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A Hermenêutica de Schleiermacher 
 
1. Vida e obra 
 
 Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher, teólogo, filólogo, filósofo, nasceu na 
Alemanha, no dia 21 de novembro de 1.768 e morreu em Berlim, no dia 12 de fevereiro 
de 1.834. Foi criado em ambiente religioso, de família protestante (pais eram 
pastores). 
 Schleiermacher é chamado de pai do liberalismo teológico, campeão da 
teologia romântica, restaurador da fé cristão, inimigo da ortodoxia. Publicou as obras 
denominadas “Sobre a Religião”, no ano de 1.799 e “Monólogos” em 1.800, ambas 
destinadas à problemática religiosa. 
 Foi professor universitário, ingressando no magistério, passando a escrever 
pequenos textos. Em 1.807, retorna a Berlim, onde trabalha incessantemente na 
fundação da Universidade de Berlim, lecionando neste local por 24 anos. 
 Sua produção acadêmica, durante toda a sua vida, fica fragmentada em 
manuscritos. Contudo, após seu falecimento, um grupo de amigos resolve publicar 
esses manuscritos em forma de obra, ensejando uma série de escritos reunidos, tais 
como Projeto de um sistema de doutrina ética, Hermenêutica e crítica, Dialética, 
História da filosofia, compêndio de ética filosófica. 
 
2. O projeto de Schleiermacher de uma hermenêutica universal 
 
Segundo o entendimento desse filósofo, o entendimento passa a partir do 
entendimento da linguagem do texto (regras de gramática). A primeira exigência, 
seguindo linha já aberta por Aristóteles, passa na análise formal do texto escrito (estilo 
da obra literária). 
Inicialmente, na Idade Média, o texto possuía quatro sentidos, que poderiam 
ser sentido literal, sentido alegórico ou espiritual, sentido moral e o sentido anagórico. 
Contudo, com o aprofundamento e evolução, o sentido que se destaca é o literal, que 
passa a ser considerado legítimo para interpretação de qualquer texto. 
Schleiermacher entende que o ato de interpretar deve partir da compreensão, 
afastando o mal entendido. Para esse autor, a interpretação e a compreensão estão 
ligadas intimamente na palavra interior e na palavra exterior. Pode-se mencionar que 
todos os problemas da interpretação são, em verdade, problemas de compreensão. 
Schleiermacher, portanto, entende que a compreensão deve partir do 
pressuposto de entender o momento vital no qual o autor passa, as palavras que usa 
para dar sentido a esse momento vital, bem como a busca da gênese (origem) das 
ideias usadas pelo criador de determinado texto. 
Por outro lado, a interpretação exterior (busca da gênese) deve partir também 
da forma interior, aqui denominada de interpretação subjetiva ou divinatória. Parte-se 
da premissa de entender o momento pelo qual o autor passa, de entender o que está 
em seu pensamento e o que motivou ele a escrever e transferir suas ideias para 
aquele papel. 
Para Schleiermacher, a ideia de interpretar passa necessariamente por dois 
postulados distintos: (1) compreensão (recriar a própria associação divina das ideias) 
e (2) reproduzir (reconstrução da relação de produção literária). 
A contribuição desse autor, para a hermenêutica, foi muito importante, pois 
possibilitou o passo inicial para entender a árdua tarefa de interpretar determinado 
texto, a partir da concepção do autor e sua ideia posta no papel. É claro que 
Schleiermacher não fechou a questão e suas obras não são insuscetíveis de críticas, 
principalmente por autores posteriores, tais como Paul Ricoeur. 
 
Schleiermacher e a atual discussão hermenêutica 
 
 Obrigatoriamente, entender hermenêutica, a partir de uma disciplina autônoma, 
fora dos domínios de outras matérias, passa pela compreensão da obra de 
Schleiermacher. Foi a partir de seus escritos que a hermenêutica passa a adentrar no 
campo filosófico. 
 Atualmente, os autores voltados para a disciplina da hermenêutica, 
principalmente no campo filosófico, buscam a releitura desse autor, para entender a 
atualidade do seu pensamento. 
 
