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4. Os estilos de personalidade DAQUI PARA A frente, partindo de traços que elegerei como faci- litadores para o psicoterapeuta, apontarei como os estilos de BRITO personalidade podem ser compreendidos com base em um refe- PINTO rencial gestáltico, ciclo de contato. Entendo que em Gestalt- ELEMENTOS PARA -terapia cada modo de ser apoia-se preferencialmente em uma defesa, em uma descontinuação do contato, o que caracteriza o UMA COMPREENSÃO estilo de personalidade na linguagem gestáltica. Descreverei as DIAGNÓSTICA EM principais características de oito modos de ser, definidos nas descontinuações do ciclo de contato conforme concebido por PSICOTERAPIA Ribeiro (2007) e adaptado por mim. Assim, temos as personali- dades dessensibilizada, defletora, introjetora, projetora, profle- 0 ciclo de contato tora, retrofletora, egotista e confluente. É interessante destacar, e modos de ser para possíveis pesquisas posteriores, que provavelmente esses estilos de personalidade são polares e formam pares comple- mentares: a personalidade dessensibilizada se opondo à defleto- ra; a introjetora à projetora; a profletora à retrofletora; a egotista à confluente. Tal polarização ajuda-nos a compreender muitos dos amores e dos ódios "gratuitos" que testemunhamos ou vi- venciamos pela vida afora. Para facilitar contato do Gestalt-terapeuta com os cole- gas de outras abordagens, farei também uma aproximação com os estilos (ou, quando cristalizados, transtornos) de personali- dade conforme descritos no DSM. Assim, se tomarmos por re- ferência esse manual, a personalidade paranoide se assemelha ao projetor; as personalidades esquizoides e esquizotípicas ca- racterizam pessoas dessensibilizadas; a personalidade borderli- summus editorial ne se parece com a proflexiva; a se assemelha ao es- 71ELEMENTOS PARA UMA EM PSICOTERAPIA BRITO PINTO tilo deflexivo; a narcísica e a antissocial se aproximam do tor, norte é a possibilidade de se aprofundar mais; para pro- egotista; a esquiva se assemelha ao introjetor; a dependente, ao jetor, busca-se mais distanciamento entre os aspectos emocio- confluente; a obsessivo-compulsiva, ao retrofletor. nais e os cognitivos, a fim de ampliar a crítica ao vivido e tempo Ao fazer essa aproximação, não estou tentando trazer a de reação a cada emoção percebida; para o estilo proflexivo, o perspectiva do DSM para a Gestalt-terapia; ao contrário, minha norte é a ampliação do autoconhecimento como forma de se di- intenção é possibilitar ao gestaltista a compreensão do DSM em ferenciar do outro e de buscar guiar-se mais por si; para o retro- seus próprios termos, de modo que possa se comunicar melhor fletor, o norte são a liberdade e a soltura, sobretudo a corporal; com os profissionais da área. Como em toda tentativa de diálogo para o egotista, é a ampliação da capacidade de empatia e de entre referenciais diferentes, é importante lembrar que seme- humildade; para confluente, a possibilidade de ampliação da lhança não quer dizer igualdade; que faço aqui é uma analogia, autonomia. Embora cada norte sirva a todas as pessoas, afirmo e para gestaltista deve prevalecer sua compreensão dos estilos, que há, para cada estilo de personalidade, um sobressair das fi- como veremos adiante. nalidades apontadas. Embora o DSM aponte assimetrias entre os estilos esquizoide Quando digo que para cada tipo de personalidade há um e esquizotípico, penso que entre eles há mais semelhanças que di- trajeto já esboçado (e apenas esboçado), isso nos obriga a prestar ferenças: ambos apoiam-se sobretudo na dessensibilização, por ainda mais atenção às diferenças individuais. O apontar de cami- isso os reúno em um único estilo de personalidade. No caso do nhos que se pode depreender do estilo de personalidade de cada narcisismo, creio, com Lowen (1989), que o estilo antissocial é o cliente é feito grosso modo, devendo ser especificado cuidadosa e narcisista muito adoecido; por isso os reúno aqui no egotista. continuamente para cada cliente em cada momento do processo Cada um desses estilos ilumina, entre outros aspectos, um terapêutico. Vale repetir que não se podem enquadrar os indiví- propósito amplo para processo terapêutico, que, por sua vez, duos em um estilo "puro" de personalidade, embora sempre haja orienta terapeuta em seu trabalho. Além desse propósito am- um modo de ser prevalente. De maneira geral, tenho observado plo, cada estilo exigirá do terapeuta um cuidado específico no que, além deste, existe outro que se pode denominar de "primei- que diz respeito à comunicação (verbal e não verbal), ao tato, ao ro auxiliar", os dois demandando especial atenção por parte do acolhimento, à confrontação etc. psicoterapeuta ao fazer diagnóstico de fundo. No que se refere ao propósito amplo da psicoterapia para os O trabalho de compreensão diagnóstica obriga o psicólogo a estilos de personalidade, cada um deles demandará um tipo de ampliar seus conhecimentos, com a finalidade de reduzir pre- mudança, uma rota no caminho da flexibilização (Delisle, 1988, conceitos e se abrir para uma compreensão verdadeira e susten- 1999, 2005). Assim, norte para as pessoas dessensibilizadas tável do cliente. Esse tipo de cuidado é importante para o psico- passa por uma reapropriação corporal; para introjetor, pela terapeuta sobretudo na feitura da compreensão diagnóstica de ampliação da capacidade crítica e da agressividade; para o defle- seu cliente, para que não se pratique nenhum tipo de reducio- 72ELEMENTOS PARA UMA ÊNIO BRITO PINTO EM nismo fundamentado em preconceitos. No meu modo de ver, a contato que se aprimora ao longo de diversas sessões e se fun- postura do profissional ao fazer a compreensão diagnóstica é damenta fortemente, mas não apenas, na intersubjetividade e na aquela que Paulo Barros (Porchat e Barros, 2006, p. 140-41) tra- intuição do terapeuta. duz da seguinte maneira: Seguirei nessa descrição a ordem do ciclo de contato, con- forme a figura do Capítulo 3 apoiando-me sobretudo nos Para mim, ser terapeuta supõe um interesse humano muito seguintes traços, não necessariamente nessa ordem: palavra- grande, um interesse pela pessoa que está diante de você. -chave e mote; corporeidade; cognição; contato interno; sociabi- Supõe um interesse pelas coisas humanas e uma disponibilida- lidade; afetividade e sexualidade; sabedorias; participação cultu- de para perceber que está acontecendo com a pessoa, uma ral, em particular profissão e lazer; religiosidade; especificidades curiosidade especial e específica a respeito da pessoa em ques- na psicoterapia. Em todas as descrições, dialogo especialmente tão. [...] É fundamentalmente um interesse genuíno em rela- com os textos de Delisle (1988, 2005). ção às coisas humanas. As palavras-chave e os motes que usarei servem para realçar as características mais comuns em pessoas de cada estilo de per- Como bem afirma Naranjo (1997, estilo de persona- sonalidade. Por corporeidade entendo a maneira como indiví- lidade é uma complexa estrutura que se poderia representar sob duo tende a vivenciar o próprio corpo. Cognição refere-se ao a forma de uma árvore, na qual os comportamentos distintos são modo como a pessoa costuma organizar seus pensamentos e suas aspectos de comportamentos mais gerais [...] esses diversos tra- reflexões. Quando falo em contato, refiro-me ao ritmo mais co- ços de natureza mais geral podem ser compreendidos como ex- mum de alternância entre contato interno e externo, além da ma- pressão de algo mais fundamental". Para descrevermos um estilo neira peculiar de cada estilo de personalidade fazer contatos de personalidade precisamos definir traços, ou seja, categorias bretudo interpessoais, os quais, dada sua importância, aparecem para a descrição e estudo ordenado de pessoas, pois conceito na categoria sociabilidade, especialmente aqui com as peculiari- de tipo/estilo refere-se ao aglomerado de vários traços diferen- dades na participação em grupos. Em afetividade e sexualidade tes. Como me dirijo sobretudo aos psicoterapeutas, descreverei descrevo a maneira predominante com que cada estilo de perso- de maneira sumária cada estilo de personalidade tendo por base nalidade lida com os sentimentos e com a sexualidade. As sabedo- traços que têm relação muito próxima com a psicoterapia. Não rias são aquelas questões para as quais a pessoa se mostra mais custa reafirmar que o todo é diferente da soma de suas partes, o habilidosa em função de seu jeito de ser. Quando se trata do traço que quer dizer que a simples reunião desses traços que descreve- ligado à participação cultural, darei mais atenção às escolhas pro- rei não constitui o estilo de personalidade, mas a configuração fissionais e de tipo de lazer predominantes em cada estilo. A religio- deles. Para o profissional, tal configuração pode ser percebida no sidade vem se tornando uma característica humana cada vez mais contato próximo com cliente que a psicoterapia proporciona considerada na psicoterapia, entre outros motivos porque a ma- 74 75ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA neira como cada um a vivencia e se relaciona com a divindade tada às tentativas dos outros de proximidade afetiva ou corpo- traz informações essenciais sobre como lida com sua espirituali- ral. Em geral seus contatos têm pouca intensidade, aparente- dade, isto é, com sua capacidade de criar valores, ter horizontes, mente mais distantes. Em função disso, parecem pessoas um dar sentido a suas As especificidades na psicoterapia di- tanto desligadas, motivo de queixas de quem convive com elas. zem respeito à relação e à situação terapêuticas, com ênfase nos Paradoxalmente, a maneira mais comum como perturbam o am- cuidados que cada estilo de personalidade necessita do terapeuta. biente é não se perturbando, quer dizer, esfriando-se. Embora tendam a buscar a solidão, podem se ressentir desse isolamento o dessensibilizado e também levar os outros a se sentir sós. Temem a intimidade e o confronto. O PRIMEIRO ESTILO DE personalidade que compete estudar agora Por tenderem a certa negação do corpo, costumam ter tônus é das pessoas dessensibilizadas, ou seja, que manifestam des- fraco, pouca energização corporal e, em decorrência disso, difi- continuações mais comumente no início do ciclo. Assemelham- culdade de manifestar intensamente as emoções e de mostrar -se, nos critérios do DSM, às personalidades esquizoide e esqui- graciosidade em seus movimentos. Sobretudo nesse quesito, vi- zotípica, nas quais é flagrante a base da dessensibilização, ainda vem plenamente "o mínimo possível". É raro apresentarem mo- que tenham sentidos diferentes: no primeiro caso, tal dessensi- léstias físicas, como se contato corporal empobrecido os prote- bilização volta-se prevalentemente para coletivo-comunitário; gesse de perceber doenças ou de em especial as no segundo, para misticismo. A característica mais marcante mais comuns, como gripes, dores de cabeça e dores musculares. dessas pessoas é certa tendência à solidão, até mesmo necessida- Por vezes, um dos primeiros sinais que dão do progresso na tera- de dela para se sentir bem. Por isso, a palavra-chave aqui é "soli- pia é um adoecimento corriqueiro, como os citados, o que deve dão". O mote para essas pessoas poderia ser resumido na expres- ser comemorado pelo terapeuta. são "o mínimo possível", pois parecem se contentar com Os dessensibilizados tendem a ser passivos e a ter pouco mínimo possível nas diversas áreas da vida: o mínimo possível de contato com as sensações de prazer e de dor, vivenciando-as o contatos, de afetos, de trabalho, de terapia. Costumam também mínimo possível. O fato de serem mais dotados para a solidão ser pessoas originais e, de certa forma, marginais em virtude da não os torna, no entanto, pessoas com pouca capacidade afetiva: necessidade de solidão, ficam um pouco à parte da sociedade, é difícil para eles mobilizar-se pelos afetos, de modo que acabam não se inserindo em grandes grupos, a não ser e eventualmente parecendo frios sem que de fato sejam. Parece haver uma cros- os marginalizados. ta corporal defensiva que, como efeito colateral, produz certa O contato corporal é quase sempre