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A Hermenêutica de Schleiermacher 1. Vida e obra Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher, teólogo, filólogo, filósofo, nasceu na Alemanha, no dia 21 de novembro de 1.768 e morreu em Berlim, no dia 12 de fevereiro de 1.834. Foi criado em ambiente religioso, de família protestante (pais eram pastores). Schleiermacher é chamado de pai do liberalismo teológico, campeão da teologia romântica, restaurador da fé cristão, inimigo da ortodoxia. Publicou as obras denominadas “Sobre a Religião”, no ano de 1.799 e “Monólogos” em 1.800, ambas destinadas à problemática religiosa. Foi professor universitário, ingressando no magistério, passando a escrever pequenos textos. Em 1.807, retorna a Berlim, onde trabalha incessantemente na fundação da Universidade de Berlim, lecionando neste local por 24 anos. Sua produção acadêmica, durante toda a sua vida, fica fragmentada em manuscritos. Contudo, após seu falecimento, um grupo de amigos resolve publicar esses manuscritos em forma de obra, ensejando uma série de escritos reunidos, tais como Projeto de um sistema de doutrina ética, Hermenêutica e crítica, Dialética, História da filosofia, compêndio de ética filosófica. 2. O projeto de Schleiermacher de uma hermenêutica universal Segundo o entendimento desse filósofo, o entendimento passa a partir do entendimento da linguagem do texto (regras de gramática). A primeira exigência, seguindo linha já aberta por Aristóteles, passa na análise formal do texto escrito (estilo da obra literária). Inicialmente, na Idade Média, o texto possuía quatro sentidos, que poderiam ser sentido literal, sentido alegórico ou espiritual, sentido moral e o sentido anagórico. Contudo, com o aprofundamento e evolução, o sentido que se destaca é o literal, que passa a ser considerado legítimo para interpretação de qualquer texto. Schleiermacher entende que o ato de interpretar deve partir da compreensão, afastando o mal entendido. Para esse autor, a interpretação e a compreensão estão ligadas intimamente na palavra interior e na palavra exterior. Pode-se mencionar que todos os problemas da interpretação são, em verdade, problemas de compreensão. Schleiermacher, portanto, entende que a compreensão deve partir do pressuposto de entender o momento vital no qual o autor passa, as palavras que usa para dar sentido a esse momento vital, bem como a busca da gênese (origem) das ideias usadas pelo criador de determinado texto. Por outro lado, a interpretação exterior (busca da gênese) deve partir também da forma interior, aqui denominada de interpretação subjetiva ou divinatória. Parte-se da premissa de entender o momento pelo qual o autor passa, de entender o que está em seu pensamento e o que motivou ele a escrever e transferir suas ideias para aquele papel. Para Schleiermacher, a ideia de interpretar passa necessariamente por dois postulados distintos: (1) compreensão (recriar a própria associação divina das ideias) e (2) reproduzir (reconstrução da relação de produção literária). A contribuição desse autor, para a hermenêutica, foi muito importante, pois possibilitou o passo inicial para entender a árdua tarefa de interpretar determinado texto, a partir da concepção do autor e sua ideia posta no papel. É claro que Schleiermacher não fechou a questão e suas obras não são insuscetíveis de críticas, principalmente por autores posteriores, tais como Paul Ricoeur. Schleiermacher e a atual discussão hermenêutica Obrigatoriamente, entender hermenêutica, a partir de uma disciplina autônoma, fora dos domínios de outras matérias, passa pela compreensão da obra de Schleiermacher. Foi a partir de seus escritos que a hermenêutica passa a adentrar no campo filosófico. Atualmente, os autores voltados para a disciplina da hermenêutica, principalmente no campo filosófico, buscam a releitura desse autor, para entender a atualidade do seu pensamento. 