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1
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 202-
205; 214-219. 
 
 
 
7 
O FIM DOS IMPÉRIOS 
[...] 
II 
 
A economia de capitalismo da Era dos Impérios penetrou e transformou praticamente 
todas as partes do globo, mesmo tendo, após a Revolução de Outubro, parado nas fronteiras da 
URSS. Esse é o motivo pelo qual a Grande Depressão de 1929-33 iria ser um marco milenar na 
história do antiimperialismo e dos movimentos de libertação do Terceiro Mundo. Fossem quais 
fossem a economia, a riqueza, as culturas e sistemas políticos dos países antes de chegarem 
ao alcance do polvo do Atlântico Norte, foram todos sugados para dentro do mercado mundial, 
quando não descartados por homens de negócios e governos estrangeiros como 
economicamente desinteressantes, embora pitorescos, como os beduínos dos grandes desertos 
antes da descoberta de petróleo e gás natural em seu inóspito hábitat. Seu valor para o 
mercado mundial era, essencialmente, como fornecedores de produtos primários — matérias-
primas para a indústria, energia e produtos agrícolas — e como uma saída para o investimento 
do capital nortista, sobretudo em empréstimos a governos e para a infra-estrutura de 
transportes, comunicações e cidades, sem o que os recursos dos países dependentes não 
podiam ser eficazmente explorados. Em 1913, mais de três quartos de todos os investimentos 
britânicos no além-mar — sendo que os britânicos exportavam mais capital que todo o resto do 
mundo junto estavam em ações de governos, ferrovias, portos e navios (Brown, 1963, p. 153). 
A industrialização do mundo dependente ainda não fazia parte dos planos de ninguém, 
mesmo em países como os do Cone Sul da América Latina, onde parecia lógico processar 
alimentos localmente produzidos, como a carne, em forma de mais fácil transporte, como as 
latas de carne em conserva. Afinal, o enlatamento de sardinhas e o engarrafamento de vinho 
não haviam industrializado Portugal, nem se pretendia que o fizessem. Na verdade, o padrão 
básico na mente da maioria dos governos e empresários do Norte era que o mundo dependente 
pagasse a importação de suas manufaturas com a venda de produtos primários. Essa fora a 
base da economia mundial dominada pelos britânicos no período pré-1914 (A era dos impérios, 
capítulo 2), embora, com exceção dos países do chamado "capitalismo colonial", o mundo 
dependente não fosse um mercado de exportação particularmente compensador para 
manufaturas. Os 300 milhões de habitantes do subcontinente indiano, os 400 milhões de 
chineses, eram pobres demais e satisfaziam localmente uma proporção muito grande de suas 
necessidades para comprar muita coisa de alguém. Felizmente para os britânicos em sua era 
de hegemonia econômica, esses 700 milhões de vinténs somavam o bastante para manter a 
indústria de algodão de Lancashire no ramo. Seu interesse, como o de todos os produtores do 
Norte, era obviamente tornar o mercado subordinado, tal como estava, completamente 
dependente da produção hortista, ou seja, torná-lo agrário. 
Tivessem ou não esse objetivo, não conseguiram sucesso, em parte porque os mercados 
locais criados pela própria absorção de economias numa sociedade de mercado mundial, uma 
sociedade de compra e venda, estimulavam a produção de bens de consumo, que era mais 
barata se estabelecida localmente, e em parte porque muitas das economias nas regiões 
dependentes, sobretudo na Ásia, eram estruturas muitíssimo complexas, com longos históricos 
de manufatura, considerável sofisticação e impressionantes recursos e potencial técnicos e 
humanos. Assim, as gigantescas cidades portuárias entrepôt que vieram a ser os elos típicos 
entre o Norte e o mundo dependente de Buenos Aires e Sydney a Bombaim e Saigon — 
desenvolveram indústrias locais no abrigo de sua temporária proteção contra importações, 
mesmo não sendo esta a intenção de seus dominadores. Não era preciso muito incentivo para 
fazer com que produtores de têxteis em Ahmedabad ou Xangai, nativos ou agentes de alguma 
empresa estrangeira, abastecessem o mercado indiano ou chinês próximos, em detrimento dos 
 2
produtos de algodão até então importados da distante Lancashire a custos dispendiosos. Na 
verdade, foi isso que aconteceu depois da Primeira Guerra Mundial, estrangulando a indústria 
de algodão britânica. 
