Prévia do material em texto
DIREITO PENAL na medida certa PARA CONCURSOS Válter Kenji Ishida 2023 Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 3Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 3 13/10/2022 15:15:0313/10/2022 15:15:03 CaP. 3 • tEoria do CrimE 85 3 TEORIA DO CRIME 3.1 CONCEITO DE CRIME Em sede de dogmática jurídico-penal, é consenso que o direito penal é do fato e não do agente. Assim, a construção da teoria incide sobre o fato punível (Jorge de Figueiredo Dias, Direito penal, parte geral, 235). Teoria do delito ou teoria do crime. Desde 1.906, quando Beling introduziu o conceito de tipicidade, constituindo junto com a antijuridicidade e a culpabilidade, as bases da Teoria Geral do Delito, essas categorias desde então, são categorias fundamentais, por meio do qual se analisam os problemas mais importantes da conceituação jurídica de um fato como delito (Francisco Muñoz Conde, Teoria geral do delito, IX). A teoria do crime objetiva o estudo dos requisitos necessários para a configuração do crime, ou, em resumo, apura o conceito analítico do delito. Outrossim, a teoria do delito possui 3 funções: (1) a instrumental, servindo para interpretar e sistematizar a Parte Especial; (2) a garantista, baseada na busca pela segurança da aplicação da norma; (3) a crítica, levando à reinterpretação do direito penal, utilizando-se a política criminal. A teoria do delito abarca 4 grandes seções: (1) introdução; (2) teoria do delito; (3) culpabilidade; (4) teoria da pena. O crime abrange o fato típico e a antijuridicidade. Acrescenta-se aí o fato punível (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 162-163). Existem três conceitos de crime: o conceito material, o conceito formal e o conceito analítico (Nucci, Manual de direito penal, parte geral, parte especial, p. 160; 162). 1. conceito material de crime: violação de um bem penalmente protegido ou a violação de um bem jurídico que mereça proteção penal. É a lesão ou perigo de lesão ao referido bem. A doutrina fala em danosidade social (Jescheck, apud Maurach, Derecho penal, parte general, p. 213). Mas para Jescheck, sancionar condutas nocivas não seria uma questão de bem jurídico, mas sim de política criminal (Roxin, Derecho penal, parte general, tomo I, p. 67), sendo conceitos interligados. Para NAUCKE, a partir da teoria da pena kantiana (retributivista), crime seria toda conduta merecedora de retribuição (Fábio da Silva Bozza, Bem jurídico..., p. 171). É um critério ou parâmetro sobre o que o direito penal deve punir e que varia de acordo com a sociedade em um momento histórico (Luiz Regis Prado, Curso de direito penal brasileiro, v. 1, p. 244). Nesse sentido, deve o Direito penal se aproximar da realidade social. Daí a necessidade de aproximar a Dogmática penal da Política Criminal. É necessário que as barreiras entre o Direito penal e a Política criminal se acabem (Busato, Fundamentos..., p. 7-8). O conceito material, todavia, não esgota o tema sobre a tipificação do ilícito penal porquanto existem crimes sem bens jurídicos, como as condutas imorais, que merecem punição apenas em caráter excepcional; Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 85Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 85 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida86 2. conceito formal de crime: é a conduta proibida por lei decorrente da política criminal adotada. Vincula-se ao princípio da legalidade. É a visão do legislador sobre quais bens jurídicos devem ser tutelados e se extrai do próprio direito positivo. Para Maurach (Derecho penal, parte general, p. 213), a importância da diferenciação entre o conceito material e o formal reside no fato de que ambos cumprem funções diferentes. O conceito material representa a concepção da sociedade sobre aquilo que deve ser proibido. Já o conceito formal descreve a extensão concreta da faixa penal; 3. conceito analítico (dogmático): para alguns, também é denominado conceito formal e constitui a essência do estudo do crime no direito penal, sem dúvida, a parte mais importante tanto da parte geral como da especial. Trata-se da decomposição do delito em suas partes constitutivas (Prado, ob. cit., v. 1, p. 245). O delito é dividido por vários “fragmentos” (chamado de método de consideração analítica). Contrapondo-se à essa divisão, surgiu a teoria unitária. Carnelutti p. ex. afirmara que o crime não se constitui por partes fisicamente separadas (Giuseppe Bettiol, Derecho penal..., p. 166-167). Nessa linha, explica Giulio Battaglini: “O delito é um todo unitário, e não uma soma de elementos. Sua decomposição em elementos impõe-se, porém, a fim de se realizar a sistematização lógica dos institutos e também por razões práticas.” (Direito penal, 1º vol., p. 127). Além da própria ação, haveria a tipicidade, a antijuridicidade, a culpabilidade e a punibilidade. São três as teorias sobre o assunto: a clássica, a neoclássica e a finalista. Teoria clássica. A teoria clássica via a ação limitada ao movimento corporal. A voluntarie- dade significa apenas a ausência de coação física. O elemento subjetivo (dolo ou culpa) para essa teoria se localizaria na culpabilidade. A antijuridicidade era puramente formal, cabendo a valoração do autor na culpabilidade. Von Liszt formulou o seguinte conceito: ato contrário ao direito, culpável e sancionado por uma pena (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 173). A ação é um movimento corporal causador de um resultado no mundo exterior, a tipicidade. Apesar das críticas, foi a primeira a formular um sistema de classificação do crime. Teoria neoclássica (neokantista). Basicamente uma vertente da teoria clássica, mas ao invés da ênfase na teoria naturalista, forneceu destaque para a relevância social. A tipicidade é uma conduta valorada negativamente pelo legislador. A antijuridicidade não é apenas formal, mas vinculada à danosidade social. Aqui, todavia, havia uma conjugação de elementos objetivos e subjetivos. Na sua essência, o caráter ilícito do fato era de natureza essencialmente objetiva. Esse entendimento é ainda adotado pelo direito penal italiano, que trabalha com elementos descritivos e normativos na tipicidade, deixando o elemento subjetivo para a culpabilidade. Teoria finalista. Coube a Hans Welzel traduzir a teoria finalista para o direito penal. O homem dirige finalisticamente os processos causais naturais. O dolo passa a ser um elemento essencial da tipicidade (Jorge Figueiredo Dias, Direito penal, parte geral, p. 246). A ação deixa de ser um processo meramente causal e passa a ser exercício de uma atividade finalista. Con- forme menciona o próprio autor: “la acción humana es el ejercicio de la actividade, finalista. La acción es, por lo tanto, un acontecer ‘finalista’ y no solamente ‘causal’... La finalidad es un actuar dirigido conscientemente...” (Hanz Welzel, Derecho penal, parte general, p. 39). O dolo jurídico do neokantismo (incluindo a consciência da ilicitude) passa a ser o dolo sem a consciência da ilicitude. A culpabilidade passa a ser essencialmente normativa, suprimidos o dolo e a culpa. A potencial consciência da ilicitude, por depender da valoração do juiz, é tratada como um elemento normativo e integra a culpabilidade. O finalismo enfim adota o dolo natural, abandonando o dolo jurídico que inclui a vontade e a consciência. O tipo biparte-se em objetivo e subjetivo (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, parte geral, p. 179). Contudo, dentro do conceito analítico, crime Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 86Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 86 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 CaP. 3 • tEoria do CrimE 87 é um fato típico, antijurídico e culpável também para a doutrina finalista. Uma das críticas ao finalismo foi sua destinação aos crimes dolosos, já que não existe finalidade nos crimes culposos. Conceitos dados pelos doutrinadores: (conceito analítico de crime) 1. crimea necessidade de qualquer outra norma (MP-SP – 1a fase – 23-5-2010). Exemplo: homicídio; (2) adequação típica de subordinação mediata ou ampliada: o fato não se enquadra imediatamente, necessitando de outros dispositi- vos legais, a chamada norma de extensão. Exemplo: tentativa. O tipo não fala em tentar matar alguém. Há necessidade de complementação: art. 14, II, do CP (descrição do delito tentado). Tipicidade formal. Trata do conceito de tipicidade tradicional. Tipicidade material. Exige, além da adequação típica, a ameaça ou lesão ao bem jurídico de forma inadmissível. Essa segunda parte seria um processo negativo (de exclusão da tipicidade). Tipicidade e ilicitude. A tipicidade e a ilicitude compõem o conceito analítico de crime (além da culpabilidade) e no direito penal são axiologicamente distintas. A composição do tipo em relação à ilicitude depende da corrente adotada: (1) teoria do tipo avalorado (Liszt-Beling): a tipicidade contém apenas os elementos objetivos, sem qualquer elemento normativo ou subjetivo; (2) teoria indiciária (Welzel-Maurach): Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 101Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 101 13/10/2022 15:15:1013/10/2022 15:15:10 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida102 a tipicidade constitui uma presunção relativa da ilicitude; (3) teoria da identidade (Mezger- -Sauer): a tipicidade conduz necessariamente à ilicitude, formando um todo unitário; (4) teoria dos elementos negativos do tipo (Merkel): prolongamento da terceira corrente. As causas de justificação seriam circunstâncias negativas do tipo (Prado, ob. cit., v. 1, p. 322-333). A segunda teoria seria