Prévia do material em texto
GRUPO DE ESTUDOS APOSTILA DIDÁTICA Psicopatologia Fenomenológica CONTEÚDO PROGRAMÁTICO MÓDULO 1: FILOSOFIA, HISTÓRIA E EPISTEMOLOGIA DA PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA MÓDULO 2: PSICOPATOLOGIAS DESCRITIVA E FENÔMENO-ESTRUTURAL MÓDULO 3: FENOMENOLOGIA DA ESQUIZOFRENIA MÓDULO 4: FENOMENOLOGIA DA DEPRESSÃO E DO TRANSTORNO BIPOLAR MÓDULO 5: FENOMENOLOGIA DOS TRANSTORNOS RELACIONADOS AO USO DO ÁLCOOL NOTAS DIDÁCTICAS Introdução as Abordagens Fenomenoló- gica e Existencial em Psicopatologia (I): A Psicopatologia Fenomenológica JOSÉ A . CARVALHO TEIXEIRA (*) , i . INTRODUÇÃO Em Psicopatologia existem várias abordagens fenomenológicas e existenciais. Como refere Jonckheere (1 989), do encontro entre Fenomeno- logia, Existencialismo e Psicopatologia resultou um amplo movimento de ideias e de reflexão, intervenção e investigação. Em linhas gerais é possível partir da psicopatologia fenomenológica - que, retirando as suas categorias da psicopa- tologia descritiva, se centra nas vivências e nos dados imediatos da consciência - até às abor- dagens existenciais que, para além de investi- garem a qualidade existencial dos diversos esta- dos psicopatológicos, tentam elucidar as preo- cupações básicas do Homem na sua confron- tação dialéctica com a realidade (Carvalho Tei- xeira, 1989, 1991). Mais particularmente, é pos- sível identificar uma trajectória de variantes que vai da fenomenologia descritiva dos dados imediatos da consciência de Karl Jaspers e Mayer-Gross até à fenomenologia categoria1 de Binswanger e R. Kuhn, passando pela fenome- nologia genético-estrutural a maneira de Min- kowski, von Gebsattel e E. Straus, entre outros. Da mesma forma, mas j á no plano de preocupa- ções claramente existenciais, há uma diferença (*) Psiquiatra. Assistente, ISPA. Coordenador do Grupo de Estudos de Psicologia e Psicopatologia Fenomenológicas e Existenciais. I , que vai da Análise Existencial a Daseinanalyse de Binswanger e Boss passando, por exemplo, pela Logoterapia de V. Frankl e pela Terapia Centrada no Cliente de C. Rogers. Em suma: o pensamento fenomenológico/existencial não aparece com homogeneidade tal como, de resto, acontece com as correntes JilosóJicas inspira- doras. Será que, apesar disso, existem pontos de encontro? Este questionamento é tão pertinente como aquele que, ao falar-se de filosofias fenomeno- lógicas e existenciais, conduziu ao conceito de estilo fenomenológico comum (Lyotard, 1964), entendido como uma convergência em pontos essenciais. Será que no encontro entre Fenome- nologia/Existencialismo, Psicopatologia e Psico- logia também é possível identijkar invariantes? A resposta a esta interrogação é afirmativa. Não só a Fenomenologia e o Existencialismo deter- minaram uma diferença significativa em Psico- patologia e Psicologia (Spiegelberg, 1972) como também se torna possível delimitar, no seio das suas abordagens alguns pontos de convergência fundamentais (Jonckheere, 1989; Yalom, 1984). A nosso ver, estes pontos de convergência surgem como invariantes nas aparições das diversas orientações. No essencial são: uma certa concepção do Homem, o método fenome- nológico, o estilo existencial e a ética de liber- dade. 62 1 Uma certa concepção do Homem que emana no cuidado posto na consideração das suas capacidades e p ot enc ia1 idades , d imensõe:j habitualmente não desenvolvidas suficiente- mente nem de forma significativa por outras cor- rentes de pensamento. Entre elas contam-se o amor, a criatividade, a realização de si, o ser e o vir-a-ser, a espontaneidade e a responsabilidade (no sentido existencial). Enfim, tem-se em conta que o ser do Homem se define num contexto humano, que o cuidado posto por ele na sua exis- tência é uma experiência imediata que resulta d;i descoberta de si mesmo ao lidar com o mundo que está já-aí. Isto quer dizer que a experiência interpessoal - em rigor, a experiência inter- subjectiva - não pode nunca ser ignorada. Por outro lado, o Homem é consciente, capaz de fazer escolhas e intencional. O Homem 15 consciente de si mesmo, de forma contínua e :i diversos níveis. Não é passivo face A existência. Pelo contrário, o Homem é essencialmente livre, no sentido de ser capaz de fazer escolhas e de tomar decisões, das quais resulta o significado da sua existência. Sendo capaz de escolhas, faz-se a si próprio. Descobre-se como fonte ilimitada di: possibilidades e é ele quem cria a sua própria existência. O Homem constrói o mundo onde si: desenrola a sua existência e fá-lo de forma signi- ficativa. Dá um sentido a sua existência, do qual pode resultar um viver de acordo com os seus valores mais profundos no seu compro- metimento familiar, profissional e comunitário. Sujeito pessoal e intersubjectivo, é ele quem opera o comprometimento e o realizador di: todas as estruturas relacionais. Dirige-se para o futuro e arrisca-se (Guimarães Lopes, 1982), acredita em valores e procura o sentido da sua presença no mundo. Implica-se de forma signifi- cativa no seu projecto existencial, de tal maneira que ser-Homem envolve a espacialidade e ;I temporalidade, a corporalidade, o ser-com-os- -outros num mundo comum, ter uma relação ao mundo que é temporal, implicando memória i: historicidade. Mas é, também, ser-para-a-morte que só se pode compreender sobre o fundo da finitude - a temporalidade e a morte -, pelo que se preocupa a angustia. Mas, ao mesmo tempo, a angústia existencial empurra-o a viver pondo cuidado na sua existência. Esta fragilidade do ser (ou impossibilidade de possibilidades poste- riores) que significa a inevitabilidade da sua própria morte, acaba por ser aquilo que pode permitir viver a vida de modo autêntico, porque a existência não pode ser adiada. Enfrentando-se com a inevitabilidade da sua própria morte, o Homem é capaz de superação pela liberdade, a liberdade que salva a distância entre ser e não- ser e da qual emana, como consequência, a res- ponsabilidade existencial e o compromisso com os outros, que consubstanciam uma liberdade situada. O método é o fenomenológico, que permite aceder directamente aos fenómenos tal como aparecem a consciência, tornando inteligível tudo o que está marcado pela subjectividade. O seu objectivo último é o de permitir ao Homem- perturbado compreender-se, isto é, re-situar-se em relação aos seus próprios comportamentos e pôr em evidência, em cada um deles, a intencio- nalidade com que os orienta e subentende, embora tenha sido sucessivamente aplicado a essência e a existência. O conceito de intencio- nalidade remete para a procura de significação perante dada situação, estruturando o compor- tamento, na base dum processo pessoal de signi- ficância (Guimarães Lopes, 1993). O desen- volvimento da aplicação do método feno- menológico ao campo psicopatológico foi sobre- tudo representado pela compreensão fenome- nológica das vivências de K. Jaspers, pela feno- menologia genético-estrutural de E. Minkowski e von Gebsattel e pela Daseinanalyse de L. Binswanger. Como método qualitativo de investigação, o método fenomenológico utiliza uma aproxima- ção holística que envolve uma análise indutiva de carácter naturalista (Ionescu, 1992). A aproxi- mação holística corresponde h tentativa de com- preensão global dos fenómenos, sem qualquer limitação quanto ao número de aspectos a avaliar e por intermédio de estudo pormenorizado de casos individuais. O carácter naturalista rela- ciona-se com o facto de tentar compreender os fenómenos tal como aparecem. Segundo Bache- lor e Joshi (1 986), o método fenomenológico exige, em primeiro lugar, uma descrição cuida- dosa e sistemática daquilo que é percebido na 622 experiência vivida e, em segundo lugar, procura identificar e elucidar o' seu significado essencial. A finalidade é o estudo dos significados e estru- turas dos fenómenos na sua dimensão eidética, isto é, em função da sua natureza fundamentalem possibilidades ou em construções ad hoc. Algumas direções úteis podem ser encontradas entre estas, mas é essencial que sejam seguidas por investigações adicionais. Na esfera da investigação psicológica, E. Husserl deu o primeiro passo crucial em direção a uma fenomenologia sistemática, seus antecessores nisto havendo sido Brentano e sua escola, assim como Th. Lipps. Houve, na psicopatologia, numerosas tentativas de se criar uma fenomenologia1 sem, no entanto, se haver constituído, até agora, um campo de pesquisa de reconhecimento geral com ambição de preparar sistematicamente as fundações para as tarefas da psicopatologia. Dado que a fenomenologia de fato oferece um campo produtivo de trabalho, do qual todos podem tomar parte, uma exposição programática de seus objetivos e métodos parece indicada. As limitações da empatia Na vida cotidiana ninguém pensa em termos de fenômenos mentais isolados, quer sejam seus próprios quer sejam os de outra pessoa. Nossa preocupação pessoal é sempre com aquilo que é o objeto de nossa experiência, e não com o processo mental relacionado a ela. Entendemos outras pessoas não através da consideração e análise de suas vidas mentais, mas por vivermos com elas no contexto em que sucedem eventos, ações e os destinos pessoais. Mesmo quando ocasionalmente fazemos considerações sobre a experiência mental em si mesma, 1. A obra de Kandinsky, Kritische und Klinische Betrachtungen im Gebiete der Sinnestäuschungen (Berlim, 1885) é quase completamente de caráter fenomenológico. A obra de Oesterreich, Die Phänomenologie des Ich in ihren Grundproblemen (Leipzig, 1910), e a de Hackers, “Systematische Traumbeobachtungen” (Archif. F. Psych. wl. 21.1, 1911) conduzem investigações fenomenológicas sistemáticas sobre sintomas particularmente vitais para a psicopatologia. Eu próprio me esforcei neste sentido em dois trabalhos anteriores: “Zur Analyse der Trugwharnehmungen” e “Die Trugwahrnehmungen”. (Reeditado em Gesammelte Schriften zur Psychopathologie, Springer-Verlag, Berlim, 1963). CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 fazemos isto apenas no contexto de causas e efeitos como compreendido por nós, ou quando classificamos personalidades em categorias etc. Nunca nos percebemos propensos a considerar um fenômeno mental isoladamente, e.g. uma percepção ou sensação per se, ou a descrevê-lo em termos de sua aparência ou essência. O mesmo se passa com a atitude do psiquiatra para com seu paciente. Ele pode compartilhar da experiência do paciente, isto sempre ocorrendo espontaneamente, sem que tenha que refletir sobre isso. Neste sentido ele pode obter uma compreensão essencialmente pessoal, indefinível e direta que, no entanto, permanece-lhe como pura experiência, e não como conhecimento explícito. Ele ganha prática em compreender, mas não constrói um repertório de material clínico – “experiência” no sentido profissional – que lhe seria mais útil que meras sensações vagas e impressões, e que poderia comparar, organizar, ou submeter a testagem. A atitude meramente empática, que pode ser bastante satisfatória para alguns – tanto que para alguém a isto inclinado esta pode se tornar seu objetivo profissional – é, deve-se admitir, “subjetiva” num sentido bastante peculiar. E quando formulações ou afirmações específicas são feitas tomando-a como base, e sem qualquer referência a estudos de maior alcance ou a algum sistema conceitual, merece-se rejeitar a boa fundamentação desta conceituação e tomá- la como “meramente subjetiva”, num sentido pejorativo. Afirmações de tal ordem não podem ser discutidas ou verificadas. Podemos apreciar este tipo de compreensão, podemos admirá-la pelas valiosas qualidades humanas que revela; mas jamais podemos reconhecê-la como “ciência”, quer a encontremos diariamente como prática de pessoas civilizadas e educadas ao longo dos séculos, quer em sua feição clínica como a preocupação instintiva do psiquiatra por seus pacientes. Contudo, se ainda desejamos desenvolver uma ciência psicológica devemos, por um lado, reconhecer desde o princípio que seu ideal é uma compreensão plenamente consciente dos fenômenos mentais, de um tipo que possa ser apresentada por meio de terminologia e formas definidas, em contraste à compreensão vaga ou inconsciente que é alcançada apenas de modo pessoal e subjetivo através do posicionamento e aptidões de dois indivíduos específicos. Mas devemos reconhecer também que a psicologia não pode almejar alcançar tal ideal científico; em vez disso deve se engajar em diversas abordagens promissoras. De fato, estas abrem perspectivas, porém a solução que lhes seria ideal persiste infinitamente remota. Por isso tantos praticam sua compreensão pessoal puramente para sua própria satisfação e, do alto de sua vaga e ainda assim penetrante compreensão, olham condescendentemente para baixo em direção a todas as tentativas de definir conceitos em nível consciente, descartando-as como chavões estéreis ou trivialidades. Ainda assim, o fato de apenas tais refletidas R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 determinações psicológicas constituírem contribuições para o conhecimento lhes confere, do ponto de vista científico, valor ímpar – mas apenas deste ponto de vista. Isolando os fenômenos Este posicionamento de insatisfação com a compreensão como mera ex- periência e que deseja promovê-la ao patamar de conhecimento que possa ser comunicado, investigado e discutido, depara-se com uma infinidade de fenô- menos psíquicos mult i facetados, que ainda estão longe de serem claros e cujas relações de dependência e conseqüência ainda têm de ser elucidadas. Sem dúvida, o primeiro passo em direção a uma compreensão científica deve ser classificar, definir, diferenciar e descrever os fenômenos psíquicos particula- res, os quais são assim atualizados e regularmente descritos com terminolo- gia específica. Devemos principiar com uma representação clara do que realmente está se passando com o paciente, o que ele está realmente experimentando, como as coisas surgem em sua consciência, quais suas sensações, e daí por diante. E nesta etapa devemos pôr de lado todas as considerações sobre a relação entre as experiências ou sua síntese num todo unitário, e especialmente devemos evitar o emprego de quaisquer construtos básicos ou modelos de referência. Devemos figurar apenas o que de fato se apresenta à consciência do paciente; qualquer coisa que não se apresentou realmente à consciência do mesmo estará excluída de nossa consideração. Devemos deixar de lado todas as teorias antiquadas, construtos psicológicos e mitologias materialistas sobre processos cerebrais; devemos voltar nossa atenção apenas para o que podemos entender como tendo real existência, e que podemos diferenciar e descrever. Esta, como mostra a experiência, é uma tarefa bastante difícil. Esta peculiar liberdade de pré-concepções que a fenomenologia demanda não é algo que alguém consegue obter desde o início, mas algo laboriosamente conquistado após prolongado trabalho crítico e muito esforço – comumente infrutífero – em modelar construtos e mitologias. Quando éramos crianças, inicialmente desenhávamos as coisas como imaginávamos, não como as enxergávamos. Do mesmo modo, quando psicólogos e psicopatólogos, atravessamos um estágio em que, de uma maneira ou outra, formamos nossas próprias idéias sobre os eventos psíquicos, e apenas posteriormente adquirimos uma apreensão sem preconceitos destes eventos como realmente são. Assim, esta atitude fenomenológica deve ser adquirida apenas pelo esforço repetido e pela sempre renovada superação das pré-concepções. CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 Como então procedemos quando isolamos, caracterizamos e damos a forma conceitual destes fenômenos psíquicos? Não podemos retratá-los ou trazê-los diante de nossos olhos de qualquer maneira que possa ser percebido pelos sentidos. Podemos apenas guiarmo-nos e a outrem através de uma abordagem múltipla.Devemos ser conduzidos, começando pelo exterior, a uma apreciação real de um fenômeno psíquico particular pela observação de sua gênese, suas condições de surgimento, suas configurações, seu contexto e possíveis conteúdos concretos; também pelo uso de comparações intuitivas e simbolização, através do voltar de nossas observações para qualquer direção que elas próprias sugiram (como artistas fazem tão agudamente) e pela demonstração de fenômenos conhecidos que parecem ter algum papel na formação do fenômeno estudado. Tudo isto constitui incentivo, reforçado por estas pistas indiretas, para que outros atualizem estes fenômenos por si mesmos, ao passo que nós também somos encorajados a empregar nossos próprios achados em estudos posteriores. Quanto mais numerosas e precisas tais pistas indiretas se tornam, melhor definidos e mais característicos os fenômenos estudados se mostram. De fato, este esforço pessoal em representar para nós mesmos os fenômenos psíquicos, guiados apenas por estas pistas inteiramente exteriores, é a única condição sob a qual podemos falar de algum tipo de trabalho psicológico. Um histologista oferecerá exaustiva descrição de elementos morfológicos particulares, mas o fará de modo a tornar mais fácil que outras pessoas vejam estes elementos por si mesmas, e terá de supor ou induzir este “ver por si mes- mo” naqueles que realmente querem entendê-lo. Do mesmo modo, o fenomeno- logista pode indicar aspectos e características, e mostrar como estes podem ser distinguidos e ainda evitadas as confusões; tudo com vistas a descrever os da- dos qualitativamente diferentes. Mas ele deve se assegurar de que aqueles a quem se dirige não apenas pensam como ele, mas vêem como ele, no contato e nas conversas com o paciente, e pelas suas próprias observações. Este “ver” não se realiza através dos sentidos, mas sim pela compreensão. Isto é algo bastan- te singular, irredutível e derradeiro. E se esperamos dar ao menos um único passo adiante no campo da fenomenologia, temos de nos adestrar e dominar esta técnica – incluindo coisas como a “representação dos dados em primeira pes- soa”, “compreensão”, “apreensão” ou “atualização”. Apenas assim adquirimos uma frutífera faculdade crítica que se opõe tanto à adaptação a construções teóricas quanto contra a infrutífera recusa à impossibilidade de progresso. Quem quer que não tenha olhos para enxergar será incapaz de praticar a his- tologia; quem quer que não se disponha ou seja incapaz de “atualizar” fenô- menos psíquicos e representá-los vividamente não poderá obter uma com- preensão fenomenológica. R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 A busca pelos fenômenos irredutíveis A qualidade irredutível dos fenômenos psíquicos – que só podem tomar o mesmo significado para uma diversidade de pessoas através da motivação e múltiplos indícios e pistas mencionados anteriormente – pode ser encontrada até no caso das mais simples características sensoriais, como a percepção do vermelho, do azul, das cores e tons. Também se manifesta na consciência do espaço e objetos, na percepção, representação imagética, pensamento etc. Em psicopatologia temos os exemplos das pseudo-alucinações, do fenômeno de déjà- vu, da desrealização, da heautoscopia, da experiência do “duplo”, entre outros; embora todos estes termos descrevam grupos de fenômenos psíquicos que ainda são apenas sutilmente diferenciados entre si. Para a “atualização”, em nós mesmos, de todas estas características fenomenologicamente irredutíveis, dispomos de expressões como “perceber”, “ver”, “colocar-se no lugar de”, “empatia”, “compreensão”, entre outras. Tais termos sempre denotam o tipo de experiência irredutível correspondente e com papel semelhante na psicologia, que a percepção sensorial tem nas ciências naturais. Da mesma maneira que a senso-percepção é evocada pela apresentação de um objeto, também esta “atualização” empática nos será evocada pelas pistas e indicações supracitadas, pela nossa apreensão imediata dos fenômenos expressivos e pela nossa imersão na autodescrição das outras pessoas. Desta terminologia segue que a “empatia” e a “compreensão” não são, de modo algum, fenômenos simples e irredutíveis em si mesmos, mas provavelmente contêm toda uma gama de elementos ainda por serem definidos. Tal qual a percepção, a empatia tem suas tarefas a desempenhar: primeiramente para a fenomenologia, da qual ela é fundamento, e ainda para a investigação da psicogênese. Até este ponto não estamos preocupados com nenhuma destas; precisamos apenas notar a contribuição dada ao nosso conhecimento por esta experiência empática, compreensiva, e levantar a questão da confiabilidade deste método de acesso aos fatos. Se, analogicamente à experiência perceptiva, reconhecermos a experiência empática como irredutível, a questão pode ser respondida nestas linhas: no campo da experiência empática os recursos técnicos para “reter” o que foi visto uma vez, para posterior comparação e outros fins, são tão inadequados que serão encontradas mais dificuldades do que no caso da experiência sensorial. Mas, em princípio, a confiabilidade é estabelecida do mesmo modo, isto é, por meio de comparação, repetição e verificação das experiências empáticas conforme propiciam a “atualização”. Em ambos os campos há bastante incerteza; não se pode negar que no campo psicológico esta é maior que nas ciências naturais, mas é uma diferença apenas de grau. CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 Se estamos representando nossas próprias experiências psíquicas passadas ou as de outras pessoas é irrelevante. A única diferença importante parece ser entre as auto-observações sistemáticas e experimentais sobre experiências persistentes, e aquelas que são representações empáticas comuns. Na investigação dos fenômenos psicopatológicos apenas as últimas podem realmente ser consideradas, já que os pacientes raramente podem ser levados a realizar auto-observações naquele primeiro sentido – e apenas em condições muito favoráveis, quanto a distúrbios simples como agnosias ou alucinações em clara consciência. Contudo, tais representações empáticas de fenômenos entre os doentes mentais podem muito bem ser promovidas por conceitos derivados de investigações fenomenológicas mais elaboradas, do último tipo. Métodos de análise fenomenológica Os métodos pelos quais colocamos em prática uma análise fenomenológica e determinamos o que os pacientes de fato experimentam são de três tipos: 1) a “imersão”, por assim dizer, nos gestos, comportamentos, e movimentos expressivos destes; 2) a exploração pelo questionamento direto ao paciente e por meio da avaliação que os próprios pacientes, sob nossa condução, fazem de si mesmos; 3) autodescrições escritas – raramente realmente boas, por outro lado todas do mais alto valor; elas podem, de fato, ser usadas mesmo que não se conheça a personalidade do autor. Em todos esses casos estamos perseguindo a fenomenologia na medida em que nos dirigimos à experiência psíquica subjetiva e não às manifestações objetivas que, neste contexto, são apenas um passo em nossa jornada – os meios, não o objeto de nossa investigação. De todas essas fontes de informação, boas autodescrições têm o mais elevado valor.2 Quando, usando esses métodos, tentamos nos aproximar da vida psíquica do paciente, nossa primeira impressão é de um insondável caos de fenômenos constantemente mutáveis. Nosso objetivo inicial deve ser apreender, delimitar um elemento particular, e retratá-lo com fim de construir uma noção do mesmo, da qual nós e outras pessoas possam fazer uso permanente; além de lhe provermos um nome pelo qual podemos sempre identificá-lo. Fenômenos psicopatológicos 2. Para os interessados, listo algumas das melhores autodescrições publicadas até o momento: Schreber – Memoirs of a Neurotic. Leipzig, 1903; Thomas de Quincey – Confessions of an Opium Eater; Gérard de Nerval – Aurélie; J. J. David – Hallucinations. In: Neue Rundschau, n. 17, 874;Kandinsky – On the Study of Hallucination. In: Archif. J. Psych., II, 453; Klinke – Jahr. F. Psych., 9; Kieser – Allgemeine Zeitschr. F. Psych., 10, 423; Engelken – Ibid., 6, 586; Meinert – An Alcoholic Madman. Dresden, 1907. R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 parecem exigir este tipo de abordagem; uma que se propõe a isolar, fazer abstra- ções a partir de observações correlatas, apresentar como reais apenas os dados em si mesmos, sem tentar entender como emergiram; uma abordagem que ape- nas pretende “ver”, e não explicar. Em condições patológicas, numerosos fenô- menos psíquicos surgem sem antecedentes que lhes confiram sentido; psicologicamente falando, não emergem de nada. Do ponto de vista causal são decorrentes de um processo mórbido. Memórias vívidas de coisas nunca expe- rimentadas; idéias sustentadas com uma convicção de sua veracidade e sem qual- quer base inteligível para tal convicção; afetos e emoções aparecendo espontaneamente e não com base em quaisquer experiências ou idéias relevantes; todas estas e muitas outras são exemplos comuns. Esses são os objetos da in- vestigação fenomenológica, a qual os representa e determina como realmente são. Três grupos de fenômenos podem ser determinados deste modo. O primeiro con- siste em fenômenos conhecidos por nossa própria experiência. Surgem da mes- ma maneira que os processos psíquicos correspondentes, os quais, em condições normais, emergem uns dos outros de maneira inteligível. Diferenciam-se apenas em seu modo de origem dos fenômenos, de outra maneira muito similares, ocor- rendo em doentes mentais, por exemplo, muitas falsificações da memória. Há também fenômenos que devem ser entendidos como exageros, atenuações ou combinações de fenômenos que nós próprios experimentamos, por exemplo, os êxtases de algumas psicoses agudas, pseudo-alucinações, e impulsos mórbidos. Até onde nossa “compreensão” pode alcançar, em tais casos, quando não podemos baseá-la em quaisquer experiências conscientes similares, é uma questão que não pode ser respondida conclusivamente. Algumas vezes parece que nossa compreensão pode ir além das possibilidades garantidas por nossas próprias experiências, mesmo aquelas similares. O terceiro grupo de fenômenos patológicos se distingue dos dois grupos anteriores por sua completa inacessibilidade a qualquer compreensão empática. Apenas podemos nos aproximar dos mesmos por meio de analogias e metáforas. Percebemo-os individualmente, não por qualquer compreensão dos mesmos em sentido positivo, mas por meio da obstrução ao curso de nossa compreensão em face ao incompreensível. Neste grupo podemos talvez incluir os chamados pensamentos e afetos “fabricados” que muitos pacientes relatam como experiências verdadeiras (experiências de passividade), mas as quais jamais podemos identificar a não ser pelo uso de termos como estes, e através de uma série de observações tencionando determinar o que estes fenômenos não são. Alguns pacientes que, a despeito de sua psicose, preservaram a consciência sobre sua vida mental normal prontamente admitem a impossibilidade de descreverem suas experiências pela linguagem comum. Certo paciente explicou: “Em parte se tem de lidar com coisas que simplesmente não podem ser expressas em linguagem CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 humana. Se quero ser entendido, ao menos em alguma medida, tenho de usar figuras de linguagem e analogias que não podem mais do que se aproximar da verdade; a única possibilidade é realizar alguma comparação com fatos bem conhecidos da experiência humana...”