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Coleção Diálogos Intempestivos 2003 Copyright by José Gerardo Vasconcelos SOBRE os AUTORES Impresso no Brasil / Printed in Brazil Efetuado depósito legal na Biblioteca Nacional Ana Nery Marinho Craveiro TODOS os DIREITOS RESERVADOS Mestrando em educação Brasileira, da Universidade Federal Editora Universidade Federal do Ceará UFC Av. da Universidade, 2995 Benfica - Fortaleza Ceará do Ceara. anacraveiro@ig.com.br CEP 60020-181 - Tel/Fax: (085) 288.7439 Angélica Maria Santos Luz Internet.: www.editora.ufc.br e-mail.: editora@ufc.br Mestrando em educação Brasileira, da Universidade Federal Endereço da Faculdade de Educação do Ceará. agélicamsl@ig.com.br Rua Waldery Uchoa, n° 1, Benfica - CEP 60020-110 Antonia Lis de Maria Martins Torres Telefones: (85) 288-7663 / 288-7665 / 288-7667 - Fax:: (85) 288-7666 Pedagoga e Mestranda do Programa de Pós-graduação em Edu- Distribuição: Fone: (85) 214-5129 e-mail: aurelio-Fernandes@ig.com.br cação Brasileira da FACED/UFC. alizmaria@yahoo.com.br Divisão de Editoração Antonio Germano Magalhães Junior PRODUÇÃO EDITORIAL Luiz Falcão Prof. da UECE, graduado em Pedagogia e História, Mestre e Doutor em Educação na área de História, Memória e Política Edição e Revisão de Texto Vianney Mesquita educacional. germanomin@yahoo.com.br Roberto Cunha Lima Cecília Rosa Lacerda Maria das Dores de Oliveira Filgueira Pedagoga e Mestranda do Programa de Pós-graduação em Edu- Normalização Bibliográfica cação Brasileira da FACED/UFC. cerolacerda@uol.com.br Perpétua Socorro Tavares Guimarães CRB 3/801-98 Eduardo Chagas Projeto Gráfico e Diagramação Doutor em Filosofia e professor da UFC. e f chagas@bol.com.br Carlos Alberto Alexandre Dantas Eduardo David de Oliveira Capa Filósofo, Antropólogo e Doutorando em Educação-UFC Carlos Alberto A. Dantas afroduda@bol.com.br Eugenio Eduardo Pimentel Moreira Mestrando em Educação (Núcleo Trabalho e Educação/UFC) Eugenioe.drice@tem.gov.br Editora filiada à Fábio Fonseca Figueiredo Mestrando em educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da UFC. ffabiofbr@yahoo.com.br Associação Brasileira das Francisco Sales da Cunha Neto Editoras Universitárias Mestrando em Educação Brasileira da Universidade Federal V331f Vasconcelos, José Gerardo (Org.) do Ceará. Filosofia, educação e realidade. / José Gerardo Vas- Gerardo Silveira Viana Júnior concelos; Ana Nery Marinho Craveiro, et al. For- Mestrando em educação Brasileira, da Universidade Federal taleza: EUFC, 2003. 300p. do Ceará. gerardo.ji@secrel.com.br (Coleção Diálogos Intempestivos, 10) Hermínio Borges Neto Doutor em Matemática pelo IMPA, Professor do Programa de ISBN: 85.7282-132-5 Pós-graduação em Educação Brasileira da FACED/UFC com 1. Filosofia 2. Educação I. Título Área de Pesquisa em Educação Matemática e Tecnologias Di- CDD 100 gitais, Coordenador do Laboratório Multimeios FACED/UFC. herminio@multimeio.ufc.br() IDEAL DE PROGRESSO E DESENYOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO 0 IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: sistema integrador de sistemas" (2000, p. 17), destruindo a biosfera 0 SONHO QUE VIROU PESADELO e as condições de vida dos seres humanos. Na base do processo histórico e do contexto de transfor- OSMAR RUFINO BRAGA mações por Que vem passando a humanidade a partir do século XIV até os dias atuais, está o pensamento positivista, herança do Racionalismo e Iluminismo, consolidou a crença na domina- Introdução ção da natureza pela humanidade através da indústria e da técnica (ARRUDA, 2000). A humanidade encontra-se diante de um grande pesadelo: objetivo do presente artigo é, a partir do estudo do o progresso e o desenvolvimento a Que alcançou em todas as áre- "Curso de Filosofia Positiva" e do "Discurso sobre o Espírito Posi- as do conhecimento não representou o sonho de felicidade huma- tivo", de Augusto Comte, analisar o ideal comtiano de progresso e na, de igualdade, fraternidade e liberdade, ideais do desenvolvimento, procurando evidenciar os problemas e as conse- (século XIV ao XVII), e do Iluminismo (século considerado no mundo da concepção positivista da a culminância do processo Que começou no Renascimento, em história e da sociedade, em relação a uma nova maneira de pensar Que definitivamente a razão se impõe como método de conheci- os processos de mudança social e de desenvolvimento. mento do mundo. A escolha deste pensador justifica-se pelo fato de Comte Leonardo Boff, no livro Ethos faz alusão a ser considerado o principal teórico e divulgador do Positivismo, três crises por passa a humanidade: a crise social, crise do doutrina filosófica surgida entre os séculos XVIII e XIX, embora o sistema do trabalho e a crise ecológica. Referindo-se à primeira, termo positivismo tenha sido utilizado pelo filósofo Saint-Simon, fala da existência de "uma bifurcação possível dentro da espécie de Quem Comte foi secretário e discípulo. humana" (2000, p. 14), em se estruturam, de um lado, um No presente artigo, farei uma caracterização do positivismo tipo de humanidade opulenta, situada nos países centrais, comtiano, visando oferecer uma visão geral de seus princípios e controla os processos econômicos e políticos, fundamentos, importante