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Práticas em Parasitologia Clínica Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.a Niara da Silva Medeiros Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Cestódeos e Protozoários Cestódeos e Protozoários • Identificar as diferenças morfológicas dos cestódeos e protozoários intestinais; • Conhecer o objetivo, princípio e procedimentos técnicos dos diferentes métodos de concen- tração de parasitas nas fezes; • Reconhecer as diferenças metodológicas das técnicas utilizadas para identificação parasitária. OBJETIVOS DE APRENDIZADO • Cestódeos; • Protozoários Intestinais; • Métodos para Isolamento e Pesquisa de Formas Evolutivas de Parasitas Intestinais; • Comparação de Métodos. UNIDADE Cestódeos e Protozoários Cestódeos Teníase e Cisticercose A Teníase é uma parasitose intestinal causada pelos cestódeos Taenia solium e Taenia saginata. É uma parasitose heteroxênica e, portanto, é necessário hospedeiro intermediário. No caso de Taenia solium, o hospedeiro intermediário é o porco e na Taenia saginata, é o gado. A contaminação se dá por meio da ingestão de cisticercos presentes em carnes cruas ou mal passadas dos hospedeiros intermediários. A Taenia sp. é o maior parasita que pode viver no intestino delgado, podendo chegar a até 8 metros de comprimento. O seu corpo (estróbilo) é composto por proglotes (Figura 1), tendo característica segmentada. A diferenciação da espécie de Taenia se dá por meio do escoléx (cabeça) (Figura 2). Figura 1 – Estróbilo da Taenia sp. Fonte: mec.gov.br Figura 2 – Escólex da Taenia solium (apresenta coroa de acúleos e 4 ventosas) e da Escólex da Taenia saginata (apresenta 4 ventosas), respectivamente Fonte: Adaptada de mab.k-state.edu e mec.gov.br 8 9 No diagnóstico de Teníase, no exame parasitológico de fezes, encontramos os ovos de Taenia sp. (Figura 3), porém os ovos de Taenia solium são idênticos morfologicamente aos da Taenia saginata. As espécies de Taenia podem ser diferenciadas no diagnóstico fecal quando são liberadas proglotes grávidas (Figura 4). Quando encontramos ovos de Taenia sp. nas fezes, não conseguimos distinguir entre Taenia solium e Taenia saginata. Nesse caso, liberamos no laudo “Positivo para ovos de Taenia sp.” Figura 3 – Ovos de Taenia sp. encontrados em sedimento fecal Fonte: impehcm.org Figura 4 – Proglotes grávidas de Taenia sp. (A), Taenia solium (B) e Taenia saginata Fonte: Adaptada de web.stanford.edu e Wikimedia Commons Sobre ciclo biológico, transmissão, sintomas, diagnóstico e tratamento da Teníase, leia o Capítulo 85, pág. 553, do livro Parasitologia – Fundamentos e práticas clínicas. Disponível em: https://bit.ly/3btxuSb Além da Teníase, a Taenia solium também causa a cisticercose. A única Taenia capaz de causar cisticercose no homem é a Taenia solium. A Taenia saginata só causa cisti- cercose no seu hospedeiro intermediário, que é o boi. 9 UNIDADE Cestódeos e Protozoários O homem pode contrair a cisticercose por meio da ingestão acidental de ovos ou proglotes de Taenia solium, que pode estar em alimentos, solo ou água contaminados. O diagnóstico de cisticercose é clínico, por meio dos sintomas e exames de imagem. Indivíduos com cisticercose não liberam ovos nas fezes, sendo o diagnóstico realizado apenas por meio de exames de imagem e biópsias. Quer saber sobre epidemiologia, biologia, doença, diagnóstico e tratamento da cisticercose? Disponível em: https://bit.ly/3oRpdMv Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo os capítulos 21 – “As Teníases”, p. 211-19 e 22 – “Cisticercose Humana”, p. 220-6 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. Disponível em: https://bit.ly/3pXhUnK Hidatidose Humana A Hidatidose, causada pelo Platelminto, cestódeo Equinococcus