Prévia do material em texto
JUIZ DE
GARANTIAS
Disciplina: direito PROCESSUAL penal
Professor: André luis fregapani leite
JUIZ DAS GARANTIAS
IMPORTANTE! O JUIZ DAS GARANTIAS É UMA FIGURA PRESENTE APENAS NO DIREITO PROCESSUAL PENAL.
No contexto do processo penal, dentro da esfera criminal, existe a presença de três juízes que desempenham funções distintas: juiz das garantias, juiz da instrução (responsável por atuar quando há uma ação penal, denúncia ou queixa) e juiz da execução (encarregado de atuar após uma condenação, com uma sentença penal transitada em julgado)
JUIZ DAS GARANTIAS
QUEM É? DE ONDE VEIO? O QUE FAZ?
É o juiz que atua de forma exclusiva na fase da investigação.
Atua quando ainda não há um processo formalizado, mas sim um inquérito ou outra forma de investigação, como procedimentos de investigação criminal, investigação preliminar ou penal.
O juiz das garantias é um magistrado togado, ou seja, utiliza toga, indicando que é um juiz de carreira que obteve a posição por meio de concurso público.
Sua responsabilidade principal consiste em assegurar os direitos fundamentais do investigado durante a fase de investigação.
“MAS, ESSA FIGURA TÃO IMPORTANTE SEMPRE EXISTIU?”
Anteriormente, no Brasil, não havia a figura do juiz das garantias. Até 2019, o Código de Processo Penal não contemplava essa previsão, sendo o próprio juiz da instrução responsável por garantir os direitos do preso ou investigado durante a fase de instrução. Com a promulgação da Lei Anticrime em 2019, o Art. 3-B do Código de Processo Penal passou a estabelecer a previsão do juiz das garantias, delineando suas competências na fase de inquérito e definindo suas atribuições específicas.
Art. 3°-B, caput: O juiz das garantias é responsável pelo controle da legalidade da investigação criminal e pela salvaguarda dos direitos individuais cuja franquia tenha sido reservada à autorização prévia do Poder Judiciário, competindo-lhe especialmente:
E COMO FOI ESSA IMPLANTAÇÃO?
INÍCIO DE 2020:
O Supremo Tribunal Federal, ao julgar três ações de inconstitucionalidade (ADIs 6298, 6299, 6300 e 6305), inicialmente, através de uma decisão do Ministro Barroso e posteriormente por decisão do Ministro Fux, suspendeu a implementação do juiz das garantias. Embora a Lei tenha entrado em vigor, o STF determinou que sua implementação não ocorresse imediatamente, devido às quatro ações de inconstitucionalidade que alegavam, entre outros pontos, que a implementação impactaria o orçamento do judiciário, exigindo a criação de novos cargos de juiz e afetando o funcionamento do sistema. Com a decisão liminar do STF suspendendo a implementação do juiz das garantias, a pandemia teve início, houve mudanças de ministros e presidente, e o juiz das garantias não foi implementado em nenhum estado da Federação.
EM 2023:
O STF decidiu colocar o juiz das garantias em pauta, ou seja, julgar as quatro ADIs. Utilizando em grande parte a técnica da interpretação conforme, o Supremo alterou praticamente todos os dispositivos relacionados ao juiz das garantias, modificando a intenção original do legislador. A técnica da interpretação conforme não implica na alteração do texto da Lei, mas altera significativamente o seu sentido, como evidenciado no Art. 3A do Código de Processo Penal: “(Incluído pela Lei n. 13.964, de 2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide ADI 6.300) (Vide ADI 6.305)”.
IMPORTANTE!
A partir da decisão do STF, foi concedido um prazo de 12 meses, prorrogáveis por mais 12, para a adoção de medidas administrativas e legislativas visando à implementação do juiz das garantias. Após a decisão do Supremo em 2023, os tribunais terão 12 meses para efetivar o juiz das garantias, ajustando suas leis para regulamentar o processo. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) irá estabelecer as diretrizes a serem seguidas.