1. Redução psicológica da hermenêutica? Preliminarmente, deve-se entender que os estudos dos textos e escritos de Schleiermacher tem sido pouco aproveitados por parte dos atuais estudiosos. Muitos, como Gadamer, criticam a hermenêutica romântica criada por esse autor. Por isso, o interesse seja apenas marginal, deixado de lado por diversos intelectuais. Contudo, alguns estudiosos, como Jean Grondin, atestam que seus estudos não merecem ser renegados. Esse autor afirma que em seus últimos escritos, teria Schleiermacher mudado de denominação, passando a estudar a hermenêutica do ponto de vista psicológico, saindo um pouco da interpretação técnica que lhe era peculiar. Esse argumento é corroborado pela ideia de se chegar dentro do pensamento do autor, do que efetivamente pensou quando escreveu determinado texto. Schleiermacher parte do objetivo de entender o outro em sua subjetiva, em sua feição psicológica. Desse modo, percebe-se o autor em seu contexto interno. A interpretação somente ocorreria após a escrita, pois somente assim haveria a possibilidade de compreender o sujeito-autor. O universal, para poder existir, precisa da concorrência do projeto individual do autor. Deste modo, percebe-se que o objetivo da hermenêutica de Schleiermacher é reconstruir todo o pensamento interior do autor, a partir do pensamento interior, exteriorizado em determinado texto. Contudo, se essa forma se absolutiza, haverá apego exagerado na hermenêutica da psicologização. Portanto, parte-se da necessidade de conformar interpretação gramatical versus interpretação psicológica. 2. A interpretação gramatical e a base dialética da hermenêutica Frank combate Heinz Kimmerle, ao dizer que não existem fases no pensamento de Schleiermacher. O primeiro momento seria uma maior ênfase na interpretação gramatical. A segunda fase seria uma maior concentração na interpretação psicológica. Contudo, da releitura necessária da obra de Schleiermacher, observa-se que o próprio filósofo dá maior ênfase dentro da interpretação gramatical. Para melhor entendimento, pode-se mencionar que as duas esferas (individual-psicológica e universal-sistemática) acompanham toda a sua obra de construção do pensamento da hermenêutica filosófica. O pensamento humano, mesmo que seja livre e ocorra primeiro até do que o próprio uso da linguagem, sempre está adstrito a regras gramaticais de exposição. Por isso, um texto deve ser lido sob duas óticas diferentes, que são a ótica psicológica (entender o que autor teve no pensamento para escrever) e a ótica gramatical (uso da linguagem e seu significado). O contexto de desenvolvimento da hermenêutica, em meados do século no qual viveu Schleiermacher, parte da dialética e da comunicação. Diante da limitação humana, própria do desenvolvimento humano, sempre haverá a necessidade de discussão e debate, para se chegar a uma melhor interpretação. A hermenêutica traz, dentro de si, conforme se observa, do mal entendido. Sem essa busca pela necessidade de clareação dos significados, não existiria a necessidade de interpretar e, por consequência, não existiria a necessidade de se criar a hermenêutica como disciplina autônoma. A busca pelo significado, portanto, parte da necessidade de um processo construído, de um processo grupal e não de um monólogo. Portanto, nessas linhas de releitura de Schleiermacher, parte-se da ideia de interpretar um texto a partir do questionamento de seus escritos, estabelecendo com ele um diálogo, deixando-o questionar e ser pelo texto questionado. A interpretação precisa ultrapassar as entrelinhas. Da obra de Wilhem Dilthey 1. Introdução Wilhem Dilthey, filósofo adepto da hermenêutica romântica alemã, construiu suas teses por volta do século XIX e início do século XX (1.870 a 1.910). Foi estudioso de Schleiermacher. Basicamente, seus estudos procuravam separar as chamadas ciências humanas, que também pode ser lida a partir da nomenclatura deciências do espírito (Direito, psicologia, sociologia, artes, etc). O verdadeiro objetivo era separar esse ramo das chamadas ciências exatas. 