granulosus, pode ser chamada também de cisto hidático. É uma parasitose heteróxena, seu hospedeiro intermediário são os herbívoros, os bovi- nos, os equinos, os ovinos ou os marsupiais e os definitivos são, geralmente, os canídeos. A infecção pelo homem é considerada acidental e é dada por meio da ingestão de ovos. O ovo é muito semelhante a um ovo de Taenia, e o verme adulto é pequeno, pode medir entre 4 e 8mm de comprimento. O verme apresenta um escólex (cabeça), colo pequeno e de 3 a seis proglotes (imatura, madura e grávida). Essa forma evolutiva não é encontrada nos humanos, apenas nos canídeos (hospedeiros definitivos). Nos humanos, essa parasitose é caracterizada pela formação de cistos hidáticos (Figura 5) com secreções contendo a fase larvar do parasita em diferentes tecidos no homem, principalmente, no fígado e nos pulmões (Figura 6). O diagnóstico, portanto, é feito por meio de amostras de biópsias aspirativas em busca do escolex, cistos filhos, vesículas proliferativas ou areia hidática. Podem ser feitos, tam- bém, exames sorológicos como o ELISA, a hemaglutinação indireta e o Western blot. No entanto, os exames mais utilizados são os de imagem, radiografia, tomografia e ultrassonografia. 10 11 Figura 5 – Echinococcus granulosos. (1) Verme adulto encontrado nos canídeos. (2) Cisto hidático encontrado nos humanos Fonte: Adaptada de Wikimedia Commons | UFRGS Figura 6 – Cisto hidático localizado no pulmão Fonte: MOREIRA, R., 2001 Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo o capítulo 23 – “Equinococose Humana”, p. 227-36 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010, disponível em: https://bit.ly/3aFGpzl Himenolepíase A Himenoleíase, é causada pelos cestódeos Hymenolepis diminuta e Hymenolepis nana, sendo que este último mais comumente afeta os humanos e pode ser chamado de Doença da Tênia Anã. O verme adulto do H. nana mede entre 25 a 40mm de comprimento, pode ter até 200 proglotes, e habita o intestino delgado, desenvolvendo sintomas gastrointestinais, dor abdominal, anorexia, diarreia, tontura e cefaleia. A contaminação ocorre por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados com ovos (Figura 7) . 11 UNIDADE Cestódeos e Protozoários Os ovos também são as formas evolutivas encontradas no diagnóstico pelo exame parasitológico de fezes. Figura 7 – Ovos de Hymenolepis nana Fonte: Parasitologia contemporânea, p. 160 Quer explorar os aspectos clínicos e laboratoriais da himenolepiase? Leia o Capítulo 67, pág. 470, do livro Parasitologia – Fundamentos e práticas. Disponível em: https://bit.ly/3umeHAP Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo o Capítulo 20 – “Cestoides Parasitos do Homem”, p. 201-10 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. Disponível em: https://bit.ly/3aFGpzl Protozoários Intestinais A maioria dos protozoários intestinais são comensais, ou seja, não causam doença conhecida nos seres humanos, somente se beneficiam do hospedeiro para sobreviver e conseguir completar o seu ciclo. Esse é o caso, por exemplo, da Entamoeba coli, da Entamoeba dispa, da Iodamoeba butschlli e da Endolimax nana. No entanto, temos como representantes a Giardia lamblia e a Entamoeba histolytica como protozoários intestinais patogênicos. Giardíase A Giardíase, causada pelo protozoário Giardia lamblia, tem sua classificação como flagelado, pois seus trofozoítos possuem flagelos (Figura 8). A G. lamblia possui duas formas evolutivas: cistos (Figura 9) e trofozoítos. Sua conta- minação se dá por meio de água ou de alimentos contaminados com cistos, que também é a forma evolutiva geralmente encontrada no diagnóstico, com morfologia ovalada, 4 núcleos e a presença de axonema. 