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HISTÓRIA DO BRASIL I12 UNIMES VIRTUAL Aula: 01 Temática: A economia açucareira Vamos iniciar o caminho em direção ao conhecimento da história do Brasil no período posterior à chegada dos portu- gueses, no ano de 1500. Nesta aula estudaremos a ocupa- ção portuguesa do território e os seus resultados para a formação futura do país.. Vamos imaginar como era o Brasil na época da chegada dos portugueses. Para o olhar do europeu, era um lugar diferente, exótico, com plantas e animais desconhecidos, um novo mundo tropical a ser explorado. Nas primeiras décadas de 1500, realizaram-se apenas expedições de re- conhecimento e defesa, patrulhavam a costa brasileira e nada mais. Mas alguma coisa fez com que o interesse português se voltasse para o novo mundo. Algo que fez um povo sem condições de colonizar outras terras por causa da escassez de população.. O historiador Sergio Buarque de Holanda explicou: “O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho”1. Em outras palavras, os portugueses estavam interessados em descobrir ouro, prata ou pedras preciosas — a riqueza que custa a ousadia do des- bravamento, ao contrário da riqueza produzida pela agricultura que custa trabalho. Esse interesse aumentou com a descoberta de jazidas de metais preciosos nos territórios americanos sob o domínio da Espanha. Entretanto, as buscas portuguesas tornaram-se infrutíferas. Em compen- sação, descobriu-se uma nova riqueza vegetal: uma árvore produtora de pigmento vermelho ideal para a tintura de tecidos. Os lucros da extração e comercialização do pau-brasil alimentaram os primeiros trinta anos da exploração colonial. Todavia, com as investidas dos outros reinos europeus — sem contar os ataques dos piratas — e com a diminuição do comércio com o Oriente, os portugueses decidiram investir na colonização do seu território na Amé- rica. Foi assim que, a partir de 1530, os lucros provenientes da colônia 1 HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 18 HISTÓRIA DO BRASIL I 13 UNIMES VIRTUAL passaram da extração do pau-brasil para a implantação de uma agricultura cujo produto rendesse altos lucros para a metrópole portuguesa. A América Portuguesa tinha um grande território. Sendo assim, a variedade de produtos que poderiam ser cultiva- dos aqui, também era grande. Os produtos poderiam variar desde os adaptados ao clima temperado até aqueles de clima tropical. Finalmente, optaram pela cana-de-açúcar. Os portugueses tinham larga experiência com essa planta, pois já a produ- ziam na Ilha da Madeira e nos Açores em escala comercial. Além disso, havia um mercado lucrativo para o açúcar e uma estrutura de produção e comercialização já montada, a cargo dos holandeses que refinavam e distribuíam o açúcar por toda a Europa. Na colônia americana todos os elementos favoreciam a produção do açú- car: terra em abundância para formar plantações em grandes extensões, clima quente e uma baixa nobreza portuguesa disposta a se aventurar em busca de riquezas nas terras do novo mundo. Os nobres e aventureiros portugueses receberam grandes áreas para o cultivo da cana-de-açúcar, desde que se responsabilizassem pela colonização da área que recebes- sem. Ou seja, a coroa portuguesa não se dispôs a financiar a colonização que foi feita, desse modo, em grande parte, com capital particular. Dessa maneira, teve início a colonização do Brasil, caracterizada pela pre- sença de grandes propriedades — latifúndios — dedicados à produção de um único produto — a monocultura —, tendo em vista as possibilidades de comércio exterior — a exportação — com base na mão-de-obra escrava. Latifúndio, monocultura, exportação e escravidão, caracteri- zaram o sistema colonial. Todavia, o principal elemento des- se sistema era o chamado Pacto Colonial que estabelecia o monopólio da metrópole sobre tudo o que fosse produzido na colônia. Para a colônia o pacto era prejudicial, pois, ela era o palco da agricultura — atividade custosa e pouco lucrativa. O comércio, que garantia os lucros, ficava na mão dos comerciantes portugueses, controlados pela coroa. A refinação e comercialização do açúcar — atividades ainda mais lucrativas do que o comércio de matéria prima — ficava com os holandeses. Comparando com os dias de hoje, diríamos que Portugal atuava como uma espécie de atravessador. Com o tempo, a Holanda se interessou em produ- zir diretamente a cana-de-açúcar no Brasil, através da Companhia das Ín- HISTÓRIA DO BRASIL I14 UNIMES VIRTUAL dias Ocidentais. Além disso, as relações entre Portugal e Holanda ficaram estremecidas durante o domínio espanhol (1580-1640) — período em que a Portugal esteve sob o domínio da Espanha. Assim, os holandeses deci- diram invadir o Brasil. Estabeleceram-se em Pernambuco, permanecendo por, aproximadamente, trinta anos (1624 -1654). Quando foram expulsos pelos portugueses, os holandeses levaram con- sigo a tecnologia da produção da cana e começaram a cultivá-la em sua colônia nas Antilhas. Em pouco tempo, a cana das Antilhas passou a ser concorrente do produto brasileiro, que sofreu um grande golpe e não mais se recuperou. Ao final dessa aula, podemos refletir: por que a produção de cana no Brasil não foi capaz de enfrentar a concorrência holandesa? Faça uma pesquisa. Você vai descobrir que os motivos não foram assim tão óbvios. HISTÓRIA DO BRASIL I 15 UNIMES VIRTUAL Aula: 02 Temática: Sociedade Açucareira Nesta aula verificaremos como se organizava a sociedade baseada na produção do açúcar: quem mandava, quem obedecia, quantas classes sociais existiam e como elas se relacionavam. Na sociedade açucareira tudo girava em torno do engenho. As cidades eram pequenos centros (vilarejos) onde mo- ravam alguns funcionários da coroa portuguesa e alguns profissionais liberais como comerciantes e artesãos. Nas cidades havia também a Igreja principal e as casas dos grandes fazendeiros — habitadas apenas em épocas especiais dos anos. O engenho era uma grande propriedade rural, onde era cultivado, basica- mente, um único produto, a cana-de-açúcar, com mão-de-obra escrava. . Na verdade, “engenho” era o nome do local em que transformava a cana- de-açúcar, através da moagem e posterior fervura do caldo. O senhor do engenho, proprietário da terra e, de certo modo, proprietário de tudo e todos, era o detentor do poder econômico e político da sua pro- priedade e de toda a região, incluindo as vilas e os povoados próximos. Assim, o latifundiário concentrava o poder econômico e político, incluindo administração da justiça. No século XVII, João Antonil, um jesuíta italiano que morou no Brasil, assim se manifestou a respeito: “O ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos.”� Apesar da afirmação do padre jesuíta podemos perguntar: será que todos que almejassem tornarem-se “senhores de engenho” conseguiriam? Nesse período da história do Brasil, existiam apenas três classes sociais: no topo estava a classe senhorial; na outra extremidade estavam os escravos; no meio, por assim dizer, estava uma camada intermediária composta de funcionários da coroa por- tuguesa, profissionais liberais, militares, pequenos proprietários de terras, assalariados dos engenhos (feitores, purgadores), agregados, moradores � ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Nacional, 1967 HISTÓRIA DO BRASIL I16 UNIMES VIRTUAL do engenho e que prestavam serviços ao senhor, tais como padres, médi- cos ou professores. De um modo geral, pode-se dizer que o poder dos senhores de engenho estava fundamentado na propriedade, posse e exploração da terra. Terra que não era vendida,nem comprada, mas conquistada, recebida como benefício ou como herança ou negociações familiares. Os senhores tinham poder total sobre “as gentes”, quer dizer, sobre os escravos, mas estes eram “mercadorias”, isto é, podiam ser comprados e vendidos, diferen- temente da terra. Em princípio, qualquer um, desde que tivesse dinheiro, poderia ter escravos. E assim era de fato. Alguns pequenos proprietários ou profissionais liberais tinham escravos, embora, às vezes, em número reduzido — um ou dois escravos domésticos. Os escravos, por sua vez, para mudar de condição podiam optar pela fuga ou aguardar a alforria. Alguns escravos chegavam a comprar a liberdade com o pouco dinheiro que conseguiam economizar. Assim, podemos dizer que a sociedade colonial apresentava pouca mobili- dade social. As relações sociais eram marcadas pelo patriarcalismo. [...] os mesmos senhores rurais que estão na base do incomensurável poder privado que foi a marca in- conteste de nossa formação histórica até o advento da República, esses mesmos senhores que controlam os aparelhos de justiça, os delegados de polícia e as corporações municipais, são eles que amparam o ho- mem comum de todos esses controles sob a prote- ção do clã.� Em uma propriedade rural açucareira tradicional havia: a casa grande que era a residência do senhor de engenho, de sua família e escravos domésticos e que era também a sede administrativa do engenho; a capela, que era o lugar onde se realizavam as celebrações religiosas; a senzala, que era a moradia dos escravos; e a casa do engenho, propriamente dito, onde se produzia o açúcar. Mas na propriedade também existiam moradias para os empregados de confiança e para os agregados que serviam ao senhor e prezavam pela manutenção da fazenda como artesãos, carpinteiros, ferreiros. Assim, todos que traba- lhavam no engenho moravam ali. � SALES, Teresa. Raízes da desigualdade social na cultura política brasileira. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_25/rbcs25_02.htm. HISTÓRIA DO BRASIL I 17 UNIMES VIRTUAL Engenho de cana Henry Koster HISTÓRIA DO BRASIL I18 UNIMES VIRTUAL Aula: 03 Temática: Instituições no período açucareiro Estudaremos as instituições portuguesas implantadas no Brasil e as dificuldades enfrentadas na administração da colônia Até 1530, não houve tentativa de colonização do Brasil. Foi somente a partir desta data que verificamos a tentativa do governo português em organizar a colônia para a exploração. A organização de tão extenso território não era fácil. Portugal adotou uma solução familiar para a coroa portuguesa, adotada a tempos em suas co- lônias na África: a distribuição de lotes para terceiros. Assim, a partir de 1534, o território português na América foi dividido em 15 faixas de terra, denominadas capitanias, que foram entregues a pessoas, denominadas donatários, que deveriam ser capazes de investir recursos, organizar e ad- ministrar a colonização. A posse da capitania ficava estabelecida com a Carta de Doação. O dona- tário não podia vender o seu lote ou parte dele — o que permanecia como prerrogativa da coroa — e deveria administrá-lo como se a capitania fosse uma província real. Para essa administração havia uma série de direitos e deveres, estabelecidos para o donatário, que estavam relacionados na Carta Floral. Os donatários tinham o direito de criar vilas e realizar a dis- tribuição de terras para a agricultura. Constituíam-se nas autoridades administrativas e judiciais de sua capitania. Po- diam escravizar indígenas; deviam vender o pau-brasil e receber uma por- centagem sobre a exploração do pau-brasil. Os donatários deviam pagar ao rei 10% sobre lucros obtidos com os produtos da terra; deviam pagar também um quinto dos lucros sobre os metais e pedras preciosas. Essa primeira tentativa de organização administrativa do Brasil não deu certo. O fracasso ocorreu devido à falta de dinheiro dos donatários, à escassez de mão-de-obra, aos inúmeros ataques dos índios, às dificuldades de comunicação com a me- trópole e entre as capitanias, pouca participação dos donatários nos lu- HISTÓRIA DO BRASIL I 19 UNIMES VIRTUAL cros. A partir de 1549, os governos gerais começaram a tomar medidas que, com o tempo, levaram à extinção das capitanias hereditárias. O governo geral foi a solução encontrada por Portugal para centralizar o poder. O objetivo desse governo era auxiliar e proteger todas as capitanias em nome da Coroa Portuguesa. A capitania da Bahia foi escolhida para sediar o governo por acreditar que ela estivesse situada no centro do ter- ritório da colônia, o que facilitaria a administração e por estar próxima aos centros produtores de açúcar do Brasil. Juntamente com o governador geral foi trazido um bispo — requisitado pelo rei de Portugal ao Papa — a fim de coordenar os assuntos ligados à religião. No ano de 1551 chegou à colônia o primeiro bispo do Brasil , D. Pero Fernandes Sardinha. O governador geral passou a ter o comando sobre a defesa militar do território. Os donatários perderam os poderes judiciais transferidos ao governador. Através do governador a metrópole decretou a proibição da escravização dos índios. Os primeiros governadores gerais do Brasil foram: Tomé de Souza (1549- 1553), Duarte da Costa (1553-1558) e Mem de Sá (1558-1872). Junta- mente com os governadores, vieram — ou foram escolhidos na elite local — os auxiliares que constituíam a cúpula do poder político e adminis- trativo da colônia: o ouvidor-mor encarregado da justiça; o provedor-mor, responsável pelos assuntos da fazenda; e o capitão- mor que detinha a responsabilidade sobre a defesa do litoral brasileiro. Algumas capitanias ou províncias, como foi o caso de São Paulo, permaneceram isoladas e relativamente autônomas em relação ao poder central dos governados gerais, repre- sentantes diretos da metrópole. HISTÓRIA DO BRASIL I20 UNIMES VIRTUAL Aula: 04 Temática: O Ciclo do Ouro Nesta aula conversaremos sobre a descoberta do ouro no Brasil, como se realizou, quais as conseqüências para as re- giões mineiras e como a coroa portuguesa tratou a questão. No final do século XVII, os bandeirantes paulistas encontraram ouro numa região que, posteriormente, foi chamada de Minas Gerais. O padre João Antonil, que vivia no Brasil naquela época, contou que um mulato que acompanhava as bandeiras foi quem primeiro viu as pepitas. Outras fontes registram outros descobridores paulistas. Uma data importante foi a emissão da Carta Régia de 27 de janeiro de 1697, que enviava uma ajuda de custos de 600.000 R$/ano ao governador Sá para auxiliar nas buscas. Dar-se-iam aos paulistas bene- méritos “as mesmas honras, e mercês de hábitos, e foros de fidalgos da Casa”, desde que encontrassem e explorassem as lavras auríferas. Finalmente em 1º de março de 1697 o agitado governador do Rio de Janeiro, Castro Caldas remetia ao rei o resultado das últimas façanhas dos paulistas que haviam encontra- do nos sertões de Taubaté “de dezoito a vinte ribeiros de ouro da melhor qualidade.1 Nas regiões das descobertas, rapidamente, formaram-se vilas e cidades. Hoje em dia, algumas delas são conhecidas como as cidades históricas de Minas Gerais: Ouro Preto (antiga Vila Rica), Mariana, Sabará, Tiradentes etc. Algumas dessas cidades conheceram, além do dinamismo, um certo es- plendor, visível na arquitetura dos sobrados, nas ruas de pedra, nas igrejas decoradas com lâminas de ouro, na exuberância da arte barroca. A riqueza e a urbanização levaram também a um certo dinamismo cultural para a região cujas camadas médias e membros da elite se abriram para as idéias iluministas que eram disseminadas pela Europa nessa época. 1 SCHILING, Voltaire. O século do ouro. Disponível em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/br_ouro2.htm. Acessado em 19/09/2007. HISTÓRIA DO BRASIL I 21 UNIMES VIRTUAL Imagens de obras de Aleijadinho e Mestre Atayde. Nesse período, o catolicismo era a base da cultura portuguesa. As obras de artistas como Aleijadinho ou mestre Atayde refletiam essa hegemonia da Igreja Católica. Todavia, vamos retornar ao início da descoberta do ouro. Este metal foi encontrado no Brasil em aluvião, ou seja, em areias e barrancos de rios. Esse tipo de mineração não necessitava de técnicas ou de equipamentos sofisticados. Assim, todos tinham a chance de procurar e descobrir ouro nas Minas Gerais, que era uma zona de colonização recente, onde raramente eram encontradas gran- des propriedades rurais. O processo de exploração das minas realizava-se da seguinte maneira: al- guém descobria uma jazida e, imediatamente, deveria comunicar à Inten- dência — órgão, especialmente criado para o controle da mineração. O Guarda-mor, então, dirigia-se ao local e ordenava a demarcação do terreno em lotes chamados “datas”. Estas datas possuíam no máximo 50 metros de largura. A distribuição das datas ocorria mediante sorteio, mas o des- cobridor tinha preferência na escolha. Logo no início das descobertas de metais preciosos na colônia, Portugal tratou de organizar uma maneira de recolher sua parte. Foi criado o quinto, isto é, um imposto equivalente a 1/5 ou 20% do metal encontrado que todos os mineradores deveriam pagar à coroa .Inicialmente, o quinto era cobrado em forma de ouro em pó, mas Portugal acabava perdendo mui- to. Em 1725, criaram-se as Casas de Fundição nas quais todos deveriam entregar o ouro em pó para serem transformados em barras, já com a retirada do quinto. Apesar do enriquecimento de algumas famílias no Brasil, de muitas em Portugal, quem lucrou mesmo com o ouro brasi- leiro foi a Inglaterra, de cujo comércio Portugal dependia. O HISTÓRIA DO BRASIL I22 UNIMES VIRTUAL ouro brasileiro impulsionou o desenvolvimento da indústria inglesa. Portu- gal apenas aparentava a riqueza. Muitos navios que saiam daqui repletos de ouro, algumas vezes, seguiam diretamente para a Inglaterra. E o que o Brasil lucrou com o seu ouro? Com o ouro em si, quase nada, mas foi graças à mineração que houve uma expansão de outras atividades, como a comercialização de alimentos — até então produzidos de modo auto-suficiente nas grandes proprieda- des — ou a melhoria das vias de comunicação entre o litoral e o interior, nas regiões das descobertas. A urbanização também provocou um pouco mais de mobilidade na socie- dade colonial. A rapidez com que se deu o povoamento, a pobreza de alguns , a imprevidência de outros, a concentração de esforços na atividade extrativa, a dificuldade de acesso à zona mineira e sua localização em zona despovoada, trouxeram como conseqüência uma insuficiência ini- cial de gêneros alimentícios e inclusive duas crises de fome (1697/1798 e 1700/1701). Nesses anos esgota- ram-se totalmente os gêneros, e muitos dos pioneiros necessitaram abandonar suas betas e dispersaram-se em busca de alimentos; evento que provavelmente contribuiu para a descoberta de novas áreas auríferas. A migração descontrolada do elemento livre e o en- vio maciço de escravos às minas abateram-se ime- diatamente sobre outras atividades econômicas da Colônia e provocaram até mesmo enfraquecimento militar de determinadas áreas litorâneas do Brasil. No próprio Reino fez-se sentir o impacto da imigra- ção para as minas. Apesar das inúmeras restrições ao deslocamento para a Colônia – medidas de 1709 e 1711 – ainda em 1720 várias regiões de Portugal continuavam a sentir os efeitos da febre do ouro, conforme pode ser atestado pela determinação régia daquele ano: “Faço saber aos que esta minha lei virem que não tendo sido bastantes as providências que até o presente tenho dado (…) para proibir que deste Reino passe as Capitanias do Estado do Brasil a muita gente que todos os anos se ausenta dele principalmente da Província do Minho, que sendo a mais povoada, se acha hoje em estado que não há a gente necessária para a cultura das terras, nem para o serviço dos Povos, cuja falta se faz tão sensível, que necessita de acudir-lhe com o remédio pronto, e tão eficaz que se evite a freqüência com que se vai despovoando o Reino”.2 2 LUNA, Francisco Vidal. Estrutura da Posse de Escravos, In: LUNA, Francisco Vidal & COSTA, Iraci del Nero da. Minas Colonial: Economia e Sociedade, São Paulo, FIPE/PIONEI- RA, p. 31-55, 1982 (Estudos Econômicos FIPE-PIONEIRA). HISTÓRIA DO BRASIL I 23 UNIMES VIRTUAL Aula: 05 Temática: A sociedade nos tempos do ouro Nesta aula analisaremos as mudanças ocorridas na socie- dade colonial no período da mineração, procurando as iden- tificar as semelhanças e as diferenças em relação à socie- dade açucareira. Sabemos que grande parte do ouro extraído na colônia não ficou aqui. O ouro era enviado para a metrópole na forma de impostos ou como pa- gamento de transações comerciais efetuadas. Entretanto, uma parte dos metais preciosos extraídos permaneceram na colônia, gerando riquezas para a região do atual estado de Minas Gerais. Para ser minerador e, eventualmente, enriquecer, não eram necessários grandes investimentos como na produção de açúcar. Ao contrário, bastava ter vontade, disposição e alguns poucos instrumentos. Segundo Antonil: A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se pode- rá dar conta do número de pessoas que lá estão. � A sociedade das minas era urbana. Diferentemente da sociedade açucarei- ra, o poder econômico e político concentrava-se nas cidades onde a popu- lação apresentava uma grande heterogeneidade: comerciantes, funcioná- rios da coroa de variados níveis, profissionais liberais e escravos. Nessa sociedade não havia uma divisão rígida de classes, à medida que qualquer um poderia descobrir ouro e tornar-se rico e poderoso, sem necessaria- mente possuir um sobrenome, terras ou escravos. Assim, a ascensão so- cial era mais fácil e o “novo rico” poderia, com um certo esforço, freqüentar as altas rodas sociais. Bem diferente era a sociedade do açúcar onde os senhores e suas famílias mantinham-se isolados em seu próprio meio. Da riqueza gerada com o ouro nas minas, uma boa parte foi utilizada para incrementar a cultura. Nessa época, Minas Gerais tornou-se o centro cul- tural da colônia. As maiores manifestações da arte Barroca podem ser en- contradas nas igrejas mineiras, ricamente ornamentadas com ouro, tanto em Ouro Preto (antiga Vila Rica) como em Mariana e Tiradentes. � ANTONIL, João André. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo, Nacional, �967, p. 263 HISTÓRIA DO BRASIL I24 UNIMES VIRTUAL Os profetas em pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho em Congonhas do Campo, até hoje, são considerados os mais importantes exemplares da escultura brasileira. A literatura produzida na colônia também ganhou um certo impulso com a adesão de alguns escritores ao movimen- to literário europeu conhecido como arcadismo. Na música destacaram-se artistas como Emérico Lobo Mesquita, Francisco Gomes da Rocha e Inácio Parreiros Neves. A vida nas cidades mineiras girava em torno do ouro. O próprio nascimen- to e a morte das cidades e vilas eram determinados pela descoberta ou esgotamento das jazidas. . Não podemos esquecer que muitas atividades culturais estavam relacionadas à religião. Por isso, as obras de arte mineiras desse período se encontram em sua maioria nas igrejas e as esculturas são de santos ou passagens da bíblia, até a música barroca era realizada com o intuito religioso. Já o arcadismo, manifesta-se como uma reação ao barroco, pregando a retomada dos ideaisclássicos, especialmente o racionalismo e o gosto pela natureza. Saiba mais Leia a seguir um Soneto do poeta mineiro Cláudio Manuel da Costa. Leia a posteridade, ó pátrio Rio, Em meus versos teu nome celebrado; Por que vejas uma hora despertado O sono vil do esquecimento frio: HISTÓRIA DO BRASIL I 25 UNIMES VIRTUAL Não vês nas tuas margens o sombrio, Fresco assento de um álamo copado; Não vês ninfa cantar, pastar o gado Na tarde clara do calmoso estio. Turvo banhando as pálidas areias Nas porções do riquíssimo tesouro O vasto campo da ambição recreias. Que de seus raios o planeta louro Enriquecendo o influxo em tuas veias, Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.2 2 http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/claudio.html#SONETOS HISTÓRIA DO BRASIL I26 UNIMES VIRTUAL Aula: 06 Temática: A mineração e suas instituições Nesta aula abordaremos a atividade administrativa da coroa portuguesa nas Minas Gerais e a fiscalização dos metais e pedras preciosas, destacando as instituições criadas para o controle das minas. Havia um amplo esquema administrativo para que a metró- pole possuísse o maior controle possível sobre as regiões de mineração. Como as pedras preciosas foram descober- tas um pouco depois do ouro, houve um rigor ainda maior com o controle da região diamantina. Nesta região tudo era controlado: a entrada e saída de pessoas, quem poderia mudar-se para as cidades e vilas e, principal- mente, a extração das pedras preciosas e o recolhimento dos impostos. Nas minas de diamante a coroa portuguesa foi bem mais eficiente do que nas minas de ouro, instituindo um controle sistemático para combater o contrabando. No ano de 1702, criou-se a Intendência das Minas, que era um órgão vin- culado diretamente ao rei de Portugal e tinha como funções distribuir ter- ras para a exploração do ouro, cobrar tributos e fiscalizar o trabalho dos mineradores. Era composta pelo Intendente e guarda-mor — responsável pela distribuição das terras e a fiscalização. Mas apenas a criação desta instituição não foi suficiente para que a atividade mineradora fosse con- trolada e os impostos devidamente cobrados. Você pode imaginar quantas maneiras existiam para que o ouro de aluvião — ouro em pó, extraído da superfície da terra ou da margem ou fundo dos rios —, pudesse ser con- trabandeado e desaparecesse dos domínios da coroa? A metrópole fazia as contas e não gostava nem um pouco do resultado. A fim de dificultar a vida dos contrabandistas, proibiu a circulação do ouro em pó e criou as Casas de Fundição para transformar em barras o ouro que não poderia circular em pó. Nesse processo de transformação era recolhido o quinto. Por um certo tempo não foi difícil atingir a cota estabelecida pela coroa. Entretanto, as jazidas começaram a se esgotar. A coroa não acreditou, achava que os mineiros estavam conseguindo contrabandear o ouro e passou a acionar, mais constantemente, a derrama. A capitania de Minas HISTÓRIA DO BRASIL I 27 UNIMES VIRTUAL Gerais deveria pagar anualmente o imposto do quinto extraído, num total de 100 arrobas (cerca de 1500 quilos). Quando esse percentual não era atingido, a população era obrigada a contribuir com uma cota extra para completar o total exigido. Essa cobrança extraordinária era chamada de derrama. A derrama de 1789 foi o estopim da rebelião conhecida como Inconfidên- cia Mineira, que levou à morte de Tirandentes. A partir de 1760, porém, a mineração entra num pro- cesso de diminuição, bastante rápido, provocando atraso do pagamento do “quinto”. Neste período, o Marquês de Pombal, à frente do governo português, não hesita em decretar a derrama em 1765, que seria a cobrança oficial e forçada dos quintos em atraso. A decadência é motivada, em parte, pelo esgotamen- to natural das jazidas e pela insuficiência tecnológica para uma exploração de maior profundidade, mas, principalmente, pela sobrecarga tributária pesadíssi- ma que foi imposta pelo mercantilismo português. Na administração Pombalina, em 1771, na região das minas, o próprio Estado Português passou a organizar a mineração de diamantes, criando a Real Extração. A organização administrativa foi reformulada, aperfei- çoando-se especialmente os mecanismos da coleta de impostos. Os tributos eram numerosos e possuíam muitas vezes um caráter circunstancial: foram cobra- dos impostos para o casamento de príncipes, para a reconstrução de Lisboa, arrasada por um terremoto e para outros eventos.� � FERRARI, Gilda Nery. RELAÇÕES DE PODER EM MINAS NO SÉCULO XVIII: Tributação e fiscalidade. Disponível em: http://direito.newtonpaiva.br/revistadireito/docs/convidados/ BKP/COLABO1406.doc. Acessado em 20/09/2007 HISTÓRIA DO BRASIL I28 UNIMES VIRTUAL Aula: 07 Temática: As colônias de povoamento Na aula de hoje, trataremos de um dos tipos de colonização perpetrados por Portugal. A análise tradicional do sistema colonial costuma distinguir dois tipos de colonização: a de povoamento e a de exploração. Conforme essa análise, a colonização de povoamento ou de enraizamento era realizada com a idéia de ocupar sistematicamente o território ocupado. Em geral, a colonização de povoamento se deu em áreas com clima semelhante ao da metrópole Um exemplo clássico desse tipo de colonização foi o processo de ocupa- ção de algumas áreas da América do Norte. Para efetuar a colonização de povoamento, a metrópole deveria ser grande e populosa, a fim de poder promover a emigração de parte da população. Em compensação não era necessário fazer grandes investimentos para povoar o novo território. De um modo geral, esse tipo de colonização cons- tituía um processo lento. Para a Inglaterra esse tipo de povoamento era ideal, pois, devido às modifi- cações ocorridas na agricultura a partir do século XVI, havia um excedente de população ociosa. Essa população fora expulsa das terras agrícolas que se transformaram em pastagens para carneiros a fim de abastecer com matérias-primas — a lã — a indústria têxtil inglesa. Além disso, na Inglaterra, assim como em toda a Europa, havia lutas po- lítico-religiosas que produziam emigrantes, isto é, dissidentes religiosos insatisfeitos ou perseguidos pelas disputas religiosas que viam na mudan- ça para a América a possibilidade de uma nova vida. Em certos casos, as despesas da viagem em pagas pelo governo. Foram para a América do Norte pessoas de várias religiões e partes da Europa: os puritanos e quakers da Inglaterra, os huguenotes da França, morávios, schwenkfelders, inspiracionistas e menonistas da Alemanha Meridional e Suíça. Esses emigrantes não buscavam enriquecer e voltar para suas pátrias, pensavam em se proteger das agitações políticas que ocorriam na Europa. HISTÓRIA DO BRASIL I 29 UNIMES VIRTUAL Segundo Caio Prado Junior: O que os colonos desta categoria têm em vista é construir um novo mundo, uma sociedade que lhes ofereça garantias que no continente de origem já não lhes são mais dadas. Seja por motivos religiosos ou meramente econômicos (estes impulsos, aliás, se en- trelaçam e sobrepõem), a sua subsistência se tornará lá impossível ou muito difícil. Procuram então uma terra ao abrigo das agitações e transformações da Europa, de que são vítimas, para refazerem nela sua existência ameaçada.� Esses emigrantes se transformavam em colonos e viam a colônia como um refúgio. Para isso, procuravam locais o mais semelhante possível da sua terra natal, zonas de clima temperado onde pudessem cultivar os pro- dutos a que estavam acostumados. Estes colonos levavam todos os seus bens e seus familiares para a colônia para recomeçarem suas vidas. Pelo fato de estarem localizados em regiões temperadas não havia interesse pela produção de um único produto tropical em larga escala, como acontecia noslatifúndios do nordes- te brasileiro em que imperava a monocultura de exportação. Nessas regi- ões produziam-se os mesmos produtos que na Europa Assim, o interesse da metrópole não era tão grande e os colonos tinham que tomar posse e defender o território por seus próprios meios. Os laços com a metrópole tendiam a se tornar mais frouxos e, por outro lado, mais fortes as tendên- cias para movimentos separatistas. � JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo, São Paulo, Publifolha, 2000, p. 21 HISTÓRIA DO BRASIL I30 UNIMES VIRTUAL Aula: 08 Temática: As colônias de exploração Nesta aula, estudaremos a colonização do tipo exploração. Fernando Novais explica que “[...] colonização significa sempre ocupação, povoamento e valorização de novas áreas.”.� Entretanto, a colonização das áreas de clima tropical tiveram, ao menos inicialmente, um caráter diferente: Nas áreas de clima tropical e produtoras de mercadorias típicas do trópicos, difíceis de serem obtidas na Europa, criaram colônias de exploração (HARDY, �933), estabe- lecendo feitorias como as criadas na Índia, no Brasil, nas primeiras décadas da colonização, e na costa africana. Na Índia, as feitorias exploraram, sobretudo, o rendoso comércio das especiarias, na África, o comércio de ne- gros escravos e, inicialmente, da malagueta e do ouro, enquanto no Brasil se dedicaram inicialmente ao comér- cio da madeira de tinta. (AZEVEDO, �947)� No Brasil, eles evoluíram para a implantação da cultura da cana de açúcar utilizando a força de trabalho indígena e depois a negra. A América do Sul se tornou o paraíso para a exploração colonial, pois nessa região foram encontrados produtos desconhecidos que rapidamente se tornaram, apreciados pelos europeus — como o milho, o tomate e o cacau. Outros produtos já eram conhecidos e considerados preciosidades como a cana-de-açúcar para a produção de açúcar, a pimenta, o tabaco, o anil, o arroz, o algodão dentre outros. Vamos ver as características dessa colonização. Portugal não possuía população excedente para realizar um movimento mi- gratório substancial. Nesse caso,, a colonização exploratória tornou-se ideal e foi adotada no Brasil nas primeiras décadas. Assim, vamos pensar nesse tipo de colonização a partir do Brasil sem nos esquecer, contudo, que a exploração foi um tipo de colonização adota- do em outros lugares, tais como nas lavouras antilhanas dos holandeses, franceses e ingleses. � NOVAIS, Fernando A. Colonização e sistema colonial: discussão de conceitos e pers- pectiva histórica. Comunicação apresentada na Quarta sessão de estudos do dia 5 de setembro de �957, p. �5�. � ANDRADE, Manuel Correia de. Brasil: Globalização e Regionalização. Disponível em: http://www.uff.br/geographia/rev_05/manuel5.pdf. Acessado em �0/09/�007 HISTÓRIA DO BRASIL I 31 UNIMES VIRTUAL O Brasil, ao contrário das colônias da América do Norte, é uma região quente, potencialmente propícia ao cultivo de produtos tipicamente tropicais, com grande potencial para a exportação e para o lucro naquela época. Todavia, a lucratividade depen- dia da escala, isto é, como as despesas eram muitas — escravos princi- palmente — era preciso cultivar grandes extensões de terra. Muitos pro- dutores pensavam em enriquecer e retornar à terra natal, caracterizando o caráter aventureiro do empreendimento. O grande problema enfrentado por esse tipo de colonização foi a escassez de mão- de-obra.. Problema que, como sabemos, foi resolvido com a insti- tuição da escravidão. Num primeiro momento, optou-se pela escravização dos indígenas, o que provocou protestos e crises entre os colonizadores e a Igreja. Posteriormente, optou-se pela escravidão africana, que havia se tornado um comércio muito lucrativo, além de uma solução para o proble- ma da falta de braços para o trabalho. Esse tipo de colonização gerava um enriquecimento rápido para os explo- radores, mas um crescimento demográfico lento para a colônia. E, pior do que isso, esse tipo de exploração não provocava nos colonizadores um sentimento de enraizamento. Algumas comparações podem ser feitas entre as coloniza- ções de exploração e a de povoamento. Em primeiro lugar, nas colônias de exploração a preocupação principal era o enriquecimento rápido e o retorno à metrópole; nas colônias de povoa- mento da América do Norte, ao contrário, o objetivo dos colonos era fixar residência e construir uma nova pátria. Em segundo lugar, nas colônias de exploração as pessoas tinham de ser convencidas a participarem da aventura do enriquecimento; enquanto as colônias de povoamento eram refúgios para vítimas de perseguições políticas e religiosas. Outra diferença era no tipo de propriedade: nas colônias de povoamento do norte, os fazendeiros preocupavam-se em cultivar gêneros alimentícios a fim de garantir a sobrevivência e fomentar o comércio local. Nas colô- nias de exploração do sul, a preocupação dos latifundiários era produzir, em larga escala, um produto para exportação — como é exemplo a cana- de-açúcar no Brasil. As diferenças entre os dois tipos de colonização explicam, em grande parte, segundo alguns analistas, as diferenças entre os países que se formaram mais tarde, como os Esta- dos