2. As ciências humanas e as ciências naturais O estudo das ciências humanas partem do entendimento do papel do indivíduo ou grupo de indivíduos dentro do meio em que vivem, suas relações estabelecidas, sua forma de organização cultural. Portanto, deve-se observar que esse estudo, por muitas vezes, é singular e particular, partindo de um modelo próprio de entendimento para cada local. As ciências naturais possuem outro campo distinto de aplicação. Seu objetivo é traçar linhas gerais, linhas previsíveis e invariáveis sobre diversos fenômenos, descrevendo fenômenos naturais que são iguais em todas as partes do mundo. Já nas ciências humanas, segundo Dilthey, não se pode mencionar que as ciências humanas tenham regras gerais, visto que cada sociedade se comporta de determinada maneira, adotando valores próprios para aquele local. A vida humana é mais complexa, pois parte das experiências e da própria complexidade que cada ser carrega dentro de si. Desse modo, Dilthey parte da ideia, primeiramente, de estabelecer critérios para cada tipo de ciência, de forma a tornar as ciências humanas tão compreensíveis e comprováveis objetivamente como ocorria nas ciências naturais. Outro ponto de discrepância entre ciências naturais e ciências humanas estaria na compreensão. Enquanto as ciências humanas parte da ideia de conceituação, de entender ela, as ciências naturais parte da ideia de explicação e descrição de fenômenos, já que são invariáveis em qualquer parte do globo terrestre. Schleiermacher parte da ideia de hermenêutica universal, não havendo distinção entre ciências naturais e ciências humanas. Já Dilthey visualiza toda essa diferenciação. Contudo, mesmo que defenda a individualização de cada uma delas, Dilthey afirma que nenhuma ciência humana pode ser vista de forma totalitária, pois são complementares. A Hermenêutica de Wilheim Dilthey e a reflexão epistemológica nas ciências humanas contemporâneas 1. Introdução O presente trabalho discute a ideia de Dilthey que, nos fins do século XIX e início do século XX, dentro da hermenêutica romântica alemã, busca estabelecer diferenças lógicas entre ciências naturais e ciências humanas. Segundo Dilthey, o conhecimento de determinadas forças, que operavam na época em estudo (revoluções e guerras) leva a um conhecimento saudável das preocupações vitais de determinada sociedade. Portanto, é crescente a preocupação com as ciências que lidam com a sociedade. Dentro do seu estudo das ciências humanas, aqui colacionadas com o ideal de ciência do espírito, abre-se a possibilidade de criticar a ideia de leis gerais e causas, visto que a necessidade nem sempre estará presente para análise. Mais certo seria mencionar motivos e desejos, que implicam mudanças produzidas pelo ser humano. A época vivenciada por Dilthey era propícia para o desenvolvimento das ciências naturais, por conta da evidente distinção que existia entre explicar e conceituar. A explicação se tornava mais fácil, a partir do momento que formulavam- se leis universais, aplicadas a qualquer parte do globo terrestre. De outro lado, teóricos argumentavam da não aplicabilidade das ciências sociais e da história dentro da lógica das ciências naturais. Haveria aqui um incompatibilidade lógica, visto que a compreensão interpretativa tem um papel diferenciado nas duas ciências. Compreender dada ação seria é um trabalho científico que precede a explicação do motivo da ação, da leitura da situação, bem como da análise contextual a ser feita. Dilthey produziu seus trabalhos entre 1.870 e 1.910, com a primeira obra escrita em 1.883. Essa primeira obra é caracterizada como primeiro trabalho sistemático de análise filosófica das ciências humanas, perfazendo-se em forma de crítica. Em outra análise de suas obras, Dilthey foi visto como historiador sensível da cultura. 