para compreender a essência desta for- beneficiando-se de todos os tipos de avanços, e do outro, a velha ma de pensar, ser, Querer e agir; discorrerei sobre o representa humanidade, "vivendo a pressão de manter o status de consumo a herança da concepção e do pensamento positivista, principal- razoável ou simplesmente na pobreza, na marginalização e na ex- mente para sociedade ocidental, levando em conta os impactos clusão" (2000, p. 14); Quanto à segunda crise, esclarece Que as dessa concepção na idéia de progresso e desenvolvimento atuais; "novas formas de produção cada vez mais automatizadas dispen- por fim, destacarei alguns elementos, voltados para a defesa de sam o trabalho humano; em seu lugar entra a máquina inteligente" uma nova maneira de ser, pensar, Querer e agir, em construção no (2000, p. 15), destruindo-se os postos de trabalho e tornando os mundo, na perspectiva de uma concepção nova de progresso e trabalhadores descartáveis, produzindo um grande contingente de desenvolvimento sustentável em todas as suas dimensões. excluídos em todos as sociedades do mundo; a crise ecológica expressa-se no grave desequilíbrio Que poderá a Terra como 0 Positivismo de Comte Movimento de transformações sociais, econômicas, políticas e culturais Para compreender o positivismo comtiano, é necessário Que emergiu na crise do mundo medieval e tinha como traços marcantes o racionalismo e o humanismo. Segundo esse movimento, tudo se poderia considerar os três temas básicos em torno dos Quais organizou explicar pela razão, pela observação objetiva da natureza; enfatizava a im- seu pensamento: 1) uma filosofia da história, através da Qual apre- portância, a dignidade e a independência do espírito humano. senta as razões Que justificavam o pensamento positivo; 2) uma 80 81IDEAL DE PROGRESSO t EM o SONHO QUE VIROU PESADELO fundamentação e classificação das ciências, em o Filósofo pro- torna-se apreensível através de idéias de deuses e espíritos. O ser cura fazer uma sistematização da Filosofia, estabelecendo um ar- humano, nesse estado, acredita ter a posse absoluta do conheci- ranjo e uma ordem rígida e fechada de todo o conhecimento; 3) mento, pois deposita nas divindades, a Quem sempre recorre e uma sociologia, em Que determina a estrutura e os processos de confia, a explicação e resolução dos problemas. Para Comte, o modificação da sociedade, visando a reforma das instituições. Es- estado teológico apresenta três períodos sucessivos: o fetichismo, ses três temas básicos estruturam o pensamento de Comte o politeísmo e o monoteísmo. sintetizam o núcleo central de sua filosofia, radicada na idéia de o fetichismo caracteriza-se, segundo Comte, pela atri- a sociedade só pode ser corretamente reorganizada através buição "a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente aná- uma completa reforma intelectual do homem. loga à nossa, Quase sempre, porém mais enérgica, em virtude de sua ação, de ordinário, mais poderosa". politeísmo representa o predomínio especulativo da imaginação, em Que os seres natu- A Lei dos Três Estados rais são esvaziados de suas vidas anímicas e estas transportadas para seres fictícios, geralmente invisíveis, agem ativa e conti- De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas espe- nuamente, tornando-se a origem direta de todos os fenômenos culações estão inevitavelmente sujeitas, assim no indivíduo como exteriores. Comte considera esta fase bastante importante e cha- na a passar por três estados teóricos diferentes e suces- ma a atenção para seu estudo, uma vez segundo ele, foi nela sivos, podem ser pelas denominações habituais o espírito teológico se desenvolveu com uma plenitude e uma de metafísico e positivo.. (Augusto Comte). homogeneidade nunca vista posteriormente. A terceira fase teoló- gica o monoteísmo caracteriza-se por um "rápido decrésci- primeiro tema básico do pensamento comtiano a Filo- mo intelectual, como espontânea desta simplificação sofia da História fazendo alusão aos estados ou fases pelas característica pela a razão, unificando os deuses, restringe Quais passam todo ser humano na evolução de sua inteligência. cada vez mais o domínio anterior da imaginação e permite desen- Comte defende a noção de Que as idéias dão direção e transfor- volver gradualmente o sentimento universal, ainda Quase insignifi- mam a sociedade e é a evolução da inteligência humana Que co- cante, da sujeição forçosa de todos os fenômenos naturais a leis manda a história. A forma como o ser humano pensa e apreende o invariáveis". O gênero humano, nesta fase, reúne todas as divin- universo indicará o nível de civilização e historicidade a soci- dades em uma só, aumentando ainda mais o distanciamento entre edade pode alcançar, dando a ela determinada ordem e lugar. Di- os seres e seus princípios. Comte compara o Estado Teológico à zendo de outro modo, a forma de relação do ser humano com a infância da humanidade. natureza e a explicação este apresenta dos fenômenos e fatos b) Estado Metafísico. Este estado, para Comte o atingem demonstra o nível de desenvolvimento e progresso corresponde ao período da virilidade da humanidade, é uma espé- Que sua sociedade poderá atingir do ponto de vista social, econô- cie