pouco desenvolvido, de falta de vivacidade na expressão e de agilidade, a qual, muitas modo que essas pessoas parecem não ter grandes apetites nem vezes, não condiz com que é sentido. Sexualmente, tendem a abertura para os prazeres, reagindo de maneira fraca ou desajei- mostrar-se pouco interessados e pouco interessantes, manten- 76 77ELEMENTOS PARA UMA ÊNIO BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA do, sempre que possível, sua sexualidade escondida, como que munidade. É bastante comum em indivíduos com esse modo de prescindível. Sentem, mas têm dificuldade de externar seus sen- ser a presença de ideais a respeito da vida social, que muitas timentos parece que falta cor à vida deles. vezes os leva, por paradoxal que pareça, ao engajamento em No que diz respeito à cognição, tendem a ser mais concre- ações sociais, seja pela política, pela religião ou por iniciativas tos, ficando mais atentos aos aspectos factuais da comunicação que atinjam pessoas que efetivamente precisam ser ajudadas. À que aos abstratos, com pouco interesse pela expressão simbólica; diferença dos empreendimentos egotistas, para os dessensibili- aparentam ter pouca curiosidade; não raro têm pensamentos zados a admiração e os elogios que recebem mais incomodam místicos ou buscam no misticismo a melhor forma de expressão que agradam, chegando às vezes a ser doloridos. de seus afetos e de suas ideias. Em geral, relacionam-se com a Se pensarmos que cada estilo de personalidade traz sabedo- divindade por meio do isolamento, da negação do corpo ou de rias especiais, as mais marcantes das pessoas dessensibilizadas sua imolação, além de utilizar-se dos pensamentos mágicos. são: a capacidade de distanciamento, a qual lhes possibilita agir Não é incomum encontrarmos nessas pessoas, sobretudo sem impulsividades e manter uma atitude de observação e críti- quando deprimidas, um intenso senso de ironia, um humor feri- ca ao cotidiano cultural; certo estoicismo, que lhes permite pas- no que, não raro, isola-as ainda mais. Tendem a se dar melhor sar com menos danos pelos infortúnios da vida; a capacidade de profissionalmente nas atividades que não exigem muito contato suportar a solidão (e até de gostar dela), que lhes oferece abertu- interpessoal ou não o exigem tão aprofundado. Assim, encontra- ras para experiências pouco comuns; o humor sarcástico, o qual mos entre as profissões mais comumente escolhidas por esses lhes permite defender-se de intrusões ameaçadoras; a obstina- estilos a contabilidade, a informática, a psiquiatria, a vigilância ção, que pode resultar em importantes progressos. noturna, a direção de caminhões ou de coletivos. O isolamento Em terapia, apresentam-se, de certa forma, refratárias ao to- também se manifesta nos passatempos preferidos; assim, des- que, embora não sejam formais apenas parece que lhes agrada sensibilizado preferirá a pescaria ao jogo de futebol, o cinema ao ser tocadas mínimo possível. Na maioria das vezes, sua queixa carteado, a visita a um museu a um jantar familiar. inicial está ligada à ansiedade e ao desejo de solidão mal compre- Em virtude dessa tendência à solidão, essas pessoas costu- endido por si ou pelo ambiente. Têm uma expressão verbal em- mam ter uma rede social pequena e/ou de pouca vinculação afe- pobrecida, tendendo a usar poucos verbos ativos e pouca emo- tiva. Para elas, muitas vezes é preferível um contato pelo compu- ção nas descrições do vivido, manifestando-se de forma mais tador ou pelas redes sociais que pessoalmente; assim, é mais generalista, vazia, neutra. Não raro esses indivíduos parecem fa- comum terem grupos de pertinência virtuais do que presenciais. lar apenas para si mesmos, evitando assim um contato mais in- Parecem não cuidar das roupas que usam, como se não lhes im- tenso com o terapeuta. Costumam narrar a própria história de portasse ser bem-vistos, embora possam se vestir com certa ex- maneira pouco interessante, desprovida de detalhes e de afetos. centricidade, mas sem o intuito de provocar aos outros ou à co- Não à toa, Delisle (1988, p. afirma que, com esses clientes, "a 79ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA hora será longa". Demoram muito, quando conseguem, para se dar as vivências corporais e, assim, ir ao mundo com confiança vincular ao terapeuta, O que exige do profissional paciência e em seu direito de ocupar espaço. Por fim, é importante frisar cuidado para não invadi-los, pois sob a crosta de aparente frieza que demandam do terapeuta a delicada capacidade de perceber há um coração frágil e delicado, que teme não ser compreendi- que muitos alimentos deliciosos e nutritivos são cozidos em do. Um córrego de afetos já é suficiente para afogá-los. Em fun- banho-maria. ção disso, fazem grande esforço para se sentir independentes do Em minha prática clínica encontrei inúmeras vezes clientes terapeuta, como se, paradoxalmente, mesmo na terapia buscas- com esse estilo de personalidade. Noto hoje que minha colabo- sem isolamento. A reação mais comum que esse estilo provoca ração para a maioria dos fracassos na terapia com essas pessoas no terapeuta é certa frieza e até a presença de pensamentos mís- se baseou em um desejo exagerado de ajudar, o qual me fez in- ticos. Em virtude dessa aparente frieza e da sensibilidade que ela vadir o cliente com minhas expectativas de que ele melhorasse protege, uso de exercícios gestálticos com essas pessoas deve para além do que ele próprio podia suportar. Nos casos de su- ser muito cuidadoso, com atenção delicada ao seu autossuporte, cesso, percebo que minha principal virtude foi a habilidade de a fim de não forçá-lo em demasia. esperar, como quem caminha por uma calçada de mãos dadas Como precisam desenvolver, sobretudo, um melhor conta- com uma criança, que o cliente se aproximasse de mim e de si to corporal para que possam se sensibilizar, é bom que na tera- no seu devido tempo. Provavelmente essas pessoas precisam pia se trabalhe, lenta e pacientemente, a ampliação da sensibi- encontrar no terapeuta a capacidade de manter-se, de certa for- lidade corporal, em especial da propriocepção. Exercícios ma, tão frias como elas se mostram, embora profissional deva simples, como o de sugerir que cliente se perceba corporal- ter em mente que tal frieza é apenas aparente, proteção para os mente durante o banho, que procure notar odores nos ambien- afetos que temem vir à luz e não ser compreendidos. Quando o tes ou discriminar sabores na alimentação, ajudam muito. Em terapeuta consegue esse tipo de atitude, é quase como se en- paralelo, a capacidade de ampliar e aprofundar as redes sociais trasse no idioma de seu cliente dessensibilizado, que o enco- pode ser incentivada, também com delicadeza. É possível, ain- raja a, aos poucos, reconhecer-se como um ser corpóreo e a co- da, ajudar cliente a ampliar sua capacidade de ter uma vida locar a energia advinda daí a serviço da e de mais ativa, tentando ir um pouco além do mínimo possível nes- uma vida mais plena. sas áreas. Cognitivamente, quando a terapia consegue auxiliá- Como paradigma na arte para esse estilo de personalidade, -los a transformar o humor ferino em aguda capacidade crítica, sugiro a leitura dos livros Barthelby, de Herman Melville, e O vi- os dessensibilizados alcançam insights valiosos para si e para deota, de Jerzy Kosinski. No cinema, Muito além do jardim (dire- aqueles com quem convivem. Todas essas possibilidades de ção de Hal Ashby), filme baseado na obra de Kosinski, além de melhora da qualidade de vida com a psicoterapia têm, a meu inúmeros faroestes americanos que têm como herói cavaleiro ver, uma raiz fundamental: a ampliação da capacidade de vali- solitário aparentemente imperturbável e pouco ambicioso. Na 80 81ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA literatura brasileira, modelo emblemático do estilo de persona- tores conservam um papel agregador e um lugar conservador na lidade dessensibilizado são os Severinos, cantados em versos por maioria deles, ao contrário dos profletores, que costumam ter João Cabral de Mello Neto no poema "Morte e vida Severina". grande dificuldade de participar longamente de grupos, dada sua postura perturbadora e pouco conservadora. o defletor O contato corporal tende a ser bem desenvolvido, de modo que podem ter grandes apetites ou grande abertura para os praze- O ESTILO DE PERSONALIDADE defletor descreve pessoas que ten- res, reagindo de maneira intensa, às vezes até exagerada, às tenta- dem, de certa forma, a ser sensibilizadas fortemente pelo am- tivas dos outros de proximidade afetiva ou corporal. Costumam biente. Assemelham-se, nos critérios do DSM, à personalidade ter contatos com muita intensidade, geralmente próximos, mas na qual é flagrante a base de intensa socialização e superficiais. Em função disso, parecem pessoas entusiasmadas, horizontalidade. A característica mais marcante desses indivídu- mas com uma fugacidade que costuma ser motivo de queixas de os é a tendência à busca constante de companhia, até mesmo quem convive com elas. A maneira mais comum pela qual pertur- uma dificuldade para a vivência da solidão ou da quietude. Por bam o ambiente é por meio da necessidade, excessiva quando pa- isso, as palavras-chave aqui são "superficialidade" e "sexualiza- tológica, de atenção e cuidado. Embora tendam a evitar a solidão, ção", uma vez que é comum entre os defletores o uso da sexuali- podem se ressentir desse viver tão horizontal. Esquivam-se da dade para obter atenção e afeto. O mote para eles poderia ser intimidade ampliando número de contatos interpessoais e/ou resumido na expressão "abundância e brevidade", pois se con- de confrontos aparentemente gratuitos. No caso da ampliação tentam com máximo possível nas diversas áreas da vida, desde dos contatos, há uma peculiaridade comum: sua facilidade de que de maneira fugaz: o máximo possível de contatos, de afetos, contato interpessoal aproxima-as rapidamente e aparentemente de trabalho e de terapia, mas por pouco tempo. Tendem ainda a as torna íntimas de alguém que acabaram de conhecer, mas de ser pessoas agregadoras e, de certa forma, centralizadoras: em quem logo se esquecem. virtude da dificuldade com a solidão, ficam abertas aos grupos No que diz respeito, ainda, ao corpo, por apresentarem uma nos quais atuam de maneira agregadora quando recebem o afeto percepção corporal mais acentuada, essas pessoas têm um tônus de que necessitam e de maneira desagregadora quando sentem corporal bastante energizado e, portanto, facilidade de manifes- não receber a importância que julgam devida. De toda forma, tar intensa e brevemente as emoções. Nesse quesito, vivem "o nunca têm participação neutra nos grupos aos quais se filiam. máximo possível". Os defletores tendem a ser ativos e a ter gran- No caso do papel desagregador, lembram um pouco as pessoas de contato com as sensações de prazer e de dor, vivenciando-as de estilo profletor, mas têm com relação a estas últimas uma di- com intensidade. Sua vida parece cheia de cor. Porém, quando ferença fundamental: se observarmos os diversos grupos dos sob pressão, podem exagerar a expressão de dores ou de incômo- quais participam por um período maior, notaremos que os defle- dos vividos corporalmente. O fato de serem mais dotadas para aELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA vivência grupal torna-as mais atentas aos fatos externos que às Tendem a encontrar um melhor destino profissional nas próprias vivências, que pode se tornar pesado existencialmen- atividades que exigem contato interpessoal, desde que não mui- te. Mobilizam-se pelos afetos, de modo que mostram ter boa ca- to aprofundado, sobretudo de ajuda aos outros. Assim, encon- pacidade de intimidade sem que de fato a tenham. Parece haver tramos entre as profissões mais comumente escolhidas por es- uma expressão corporal defensiva que, como efeito colateral, sas pessoas a enfermagem, serviço social, as atividades produz certo excesso de vivacidade na expressão, uma agilidade didáticas, a organização de festas e de eventos, a psicologia, a às vezes afetada, que por vezes não condiz com que é sentido. vida religiosa enfim, ocupações que lhes possibilitem