1. Redução psicológica da hermenêutica? 
 
Preliminarmente, deve-se entender que os estudos dos textos e escritos de 
Schleiermacher tem sido pouco aproveitados por parte dos atuais estudiosos. Muitos, 
como Gadamer, criticam a hermenêutica romântica criada por esse autor. Por isso, o 
interesse seja apenas marginal, deixado de lado por diversos intelectuais. 
Contudo, alguns estudiosos, como Jean Grondin, atestam que seus estudos 
não merecem ser renegados. Esse autor afirma que em seus últimos escritos, teria 
Schleiermacher mudado de denominação, passando a estudar a hermenêutica do 
ponto de vista psicológico, saindo um pouco da interpretação técnica que lhe era 
peculiar. Esse argumento é corroborado pela ideia de se chegar dentro do 
pensamento do autor, do que efetivamente pensou quando escreveu determinado 
texto. 
Schleiermacher parte do objetivo de entender o outro em sua subjetiva, em sua 
feição psicológica. Desse modo, percebe-se o autor em seu contexto interno. A 
interpretação somente ocorreria após a escrita, pois somente assim haveria a 
possibilidade de compreender o sujeito-autor. O universal, para poder existir, precisa 
da concorrência do projeto individual do autor. 
Deste modo, percebe-se que o objetivo da hermenêutica de Schleiermacher é 
reconstruir todo o pensamento interior do autor, a partir do pensamento interior, 
exteriorizado em determinado texto. Contudo, se essa forma se absolutiza, haverá 
apego exagerado na hermenêutica da psicologização. Portanto, parte-se da 
necessidade de conformar interpretação gramatical versus interpretação psicológica. 
 
2. A interpretação gramatical e a base dialética da hermenêutica 
 
Frank combate Heinz Kimmerle, ao dizer que não existem fases no pensamento 
de Schleiermacher. O primeiro momento seria uma maior ênfase na interpretação 
gramatical. A segunda fase seria uma maior concentração na interpretação 
psicológica. 
Contudo, da releitura necessária da obra de Schleiermacher, observa-se que o 
próprio filósofo dá maior ênfase dentro da interpretação gramatical. Para melhor 
entendimento, pode-se mencionar que as duas esferas (individual-psicológica e 
universal-sistemática) acompanham toda a sua obra de construção do pensamento 
da hermenêutica filosófica. 
O pensamento humano, mesmo que seja livre e ocorra primeiro até do que o 
próprio uso da linguagem, sempre está adstrito a regras gramaticais de exposição. 
Por isso, um texto deve ser lido sob duas óticas diferentes, que são a ótica psicológica 
(entender o que autor teve no pensamento para escrever) e a ótica gramatical (uso da 
linguagem e seu significado). 
O contexto de desenvolvimento da hermenêutica, em meados do século no 
qual viveu Schleiermacher, parte da dialética e da comunicação. Diante da limitação 
humana, própria do desenvolvimento humano, sempre haverá a necessidade de 
discussão e debate, para se chegar a uma melhor interpretação. 
A hermenêutica traz, dentro de si, conforme se observa, do mal entendido. Sem 
essa busca pela necessidade de clareação dos significados, não existiria a 
necessidade de interpretar e, por consequência, não existiria a necessidade de se 
criar a hermenêutica como disciplina autônoma. A busca pelo significado, portanto, 
parte da necessidade de um processo construído, de um processo grupal e não de 
um monólogo. 
Portanto, nessas linhas de releitura de Schleiermacher, parte-se da ideia de 
interpretar um texto a partir do questionamento de seus escritos, estabelecendo com 
ele um diálogo, deixando-o questionar e ser pelo texto questionado. A interpretação 
precisa ultrapassar as entrelinhas. 
 
Da obra de Wilhem Dilthey 
 
1. Introdução 
 
Wilhem Dilthey, filósofo adepto da hermenêutica romântica alemã, construiu 
suas teses por volta do século XIX e início do século XX (1.870 a 1.910). Foi estudioso 
de Schleiermacher. 
Basicamente, seus estudos procuravam separar as chamadas ciências 
humanas, que também pode ser lida a partir da nomenclatura deciências do espírito 
(Direito, psicologia, sociologia, artes, etc). O verdadeiro objetivo era separar esse 
ramo das chamadas ciências exatas. 
 
