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Módulo 1 Aula 2 Autoria Introdução à comunicação de riscos Percepção de risco Rosângela Florczak de Oliveira 2 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 © 2024 Profesp/Ministério da Saúde. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados os seus autores. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito do Programa de Formação em Emergências em Saúde Pública (Profesp). O conteúdo deste trabalho é de exclusiva responsabilidade de seus autores, não representando necessariamente a opinião do Ministério da Saúde. Saiba mais sobre o Profesp e conheça outros cursos em: profesp.saude.gov.br Elaboração, edição e distribuição: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente Departamento de Emergências em Saúde Pública SRTVN 701, via W5 Norte, Edifício PO 700, 6º andar CEP: 70723-040 – Brasília/DF Site: www.saude.gov.br/svs E-mail: svs@saude.gov.br Direção: Edenilo Baltazar Barreira Filho Coordenação geral: Daniel Roberto Coradi de Freitas Taynná Vernalha Rocha Almeida Weslley Vitor da Silva Equipe Profesp: Angela Branco Moreno Danielly Portes Schelle Isabella de Oliveira Campos Miquilin Joelma Ferreira Gomes Castro Kelly Cardoso da Silva Leonora Rios de Souza Moreira Paola Freitas de Oliveira Paula Orofino Moura Costa Vinicius Chozo Inoue Equipe de comunicação: Clara Iwanow Erick Andrade Gabriel Bandeira Gabriel Galli Arevalo Luiza Tedesque Raphaella Donon Saulo Dal Pozzo Revisão técnica: Gabriel Galli Arevalo Revisão textual: Danielly Portes Schelle Diagramação: Vinicius Chozo Inoue http://profesp.saude.gov.br http://www.saude.gov.br/svs mailto:svs@saude.gov.br 3 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 Módulo 1: Introdução à comunicação de riscos Aula 2: Percepção de risco Autoria: Rosângela Florczak de Oliveira Revisão textual: Danielly Portes Schelle Diagramação: Vinicius Chozo Inoue CURSO DE COMUNICAÇÃO DE RISCO PARA EMERGÊNCIAS EM SAÚDE PÚBLICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Apresentar o conceito de percepção de risco e as metodologias para identificação de situações de risco. • Descrever a importância da percepção de risco na comunicação de risco. • Compreender os fatores comunicacionais que influenciam a percepção de risco. SÍNTESE DA AULA Na segunda aula, exploraremos a percepção de risco, um aspecto crucial que molda e é moldado pela comunicação de risco. Desde os estudos pioneiros na década de 1970 até as metodologias contemporâneas, investigaremos como as pessoas atribuem significado ao risco, não apenas racio- nalmente, mas também emocionalmente. Abordaremos como as práticas de gestão de risco podem lidar com a complexidade das relações humanas e organizacionais, especialmente no contexto da saúde pública. Além disso, destacaremos elementos que aprimoram as práticas comunicacionais, tornando-as mais eficazes e adaptadas às necessidades do público-alvo. 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE PERCEPÇÕES DE RISCO A percepção de risco é um tema fundamental que tanto influencia quanto é influenciado pela comu- nicação de risco. Desde os estudos iniciados na década de 1970, compreendemos que a percepção de risco vai além de uma simples avaliação racional; ela incorpora emoções e subjetividades que moldam como indivíduos e grupos atribuem significados ao risco. Nesta aula, exploraremos como essas percepções são construídas mentalmente e como elas afetam a gestão de riscos, especial- 4 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 mente na comunicação, fornecendo uma base para o desenvolvimento de estratégias comunicacio- nais mais eficazes e adaptadas às necessidades do público-alvo. Vamos investigar diversas metodologias de gestão de riscos e sua capacidade de lidar com a com- plexidade das relações entre pessoas e organizações. A percepção de risco é definida como uma avaliação subjetiva da probabilidade de um incidente e da preocupação com suas consequências, influenciada por crenças, atitudes, valores sociais e culturais. Examinaremos teorias provenientes de campos como psicologia, ciências sociais e comunicação para enriquecer nossa abordagem da comunicação de risco no contexto da saúde. 