. Em outro caso: “Tem-se que considerar que se trata mais de uma questão de perspectiva; há estas imagens em minha cabeça, mas é excepcionalmente difícil descrevê-las em palavras, às vezes definitivamente impossível”. Alguns – embora não muitos – dos neologismos cunhados pelos pacientes são baseados em esforços similares para nomear suas próprias experiências. Certo paciente tentou descrever uma sensação em seu quadril, com mais precisão, do seguinte modo: Quando indagado se o que sentia era uma “fisgada”, respondeu: “Não, não é uma fisgada, é uma ‘plotchada’”. Desde o princípio, a psiquiatria teve de se preocupar com a delimitação e nomeação destas distintas formas de experiência. Não poderia, certamente, ter havido qualquer avanço sem tais definições fenomenológicas. Delírios, falsificações dos sentidos, alterações depressivas e expansivas de humor, e muito mais foram descritos. Todos estes permanecerão como fundamentos para as pesquisas fenomenológicas posteriores. Freqüentemente, contudo, temos primeiro que nos livrar das amarras das teorias sobre as supostas bases físicas ou estrutura psicológica destes fenômenos. Numerosas abordagens fenomenológicas têm sido quase decisivamente obstadas por tais empreendimentos teóricos. Não podemos, a esta altura, nos satisfazer com apenas umas poucas e falhas categorias, mas devemos nos voltar sem qualquer pré-concepção aos fenômenos em si mesmos. E se pudermos identificar algum, nós procuraremos concebê-lo e descrevê-lo tão completamente quanto possível, sem alegarmos conhecer previamente em que consiste o fenômeno em virtude de nosso conhecimento em psicologia. A atual classificação dos sintomas da insanidade em falseamentos sensoriais e delírios pode ser útil em sentido mais grosseiro e bem definido, mas estes termos abarcam uma ainda inexplorada diversidade de fenômenos. Uns poucos exemplos podem ilustrar o tipo de fenômeno que pode ser delimitado. Kandinsky ofereceu uma descrição das pseudo-alucinações, uma variedade específica de imagem mórbida. Estas diferem das imagens normais por sua maior concretude sensorial, clareza de detalhes, por seu surgimento independente e até contrário à vontade do indivíduo, e por ser acompanhada por uma experiência de passividade e haver sido infligida. Por outro lado, diferem das alucinações e da percepção normal por não surgirem no espaço externo como as percepções, mas no espaço interno, no qual as imagens também são vivenciadas. Tal concepção de pseudo-alucinação tem sido atacada por meio de considerações teóricas. Entretanto, a questão é puramente fenomenológica e descritiva. Seria possível representar os casos referidos de outro modo mais convincente; poder- se-ia mencionar outros casos (autodescrições, resultados de outras investigações); R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 mas é somente por meio de representações claramente estabelecidas deste tipo que as proposições de Kandinsky podem ser refutadas, não por meras considerações teóricas. A tarefa da fenomenologia é autônoma, e o conhecimento disso protegerá contra críticas fundamentadas em má compreensão e, portanto, improdutivas. Não é incomum, ainda, que pacientes relatem experiências, momentaneamen- te conscientes, de haver alguém logo atrás ou acima deles. Ao olharem ao redor, este alguém também se viraria; eles “sentem” isto, realmente há alguém lá. Con- tudo, tais pacientes não têm a experiência sensorial de real contato, ou mesmo qualquer outra experiência sensorial, tampouco jamais vêm a ter qualquer con- tato cara a cara com a suposta pessoa. Alguns destes pacientes chegam à con- clusão de que não há ninguém lá, enquanto outros persistem convencidos da existência desta pessoa cuja presença sentem tão vividamente. Aqui não se trata, obviamente, de uma falsificação sensorial, já que tal elemento sensorial está au- sente; tampouco de uma idéia delirante, já que, de fato, o que há é uma experiên- cia que se submete a um juízo, e tal juízo pode ser correto ou delirante. Um terceiro exemplo, extraído da esfera afetiva, mostra como, simplesmente pela “imersão” pessoal em um fenômeno particular e sem a ajuda de qualquer teoria ou sistema, se pode chegar a uma representação e delimitação de tais fenômenos. Por exemplo, ouve-se falar de “sentimentos de êxtase”: entre estes se pode pron- tamentedistinguir, senão diferentes fenômenos, ao menos distintos matizes de sentimentos. Não nos preocupamos, aqui, com estarmos certos ou errados em situações específicas. Pode-se distinguir, em primeiro lugar, um entusiasmo ge- neralizado, emoção ou maravilhamento, envolvendo tudo o que é concebível; em segundo lugar, uma profunda felicidade da qual alguma imagem prazerosa oca- sionalmente emerge; e, em terceiro lugar, um sentimento de elevação e graça, de completude e grande significado. Tais distinções rapidamente feitas, para terem seu valor ultimado, devem, então, ser objetos de elaboração fenomenológica adi- cional. Os métodos da fenomenologia psicopatológica foram aqui discutidos (apreensão das expressões motoras, exploração das experiências dos pacientes, e autodescrições); também as indicações indiretas pelas quais somos guiados em direção à nossa própria representação do fenômeno (observando suas origens, as condições e circunstâncias em que surgem, seus conteúdos, elementos bem conhecidos que possam conter, indicações simbólicas etc.). E a única questão que persiste é o como podemos prover a motivação para que outros construam suas próprias representações do fenômeno à luz do que já foi desenvolvido. Em um trabalho fenomenológico, portanto, casos individuais serão apresentados e terminologia será estabelecida. Dizer que a fenomenologia lida apenas com dados presentes de modo imediato não consiste em censura à mesma, mas apenas confirma a afirmação de um fato. Contudo, sempre será custoso definir como se CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 pode passar do caso individual para um entendimento mais geral e uma delimitação mais completa. Deve-se ter em mente que as experiências de pacientes individuais são infinitamente variadas, e que a fenomenologia apenas extrai delas algumas características gerais que podem ser igualmente achadas em outros casos e, portanto, podem ser tomadas pela mesma característica, enquanto a infinidade de experiências pessoais continua mudando. Sustentamos, assim, que por um lado a fenomenologia efetua abstrações a partir de uma infinidade de elementos em contínua mudança, e de outro lado é definitivamente orientada ao perceptível e ao concreto, não ao abstrato. Apenas onde algo pode ser reduzido ao “real” e se tornar um dado imediato, isto é, se tornar concreto, pode haver matéria para a fenomenologia. Classificando grupos de fenômenos Assumamos que, como descrito acima, uma variedade de fenômenos possam ser delineados e iluminados. Neste momento parecemos nos situar, novamente, perante um caos de incontáveis fenômenos descritos e definidos, mas ainda insatisfatórios diante de nossas necessidades científicas. O processo de delimitação deve se seguir pela colocação dos fenômenos em algum tipo de ordem, de modo a podermos ter acesso ao conhecimento da diversidade da vida psíquica de maneira sistemática, e tornar possível a investigação dos mesmos além dos limites do já alcançado. Os fenômenos podem ser organizados de modos bastante distintos, de acordo com o propósito que se tem em vista. Por exemplo, podem ser organizados segundo suas origens, determinantes físicos, conteúdos ou significados numa determinada perspectiva – como a estética, ética ou lógica. Todos estes princípios classificatórios devem ser usados nos espaços que lhes competem; mas para a fenomenologia não são satisfatórios. Buscamos uma classificação que organize os fenômenos psíquicos conforme suas similaridades fenomenológicas entre si, tal como um infinito número de cores são organizadas num espectro de uma maneira fenomenologicamente satisfatória. Contudo, no atual estado de desenvolvimento da fenomenologia, parecem existir numerosos grupos de fenômenos entre os quais nenhuma relação pode ser observada. Senso- percepção e idéias, alucinações e delírios, mais parecem ser fenômenos separados por um abismo do que unidos por transições. Fenômenos assim completamente não relacionados somente podem ser inscritos sob denominações distintas, e não podem ser organizados em qualquer padrão específico na vida psíquica. Mas há outros grupos de fenômenos que podem ser relacionados e organizados de modo sistemático. Entre estes, transições podem ser comumente R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 distinguidas (como entre as cores). Como exemplo de tal arranjo sistemático de fenômenos correlatos pode ser citado o caso das pseudo-alucinações. Em considerações detalhadas de casos individuais, tem-se a impressão de que transições existem entre as imagens normais e pseudo-alucinações completamente desenvolvidas (que nunca tomam característica de materialidade, e permanecem no espaço psíquico interno, aquele ocupado pelas imagens). Investigando estes fenômenos é possível encontrar quatro principais pontos de contraste, entre os quais eles podem variar ao longo de uma série de transições. Então, se conseguimos descrever cada fenômeno em termos de sua posição aproximada dentro destas séries, teremos caracterizado este fenômeno particular satisfatoriamente do ponto de vista fenomenológico, situado como está entre a imagem e a pseudo-alucinação. Estes quatro pontos de contraste são como segue: Imagens normais 1. Vagas, incompletas em detalhes. 2. Uns poucos elementos sensoriais são adequadamente percebidos, ou mesmo nenhum; por exemplo, a imagem de uma face num tom neutro. 3. Dissolvem-se, se dispersam, têm de ser constantemente recriadas. 4. Têm caráter volitivo; podem ser evocadas ou transformadas pela vontade. O senti- mento é de participação ativa. Pseudo-alucinações completamente formadas 1. Bem definidas, completas em detalhes. 2. Os elementos sensoriais são adequada- mente percebidos, como na percepção normal. 3. São dotadas de constância e são de fá- cil retenção. 4. São involuntárias, não podem ser evoca- das nem modificadas por escolha própria. Associadas a sentimentos de passivida- de e de serem externamente impostos. Este exemplo, que não será discutido adicionalmente aqui, mostra como damos início ao agrupamento de fenômenos em bases puramente fenomenológicas, usando como pontos de distinção apenas os aspectos dos fenômenos que são realmente experimentados, e excluindo quaisquer noções ou teorias em adição. Ademais, mostra como é vital distinguir entre transições fenomenológicas e separações fenomenológicas. A existência de transições permite-nos colocar os fenômenos em uma ordem, mas onde há separações apenas podemos enumerar ou contrastar os opostos. Ao mesmo tempo, é evidente que para reconhecer um grupo de fenômenos como um novo grupo do ponto de vista fenomenológico, separado daqueles já reconhecidos, às vezes é algo a ser decidido apenas após cuidadosa consideração de claras evidências. Atualmente, contudo, quando muitos buscam reduzir os dados psíquicos a termos limitados CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 e o mais simples possíveis, é preferível, todavia, aceitar a multiplicidade de fenômenos – que podem ser organizados posteriormente – do que se deixar levar por algum sistema psicológico superficial construído apenas com uns poucos elementos. Enquanto o ideal da fenomenologia é a infinidade de características irredutíveis, classificadas e organizadas a fim de permitir sua investigação, há um outro ideal, oposto: aquele dos elementos irredutíveis menos numerosos possíveis, como na química. Segundo esta perspectiva, todos os complexos fenômenos psíquicos poderiam ser derivados destes elementos, e todos os fenômenos psíquicos deveriam poder ser satisfatoriamente apresentados pela sua fragmentação nestes elementos. Para ser consistente, tal posicionamento deve prever a possibilidade de se sustentar com um único átomo psíquico, sendo, tudo que é psíquico, construído por distintas configurações desta partícula. Tal idéia aproveita-se do exemplo das ciências naturais, e decerto tem implicações em relação à origem das variedades psíquicas. Tal como a infinita variedadede cores pode ser reduzida a diferenças puramente quantitativas de comprimento de onda, também se poderia desejar explicar a origem das variedades psíquicas e, talvez, estabelecer diferentes classificações, nestas bases. Para a fenomenologia, entretanto, tal questão parece bem pouco importante. O objetivo da análise fenomenológica é amplificar o conhecimento sobre o fenômeno psíquico por meio de sua clara delimitação. Como um procedimento entre outros, a fenomenologia lança luzes sobre elementos psíquicos que se mostram como constituintes daquilo que é estudado. Esta fragmentação de estruturas complexas em seus constituintes é apenas um modo de proceder; mas aqueles que adotam o ponto de vista descrito, que é válido apenas em relação à gênese dos fenômenos psíquicos, falam como se fosse a única possibilidade. Explicariam a percepção, por exemplo, analisando-a em elementos sensoriais, percepção espacial e atitude intencional; enquanto a fenomenologia verdadeira primeiramente compararia percepções com imagens – as quais são compostas pelos mesmos elementos – e chegaria à conclusão que a percepção deve ser caracterizada como uma qualidade psíquica irredutível. Mesmo quando, ocasionalmente, a idéia da “análise em elementos irredutíveis” – tal qual a idéia de “análise como a delimitação de tipos irredutíveis” – parece se apresentar como puramente fenomenológica e não influenciada pela perspectiva genética, ela ainda tende a reincidir, em todas as oportunidades, em confusão com considerações genéticas: novamente diz-se que estruturas psíquicas complexas emergem de uma combinação de elementos. A fenomenologia, por outro lado, recusa o ideal dos menos numerosos elementos possíveis; ao contrário, ambiciona lidar com a infinita variedade de fenômenos psíquicos apenas para, tanto quanto possível (dado que a tarefa é evidentemente interminável), tentar fazê-los mais lúcidos, precisos e individualmente reconhecíveis a qualquer momento. R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 Os limites da fenomenologia Oferecemos acima, ainda que em linhas gerais, os propósitos e métodos da fenomenologia, que certamente tem sido praticada desde os primórdios da psiquiatria, mas jamais teve oportunidade de um desenvolvimento sem entraves. Havendo sofrido muito dano em decorrência de ser confundida com outras linhas, reforçaremos sucintamente o que a fenomenologia não ambiciona, e com o que a fenomenologia não deve ser confundida. À fenomenologia interessa apenas a experiência real, apenas o perceptível e o concreto, não qualquer elemento que se ensine estar subjacente aos fenômenos psíquicos e que sejam matéria de construções teóricas. A cada um de seus achados a fenomenologia deve questionar: isto realmente foi experimentado? Isto realmente se apresenta na consciência do sujeito? Os achados fenomenológicos derivam sua validade do fato de que os diversos elementos da realidade psíquica podem ser repetidamente evocados. Assim, estes achados apenas podem ser refutados se os elementos de um fato foram erroneamente representados anterior ou presentemente; jamais podem ser refutados pela demonstração de sua impossibilidade ou erro, por meio de proposições teóricas. A fenomenologia nada pode ganhar da teoria: pode apenas perder. A acurácia de uma representação específica não pode ser verificada pela sua conformidade em relação a critérios gerais; a fenomenologia deve sempre encontrar seus padrões em si própria. A fenomenologia, assim, lida com o que é realmente experimentado. Ela vê os fenômenos psíquicos “como se vê de dentro”, e os traz à percepção imediata. Não se preocupa, portanto, com manifestações externas, com fenômenos motores, movimentos expressivos como tais, nem com qualquer tipo de rendimento objetivo. Já havíamos explicitado a extensão em que expressões motoras e autodescrições podem ser utilizadas como meios, mas não como objeto, da fenomenologia. Adicionalmente, a fenomenologia não tem nada a ver com a gênese dos fenômenos psíquicos. Apesar de seu emprego ser um pré-requisito para qualquer investigação causal, ela deixa as questões genéticas de lado, e estas não podem nem refutar nem corroborar seus achados. Estudos causais relacionados a cores, percepção etc., são extrínsecos à fenomenologia. Mas tais investigações factuais ainda lhe são menor perigo que as “mitologias cerebrais”, que têm buscado interpretar a fenomenologia e ressituar-lhe por meio de construções teóricas dos processos cerebrais fisiológicos e patológicos. Assim, Wernicke, aquele que de fato realizou importantes descobertas fenomenológicas, distorceu- as por interpretá-las em termos de “fibras conectivas” e coisas do tipo. Estes tipos de construções habitualmente impedem as investigações fenomenológicas de atingirem seu objetivo próprio. Inicialmente os criadores destas construções CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 empregam necessariamente a fenomenologia, mas, havendo alcançado tais teorias, sentem-se em terreno mais seguro, e com notável falha no reconhecimento de suas próprias fontes declaram todos os resultados fenomenológicos como “muito subjetivos”. Por fim, a fenomenologia deve ser mantida separada do que chamamos de “compreensão genética” dos eventos psíquicos, ou seja, a compreensão de suas relações significativas. Esta é uma modalidade peculiar de compreensão que se aplica unicamente às ocorrências psíquicas; ela apreende, com característica de auto-evidência, como um evento psíquico emerge de outro; como um homem atacado sente-se raivoso, um amante traído enciumado. Fazemos uso da palavra “compreensão” tanto para as “representações” fenomenológicas como também para esta “apreensão” das conexões psíquicas. Para evitar confusões a primeira é denominada “compreensão estática”; ela é a base em que deve repousar a definição dos eventos psíquicos. Compreende apenas dados, experiências, modalidades conscientes e sua delimitação. À última chamamos de “compreensão genética” – a compreensão das conexões significativas entre uma experiência psíquica e outra, a “emergência do psíquico a partir do psíquico”. A fenomenologia, em si mesma, nada tem a ver com esta “compreensão genética” e deve ser tratada como algo inteiramente separado; ainda que, quando preciso, ela possa legitimar o estudo de encadeamentos regulares de eventos psíquicos, se estas são realmente experimentadas e, como tais, juntas, constituem uma unidade fenomenológica sui generis. Um exemplo, talvez, é a experiência volitiva. Mas tal encadeamento fenomenológico é algo bem diferente de um fluxo de eventos psíquicos, surgindo um dos outros. Restringimos a fenomenologia ao que quer que possa ser compreendido “estaticamente”. Se olharmos para a psicopatologia como um todo, nosso interesse central obviamente se localiza sobre aquilo que é “geneticamente compreensível”, nas relações causais exteriores à consciência, e na determinação das bases físicas dos processos psíquicos – em outras palavras, no modo como as coisas se relacionam. A fenomenologia apenas nos torna conhecidas as formas nas quais todas as nossas experiências – toda a realidade psíquica – ocorrem; ela não nos diz nada sobre os conteúdos da experiência pessoal do indivíduo, nem qualquer coisa sobre os fundamentos extraconscientes em que os eventos psíquicos parecem flutuar como espuma na superfície do mar. Penetrar nestas profundezas extra-conscientes sempre será mais tentador do que meramente apresentar achados fenomenológicos, ainda que a realização desta última tarefa seja um pré- requisito para qualquer investigação adicional. É apenas no cenário destas formas fenomenologicamente estabelecidas que a vida psíquica real, acessível à nossa compreensão direta, se desvela. E é, afinal de contas, para chegarmos a uma R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 melhor compreensão desta vida psíquica, que nos vemos motivados a investigar as relações extraconscientes.As tarefas futuras da fenomenologia Como conclusão, indicaremos algumas tarefas para a fenomenologia. Nenhum campo na psicopatologia fenomenológica pode ser visto como completamente explorado. Mesmo onde a natureza do fenômeno é aparentemente bem definida, como em alguns tipos de alucinações, relatos de casos realmente bons – e que podem servir para facilitar a visualização e verificar a experiência de outrem – são tão escassos que descrições cuidadosas e detalhadas desses relatos ainda são de grande valor. Muito trabalho ainda precisa ser feito quanto a diferentes tipos de alucinações, particularmente aquelas dos sentidos especiais, as quais necessitam ser meticulosamente investigadas. Um exemplo óbvio é o do problema das alucinações visuais ocorrendo simultaneamente a percepções verdadeiras no espaço objetivo. A fenomenologia das experiências delirantes quase não foi tratada de modo algum; tudo o que há, até este momento, sobre esta matéria, é achado em publicações sobre mudanças afetivas como o primeiro sintoma na paranóia. Estudos sobre fenomenologia das emoções mórbidas são incrivelmente escassos. O que há de melhor está no excelente trabalho de Janet, no qual, entretanto, pouca importância é dada à cuidadosa delimitação e classificação. A experiência subjetiva da própria personalidade foi sistematicamente examinada por Oesterreich. Por todos estes problemas, descrições fenomenológicas feitas por psiquiatras com material a sua disposição, tanto quanto autodescrições mais minuciosas que estas ora disponíveis, seriam da maior importância. Em histologia, ao se examinar o córtex cerebral, requere-se consideração a cada fibra, cada núcleo. Do mesmo modo, a fenomenologia demanda que consideremos cada fenômeno psíquico e cada experiência que vêm à luz na investigação de nossos pacientes ou em suas próprias autodescrições. Não deveríamos, em qualquer circunstância, nos satisfazer com uma impressão geral extraída do quadro total, mas deveríamos buscar saber, a respeito de cada detalhe, como ele deve ser visto e avaliado. Assim, se praticarmos este método por algum tempo, muitas coisas se tornarão menos surpreendentes para nós porque foram fartamente observadas; enquanto aqueles que se restringem a “impressões gerais” não se terão dado conta dos fenômenos em questão e, portanto, sempre que estes vierem à sua atenção pelo direcionamento momentâneo de suas “impressões”, eles se farão apresentar como novos e surpreendentes. Todavia, o fenomenologista CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 experiente dará atenção ao que é realmente novo e desconhecido, e poderá, então, estar justificadamente admirado; não se precisa temer que as surpresas cessem! Desnecessário dizer que muitos psiquiatras, em suas práticas, já agem segundo esta linha e com toda razão achariam impertinente se alegássemos dizer algo novo. Mas a abordagem fenomenológica ainda não é tão difundida a ponto de não mais requerer repetidos esforços para promovê-la. Pode-se esperar que sua aplicação enriqueça ainda mais nosso conhecimento sobre o que o paciente psiquiátrico realmente experimenta. http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e180008 Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 1-9 Resumo: Este artigo se propõe a apresentar a fenomenologia clínica da esquizofrenia construída pelo psiquiatra Eugène Minkowski por meio de influências teóricas sofridas a partir das ideias de Kraepelin, Bleuler e Bergson. O interesse de Minkowski ao discutir a esquizofrenia é alcançar uma delimitação dessa patologia. Por mais que se remeta constantemente a Bleuler por ter sido seu aluno, é na filosofia de Bergson que encontra uma fonte sólida para aprofundar sua discussão sobre o aspecto estrutural da esquizofrenia. Com essa influência filosófica, é possível compreender a esquizofrenia como perda de contato vital com a realidade, e não como um relaxamento de associações, conforme Bleuler destacava. Concluímos que utilizar a fenomenologia clínica da perda do contato vital com a realidade e a compreensão da esquizofrenia como perda desse contato com o mundo permite apontar um novo direcionamento para estudar esta patologia como uma patologia da intersubjetividade. Palavras-chave: fenomenologia clínica, esquizofrenia, Minkowski. 1 Artigo Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski Juliana Pita * Virginia Moreira Universidade de Fortaleza, Centro de Ciências da Saúde. Fortaleza, CE, Brasil * Endereço para correspondência: julianapitap@gmail.com Eixo norteador da obra do psiquiatra Eugène Minkowski (1885-1972), a alteração da afetividade-contato, ou seja, do meio de acesso à compreensão do humano, é fundadora da compreensão fenomenológica como implicação clínica (Charbonneau, 2010) com a descrição da perda do contato prévio com o mundo na esquizofrenia. Em uma perspectiva da psicopatologia fenomenológica inspirada em Maurice Merleau-Ponty, a esquizofrenia não pode ser definida como um transtorno cognitivo ou perceptivo, mas como um transtorno da experiência pré- intencional e imediata, estando relacionada aos significados do mundo vivido (Lebenswelt). Disso decorre que o objetivo da psicopatologia fenomenológica é “compreender como a unificação da experiência se realiza ou não mais em nós, e como se manifesta clinicamente naquela [experiência] em que não se realiza mais” (Charbonneau, 2010, p. 65). Com este olhar fenomenológico, entendemos que o processo psicótico na esquizofrenia apresenta falha na unificação da experiência ao condensar a totalidade das nossas experiências no convívio social com os outros, nomeada por Minkowski como “perda do contato vital com a realidade”. O contato vital com a realidade visa muito mais o fundo mesmo, a essência da personalidade viva, em suas relações com o ambiente. E esse ambiente, para frisar novamente, não é nem um conjunto de excitações externas, nem de átomos, nem de forças ou de energias. Não; ele é essa onda móvel que nos envolve de todas as partes e que constitui o meio sem o qual não poderíamos viver. (Minkowski, 2004, pp. 133-134) Minkowski é um dos psiquiatras de destaque na tradição da psicopatologia fenomenológica, sendo conhecido por ter lançado uma trilogia importante para pesquisas psicopatológicas na vertente fenomenológica: La Schizophrènie (1927/2002), Le temps vécu (1933) e Traité de psychopathologie (1966/1999). Trabalhou com Eugen Bleuler (1857-1939), o primeiro psiquiatra a nomear a esquizofrenia como tal, sendo, portanto, profundo conhecedor de suas obras. Após publicar seu primeiro artigo sobre os textos de Bleuler em 1922, Minkowski decide escrever um livro sobre esquizofrenia, distanciando-se do caminho daquele. Ele não se orienta a partir de um conjunto sempre variável de sintomas, como fazia Bleuler, mas segue em direção ao conceito de estrutura oferecida pela Gestalt. Podemos afirmar que, diferentemente de Bleuler, cuja inspiração era o psiquiatra alemão Emil Kraepelin (1856-1926), Minkowski é influenciado por Edmund Husserl (1859-1938), Henri Bergson (1859-1941) e Karl Jaspers (1883-1969) (Allen, 2002). Ao iniciar a prática da psicopatologia fenomenológica em 1922, com Ludwig Binswanger (1881-1966), Minkowski aponta para uma mudança na postura do psiquiatra diante de seu paciente. O papel deste profissional não se limita mais apenas a registrar as informações oferecidas pelo paciente e enquadrá-lo em um diagnóstico específico, pois entende que o psiquiatra, com um viés fenomenológico, “penetra a https://orcid.org/0000-0001-8859-4752 https://orcid.org/0000-0003-2740-0023 Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 2 2 Juliana Pit & Virginia Moreira 2 realidade desta experiência” (Allen, 2002, p. 18) para apreender de que modo ocorrem as falhas que bloqueiam o fluxo de sua experiência. O interesse de Minkowski (1927/2002) por esse caminho complexo da discussão da esquizofrenia busca delimitar o conceito. Para isso, necessita partirde pesquisas anteriores sobre a temática, como as de Bleuler, primeiro psiquiatra a descrever a “clínica da esquizofrenia” (p. 28) de forma mais detalhada e rica. Após seu contato com Bleuler, Minkowski (1927/2002) encontra entraves nas proposições teóricas presentes nesses estudos, pois a esquizofrenia era definida como uma doença mental particular e, para o autor, este conceito carece de ampliação. As ideias bleulerianas facilitam o avanço de Minkowski (1927/2002) em direção a uma “nova orientação psicopatológica” (p. 28) para fundamentar a psiquiatria moderna. Encontramos na esquizofrenia um caminho fértil para compreender estes novos embasamentos psiquiátricos ao destacar os questionamentos sobre os estudos dos mecanismos esquizofrênicos e a análise psicológica do comportamento particular de pacientes esquizofrênicos. Tomando essas duas inquietações como ponto de partida, Minkowski elabora suas pesquisas sobre a patologia. Este artigo consiste em uma pesquisa teórica e apresenta a evolução do conceito de demência precoce à esquizofrenia e a inspiração de Minkowski na filosofia de Bergson. Tem como objetivo descrever a contribuição de Kraeplin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Eugene Minkowski. Krapelin e Bleuler: da demência precoce à esquizofrenia Kraepelin apresentara um conceito sintético e amplo de demência precoce definindo-o como resultado de um conjunto de formas clínicas particulares, como a catatonia, a hebefrenia e a demência paranoide. O termo demência precoce utilizado por Kraepelin ainda se restringe à definição desse mesmo conceito desenvolvido pelo psiquiatra franco-austríaco Bénédict Morel (1809-1873), pois aponta para um quadro de empobrecimento intelectual com surgimento após a adolescência ou no início da idade adulta (Pereira, 2000; R. C. B. Silva, 2006). O conceito de demência precoce de Kraepelin traz um novo problema para o campo psicopatológico, por se tratar da junção de formas clínicas diferentes em um mesmo conceito, entendendo-as de maneira semelhante. Assim, juntam