2. As ciências humanas e as ciências naturais 
 
O estudo das ciências humanas partem do entendimento do papel do indivíduo 
ou grupo de indivíduos dentro do meio em que vivem, suas relações estabelecidas, 
sua forma de organização cultural. Portanto, deve-se observar que esse estudo, por 
muitas vezes, é singular e particular, partindo de um modelo próprio de entendimento 
para cada local. 
As ciências naturais possuem outro campo distinto de aplicação. Seu objetivo 
é traçar linhas gerais, linhas previsíveis e invariáveis sobre diversos fenômenos, 
descrevendo fenômenos naturais que são iguais em todas as partes do mundo. 
Já nas ciências humanas, segundo Dilthey, não se pode mencionar que as 
ciências humanas tenham regras gerais, visto que cada sociedade se comporta de 
determinada maneira, adotando valores próprios para aquele local. A vida humana é 
mais complexa, pois parte das experiências e da própria complexidade que cada ser 
carrega dentro de si. 
Desse modo, Dilthey parte da ideia, primeiramente, de estabelecer critérios 
para cada tipo de ciência, de forma a tornar as ciências humanas tão compreensíveis 
e comprováveis objetivamente como ocorria nas ciências naturais. 
Outro ponto de discrepância entre ciências naturais e ciências humanas estaria 
na compreensão. Enquanto as ciências humanas parte da ideia de conceituação, de 
entender ela, as ciências naturais parte da ideia de explicação e descrição de 
fenômenos, já que são invariáveis em qualquer parte do globo terrestre. 
Schleiermacher parte da ideia de hermenêutica universal, não havendo 
distinção entre ciências naturais e ciências humanas. Já Dilthey visualiza toda essa 
diferenciação. 
Contudo, mesmo que defenda a individualização de cada uma delas, Dilthey 
afirma que nenhuma ciência humana pode ser vista de forma totalitária, pois são 
complementares. 
 
A Hermenêutica de Wilheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciências 
humanas contemporâneas 
 
1. Introdução 
 
O presente trabalho discute a ideia de Dilthey que, nos fins do século XIX e 
início do século XX, dentro da hermenêutica romântica alemã, busca estabelecer 
diferenças lógicas entre ciências naturais e ciências humanas. 
Segundo Dilthey, o conhecimento de determinadas forças, que operavam na 
época em estudo (revoluções e guerras) leva a um conhecimento saudável das 
preocupações vitais de determinada sociedade. Portanto, é crescente a preocupação 
com as ciências que lidam com a sociedade. 
Dentro do seu estudo das ciências humanas, aqui colacionadas com o ideal de 
ciência do espírito, abre-se a possibilidade de criticar a ideia de leis gerais e causas, 
visto que a necessidade nem sempre estará presente para análise. Mais certo seria 
mencionar motivos e desejos, que implicam mudanças produzidas pelo ser humano. 
A época vivenciada por Dilthey era propícia para o desenvolvimento das 
ciências naturais, por conta da evidente distinção que existia entre explicar e 
conceituar. A explicação se tornava mais fácil, a partir do momento que formulavam-
se leis universais, aplicadas a qualquer parte do globo terrestre. 
De outro lado, teóricos argumentavam da não aplicabilidade das ciências 
sociais e da história dentro da lógica das ciências naturais. Haveria aqui um 
incompatibilidade lógica, visto que a compreensão interpretativa tem um papel 
diferenciado nas duas ciências. 
Compreender dada ação seria é um trabalho científico que precede a 
explicação do motivo da ação, da leitura da situação, bem como da análise contextual 
a ser feita. 
Dilthey produziu seus trabalhos entre 1.870 e 1.910, com a primeira obra escrita 
em 1.883. Essa primeira obra é caracterizada como primeiro trabalho sistemático de 
análise filosófica das ciências humanas, perfazendo-se em forma de crítica. Em outra 
análise de suas obras, Dilthey foi visto como historiador sensível da cultura. 
 