2. PERCEPÇÃO DE RISCO E AS METODOLOGIAS DE IDENTIFICAÇÃO DE UMA SITUAÇÃO DE RISCO Antes de iniciarmos nossa jornada sobre percepção de risco, é importante explorar rapidamente os diver- sos significados do termo percepção. Este conceito, polissêmico por natureza, pode ser entendido filoso- ficamente como a associação das sensações e seus efeitos sobre o ser humano. Nas neurociências, área entre tantas que investiga o tema, a percepção refere-se à habilidade humana de integrar informações sensoriais com memória e cognição para formar representações e conceitos sobre eventos e sobre si, in- fluenciando diretamente nosso comportamento (Lent, 2010). Dessa forma, a percepção é dependente dos sentidos, mas diferente deles, o que a torna uma experiência mental particular (Dos Santos et al., 2021). Com o crescente interesse pelo tema dos riscos em diversas áreas do conhecimento, a produção cien- tífica sobre os diferentes aspectos envolvidos também se expandiu. Uma das perspectivas estudadas é a percepção de risco e seu impacto na gestão de riscos, especialmente na comunicação. Segundo Rembischevski e Caldas (2020), entender as percepções de risco é o primeiro passo para o desenvolvi- mento de estratégias eficazes de comunicação de risco, considerando sua natureza multidimensional. Como são construídas mentalmente as percepções de risco e como respondemos a elas? Esta questão tem orientado a produção teórica que influencia metodologias e práticas na gestão e co- municação de risco. Desde os anos 1970, pesquisadores observaram que diferentes pessoas têm respostas distintas aos riscos, mesmo diante de análises técnicas baseadas em modelos matemáti- cos e cálculos probabilísticos. A dimensão subjetiva revela-se por meio de interpretações, opiniões e estratégias individuais para lidar com a incerteza. 5 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 Essa preocupação científica está alinhada à concepção ampliada que transcende o entendimento de que o risco é uma construção objetiva baseada em cálculos probabilísticos e o admite como uma percepção social, cultural e mentalmente construída (Rembischevski e Caldas, 2020). A forma como as pessoas se comportam e tomam decisões diante de situações de risco depende de sua percepção (Rohrmann, 2008; Wu & John, 2021). A percepção de risco permite que nos pre- paremos para possíveis perigos (Marván & López-Vázquez, 2018) e influencia diretamente a forma como gerenciamos esses riscos (Haddad & DeSouza, 2007). Aqui, define-se, a partir de Peres (2002), que percepção de risco é uma avaliação subjetiva da probabilidade de ocorrer um determinado incidente e do impacto que suas consequências podem ter. É composta por crenças, atitudes, julgamentos, sentimentos individuais, bem como por valo- res sociais e culturais mais amplos que moldam as respostas das pessoas diante dos perigos. A percepção de risco capacita indivíduos a interpretar situações que possam representar potenciais danos à saúde própria, de terceiros ou coletiva, baseando-se em experiências anteriores e anteci- pando cenários futuros, variando desde opiniões vagas até convicções firmes. Do ponto de vista teórico, diversos campos do conhecimento têm-se dedicado a aprofundar a pesquisa sobre a percepção de risco. No Quadro 1, apresentamos uma síntese das abordagens teóricas mais reconhecidas. Para o contexto da comunicação de risco na área da saúde, é essen- cial explorar as contribuições das áreas da psicologia, das ciências sociais e, principalmente, da comunicação. Abordaremos brevemente as duas primeiras e detalharemos mais a perspectiva da comunicação, que, de maneira complexa, pode ser fortemente influenciada pelosaspectos estu- dados em todos esses campos. Quadro 1 — Síntese de algumas teorias que abordam a percepção de risco Campo de conhecimento Teoria Abordagem da teoria Psicologia Teoria do comportamento Foca na resposta emocional ao risco, percepção individual e pro- cessos cognitivos. Teoria da perspectiva Explica como as pessoas tomam decisões sob risco e incerteza, com ênfase em perdas e ganhos. Teoria heurística e viés Analisa como heurísticas influenciam a percepção e julgamento de riscos. (continua) 6 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 Campo de conhecimento Teoria Abordagem da teoria Ciências sociais Teoria dos sistemas sociais Explora como diferentes sociedades e culturas percebem e res- pondem ao risco. Teoria da sociedade de risco Descreve a modernidade como uma época marcada pela produ- ção e gestão de