atualmente a mais aceita: a tipicidade geraria uma presunção relativa da ilicitude: se “A” matou “B” haveria uma presunção inicial de inexistência de excludente de ilicitude. Mas essa presunção poderia ser afastada, predominantemente, não na fase de inquérito policial, mas sim na fase processual. O quadro a seguir apresenta as três teorias sobre o delito (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 216-218). Teorias Causalista (Hungria, Noronha) Finalista (Damásio, Mirabete) Constitucionalista (Luiz Flávio Gomes) Conduta Movimento corpóreo capaz de produzir alte- ração no mundo (sem dolo ou culpa) Comportamento huma- no consciente dirigido a uma finalidade (abrange o dolo ou culpa) Realização voluntária de um fazer ou não fazer, típico, do- minado ou dominável pela vontade Requisitos do fato típico Conduta voluntária, resultado naturalístico, nexo e adequação à lei Conduta dolosa ou cul- posa, resultado natura- lístico, nexo e subsunção à lei Fato formal e materialmen- te típico, com 3 dimensões: formal, material-normativa e subjetiva. A tipicidade mate- rial abrange o juízo de desa- provação da conduta e do resultado e o juízo da imputa- ção objetiva desse resultado. Teoria funcionalista (teleológico-racional). Em primeiro lugar, não existe apenas um “fun- cionalismo”, mas vários no direito penal alemão. Há nesses vários autores, uma concordância: a construção do sistema jurídico-penal não pode se limitar a dados ontológicos, ou seja, não se pode limitar a conceitos como o que é conduta e o que é causa. Deve-se basear-se também nos fins do direito penal: a proteção aos bens jurídicos através da prevenção geral e especial. Os conceitos devem ser submetidos a uma “funcionalização”, ou seja, os conceitos penais devem desempenhar um papel acertado no esquema. A construção teleológica do neokantismo é reto- mada no funcionalismo. O funcionalismo constitui-se em um divisor de águas com relação ao finalismo (Luís Greco, Introdução à dogmática funcionalista do delito). A teoria constitucionalista não deixa também de ser “funcionalista”, já que se utiliza dos mesmos conceitos. 3.4.3 Elementos do tipo (definição do tipo pormenorizada) 1. objetivos (descritivos): referem-se à materialidade da infração, à forma de execução, tempo, lugar etc. Constituem o âmago (a parte principal) do estudo da estrutura (ou esque- leto) do tipo penal. Na parte especial, é estudado como elemento objetivo do tipo ou tipo objetivo. Assim, um dos estudos do tipo penal é o estudo do “verbo” que descreve a conduta típica. No furto, o verbo é “subtrair”; no crime de tráfico de entorpecente, um dos verbos é “expor à venda”; no crime de receptação, um dos verbos é “conduzir”: em cada um desses verbos, cabe extrair o significado dos mesmos. Mas é preciso salientar que se houver exi- gência de uma busca mais profunda do seu conceito, do seu significado, estaremos diante do elemento normativo tácito, o que leva a doutrina entender que no fundo, sempre existe uma Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 102Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 102 13/10/2022 15:15:1013/10/2022 15:15:10 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 3 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 85 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 86 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 87 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 88 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 89 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 90 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 91 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 92 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 93 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 94 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 95 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 96 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 97 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 98 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 99 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 100 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 101 Miolo_Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed 102é fato típico e antijurídico, sendo a culpabilidade um pressuposto de aplicação da pena (Damásio de Jesus, Mirabete, Delmanto); 2. crime é fato típico, antijurídico, culpável e punível (Basileu Garcia, Battaglini); 3. crime é fato típico e culpável, estando a antijuridicidade dentro da própria tipicidade (Miguel Reale Júnior, adotando a teoria dos elementos negativos do tipo); 4. crime é fato típico, antijurídico e punível, constituindo a culpabilidade o vínculo do crime à pena (Luiz Flávio Gomes); 5. crime é fato típico, antijurídico e culpável, incluindo os finalistas (Francisco de Assis Toledo, Fragoso, Zaffaroni, Cezar Roberto Bitencourt, Luiz Regis Prado, Maurach) e causalistas (Hungria, Frederico Marques, Aníbal Bruno, Noronha, Manoel Pedro Pimentel) e também os adeptos da teoria social da ação que desejam um ajuste entre o causalismo e o finalismo (Jescheck, Wes- sels). Esse conceito é majoritário no Brasil e no exterior (Nucci, Manual de direito penal, parte geral, parte especial, p. 161). Sob esse prisma, o menor de 18 anos não comete crime, pois falta a culpabilidade (imputabilidade); 6. Doutrina penal alemã: sistema tripartido (fato típico, antijurídico e culpável) e sistema bipartido (tipo do injusto e culpabilidade). Sistema bipartido alemão. No sistema bipartido, a tipicidade e a antijuridicidade são elementos integrantes do tipo do injusto, que podem admitir “operacionalização analítica separada”, mas não constituem categorias estruturais diferentes do fato punível. O tipo legal é a descrição da lesão de bens jurídicos (dano ou perigo de lesão concreto) e a antijuridicidade é um juízo de valoração do comportamento descrito no tipo legal, formando o conceito do tipo de injusto (OTTO). O sistema bipartido inclui a teoria dos elementos negativos do tipo de ADOLF MERKEL: tipo legal e antijuridicidade são a dimensões de descrição e valoração do conceito de tipo total do injusto. As causas de justificação estariam separadas dos tipos legais apenas por motivos técnicos. Isso porque todo o tipo penal deveria ser lido assim: “matar alguém, exceto em legítima defesa...”. A inclusão das excludentes de antijuridicidade no tipo penal transforma os preceitos permissivos em características negativas do tipo do injusto. Enquanto o tipo legal descreve as características positivas do tipo do injusto, as excludentes mencionam as características negativas que tornam o fato atípico. Existem, portanto, duas categorias principais: o tipo do injusto (tipo legal + ausência de justificação) e a culpabilidade. São adeptos: ENGISCH, ARTHUR KAUFFMANN, SCHÜ- NEMANN e HERZEBERG. Dois fatores podem ser favoráveis ao bipartidarismo: a existência de tipos penais que contém o caráter do injusto no tipo penal (v.g. o caráter injusto do mal no crime de ameaça) e os tipos penais que não admitem a juridicidade ou licitude da conduta (p. ex. o exercício regular do direito no estupro, suprimindo-se a visão machista de admissão da relação sexual do marido com a mulher) (Juarez Cirino dos Santos, A moderna teoria do fato punível, p. 4). SISTEMA BIPARTIDO: FÓRMULA: CRIME = TIPO DO INJUSTO (TIPICIDADE + ANTIJURICIDADE) E CULPABILIDADE Sistema tripartido alemão. Dominante na dogmática contemporânea, define crime como ação típica, antijurídica e culpável. Na linha do sistema tripartido, houve três modelos acima já anali- sados, o modelo clássico, o neoclássico e o finalista. Diferenciam-se da teoria tripartida brasileira porque admitem como no sistema bipartido alemão, os conceitos de injusto e de culpabilidade Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 87Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 87 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 Mariana Correa Mariana Correa Mariana Correa DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida88 (na doutrina brasileira, não se admite o conceito único de injusto). Mas na verdade, esse sistema admite a autonomia dos conceitos de tipicidade e de antijuridicidade. As funções da tipicidade e da antijuridicidade não se esgotam na constituição do tipo do injusto, mas realizam funções político criminais. Nesse diapasão, não se pode nivelar um fato atípico (matar um inseto) do fato de matar alguém em legítima defesa (WELZEL). São defensores: BAUMANN/ WEBER/ MITSCH; BOCKELMANN/ VOLK; JACKOBS; JESCHEK/ WEIGNEND, LACKNER, MAURACH/ ZIPE, WELZEL, WESSELS/ BEULKE; ROXIN (Juarez Cirino dos Santos, A moderna teoria do fato punível, p. 4-5). Dessa forma, o tripartidarismo é o que mais se aproxima do que se entende na doutrina brasileira, mas a doutrina alemã contém detalhes maiores. Jakobs e Roxin. Ambos os autores, classificados por JUAREZ CIRINO DOS SANTOS como adeptos do tripartidarismo, fornecem uma ênfase diferente. Jakobs fornece ênfase à culpabilidade (funcionalismo sistêmico), onde aquele que não realiza a sua função na sociedade, torna-se seu inimigo. 