Outro ponto relevante é a decisão do STF que categoriza o juiz das garantias como uma norma de processo penal, representando uma escolha legislativa do Congresso para assegurar a imparcialidade do juiz. Portanto, os ministros rejeitaram a ideia de que a implementação poderia impactar o funcionamento dos tribunais ou de que a proposição deveria originar-se do Supremo, enfatizando que, sendo uma norma de processo penal, cabe ao Congresso Nacional regulamentar, como ocorreu no caso. Se questionada sobre a natureza das normas do juiz das garantias em um concurso, a resposta apropriada seria que se trata de normas de processo penal, levando em consideração que o STF não reconheceu a inconstitucionalidade formal por vício de iniciativa.
A questão da competência também assume relevância. O STF determinou que a competência do juiz das garantias não se estende até o recebimento da denúncia, como expresso na Lei, mas sim até o oferecimento da denúncia, que é um ato do promotor. O recebimento, por outro lado, constitui um ato do juiz.
EM SUMA, A DECISÃO DO STF DETERMINOU:
Prazo de implantação – 12 meses, prorrogáveis por mais 12 meses, para a adoção de medidas administrativas e legislativas necessárias à adequação das diferentes leis de organização judiciária e a partir de diretrizes do CNJ.
Natureza da norma – norma de processo penal, opção legítima do Congresso, que visa assegurar a imparcialidade do juiz.
Competência – não é até o recebimento da denúncia (ato do juiz), mas sim até o oferecimento (ato do promotor, da acusação).
ALCANCE
Há quatro hipóteses em que o juiz das garantias não atuará, NÃO HAVERÁ JUIZ DAS GARANTIAS:
Júri;
Competência originária dos tribunais (L8.038);
Violência doméstica e familiar contra a mulher (L11.340);
Infrações de menor potencial ofensivo(L9.099).
ANTES E DEPOIS DA DECISÃO DO SUPREMO PARA O CPP.
Sobre a decisão do Supremo, aproximadamente 20 pontos são relevantes. O primeiro ponto envolve a análise do Art. 3-A do Código de Processo Penal:
“1. Por maioria, atribuir interpretação conforme ao art. 3ºA do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que o juiz, pontualmente, nos limites legalmente autorizados, pode determinar a realização de diligências suplementares, para o fim de dirimir dúvida sobre questão relevante para o julgamento do mérito, vencidos os Ministros Cristiano Zanin e Edson Fachin.”
ANTES E DEPOIS DA DECISÃO DO SUPREMO PARA O CPP.
ART.3º-A:
ANTES: Art. 3-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação.
DEPOIS: Art. 3-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação. O juiz, pontualmente, nos limites legalmente autorizados, pode determinar a realização de diligências suplementares, para o fim de dirimir dúvida sobre questão relevante para o julgamento do mérito.
Para um estudo eficaz desse conteúdo, é recomendável conciliar o Artigo 3-A com o Artigo 156, que já estabelece que o juiz pode, mesmo antes do início da ação penal, realizar provas antecipadas, como o depoimento sem dano. O Artigo 156, parágrafo 2º, determina que, antes do julgamento do mérito, o juiz pode esclarecer qualquer dúvida relevante. É essencial compreender que o Artigo 3-A está em vigor, mas o Artigo 152, incisos I e II, também permanecem válidos. A doutrina anterior considerava que o Artigo 156, nesses incisos I e II, era incompatível com o Artigo 3-A. Contudo, o STF concluiu que não havia incompatibilidade, uma vez que a atuação do juiz será excepcional e suplementar.
O segundo ponto não está relacionado à interpretação conforme, mas sim à declaração de inconstitucionalidade do Artigo 3-B, estendendo o prazo para doze meses para a implementação e funcionamento efetivo do juiz das garantias em todo o país:
“2. Por maioria, declarar a constitucionalidade do caput do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, e por unanimidade fixar o prazo de 12 (doze) meses, a contar da publicação da ata do julgamento, para que sejam adotadas as medidas legislativas e administrativas necessáriasà adequação das diferentes leis de organização judiciária, à efetiva implantação e ao efetivo funcionamento do juiz das garantias em todo o país, tudo conforme as diretrizes do Conselho Nacional de Justiça e sob a supervisão dele. Esse prazo poderá ser prorrogado uma única vez, por no máximo 12 (doze) meses, devendo a devida justificativa ser apresentada em procedimento realizado junto ao Conselho Nacional de Justiça, vencido, apenas quanto à inconstitucionalidade formal, o Relator, que entendia competir às leis de organização judiciária sua instituição.”