riscos. Teoria cultural Analisa como valores culturais e estruturas sociais influenciam a percepção do risco. Teoria da escolha cultural Categoriza as respostas ao risco com base em diferentes tipos de culturas (hierárquica, igualitária, individualista e fatalista). Teoria da amplificação social do risco (SARF) Examina como os riscos são amplificados ou atenuados através de processos sociais e de comunicação. Comunicação Teoria da comunicação de risco Examina como a informação sobre riscos é transmitida e recebida pelo público. Economia Teoria da decisão Estuda como indivíduos tomam decisões em condições de incer- teza e risco. Teoria da utilidade esperada Modelo matemático para a tomada de decisão sob risco, focado na maximização da utilidade esperada. Teoria da utilidade esperada subjetiva Extensão da teoria da utilidade esperada, incorporando probabi- lidades subjetivas. Ciência política Teoria da governança do risco Investiga a gestão de riscos em níveis locais, nacionais e interna- cionais. Teoria da governança adaptativa Foca na flexibilidade e adaptabilidade das políticas de governança em resposta a mudanças nas percepções e realidades de risco. Fonte: De autoria própria, 2024. (continuação) No campo dos estudos psicológicos, Rembischevski e Caldas (2020) agrupam os estudos sob o paradigma psicométrico, fortemente ancorado na perspectiva cognitiva e nas heurísticas dos afe- tos, destacando o segundo como o mais relevante para a área da saúde. No paradigma cognitivo, busca-se elucidar os fatores psicológicos que determinam a percepção de risco, utilizando-se da elaboração de mapas cognitivos. O foco principal é compreender a intensidade do sentimento de segurança, que define o que é percebido como seguro ou arriscado. Dentro dos estudos cognitivos, foram identificados mecanismos fundamentais para explicar com- portamentos refratários diante do risco. Um exemplo é o otimismo irrealista, uma ilusão positiva comum que leva as pessoas a desenvolverem crenças enviesadas, muitas vezes falsas, mas que 7 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 contribuem para o bem-estar físico e mental. No contexto da saúde, observa-se um fenômeno in- verso: pessoas que já tiveram experiências prévias com certas doenças tendem a minimizar o risco, graças a mecanismos cognitivos adaptativos (Rembischevski e Caldas, 2020). A heurística dos afetos sustenta que emoções e relações afetivas exercem uma influência signi- ficativa sobre nossas percepções, afetando julgamentos e decisões. Ao avaliar os riscos associa- dos a alguma atividade, processo ou substância, emoções positivas ou negativas são ativadas em resposta ao estímulo recebido. Estudos dentro dessa perspectiva revelaram que a angústia está correlacionada a uma maior percepção de risco entre indivíduos com depressão, que tendem a ajustar suas percepções com base em informações de saúde mais intensamente do que pessoas não deprimidas. Nas ciências sociais, diversas contribuições consistentes têm sido feitas para compreender a per- cepção de risco. Uma das mais notáveis é a teoria da construção social do risco, desenvolvida pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, autor do clássico Sociedade de risco (Beck, 2010). Outro autor importante nesse contexto é Anthony Giddens (2002), que, com outros teóricos, argumenta que a sociedade de risco é uma sociedade cada vez mais preocupada com o futuro e com a segurança. Enquanto o perigo é uma condição objetiva, o risco é socialmente construído através das lentes das representações individuais, transformando certos perigos em riscos. Outra abordagem importante é a teoria cultural do risco, que argumenta que os indivíduos sele- cionam e percebem alguns riscos em detrimento de outros com base em suas visões de mundo, crenças, valores e experiências culturais. Esses elementos socioculturais são fundamentais para entender como os riscos são reconhecidos ou ignorados por diferentes culturas. Segundo Oltedal et al. (2004), os indivíduos podem se enquadrar em quatro tipos de culturas de percepção de risco: igualitária (parceria e solidariedade de grupo; pressão dos pares, mutualismo e cooperação); indi- vidualista (ação espontânea; ambiente transparente, voluntário e desregulado; abertura e empre- endedorismo); hierárquica (ênfase em regulação forte, instituições ligadas a regras; estabilidade