Unidos e o Brasil. HISTÓRIA DO BRASIL I38 UNIMES VIRTUAL Aula: 09 Temática: A questão indígena Nesta aula estudaremos os indígenas brasileiros, habitantes do território americano antes da chegada dos portugueses. Estudaremos seu modo de vida, suas relações com a natu- reza e as relações estabelecidas com o colonizador português. Antes da chegada dos portugueses, o Brasil possuía grande variedade de nações indígenas com crenças, técnicas, costumes e línguas diferentes. Todavia, apesar das diferenças, havia aspectos em comum entre as dife- rentes culturas. Muito provavelmente, a derrubada de tantas árvores de pau-brasil era uma atividade estranha para os indígenas que não estavam habituados ao comércio ou indústria em larga escala. Os índios viviam uma relação muito próxima com a floresta. Sobreviviam da caça, pesca e coleta de frutos, embora muitas tribos praticassem uma agricultura de subsistência. A atividade agrícola dos índios era acompanhada das queimadas, prática extremamente prejudicial para o equilíbrio ecológico que sobreviveu em muitas comunidades, especialmente no interior do Brasil, como uma he- rança da cultura indígena. As queimadas praticadas pelos índios, no entan- to, não eram suficientes para provocar um desequilíbrio ecológico, pois as comunidades indígenas primitivas eram pequenas. Uma aldeia costumava ter, em média e no máximo, 200 habitantes. Grande parte das aldeias indígenas obedecia à lógica circular: as constru- ções colocadas uma ao lado da outra, em círculo ou semicírculo, formando um espaço comunitário interno, isolado da floresta pelas casas. As edifica- ções indígenas eram feitas, em geral, de sapé e cobertas com palmeiras, com técnicas construtivas muito apuradas. Não raramente, as habitações eram coletivas ou reservadas às famílias extensas. O trabalho entre os índios era dividido por sexo e idade. As mulheres cui- davam do preparo dos alimentos, do fabrico de potes de barro e cestos e da agricultura. Aos homens cabia a caça, a coleta e a limpeza do terre- no para a agricultura. Essa divisão não era rígida se considerarmos todas as tribos. Muitas vezes, as mulheres participavam da coleta, assim como as crianças, cuja educação era responsabilidade de todos os adultos. As crianças pequenas costumavam ficar com as mulheres, assim como as meninas, mas os meninos maiores acompanhavam os homens adultos. HISTÓRIA DO BRASIL I 39 UNIMES VIRTUAL Alguns produtos usados pelos índios permaneceram na nossa culinária: mandioca, milho, batata doce, amendoim, tabaco, abóbora, urucum, al-godão, pimenta, abacaxi, mamão e guaraná. Aos homens cabia fazer a guerra, pescar, caçar, construir as canoas e as ocas e a limpeza das matas para a lavoura. A chegada dos portugueses provocou profundas mudanças nas socieda- des indígenas. Com algumas tribos o encontro foi pacífico. Com essas tribos, os portugueses procuraram estabelecer o escambo, isto é, a troca de objetos por mão-de-obra ou até mesmo por comida. Primeiro, os por- tugueses utilizaram os serviços dos índios para a construção de casas e fortificações além da derrubada da mata para a lavoura. O trabalho indíge- na era utilizado também, especialmente, na extração do pau-brasil. Com o tempo, os portugueses foram formando alianças, aproveitando as rivalida- des entre as tribos e usando os índios nas lutas contra as tribos hostis. Um dos maiores aliados dos portugueses na guerra contra as tribos inimi- gas foi a tribo dos tupiniquins —habilidosos caçadores e pescadores.. Um dos maiores inimigos foram os tupinambás — habilidosos agricultores. Os tupiniquins e os tupinambás eram inimigos entre si. John Manuel Mon- teiro comentou as observações de Gabriel Soares de Souza, um português que esteve no Brasil no final do século XVI : Referindo-se ao relacionamento entre grupos tipinam- bá e tupiniquim do Brasil meridional, Gabriel Soares de Souza comenta: E ainda que são contrários os tu- piniquins dos tupinambás, não há entre eles na língua e costumes mais diferença da que têm os moradores de Lisboa dos da Beira.� As observações de Souza não revelam as semelhanças entre as duas tri- bos indígenas, mas a incapacidade dos invasores de perceber as diferen- ças entre eles. Podemos observar a oposição entre a vida do indígena e a do colonizador, suas prioridades e a dependência do ha- bitante nativo nos primeiros tempos da colonização. Outro fato a ser observado é a organização dos índios em relação às suas tarefas e à maneira como este via o meio natural em que estava inserido. O por- tuguês não se preocupou em conhecer a sociedade indígena, limitou-se a explorar seus conhecimentos e mão-de-obra para atingir seus objetivos. � MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra – índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. Companhia das Letras, p. �9. HISTÓRIA DO BRASIL I32 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade I Na primeira unidade estudamos a economia, a sociedade e as instituições da América Portuguesa. Nesse período, tam- bém chamado de período colonial brasileiro, destacamos a produção açucareira e o descobrimento de metais e pedras preciosas. Com relação à indústria açucareira, destacamos a existência de grandes propriedades monocultoras e que utilizavam mão de obra escrava. Tais propriedades eram denominadas engenhos, onde o senhor de engenho de- tinha o poder econômico e político. A sociedade era praticamente imóvel com suas classes bem definidas: senhores; comerciantes, padres e arte- sãos — formando uma classe intermediária e os escravos. Com a descoberta de ouro nas Minas Gerais algumas mudanças puderam ser sentidas. Foi um período de rápida prosperidade para esta região. A exploração do ouro proporcionou uma certa mobilidade social. O esplendor da cultura mineira deste momento deve ser destacado, chamando a aten- ção para as obras barrocas de Aleijadinho e Ataíde. O Brasil era uma colônia de exploração, para onde os aventureiros vinham à procura de ganhos fáceis e retornavam para suas pátrias. Diferente das colônias de povoamento da América do Norte, onde sua população fugia de disputas políticas e religiosas que estavam ocorrendo na Europa, além de procurar locais de clima temperado onde pudessem produzir para sua subsistência. Referências Bibliográficas ANTONIL, João André. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Nacio- nal, 1967. FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: as origens da Família Patriar- cal Brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987. HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1979. JUNIOR, Caio Prado. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2000. HISTÓRIA DO BRASIL I 33 UNIMES VIRTUAL LAPA, José Roberto do Amaral. Economia colonial. São Paulo: Editora Perspectiva, 1973. NOVAIS, Fernando A. Colonização e sistema colonial: discussão de conceitos e perspectiva histórica. Comunicação apresentada na Quarta sessão de estudos do dia 5 de setembro de 1957. SOUZA, Laura de Melo. Opulência e miséria das minas gerais. São Pau- lo: Brasiliense, 1994. HISTÓRIA DO BRASIL I40 UNIMES VIRTUAL Aula: 10 Temática: A escravização do indígena Na aula de hoje falaremos sobre a escravidão indígena nos primeiros tempos da colonização: o que levou os coloniza- dores a optarem pela escravidão do nativo? Quais as conse- qüências para o português e para o índio? Como se dava o aprisionamento dos índios? Quem era contrário à escravidão? Essas questões serão res- pondidas ao longo do nosso texto. No início, o sistema de escambo funcionava muito bem, mas aos poucos foi entrando em falência. Os colonos portugueses passaram a disputar a mão-de-obra indígena com os extratores de pau-brasil que lhes ofereciam mercadorias melhores. E, como os índios tinham a liberdade de escolher para quem queriam trabalhar, optavam sempre por quem lhes oferecesse melhores mercadorias, ou seja, os extratores de pau-brasil. Em conseqüência dessa disputa o escambo encareceu e a escravidão des- pontou como solução. A escravização dos indígenas começou a ocorrer por volta de 1540. Esse sistema de trabalho forçado não era totalmente desconhecido dos índios. Eles conheciam a escravidão dos prisioneiros de guerra. Todavia, a escra- vidão imposta pelos portugueses era bastante diferente. Para o português o índio deveria trabalhar exaustivamente, atendendo to- das as suas necessidades e isso se tornava um problema, uma vez que para os nativos o trabalho visava apenas a sua subsistência e não ao acúmulo de riquezas. O índio também não estava acostumado ao rigor do trabalho agrícola. Assim, muitos entristeciam e morriam e ainda eram taxados de indolentes pelos colonizadores. Os europeus desenvolveram a idéia de que os nativos eram, além de preguiçosos, desinteressados pelo trabalho e preocupados apenas com festas e diversão.. Apesar do grande número de baixas entre os indígenas, os portugueses não se importavam em adquirir novos escravos quando os anteriores mor- riam. O número de índios era elevado e os portugueses acreditavam que poderiam formar um grande mercado de escravos por meio das guerras de apresamento. HISTÓRIA DO BRASIL I 41 UNIMES VIRTUAL Desse modo, os portugueses passaram a intensificar as guerras com os tupinambás para conseguirem mais mão-de-obra escrava já que a legisla- ção colonial permitia a posse de escravos índios se estes fossem captura- dos em guerras. Essa lei foi uma medida paliativa adotada pelo governador geral Tomé de Souza: uma saída política que tentava conciliar o interesse dos jesuítas e dos colonos. Os jesuítas eram contrários a escravização dos indígenas, pois achavam que eles deveriam ser convertidos aos cris- tianismo. Uma vez cristãos, não poderiam ser submetidos à escravidão. Os colonos, evidentemente, eram a favor da escravidão. Assim, a saída encontrada pelo governador foi decretar que apenas os índios hostis po- deriam ser escravizados, ou seja, aqueles que estavam envolvidos nas guerras incitadas pelos portugueses. Nos últimos anos, a historiografia relativa à escravi- dão indígena revelou uma realidade surpreendente. Contrariando assertivas consagradas, vários estu- dos mostraram que as populações nativas do Novo Mundo português foram, nos séculos iniciais da co- lonização, sistematicamente exploradas em fazendas destinadas à agricultura de exportação. Nas áreas economicamente periféricas,o escravismo com base no gentio da terra estendeu raízes profundas, sobre- vivendo até a segunda metade do século XVIII. No dia-a-dia das plantações, no cotidiano da vida familiar e até mesmo nos momentos de revolta, os cativos ameríndios compartilhavam seus anseios e expecta- tivas tecendo laços de solidariedade no universo das senzalas.1 Em Minas Gerais colonial, a escravidão baseada na exploração do braço nativo foi implantada pelos ban- deirantes. Já francamente decadente em São Paulo seiscentista, a instituição sobreviveu até a segunda década de ocupação da região do ouro para em segui- da praticamente desaparecer das vilas, arrais e lavras mineiras. 1 VENÂNCIO. Renato Pinto. Os Últimos Carijós: Escravidão Indígena em Minas Gerais: 1711-1725. Revista brasileira de História. vol.17 n.34 São Paulo 1997. HISTÓRIA DO BRASIL I42 UNIMES VIRTUAL Aula: 11 Temática: Os Jesuítas Nesta aula estudaremos os jesuítas, seus objetivos e quais foram suas atividades no Brasil. Será dado destaque à relação com os índios e à contribuição para a educação na colônia. A Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por Inácio de Loyola e tinha como objetivo deter o avanço do protestantismo e espalhar pelo mundo os princípios doutrinários e de obediência da Igreja católica. Mas, no Brasil, seu papel acabou sendo um pouco diferente destes objetivos. A Companhia de Jesus instalou-se no Brasil em 1549, sob o comando de Manuel da Nóbrega e, nessa primeira fase, tinha como principal objetivo a conquista dos índios e colonos convertendo-os ao catolicismo. Para atingir seus objetivos foram criadas missões, que eram aldeamentos onde os jesuítas podiam controlar os índios ensinando-lhes a língua por- tuguesa, catequizando-os na fé cristã. Alguns pesquisadores chamam a atenção para o fato de que os jesuítas utilizavam a mão-de-obra dos índios nesses aldeamentos. Em alguns aldeamentos o trabalho do indígena era recolher as “drogas do sertão”, ou seja, extrair da natureza produtos como o guaraná, cravo, pimenta, castanha, baunilha, plantas aromáticas e medicinais, que gera- vam grandes lucros para a Companhia. Assim, alguns jesuítas acabavam utilizando os índios como escravos,. A posição dos jesuítas sobre a escravidão nem sempre foi única. Havia contradições entre os membros da Companhia. Alguns, por exemplo, con- cordavam com o Padre Antonio Vieira (1608-1697) que era contra a escra- vização ilegal do índio, mas aceitavam a escravização dentro da lei. Alguns jesuítas eram contrários ao aprisionamento dos índios, mas a favor da escravidão negra. Suas justificativas para explicar a ineficiência do ín- dio como escravo vinham das palavras do Padre Antonio Vieira. O Padre jesuíta Antonio Vieira, que com tanto afinco se empenhou na proteção aos índios, não encontrou razões idênticas para a salvaguarda dos negros. Como frei Bartolomé de Las Casas, viu na escravização de- les um meio indispensável ao objetivo de desviar os colonos do assédio aos indígenas. HISTÓRIA DO BRASIL I 43 UNIMES VIRTUAL Pregando aos negros num engenho da Bahia, Vieira lhes deu a mais alta qualificação humana admissível a um cristão quando equiparou o sofrimento deles aos de Jesus Cristo. Logo em seguida, porém, dis- se-lhes que a migração forçada da África ao Brasil decorria de um desígnio da Providência Divina, que, dessa maneira, os conduzia ao caminho da salvação de suas almas.1 Em geral, os jesuítas, assim como os colonos, achavam que os índios eram menos capazes para o trabalho, tinham pouca resistência às doen- ças, fugiam com mais facilidade e literalmente morriam de saudade de sua vida anterior. Dessa maneira, estava justificado porque deviam procurar outras formas de mão-de-obra para serem empregadas no Brasil, deixan- do o índio apenas para realizar pequenos trabalhos para eles. A catequização do índio foi uma das tarefas a qual se dedicou a Compa- nhia de Jesus aqui no Brasil. Mas, assim como no restante da Europa, os jesuítas se aplicaram na fundação de colégios que, no Brasil do século XVI e XVII, atendiam aos filhos dos colonos. Com o tempo, essa missão educa- dora sobrepujou a missão evangelizadora em relação aos índios. A Companhia de Jesus passa a ter como tarefa a educação da juventude, pois, para eles, os adultos já tinham as almas perturbadas, enquanto os jovens poderiam converter-se ao cristianismo. Foi assim que se espalharam pelo mundo, colocando-se a serviço da educação, formando escolas e trazendo para o in- terior da Igreja Católica novas vocações e sacerdotes das colônias européias de influência católica.� Os jesuítas estavam preparando multiplicadores da fé que poderiam retornar à suas localidades e disseminar as idéias aprendidas no colégio convertendo aqueles que não tinham conhecimento sobre o cristianismo. As casas e colégios eram sustentados através de esmolas, doações e pagamentos feitos pelo rei. 1 GORENDER. Jacob. Brasil em preto e branco: o passado escravista que não passou. São Paulo: Senac, �000, p.