máxi- Sexualmente, mostram-se interessados e interessantes, manten- mo possível de contato interpessoal ou de serviços interpesso- do, sempre que possível, sua sexualidade como uma das ferra- ais. Essa característica também se manifesta nos passatempos mentas de comunicação e de contato. Costumam ser manipula- preferidos, voltados igualmente para a convivência. Assim, uma dores e sedutores. Há nessas emoções uma efemeridade e certo pessoa com esse estilo de personalidade preferirá uma excursão exagero, como deflexão diante dos contatos mais íntimos. em grupo a um jogo de baralho, um show a um cinema, um jan- Tendem a ser impetuosos, mas lidam mal com a constância: as- tar familiar em que ela esteja no centro das atenções a uma re- sim como se entusiasmam com novos projetos ou ideias, rapida- feição frugal e solitária. mente se enfadam, se irritam e desistem. Em virtude da dificuldade de lidar com a solidão, essas pessoas No que diz respeito à cognição, em geral desvalorizam os costumam ter uma rede social ampla e bastante horizontalizada, aspectos intelectuais e a introspecção, prestando mais atenção com pouca ou fugaz vinculação afetiva. Para elas, muitas vezes é aos fatos externos, mesmo os mais triviais. Atentam para os preferível vários contatos simultâneos a um mais íntimo; assim, é aspectos comuns e superficiais das comunicações, apresentan- comum terem vários grupos de pertinência concomitantes. Em ge- do certa dificuldade de lidar com abstrações e símbolos. ral, preocupam-se com vestuário: esmeram-se em apresentar-se Aparentam ter mais curiosidade sobre as pessoas que sobre os bem, mesmo que eventualmente com alguns exageros. fatos. Costumam ter uma vivência mística mais severa, festiva As sabedorias mais marcantes das pessoas defletoras são: a e ritualística. Em geral, os defletores relacionam-se com a di- capacidade de aproximação e acolhimento, a qual lhes permite vindade por meio dos grupos de pertinência, da organização agir a serviço dos outros e manter uma atitude de participação e de eventos religiosos, do cuidado com os rituais e com os coir- de intervenção no cotidiano cultural; certo entusiasmo, que lhes mãos. Nisso se assemelham aos confluentes, porém não co- possibilita passar com mais esperança pelos infortúnios da vida; bram de modo excessivo pelo que dão aos outros. Além disso, a capacidade de lidar com grupos, que os abre para experiências mesmo sendo duas personalidades que precisam estar com, a comunitárias e de solidariedade; o existencial, que lhes per- quantidade de grupos e, nesses, a exuberância da participação mite defender-se de baixas ameaçadoras; a expansão, que os leva os diferenciam fortemente. a importantes ousadias; a capacidade de unir posturas conserva- 85ELEMENTOS PARA UMA EM PSICOTERAPIA BRITO PINTO doras a inovadoras em doses que costumam ser enriquecedoras cançar intimidade; dizer "não" de maneira compreensiva e para os grupos e para a cultura de que participam. continente; explorar com cliente significado (o porquê) Em terapia, de certa forma, toque é sempre perigoso, pois dessas tentativas. pode ser subitamente erotizado, independentemente do fato de terapeuta e cliente serem ou não do mesmo sexo. Na maioria A vinculação com o terapeuta será sempre imprevisível e das vezes, sua queixa inicial está ligada às relações interpessoais, pouco confiável, de modo que profissional deve encarar cada a uma sensação de serem mal compreendidos pelo ambiente. sessão como se fosse a última seja mantendo-se atento e limi- Sua expressão verbal pode ser empolada, a colocada com cui- tador quanto às próprias expectativas em relação àquele traba- dado, às vezes com afetação; tendem a usar verbos ativos e muita lho, seja diminuindo a tolerância às situações inacabadas tão emoção nas descrições do vivido. Manifestam-se de forma gene- comuns nas psicoterapias fenomenológicas. Muito corriqueira, ralista, ampla, emocionada, buscando um contato mais intenso sendo até um dos mais importantes critérios diagnósticos, é a que íntimo com terapeuta. percepção, por parte do terapeuta, de que está sentindo raiva de Tendem a narrar a própria história de maneira um tanto seu cliente. Isso se dá sobretudo em virtude da imprevisibilidade dramática, interessante, com poucos detalhes e cheia de afetos, do contato na terapia e da facilidade dessas pessoas para defletir superficial. A falta de pormenores nas narrativas é facilmente nos momentos mais decisivos e carregados de energia das ses- percebida pelo terapeuta sensível, sendo um dos critérios diag- desviando-se para situações aparentemente inócuas, des- nósticos para esse tipo de personalidade: fica no terapeuta certa considerando a dedicação e a presença do terapeuta naquele frustração, um desejo insistente e repetidamente frustrado de momento, depois de abrir Gestalten cujo fechamento procurarão saber mais detalhes para compreender melhor. O defletor de- evitar a todo custo. Ou, ao contrário, trazendo no fim da sessão manda dois cuidados especiais. Em primeiro lugar, risco, sem- um assunto delicado para o qual não haverá tempo hábil para pre presente, de que cliente abandone a terapia de súbito, sur- uma abordagem adequada e para um fechamento atualizador. preendendo terapeuta. Nas palavras de Delisle (1999, p. 102): Além disso, é comum que cliente se esforce para construir com "O terapeuta vai encontrá-lo sempre charmoso e atraente [...] o terapeuta uma aliança contra mundo externo, recorrendo até depois, ficará sempre a procurar". segundo ponto diz respeito a adulações, o que também exigirá cuidado do profissional para à sedução sexual, bastante comum na terapia dessas pessoas. andar no estreito fio da presença confirmadora, delimitadora e Afirma Delisle (ibidem): amorosa sem ceder à bajulação nem deixar de reconhecer (e se solidarizar com) as dificuldades cotidianas da pessoa. É preciso cuidado para a compreensão das tentativas de sedu- Como os defletores precisam sobretudo ampliar a capacidade ção por parte do cliente: usar a técnica do "obrigado, não, por- de mudar e de estabelecer intimidade e aprofundamento em suas que". Obrigado: compreender a sedução como meio para al- relações, é bom que na terapia se trabalhe, lenta e pacientemente, 87ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA o aumento da capacidade de centrar-se mais em si que no am- com seu "não, obrigado, porque". Costumo aconselhar meus su- biente, diminuindo a centração no outro. Em paralelo, deve-se pervisandos e alunos a ter muito cuidado com sua autoavaliação incentivar potencial para aprofundar contatos interpessoais profissional no trabalho com essas pessoas, pois muitas delas inclusive na relação terapêutica, especialmente se profissional abandonam prematuramente a terapia sem que terapeuta pos- conseguir manter-se com conforto no estreito fio de que falei no sa fazer nada para impedir parágrafo anterior. Cognitivamente, quando a terapia consegue Como paradigmas na arte para esse estilo de personalidade, auxiliá-los a transformar horizontalismo em abertura para con- sugiro a leitura da obra de Jorge Amado, narrador praticamente tatos mais profundos e íntimos, ainda que poucos, podem alcan- especializado em figuras defletoras sobretudo, mas não apenas, çar mudanças relevantes para si e para aqueles com quem convi- as femininas, como Dona Flor e Gabriela. No cinema, um exem- vem. Por fim, é importante frisar que demandam do terapeuta a plo interessante do defletor é Alice, de Alice no País das Maravilhas delicada capacidade de ousar e de ter consciência de seus limites (direção de Tim Burton), baseado na obra de Lewis Carroll. e das enormes possibilidades da frustração amorosa como um ato terapêutico que auxilia a pessoa a aprender a amar sem ter de o introjetor sexualizar suas relações interpessoais. Tenho feito em congressos e em outros eventos de Gestalt- ESTILO DE PERSONALIDADE introjetor é o das pessoas que ma- -terapia um grupo de diálogo intitulado "A clínica da sexualidade nifestam descontinuações mais comumente na etapa da mobili- e a sexualidade na clínica", no qual trocamos relatos e vivências a zação, logo antes da ação. Assemelha-se, nos critérios do DSM, à respeito da presença dessa energia estrutural humana na relação personalidade esquiva, nas quais é flagrante a base da introjeção psicoterapêutica, com resultados interessantíssimos. Em todos os e da ansiedade (e eventual paralisação) inerente à introjeção. A grupos realizados surgiu alguma experiência sobre atitudes e de- característica mais marcante do introjetor é certa tendência a sejos contratransferenciais de defletores. Sucessos e insucessos sentir-se humilhado, o que provoca solidão como meio de defe- são narrados; cuidados acertados e defesas exageradas, divididas. sa, mas de forma bem diversa da solidão das pessoas dessensibi- É comum a percepção compartilhada de que nesses casos há duas lizadas: isolamento é buscado como fuga, e não como alterna- atitudes extremamente terapêuticas por parte do profissional: tiva egossintônica. Por isso, a palavra-chave aqui é "retirada", no primeira, consigo, de não negar moralisticamente desejo que sentido de ser uma pessoa que diminui seus contatos para evitar porventura sinta pelo cliente, mas compreender tal desejo e seu a possibilidade da humilhação. Outra palavra-chave pode ser sentido na sua vida e naquela terapia (isso vale também para o "hesitação", com a mesma motivação do termo anterior. O mote trabalho com outros estilos de personalidade, é óbvio); segunda, para essas pessoas poderia ser resumido na expressão "tudo sem- com relação ao cliente, de não julgá-lo, mas buscar entender seu pre pode piorar", pois parecem sempre esperar por algo ruim, comportamento sedutor na forma que Delisle tão bem descreve sobretudo a rejeição do ambiente. Vale ressaltar que não raro aELEMENTOS PARA UMA o BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA pessoa localiza em algum aspecto corporal foco da rejeição, cia às supostas expectativas do ambiente. Tendem a ser ativos, sempre de maneira plausível. Para ela há, de fato, algo no corpo uma vez que a fuga é um processo ativo, ao contrário do que crê que foge ao comum ou à norma da cultura: uma calvície precoce, senso comum. Porém, não têm pouca afetividade, mas afetivi- uma orelha mais saliente, um nariz avantajado, seios muito dade subordinada aos medos. Como vivem em estado de alerta, grandes ou muito pequenos residiria aí motivo da humilha- seu toque tende a ser rápido, fugaz, pouco atraente ao outro. É ção: "Ninguém vai querer conversar comigo com essa minha voz comum viverem medo da rejeição e do ridículo, que torna a de gralha!" Esse comportamento temeroso aparece sobretudo vida sexual dessas pessoas pobre ou inexistente ou, ainda, te- nos grupos, nos quais a possibilidade da rejeição é mais explícita. merosa do compromisso, com longos namoros ou noivados que O contato corporal tende a ser desenvolvido especialmente parecem nunca levar ao casamento. Não raro manifestam a tar- na percepção de situações aversivas ou de perigo, de maneira tamudez e problemas respiratórios recorrentes. que os introjetores mantêm-se em um estado de alerta perene. No que diz respeito à cognição, tendem a pensar no com- Aqui, é preciso fazer uma distinção no que se refere aos projeti- portamento dos outros do prisma de suas preocupações, sempre vos: o introjetor fica em alerta pelo medo de ser rejeitado, ao esperando pelo pior, como se, mesmo sendo introjetores, não passo que o projetor faz por desconfiar do outro, como vere- conseguissem aprender as lições da vida por sua dificuldade de mos mais adiante. No primeiro, movimento da desconfiança é assimilação, a qual comentarei adiante. Tendem a valorizar pou- voltado para si; no segundo, a desconfiança se volta para am- CO a si e ao outro, resultando daí uma séria dificuldade de manter biente. Em outros termos, o introjetor não culpa mundo, mas amizades ou relações mais longas a não ser aquelas da família a si, pela possível rejeição, ao passo que projetor culpa mundo de origem, ponto no qual se diferenciam novamente dos dessen- pela possível perseguição. Assim introjetor, em virtude desse sibilizados. Na terapia, devem ser