e estrutura); e fatalista (senso de caos e futilidade; apatia, impotência e exclusão social). Tanto as abordagens psicológicas quanto as das ciências sociais têm interseções significativas com o campo da comunicação. Na psicologia, parte-se frequentemente da premissa de que a maioria dos riscos não é experienciada diretamente pelos sentidos humanos, mas sim absorvida através da 8 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 comunicação, resultando em percepções de risco mais moldadas pela comunicação social do que por evidências ou experiências pessoais. Interdisciplinarmente, a teoria da amplificação social do risco (social amplification of risk fra- mework, SARF) é uma estrutura conceitual que explora os efeitos da divulgação de informações na amplificação ou atenuação das percepções de risco. Essa teoria sugere que a forma como o risco é comunicado pelas diversas fontes existentes tem um papel essencial. A mídia é considerada um elemento central nessa teoria. A maneira como os eventos adversos e o risco em si são comuni- cados está diretamente relacionada à magnitude e duração da amplificação percebida. Além da imprensa, grupos de interesse, como ativistas, também podem exercer um papel fundamental na amplificação social do risco (Rembischevski e Caldas, 2020). Na teoria da comunicação de risco, os processos comunicacionais desempenham um papel dual nesse contexto. Além de influenciar comportamentos sociais e culturais em relação aos riscos, a comunicação de risco também é uma estratégia fundamental para o gerenciamento de perigos, ameaças e vulnerabilidades. Compreender o papel das emoções e a situação individual do receptor da mensagem é essencial para que os processos comunicacionais sejam eficazes, especialmente entre leigos no assunto. 2.1 METODOLOGIAS DE IDENTIFICAÇÃO DE UMA SITUAÇÃO DE RISCO Com base nas teorias apresentadas, a percepção de risco articula-se tanto na dimensão individual (cada pessoa) quanto na coletiva (grupos sociais e culturais). Os estímulos podem variar desde estu- dos científicos apurados e probabilísticos até opiniões e posicionamentos socialmente construídos. Diante disso, como podemos estabelecer metodologias que oportunizem uma percepção integral do risco? É nesse entrelaçamento da construção mental, influenciada pelas práticas sociais e relacionais internalizadas pelo indivíduo, que podemos encontrar respostas metodológicas nas etapas importan- tes do gerenciamento de riscos: a identificação e a avaliação de seu potencial de impacto. Nas práticas organizacionais de diversas áreas, inclusive na saúde, grande parte das metodologias de identificação de risco baseia-se em teorias objetivistas com classificaçõesprobabilísticas. En- tretanto, a subjetividade está intrinsecamente presente e precisa ser considerada, uma vez que o comportamento seguro depende da articulação entre os espaços coletivo e individual. 9 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 A identificação dos riscos no âmbito de uma organização é fundamental, assim como a formação contínua das pessoas para perceberem os riscos e adotarem as medidas de prevenção e cuidado adequadas. Tanto ao nível organizacional (coletivo) quanto individual (pessoal), a percepção de risco é a capacidade de analisar a situação, verificar todos os possíveis riscos e agir da maneira mais segura. Uma das principais referências metodológicas para a identificação de risco é a ISO 31.0001, que pro- põe considerar um conjunto de fatores para identificar, reconhecer e descrever os riscos (ver quadro 2). Quadro 2 — Fatores para identificação de riscos Fontes tangíveis e intangíveis de risco Causas e eventos Ameaças e oportunidades Vulnerabilidades e capacidades Mudanças nos contextos externo e interno Indicadores de riscos emergentes Natureza e valor dos ativos e recursos Consequências e seus impactos nos objetivos Limitações de conhecimento e de confiabilidade da informação Fatores temporais Vieses, hipóteses e crenças dos envolvidos Fonte: Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 31.000:2018. Na identificação do risco, conforme as recomendações da ISO 31.000:2018, algumas perguntas básicas devem ser feitas: O que pode acontecer? Quando e onde? Como e por quê? A identifica- ção de risco é uma das etapas de um processo global de gestão de riscos (ver Figura 1). 