12 13 Os trofozoítos são as formas evolutivas responsáveis pela patogenicidade e pode ser encontrado, eventualmente, nas fezes, em casos de diarreia. Figura 8 – Trofozoítos de Giardia lamblia fi xados na mucosa intestinal Fonte: Pixnio Quer ver detalhadamente aspectos como morfologia, ciclo de vida, epidemiologia,pato- genia, infecção e diagnóstico? Leia o Capítulo 24, pág.179, do livro Parasitologia – Funda- mentos e práticas clínicas. Disponível em: https://bit.ly/3aH0Ay6 Figura 9 – Cisto de Giardia lamblia encontrado em amostra de fezes com coloração de lugol Fonte: Pixnio A patogenicidade da Giardíase está relacionada à capacidade do trofozoíto se fixar na mucosa intestinal formando uma espécie de “tapete. Consequentemente, seu sintoma mais comum é a diarreia aquosa, além de impedir absorção de determinados nutrientes. O diagnóstico é feito por meio da pesquisa de cistos e trofozoítos nas fezes. 13 UNIDADE Cestódeos e Protozoários A visualização dos trofozoítos nas fezes é condicionada a fezes diarreicas e à análise em até 30 minutos após a coleta. Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo o capítulo 7 – “Flagelados das Vias Digestivas e Geniturinárias: Tricomoníase e Giardíase” – item Giardia intestinalis, p. 88-90 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010, disponível em: https://bit.ly/3aFGpzl Amebíase A amebíase, causada pela ameba Entamoeba histolytica, tem como forma de con- taminação a ingestão de água e de alimentos contaminados com cistos. Por ser um protozoário, possui cistos e trofozoítos como formas evolutivas. Os trofozoítos (Figura 10) tem características ameboides, possuem pseudópodes e se multiplicam por meio da divisão binária. Já os cistos podem apresentar até 4 núcleos, são esféricos e com camada delgada (Figura 11). Figura 10 – Trofozoítos de Entamoeba histolytica, apresentando um núcleo e alongamentos (pseudópodes) Fonte: phil.cdc.gov Leia mais detalhes sobre o ciclo evolutivo da Amebíase e seus aspectos mais importantes, no Capítulo 18, pág. 145, do livro Parasitologia – Fundamentos e práticas clínicas. Disponível em: https://bit.ly/3brPiNE 14 15 Figura 11 – Cistos de Entamoeba histolytica, o cisto da esquerda (seta) apresenta dois núcleos e o do lado direito apresenta um núcleo Fonte: Adaptada de parasitologiaclinica.ufsc.br A única ameba capaz de causar doença é a Entamoeba histolytica, pois ela produz proteínas e enzimas que auxiliam na sua adesão e na invasão da mucosa intestinal (Ima- gem no link a seguir). Histopatológico de uma úlcera típica da mucosa intestinal causada pela infecção por Entamoeba histolytica. Disponível em: https://bit.ly/2YJLtx9 Assim, pode haver a Amebíase extraintestinal, que é caracterizada pela invasão da ameba nos tecidos, principalmente, no fígado, no pulmão e no cérebro. No diagnóstico de Amebíase intestinal, podemos encontrar sangue e muco na análise macroscópica, presença de cistos e, raramente, trofozoítos. Já para saber se há amebíase extraintestinal, podem ser realizados exames de imagem. Quer saber mais sobre os mecanismos de patogenicidade da Giardia lamblia e da Entamoeba histolytica? Disponível em: https://bit.ly/3pX8AjR Importante ! No exame parasitológico de fezes convencional, não conseguimos diferenciar a Entamoeba hystolitica (patogênica) da Entamoeba díspar (não patogênica), pois ambas possuem cistos esféricos com até 4 núcleos. Nesse caso, liberamos no laudo, “presença de cistos de Entamoeba hystolitica/ díspar” ou, se preferir saber a espécie de Entamoeba, deve-se fazer a pesquisa de coproantígenos (antígenos nas fezes) de Entamoeba hystolitica. Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo o capítulo 9 – “Amebíase”, p. 97-108 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010, disponível em: https://bit.ly/3aFGpzl 15 UNIDADE Cestódeos e Protozoários Criptosporidiose A Criptosporidiose é causada pelo protozoário coccídio Cryptosporidium parvum ou Cryptosporidium hominis. Essa parasitose afeta, principalmente, pacientes imunocom- prometidos e crianças, pois possuem déficit na capacidade imunológica. Seu principal sintoma é diarreia. A contaminação dessa parasitose é dada por meio da ingestão de oocistos maduros em água ou alimentos contaminados. Os oocistos, no hospedeiro, internalizam a mucosa intestinal (parasita intracelular obrigatório) e se reproduzem e os de parede espessa são liberados nas fezes (Figura 12). O ciclo evolutivo completo da Criptosporidiose, disponível em: https://bit.ly/2YS15i4 Figura 12 – oocistos de Cryptosporidium sp., corados com a coloração álcool ácidorresistente modificada Fonte: arasitologiaclinica.ufsc.br O diagnóstico de Criptosporidiose é por meio do exame de fezes, coleta de múltiplas amostras, na qual se visualizam os oocistos. Por serem pequenos, os oocistos podem ser corados com a coloração de Ziehl-Neelsen para melhor identificação. Revise os conceitos aprendidos na Disciplina Parasitologia Básica relendo o capítulo 10 – “Os esporozoários e as coccidíases” – item Cryptosporidium e criptosporidíase, p. 113-4 do livro REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010, disponível em: https://bit.ly/3aFGpzl 16 17 Teste seu conhecimento • Quais são as principais diferenças da Teníase e da cisticercose, quanto à forma de con- taminação, patogênese e diagnóstico? • Qual forma evolutiva podemos encontrar no diagnóstico de hidatidose em humanos? • Na Himenolepiase, qual a forma de infecção e diagnóstico? Quais são as características dos ovos? • Por que na giardíase temos a diarreia como o principal sintomas? Em qual circunstân- cias podemos encontrar trofozoítos nas fezes? • Quais são as características morfológicas das formas evolutivas encontradas no diag- nóstico da Giardíase e da Amebíase? • Por que não temos dificuldade em diferenciar Entamoeba histolyticas e E. díspar? E como é feita essa diferenciação? Métodos para Isolamento e Pesquisa de Formas Evolutivas de Parasitas Intestinais Você lembra que conversamos, nas unidades anteriores desta Disciplina, sobre como realizamos a coleta da amostra fecal? Quanto tempo é a vida útil dessas amostras e como podemos conservá-la? Então... essas orientações devem ser levadas em consideração para a pesquisa de qualquer parasita (protozoários e helmintos). Vale ressaltar que amostras velhas tem baixo poder de diagnóstico. Para a pesquisa de protozoários nas fezes, existem algumas técnicas mais sensíveis, que veremos a seguir, porém o método de sedimentação espontânea pode ser utilizado também para esse fim. Técnicas de concentração por flutuação: flutuação simples e/ou centrífugo-flutuação As técnicas de flutuação utilizam a diferença de densidade por meio de reagentes es- pecíficos que permitem a de ovos de helmintos, cistos e oocistos de protozoários flutuem e, assim, consegue-se isolá-los. Como vantagem, essas técnicas possuem a formação de uma “nuvem” de parasitas na superfície do tubo, com poucos detritos fecais. Mesmo quando presente em pequenas quan- tidades, consegue-se concentrar as formas evolutivas e ter um diagnóstico mais apurado. No entanto, a grande desvantagem dessas técnicas é a utilização de reagentes de den- sidade muito alta e isso faz com que as paredes dos ovos e dos cistos entrem em colapso, podendo se apresentar distorcidos, perdendo suas características morfológicas típicas. Para não ter esse grande problema, é necessário que as amostras sejam lidas em até 20 minutos depois de prontas. 