ajudados a perceber essa ten- alerta constante, acaba dando mais atenção à dor que ao prazer. dência a esperar pelo pior, para que possam criticar essa postura. Tendem a ter contatos fugidios, mais ariscos. Em função Na linguagem, tendem a usar generalizações e têm dificuldade disso, parecem pessoas um tanto assustadas ou pessimistas, o de dizer "não". A timidez é queixa comum, devendo seu sentido que dificulta a convivência com quem quer se aproximar. A ma- ser sempre investigado em terapia, pois é pessoal e singular. neira mais comum como perturbam ambiente é pelo pessimis- Muitas vezes, cliente usa termo "vergonha" para caracterizar mo e pelo embaraço, ainda que aparentemente disfarçado, dian- sua timidez, e aqui também a pesquisa sobre significado dessa te de situações mais comuns para a maioria das outras pessoas. vivência pode ser reveladora de caminhos terapêuticos. Temem a proximidade e a possível rejeição ou humilhação. A maneira mais usual de essas pessoas se relacionarem com No que diz respeito aos sentimentos, vivem especialmente a divindade é pelo distanciamento, até por certa persecutorieda- medo e sua derivação, a ansiedade, os quais fundamentam a in- de, como se seu lugar no inferno já estivesse reservado desde o trojeção como tentativa de adequar-se ao ambiente pela nascimento. O desinteresse pelos temas ligados à religião tam- 91 90ELEMENTOS PARA UMA ÊNIO BRITO PINTO DIAGNOSTICA EM bém pode aparecer, em geral com características defensivas. No cliente tenta ser adequado e não se expõe; noutro, quando se desenvolvimento profissional, tendem a preferir posições de sente aceito, ele pode achar que só o terapeuta entende, que pouco contato interpessoal não por gostarem da solidão, mas gera certa dependência que, se não cuidada, se tornará iatrogêni- pelo medo de ser rejeitados ou humilhados. Essa característica ca. A reação mais comum que os introjetores provocam no tera- também se manifesta nos passatempos favoritos. Assim, uma peuta é um desejo de encorajar, desejo esse que deve ser contra- pessoa com esse estilo de personalidade preferirá uma máquina balançado pelo cuidado de perceber a ansiedade do cliente e não fotográfica a uma bola, uma solitária sessão de jardinagem a um incentivá-lo a condutas que para ele podem ser temerárias, exe- passeio pela praça. cutadas apenas com a intenção de agradar ao profissional. Em virtude desse medo da rejeição, os introjetores costu- Experimentos com risco dosado, que exigem pequenas e cres- mam manter uma rede social pequena, de pouca confiabilida- centes doses de ousadia, tendem a ser bem-vindos para que de e pouca intimidade, na qual tendem mais a pedir que a dar. cliente possa se explorar e se conhecer melhor, mas não devem Em geral, têm poucos amigos e poucos romances ao longo da ser colocados como provas de superação, pois isso pode ser im- vida, embora se arrependam das inúmeras oportunidades produtivo para desenvolvimento da terapia ao contrário do perdidas nas fugas que fazem. Parecem vestir-se evitando que acontece com os egotistas, para os quais desafio é cami- chamar a atenção; se pudessem, trajariam constantemente nho de progresso. Nesses experimentos, é preciso ajudar a pes- manto da invisibilidade. soa a tolerar melhor a dor, a não se deixar tomar logo pelo desejo Ao pensarmos nas sabedorias especiais das pessoas introje- de fugir dela, a fim de lidar melhor com as necessárias passivida- tivas, uma de suas maiores habilidades está no reconhecimento des da vida. Por exemplo, se cliente tende a buscar uma descul- das situações de risco e nas estratégias para minimizá-los. pa e fugir de todo contato sexualizado por medo de ser ridicula- Costumam ter uma vida imaginativa muito rica, que se consti- rizado, um pouco de ousadia pode ajudá-lo a esperar e a avaliar tui numa maneira de compensar a evitação do contato cotidiano se vai ser mesmo rejeitado. Em outros termos, essas pessoas pre- com as pessoas e com situações ameaçadoras. cisam aprender a tolerar a ansiedade até que ela se vá porque Em terapia, em virtude de sua ansiedade, essas pessoas te- ambiente não é tão ameaçador quanto parecia a princípio ou, mem tocar e ser tocadas. Na maioria das vezes, sua queixa inicial em caso contrário, até ter confiança de que a esquiva é a atitude está ligada à ansiedade e ao medo da rejeição e do ridículo, quan- mais acertada naquele momento, e só naquele momento. do não diretamente ligada à ansiedade. A cada entrevista, sobre- Cognitivamente, quando a terapia consegue auxiliá-los a ter tudo no início da terapia, estarão ansiosas, tendendo a relaxar à uma postura mais crítica quanto às introjeções, podem alcançar medida que a sessão segue. O terapeuta precisa ficar atento ao valiosas autoafirmações. Esses clientes demandam do terapeuta medo que esses clientes sentem de ser rejeitados por ele. Tal a capacidade de ajudar a instaurar a crença de que, se tudo pode medo pode gerar, basicamente, dois caminhos ruins: num, piorar, pode também melhorar.ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO DIAGNÓSTICA EM PSICOTERAPIA Em minha prática clínica não atendi a muitas pessoas com palavra-chave pode ser "suspeita". O mote do projetor poderia esse modo de ser. Imagino que a psicoterapia possa ser vista ser resumido na expressão "sempre alerta", utilizada num senti- como uma atividade ameaçadora para a maioria delas, especial- do defensivo, pois ele aparenta estar sempre pronto para en- mente por seu caráter de proximidade e por sua proposta de in- frentar uma hostilidade repentina, vinda de qualquer lugar. O timidade consigo e com um outro. No entanto, e isso é interes- projetor, via de regra, coloca nessa atitude desconfiada toda a sante, uma vez superada a fase inicial da terapia, os trabalhos energia de que dispõe e associa isso a uma crença desmesurada tendem a ser longos, com progressos lentos e constantes. na própria importância, tendendo a sentir-se como referência, Como paradigmas na arte para esse estilo de personalidade sobretudo para atos que compreende como danosos ou maledi- temos, no cinema, os personagens principais de fabuloso des- centes contra si. Esse comportamento desconfiado aparece tino de Amélie Polain (direção de Jean-Pierre Jeunet) e de O dis- principalmente nos grupos, nos quais a possibilidade de invasão curso do rei (direção de Tom Hooper). Existem diversos filmes por parte dos outros é mais real. Tal atitude de suspeita não que exploram a sensação, tão comum no introjetor, de ser re- quebra o contato com a realidade, embora a marque com um jeitado em função de algum suposto defeito ou deficiência que colorido bem típico, tonalizado pela ameaça e pela consequente tenha. Na literatura e no cinema, o estilo introjetor é bastante necessidade de atenta defesa. explorado nas comédias, sobretudo naquelas que retratam si- projetor tem certa dificuldade para perceber o corpo, em- tuações repetidas de ridicularização a que essas pessoas pos- bora seja energizado, pois a vigilância exige um organismo pron- sam estar sujeitas. Carlitos, de Chaplin, é um terno exemplo to para reagir portanto, com dificuldade de relaxar e de ser per- desse tipo de personalidade. cebido. Ao passo que o introjetor fica em alerta por medo de ser rejeitado, o projetor o faz por desconfiar do outro. Essa atitude projetor de desconfiança facilita também uma postura mais retaliadora com relação aos outros e ao mundo. ESTILO DE PERSONALIDADE projetor abrange as pessoas que Como tem dificuldade de relaxar e de perceber o corpo, o manifestam descontinuações mais comumente na etapa da projetor costuma ter contatos praticamente sem afeto, fundados ação. Assemelha-se, nos critérios do DSM, à personalidade pa- apenas na cognição. É mais raro encontrarmos contato com gru- ranoide, nas quais é flagrante a base da projeção e da descon- pos, a não ser aqueles estritamente necessários, como os profis- fiança. A especificidade mais marcante dessas pessoas é certa sionais, mas mesmo nesses contatos há momentos de hostilida- rigidez, fruto de uma atitude de desconfiança diante do mundo. de e de ambiguidade, muitas vezes incompreensíveis para as Por isso, a palavra-chave aqui é "vigilância": trata-se de indiví- outras pessoas. duos que se colocam em permanente estado de atenção diante Costumam perturbar ambiente por meio de sua ambigui- de um mundo vivido sobretudo como hostil e perigoso. Outra dade e hostilidade, além, é claro, da atitude de desconfiança eELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA vigilância que permeia seus contatos cotidianos. Tendem a enca- A maneira mais comum de essas pessoas se relacionarem rar a possível proximidade com outras pessoas como perigosa, com a divindade é por meio de uma marcante desconfiança, não pois a projeção mais encontradiça é aquela que coloca nos outros raro de ateísmo ou de um fanatismo belicoso e as partes inaceitáveis de si. No desenvolvimento profissional, optam por trabalhos nos No que diz respeito aos sentimentos, não vivem exatamente quais a postura vigilante seja valiosa, como nas funções milita- medo, mas a desconfiança, que é bem diferente. Tendem a res, de polícia, do direito, do mundo das finanças. Essa caracte- ser ativos, muitas vezes agressivos ou violentos, pois se mostram rística também se manifesta nos passatempos prediletos, geral- vigilantes e provocadores. mente aqueles que não os coloquem em contato com afetos ou Como se encontram amiúde em estado de vigilância, não com a proximidade dos outros. Assim, uma pessoa com esse es- provocam nos outros desejo de tocá-los nem mostram vontade tilo de personalidade preferirá isolar-se em uma pescaria num de tocar as outras pessoas. Ainda quanto à sexualidade, são co- lugar inóspito a frequentar um shopping, escolherá jogar um muns as relações sem afeto, praticamente cognitivas, sem qual- game estressante e não ir a um jantar romântico. quer significado mais importante, com pouco cuidado ou culpas. Em virtude dessa atitude de vigilância e desconfiança, os Vivem um sexo sem coração e com raras sensações de prazer, projetores têm uma rede social muito pequena, sem intimidade, mais voltado para desempenho que para a satisfação embora, na qual tentam se mostrar impassíveis, mas são vistos como irri- ao contrário do egotista, que busca desempenho para ser admi- táveis, invejosos e ciumentos. Têm poucos amigos e poucos ro- rado, sua busca do desempenho tenha a função de retaliação ou mances ao longo da vida, sem mostrar arrependimento pelas de prevenção de possíveis traições. oportunidades perdidas. No que diz respeito à cognição, esta tende a ser seu princi- Entre as sabedorias especiais das pessoas projetivas está a pal suporte. Na terapia, devem ser ajudados a experimentar, capacidade de reconhecer perigo e de lidar com ele, especial- ainda que a princípio muito de leve, a possibilidade de ampliar mente quando adotam profissões voltadas para a proteção de diálogo entre a cognição e as emoções, para não se mobilizar pessoas ou de valores. tão imediatamente diante da suspeita levantada sobre alguém Embora a projeção como ato e como estado seja comum ou algo. Se não se trabalham, esses indivíduos em geral não ve- em terapia, como estrutura ela é muito rara. As pessoas projeti- rificam suas suspeitas, agindo portanto de maneira imediatista, vas, por sua natural desconfiança, têm dificuldade de se utilizar defendendo-se (às vezes fortemente) tão logo se imaginem de intervenções psicoterapêuticas, as quais são, inerentemente, ameaçados, sem identificar se de fato há ou não perigo. baseadas na confiança mútua. Ainda assim, quando procuram Na linguagem, em geral não gostam de responder a pergun- terapia quase sempre obrigadas por alguém importante para tas, ao mesmo tempo que se colocam como inquisidores. Têm elas -, tendem a ser clientes difíceis, pois colocam-se na defensi- dificuldade de dizer "sim", sobretudo os sins afetivos. va, interpretando cada gesto do terapeuta, mesmo mais anódi- 97ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA no, como possível manobra estratégica. De expressão verbal in- sual com estrutural. Indivíduos retrofletores e profletores quisitória, confrontadora, com grande