1 A ISO 31.000:2018 é uma norma internacional que fornece diretrizes sobre a gestão de riscos. Seu objetivo é ajudar as organi- zações a desenvolver, implementar e melhorar continuamente uma estrutura de gestão de riscos. A norma destaca a importância de adaptar a gestão de riscos ao contexto específico da organização, garantindo que os processos de gestão de riscos sejam integrados na governança e em todas as atividades empresariais. 10 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 Figura 1 — Processo de gestão de riscos C O M U N I C A Ç Ã O Estabelecimento do contexto Tratamento dos riscos Avaliação do risco Identificação Análise Avaliação M O N I T O R A M E N T O Entre as técnicas recomendadas para apurar a complexidade da identificação e avaliação do risco estão: • observação direta – identificação de perigos e vulnerabilidades no ambiente; • análise da documentação – revisão de planos de segurança, relatórios de incidentes e registros; • entrevistas em profundidade – conversas detalhadas com responsáveis por processos críticos; e • questionários – ferramentas de apoio para coletar informações sobre percepções de risco no ambiente. Idealmente, essas técnicas devem ser articuladas entre si para complementar a informação e obter uma visão mais abrangente. A análise dos riscos identificados tem relação direta com a percepção de risco e pode ser feita de forma qualitativa ou quantitativa, ou ainda, com a combinação de ambas. • Análise qualitativa: os riscos são analisados a partir do impacto e das consequências, sendo categorizados como baixos, médios ou altos. Essa categorização ajuda a priorizar os riscos e identificar áreas que exigem intervenção imediata. A análise qualitativa baseia-se na experiên- cia e no julgamento dos profissionais envolvidos. Fonte: Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 31.000:2018. 11 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 • Análise quantitativa: envolve a atribuição de valores numéricos aos riscos e exposições. Utiliza dados e medições precisas para calcular a probabilidade e as consequências de um evento ad- verso decorrente do risco. Combinar ambas as abordagens pode proporcionar uma análise mais robusta e detalhada, facilitan- do a tomada de decisões informadas e eficazes na gestão de riscos. 3. IMPORTÂNCIA DA PERCEPÇÃO DE RISCOS PARA A COMUNICAÇÃO DE RISCOS As percepções de risco, como entendemos anteriormente, incluem dimensões subjetivas e objeti- vas, como temor, potencial catastrófico, caráter controlável dos acontecimentos, equidade, incerte- za, risco para as gerações futuras e confiança. Esses fatores englobam aspectos individuais, sociais e culturais, incluindo o próprio efeito da comunicação (Giulio et al., 2015). Conforme o Guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) para políticas e práticas em comuni- cação de risco de emergência, emergências de saúde pública, como o surto de ebola na África Ocidental (2014-2015), a emergência do vírus Zika (2015-2016) e surtos de febre amarela em vários países africanos (2016), destacam os principais desafios e lacunas na comunicação de ris- co durante epidemias e outras emergências sanitárias. Entre esses desafios estão as lacunas nas considerações do contexto, como fatores sociais, econômicos, políticos e culturais, que influenciam a percepção das pessoas sobre os riscos e seus comportamentos para minimizá-los (World Health Organization, 2018). A comunicação exerce um duplo papel: influencia profundamente o comportamento e a cultura, contribuindo para a construção social da percepção do risco, e é uma etapa estratégica importante no processo de gerenciamento de riscos. Através dos processos de diálogo e trocas comunicacio- nais, é possível influenciar a percepção dos riscos e promover a conscientização sobre comporta- mentos seguros. No entanto, é indispensável perceber que a comunicação vai além da simples transmissão de in- formações. Ela é uma estratégia para promover e influenciar a mudança de comportamento (Com- mission, 2004; Wang et al., 2020). A comunicação envolve a negociação de sentidos e significados 12 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 (Wolton, 2023). Para que a comunicação de risco seja eficaz, é necessário considerar a percepção dos riscos dos indivíduos envolvidos e trabalhar para alcançar uma nova percepção desejada. Para Kasperson e