“3. Por unanimidade, declarar a inconstitucionalidade parcial, por arrastamento, do art. 20 da Lei 13.964/2019, quanto à fixação do prazo de 30 dias para a instalação dos juízes das garantias.”
A Lei Anticrime havia definido o prazo de 30 dias para a implementação do juiz das garantias. Com a decisão do Supremo, após 3 anos, foi dado o prazo de 12 meses, prorrogáveis por mais 12 para a implementação pelos tribunais, de acordo com as diretrizes e supervisão do CNJ. O juiz das garantias se tornará uma realidade em todos os estados da Federação, bem como no Distrito Federal.
No quarto ponto da decisão do Supremo, utilizou-se a técnica da interpretação conforme, sem efetuar alterações no texto da lei. Foi decidido pelo Supremo que o Ministério Público também deve se submeter ao juiz das garantias. Quando o Ministério Público conduz uma investigação criminal, seja nos procedimentos de investigação preliminar ou procedimento de investigação criminal, é determinado que submeta esse procedimento ao juiz das garantias (lembrando que promotores não podem conduzir inquérito, mas têm a prerrogativa de conduzir investigações). O Ministério Público tem o prazo de 90 dias para disponibilizar ao juiz das garantias todas as informações relacionadas à investigação.
“4. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme aos incisos IV, VIII e IX do art. 3º-B do CPP, incluídos pela Lei n. 13.964/2019, para que todos os atos praticados pelo Ministério Público como condutor de investigação penal se submetam ao controle judicial (HC 89.837/DF, Rel. Min. Celso de Mello) e fixar o prazo de até 90 (noventa) dias, contados da publicação da ata do julgamento, para os representantes do Ministério Público encaminharem, sob pena de nulidade, todos os PIC e outros procedimentos de investigação criminal, mesmo que tenham outra denominação, ao respectivo juiz natural, independentemente de o juiz das garantias já ter sido implementado na respectiva jurisdição.”
O Art. 3B estabelece, no inciso IV, o direito de ser informado sobre a instauração de qualquer investigação criminal, inclusive aquelas conduzidas pelo Ministério Público. O inciso VIII confere ao juiz das garantias a prerrogativa de prorrogar o prazo de duração do inquérito, enquanto o inciso IX possibilita determinar o trancamento do inquérito. Dessa forma, fica evidente que o juiz das garantias atua não apenas em relação ao inquérito, mas também em qualquer investigação criminal, mesmo que conduzida pelo Ministério Público.
O quinto ponto representou uma mudança substancial, o que pode ser relevante em provas:
“5. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao inciso VI do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para prever que o exercício do contraditório será preferencialmente em audiência pública e oral.”
O referido dispositivo originalmente estabelecia uma regra que exigia obrigatoriamente a realização de uma audiência pública e oral pelo juiz das garantias. Com a alteração promovida pelo Supremo, foi determinado que a audiência deve ocorrer preferencialmente, deixando de ser mandatória. Nesse contexto, o contraditório é garantido, preferencialmente em audiência pública e oral, mas excepcionalmente pode ser dispensado. Isso resulta em uma margem de discricionariedade para o juiz das garantias.
ART. 3º-B, VI:
ANTES: VI – prorrogar a prisão provisória ou outra medida cautelar, bem como substituí-las ou revogá-las, assegurado, no primeiro caso, o exercício do contraditório em audiência pública e oral, na forma do disposto neste Código ou em legislação especial pertinente.
DEPOIS: VI – prorrogar a prisão provisória ou outra medida cautelar, bem como substituí-las ou revogá-las, assegurado, no primeiro caso, o exercício do contraditório preferencialmente em audiência pública e oral, na forma do disposto neste Código ou em legislação especial pertinente.
Anteriormente, caso o juiz das garantias pretendesse prorrogar o prazo de prisão provisória no inquérito, era imperativo realizar uma audiência pública e oral, ouvindo o defensor do preso antes de proceder com a prorrogação da prisão. Com a decisão do Supremo, a realização da audiência deve ocorrer preferencialmente, mas na impossibilidade, é permitido prorrogar a prisão por meio de uma decisão escrita devidamente fundamentada.
O próximo ponto decidido pelo Supremo também está relacionado à audiência, novamente através da técnica de interpretação conforme:
“6. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao inciso VII do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para estabelecer que o juiz pode deixar de realizar a audiência quando houver risco para o processo, ou diferi-la em caso de necessidade.”