investimento cognitivo costumam ter vivências projetivas importantes, tendendo a am- como controle da situação terapêutica, tendem a narrar a pró- pliar ameaças de maneira muito semelhante ao das pessoas de pria história de maneira ambígua e enigmática, inclusive suspei- estilo projetor, de modo que são necessárias sensibilidade e aten- tando do terapeuta qual deve se colocar como um bom par- ção ao fazer a compreensão diagnóstica e diferenciar um estilo de ceiro para, com muita paciência, deixar que aos poucos a outro. É no contato, no entre, na atmosfera do encontro, que se confiança surja na situação terapêutica. É importante que o pro- estabelecerão essas diferenças; é na percepção do todo e do coti- fissional não tente ficar livre de suspeição, mas desenvolva su- diano do cliente que se descobrirão as dessemelhanças e, assim, porte para lidar com a atitude suspeitadora de seu cliente até que se traçarão os melhores caminhos terapêuticos para cada a confiança se estabeleça que se dará com a lentidão seme- Como paradigma na arte para esse estilo de personalidade, lhante à da hera ao cobrir a parede e terá como resultado uma sugiro filme Teoria da conspiração (direção de Richard Donner). confiança frágil e necessitada de cuidados como um passarinho Na literatura, representante clássico da estrutura projetiva é na gaiola. Outro cuidado se dá quanto à possibilidade de tera- protagonista de Dom Casmurro, de Machado de Assis. peuta reagir diante do projetor com certo desconforto, quase com paranoia, que torna mais consciente de seus gestos e o profletor mais controlado e cauteloso a cada sessão do que de costume. Não raro, terapeuta vive certa frustração com esse cliente por O ESTILO DE PERSONALIDADE profletor abarca as pessoas que não ser confirmado como confiável, devendo trabalhar isso de manifestam descontinuações mais comumente na etapa da inte- modo intenso. ração. Assemelha-se, nos critérios do DSM, à personalidade Tenho a fantasia de que colegas que trabalham em institui- borderline, nas quais há uma tendência à impulsividade e certa ções de correção como presídios ou casas de acolhimento de me- labilidade emocional, ambas derivadas de problemas ligados ao nores infratores devem ter mais contato com projetores que eu estabelecimento e à manutenção da identidade própria. Também em terapia. De fato, nesses anos todos em que sou terapeuta, fo- é comum relato ressentido de vivências de abandono, em geral ram raras as pessoas com esse modo de ser que atendi. Meu con- bem embasadas na realidade, sobretudo na infância, que deixam tato maior com elas deu-se em minha prática hospitalar, tanto marcas por toda a vida e devem ser objeto de intenso cuidado e em hospitais psiquiátricos quanto em gerais, embora nesses casos confirmação por parte do terapeuta. As pessoas com esse estilo patológico estivesse muito à tona. Percebo, no entanto, que é de personalidade tendem a ser tomadas por impulsos que não preciso cuidado para diferenciar atitudes projetivas, isto é, a pro- conseguem (ou têm dificuldade de) controlar; por isso, apresen- jeção como ato ou estado, sobretudo em pessoas de estilo retro- tam, muito mais do que a média das pessoas, comportamentos fletor ou para que não se confunda aquilo que é proces- temerários que podem causar danos significativos a ela ou aosELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA que a cercam. Por isso, as palavras-chave aqui são "impulsivida- forma de proflexão. Assim, daqui para a frente, tomarei por base de", "abandono" e "temeridade". O mote dos profletores poderia meus achados, entendendo que, mesmo que uma das duas for- ser resumido na expressão "se desejo, posso", no sentido de que mas seja mais visível, cada profletor realiza ao longo da vida ajus- são tomadas por um imediatismo que as incita a certos compor- tamentos baseados nessa característica básica de não conseguir tamentos dos quais se arrependem profundamente depois fechar suficientemente bem sua modelação e alcançar sua iden- quando há depois. É preciso notar, no entanto (sendo esse as- tidade, prendendo-se demais ao outro. Dizendo de outro modo: pecto que mais os assemelha à personalidade borderline no segundo Crocker, cada um de nós aprende a ser, por exemplo, DSM), que a impulsividade e a labilidade são visível de um as- um bom cidadão, fazendo aos outros que gostaria que eles nos pecto mais importante nesse tipo de modo de ser: uma vivência fizessem, que seria uma proflexão saudável (ou uma modela- de vazio, de certa falta de identidade, uma falta de fronteiras es- ção, que é como Crocker denomina esse movimento) porque não tabelecidas com nitidez suficiente. Essa é a grande força motriz manipulativa, mas aprendente. Já a proflexão não saudável do profletor, pois é em função dessa sensação de vazio que ele caracteriza-se pela prevalência da manipulação e, no meu modo tende a se mover sem se responsabilizar existencialmente, como de ver, na dificuldade de assimilar a identidade procurada (no se quase pudesse viver no outro: "Por exemplo, uma mulher que caso, ser um bom cidadão), de modo que a pessoa não consegue proflexa crê erroneamente que é outro que tem a chave de sua suficiente autossuporte para ser livre, tornando-se dependente felicidade. Isso mostra que ela está sem contato com as fontes de do outro ao mesmo tempo que ressentida com ele por este não autossuporte que tem em si e com as opções ambientais que lhe lhe dar sua liberdade. são disponíveis" (Crocker, 1981, p. 2). Como bem aponta Crocker (ibidem, p. 6), esses indivíduos Crocker foi a primeira Gestalt-terapeuta que teorizou sobre acabam estabelecendo uma espécie de relação senhor-escravo, a proflexão como descontinuação do contato. Ao descrever a profletor se prendendo ao relacionamento outro "se recusan- pessoa de estilo a autora, depois de afirmar que há uma do a fazer coisas que por uma ou outra razão não quer fazer". A proflexão ativa e uma passiva, diz (ibidem, 3) que "nos dois ca- preponderância desse tipo de relação na vida das pessoas de esti- SOS profletor entra numa atitude servil em relação a quem ele lo profletor é o que explica as constantes e intensas vivências de ou ela está tentando manipular" e essa me parece ser a tônica solidão, pois os outros não suportam ficar presos nessa teia e se dessas pessoas em terapia. Apesar de concordar com Crocker afastam ressentidos. A exceção a esse padrão se dá no encontro quando afirma que há uma proflexão ativa e outra passiva, tenho entre dois profletores, pois aí que se constitui no mais das ve- encontrado em minha prática clínica pessoas que oscilam da for- zes é um interminável e muito sofrido vaivém, casa-separa. ma ativa à passiva a depender da resposta que obtém do outro e O aprisionamento desses indivíduos em algumas relações das circunstâncias, mas me parece muito difícil, senão aparece sobretudo nos grupos, trazendo quase sempre prejuízos vel, encontrar alguém que encarne isoladamente uma ou outra para profletor porque aqui também os outros acabam se can- 100 101ELEMENTOS PARA UMA COMPREENSA BRITO PINTO DIAGNÓSTICA EM PSICOTERAPIA sando de sua instabilidade e de suas cobranças e se afastando unhas até que se machuquem a atitudes mais autodestrutivas na deixando-o dolorido, por vezes trazendo de volta a experiência lida com dinheiro, com velocidade em automóveis, no abuso de de um abandono, afetivo ou concreto, vivido na infância, marca substâncias, no sexo sem prevenção, em abortos, na alimentação bastante comum a essas pessoas. De toda forma, como afirma compulsiva, em compras compulsivas, podendo chegar ao suicídio Crocker (ibidem, p. 4), "se outro responde como de- (geralmente também compulsivo, não arquitetado). seja, a relação tende a ser estéril e estereotipada. [...] Se outro Costumam perturbar ambiente por meio da ambiguidade falha em responder ou a resposta não condiz com as expectativas derivada de sua impulsividade e da instabilidade de seus afetos e do profletor, isso gera ressentimentos, às vezes no profletor, às comportamentos, que acaba por gerar relações marcadas pela vezes em ambos". culpa e pelo ressentimento de lado a lado. De todos os estilos de Há um texto de Clarice Lispector (1973, p. 40) que pode dar personalidade, o parece ser que tem peso mais duro uma boa ideia sobre estilo de personalidade "Eu sou à nas convivências, consigo e com os outros. É difícil ficar por mui- esquerda de quem entra. [...] E estremece em mim mundo. Eu to tempo com a pessoa profletora, entre outros motivos porque não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as mi- ela tende a ser muito agarrada ou muito distante, oscilando, apa- nhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro". rentemente sem motivo, de um polo ao outro com a mesma ra- Tendem a ser pessoas de energia cíclica, pois passam rapida- pidez com que um esquilo pula de galho em galho em uma árvo- mente de uma quase hiperatividade a uma quase letargia, que re. Há também uma dificuldade de se adequar ao ambiente, pode provocar complicados erros de diagnóstico, pois, para que complica mais a convivência. vezes, penso que esses indi- profissional mal preparado, isso pode parecer um transtorno bi- víduos fazem em seu cotidiano uma espécie de ora polar, que está longe do profletor. Sua oscilação de humor é estão muito centrados no outro, ora em si raramente estão no muito mais errática, flutuante e imprevisível que a do bipolar, entre ou passam por ele. Quanto mais conseguem amadurecer, entre outras diferenças no diagnóstico. mais vão encontrando conforto no entre e, assim, reduzindo As pessoas de estilo profletor têm certa dificuldade de perce- essa sublimação. ber suas sensações e de lidar com elas, que se nota em seu frágil A convivência é uma das grandes dificuldades do estilo de controle Assim, certa ambiguidade com re- personalidade profletor, uma vez que a questão da identidade lação aos comportamentos retroflexivos, ora muito retrofletoras, pesa bastante, sobretudo quando a confusão entre si e o outro, ora incapazes de retrofletir. Episódios de violência ou de automuti- tão comum nessas pessoas, se acentua. lação não são raros em geral seguidos de intensa culpa, mas com dificuldade de aproveitar a reparação que esse sentimento deveria I. Utilizo-me aqui do termo "sublimação" no seu sentido em química proporcionar, que pode tornar tais episódios repetitivos. Falo capacidade de uma substância de passar do estado sólido ao gasoso sem a intermediação do estado líquido. Portanto, não é ao sentido psicanalítico da aqui de uma ampla gama de comportamentos, do hábito de roer palavra que me refiro. 