sintomas com características próprias por meio do conceito de demência precoce, o que, para Minkowski (1927/2002), desvaloriza a singularidade de cada sintoma. Os sintomas são compreendidos por Kraepelin como diferentes entre si, mas direcionam a um mesmo local, ou seja, eles têm algo em comum a dizer sobre um “processo mórbido subjacente, sempre o mesmo” (Minkowski, 1927/2002, p. 101). Surge, então, a necessidade de compreender a riqueza dos diversos sintomas e quadros clínicos da demência precoce como transtorno fundamental. A demência precoce não deveria ser pesquisada apenas a partir dos sintomas clínicos apresentados pelo paciente, pois não são constantes nem podem oferecer características básicas para essa patologia. Um transtorno fundamental não deve ser estudado por suas bases comuns, os sintomas, mas precisa ser visto por outro ângulo para acessar suas particularidades sem se limitar às variedades de sintomas encontrados na esquizofrenia (Minkowski, 1927/2002). Além de suas proposições acerca dos sintomas clínicos receberem críticas, Kraepelin também é acusado de negligenciar a análise psicológica na constituição da demência precoce, pois, desde os estudos do psiquiatra francês Jean-Étienne Esquirol (1772-1840), essa análise deve integra qualquer compreensão dos fenômenos psicóticos (Pereira, 2000). Mesmo assim, para Minkowski (1927/2002, 1966/1999), a compreensão psicológica da esquizofrenia é superficial, tendo em vista que os aspectos analisados pela psicologia mais reconhecida da época se limitavam à inteligência, aos sentimentos e à vontade, e essa patologia não consegue ser discutida exclusivamente sob essas três vertentes. Kraepelin traça uma hipótese psicofisiológica da demência precoce como transtorno da abstração por encontrar um enfraquecimento das motivações emocionais e uma perda da unidade interior, levando o paciente à falha das ideias e à fragilização dos sentimentos. Com o transtorno de abstração, o paciente se torna incapaz de transformar as percepções em ideias mais gerais. Partindo das questões levantadas por Kraepelin sobre a demência precoce, Bleuler busca esclarecê- las a partir das categorias da psicanálise freudiana. Comentando isso, Pereira (2000) aponta que: De Jung, ele já recebera a noção, expressa em A psicologia da demência precoce, segundo a qual o que faz a especificidade dessa psicopatologia não é propriamente a qualidade dos complexos, mas a extrema fixação que o sujeito tem a estes, instalando-se uma situação insuportável de absorção de todos os interesses do indivíduo em seu próprio mundo psíquico, isolando-se dos laços afetivos, da vida social e do próprio contato com a realidade. A noção bleuleriana de “esquizofrenia” buscaria, justamente, colocar em relevo aquele que seria o fenômeno nuclear desses estados mentais, a ruptura, a cisão do eu, em função do rompimento dos vínculos associativos que assegurariam um funcionamento unitário da personalidade. (p. 161) Em 1906, Bleuler começa a utilizar o termo esquizofrenia para definir sua diferenciação das ideias 3 3 Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 3 Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski de Kraepelin, pois, para aquele, o transtorno não se limita a uma única afecção, mas a um grupo ainda não definido de condições com um núcleo comum. Com esse conceito, Bleuler destaca os sintomas primários como irredutíveis à compreensão psicológica e que possibilitam o aparecimento da patologia (Pereira, 2000; R. C. B. Silva, 2006).Os sintomas primários fazem referência à clivagem das associações entre as funções psíquicas, rompendo a unidade do eu e colocando em jogo a necessidade de restituição da integração perdida a ser apontada pelos sintomas secundários. Estes se referem às tentativas de sustentar um estado psíquico desesperador de ruptura da unidade do eu, como a alteração do fluxo do pensamento, a ambivalência afetiva, os delírios e as alucinações (R. C. B. Silva, 2006). Bleuler destaca outra diferença entre os sintomas fundamentais e os acessórios. Os primeiros são os que aparecem em todos os níveis e períodos da esquizofrenia: o autismo, a ambivalência afetiva, as alterações da afetividade e os distúrbios das associações. Os sintomas acessórios, que não aparecem necessariamente em todo paciente esquizofrênico ou em todos os estágios dessa patologia, são: delírios, alucinações e outros. Os sintomas primários são definidos a partir da interpretação dos sintomas do paciente e de uma concepção global da patologia (Pereira, 2000; R. C. B. Silva, 2006). Minkowski (1927/2002), não satisfeito com o caminho para o qual se direcionam as discussões sobre esquizofrenia, assim como Bleuler, segue o olhar psicanalítico, mas conclui que esta seria apenas uma forma de compreender a patologia. Bleuler traça dois aspectos a serem observados na esquizofrenia: o primeiro com um olhar psicoclínico estrutural e o segundo partindo de uma abordagem psicanalítica. Com o olhar psicoclínico, estuda-se a estrutura da personalidade do paciente e determinam-se suas principais características para entender como esses fenômenos se organizam e se reestruturam com a falta de um deles. Com a compreensão psicanalítica, investigam-se os eventos no passado do paciente que podem estar relacionados e afetando seu presente com intuito de delinear o conteúdo psicológico de seus sintomas (Minkowski, 1927/2002). Seguindo essa explicação, Minkowski (1927/2002) argumenta que: Os dois lados da noção de Bleuler, intimamente ligados entre si, parecem destinados a seguir, no curso da evolução, direções cada vez mais divergentes. É o aspecto estrutural que eu procuro destacar, por isso, é esse aspecto que, em minha concepção, constitui a pedra angular do problema da esquizofrenia, e até mesmo além,de uma psicopatologia geral do futuro. (p. 30) Os dois aspectos – psicoclínico estrutural e psicanalítico –, para Minkowski, propõem direcionamentos distintos para entender mais profundamente a esquizofrenia. Considerando o olhar psicanalítico insuficiente, ele não se esquece da existência dos sintomas que necessitam de compreensão psicológica, enfatizando que são justamente estes que precisam ser aprofundados. O aspecto estrutural é selecionado por Minkowski para embasar o novo olhar fenomenológico que se estabelece em suas pesquisas relativas à esquizofrenia naquele momento, pois este é entendido por ele como o melhor direcionamento para investigar o vivido esquizofrênico de seus pacientes. Seja qual for o termo utilizado para se referir a essa patologia – demência precoce com Kraepelin ou esquizofrenia com Bleuler –, o objetivo de Minkowski (1927/2002) é clarificar o transtorno fundamental da esquizofrenia sem se deter a uma função do psiquismo a que este transtorno deva remeter, pois, para ele: O transtorno essencial não altera uma ou mais faculdades mentais, independentemente de sua ordem na hierarquia das funções, mas reside bem entre elas [funções], no “espaço intersticial”. Contudo todas essas expressões não são, no fundo, apenas uma constatação do fato, uma designação de desordem particular que apresentam os dementes precoces ou os esquizofrênicos. (p. 103) A esquizofrenia se impõe a ela mesma, tornando desnecessária ou irrelevante a definição de sua origem orgânica ou psíquica. Nesse caminho, a ideia de Minkowski (1927/2002) é não se limitar a tentar identificar qual função do psiquismo se altera e origina a esquizofrenia, pois, já com Kraepelin, falava-se em uma “orquestra sem maestro” (p. 104). O olhar fenomenológico de Minkowski possibilita uma compreensão da estrutura do vivido esquizofrênico. Para ilustrar, destacamos uma metáfora construída por Minkowski (1927/2002): Um prédio é feito de tijolos e cimento, os tijolos podem se esmigalhar, o cimento também; o edifício não existe mais; contudo, trata-se nos dois casos de situações diferentes; as ruínas não serão as mesmas, não terão nem o mesmo aspecto, nem o mesmo valor; seria mais fácil reconstruir uma nova casa com os tijolos intactos do que com a poeira. (pp. 104-105) Com esta metáfora da destruição de um prédio, Minkowski (1927/2002) nos diz que ele pode ser destruído de diversas formas, e seus diferentes materiais estruturais, como tijolo e cimento, podem se tornar poeiras distintas. Não buscamos definir a origem da queda do prédio, mas estamos diante de dois modos completamente singulares de como a queda aconteceu. Com isso, se algo da estrutura do prédio permanece preservado, torna-se mais fácil construí-lo com os restos dos tijolos do que com a poeira do cimento. Utilizando essa metáfora para pensar os processos envolvidos na elaboração da esquizofrenia, o desejo Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 4 4 Juliana Pit & Virginia Moreira 4 pode se manter; o que não há é a obrigatoriedade ou a necessidade de definir o lugar de sua origem. Entende-se que não podemos saber como se constitui o processo esquizofrênico destacando, por exemplo, as falhas, como encontradas no exemplo do desmoronamento do prédio ou no enfraquecimento intelectual do esquizofrênico. Com um olhar fenomenológico, não buscamos unicamente a origem da esquizofrenia, muito menos tentar fundir diversas formas clínicas em uma única nomenclatura, como já fazia Kraepelin com a demência precoce. A constante procura por definições limitantes destacadas pela ciência médica não auxilia na compreensão dos mais variados vividos esquizofrênicos, pois, com isso, sacrifica-se a experiência vivida por cada paciente em seus diversos modos esquizofrênicos. A filosofia de Bergson como inspiração para Minkowski Nosso objetivo, aqui, é identificar as relações entre Minkowski e a filosofia de Bergson, assim como as características gerais de seu pensamento para, posteriormente, discutir o conceito de perda do contato vital com a realidade na esquizofrenia. Por mais que remeta constantemente ao trabalho psiquiátrico de Bleuler por ter sido seu aluno, é na filosofia de Bergson que Minkowski encontra uma fonte sólida para aprofundar sua discussão fenomenológica sobre o aspecto estrutural da esquizofrenia. Com essa influência filosófica, Minkowski compreende a esquizofrenia como a perda de contato vital com a realidade, e não como um relaxamento de associações, tal como Bleuler a entende. Com a ideia de perda de contato, ou seja, a perda da dinâmica das relações sociais, desvendam-se as manifestações características dessa patologia, destacando que todos os sintomas, sejam acessórios ou primários, estão direcionados a um ponto em comum – a perda do contato vital com a realidade. Para Minkowski (1927/2002): Um dos maiores filósofos contemporâneos, Bergson nos lembrou, mais uma vez, que um aspecto de nossa vida e não o menos importante fugia inteiramente ao pensamento discursivo. Os dados imediatos da consciência, os mais essenciais, pertencem a essa ordem dos fatos. Eles são irracionais. Não são menos importantes em nossa vida por causa disso. Não existe nenhum motivo em sacrificá-los em razão da precisão. É necessário, pelo contrário, tentar apreendê-los a partir do vivido. (p. 105) Minkowski (1927/2002) reconhece a grande importância de olhar para esses dados imediatos da consciência a partir do vivido, e não pelo enfoque científico. Embora não desvalorize as fundamentais contribuições oferecidas pela obra bleuleriana, pois fora ela quem lhe ensinara sobre psiquiatria, ele continua sua investigação por uma via diferente, a estrutural, por fazer mais sentido no esclarecimento de seus questionamentos a respeito da patologia discutida aqui. Para isso, ele destaca a necessidade da psiquiatria moderna descobrir mais sobre a esquizofrenia e sua relação com as experiências de quem a vivencia, encontrando o caminho para falar sobre os fenômenos essenciais da vida do homem nas obras de Bergson. O filósofo francês Henri Bergson se dispõe a discutir o impulso originário da vida questionando o significado de existir. Constrói essa ideia partindo de críticas às teorias deterministas do homem, como o mecanicismo e o finalismo, nas quais são propostas as reduções da existência humana em leis previsíveis e manipuláveis, buscando como ponto de partida a duração do tempo. Afirma que: O que existe é o fluir de uma continuidade. Se a nossa existência fosse constituída por estados separados cuja síntese teria que ser feita por um “eu impassível”, não existiria para nós duração. Porque um eu que não muda, não dura, e um estado psicológico que permanece idêntico a si próprio, enquanto não é substituído pelo estado seguinte, igualmente não têm duração. (Bergson, 1889/2013, pp. 43-44) Caso a existência humana fosse previsível e controlável, não haveria duração de um tempo e, consequentemente, esse homem seria estático, não haveria mudança e se encontraria em um estado psicológico paralisado. O psicológico, para Bergson (1889/2013), é constituído pelo tempo, já que “nossa personalidade se desenvolve, cresce e amadurece sem cessar. Cada um dos momentos é algo novo . . . não é apenas algo novo, mas algo imprevisível” (p. 45). O imprevisível se refere a um “arranjo de elementos antigos” (p. 65), algo de que nunca tivemos percepção, pois cada momento é uma história que se desenvolve e “cada um deles é uma espécie de criação” (p. 46) que sempre nos modifica. Com isso, Bergson aponta para a inexistência de uma lei biológica idêntica para todos. Discutindo o impulso originário da vida, percebe-se que: Nenhuma das duas teses, nem aquela que afirma, nem aquela que nega a possibilidade de algum dia se produzir quimicamente um organismo elementar, pode invocar a autoridade da experiência. Ambas são inverificáveis; a primeira, porque a ciência ainda nãodeu sequer um passo para a síntese química de uma substância viva, a segunda, porque não existe nenhum meio pensável de provar experimentalmente a impossibilidade de um fato. (Bergson, 1889/2013, p. 70) Para ele, de um lado, nossas vidas são guiadas por pensamentos discursivos. Não que eles tenham 5 5 Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 5 Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski menos importância, mas, seguindo apenas o caminho pautado pelo pensamento racional, muitas vezes menosprezamos nossos sentimentos. Até por volta de 1900, devido à forte influência das ideias de Descartes mostrando o homem como um ser pensante, a loucura é vista como sinônimo de “perda da razão” (Minkowski, 1927/2002, p. 154), e esse é o ponto de vista da maioria dos psiquiatras clássicos. Minkowski (1927/2002) destaca que o homem sonha ao dormir, e o esquizofrênico, embora não esteja dormindo, expressa sua vida íntima do mesmo modo como o sonhador. Para compreender melhor esse mecanismo sonhador na esquizofrenia, Minkowski (1927/2002) recorre à explicação de Bleuler sobre o que significa o autismo: “os esquizofrênicos mais avançados que não têm mais nenhuma relação com a ambivalência vivendo em um mundo que é apenas deles” (p. 165), como alguém que está sonhando. Pereira (2004) assinala que: A psicopatologia de Bleuler, diferentemente da ênfase descritiva e classificatória de Kraepelin, fundava-se na busca da delimitação precisa do “transtorno gerador” do distúrbio mental. Tratava-se, sobretudo, de identificar a perturbação psicopatológica fundamental sobre a qual se instala o quadro clínico observável. Sob essa perspectiva, os sintomas primários da esquizofrenia exprimiriam uma profunda alteração da personalidade, derivada do conjunto de reações mentais ao transtorno gerador. Este elemento psicopatológico primário era, segundo Bleuler, claramente identificável na esquizofrenia: a desagregação, a clivagem da personalidade. (pp. 126-127) Visto que a esquizofrenia é compreendida por Bleuler por meio de seus sintomas, como a ideação, a afetividade e a volição do doente, no momento de suas investigações, com o surgimento das primeiras tentativas de definição do autismo, os fatores de compreensão começam a se deslocar e um papel muito importante passa a ser ocupado pelas relações do homem com o meio no qual ele se insere. A falta de diretriz e a ausência de contato afetivo dos pacientes esquizofrênicos abrem portas para o surgimento de outra forma de compreensão dessa patologia (Minkowski, 1927/2002; 1999/1966), a qual se direciona para discutir a esquizofrenia como uma patologia da intersubjetividade, que é vivida na relação do homem com o mundo (Souza, Callou, & Moreira, 2013). Portanto, trata-se de uma compreensão do adoecimento psicopatológico que não se apresenta a partir de um pensamento reflexivo e externalizado, mas como uma coexperiência, em que temos o transtorno e também a experiência do sujeito adoecido. (Souza et al., 2013, p. 195) A fragmentação da experiência psíquica em pensamento, afetividade e memória oferece, para Minkowski, uma forma artificial de compreensão do processo psíquico como um todo na esquizofrenia. Buscando a descrição da experiência vivida tal como ela se dá, a fenomenologia oferece ferramentas para isso. Opondo-se ao reducionismo objetivista dos fenômenos psíquicos, o método fenômeno-estrutural de Minkowski busca o encontro mais próximo possível com o humano. Não objetiva apenas descrever a experiência vivida do indivíduo em sofrimento mental, como feito por Jaspers em Psicopatologia geral (1913), mas se propõe a relacionar tais experiências com uma estrutura organizadora dessas alterações patológicas (Pereira, 2004). Aqui nos referimos à estrutura na qual “qualidades expressivas do espaço e do tempo vividos assume um dos papéis fundamentais na apreciação das características psicopatológicas e, mais amplamente, psicológicas da personalidade” (Barthélémy, 2012, p. 96). Entende-se que: É nessa perspectiva, também, que Minkowski assume resolutamente a concepção de que a psicopatologia constitui uma psicologia do patológico, e não uma patologia do psicológico. Essa última proposição obriga o clínico e o pesquisador a recorrerem a uma incerta referência à noção de “normalidade”, concebida como padrão absoluto a partir do qual se definem os desvios mórbidos da vida mental. (Pereira, 2004, p. 128) Com essas ideias, Minkowski (1927/2002) se distancia dos conceitos de Bleuler e traça um caminho sobre o transtorno essencial da esquizofrenia definindo-o como a perda do contato vital com a realidade. Essa condição de perda do contato permite a instalação de um modo de estar patológico e o aparecimento de sintomas secundários: Ao contrário, ao conhecer a experiência humana como intrinsecamente pática, ou seja, fundada sobre o pathos da paixão e do sofrimento, a psicopatologia tem por tarefa a descrição de formas singulares de existência e de estar-no-mundo. Com tal atitude teórica e metodológica, Minkowski aborda o fenômeno esquizofrênico visando exprimir o fundo existencial sobre o qual este transcorre, antes de realizar um recenseamento de sintomas e de alterações das faculdades da alma. (Pereira, 2004, p. 128) O conceito apresentado por Minkowski remete a um aspecto da vida do homem que não é, até então, destacado: o campo irracional da vida, suas vivências e experiências. O esquizofrênico perde a possibilidade de dinâmica dos contatos com o campo sensorial, quer dizer, de troca de experiências com as outras pessoas Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 6 6 Juliana Pit & Virginia Moreira 6 e com tudo que nos faz sentir vivos e pertencentes ao mundo. O esquizofrênico perde o contato com as regras das relações sociais que são compartilhadas no senso comum. Minkowski (1927/2002) aponta que os cegos, os mutilados, os paralíticos podem viver em contato bem mais íntimo com o meio que os indivíduos cuja vista está intacta e que tem seus quatro membros; por outro lado, os esquizofrênicos perdem esse contato, sem que seu aparelho sensitivo-motor, sem que sua memória e sua inteligência estejam alteradas. O contato vital com a realidade visa bem mais o fundo, a essência da personalidade viva, em suas relações com o meio. E este meio, de novo, não é aqui nem um conjunto de excitações externas, nem de átomos, nem de forças ou de energia. Não, ele é essa inundação em movimento que nos envolve de todas as partes e que constitui o meio sem o qual nós não saberíamos viver. (p. 106) Destacamos a influência da filosofia bergsoniana ao compreender que o homem vivencia essa inundação em movimento do que está ao nosso redor, pois Minkowski (1927/2002) apresenta os eventos vividos como “ilhotas” (p. 106) que penetram nesse homem e vão compondo sua vida íntima, seu aspecto mais pessoal, seus sentimentos e seus atos. Assim, a relação entre o homem e a realidade acontece nessa invasão do mundo em sua vida, possibilitando a construção de suas experiências. O contato vital com a realidade depende da relação entre homem e mundo, dessa inundação em movimento, embora esse conceito não seja tão novo. Inicialmente, Minkowski (1927/2002) encontra fundamentos com o psiquiatra e neurologista francês Pierre Janet (1859-1947) e sua teoria da psicastenia, na qual já se discute a função do real para o homem e se destacam pontos em comum com o que venha a ser o contato vital com a realidade. Mas o fortalecimento da ideia de que identificamos nos pacientes esquizofrênicos essa perda do contato da realidade acontece a partir da influência que Minkowski encontrou nas leituras dos textos filosóficos de Bergson. Sem esquecer que seu trabalho foi bastante afetado por Bleuler e, a partir da ideia deste, de que encontramos nos esquizofrênicos uma perturbação profunda de suas relações com o mundo exterior. ParaMinkowski (1927/2002), a ressalva feita a Bleuler é que ele se prende ao estudo dos sintomas e elementos dessa afetação e insiste na perda do contato com a realidade – o autismo. De modo diferente do de Bleuler, os pilares da clínica da esquizofrenia, as condições autísticas, são delimitadas por Minkowski de duas maneiras: (1) autismo rico: caracterizado pela criação de um mundo imaginário; e (2) autismo pobre: apresenta a perturbação esquizofrênica em estado puro, parada do élan vital. Bergson elabora o conceito de élan ou impulso vital e a ideia de uma evolução criadora a partir da biologia (A. J. Silva, 2006) e define que a vida está em constante movimento, sendo “resultado natural da luta entre o espírito e a matéria” (p. 1). Com Minkowski, a perda do contato é vista como transtorno gerador da esquizofrenia. Já para Bleuler, a perda do contato não é um fator essencial da vida ao defender a busca por uma base orgânica para a esquizofrenia, o que revela que ele não se desprendeu totalmente de uma influência associacionista (Pereira, 2004). A perda do contato vital com a realidade na esquizofrenia aponta para o fato da perturbação esquizofrênica se apoiar na ruptura radical com o mundo humano, ou seja, com o laço social. O esquizofrênico se inunda de uma vivência de absurdos que lhe impõe uma reconstrução forçada e artificial do sentido de sua existência, de seu corpo e de seu estar-no-mundo (Pereira, 2004). Mas até que ponto o conceito de perda do contato vital com a realidade oferece subsídios para compreender a esquizofrenia? Esse conceito de Minkowski é oriundo, principalmente, de sua tentativa de unir a clínica da escola suíça às ideias filosóficas de Bergson, entendendo que a psicologia e a psicopatologia necessitam de contribuições sobre o conhecimento humano advindas de uma filosofia. A principal colaboração de Bergson para Minkowski compreender fenomenologicamente a esquizofrenia se dá pela “oposição fundamental entre a inteligência e o instinto” (Minkowski, 1927/2002, p. 111) que o filósofo propõe como meio de compreensão do ser humano. Para Minkowski (1927/2002), A psicopatologia não poderia estar direcionada a questionar se as concepções de Bergson não eram suscetíveis para projetar um novo brilho sobre os problemas diante dos quais as noções da psicologia corrente teriam fracassado até ali. Tratava-se de ver, ao mesmo tempo, até qual ponto os fatos psicopatológicos podiam ser chamados para confirmar os dados colocados em evidência pela intuição genial do grande filósofo. (p. 112) Com o olhar oriundo de Bergson, pode-se pensar em alcançar a patologia tal como ela se mostra e percorrer o caminho que nem a psicologia, nem a psiquiatria traçam na compreensão da complexidade que envolve a esquizofrenia, pois elas têm acesso apenas aos aspectos psicológicos. O olhar de Minkowski excede este único aspecto, pois o psiquiatra entende que é fundamental considerar que os esquizofrênicos sempre se encontram em constante relação com o mundo. Para compreendê-los, é imprescindível entender e descrever a relação entre os dois, homem e mundo. Na época de suas pesquisas, Minkowski constata que as funções mentais elementares permanecem intactas na esquizofrenia, sendo identificados apenas uma inteligência menos atenta e comportamentos semelhantes ao que é reconhecido como característico de outras 7 7 Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 7 Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski patologias, como o delírio incoerente e atos bizarros. Se isso é assim, então o que diferencia a esquizofrenia de outra patologia? Bergson e a oposição fundamental entre a inteligência e o instinto ajudam a esclarecer os questionamentos de Minkowski. A inteligência não admite o imprevisível, pois, ao rejeitar toda criação, ela se limita ao que se repete. É justamente dessa diferença que Minkowski está à procura. Não se restringindo apenas às falhas caracterizadoras da existência esquizofrênica, mas voltando-se também para aquilo que “permanece intacto” (Minkowski, 1927/2002, p. 115), o autor se direciona a uma comparação entre esquizofrenia e deficiência intelectual, exclusivamente com o então chamado paralítico geral: Eu pergunto a um paralítico geral que chegou a um período de senilidade: “onde você está?”. Ele responde: “aqui”. Por medo de que isso possa ter sido uma manifestação puramente verbal e automática de sua parte, eu insisto: “mas aqui onde?”. O doente bate o pé, para indicar a localização onde ele se encontra, ou aponta com seu dedo a fim de indicar o quarto que ele ocupa. “Mas aqui”, ele nos diz, parecendo mesmo surpreso e irritado com nossa insistência. (Minkowski, 1927/2002, pp. 115-116) Nesse caso, trata-se de uma manifestação encontrada em doentes com esse tipo de deficiência intelectual. Com o esquizofrênico, a situação seria um pouco diferente, pois, se ele responde à questão sobre sua localização, diz que “não se percebe neste lugar ocupado por ele, não se percebe em seu corpo, o ‘eu existo’ não tem um sentido preciso para ele” (Minkowski, 1927/2002, p. 116). Minkowski (1927/2002) chama atenção para o fato de que o paralítico se apresenta de forma completamente desorientada no espaço. Já o esquizofrênico sabe onde ele está, mas o “eu aqui não tem mais sua tonalidade habitual” (p. 117). A partir dessa perspectiva, o questionamento de Minkowski se volta a entender como o esquizofrênico consegue construir seu comportamento baseado em fatores objetivos, mesmo com dificuldade em sentir seu movimento no mundo. Além disso, para o autor, a problematização da esquizofrenia se apoia também na teoria bergsoniana do movimento, a qual apresenta o tempo e o espaço vinculados. Trata-se de compreender, então, como é vivenciada a duração do tempo em um “funcionamento normal e em seus desvios patológicos” (Minkowski, 1927/2002, p. 119). No paralítico geral, a duração temporal é esquecida, não se sabe mais quais são os dias, as semanas nem os meses. O que permanece para o paralítico é apenas a lembrança da ocorrência de determinados fatos, mas ele não se recorda mais do início ou do término deste acontecimento. O paralítico experiencia o mundo como se estivesse em um “único oceano em movimento” (p. 122). Na experiência esquizofrênica, deparamos com uma experiência diferente, pois o doente perde o contato com todas as coisas que o circundam e não se vê como em um oceano em movimento, como citado, mas como um homem paralisado no tempo e sente que tudo está imobilizado ao seu redor. Na fala de um esquizofrênico: Eu perdi o contato com todas as coisas. As noções de valor e de dificuldade das coisas desapareceram. Não há mais nada de comum entre elas e eu, não posso mais me abandonar. É uma fixação absoluta em torno de mim. Eu tenho ainda menos mobilidade para o futuro do que para o presente e o passado. Existe em mim como um tipo de rotina que não permite visualizar o futuro. O poder criativo está suprimido em mim. Eu vejo o futuro como repetição do passado. (Minkowski, 1927/2002, p. 122) A passagem descrita se refere à fala de um paciente esquizofrênico, acompanhado por Minkowski, que passa dias em sua cama totalmente paralisado, em estado de inércia e, ao se levantar, sente-se guiado por alucinações auditivas lhe ordenando a atear fogo em suas roupas para ver se consegue encontrar seu eu. Com base nesse caso, Minkowski (1927/2002), mais uma vez, sugere a perda do contato com a realidade como o caminho mais indicado para melhor compreender a experiência esquizofrênica. Nessa patologia, encontramos pacientes descrevendo suas ideias de forma paralisada, dando a impressão de estarem congelados, como “estátuas” (Minkowski, 1927/2002, p. 123) e, por estarem vivendo experiências sem movimento, parece faltar uma “tendência à realização” (p. 123). Identificamos, na esquizofrenia, um estado estático e “suas reaçõese dos seus constituintes essenciais. O estilo é o existencial, enquanto modo de conceptualizar o encontro com o paciente, que é, antes de mais, um encontro entre dois Homens a maneira humana, isto é, encontro enquanto tal. Presença comum e sentida que poderá permitir uma aliança entre dois destinos. Que promove uma escuta acreditante que só se realiza quando o outro se sente plenamente ouvido e quando promove mudança. O significado essencial do encontro é o estar- -com, que implica a presença (de estar-por-si), a reciprocidade (enquanto troca ou estar-para-o- -outro), o cuidado (no acolhimento do outro) e, ainda, um laço emocional entre um Eu e um Tu que criam um Nós, numa reciprocidade activa. Tal como refere Not (1 986), «cada um é um Eu e o outro um Tu ao qual se dirige, o que faz de cada um, ao mesmo tempo, um Eu (que se dirige ao outro) e um Tu (ao qual outro se dirige).)) Emerge um Nós que, não representando qualquer ameaça a identidade e a autonomia de cada um, alcança precedência. Assim, o fenómeno do en- contro tem como características essenciais (Tellenbach, 1992): a coerência, enquanto reci- procidade ou comportamento mútuo de co- relação; carácter fortuito, por chegar ao instante e de forma imprevisível; a liberdade de deixar o outro ser como é; e, ainda, o face-a-face, porque o encontro acontece no olhar. Finalmente, a ética é a de uma exigência de liberdade, de liberdade de ser o autor do seu pró- prio destino, pondo cuidado na sua existência. Acentua o predomínio do indivíduo, perturbado ou não, contra tudo o que totaliza, tematiza ou reprime, superando a facticidade (história) para se transcender, abrindo-se a outras possibilidades de ser e de vir-a-ser. Em termos genéricos, poder-se-ia afirmar que o objecto é a Pessoa, entendida como centro da sua própria valorização e da sua própria escolha, que se pode especializar individuando-se, socia- lizando-se e subjectivando-se, num processo unificado de personalização quando a história se converte na sua própria história. Nela cabem a consciência (de ser intencional), a razão, a au- tonomia, a abertura, a liberdade, a responsabili- dade existencial e o compromisso com os outros. 2. PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA A aplicação da fenomenologia a Psicopatolo- gia enraiza-se essencialmente nas obras filosó- ficas de E. Husserl e de M. Heidegger. Estes fun- damentos filosóficos foram descritos detaiha- damente em diversos textos de base, entre os quais se destacam os de Lanteri-Laura (1963), Lyotard (1964) e Spiegelberg (1982). A abor- dagem fenomenológica em Psicopatologia ori- ginou uma pluralidade de pontos de vista, de que são exemplos as contribuições de K. Jaspers, E. Minkowski, L. Binswanger e von Gebsattel, entre outros (Villegas, 1981). Ellenberger (1 958), ao diferenciar a psicopa- tologia fenomenológica da Daseinanalyse de Binswanger, propôs a diferenciação entre três correntes: (1) A fenomenologia descritiva (Jas- pers, Mayer-Gross, Wyrsch); (2) A fenomenolo- gia genético-estrutural (Minkowski, von Geb- sattel, E. Straus); (3) A fenomenologia catego- ria1 (a primeira fase de L. Binswanger, R. Kühn e Cargnello). Do ponto de vista histórico, Jonckheere (1 989) diferenciou claramente três períodos su- cessivos. Em primeiro lugar, a psicopatologia fenome- nológica descritiva de Jaspers, Birnbaum e Rümke, período claramente dominado pela «Psi- copatologia Geral» de Jaspers, publicada em 191 3, na qual os fenómenos psicopatológicos são elaborados pelos métodos da fenomenologia e da psicopatologia compreensiva, destacando o carácter significativo do vivido. Aparece como obra inspiradora dos trabalhos de Kretschmer (1918), Birnbaum (1920), Kurt Schneider (1 923), Mayer-Gross (1 924), Rumke (1 924) e Wyrsch (1 937, 1949). Em segundo lugar, a psicopatologia genético- -estrutural, representada por E. Minkowski e a psiquiatria antropológica de von Gebsattel, E. Straus, von Weizsacker e H. Tellenbach. 623 Por último, a psicopatologiafenomenológico- -existencial introduzida por L. Binswanger, pri- meiramente como fenomenologia categoria1 e , mais tarde, como Daseinanalyse, apoiada na psi- canálise de Freud, no método fenomenológico de Husserl e na concepção do Homem de Heidegger e influenciando trabalhos ulteriores de M. Boss e R. Kuhn. 3. A FENOMENOLOGIA DE K. JASPERS O ponto de vista de Karl Jaspers (1883- -1969), qualificável de descritivo e próximo da psicologia empírica descritiva (Beauchesne, 1986) foi detalhadamente apresentado no livro ((Psicopatologia Geral» de 191 3, no qual a psico- patologia se ocupa das modalidades como os pa.- cientes experimentam os fenómenos psicopato- lógicos, uma fenomenologia dos seus estados de consciência. Na sua abordagem quase exaustiva, Jaspers sistematizou: as manifestações subjec- tivas da vida psíquica patológica (fenomeno- logia), as manifestações objectivas da vida psi- quica patológica (psicopatologia objectiva), as relações compreensíveis (psicopatologia COFI- preensiva) e as relações causais (psicopatologia explicativa). Para Jaspers, a fenomenologia é o domínio das vivências psíquicas individuais, uma psicopatologia descritiva das manifestações da consciência. O importante seria «exercer a v' - são pregnante do que é vivido directamente pelo doente ... delimitar e distinguir da forma mais precisa possível e designar em termos fixos a s estados psíquicos que os doentes vivenciam.» (Jaspers, 1928). Na impossibilidade de abordar todos os aspectos significativos da obra de Jaspers, referimos apenas alguns pontos nodais: compreender e explicar; descrever e compreeri- der; processo, desenvolvimento e reacção. Jaspers diferenciou entre conexões signijka- tivas intrapsíquicas (que seria necessário corri- preender como conexões de sentido) e conexões causais entre os acontecimentos intra e extrapsi- quicos (que é necessário explicar). Assim: Com- preender ligar-se-ia a causalidade psicológica, isto é, ao saber como é que o psíquico dá lugar ao psíquico. Trata-se de compreender por co- penetração afectiva na psique do outro, de entender através dos movimentos expressivo:;, das produções verbais e dos actos como um estado mental é vivido e dá lugar a outro. Ex- plicar, ligar-se-ia a causalidade científico- natural, isto é, a ligação objectiva de diversos factos ou em leis regulares, investigando as correlações entre os fenómenos psíquicos e a sua base estrutural. Trata-se aqui de vincular o psí- quico ao físico, desligando-se do pessoal-biográ- fico. Ou seja: compreendem-se as conexões de sen- tido e explicam-se as conexões causais. Diferenciando entre descrever e compreender, Jaspers conceptualizou que descrever se refere a fazer uma descrição do que é apreendido intui- tivamente sob a forma de realidades subjectivas da vida psíquica efectivamente vivenciadas (a fenomenologia) e, também, o que é possível apreender objectivamente sob a forma de rendi- mentos (apreensão, memória, trabalho e inteli- gência). Por outro lado, compreender é repre- sentar interiormente a vivência autodescrita pelo paciente, que poderá ser compreensão estática ou fenomenologia das diversas qualidades e es- tados psíquicos individuais tal como aconteceu e são dados, e compreensão dinâmica ou genética, a das emergências dos acontecimentos psíquicos. Em síntese: a compreensão estática permitiria a descrição fenomenológica ou descrição da expe- riência vivida em determinado momento, sem ter em conta as suas causas e consequências e, por seu turno, a compreensão genética permitiria a descrição dinâmica ou apreensão dos fenómenos vividos nas suas relações internas no tempo e estabelecendo a relação de sentido entre as diversas vivências. A abordagem que Jaspers fez da Psicopato- logia envolveu o estudo diferenciado dos fenó- menos vividos (as vivências), dos rendimentos, dos fenómenos somaticos concomitantes e das objectividades psíquicascarregam também, geralmente, a marca dessa paralisação mórbida e nós a encontramos até nos movimentos estereotipados que, no fundo, são apenas um eterno recomeço, sem nenhuma progressão” (Minkowski, 1927/2002, p. 123). Encontramos uma pessoa paralisada, sem andar para trás, muito menos para frente, com uma sensação de congelamento temporal e espacial. De um lado, a esquizofrenia é definida, por Bleuler, como demência afetiva para designar uma separação entre seus sintomas: o declínio esquizofrênico e a demência intelectual. De outro, essa patologia é entendida por Minkowski como déficit pragmático, por não se referir a uma verdadeira demência no sentido de haver falha intelectual. Com esses caminhos opostos e sofrendo influências filosóficas, principalmente de Bergson, Minkowski define o enfraquecimento do contato vital e da afetividade como o elemento necessário para caracterizar a esquizofrenia. Considerações finais Diversas definições sobre a esquizofrenia foram galgadas ao longo da história da psiquiatria com Kraepelin, Bleuler, entre outros. Destacamos a importância do Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 8 8 Juliana Pit & Virginia Moreira 8 conceito de demência precoce de Kraepelin como um novo problema para o campo psicopatológico, já que se trata da união de diversas formas clínicas em um único conceito. Além das contribuições diretas das ideias de Bleuler, Minkowski (1927/2002) segue em direção a uma nova fundamentação para a psicopatologia moderna por intermédio das contribuições filosóficas de Bergson, que possibilitam a elaboração do conceito de perda do contato vital na esquizofrenia. Concluímos que direcionarmo-nos rumo ao desenvolvimento do conceito de contato vital com a realidade e da compreensão da esquizofrenia como perda desse contato com o mundo permite reconhecer e apontar um novo direcionamento para estudar essa patologia com uma lente fenomenológica e possibilitar novas intervenções clínicas. A fenomenologia da esquizofrenia fundamentada por Minkowski enquanto perda do contato vital com a realidade é um passo adiante e uma evolução do conceito de demência precoce, ao ser definida como o transtorno gerador dessa patologia. Entendemos que Minkowski situa a esquizofrenia na interseção entre o sujeito que tem esse diagnóstico e o mundo, permitindo a possibilidade de discutir a esquizofrenia como uma patologia da intersubjetividade. The contributions of Kraepelin, Bleuler and Bergson to Minkowski’s clinical phenomenology of schizophrenia Abstract: This article presents the clinical phenomenology of schizophrenia constructed by the psychiatrist Eugène Minkowski through theoretical influences from the ideas of Kraepelin, Bleuler and Bergson. Minkowski’s interest in discussing schizophrenia is to be able to determine this pathology. Although references are constantly made by him to Bleuler for having been his student, it is in Bergson’s philosophy that he finds a solid source to further his discussion of the structural aspect of schizophrenia. With this philosophical influence, it is possible to understand schizophrenia as a loss of vital contact with reality and not as a relaxation of associations, as Bleuler pointed out. We conclude that using the clinical phenomenology of the loss of vital contact with reality and the understanding of schizophrenia as a loss of this contact with the world allows for a new direction to study this pathology as a pathology of intersubjectivity. Keywords: phenomenology clinical, schizophrenia, Minkowski. Les contributions de Kraepelin, Bleuler et Bergson à la phénoménologie clinique de la schizophrénie de Minkowski Résumé : Le présent article se propose à discuter la phénoménologie clinique de la schizophrénie construite par le psychiatre Eugène Minkowski à travers les influences théoriques issues des idées de Kraepelin, Bleuler et Bergson. L’intérêt de Minkowski lorsqu’il élabore une discussion sur la schizophrénie est de parvenir à avoir une délimitation de cette pathologie. Même si on reconnaît qu’il mentionne constamment Bleuler, vu qu’il était son élève, c’est dans la philosophie de Bergson qu’il trouve une source solide pour approfondir sa discussion sur l’aspect structurel de la schizophrénie. Avec cette influence philosophique, il est possible de comprendre la schizophrénie comme une perte de contact vital avec la réalité et non comme une relaxation d’associations, comme l’a soulignée Bleuler. Nous concluons que l’usage de la phénoménologie clinique de la perte de contact vital avec la réalité et la compréhension de la schizophrénie comme une perte de ce contact avec le monde nous permet de souligner une nouvelle direction d’études de cette pathologie comme une pathologie de l’intersubjectivité. Mots-clés: phénoménologie clinique, schizophrénie, Minkowski. Contribuciones de Kraepelin, Bleuler y Bergson a la fenomenología clínica de la esquizofrenia de Minkowski Resumen: El presente artículo se propone presentar la fenomenología clínica de la esquizofrenia construida por el psiquiatra Eugène Minkowski por medio de influencias teóricas sufridas a partir de las ideas de Kraepelin, Bleuler y Bergson. El interés de Minkowski al elaborar una discusión de la esquizofrenia es alcanzar una delimitación de esta patología. El autor alude constantemente a Bleuler por haber sido su alumno, pero en la filosofía de Bergson encuentra una fuente sólida para profundizar en su discusión sobre el aspecto estructural de la esquizofrenia. Con esta influencia filosófica, es posible comprender la esquizofrenia como la pérdida de contacto vital con la realidad y no como una relajación de asociaciones, tal como Bleuler destacaba. Concluimos que utilizar la fenomenología clínica de la pérdida del contacto vital con la realidad y la comprensión de la esquizofrenia como pérdida de este contacto con el mundo permite apuntar un nuevo direccionamiento para estudiarla como una patología de la intersubjetividad. Palabras clave: fenomenología clínica, esquizofrenia, Minkowski. 9 9 Psicologia USP, 2020, volume 31, e180008 9 Contribuições de Kraepelin, Bleuler e Bergson para a fenomenologia clínica da esquizofrenia de Minkowski Referências aplicações em psicopatologia. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 7(2), 130-146. Pereira, M. (2000). Bleuler e a invenção da esquizofrenia. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 3(1), 158-163. Pereira, M. (2004). Perda do contato vital com a realidade na esquizofrenia, segundo Eugène Minkowski. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 7(2), 125-129. Silva, A. J. (2006). O impulso vital enquanto princípio explicativo da evolução no pensamento bergsoniano. Revista Eletrônica Existência & Arte, 2(2), 1-6. Silva, R. C. B. (2006). Esquizofrenia: uma revisão. Psicologia USP, 17(4), 263-285. Souza, C., Callou, V., & Moreira, V. (2013). A questão da psicopatologia na perspectiva da abordagem centrada na pessoa: diálogos com Arthur Tatossian. Revista da Abordagem Gestáltica, 19(2): 189-197. Recebido: 11/01/2018 R1: 19/02/2019 R2: 19/09/2019 Aprovado: 15/05/2020 Allen, D. F. (2002). Préface. In E. Minkowski, La schizophrénie (pp. 11-23). Paris: Petite Bibliothèque Payot. (Trabalho original publicado em 1927) Barthélémy, J.-M. (2012). Origem e contexto de emergência da noção de estrutura em psicopatologia fenômeno- estrutural: evolução do conceito, seu lugar e suas implicações nas práticas clínicas contemporâneas. Psicopatologia Fenomenológica Contemporânea, 1(1), 88-105. Bergson, H. (2013). Essai sur les données immediate de la conscience. Paris: Flammarion. (Trabalho original publicado em 1889) Charbonneau, G. (2010). Introduction à la psychopathologie phénoménologique: fondements et principes généraux; corporéité et mienneté; névroses et personnalités pathologiques; intersubjectivité. Paris: MJW Fédition. Jaspers, K. (1987). Psicopatologia geral. Rio de Janeiro, RJ:Atheneu. (Trabalho original publicado em 1913) Minkowski, E. (1999). Traité de psychopathologie. Le Plessis-Robinson: Institut Sythélabo. (Trabalho original publicado em 1966) Minkowski, E. (2002). La schizophrénie. Paris: Petite Bibliothèque Payot. (Trabalho original publicado em 1927) Minkowski, E. (2004). A noção de perda de contato vital com a realidade e suas aplicações com a realidade e suas Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies ISSN: 1809-6867 revista@itgt.com.br Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt Terapia de Goiânia Brasil Santiago, Anielli; Furtado Holanda, Adriano Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, vol. XIX, núm. 1, enero-junio, 2013, pp. 38-50 Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt Terapia de Goiânia Goiânia, Brasil Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=357735557004 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3577 http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3577 http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3577 http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=357735557004 http://www.redalyc.org/comocitar.oa?id=357735557004 http://www.redalyc.org/fasciculo.oa?id=3577&numero=35557 http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=357735557004 http://www.redalyc.org/revista.oa?id=3577 http://www.redalyc.org 38 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda fenomenoloGia da depreSSão: uma análiSe da produção aCadêmiCa BraSileira Phenomenology of Depression: A Review of Brazilian Academic Production Fenomenología de la Depresión: Una Revisión de la Producción Académica de Brasil AnieLLi SAntiAgo AdRiAno FuRtAdo hoLAndA resumo: O objetivo deste trabalho é apresentar um panorama das pesquisas nacionais sobre depressão na perspectiva fenome- nológica. Realizou-se uma pesquisa nas bases de dados virtuais e abertas SciELO (Scientific Eletronic Library Online), PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), sendo sele- cionados e analisados vinte e um artigos, no período de 1981 a 2013. Verificou-se que o assunto é pouco explorado em relação à perspectiva fenomenológica, embora a mesma tenha uma tradição no estudo dos fenômenos psicopatológicos. Além disso, os teóricos clássicos da abordagem são pouco citados nos estudos. Tanto as pesquisas teóricas quanto as empíricas trazem uma di- versidade de temas em relação ao transtorno, com destaque para a depressão em idosos. Sugere-se a realização de novas pesqui- sas e reflexões teóricas que possam dar conta da alta incidência do quadro na população em geral. Palavras-chave: Depressão; Fenomenologia; Produção acadêmica. Abstract: The objective of this work is to present a panorama of the national researches about depression in phenomenologi- cal perspective. We conducted a research on the virtual and opened databases, and at the end of the search, were selected and analyzed twenty-one articles in the period 1981-2013. It was found that the subject is little explored in relation to the phenom- enological approach, although it is traditional on the study of psychopathological phenomena. Moreover, classic authors from Phenomenology are rared reported in the studies. Both theoretical and empirical researches bring a diversity of topics in rela- tion to the disorder, especially depression in elderly. We suggest that new researches and theoretical reflections may be realize in order to deal with the high incidence of this problem in general population. Keywords: Depression; Phenomenology; Academic production. resumen: El objetivo del trabajo es presentar una visión general de las encuestas nacionales sobre la depresión en la perspecti- va fenomenológica. Se realizó una búsqueda en bases de datos virtuales y abiertas como SciELO (Scientific Electronic Library Online), PePSIC (Revistas Electrónicas en Psicología) y LILACS (Literatura Latinoamericana y del Caribe en Ciencias), se selec- cionaron y analizaron veintiún artículos en el período 1981-2013. Se encontró que el sujeto está poco explorado en relación con el punto de vista fenomenológico, a pesar de que tiene una tradición en el estudio de los fenómenos psicopatológicos. Por otra parte, el enfoque clásico teórico rara vez se informó en los estudios. Tanto la investigación teórica como la empírica tocan una diversidad de temas en relación con el trastorno, especialmente la depresión en la tercera edad. Se sugiere llevar a cabo más in- vestigaciones y reflexiones teóricas que pueden explicar la alta incidencia de la trama en la población general. Palabras-clave: Depresión; la Fenomenología; la Producción académica. introdução O fenômeno da depressão tem chamado a atenção na atualidade por sua crescente incidência no mundo todo. De acordo com o Relatório sobre a Saúde no Mundo, da Organização Mundial de Saúde (2011), a depressão grave é atualmente a principal causa de incapacitação na popu- lação em geral, situando-se em quarto lugar entre as dez principais causas da carga mundial de doenças. De acordo com o mesmo documento, se as projeções se mantiverem corretas, nos próximos vinte anos a depressão deverá ser a segunda das principais causas das doenças no mundo. O Ministério da Saúde calcula que, em um dado mo- mento da vida, entre 13% e 20% da população apresenta algum sintoma depressivo; além disso, o custo agregado por prejuízo ao trabalho é imenso (Wannmacher, 2004). Deste fato resulta um número significativo de pesquisas e estudos acerca da temática, de modo a tentar contribuir para o conhecimento de suas causas, formas de tratamen- to e prevenção (Duarte & Rego, 2007; Ramires, Passarini, Flores & Santos, 2009; Vivan & Argimon, 2009). O diagnóstico da depressão é complexo, pois leva em conta uma série de sintomas que podem estar associados também a outras patologias. A Classificação Internacional das Doenças (CID-10) faz uma diferenciação entre “epi- sódios depressivos” e “transtorno depressivo recorrente”, 39 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira sendo que o que distingue ambos é o tempo e a frequência com que ocorrem. Os sintomas principais das referidas formas de depressão são alteração da capacidade de ex- perimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, fadiga acentuada, problemas de sono e diminuição de apetite. Também são frequentes a diminuição da autoestima e autoconfiança e ideias de culpabilidade e/ou indignidade. Além disso, o número e a gravidade de tais sintomas determinam três níveis de episódio e transtorno depressivos: leve, moderado e grave. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), outro instrumento de referência para diagnósticos, coloca nove critérios para identificar a de- pressão, sendo eles: estado deprimido a maior parte do tempo, anedonia, sensação de culpa ou inutilidade ex- cessivas, dificuldade de concentração, fadiga, distúrbios do sono, agitação ou lentificação psicomotora, aumento ou redução significativa de peso, e ideias recorrentes de morte e suicídio. De acordo com o número de sintomas, o quadro pode ser classificado em três grupos: “depressão menor” (com a apresentação de dois a quatro sintomas por duas ou mais semanas, incluindo estado deprimidoou anedonia); “distimia” (de três a quatro sintomas, incluindo estado deprimido, durante dois anos, no mínimo) e “de- pressão maior” (com cinco ou mais sintomas por duas se- manas ou mais, incluindo estado deprimido ou anedonia). Esta complexidade do diagnóstico faz com que as di- versas manifestações da depressão muitas vezes se con- fundam com expressões de depressão não clínicas ou mesmo com estados corriqueiros de tristeza (Parker & Brotchie, 2009). Mesmo os critérios acima arrolados, cons- tantes no DSM-IV, trazem imprecisões. Como destacam Parker e Brotchie (2009), esse modelo se caracteriza por ser dimensional, onde o estado clínico é definido por pa- râmetros de gravidade – que é a presença dos sintomas – e requer “a imposição de um ponto de corte que é intrinse- camente impreciso e corre o risco de gerar um diagnóstico de ‘falso-positivo’ (…) ou avaliação de ‘falso-negativo’” (p. 54). Isto torna ainda mais premente a necessidade de não se confundir, ainda, o diagnóstico da depressão com a ma- nifestação de sentimentos de tristeza que acompanham o ser humano em diversos momentos de sua existência. De acordo com Stefanis e Stefanis (2005), em oposi- ção às respostas emocionais normais a acontecimentos estressantes, a depressão clínica é um transtorno psico- patológico que precisa ser diagnosticado e tratado ade- quadamente, devido a sua gravidade, recorrência e alto custo para o indivíduo e para a sociedade, além de poder proceder aos encaminhamentos adequados e necessários para seu tratamento. Dessa forma, segundo os autores, é correto utilizar a expressão “transtorno depressivo” para diferenciar a depressão clínica do sentimento normal e transitório de tristeza, bem como utilizar adequadamente a prescrição medicamentosa (Wannmacher, 2004). É possível verificar, no entanto, que os critérios diag- nósticos do DSM-IV para a depressão são baseados no nível de desenvolvimento adulto, porém são utilizados para identificar tal patologia em qualquer idade. Weiss e Garber (2003) defendem o argumento de que se deve levar em conta o grau de desenvolvimento do indivíduo em depressão, visto que “a forma como a depressão é ex- perienciada e expressa depende, em parte, do nível indi- vidual de desenvolvimento fisiológico, social e cognitivo” (p. 404). Os autores afirmam que mais estudos na área precisam ser realizados com o objetivo de confirmar a influência das diferenças de desenvolvimento na feno- menologia das depressões, para que se possam produzir novos instrumentos diagnósticos, ou modificar os exis- tentes, no sentido de considerar tais diferenças. Mari, Jorge e Kohn (2007) apresentam três estudos epidemiológicos que avaliam os índices dos transtornos psiquiátricos em adultos em algumas regiões do Brasil e dos Estados Unidos, sendo estes: (a) uma pesquisa brasi- leira de morbidade psiquiátrica realizada em Brasília, São Paulo e Porto Alegre, incluindo 6.476 indivíduos com ao menos 15 anos; (b) uma pesquisa que fornece dados sobre os transtornos psiquiátricos em dois bairros da cidade de São Paulo, realizada com 1.462 indivíduos entrevistados; e, (c) o Epidemiological Catchment Area, uma pesquisa em domicílios representativos de cinco regiões dos Estados Unidos, incluindo 17.803 indivíduos com 18 anos ou mais. O índice de prevalência para um ano de depressão maior a partir das três estimativas variou de 3,5 a 9,7%. O sexo feminino teve os índices mais elevados, variando de 4,7 a 12,6%, enquanto que para o sexo masculino, tais índi- ces variaram de 2,3 a 7%. Dessa forma, estima-se que o número de pessoas acometidas por depressão maior no ano 2000 esteve entre 5.942.970 e 15.961.122. Quanto à distimia, o índice de sua prevalência para um ano foi de 1,2% em São Paulo e 2,8% nos Estados Unidos. Isso sig- nifica que há um número de 2.037.590 a 4.754.376 porta- dores de distimia no Brasil (Mari et al., 2007). Ballone (2005) aponta como principais fatores de risco para a depressão os seguintes aspectos: histórico fami- liar de depressão, doença física, episódio anterior de de- pressão, acontecimentos estressantes ou perdas e abuso de medicamentos ou drogas. Além disso, como apontam Mari et al. (2007), a depressão atinge duas vezes mais mu- lheres do que homens, em média, sendo que a vulnerabi- lidade feminina é maior no período pós-parto, tendo em vista que, segundo Higuti e Capocci (2003), cerca de 15% das mulheres apresentam sintomas depressivos nos pri- meiros meses que se seguem ao nascimento de um filho. Retomando o Relatório da Organização Mundial de Saúde (2011), tanto nos países desenvolvidos, onde há uma atenção diferenciada à saúde mental, quanto nos países em desenvolvimento, muitas pessoas que pode- riam ser beneficiadas não tiram partido dos serviços psi- quiátricos disponíveis. Isso tem bastante relação com o estigma ligado aos indivíduos portadores de transtornos mentais e comportamentais. Várias pesquisas apontam o estigma como um fator que potencializa o sofrimento 40 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda do sujeito em depressão, além de dificultar o diagnósti- co e a adesão a um tratamento eficaz (Valentini, Levav, Kohn, Miranda, Mello, Mello & Ramos, 2004; Moreira, 2007; Moreira & Melo, 2008). Em um estudo transcultu- ral realizado no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos a respeito da experiência do estigma na depressão (Moreira & Telles, 2008), esse fator aparece relacionado a aspectos como a sensação de não aceitação da depressão, o medo de ser visto como “louco” e a sensação de incapacidade ao ser exigido, o que dificulta bastante o processo de tra- tamento destas pessoas. No que concerne ao tratamento da depressão, Souza (1999) aponta que a mesma não pode ser tratada a partir de um modo abstrato, mas a partir do fato de se tratar de pacientes – sujeitos – deprimidos, contextualizados em seus meios sociais e culturais, e compreendidos nas suas dimensões biológicas, psicológicas e sociais. Dessa for- ma, o autor considera que o tratamento deve ser próprio para cada indivíduo, podendo incluir psicoterapia, mu- dança de estilo de vida e terapia farmacológica de acordo com a gravidade e características de cada caso. No Brasil, existem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que proporcionam atendimento gratuito para pessoas em sofrimento mental cuja severidade as impeçam de rea- lizar suas atividades diárias. Conforme documento do Ministério da Saúde (2004), os CAPS têm como objetivo atender à população em sua área de abrangência, reali- zando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e co- munitários. É um serviço de saúde mental criado para substituir as internações em hospitais psiquiátricos. Pesquisas apontam que a utilização de psicoterapia no tratamento da depressão é amplamente indicada, tan- to em casos de intensidade leve e moderada quanto em casos mais graves (Schestatsky & Fleck, 1999; Berlinck & Fédida, 2000; Bahls & Bahls, 2003). Em um estudo de re- visão acerca da eficácia da psicoterapia e da farmacote- rapia no tratamento da depressão em idosos, Scazufca e Matsuda (2002) encontraram que tratamentos com psicote- rapia combinada ou não com medicação foram considera- dos mais eficazes do que tratamentos farmacoterapêuticos para a depressão maior, mesmo se considerando a necessi- dade de mais estudos nesta direção. Com isto, vislumbra- -se o papel fundamental que a psicologia pode exercer no desenvolvimento de intervenções que possam contribuir para amenizar o sofrimento do paciente em depressão. A psicologia fenomenológico-existencial é uma abor- dagem que traz uma compreensão diferenciada dos fenô- menos psicopatológicos, em especial quando comparada aos modelos tradicionalmentefocados em aspectos bio- lógicos e fisiológicos, centrados numa intervenção noso- lógica e farmacológica. O objetivo deste trabalho é discutir e apresentar al- guns aspectos da contribuição do enfoque fenomenológi- co-existencial ao contexto da psiquiatria – em particular – e da psicologia das depressões, partindo do levantamen- to e análise das publicações científicas nacionais asso- ciadas ao tema. A escolha da temática se justifica pela necessidade de conhecer melhor tal psicopatologia para que se possa tratá-la de modo eficaz, tendo em vista sua rápida expansão na sociedade contemporânea. E a esco- lha do caminho metodológico se deve à necessidade de reconhecimento do estatuto atual da discussão do tema, no contexto das abordagens fenomenológico-existenciais. 