ART. 3º-B, VII:
ANTES: VII – decidir sobre o requerimento de produção antecipada de provas consideradas urgentes e não repetíveis, assegurados o contraditório e a ampla defesa em audiência pública e oral.
DEPOIS: VII – decidir sobre o requerimento de produção antecipada de provas consideradas urgentes e não repetíveis, assegurados o contraditório e a ampla defesa em audiência pública e oral, podendo o juiz deixar de realizar a audiência quando houver risco para o processo, ou diferi-la em caso de necessidade.
Se ocorrer um pedido de produção de prova considerada urgente ou uma prova não repetível antes da ação penal, a decisão caberá ao juiz das garantias. Conforme estabelecido pela lei anterior, era necessário realizar o contraditório em uma audiência pública e oral para esse fim. No entanto, com a decisão do STF, o juiz tem a prerrogativa de não realizar a audiência caso haja algum risco para o processo em razão de urgência, ou então, adiá-la para após a produção da prova.
“7. Por maioria, declarar a inconstitucionalidade do inciso XIV do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, e atribuir interpretação conforme para assentar que a competência do juiz das garantias cessa com o oferecimento da denúncia, vencido o Ministro Edson Fachin.”
Anteriormente, cabia ao juiz das garantias analisar a viabilidade de uma denúncia e, consequentemente, decidir se a recebia ou não. No entanto, com a decisão do STF, ficou estabelecido que a responsabilidade pela decisão sobre o recebimento da denúncia recai sobre o segundo juiz, ou seja, o juiz da instrução. Este ponto é de suma importância e apresenta significativa probabilidade de ser abordado em avaliações. Atenção:
ART. 3º-B, XIV:
ANTES: XIV – decidir sobre o recebimento da denúncia ou queixa, nos termos do art. 399 deste Código
DEPOIS: XIV – atuar até o oferecimento da denúncia ou queixa.
No oitavo ponto, surge uma questão interessante relacionada à utilização de videoconferência na audiência de custódia. Anteriormente, tal prática era proibida, entretanto, com a decisão atual, está autorizado o seu uso de forma excepcional:
“8. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao § 1º do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para estabelecer que o preso em flagrante ou por força de mandado de prisão provisória será encaminhado à presença do juiz das garantias, no prazo de 24 horas, salvo impossibilidade fática, momento em que se realizará a audiência com a presença do ministério público e da defensoria pública ou de advogado constituído, cabendo, excepcionalmente, o emprego de videoconferência, mediante decisão da autoridade judiciária competente, desde que este meio seja apto à verificação da integridade do preso e à garantia de todos os seus direitos.”
ART.3º-B, §1º:
ANTES: § 1º O preso em flagrante ou por força de mandado de prisão provisória será encaminhado à presença do juiz de garantias no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, momento em que se realizará audiência com a presença do Ministério Público e da Defensoria Pública ou de advogado constituído, vedado o emprego de videoconferência.
DEPOIS: § 1º O preso em flagrante ou por força de mandado de prisão provisória será encaminhado à presença do juiz de garantias no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, salvo impossibilidade fática, momento em que se realizará audiência com a presença do Ministério Público e da Defensoria Pública ou de advogado constituído, cabendo, excepcionalmente, o emprego de videoconferência, mediante decisão da autoridade judiciária competente, desde que este meio seja apto à verificação da integridade do preso e à garantia de todos os seus direitos.
Duas considerações relevantes neste ponto são que a audiência de custódia, de forma justificada e excepcional, pode não ser conduzida ou, alternativamente, também de maneira excepcional, ser realizada por meio de videoconferência.
O nono ponto também representa uma interpretação conforme que promove uma alteração substancial no Art. 3B:
“9. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao § 2º do art. 3º-B do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que: a) o juiz pode decidir de forma fundamentada, reconhecendo a necessidade de novas prorrogações do inquérito, diante de elementos concretos e da complexidade da investigação; e b) a inobservância do prazo previsto em lei não implica a revogação automática da prisão preventiva, devendo o juízo competente ser instado a avaliar os motivos que a ensejaram, nos termos da ADI n. 6.581.”
ART. 3º-B, §2º:
ANTES: § 2º Se o investigado estiver preso, o juiz das garantias poderá, mediante representação da autoridade policial e ouvido o Ministério Público, prorrogar, uma única vez, a duração do inquérito por até 15 (quinze) dias, após o que, se ainda assim a investigação não for concluída, a prisão será imediatamente relaxada.
