Prévia do material em texto
50 Verifica-se o emprego de vírgula para separar um vocativo em: a) Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. (1º parágrafo) b) Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. (3º parágrafo) c) Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava a trote, que nem um cachorrinho. (1º parágrafo) d) Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. (2º parágrafo) e) Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. (4º parágrafo) 109. (FCC – 2022) Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. Brincadeiras de criança Entre as crianças daquele tempo, na hora de formar grupos pra brincar, alguém separava as sílabas enquanto ia rodando e apontando cada um com o dedo: “Lá em ci- ma do pi-a-no tem um co-po de ve-ne-no, quem be-beu mor-reu, o cul-pa-do não fui eu”. Piano? Qual? Veneno? Por quê? Morreu? Quem? Tratava-se de uma “parlenda”*, como aprendi bem mais tarde, mas podem chamar de surrealismo, enigma, senha mágica, charada... Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a explora- ção repetida das sílabas “ma” e “ca”. Ponto. Nenhuma história? Por que era má a macaquinha? Depois aprendi que “má maca- ca” é um parequema**. A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial. O que, afinal, teria aprontado a má macaquinha da cartilha? A grande poeta Orides Fontela usou como epígrafe de um de seus livros de alta poesia (Helianto, 1973) esta popular qua- drinha de cantiga de roda: “Menina, minha menina, Faz favor de entrar na roda Cante um verso bem bonito Diga adeus e vá-se embora” Ou seja: brincando, brincando, eis a nossa vida resumi- da, em meio aos densos poemas de Orides, a nossa vida, em que cada um de nós se apresenta aos outros, busca dizer com capricho a que veio no tempinho que teve e...adeus. Podem soar fundo as palavras mais inocentes: “ir-se embora”, depois da viva roda... E ir-se embora sem saber mais nada daquele copo de veneno em cima do piano ou da macaquinha da carti- lha, eternamente condenada a ser má. Ir-se embora já ouvindo bem ao longe as vozes das crianças cantando na roda. * parlenda: palavreado utilizado em brincadeiras infantis ou jogos de memorização. ** parequema: repetição de sons ou da sílaba final de uma palavra, no início da palavra seguinte. (Adaptado de: MACEDÔNIO, F. Casos de almanaque, a publicar) A supressão da vírgula altera o sentido da seguinte frase: a) Oportunamente, lembrarei com você algumas das parlen- das da minha infância. b) Ao me lembrar das cantigas que entoávamos, sou tomado por alguma nostalgia. c) Nem todos iam ao meio da roda, ainda que nós insistísse- mos muito. d) Gostávamos de recitar as parlendas, que nos pareciam car- regadas de mistério. e) Talvez por timidez, ela jamais se oferecia para desfrutar do centro da roda. 110. (FCC – 2022) Para responder à questão, leia o início do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis. Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela, trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à mis- sa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite. A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe des- ta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Con- ceição padecera, a princípio, com a existência da comborça*; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao títu- lo, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Tudo nela era ate- nuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar. Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa. − Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? per- guntou-me a mãe de Conceição. − Leio, D. Inácia. Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de quero- sene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cava- lo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. (Adaptado de: ASSIS, M. de. Contos: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988) *comborça: qualificação humilhante da amante de homem casado Verifica-se o emprego de vírgula para assinalar a supressão de um verbo em: a) A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Mene- ses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. b) Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela, trinta. c) Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Sena- do, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. d) A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. e) Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.