�9, 30 � BONATO, Sérgio Luiz. Educação e modernidade: o pensamento educacional dos Jesuítas,John Lock e JeaJacques Rousseau na era das Ciências e da Filosofia Moderna. Disponível em: http://www.geocities.com/Athens/Ithaca/9565/tese/tese.html. Acessado em �4/09/�007 HISTÓRIA DO BRASIL I44 UNIMES VIRTUAL Aula: 12 Temática: A escravidão negra Nesta aula, abordaremos as condições de vida dos escravos africanos que vinham para o Brasil. Nosso objetivo é deline- ar um panorama geral da escravidão africana na colônia. Os escravos eram trazidos da África nos porões dos navios negreiros em um ambiente escuro e quente, com água suja e alimentação insuficiente. Antes disso, eles eram capturados e vendidos nos entrepostos da costa da África. Nas travessias pelo Atlântico, cerca de 20 a 40% dos negros colocados nos porões morriam. Além das condições mencionadas acima, contribuíam para essas mortes, as doenças e a surperlotação dos porões — sabendo que uma parte de sua “carga” iria perecer, os comerciantes, fim de manter a viabilidade econômica da empreitada, lotavam os porões com a “mercadoria” viva. A partir de uma determinada época, os governos passaram a fiscalizar os navios; então, quando um deles era abordado pela fiscalização, jogavam o “excesso de carga” no mar. Portanto, pode-se ima- ginar a condição dos negros: os sobreviventes que chegavam ao Brasil já haviam passado por grandes e torturantes situações desde a saída da terra natal. Vencida a viagem, chegando ao Brasil, eles eram vendidos nos mercados de escravos, até o século XVIII, em sua maioria para trabalhar nos enge- nhos de cana-de-açúcar do Nordeste. Os negros escravizados eram usados como mão-de-obra também nas plantações de algodão ou qualquer outra, nas pequenas ou nas grandes propriedades, nas atividades extrativistas e agropecuárias, no trabalho doméstico e na prestação de serviços, durante todo o período colonial. Como se dizia nessa época e foi repetido por An- tonil: os escravos eram as mãos e os pés do colônia. Alguns estudiosos acreditam que os escravos ajudaram na construção e ornamentação das igrejas barrocas mineiras no período áureo da mineração, adquirindo, por- tanto, habilidades de artistas ou artesãos. Quando pensamos nos negros que vieram para o Brasil, não devemos ima- ginar uma população homogênea. Eles eram provenientes de diversas regi- ões da África e de etnias distintas possuindo língua, tradições e costumes diferentes. HISTÓRIA DO BRASIL I 45 UNIMES VIRTUAL Entre os grupos trazidos para o Brasil, destacaram-se os ban- tos que vieram de Angola e Moçambique e foram levados para o Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco; e os sudaneses provenientes de Daomé, Nigéria e Guiné, que foram levados para a Bahia. Os negros influenciarammuito a formação cultural brasileira. Podemos en- contrar características da cultura africana na nossa alimentação — a fei- joada, a cocada, o quindim, o vatapá, o acarajé e o caruru — ou em nossa língua — batuque, banana, fubá, moleque, cachimbo, chuchu, cachaça etc. Na religião também houve grande influência africana e podemos citar o candomblé e a umbanda. A condição dos escravos era a de mercadoria. As condições de vida eram as piores possíveis. Habitavam as senzalas locais, quase nenhuma venti- lação ou iluminação, chão de terra e nenhum móvel. . A saúde dos negros era rapidamente degradada, tanto pelas condições em que viviam como pelo excesso de trabalho. Sofriam também com a má alimentação, a ine- xistência de condições de higiene e os constantes castigos. A escravidão negra no Brasil foi a base das relações de trabalho durante os períodos colonial e imperial. O tráfico que alimentou o desenvolvimento da escravi- dão dos africanos, contudo, não lucrou com o comér- cio de crianças negras. Entre as poucas crianças que embarcavam na costa africana, menor era a quantida- de das que sobreviviam à travessia do Atlântico até o Brasil. Trinta e cinco dias durava uma viagem de Angola até Pernambuco, quarenta até a Bahia e cinqüenta até o Rio de Janeiro. [...] A condição primordial do ser escravo é de ser proprie- dade de alguém. Segundo Gorender (1980, p. 62), a escravidão assume sua forma completa quando de- correm dois derivados desta condição primordial: a perpetuidade e a hereditariedade. Dito de outra forma, o escravo morre escravo e seus filhos serão também escravos. Na sua condição de propriedade, o escravo torna-se coisa, objeto. O Eclesiastes comparou o es- cravo a um asno e Aristóteles escreveu que o boi ser- ve de escravo aos pobres; a Lei Aquiliana, em Roma, equiparava o crime de morte de um escravo alheio ao de um quadrúpede, para efeitos de indenização do proprietário lesado; as ordenações portuguesas – Manuelinas e Filipinas — sintetizam em um mesmo texto o direito de enjeitar escravos e bestas por do- enças ou manqueira, quando dolosamente vendidos (Gorender, 1980, p. 64)1 1 LIMA, Antonio J. T.. Infância, resiliência e escravidão negra no contexto brasileiro. Dis- ponível em: http://www.fsba.edu.br/dialogospossiveis/artigos/5/13.pdf. Acessado em 14/09/07 HISTÓRIA DO BRASIL I46 UNIMES VIRTUAL Aula: 13 Temática: Interesses pela escravidão Nesta aula, abordaremos os interesses envolvidos na es- cravidão africana no Brasil. Quem lucrava com o comércio? Como se dava este comércio? O problema da necessidade de braços para o trabalho na grande lavoura açucareira foi resolvido, levando-se em conta as experiências da época. A utilização de mão-de-obra africana em regime de escravidão já era conhe- cida e utilizada em várias regiões da Europa. Portugal possuía colônias na África e já traficava escravos para o reino desde 1443, sendo o primeiro país europeu a importá-los. Entretanto, essa fase primitiva da escravidão africana moderna, em termos numéricos, não pode ser comparada à fase posterior, em que os negros foram levados para as Américas. Somente para o Brasil calcula-se que, aproximadamente, três milhões de escravos tenham sido trazidos. O comércio de escravos era altamente lucrativo. Além dos portugueses, participavam desse comércio os espanhóis, holandeses e ingleses. A região do Congo-Angola constituiu-se como a prin- cipal rota fornecedora de escravos para o Rio de Ja- neiro durante o século XVIII. No entanto, o historiador Charles Boxer afirmou que, pelo menos desde a se- gunda metade do século XVI, aquela área já se des- tacava como principal fornecedora de escravos para Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. As relações es- tabelecidas pelos portugueses com o reino banto do Congo data de 1482, quando se tentou uma estratégia de domínio desse território africano, por meio da cris- tianização. Frustrada, tal iniciativa logo se converteu na exploração do comércio de escravos. A legislação portuguesa baseada no “resgate” de escravos, fonte de ganhos fiscais efetivos para a Coroa, estimulava esse tipo de negócio com o reino banto do Congo, promovendo incursões pelos territórios denominados, posteriormente, de Angola. Inicialmente, os escravos eram embarcados pelo por- to de Mpinda (Cabinda), mas a quantidade cada vez maior de negros abriria caminho para as saídas clan- destinas de outros portos da costa ocidental africa- na. Na tentativa de organizar esse comércio, a Coroa firmou contratos com os traficantes, geralmente por HISTÓRIA DO BRASIL I 47 UNIMES VIRTUAL um período de seis anos, concedendo-lhes o direito de efetuar o “resgate” nos reinos do Congo, Angola, Loango e Benguela. O “direito de resgate” concedido ao infante D. Henrique em 1448 sobre os negros da Guiné, foi retomado no alvará de 7 de abril de 1753, no qual D. José I enviara ao Conselho Ultramarino a legitimação desse tributo por cada escravo vindo da- quelas regiões.1 Os portugueses criaram entrepostos na costa africana a fim de adquirir os escravos por meio da captura ou da negociação com chefes e mercadores locais que se encarregavam da captura e transporte dos negros até os entrepostos de onde, depois de realizada a transação, eram embarcados nos navios para a América. No Brasil, o escravo era considerado uma mercadoria. Era um objeto de transações e poderia ser vendido, alugado ou penhorado. Uma empresa chegava a investir cerca de 20% de seu capital na aquisição de escravos. Estes poderiam ser facilmente substituídos. O único problema é que o in- vestimento seria perdido, mas os preços, no início, não eram tão caros. Nas colônias da América do Sul não houve a preocupação com a reprodução dos escravos como na América do Norte, onde os fazendeiros se preocupavam em aumentar o núme- ro de escravos sem precisar adquiri-los. No Brasil, como o monopólio do tráfico era português e os lucros acabariam convertidos para a metrópole, não havia sentido estimular esta prática. No Brasil, o escravo era comercializado também internamente, de uma região para a outra. Esse comércio, especialmente, no sentido Nordeste- Sudeste, aumentou, na segunda metade do século XIX, com o crescimen- to das plantações de café e com a proibição do tráfico, decretada pela Inglaterra e adotada pelo império brasileiro. Esse aumento gerou transformações importantes para a disseminação de uma cultura nacional através do negro que convivia com as famílias nor- destinas e passou a conviver com as famílias do sudeste, das áreas de cultivo do café, conforme salientou Gilberto Freyre e tem sido estudado em várias cidades da região: Neste artigo pretendemos analisar alguns aspectos do processo de transferências ou migrações forçadas da população escrava em direção às regiões cafeei- 1 SANTOS, Nívia P. Cirne. O arquivo nacional e a história luso-brasileira. Disponível em : http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid= 37&sid=6&tpl=printerview. Acessado em 24/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I48 UNIMES VIRTUAL ras, intensificadas na segunda metade do século XIX, em decorrência da supressão do tráfico africano. O estudo realizado debruçou-se sobre a região da Zona da Mata de Minas Gerais, particularmente sobre o seu município mais importante: Juiz de Fora, principal produtor de café e maior concentrador de população escrava no âmbito provincial durante o período abor- dado. O mencionado comércio da mercadoria escrava apresentava-se com diversas faces, não apenas sob as formas de compra e venda, troca, venda condicio- nal, penhor, hipoteca, doação ou aluguel, mas, funda- mentalmente, envolvendo uma intrincada rede de pro- prietários e de escravos oriundos das mais variadas partes do território: do próprio município de Juiz de Fora,da Zona da Mata, de outras regiões da província ou mesmo de fora dela.2 2 MACHADO, Cláudio H. Tráfico interno de escravos na região de Juiz de Fora, na segunda metade do século XIX. Disponível em: http://www.unb.br/face/eco/bmueller/trafico_in- terno.pdf. Acessado em 24/09/07 HISTÓRIA DO BRASIL I 49 UNIMES VIRTUAL Aula: 14 Temática: Resistência negra Estudaremos as comunidades criadas pelos negros que fu- giam das fazendas. Tais comunidades eram chamadas de Quilombos. A maior parte dos habitantes dos quilombos era de escravos fugidos, mas muitos escravos libertos também procuravam estas localidades para viver. O vocábulo quilombo durante muito tempo foi tido como forma brasileira de um termo angolano, kilom- bu (em quimbundo, o principal Idioma de Angola, quer dizer, ‘acampamento’, ‘aldeia’, ‘arraial’). No entanto, os modernos estudos brasileiros sobre o assunto têm demonstrado que o quilombo angolano desempe- nhava um papel totalmente contrário ao do quilombo brasileiro. [...] o quilombo angolano apresentava-se como um instrumento de tráfico negreiro na África, ao contrário do brasileiro que foi sempre um pólo de resistência à escravidão.� Nesta aula, citaremos apenas dois quilombos, mas não podemos esquecer que existiram inúmeros espalhados por todas as províncias da colônia. Segundo Lana Lage da Gama Lima: Mas a perseguição e punições violentas não foram, de modo algum, suficientes para impedir as fugas, e os quilombos se multiplicavam por todas as pro- víncias. Os negros fugidos procuraram, em geral, sí- tios de difícil acesso para se esconderem, tais como matas ou morros, embora não se afastassem demais das povoações... � O quilombo dos Palmares estava situado no atual estado de Alagoas. O nome do quilombo deveu-se a sua localização numa região onde era pos- sível observar inúmeras palmeiras. O grande líder dos revoltosos de Pal- mares foi Zumbi que lutou bravamente contra as tentativas de destruição do quilombo, assim como haviam feito seus antecessores. O quilombo dos Palmares resistiu por cerca de 65 anos. No ano de �687, o governo colonial contratou o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho � AZEVEDO, Antonio Carlos do A. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, �990, p. 3�9. � LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra e abolicionismo. Rio de Janeiro, Achiamé, �98�, p. �9. HISTÓRIA DO BRASIL I50 UNIMES VIRTUAL para organizar uma tropa e destruir Palmares. Este partiu no ano de �69� sendo derrotado e obrigado a fugir. Ao final, Palmares foi totalmente des- truída e sua população brutalmente massacrada. Seu líder, Zumbi, fugiu, mas foi capturado e morto dois anos depois. Outro quilombo que apresentou grande resistência foi o Qui- lombo do Campo Grande, localizado em Minas Gerais no pe- ríodo entre �7�0 e �760. Seu líder era conhecido como rei Ambrósio. Neste quilombo havia escravos fugidos, negros livres e mulatos. Assim como o quilombo dos Palmares, o governo colonial tratou de destruí- lo, mas não foi fácil. Ele foi atacado por três vezes nos anos de �74�, �743 e �746, e, sob a liderança de rei Ambrosio, resistiu bravamente. Prevendo a dificuldade da destruição, o governo colonial contratou o bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado para realizar a missão. Mesmo assim, foram três anos de lutas. Após a destruição do quilombo do Campo Grande, os vitoriosos apoderaram-se das terras cultivadas e das lavras de ouro em produção. Os quilombos apresentavam diferenças entre si, uns dedican- do-se à agricultura, outros ao extrativismo ou à mineração ou ainda ao pastoreio. E havia aqueles que viviam da pilhagem e do roubo. Os seus arraiais, fechados e fortificados, circundados por cercas e paliçadas, eram difíceis de serem penetrados por estranhos. Economica- mente, os quilombolas plantavam quase tudo que fosse necessário para sua subsistência. Todas as terras era propriedade do quilombo, distribuídas às famílias de acordo com o número de componentes de cada uma.3 3 AZEVEDO, Antonio Carlos do A. Op.cit. p.3�9 HISTÓRIA DO BRASIL I 51 UNIMES VIRTUAL Aula: 15 Temática: O engenho e a escravidão Nesta aula, estudaremos as estreitas relações entre o en- genho e a escravidão, com base na organização do trabalho no interior do engenho. Qual o papel que o escravo repre- sentava dentro do engenho? Existiam outros trabalhadores que não eram escravos? Estas e outras questões relacionadas à vida do engenho serão respondidas nesta aula. Como vimos, produção colonial de cana-de-açúcar estava organizada em grandes propriedades monocultoras e se sustentava graças ao trabalho dos escravos.que viviam sob um rígido regime de disciplina. As fugas aconteciam, mas a repressão a elas era violenta. Os quilombos são bons exemplos das tenta- tivas de busca da liberdade, que podiam custar até a vida. No interior de um típico engenho produtor de açúcar, a mão-de-obra escra- va era numerosa e se dividia em equipes sob o comando do feitor mor. Os escravos realizavam as várias tarefas envolvidas na produção do melado de cana que era vendido para a transformação em açúcar, desde as ativi- dades agrícolas, passando pelo beneficiamento e transporte. Mesmo assim, o trabalho do escravo era considerado de baixa qualifi- cação, já que trabalhos especializados ficavam a cargo de trabalhadores pagos para realizar determinadas tarefas. Isso ocorria, principalmente, na fase do fabrico do açúcar onde era importante ter o ponto certo do melado, a fim de que o produto tivesse qualidade para a exportação. Os maiores engenhos poderiam ultrapassar facilmente o número de 150 escravos. Eles se encontravam na base da sociedade colonial e eram pro- priedades dos senhores de engenhos. A distinção entre o trabalhador livre e o escravo era jurídica. Não eram apenas os escravos que trabalhavam no interior dos engenhos. Os feitores, por exemplo, encarregados do controle dos escravos rece- biam para isso e, também, deveriam ser homens de confiança do senhor de engenho. Muitas vezes, esses mesmos feitores caçavam os escravos fugidos, juntamente com a polícia local ou comandando bandos armados. Havia também, como já foi citado, as pessoas encarregadas da produção HISTÓRIA DO BRASIL I52 UNIMES VIRTUAL efetiva do açúcar, aqueles que detinham a arte do fabrico do produto e que, também, eram remunerados por seus trabalhos. Sendo o engenho quase auto-suficiente existiam em seu interior alguns artesãos, carpinteiros e ferreiros, encarregados da manutenção dos equi- pamentos do engenho. Eram trabalhadores livres que prestavam serviços ao senhor de engenho. Todos estes trabalhadores remunerados e livres trabalhavam e viviam no interior do engenho. Este é um dos motivos pelo qual podemos afirmar que o senhor de engenho detinha não apenas o poder econômico, mas também o social e político, ou seja, para viver no Brasil Colônia nos tempos dos engenhos de açúcar as pessoas deveriam estar ligadas a um determinado senhor de engenho. E, desse modo, também podemos entender por que o engenho era uma unidade econômica, social e política sob o comando do senhor de engenho, pois este era o detentor do poder econômico. O enge- nho era o centro da vida da colônia, relegando as cidades como pequenos aglomerados onde sobreviviam alguns comerciantes, artesãos e os repre- sentantes da coroa portuguesa, a um segundo plano Em outras palavras, o engenho era praticamente auto-sufi- ciente em relação ao que produzia, podendo manter todos os funcionários e escravos. Era um centro de poder regional, já que quanto mais poderoso, mais influência possuía sobre a região, e que, realmente, as fontes de riqueza dos senhores de engenho eram os escravos. HISTÓRIA DO BRASIL I 53 UNIMES VIRTUAL Aula: 16 Temática:Os homens livres da colônia Nesta aula abordaremos a questão do trabalho livre na co- lônia. Somente os senhores de engenho eram possuidores de terras ou existiam outros proprietários no Brasil, neste período? Qual o papel que estas pessoas representavam na sociedade açucareira e quais suas relações com a indústria do açúcar? Para responder nossos questionamentos, devemos observar que a colônia não estava dividida apenas entre senhores de engenho e escravos. Exis- tiam pessoas livres que eram essenciais para o bom funcionamento do sistema e das grandes propriedades rurais açucareiras. Existiam, por exemplo, os lavradores de cana. Eles não eram assalaria- dos que vendiam sua força de trabalho, pelo contrário, eram pequenos proprietários de terras que não tinham condições de implantar em suas propriedades engenhos para a produção de açúcar.. Desse modo, eram dependentes de uma grande propriedade, onde existia o moinho para moer a sua produção de cana. Havia também um conjunto heterogêneo de proprietários de médio porte, pequenos comerciantes, até roceiros e artesãos. Estes últimos, muitas vezes, dividiam-se entre as terras e seu ofício. Eles não eram exclusi- vamente lavradores, eram também mercadores e membros oficiais da milícia. Muitos chegaram a trabalhar nos engenhos como purgadores (ofício especializado não realizado por escravos). Alguns procuravam nos cargos públicos uma forma de proteção contra os abusos dos senhores de engenho. Ser lavrador no Brasil colonial, nos tempos dos engenhos de açúcar, não era um negócio rendoso e, muitas vezes, chegava a ser instável. Por isso, a maioria dos lavradores procurava outras formas de renda. A harmonia entre eles e os senhores de engenho não era verdadei- ra, havia sempre uma tensão no ar. Mesmo dependendo das lavouras de cana-de-açúcar dos lavradores, os senhores de engenho não permitiam que seus ganhos pudessem ser ameaçados e do outro lado estavam os lavradores que, mesmo tendo pequenos lucros, não abriam mão do pouco que possuíam. Até o século XVIII, os pequenos proprietários limitavam-se a poucos colonos brancos. Porém, no século XIX, em Per- nambuco, já havia proprietários mulatos. Ambos, brancos HISTÓRIA DO BRASIL I54 UNIMES VIRTUAL ou mulatos, os pequenos proprietários eram