102 103ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA Como são, de certa forma, imprevisíveis, têm alguma difi- sa pessoa: ora a mais animada balada, ora o mais sossegado culdade com toque, vivido ora como desejável, ora como inva- parque, ora mais profundo e regressivo dos sonos. sor. Com relação à sexualidade, assim como à vivência de praze- Ao pensar nas sabedorias especiais dos profletores, volto ao res e dores, a intensidade é a marca. Dores lancinantes e prazeres tema das artes e da criação, pois muitas das melhores obras artís- indescritíveis não são raros. Vivem um sexo intenso e prazeroso, ticas de nossa civilização devem-se a eles. apaixonado, para em seguida cair no descaso e na falta de inte- É bastante comum que procurem terapia, seja espontanea- resse. Possivelmente são as pessoas mais sujeitas ao mau uso das mente, seja encaminhadas por outras pessoas ou entidades, drogas e das substâncias entorpecentes, incluindo medicamen- como as escolas. O trabalho terapêutico com as pessoas de estilo tos psicotrópicos mal receitados. profletor guarda peculiaridades significativas que exigiriam um A cognição tende a não ser um suporte confiável, vencida estudo à parte. Como fundamentos básicos, alguns cuidados e que costuma ser por impulsos e caprichos. Na linguagem, ten- atitudes por parte do terapeuta são imprescindíveis. O primeiro dem à mesma imprevisibilidade, podendo, se num momento pa- deles é a estabilidade: esse cliente precisa de um terapeuta e de tológico, numa mesma frase mudar seus afetos de norte a sul. um ambiente estáveis, compondo acolhedora polaridade com No que diz respeito à religiosidade, embora seja raro apare- seu humor instável. A relação terapêutica será sempre difícil, não cerem em terapia alusões a vivências religiosas, muitas vezes a raro tumultuada, sobretudo no começo, que exige do profissio- adesão a determinado culto tende, sobretudo a partir da idade nal autocentração e cuidado amoroso. Se o terapeuta não pode adulta, a ajudar essas pessoas a lidar com a difícil questão da re- fazer dessa pessoa um cliente especial, é melhor que não a aten- troflexão saudável. Tanto a religião quanto a terapia são meios da. Digo especial no sentido da dedicação que lhe será exigida e pelos quais o profletor pode ser auxiliado a retrofletir melhor, a da confiança profunda de que não abandonará seu cliente, por conter-se, a lidar de maneira menos frágil com seus impulsos, mais que ele provoque para tanto. "Estabilidade" é a palavra- a estabelecer uma identidade e fronteiras um pouco mais consis- -chave para essas terapias. Como são pessoas muito carentes, tentes e necessitadas de um amor constante, tendem a provocar no tera- No desenvolvimento profissional, tendem a se sentir melhor peuta certa oscilação, ora desejoso de colocá-las no colo para em atividades ligadas à arte, ótima via para desaguarem a imensa protegê-las, ora consternado diante da fragilidade em seu auto- criatividade que costumam ter. Por isso, em terapia, o uso da arte cuidado. O profissional deve certificar-se de não se enredar a é especialmente indicado para trabalho com essa personalida- ponto de ter verdadeiras atuações superprotetoras que arruínam de. São inúmeros os artistas, músicos, cantores, pintores, poetas, a psicoterapia. A supervisão é sempre recomendada nesses aten- escritores, escultores, estilistas, publicitários e outros profissio- dimentos, mesmo aos terapeutas mais experientes. nais que lidam com a arte cujo estilo de personalidade é profle- Os profletores têm uma expressão verbal que, muitas vezes, tor. Como lazer, dificilmente saberemos qual é des- demonstra certa idealização do terapeuta ou de pessoas próxi- 104 105ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA mas, com rápida oscilação para uma intensa desvalorização. outro que a supervisão se torna imprescindível nesses atendi- Tendem a narrar a própria história de acordo com que sentem mentos. Outro ponto importante no qual a supervisão pode no momento (se estão tristes, a história é cinzenta; se estão ale- ajudar é na diferenciação, nem sempre fácil, entre as pessoas de gres, ela é colorida, independentemente de como tenha sido vi- estilo e as de estilo defletor, pois esses dois modos de vida quando ocorreu), mas com recorrentes sensações de vazio e ser se aproximam na necessidade de atenção e de amor, embora de abandono. A maioria dos clientes de estilo profletor que já se distanciem na capacidade de aceitar tais sentimentos. Outra atendi tinha de fato vivências reais de abandono, mas nem todos diferença interessante entre ambos os estilos, porém só notada os que foram ou se sentiram abandonados na infância são assim um pouco depois, é que os profletores tendem a ficar mais tem- embora os profletores vivam de maneira especial e intensa esse po em terapia quando encontram uma acolhida de fato amorosa abandono inesquecível e imperdoável. e incondicional. Ao longo de minha vida profissional, tenho atendido muitas Como paradigma na arte para esse estilo de personalidade, pessoas com esse estilo de personalidade homens e mulheres, sugiro a leitura de biografias de grandes artistas, pois é enorme a adolescentes e adultos (não faço terapia infantil), jovens e probabilidade de encontrar ali profletores. Como exemplo, cito a Invariavelmente, são trabalhos difíceis, que exigem dedicação, biografia de Mané Garrincha, Estrela solitária, escrita por Ruy amorosidade e capacidade de resistir às provocações os profle- Castro. No cinema, destaco Piaf Um hino ao amor (direção de tores têm certa necessidade de provocar no outro um sentimen- Olivier Dahan), Hemingway e Gellorn (direção de Philip Kaufman) to intenso de raiva ou de amor, além de uma dificuldade marcan- e Nosso querido Bob (direção de Frank Oz). Neste, protagonista, te de aceitar os sentimentos amorosos. Assim, quando se sentem vivido por Bill Murray, exemplifica bem a personalidade profle- amados, logo se comportam de uma maneira que provoque raiva tora, inclusive na vivência do Transtorno Obsessivo-Compulsivo no outro, cuja reação, por conseguinte, os devolverá ao abando- do eixo I do DSM-IV-TR, sintoma comum na vida dos profleto- no e ao ressentimento, ao lugar dolorido e conhecido. É como se res, retratado também no filme Melhor impossível (direção de amor lhes doesse mais que nas pessoas de outros modos de ser. James L. Brooks), no qual Jack Nicholson vive um que Por isso, insisto: o terapeuta deve ser extremamente centrado e padece de TOC. Mais recentemente, filme Frances Ha (direção tolerante, cuidando para não reagir a essas provocações como de Noah Baumbach) é um bom exemplo. Uma música que lem- fazem as pessoas no senso comum. bra estilo profletor de ser é "Bastidores", de Chico Buarque. É preciso transformar a relação terapêutica num campo de experimentação, para o profletor, de um novo tipo de estar com, o retrofletor de uma nova possibilidade de crença na aceitação e no acolhi- mento. Vale notar que nem sempre sua provocação é conscien- O ESTILO DE PERSONALIDADE retrofletor abrange as pessoas que te. É sobretudo em virtude de sua habilidade de provocar e ferir manifestam descontinuações mais comumente na etapa do con- 106 107ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA tato final. Assemelha-se, nos critérios do DSM, à personalidade como aberrantes pelo próprio cliente, que se sente in- obsessivo-compulsiva, na qual são flagrantes a contenção e a di- capaz de resistir a elas. As pessoas de estilo retrofletor asseme- visão que impedem ou atrapalham caminho para fechamen- lham-se com as personalidades obsessivo-compulsivas do eixo II to do contato. Sua característica mais marcante é a capacidade do DSM-IV-TR e, possivelmente por serem mais organizadas e de se conter a fim de se portar de modo adequado que inclui metódicas, raramente padecem do TOC do eixo I. um controle emocional e ético que, quando patológico, chega às Os retrofletores percebem-se (e geralmente são) como leais raias do moralismo e, quando saudável, torna-se referência e disciplinados, qualidades que valorizam, sobretudo no que diz Por isso, as palavras-chave aqui são "conscienciosidade", "perfec- respeito à autodisciplina, que pode até chegar à rigidez. Por cau- cionismo" e "previsibilidade". A pessoa com esse estilo de perso- sa da retroflexão, podem ter dificuldade de prestar suficiente nalidade tende a se conter, a pensar muito, podendo chegar à atenção aos outros, motivo de muitas das queixas que recebem. ruminação de ideias; luta consigo para alcançar sempre seu Aqui estou tratando de um isolamento ruminador, fruto de len- melhor a cada situação, que acaba por resultar em certa dificul- tos processos de assimilação diferente, por exemplo, do isola- dade de relaxar, pois "sempre poderei fazer melhor" seu mote, mento das pessoas dessensibilizadas, que estão mais próximas aliás. Note-se que nesse mote uso a primeira pessoa para deixar de um vazio fértil. Também a procrastinação aparece com fre- bem claro que as exigências mais importantes e duras dessas quência. Esse comportamento mais contido pode trazer especi- pessoas são voltadas para si, ao contrário, por exemplo, do estilo ficidades interessantes na participação em grupos, em especial de personalidade egotista, tão cheio de exigências voltadas a im- porque essas pessoas tendem a se tornar a referência ética dos pressionar o ambiente. grupos dos quais participam, exercendo, não raro, uma liderança Em virtude de sua contenção e da tendência à ruminação, por debaixo dos panos, como uma eminência parda. demonstram ter pouca energia, problemas na percepção corpo- Costumam ser muito competitivos, como os egotistas. No ral e distúrbios psicossomáticos. Bastante comum é a dificuldade entanto, competem com outro para provar que podem se su- de lidar com os chamados "sentimentos negativos", em especial perar, ao passo que os egotistas fazem para provar sua superio- raiva e medo, mas também tristeza. No que diz respeito às pato- ridade perante outro. Se em um prazer é superar a si, ainda logias mais comuns que os acometem, estão os distúrbios afeti- que tenha de usar um oponente, no outro, prazer é superar o vos, sobretudo depressão unipolar e, nos dias de hoje, a versão outro, em geral visto como adversário ou mesmo inimigo. mais comum da depressão: síndrome do pânico. Vale lembrar Costumam ter longas amizades, às quais são leais. Mesmo que, se tomarmos como referência DSM-IV-TR, o TOC do eixo assim, compõem redes mais formais de relações, embora apre- diferente do transtorno obsessivo-compulsivo do eixo II, em- sentem um comportamento bastante peculiar nesse aspecto: a bora tenham mesmo nome. No caso da patologia do eixo I, a princípio são formais e adequados, mas, se percebem abertura síndrome é caracterizada por compulsões reco- para a intimidade e conseguem utilizá-la, que é raro, compar- 108 109ELEMENTOS PARA UMA ÊNIO BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA tilham vivências de intimidade bastante profundas e perenais. A cognição tende a ser um suporte confiável, raiz da maioria No que diz respeito ao contato com novas ideias ou com mu- das O retrojetor busca sempre adequar-se ao que danças, agem da mesma forma: a princípio, mostram-se refratá- imagina que o ambiente espera dele ou visando à perfeição. rios a novidades, mas, dependendo das circunstâncias, podem É comum aparecerem em terapia alusões à sua religiosidade, se tornar entusiastas delas, líderes e referência na defesa de mu- sobretudo no que diz respeito à moralidade, mas também no danças, em especial no que alude a questões éticas ou a inova- sentido de esperança de libertação. Vivências místicas são raras, ções tecnológicas. pois exigem entrega. Sua fé é raciocinada, lógica e bastante críti- Em geral, perturbam ambiente por meio da teimosia, da ca, se é que se pode chamar isso de fé. Um ateísmo racionalizado previsibilidade, da repetição de comportamentos e de preferên- não é raro nessas pessoas. cias, do perfeccionismo e das exigências de primor que fazem a No desenvolvimento profissional, tendem a se sentir melhor si e, mais veladamente, aos outros, que acaba por atrapalhar a em atividades ligadas a questões legais, morais ou éticas, com convivência. Tanto nas relações informais quanto nas profissio- predominância daquelas nas quais o autocontrole seja impor- nais, esforçam-se e responsabilizam-se além da conta, em função tante. Encontramos muitos retrofletores no direito; na engenha- de certa dificuldade de delegar responsabilidades e relaxar. Outra ria; na psicologia; nas atividades acadêmicas; em profissões de forma com que perturbam ambiente é, por meio de um enor- serviço, como taxistas e garçons; na vida religiosa, em virtude me autocontrole, a postergação e a evitação de conflitos com das questões morais; no jornalismo; nas atividades literárias; nos uso de longas e inteligentes digressões procrastinadoras, nas meios onde a crítica social é bem-vinda. Como lazer, preferem quais seu racionalismo se torna flagrante, muitas vezes brilhan- atividades nas quais a contenção dê a tônica optarão pelo con- te. É comum também certa avareza ao lidar com dinheiro, so- certo, não pela corrida de rua; pelo jantar em um ambiente tran- bretudo quando se trata de gastar consigo. quilo, de preferência com um garçom conhecido, e não pelo Como são, de certo modo, mais formais e previsíveis, têm show ao ar livre. Jogos de palavras ou que exijam raciocínio ma- alguma dificuldade com toque, em geral vivido como invasor, temático são bem degustados. mas desejado secretamente. Com relação à sexualidade, assim Ao pensar nas sabedorias especiais dos retrofletores, volto à como à vivência dos prazeres e das dores, a contenção é a marca, questão da conscienciosidade e da ética, pois