de filosofia intermediária entre a teológica e a positiva; conser- mico, político e cultural. va o mesmo caráter essencial de tendência ordinária para os o espírito humano, segundo Comte, no esforço de expli- conhecimentos absolutos. A Metafísica, segundo Comte, tenta de cação da realidade universal, passa por três estados diferentes: fato explicar sobretudo a natureza íntima dos seres, a origem e o a) Estado Teológico. Segundo Comte, é o estado destino de todas as coisas, o modo essencial de produção dos em Que os fatos são explicados a partir de manifestações espontâ- mas não emprega os agentes sobrenaturais do estado neas; a origem de todas as coisas, as causas essenciais, tanto pri- anterior, substituindo-os por entidades ou abstrações personifica- márias Quanto finais, dos fenômenos e fatos, bem como sua das. Comte denomina a Metafísica de Ontologia, uma vez ela produção, atribuem-se a seres absolutos ou sobrenaturais. o mundo se preocupa com o ser e suas propriedades; não é mais a simples 82 83OSMAR RUFINO BRAGA o IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO imaginação predomina, embora também não seja a observa- Criticando o empirismo e o misticismo, Comte defende ção. Comte analisa a Metafísica "é, pois, realmente, em es- o argumento de o princípio lógico da observação, próprio sência, apenas uma espécie de teologia enervada pouco a pouco do estado positivo, não pode ser tomado de maneira exagerada, por simplificações dissolventes, Que lhe tiram espontaneamente o restringindo a ciência a um amontoado de fatos. Por isso recu- poder direto de impedir o desenvolvimento das concepções posi- pera o principal caráter do positivismo: a previsão racional, tivas, conservando-lhe, contudo, a aptidão provisória para entre- possibilitada pelas leis dos fenômenos. Segundo Comte, não ter um certo exercício indispensável do espírito de generalização, importa a exploração direta dos fenômenos, porque as leis ga- até Que este possa enfim receber melhor alimento". rantiriam sua previsão e dedução. "Assim, o genuíno espírito c) Estado Positivo ou Real. Segundo Comte, é o estado positivo consiste em ver para prever, em estudar o é, a fim cujo principal caráter é a observação e não a imaginação. A obser- de concluir o Que será, segundo o dogma geral da invariabilidade vação passa a ser considerada a única base possível dos conheci- das leis naturais". mentos realmente acessíveis e deve conduzir a um enunciado, Por fim, em relação ainda ao estado positivo, Comte apre- particular ou geral, lhe dá sentido e inteligibilidade. Para Comte, senta um último elemento do seu positivismo: o dogma fundamen- não importam as causas dos fenômenos, tampouco seus fins; im- tal da invariabilidade das leis naturais, cuja extensão torna-se porta sim, descobri as leis os regem, explicam as relações universal. Segundo o Filósofo, é a extensão universal deste dogma entre eles, pois, segundo este filósofo, "não podemos conhecer adquiriu consistência filosófica Quando da manifestação dos realmente senão as diversas ligações mútuas próprias à sua reali- primeiros trabalhos científicos de grande ordem de zação, sem nunca penetrar o mistério da sua produção". Percebe- fundando a Astronomia matemática, supera a "supremacia se a supremacia da observação relativamente à imaginação, mental das ilusões de seu tempo. princí- residindo nela a eficácia científica. pio da invariabilidade das leis naturais passa então a governar to- estado positivo também tem um caráter relativo. Para das as especulações e estudos, dos mais simples aos mais Comte, o espírito positivo não possui todos os meios especulativos complexos, adquirindo importância decisiva no positivismo para conhecer toda a realidade ou toda a sua existência real. Não comtiano. Segundo este princípio, os fenômenos e os aconteci- deve preocupar-se, portanto, com a origem e o destino dos fenô- mentos são deduzidos a partir de postulados e axiomas gerais, menos, contentando-se com sua apreciação sistemática. Por trás explicam de maneira antecipada sua ordem e a lógica. desta visão de Comte, está o fato de a possibilidade de apre- ensão do real está estreitamente ligada às condições de progresso da sociedade, portanto dependente da organização e situação em Fundamentação e Classificação das Ciências Que se encontra a evolução dos indivíduos e da sociedade. É o Que Comte explicita na citação abaixo: Este é segundo tema básico da Filosofia de Comte, estrei- tamente ligado ao primeiro antes esboçado a Filosofia da Histó- Ora, a lei geral do movimento fundamental da Humanidade con- ria. Comte associa a evolução de cada ciência à periodização dos siste, a este em nossas teorias tendem cada vez três estados, mas essa periodização não acontece simultaneamen- mais a representar exatamente os objetos exteriores de nossas te, o Que implica dizer uma determinada ciência pode atingir constantes investigações positivas, sem Que, contudo, a verda- seu estado metafísico em um tempo diferente de outra. Comte deira constituição deles possa, em caso algum, ser plenamente explica também o desenvolvimento das ciências é relativo, pois apreciada, pois a perfeição científica deve restringir-se a aproxi- elas nunca atingirão o