E no entanto, quando pensamos como parecia lógica a previsão de Marx sobre a 
eventual disseminação da Revolução Industrial pelo resto do globo, é espantoso ver como a 
indústria pouco saíra do mundo do capitalismo desenvolvido antes do fim da Era dos Impérios, e 
mesmo até a década de 1970. Em fins da década de 1930, a única grande mudança no mapa 
mundial da industrialização se devia aos Planos Qüinqüenais soviéticos (ver capítulo 2). Ainda 
em 1960 os velhos centros de industrialização na Europa Ocidental e América do Norte 
produziam mais de 70% do produto mundial bruto e quase 80% do "valor acrescentado na 
manufatura", ou seja, da produção industrial (Harris, 1987, pp. 102-3). A grande virada da 
indústria para longe do velho Ocidente — incluindo a ascensão da indústria japonesa, que em 
1960 produzia apenas perto de 4% da produção industrial mundial — ocorreu no último terço do 
século. Só na década de 1970 os economistas começaram a escrever livros sobre "a divisão 
internacional de trabalho", ou seja, o início da desindustrialização dos velhos centros. 
Evidentemente o imperialismo, a velha "divisão internacional de trabalho", tinha uma 
tendência inata de reforçar o monopólio industrial dos velhos países-núcleo. Nessa medida, os 
marxistas do entreguerras, mais tarde acompanhados pelos "teóricos da dependência" de várias 
escolas pós-1945, tinham bases visíveis para seus ataques ao imperialismo como um modo de 
assegurar a continuação do atraso nos países atrasados. Contudo, paradoxalmente, foi a 
relativa imaturidade do desenvolvimento da economia mundial capitalista e, mais exatamente, 
da tecnologia de transporte e comunicação, que manteve a indústria localizada em suas terras 
natais originais. Nada havia na lógica do empreendimento com fins lucrativos e acumulação de 
capital que impedisse a fabricação de aço na Pensilvânia ou no Ruhr para sempre, embora não 
cause surpresa o fato de que os governos dos países industriais, sobretudo quando inclinados 
ao protecionismo ou com grandes impérios coloniais, fizessem o possível para impedir que 
competidores potenciais prejudicassem a sua indústria. Mas mesmo governos imperiais podiam 
ter motivos para industrializar suas colônias, embora o único caso em que isso tivesse sido 
sistematicamente feito fosse pelo Japão, que desenvolveu indústrias pesadas na Coréia 
(anexada em 1911) e, depois de 1931, na Manchúria e Taiwan, porque essas colônias ricas em 
recursos ficavam suficientemente próximas da pátria exígua e notoriamente pobre em matérias-
primas para servir diretamente à industrialização nacional japonesa. Contudo, mesmo na maior 
das colônias, a constatação, durante a Primeira Guerra Mundial, de que a índia não estivera em 
condições de fabricar bastante para a auto-suficiência industrial e a defesa militar levou a uma 
política de proteção e participação direta do governo no desenvolvimento econômico do país 
(Misra, 1961, pp. 239 e 256). Se a guerra tornou claras aos administradores imperiais as 
deficiências de uma indústria colonial insuficiente, a Depressão de 1929-33 os submeteu à 
pressão financeira. À medida que caíam as rendas da agricultura, a renda do governo colonial 
tinha de ser escorada por maiores impostos sobre bens manufaturados, incluindo os da própria 
metrópole, britânicos, franceses ou holandeses. Pela primeira vez, as empresas ocidentais, que 
haviam até então importado livremente, tiveram um forte incentivo a estabelecer instalações 
para a produção local nesses mercados marginais (Holland. 1985, p. 13). Ainda assim, mesmo 
descontando-se a guerra e a Depressão, o mundo dependente na primeira metade do BreveSéculo xx permaneceu em sua maioria agrário e rural. Por isso o "grande salto avante" da 
economia mundial no terceiro quartel do século iria se revelar uma tão dramática virada da 
sorte. 