1. A Tradição Fenomenológica e o Fenômeno da Depressão O tema da “depressão” na literatura clássica de psi- copatologia e psiquiatria fenomenológicas vem normal- mente associado a outros quadros nosológicos. Dentre os primeiros trabalhos de psiquiatras fenomenólogos-exis- tenciais sobre o tema da depressão, podemos citar os no- mes de Erwin Straus e Viktor E. Von Gebsattel que, em 1928, publicam – respectivamente – “A Experiência do Tempo na Depressão Endógena e no Desgosto Psicótico” e “Pensamento Pressionado ao Tempo na Melancolia” (Holanda, 2011). O interesse pelo fenômeno da depressão direciona igualmente as pesquisas de Roland Kuhn, outro psiquia- tra da tradição fenomenológico-existencial, para a desco- berta dos efeitos antidepressivos da Imipramina em 1954 (Kuhn, 1990/2005). Todavia, os nomes mais conhecidos da tradição fenomenológico-existencial em relação a esta temática são Eugène Minkowski e Ludwig Binswanger. Minkowski, em 1922, durante uma sessão da Sociedade Suíça de Psiquiatria, em Zurique, apresenta um de seus textos mais famosos: um estudo de caso so- bre melancolia esquizofrênica (Minkowski, 1922/1967). Minkowski propõe uma “fenomenologia genético-estru- tural”, em que busca esclarecer as conexões e interrela- ções das vivências patológicas, identificando a estrutura sob a qual se organizam essas vivências. Em seu estudo sobre os pacientes melancólicos, assinala que os sinto- mas devem ser entendidos a partir da experiência básica do tempo (Cardinali, 2002). Já Binswanger é responsável por um dos textos mais conhecidos sobre esta temática na tradição fenomenológica – o livro Melancolia e Mania. Estudos Fenomenológicos – publicado em 1960. Contemporaneamente, temos conhecimento dos tra- balhos do psiquiatra japonês Kimura Bin que, interes- sado em Minkowski e Binswanger, passa a estudar os textos de Husserl e Heidegger, chegando a concluir sua formação em psiquiatria na Alemanha (Holanda, 2011). Acerca do tema da depressão, publica um texto intitulado “Fenomenologia da Depressão Estado-Limite” (Bin, 1998). Cabe destacar ainda a figura de Hubertus Tellenbach (1914-1994), que foi um psiquiatra alemão – fez filosofia em Kiel, e medicina e psiquiatria em Munich – que encon- trou a Daseinsanalyse de Binswanger, além da antropo- 41 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira logia de Von Gebsattel, Straus e Minkowski. A partir daí, produziu pesquisas sobre melancolia (Holanda, 2011). Wilhelm Mayer-Gross (1889-1961) foi responsável pelo livro Psiquiatria Clínica, escrito em parceria com E. Slater e M. Ross, que teve sua primeira edição em 1954. Representando o “espírito da escola fenomenológica de Heidelberg”, este livro chega ao Brasil através da tradu- ção de sua terceira edição, de 1969, e “(...) durante muito tempo foi o porto seguro de toda uma geração de psiquia- tras, contribuindo para uma virada na direção de uma psiquiatria clínico-fenomenológica na época áurea das correntes antipsiquiátricas das décadas de 1960 e 1970” (Cordas & Louzã, 2003, p. 116). Mayer-Gross se aproxima desde cedo da fenomenologia, com sua tese defendida em 1913, e intitulada Sobre a fenomenologia dos sentimentos anormais de felicidade (Zur Phänomenologie abnormer Glücksgefühle), tendo sido ainda colega de nomes impor- tantes e representativos do pensamento fenomenológico em psiquiatria, como Karl Jaspers e Hans Gruhle, por exemplo. (Cordas & Louzã, 2003). E não podemos esquecer de mencionar a significati- va contribuição de Karl Jaspers que, a partir da publica- ção de sua Psicopatologia Geral, em 1913, praticamente “inaugura” o campo de reflexão conhecido como “psico- patologia fenomenológica” (Jaspers, 1913/1989). Mesmo assim, com tantas contribuições, o campo da “fenome- nologia psiquiátrica” ainda é permeado por indefinições (Andreasen, 2007; Mullen, 2007). No campo da psiquiatria – tradicionalmente – há di- ferentes usos para a palavra “fenomenologia”. Segundo Mullen (2007), “fenomenologia” pode ser tanto a definição precisa dos sintomas psiquiátricos, quanto a descrição das ações e experiências dos pacientes; bem como a busca pelo significado essencial destas experiências ou o exame do “mundo interior” do paciente. Fundamentalmente, compre- ende-se a “fenomenologia” aplicada à psiquiatria por duas vias (Andreasen, 2007): a) como exame das experiências subjetivas internas e; b) como base para a nosologia psiqui- átrica. Em ambos os casos, reconhece-se o lugar ocupado pela proposição de Jaspers de construção de uma “ciência psicopatológica”, tendo como fundamento a Fenomenologia, quando afirma que: “À fenomenologia compete apresentar de maneira viva, analisar em suas relações de parentesco, delimitar, distinguir da forma mais precisa possível e desig- nar com termos fixos os estados psíquicos que os pacientes realmente vivenciam” (Jaspers, 1913/1989, p. 75). 2. método O presente estudo consistiu em buscar conhecer a produção acadêmica brasileira sobre o tema, no contexto das práticas fenomenológicas e de leituras de orientação fenomenológica, incluindo-se aqui seus desdobramentos na perspectiva existencial. Para tal, foi feita uma revisão bibliográfica realizada a partir de busca de artigos na Biblioteca Virtual de Saúde - Psicologia (BVS-Psi), junta- mente com seus desdobramentos na SciELO (Scientific Eletronic Library Online), PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Inicialmente, foi feita uma pesquisa na BVS-Psi a fim de conhecer o que tem sido pro- duzido sobre a temática da depressão, em geral, no Brasil. Nesse primeiro momento, foi utilizado apenas o in- dexador “depressão” para busca de artigos. Foram en- contrados 1785 artigos entre as bases de dados SciELO e PePSIC e 6568 artigos na base de dados LILACS. Em um refinamento realizado posteriormente, cruzando o indexador “depressão” com “fenomenologia”, “fenome- nológico”, “existencial”, “existência” e “fenomenológico- -existencial”, foram encontrados 92 artigos nas três bases de dados já citadas. A leitura dos resumos desses artigos permitiu fazer um recorte ainda mais específico: ao fi- nal, foram selecionados vinte e um artigos que aborda- ram a depressão sob uma perspectiva fenomenológica e existencial. Os outros setenta e um artigos foram elimi- nados pelo fato de serem produções em formato de teses e dissertações e/ou artigos que tratavam de fenômenos en- volvidos na depressão (entre eles, fatores neuroquímicos e genéticos, por exemplo), mas que não faziam referên- cia direta ou indireta às perspectivas fenomenológicas e existenciais propriamente ditas. As vinte e uma publicações selecionadas para a nos- sa amostra foram submetidas a uma análise qualitativa indutiva e comparativa. A análise foi indutiva por possi- bilitar a constituição de categorias temáticas derivadas do “contato progressivo com o material” (Pieta, Castro & Gomes, 2012, p. 132); e comparativa por buscar um diá- logo entreos diversos textos. A intenção foi conhecer os conteúdos dessas produções, bem como os caminhos de reflexão – desenvolvidos por pesquisadores brasileiros – sobre o tema da “depressão”, sob a ótica das perspectivas fenomenológica e existencial. 3. resultados e discussão A primeira categorização que pudemos observar divi- de os artigos em três agrupamentos: a) Estudos Empíricos (dez artigos); b) Estudos Teóricos (dez artigos); e, c) Estudos Epidemiológicos (apenas um artigo). Os estudos empíricos são aqueles que buscam fornecer compreensão, acréscimo ou modificação em determinado tema, utilizando dados coletados a partir de fontes diretas (pessoas) que viven- ciam ou têm conhecimento sobre tal tema. Já os estudos teóricos têm como objetivo conhecer ou proporcionar um espaço para discussão de uma temática ou questão, sem utilizar de pesquisa de campo, fundamentalmente a partir de uma reflexão com respeito a aspectos gerais ou específicos de determinada teoria. Os estudos epide- miológicos, por fim, são os que apresentam dados obje- tivos acerca de alguma patologia, em uma determinada 42 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda região num período de tempo. Para fins de análise, o úni- co texto epidemiológico desta amostra será apresentado juntamente aos textos empíricos. Não foram encontrados indícios de prevalência de algum periódico sobre o tema, o que pode indicar certa dispersão no que se refere às revistas científicas, já que não há uma grande concentração dos artigos em um ou outro periódico. Apesar disto, observamos uma maior presença de periódicos da área da Saúde – especial- mente de Medicina e Enfermagem – como campos pro- pícios ao desenvolvimento do tema. O Jornal Brasileiro de Psiquiatria, a revista Psiquiatria Biológica e a Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental/Latin American Journal of Fundamental Psychopathology On Line tiveram, cada um, três artigos publicados acerca da temática deste estudo, enquanto que a Revista Brasileira de Enfermagem teve dois artigos publicados. Os demais artigos provêm de diversos outros periódicos da psi- quiatria e da psicologia, sendo eles: Revista Psico-USF (USF/SP), Revista Mental (Unipac/MG), Revista Aletheia (Ulbra/RS), Revista Brasileira de Epidemiologia (Abrasco), Boletim de Psiquiatria, Estudos e Pesquisas em Psicologia (UERJ), Psicologia: Reflexão e Crítica (UFRGS), Arquivos Brasileiros de Psicologia (UFRJ), Revista Mal Estar e Subjetividade (Unifor/CE) e Saúde e Sociedade (FSP/ USP). A tabela abaixo mostra claramente esta dispersão. Título do artigo Autor revista Área Prevalência e fatores associados a sintomas depressivos em adultos do sul do Brasil: estudo transversal de base populacional Rombaldi, Silva, Gazalle, Azevedo & Hallal (2010). Revista Brasileira de Epidemiologia Epidemiologia A relação entre variáveis de saúde mental e cognição em idosos viúvos. Trentini, Werlang, Xavier, & Argimon (2009) Psicologia: Reflexão e Crítica Psicologia Ressignificação existencial do pretérito e longevidade humana Patrício, Hoshino & Ribeiro (2009) Saúde e Sociedade Diversas áreas da saúde Os ajustamentos criativos da criança em sofrimento: uma compreensão da gestalt-terapia sobre as principais psico- patologias da infância. Antony (2009) Estudos e Pesquisas em Psicologia Psicologia A contribuição de Tellenbach e Tatossian para uma com- preensão fenomenológica da depressão Leite & Moreira (2009) Arquivos Brasileiros de Psicologia Psicologia Fenomenologia da queixa depressiva em adolescentes: um estudo crítico-cultural Melo & Moreira (2008) Aletheia Psicologia Rompimento amoroso, depressão e auto-estima: estudo de caso. Guedes, Monteiro-Leitner & Machado (2008) Revista Mal Estar e Subjetividade Psicologia Experiências do estigma na depressão: um estudo trans- cultural Moreira & Telles (2008) Psico-USF Psicologia Fenomenologia crítica da depressão no Brasil, Chile e Estados Unidos Moreira (2007) Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental Psicologia Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia da depressão no idoso. Parte II: uma investigação sobre a temporalidade e a medicina Bastos (2006) Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental Psicologia Fenomenologia da solidão na depressão Moreira & Callou (2006) Mental Psicologia Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia da depressão no idoso. Parte I: temporalidade e cultura. Bastos (2005) Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental Psicologia Fenomenologia da criança deprimida: questões existenciais e biológicas Iserhard (2002) Psiquiatria biológica Psiquiatria A descoberta da imipramina e a psicoterapia: uma (re)visão Souza (1997) Psiquiatria biológica Psiquiatria A depressão nas pessoas idosas: um estudo nosológico retrospectivo e atual Corrêa (1996) Jornal Brasileiro de Psiquiatria Psiquiatria Acompanhar um filho hospitalizado: compreendendo a vivência da mãe Bezerra & Fraga (1996) Revista Brasileira de Enfermagem Enfermagem A fenomenologia das depressões: da nosologia psiquiátrica clássica aos conceitos atuais Corrêa (1995) Revista Psiquiatria Biológica Psiquiatria Um encontro com Heidelberg: personalidade pré-mórbida e interação conjugal observada de pacientes deprimidos endógenos Mundt, Fiedler, Ernest & Kohlhof (1994) Jornal Brasileiro de Psiquiatria Psiquiatria Classificacao e diagnostico fenomenológico das depressões. Sá Júnior (1983) Jornal Brasileiro de Psiquiatria Psiquiatria Sintomas existenciais versus sintomas patológicos, um pro- blema de rotulagem psiquiátrica: inquérito sobre a vivência de profissionais da saúde mental Vietta & Bueno (1987) Revista Brasileira de Enfermagem Enfermagem Abordagem fenomenológico-existencial dos sonhos Spanoudis (1981) Boletim de psiquiatria Psiquiatria 43 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira Há um aumento significativo no número de publi- cações a partir dos anos 2000, conforme mostra o grá- fico abaixo: Do total de artigos que compõe a amostra, seis não puderam ser acessados integralmente. Dessa forma, a análise de tais textos foi realizada apenas com base em seus resumos. Três destes artigos foram publicados no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, sendo eles: “Classificação e diagnóstico fenomenológico das depressões”, de Sá Júnior (1983); “Um encontro com Heidelberg: personali- dade pré-mórbida e interação conjugal observada de pa- cientes deprimidos endógenos”, de Mundt, Fiedler, Ernest & Kohlhof (1994) e “A depressão nas pessoas idosas: um estudo nosológico retrospectivo e atual”, publicado por Corrêa (1996). Também não foram encontrados os textos “Fenomenologia da criança deprimida: questões exis- tenciais e biológicas” (Iserhard, 2002); “Abordagem feno- menológico-existencial dos sonhos” (Spanoudis, 1981) e “Acompanhar um filho hospitalizado: compreendendo a vivência da mãe” (Bezerra e Fraga, 1996). Desses textos que não foram acessados na íntegra, con- vém destacar que no mais recente deles, Iserhard (2002) trabalha com as perspectivas de Tellenbach e Jaspers. Os demais artigos foram publicados entre os anos 80 e 90. Spanoudis (1981) faz uma análise da atividade onírica, à luz da “fenomenologia existencial” de Heidegger, a partir de uma paciente depressiva, além de outro paciente psi- cótico. Sá Júnior (1983) traz uma revisão da classificação e diagnóstico das depressões, na direção de uma “feno- menologia” das síndromes depressivas, numa perspecti- va muito próxima da segunda via descrita anteriormente por Andreasen (2007). Correa (1996) caminha na mesma direçãode Sá Júnior (1983), mas direcionando a temáti- ca para a depressão em idosos, ressaltando a indiferen- ciação desse quadro em relação aos adultos. Mundt et al. (1994) trazem à discussão o conceito de “tipo melancóli- co” da escola fenomenológica de Heidelberg – caracteri- zado por excesso de orientação para a norma e a ordem – num diálogo com a testagem empírica, concluindo pela não homogeneidade do “tipo melancólico”, sugerindo in- consistência de avaliações. Finalmente, Bezerra & Fraga (1996) procuram realizar uma aplicação do método feno- menológico para a pesquisa das vivências maternas em relação à hospitalização de seus filhos. É possível notar que também não há uma concen- tração dos artigos em um autor específico. Apenas três pesquisadores escreveram mais de um artigo da amostra aqui considerada. Isto sugere que no Brasil existem pou- cos grupos de pesquisa ou mesmo pesquisadores inde- pendentes que estudam especificamente o fenômeno da depressão em suas diversas expressões – como é o caso do grupo APHETO da Universidade de Fortaleza (Unifor), que tem dentre seus objetivos desenvolver atividades de pesquisa e extensão em psicoterapia e psicopatolo- gia, bem como em outros campos da clínica, utilizando uma abordagem denominada “humanista-fenomenoló- gica crítica”, utilizando-se de referenciais filosóficos em Merleau-Ponty e Sartre, e psicológicos da Gestalt-Terapia e da Abordagem Centrada na Pessoa1. A seguir, procederemos à análise indutiva das duas macrocategorias: estudos empíricos e estudos teóricos. 3.1 Artigos Empíricos Moreira (2007) desenvolveu um estudo transcultural com o objetivo de compreender a experiência vivida da depressão no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos, de modo a constatar possíveis variações culturais do fenô- meno. Os resultados mostraram que embora não houvesse grandes variações sintomatológicas entre os três países, a experiência associada a tais sintomas varia conforme traços subjetivos específicos de cada cultura. Deste es- tudo maior derivaram dois outros: um relativo ao estig- ma relacionado à depressão nos três países (Moreira & Telles, 2008) e outro referente ao sentimento de solidão que acompanha a depressão (Moreira & Callou, 2006), buscando compreender até que ponto a solidão é causa ou consequência de tal psicopatologia. Nestes três estu- dos, foi utilizado o método fenomenológico crítico para análise das entrevistas, entendendo que tal método tem como objetivo maior compreender a experiência vivida dos indivíduos pesquisados. Outro artigo publicado pela mesma pesquisadora dos estudos já citados refere-se ao transtorno depressivo em adolescentes (Melo & Moreira, 2008). O objetivo aqui foi o de compreender a queixa depressiva de vinte adoles- centes atendidos pela clínica-escola da Universidade de Fortaleza. As autoras constataram que aspectos culturais, sociais, econômicos e familiares estão fortemente asso- ciados à experiência da depressão dos adolescentes en- trevistados. Um achado interessante desta pesquisa con- siste no fato de que a descrição do que compõe a queixa depressiva diz respeito à forma como a pessoa lida com a experiência da adolescência. Este dado enfatiza a im- 1 Disponível em http://www.apheto.com.br/ 44 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda portância da utilização de um método que procure com- preender os fenômenos psicopatológicos para além do diagnóstico clínico, buscando o sentido da experiência descrita pelos indivíduos, tal como o faz o método feno- menológico crítico. Cinco estudos da amostra aqui considerada tratam da depressão em idosos, sendo dois empíricos e três te- óricos. Trentini, Werlang, Xavier & Argimon (2009) re- alizaram uma pesquisa com 30 idosos viúvos da cidade de Veranópolis (RS) com o objetivo de avaliar as habili- dades cognitivas dos mesmos. Foi utilizado também um grupo controle, constituído por 30 idosos casados. Os au- tores constataram diferenças significativas entre os ido- sos viúvos e os casados: o grupo de enlutados diferia dos controles quanto à intensidade de sintomas depressivos e quanto ao escore no Questionário Fenomenológico do Luto. Entre os viúvos, o número médio de sintomas de- pressivos e a média da intensidade do luto foram signi- ficativamente maiores do que os escores observados no grupo controle. Patrício, Hoshino & Ribeiro (2009) buscaram determi- nar os aspectos ambientais envolvidos na longevidade a partir de relatos de ex-ferroviários longevos. Para tanto, os autores utilizaram uma técnica de metodologia qualitati- va denominada grounded theory, ou teoria fundamentada nos dados, que é um método que busca as categorias que emergem da fala dos indivíduos. Posteriormente, agluti- nam-se tais categorias em outras mais abrangentes, até se chegar às categorias centrais que permitam construir um modelo teórico que dê coerência de significados a todos os dados coletados. Os autores encontraram que as repre- sentações dos ex-ferroviários convergem para a categoria central expressa como “Da Vida ao Aniquilamento: o con- trole social e do estado em defesa da vida”. Isso porque a desolação dos indivíduos pesquisados se dá pelo ani- quilamento da vida e do ambiente, no presente, causado pela negligência do Estado e da sociedade na promoção e preservação de recursos que existiam no passado. Um resultado interessante encontrado refere-se à hipervalo- rização do passado, já que além de os fatores geradores de vida terem sido colocados no passado pelos entrevis- tados, estes reconhecem que participaram da construção de um grande feito sócio-econômico do interior paulista. Assim, a ressignificação do passado, feita pela maioria dos entrevistados, parece ser um dos fatores significati- vos da longevidade dos mesmos. Os autores asseveram, dessa forma, a importância das correntes psicoterápicas cuja ação central se baseia na construção do significado existencial. Para os idosos entrevistados, tal significado já foi encontrado, sendo necessário haver uma ressignifi- cação. Esta pode ser, muitas vezes, “a única necessidade terapêutica ou ser uma etapa imprescindível do processo terapêutico para construir um novo significado existen- cial” (Patrício, Hoshino & Ribeiro, 2009, p. 281). Guedes, Monteiro-Leitner & Machado (2008) reali- zaram um estudo de caso com um paciente acometido por depressão em decorrência do rompimento de um re- lacionamento amoroso. A abordagem teórica utilizada para fundamentar o estudo foi a centrada na pessoa, mas também lança mão do método fenomenológico para dar suporte à investigação clínica. Fez-se uso de metodolo- gia quantitativa – através de instrumentos padroniza- dos para avaliar as condições psicológicas do cliente – e qualitativa, para captar as “versões de sentido” na fala do mesmo. Como recurso metodológico da prática clínica, a versão de sentido consiste em anotações realizadas pelos psicoterapeutas referindo-se ao momento da sessão, não somente como um registro, mas como relato do viven- ciado, impregnado de percepções e impressões sobre a experiência vivida da relação terapêutica. É um instru- mento de cunho fenomenológico que propicia a verifica- ção do processo e a revivência da experiência, de modo a proporcionar uma reelaboração dos sentidos presentes na relação subjetiva. Como metodologia, foi descrita por Amatuzzi (1991, 1993, 1995, 1996) para sua aplicação na pesquisa e na formação de profissionais, tendo sido mui- to utilizada para avaliar efeitos na clínica e na supervi- são (Vercelli, 2006; Boris, 2008). De acordo com Guedes et al. (2008), os resultados do processo terapêutico foram positivos, tendo em vista que o paciente aprofundou a percepção de sua condição existencial de responsabili- dade pessoal e entrou em contato com sua insegurança, até então identificada com causas externasa si e com os dilemas que vivia, como seus fracassos, dentre eles, nas relações amorosas. Por isso pareceu ressignificar a ideia de “amor” que possuía: eterno, único e imutável. Dessa forma, conseguiu reconhecer e assimilar que para viven- ciar uma relação amorosa estável seria preciso se reor- ganizar e se fortalecer, o que implica, segundo os auto- res, em conhecer-se mais autenticamente e se lançar no mundo nesta condição mundana. Outro estudo de caso considerado na amostra se refe- re ao acompanhamento dos sentimentos, medos e ansie- dades vivenciados por uma mãe em situação de hospita- lização de seu filho (Bezerra & Fraga, 1996). A pesquisa indica o uso de alguns elementos da abordagem fenome- nológica para análise das entrevistas, mas não especifi- cados no resumo do texto. As autoras constataram que a dedicação e a assistência extremas para com o filho doente deixam a mãe temporariamente descuidada de si mesma. Nesse sentido, a mãe passa a conviver com evi- dentes sinais de sofrimento psíquico, concretizados em insônia, anorexia e sintomas de depressão. Além disso, a hospitalização da criança é verbalizada pela mãe como algo que tem efeitos sobre toda a família, gerando altera- ções em sua dinâmica. Mundt et al. (1994) apresentam as contribuições da escola fenomenológica de Heidelberg, mais especifica- mente ao trabalho de Willy Mayer-Gros (1889-1961), para a compreensão da depressão. Uma destas contribuições é a delimitação do conceito de “tipo melancólico”, que se caracteriza por um excesso de orientação à norma e à or- 45 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira dem, e por aspiração a uma harmonia interior. Existe um instrumento psicométrico, Structural Analysis of Social Behavior (SASB), que permite testar empiricamente tal conceito. O objetivo desta pesquisa foi, portanto, verificar características mais específicas do tipo melancólico em 26 pacientes com diagnóstico de depressão. Amostras de 15 minutos de diálogo entre os pacientes e seus cônjuges forneceram dados interacionais diretamente observáveis que foram, na sequência, analisados pela SASB. Os re- sultados mostraram que, de fato, pacientes do tipo me- lancólico procuram harmonia em seus relacionamentos ao evitarem interações crítico-negativas. No entanto, da- dos de personalidade do Maudsley Personality Inventory (MPI) sugerem que o tipo melancólico não é homogêneo, o que pode levar a dados inconsistentes. Os autores cha- mam atenção, dessa forma, para a necessidade de reali- zação de novos estudos para quantificar a extensão em que outros aspectos de personalidade se misturam com o tipo melancólico, como bipolaridade ou narcisismo, por exemplo. Um estudo realizado por Vietta e Bueno (1987) teve como objetivo investigar como os conceitos de normalida- de e anormalidade interferem na atuação de docentes de enfermagem. Para tanto, foi necessário investigar quais sintomas são considerados como normais e anormais pela população estudada, bem como a maneira como a mesma se percebe dentro destes referenciais. A metodologia uti- lizada baseou-se na aplicação de um questionário cons- tando de dados de identificação e questões relativas ao tema proposto, elaboradas a partir de uma listagem de sintomas. Sobre a definição dos conceitos, “considera-se cada um dos sintomas listados no instrumento como situ- ados numa escala representada por um continuum deli- mitados pelos extremos “normalidade” – “anormalidade” e cuja localização do sintoma, nesta escala, dependerá da intensidade, frequência, situação e momento em que está sendo vivenciado” (Vietta & Bueno, 1987, p. 258). As auto- ras encontraram que a população estudada considerou os seguintes sintomas como normais: ansiedade, desânimo, depressão, agressividade, angústia, sentimento de culpa, inferioridade e vontade de agredir. Os sintomas anormais apontados foram delírio, alucinação, ideias obsessivas e vontade de matar. Apareceram como sintomas vivencia- dos com maior intensidade: depressão, sentimento de in- ferioridade, perseguição e desânimo. Cabe ressaltar que os sintomas considerados como normais foram aqueles já vivenciados pelos docentes, enquanto que os sintomas ditos anormais foram os nunca vivenciados pelos mes- mos. É importante destacar também que alguns sintomas avaliados como normais fazem parte de quadros psiqui- átricos pela classificação internacional, como é o caso da ansiedade, por exemplo. 