conhecimento absoluto de seus objetos. mar-se desse limite real, tanto o exijam nossas diversas Comte classificou as ciências, considerando seu grau de necessidades reais. complexidade, dividindo-as da seguinte maneira: as Matemáti- 84 85OSMAR RUFINO BRAGA o IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: SONHO QUE VIROU PESADELO cas, possuem o maior grau de generalidade e estudam a Reformas das Instituições realidade mais simples e indeterminada; a Astronomia estuda as massas dotadas de forças de atração; a Física soma Qualidade ao Este é o terceiro tema básico da filosofia de Augusto Comte, Quantitativo e às forças, ocupando-se da luz, calor etc.; a Quí- tem seus fundamentos teóricos na Sociologia Que ele conce- mica trata de matérias Qualitativamente diferentes; a Biologia beu. Comte transforma a Sociologia na Política, tornando-a um preocupa-se com os fenômenos vitais nos Quais a matéria bruta instrumento voltado para realizar seu grande desejo: a reforma é enriquecida pela organização; a Sociologia estuda a socieda- intelectual da humanidade e, por meio desta, a reorganização das de, os laços de interdependência dos seres vivos e é vista por instituições sociais. contexto no Comte operacionaliza este Comte como "o fim essencial de toda a filosofia positiva". Mate- sonho é o da Revolução Francesa (século XVII), no seu modo mática, Astronomia, Física, Química e Biologia atingem o estado de entender, exigia uma nova ordem, pois as instituições sociais e positivo antes da Sociologia, fixando-se em partes do real, não políticas vigentes não mais respondiam às exigências do estado conseguindo incorporar todo o espírito positivo. A Sociologia, positivo, uma vez ainda predominava o estado teológico. Além para Comte, é considerada a ciência na o saber pode ser disso, Comte acreditava a Revolução, apesar de necessária, alcançado na sua totalidade, pois é "um sistema verdadeiramen- tinha sido realizada a partir de pressupostos metafísicos, o te indivisível, onde toda decomposição é radicalmente artificial exigia, segundo ele, a instauração do espírito positivo na organiza- (...), tudo relaciona-se com a Humanidade, única concepção ção das estruturas sociais e políticas. Para isso acontecer, seria completamente universal". necessária uma nova elite capaz de pensar e Comte entende Sociologia de maneira ampla, incluindo formular o espírito positivo da sociedade e desenvolver as atividades a Psicologia, a Economia Política, a Ética e a Filosofia da Histó- técnicas correspondentes a cada uma das ciências, tornando-as ria. Para Comte, os objetos dessas ciências não podem ser estu- bem comum. dados e entendidos desvinculados da Sociologia, ou seja, do É neste contexto, em Que a Sociologia se propõe guiar desenvolvimento da raça e da teoria geral da sociedade e da todas as outras ciências, ocorre uma mudança de perspectiva, evolução histórica. caracterizada pela mutação do Comte filósofo em Comte profeta. Comte divide a sociologia em estática e dinâmica e é cha- É o período de regeneração, em a filosofia comtiana assume mada inicialmente por ele de Física Social. A Sociologia estática, também caráter religioso. Comte passa a formular uma religião da cuja idéia fundamental é a ordem, estuda as condições gerais de humanidade, estabelecendo seus fundamentos, criando um calen- toda a vida social, considerada em si mesma, em Qualquer tempo dário, com nomes de vários pensadores e com datas em se e lugar. Nesse sentido, depende de três instituições (condição da comemorava as obras de muitos destes pensadores; um catecis- vida social): a propriedade, para produzir, prover suas necessida- mo, tinha como idéia central a substituição do Deus cristão des e acumular capital; a família, instituição responsável pela edu- pela Humanidade. Comte, nesse caso, era o grão-sacerdote da cação para a solidariedade e o respeito às tradições; e a linguagem, Humanidade, um "papa positivista". Este processo ocorreu nos permite a comunicação entre os indivíduos e, pela escrita, a últimos 15 anos da vida do Filósofo do Positivismo. constituição de um capital intelectual, assim como a propriedade cria um capital material. A Sociologia dinâmica tem como idéia fundamental o pro- A Herança da Concepção e do Pensamento Positivista e a Visão gresso e estuda as condições da evolução da sociedade: do estado de Progresso e Desenvolvimento teológico ao estado positivo na ordem intelectual; do estado mili- tar ao industrial na ordem prática; do estado egoísta ao estado Não é possível compreender o pesadelo vive hoje a altruísta na ordem afetiva. sociedade, principalmente a do lado ocidental, cuja situação foi 86 87OSMAR RUFINO BRAGA IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM o SONHO QUE VIROU PESADELO caracterizada brevemente no início deste trabalho, sem fazer uma para a implementação do ideal de progresso e desenvolvimento da análise do representou ou representa o positivismo no Que se humanidade, com base na razão e na vontade humana, no traba- refere à idéia de progresso e desenvolvimento no contexto atual da lho livre e esclarecido e no poder da técnica (LARA, 1996, 45). humanidade. Defende-se a tese de Que grande parte das mudan- mundo humano, como mundo