DEPOIS: § 2º Se o investigado estiver preso, o juiz das garantias poderá, mediante representação da autoridade policial e ouvido o Ministério Público, prorrogar, a duração do inquérito por até 15 (quinze) dias, diante de elementos concretos e da complexidade da investigação. A inobservância do prazo previsto em lei não implica a revogação automática da prisão preventiva, devendo o juízo competente ser instado a avaliar os motivos que a ensejaram, nos termos da ADI n. 6.581.
A regra geral para o prazo de conclusão do inquérito, quando o réu está preso, é de 10 dias, os quais, agora, podem ser prorrogados pelo juiz das garantias por mais de uma vez, o que representa uma mudança desfavorável para os réus.
O próximo ponto refere-se à exclusão da incidência do juiz das garantias, ou seja, trata-se da decisão sobre em quais casos o juiz das garantias não se aplica:
“10. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme à primeira parte do caput do art. 3º-C do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para esclarecer que as normas relativas ao juiz das garantias não se aplicam às seguintes situações: a) processos de competência originária dos tribunais, os quais são regidos pela Lei n. 8.038/1990; b) processos de competência do tribunal do júri; c) casos de violência doméstica e familiar; e d) infrações penais de menor potencial ofensivo.”
ART. 3º- C:
ANTES: Art. 3º-C. A competência do juiz das garantias abrange todas as infrações penais, exceto as de menor potencial ofensivo, e cessa com o recebimento da denúncia ou queixa na forma do art. 399 deste Código.
DEPOIS: Art. 3º-C. A competência do juiz das garantias abrange todas as infrações penais, exceto as de menor potencial ofensivo, júri, competência originária dos tribunais e violência doméstica e familiar e cessa com o oferecimento da denúncia ou queixa.
O próximo ponto repete a questão do recebimento da denúncia, porém, desta vez, referente ao Art. 3C:
“11. Por maioria, declarar a inconstitucionalidade da expressão ‘recebimento da denúncia ou queixa na forma do art. 399 deste Código’ contida na segunda parte do caput do art. 3º-C do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, e atribuir interpretação conforme para assentar que a competência do juiz das garantias cessa com o oferecimento da denúncia, vencido o Ministro Edson Fachin.”
O 12° ponto promove uma alteração na expressão “recebida”, passando a mencionar o oferecimento da denúncia ou queixa:
“12. Por maioria, declarar a inconstitucionalidade do termo “Recebida” contido no § 1º do art. 3º-C do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, e atribuir interpretação conforme ao dispositivo para assentar que, oferecida a denúncia ou queixa, as questões pendentes serão decididas pelo juiz da instrução e julgamento, vencido o Ministro Edson Fachin;”
“13. Por maioria, declarar a inconstitucionalidade do termo “recebimento” contido no § 2º do art. 3º-C do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, e atribuir interpretação conforme ao dispositivo para assentar que, após o oferecimento da denúncia ou queixa, o juiz da instrução e julgamento deverá reexaminar a necessidade das medidas cautelares em curso, no prazo máximo de 10 (dez) dias, vencido o Ministro Edson Fachin.”
Em outras palavras, quando a denúncia chega ao juiz da instrução, cabe a ele aceitar ou rejeitar, analisando em seguida se as medidas cautelares eventualmente estabelecidas pelo juiz das garantias serão mantidas ou revogadas.
“14. Por unanimidade, declarar a inconstitucionalidade, com redução de texto, dos §§ 3º e 4º do art. 3º-C do CPP, incluídos pela Lei n. 13.964/2019, e atribuir interpretação conforme para entender que os autos que compõem as matérias de competência do juiz das garantias serão remetidos ao juiz da instrução e julgamento.”
ART. 3º-C, § 3º:
ANTES: § 3º Os autos que compõem as matérias de competência do juiz das garantias ficarão acautelados na secretaria desse juízo, à disposição do Ministério Público e da defesa, e não serão apensados aos autos do processo enviados ao juiz da instrução e julgamento, ressalvados os documentos relativos às provas irrepetíveis, medidas de obtenção de provas ou de antecipação de provas, que deverão ser remetidos para apensamento em apartado.