2. Verstehen e Hermenêutica 
 
Hermenêutica, expressão cunhada no século XVII, voltada para compreensão 
de textos, símbolos, sinais, práticas sociais e ações históricas, teve alçada a disciplina 
apenas em meados do século XIX. Dilthey, dentro dessa ideia da disciplina de 
interpretação, tinha como preocupação ampliar o alcance da hermenêutica, através 
da compreensão. 
Deve-se citar, aqui, a ideia de Gadamer, voltada para dois pilares principais. O 
primeiro pilar se volta para o sentido teleológico, que se caracteriza como 
compreender algo a partir de si mesmo. O segundo pilar se volta para a filologia, que 
é a arte de compreender as ciências jurídicas (leis, jurisprudências, costumes, 
doutrinas). 
No século XIX, pode-se afirmar que a hermenêutica se sagra como meio de 
interpretação dos produtos históricos, método pronto para compreensão das ciências 
sociais. Essa fase se chama de hermenêutica romântica, pelas estreitas relações 
entre a escola histórica e o romantismo alemão. 
A abordagem que Dilthey proporciona para a hermenêutica se aproxima de dar 
importância para as ciências humanas (sociais), desenvolvendo métodos diferentes 
de conhecer se comparados com os métodos que existiam até então para as ciências 
naturais. 
Somente a partir da separação que se faz entre ciências humanas e ciências 
naturais que se pode conhecer com exatidão qual o significado do termo 
“compreensão”. 
A compreensão reforça a singularidade existente entre dois mundos paralelos: 
de um lado, o mundo da natureza, explicado a partir de suas regras gerais e 
universais; do outro, o mundo social, complexo por envolver análise do 
comportamento do ser humano. 
A ideia de Dilthey, assim como presente em Schleiermacher, é construir uma 
base para a chamada teoria da interpretação, tão necessária para o século XIX. 
Gadamer tenta buscar procedimentos comuns para atividades do filólogo e do 
teólogo, através de compreensão de pensamento. Por sua vez, Schleiermacher tem 
em mente a ideia de uma hermenêutica universal, sem distinções entre ciências 
sociais e ciências naturais. 
Schleiermacher entende que deve ser analisada, ao lado do texto e da 
literalidade das palavras, a visão do autor e a sua gênese de ideias. Todo o discurso 
é arte, fazendo-se compreender, 
Schleiermacher busca a compreensão através da individualidade de quem diz 
algo, não só usando a veracidade do que está sendo dito. Para esse autor, para haver 
compreensão, necessária será a retroação para a gênese de ideias. 
Contudo, foi em Dilthey que a hermenêutica romântica passa a ser 
aprofundada, através da ideia de nexos históricos e sua realidade na vida de cada 
pessoa componente da sociedade. 
Dilthey, então, diferencia o objeto de estudo das metodologias usadas tanto 
pelas ciências humanas quanto pelas ciências exatas. Essas diferenças são vistas 
como derivação entre o padrão de conhecimento de cada ciência e a forma de ser 
estudada. 
 
3. Dilthey: da compreensão psicológica à compreensão hermenêutica 
 
As ciências humanas não podem ser vistas como modelo padrão, pois não é 
igual em qualquer local. Dilthey considerava que as ciências naturais seriam 
explicativas, enquanto as ciências humanas seriam compreendidas. 
As ciências humanas seriam um plexo de interações históricas entre diversos 
pontos, através de fatores culturais a serem considerados de nação para nação. Os 
homens, por sua vez, vivem em condições nas quais não se pode dizer que obedecem 
a leis gerais e iguais para todos os locais. 
Dilthey tem como pensamento o mundo histórico, a explicação de fenômenos 
naturais a partir da compreensão e o estudo segmentado da realidade natural. 
A teoria de interpretação em Dilthey parte da ideia de analisar e descrever fatos 
ao invés de usar o empirismo como meio maior de compreensão. 
A partir dessa ideia de compreensão da divisão, Dilthey acreditava quepoderia 
explicar a realidade de forma independente, buscando conexões de conhecimento 
entre a realidade e a própria personalidade do agente. Pode-se concluir, então, que a 
experiência humana é feita de vivências em diversos aspectos, tais como históricos, 
culturais, sociais, entre outros. 
O sistema construtivo é outro ponto de diferença. As ciências humanas 
possuem caráter de comparação em relação às ciências naturais. O nexo de vida é 
originado da experiência. 
Dilthey parte do princípio de que não existe ciência humana totalitária, pois 
cada ciência é particular, depende de outra e abstrai problemas de um amplo contexto 
social e histórico no qual o indivíduo está inserido. 
A vida social somente seria compreendida a partir do das experiências vividas 
pelas forças que a movem, visto que entender ela completamente é muito complexo, 
tornando-se tarefa árdua. 
Dilthey, em outro giro, analisa as ciências humanas e as ciências naturais a 
partir dos nexos de vida. Esses nexos produzem resistência ao desejo humano, a 
partir do momento em que há sentido prático dentro das ciências humanas. 
A arte de compreender parte da ideia de conjunto, de análise de relação entre 
o processo de nexo de vida e a interação com o meio social, próprio de cada pessoa 
e, por isso, muito complexo para ser analisado em sua totalidade. 
Deve ser considerado, aqui, aspectos psicológicos. Nesse aspecto, Dilthey 
parte da ideia de atos elementares para formas complexas e duradouras do mundo 
cristalino, em um verdadeiro produto mental do homem. 
 