muitas das melho- quase sempre com tons moralistas. Dores lancinantes e prazeres res viradas éticas de nossa civilização devem-se a essas pessoas. indescritíveis são raros, se é que existem. Vivem um sexo rotinei- Sua capacidade de ficar, sempre que necessário, atrás dos panos, ro, tenso, de pouca entrega e grande autocontrole e preocupação como eminência parda, também tem profundo valor. Além dis- com desempenho adequado. Costumam ter dificuldade de se quando conseguem ser mais ousados e aprofundar sua visão entregar e também de brincar, como se devessem ser sempre crítica, enriquecem ambiente. Costumam ter um gosto espe- muito consequentes. cial pela originalidade, pelo fazer diferente, desde que de modo 110 111ELEMENTOS PARA UMA ÊNIO BRITO PINTO DIAGNOSTICA EM PSICOTERAPIA discreto ou com clara utilidade, além de demonstrarem um críti- A expressão verbal dos retrofletores costuma utilizar uma senso de humor. É preciso notar também que sua perseveran- linguagem bastante correta, não raro com o uso de palavras ça na perseguição de seus objetivos (o aspecto positivo da teimo- ou expressões eruditas. É comum certo tom monotemático sia) pode render bons frutos profissionais, além de boas pesquisas na terapia: falam muito de um único tema e generalizam-no e inovações científicas e sociais. às outras áreas da vida; assim, terapeuta deve se preparar É bastante comum esse estilo de personalidade procurar para ir e voltar ao mesmo tema, ficando atento às pequenas terapia, seja espontaneamente, seja encaminhado por outras mudanças ocorridas entre esse vaivém, como demonstrações pessoas ou entidades, como é caso das esposas cansadas de sutis da ampliação da ousadia e da liberdade do cliente. Entre sua vida repetitiva e pouco ousada. O trabalho terapêutico os homens, os temas mais comuns são trabalho e sexo; com retrojetor tem algumas peculiaridades, das quais quero entre as mulheres, a família e as relações amorosas. Apreciam destacar três. Em primeiro lugar, início da terapia tende a ser e utilizam metáforas e histórias curtas, sobretudo aquelas difícil, uma vez que cliente testará terapeuta para ver se com conteúdo ético ou moral. A poesia é também bem-vinda, pode se arriscar no trabalho, que exige uma conduta acolhe- assim como os paradoxos, desconstrutores por excelência das dora, bastante séria e profissional. Em segundo, em virtude de ruminações cognitivas. Raramente faltam; tomam a terapia seu detalhismo, além do perfeccionismo, esses indivíduos po- como uma tarefa a ser realizada, procuram sempre pagar em dem provocar sono no terapeuta. Em terceiro, chamo a aten- dia, mas intimamente consideram-na uma despesa alta, um ção para a imensa via terapêutica que, com tempo, se abre desperdício de dinheiro, por mais que gostem do processo e por meio das atividades corporais, muito úteis para ampliar a do profissional, e por mais que cresçam (e percebam isso) no ousadia e a capacidade de improvisação calcanhares de aqui- processo terapêutico. les dos retrofletores, geralmente tão avessos a (e tão desejosos Tenho observado que a principal falta das pessoas de modo de) catarses e Como são atentos ao ambiente, de ser retrofletor é a liberdade. Anseiam por ela na mesma pro- crescem muito quando a terapia os auxilia a encontrar um porção que a temem. Embora alguns autores salientem que novo equilíbrio nesse aspecto, em especial quando permitem retrofletor precisa desenvolver sobretudo a ousadia, parece-me que os outros façam por eles mesmos quando eles próprios po- que esta é filha da liberdade, cuja falta é que mais incomoda deriam fazer. Em outras palavras, quando a terapia os ajuda a essas pessoas. Liberdade para ser, para brincar, para relaxar, perceber que receber um carinho ou um presente pode ser tão para não ser perfeito, para errar, para não ser amado, para ser bom quanto ou até melhor que presentear-se ou acariciar- inconveniente, para se desesperar e para amar apaixonadamen- -se. Outro critério a notar quando se pensa na eficácia do tra- te. Liberdade para não ter planos nem responsabilidades, para balho psicoterapêutico é a ampliação da capacidade de brincar não satisfazer expectativas, para presentificar-se de modo cria- e, sobretudo, do gosto de fazê-lo. tivo e despreocupado. 112 113ELEMENTOS PARA UMA BRITO EM PSICOTERAPIA Um dos cuidados mais relevantes da psicoterapia com o re- precisa ser feito para ajudá-lo a tornar-se capaz de brincar, trojetor é de não deixar que o trabalho se torne uma lição feita após o que a psicoterapia pode começar. brincar é essencial para agradar ao terapeuta, pois não raro esses clientes imaginam porque nele o paciente manifesta sua criatividade. (mesmo sem se dar conta disso) que as conquistas advindas da terapia dependerão da aprovação do O processo de Esse estilo de personalidade aparece com destaque nas ar- psicoterapia com as pessoas de estilo retrofletor precisa de mo- tes. Na literatura, temos personagem Teodoro, segundo ma- mentos, às vezes sessões inteiras, de laisser-aller, quando aparen- rido de Flor em Dona Flor e seus dois maridos (também no filme temente os dois interlocutores estão apenas e tão somente ba- do mesmo nome, direção de Bruno Barreto), de Jorge Amado, tendo papo, distantes de um clima de seriedade que "deveria" além de Hércule Poirot, admirável detetive de Agatha Christie. caracterizar um São momentos de brincar que, por No cinema, retrojetor é bem ilustrado pelo protagonista de Um vezes, abrem espaço para a surpresa, ou seja, para uma nova con- conto chinês (direção de Sebastián Borensztein) e pelo persona- figuração de si por intermédio da relação dialógica, fruto tam- gem principal de Sociedade dos poetas mortos (direção de Peter bém da vivência (às vezes até da descoberta) de um tipo de infan- Weir), vivido por Robin Williams. A música que caracteriza esse tilidade que é extremamente saudável. Nas palavras de PHG jeito de ser é "Carinhoso", de Pixinguinha e Braguinha. Seu este- (1997, p. reótipo é do mineirinho das piadas, sempre contido, capaz de não demonstrar medo ou susto, com respostas inteligentes e irô- Especialmente em terapia, a deliberação costumeira, a factua- nicas na ponta da língua, embora às vezes não tenha ousadia su- lidade, a falta de comprometimentos e a responsabilidade ficiente para expressá-las. excessiva, traços da maioria dos adultos, são neuróticos; en- quanto a espontaneidade, a imaginação, a seriedade, a jovia- o egotista lidade e a expressão direta do sentimento, traços das crian- ças, são O ESTILO DE PERSONALIDADE egotista caracteriza as pessoas que manifestam descontinuações mais comumente na etapa do fe- De maneira muito próxima, Winnicott (1971, p. 80) aponta a chamento do contato. Assemelha-se, nos critérios do DSM, às importância dos momentos de seriedade infantil: personalidades narcisista e antissocial, nas quais é flagrante a dificuldade de vivenciar sentimentos, sobretudo aqueles liga- Parece-me válido o princípio geral de que a psicoterapia é efe- dos à empatia e à culpa. Como já salientei, considerarei aqui tuada na superposição de duas áreas lúdicas, a do paciente e a estilo antissocial do DSM como um estilo de personalidade do terapeuta. Se o terapeuta não pode brincar, então ele não se egotista mais acentuado, mais arrogante para com a vida e ver- adapta ao trabalho. Se é paciente que não pode, então algo dadeiramente incapaz de vivenciar a culpa. A característica 114 115ELEMENTOS PARA UMA DIAGNÓSTICA EM PSICOTERAPIA mais marcante dos egotistas é a capacidade de se dominar de maneira intensa, como forma de concretizar sua potência. São marido era ruivo, e que os dous amavam-se como noivos; mais ligados à imagem que ao corpo: pode-se dizer que não são finalmente, que era honesta. Não o era, note-se bem, por temperamento, mas por princípio, por amor ao marido, e um corpo, mas têm um corpo. Tendem a ser empreendedores, podendo mostrar-se intensamente competitivos na tentativa creio que um pouco por orgulho. de controlar as situações e ao Por isso, as palavras-chave aqui são "vaidade", "orgulho", "imagem", "ri- Na busca de ser o melhor, o egotista apresenta certo perfec- validade". Os egotistas procuram estabelecer, em geral de forma cionismo, que aparece sobretudo como uma necessidade de que assimétrica, relações com pessoas sobre as quais exerçam lide- os outros vejam como perfeito. É importante apontar que o perfeccionismo do egotista é bem diferente daquele da pessoa de rança ou com quem rivalizem. Lidam com o outro para confir- mar a própria potência, fazendo dele instrumento de prova de estilo retrofletor, pois este último é voltado para dentro, ao passo sua capacidade. Pode-se compreender o egotista como aquele que o perfeccionismo do egotista é voltado para fora. Dizendo de que oscila entre a grandiosidade e a arrogância, a depender do outra maneira: o retrofletor luta consigo para fazer e ser sempre seu grau de atualização quanto mais atualizado, mais gran- melhor, ao passo que o egotista luta com o mundo para ser visto dioso; quanto menos atualizado, mais arrogante. Seu mote é "os dessa forma. Um busca ser melhor, o outro busca ser o melhor; fins justificam os meios". um luta consigo, o outro luta com alguém; um rivaliza consigo, Machado de Assis (2011, p. 189), no conto "Uma senhora", o outro tem quase sempre um rival a ser vencido. Por terem mui- descreve uma mulher que poderíamos identificar como tas semelhanças, esse aspecto é decisivo no diagnóstico diferen- cial entre os dois tipos. Ela era, porém, daquela casta de mulheres que riem do sol e Pouco conservadores, os egotistas lideram mudanças am- dos almanaques. Cor de leite, fresca, inalterável, deixava às bientais e relacionais sempre que isso estiver de acordo com seus interesses. Quando estes exigem que pareçam conservadores, outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. Cabelo negro, olhos castanhos e cálidos. Tinha as espáduas e eles o fazem com bastante credibilidade, pois os fins justificam os meios. Dizendo de outra forma, são conservadores na luta o colo feitos de encomenda para os vestidos decotados, e as- sim também os braços, que eu não digo que eram os da pela manutenção do poder, utilizando-se para tanto dos meios de Milo para evitar uma vulgaridade, mas provavel- disponíveis no ambiente, mas com preferência pela inovação e pelo empreendedorismo sobretudo quando esse é o caminho mente não eram outros. D. Camila sabia disso; sabia que era bonita, não só porque lho dizia o olhar sorrateiro das outras no qual podem deixar suas marcas na vida, desejo secreto de damas, como por um certo instinto que a beleza possui, todo Vivem constantemente uma sensação de ser supe- riores à maioria das pessoas, com as quais rivalizam. Essa cons- como o talento e gênio. Resta dizer que era casada, que o tante rivalidade torna-os atentos a como são vistos; por isso, 116 117ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA mostram-se sensíveis à crítica e ao aplauso. Esse comportamen- mantêm do que com a qualidade ou a pertinência situacional to competitivo pode trazer especificidades marcantes na partici- delas. Dessa forma, a sexualidade dos egotistas tende a basear-se pação em grupos, pois essas pessoas tendem a buscar uma posi- mais nos truques que nas trocas. Relacionam-se mais por meio ção de liderança. da imagem que do corpo, com grande valorização da aparência Em geral perturbam ambiente por meio da rivalidade e física. Tanto os homens quanto as mulheres de estilo de perso- da competitividade constantes, do exacerbado senso de poder nalidade egotista têm certa dificuldade de lidar com os aspectos sobre os outros, da insaciável necessidade de liderança e de im- femininos da existência. portância. Perturbam também pela dificuldade de vivências A cognição é a ferramenta preferida quando se trata de re- timas, especialmente quando a intimidade propicia ou exige a duzir tensões internas e/ou de competir. Recuperam-se muito troca de dores e de perdas que possam pôr em risco a imagem rápido de frustrações usando a cognição, sobretudo por meio do de Em virtude da rivalidade, buscam relações assi- chamado "pensamento positivo" que nega as perdas e as culpas métricas, polarizando