físico, político e simbóli- ças implementadas no mundo ocidental em nome do progresso e está profundamente marcado pelo positivismo. Somos porta- do desenvolvimento, com seus impactos nefastos e destrutivos para dores de uma herança entranhada em nós, na imagem temos o Planeta Terra e todas as suas formas de vida, ocorreu (e conti- do mundo, de nós mesmos e do nosso relacionamento com este nua ocorrendo) e se sustentou (e se sustenta) num princípio fun- mundo, produzida nas raízes desta forma de ser, pensar, conhecer, damental da concepção positivista da história e da sociedade: a relacionar-se e atuar o positivismo. crença na dominação da natureza pela humanidade através da in- positivismo no Ocidente impregnou nossa cultura, de- dústria e da técnica (ARRUDA, 2000). terminando nossa maneira de pensar e lidar com a realidade, hu- Consideramos o positivismo como uma maneira de ser, pen- mana e social. No núcleo central dessa maneira de pensar a sar, conhecer, relacionar-se e atuar no mundo, na natureza. Essa realidade está a supremacia da razão e do ser humano como "se- maneira de ser, pensar, conhecer, relacionar-se e atuar no mundo, nhor" da natureza. na natureza, consolidou-se e instituiu-se de tal forma na sociedade Analisando, pois, a Filosofia da História de Comte, percebe- ocidental afetou todos os campos do conhecimento e todas as se na base da teoria dos três estados, a razão é o elemento formas de promoção do progresso e desenvolvimento humano, so- central será utilizado como parâmetro para negar uma determi- cial, econômico, político, cultural e ambiental. É necessário, pois, nada forma de pensar e explicar a realidade. No estado positivo, ela compreender criticamente o representa a herança desta con- é tomada como oposta ao conhecimento ilusório, às emoções, sen- cepção na vida da humanidade, para, num esforço teórico e prático, timentos, à crença religiosa, ao misticismo etc. A razão, nó estabelecer novos paradigmas Que orientem nossa relação com a positivismo comtiano, é a faculdade através da será possível natureza e com todos os seres vivos, na busca e produção do co- observar os fatos, prevê-los e a partir daí identificar as leis os progresso e desenvolvimento da Terra. governa; é método de busca da verdade e a verdade é a experiência estado positivo de Comte toma corpo na história do fatual, o materialmente observável, sensível e utilitário. Ocidente com a Idade Moderna, período em Que as críticas filosó- Em Comte, o gênero humano é o "senhor" da natureza, fica e científica tentaram eliminar a explicação teológica e metafísica produto da evolução da matéria. Quando a evolução atinge o es- da vida e da realidade. É na Europa do século XVIII segundo tádio humano, tem início a história, período em a humanidade muitos pensadores, a humanidade começava a viver uma vida real- começa a passar pelas fases teológica, metafísica e positiva. o mente culta, civilizada. Muita coisa, a partir deste período, estava gênero humano é o único deus para Comte. Por isso sua filosofia sendo superada: as superstições, as formas de escravidão, os mi- está toda voltada para o aperfeiçoamento da humanidade, tos, as crenças, enfim, a explicação religiosa, sobrenatural, mito- está em contínuo progresso. lógica e a-histórica da vida e dos acontecimentos humanos e sociais. o positivismo de Comte consolidou na sociedade ocidental A razão se impõe e a ciência passa a oferecer a possibilidade de um modo de pensar e construir o progresso e o desenvolvimento total domínio do sobre as forças da natureza e a humano e social, tem como fundamento as concepções morais possibilidade de conhecer todas as leis regulam a convivência hedonistas, utilitárias e materiais da vida e da natureza. Os sistemas humana, as Que dizem respeito à produção da riqueza, ao politico-econômico-sociais decorrentes dessas concepções se ordenamento político e aos valores. Erigia-se então o projeto hu- estruturaram a partir da dimensão material da existência humana. mano de existência esteado em bases sólidas e científicas, fortale- Foi assim na democracia moderna, cuja soberania é medida pelo cendo a Economia, a Política e a Ética. Estavam postas as condições número de votos; no liberalismo, se sustenta no conflito mate- 88 89OSMAR RUFINO BRAGA IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO rial das forças econômicas; no socialismo, tem como centro da teriza pelo princípio da segundo o "o juízo mo- vida a atividade econômica. conhecimento é medido pelo seu ral deve ater-se às derivam das ações postas" grau de certeza e exatidão, preso às ciências físicas. (BOFF, 2000, p. tudo depende das a serem A indústria e a técnica passam a ser os instrumentos funda- sempre calculadas; pelo princípio de utilidade, cujas mentais com os Quais o gênero humano vai dominar e submeter a devem ser úteis à realização do bem, segundo uma regra geral natureza, visando a produzir bens e acumular riquezas. Progresso e estabelecida, voltada para a produção de felicidade para o maior desenvolvimento passam a ser entendidos de forma determinista, número possível de pessoas (BOFF, 2000); pelo princípio do como busca infinita de superioridade material, em Que cada desco- hedonismo, entendido como a