4. Considerações finais 
 
Pode-se afirmar que Dilthey teve como preocupação a ideia de trazer uma 
ciência interpretativa para dentro da hermenêutica. A ideia de separação foi benéfica, 
ao passo que cria uma forma de interpretação própria para as matérias sociais ligadas 
ao homem. 
Diante disso, o debate contemporâneo da hermenêutica ganha novas linhas 
dentro da teoria elencada por Dilthey. 
Infere-se, portanto, a preocupação de Dilthey com dois grandes campos de 
conhecimento, que são as ciências naturais e as ciências sociais. Mesmo que haja 
separação, em muitos momentos há certa vinculação, por conta das ideias debatidas, 
 
A Hermenêutica filosófica – Gadamer 
 
1. Hermenêutica filosófica 
 
A hermenêutica filosófica atinge seu ápice com o trabalho de Gadamer, mesmo 
que tenha várias colaborações advindas de Heidegger, com ideias fundamentais para 
o seu desenvolvimento. 
Gadamer desenvolve o tema a partir da crítica que faz às denominadas 
consciências estéticas e históricas. O ser da arte não pode ser determinado a partir 
de uma consciência estática, parada. Por outro lado, a obra de arte não pode ser vista 
de forma isolada, pois há uma rede de compreensões entre o horizonte de sentido e 
o observador. 
A obra de arte proporciona o encontro com algo no qual o observador pertence, 
que é a verdadeira forma de experimentar a subjetividade diante de uma situação, ou 
seja, proporcionar a abertura do mundo a um novo conhecimento adquirido. 
Em outro giro, Gadamer critica o conhecimento puro. Para ele, os historiadores 
partem do pressuposto de que seria possível tal conhecimento, objetivamente válido 
dentro da história. Na verdade, o que existe é uma reconstrução do evento histórico 
analisado, partes do presente e que são relevantes ao historiador. 
Portanto, Gadamer estabelece um diálogo importante entre modernidade e 
consciência histórica e estética até então prevalente dentro do século XIX. 
Da análise das primeiras linhas, observa-se o surgimento de quesitos e 
pressupostos lógicos dentro da obra de Gadamer, aqui denominados de estruturas 
(horizonte histórico, círculo hermenêutico, mediação, diálogo e linguisticidade). 
 
2. Estruturas fundamentais da compreensão 
 
2.1. Horizonte histórico 
 
O acesso do homem ao mundo se dá a partir de seu ponto de vista, de sua 
situação hermenêutica, que é sempre se posicionar diante de tal fenômeno. A 
compreensão está enraizada na medida do que o homem conhece, do que ele sabe 
diante de algo que está ocorrendo. 
Gadamer, por sua vez, enfatiza que o conceito de horizonte histórico não parte 
de um fechamento, mas sim de uma abertura a ser feita de um padrão de 
conhecimento pré-estabelecido. 
O homem, quando está diante de determinado fenômeno, já possui um pré-
conceito do que está vendo, resgatando, nessa parte, a noção de pré-compreensão 
de Heidegger. 
Por isso, pode-se afirmar que o Iluminismo parte da ideia de usar o pré-conceito 
contra o preconceito existente até então, ou seja, o conhecimento prévia deve ser 
usado para uma melhor compreensão de determinada situação vivenciada pelo 
agente. 
Deve-se anotar aqui a própria influência que a história exerce sobre o homem, 
visto que é através dela que Gadamer nomeia um novo princípio histórico, que é a 
história efeitual (efetivação da história). 
 