17 UNIDADE Cestódeos e Protozoários Não se sabe ao certo a densidade de cada forma evolutiva de cada parasita e, por isso, existem variadas técnicas com utilização de reagentes diferentes para que se consiga isolar de acordo com o objetivo de investigação. Método de Faust e Cols (flutuação em solução de sulfato de Zinco) O método de Faust, conhecido também como método de centrífugo-flutuação com sulfato de zinco, possui maior sensibilidade em detectar ovos leves de helmintos (ancilos- tomídeos) e cistos de protozoários. Para realização dessa técnica, é necessária a centrífuga e, também, o reagente de sulfato de zinco. A seguir, vamosver como é a execução dessa técnica (Figura 13): • Para executar esta técnica, é necessária a utilização de fezes frescas; • Colocar aproximadamente 2g de fezes em 10ml de água corrente. Filtrar a sus- pensão por meio de uma gaze ou parasitofiltro, dobrada duas vezes, receber o filtrado em um tubo de centrífuga de 15ml com fundo redondo até completar 2/3 da capacidade do tubo; • Centrifugar (650 x g/1min). Decantar o sobrenadante e adicionar 1 a 2 ml de água corrente ao sedimento, antes de ressuspendê-lo. Agitar e centrifugar novamente; • Repetir a etapa 3, até que o sobrenadante esteja claro; • Quando o sobrenadante estiver claro, retirá-lo e adicionar o sulfato de zinco 33% e centrifugar (650 x g/1min); • Cuidadosamente, remover o tubo da centrífuga e, sem agitar, colocá-lo em um estante vertical; • Com uma alça de arame ou uma pipeta pasteur coletar a “nuvem” que se formou na superfície da solução. • Colocar uma gota da “nuvem” em uma lâmina de microscopia, com uma gota de lugol e lamínula. Realizar a leitura em microscópio óptico nos aumentos de 10x e 40x. Figura 13 – Passo a passo do método de Faust, centrífugo-flutuação Fonte: SIQUEIRA-BATISTA; GOMES; SANTOS; SANTANA, 2020 18 19 Método de Sheather (flutuação em sacarose) O método de Sheather também tem como princípio a centrífugo-flutuação, com o objetivo da pesquisa de oocistos de Cryptosporidium spp ., em amostras de fezes frescas ou preservadas com solução formalina. A técnica de Sheather é realizada da seguinte forma: • Colocar aproximadamente 2g de fezes em um frasco contendo 10ml de água corrente; • Filtrar esta suspensão em gaze ou parasitofiltro e colocar o filtrado em um tubo de centrífuga de 15ml de fundo redondo; • Adicionar a solução de sacarose de Sheather até completar ¾ do tubo; • Agitar vigorosamente 1 a 2 ml de filtrado com a solução de sacarose; • Colocar uma lamínula na borda do tubo, mantendo-a em contato com a solução de sacarose; • Centrifugar (500 x g por 10min). Remover a lamínula, invertendo sua posição colocando a face com a gota sobre a lâmina; • Analisar em microscópio de contraste de fase. Você sabia que o microscópio de contraste de fase é diferente do microscópio óptico? O mi- croscópio de contraste de fase, geralmente, é utilizado para amostras transparentes e auxi- lia detalhando a imagem pelas suas diferenças de índice de refração que se tornam visíveis nesse tipo de microscópio. Acesse o link, disponível em: https://bit.ly/36MvNOb Pesquisa de oocistos Os coccídios são parasitas da subclasse protistas apicomplexos. Tem como repre- sentantes: Isospora belli, Cryptosporidium spp., Cyclospora cayetanensis, Sarcocystis hominis e Sarcocystis suihominis. São parasitas responsáveis pelas infecções em indivíduos imunocomprometidos, po- dendo variar a sintomatologia. Habitam as células epiteliais do intestino e sua forma evo- lutiva de diagnóstico são os oocistos, que são pequenos e com as técnicas convencionais fica inviável a sua identificação. Sendo assim, são necessárias algumas técnicas específicas, como veremos a seguir. Método de Coloração por Kinyoun O método de Kinyoun utiliza amostras frescas ou sedimento concentrado de fezes frescas ou fezes preservadas em formalina. O corante de Kinyoun tem a base de solu- ção de fucsina-fenicada (Figura 