Kasperson (2005), os processos de amplificação dos riscos estão intimamente relacionados com a percepção do risco e sua comunicação, dependendo da competência e credibi- lidade dos comunicadores e da capacidade das comunidades de compreender a mensagem. Sand- man (2003) destaca que quando as pessoas estão alertas, tendem a perceber perigo, enquanto quando estão tranquilas, tendem a sentir-se seguras. A indignação é um fator-chave que determina a percepção do perigo. Sandman sugere quatro grandes desafios da comunicação de risco em relação à percepção dos indivíduos: • Alertar sobre um risco desconhecido ou subestimado (Informação do perigo): aumentar a percepção pública de um risco real que a população não está ciente ou subestima. O desafio é convencer as pessoas da existência de um risco significativo sem causar pânico, usando dados claros e precisos, comparações com riscos conhecidos e repetindo a mensagem em diferentes plataformas para alcançar uma audiência ampla. • Tranquilizar sobre um risco superestimado (Informação de risco): reduzir a percepção pública de um risco percebido como mais perigoso do que realmente é. O desafio é diminuir o medo e a preocupação sem parecer indiferente ou condescendente, fornecendo informações científicas detalhadas, utilizando porta-vozes confiáveis e respeitáveis, e reconhecendo as preocupações do público antes de oferecer garantias de tranquilização. • Gerenciar um risco controverso (Envolvimento comunitário): navegar em situações em que o risco é amplamente debatido e polarizador. O desafio é ganhar a confiança de todas as partes envolvidas e encontrar um equilíbrio entre diferentes opiniões e sentimentos, facilitando o diá- logo, promovendo a participação comunitária na tomada de decisões, sendo transparente sobre os processos e dados utilizados para avaliar o risco e mostrando empatia e respeito pelas preo- cupações de todas as partes envolvidas.• Motivar pessoas a tomar ação sobre um risco aceito (Mobilização): incentivar a ação pública em resposta a um risco reconhecido, mas que as pessoas não estão agindo suficientemente para mitigar. O desafio é superar a inércia e o comportamento complacente, apelando para valores 13 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 pessoais e comunitários, fornecendo passos claros e acessíveis para reduzir o risco e utilizando histórias de sucesso e exemplos práticos para inspirar ação (Sandman, 1993). 4. FATORES COMUNICACIONAIS QUE AFETAM A PERCEPÇÃO DE RISCO Na perspectiva do duplo papel da comunicação, é essencial considerar uma série de fatores que podem influenciar a percepção de riscos. No Quadro 3, são sistematizados alguns desses fatores centrais, como personalização da mensagem, confiança e credibilidade das fontes, emoção e narra- tivas, desempenho cognitivo e feedback e interatividade. Quadro 3 – Fatores que afetam a comunicação de risco e a percepção Tópico Detalhes Exemplos Personalização da mensagem A comunicação deve ressoar com a per- cepção específica de cada grupo demo- gráfico e cultural. Campanhas de saúde pública ajustadas para diferentes faixas etárias ou comunida- des culturais. Confiança e credibilidade das fontes Mensagens de fontes consideradas con- fiáveis são mais eficazes. Informações de fontes como a OMS ou o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) durante a pandemia de covid-19. Emoção e narrativas Mensagens que evocam emoções e utili- zam narrativas pessoais são mais efica- zes do que dados estatísticos frios. Campanhas antitabagismo que utilizam his- tórias pessoais de vítimas do tabaco. Desempenho cognitivo Mensagens devem ser simplificadas para serem facilmente compreendidas, especialmente sob estresse. Uso de infográficos para comunicar riscos de desastres naturais. Feedback e interatividade Feedback contínuo e interatividade per- mitem ajustes na comunicação com base na resposta do público. Plataformas online que permitem pergun- tas e respostas em tempo real sobre riscos ambientais. Fonte: De autoria própria (2024), a partir de Slovic (2010), Fischhoff (1995), Lofstedt (2008) e Cutter (1996). PERSONALIZAÇÃO DA MENSAGEM Ao considerar a personalização da mensagem como um dos fatores de impacto a partir da percep- ção de risco dos interlocutores, alguns exemplos ilustrativos podem ser usados. Por exemplo, em uma campanha de vacinação infantil, os argumentos