadamente descarregada ou que não encontrou descarga no 
campo psíquico do indivíduo. 
Nesse ponto, podemos perceber uma grande aproximação com a questão do 
trauma, pois, se a angústia é aquele afeto que não conseguiu encontrar nenhum 
tipo de representação psíquica, ela é, por si só, a expressão psíquica principal, no 
campo do trauma. Fica também evidente a sua relação com a questão da pulsão de 
morte: o trauma é aquilo que está na ordem do irrepresentável. Se, justamente, o 
trauma é aquilo que não encontra meios para a representação psíquica, a angústia 
é seu afeto por excelência. Retornemos a como Freud concebeu a angústia em dois 
momentos: antes e depois de 1926. 
TEMA 4 – A PRIMEIRA FORMA DE ENTENDER A ANGÚSTIA: A ANGÚSTIA 
COMO POSTERIOR AO RECALQUE 
Como vimos no item anterior, de acordo com o que foi postulado por Freud, 
inicialmente a angústia era entendida como um excesso de afeto não elaborado 
psiquicamente. O excesso de afeto tornar-se-ia, portanto, angústia. Ao estabelecer 
uma relação entre os afetos e os sintomas, Freud entendeu que a angústia pode 
 
funcionar como a moeda de troca para os afetos: paga-se o afeto indesejável com 
angústia. 
Traçando um retorno histórico sobre a questão, Pisetta (2008) nos afirma que, 
para Freud, desde seus primeiros artigos e suas primeiras investigações sobre o 
fenômeno da histeria, a angústia aparece vinculada ao recalque. A compreensão 
desse primeiro momento é de que a angústia equivale à emergência do recalcado. 
Ela apareceria para o sujeito como decorrente de um processo anterior, bastante 
elaborado, alicerçado na sensação de desprazer (entende-se aqui a sensação de 
desprazer como base do recalque). 
Freud buscava um lugar para a angústia. Esse lugar, como 
entendemos, na primeira tópica, restringe-se à sua 
manifestação fenomenológica, já que ela se mostra, na clínica, 
posterior ao recalque, incidente no momento mesmo do 
recalque secundário. Freud a postula, assim, como um dos 
destinos do afeto, atravessado pelo recalque. (Pisetta, 2008) 
O que temos até aqui, portanto? Que a angústia é entendida como muito 
próxima dos sintomas. Para esclarecer e tornar essa concepção mais 
compreensível, o que temos nos escritos e formalizações iniciais de Freud é que, 
para ele, a angústia era uma consequência da formação sintomática e era também 
sinal de desprazer, no psiquismo. 
O conteúdo indesejável do eu (vinculado a um afeto, sempre), antes recalcado, 
quando não é vivido como o afeto original, transforma-se em angústia (a moeda de 
troca do psiquismo). Ou seja, a angústia, nesse primeiro momento, era uma 
consequência do recalque e do sintoma. A questão da angústia também se encontra 
sempre muito atrelada às noções de Freud sobre as defesas, que nos remetem ao 
trauma. A angústia também pode ser um sinal, um sinal de perigo para que o ego 
não seja inundado por uma excitação. Considere a passagem a seguir: 
Para Freud, uma vez ocorrida tal vivência de dor, quando a 
representação do objeto hostil fosse ocupada novamente, a 
partir de uma percepção ou associação com outras 
representações, ocorreria uma liberação de quantidade no 
 
aparelho que geraria desprazer. Esse processo foi 
denominado de “afeto”. A inclinação à desocupação da 
representação do objeto hostil pela via reflexa foi chamada de 
“defesa primária”. No entanto, Freud observa que a produção 
de afeto pela ocupação do objeto hostil seria prejudicial nos 
casos em que tal ocupação não fosse estimulada a partir do 
mundo externo, mas a partir do interior do aparelho, ou seja, 
apenas a partir de uma recordação. Nas primeiras repetições 
da vivência de dor, seria produzido um afeto intenso e uma 
defesa primária excessiva, de acordo com o modo de 
funcionamento chamado de processo primário. Essa descarga 
afetiva seria, com o tempo, inibida, de modo que a produção 
do afeto passasse a se limitar a um sinal. No entanto, a 
inibição da ocupação intensa da representação do objeto hostil 
seria um processo gradual que pressuporia o estabelecimento 
da excitação em estado ligado. (Caropreso; Aguiar, 2015, p. 
10) 
Caropreso e Aguiar (2015) situam ainda que a angústia surgiria diante do que 
Freud (2006a) chama, no Projeto para uma psicologia científica, de vivência de dor 
e, em Inibição, sintoma e angústia, Freud (2010b) vai tratar como a possibilidade de 
se reviver uma situação traumática anterior, não apenas diante do sinal de um 
perigo atual. Assim, a angústia surgiria também de um processo de rememoração. 
Ao modificar algumas de suas concepções sobre a questão da angústia, Freud 
também repensa algumas questões sobre como funciona o trauma. Passemos, 
então, ao nosso item seguinte. 
TEMA 5 – A ANGÚSTIA EM INIBIÇÃO, SINTOMA E ANGÚSTIA, DE 1926: 
ANGÚSTIA E TRAUMA 
Como pudemos estudar nos itens anteriores, num primeiro momento, Freud 
entende a angústia como resultado de uma energia flutuante, sentida como 
desprazer, em consequência do recalque. Entretanto, ele, de acordo com Klein e 
 