14). A coloração das amostras fecais para a pesquisa de coccídios ocorre da seguinte forma: 19 UNIDADE Cestódeos e Protozoários • Realizar um esfregaço com uma a duas gotas de fezes frescas ou preservadas. Deixar secar à temperatura de 60°C no aquecedor de lâminas. Cuidar para preparar esfre- gações delgados (finos); • Após secagem, fixar o esfregaço com álcool metílico por 30 segundos e deixar secar a temperatura ambiente; • Após fixação, corar com o corante de Kinyoun por 1 minuto. Lavar rapidamente com água destilada e secar delicadamente; • Realizar a diferenciação com solução álcool-ácido por 2 min. Lavar rapidamente com água destilada; • Deixar o esfregaço secar e montar com resina sintética; • Examinar 200 a 300 campos do esfregaço com objetiva de imersão (100x). Figura 14 – Oocistos de Cryptosporidium sp. corados com a coloração de Kinyoun, indicados por meio das setas verdes na imagem Fonte: DESTRO, K. C. et al., 2014 Método de Ziehl Neelsen Modificada (ZNM) O método de Ziehl-Neelsen modificado utiliza o aquecimento da fuscina-fenicada para coloração (imagem no link a seguir). Para essa técnica, utilizam-se fezes frescas ou preservadas com formalina. Para a realização desse método, devemos respeitar os seguintes passos: • Preparar as esfregações com fezes frescas ou preservadas e deixar secar a tempe- ratura ambiente ou aquecimento; • Corar com corante fucsina-fenicada, aquecendo a lâmina até a emissão de vapores por cinco minutos no aquecedor de lâminas; • Escorre o excesso de corante e lavar com água corrente delicadamente; • Diferenciar com a solução aquosa de ácido sulfúrico a 5% por 30 segundos; 20 21 • Lavar o esfregaço com água corrente e retirar o excesso de água; • Corar com solução de azul-de-metileno a 0,3% por 1 minuto; • Lavar com água corrente e secar delicadamente; • Montar com resina sintética e ler em microscopia óptica sob imersão (100x). Oocistos de Cryptosporidium sp. corados com a coloração de Ziehl-Neelsen. Disponível em: https://bit.ly/36KOku6 Método de coloração da Safranina Modificada O método de coloração por Safranina modificada utiliza os corantes Safranina e verde malaquita para realizar a coloração. Nessa coloração, os oocistos coram com brilhante vermelho-alaranjado sobre fundo uniforme corado em verde (Imagem no link). É realizado da seguinte forma: • Utilizam-se fezes frescas ou preservadas com formalina; • Realizar o esfregaço com uma a duas gotas de amostra fecal. Deixar secar à tem- peratura de 60°C. Preparar esfregaços delgados; • Fixar a amostra com ácido-álcool por 3 a 5 minutos; • Lavar rapidamente com água destilada e drenar; • Corar com Safranina a 1% por 1 minuto. Aquecer o esfregaço até a emissão de vapores, não deixar secar o corante; • Lavar rapidamente com água destilada e drenar; • Corar o fundo com solução de verde malaquita a 3% por 2 minutos; • Lavar a lâmina com água destilada. Secar e montar com resina sintética; • Examinar de 200 a 300 campos do esfregaço com a objetiva de imersão (100X). Oocisto de Cryptosporidium sp. (seta) corado com a coloração de Safranina modificada. Disponível em: https://bit.ly/3cN58op Comparação de Métodos Como já conversamos, não existe uma única técnica 100% específica e sensível quando falamos de pesquisa de parasitas. O que temos disponível são variadas técnicas que se complementam, que podem ser utilizadas isoladas ou em conjunto para melhorar o diagnóstico. Veja isso a seguir, na Tabela comparativa das técnicas disponíveis para detecção de parasitas fecais, com seus princípios, vantagens e desvantagens. 