e formatos que sensibilizam pais jovens são 14 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 bastante distintos daqueles utilizados para pais mais velhos ou para aqueles que vivem em comu- nidades rurais. A subjetividade envolvida em cada público é definitiva para garantir a atenção, a construção da consciência do risco e para gerar atitudes preventivas. CONFIANÇA E CREDIBILIDADE DAS FONTES Outro exemplo é a confiança nas fontes de informação. Durante a pandemia de covid-19, informa- ções provenientes de entidades como a OMS ou o CDC foram mais eficazes em transmitir a gravi- dade e as medidas preventivas necessárias devido à alta credibilidade dessas organizações. EMOÇÃO E NARRATIVAS As iniciativas comunicacionais voltadas para a saúde mental, por exemplo, podem variar significati- vamente dependendo do público. Para jovens universitários, é possível utilizar plataformas digitais e conteúdos curtos com pontos de debate sobre o tema. Já para trabalhadores da saúde, da linha de frente, são necessárias ações práticas como o oferecimento de sessões de terapia, aconselha- mentos e acompanhamentos com horários flexíveis, anonimato garantido e adaptados ao alto nível de estresse e aos horários irregulares desses profissionais. DESEMPENHO COGNITIVO Para facilitar a compreensão de mensagens importantes, especialmente em situações de estresse, o uso de infográficos pode ser uma ferramenta eficaz. Infográficos simplificam informações comple- xas, tornando-as mais acessíveis e compreensíveis para o público. FEEDBACK E INTERATIVIDADE O último item do quadro — feedback e interatividade — destaca-se pelo seu potencial de com- preender o que está sendo buscado pelo indivíduo em interlocução e, dessa forma, ajustar as nar- rativas, formatos e fontes. O diálogo baseado na interatividade é fundamental para uma boa co- municação de risco. Plataformas online que permitem perguntas e respostas em tempo real, por 15 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 exemplo, podem ajudar a ajustar a mensagem conforme a necessidade do público, garantindo uma comunicação mais eficaz e um melhor entendimento dos riscos envolvidos. Esses fatores abrem um campo de possibilidades práticas para que se possa pensar em desdobra- mentos criativos, considerando as percepções de risco e fortalecendo a cultura preventiva. A inte- ratividade e o feedback contínuo são fundamentais para garantir que a comunicação seja ajustada às necessidades do público, promovendo uma compreensão mais clara dos riscos e incentivando comportamentos seguros. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A comunicação de risco desempenha um papel crucial na formação das percepções de risco e na promoção de comportamentos seguros. Ela deve ir além da simples transmissão de informações, engajando-se na negociação de sentidos e significados e na promoção de mudanças de compor- tamento. Estratégias como a personalização da mensagem, o uso de narrativas emocionais e a construção de credibilidade são essenciais para moldar percepções e incentivar ações preventivas. A compreensão das emoções e da situação dos indivíduos é vital para uma comunicação efetiva, especialmente com públicos leigos. O diálogo interativo e contínuo é importante para ajustar as estratégias comunicacionais às neces- sidades do público. A interatividade permite uma melhor compreensão das percepções individuais e a adaptação das mensagens de risco, fortalecendo a cultura preventiva. Incorporar abordagens interdisciplinares e considerar as experiências e crenças do público são passos imprescindíveis para desenvolver metodologias robustas e eficazes na identificação, avaliação e gestão de riscos. A comunicação não apenas informa, mas transforma a maneira como os riscos são percebidos e gerenciados, contribuindo para uma sociedade mais segura e consciente. 16 Comunicação de Risco - M1A2 - v. Setembro 2024 REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 31.000:2018. Gestão de riscos – Diretrizes. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. 33 p. BECK, U. Sociedade de risco. São Paulo: Editora, 34, 2010, 49-53. COMMISSION, U. S. N. R. W. Effective risk communication. 2004, p. 2. Disponível em: https:// www.nrc.gov/reading-rm/doc-collections/nuregs/brochures/br0318/index.html. CUTTER, S. L. 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