[...] 
 
V 
 
Não surpreendentemente, os velhos sistemas coloniais ruíram primeiro na Ásia. Á Síria e 
o Líbano (antes franceses) se tornaram independentes em 1945; a índia e o Paquistão em 
1947; Birmânia, Ceilão (Sri Lanka), Palestina (Israel) e as Índias Orientais holandesas 
(Indonésia) em 1948. Em 1946, os EUA concederam status formal de independência às 
Filipinas, que haviam ocupado desde 1898. O império japonês, claro, desaparecera em 1945. O 
 3
Norte da África islâmico já estava abalado, mas ainda se segurava. A maior parte da África 
Central e Setentrional, e as ilhas do Caribe e Pacífico permaneciam relativamente calmas. Só 
em partes do Sudeste Asiático essa descolonização política sofreu séria resistência, 
notadamente na Indochina francesa (atuais Vietnã, Camboja e Laos), onde a resistência 
comunista declarara independência após a libertação, sob a liderança do nobre Ho Chi Minh. Os 
franceses, apoiados pelos britânicos e depois pelos EUA, realizaram uma desesperada ação 
para reconquistar e manter o país contra a revolução vitoriosa. Foram derrotados e obrigados a 
se retirar em 1954, mas os EUA impediram a unificação do país e mantiveram um regime 
satélite na parte Sul do Vietnã dividido. Depois que este, por sua vez, pareceu à beira do 
colapso, os EUA travaram dez anos de uma grande guerra, até serem por fim derrotados e 
obrigados a retirar-se em 1975, depois de lançar sobre o infeliz país um volume de explosivos 
maior do que o empregado em toda a Segunda Guerra Mundial. 
Á resistência no resto do Sudeste Asiático foi desigual. Os holandeses (que se revelaram 
um pouco melhores que os britânicos, descolonizando seu império indico sem dividi-lo) eram 
fracos demais para manter um poder militar adequado no imenso arquipélago indonésio, cujas 
ilhas, em sua maioria, estariam dispostas a mantê-los como contrapeso para a predominância 
dos 55 milhões de javaneses. Eles desistiram quando descobriram que os EUA não 
consideravam a Indonésia uma frente essencial contra o comunismo mundial, ao contrário do 
Vietnã. Na verdade, longe de estar sob liderança comunista, os novos nacionalistas indonésios 
tinham acabado de sufocar uma insurreição do Partido Comunista local em 1948, um fato que 
convenceu os EUA de que o poder militar holandês seria mais bem empregado contra a suposta 
ameaça soviética na Europa do que na manutenção de seu império. Assim os holandeses 
mantiveram apenas uma base colonial na metade ocidental da grande ilha melanésia de Nova 
Guiné, até que ela também foi incorporada à Indonésia, na década de 1960. Na Malásia, os 
britânicos se viram colhidos entre os sultões tradicionais, que tinham lucrado com o império, e 
dois grupos de habitantes diferentes e mutuamente desconfiados, os malaios e os chineses, 
ambos radicalizados de modos diferentes; os chineses pelo Partido Comunista, que conquistara 
muita influência como o único grupo de resistência contra os japoneses. Irrompida a Guerra 
Fria, não havia como permitir comunistas no poder ou ocupando cargos na ex-colônia, muito 
menos chineses, mas após 1948 os britânicos precisaram de doze anos, 50 mil soldados, 60 mil 
policiais e uma guarda nacional de 200 mil membros para derrotar uma insurreição e a guerra 
de guerrilha sobretudo chinesas. Pode-se perguntar se os britânicos teriam arcado com os 
custos dessa operação com tanta disposição, se o estanho e a borracha da Malásia não fossem 
tão confiáveis faturadores de dólares, assegurando com isso a estabilidade da libra. Contudo, a 
descolonização da Malásia teria sido de qualquer forma complexa, e só foi obtida de modo 
satisfatório para os conservadores malaios e milionários chineses em 1957. Em 1965, a ilha 
chinesa de Cingapura passou a constituir uma cidade-Estado independente e muito rica. 