3.1 Conceito analítico de crime para Roxin. Roxin fala em um projeto de sistema teleológi- co-político criminal. Entende o crime dessa forma. (1) Ação (conduta) resultado de uma valoração que permita imputar a alguém essa conduta. Não se trata algo empírico (afastando-se da conduta causalista e finalista), mas tendo o homem como centro espiritual da ação ou manifestação de sua personalidade. (2) Conduta típica. O amoldamento típico se perfaz através da avaliação da pena em abstrato, influenciada pela política criminal. Todo tipo deve ser interpretado segundo o fim da lei (teleológico). São utilizadas a prevenção geral e a culpabilidade. (3) Conduta injusta. Aqui se analisa a ação típica concreta. O termo injusto seria mais amplo do que o antijurídico porque a antijuridicidade não seria um conceito exclusivo do direito penal. (4) Conduta responsável. Inclui não apenas a culpabilidade, mas também a necessidade da pena em razão da prevenção especial. (5) Outros pressupostos da punibilidade. Nesse caso, esses pressupostos somente se aplicam a poucos preceitos penais, exemplificando como a conduta de denegrir símbolos estrangeiros. A avaliação de motivos vinculados à política exterior (Roxin, Derecho penal, parte general, tomo I, p. 218-223). Esse novo conceito é extremamente sutil e não pode ser enquadrado nos moldes do conceito analítico acima exposto. O conceito analítico dominante moderno segundo Roxin: a síntese neoclássica-finalista. Existe uma mistura da anterior teoria neoclássica (Bauman) e a finalista (Welzel, Maurach). Esse entendimento não admite a teoria finalista como explicadora do conceito de ação, mas mantém o seu principal legado que é o dolo como elemento subjetivo. A conceituação da teoria “moderna” critica a teoria finalista que não consegue explicar os crimes culposos e os delitos de omissão com base no controle dos cursos causais. O fundamento do dolo como elemento subjetivo não se fundamentaria propriamente no conceito de ação, mas sim no sentido social da ação, que exigiria o dolo (Roxin, ob. cit., p. 202). Funcionalismo (ou sistema racional-final ou teleológico). A partir de 1970, o funcionalismo surgiu como crítica ao finalismo. Não se pode admitir como o finalismo a vinculação do sistema jurídico penal a realidades ontológicas, incluindo a ação, a causalidade, mas tão somente a finalidades do próprio Direito Penal. Isso incluiria as bases político criminais da moderna teoria dos fins da pena. Essas bases se apoiam em dois pilares: (1) a teoria da imputação objetiva, que é o grande destaque do funcionalismo, como dimensão normativa do tipo; (2) a ampliação do conceito de culpabilidade. Assim, um moderno sistema penal deveria ser estruturado teleologicamente, ou seja, atendendo às finalidades valorativas. A ação funcionalista. A ação não estaria definida por algo empiricamente preexistente (no caso da teoria causalista, a conduta voluntária e no caso do finalismo, a conduta finalista), mas sim por uma identidade do aspecto valorativo: o homem como centro espiritual da ação. Não se inclui, portanto, condutas unicamentecorporais ou somáticas do homem, ou seja, sem o seu controle. São exemplos as condutas de um sonâmbulo ou de uma Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 88Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 88 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 Mariana Correa CaP. 3 • tEoria do CrimE 89 pessoa que sofra ataque convulsivo (Roxin, ob. cit., p. 252). O tipo funcionalista. Para Roxin, o tipo penal em abstrato surge em atendimento à prevenção geral, visando desestimular a sociedade para a prática de delitos. Mas no caso do funcionalismo, a política criminal na prevenção geral exige a interpretação do fim da lei incriminadora e também uma precisão da lei penal, ou seja, não pode ser ambígua. Também em segundo lugar, incide sobre o tipo, a culpabilidade, vedando- -se o princípio do versari in re illicita (dispensa do elemento subjetivo no tipo penal) (ob. cit., p. 218-219). O injusto funcionalista. Deve-se falar em injusto e não somente em antijuridicidade. São três os elementos. (1) solução de conflito de interesses para a punição; (2) fundamento para a aplicação das medidas de segurança; (3) entrelaçamento do direito penal com todo o restante do ordenamento jurídico. Nossa preferência. Preferimos o conceito de crime como fato típico e antijurídico (posição bipartida), entendendo a culpabilidade como pressuposto de aplicação da pena. Exemplo é o homicídio. Matar alguém. Se atiro em alguém, existe previsão da lei ou do tipo, daí que cometi fato típico. Não ajo com alguma excludente de antijuridicidade, daí que a minha conduta é contrária à lei: fato típico e antijurídico. Esse entendimento do conceito de crime é denominado por Luiz Flávio Gomes (Direito penal, v. 2, parte geral, p. 182) de finalismo dissidente. Predomina na doutrina, inclusive mundial, o sistema tripartido clássico, prevendo os três elementos na conceituação do crime: tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade, acrescido da autonomia dos mesmos (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 207 e 545). Classificação pela separação ou não da tipicidade e da antijuridicidade. Maurach cita outra classificação: (1) Teoria bipartida: dois elementos: o primeiro é a tipicidade e a antijuridicidade juntas mais a culpabilidade (Mezger e Sauer). (2) Teoria tripartida: são três elementos: tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade. A tipicidade seria um mero indício de antijuridicidade, sendo esta a teoria dominante (Derecho penal, parte general, p. 224). Atenção: Prevalece na doutrina o entendimento de que crime é fato típico, antijurídico e culpável (teoria clássica tripartida). Infração penal: abrange crime (delito) e contravenção penal. O art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal prevê o seguinte: “Considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente.” O sistema clássico brasileiro é bipartido, admitindo (1) o crime ou o delito; e (2) a contravenção, seguindo o modelo italiano. O art. 28 da Lei de Drogas não estipula tecnicamente pena privativa de liberdade. Todavia, continua sendo denominado de “crime” (STF, RE 430.105-9-RJ, j. 13-2-2007). Na Alemanha, adota-se o sistema tripartido, incluindo (1) crime; (2) delito; e (3) contravenção. No sistema tedesco, a diferença entre crime e delito reside na pena em abstrato, tal qual na nossa Lei dos Juizados Especiais criminais. No caso de crimes, a privativa de liberdade cominada em abstrato seria de um ano ou maior, sendo que o CP alemão só prevê a pena máxima. No caso dos delitos, as penas privativas seriam inferiores a um ano ou com apenas pena pecuniária (Wessels, Direito penal, parte geral, p. 7). Contravenção penal é uma espécie de infração penal de menor potencial ofensivo. Também através da Lei de Introdução ao Código Penal, em seu art. 1º, existe uma distinção sobre a forma de execução da pena. Se for crime, pena de reclusão e detenção e multa. Se for contravenção, prisão simples mais multa. Há uma tendência moderna em apenas se criar crimes e com pena somente de reclusão, não mais se criando tipos penais contravencionais. Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 89Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 89 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 Mariana Correa Mariana Correa DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida90 Estrutura do crime: vamos analisar, agora, a forma de apresentação dos crimes da parte es- pecial (exemplos: homicídio do art. 121, roubo do art. 157 etc.). Sujeito ativo do crime: é aquele que pratica o fato típico ou realiza o núcleo do tipo (pratica o verbo). Exemplo: no homicídio, qualquer pessoa física, pois qualquer ser humano pode praticar este crime. Todavia, a figura do sujeito ativo não se confunde com a de autor e inclui, portanto, o partícipe. Sujeito passivo do crime: é quem sofre a lesão ou o perigo de lesão (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 260). Pode ser geral (constante), que é o Estado, e particular (eventual), que pode ser a pessoa física ou jurídica e ainda o próprio Estado ou a coletividade. Em todos os crimes, o Estado é atingido. Por exemplo, o art. 340 do CP trata da comunicação falsa de crime ou contravenção, sabendo o agente que o fato não se verificou. Quem é o sujeito passivo? O Estado, pois é o serviço de segurança que fica prejudicado pela falsa comunicação de crime. Em todos os demais crimes, o Estado sempre é o sujeito passivo, sempre estará sendo atingido pelo cometimento de algum crime. 3.2 CAPACIDADE PENAL 1. conceito: conjunto de condições para que o sujeito seja titular de direitos e obrigações no campo penal; 2. pessoas físicas e jurídicas: atualmente, tanto a pessoa física (o ser humano) pode cometer um crime (exemplo: o homicídio) como também pode ser imputada a responsa- bilidade penal à pessoa jurídica (por exemplo, uma empresa). A própria CF, em seu art. 225, § 3º1, permitiu a penalização da pessoa jurídica. Historicamente, o sistema da common law sempre admitiu a responsabilidade penal da pessoa jurídica. Por outro lado, os Estados que aderiram aos sistemas codificados, incluindo a Europa Continental e a América Latina rejeitaram essa res- ponsabilidade penal da pessoa jurídica. A exceção é a França que admitiu essa responsabilização, exceto para crimes essencialmente vinculados à pessoa física como o homicídio e o estupro. O Brasil, com a CF, adotou o sistema francês, mas limitou essa responsabilidade aos crimes am- bientais (Juarez Cirino dos Santos, Direito penal, parte geral, p. 683). Como a mesma pode ser atingida? Através de uma pena restritiva de direitos, como no caso de interdição da empresa ou através de uma pesada multa (calculada em dias-multa). Por exemplo, a Lei nº 9.605/ 98, que trata dos crimes contra o meio ambiente, prevê que são penas restritivas de direitos da pessoa jurídica a suspensão de sua atividade (por exemplo, se explora a extração de ferro na Serra dos Carajás, o juiz pode ordenar a paralisação dessa atividade), interdição temporária de obra (uma empresa que está construindo uma rodovia como a Transamazônica, desmatando, pode sofrer como pena a paralisação desta obra) e finalmente existe a proibição de contratar com o Poder Público. Outra particularidade desta lei é o art. 34, que veda, por exemplo, a pesca no período em que a mesma é proibida, punindo com pena de um ano a três anos de detenção ou multa, ou ambas cumulativamente. Deixada de lado a discussão sobre a falta de ação ou omissão da pessoa jurídica, anteriormente, prevalecia na responsabilização da pessoa jurídica a teoria da dupla imputação, não admitindo que o delito seja direcionado exclusivamente à pessoa jurídica. Era a chamada responsabilidade indireta ou por ricochete (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal,v. 2, parte geral, p. 260). Assim, a pessoa jurídica só responderia penalmente se houvesse responsabilização também da pessoa física. Essa posição jurisprudencial foi alterada, entendendo o STJ que é possível a responsabilização da pessoa jurídica nos crimes ambientais, 1. Art. 225, § 3º, da CF: “As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.” Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 90Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 90 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 CaP. 3 • tEoria do CrimE 91 independentemente da responsabilização da pessoa física (RMS 39.173/ BA, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. 6/ 8/ 2015, DJe 13/ 8/ 2015). Objetos do crime: 1. o objeto pode ser jurídico: bem jurídico: o bem ou interesse protegido pela norma penal. Para Hassemer (Theorie und Soziologie des Verbrechens, p. 19 e ss apud Mau- rach, Derecho Penal..., p. 216), existem dois aspectos no conceito de bem jurídico: (1) critério intrassistemático, que serve para organização dos tipos penais, relacionando-se ao conceito formal; (2) critério crítico do sistema: a escolha do bem jurídico se relaciona à política criminal e ao conceito material de direito material. No latrocínio, qual é o bem jurídico protegido? É crime complexo: primeiro se protege o patrimônio (objeto imediato), depois, o bem vida (mediato); 2. objeto material é o elemento típico sobre o qual recai a conduta. O objeto da ação pode ser corpóreo. Por exemplo: no homicídio, a bem jurídico é a vida e o objeto material é o corpo físico. No crime de falsificação de documento público do art. 297 do CP, o objeto jurídico é a fé pública e o objeto material pode ser a cédula de identidade, com a colocação de outra fotografia. O objeto material pode ser ainda incorpóreo: nos crimes contra a honra, não existe corporifica- ção do objeto, mas ele existe: a honra. Há crimes sem objeto material, como o falso testemunho (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 261). Entre o bem jurídico e o objeto material não existe uma identidade (não são iguais), mas uma complementação (Busato, Fundamentos para um direito penal democrático, p. 55). Punibilidade: é a consequência jurídica do crime. Com a violação da norma, surge ao Estado o direito de punir (jus puniendi). A punibilidade não é requisito, isto é, não integra o conceito de crime para a maioria da doutrina. 3.3 CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES Crime comum: pode ser praticado por qualquer pessoa. Não exige nenhuma qualidade especial. É o caso do homicídio. Crime próprio: somente pode ser praticado por determinada categoria ou exige uma qualidade especial, mas admite coautoria ou participação de pessoa comum. Exemplo infanticídio: a mulher em estado puerperal pode matar o filho recém-nascido, mas pode haver outra instigando-a a fazer isto (exemplo: o marido). Se a mulher ordena que o marido mate (situação de infanticídio permitida pela doutrina dominante), o crime continua sendo próprio, pois exige uma condição ou qualidade especial, mesmo que essa qualidade este- ja presente na figura do partícipe. Os crimes omissivos impróprios por exigirem uma qualidade especial também são exemplos de crimes próprios (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 258). Essa qualidade especial significa um destaque, uma separação efetiva entre a pessoa comum e a pessoa com qualidade ou característica especial. Roxin menciona a necessidade de o agente ter uma qualidade especial no que denomina crime especial (o que seria para nós o crime próprio). Existiria para esse agente criminoso um dever extrapenal, ou seja, seria uma “infração de dever”. Seria exemplo o crime de corrupção passiva previsto no § 331 do CP alemão (Derecho penal, parte general, tomo I, p. 338). Assim, não se pode qualificar como característica ou qualidade pessoal, a pessoa contaminada pela doença grave no delito de perigo de contágio de moléstia grave. Em outras palavras, estar o agente criminoso contamina- do pode ser uma característica, mas não uma característica especial que eleve o delito a crime próprio. Deve ser interpretado portanto, como qualquer pessoa que possua uma moléstia grave, ou seja, um crime comum. Na mesma toada, o crime de homicídio culposo ao volante. Por exigir o condutor (o motorista) não se pode qualificar como crime próprio, porquanto não se trata de uma qualidade especial. Trata-se de um crime comum, podendo ser exercido por qual- quer pessoa, mas “de forma parcialmente vinculada”, quanto a esse requisito de ser o condutor (Renato Brasileiro de Lima, Legislação..., p. 1406). Crime próprio quanto ao sujeito passivo. De Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 91Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 91 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida92 regra, qualquer pessoa física ou jurídica pode ser sujeito passivo. Contudo, em alguns delitos existe um ente específico para ser sujeito passivo. P. ex. um dos poderes constitucionais (Execu- tivo, Legislativo ou Judiciário) no crime de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Esta classificação se torna imprópria, já que a rotulação de crime próprio deve se limitar ao sujeito ativo, não se estendendo ao sujeito passivo. Crime de mão própria: como o próprio nome diz, deve possuir a “mão” do agente, ou seja, deve atuar pessoalmente, o que o induz a se posicionar como autor. Segundo Janaina Conceição Paschoal (Direito penal, parte geral, p. 67), mão própria é o crime que não admite coautoria, mas tão somente a participação. Ou, ainda, crime de mão própria é aquele que deve ser cometido diretamente pela pessoa, não admitindo que outra realize para essa pessoa. Exige atuação pessoal e exclusiva do agente na autoria. Con- forme Wessels: “Nos delitos de mão-própria o tipo pressupõe que a ação se realiza diretamente pela própria mão, porque o desvalor especial da conduta do delito em causa só deve ser realiza- do deste modo. Quem não executa pessoalmente a ação não pode ser nem autor, nem coautor e nem autor mediato, mas somente partícipe (= instigador ou cúmplice) (Direito penal, parte geral, p. 10).’ Um exemplo é o crime de falso testemunho (art. 342) ou perjúrio: seguindo juris- prudência dominante, não é possível a coautoria nesse tipo de delito pelo advogado. Convém anotar que tal limitação se restringe à coautoria, admitindo para a corrente dominante a parti- cipação (RTJ 75/ 104). Porém, alguns julgados, ao rotularem tal crime como de mão própria, acabam por não admitir a coautoria e a participação (RT 601/ 321, RT 570/ 289). Outro exemplo é o crime de abandono intelectual (art. 246 do CP), já que não pode ser praticado senão pelos pais e trata-se de conduta omissiva. Igualmente o crime de abuso de autoridade na modalidade do art. 9º, parágrafo único, inciso I, da Lei nº 13.869/ 19, pois somente o juiz poderá deixar de ordenar o relaxamento de prisão. É possível nos tribunais que haja coautoria de juízes, mas isso não descaracteriza o crime de mão própria. Portanto, o correto é dizer que no crime de mão própria, a pessoa com qualidade pessoal, deve figurar como autora. O crime de mão própria não se confunde com o crime de domínio, em que se aplica a teoria do domínio do fato. Exemplo: homicídio cometido por agente em obediência ao chefe de quadrilha. Nesse caso, o crime é comum. Predomina, nesse caso, que o dominador é verdadeiro “autor”. Crime simples: é aquele que protege apenas um bem jurídico. Ex: o homicídio, já que protege somente a vida. Crime complexo: protege dois ou mais bens jurídicos. Ex: o latrocínio. Protege o patrimônio e a vida. Crime habitual: exige habitualidade para a consumação, ou seja, deve haver uma práti- ca reiterada e contínua, não bastando que a conduta seja feita em apenas uma ocasião. Cadaato ou conduta isolada é um indiferente penal. Exemplo: casa de prostituição (art. 229 do CP). O crime habitual é denominado crime habitual próprio, distinguindo-se do habitual impróprio. Neste, existe uma reiteração de crimes instantâneos ou permanentes, como, p. ex., a prática reiterada de roubos (crime instantâneo), próprio da continuidade delitiva. Crime de dano: é o que se consuma com a efetiva lesão do bem. Por exemplo, no roubo, o bem patrimônio deve ser efetivamente atingido. Como conceito, o crime de dano se refere ao bem jurídico, diferen- ciando-se do crime de perigo quanto ao momento de consumação do crime. Já o crime material, refere-se à consumação quanto ao resultado naturalístico. O que não se pode afastar é que o dano se aproxima do resultado naturalístico. Crime de perigo: é o que se consuma com a pos- sibilidade de dano ou com o simples perigo ou risco. Esta classificação em muito se aproxima da fornecida aos crimes materiais em contraposição aos formais e de mera conduta. Por isso, entendemos que pode existir um crime de perigo (abstrato ou concreto) em um crime formal ou de mera conduta. A simples prática