50% dos indivíduos pesqui- sados relata ter vivenciado ansiedade em grau intenso e ainda assim isso foi considerado normal. Além disso, as autoras apontam que alguns dos sintomas ditos anormais podem não ter sido admitidos como vivenciados, por se- rem pouco aceitos na sociedade contemporânea. Outro dado interessante é que metade da população se considera equilibrada e a maioria não faz tratamento psicoterápico, mas pensa em se submeter à psicoterapia. O único estudo epidemiológico desta amostra, realiza- do por Rombaldi, Silva, Gazalle, Azevedo e Hallal (2010) teve como objetivo identificar a prevalência de sintomas depressivos e fatores associados em uma população de 972 indivíduos na cidade de Pelotas (RS). A análise mul- tivariável indicou que pessoas do sexo feminino, com ida- de mais avançada, pertencentes a classes sociais menos abastadas, fumantes atuais e que não trabalham, estão, em geral, em maior risco de apresentarem os sintomas em estudo. Os autores ressaltam que conhecer como a sintomatologia depressiva e fatores associados se distri- buem na população pode contribuir para o entendimento da fenomenologia dos transtornos depressivos e a traçar estratégias de prevenção e minimização, sendo aqui en- tendida a “fenomenologia” como metodologia descritiva aplicada aos transtornos mentais. 3.2 Estudos Teóricos Dois estudos teóricos tratam especificamente da de- pressão na infância. Iserhard (2002) aponta que nos ins- trumentos diagnósticos usuais não há nenhuma referên- cia à depressão infantil como entidade nosológica própria, na mesma direção do que apontam Weiss e Garber (2003). O autor toma os estudos de Hubertus Tellenbach sobre a situação pré-depressiva e a condição biológica (endon) como base para esclarecer como essa estrutura se mani- festa na existência da criança. Além disso, neste estudo faz-se o delineamento do quadro clínico-fenomenológico conforme a concepção psicopatológica de Jaspers e apon- tam-se formas de tratamento. Já Antony (2009) apresenta uma compreensão da Gestalt-terapia acerca das principais psicopatologias na infância, a saber, depressão, fobia, transtorno de ansie- dade e transtorno obsessivo-compulsivo. Na abordagem gestáltica, segundo a autora, prioriza-se a relação entre homem e mundo; desta forma, os fenômenos psicopato- lógicos são considerados como oriundos de distúrbios nas relações. Nesta perspectiva, “doença significa per- turbações da auto-regulação originadas por mecanismos psicológicos defensivos de contato, que visam inibir a consciência de sentimentos, pensamentos, necessidades, comportamentos que geram angústia e colocam em ris- co a relação com o outro significativo” (p. 356). O texto ainda aponta que, de maneira geral, as figuras parentais das crianças deprimidas são insuficientes ou inacessí- veis para suprir suas necessidades afetivo-emocionais; dessa forma, o trabalho do terapeuta deve caminhar na direção da compreensão fenomenológica da unidade da experiência de todos os envolvidos no contexto em que a criança vive, para que possam tomar consciência de 46 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda suas ações e pensar em formas de ajustamento-criativo frenteà patologia. Em outro estudo teórico, Corrêa (1996) retoma a ques- tão da incidência da depressão em indivíduos idosos, apontando para o fato de que a depressão nessas pessoas apresenta algumas particularidades, porém não difere, em essência, da depressão em adultos. Nesse texto – um dos quais cujo acesso foi limitado ao resumo – a fenome- nologia surge como uma tradição na psiquiatria, não se especificando o contexto de sua aplicação. Bastos (2005; 2006), em dois estudos complementares, buscou relacionar a temporalidade cíclica e a contínua, que são dois aspectos fundamentais das instituições cul- turais sobre a passagem do tempo, com a psicopatologia, adotando uma visão crítica do construto de depressão no idoso. O autor baseia seu estudo na experiência clínica e na atitude fenomenológica que orienta essa prática. Nas concepções culturais que percebem a passagem do tem- po de maneira predominantemente cíclica, o envelhecer faz parte de um movimento eterno em que a família se perpetua em seus descendentes, em suas tradições, no vínculo com a terra ou no exercício do ofício familiar. As entidades culturais que consideram enfoques mais dire- cionais da passagem do tempo destacam cada vez mais o papel individual na história social. Quanto mais difí- cil for a passagem de tendências tradicionais – de cará- ter circular, fatalista, repetitiva e eterna – para outras de tendência individualizante, burocratizante, planejadora e sucessiva, maiores as dificuldades para um envelheci- mento satisfatório e maior a tendência à depressão e me- dicalização desse fracasso. Dois artigos discorrem a respeito da questão da classi- ficação e do diagnóstico do transtorno depressivo. Corrêa (1995) apresenta um breve histórico da nosologia das de- pressões e expõe os conceitos fenomenológicos clássicos das escolas alemã, francesa, suíça e espanhola. O autor explica que as escolas psiquiátricas européias, dentro da tradição kraepeliniana (que considera os fatores am- bientais e biológicos como participantes no desenvolvi- mento da depressão), e baseada na fenomenologia alemã de Jaspers, Kretschmer e Schneider, dividem as depres- sões em quatro grupos: depressão endógena, determina- da por influências hereditárias; depressão situacional, causada por uma situação ambiental perturbadora; de- pressão neurótica, ocasionada por um conflito emocio- nal interno; e depressão sintomática, causada por doen- ças corporais e uso de medicamentos ou drogas. Neste estudo, Corrêa (1995) aponta para a necessidade que a psiquiatria do pós-guerra, principalmente em países an- glo-saxões, teve de homogeneizar os conceitos dos diver- sos quadros psiquiátricos de modo a aprimorar os diag- nósticos e torná-los mais confiáveis para a realização de um melhor tratamento e de pesquisas e levantamentos epidemiológicos com menor margem de erro. Por fim, as classificações de referência em todo o mundo são abor- dadas: a classificação americana (DSM-III-R e DSM-IV) e a da Organização Mundial de Saúde (CID-10), que, cada vez mais, caminham para uma aproximação conceitual e descritiva. A nosografia apontada nestes manuais di- vide o transtorno em depressão maior, distimia, cicloti- mia, depressão melancólica, depressão atípica, depressão sazonal e depressão psicótica. Sá Júnior (1983) faz uma revisão sobre a classificação e o diagnóstico da depressão partindo das ambiguidades desse conceito na atualidade e chegando à diferenciação entre a depressão enquanto sintoma, a depressão enquan- to doença e a síndrome depressiva. As classificações clí- nicas das síndromes depressivas, desde as nosológicas, as propostas pela CID e as que consideram a intensidade do quadro clínico são revistas ao lado de uma classifica- ção fenomenológica de tais síndromes. Com base nesses estudos, o autor propõe diretrizes para diagnosticar as depressões, avaliar os sintomas, verificar as formas de evolução, a presença de queixas somáticas e a intensida- de da síndrome e avaliar os fatores biológicos, psicoló- gicos e sociais que fazem parte da síndrome depressiva. Levando em conta uma visão fenomenológica em psicopatologia, que propõe, sobretudo, o contato com a experiência vivida do indivíduo em sofrimento mental, Leite & Moreira (2009) apresentam a contribuição de Hubertus Tellenbach e de Arthur Tatossian para a com- preensão do transtorno depressivo (como igualmente descrito em Iserhard, 2002). Tellenbach – segundo as autoras – considera o caráter endógeno dos fenômenos psicopatológicos a partir do conceito de endon, que é o terceiro campo etiológico do humano, ao lado do somá- tico e do psíquico. Nessa concepção, endon se refere à corporeidade humana enquanto global, isto é, aquilo que tem caráter vital para o indivíduo e se apresenta como unidade. Além disso, Tellenbach fala a respeito do typus melancholicus como característico do indivíduo depres- sivo (Leite & Moreira, 2009). Esse tipo está relacionado a uma rigidez, a um estar fixado, o que, muitas vezes, está relacionado à vida profissional dessas pessoas: o trabalho é uma tarefa a ser cumprida com a maior per- feição. Para Tellenbach, a ordenalidade em que o tipo melancólico vive imerso apresenta caracterização pato- lógica, já que predispõe a imposição de limites rígidos, que dificilmente são transcendidos. É dessa forma que se apresentam, em grande parte, as pessoas em depres- são: presas em limites autoimpostos e restritas em sua corporalidade (Leite & Moreira, 2009). Segundo as autoras, Tatossian concebe o indivíduo de- pressivo como um ser marcado por uma impossibilidade de se fazer presente em sua própria existência. Para este autor, o depressivo assiste à sua tristeza, sendo incapaz de entrar em relação com ela. Tal incapacidade se esten- de a toda ação, o que ocasiona uma inibição vital e um vazio temporal. É como se nem mesmo a tristeza pudesse ser sentida pelo indivíduo, que não experimenta mais do que um sentimento de vazio. Além disso, Tatossian afir- ma que no estado depressivo há uma alteração do tempo 47 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira vivido. Assim, o não fazer e o não ser têm relação direta com a estagnação do tempo vivido, já que na experiên- cia da depressão a existência é lançada no vazio (Leite & Moreira, 2009). Souza (1997) revisa duas conferências proferidas por Roland Kuhn, uma em 1972 (realizada em Belo Horizonte) e outra em 1977 (em Barcelona). Evidencia-se, nestas con- ferências, como a descoberta da imipramina esteve estri- tamente relacionada à prática da psicoterapia. Kuhn foi o responsável pela descoberta dos efeitos antidepressivos da imipramina, sendo esta descoberta respaldada no concei- to de “depressão vital” de Ludwig Binswanger. Este con- ceito refere-se a um distúrbio funcional do organismo, apresentando uma sintomatologia que perturba funções vitais. Conforme Kuhn, apoiando-se em Binswanger, os distúrbios vitais do humor, entre eles a depressão vital, deveriam ser submetidos a uma terapia farmacológica, principalmente quando houver histórico familiar de al- gum destes transtornos. Para o tratamento de alguns ca- sos de depressão vital, a psicoterapia se limitaria a dar apoio à farmacoterapia, apenas atuando como fonte de informações sobre os medicamentos e resolução de situ- ações proporcionadas pelo distúrbio. Em outros casos, a psicoterapia combinada com o medicamento se mostrou essencial. Para a análise existencial, Kuhn assinalou que o importante é conhecer os fatores que determinam o curso da história de vida. Corrêa (1995) traz, por fim, a discussão de Kuhn sobre a possibilidade de o próprio terapeuta prescrever o medicamento, apoiado nos argu- mentos de que o terapeuta possui uma maior influência sobre o paciente e está em melhores condições de obser- vá-lo em suainteração com a medicação, além de a me- dicação tornar a psicoterapia mais fácil, rápida e satisfa- tória para o paciente e para o terapeuta. Por fim, temos um texto de Spanoudis (1981), no qual se apresenta uma compreensão fenomenológico-exis- tencial acerca dos sonhos, a partir de alguns exemplos de uma paciente depressiva e de um paciente psicótico. Considerações finais É possível notar que o número de artigos encontra- dos no primeiro momento, nas três bases de dados pes- quisadas, utilizando apenas o indexador “depressão” para busca, é significativo. No entanto, este número se apresenta muito restrito ao se buscar artigos sobre esta temática em relação a uma abordagem específica, como é a fenomenologia-existencial. Embora esta perspectiva tenha uma tradição no estudo dos fenômenos psicopa- tológicos, pudemos verificar que a produção acadêmica sobre a depressão no Brasil utilizando esta abordagem é bastante pequena, o que contrasta com os dados alar- mantes apresentados a respeito deste quadro. Um dos possíveis motivos desse número pouco ex- pressivo pode estar relacionado à própria indefinição do campo – como descrito por Andrease (2007) e Mullen (2007) –, o que faz com que uma “fenomenologia” da de- pressão possa simplesmente ser encarada como nosologia psiquiátrica, conforme apontado anteriormente, e, assim, não apareça claramente nos indexadores. Ademais, esta consideração aproxima sobremaneira uma perspectiva fenomenológico/nosológica da vertente biológica. Há di- ficuldades no estudo da fenomenologia filosófica tanto na própria filosofia quanto na psicologia e na medicina, além de haver uma pequena tradução dos textos exis- tentes no Brasil. Esta indefinição pode ser constatada por este levanta- mento, quando encontra desde a vinculação da fenome- nologia aos modos de classificação e diagnóstico psico- patológicos – como temos em Sá Júnior (1983) ou Correa (1995), p. ex. – e, portanto, associados a uma “fenomeno- logia descritiva”; quanto a sua associação a um modo de acesso ao “vivido” ou à “experiência vivida” – como en- contramos em Melo e Moreira (2008) ou Leite e Moreira (2009), p. ex. – aproximando-se de uma “fenomenologia compreensiva”. As vinculações – nem sempre bem deli- mitadas – da Fenomenologia com o movimento existencial – são também referências dessa indefinição, e igualmen- te se apresentam em nossa amostra, como em Patrício et al. (2009), por exemplo. No entanto, mesmo com o reconhecimento que o le- vantamento é limitado pelo número de vinte e um arti- gos (o que remete à necessidade de um posterior levan- tamento mais aprofundado, e que inclua as demais pro- duções acadêmicas, em especial as dissertações e teses de pós-graduações, bem como uma metanálise associada a produções internacionais), podemos ter um vislumbre das pesquisas sobre depressão que adotam a abordagem fenomenológico-existencial, no Brasil. Em relação aos estudos empíricos, alguns deles abor- dam a depressão em relação a uma população específi- ca – idosos, adolescentes, docentes (Trentini et al., 2009; Patrício et al., 2009; Melo & Moreira, 2008; Vietta & Bueno, 1987) –, enquanto outros tratam de eventos que possam vir a desencadear a depressão ou fatores relacionados a ela – estigma, solidão, rompimento amoroso, internação de um filho (Moreira & Telles, 2008; Moreira & Callou, 2006; Guedes et al., 2008; Bezerra & Fraga, 1996). Grande parte destes estudos empíricos considera, a partir de da- dos coletados e analisados, que embora não haja varia- ção na sintomatologia do transtorno depressivo, existem algumas diferenças no que se refere às vivências pes- soais relacionadas a este quadro que variam de acordo com os processos subjetivos característicos de cada cul- tura (Moreira, 2007; Moreira & Telles, 2008; Patrício et al., 2008; Vietta & Bueno, 1987; Moreira & Callou, 2006; Melo & Moreira, 2008). Os estudos teóricos também se concentram em torno de algumas temáticas peculiares, entre elas, a depressão em crianças (Iserhard, 2002; Antony, 2009), a depressão em idosos (Corrêa, 1996; Bastos, 2005, 2006), a classifi- 48 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda cação e o diagnóstico dos quadros depressivos (Corrêa, 1995; Sá Júnior, 1983) e a contribuição de alguns autores clássicos da fenomenologia para o entendimento da psico- patologia em questão (Leite & Moreira, 2009; Souza, 1997). Alguns autores pontuam a necessidade de se considerar as particularidades das diferentes fases da vida na ava- liação para diagnóstico do transtorno depressivo, tendo em vista que os manuais diagnósticos universalizam os sinais e sintomas relacionados ao quadro (Iserhard, 2002; Corrêa, 1996; Sá Júnior, 1983). É interessante destacar que, dos vinte e um artigos da amostra, cinco são assinados pela pesquisadora Virgínia Moreira, da Universidade de Fortaleza, o que represen- ta um número considerável. No entanto, a dispersão dos demais autores indica uma não-concentração dos estu- dos em um ou outro pesquisador. O mesmo vale para os periódicos em que os estudos foram publicados. Percebe- se que não há centralização em alguma revista científi- ca em particular. Outro dado que chama a atenção é a igual “dispersão” de teóricos que poderiam apoiar ou referendar o campo de pesquisas sobre depressão. São pouco citados os teó- ricos “clássicos”, como Jaspers (tradicionalmente associa- do ao modelo descritivo de psicopatologia e psiquiatria), bem como Bisnwanger e Minkowski. Não foram encon- tradas referência a Von Gebsattel ou a Straus; porém, cha- ma a atenção a menção a Roland Kuhn (particularmente por seus estudos sobre a Imipramina), em dois artigos (Correa, 1995; Souza, 1997); e a presença forte de Hubertus Tellenbach como representante mais contemporâneo da perspectiva fenomenológica em psiquiatria (Mundt et al., 1994; Iserhard, 2002; Leite & Moreira, 2009), bem como seu discípulo – Arthur Tatossian (Leite & Moreira, 2009) – o que pode representar tanto uma “redescoberta” da fenomenologia no campo da psicopatologia, como a in- dicação de um caminho de “retomada” desta mesma fe- nomenologia na contemporaneidade. Um dado relevante com relação à amostra é a pre- sença de cinco estudos tratando da depressão em idosos, o que parece indicar o reconhecimento da incidência considerável desse transtorno nesta população específi- ca. De fato, conforme dados de uma pesquisa realizada por Snowdon (2002), cerca de 10% dos idosos em todo o mundo apresentam quadros depressivos. No Brasil, este número é ainda maior, passando dos 15%. Esses dados sugerem a importância de se dar uma atenção especial à saúde mental dos indivíduos da terceira idade. Todavia, dada a alta incidência da depressão na população em ge- ral, chama-nos ainda a atenção a pouca produção asso- ciada à população infantil e adolescente, bem como na própria população adulta. Esse dado é ainda mais rele- vante quando se tomam as conclusões de reconhecer que os critérios diagnósticos do DSM-IV para a depressão são baseados no nível de desenvolvimento adulto, mas uti- lizados para identificar a patologia em qualquer idade (Weiss & Garber, 2003). Por fim, espera-se que este estudo possa servir como “retrato” da necessidade de realização de novas pesquisas empíricas – preferencialmente associadas ao campo mé- dico – e de novas reflexões teóricas que possam dar conta da alta incidência dos transtornos do espectro depressi- vo na população em geral. Tanto as pesquisas empíricas quanto as reflexões teóricas, devem vir acompanhadas de uma clara e ampla descrição contextual (neste caso, novos estudos epidemiológicos, dirigidos para popula- ções específicas são igualmente desejáveis), de modo que seja possível traçar metas razoáveis de atenção e políticas públicas condizentes com as necessidades da população. No que tangeespecificamente ao domínio dos estudos fe- nomenológicos, e em consideração ao extenso histórico dessa perspectiva no contexto das práticas psicológicas e psiquiátricas, reconhece-se uma carência igualmente sig- nificativa de estudos no país, o que parece apontar para uma limitada penetração do pensamento fenomenológi- co na Psiquiatria e Psicologia brasileiras. referências Amatuzzi, M. M. (1991). O Sentido-Que-Faz-Sentido: Uma pes- quisa fenomenológica do processo terapêutico. Psicologia, Teoria e Pesquisa (Brasília), 7(1), 1-12. Amatuzzi, M. M. (1993). Etapas do Processo Terapêutico: Um estudo exploratório. Psicologia, Teoria e Pesquisa (Brasília), 9(1), 1-21. Amatuzzi, M. M. (1995). Descrevendo processos pessoais. Estudos de Psicologia (Campinas), 12(1), 65-79. Amatuzzi, M. M. (1996). O Uso da Versão de Sentido na Formação e Pesquisa em Psicologia. Coletâneas da Anpepp (pp. 11-25). Vol. 1, Nr. 9 (Setembro). Campinas: Editora Alínea. American Psychiatric Association. (1998). DSM-IV: Manual diagnostico e estatístico de transtornos mentais (4th ed.). Porto Alegre, RS: ArtMed. Antony, S. M. R. (2009). Os ajustamentos criativos da criança em sofrimento: uma compreensão da gestalt-terapia sobre as principais psicopatologias da infância. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 9(2), 356-375. Andreasen, N. C. (2007). DSM and the Death of Phenomenology in America: An Example of Unintended Consequences. Schizophrenia Bulletin, 33(1), 108-112. Bahls, S. C., & Bahls, F. R. C. (2003). Psicoterapias da depres- são na infância e na adolescência. Estudos de Psicologia (Campinas), 20(2), 25-34. Ballone, G. J. (2005). Causas da depressão. Disponível em http:// www.psiqweb.med.br/ Acesso em 01 de junho de 2012. Bastos, C. L. (2005). Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia da depressão no idoso. Parte I: temporali- dade e cultura. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 8(4), 738-753. 49 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Fenomenologia da Depressão: uma Análise da Produção Acadêmica Brasileira Bastos, C. L. (2006). Tempo, idade e cultura: uma contribui- ção à psicopatologia da depressão no idoso. Parte II: uma investigação sobre a temporalidade e a medicina. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 9(1), 126-137. Berlinck, M. T., & Fédida, P. (2000). A clínica da depressão: questões atuais. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 3(2), 09-25. Bezerra, L. F. R., & Fraga, M. N. O. (1996). Acompanhar um filho hospitalizado: compreendendo a vivência da mãe. Revista Brasileira de Enfermagem, 49(4), 611-624. Bin, K. (1998). Fenomenologia da Depressão Estado-Limite, Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 1(3), 11-32. Boris, G. D. J. B. (2008). Versões de Sentido: Um instrumento fenomenológico-existencial para a supervisão de psico- terapeutas iniciantes. Psicologia Clínica (Rio de Janeiro), 20(1), 165-180. Cardinali, I. R. (2002). Daseinsanalyse e Esquizofrenia. São Paulo: EDUC. Cordas, T. A. & Louzã, M. R. (2003). Willy Mayer-Gross (1889- 1961). Revista de Psiquiatria Clínica, 30(4), 116-120. Corrêa, A. C. O. (1995). A fenomenologia das depressões: da no- sologia psiquiátrica clássica aos conceitos atuais. Revista Psiquiatria Biológica, 3(3), 61-72. Corrêa, A. C. O. (1996). A depressão nas pessoas idosas: um es- tudo nosológico retrospectivo e atual. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 45(6), 335-343. Duarte, M. B. & Rego, M. A. V. (2007). Comorbidade entre de- pressão e doenças clínicas em um ambulatório de geriatria. Cadernos de Saúde Pública (Rio de Janeiro), 23(3), 691-700. Guedes, D. D.; Monteiro-Leitner, J., & Machado, K. C. R. (2008). Rompimento amoroso, depressão e auto-estima: estudo de caso. Revista Mal-estar e Subjetividade, 8(3), 603-643. Higuti, P. C. L., & Capocci, P. O. (2003). Depressão pós-parto. Revista de Enfermagem da UNISA, 4, 46-50. Holanda, A. F. (2011). Gênese e Histórico da Psicopatologia Fenomenológica. Em V. Angerami-Camon (Org.), Psicoterapia e Brasilidade [pp. 115-160]. São Paulo: Cortez Editora. Iserhard, R. F. (2002). Fenomenologia da criança deprimi- da: questões existenciais e biológicas. Revista Psiquiatria Biológica, 10(4),161-168. Jaspers, K. (1989). Psicopatologia Geral. Rio de Janeiro: Livraria Atheneu (Original publicado em 1913). Kuhn, R. (2005). Psicofarmacologia e análise existencial. Revista Latino-Americana de Psicopatologia Fundamental, 8(2), 221-243 (Original publicado em 1990). Leite, M. E. & Moreira, V. (2009). A contribuição de Tellenbach e Tatossian para uma compreensão fenomenológica da de- pressão. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 61(3), 46-56. Mari, J. J.; Jorge, M. R., & Kohn, R. (2007). Epidemiologia dos transtornos psiquiátricos em adultos. Em M. F. Mello, A. A. F. Mello e R. Kohn (Orgs.), Epidemiologia da saúde mental no Brasil (pp. 119-141). Porto Alegre: Artmed. Melo, A. K. S. & Moreira, V. (2008). Fenomenologia da queixa depressiva em adolescentes: um estudo crítico-cultural. Aletheia, 27(1), 51-64. Ministério da Saúde. (2004). Saúde mental no SUS: os Centros de Atenção Psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde. Minkowski, E. (1967). Hallazgos de un caso de depresión es- quizofrénica. Em R. May, E. Angel & H. Ellenberger (Orgs.), Existéncia (pp. 163-176). Madrid: Editorial Gredos (Original publicado em 1922). Moreira, V. (2007). Critical phenomenology of depression in Brazil, Chile and the United States. Journal of Latin- American Fundamental Psychopathology online, 7(2), 193-218. Moreira, V. & Callou, V. (2006). Fenomenologia da solidão na depressão. Mental, 4(7), 67-83. Moreira, V. & Melo, A. K. (2008). “Minha doença é invisível”: revisitando o estigma de ser doente mental. Interação em Psicologia, 12(2), 307-314. Moreira, V. & Telles, T. C. B. (2008). Experiências do estigma na depressão: um estudo transcultural. Psico-USF, 13(2), 233-241. Mundt, C.; Fiedler, P.; Ernest, S. & Kohlhof, A. (1994). Um en- contro com Heidelberg: personalidade pré-mórbida e intera- ção conjugal observada de pacientes deprimidos endógenos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 43(6), 303-309. Mullen, P. E. (2007). A Modest Proposal for Another Phenomenological Approach to Psychopathology. Schizophrenia Bulletin, 33(1), 113-121. Organização Mundial da Saúde. (1997) CID-10 Classificação Estat íst ica Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (10ª Rev., vol. 1). São Paulo: Universidade de São Paulo. Organização Mundial de Saúde. (2011). Relatório sobre a saú- de no mundo. Genebra: Organização Mundial de Saúde. Patrício, K. P., Hoshino, K. & Ribeiro, H. (2009). Ressignificação existencial do pretérito e longevidade humana. Revista Saúde e Sociedade, 18(2), 273-283. Parker, G. & Brotchie, H. (2009). Depressão Maior suscita ques- tionamento maior. Revista Brasileira de Psiquiatria, 31 (Supl.I), 53-56. Pieta, M. A.; Castro, T. G. de & Gomes, W. B. (2012). Psicoterapia e Pesquisa: Desafios para os Próximos 10 anos no Brasil. Em A. F. Holanda (Org.), O Campo das Psicoterapias. Reflexões Atuais [pp. 121-142]. Curitiba: Juruá Editora. Ramires, V. R. R., Passarini, D. S., Flores, G. G. & Santos, L. G. (2009). Fatores de risco e problemas de saúde mental de crianças. Arquivos Brasileiros de Psicologia (Rio de Janeiro), 61(2), 1-14. 