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<p>“Porque a revolução é uma pátria e uma família.” ― Jorge Amado, Capitães da Areia.</p><p>Capitães da Areia</p><p>O livro inicia seu enredo com notícias do jornal a respeito das “crianças ladronas”, que assaltaram a casa do Coronel, noticiando cartas do reformatório, depoimentos e da polícia.</p><p>“Sob a lua num velho trapiche abandonado, as crianças dormem”. O esconderijo das crianças era o cais da praia, em um trapiche abandonado. Lá vivam, dormiam e guardavam os objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Ali também morava o chefe dos Capitães da Areia: Pedro Bala (vagava pela rua a dez anos, conhecia toda a cidade, muito ativo, ocupou o lugar do antigo chefe Raimundo). Nunca se soube a quantidade exata de meninos que ali vivam, mais de quarenta. “Vestidos de farrapos, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarros, eram em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente. Os que totalmente a amavam, os seus poetas”.</p><p>Nas noites do trapiche, o Professor, furtara um livro na casa da Barra e desde então nunca parou de ler, contava histórias aos meninos (apesar de ter ficado na escola um ano e meio), o saber o fazia respeitado e sua imaginação criara os melhores planos de roubo. Sem-pernas conversava alto e ria, ser coxo valia-lhe a comoção das mães de família quando o via humilde e triste. Gato conversava com ele sobre um anel que roubara (tinha muita facilidade em se envolver com mulheres mais velhas, muito charmoso e de lábia). Pirulito, se encontrava rezando, como sempre fora religioso, se apegava muito em Deus (por vezes era motivo de chacota).</p><p>“Havia, é verdade, grande liberdade nas ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas.”</p><p>No decorrer da história é apresentado o Querido-de-Deus (capoeirista e da religião espírita), homem que arrumava pessoas para comprar os objetos roubados pelos meninos. Em certa ocasião, arrumou um serviço para que eles entrassem em uma casa e trocassem um pacote que geraria supostos problemas.</p><p>No decorrer da história, surge o personagem Nozinho França, dono de um antigo Carrossel. Com o vício em bebidas, ele acabou perdendo muito dinheiro e perdeu diversos brinquedos (de parques de diversão), levados para sanar as dívidas. Ele chega na cidade e oferece emprego a Volta Seca e Sem-Pernas, que ajudariam nas vendas e funcionamento. Volta Seca se animou extremamente quando soube que seu “padrinho” Virgulino, o Lampião, teria andado no carrossel. Sem Pernas, por um momento, fingiu ser pertencente aquilo: “Só vê as luzes que giram com ele, e prende em si a certeza que está num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e uma casa e quem os beije e quem os ame. De madrugada convida todos os Capitães da Areia para andarem no carrossel” (o Padre José Pedro vai com eles).</p><p>Padre José Pedro, se fizera amigo deles a tempo. Quando um dia, abordou Boa-Vida na igreja (que desejava roubar ornamentos). O Padre sempre teve grande desejo de ajudar os meninos e se tornam amigo deles, porque enxergava o abandono das crianças. Trabalhou também no reformatório e presenciou tamanha crueldade contra os meninos que iam para lá. Se tornou amigo dos Capitães da Areia, sendo uma das poucas pessoas que conheciam seu esconderijo.</p><p>Nas docas foi onde Pedro Bala descobriu quem era seu pai. Foi um homem, que ajudou na greve das docas e acabou morto por um tiro. Pedro saiu de forma tão perturbadora, que encontrou uma menina que ia embora pela areia do cais e a forçou a ter relações com ele, estuprou-a. Quando finalmente conseguiu se soltar, a menina correu, chorando e em pânico de volta pra casa.</p><p>A mãe de santo Dona Aninha, teve sua estátua de Ogum confiscada pela polícia e Pedro prometeu a ela que iria o trazer de volta, por tudo que ela já tinha feito por eles. Pedro criou um plano e entrou na cadeia, pegou Ogum e saiu, correndo risco de ir parar no reformatório.</p><p>Boa Vida contou a Pedro Bala que uma casa tinha muita coisa de ouro, valorosa. Eles então usaram Sem-Pernas(coxo) para causar comoção na família, conseguir entrar na casa, descobrir onde estava o ouro, para que assim, pudessem invadir e roubar. Assim foi feito, a mulher da casa se comoveu imensamente com a história de Sem Pernas (dizendo que era órfão e não podia nem trabalhar por sua condição física), que se intitulou Augusto (isso fez com que ela se comovesse mais ainda, pois era o nome de seu filho falecido). Ela o colocou para dentro, cuidou e ele sentiu amado.