2.2. Círculo hermenêutico 
 
Só se pode compreender a totalidade de uma obra a partir da compreensão de 
suas partes (orações, palavras). Por outro lado, deve-se priorizar o sentido global da 
obra. 
Observa-se aqui uma consciência histórica do intérprete e a sua posterior 
abertura interpretativa para permitir que o objeto seja entendido a partir de seu mundo 
particular. 
Em verdade, ainda que não tenha prejuízo ao conceito, trata-se de uma espiral 
hermenêutica, existindo propriamente uma relação entre conceitos já elaborados e 
novas descobertas na análise do fenômeno. 
Diante disso, infere-se que o observador não sai da mesma forma que entrou 
dentro da análise, pois será, por obvio, afetado por aquele efeito de compreensão e 
análise. 
Observa-se, nesse ponto do trabalho, um encontro entre dois mundos: o 
horizonte do observador e o horizonte advindo do fenômeno. A espiral irá ocorrer a 
partir do momento que houver a fusão, ou seja, interação entre os dois mundos. 
Para Gadamer, interpretar é uma forma explícita de compreensão, momento 
formador através do qual se questiona o objeto e se estabelece uma conexão. 
Trazendo para o mundo jurídico, o autor entende que a interpretação de 
determinada lei somente ocorrerá dentro do caso concreto, dentro da aplicação 
própria que cada caso requer. Desse modo, efetiva-se o ordenamento jurídico. 
 
2.3. A mediação 
 
Os fenômenos que ocorrem dentro do mundo jamais será visto de forma pura, 
de forma objetiva. Haverá a necessidade de se isolar determinado fato, exercendo 
uma mediação entre o horizonte do autor e a compreensão do fenômeno. 
A compreensão, então, ocorre sempre através dessa mediação feita. Outro 
ponto que ocorre a mediação é na estruturação, em clara influência de Heidegger 
(compreensão pelo olhar). 
Contudo, esse processo não ocorre de forma plena. O sentido não se atinge 
por apropriação como resultado viável. O sentido aparece como revelação, como 
verdadeiro jogo de velamento e desvelamento. 
Gadamer enfatiza, nesse aspecto, o decurso do tempo, como forma de permitir 
que certo fenômeno seja visto como recuo histórico, quais as opiniões foram 
relevantes e quais merecem ser dissociadas. 
Observa-se, em determinado fenômeno, uma camada de sentidos, constantes 
em mutação, necessitando cada qual ser compreendido pelo intérprete. 
 
2.4. O diálogo 
 
Ocorre, nesse aspecto da compreensão, a chamada dialética da pergunta e da 
resposta. Parte-se do pressuposto de que a pergunta precisa ser relevante e a 
resposta precisa ser entendida. 
Somente pela interrogação acerca daquilo que se posta diante do homem, ser 
que conhece, é que se trilha o caminho para o correto entendimento das coisas. Esse 
caminho será permeado pela interação dialética. 
Observa-se que o intérprete, para efetivar o diálogo, precisa ter desconfiança 
sobre a semelhança do que é apresentado por aquele fenômeno. Nesse ponto, 
Gadamer nega a estrita separação entre sujeito e objeto no fluxo do conhecimento. 
A realidade não pode ser completamentedissociada do ser que a conhece. Há 
que se ter um fenômeno analisado com as contaminações próprias. O processo de 
conhecimento parte daquilo que se quer já estar implícito dentro do fenômeno 
analisado. 
Gadamer, nessa altura do pensamento, resgata a ideia grega de pergunta e 
resposta para efetivar seus argumentos hermenêuticos. Parte-se da ideia de que 
perguntar é mais difícil do que responder. Para perguntar, o interlocutor precisa saber 
sobre o assunto e a maneira que irá elaborar tal questão. 
 
2.5. A linguisticidade 
 
A linguagem é o carro chefe pelo qual ocorre a hermenêutica. Não haverá essa 
ciência se a linguagem não for manifestada. A linguagem abre o mundo, esclarece 
pensamentos, sendo através dela que algo se exterioriza. 
Todos os conceitos a serem dados, todos os conceitos anteriormente já 
sabidos, todas as compreensões prévias de determinados assuntos estão latentes 
dentro da linguagem. 
Por outro lado, a linguagem é muito mais do que palavras. Linguagem é 
conhecimento e comunicação, possibilitando entendimento. 
As palavras não pertencem ao homem, mas sim à situação. A linguagem, na 
acepção de Gadamer, é o ser em que, o ser em si, o mundo e tudo o que nela se 
possa exprimir. 
Hermenêutica é condições de compreender pela linguagem, pela busca do ser 
que nos é transmitido. Gadamer afirma que o elemento de universalidade da 
Hermenêutica é a linguagem.

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