50 A rt ig o - R e v is õ e s C rí ti c a s d e L it e ra tu ra Revista da Abordagem Gestáltica - Phenomenological Studies – XIX(1): 38-50, jan-jul, 2013 Anielli Santiago & Adriano F. Holanda Rombaldi, A. J., Silva, M. C., Gazalle, F. K., Azevedo, M. R., & Hallal, P. C. (2010). Prevalência e fatores associados a sintomas depressivos em adultos do sul do Brasil: estu- do transversal de base populacional. Revista Brasileira de Epidemiologia, 13(4), 620-629. Sá Júnior, L. S. M. (1983).do sentido (expressão corporal, actividade no mundo e produções artís- ticas). Em particular, nos fenómenos vividos abordou a consciência do objecto (com destaque para as alucinações e pseudo-alucinações), as alterações das vivências do espaço e do tempo, da consciência da realidade (com destaque para o delírio e vivências delirantes primárias) e, ainda, dos sentimentos e estados de ânimo, im- pulsos, vontade, fenómenos reflexivos e cons- ciência do Eu. Finalmente, Jaspers introduziu três conceitos- -chave, que emergiram do método compreen- 624 sivo: ( I ) O processo, como interrupção da conti- nuidade histórico-vital, «algo totalmente novo que se apresenta por efeito duma transformação profunda da actividade anímica)) (Jaspers, 1972), que seria totalmente incompreensível genetica- mente: o processo psicótico torna a personali- dade delirante; (2) O desenvolvimento, uma con- tinuidade compreensível que prolonga de forma clara a personalidade e que «tem crescimento e desenvolvimento em conformidade ... destino compreensível face 21 biografia e configuração de sintomas em conformidade com a maneira de ser» (Jaspers, 1972): a personalidade desenvolve- -se de forma delirante como na paranóia; (3 ) A reacção, enquanto resposta comnpreensível a acontecimentos vitais ou vivências anteriores. Influenciado por Husserl, em 1912 já Jaspers tinha publicado «A Orientação da Investigação Fenomenológica em Psicologia)), mas é a sua ((Psicopatologia Geral)), publicada em 191 3 e sucessivamente reeditada, que consubstancia a I totalidade do pensamento psicopatológico. Também filósofo, Jaspers trabalhou a dimensão da razão e da existência e evidenciou que esta última só poderia ser iluminada e nunca apre- endida conceptualmente, j á que não poderia ser reduzida por completo a um objecto do pensa- mento. : 3. A DASEINANALYSE DE L. BINSWANGER Ludwig Binswanger (1 881 -1 966), mais impregnado de referências filosóficas, particular- mente de Heidegger, tornou-se especialmente conhecido pelos seus trabalhos sobre a esquizo- frenia, a mania e a melancolia. Introduziu a Da- seinanalyse, «uma atitude que parte da compre- ensão do Homem em situação)) ... ((trabalho de actualização do ser do Homem em todas as suas formas e todos os seus mundos)) (Binswanger, 1971). A análise psicopatológica que propôs foi uma análise empírico-fenomenológica dos modos e formas da existência perturbada, centrada na es- trutura do Dasein, com a finalidade de explicar e descrever a totalidade do ser psíquico do Ho- mem perturbado. Trata-se, essencialmente, de uma abordagem dos estados psicopatológicos enquanto modos de existência frustrada, toman- do como pontos de partida as categorias da Psi- copatologia. I Numa primeira fase, antes de 1927 e sob a influência da obra filosófica de Husserl, desenvolveu umafenornenologia categoria1 com o objectivo de revelar as alterações das ca- tegorias existenciais do Dasein como eixo de uma análise estrutural do que denominou os da- seins psiquiátricos. Ou seja, centrando-se nas determinações constitutivas da existência (os existenciais corporalidade, temporalidade, espa- cialidade e outros), procurou investigar como o Dasein se projecta no mundo. A grande finali- dade destas análises fenomenológicas seria a da reconstrução do mundo interior da experiência do paciente, para elucidar a estrutura pessoal do mundo individual que, todavia, ainda não per- mitiria compreender o significado da sua exis- tência. Mais tarde, particularmente influenciado pela obra filosófica de Heidegger, L. Binswanger de- senvolveu um método analítico-existencial ou Daseinanalyse, que questiona a existência e pro- cura fazer a reconstrução do seu desenvolvi- mento, através da investigação biográfica. Síntese da Psicanálise, da Fenomenologia e do Existencialismo, a Daseinanalyse apareceu como uma análise fenomenológica das formas de exis- tência, pré-definidas a partir das diversas cate- gorias psicopatológicas: dasein melancólico, dasein esquizofrénico, etc. Evidenciou a doença mental como um modo de existência, que teria que revelar a intervenção do próprio Homem, mas que realizaria uma redução da sua capaci- dade de viver e de conhecer. Considerou a exis- tência como estrutura total que abarca a conti- nuidade do sujeito e as suas relações com o ou- tro, as estruturas sociais e as coisas. A elabora- ção do Eu far-se-ia pela coordenação da expe- riência vivida actual com o encadeamento das experiências vividas anteriores (ou biografia in- terna). Quis realçar a análise da existência total do paciente no seu estar-no-mundo e tentou ca- ptar as estruturas básicas e significados essen- ciais, por intermédio de uma atitude intuitivo- -reflexiva que visava o Homem em si-mesmo. Com a Daseinanalyse de Binswanger, a psico- patologia apareceu como inflexão da estrutura do Dasein, um desvio ou alteração em relação A norma ontológica do Dasein, um extravio da rea- lização ontológica que o tornaria opaco para si mesmo. Através da análise dos casos Ilse, Ellen- west e Lola Voss, evidenciou o carácter de res- 625 triçãoAimitação na psicopatologia, que emergiria no que denominou tematização da existência, ou seja, quando uma só categoria do Dasein serve de «fio condutor)) ao projecto de mundo. Para Binswanger, a tematização da existência impl i- caria uma tarefa terapêutica de reconstrução da experiência, que envolveria a investigação meto- dica da biografia interna (onde apareceria uma nova forma de comunicação/reconstituição meri- tal das vivências) e uma penetração na estrutura da existência do paciente, para reconduzir a totalidade ou pluridimensionalidade do Dasein . Para Binswanger, o método de análise psico- patológica foi a Daseinanalyse, mas a técnica terapêutica que propunha era ainda a psicana- lítica. A difusão e a compreensão da psicopatologi a fenomenológica foram dificultadas pela liri- guagem filosófica dos seus autores, particular- mente fora dos países de língua alemã. N o entanto, pela sua importância, é de destacar a fenomenologia de E. Minkowski que, por exeni- plo, conceptualizou o transtorno fundamental da esquizofrenia como perda de contacto vitd com a realidade, desenvolveu a noção de tempo vivido e da sua importância em vários estados psicopatológicos, com destaque para a me- lancolia, conceptualizada como doença d o tempo. Mais tarde apareceram outras obras importantes em língua francesa, nomeadamene a ((Fenomenologia das Psicoses)) de Tatossian (1979) e ((Fenomenologia, Psiquiatria e Psica- nálise)) de P. Fedida (1986). Juntamente com J. Schotte, este último autor editou em 1981 uin conjunto vasto de textos intitulado ((Psiquiatria e Existência», correspondentes a um importante colóquio realizado em Cerisy (França), em 198'3, que constituiu uma reflexão profunda sobre as investigações mais actuais no campo da psico- patologia fenomenológica e que inclui trabalhos de A. Tatossian, R. Kuhn, H. Tellenbach, FV. Blankenburg e Y. Pelicier, entre outros. Finalmente, nos Estados Unidos da América, a Universidade de Duquesne tornou-se o priii- cipal centro de investigação em psicologia feno- menológica (Giorgi, 1966, 1971, 1983; von Eckartsberg, 1971), editando ((Joumal of Pheno- menological Psychology)) desde 197 1. Em síntese, a abordagem fenomenológica da Psicopatologia tem por finalidade a compre- ensão dos fenómenos psicopatológicos tal como são dados e vividos, e elucidar qual é a forma mesma do funcionamento mental do paciente, que dá conta da alteração da realização da expe- riência vivida e da qual emergem os sintomas. Especificamente, a contribuição da Dasein- analyse deu lugar a uma conceptualização psico- patológica dos modos de estar-doente (Boss & Condrau, 1975): - Estar-doente caracterizado por afectação evidente do corporal do existir, de que podem ser exemplos uma fractura da perna, uma para- lisia histéricaClassificação e diagnostico fenome- nológico das depressões. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 32(6), 351-358. Scazufca, M., & Matsuda, C. M. C. B. (2002). Revisão sobre a eficácia de psicoterapia vs. farmacoterapia no tratamento de depressão em idosos. Revista Brasileira de Psiquiatria, 24(1), 64-69. Schestatsky, S. & Fleck, M. (1999). Psicoterapia das depressões. Revista Brasileira de Psiquiatria, 21(1), 41-47. Snowdon, J. (2002). Qual é a prevalência de depressão na tercei- ra idade? Revista Brasileira de Psiquiatria, 24(1), São Paulo. Souza, C. A. C. (1997). A descoberta da imipramina e a psicote- rapia: uma (re)visão. Revista Psiquiatria Biológica, 5(1), 33-8. Souza, F. G. M. (1999). Tratamento da depressão. Revista Brasileira de Psiquiatria, 21(1), São Paulo. Spanoudis, S. (1981). Abordagem fenomenológico-existencial dos sonhos. Boletim de Psiquiatria, 14(2), 51-6. Stefanis, C. N., & Stefanis, N. C. (2005) Diagnóstico dos trans- tornos depressivos: uma revisão. Em M. Maj & N. Sartorius (Orgs.), Transtornos depressivos (pp. 13-76). Porto Alegre: Artes Médicas. Trentini,, C. M., Werlang, B. S. G., Xavier,, F. M. F., & Argimon, I. I. L. (2009). A relação entre variáveis de saúde mental e cognição em idosos viúvos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(2), 236-243. Valentini, W., Levav, I., Kohn, R., Miranda, C. T., Mello, A. A. F., Mello, M. F., & Ramos, C. P. (2004). Treinamento de clí- nicos para o diagnóstico e tratamento da depressão. Revista de Saúde pública, 38(4), 522-528. Vercelli, L. C. A. (2006). Versões de Sentido: Um instrumento metodológico, Cadernos de Pós-Graduação – Educação (São Paulo), 5(1), 191-195. Vietta, E. P., & Bueno, S. M. V. (1987). Sintomas existenciais versus sintomas patológicos, um problema de rotulagem psiquiátrica: inquérito sobre a vivência de profissionais da saúde mental. Revista Brasileira de Enfermagem, 40(4), 256-262. Vivan, A. S., & Argimon, I. I. L. (2009). Estratégias de enfren- tamento, dificuldades funcionais e fatores associados em idosos institucionalizados. Cadernos de Saúde Pública, 25(2), 436-444. Wannmacher, L. (2004). Depressão Maior: Da descober- ta à Solução? Uso Racional de Medicamentos. Temas Selecionados (Ministério da Saúde), 1(5), pp. 1-6 (Abril). Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/ HSE_URM_DEP_0404.pdf Weiss, B., & Garber, J. (2003). Developmental differences in the phenomenology of depression. Cambridge Journals Online – Development and Psychopathology, 15, 403-430. Anielli Santiago - Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná. Email: anielli.sant@hotmail.com Adriano Furtado Holanda - Doutor em Psicologia, Professor Adjunto do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Endereço Institucional: Departamento de Psicologia, Universidade Federal do Paraná. Praça Santos Andrade, 50 – Sala 215 (Ala Alfredo Buffren). 80020.300. Curitiba/PR. Email: aholanda@yahoo.com Recebido em 19.04.13 Primeira Decisão Editorial em 16.05.13 Aceito em 30.06.13e uma demência pós-traumática que, em comum, têm uma afectação da possibi- lidade de corporalizar uma certa relação com o mundo - Estar-doente caracterizado por uma afecta- ção pronunciada da espacialidade - Estar-doente constituido por obstáculos im- portantes a realização da disposição do humor própria a essência da pessoa, onde se destacam as psicoses afectivas e outros distúrbios afecti- vos, nomeadamente depressivos - Estar-doente constituidos por obstáculos importantes ci realização do ser-aberto e da li- berdade, envolvendo sobretudo as psicoses es- quizofrénicas. Assim, o modo de estar-doente es- quizofrénico aparece como uma manifestação da privação extrema que consiste em não-poder ser de forma livre e autónoma. No entanto, também nos neuróticos obsessivos há afectação da liber- dade e da abertura do existir, de forma menos intensa, particularmente porque são constrangi- dos a manterem-se rigorosamente a distância das coisas e a protegerem-se: a existência é aqui uma luta constante contra as ameaças de um universo impuro e corrompido. Finalmente, para uma melhor compreensão dos modos de estar-doente, convém referir que a abordagem fenomenológica da psicopatologia é indiferente a distinção entre normal e patológico, uma vez que o método fenomenológico suspende qualquer tese de valor e, portanto, de normativi- dade (Tatossian, 1990): esta indiferença é com- preensível na medida em que a fenomenologia encara os modos de estar-doente como possibi- lidades humanas universais. O acento tónico no interior do sujeito, na existência ou ausência do poder de aplicar ou não a norma que é a sua. Ou 626 seja, a perturbação começa quando há limitação A liberdade, quando o sujeito deixa de poder ado- ptar outras modalidades comportamentais. BIBLIOGRAFIA Bachelor, A. & Joshi, P. (1986). La Méthode Phéno- menologique de Recherche en Psychologie. Guide Pratique. Ste-Foy: Les Presses de l’université Laval. Beauchesne, H. ( i 986). Histoire de Ia Psychopatholo- gie. Paris: Presses Universitaires de France. Binswanger, L. (1971). Introduction u I ‘Analyse Exis- tentielle. Paris: Editions de Minuit. Boss, M. & Condreau, G. (1 975). Analyse Existentielle (Daseinanalyse). In Encyclopédie Médico- Chirurgicale (Psychiatrie), 37815, Alo, 1-6, Paris. Carvalho Teixeira, J.A. (1988). A posição fenomenoló- gica em Psicologia e Psiquiatria. Psiquiatria Clí- nica, 9(1): 33-43. Carvalho Teixeira, J.A. (1 989). Psicopatologia Clínica do Adulto: Objectivos pedagógicos. Análise Psico- lógica, 1-2-3(VIII): 375-376. Carvalho Teixeira, J.A. (1991). A Psicopatologia Geral na Formação do Psicólogo. Análise Psicológica, Ellenberger, H.F. (1 958). A Clinical Introduction to Psychiatric Phenomenology and Existential Ana- lysis. In Existence (R. May, Ed.), New York: Basic Books. Giorgi, A. (1 966). Phenomenology and experimental psychology. Review of Existential Psychology and Psychiatry, 6: 37-50. Giorgi, A. (1 97 1). Phenomenology and experimental psychology. In Duquesne Studies in Phenomenolo- gical Psychology, i (A. Giorgi, W.F. Fisher & R. von Eckartsberg, Eds.), pp: 6-16, Pittsburgh: Dupuesne University Press. Giorgi, A. (1983). Concerning the possibility of phenomenological research. Journal of Phenome- nological Psychology, 14: 129-149. Ionescu, S. (1 99 1). Psychopathologie phénomenologi- que. In Quatorze Approches de la Psychopatholo- gie (S. Ionescu, Ed.), pp: 156-168, Poitiers: Nathan Université. Jaspers, K. (1 928). Psychopathologie Générale. Paris: Librairie Félix Alcan. Jonckheere, P. (1989). Disparité et convergences. Esquisses des rapports historiques entre phénome- nologie, analyse existentielle et psychiatrie. In Phénomenologie e t Analyse Existentielle (P. Jonckheere, Ed.), pp: 11-3 1 , Bruxelles: De Boeck- Wesmael. Lanteri-Laura, G. (1 963). La Psychiatrie Phénomeno- logique. Fondements philosophiques. Paris: Presses Universitaires de France. l(IX): 118-126. Lopes, G. (1982). Existential Psychotherapy. In Progressos em Terapêutica Psiquiátrica (Guima- rães Lopes, Ed.), pp: 3 19-333, Porto: Hospital do Conde de Ferreira. Lopes, G. (1 993). Fenomenologia. In Clínica Psico- pedagógica (Perspectiva da Antropologia Feno- menológica e Existenciai) (Guimarães Lopes, Ed.), pp: 23-47, Porto: Hospital do Conde de Ferreira. Lyotard, J.-F. (1 964). La Phénomenologie. Paris: Presses Universitaires de France. Not, L. (1986). Trois approches a la notion de personne. In Regards sur Ia Personne (L. Not, Ed.), Tou- louse: Université de Toulouse - Le Mirail. Spiegelberg, H. (1982). Phenomenology in Psychology and Psychiatry. Northwestern University Press. Tatossian, A. (1 990). Classification Psychiatrique et Phénomenologie. Revue Internationale de Psycho- pathologie, 2: 271-289. Tellenbach, H. (1992). Analyse phénomenologique de la rencontre inter-humaine dans le Dasein normal et pathologique. In Figures de Ia Subjectivité (Approches phénomenologiques et psychiatriques) (J.JF. Coutine, Ed.), pp: 109-1 18, Paris: Editions du CNRS. Villegas, M. (1 991). Analisis Existencial: Cuestiones de Metodo. Revista de Psiquiatria y Psicología Humanista, 25: 55-70. Von Eckartsberg, R. ( i 871). On experiential metho- dology. In Duquesne Studies in Phenomenological Psychology, I (A. Giorgi, W.F. Fisher & R. Von Eckartsberg, Eds.), pp: 66-79, Pittsburg: Duquesne University Press. Yalom, I.D. (1 984). Psicoterapia Existencial. Bar- celona: Editorial Herder. RESUMO Nesta nota didáctica a finalidade é introduzir conceitos fundamentais sobre a abordagem feno- menológica em Psicopatologia. Após uma breve intro- dução sobre os pontos de convergência fundamentais entre as diferentes orientações fenomenológicas e existenciais, referem-se aspectos específicos da psico- patologia fenomenológica centrando-se na Fenomeno- logia de K. Jaspers e na Daseinanalyse de L. Binswan- ger . ABSTRACT The main goal of this paper is to review the groundwork of phenomenological psychopathology. After an introduction about the phenomenological- -existential convergent topics, the author particularize with K. Jaspers‘ phenomenology L. Binswanger’s Daseinanalyse. 62 7 Psicopatologia na fenomenologia-existencial 31 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 Psicologia A psicopatologia e o diagnóstico numa abordagem fenomenológica–existencial Carlene Maria Dias Tenório1 1 Gestalt Terapeuta; Mestre e Doutoranda em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília-UnB; ex- professora da Universidade de Fortaleza-UNIFOR; professora do Centro Universitário de Brasília-UniCEUB; membro efetivo da diretoria e do corpo docente do Instituto de Gestalt Terapia de Brasília-IGTB. RESUMO - Partindo da exposição de alguns pressupostos da fenomenologia e do existencialismo, é feita uma reflexão acerca dos aspectos teóricos e metodológicos referentes à psicopatologia e ao diagnóstico dentro dessa abordagem. Uma psico- logia de base fenomenológico-existencial confirma a prioridade da relação com o outro na constituição do sujeito. Desse modo, o aspecto relacional assume um papel determinante no desenvolvimento saudável ou patológico e o aspecto essen- cial da existência humana, do qual se origina a problemática relacional que caracte- riza a patologia, consiste em modalidades específicas de internalizar a figura do outro por parte do indivíduo. Dentro dessa perspectiva, fazer diagnóstico é identi- ficar e explicitar o modo de existir do sujeito em seu relacionamento com o ambien- te em determinado momento e os significados que ele constrói de si e do mundo. Palavras-chave: fenomenologia, existencialismo, pscicopatologia, diagnóstico The psychopathology and the diagnosis according to the phenomenological-existentialist approach ABSTRACT - Starting from the explanation of some premises of phenomenology and existentialism, some thoughts are given to the theoretical and methodologicalaspects concerning the psychopathology and the diagnosis according to this approach. A Psychology based on the phenomenological existentialist approach confirms the priority of the relationship with the other person on the subject’s constitution. In this sense, the relational aspect takes a determining role on the healthy or pathological development. In addition, the essential aspect of the human existence from which the relational problems, the ones that characterizes the pathology, originate consists of specific ways of internalizing the other’s image by the person. From this point of view, making a diagnosis consists of identifying and showing the person’s way of being in his/her relationship with the environment at a specific moment and the meanings of himsel and the world. Key-words: phenomenology, existentialism, psychopathology and diagnosis Carlene Tenório 32 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 A fenomenologia e o existencialismo: alguns pressupostos básicos O existencialismo é uma corrente filosófica bem mais abrangente e com uma gravitação no pensamento contemporâneo bem maior que a fenomenologia. Nascido oficialmente em 1927, com a publicação de Ser e Tempo, de Martin Heidegger, o existencialismo coloca a questão do ser como a máxima tarefa da reflexão e da ação humana. Centrada sua preocupação na elucidação ontológica em geral, Heidegger focaliza sua atenção na questão do ser humano em particu- lar, tentando caracterizar, em sua obra fundamental, os traços distintivos da exis- tência humana. Para esse objetivo, ele entende que o único método que lhe per- mite alcançar este propósito é a fenomenologia. Depois de Heidegger, outros pensadores identificados com essa corrente filosófica aplicam este mesmo método. No entanto, o método fenomenológico não é o único empregado pelo enfoque existencial, sobretudo na área da psico- logia. Dois outros métodos gozam igualmente de considerável prestígio: o mé- todo compreensivo e o método dialético, que serão abordados posteriormente. Na cabeça de seu fundador, Edmund Husserl, a Fenomenologia nasceu com a pretensão de tornar a reflexão filosófica uma ciência rigorosa tão bem estabelecida que servisse de fundamento a todas as outras ciências empírico-fí- sicas e naturais. O grande intuito de Husserl era fundar um método que propor- cionasse um conhecimento indubitável e radical, com um ponto de partida evi- dente, sem nenhum pressuposto. Trata-se de apreender os fenômenos tais como emergem na consciência pura do sujeito, na experiência vivida (Romero, 1997). A aplicação do método fenomenológico, exige, em primeiro lugar, a von- tade de ater-se aos fenômenos mesmos, deixando de lado qualquer pressuposto e toda idéia preconcebida. Essa exigência metódica implica que precisamos deixar que os fenô- menos falem por si mesmos sem encaixá-los de imediato na bitola de nossa teoria prévia (Romero, 1997, p. 53). Embora não desconsidere o aspecto objetivo, a descrição fenomenológica se centraliza na experiência vivida pelo sujeito. Tenta captar o acontecer experiencial tal como o sujeito o manifesta por sua expressão verbal ou escrita, objetiva ou subjetiva. Pela fenomenologia tentamos indagar os modos de mani- festar-se de um determinado fenômeno, examinando em seguida o significado e sentido que esse fenômeno possa comportar, tal como ele é apreendido pela aná- lise reflexiva. A fenomenologia, no entanto, não aspira apenas fazer uma descrição dos Psicopatologia na fenomenologia-existencial 33 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 objetos intencionais que constituem a experiência originária da consciência; propõe-se também estabelecer a essência dos fenômenos. Nas múltiplas e varia- das manifestações de um fenômeno, sempre podemos detectar um núcleo comum e um significado que percorrem e unificam essa variedade fenomenológica; é o que denominamos a essência do fenômeno (Romero, 1997). Outro importante aspecto da fenomenologia é a noção de intencionalidade da consciência: a consciência é sempre consciência de alguma coisa, estando dirigida para um objeto, só existe objeto para uma consciência. Se um objeto é sempre objeto-para-uma-consciência, ele jamais será objeto-em-si, mas objeto percebido... Consciência e objeto não são entidades separadas na natureza, mas definem-se a partir desta correlação que lhes é co-original (Boris, 1994, p. 23). O campo da análise fenomenológica seria elucidar a essência desta corre- lação, na qual se estende o mundo inteiro (Angerami, 1984). Neste sentido, como diz Romero, (1997), temos que considerar o caráter intencional do fenômeno psíquico. O mental não é algo que acontece apenas dentro da cabeça, sem maior relação com o mundo fora. Pelo contrário, o mental está inteiramente direcionado para o mundo; é o mundo refletido, de certa ma- neira, numa determinada pessoa. Uma vivência não é uma experiência puramen- te objetiva; toda vivência é uma forma de relação que o sujeito estabelece com os diversos objetos que constituem seu mundo. Buscar a compreensão do signi- ficado que esse mundo particular tem para cada sujeito, por meio da descrição minuciosa de suas vivências, é, portanto, o principal objetivo do método fenomenológico. Finalmente, como diz Merleau-Ponty (1973), a mais importante aquisi- ção da fenomenologia é, sem dúvida, a de ter associado o extremo subjetivismo ao extremo objetivismo, propondo caminhos para a compreensão da experiên- cia humana visando respeitar a complexidade do real e encontrar o sentido den- tro do próprio fenômeno, que emerge espontaneamente na consciência. O existencialismo é uma filosofia da liberdade. Sustenta que o homem é ontologicamente livre. Por sermos livres, somos igualmente responsáveis. Sem liberdade de decisão e de escolha não seríamos responsáveis. Isso não significa negar a importância dos determinismos que, nas diversas esferas, afetam os ho- mens. Justamente perante esses determinismos é que tem sentido a liberdade. Quando afirmamos que somos livres, estamos afirmando que sempre temos algu- ma possibilidade de escolha, uma margem de opção. Podemos submeter-nos passivamente a estes determinismos; é o que faz muita gente, mas essa sujeição Carlene Tenório 34 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 é também uma forma de escolha (Romero, 1997). De acordo com o existencialismo de Sartre, “a existência precede a essên- cia”, isto quer dizer, então, que a existência é a essência do homem. Sua essência só é revelada e, de certo modo, construída por meio de sua existência, de sua relação com o mundo (Penha, 1982). É importante salientar, no entanto, que o existencialismo não nega as essências como determinações formais, estruturais ou naturais; elas constituem o dado ou recebido na constituição humana. Só que vale sempre a observação de Sartre: “Não importa o que me foi dado, o importante é o que eu faço com o que recebi”. O existencialismo também afirma que o homem é um ser de possibilida- des. Em psicologia costuma-se acentuar a importância da necessidade como um fator que compele o indivíduo na procura do objeto que satisfaça uma carência biológica ou motive sua realização psíquica e existencial. Mas o homem não é meramente movido por carência e desejos; é um ser aberto ao mundo, aberto a seu apelo e às suas possibilidades. Por estar aberto, não está inteiramente deter- minado e já feito de uma vez - como acontece ao animal, que não tem futuro nem passado, sem possibilidades e completamente inserido na natureza. Outra característica importante da existência humana é sua temporalidade e finitude. O homem é um ser temporal e temporalizante, isto é, finito e ciente de sua finitude; tudo o que faz e lhe acontece revela sua finitude. O Dasein, ensina Heidegger, é um ser-para-a-morte. (Romero, 1997, p. 34) Nas palavras de Augras (1986, p. 32): O ser para a frente de si mesmo nada mais é do que o ser para a morte. É essa certeza inaceitável que fundamenta a ambigüidade do horizonte exis- tencial.Todos os mitos de tempo são mitos de cataclismos, que buscam no fim do mundo uma promessa de ressurreição... o tempo é criação do homem, não apenas na forma de parâmetro que facilita a ordenação das ações humanas, mas sobretudo como tentativa de negar a morte. O homem como ser no mundo é uma das dimensões existenciais apontadas por Heidegger. Com relação a este aspecto Heidegger explica que homem e mundo invocam-se mutuamente, um não existe sem o outro. Isso significa que o mundo é uma realidade puramente humana. O indivíduo está inserido completamente nessa realidade. Sair dessa realidade é perder as características próprias do ser Psicopatologia na fenomenologia-existencial 35 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 humano. Tudo o que nos acontece subjetivamente se relaciona com algo que está ai, no mundo (Barbosa, 1998). Diante de todas essas condições existenciais que lhe são inerentes, o ser humano inevitavelmente sofre e se angustia. Segundo Petrelli (1999, p. 23), A essência do homem é dada pelas tarefas do seu existir que são: ser consciente; escolher; decidir; ser responsável; aceitar sua finitude; aceitar os seus limites; responder às possibilidades; resistir às derrotas; construir a sua singularidade sobre a sua solidão; vencer o Nada constituindo-se como ‘deus’. Essas tarefas, cujas realizações e possibilidades de fracasso definem o sen- tido de sua própria existência, são a razão de sua profunda angustia. O homem consciente de sua própria humanidade se angustia diante de sua liberdade e res- ponsabilidade; diante do nada (morte) e de sua inalienável singularidade e soli- dão, ao perceber que sua experiência de estar no mundo, além de finita, é vivida de um modo particularmente seu, nunca igual à experiência de qualquer outra pessoa. Os métodos compreensivo e dialético: uma breve exposição Enquanto modelo epistêmico ou forma de entender a existência humana em suas manifestações saudáveis ou patológicas, o enfoque fenomenológico- existencial segue basicamente os métodos compreensivo, dialético e fenomenológico. (Romero, 1997). A compreensão não é apenas a resultante do entendimento. Quando en- xergamos as relações que constituem um determinado fenômeno ou uma dada situação, dizemos que os compreendemos. A compreensão é um método diferen- te do método explicativo, embora os dois se complementem. A psicologia usa um ou outro, segundo o plano em que se movimenta. Explicamos os processos psíquicos quando decorrem de fatores causais ou de variáveis independentes. Explicamos alguns aspectos da conduta do bêbado sob o efeito do álcool (lentidão dos reflexos, falta de coordenação motora, incoerência associativa). Compreendemos a reação de esquiva e rejeição por parte da maioria das pessoas perante a presença de um bêbado, pois seu comportamento inconveniente torna indesejável sua proximidade. O explicar corresponde à determinação das cau- sas; o compreender implica o conhecimento dos motivos que levam uma pessoa a comportar-se de uma determinada maneira, ou a vivenciar a realidade de certo Carlene Tenório 36 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 modo. Compreender é relacionar um fenômeno