2. Verstehen e Hermenêutica Hermenêutica, expressão cunhada no século XVII, voltada para compreensão de textos, símbolos, sinais, práticas sociais e ações históricas, teve alçada a disciplina apenas em meados do século XIX. Dilthey, dentro dessa ideia da disciplina de interpretação, tinha como preocupação ampliar o alcance da hermenêutica, através da compreensão. Deve-se citar, aqui, a ideia de Gadamer, voltada para dois pilares principais. O primeiro pilar se volta para o sentido teleológico, que se caracteriza como compreender algo a partir de si mesmo. O segundo pilar se volta para a filologia, que é a arte de compreender as ciências jurídicas (leis, jurisprudências, costumes, doutrinas). No século XIX, pode-se afirmar que a hermenêutica se sagra como meio de interpretação dos produtos históricos, método pronto para compreensão das ciências sociais. Essa fase se chama de hermenêutica romântica, pelas estreitas relações entre a escola histórica e o romantismo alemão. A abordagem que Dilthey proporciona para a hermenêutica se aproxima de dar importância para as ciências humanas (sociais), desenvolvendo métodos diferentes de conhecer se comparados com os métodos que existiam até então para as ciências naturais. Somente a partir da separação que se faz entre ciências humanas e ciências naturais que se pode conhecer com exatidão qual o significado do termo “compreensão”. A compreensão reforça a singularidade existente entre dois mundos paralelos: de um lado, o mundo da natureza, explicado a partir de suas regras gerais e universais; do outro, o mundo social, complexo por envolver análise do comportamento do ser humano. A ideia de Dilthey, assim como presente em Schleiermacher, é construir uma base para a chamada teoria da interpretação, tão necessária para o século XIX. Gadamer tenta buscar procedimentos comuns para atividades do filólogo e do teólogo, através de compreensão de pensamento. Por sua vez, Schleiermacher tem em mente a ideia de uma hermenêutica universal, sem distinções entre ciências sociais e ciências naturais. Schleiermacher entende que deve ser analisada, ao lado do texto e da literalidade das palavras, a visão do autor e a sua gênese de ideias. Todo o discurso é arte, fazendo-se compreender, Schleiermacher busca a compreensão através da individualidade de quem diz algo, não só usando a veracidade do que está sendo dito. Para esse autor, para haver compreensão, necessária será a retroação para a gênese de ideias. Contudo, foi em Dilthey que a hermenêutica romântica passa a ser aprofundada, através da ideia de nexos históricos e sua realidade na vida de cada pessoa componente da sociedade. Dilthey, então, diferencia o objeto de estudo das metodologias usadas tanto pelas ciências humanas quanto pelas ciências exatas. Essas diferenças são vistas como derivação entre o padrão de conhecimento de cada ciência e a forma de ser estudada. 3. Dilthey: da compreensão psicológica à compreensão hermenêutica As ciências humanas não podem ser vistas como modelo padrão, pois não é igual em qualquer local. Dilthey considerava que as ciências naturais seriam explicativas, enquanto as ciências humanas seriam compreendidas. As ciências humanas seriam um plexo de interações históricas entre diversos pontos, através de fatores culturais a serem considerados de nação para nação. Os homens, por sua vez, vivem em condições nas quais não se pode dizer que obedecem a leis gerais e iguais para todos os locais. Dilthey tem como pensamento o mundo histórico, a explicação de fenômenos naturais a partir da compreensão e o estudo segmentado da realidade natural. A teoria de interpretação em Dilthey parte da ideia de analisar e descrever fatos ao invés de usar o empirismo como meio maior de compreensão. A partir dessa ideia de compreensão da divisão, Dilthey acreditava quepoderia explicar a realidade de forma independente, buscando conexões de conhecimento entre a realidade e a própria personalidade do agente. Pode-se concluir, então, que a experiência humana é feita de vivências em diversos aspectos, tais como históricos, culturais, sociais, entre outros. O sistema construtivo é outro ponto de diferença. As ciências humanas possuem caráter de comparação em relação às ciências naturais. O nexo de vida é originado da experiência. Dilthey parte do princípio de que não existe ciência humana totalitária, pois cada ciência é particular, depende de outra e abstrai problemas de um amplo contexto social e histórico no qual o indivíduo está inserido. A vida social somente seria compreendida a partir do das experiências vividas pelas forças que a movem, visto que entender ela completamente é muito complexo, tornando-se tarefa árdua. Dilthey, em outro