satisfação das necessidades e atendi- berta, conquista e produção trazem em si sua superação, num mo- mento das preferências humanas, resultante do cálculo do bem rea- vimento infinito de mudança, de passagem de um estágio imperfeito lizado em nível ótimo, tomado na proporção em produz alegria, para um perfeito; passa a ser medido pela capacidade de domínio, felicidade e prazer (BOFF, 2000); pelo princípio social, também re- acúmulo e produção de riquezas materiais. sultado do cálculo estabelece a maior média de pessoas e de A idéia de ordem e progresso está por trás da concepção seres vivos beneficiados pela felicidade (BOFF, 2000). positivista da história e da sociedade. Em Comte, a idéia de ordem A herança da concepção e do pensamento positivista, sobre- estava associada à necessidade da reorganização das instituições tudo relacionada ao ideal e à visão de progresso e desenvolvimento, da sociedade pós-Revolução Francesa, no sentido de colocá-las sugere também alguns problemas e para a socieda- na perspectiva de desenvolvimento das ciências da época, portan- de contemporânea, aspectos a serem abordados na seção a seguir. to dentro do estado positivo, tinha como base a racionalidade instrumental e a tecnocracia. progresso provinha da ordem, ou seja, das estruturas da sociedade, assentadas no espírito positivo: Alguns Problemas e da Concepção e do a família, a religião, a propriedade, a linguagem. progresso Pensamento Positivista na Sociedade Atual correspondia à dinâmica social, processo linear de mudança, lide- rado por uma elite capaz de garantir os fun- Tomaremos como referência alguns teóricos da Escola de damentos positivos da sociedade. Frankfurt, trabalhados por Giroux (2000), procurando elencar, de A partir dessas considerações, podemos afirmar Que essa forma sintética, os principais problemas e do visão positivista do progresso e do desenvolvimento predomina positivismo, considerando a herança desse pensamento para a idéia atualmente no mundo ocidental. É o conclui Arruda (2000, p. 11) de progresso e desenvolvimento na sociedade atual. num ensaio sobre educação e desenvolvimento: Desenvolvimento é apresentado pela cultura do capital como si- Conhecimento Reduzido à Esfera da Ciência nônimo de crescimento econômico, de modernização industrial, progresso tecnológico e de acumulação ilimitada de bens Fica evidente o positivismo reduz o conhecimento à materiais... o ser humano é colocado arrogantemente não ape- perspectiva científica e esta fica presa em torno de uma metodologia nas no centro do universo e da natureza, mas é visto como um limita a atividade científica à descrição, classificação e genera- ser superior à natureza, todo-poderoso por virtude da sua razão lização de fenômenos sem cuidar da distinção entre o Que não é e dos objetos ela cria. importante e o Que é essencial (HORKHEIMER, 1972). A básica deste problema para a idéia de pro- Essa visão de progresso e desenvolvimento se sustenta numa gresso e desenvolvimento é tornar absoluto o conhecimento cien- ética também positivista: a ética utilitarista e hedonista. Ela se carac- tífico em detrimento de outras formas de apreensão e interpretação 90 91OSMAR RUFINO BRAGA o IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO da realidade. Esta realidade é muito clara no positivismo comtiano, os seguintes: "respeitar e cuidar da comunidade de vida", "inte- em as outras formas de conhecimento e de relação com a gridade "justiça social e econômica", "democracia, não- natureza são trituradas e descartadas, negando a dimensão tem- violência e paz". poral da história, desconsiderando o acontecido e o acumulado, fruto da articulação dialética do presente, passado e futuro. É por isso Que há um grande desprezo pelas soluções sociais fundadas Negação da Subjetividade e do Pensamento Crítico noutras racionalidades, se forem postas em operação na so- ciedade, com certeza apresentariam resultados significativos, pro- Em decorrência de sua "prisão" ao mundo dos fatos, ao movendo também o desenvolvimento e o progresso da Terra. imediato, o positivismo, segundo Giroux (1986, p. 31), ameaça a subjetividade e o pensamento crítico, pois, Ciência Separada dos Fins e da Ética A da essencial a diferença entre o mundo como ele é e como poderia ser é reduzida à tarefa meramente metodológica Este problema é um dos mais graves na sociedade contem- de coletar e classificar os fatos".. As Questões a respeito da porânea, talvez o ponto de fulcro em torno do se concentra a gênese, desenvolvimento e natureza normativa dos sistemas responsabilidade pelas estarrecidamente, pre- conceituais Que selecionam, organizam e definem os fatos pare- senciamos no momento atual, em termos de degradação da vida na cem estar fora da preocupação da racionalidade positivista. terra. Giroux (1986, p. 30), citando a Escola de Frankfurt, anota conceito de Marcuse (1964): A ciência nessa perspectiva, era sepa- Há, segundo este teórico, um "congelamento" dos seres rada da dos fins e da ética, eram consideradas insigni- humanos e da história, uma vez a dimensão histórica contém ficantes porque desafiavam a "explicação em termos de estruturas verdades não podem ser atribuídas a um determinado "ramo matemáticas". coletor