dependentes dos grandes se- nhores. A possibilidade de ascenção social era decorrência das relações com o senhor. Ascender socialmente significava, na colônia, obter alguns privilégios; fazer parte do grupo de homens não atingidos pela justiça co- mum; possuir escravos; ser respeitado. Outra categoria de homens livres que deve ser considerada na estrutura colonial são os comerciantes. No sudeste, dada a descoberta do ouro, a sociedade apresentava um grau um pouco mais elevado de flexibilidade. Contudo, no Nordeste imperava a rigidez, que, de certo modo, refletia a própria organização do reino: Em Portugal, no século XVI, a sociedade metropolita- na estava organizada em três ordens ou estados tradi- cionais, cujas posições foram originalmente definidas pelas funções, posteriormente, seriam determinadas por privilégios, leis, costumes e modo de vida. Essa organização da sociedade portuguesa, por ordens ou estados, viabilizava legalmente as hierarquias de gra- duação, privilégio e honra. Os sinais exteriores indica- tivos da graduação, formas de tratamento, insígnias, privilégios e obrigações definiam a posição do indiví- duo no estrato social. O protocolo e a precedência as- sumiam importante significado simbólico em eventos públicos e reforçavam a posição e as prerrogativas de cada grupo. Na colônia poderiam ser mais promissoras as opor- tunidades que então se ofereciam a mercadores, comissários volantes, mascates e oficiais de vários ofícios manuais. Também para cá foram designados muitos naturais do Reino para ocupar postos e fun- ções públicas como burocratas ou como militares. Podemos traçar um paralelo entre as relações entre senhores e mercadores, durante a segunda metade do século XVII, nas sociedades coloniais de Pernam- buco e da Bahia. Enquanto na Bahia os comerciantes portugueses podiam ingressar nas irmandades religio- sas ou na Santa Casa de Misericórdia, misturando-se livremente os senhores de engenho e funcionários ré- gios que compunham seus quadros; em Pernambuco lhes foi negado o acesso nessas entidades, a ponto de surgirem de um lado, confrarias puramente senho- riais e, de outro, confrarias puramente mercantis. Esse mesmo espírito aparteísta prevaleceu em Per- nambuco até 1710 no tocante aos postos de coman- do das milícias e aos cargos da administração mu- nicipal, tidas como as principais posições locais de poder político e de prestígio social. Na Bahia, diferen- HISTÓRIA DO BRASIL I 55 UNIMES VIRTUAL temente, por volta de 1680, os comerciantes ocupa- vam metade das patentes de ordenanças existentes em Salvador e arredores: enquanto, em Pernambuco, os casos esporádicos de acesso de mascates a tais postos provocavam protestos indignados da “nobreza da terra”. 1 1 FRANÇA, Ana Laura Teixeira de. As possoibilidades de ascenção social oferecidas no Pernambuco colonial. Mneme- Revista de Humanidades. Dossiê Cultura e Sociedade na América Portuguesa Colonial. V.5, n.12, out/nov.2004. Disponível em: http://www.seol. com.br/mneme/ed12/114.pdf. Acessado em 26/09/07 HISTÓRIA DO BRASIL I56 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade II Nesta unidade estudamos a escravidão no Brasil colonial, tanto a indígena quanto a africana. Destacamos a heteroge- neidade presente em nossos índios, seus costumes e como era seu cotidiano até a interferência do colonizador português. Estudamos também o papel dos jesuítas como defensores da cristianização dos índios. No estudo da escravidão negra, destacamos o comércio de escravos na África, a viagem nos navios negreiros, o sofrimento dos negros de um lado e, de outro, a lucratividade desse comércio. Estudamos, ainda, a vida dos escravos no interior dos engenhos. Fizemos referência também aos quilombos , considerando a ameaça que representavam à ordem social colonial, comprovada pelo esforço dos se- nhores de engenho em exterminá-los. Estudamos, finalmente, a complexidade do tecido social colonial, do qual faziam parte também os pequenos proprietários e os comerciantes como representantes dos homens livres numa sociedade escravocrata. Referências Bibliográficas CARDOSO, Ciro F. S. Agricultura, Escravidão e Capitalismo. Rio de Ja- neiro: Vozes, 1979 FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasilei- ra sob o regime patriarcal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987. LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra e abolicionismo. Rio de Ja- neiro: Achiamé, 1981. MARCHANT, Alexandre. Do escambo à escravidão. São Paulo/Brasília, Nacional/INL, 1980. MATTOSO, Katia de Queiroz. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasilien- se, 1982. HISTÓRIA DO BRASIL I 57 UNIMES VIRTUAL MONTEIRO, John M. Negros da terra. Índios e Bandeirantes nas ori- gens de São Paulo. São Paulo: Cia. das Letras, 1994. SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos. Engenhos e escravos na so- ciedade colonial. São Paulo: Cia. das Letras, 1988. SOUZA, Laura de Melo. O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Cia. das Letras, 1986. HISTÓRIA DO BRASIL I62 UNIMES VIRTUAL Aula: 17 Temática: A organização do poder colonial Na aula de hoje, discutiremos a organização do poder no Brasil colonial desde os primeiros anos após a chegada dos portugueses, , quando ainda não havia interesse em coloni- zar o território brasileiro, até a tentativa do governo português em reduzir o poder das câmaras municipais. Analisaremos, assim, a evolução da or- ganização do poder, destacando as autoridades e as várias tentativas da coroa portuguesa em aumentar o controle sobre acolônia americana. Evidentemente, o objetivo do governo português em relação à colônia americana era controlar e fiscalizar a produção colonial, tendo em vista a cobrança de impostos e a posse do território. Entretanto, a distância e a própria burocracia do Estado português dificultavam o efetivo controle sobre o território colonial. Como já vimos, a coroa portuguesa determinou a criação dos gevernos gerais numa tentativa de centralizar o poder e a administração da colônia. Os governadores gerais, portanto, encabeçavam a hierarquia administra- tiva colonial. O poder local era exercido pelas Câmaras Municipais que reuniam os “ho- mens bons” da colônia, isto é, os proprietários de terras, funcionários e comerciantes com poder econômico. Teoricamente, portanto, havia uma hierarquia de poder que começava nas câmaras municipais, passava pelos capitães-mor, governadores-gerais, para, finalmente, chegar ao rei. Mas, na prática, essa hierarquia era frouxa. Tratava-se de um sistema comple- xo, confuso e tumultuoso. Analisaremos agora como era o sistema de poder no início da colonização. No período de pré-colonização, ou seja, entre os anos de 1500-1530, pouca coisa aconteceu na colônia. No ano de 1501 ocorreu a primeira expedição para o Brasil a fim de verificar a presença da grande quantidade de pau- brasil encontrado em nosso litoral. Esta expedição deu início à nomeação dos principais acidentes geográficos avistados pelos navegadores. A segunda expedição ocorreu no ano de 1503 e veio com o objetivo apenas de extrair o pau-brasil de nosso litoral. As expedições seguintes, realizadas entre os anos de 1516–1526, tentaram apenas conter o contrabando de pau-brasil empreendido pelos franceses — eram as chamadas expedições guarda-costas. HISTÓRIA DO BRASIL I 63 UNIMES VIRTUAL O marco inicial do povoamento foi a expedição de Martim Afonso de Souza, em 1530. Esta expedição ainda procurou combater os contrabandistas franceses de pau-brasil. Al- gum tempo depois dessa expedição, a colônia foi dividida em 15 capi- tanias hereditárias doadas para quem tivesse condições de participar da montagem do sistema colonial, isto é, de investir para explorar as terras coloniais. Os donatários eram as autoridades máximas de suas capitanias com po- deres administrativos e judiciais e deviam ainda desenvolvê-la com recur- sos próprios. Podemos dizer que a maioria das capitanias não prosperou. Como o investimento era muito elevado, muitos donatários preferiram abandoná-la. Estava arruinada assim a primeira tentativa do governo por- tuguês em exercer algum tipo de poder em sua colônia. Apesar disso, a coroa conseguiu que seu objetivo inicial, o de povoamento e ocupação efetiva do Brasil, fosse modestamente alcançado. Com o governo geral a coroa tentou centralizar o poder da colônia, alegan- do que o objetivo do novo governo era auxiliar e proteger as capitanias em nome do rei, mas, segundo alguns analistas, o objetivo do governo português era diminuir o poder dos donatários que restavam e efetivar o poder da coroa portuguesa sobre o território brasileiro. Entre os anos de 1549 a 1572 tivemos três governadores gerais. Foram eles: Tomé de Souza, que governou entre 1549 a 1553, Duarte da Costa, que exerceu seu poder no período de 1553 a 1558, e Mem de Sá, que permaneceu em seu posto entre os anos de 1558 e 1572. Após 1572, tentou-se uma nova fórmula: a colônia foi divi- dida em duas regiões administrativas: uma ao norte e outra ao sul. Essa fórmula não foi bem sucedida. O poder de fato, nessa época, estava concentrado nas mãos dos grandes proprietários ru- rais.. As câmaras municipais eram controladas por eles e todas as deci- sões administrativas locais — as que acabavam influenciando efetiva e diretamente a vida da colônia — eram tomadas por essas câmaras. As câmaras municipais atuavam como um foco de resistência à centrali- zação e ao controle impostos pela metrópole. Os atritos entre os diversos órgãos criados pela coroa e as câmaras eram constantes. Todavia, o fato é que no dia-a-dia o poder (das câmaras) superava o poder “teórico” (da coroa portuguesa). Assim, um dos objetivos de Portugal para a colônia era criar uma maneira eficiente de reduzir o poder das câmaras municipais e, por conseqüência, dos senhores de engenho. HISTÓRIA DO BRASIL I64 UNIMES VIRTUAL Leia a seguir um texto que comenta o papel das câmaras municipais nas colônias portuguesas. No ultramar, e especificamente no Brasil ao longo do século XVII, diante da dificuldade da Metrópole em financiar as despesas militares da colônia, não raro se transferiu aos colonos os custos de sua própria defesa. Dada a falta de recursos da Fazenda Real, exausta de rendas devido ao ônus representado pelo movimento de Restauração - seguida pela guerra e expulsão dos holandeses dos territórios coloniais - os habitantes das praças marítimas da América assumi- ram, através de tributos e trabalhos, os altos custos da manutenção do Império. Cabia-lhes administrar, através das Câmaras, o pagamento de impostos perenes e temporários lançados pela metrópole em ocasiões especiais, impor taxas ocasionais, arrendar contratos, arrecadar “contribuições voluntárias” etc. Cabia também àqueles moradores arcar quase que in- teiramente com os custos da defesa, recaindo sobre suas rendas - ou sobre as rendas arrecadadas pelas Câmaras - a obrigatoriedade do fardamento, susten- to e pagamento dos soldos das tropas e guarnições, a construção e o reparo das fortalezas, o apresto de naus guarda-costas contra piratas e corsários, a ma- nutenção de armadas em situações especiais e em momentos de ameaças concretas, a execução de obras públicas e de outros melhoramentos urbanos.1 1 BICALHO, Maria Fernanda. As Câmaras Municipais no Império Português: O Exemplo do Rio de Janeiro. Revista brasileira de História. vol. 18 n. 36 São Paulo, 1998. HISTÓRIA DO BRASIL I 65 UNIMES VIRTUAL Aula: 18 Temática: Aclamação de Amador Bueno e Rebelião de Beckman Na aula de hoje estudaremos as rebeliões nativistas que ocorreram no Brasil, no período colonial. Destacaremos duas delas: a aclamação de Amador Bueno como rei de São Paulo, em 1641, e a Rebelião de Beckman, ocorrida em 1684, no Maranhão. Essas rebeliões, denominadas nativistas, não tinham um caráter separatis- ta, isto é, não colocavam a independência do Brasil em relação à Portugal num primeiro plano. Do ponto de vista da colônia, eram movimentos orga- nizados com a intenção de manifestar o descontentamento da população com as exigências da metrópole. Do ponto de vista da coroa portuguesa esses movimentos eram manifestações de rebeldia e, como tais, deveriam ser aniquilados. A aclamação de Amador Bueno ocorreu em São Paulo no ano de 1641. Foi a primeira manifestação de caráter nativista ocorrida no Brasil. Tratou-se de um protesto dos comerciantes que, durante o domínio espanhol (1580- 1640), estabeleceram um lucrativo contrabando com as colônias espanho- las do sul. Com o fim da união ibérica, os comerciantes paulistas, temeram pelo fim dessas atividades e organizaram um protesto, aclamando o rico capitão-mor, irmão de bandeirantes, Amador Bueno, como rei. Alguns historiadores defendem outra versão para o episódio. Segundo eles, Amador Bueno foi aclamado rei por um grupo de espanhóis que vi- via em São Paulo, apoiados, ainda, por famílias paraguaias. De qualquer modo, Amador Bueno, jurou fidelidade ao rei português e desistiu do trono improvisado. Desse modo, a rebelião terminou sem que fosse necessária a intervenção militar por parte da coroa portuguesa. Já a rebelião de Beckman foi um pouco diferente. Era tam- bém um movimento nativista que ocorreu no Maranhão no ano de 1684. Nesta província havia uma profunda crise eco- nômica gerada pela expulsãodos holandeses e da proibição de escraviza- ção de indígenas por pressões dos jesuítas. Graças a esta crise, foi criada pelo governo português, no ano de 1682, a Companhia de Comércio do Maranhão com o objetivo de promover o de- senvolvimento local, por meio de créditos para a agricultura exportadora HISTÓRIA DO BRASIL I66 UNIMES VIRTUAL de açúcar e algodão, envio de escravos africanos. A Companhia detinha o monopólio sobre o comércio da região, mas seu principal negócio era o tráfico de escravos Entretanto, os compromissos não foram cumpridos e os escravos prometidos não chegaram em número suficiente provocando a eclosão da revolta. Os revoltosos eram elementos do clero, da classe mais elevada e do povo, chefiados pelos irmãos Manuel e Thomas Beckman, ricos fazendeiros da região. Eles expulsaram os jesuítas que impediam a escravização dos ín- dios, depuseram o governador e declararam extinta a Companhia. O governo português conseguiu debelar a rebelião — Manuel Beckman foi enforcado — mas manteve a extinção da Companhia de comércio. Observamos, também, em ambos os movimentos, a tenta- tiva de organização dos colonos a fim de defenderem sua situação, tanto na aclamação de Amador Bueno com o medo de perder seu comércio com as colônias espanholas do sul quanto na Rebelião de Beckman com a tentativa de pôr fim à crise econômica com o fechamento da Companhia de Comércio do Maranhão e expulsar os jesuítas que impediam os colonos de aprisionar os indígenas. HISTÓRIA DO BRASIL I 67 UNIMES VIRTUAL Aula: 19 Temática: A Guerra dos Emboabas Nesta aula trataremos da Guerra dos Emboabas, suas carac- terísticas, seus líderes e qual foi o comportamento da coroa portuguesa em relação a este movimento. Analisaremos, tam- bém, as semelhanças com outros movimentos e as suas reivindicações. A Guerra dos Emboabas ocorreu em Minas Gerais entre os anos de 1707 e 1709. Nessa época, começaram a ser descobertas as minas de metais preciosos. As descobertas logo se fizeram acompanhar por disputas. Hou- ve um intenso fluxo migratório — tanto interno quanto externo — para a região. Muitas pessoas lutando por um pouco de terra para minerar resul- tou em uma grande confusão. Pode-se dizer que a guerra dos emboabas foi um conflito entre os paulis- tas, que descobriram e que primeiro povoaram a região, e os “emboabas”, como foram chamados os portugueses e os colonos provenientes de Per- nambuco e da Bahia, que migraram para a região em busca do ouro. Os emboabas eram os não nascidos em São Paulo. A disputa era pelo direito de exploração das terras. Os paulistas se viam no direito de explorá-las, mas os emboabas não aceitavam esse direito.. O início do conflito se deu com o linchamento de importantes líderes pau- listas, no ano de 1707, no famoso episódio do Capão da Traição. Foram sucessivas e violentas as lutas realizadas entre os anos de 1707 e 1709, com várias derrotas para os paulistas. O conflito foi sangrento. Os embo- abas estavam sob a liderança de Manuel Nunes Viana, rico comerciante português. A pacificação veio com o governador do Rio de Janeiro, Albuquerque Coe- lho de Carvalho, que criou as capitanias de São Paulo e Minas — indepen- dente da capitania do Rio de Janeiro — e decretou a posse de todo o ouro das minas para Portugal, ou seja, as minas tornaram-se uma concessão da coroa, com administradores nomeados especialmente para isso incum- bidos da distribuição das terras e das jazidas da região. Como conseqüência desta guerra o governo português regulamentou a distribuição das lavras entre os emboabas e os paulistas e cobrança do quinto, tomando posse de fato do controle administrativo da região das minas. HISTÓRIA DO BRASIL I68 UNIMES VIRTUAL São Paulo foi elevada à categoria de cidade e os paulistas derrotados par- tiram para explorar outras regiões e, posteriormente, descobriram ouro em Mato Grosso e Goiás. Este movimento acabou sendo mais sangrento e mais com- plexo do que a Aclamação de Amador Bueno e a Rebelião de Beckman, pois foi um embate entre dois grupos reivindi- cando o direito de posse das jazidas de ouro. Verificamos a intervenção da coroa portuguesa tomando para si o direito de distribuição das jazidas, ou seja, a efeti- va administração das minas. Mais uma vez, os portugueses correram para garantir seus lucros no negócio. Além de controlar a dis- tribuição das terras implantaram também a cobrança do quinto, imposto que no futuro desencadeou uma revolta com objetivos que ultrapassavam a mera disputa pelos lucros, almejando a criação de uma nação indepen- dente de Portugal. HISTÓRIA DO BRASIL I 69 UNIMES VIRTUAL Aula: 20 Temática: A Guerra dos Mascates e a Revolta de Vila