Herzog (2017), num segundo momento, percebe a importância do ego e de seus 
mecanismos de defesa no que diz respeito à angústia. Essa percepção nos coloca 
diante do fato de que o recalque não seria mais o motor da angústia, mas sua 
consequência. 
O que isso quer dizer? Quer dizer que a angústia é que é o motor da formação 
do sintoma e da compulsão à repetição, ou melhor, a angústia é o representante 
afetivo do conteúdo traumático. O trauma seria, também, decorrente da angústia. 
Devido ao fato de o psiquismo ser invadido pela angústia é que o eu se defende e 
se utiliza do mecanismo de defesa do recalque (Freud, 2010c). Essa visão que 
Freud nos proporciona, de suas reflexões sobre a formação sintomática da fobia(principalmente no caso do pequeno Hans), nos traz a ideia de que há mecanismos 
de defesa diante desse afeto e de como é importante o eu, nesse processo todo. 
[...] o interesse de Freud em relação à angústia, na segunda 
teoria, deixa de ser a sua origem e passa a ser a sua função. 
O nascimento torna-se o paradigma desse afeto e o protótipo 
dos efeitos de um perigo real que vem se repetindo na 
filogênese. A função que Freud circunscreve para a angústia é 
a de impedir que esse trauma se repita em toda a sua 
intensidade; logo, de caráter defensivo. Sua função de sinal 
está inscrita neste sentido: esse afeto é ativado como 
prevenção contra uma experiência de invasão pulsional 
traumática que se remete à filogênese. (Klein; Herzog, 2017, 
p. 92) 
Levy e Ceccarelli (2020) destacam que, quando esse sinal defensivo emitido 
pelo eu falha, vem à cena uma dimensão de angústia automática, de ordem 
traumática e marcada por uma invasão pulsional. Freud (2010c) afirma que a 
angústia é a reação original ao desamparo no trauma, e que ela é reproduzida, 
depois da situação de perigo, como um sinal em busca de ajuda. O eu que 
experimentou o trauma agora o repete ativamente/compulsivamente em uma versão 
enfraquecida, como forma de conseguir adquirir algum controle e elaborar aquilo 
que está na ordem do irrepresentável psiquicamente. 
 
A situação traumática e a situação de perigo se distinguem na 
medida em que o Eu aprende a tomar a angústia como um 
sinal. A angústia que, originalmente, foi automaticamente 
deslanchada na situação de desamparo, será depois 
reproduzida como sinal de perigo, graças ao que o Eu passa, 
tal como a criança em suas brincadeiras, da passividade para 
atividade, buscando dominar psiquicamente suas 
experiências. (Levy; Ceccarelli, 2015, p. 145) 
Com essa passagem, fica nítida a importância de o eu ter forças e integridade o 
suficiente para administrar os excessos energéticos do psiquismo. O trauma 
ocorreria quando o eu não tivesse a integridade suficiente para administrar tais 
excessos. Os autores ainda nos situam que, devido ao fato de o psiquismo ser 
inundado por esse excesso energético da angústia na cena traumática, o trauma 
obriga o psiquismo a encontrar outras formas para dar vazão ao excesso produzido. 
“Este excesso só pode ser descarregado através do representante psíquico da 
pulsão. Caso a ligação pulsão-representante não ocorra, a integridade do sujeito se 
vê ameaçada” (Levy; Ceccarelli, 2015, p. 146). 
Em outras palavras: o entendimento da angústia, na segunda teoria da angústia 
de Freud, nos coloca diante da questão de que a angústia é anterior à formação 
sintomática e à compulsão à repetição. A angústia é um sinal, emitido pelo eu, que 
funciona como protetor do psiquismo. Quando o eu não tem integridade suficiente 
para lidar com os excessos energéticos da angústia (por diversos motivos), ocorre o 
trauma. Na etapa seguinte, trabalharemos novamente essa concepção, para, então, 
podermos adentrar o terreno das contribuições de Sàndor Ferenczi à teoria do 
trauma. 
Na prática 
Em nosso conteúdo, pudemos discutir uma questão clínica bastante importante: 
como conduzir clinicamente aquilo que parece que não tem elaboração e se repete 
incessantemente (compulsão à repetição)? Pudemos perceber que, no psiquismo, 
há uma força/impulso – ou melhor, uma pulsão – que se manifesta, e que essa 
 