do verbo que gera a consumação nos crimes formais e de mera conduta, na verdade, contém o “perigo” da prática desse verbo. Exemplo: perigo de contágio venéreo do art. 130 do CP. Pode ser perigo individual (indivíduo ou grupo) ou Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 92Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 92 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 CaP. 3 • tEoria do CrimE 93 coletivo (número indeterminado de pessoas). Pode ser ainda perigo abstrato (presumido) ou concreto (deve ser provado). É possível um crime de perigo abstrato e ao mesmo tempo formal, como o crime de participação em suicídio ou automutilação. Existem crimes ecléticos ou mistos, incluindo na consumação, a ocorrência do dano e do perigo. É a hipótese do crime de epidemia. Para configuração, exige-se a contaminação por determinada parcela da população (dano), mas existiria a maior parte da população não contaminada (e nesse caso, existiria o perigo). Crime de ação única: contém apenas uma modalidade de conduta (aqui se entende verbo). Exemplo: no homicídio, existe uma única conduta descrita: matar alguém (art. 121 do CP).Crime de ação múltipla: contém tipos alternativos ou múltiplos, fornecendo mais de uma conduta. O exemplo típico é do art. 33 da Lei de Tóxicos, que contém vários verbos: adquirir, transportar, ter em depósito, vender, guardar etc. Mesmo que o agente realize mais de um verbo, o crime é único, aplicando-se o princípio da alternatividade: vários verbos, mas um único crime. Crime falho: incide na tentativa perfeita. O agente esgota todos os meios para consumar o crime, mas não consegue atingir o seu intento. Exemplo: o agente descarrega as balas de metralhadora na pessoa e esta ainda sobrevive. Ele, o agente, julga que tinha liquidado a vítima. Crime profissional: não se confunde com o crime próprio e nem com o de mão própria. Delito profissional é aquele praticado por profissional, valendo-se desta atividade para praticar. Pode incidir em: Crime funcional: é o praticado por funcionário público. Exemplo: concussão (exigência de dinheiro para não realizar ato – art. 316 do CP).Crime consumado: onde se reúnem todos os elementos de sua definição legal. O conceito é extraído do art. 14, I, do CP. Exemplo: no homicídio, o crime se consuma com a morte da vítima. Crime tentado: é aquele em que, iniciada a execução, não se consuma o crime, por circunstâncias alheias à vontade do agente. Exemplo: no homicídio, dispara cinco tiros, mas não mata a vítima. Seu desejo era matar, mas ocorreram circunstâncias que impediram a morte (exemplo: ser socorrido prontamente no nosocômio). Crime exaurido: é o que, depois de consumado, atinge suas últimas consequências, lesivas ou não. Exemplo: extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP) e o pagamento do resgate. Crime impossível: é aquele impossível de se consumar em razão da ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto (art. 17 do CP). Por exemplo: algumas jurisprudências tendem a dizer que há ineficácia do meio (o furtador não iria, pelo seu método de furtar, consumar o crime) da pessoa que sai com objeto ou roupa etiquetada com alarme e este dispara, acionando a vigi- lância. Ressalte-se que, na prática, a inserção de papel-alumínio dentro da sacola impede que o alarme soe, portanto, admitindo possibilidade da consumação. Solução: tecnicamente, comete tentativa de furto. Quanto ao crime impossível, o CP fala em “não se pune”, isto é, não se aplica a pena. Crime instantâneo: é aquele cuja consumação não se prolonga no tempo, ou seja, é de consumação imediata. Exemplo: furto (art. 155). Subtraiu e ficou com a posse tranquila, consu- mou-se o crime. Crime permanente: é aquele cuja consumação se prolonga no tempo, enquan- to perdurar a conduta do sujeito ativo. Isso depende da interpretação do verbo. Isso é impor- tante para a prisão em flagrante, pois, como a consumação se prolonga, pode ser preso a qualquer momento. Está previsto no art. 303 do CPP: “Nas infrações permanentes, entende-se o agente em flagrante delito enquanto não cessar a permanência”. Exemplo: art. 33 da Lei de Tóxicos (guardar droga para fim de tráfico) ou extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP): enquanto estiverem sequestrando, os sujeitos ativos podem ser presos em flagrante delito. A consumação ocorre num primeiro momento, mas prolonga-se no tempo até a cessação da con- duta típica. Outrossim, no Inq. Nº 4.781 do STF, decisão de 16 de fevereiro de 2.021 do Min. Alexandre de Moraes, decidiu-se que as condutas 17, 18, 22, incisos I e IV, 23, incisos I, II e IV e 26, da Lei de Segurança Nacional, podem ter essa qualidade de permanência se houver publi- cação em rede social na Internet (no caso Youtube) e existir grande acesso (no caso 55 mil Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 93Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 93 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida94 acessos). Crime instantâneo de efeitos permanentes: a consumação ocorre de imediato e seus efeitos não podem mais ser desfeitos. Exemplo: homicídio. A mata B. Mesmo se arrependendo, A não poderá mais remediar a situação. O efeito morte se perdura no tempo. O STF entendeu que o estelionato previdenciário é crime instantâneo de efeitos permanentes, ocorrendo a con- sumação a partir do recebimento do primeiro benefício (HC 95379/ RS, Rel. orig. Min. Ellen Gracie, red. p/ o acórdão Min. Cezar Peluso, 25-8-2009). Mas, na verdade, o estelionato previ- denciário é crime instantâneo, sem se poder catalogar como permanente, em razão da possibi- lidade de reversibilidade. Crime eventualmente permanente: é aquele instantâneo, mas que, presentes determinadas características da conduta típica, será permanente (exemplo: o crime de estelionato praticado contra a Previdência Social, que se consuma cada vez que o agente recebe uma parcela do benefício indevido). Tecnicamente, seria crime continuado. Melhor exemplo seria do furto. O furto de uma carteira seria crime instantâneo. Já o furto de água, através de ligação clandestina, seria um crime permanente. Então o que diferencia um crime instantâneo do crime permanente é o TEMPO DE DURAÇÃO DO VERBO. Crime material: é aquele que requer um resultado dito naturalístico separado da conduta (ação ou omissão). Naturalístico é o mesmo que natural. No caso, um resultado que se produz na natureza. Exemplo: art. 121 – matar é a ação. Resultado naturalístico é a morte da vítima. Crime formal: é aquele que não requer o resultado previsto no tipo para a consumação, bastando a ação ou omissão do agente. Exemplo: extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP), basta a ação de sequestrar, não se exigindo a vantagem patrimonial (o dinheiro). O crime formal pode ou não admitir a tentativa. Praticado pelo meio oral, normalmenteé unissubsistente (injúria, ameaça ou assédio sexual oral), não admitindo a tentativa. Praticado pelo meio escrito, é possível o conatus (tentativa). Um exemplo que contém crime material e crime formal é o da corrupção passiva (do funcionário). No solicitar ou aceitar promessa de vantagem indevida, crime formal. No receber, crime material (tal qual no subtrair do furto). Há entendimento que nos três casos o crime é formal (entendimento predominante, já que o resultado naturalístico seria o ato de ofício). O crime formal, dispensando o resultado naturalístico, é também de perigo. P. ex. o STJ admitiu “o crime formal de perigo abstrato” na hipótese no crime do artigo 183 da Lei nº 9.472/ 1997, bastando que “que alguém desenvolva de forma clandestina as atividades de telecomunicações, sem necessidade de demonstrar o prejuízo concreto para o sistema de telecomunicações.” (AgRg no REsp 1430241/ RO, DJe 10/ 06/ 2014). Crime de mera conduta: é aquele que não precisa e não possui o resultado naturalístico no tipo penal. Exemplo: porte ilegal de arma permitida com numeração (art. 14 do Estatuto do Desarmamento) (TJSP – Apelação Criminal nº 990.08.052428- 3 – Guarujá – 9a Câmara de Direito Criminal – Relator: Sérgio Coelho – 10.12.09 – V.U. – Voto nº 9504). O crime se consuma apenas com o trazer consigo pelo agente. Suponha que o agente portasse para fins de praticar roubos. Essa finalidade (roubo) não é expressa no tipo do porte de arma, bastando para consumar o trazer consigo. Logo, é crime de mera conduta. Em igual sentido, o crime de omissão de socorro (art. 139 do CP). O tipo penal não prevê o resultado (por exemplo, a morte da vítima). Basta que o agente não socorra para consumar o crime, não existindo o resultado morte previsto no tipo penal. Os crimes formais e os de mera conduta são chamados de crimes de atividade. Classificação apenas em crime material e crime de mera conduta. Há autores como Juarez Tavares que classificam os crimes em crime de resultado (material) e em crime de mera atividade (mera conduta). Mas esta classificação em nada se re- laciona à classificação da teoria causal acima exposta baseada no resultado naturalístico (Teoria do injusto penal, p. 244). Crime de resultado. Nesse sentido crime de resultado seria aquele em Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 94Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 94 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 CaP. 3 • tEoria do CrimE 95 que se poderia diferenciar no espaço e no tempo, a conduta (ação) e o efeito (resultado). Mas esse efeito não se limitaria ao resultado naturalístico (dano), mas abrangeria a lesão (dano) e o perigo concreto (Roxin, Derecho penal, parte generale, tomo I, p. 328). Portanto, o resultado naturalístico poderia ser representado pelo perigo