Ao contrário dos franceses e holandeses, a Grã-Bretanha aprendera com a longa 
experiência na índia que, a partir do surgimento de movimentos nacionalistas sérios, a única 
maneira de manter as vantagens do império era abrir mão do poder formal. Os britânicos 
retiraram-se do subcontinente indiano em 1947, antes que se tornasse patente sua 
incapacidade para controlá-lo, e sem a menor resistência. O Ceilão (rebatizado de Sri Lanka em 
1972) e a Birmânia também se tornaram independentes, o primeiro com bem-vinda surpresa, a 
última com alguma hesitação, pois os nacionalistas birmaneses, embora liderados por uma Liga 
da Liberdade do Povo antifascista, também haviam cooperado com os japoneses. Na verdade, 
eles eram tão hostis à Grã-Bretanha que a Birmânia foi a única entre todas as possessões 
britânicas a se recusarem de imediato a entrar na Comunidade Econômica Britânica, 
associação sem compromisso pela qual Londres tentava manter pelo menos a lembrança do 
império britânico. Nisso se anteciparam até mesmo à Irlanda, que se declarou república fora da 
Comunidade Econômica no mesmo ano. Mesmo assim, e embora creditada ao governo 
trabalhista britânico que assumiu o poder no fim da Segunda Guerra Mundial, a rápida e pacífica 
retirada da Grã-Bretanha do maior bloco da humanidade já submetido e administrado por um 
conquistador estrangeiro estava longe de ser um sucesso completo. Foi conseguida à custa da 
sangrenta divisão da Índia num Paquistão muçulmano e numa índia não religiosa mas 
esmagadoramente hindu, no curso da qual talvez várias centenas de milhares de pessoas foram 
 4
massacradas por adversários religiosos e outros milhões de habitantes expulsos de suas terras 
ancestrais para o que era agora um país estrangeiro. Isso não fazia parte do plano dos 
nacionalistas indianos, dos movimentos muçulmanos nem dos governantes imperiais. 
Como a idéia de um Paquistão separado, cujo próprio conceito e nome só foram 
inventados por alguns estudantes em 1932-3, se tornou realidade em 1947 é uma questão que 
continua a perseguir estudiosos e sonhadores dos "se ao menos" da história. Uma vez que a 
sabedoria da visão retrospectiva nos mostra que a divisão da Índia segundo credos religiosos 
estabeleceu um precedente sinistro para o futuro do mundo, isso necessita uma explicação. Em 
certo sentido, não foi culpa de ninguém, ou foi de todos. Nas eleições sob a Constituição de 
1935, o Partido do Congresso triunfara até na maioria das áreas muçulmanas, e o partido 
nacional que dizia representar a comunidade minoritária, a Liga Muçulmana, se saíra mal. A 
ascensão do Partido do Congresso, secular e não sectário, naturalmente deixou apreensivos 
muitos muçulmanos, a maioria deles (assim como dos hindus) ainda não eleitores, pois a maior 
parte dos líderes do Congresso num país predominantemente hindu provavelmente seria hindu. 
Em vez de reconhecer esses temores e dar aos muçulmanos uma representação especial, as 
eleições pareceram fortalecer as pretensões do Congresso de ser o único partido nacional, 
representando hindus e muçulmanos. Foi isso que fez a Liga Muçulmana, sob seu formidável 
líder Muhammad Ali Jinnah, romper com o Congresso e tomar o que se tornou a estrada para o 
separatismo potencial. Contudo, só em 1940 Jinnah abandonou sua oposição a um Estado 
muçulmano separado. 