§ 4º Fica assegurado às partes o amplo acesso aos autos acautelados na secretaria do juízo das garantias.
DEPOIS: § 3º Os autos que compõem as matérias de competência do juiz das garantias serão remetidos ao juiz da instrução e julgamento.
Neste caso, observa-se a aplicação da técnica da inconstitucionalidade com redução do texto, combinada com a técnica de interpretação conforme.
“15. Por unanimidade, declarar a inconstitucionalidade do caput do art. 3º-D do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019;”
“16. Por unanimidade, declarar a inconstitucionalidade formal do parágrafo único do art. 3º-D do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019.”
ART. 3º-D:
ANTES: Art. 3º-D. O juiz que, na fase de investigação, praticar qualquer ato incluído nas competências dos arts. 4º e 5º deste Código ficará impedido de funcionar no processo. Parágrafo único. Nas comarcas em que funcionar apenas um juiz, os tribunais criarão um sistema de rodízio de magistrados, a fim de atender às disposições deste Capítulo.
DEPOIS: Inconstitucional.
“17. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao art. 3º-E do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que o juiz das garantias será investido, e não designado, conforme as normas de organização judiciária da União, dos Estados e do Distrito Federal, observando critérios objetivos a serem periodicamente divulgados pelo respectivo tribunal.”
ART. 3º-E:
ANTES: Art. 3º-E. O juiz das garantias será designado conforme as normas de organização judiciária da União, dos Estados e do Distrito Federal, observando critérios objetivos a serem periodicamente divulgados pelo respectivo tribunal.
DEPOIS: Art. 3º-E. O juiz das garantias será investido, conforme as normas de organização judiciáriada União, dos Estados e do Distrito Federal, observando critérios objetivos a serem periodicamente divulgados pelo respectivo tribunal.
Trata-se de um pequeno detalhe para destacar que o juiz das garantias será investido e não designado. Essa distinção possui maior relevância para os tribunais, sendo menos propensa a ser abordada em provas.
“18. Por unanimidade, declarar a constitucionalidade do caput do art. 3º-F do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019; 19. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao parágrafo único do art. 3º-F do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que a divulgação de informações sobre a realização da prisão e a identidade do preso pelas autoridades policiais, ministério público e magistratura deve assegurar a efetividade da persecução penal, o direito à informação e a dignidade da pessoa submetida à prisão.”
ART. 3º, PARAGRÁFO ÚNICO:
ANTES: Parágrafo único. Por meio de regulamento, as autoridades deverão disciplinar, em 180 (cento e oitenta) dias, o modo pelo qual as informações sobre a realização da prisão e a identidade do preso serão, de modo padronizado e respeitada a programação normativa aludida no caput deste artigo, transmitidas à imprensa, assegurados a efetividade da persecução penal, o direito à informação e a dignidade da pessoa submetida à prisão.
Parágrafo único. Por meio de regulamento, as autoridades deverão disciplinar, em 180 (cento e oitenta) dias, o modo pelo qual as informações sobre a realização da prisão e a identidade do preso serão, de modo padronizado e respeitada a programação normativa aludida no caput deste artigo, transmitidas à imprensa, assegurados a efetividade da persecução penal, o direito à informação e a dignidade da pessoa submetida à prisão.
Foram realizadas poucas modificações, preservando o formato de parágrafo único e indicando a necessidade de cuidado adicional na divulgação.
“20. Por maioria, atribuir interpretação conforme ao caput do art. 28 do CPP, alterado pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que, ao se manifestar pelo arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público submeterá sua manifestação ao juiz competente e comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial, podendo encaminhar os autos para o Procurador-Geral ou para a instância de revisão ministerial, quando houver, para fins de homologação, na forma da lei.”
ART. 28:
ANTES: Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de homologação, na forma da lei.
DEPOIS: Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério Público submeterá sua manifestação ao juiz competente e comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial, podendo encaminhar os autos para o Procurador-Geral ou para a instância de revisão ministerial, quando houver, para fins de homologação, na forma da lei.
Dessa forma, o arquivamento do inquérito não pode ser efetuado diretamente pelo Ministério Público, sendo necessário submetê-lo à análise do juiz competente.
“21. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao § 1º do art. 28 do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que, além da vítima ou de seu representante legal, a autoridade judicial competente também poderá submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, caso verifique patente ilegalidade ou teratologia no ato do arquivamento.”