</p><p>“Seu ódio para todos não desaparecera, é verdade. Mas abrir uma exceção para a gente daquela casa, porque dona Ester o chamava de filho e o beijava na face. “ / “E enquanto a abraçava e se deixava beijar, soluçava porque ia abandonar e, mais que isso, a ia roubar.” Os capitães da areia, roubaram e Sem Pernas voltou para o trapiche.</p><p>A epidemia de varíola começou e logo o caos se instaurou na cidade. O primeiro ter a doença foi Almiro que, depois de muita discussão entre o grupo, decidiram se ele iria ou não para o lazareno (onde tratavam a doença de forma desumana e quase ninguém saía vivo de lá). O padre os ajudou, levou o menino para casa de sua mãe e arrumou um médico (que o denunciou por estar escondendo pessoas infectadas, causando sérios problemas ao padre). Por fim, ele teve de ir e acabou morrendo.</p><p>Boa Vida foi o segundo infectado do grupo, e por decisão própria foi para o lazareno, e despediu-se apenas do Professor: “Era como um adeus. Boa Vida era malandro e ninguém ama sua cidade como os malandros.”</p><p>Dora, menina de 14 anos e com um irmão (Zé Fuinha), perdera seu pai para a varíola, e a mãe morrera posteriormente pelo mesmo mal. Dois órfãos, Dora resolve ir para a cidade procurar trabalho e um lugar para morar. Passam-se dias e dias, sendo o único dinheiro 2000 que a patroa de sua mãe lhe deu. Em um dia na praça ela oferece pão a dois meninos: Professor e João Grande. Eles a convidaram para viver no trapiche, seria melhor que na rua.</p><p>Quando chegaram com a menina no trapiche, nos demais meninos, é despertado um desejo pela menina, de ter relações, muitos vem para cima, para tentar algo, porém o Professor e João Grande a protegem. Logo depois chega o líder: João Bala. Que desde o começo rejeitou a ideia de ter uma menina num grupo só de meninos, mas depois passou a protegê-la.</p><p>Nas noites seguintes, com a convivência Dora vai se aproximando dos meninos. Gato, quando foi sair, não conseguia costurar a camisa rasgada. Dora veio, e costurou para ele, que sentiu o seguinte: “Mas ele não tem outro desejo senão que ela continue ser sua mãezinha. Sua felicidade naquele momento é quase absurda. É como se não houvesse existido toda a sua vida depois da morte da sua mãe. É como se tivesse se conservado uma criança igual a todas. Porque nesta noite sua mãe voltou.”</p><p>Não a viam mais com desejo carnal, mas sim como uma figura materna, aquela que ouvia e se orgulhava deles. Aos poucos eles descobriam sua mãe. Pirulito tinha desconfiança de Dora, para ele, ela vinha com um significado de pecado. Porém, ele descobriu depois nela a figura materna, quando ela o ouviu falar de sua religião com atenção e se orgulhou do desejo dele de ser padre.</p><p>Para o professor, ela era Amada, ele tinha sentimentos por ela. Contudo, Dora tinha sentimentos por Pedro Bala.</p><p>Dora trocou o vestido, por uma calça emprestada de Barandão, para se igualar ao grupo e assim, passou a os ajudar nos dias de trabalho também, era corajosa. Pedro Bala brigou com Ezequiel (líder de um grupo menor, e a noite os capitães da areia foram se vingar, Dora foi junto). “Falavam da coragem de Dora, que brigara igual a um menino. “Igual a um homem”, dizia João Grande. Era como uma irmã, exatamente igual uma irmã.”</p><p>Em um assalto, os Capitães da Areia foram pegos. Dora foi mandada para o orfanato e João Bala para o reformatório, os demais conseguiram fugir. Sem Pernas assumiu o comando e bolou um plano para resgatá-los. No reformatório, Pedro Bala foi torturado para revelar onde ficava o esconderijo dos Capitães da Areia, mas não falou (chibatadas,</p><p>cafua, sem água, comida e luz). Os meninos conseguiram enviar um bilhete, um rolo de corda fina e um punhal a Bala, que durante a noite, consegue fugir.</p><p>Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. A comida era má, tinha jejum e logo veio a febre, que por vezes não falava para não ter que ir à enfermaria. Por vezes ia até a grade e os meninos passavam bilhetes (Bala conseguiu fugir, dizia um deles).</p><p>Os meninos conseguiram resgatar Dora do orfanato, mas ela estava muito doente, queimando em febre. No trapiche, Dona Aninha reza uma oração para que a febre cesse. “Os Capitães da Areia olham em silêncio sua mãe, irmã e noiva. Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde está a alegria dela? Tremem com receio de perder Dora”. Durante a noite, Dora pede que os meninos durmam, muitos não conseguem, ela pede que Pedro Bala a abrace, e assim eles dormem. “Na madrugada, Pedro põe a mão na testa de Dora. Fria. Não tem mais pulso, o coração não bate mais. O seu grito atravessa o trapiche, desperta os meninos.” Querido-de-Deus vem e leva o corpo de Dora, para o mar.</p>

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