Rica No estudo das rebeliões nativistas, denominadas Guerra dos Mascates e Revolta de Vila Rica, destacaremos os líde- res, os objetivos e os desfechos, atentando para a atitude tomada por parte do governo português a fim de resolver a questão. A Guerra dos Mascates foi um conflito de caráter nativista realizado em Pernambuco entre os anos de 1710 e 1714. Tratou-se de uma luta entre os proprietários rurais de Olinda e os comerciantes portugueses do Recife — apelidados de mascates. Por essa época quem detinha o poder econô- mico eram os comerciantes do Recife, mas a sede da capitania era Olinda que, por sua vez, era dominada pelos proprietários rurais que estabeleciam as taxas que os comerciantes deveriam pagar. Os grandes proprietários rurais de Olinda enfrentavam dificuldades com a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas pelos holandeses. Endivi- dados, passaram a recorrer aos créditos oferecidos pelos comerciantes portugueses de Recife. Fortalecidos, os mascates conseguiram a elevação de Recife à categoria de vila, em 1709. Revoltados, os donos de engenho destruíram o pelourinho, símbolo da emancipação política. Recife foi in- vadida pelas tropas de Olinda chefiadas por Bernardo Vieira de Melo. A reação foi imediata e ocorreu sob as ordens de João da Mota. A Guerra dos Mascates durou 4 anos, com relativo equilíbrio entre as cidades em conflito. Em 1714, a coroa portuguesa interveio, pondo fim ao conflito. Ninguém foi preso ou enforcado e, D. João V anistiou todos os envolvidos na guerra. Por ser uma revolta onde as elites de ambas as cidades participaram, pa- rece não ter havido necessidade de uso de força para conter os revoltosos, apenas utilizou-se do diálogo. HISTÓRIA DO BRASIL I70 UNIMES VIRTUAL Outro movimento de caráter nativista — isto é, a negação dos abusos portugueses sem a contestação do domínio luso — ocorrido no século XVIII, foi a Revolta de Vila Rica, também conhecida como Revolta de Felipe dos Santos — por causa do líder — desencadeada nas Minas Gerais no ano de 1720. A revolta de Vila Rica foi causada pela excessiva fiscalização e alta tribu- tação empreendida pela metrópole portuguesa nas Minas Gerais. É dessa mesma época a fundação das Casas de Fundição que tinham por objetivo transformar o ouro em pó em barras, dificultando o contrabando e fazendo a cobrança do quinto de modo direto. A revolta começou, depois que, aproximadamente, 2000 mineiros resolveram ir à Mariana exigir do governador a abolição das medidas oficiais e relaxasse a política fiscal relativa à extração e tributação do ouro. O governador iludiu os revoltosos e protelou por um tempo até a chegada de tropas que reprimiram violenta- mente o levante, efetuando muitas prisões, além da queimada das casas dos principais envolvidos. O movimento foi rápida e violentamente sufoca- do. O líder, Felipe dos Santos, foi enforcado e esquartejado. Como conseqüência do movimento houve uma maior limitação das vias de acesso às minas, inibindo o contrabando e a evasão fiscal. A revolta de Vila Rica foiconsiderada o embrião da Inconfidência Mineira que ocor- reria em 1789, passando de um movimento nativista para um movimento emancipacionista. Entre a Guerra dos Mascates e a Revolta de Vila Rica existi- ram algumas diferenças. A primeira, contou com a participa- ção de elites; o fim do conflito foi negociado. Em oposição, a Revolta mineira contou com a participação de pessoas mais simples e o movimento foi sufocado violentamente. Outra diferença entre os conflitos diz respeito aos interesses da coroa, pouco afetados no caso da Guerra dos Mascates e profundamente afetados no caso da Revolta dos mineiros liderados por Felipe dos Santos, pois envolvia diminuição da arrecadação de impostos. HISTÓRIA DO BRASIL I 71 UNIMES VIRTUAL Aula: 21 Temática: Inconfidência Mineira Nesta aula estudaremos a Inconfidência Mineira, suas ca- racterísticas e lideranças, desfecho e conseqüências. Va- mos analisar por que o movimento não é considerado nati- vista, como os movimentos anteriores. A Inconfidência mineira aconteceu em Minas Gerais, no ano de 1789. Foi um movimento organizado por proprietários rurais, intelectuais, clérigos e militares. Fizeram parte os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás An- tonio Gonzaga; os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antonio de Oliveira Lopes; os religiosos Padre Rolim, o cônego Luis Vieira da Silva: o minerador Inácio José de Alvarenga Peixoto; e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por todos como Tiradentes. Eles não possuíam armas ou exército e nem mesmo contavam com apoio popular. Suas idéias atravessaram o Atlântico, vindas da Europa , juntamente aos filhos dos ricos mineiros que iam estudar no velho continente e traziam consigo idéias liberais do iluminismo e da Revolução Americana, que leva- ra à independência das 13 colônias. Porém, se as idéias eram externas, havia condições internas que motiva- vam a adesão dos inconfidentes. A região das minas se encontrava em decadência econômica, com acentuada queda na produção de ouro. Os portugueses se recusavam a crer no esgotamento das jazidas e atribuíam a diminuição da arrecadação ao aumento do contrabando, extravio e fa- lhas administrativas. Sendo assim, a coroa portuguesa exigiu o pagamento de pesados impostos e ordenou ao governador Luis Antonio Furtado de Mendonça a execução de uma derrama, ou seja, o pagamento de todos os impostos atrasados de uma só vez por todos os habitantes das minas. O descontentamento foi geral. Ficou acertada uma revolta para o dia da derrama. Mas o movimento não chegou a acontecer. O coronel Joaquim Silvério dos Reis denunciou a re- volta ao governador de Minas em troca do perdão de suas dívidas e ela foi debelada antes mesmo de ser deflagrada. O governador suspendeu a HISTÓRIA DO BRASIL I72 UNIMES VIRTUAL derrama e prendeu todos os envolvidos. Tempos depois, eles foram julga- dos e condenados à morte. Entretanto, a rainha Dona Maria I permutou a sentença de onze deles para o degredo, somente a sentença de morte de Tiradentes foi mantida. Ele foi executado no dia 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro e seu corpo esquartejado foi exposto em Minas como advertên- cia contra outras rebeliões. Este foi o primeiro movimento a propor a libertação defini- tiva do Brasil de Portugal. Dentre os objetivos deste movi- mento, além da independência, estavam a adoção de uma nova bandeira, o desenvolvimento da indústria nacional, a criação de uma universidade em Vila Rica, o incentivo à natalidade, a criação do serviço militar obrigatório e o estímulo à agricultura com a doação de terras às famílias pobres. Podemos observar uma semelhança em relação aos outros movimentos. Trata-se de uma repressão da coroa portugue- sa, imediata e violenta, por ser um movimento que envolvia diretamente a arrecadação de impostos e também pelo fato de estarem envolvidas pessoas simples do povo. No que se refere às diferenças em relação aos outros movimentos, a prin- cipal talvez seja o objetivo de ruptura dos vínculos coloniais. HISTÓRIA DO BRASIL I 73 UNIMES VIRTUAL Aula: 22 Temática: A Inconfidência Baiana Na aula de hoje estudaremos a Inconfidência Baiana, suas características, seus líderes, a reação da coroa portuguesa em relação ao movimento e suas conseqüências. Analisare- mos, também, as diferenças e semelhanças entre a Inconfidência Baiana e outros movimentos que tiveram o objetivo de independência da colônia em relação a Portugal. A Inconfidência ou Conjuração Baiana aconteceu na Bahia, no ano de 1798. Tinha características semelhantes à Inconfidência Mineira, ou seja, o objetivo de libertar o Brasil de Portugal. Tomaram parte nesta rebelião homens ricos e cultos, juntamente a pessoas das camadas sociais mais humildes como alfaiates, soldados e os escravos, sendo, por isso também, chamada de Revolta dos Alfaiates. O que levou a deflagração desse movimento foi a inconformidade ou in- dignação dessas pessoas com a fome e a miséria que assolava a região. Uma das formas de protesto era a promoção de saques em depósitos ou em carregamentos de alimentos. Os saques tanto serviam como protesto como para alimentar aqueles que estavam passando por profundas dificul- dades. Como todos os movimento da época, a Inconfidência baiana contou com a inspiração das idéias francesas e norte-americanas. Entretanto, seus objetivos forma um tanto mais radicais que os da Inconfidência Mineira. Além da independência, os baianos pregavam a libertação dos escravos, a instalação da República baiana e de um governo igualitário. O conflito se precipitou no dia em que vários manifestantes saíram às ruas para distribuir panfletos para a população, convocando para a adesão à causa. O panfleto dizia: “Animai-vos, Povo baiense, que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos; o tempo em que todos seremos iguais.” A reação do governo foi imediata. Houve inúmeras prisões inúmeras pri- sões, mas foram apenas quatro os sentenciados à morte: o alfaiate João de Deus do Nascimento, o aprendiz de alfaiate Manuel Faustino dos Santos e os soldados Luís Gonzaga das Virgens — responsável por vários escritos — e Lucas Dantas. Eles acabaram presos, enforcados e esquartejados. HISTÓRIA DO BRASIL I74 UNIMES VIRTUAL Mais uma vez, os únicos sentenciados à morte, assim como Tiradentes na Inconfidência Mineira, foram as pessoas mais simples, um alfaiate, um aprendiz de alfaiate e dois soldados. Os homens ricos e cultos acabaram por se livrar das prisões e execuções. A Inconfidência Baiana tinha como objetivos o rompimento com a domina- ção portuguesa e a proclamação de uma república democrática, a abolição da escravidão, o aumento da remuneração dos soldados, a abertura dos portos brasileiros a todas as nações e melhorias nas condições de vida da população menos favorecida que sofria com a fome e a miséria. Dentre os objetivos podemos destacar a presença de dois elementos novos que são encontrados na Inconfidência Mi- neira: o primeiro era a abolição da escravidão, este assunto não havia sido abordado quando da elaboração dos objetivos da Inconfi- dência Mineira, mesmo porque alguns de seus integrantes eram proprietá- rios de escravos. O segundo, a idéia de que, após a independência, deveria ser instaurada uma república democrática, o que não aconteceu sequer depois de proclamada, de fato, a independência do Brasil, em 1822. Ao longo dessa aula, pudemos observar as diferenças e se- melhanças entre a Inconfidência Mineira e a Baiana. Os dois movimentos apostavam na independência como forma de resolução dos problemas, que eram de naturezas diferentes nos dois ca- sos, ou seja, na revolta mineira havia uma situação de exploração direta e na baiana, exploração indireta provocando fome e miséria.O tratamento dado aos revoltosos pelo governo também foi parecido nas duas Inconfidências: em ambas os revoltosos foram presos e condenados e apenas os mais simples chegavam à morte. HISTÓRIA DO BRASIL I 75 UNIMES VIRTUAL Aula: 23 Temática: A Revolução Pernambucana Nesta aula estudaremos a Revolução Pernambucana, o últi- mo movimento separatista antes de proclamada a indepen- dência, em 1822. A Revolução Pernambucana aconteceu em 1817. A família real portuguesa estava no Brasil desde 1808 e, nesse momento, estava instalada no Rio de Janeiro. Algumas medidas já haviam sido tomadas a fim de transformar a colônia em um lugar propício à permanência da corte real portuguesa pelo período que fosse necessário. Tais medidas beneficiavam, especialmente, as províncias do sudeste, causando descontentamento entre as demais províncias, que contribuíam com os impostos, apesar de serem — segun- do elas mesmas — relegadas a um segundo plano. Ademais, os impostos aumentavam para sustentar o luxo da corte do rei D.João VI. O descontentamento das províncias do Nordeste tinha outras causas tam- bém. Uma delas foi a grande seca de 1816. Os preços do açúcar e do algo- dão — produtos importantes para economia da região — se encontravam em queda no mercado internacional. Assim como as Inconfidências Mineira e Baiana, este movimento teve caráter emancipacionista, ou seja, buscava a independência do Brasil. E, da mesma forma que a Inconfidência Baiana, seus organizadores se inspi- raram nos ideais da revolução francesa de igualdade, liberdade e fraterni- dade e da revolução americana. Participaram da Revolução Pernambucana intelectuais, padres e militares. Podemos citar como sendo alguns de seus líderes: Domingos José Mar- tins, o padre Miguelinho, Domingos Teotônio Jorge, o padre João Ribeiro Pessoa e José Luís de Mendonça. Eles se organizaram a fim de elaborar um plano para a revolução. Em 1817, denúncias levadas ao governador davam conta da iminência de uma revolução e, como conseqüência, prenderam-se os revoltosos. Mas, dessa vez, diferentemente das revoltas anteriores, houve uma reação. Os militares que participaram do movimento ignoraram as ordens do gover- nador, que, , por sua vez, refugiou-se no Forte Brum rendendo-se no dia 7 de março de 1817. HISTÓRIA DO BRASIL I76 UNIMES VIRTUAL Neste momento, constituiu-se um governo provisório, mas que durou pou- co. D. João VI tratou de enviar tropas a Pernambuco e, após muita luta, os revolucionários foram obrigados a se entregar. Houve uma repressão violenta. Todos os líderes foram presos e condenados à morte. As propostas dos revoltosos consistiam em proclamar a república, abolir alguns impostos, elaborar uma constituição, garantir liberdade religiosa e de imprensa e a igualdade de todos perante a lei. Algumas semelhanças com os movimentos anteriores de- vem ser apontadas. Assim como as Inconfidências Mineira e Baiana, esta revolta reivindicava a separação do Brasil, sendo brutalmente reprimida e seus líderes foram condenados à morte. Outro aspecto importante na repressão da época colonial era o requinte de crueldade utilizado várias vezes, com o objetivo de dar exemplos à população. Tiradentes foi esquartejado e as partes de seu corpo foram expostas em Minas como advertência para no- vas tentativas de rebelião.Os líderes da Conjuração Baiana foram enforcados em praça pública. Para os lí- deres da Revolução Pernambucana, o Governo portu- guês determinou que depois de mortos os réus tives- sem suas mãos cortadas e suas cabeças decepadas, sendo o resto dos cadáveres arrastados por cavalos até o cemitério.1 Mas algo novo aconteceu na Revolução Pernambucana. Foi a primeira vez que os revoltosos chegaram tão longe. Mesmo tendo sido delatados, conse- guiram cercar o governador obrigando-o a se refugiar e a se entregar. Além disso, conseguiram tomar o poder, estabelecendo um governo provisório. Não podemos deixar de ressaltar também que esta foi a pri- meira revolta que ocorreu com a presença da família real em território brasileiro, , sendo que, em parte, essa presença foi um dos fatores que impeliram o início da revolta. 1 GARCIA, C. Violência e movimentos sociais: opressão, repressão e resistência. Disponí- vel em: http://www.simonsen.br/novo/revista/violencia&movimentos.pdf. Acessado em: 26/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I 77 UNIMES VIRTUAL Aula: 24 Temática: O início da crise colonial Nesta aula abordaremos alguns fatores que levaram à crise do antigo sistema colonial e, por conseqüência, ao desman- telamento da estrutura colonial brasileira. O sistema colonial era constituído por um conjunto de relações entre a metrópole e a colônia. O sistema implantado por Portugal tinha por base o mercantilismo, isto é, um conjunto de práticas econômicas, vigentes nos séculos XVI, XVII e XVIII, que concebiam que a riqueza de um Estado era constituída pela quantidade de metais preciosos. O Estado, segundo as idéias mercantilistas, deveria dirigir a economia, sendo caracterizado, portanto, como um Estado intervencionista. As intenções colonialistas do Estado português eram de exploração ao máximo das riquezas americanas. No Brasil, essa exploração ocorreu em todo período colonial, na extração do pau-brasil, na produção de açúcar e na mineração, principalmente. Enquanto existiam interesses comuns entre as elites coloniais, as elites portu- guesas e a política econômica de Portugal, o sistema conheceu certa estabili- dade. Podemos dizer que essa establidade durou entre os séculos XVI e XVII. Com o tempo, começaram a aparecer tensões entre a colônia e a metró- pole. Portugal se preocupava somente em explorar a colônia, sem criar condições de desenvolvimento. A partir de determinado momento, a me- trópole não conseguiu mais conter a necessidade de desenvolvimento das elites coloniais, que enriquecia com a exploração e começavam a ter cons- ciência, sobretudo, de que poderiam enriquecer ainda mais se deixassem de sustentar o Estado e as elites portuguesas. De certo modo, pode-se dizer que a crise do sistema colonial deveu-se, em parte, a uma pressão interna de desenvolvimento e progresso que o Esta- do português tentou conter. No ano de 1751, a coroa portuguesa proibiu os profissionais de ourivesaria de exercerem seu trabalho. Em 1785, foi a vez das manufaturas têxteis serem proibidas, com exceção do algodão gros- seiro que servia para a produção de roupas para os escravos. Todo tecido consumido pela colônia deveria ser importado. A instalação de indústrias do ferro foi proibida até o ano de 1795 e os colonos foram obrigados a importar suas ferramentas. Isso sem falar das proibições relacionadas à imprensa e ao comércio de livros. HISTÓRIA DO BRASIL I78 UNIMES VIRTUAL Mas não foram somente as tentativas de contenção do de- senvolvimento da colônia que contribuíram para o agrava- mento da crise. A Inglaterra também contribuiu, e muito, para isso. Com a revolução industrial, aumentou a procura por matérias- primas e por novos mercados consumidores por parte das indústrias in- glesas. O Brasil, assim como outras colônias americanas, apresentavam um grande potencial tanto como fornecedor