ART. 28, § 1º:
ANTES: § 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva lei orgânica.
DEPOIS: § 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva lei orgânica. A autoridade judicial competente também poderá submeter a matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial, caso verifique patente ilegalidade ou teratologia no ato do arquivamento.
O legislador tentou retirar o ato de arquivamento do controle judicial, uma medida que foi negada pelo Supremo.
“22. Por unanimidade, declarar a constitucionalidade dos arts. 28-A, caput, incisos III, IV e §§ 5º, 7º e 8º do CPP, introduzidos pela Lei n. 13.964/2019.”
Não ocorreram alterações; o Supremo apenas reconheceu a constitucionalidade.
“23. Por maioria, declarar a inconstitucionalidade do § 5º do art. 157 do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, vencido, em parte, o Ministro Cristiano Zanin, que propunha interpretação conforme ao dispositivo.”
ART. 157:
ANTES: Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. § 5º O juiz que conhecer do conteúdo da prova declarada inadmissível não poderá proferir a sentença ou acórdão.
DEPOIS: Inconstitucional.
O STF reconheceu a inconstitucionalidade do parágrafo 5°. Conforme sua interpretação, o juiz que teve ciência de prova ilícita ou ilegítima não ficaria “contaminado” e poderia continuar atuando. Assim, o entendimento estabelecido é que o juiz que reconheceu a ilicitude ou ilegitimidade da prova ainda pode exercer suas funções.
“24. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao caput do art. 310 do CPP, alterado pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que o juiz, em caso de urgência e se o meio se revelar idôneo, poderá realizar a audiência de custódia por videoconferência.”
ART. 310:
ANTES: Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa audiência, o juiz deverá, fundamentadamente
DEPOIS: Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa audiência, que em caso de urgência e se o meio se revelar idôneo, poderá ser realizada por videoconferência, o juiz deverá, fundamentadamente.
Reitera-se o conteúdo previamente discutido. Modifica o Art. 310 para incluir a possibilidade excepcional de realização da audiência de custódia por meio de videoconferência.
“25. Por unanimidade, atribuir interpretação conforme ao § 4º do art. 310 do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/2019, para assentar que a autoridade judiciária deverá avaliar se estão presentes os requisitos para a prorrogação excepcional do prazo ou para sua realização por videoconferência, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva.”
ART. 310, § 4º:
ANTES: § 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido no caput deste artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva.
DEPOIS: § 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido no caput deste artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva.A autoridade judiciária deverá avaliar se estão presentes os requisitos para a prorrogação excepcional do prazo ou para sua realização por videoconferência, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão preventiva
Afirma-se que a autoridade judiciária tem a prerrogativa de analisar se estão presentes os requisitos para excepcional prorrogação dos prazos de prisão ou para condução da audiência por videoconferência, sem prejuízo da possibilidade de decretar a prisão preventiva. Dessa forma, o prazo de 24 horas para a realização da audiência de custódia pode ser, de maneira excepcional e devidamente fundamentada, prorrogado pelo juiz, e a audiência pode ser conduzida por meio de videoconferência.
“26. Por unanimidade, fixar a seguinte regra de transição: quanto às ações penais já instauradas no momento da efetiva implementação do juiz das garantias pelos tribunais, a eficácia da lei não acarretará qualquer modificação do juízo competente.”
Trata-se de uma regra de transição direta, indicando que, em relação às ações penais iniciadas no momento efetivo da implementação do juiz das garantias, a vigência da lei não resultará em alteração do juiz competente.
FIM, POR ENQUANTO!
OBRIGADO!
ANDRÉ LUIS FREGAPANI LEITE E ESTAGIÁRIA
ADVOGADO ESCRITÓRIO FREGAPANI SIQUEIRA MAIA
PÓS-GRADUADO EM DIREITO PÚBLICO
MESTRE EM DIREITO
image6.png
image7.svg
.MsftOfcThm_Accent1_Fill_v2 {
fill:#B01513;
}
.MsftOfcThm_Accent1_Stroke_v2 {
stroke:#B01513;
}
image8.png
image9.svg
.MsftOfcThm_Accent1_Fill_v2 {
fill:#B01513;
}
.MsftOfcThm_Accent1_Stroke_v2 {
stroke:#B01513;
}
image2.png
image3.png
image4.png
image5.png