Foi a guerra que dividiu a Índia em duas. Em certo sentido, foi o último grande triunfo do 
domínio britânico — e ao mesmo tempo seu último suspiro de exaustão. Pela última vez o 
domínio britânico mobilizou os homens e a economia da Índia para uma guerra britânica, numa 
escala ainda maior que em 1914-8, desta vez enfrentando a oposição das massas agora 
representadas por um partido de libertação nacional, e — ao contrário da Primeira Guerra 
Mundial — a iminente invasão pelo Japão. Foi um feito espantoso, mas a custos elevados. A 
oposição do Congresso à guerra levou seus líderes a se afastar da política e, depois de 1942, à 
cadeia. As tensões da economia de guerra alienaram importantes grupospolíticos muçulmanos 
que defendiam o domínio britânico, principalmente no Punjab, portanto empurrando-os para a 
Liga Muçulmana, que agora se tornava uma força de massa no momento mesmo em que o 
governo em Délhi, temendo a capacidade do Congresso de sabotar o esforço de guerra, 
deliberada e sistematicamente explorava a rivalidade hindu-muçulmana para imobilizar o 
movimento nacional. Dessa vez se pode realmente dizer que a Grã-Bretanha "dividiu para 
governar". Em seu último e desesperado esforço para vencer a guerra, o domínio britânico 
destruiu não apenas a si mesmo, mas a sua própria justificativa moral, que era a consecução de 
um único subcontinente indiano onde as diversas comunidades pudessem coexistir em relativa 
paz sob uma administração e lei únicas, porque imparciais. Quando a guerra acabou, o motor 
da política comunal não mais podia ser posto em marcha à ré. 
Em 1950, a descolonização asiática estava completa, a não ser pela Indochina. 
Enquanto isso, a região do islã ocidental, da Pérsia (Irã) ao Marrocos, era transformada por uma 
série de movimentos populares, golpes revolucionários e insurreições, começando com a 
nacionalização das empresas de petróleo ocidentais no Irã (1951) e a guinada daquele país 
para o populismo, sob o comando do dr. Muhammad Mussadiq (1880-1967), apoiado pelo então 
poderoso Partido Tudeh (Comunista). (Previsivelmente, os partidos comunistas adquiriram 
alguma influência no Oriente Médio após a grande vitória soviética.) Mussadiq seria derrubado 
por um golpe organizado pelo serviço secreto anglo-americano em 1953. A revolução dos 
Oficiais Livres no Egito (1952), liderada por Gamal Abdel Nasser (1918-70), e a posterior 
derrubada de regimes no Iraque (1958) e Síria não puderam ser tão facilmente revertidos, 
embora os britânicos e franceses, unidos ao novo Estado antiárabe de Israel, fizessem o 
possível para derrubar Nasser na crise do Suez em 1956 (ver p. 359). Contudo, os franceses 
resistiram tenazmente ao levante pela independência nacional na Argélia (1954-62), um dos 
territórios em que, a exemplo da África do Sul e — de certa maneira — Israel, a coexistência de 
uma população local com um grande grupo de colonos europeus tornava o problema da 
descolonização particularmente difícil de resolver. A guerra argelina foi assim um conflito de 
uma brutalidade peculiar, que ajudou a institucionalizar a tortura nos exércitos, polícia e forças 
 5
de segurança de países que se diziam civilizados. Popularizou o infame uso posterior e 
generalizado da tortura com choques elétricos aplicados a línguas, bicos de seios e órgãos 
genitais, e levou à derrubada da Quarta República (1958) e quase à da Quinta (1961), antes 
que a Argélia conquistasse a independência que o general De Gaulle há muito reconhecia como 
inevitável. Enquanto isso, o governo francês havia negociado com discrição a autonomia e 
(1956) independência de dois outros protetorados norte-africanos: Tunísia (que se tornou uma 
república) e Marrocos (que continuou sendo uma monarquia). No mesmo ano, os britânicos 
discretamente abriram mão do domínio sobre o Sudão, que se tornara inviável quando eles 
perderam o controle do Egito. 