de matérias-primas como mercado de consumo. Todavia, devido ao sistema colonial, Portugal tinha o monopólio de todo o comércio da colônia, bem como o controle sobre todas as atividades econômicas. Criou-se, assim, neste momento, um em- bate entre o capitalismo industrial e o sistema colonial baseado nas idéias mercantilistas. Todavia, a Inglaterra, auxiliada por acontecimentos externos, conseguiu atingir seus objetivos em relação ao Brasil. Napoleão Bonaparte governava a França e praticava uma política expansionista na Europa. Napoleão ame- açou invadir Portugal, e o rei D. João VI achou que a coisamais prudente a fazer seria fugir para o Brasil. Para isso, o rei e a sua corte contaram com a ajuda dos ingleses que, em troca, reivindicaram algumas mudan- ças no pacto colonial. Chegando ao Brasil, o rei de Portugal, cumprindo a sua parte, tratou de assinar alguns tratados, dentre os quais o que abria os portos brasileiros às nações amigas do reino português — ou seja, a Inglaterra — e prometeu que acabaria progressivamente com o comércio de escravos. O Pacto colonial Nesse pacto, também designado como sistema co- lonial, o modelo adotado foi, na sua totalidade, o decorrente da prática do mercantilismo [...] Particu- larmente no tocante à península Ibérica — Espanha e Portugal — o sistema mercantilista, configurado entre colônia e metrópole, estabelecia que a primei- ra só produziria o que a segunda pudesse revender no mercado europeu. Além do mais, ficava ainda a colônia intimada a limitar suas atividades industriais, a fim de que a sociedade colonial fosse compelida a adquirir manufaturados da metrópole.1 1 AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. Op.cit., p.295, 296. HISTÓRIA DO BRASIL I 79 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade III Nesta unidade, estudamos a organização do poder na colô- nia, as diversas rebeliões que ocorreram no Brasil, no perío- do colonial, algumas com inspiração nativista e outras com caráter emancipacionista. Estudamos também o início da crise do sistema colonial. Vimos que Portugal deu início ao povoamento da colônia, após 1530, com as diversas expedições exploratórias e que a primeira tentativa de orga- nizar a ocupação foram as capitanias hereditárias, cujos donatários eram uma espécie de investidores particulares e tinham poderes administrativos e judiciais. Com o fracasso da experiência das capitanias, a coroa adotou a centralização administrativa, criando o Governo Geral. Depois, estudamos os movimentos e rebeliões realizados no Brasil durante o período colonial. Estudamos a Aclamação de Amador Bueno como rei, em São Paulo, um movimento realizado por comerciantes que não queriam que seus negócios com as colônias espanholas do sul fossem interrompi- dos: a Rebelião de Beckman cujos participantes lutaram contra a fome e a miséria geradas pela saída dos holandeses do Maranhão; a Guerra dos Emboabas pela disputa das terras mineiras para a mineração; a Guerra dos Mascates, que foi uma disputa entre os proprietários rurais de Olin- da e os comerciantes de Recife; a Revolta de Vila Rica que tinha como objetivo a luta contra a fiscalização e a tributação excessiva da coroa portuguesa. Finalmente, estudamos os movimentos de caráter emancipa- cionista: a Inconfidência Mineira com o enforcamento de Tiradentes; a Inconfidência Baiana inconformada, também, com a miséria e a fome; e a Revolução Pernambucana na qual, pela primeira vez, houve reação dos revoltosos contra as investidas do governo. Assim, pudemos observar algumas semelhanças e diferenças entre estas rebeliões e quais foram as atitudes tomadas pelo governo colonial quando se tratavam apenas das classes menos favorecidas e quando estavam envolvidos elementos da classe dominante. HISTÓRIA DO BRASIL I 79 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade III Nesta unidade, estudamos a organização do poder na colô- nia, as diversas rebeliões que ocorreram no Brasil, no perío- do colonial, algumas com inspiração nativista e outras com caráter emancipacionista. Estudamos também o início da crise do sistema colonial. Vimos que Portugal deu início ao povoamento da colônia, após 1530, com as diversas expedições exploratórias e que a primeira tentativa de orga- nizar a ocupação foram as capitanias hereditárias, cujos donatários eram uma espécie de investidores particulares e tinham poderes administrativos e judiciais. Com o fracasso da experiência das capitanias, a coroa adotou a centralização administrativa, criando o Governo Geral. Depois, estudamos os movimentos e rebeliões realizados no Brasil durante o período colonial. Estudamos a Aclamação de Amador Bueno como rei, em São Paulo, um movimento realizado por comerciantes que não queriam que seus negócios com as colônias espanholas do sul fossem interrompi- dos: a Rebelião de Beckman cujos participantes lutaram contra a fome e a miséria geradas pela saída dos holandeses do Maranhão; a Guerra dos Emboabas pela disputa das terras mineiras para a mineração; a Guerra dos Mascates, que foi uma disputa entre os proprietários rurais de Olin- da e os comerciantes de Recife; a Revolta de Vila Rica que tinha como objetivo a luta contra a fiscalização e a tributação excessiva da coroa portuguesa. Finalmente, estudamos os movimentos de caráter emancipa- cionista: a Inconfidência Mineira com o enforcamento de Tiradentes; a Inconfidência Baiana inconformada, também, com a miséria e a fome; e a Revolução Pernambucana na qual, pela primeira vez, houve reação dos revoltosos contra as investidas do governo. Assim, pudemos observar algumas semelhanças e diferenças entre estas rebeliões e quais foram as atitudes tomadas pelo governo colonial quando se tratavam apenas das classes menos favorecidas e quando estavam envolvidos elementos da classe dominante. HISTÓRIA DO BRASIL I84 UNIMES VIRTUAL Aula: 25 Temática: Sintomas da crise Nesta aula apresentaremos os sintomas que levaram à crise do antigo sistema colonial. Analisaremos os vários fatores, internos e externos, que resultaram no agravamento da si- tuação colonial no Brasil. A atitude de Portugal perante a crise será outro ponto destacado. Os sintomas iniciais da crise no Brasil puderam ser observados com as revoltas de caráter emancipacionista, como as Inconfidências Mineira e a Baiana, além da Revolta Pernambucana. Neste período, as idéias iluminis- tas e liberais rondavam as mentes dos revoltosos brasileiros e criaram a base para as teorias que sustentaram a futura independência. Alguns acontecimentos externos contribuíram para a decadência do anti- go sistema colonial. Um deles — e acredito ser o mais importante — foi a Revolução Industrial que alterou a estrutura da produção e comercialização dos produtos e impulsionou o liberalismo econômico, que defendia princí- pios radicalmente opostos às práticas mercantilistas. As idéias iluministas também fizeram parte deste conjunto de idéias novas, bem como a Inde- pendência dos Estados Unidos, no ano de 1776. No âmbito interno, pode-se dizer que a vinda da família real para o Brasil foi fator decisivo para o acirramento da crise. A quebra do monopólio da coroa e o atendimento aos interesses da elite agrária brasileira contribuí- ram para o enfraquecimento do sistema colonial. Todas essas mudanças provocaram um afrouxamento dos laços econô- micos, políticos e ideológicos da colônia com a metrópole. No caso de Portugal, este enfraquecimento foi agravado pela decadência econômica e militar, ou seja, a metrópole não mais estava suprindo a colônia em relação as suas necessidades comerciais. A mineração também foi um dos fatores que contribuíram para o agra- vamento da situação. Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, o go- verno português incrementou a estrutura administrativa que fiscalizava e recolhia os impostos, aumentando o controle metropolitano nas áreas militares, tributárias e jurídicas. O arrocho do controle, da fiscalização e da arrecadação provocou as revoltas contra as autoridades portuguesas como a Inconfidência Mineira e a Revolta de Vila Rica. HISTÓRIA DO BRASIL I 85 UNIMES VIRTUAL A industrialização foi um fator de aprofundamento da crise entre colônia e metrópole: Como conciliar o desenvolvimento das indústrias que se tornavam tão importantes para Portugal com o blo- queio das atividades similares na Colônia? Eis uma questão que se poria diante do talento de qualquer intelectual que se pusessea pensar a reconciliação possível entre dois mundos que se tornavam, gradativamente, antípo- das. Revolução Industrial, Revolução Americana, Re- volução Francesa, inconfidência Mineira, Conjuração Baiana, Revolução Pernambucana, Bloqueio Conti- nental, Bloqueios Marítimos, Contra-bloqueios, movi- mentação de tropas, invasões territoriais, pressões diplomáticas, um torvelinho avassalador de aconteci- mentos, eis o mundo de Cairu. O ouro desabou, o açú- car encolheu, mas o algodão, os couros, o tabaco, o açúcar, o arroz, o cacau, o café, as drogas do sertão, ocuparam o seu lugar. As exportações coloniais não rendiam mais 5 milhões de esterlinos. No máximo 4 milhões, mas eram distribuídas de uma forma mais intensa, ativando a distribuição de renda, reforçando os mercados regionais com diferenciados níveis de relações de trabalho, que iam da escravidão ao tra- balho livre, passando por formas intermediárias, que dinamizavam o fluxo interno de renda e levavam à constituição de um mercado interno integrado na Co- lônia1, condição primeira para o surgimento do Estado Nacional. 1 NOVAIS, Fernando e ARRUDA, Jobson de A. Prometeus e Atlantes na forja da nação. Disponível em: www.eco.unicamp.br. Acessado em 26/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I86 UNIMES VIRTUAL Aula: 26 Temática: Revolução Industrial Nesta aula estudaremos a Revolução Industrial, destacando a importância para a época, as transformações que causa- ram e o impacto que teve no amadurecimento das idéias de Independência do Brasil. Uma revolução pode ser definida como uma grande mudança, em que a antiga maneira de agir, pensar ou fazer as coisas é substituída por uma nova, considerada mais moderna. Dito de modo simplificado, a revolução industrial foi substituição das ferramentas manuais por máquinas, da ener- gia humana pela energia do vapor e da produção doméstica pela fabril. Porém, a Revolução Industrial foi mais do que isso. Esse termo designa as profundas transformações econômicas e sociais provocadas pela mecani- zação da produção, iniciada na Inglaterra no século XVIII e, posteriormen- te, disseminada pelo mundo. A Revolução Industrial teve um grande impacto na estrutura das socieda- des que se industrializavam, alterando as relações de trabalho, as relações de consumo e a estrutura das classes sociais. Para o Brasil, a Revolução Industrial foi um fator de estímulo para a inde- pendência de Portugal, ainda que de forma indireta, pois indústria não se desenvolveu no Brasil do século XVIII devido à proibição imposta por Por- tugal. Após a independência, o desenvolvimento das indústrias também não foi estimulado, dada a concorrência com os produtos da Inglaterra. Sem indústrias próprias e com muitas riquezas naturais, nosso país era almejado pelos ingleses como potencial mercado consumidor de produtos industriais e mercado fornecedor de matérias-primas. Para isso, o sistema colonial tornava-se um entrave, uma vez que Portugal possuía o monopólio da exploração colonial. O monopólio, assim como o trabalho escravo, eram alguns dos pilares estruturais do sistema colonial. Assim, a Inglaterra passou a ser um dos maiores interessados na nossa independência e não poupou esforços para concretizar seus interesses. Portanto, pode-se dizer que a Revolução Industrial contribuiu para a emancipação política do Brasil, pois fez da Inglaterra — o país mais poderoso da época e do qual Portugal depen- HISTÓRIA DO BRASIL I 87 UNIMES VIRTUAL dia — um aliado para nossa emancipação. Além disso, criou na elite agrária brasileira a idéia de que, sem a interferência de Portugal e fazendo comércio diretamente com a Inglaterra, todos os nossos problemas de desenvolvi- mento poderiam ser solucionados e os lucros poderiam ser bem maiores. Em suma, com a Revolução Industrial criou-se uma nova ordem econô- mica, o que gerou a crise do antigo sistema colonial fazendo com que as metrópoles repensassem sua forma de domínio. Portugal, por sua vez, não estava interessado em mudar sua maneira de lidar com a colônia. Mas a Inglaterra tratou de “convencê-lo” do contrário. Nesta época, com a política ex- pansionista de Napoleão Bonaparte, Portugal corria perigo. Para a família real portuguesa, o ideal seria retirar-se do país. O Brasil tornou-se uma opção de refúgio para a corte portuguesa. Os ingleses, então, apoiaram e escoltaram a família real e a corte até o Brasil. Em troca dessa ajuda, os ingleses passaram a pressionar os portugueses a fim de que lhes conce- dessem algumas regalias. Seus pedidos foram então atendidos. Os portos do Brasil foram abertos às nações amigas, as taxas alfandegárias para os produtos ingleses foram renovadas, tornando-se menores até mesmo que as taxas cobradas dos produtos e o rei prometeu procurar alternativas para acabar com o tráfico de escravos. HISTÓRIA DO BRASIL I88 UNIMES VIRTUAL Aula: 27 Temática: A chegada da família real ao Brasil Nesta aula analisaremos a chegada da família real ao Brasil em 1808: a viagem, as mudanças geradas na colônia, os acordos firmados e os benefícios para nosso país. Podemos dizer que, a partir da vinda da família real, intensificou-se a idéia de inde- pendência. Como já vimos, a decisão de embarcar a família real portuguesa e a corte para o Brasil foi motivada pela ameaça de invasão de Napoleão Bonaparte, imperador da França. A invasão era uma represália ao governo português que se recusou a aderir ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão contra a Inglaterra. Na verdade, a economia portuguesa era dependente da economia inglesa, portanto, aceitar as imposições de Napoleão significava a bancarrota para o reino lusitano. Desse modo, não seria um erro dizer que D.João VI estava encurralado. E, também, não seria um erro afirmar que a fuga para o Brasil foi uma solução para o impasse em que se encon- trava o monarca. Portugal vivia neste período uma situação interna de dificuldades admi- nistrativas e políticas. Desde 1703, com o tratado de Methuen, a Inglater- ra passou a exercer certo domínio econômico sobre Portugal. Vendo-se diante da ameaça de invasão e sem condições de resistir, os portugueses trataram de pedir ajuda a seus “sócios” nos negócios. Mas os ingleses somente aceitaram ajudá-los com a assinatura de uma convenção secre- ta, por meio da qual Portugal se comprometia a realizar certos interesses ingleses. Um deles foi a ocupação da Ilha da Madeira pelos ingleses. No final de 1807, a família real portuguesa, juntamente com a corte, sob a proteção de navios ingleses, iniciou sua aventura para a colônia brasilei- ra. Mas a viagem não foi nada fácil. Os navios estavam com excesso de passageiros e sem as necessárias condições de higiene. A comida teve de ser racionada, pois eram muitas bocas a serem alimentadas. Um dos fatos que demonstram a precariedade da viagem foi o surto de piolho que aco- meteu os passageiros que forçou todos a rasparem a cabeça e utilizarem um lenço para cobri-la, inclusive D. Carlota Joaquina, a esposa de D. João VI. Enfim, chegaram ao Brasil, aportando em Salvador, no início de 1808. Posteriormente, o príncipe-regente e parte da comitiva seguiram para o Rio de Janeiro. HISTÓRIA DO BRASIL I 89 UNIMES VIRTUAL A colônia possuía uma infra-estrutura precária e as dificuldades para ins- talar a corte, composta de cerca de 12 mil pessoas, foram muitas. Houve um agravamento nas condições já insuficientes de infra-estrutura, ou seja, escassez de moradias, água, saneamento e saúde. Depois de instalados, D. João VI tomou as medidas necessárias para cum- prir os acordos com a Inglaterra e para transformar o Rio de Janeiro num lugar adequado para abrigar a familiar real e sua corte. Entre as medidas adotadas podemos citar: a abertura dos portos às nações amigas, insta- lação e o funcionamentode estabelecimentos industriais e manufaturas; fundação do Banco do Brasil, da Escola da Marinha, da Escola médico- cirúrgica e da imprensa régia. Em 1810, criou a Academia Real Militar e a Biblioteca Real. A época de D. João VI, os treze anos de permanência da corte no Brasil, foi um momento ímpar na colo- nização ultramarina. Os cariocas conviveram mais de perto com músicos estrangeiros, com viajantes e comerciantes de várias nações, com os requintes e a ostentação da corte e com os cantores castrados. A partir da instalação da Família Real, entraram também em cena o gosto do príncipe, do rei e dos nobres junto às festividades que a eles se dirigiram. Não somente a música, mas também a arquitetura, o vestuário, as técnicas artísticas, os projetos literários e outras prá- ticas da vida cotidiana. Enfim, toda a vida carioca no seu universo mais particular e próximo ao costume cortesão tomou outro rumo.1 1 MONTEIRO, Maurício. As Engenhosas Moralidades:Uma suíte na Corte do Rio de Janeiro (1808-1821). Disponível em: http://nuevomundo.revues.org/document3821. html?format=print. Acessado em: 27/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I90 UNIMES VIRTUAL Aula: 28 Temática: Tratados com a Inglaterra Na aula de hoje analisaremos os tratados assinados entre a Inglaterra e a coroa portuguesa quando já estavam no Bra- sil, principalmente, os Tratados de 1810. Vamos analisar os conteúdos, os beneficiários e as conseqüências para o Brasil. A abertura dos portos às nações amigas atendia à parte dos interesses in- gleses em conquistar o mercado consumidor brasileiro. Porém, sobretudo, esse ato quebrava o monopólio colonial português. Ao tratado de abertura do portos, seguiram-se outros que atendiam