de fatos da ciência" (ADORNO, apud GROSS, 1979), Este teórico denuncia embora, por exemplo, Comte diga o homem "é um animal Que tem uma história", "a herança do passado só torna possíveis os a supressão da ética na racionalidade positivista elimina a possi- progressos do futuro" e "a humanidade compõe-se mais de mor- bilidade de autocrítica, ou, mais especificamente, de tos de vivos". de sua própria estrutura normativa. Os fatos fi- As desse problema, para a nossa sociedade, cam separados dos valores, a objetividade solapa a crítica, e a do ponto de vista do progresso e do desenvolvimento, é a mu- noção de a essência e a aparência podem não coincidir se dança social fica restrita à dimensão material da existência humana, perde na visão positivista do mundo (GIROUX, 1986). desconsiderando-se as demais grandezas dessa existência. Como tudo fica preso a uma racionalidade objetiva, a totalidade da vida Alude-se, pois, segundo essa visão, a uma secundarização não é vista, ficando o progresso e o desenvolvimento circunscritos dos objetivos éticos do progresso e do desenvolvimento, da pro- ao como se o ser humano fosse um ser de única dução científica, Que, nos tempos atuais, está voltada em grande dimensão. "A espontaneidade da esperança, a arte de assumir uma parte para a defesa e promoção de interesses econômicos e posição, a experiência de relevância ou indiferença, e acima de tudo, cos de uma parte do mundo, controla o conhecimento e as a resposta ao sofrimento e à opressão, o desejo de autonomia adul- tecnologias, para manter seu domínio, inclusive militar, sobre as ta, a vontade de emancipação, e a felicidade de descoberta de sua populações no mundo. É por isso Que Boff (2000, p. 95-96) fala própria identidade tudo isso é eliminado para todo o sempre do hoje da necessidade de uma "Éthos Mundial", cujos princípios são interesse compulsório da (HABERMAS, 1973). 92 93OSMAR RUFINO BRAGA o IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO Desintegração Entre Poder, Conhecimento e Valores deste pensamento Augusto Comte discorrendo e caracteri- zando os três temas básicos em torno dos Quais está o positivismo A visão contínua e linear da história e a idéia de ordem e comtiano. Em seguida, tomando como referência alguns teóricos progresso presentes no positivismo escondem a desarticulação e de- da Escola de Frankfurt, analisamos a herança do pensamento posi- sintegração entre poder, conhecimento e valores, uma vez "a tivo, discorrendo sobre seu sentido na visão de progresso e de- realidade natural e as ciências naturais não conhecem as categorias senvolvimento na sociedade ocidental, buscando identificar os históricas fundamentais: consciência e autoconsciência, subjetividade problemas e os impactos sociais, políticos, culturais, éticos e e objetividade, aparência e essência" (JACOBY, 1980, apud GIROUX, ambientais para a sociedade atual. 1986). Giroux defende a noção de o pensamento positivista, por Viu-se Que o modelo de progresso e desenvolvimento, inspi- não considerar as premissas paradigmáticas então citadas, por sua rado no positivismo e implantado pelas sociedades ocidentais, na objetividade e sua falta de fundamentação teórica com rela- desembocou num grande pesadelo para esta região da Terra. Não ção ao estabelecimento de tarefas, fica impedido de julgar a complexa se chegou, portanto, ao ideal de felicidade humana, igualdade, interação do poder com o conhecimento e os valores, e de refletir fraternidade e liberdade prometido; pelo contrário, o mundo, prin- criticamente sobre a gênese e a natureza de suas pressuposições ideo- cipalmente do lado ocidental, encontra-se diante de três grandes lógicas. Assim, acentua Giroux (1986, p. 32): crises: a social, a do sistema de trabalho e a ecológica. Na nossa análise, na base dessa crise está a herança do positivismo, Que o positivismo dissolve a tensão entre potencialidade e ato em to- consolidou nas sociedades ocidentais uma maneira de ser, pensar, das as esferas da existência social. Assim, sob o disfarce da neutra- conhecer, relacionar-se e atuar no mundo, tendo como central a lidade, o conhecimento científico e toda teoria se tornam racionais crença na dominação da natureza pela humanidade através do na base de sua possível eficiência, economia e correção. conhecimento guiado pela razão. Contudo, em meio ao pesadelo vive a humanidade Giroux (1986, p. 32) conclui o fetichismo dos fatos desta parte do mundo, está sendo gestada uma concepção e ideal e a crença na neutralidade de valores representava mais do de progresso e desenvolvimento, fundado numa nova ética e numa um erro epistemológico... servia como uma hegemonia ideológica teoria social articula e integra as várias dimensões da vida impregnava a racionalidade positivista com um conservadorismo social: o particular e o geral, o específico e o universal, o individual político o tornava um esteio do status e o coletivo, o pessoal e o social, o conhecimento e a ação, a Quais as deste problema para a visão atual de unanimidade e a diversidade, a teoria e a prática, o cotidiano e o progresso e desenvolvimento? Uma ordem, baseada na supremacia histórico, configurando a construção de uma ordem mundial, ten- do projeto burguês, domina