concreto. Toda vez que se pudesse diferenciar duas fases, haveria delito de resultado. O homicídio se enquadraria, pois existiria a conduta e o resultado (dano), abrangendo a morte (Teoria do injusto penal, p. 244). Crime de mera ati- vidade. Por outro lado, crime de mera atividade seria aquele em que não se pode diferenciar duas etapas, porquanto o efeito se esgota já na conduta (ação) (Roxin, Derecho penal, parte generale, tomo I, p. 328). O exemplo o delito de injúria: haveria duas etapas que já ocorreriam na conduta: a emissão da ofensa e o conhecimento pelo ofendido da ofensa. Daí este delito que para classificação clássica seria crime formal, na visão de Tavares seria crime de mera atividade. Daí não ter cabimento sob esse ponto de vista a classificação do crime formal. Isso porque em todos os delitos (de resultado e de atividade), haveria o dano ao bem jurídico (Teoria do injusto penal, p. 246). Na verdade, essa análise depende do que se considera resultado ou dano para a consumação do crime. Para a teoria causalista, entendemos com o resultado naturalístico (e não o perigo concreto). E também qual a conceituação de crime material e de mera conduta para ambas as correntes. A conceituação clássica e a própria teoria clássica sempre alvo de crítica dos penalistas alemães, só pode ser utilizada no universo penal brasileiro quando se demonstrar útil ao sistema jurídico-penal brasileiro. Na hipótese do direito penal brasileiro, a conceituação clássica se mostra ainda útil para trabalharmos com a consumação do delito e com o apenamento do agente criminoso. Crime comissivo: é o que exige uma atuação positiva do agente. Exemplo: no furto, art. 155 do CP, exige-se a realização do verbo subtrair. Crime omissivo: é aquele que exige uma conduta negativa do agente, um não fazer quan- do existiria obrigação para fazer. Existem os crimes de omissão própria, que são previstos no próprio tipo penal. Exemplo: omissão de socorro (art. 135 do CP) e o crime de abandono material, por exemplo, ao deixar de pagar a pensão (art. 244 do CP), e ainda o crime de abandono intelectual (art. 246 do CP), ao deixar de proporcionar ao filho o ensino primário. E ainda existem os crimes de omissão imprópria com previsão no art. 13, § 2º, do CP. Nesse caso, o agente criminoso assume a função de “garante”. Existe um dever de praticar uma con- duta comissiva que não é obedecido. Crime progressivo: é aquele que exige do agente, para alcançar resultado mais grave, uma passagem anterior pelo resultado menos grave. Exemplo: no homicídio, há necessidade de produzir lesões corporais. Difere da progressão criminosa em que primeiro o agente quer praticar um crime (exemplo: lesão corporal) e depois deseja praticar outro (homicídio doloso), destacando-se nitidamente dois dolos, embora o agente tam- bém irá responder só pelo homicídio doloso. Crime principal: é o que independe da prática de delito anterior. Exemplo: o furto ou roubo. Crime acessório: é o que depende da existência de infração anterior. Exemplo: art. 180 do CP (receptação) é crime acessório porque depende da existência de crime anterior (p. ex.: o furto). Crime hediondo: é aquele que causa maior repulsa ou reprovação social, causando clamor público. O critério é legal e taxativo, ou seja, só são hediondos os citados no art. 1º da Lei nº 8.072/ 90. O tráfico de drogas não é hediondo, é somente equiparado. Crime de flagrante esperado: é aquele em que o sujeito passivo aguarda o momento de sua consumação ou mesmo do exaurimento para a prisão em flagrante. É admitido. Consoante tese sobre prisão em flagrante do STJ: “No flagrante esperado, a polícia tem notícias de que uma infração penal será cometida e passa a monitorar a atividade do agente de forma a aguardar o melhor momento para executar a prisão, não havendo que se falar em ilegalidade do flagrante.” Crime de flagrante preparado: é aquele em que o agente é levado a praticar o Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 95Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 95 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida96 crime por instigação de alguém (teoria da armadilha)2. O exemplo é o policial disfarçado que induz o agente a adquirir o entorpecente para consumo próprio. Tratando-se de modalidade de crime impossível, não é válido, mas, no caso específico do tráfico, a jurisprudência admite a condenação por conduta anterior como guardar ou ter em depósito. Crime de responsabilidade: é aquele que viola dever de cargo ou função. Exemplo: crime de responsabilidade de prefeitos e vereadores (Decreto-lei nº 201/ 67). A sanção é nitidamente administrativa, como v.g. a perda do cargo. Crime de circulação ou de trânsito: é aquele praticado através de automóvel. Exemplos: homicídio culposo (art. 302 da Lei nº 9.503/ 97) e lesão corporal culposa (art. 303 da mesma lei). Crime vago: é aquele que, normalmente, não possui sujeito passivo determinado, sendo este a coletividade. Exemplo: crime de publicidade enganosa (art. 67 da Lei nº 8.078/ 90). Não se confunde com o crime oco, que é assim denominado porque o meio escolhido é ineficaz (crime impossível). Crime deatentado (ou crime de empreendimento): é aquele que equipara, no próprio tipo, a forma tentada e a consumada. Exemplo: crime do art. 2º, IX da Lei nº 1.521/ 51: “obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos (“bola de neve” (compra de bilhete “premiado”, com repasse para outros), “cadeias” (correntes da sorte), “pichardismo” (promessa de aquisição de várias mercadorias) e quaisquer outros equivalentes). Crime político: é aquele que atinge a soberania nacional e a ordem política (art. 359-K do CP). Se for exclusivamente político, não admite a extradição do estrangeiro (art. 5º, LII, da CF). Se vinculado ao terrorismo admite (art. 4º, VIII, da CF). Crime a distância ou de espaço máximo: é o que envolve dois ou mais países. Exemplo: tráfico de drogas que sai da Bolívia, passa pelo Brasil e acaba na França. Crime plurilocal: é aquele que ocorre dentro do território nacional, porém em locais distintos (o local da conduta é diferente do local do resultado). Ex: o agente atira em Carapicuíba (SP) e a vítima vêm a falecer em Itapevi (SP) (Renato Brasileiro de Lima, Manual de processo penal, p. 535). Crime transeunte: é aquele que não deixa vestígios. Exemplo: injúria verbal se não houver gravação (não há vestígios). Crime não transeunte (ou de fato permanente): é aquele que deixa vestígios, sendo obrigatório o exame de corpo de delito (art. 158 do CPP). Crimes de atentado ao Estado de Direito: são ilícitos que atentam contra o bem jurídico segurança nacional. Exemplo: crime do art. 359-L do Código Penal. Crime em ricochete: ricochete significa desvio de direção. Ocorre tal crime quando incide o chamado dolo direto de segundo grau. Exemplo: traficante atira em um bar na vítima que não pagou pela droga, mas acerta também os amigos da vítima. Quanto a estas, existe o dolo de segundo grau e o crime em ricochete. Há entendimento de que seria crime com dolo eventual. 3.4 FATO TÍPICO 3.4.1 Conceito Evolução do conceito de tipo penal. Pode-se falar em 3 (três) fases conceituais do tipo penal. (1) Teoria da autonomia ou absoluta independência. O tipo com o caráter puramente descritivo, sem valoração (BELING). O conceito de Tatsbetand assume um significado técnico mais restrito. Para Beling, o tipo é meramente objetivo e descritivo. Mas o próprio Beling se refere à tipicidade como sempre antijurídica, dentro de certos limites. Nas palavras do próprio autor: “Assim, da sanção da lei deve-se inferir que o tipo de conduta a que se refere a lei penal, para o legislador, é antijurídica em todos os casos, dentro de certos limites, de modo que resta 2. Cleber Masson, Leis de drogas, aspectos penais e processuais penais, 2ª Ed., 2.021, p. 83. Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 96Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 96 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 CaP. 3 • tEoria do CrimE 97 apenas estabelecer quais são esses limites” (A ação punível e a pena, p. 14). (2) Teoria da indicia- riedade ou da “ratio cognoscendi”. O tipo tendo o caráter indiciário da ilicitude. Isso significa que quando o agente pratica um fato típico, provavelmente esse fato também será antijurídico (MAYER). (3) Teoria da absoluta dependência ou da “ratio essendi”. O tipo como própria razão da ilicitude, sendo sua ratio essendi (MEZGER). Mezger ao tratar da antijuridicidade dentro da própria tipicidade adota uma posição antagônica a de Beling (Rogerio Greco, Código penal comentado, p. 36). Das palavras do próprio Mezger ao tratar INJUSTO como sinônimo de ANTJURIDICIDADE: “Uma ação só é punível se for antijurídica. A ANTIJURIDICIDADE, ou, como se costuma mencionar na atualidade, o INJUSTO, é um pressuposto imprescindível de todo fato punível. Antes, o termo mais utilizado era ‘antijuridicidade’, que significa simplesmente, que o delito constitui uma violação do direito, ou que se contradiz ao direito. Atualmente, em virtude da aversão a conceitos rigorosos ou uma certa predileção por expressões mais vagas, se prefere empregar, com dizemos, a palavra injusto (literalmente: no direito: ‘Unrecht’), que determina o conceito com menor precisão que a outra”. Mas MEZGER ao citar WELZEL, ex- trai um conceito deste mais preciso sobre o injusto: “WELZEL, (Syst., 1951;15;16) atribui outro sentido às expressões ‘antijuridicidade’ e ‘injusto’. Segundo este autor, a antijuridicidade é uma característica de uma ação, e, mais exatamente, a relação que expressa um desequilíbrio entre a ação e o ordenamento jurídico, e injusto a ação antijurídica, como