aos interesses ingleses. Em 1810, foi assinado o Tratado de Comércio e Nave- gação que estabeleceu que a taxa alfandegária sobre os produtos ingleses vendidos no Brasil seria de 15% contra os demais países que deveriam pagar 24%. Essa taxa era ainda menor que a cobrada sobre os produtos portugueses que deveriam pagar uma taxa de 16%. A equiparação entre as taxas alfandegárias inglesas e portuguesas só foi conseguida no ano de 1816, ou seja, durante seis anos a Inglaterra teve seus produtos baratea- dos para os consumidores brasileiros. Tempo suficiente para que a popula- ção se acostumasse com estes produtos e desse preferência a eles. Além das facilidades para a importação, os portugueses permitiram tam- bém que os ingleses não fossem julgados pelos tribunais e pelas leis portu- guesas em vigor na colônia. Foram criados tribunais especiais para julgar os cidadãos ingleses. Outro acordo firmado entre Inglaterra e Portugal foi a autorização da per- manência em águas brasileiras de uma esquadra inglesa. Este caso, em especial, revela como os portugueses haviam se tornado dependentes da Inglaterra, uma vez que não podiam abrir mão da escolta inglesa para a proteção da costa brasileira. Todos estes tratados foram renovados em 1827 e ficaram em vigor até o ano de 1843. Verificamos, então, que todos estes tratados tinham como objetivo beneficiar os ingleses, mesmo para que isso fosse necessário prejudicar a importação dos produtos portugue- ses. A necessidade inglesa por mercados consumidores e produtores de matérias-primas era tão grande que acabava por pressionar os portugue- ses a fim de transferir seus domínios, não de fato, mas economicamente para suas mãos. HISTÓRIA DO BRASIL I 91 UNIMES VIRTUAL Aceitando estes tratados, Portugal, teoricamente, estava entregando sua colônia aos ingleses, pois quem lucrou com a vinda da família real para o Brasil, além dos brasileiros, que tiveram maiores possibilidades de lutarem por sua independência, foram também os ingleses que adquiriram mais mercados para seus produtos. HISTÓRIA DO BRASIL I92 UNIMES VIRTUAL Aula: 29 Temática: Alternativas para a crise Nesta aula estudaremos as alternativas criadas para a crise e como os brasileiros reagiram às tentativas de recoloniza- ção do Brasil por parte de Portugal . Vamos imaginar como estava o Brasil no início dos anos de 1800. A vinda da família real portuguesa despertou descontentamentos, pois os brasilei- ros, principalmente as elites, estavam sustentando todo o luxo da família real e da corte — como se sabe, os nobres não trabalhavam, pois trabalhar nesta época era relegado às pessoas de classes sociais inferiores, o traba- lho era desvalorizado, até mesmo o lucrativo comércio. Com a derrota de Napoleão Bonaparte, Portugal reorganizou o seu governo e tentava reorganizar o país. Especialmente, a classe mercantil se ressen- tia com os efeitos da Abertura dos Portos. O país enfrentava problemas econômicos. O descontentamento que começou na cidade do Porto se disseminou, atingindo a capital, Lisboa. O clero, nobreza e o exército por- tuguês se reuniram para reivindicar o retorno imediato do rei — restauran- do, assim, a dignidade metropolitana — a implantação de uma monarquia constitucional e a restauração da exclusividade comercial do Brasil com Portugal, ou seja, a restauração do monopólio comercial, que, na prática, significava o restabelecimento do Pacto Colonial. Foram convocadas as Cortes de Lisboa — Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa — para a elaboração de uma nova Constituição para Portugal. Esse movimento ficou conhecido como a Revo- lução Liberal do Porto ou, simplesmente, Revolução do Porto. A Revolução do Porto aconteceu em 1820. Enquanto isso, no Brasil, havia uma aristocracia rural dividida. Um grupo minoritário era a favor da inde- pendência imediata de Portugal. Outro grupo majoritário era favorável à manutenção da união com a metrópole, mas com certa autonomia. Por um bom tempo permaneceu a vontade do grupo majoritário, mas aos poucos, e como decorrência de uma série de acontecimentos, a idéia da separação começou a ganhar mais adeptos. A Revolução do Porto colaborou muito com essa adesão, uma vez que demonstrava que a manutenção dos laços coloniais eram incompatíveis com a autonomia econômica. HISTÓRIA DO BRASIL I 93 UNIMES VIRTUAL O receio da classe dominante brasileira em promover a independência imediata do Brasil era o temor de que a separação desencadeasse um processo revolucionário que colocaria em risco seus privilégios. Como se viu, após a independência, este receio era infundado. De início, a indepen- dência não provocou mudanças estruturais na economia do Brasil. Alguns aspectos devem ser destacados nessa aula. A elite agrária brasileira, no período colonial, não era homogênea em seus pensamentos. Existiam aqueles que almejavam uma independência imediata e aqueles que defendiam uma união parcial com Portugal como solução para perpetuação de seus privilégios. Em síntese, quando a elite agrária brasileira percebeu que o novo governo português não abriria mão das riquezas e dos lucros que o Brasil gerava e que, realmente, poderia re- conquistá-lo, passou a temer esta união e a apoiar o grupo minoritário que reivindicava, desde o início, a independência total do Brasil de Portugal a fim de garantir a sobrevivência de seus privilégios e lucros. HISTÓRIA DO BRASIL I94 UNIMES VIRTUAL Aula: 30 Temática: Colapso do regime Nesta aula apresentaremos alguns fatores que levaram ao colapso do sistema colonial. Destacaremos os fatores inter- nos e externos que favoreceram a crise e, por conseqüência, a possibilidade para o Brasil de declarar sua independência de Portugal. O colapso do sistema colonial não se realizou de uma hora para outra. Foi um processo que englobou vários acontecimentos internos e externos. Alguns aspectos das relações coloniais sobreviveram mais tempo do que outros, mas, ao final, ocorreram mudanças profundas no comércio e na economia mundial que tornaram insustentáveisos antigos vínculos coloniais. A pressão inglesa pelo aumento dos mercados consumidores foi um dos fatores externos que favoreceram o colapso. Essa pressão foi o resultado da Revolução Industrial e do aumento na produção de produtos manufatu- rados, que, como já vimos, exigiu o aumento dos mercados fornecedores de matérias-primas e dos mercados consumidores. Como já vimos, também, o liberalismo econômico que sustentou a indus- trialização se opunha fortemente às práticas mercantilistas, que, por sua vez, caracterizavam o sistema colonial. Essa tem sido a interpretação tradicional da independência do Brasil re- lacionada ao colapso do sistema colonial. Entretanto, a historiografia tem produzido novas interpretações: Na raiz da cultura política da Independência, diz Lúcia Bastos, encontrava-se a idéia do império luso-bra- sileiro. Cultivada na corte portuguesa por ministros ilustrados, como o conde de Linhares, essa idéia ga- nhara força no final do século XVIII como uma espécie de antídoto aos temores gerados pela independência das colônias inglesas da América e pela Revolução Francesa. Partilhada pelas elites dos dois lados do Atlântico, a idéia do império luso-brasileiro só veio a se revelar como ponto de conflito depois da vinda de D. João VI para o Brasil. A partir de então, a disputa com Portugal pelo direito de sediar a monarquia e suas instituições superiores, levaria à Independência do Brasil. Foi o aprofunda- HISTÓRIA DO BRASIL I 95 UNIMES VIRTUAL mento da discussão em torno do formato que deveria assumir o império luso-brasileiro, a partir da Revolu- ção do Porto (1820), que colocou em questão a sua integridade. Assim, conclui Lúcia Bastos, a Independência foi o resultado da disputa pela hegemonia entre o Brasil e Portugal no interior do vasto império luso-brasileiro. Foi em torno das palavras União e Independência que se construiu, ao longo do ano de 1822, o discurso político no Brasil. Se o que predominou inicialmente foi a defesa da integridade do império luso-brasileiro, com a Independência esse objetivo deslocou-se para a luta pela integridade do novo império brasileiro. Envolvendo apenas um público reduzido, formado pe- las elites e por um pequeno número de homens livres e movimentando idéias que faziam parte de um uni- verso mental comum, a Independência não foi uma revolução. Ela resultou, na verdade, de um processo que evoluiu no dia-a-dia em função do jogo de ações e reações entre um recém-instituído legislativo reuni- do em Lisboa para elaborar a constituição portuguesa e as elites brasileiras.1 1 LUSTOSA, Isabel. Uma história da Independência. Disponível em: http://pphp.uol.com. br/tropico/html/textos/1769,1.shl. Acessado em: 27/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I96 UNIMES VIRTUAL Aula: 31 Temática: Mudanças e permanências Na aula de hoje estudaremos as tentativas de Portugal em fazer com que o Brasil permanecesse sob seu domínio e as mudanças que estavam ocorrendo no mundo e que torna- ram essas tentativas inviáveis. Os aristocratas brasileiros queriam a independência, mas sem mudanças, ou seja, queriam se ver livres do domínio português, que os impedia de obter seus lucros por completo, mas queriam permanecer com seus privi- légios: poder político, latifúndio e escravidão. Outra preocupação era man- ter a unidade nacional. Eles temiam que as rebeliões levassem a novas divisões territoriais que pusessem em risco as diversas riquezas a serem exploradas e descobertas no Brasil. Todavia, para a manutenção da unidade nacional era preciso superar e conciliar as múltiplas divergências existentes entre a elite rural brasileira. Havia divergências entre os representantes das elites sobre como deveria se dar a independência. Alguns desejavam que se proclamasse a República, como todos haviam feito na América. Outros pensavam que a ruptura com Portugal deveria ser da maneira mais tranqüila possível para evitar que surgissem propostas radicais, como a de abolir a escravidão ou mudar a estrutura da posse da terra. O grupo que apoiava esta última idéia tomou a fren- te do movimento, conduzindo todas as ações para conseguir uma independência que tivesse um caráter conservador. O que se pretendia, e que foi afinal realizado, era uma separação política em relação a Portugal, mantendo- se as estruturas sociais e econômicas sem qualquer mudança. Para isso, os representantes das elites entenderam que seria da mais alta importância contar com o prín- cipe D. Pedro, mesmo sendo ele português.� � AGUIRRE, Eliane. Os processos de independência na América Latina. Disponível em: http://www.semina.clio.pro.br/4-�-2006/Eliane%20Aguirre.pdf. Acessado em 27/09/07. HISTÓRIA DO BRASIL I 97 UNIMES VIRTUAL A solução de permanência de D. Pedro I não agradou aos portugueses. Eles queriam de volta os seus privilégios comerciais e fariam de tudo para consegui-los. Uma das táticas utilizadas por Portugal foi tentar enfraquecer a autoridade de D. Pedro E, para isso, passaram a exigir o seu retorno a Portugal. Tentaram retomar o controle por meio de algumas medidas como pelo decreto que reunia em uma só entidade os exércitos brasileiro e português ou pela extinção dos tribunais estabelecidos no Brasil por D. João VI e, ainda, pela nomeação para cada província brasileira de um governador de armas diretamente sujeito a Lisboa. O Brasil precisava responder a essas medidas e, se possí- vel, como desejava grande parte das elites brasileiras, num processo que não provocasse profundas rupturas. Um figu- ra essencial nesse processo foi José Bonifácio, considerado por muitos como o articulador da nossa independência. O primeiro passo foi “obrigar” D. Pedro a ficar no Bra- sil, pois as Cortes estavam exigindo sua volta. Pres- sionado, ele concordou em ficar (janeiro de 1822 – o Dia do Fico). Em seguida, o ministro José Bonifácio procurou fortalecer a autoridade do príncipe, ao mes- mo tempo em que entava convencê-lo da indepen- dência. O passo seguinte foi retirar a tropas portuguesas que ficavam no Rio e que poderiam atrapalhar os planos. José Bonifácio conseguiu que D. Pedro expulsasse o comandante português. [...] No dia primeiro de agosto, José Bonifácio redigiu um manifesto às varias províncias. Nesse manifesto, as- sinado por D. Pedro, comunicava-se que a indepen- dência já era realidade e conclamava-se a todos para lutarem por ela. Cinco dias depois, um novo manifesto foi enviado, desta vez às nações amigas. Novamente comunica- va-se que o Brasil estava independente de Portugal e pedia-se o apoio dessas nações, que poderiam ser beneficiadas com privilégios comerciais. Finalmente, a sete de setembro, ocorreu o famoso “Grito do Ipiranga”. Ali, na realidade, D. Pedro tornou público o seu rompimento com as Cortes, definindo que iria ficar no Brasil, como imperador.2 2 AGUIRRE. Eliane. Op.cit.. HISTÓRIA DO BRASIL I98 UNIMES VIRTUAL Aula: 32 Temática: A Independência do Brasil Nesta aula discutiremos a Independência do Brasil ocorrida em 7 de setembro de 1822: os antecedentes imediatos, as atitudes dos portugueses e dos brasileiros, as mudanças concretas provocadas e as conseqüências para a vida dos habitantes da ex-colônia. Iniciaremos com o contexto português. Após a vinda da família real para o Brasil, Portugal passou por profundas dificuldades. No ano de 1820, como vimos, estourou a Revolução do Porto. Portugal estava sendo governado pelas Cortes de Lisboa — o parlamento — que representavam os inte- resses das elites portuguesas. Seu objetivo principal era a recuperação econômica do reino, o que seria alcançado, segundo eles, com a recoloni- zação do Brasil. Para isso, as cortes exigiram o retorno de D. João VI, para assumir seu trono em 1821. D. João VI retornou,mas deixou no Brasil seu filho mais velho, o príncipe D. Pedro. Os portugueses, então, tentaram enfraquecer a autoridade de D. Pedro no Brasil e resolveram chamá-lo também de volta à metrópole. A idéia de recolonizar o Brasil fez surgir o Partido Português, reunindo, principalmente, comerciantes portugueses apoiados pelas guarnições mi- litares, que eram contrários à autonomia administrativa e à abertura eco- nômica decretadas por D. João VI. Em oposição a esse partido, nasceu o Partido Brasileiro, constituído, principalmente, pela aristocracia rural que defendia a manutenção da liberdade econômica e da autonomia adminis- trativa conquistadas durante o período joanino. Mas não defendia a sepa- ração de Portugal. O Partido Brasileiro elaborou um documento solicitando a D. Pedro que per- manecesse no Brasil. Em 9 de janeiro de 1822, D Pedro aceitou a proposta do documento declarando que ficaria no Brasil. Este dia ficou conhecido como o Dia do Fico. Mais que rapidamente, D. Pedro, aconselhado por pessoas de sua confian- ça, redigiu um decreto que continha as ordens vindas de Portugal. Estas deveriam receber o “cumpra-se” de D. Pedro antes de serem colocadas em vigor. As cortes de Lisboa reagiram e anularam a Assembléia Constituinte, exigindo seu retorno imediato a Portugal. HISTÓRIA DO BRASIL I 99 UNIMES VIRTUAL D. Pedro recebeu essas notícias numa carta, que lhe foi entregue durante sua viagem a São Paulo. E foi assim que, a 7 de setembro de 1822, em São Paulo, às margens do riacho do Ipiranga, D. Pedro proclamou nossa Independência com as conhecidas palavras: “Independência ou Morte”. No dia 1º de dezembro de 1822, no Rio de Janeiro, D. Pedro foi aclamado imperador e coroado com o título de D. Pedro I. A independência não teve um caráter popular. Foi um ato da classe dominante que procurava a melhor alternativa política para satisfação dos seus interesses. A libertação dos escravos, por exemplo, era defendida por alguns setores, todavia, mi- noritários. A abolição da escravidão e a república foram deixadas em um segundo plano, em prol da unidade em torno da separação. A independência teve como objetivo preservar a liberdade de comércio e a autonomia administrativa do país. Segundo alguns, o Brasil se libertou dos laços coloniais portugueses para permanecer sob o domínio do capi- talismo da Inglaterra. Alguns aspectos devem ser destacados. Em primeiro lugar, pode-se considerar que foi somente quando a classe domi- nante brasileira começou a ter prejuízo com a dominação colonial portuguesa é que começaram a cogitar a idéia de independência. Se na recolonização eles continuassem a obter os mesmos lucros acredito que nada teria acontecido. Em segundo, destaca-se justamente a ausência de participação popular, ou seja, a independência do Brasil não alterou as condições de miséria da população. Em síntese, a Independência do Brasil foi um movimento elitista que visa- va garantir os privilégios econômicos e sociais da classe dominante. HISTÓRIA DO BRASIL I100 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade IV Nesta unidade vimos a crise do antigo sistema colonial e, ao mesmo tempo, as tentativas de recolonização que resulta- ram na Independência do Brasil. Iniciamos abordando os aspectos internos e externos que levaram à crise. Citamos as rebeliões que ocorreram no Brasil, a Revolução Industrial, as pressões da Inglaterra para obter mais mercados consumidores e fornece- dores de matéria-prima. Abordamos os tratados assinados entre Portugal e Inglaterra que visavam, dentre outras coisas, ao favorecimento da entrada dos produtos ingleses no Brasil, além de privilégios para os ingleses residentes no país. Abordamos também a vinda da família real, que foi um acontecimento muito importante que se somou à crise que levou à independência do Bra- sil de Portugal. Referências Bibliográficas FAORO, Raimundo. Os donos do Poder. Porto Alegre: Globo, 1979. LAPA, José Roberto do Amaral. O antigo sistema colonial. São Paulo: Brasiliense, 1982. NOVAES, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colo- nial (1777-1815). São Paulo: Hucitec, 1979. NOVAES, Fernando. O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Difel, 1975.