psicológico com outro fenôme- no psíquico com o qual mantém uma relação motivacional. Certas condutas estranhas de uma pessoa idosa são explicáveis por deterioramento cerebral; perda de memória, emotividade pueril, diminuição de senso moral. Outras vivências são compreensíveis por motivos existenciais e psicológicos: suas fases de tristeza e certa melancolia relacionam-se com sua falta de possibilidades, seu isolamento de fato, a desconexão com certas atividades (aposentadoria) e o menosprezo notório de outros em relação ao velho. Dessa maneira, compreender é estabelecer as relações de sentido que um evento, uma vivência, uma conduta ou uma expressão possam implicar. O método dialético parte do princípio de que a relação com o diferente e o conflito entre os opostos são a força propulsora da evolução do ser humano. Esses opostos ou polaridades são as mais diversas possíveis, constitutivas da existên- cia humana: consciência/inconsciência; figura/fundo; organismo/meio; eu/tu; sujeito/objeto; dentro/fora; vida/morte, etc. Existe uma tensão natural entre di- versas polaridades vivenciadas pelo sujeito enquanto ser consciente e relacional. Este sujeito, na tentativa de integrar essas polaridades, sofre, entra em conflito e ansiedade, se desequilibra, se desorganiza, mas em seguida retoma um estado de equilibração, organização e harmonia provisório, no entanto, qualitativamente superior e mais complexo que o estado anterior. O desenvolvimento humano, portanto, acontece como uma espiral, onde o conflito entre as diferenças é fundamental. É um constante processo de equilibração e desequilibração, organização e desorganização, mediante a dinâmica entre os opostos: tese e antítese, gerando uma nova totalidade provisória que é a síntese. Como diz Augras (1986, p. 11) A saúde encontra-se nesse fogo de interações. Pois cada estado de equilíbrio alcançado destrói o estado anterior. A vida procede dialeticamente. Ordem e desordem são etapas constantes no desenvolver do homem e do mundo. Neste sentido, Augras define saúde e doença como etapas de um mesmo processo de equilibração na relação eu/mundo por meio do qual se dá a consti- tuição mútua do mundo e de si mesmo. A psicopatologia: algumas idéias fundamentais A abordagem fenomenológica existencial da Psicopatologia, de acordo com Romero (1997), iniciou-se com a publicação do livro de Karl Jaspers, Psicopatologia Psicopatologia na fenomenologia-existencial 37 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 Geral, em 1913. Nesse mesmo ano, o filósofo Edmundo Husserl publica seus escritos sobre Fenomenologia Pura, em que se estabelecem os traços gerais do método. Contudo, só em 1927, com a publicação de Ser e Tempo, de Martin Heidegger, é que se estabelece o consórcio da fenomenologia com o existencialismo. O enfoque fenomenológico-existencial da psicopatologia tem como base uma concepção elaborada de homem, que se encontra desenvolvida nas grandes figuras deste movimento, singularmente em Heidegger, Sartre, Merleau - Ponty, Ortega e Buber. De uma forma mais sucinta podemos definir o conceito de homem dentro deste enfoque como um ser pluridimensional, livre, inserido em um mundo do- tado de sentido particular, aberto às suas possibilidades, consciente de sua finitude e de sua responsabilidade perante suas escolhas, capaz de inventar e cuidar de sua própria existência mediante a práxis. Partindo desta visão de homem, podemos dizer que a psicopatologia vai se manifestar por meio de uma vivência de sofrimento onde a pessoa se sente vítima e presa a um destino sombrio e a uma existência destituída de realizações gratificantes e prazerosas. Sem liberdade de escolha, a pessoa vive a sensação de estar encurralada pelas circunstâncias da vida, sentindo-se impotente para modificá- las, submetendo-se a elas, num sacrifício alienante e inevitável. Nesse processo de sofrimento, a pessoa perde o contato com as possibili- dades existentes no campo organismo/meio, percebendo a si mesma e ao outro de forma distorcida. Com relação a este aspecto, Romero (1977, p. 34) comenta: Na depressão, o sentimento de falta de possibilidades é muito acentua- do. Na ansiedade o que emerge são possibilidades negativas ou conflitantes. O possível e o impossível perdem seus limites na psicose e quando ingressa- mos no plano do imaginário. Uma psicologia de base existencial-fenomenológica é relacional e intersubjetiva isto é, confirma a prioridade da relação com o outro na constitui- ção do sujeito. Isso significa que na etapa inicial do desenvolvimento, durante boa parte da infância, o indivíduo esteve subordinado às injunções, aos ditames, às manipulações e ao domínio dos agentes socializadores: pais, parentes, educa- dores e programadores coletivos (mídia, principalmente). Entretanto, para que haja um desenvolvimentosaudável e uma constitui- ção da individualidade é preciso que aconteça uma progressiva superação dessa primazia do outro, tarefa esta que implica um longo processo de autoconsciência e questionamento de si mesmo e do mundo em que se encontra inserido (Romero, 1977). Carlene Tenório 38 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 Desse modo, o aspecto relacional da existência humana assume um papel determinante na constituição de um desenvolvimento saudável ou patológico. O conflito existente na relação indivíduo/meio gera uma tensão básica que é fundamental no desenvolvimento humano, no entanto, ...haverá doença se esse conflito subsistir em termos de desordem, per- manecendo o indivíduo num comportamento estereotipado, invariante, alheio às suas possibilidades e do ambiente, ou reagindo inadequadamente... a saú- de do indivíduo será avaliada em sua habilidade para recuperar o equilíbrio e superar a crise na relação com o ambiente, utilizando então sua capacida- de criadora para transformar esse meio inadequado em mundo satisfatório. (Augras, 1986, p. 12). A psicopatologia também pode manifestar-se como uma desorganização da cronologia existencial. Para o melancólico, o tempo afigura-se parado, imó- vel, sem nenhuma perspectiva. As idéias de ruína, de culpabilidade surgem como tentativas de justificar a modificação profunda da estrutura da vivência tempo- ral. Neste sentido, a perturbação dentro do tempo do melancólico deixa de ser sintoma, para ser causa. (Augras, 1986). Na psicose, a vivência do horizonte temporal desaparece. A esquizofrenia, em muitos aspectos, pode ser descrita como perturbação essencial do espaço - tempo. Uma doente declara: “Nada mais acontece, tudo parou nem eu mais vivo. Sinto que o meu coração não bate. Ele parou como meus braços que são de vidro. Não sei se hoje é ontem” (Augras, 1986). De acordo com Augras (1986) grande parte da psicopatologia deveria ser reconstituída a partir de um estudo a respeito da maneira como o indivíduo se situa em relação à vivência do tempo e do espaço. Longe de serem aspectos adjetivos na expressão de experiências específicas, tempo e espaço afirmam-se como dimensões significativas do ser. O papel do outro na constituição do eu é abordado pela filosofia dialógica de Buber, em que ele defende que toda a existência do homem está fundamentada na relação com o outro, ou seja, no diálogo. O ser se determina quando em relação, não existe o eu em si, pois o eu é posterior à relação, é a partir dessa relação que o eu delimita sua própria existência (Buber, 1979). De acordo com a filosofia dialógica, os bloqueios neuróticos e até a desestruturação psicótica surgem, pelo menos em parte, porque outras pessoas (figuras parentais, principalmente) não foram capazes de entender, considerar e valorizar a experiência da criança. Em conseqüência, ela não pode sentir-se con- Psicopatologia na fenomenologia-existencial 39 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 firmada e, portanto, não é capaz de apreciar e valorizar sua própria experiência, tem de rejeitá-la, alienando uma parte de si mesma, que vai tornar-se inconscien- te (Hycner, 1995). Como a criança, por sua própria condição de imaturidade, dependência e impotência com relação ao mundo adulto, possui uma estrutura de ego frágil e vulnerável, é fundamental, para seu desenvolvimento saudável, que esse mundo seja experienciado como sendo suficientemente confiável e acolhedor, caso con- trário, ela terá que lidar com uma realidade insuportável e inevitável. Na impos- sibilidade de superar esse conflito ela o introjeta, causando uma divisão interna do self. Segundo Romero (1997), o aspecto essencial da existência humana, do qual se origina a problemática relacional que caracteriza a patologia, consiste em modalidades específicas de internalizar a figura do outro por parte do indiví- duo. O sujeito neurótico internalizou a figura do outro como uma presença dominante, perante a qual o próprio sujeito se posiciona como ente secundá- rio. Isso significa que para o neurótico o outro tem demasiada presença. O neurótico está tão habitado pelo outro que quase sempre precisa tomar pro- vidências, tendo que apelar para truques no sentido de conquistar um espaço suficiente para ele mesmo nesse mundo (Romero, 1997, p.165). Ainda a respeito da neurose, Romero (1997) afirma que o movimento da vida humana é uma espiral em aberto e, na neurose, essa espiral tende a fechar- se num círculo limitante, supostamente protetor, pouco permeável, escassamen- te mutável, sufocante. Romero (1997) diz, também, que o que caracteriza o círculo da neurose, além dos comportamentos peculiares a cada tipo, são alguns traços visíveis e pertencentes a todos as variações típicas: o predomínio de sentimentos negati- vos referidos ao mundo e, com maior freqüência, ao próprio sujeito. Há uma pro- funda insatisfação de fundo que não é superada por eventuais compensações nem por sucessos materiais, eróticos e até afetivos. Os sentimentos negativos, os conflitos, a baixa auto-estima e o estado de impotência e de insatisfação geram no neurótico uma vivência de angústia, que é definida por Romero (1997) como angústia sintomática, diferente da angústia existencial, que é inerente à condição humana. A angústia sintomática é perturbadora, limitante e restritora da liberdade, levando o sujeito a utilizar mecanismos repetitivos, em um circuito fechado in- terminável. É resultante de conflitos e de um processo de alienação de si mesmo. Carlene Tenório 40 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 A angústia existencial, por sua vez, estimula o questionamento da situa- ção originante e motiva a procura de novos caminhos. Está associada à experi- ência de liberdade e responsabilidade. É originada por circunstâncias que põem em jogo os valores de sentido, ou que estão associados a decisões definitivas. Na psicose há um processo de profunda alienação de si mesmo e do outro, por conta de uma total impossibilidade de se estabelecer um diálogo com o ou- tro (Eu-Tu). O outro teve que ser alienado por se revelar excessivamente podero- so e nocivo à preservação do eu. Esse eu tornou-se desconhecido em virtude de tantas defesas e negações de si mesmo, na tentativa de minimizar a ameaça externa. O outro está no mundo do psicótico como uma figura parcial, contraditó- ria e ambivalente, é um habitante estranho e fugidio, assemelhando-se a um ser fantasmático e desencarnado. O psicótico constrói um mundo dividido e frag- mentário, alienado de um contato vital com a realidade, por não ter obtido um reconhecimento mínimo dos outros. Sem reconhecimento por parte do outro, o sujeito não se reconhece a si mesmo. Não conseguindo transitar pelas vias comunitárias que o sistema ne- cessariamente impõe, o sujeito se perde nos labirintos de seus conflitos, refu- giando-se periodicamente ou permanentemente nos recintos imaginários, geralmente sombrios e espectrais (Romero, 1997, p. 32). No psicopata, o outro está quase ausente: é apenas um objeto a ser consi- derado em determinadas circunstâncias, seguindo as exigências e conveniências do próprio sujeito. Podemos dizer que o outro não habita o espaço interno do psicopata, ao contrário do neurótico que é habitado demais pelo outro (Romero, 1997). O mundo do psicopata está, portanto, praticamente desabitado por outros seres humanos, sendo freqüentado, apenas, por objetos de significação temporá- ria; por isso, o psicopata parece tão insensível, tão desconsiderado e tão egocêntrico. O psicopata não se reconhece propriamente no outro, que é o que lhe per- mitiria sentir-se verdadeiramente humano. Desse modo, sua liberdade fica trincada, uma vez que o sentido pleno da liberdade está baseado na realização do huma- no, compartilhada no mundo dos homens. O psicodiagnóstico: uma proposta metodológica De acordo com o pensamento de Kierkegaard (Penha, 1982), nenhum prin- Psicopatologia na fenomenologia-existencial 41 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01- pp. 31-44 cípio, sistema ou idéia geral pode dar conta de explicar ou descrever a realidade humana, a vivência particular de cada pessoa. O pensamento abstrato só pode compreender o concreto abstratamente, enquanto o pensamento centrado no indivíduo busca compreender concretamente o abstrato, apreendê-lo em sua singularidade, captá-lo em sua manifestação subjetiva. A realidade é o que aparece à consciência. A subjetividade é a realida- de. A própria realidade é aquela de que o indivíduo tem maior conhecimento. (Penha, 1982). Estes pressupostos existencialistas tornam-se fundamentais na constru- ção da postura do psicólogo e dos objetivos de um processo diagnóstico. Dentro dessa abordagem, o psicólogo não tenta explicar e enquadrar a pessoa examina- da em categorizações e parâmetros arbitrariamente teorizados, pois ele acredita que a vivência dessa pessoa é sua própria explicação, sendo ela a melhor inter- prete de si mesma. Como explica Angerami (1984), uma quantidade muito grande de fenô- menos da existência, cada vez mais mostram-se inatingíveis e incompreensí- veis diante das teorizações vigentes de compreensão do homem. As teorias, em sua desvairada tentativa de explicação do homem, negam o experenciar da própria existência. A pessoa doente é antes de tudo uma pessoa que sofre, que precisa em primeiro lugar ser compreendida a partir de seus sentimentos, sensações, emoções, enfim, de tudo que por ela é vivenciado. A pessoa, no processo diagnóstico, deve ser apreendida como sendo um fenômeno único e, como tal, respeitada em sua totalidade; não deve, portanto, ser avaliada segundo normas e padrões de comportamento preestabelecidos, numa total revelia a sua própria existência. Seu nível de crescimento ou de maturidade deve ser dimensionado por meio dos projetos de vida por ela própria idealizados e de acordo com seu próprio mundo e contexto existencial. O existencialismo, em sua exuberância, mostra que a existência é um contínuo vir a ser, um sempre ainda não, com a possibilidade de um poder ser. Desse modo, é totalmente inaceitável a rotulação do ser humano, aprisionan- do-o dentro de determinadas categorias diagnósticas (Angerami, 1984). A fenomenologia é uma filosofia da experiência, anterior às explicações meramente psicológicas, sociológicas, ou historicistas oferecidas pela ciência. Carlene Tenório 42 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 Isto faz com que o psicólogo fenomenológico-existencial assuma uma postura de escuta do ser, desvelando-se ao mesmo tempo em que este também se desvela, recusando-se a instalar-se na verdade ou em seu sistema de verdades e certezas (Costa, 1995). A fenomenologia aponta para uma perspectiva metodológica denomi- nada epoché, palavra grega que significa suspensão, cessação ou seja, a colocação entre parênteses de todo interesse naturalmente orientado. A redução fenomenológica ou epoché deve ser assumida pura e sim- plesmente como uma modificação do olhar, visando uma compreensão da experiência natural, isto é, daquilo que emerge espontaneamente no aqui e agora, dentro do contexto relacional psicólogo-cliente. Desse modo, o Psicó- logo assume o ato criativo do descrever e compreender o fenômeno que vem a seu encontro, que se manifesta por si mesmo. É um olhar e uma escuta ingê- nua, destituída de um saber a priori ou de predeterminismos, propiciando a manifestação e a compreensão do ser do cliente em sua essência (Costa, 1995). Nesta perspectiva, o psicólogo não pode apreender o mundo vivencial da pessoa a ser diagnosticada, enquanto não suspender ou colocar entre parênteses todos seus pressupostos, sua própria visão de mundo e conceitos, tanto quanto for humanamente exeqüível no momento (Hycner, 1995). Segundo Augras (1986), fazer diagnóstico dentro desta perspectiva é iden- tificar e explicitar o modo de existência do sujeito em seu relacionamento com o ambiente em determinado momento e que feixes de significados ele constrói de si e do mundo. A adequada descrição fenomenológica do mundo particular, singular e concreto do sujeito e de sua situação atual tem de apoiar-se numa apro- ximação que procure apreendê-la em sua totalidade. Da mesma maneira que o indivíduo é a medida de sua própria normalida- de, em cada situação, o significado será buscado dentro daquilo que for manifes- tado. A objetividade desta apreensão configurada em diagnóstico apoiar-se-á em critérios de coerência, deduzidos daquilo que se ofereceu da história do indi- víduo e das vivências presentes. A subjetividade é inevitável e o método fenomenológico propõe que diante do reconhecimento da mesma, por parte do psicólogo, é possível limitá-la, transformando-a em ferramenta para a compreen- são do outro (Costa, 1995, p.32). Finalmente, como podemos então definir o psicodiagnóstico dentro do Psicopatologia na fenomenologia-existencial 43 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 ponto de vista fenomenológico-existencial? De acordo com Petrelli (1999, p. 23), o psicodiagnóstico, dentro desta abordagem, “é uma investigação intui- tiva compreensiva dos mistérios da história da vida de uma existência singu- lar”. Esta investigação intuitiva compreensiva deve ser feita seguindo alguns passos: I - Observar e escutar a pessoa por inteiro, fazendo a suspensão defi- nitiva de todos os conhecimentos a priori, de todo preconceito e até de toda hipótese pré-formada, aceitando e respeitando a singularidade existente na pessoa a ser diagnosticada. De acordo com Romero (1997), esta observação e esta escuta devem ser feitas com base nas oito dimensões existenciais fundamentais: 1 - Dimensão ontológica do homem como ser-no-mundo 2 - Dimensão social e interpessoal 3 - Dimensão da práxis 4 - Dimensão corporal 5 - Dimensão motivacional 6 - Dimensão afetiva 7 - Dimensão espaço-temporal 8 - Dimensão axiológica (valores inerentes à existência social e indi- vidual). II - Descrever cada experiência significativa, tentando achar o senti- do fundamental mediante um método compreensivo fenomenológico que não apela para um código que, supostamente, nos entregaria as chaves do enigma existencial, mas que se atém ao sentido possível que o discurso e a experiência vivida têm para a própria pessoa. III - Buscar as relações de sentido entre as diversas experiências vivi- das pelo sujeito, bem como entre os aspectos universais da existência humana, que foram redescobertas na construção de uma história de vida particular, des- cendo à intimidade dessa história, descobrindo o protagonista nas singulares vicissitudes de sua existência, sempre única e incomparável. IV - Fazer uma leitura diagnóstica descritiva com base na significação dada pelo próprio sujeito, associada aos princípios teóricos pertinentes à histó- ria particular do mesmo. Carlene Tenório 44 Universitas Ciências da Saúde - vol.01 n.01 - pp. 31-44 Referências bibliográficas ANGERAMI, V. A. Existencialismo e psicoterapia, São Paulo: Traço, 1984. AUGRAS, M. O Ser da Compreensão: Fenomenologia da Situação de Psicodiagnóstico, Petropólis: Vozes, 1986. BARBOSA, M.F. A Noção de Ser no Mundo em Heidegger e sua Aplicação na Psicopatologia, Psicologia-Ciência e Profissão, Brasília: Conselho Federal e Regionais de Psicolo- gia, 18 (3): 2 – 13, 1998. BORIS, G.D.J.B. Noções Básicas de Fenomenologia. Insight Psicoterapia, São Paulo: Le- mos Editorial e Gráficos Ltda, IV (46): 19-25, 1994. BUBER, M. Do Diálogo e do Dialógico. São Paulo: Perspectiva, 1979. COSTA, V.S.M. Existencialismo - Fenomenologia e a Gestalt Terapia, Revista do I Encontro Goiano da Abordagem Gestáltica, Goiânia, I (1): 26-32, 1985. HOLANDA. A . F. Diálogo e Psicoterapia: Correlações entre Carl Rogers e Martin Buber, São Paulo: Lemos Editoral, 1998. HYCNER, R. De Pessoa a Pessoa: Psicoterapia Dialógica, São Paulo: Summus, 1995. MERLEAU-PONTY, M. Ciências do Homem e Fenomenologia, São Paulo: Saraiva, 1973. JASPES, K. Psicopatologia Geral, São Paulo: Atheneu, 1973. PENHA, J. O que é Existencialismo, São Paulo:Editora Brasiliense, 1982. PETRELLI, R. Humanizando o Psicodiagnóstico, Revista do V Encontro Goiano da Aborda- gem Gestáltica, Goiânia, V(1): 23-25, 1999. ROMERO, E. O Inquilino do Imaginário: Formas de Alienação e Psicopatologia, São Paulo: Lemos Editoral, 1997. CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 Karl Jaspers Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., VIII, 4, 769-787 A abordagem fenomenológica em psicopatologia*1 A subjetividade dos eventos psíquicos Ao exame de um paciente psiquiátrico é comum a distinção entre sintomas objetivos e subjetivos. Sintomas objetivos incluem todos os eventos concretos que podem ser percebidos pelos sentidos, e.g. re- flexos, movimentos registráveis, a fisionomia de um indivíduo, sua atividade motora, expressão verbal, produções escritas, ações e con- duta geral etc. Todos os rendimentos mensuráveis, como a capaci- dade de trabalho do paciente, sua habilidade para aprender, a magnitude de sua memória, além de outros, pertencem a esse domí- nio. Também é comum incluir, entre os sintomas objetivos, manifes- tações como idéias delirantes, falsas memórias etc.; em outras palavras, os conteúdos racionais que o paciente nos comunica. Es- tes, realmente, não são percebidos pelos sentidos, mas apenas com- preendidos. No entanto, tal “compreensão” é alcançada por meio do pensamento racional, sem auxílio de qualquer empatia para com o psiquismo do paciente. * Texto originalmente publicado em Zeitschrift für die Gesamte Neurologie und Psychiatrie, em 1912. Tradução para o português, de Adriano C. T. Rodrigues. R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 Sintomas objetivos podem ser direta e convincentemente demonstrados a qualquer um com capacidade senso-perceptiva e de pensamento racional; mas os sintomas subjetivos, para serem compreendidos, devem se referir a al- gum processo que, contrastando à senso-percepção e pensamento lógico, é nor- malmente descrito pelo mesmo termo “subjetivo”. Sintomas subjetivos não po- dem ser percebidos pelos órgãos sensoriais, tendo de ser apreendidos pela transposição de si mesmo, por assim dizer, ao psiquismo de outro indivíduo; isto é, pela empatia. Podem se tornar uma realidade interna para o observador apenas pela sua participação da experiência da outra pessoa, não por qualquer esforço intelectual. Os sintomas subjetivos incluem todas estas emoções e pro- cessos internos, como o medo, tristeza, alegria, que nós sentimos poder apreender imediatamente a partir de seus concomitantes físicos; este nós tomamos por “ex- pressões” da emoção subjacente. Há, ainda, todas aquelas experiências psíqui- cas e fenômenos que os pacientes nos descrevem e que se tornam acessíveis a nós apenas indiretamente, através do julgamento e exposição do próprio pa- ciente. Por fim, os sintomas subjetivos também incluem aqueles processos mentais que temos de inferir a par t i r de f ragmentos dos dois tipos prévios de dados, manifestos pelas ações do paciente e pelo modo como ele conduz sua vida. É comum relacionar esta classificação de sintomas em objetivos e subjetivos a um contraste preciso de valores. Segundo este, apenas os sintomas objetivos oferecem certeza; por si mesmos, eles constituem uma base para o estudo científico, enquanto os sintomas subjetivos, embora não possamos renunciar facilmente aos mesmos nas nossas avaliações preliminares, são considerados bem pouco confiáveis para fazer-se julgamentos finais e infrutíferos para o propósito de qualquer investigação científica adicional. Há um desejo difundido de que nossos estudos das desordens mentais se baseiem apenas em sintomas objetivos e que, idealmente, desconsiderem nossos sintomas subjetivos como um todo. Tal perspectiva tem seus defensores – nem todos igualmente coerentes – tanto na psicologia quanto na psiquiatria. Uma “psicologia objetiva” é contraposta à “psicologia subjetiva”. A primeira dizendo preocupar-se apenas com dados objetivos; sua conseqüência natural sendo uma psicologia sem psiquismo. Os defensores da última (os quais, deve-se dizer, jamais deixaram de reconhecer o real, mas diferente valor da primeira) levam em consideração as auto-observações, as análises subjetivas, a determinação das distintas formas de vida psíquica e da natureza específica de seus fenômenos, e atribuem valor a este tipo de investigação mesmo sendo feita na ausência de qualquer critério objetivo. Como exemplo de psicologia objetiva podemos citar todo o campo da senso-percepção, mensuração de memória, curvas de performance e seus componentes. Estes últimos nos ilustram o fato de que tais investigações levam, bastante CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA ano VIII, n. 4, dez/ 2 0 05 freqüentemente, à eliminação de tudo que pode ser denominado mental ou psíquico. Não é a sensação de fadiga, mas a “fadiga objetiva” que seria investigada. Todo tipo de conceitos – como fatigabilidade, capacidade de recuperação, capacidade de aprendizado, prática, efeito de períodos de repouso etc. – dizem respeito a performances que podem ser medidas objetivamente, não importando se aqui se está lidando com uma máquina, com um ser vivo sem vida mental, ou com um ser humano dotado de mente. Entretanto, os que se proclamam investigadores puramente objetivos, bastante freqüentemente, fazem um uso secundário dos fenômenos psíquicos subjetivos para desenvolver suas interpretações destas performances objetivas e tornar as comparações possíveis – assim, evidentemente, fazem uso da “psicologia subjetiva”, com a qual o presente trabalho pretende lidar. Deste modo, não há dúvida de que a psicologia objetiva produz resultados que são mais óbvios, mais convincentes, e de mais fácil apreensão por qualquer um que a psicologia subjetiva. Mas enquanto a diferença quanto ao grau de certeza é meramente quantitativa, quando se trata do tipo de certeza a diferença é qualitativa e fundamental. Isto porque a psicologia subjetiva sempre ambiciona a apreensão dos conceitos e idéias que constituem as representações internas dos processos psíquicos, ao passo que a psicologia objetiva tem, como seu intento último, a observação de aspectos inquestionáveis como a senso-percepção e o conteúdo racional do pensamento, pelos dispositivos como gráficos e estatística. O estudo sistemático da experiência subjetiva Quais, então, são os objetivos precisos desta tão comentada psicologia subjetiva? Enquanto a psicologia objetiva, eliminando tudo aquilo que é psíquico, se converte em fisiologia, a psicologia subjetiva ambiciona preservar a dita vida psíquica como objeto de seu estudo. Ela se indaga – grosso modo – do que depende a experiência mental, quais suas conseqüências, e que relações podem ser nela discriminadas. As respostas a tais perguntas são seus objetivos específicos. No entanto, ao abordar cada um dos problemas, psicólogos subjetivos têm de enfrentar a necessidade de tornar claro para si mesmos e para outrem qual é a experiência psíquica específica à qual se refere, dado que se confrontam com uma diversidade de fenômenos psíquicos que não podem ser investigados como um todo unitário, mas dos quais elementos individuais devem ser selecionados para investigação. Assim, antes que uma investigação válida possa se iniciar é necessário identificar os fenômenos psíquicos específicos que serão seus objetos, e estabelecer as diferenças e semelhanças entre estes e outros R E V I S T A L A T I N O A M E R I C A N A DE PS ICOPATOLOGIA F U N D A M E N T A L ano VIII, n. 4, dez/2 0 05 fenômenos com os quais podem ser confundidos. Este trabalho preliminar de representação, definição e classificação dos fenômenos, perseguido como atividade independente, constitui a fenomenologia. A natureza difícil e compreensiva deste trabalho preliminar torna inevitável que deva se tornar, no momento atual, um fim em si mesmo. Visto que estas investigações independentes e sistemáticas não foram empreendidas até o momento, tal abordagem fenomenológica permanece restrita a algumas opiniões baseadas