giro, analisa as ciências humanas e as ciências naturais a partir dos nexos de vida. Esses nexos produzem resistência ao desejo humano, a partir do momento em que há sentido prático dentro das ciências humanas. A arte de compreender parte da ideia de conjunto, de análise de relação entre o processo de nexo de vida e a interação com o meio social, próprio de cada pessoa e, por isso, muito complexo para ser analisado em sua totalidade. Deve ser considerado, aqui, aspectos psicológicos. Nesse aspecto, Dilthey parte da ideia de atos elementares para formas complexas e duradouras do mundo cristalino, em um verdadeiro produto mental do homem. 4. Considerações finais Pode-se afirmar que Dilthey teve como preocupação a ideia de trazer uma ciência interpretativa para dentro da hermenêutica. A ideia de separação foi benéfica, ao passo que cria uma forma de interpretação própria para as matérias sociais ligadas ao homem. Diante disso, o debate contemporâneo da hermenêutica ganha novas linhas dentro da teoria elencada por Dilthey. Infere-se, portanto, a preocupação de Dilthey com dois grandes campos de conhecimento, que são as ciências naturais e as ciências sociais. Mesmo que haja separação, em muitos momentos há certa vinculação, por conta das ideias debatidas, A Hermenêutica filosófica – Gadamer 1. Hermenêutica filosófica A hermenêutica filosófica atinge seu ápice com o trabalho de Gadamer, mesmo que tenha várias colaborações advindas de Heidegger, com ideias fundamentais para o seu desenvolvimento. Gadamer desenvolve o tema a partir da crítica que faz às denominadas consciências estéticas e históricas. O ser da arte não pode ser determinado a partir de uma consciência estática, parada. Por outro lado, a obra de arte não pode ser vista de forma isolada, pois há uma rede de compreensões entre o horizonte de sentido e o observador. A obra de arte proporciona o encontro com algo no qual o observador pertence, que é a verdadeira forma de experimentar a subjetividade diante de uma situação, ou seja, proporcionar a abertura do mundo a um novo conhecimento adquirido. Em outro giro, Gadamer critica o conhecimento puro. Para ele, os historiadores partem do pressuposto de que seria possível tal conhecimento, objetivamente válido dentro da história. Na verdade, o que existe é uma reconstrução do evento histórico analisado, partes do presente e que são relevantes ao historiador. Portanto, Gadamer estabelece um diálogo importante entre modernidade e consciência histórica e estética até então prevalente dentro do século XIX. Da análise das primeiras linhas, observa-se o surgimento de quesitos e pressupostos lógicos dentro da obra de Gadamer, aqui denominados de estruturas (horizonte histórico, círculo hermenêutico, mediação, diálogo e linguisticidade). 2. Estruturas fundamentais da compreensão 2.1. Horizonte histórico O acesso do homem ao mundo se dá a partir de seu ponto de vista, de sua situação hermenêutica, que é sempre se posicionar diante de tal fenômeno. A compreensão está enraizada na medida do que o homem conhece, do que ele sabe diante de algo que está ocorrendo. Gadamer, por sua vez, enfatiza que o conceito de horizonte histórico não parte de um fechamento, mas sim de uma abertura a ser feita de um padrão de conhecimento pré-estabelecido. O homem, quando está diante de determinado fenômeno, já possui um pré- conceito do que está vendo, resgatando, nessa parte, a noção de pré-compreensão de Heidegger. Por isso, pode-se afirmar que o Iluminismo parte da ideia de usar o pré-conceito contra o preconceito existente até então, ou seja, o conhecimento prévia deve ser usado para uma melhor compreensão de determinada situação vivenciada pelo agente. Deve-se anotar aqui a própria influência que a história exerce sobre o homem, visto que é através dela que Gadamer nomeia um novo princípio histórico, que é a história efeitual (efetivação da história). 