conjunto, a saber el objeto juntamente com su atributo valorativo (Edmundo Mezger, Derecho penal, parte general, p. 131) (negrito nosso). (4) Teoria dos elementos negativos do tipo. Para essa teoria o tipo penal é composto de elementos positivos (expressos) aos quais se somam elementos negativos (implícitos), incluindo causas excludentes de antijuridicidade (Rogerio Sanches Cunha, Manual de direito penal, parte geral, p. 321). Teoria dominante na doutrina penal brasileira. É a segunda, ou seja, a teoria da indiciarie- dade ou da “ratio essendi” (Rogério Sanches Cunha, Manual de direito penal, parte geral, p. 322). Fato típico. É o comportamento humano que se enquadra perfeitamente aos elementos contidos no tipo penal. Para Francisco de Assis Toledo, “para que uma conduta humana seja considerada crime, é necessário que dela possa, inicialmente, afirmar a tipicidade, isto é, que tal conduta se ajuste a um tipo legal de crime” (Princípios básicos de direito penal, p. 125). Para Nucci (Manual de direito penal, p. 183), a subsunção do fato ao tipo é a tipicidade, enquanto o fato típico seria a soma da conduta, nexo causal e resultado amoldados ao modelo legal. A doutrina penal brasileira é essencialmente objetivista, preocupando-se primeiramente com o atingimento do bem jurídico tutelado e só depois investigando o comportamento do agente. Mesmo o dolo é analisado posteriormente. Primeiro analisa-se o fato objetivo (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 214). Injusto penal. O injusto no sistema clássico (Liszt, Beling) comportaria um aspecto objetivo (tipicidade e antijuridicidade) mais outro aspecto subjetivo (localizado na culpabilidade). De qualquer forma, o estudo sempre recaiu sobre a tipicidade, a antijuridicidade e o dolo e a culpa. Com a inclusão do dolo no tipo penal, o injusto penal se restringiu à tipicidade e à antijuridi- cidade. Haveria no caso um tipo total do injusto pela teoria da “ratio essendi” (Maria Fernanda Salesse Pereira, OS EFEITOS DA CONCEPÇÃO DO INJUSTO PENAL, p. 221, “in” www.ojs.toledo.br › direito › article › download, acesso em 02-01-2.020, 21h40min). O tipo incluiria a antijuridici- dade, surgindo a teoria dos elementos negativos do tipo (Greco, Código penal comentado, p.36). Na doutrina penal brasileira, costuma-se separar a tipicidade da antijuridicidade. Isso não ocorre p. ex. na doutrina penal alemã que prefere entender como uma única fase, denominando esse amolda- mento do fato ao injusto penal. Para Roxin, o injusto significa uma categoria que enquadra uma ação típica concreta, incluindo todos os elementos reais da respectiva situação (fática), conforme os Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 97Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 97 13/10/2022 15:15:0913/10/2022 15:15:09 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida98 critérios permissivos e proibitivos. A antijuridicidade não seria uma categoria especial (Derecho penal, parte general, tomo I, p. 219). Justificativa para a unidade do injusto. A unificação da tipicidade e da antijuridicidade ocorreu em razão da necessidade se fornecer uma estabilidade e uma universalidade para a ciência jurídica. Diferencia-se nesse ponto e nessa teoria, a antijuridicidade ou ilicitude do injusto. A antijuridicidade ou ilicitude entendidas como expressões sinônimas constituiriauma característica da ação, uma relação da conduta proibida ou imposta e a totalidade da ordem jurídica. O injusto representaria a ação típica e antijurídica. Os fundamentos do injusto dizem respeito tanto aos limites e pressupostos do tipo quanto ao juízo de antijuridicidade (Juarez Tavares, Teoria do injusto penal, p. 134). Os motivos para se exigir a união decorrem inicialmente de que a antinormatividade (tipicidade) e a oposição do cometimento frente à ordem jurídica devem ser vistos na sua totalidade. Em segundo lugar, enquadra-se no prin- cípio da legalidade, exigindo que seus elementos sejam definidos em lei escrita e presentes ao caso concreto. A conjugação desses dois fatores é mais um critério da política criminal do que jurídico (Tavares, ob. cit., p. 134). Outra não é a ideia de Miguel Reale Jr., concebendo o delito na forma bipartida: “...em uma demonstração de que não tem a antijuridicidade au- tonomia, mas constitui a outra face da tipicidade. Dessa forma, o delito se compõe da ação típica, em suas faces positiva e negativa, e da culpabilidade, o que não importa prejuízo para examinar a face negativa, e da culpabilidade, o que não importa prejuízo para examinar a face negativa da tipicidade separadamente, ou seja, as causas de exclusão da tipicidade, sob o nome de antijuridicidade” (Instituições de direito penal, parte geral, p. 145, apud Prado, Curso de direito penal, parte geral e parte especial, p. 178, nota de rodapé 3). HANS-LUDWIG GÜNTHER defende a distinção e não a unificação. Isso porque existiram as causas de ex- clusão do injusto penal (atipicidade) e as de justificação (as excludentes de antijuridicidade). Roxin admite essa diferenciação, mas não vê necessidade nessa cisão, já que a questão seria puramente de política criminal. Fato típico como consequência de um raciocínio mental do juiz (imputação). Pode-se então situar a norma no mundo jurídico. Inclui uma proposição da seguinte forma: se acontecer determinado fato, aplicar-se-á determinada sanção. Esse é o verdadeiro conceito de norma jurídica: a vinculação de uma conduta ilícita a uma sanção. Por isso, nem todo texto legal pode ser tido como norma jurídica, considerando esse sentido estrito. O trabalho do jurista é de reconstituir ou religar o fato concreto à norma jurídica. O antigo art. 159 do CC de 1916 é que melhor retratava essa ideia de obrigação, que é fundamental e vincula um efeito jurídico ao que ocorre no mundo real ou social. Quando um fato histórico se reproduz, há uma coincidência. Há uma abstração, um tipo. Por isso é que se diz que o sujeito faz um “tipo”. O tipo, assim, basicamente significa uma estrutura, um modelo. Existe um esquema mental de reconhecer um tipo, um standard. No direito penal, fala-se essencialmente em um tipo. Isso se passa na cabeça do julgador. É um fato puramente mental (um juízo). Não significa uma causalidade, baseada no tempo vs. espaço. O efeito jurídico é imputado pela norma (não é causado). A norma é que imputa, tratando-se de um processo mental. Quando existe um delito, há incidência, mas não ainda aplicação. Essa ocorre com a imputação da norma feita pelo juiz em um processo mental. Excludente de tipicidade: (1) legal: prevista em lei. Exemplo: intervenção médico-cirúr- gica do art. 146, § 3º; I; (2) supralegal: não está em lei. Exemplo: princípio da insignificância. Adequação social: se a conduta é acolhida pela sociedade, deixa de ser considerada lesiva ao bem, tornando-a atípica. Exemplo: mostra de seios na praia e o ato obsceno. Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 98Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 98 13/10/2022 15:15:1013/10/2022 15:15:10 CaP. 3 • tEoria do CrimE 99 3.4.2 Elementos 1. conduta humana dolosa ou culposa; 2. resultado; 3. nexo de causalidade entre conduta e resultado; 4. enquadramento do fato material a uma norma penal incriminadora. Note-se que o estudo técnico se prende à adoção de uma escola, entre as quatro: a escola clássica, a finalista, a da adequação social da ação e a da tipicidade conglobante. Para a escola clássica, a ação é eminentemente objetiva e dispensa o elemento subjetivo, que somente será ne- cessário na culpabilidade. Para a escola finalista, não basta causar um resultado, mas é necessário buscá-lo. Para a teoria da adequação social, além da conduta, do dolo ou culpa, exige-se ainda um valor contrário aos valores sociais (Janaina Conceição Paschoal, Direito penal, parte geral, p. 40). A adequação social foi uma criação de Hans Welzel, para quem, embora possa existir uma tipicidade formal, poderia existir uma atipicidade quando socialmente adequada. Já para a teoria da tipicidade objetiva conglobante, cujo maior expoente é Zaffaroni, para que o fato seja típico, são necessários dois fatores: (1) a lesividade, ou seja, a afetação de um bem jurídico de forma significativa e; (2) a imputação objetiva, com a comprovação de que o agente se for autor, possui domínio sobre o fato e for partícipe, que sua conduta não seja banal ou inócua (Eugênio Raul Zaffaroni e outros, Manual de derecho penal, parte general, p. 370). Nesse caso, o bem jurídico não chega a ser afetado. É um corretivo da tipicidade legal. O mérito de Zaf- faroni foi o de ser o primeiro a defender a necessidade da ofensividade inserida na tipicidade, contrapondo-se ao conceito tradicional de fato típico formal. Zaffaroni sistematizou a ideia de Roxin e passou a dividir a tipicidade objetiva em duas partes: a tipicidade sistemática (formal) e a tipicidade conglobante. A tipicidade conglobante abrange o estudo da lesividade (dano ou perigo concreto) e mais a imputação objetiva (nexo causal). Assim, Zaffaroni trabalha com o tipo objetivo sistemático que se contenta com a fórmula disposta no texto legal e com o tipo objetivo conglobante. A partir daí, deve-se verificar a existência de um conflito (função conglobante). Para Zaffaroni, nessa segunda etapa, o conflito (ou exclusão da tipicidade) deve levar em conta, dois fatores. O primeiro a lesividade, ou seja, uma lesão a um bem jurídico ou a um direito. O segundo fator é que exista uma imputação objetiva. Existe, portanto, uma valoração negativa (ao contrário) que retira a tipicidade objetiva. Sobre a lesividade, Zaffaroni trabalha tanto com o princípio da