Não está claro em que momento os velhos impérios compreenderam que a Era dos 
Impérios acabara definitivamente. Sem dúvida, em retrospecto, a tentativa da Grã-Bretanha e 
da França de reafirmar-se como potências imperiais globais na aventura de Suez em 1956 
parece mais condenada ao insucesso do que evidentemente parecia aos governos de Londres 
e Paris, que planejaram junto com Israel uma operação militar para derrubar o governo 
revolucionário do coronel Nasser, no Egito. O episódio foi um fracasso catastrófico (exceto do 
ponto de vista de Israel), tanto mais ridículo pela combinação de indecisão, hesitação e 
inconvincente desfaçatez do primeiro-ministro britânico. Anthony Eden. A operação, mal 
lançada, foi cancelada por pressão dos EUA, empurrou o Egito para a URSS, e acabou para 
sempre com o chamado "Momento da Grã-Bretanha no Oriente Médio", a época de 
inquestionada hegemonia britânica naquela região instaurada a partir de 1918. 
De qualquer modo, em fins da década de 1950 já ficara claro para os velhos impérios 
sobreviventes que o colonialismo formal tinha de ser liquidado. Só Portugal continuou resistindo 
à sua dissolução, pois sua economia metropolitana atrasada, politicamente isolada e 
marginalizada não tinha meios para sustentar o neocolonialismo. Precisava explorar seus 
recursos africanos e, como sua economia não era competitiva, só podia fazê-lo pelo controle 
direto. Á África do Sul e a Rodésia do Sul, os Estados africanos com substanciais populações 
de colonos brancos (com exceção do Quênia), também se recusaram a adotar políticas que 
inevitavelmente produziriam regimes controlados por africanos, e os brancos da Rodésia do Sul 
chegaram a declarar-se independentes (1965) da Grã-Bretanha para evitar esse destino. 
Contudo, Paris, Londres e Bruxelas (o Congo Belga) decidiram que a concessão de 
independência com a manutenção da dependência econômica e cultural era preferível a longas 
lutas que provavelmente acabariam em independência sob governos esquerdistas. Só no 
Quênia houve uma expressiva insurreição popular e guerra de guerrilha, embora em grande 
parte limitada a setores de um povo local, o kikuyu (o chamado movimento Mau Mau, 1952-6). 
Em outras partes, a política de descolonização profilática foi seguida com êxito, exceto no 
Congo Belga, onde logo conduziu à anarquia, guerra civil e política de potência internacional. 
Na África britânica, a Costa do Ouro (hoje Gana), que já tinha um partido de massa dirigido por 
um talentoso político e intelectual pan-africano, Kwame Nkrumah, recebeu independência em 
1957. Na África francesa, a Guiné foi arremessada numa precoce e empobrecida independência 
em 1958, quando seu líder. Sekou Touré, recusou o convite de De Gaulle para entrar numa 
"Comunidade Francesa", que combinava autonomia com estrita dependência da economia 
francesa, tornando-se o primeiro líder negro obrigado a buscar ajuda em Moscou. Quase todas 
as demais colônias britânicas, francesas e belgas foram liberadas em 1960-2, e o restante 
pouco depois. Só Portugal e os Estados de colonos brancos independentes resistiram à 
tendência. 
As maiores colônias britânicas no Caribe foram tranqüilamente descolonizadas na 
década de 1960, as ilhas menores em intervalos entre essa data e 1981, as ilhas do Índico e 
Pacífico em fins da década de 1960 e na de 1970. Na verdade, em 1970 nenhum território de 
tamanho significativo continuava sob administração direta das ex-potências colonialistas ou 
seus regimes de colonos, a não ser no Centro e Sul da Ásia — e, claro, no Vietnã em guerra. Á 
era imperial acabara. Menos de três quartos de século antes parecera indestrutível. Mesmo 
trinta anos antes, cobria a maior parte dos povos do globo. Parte irrecuperável do passado, 
tornara-se parte das sentimentalizadas lembranças literárias e cinematográficas dos antigos 
Estados imperiais, enquanto uma nova geração de escritores nativos dos países outrora 
coloniais começava a produzir uma literatura que partia da era da independência.

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