pulsão estaria mais interessada na aniquilação e na destruição do que na 
sobrevivência. Pode parecer um tanto incoerente, mas, sabendo que na vida mental 
nem tudo é consciente, a existência de uma força psíquica que se manifesta dessa 
forma não é de se estranhar. 
A noção de que há no psiquismo duas forças pulsionais, a pulsão de vida e a 
pulsão de morte, bem como a noção de que o psiquismo tem um funcionamento 
também econômico, e não somente topológico, são de extrema importância quando 
falamos em abordagem clínica do trauma (mas não só do trauma). A pulsão de 
morte, no que diz respeito ao trauma, nos coloca diante daquilo que é o 
irrepresentável. Logo, quando se tratam de questões relativas ao trauma e às 
patologias da ação e da impulsividade, não basta e muitas vezes nem conseguimos 
pedir que o paciente associe livremente ou mesmo fale de lembranças da infância. 
Os recursos simbólicos estão escassos e precisam ser “desenvolvidos”. 
Na condução clínica das questões relativas ao trauma, como veremos num 
momento seguinte, no material sobre Sàndor Ferenczi, muitas vezes só a presença 
sensível do analista é o que importa. O fato de alguém o testemunhar já fornece 
uma organização pulsional importante para o indivíduo. Um exemplo: quando 
estávamos na graduação, participamos de um grupo de apoio a pessoas em luto. 
Esse grupo de apoio funcionava com as pessoas (principalmente mães que 
perderam seus filhos) testemunhando o que haviam sofrido e, com isso, essas 
pessoas se sentiam amparadas/acolhidas e podiam formular uma narrativa sobre a 
experiência vivida. Esse testemunho (que pode ser repetitivo) tem uma função, a de 
poder angariar recursos simbólicos para inscrever a perda (ou o trauma sofrido) no 
psiquismo. Se o irrepresentável da pulsão de morte não cessa de se repetir, é 
importante termos em mente que a repetição também tem um caráter criativo. 
Outra questão bastante importante, até aqui, é a ideia da força do eu. Ela é 
bastante importante para o entendimento da clínica da contemporaneidade. Quando 
o eu não se desenvolve com força narcísica suficiente, adentramos o terreno que 
extrapola a neurose, entramos na clínica dos estados-limite e do trauma. Essa ideia 
ficará mais clara no decorrer do curso. 
 
Retornando à questão da condução clínica da compulsão à repetição, temos 
que ter em mente que, mesmo que a pulsão de morte pareça uma grande vilã, é 
somente com base naquilo que se repete que podemos fazer um trabalho clínico de 
elaboração e criação. A compulsão à repetição tem esse aspecto criativo de que, 
com base nela, seja possível criar e elaborar o conteúdo patogênico. Tendo em 
mente as concepções econômicas do psiquismo e essa noção de que daquilo que 
se repete é possível dar um novo sentido àquilo que gera o sofrimento, tem-se um 
bom atendimento clínico do trauma, empático e espontâneo. 
FINALIZANDO 
Quais conteúdos foram mais importantes para serem absorvidos desta etapa? 
Seguem os principais itens: 
1. A partir dos anos 1920, a noção de economia psíquica se altera. Freud, a 
partir do atendimento prestado a pacientes que apresentavam neurose 
traumática de guerra e interrogando o fenômeno da compulsão à repetição 
(por meio também da observação da brincadeira infantil do fort-da), passa a 
entender que há no psiquismo uma força que extrapola a noção de princípio 
de prazer. Com isso, postula a existência da pulsão de morte. 
2. A pulsão de morte não visaria à sobrevivência psíquica e nem iria ao 
encontro da evitação de desprazer. Ela seria uma força que levaria ao estado 
de excitação zero e à aniquilação psíquica. Entretanto, para a teoria das 
pulsões, estas não se manifestariam sozinhas mas sim, sempre, de forma 
híbrida. Não haveria nem pulsão de vida e nem pulsão de morte totalmente 
puras. 
3. A pulsão de morte nos evidencia algo da ordem do irrepresentável, no 
psiquismo. Sua existência também faz com que Freud repense a questão da 
angústia. 
4. Inicialmente, Freud concebia a angústia como um montante de excitação que 
o psiquismo não dava conta de inscrever simbolicamente no psiquismo. Num 
primeiro momento, a excitação ainda era tratada como algo de ordem apenas 
 
sexual. Com a evolução de sua concepção sobre o trauma, muda também a 
concepção sobre a angústia. 
5. Primeiramente, também, Freud entendeu a angústia como consequência da 
formação do sintoma e do recalque. O trauma, aqui, geraria a angústia. A 
angústia é entendida como o representante afetivo do conteúdo traumático. 
6. Com arevisão acerca da questão da angústia, Freud entende que a angústia 
viria antes da formação do sintoma, seria decorrente dela. Isso significa que 
a angústia funcionaria como motor para o trauma. O excesso energético da 
angústia faria com que o psiquismo tivesse que administrar os excessos 
energéticos e, quando não houvesse recursos suficientes/necessários para 
tal, ocorreria o trauma. O trauma seria decorrente daquilo que não encontra 
nenhum tipo de representação psíquica. 
7. Os recursos necessários para lidar com os excessos energéticos são 
provenientes da força narcísica do eu. Se o eu não tem integridade e força 
suficientes, mais propenso estará o sujeito a que as suas vivências sejam 
traumatizantes.

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