insignificância, dando o exemplo de alguém que se apodera de um fósforo para acender um cigarro. Não obstante, Zaffaroni acaba adentrando também nas excludentes de an- tijuridicidade, exemplificando com a atipicidade da conduta do oficial de justiça que sequestra bens em razão de ordem judicial (estrito cumprimento do dever legal). É nesse ponto que sua teoria se torna inovadora, diferenciada. Sobre a imputação objetiva (negativa), Zaffaroni exem- plifica com o cônjuge que atormenta o outro, acelerando a morte por ataque de coração. Nesse ponto, concluiu Zaffaroni, que seria apenas uma imputação moral (Manual de derecho penal, parte generale, p. 357-358). Para Luiz Flávio Gomes (Direito penal, v. 2, parte geral, p. 236) que concorda em parte com Zaffaroni, a tipicidade é formal e material. A formal é a acima estudada. A material envolve ainda a desaprovação da conduta, a desaprovação do resultado jurídico e a imputação objetiva do resultado. Para referido autor, não se pode confundir tipicidade legal com tipicidade penal (que possui um conceito muito mais amplo). Em alguns casos, a jurisprudência, sem menção específica, já vinha afastando a tipicidade material, como no caso da embriaguez no crime de ameaça e de desacato e na hipótese de presentes resultados de pequena monta no crime de corrupção passiva. Note-se que a consideração ou modelo é do crime material (conforme Fernando Capez, Direito penal, parte geral, p. 69), ou seja, aquele que, para a consumação, exige o resultado naturalístico. É exemplo a morte (resultado naturalístico) no homicídio. Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 99Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 99 13/10/2022 15:15:1013/10/202215:15:10 DIREITO PENAL NA MEDIDA CERTA PARA CONCURSOS • Válter Kenji Ishida100 A doutrina do Tatbestand. A evolução da teoria do tipo. O sentido literal da palavra, Tatbestand deriva de Tat = fato e bestehen = naquilo no que o fato consiste. Costuma-se atribuir a Ernst von Beling a criação dessa doutrina: “Toda figura delituosa autônoma se compõe de pluralidade de elementos, os quais se encontram na correspondente lei penal, e previstos, às vezes, expressis verbis (textualmente), às vezes de maneira sub inteligenda (subentendida), para fins de precisão na sua interpretação. Encontram-se esses elementos em parte na face externa (objetiva), em parte na face interna (subjetiva) da ação” (Beling, Esquema do direito penal: a doutrina do delito-tipo, p. 51-52). A “revolução” provocada por Beling é sobre a nova conceituação analítica de crime. A tipicidade a partir daí se desprenderia da antijuridicidade e da culpabilidade. Antes de Beling, o Tatbestand compreendida todo o delito. A função do tipo para Beling era definir o delito, mas de forma objetiva (sem o dolo). O caráter neutro do tipo livrava-o de valorações legais ou normativas que se relacionaram com o juízo de antijuridicidade. O tipo penal esgotava-se na imagem externa de uma ação determinada. Competia à norma a valoração da conduta. Beling diferenciou dentro do injusto objetivo, a tipicidade da antijuridicidade (Bitencourt, Tratado..., vol. 1, p. 349-350). A doutrina do tipo legal ou tatbestand é puramente germânica (Ernst Beling). Na Itália, p. ex. Delitala falava no conceito analítico de crime como fato humano, antijurídico e culpável (Giuseppe Bettiol, Derecho penal..., p. 172-173). Apesar de se creditar à Beling a criação da teoria do tipo penal, existe na verdade, uma evolução desse pensamento na visão de Jiménez de Asúa (Bitencourt, Tratado..., vol. 1, p. 349). 1ª fase (independência). É a acima retratada de Beling. 2ª fase (ratio cognoscendi da antiju- ridicidade). É protagonizada por Max Ernest Mayer em seu Tratado de Direito Penal. A partir de Mayer é que a doutrina do tipo passou a ser mais aceita. Mayer aceitava o caráter descritivo do tipo objetivo, mas acrescentou que o fato da conduta ser típica constitui-se em indício de antijuridicidade3. A partir daí, Mayer admitia para o exercício da função indiciária, a existência de elementos normativos no tipo, criando um juízo de valor. A tipicidade é o primeiro pressuposto da pena, admitindo a antijuridicidade como a segunda (Bitencourt, ob. cit., p. 350-351). 3ª fase. Em 1931, Mezger publica o seu Tratado de Direito Penal, difundindo a teoria bipartida do delito. Houve uma decretação da falência do tipo descritivo-objetivo de Beling. Esta teoria bipartida de Mezger incluiu a tipicidade na antijuridicidade. A tipicidade mais do que simplesmente um indício de antijuridicidade. São essenciais a antijuridicidade típica e a culpabilidade típica. Tipicidade e antijuridicidade aparecem vinculadas. Mas essa bipartição não teve tanto sucesso, já que os doutrinadores ainda continuavam a achar a teoria de Mayer mais razoável (Bitencourt, ob. cit., 351-352). 4ª fase. A fase defensiva. O destaque de Beling foi a construção do crime como fato típico, antijurídico e culpável, elementos estes independentes e harmônicos. Mas apesar disso, recebendo várias críticas, reformulou sua teoria, daí a denominação de fase defensiva de Beling. Beling distinguiu o tipo de delito (Deliktypus) do Tatbestand ou figura reitora. O tipo de delito abrange todas as características internas e externas. Já o Tatbestand não seria apenas descritivo como tipo de delito, inclui também a valoração jurídica extraída do acontecimento externo. Beling desejava superar alguns problemas como os da tentativa e participação em sentido estrito (Bitencourt, Tratado..., vol. 1, p. 353). 5ª fase. O finalismo e a tipicidade complexa. Consoante assinala Bitencourt (Tratado..., vol. 1, p. 554), Asúa não destacou essa quinta fase. A complexidade se daria pela existência do elemento objetivo, mas também o subjetivo, incluindo o dolo e a culpa. 3. O indício significa que a maioria dos casos não comporta a excludente de antijuridicidade, e, portanto, as condutas são ilícitas. Tanto é que no sistema processual penal, existe uma presunção de ilicitude na conduta criminoso do homicídio doloso, não se permitindo o arquivamento, exceto no caso de legítima defesa explícita. Caso contrário, o caso deve ser levado para julgamento pelo tribunal do júri. Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 100Medida Certa-Ishida-Direito Penal-1ed.indd 100 13/10/2022 15:15:1013/10/2022 15:15:10 CaP. 3 • tEoria do CrimE 101 Tipo (tipo legal ou Tatbestand): conjunto de elementos descritivos do crime contidos na lei penal. É a descrição abstrata contida em uma lei (Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 228). Para Beling, é o “delito-tipo” (Esquema..., p. 51). Vulgarmente, é o “crime”. O direito penal é essencialmente tipológico (Prado, Curso de direito penal brasileiro, v. 1, p. 322), ou seja, os crimes são descritos todos sob a forma de tipos. Quando Beling criou o tipo dogmático, este era ainda causal, já que o dolo ainda se localizaria na culpabilidade. Para Binding, o crime não é uma violação à lei penal, mas efetivamente a cumpre, ao se amoldar ao tipo penal (Joaquim Renzikowski, Direito penal e teoria das normas, p. 24). Funções do tipo penal: (1) seletiva: escolhe os objetos jurídicos que serão protegidos; (2) garantista: vincula-se à garantia do princípio da legalidade; (3) indiciária da ilicitude: é o primeiro juízo da inadequação da conduta; (4) delimitadora do iter criminis. Classificação dos tipos penais. (1) Tipo fundamental: descreve os requisitos essenciais do crime. Normalmente é o chamado caput (cabeça do artigo). Exemplos: homicídio simples (art. 121, caput) e o furto simples (art. 155, caput). (2) Tipo derivado: integra o mesmo dispositivo legal e possui nítida vinculação com o tipo fundamental, mas possui aumento ou diminuição de alguma espécie. Exemplo: no homicídio, o homicídio privilegiado (art. 121, § 1º) e o qualificado (art. 121, § 2º). (3) Tipo autônomo: possui uma ligação com o tipo fundamental, mas é um crime independente. Exemplo: o infanticídio (art. 123). Tem ligação com o homicídio, mas possui um dispositivo próprio. (4) Tipo fechado: não exige um juízo de valor. Exemplo: o furto. (5) Tipo aberto: exige um juízo de valor. Exemplo: ato obsceno. (6) Tipo simples: é o que descreve só uma conduta. Exemplo: no art. 155, a conduta é apenas subtrair. (7) Tipo composto: é aquele que descreve várias condutas. Exemplo: o atual crime de estupro descreve a conjunção carnal e qualquer outro ato libidinoso. Incide o princípio da alternatividade nesse caso: embora cometa dois ou mais verbos, existe apenas um crime. (8) Tipo complexo: exige o requisito objetivo e subjetivo (teoria finalista). (9) Tipo congruente: não exige, nada mais além do dolo. Exemplo: homicídio. (10) Tipo incongruente ou congruente assimétrico: exige, além do dolo, um requisito subjetivo especial, denominado dolo específico para a doutrina italiana ou elemento subjetivo do injusto para a alemã. Exemplo: a finalidade de querer a coisa para si ou para outrem no furto (conforme Luiz Flávio Gomes e outro, Direito penal, v. 2, parte geral, p. 247-248). Tipicidade: é a subsunção ou adequação do fato ao modelo previsto (Prado, ob. cit., p. 322). É o processo de seleção na lei de ações que o legislador quer sancionar penalmente, ou seja, uma adequação de um fato concreto à descrição que desse fato se faz na lei (Franciso Muñoz Conde, Teoria geral do delito, p. 4). Adequação típica: perfeita adaptação do fato à norma penal. A adequação típica é de fundamental importância, pois, se o fato não se amoldar, será atípico e, portanto, não constituirá ilícito penal. Formas de adequação típica: (1) adequação típica de subordinação imediata: o fato se enquadra de imediato, sem