2.2. Círculo hermenêutico Só se pode compreender a totalidade de uma obra a partir da compreensão de suas partes (orações, palavras). Por outro lado, deve-se priorizar o sentido global da obra. Observa-se aqui uma consciência histórica do intérprete e a sua posterior abertura interpretativa para permitir que o objeto seja entendido a partir de seu mundo particular. Em verdade, ainda que não tenha prejuízo ao conceito, trata-se de uma espiral hermenêutica, existindo propriamente uma relação entre conceitos já elaborados e novas descobertas na análise do fenômeno. Diante disso, infere-se que o observador não sai da mesma forma que entrou dentro da análise, pois será, por obvio, afetado por aquele efeito de compreensão e análise. Observa-se, nesse ponto do trabalho, um encontro entre dois mundos: o horizonte do observador e o horizonte advindo do fenômeno. A espiral irá ocorrer a partir do momento que houver a fusão, ou seja, interação entre os dois mundos. Para Gadamer, interpretar é uma forma explícita de compreensão, momento formador através do qual se questiona o objeto e se estabelece uma conexão. Trazendo para o mundo jurídico, o autor entende que a interpretação de determinada lei somente ocorrerá dentro do caso concreto, dentro da aplicação própria que cada caso requer. Desse modo, efetiva-se o ordenamento jurídico. 2.3. A mediação Os fenômenos que ocorrem dentro do mundo jamais será visto de forma pura, de forma objetiva. Haverá a necessidade de se isolar determinado fato, exercendo uma mediação entre o horizonte do autor e a compreensão do fenômeno. A compreensão, então, ocorre sempre através dessa mediação feita. Outro ponto que ocorre a mediação é na estruturação, em clara influência de Heidegger (compreensão pelo olhar). Contudo, esse processo não ocorre de forma plena. O sentido não se atinge por apropriação como resultado viável. O sentido aparece como revelação, como verdadeiro jogo de velamento e desvelamento. Gadamer enfatiza, nesse aspecto, o decurso do tempo, como forma de permitir que certo fenômeno seja visto como recuo histórico, quais as opiniões foram relevantes e quais merecem ser dissociadas. Observa-se, em determinado fenômeno, uma camada de sentidos, constantes em mutação, necessitando cada qual ser compreendido pelo intérprete. 2.4. O diálogo Ocorre, nesse aspecto da compreensão, a chamada dialética da pergunta e da resposta. Parte-se do pressuposto de que a pergunta precisa ser relevante e a resposta precisa ser entendida. Somente pela interrogação acerca daquilo que se posta diante do homem, ser que conhece, é que se trilha o caminho para o correto entendimento das coisas. Esse caminho será permeado pela interação dialética. Observa-se que o intérprete, para efetivar o diálogo, precisa ter desconfiança sobre a semelhança do que é apresentado por aquele fenômeno. Nesse ponto, Gadamer nega a estrita separação entre sujeito e objeto no fluxo do conhecimento. A realidade não pode ser completamentedissociada do ser que a conhece. Há que se ter um fenômeno analisado com as contaminações próprias. O processo de conhecimento parte daquilo que se quer já estar implícito dentro do fenômeno analisado. Gadamer, nessa altura do pensamento, resgata a ideia grega de pergunta e resposta para efetivar seus argumentos hermenêuticos. Parte-se da ideia de que perguntar é mais difícil do que responder. Para perguntar, o interlocutor precisa saber sobre o assunto e a maneira que irá elaborar tal questão. 2.5. A linguisticidade A linguagem é o carro chefe pelo qual ocorre a hermenêutica. Não haverá essa ciência se a linguagem não for manifestada. A linguagem abre o mundo, esclarece pensamentos, sendo através dela que algo se exterioriza. Todos os conceitos a serem dados, todos os conceitos anteriormente já sabidos, todas as compreensões prévias de determinados assuntos estão latentes dentro da linguagem. Por outro lado, a linguagem é muito mais do que palavras. Linguagem é conhecimento e comunicação, possibilitando entendimento. As palavras não pertencem ao homem, mas sim à situação. A linguagem, na acepção de Gadamer, é o ser em que, o ser em si, o mundo e tudo o que nela se possa exprimir. Hermenêutica é condições de compreender pela linguagem, pela busca do ser que nos é transmitido. Gadamer afirma que o elemento de universalidade da Hermenêutica é a linguagem.