21 UNIDADE Cestódeos e Protozoários Tabela 1 – Quadro comparativo das técnicas disponíveis para detecção de parasitas fecais Método Detecção Princípio Vantagens Desvantagens HPJ Ovos, larvas e cistos Sedimentação espontânea Barata, fácil excussão, utilização mínima de vidrarias Muitos detritos fecais e baixa sensibilidade Ritchie Ovos, larvas e cistos Centrífugo sedimentação Poucos detritos Utilização de equipamentos e reagentes, maior tempo de execução Coprotest Ovos, larvas e cistos Amostras preservadas Biossegurança, agilidade na análise Muitos detritos e não há análise macroscópica Kato-katz Ovos e larvas de helmintos Análise quantitativa e qualitativa Preservação das lâminas em longo prazo, quantificação de ovos Não visualiza cistos, difícil visualização, alguns ovos degradam Graham (fita gomada) Ovos de Enterobius vermiculares Pesquisa de ovos na região perianal Técnica específica para enterobiose Não detecta todas as formas evolutivas Baermam- Moraes e Rugai Larvas de Strongyloides steroralisSedimentação por termo hidro tropismo Específico para larvas de S. stercoralis e poucos detritos Não detecta todas as formas evolutivas Faust e Sheather Cistos e ovos leves Centrífugo flutuação Poucos detritos, detecta baixa varga parasitária Utilização de reagente e equipamentos, maior tempo de execução Teste seu conhecimento • Quais são as técnicas que tem como princípio a centrífugo flutuação? Quais são os aspectos diferentes entre elas? • Porque precisamos utilizar métodos de coloração para os coccídios? • Quantos campos do esfregaço devem ser lidos nas técnicas de Kinyoun e Safranina modificada? • Qual a coloração resultante da coloração de Ziehl-Neelsen? • Se você tivesse que escolher uma técnica das apresentadas no Quadro, qual a técnica você utilizaria na sua rotina laboratorial? E por quê? 22 23 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Parasitologia: Fundamentos e Prática Clínica Capítulo 18 – Amebíase (Entamoeba) . https://bit.ly/3pPtvFs Parasitologia: Fundamentos e Prática Clínica Capítulo 24 – Giardíase . https://bit.ly/2MZWVlS Parasitologia: Fundamentos e Prática Clínica Capítulo 23 – Criptosporidiose . https://bit.ly/3q62b5O Leitura Atlas de Parasitologia clínica e Doenças infecciosas https://bit.ly/2MBNzwJ Criptosporidiose https://bit.ly/36Mrwdt Himenolepiase https://bit.ly/2O1uvIu Comparação da eficiência das colorações de Ziehl-Neelsen modificado e Safranina modificada na detecção de oocistos de Cryptosporidium spp. (Eucoccidiorida, Cryptosporidiidae) a partir de amostras fecais de bezerros de 0 a 3 meses https://bit.ly/3tsVSeN 23 UNIDADE Cestódeos e Protozoários Referências ALI, F. M.; ALI, S. A. K. Cryptosporidiosis in sulaimani pediatric teaching hospital and comparison of different diagnostic methods for its detection. European Scientific Journal, Iraque , v. 9, n. 36, 2013. DE CARLI, G. A. Parasitologia clínica: seleção de métodos e técnicas de laboratório para o diagnóstico das parasitoses humanas. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 2010. DESTRO, K. C. et al. Ocorrência de Cryptosporidium spp. em bezerros bubalinos no estado do Pará. Arq. Inst. Biol., São Paulo , v. 81, n. 4, 2014. FREITAS, E. O.; GONÇALVES, T. O. F. Imunologia, parasitologia e hematologia aplicadas à biotecnologia. São Paulo: Erica/Saraiva, 2015. REY, L. Bases da Parasitologia médica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. RODRIGUES, R. D. et al. Comparação da eficiência das colorações de Ziehl-Neelsen modificado e Safranina modificada na detecção de oocistos de Cryptosporidium spp. (Eucoccidiorida, Cryptosporidiidae) a partir de amostras fecais de bezerros de 0 a 3 meses. Ciênc. anim. bras., Goiás , v. 17 n. 1, 2016. SIQUEIRA-BATISTA R. et al. Parasitologia: fundamentos e prática clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. ZEIBIG E. Parasitologia Clínica – Uma abordagem clínico laboratorial. 2.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. 24