o mundo pelo saber do como base a solidariedade e o cuidado com o Planeta Terra CO, está na base de seu poder econômico e militar, gestando (BOFF, 2000). Trata-se de uma nova maneira de ser, pensar, co- riqueza mesmo à custa de uma perversa taxa de iniquidade social e de relacionar-se e atuar no mundo, em todas as dimen- grave degradação ecológica (BOFF, 2000), sustentado na ética do sões do ser vivo são consideradas; razão e sentimento, realidade e individualismo, da competitividade, do utilitarismo e do hedonismo. pensamento se articulam dialeticamente. O progresso e o desenvolvimento estão sendo pensados a partir de uma nova ética: a ética do da solidariedade, da Conclusão responsabilidade, do diálogo e ética holística (BOFF, p. 2000). No presente trabalho, procuramos oferecer uma visão ge- 2 Sobre este assunto ver BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano, ral do positivismo, tomando como referência o principal teórico compaixão pela Terra. 1999. 94 95USMAK IDEAL DE PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO EM COMTE: o SONHO QUE VIROU PESADELO Os processos de mudança e de intervenção na natureza Para encerrar estas linhas, é lícito assinalar a supera- devem considerar alguns imperativos mínimos, os Quais vão nortear, ção do pesadelo vive a humanidade depende da globalização orientar a nossa relação com os seres vivos e a produção do saber. desta nova maneira de ser, pensar, conhecer, relacionar-se e atuar cuidado passa a ser um princípio humano de compaixão pela na sociedade, o traz o desafio da "transformação da maneira Terra, uma "relação amorosa descobre o mundo como valor" de organizar os modos de produzir e reproduzir a existência de (BOFF, 2000, p. 107). Este não é visto como objeto de exploração todos os seres". E este desafio outro fundamental: o de "cons- material e de interesses utilitaristas, mas divisado como sujeito de truir uma hegemonia cultural", Que leve os povos explorados, ex- direito, tem seu valor e relativa autonomia. cluídos e destruídos pelo modelo dominante de progresso e A interdependência de todos os seres, sua origem, vida e desenvolvimento a recuperar o espaço econômico numa perspec- destino comuns; seu caráter relacional e a percepção de todos tiva responsável e solidária; o espaço político, tornando-se sujeito precisam de todos evidenciam o princípio da solidariedade é do seu desenvolvimento e de sua história; o espaço informativo, uma "lei cósmica" (BOFF, 2000). comunicativo e cultural, o Que implica a transformação dos valo- princípio da responsabilidade chama a atenção para o res e a construção, teórica e prática, de uma visão de mundo Que fato de considerando a situação atual da humanidade, todos refaz e atualiza conceitos, produz outra práxis, portanto, atitudes, são responsáveis por tudo, uma vez todos Querem sobreviver comportamentos, modos de relação, aspirações e desejos diferen- seres humanos e demais seres vivos e todos são habitantes deste tes (ARRUDA, 2000). planeta; todos devem sentir-se sujeitos, capazes de ter benevolência com a Terra e com os outros seres, assumindo a responsabilidade pelo meio ambiente, pela Qualidade de vida e a responsabilidade Referências Bibliográficas geracional, garantindo vida para as gerações futuras (BOFF, 2000). Como a solidariedade sozinha não é suficiente, a ética do BOFF, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os diálogo torna-se necessária pela necessidade da materialização humanos. Brasília: Letraviva, 2000. política, jurídica e pedagógica, no espaço e no tempo, de um novo ARRUDA, Marcos. Educação e desenvolvimento na pers- projeto e modelo de progresso e desenvolvimento. Somente atra- pectiva da democracia integral. In: BOFF, Leonardo. Globalização: vés do diálogo é possível a construção coletiva e a operacionalização desafios socioeconômicos, éticos e educativos: uma visão a partir desse novo projeto. diálogo implica a reciprocidade, o reconhe- do Sul/Marcos Arruda e Leonardo Boff. Petrópolis/RJ: Vozes, 2000. cimento da autonomia dos sujeitos, o compromisso de p. 9-24. as regras comuns e a garantia de lugar para todos na comunidade COMTE, Augusto. Curso de Filosofia Positiva; Discurso Prelimi- dos interlocutores (BOFF, 2000). nar sobre o Conjunto do São Paulo: Nova Cultural Finalmente, a ética holística remete os sujeitos do progres- Ltda, 2000. (Coleção Os Pensadores) e do desenvolvimento a considerarem a diversidade das tradi- GROUX. Henry. Teoria Crítica e Resistência em Educação. ções, hábitos e culturas de maneira globalizadora e articulada; o Vozes, [s.d]. 1986. diferente e o complexo são vistos, segundo este princípio, como HABERMAS, J. 1973. Theory and Practice. Boston: Beacom valor e riqueza e não como negação e destruição. Segundo esta Press, [s.d]. perspectiva, tudo tem relação direta com tudo, isto é, as "partes HORKHEIMER, M. 1972. Critical Theory. New York: Seabury Press. estão no todo, e o todo, como num holograma, reflete-se em cada parte. Adaptabilidade, versatilidade, consorciação, contínua apren- dizagem, regeneração, reciclagem e sinergia, são algumas das ca- racterísticas da perspectiva holística" (BOFF, 2000, p. 124). 96 97

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