sobretudo com as pessoas de estilo con- inerentes à vida e ao crescimento pessoal em prol de uma ima- fluente ou competindo com as egotistas. Das primeiras recebe gem de vencedor tão em voga em nossa cultura e na psicologia a admiração de que necessita; das segundas, a imagem e os de- atual. Destaca-se também a maneira como os egotistas lidam safios que movem. Raramente têm amizades profundas de com tempo: de um lado, ele precisa ser apressado para que longa data, a não ser que isso lhes seja útil para sua imagem ou mais e mais atividades possam ser desempenhadas; de outro, seu poder. Outra forma de perturbação do ambiente diz respei- precisa ser negado para que a juventude se mantenha mais to à inveja costumam senti-la de maneira intensa, que fo- possível, como bem apontou Machado de Assis no trecho visto menta a competitividade, e quase sempre são vítimas da inveja há pouco. alheia, a qual percebem e com a qual têm dificuldade de lidar de Sua religiosidade é marcada por frieza e distanciamento, ou modo criativo. por uma adequação da imagem. Assim, podem ir aparentemente Não gostam de toques nem são agradáveis de tocar, a não compenetrados a uma cerimônia dominical, participar da comu- ser com os olhos. Preferem ser admirados a acariciados. De ten- nidade, mas não levar para seu cotidiano ideário religioso. É dência hedonista, na vida sexual ficam mais atentos à performan- comum também a religiosidade baseada na barganha com a di- ce que ao prazer, mais preocupados com gozo do outro como vindade regra nas devoções neopentecostais brasileiras, que prova de sua competência que com os afetos ou com a própria que a divindade privilegiará alguns dando-lhes poder e satisfação. Porque fazem do corpo um objeto, em geral praticam posses. Assim, aderem bem à teologia da prosperidade. um sexo estatístico, baseado na maneira como as pesquisas cien- No desenvolvimento profissional, tendem a se sentir melhor tíficas e a cultura qualificam a boa relação sexual: de certa forma, em ocupações ligadas ao poder, com predominância daquelas preocupam-se mais em saber quantas relações sexuais semanais nas quais a competitividade seja importante. Encontramos mui- 118 119ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO DIAGNOSTICA EM PSICOTERAPIA tas pessoas de estilo egotista no direito, na medicina, nos postos pleto para trabalho quando perceber que é de fato admirado empresariais e políticos, na vida religiosa, na aviação e na acade- pelo terapeuta. Para chegar a esse ponto, ele testará profissio- mia. Como lazer, preferem atividades nas quais a competição nal de modo contínuo. Por isso, este só deve aceitar indivíduos seja a tônica, de modo que entre um jogo de tênis e uma partida com esse estilo de personalidade se puder admirar de fato a de frescobol ficarão com primeiro. pessoa que está à sua frente. Mais que de amor, a pessoa Ao pensar nas sabedorias especiais dos egotistas, volto à ta necessita de admiração, conseguindo perceber se tal admira- questão da competição mola que impulsiona condutas em- ção é ou não verdadeira. Um dos paradoxos do trabalho com preendedoras e Quando atualizados, costumam egotista é que ele será mais bem-sucedido se, aos poucos, impulsionar desenvolvimento e a exploração de novas frontei- cliente puder se encontrar com a pessoa do terapeuta, o que ras nas mais diversas áreas da vida, semeando progresso e am- torna as posturas de congruência e de aceitação amorosa não pliando o bem-estar com condutas ousadas e, por vezes, desbra- competitiva, mas firme, significativas. Outro paradoxo é fato vadoras seja na área comercial, na academia, nas ciências de egotista necessitar perceber que terapeuta tem poder e duras ou nas humanas. competitividade, mas prefere cooperar a lutar. É raro que esse estilo de personalidade procure terapia; Ao atender pessoas de estilo egotista, é comum profissio- quando faz, é por indicação ou imposição de alguém quan- nal perceber em si sensações de menos-valia, e esse é um bom do não por conveniência, na base do mote de que os fins justi- critério diagnóstico. Os egotistas tendem a provocar nos outros ficam os meios. Quanto menos atualizada está a pessoa, isto é, certa sensação de inadequação, de menos poder. O terapeuta quanto mais próxima do estilo antissocial do DSM, mais pro- não está imune a tais sentimentos, devendo colocá-los a serviço vável é que só apareça quando isso lhe for imposto ou conve- do cliente de maneira criativa em vez de combatê-los. Porém, niente. Assim como os defletores, costumam abandonar preco- uma exceção deve ser bem observada: quando a pessoa de estilo cemente a terapia, embora tal abandono seja mais motivado egotista está bastante adoecida, costuma de forma sutil e inte- por um machucadinho no ego pelo qual culpam terapeuta ligente fazer profissional se sentir muito bom e competente, que pela dificuldade de aprofundamento, motivo mais comum que perdurará até que a terapia não seja mais necessária ou da desistência pelas pessoas de estilo defletor. O trabalho tera- conveniente, quando o terapeuta será descartado como se des- pêutico com essas pessoas guarda Primeiro, carta a coroa de um abacaxi. cliente testará o profissional para verificar se ele está à sua altu- A terapia deve auxiliar esses clientes a ampliar sua empa- ra, de modo que é fundamental que terapeuta tenha autoes- tia, a abrir-se às possibilidades de perdão e de cooperação, a tima e confiança profissional solidamente plantadas e esponta- tornar-se menos suscetíveis a provocações competitivas e mais neamente disponíveis. Ainda assim, trabalho, sobretudo no tolerantes com os inevitáveis fracassos e com as perdas ineren- início, tende a ser difícil, pois esse cliente só se soltará por com- tes ao viver. Não é de desprezar perigo de que, ao atender al- 120 121BRITO PINTO ELEMENTOS PARA UMA EM PSICOTERAPIA guém com esse estilo de personalidade, o terapeuta se torne admiração diversa daquela do senso comum, mais próxima de um especialista frio, um consultor, que reforça no cliente a um que elogia e inveja a ostentação que os egotistas competitividade e a manutenção da imagem em detrimento das mudanças no sentido de uma maior humanização. incre- mostram no cotidiano. A admiração necessária ao terapeuta é aquela que consegue se curvar ao e ajudar a vir à luz poten- mento da possibilidade de ser em contraposição à de fazer tam- bém constitui um dos propósitos da terapia. É impossível não cial que está escondido e tolhido pela ostentação, pois essa pos- tura ajuda egotista a pôr seus enormes dons a serviço da vida, notar nos egotistas a dificuldade de aceitar os mistérios da vida e de lidar com eles, que alimenta em alguns a ilusão de que do mundo, do outro, trocando a arrogância pela grandiosidade. um dia ser humano conseguirá explicar tudo do amor (tão Depois de atender inúmeras pessoas com esse estilo de persona- irracional!) à existência (ou não!) do numinoso, o mysterium lidade e de conviver com elas, hoje não tenho dúvidas de que são, de fato, especiais no sentido do empreendedorismo, da ousa- tremendum, na definição de Rudolf Otto. Em suma, pessoas de estilo de personalidade egotista têm certa dificuldade com a dia, do desbravamento de novas áreas e possibilidades sobre- tudo quando saudáveis. compreensão (preferem a explicação) e, por isso, com a empa- tia. A terapia pode ajudá-las a se abrir para o encantamento de Não é fácil distinguir as pessoas de estilo egotista daquelas aprisionadas em estados egotistas, embora estas tenham outro não saber nem precisar saber racionalmente determinadas coisas da vida. estilo. Isso corresponde, no DSM-IV-TR, à diferença entre o narcisismo no eixo I e a personalidade (ou transtorno) narci- Ao contar sua história, os egotistas tendem a encher a sala de personagens subalternos ou importantes socialmente, ou de sista no eixo II. Noto que as pessoas aprisionadas no estado rivais, muitas vezes falando mais do outro como forma de falar egotista têm uma mãe (no caso dos homens) ou um pai (no de si; gostam de mostrar como são bem acompanhados. Tendem caso das mulheres) sexualmente sedutor que, manipulativa- mente, embora por vezes com boas intenções conscientes, co- a usar verbos na forma ativa, a utilizar sobremaneira o pronome "eu" e a se elogiar com facilidade, mostrando enorme dificuldade o(a) filho(a) em inevitável confronto com genitor do de expor (inclusive a si) suas culpas. Demonstram certa autossu- mesmo sexo, declarando o(a) filho(a) vencedor(a) do confronto. ficiência, uma sensação de que a vida é uma batalha a ser venci- Nesses casos, o príncipe é entronizado antes que rei morra e da. Ressentem-se consigo mesmos a cada derrota ou frustração, assume trono como Dâmocles, mas não tem força para abdi- car dele, dado poder de quem o(a) entronizou. Noto ainda mas logo trocam tal sentimento por mais determinação de luta, que os egotistas, especialmente quando mais saudáveis, traçam quase como se das derrotas nada se pudesse aprender. horizontes ousados, corajosos e factíveis ao longo do tempo, Das muitas pessoas de estilo egotista que já atendi, guardo a lição de que a terapia é tanto mais eficaz quanto mais o terapeu- ainda que com sacrifícios, ao passo que as pessoas aprisionadas no estado egotista traçam horizontes ilusórios nos quais nem ta consegue de fato admirar seu cliente. Porém, trata-se de uma elas mesmas acreditam. 122 123BRITO PINTO ELEMENTOS PARA UMA EM PSICOTERAPIA Como exemplos desse estilo de personalidade, temos, no zelosa que podem às vezes passar da atenção ao controle. Seu cinema, a personagem principal do filme O diabo veste Prada mote é "juntos venceremos". (direção de David Frankel), vivida por Merryl Streep, além do Por serem conservadores, os confluentes lidam mal com protagonista de O aviador (direção de Martin Scorsese), vivi- mudanças ambientais e relacionais, reagindo a elas com ansieda- do por Leonardo Di Caprio. Marcante como caracterização do de e, por vezes, com pânico. Sentem não estar à altura das situa- estilo egotista limítrofe, antissocial, é personagem do mes- ções, das tarefas, das exigências da vida. Tal sentimento de ina- mo Di Caprio em Prenda-me se for capaz (direção de Steven dequação torna-os muito atentos, a fim de compensar essa Spielberg). Na literatura, cito protagonista do livro O perfu- sensação de incompetência. Não são raros os episódios de de- me, de Patrick Süskind, que também virou filme (direção de pressão associados a essa visão de si. O comportamento mais Tom Tykwer). Ressalte-se que estilo de personalidade ego- devotado ou controlador pode marcar sua participação em gru- tista, paradigma da cultura ocidental desde os anos é pos, pois essas pessoas tendem a se tornar referência de cuidado buscado como ideal na grande maioria dos livros de autoaju- e de poder embora se trate de um poder vicário, pois há sempre da, sobretudo aqueles que se apoiam na assim chamada psico- uma pessoa em posição superior a quem o confluente recorre, logia positiva. como no exemplo da mãe que diz ao filho: "Você vai ver quando seu pai chegar!" confluente Em geral, perturbam ambiente por meio da devoção extre- mada, do controle, do senso de dever exacerbado, que podem ge- ESTILO DE PERSONALIDADE confluente abrange as pessoas rar no outro mau humor ou condutas subservientes. São capazes que manifestam descontinuações mais comumente na etapa de fazer grandes sacrifícios pelas pessoas, mesmo em situações da retirada do contato. Assemelha-se, nos critérios do DSM, à em que elas não necessitariam (ou não desejariam) tanta dedica- personalidade dependente, na qual são flagrantes a devoção e ção. Assim, muitas vezes acabam enredando outro e mantendo- apego que impedem ou atrapalham a retirada do contato. também confluente em virtude da culpa que lhe é gerada por Sua marca é a capacidade de se doar aos outros de maneira tanta dedicação e cuidado. Nesse aspecto, assemelham-se aos intensa, com uma subsequente cobrança, em geral na mesma profletores, mas um olhar cuidadoso para todo permite discri- intensidade. Tendem a ser conservadoras, podendo chegar a minar estilo preponderante em cada cliente. Essa regra de olhar ser moralistas na tentativa de controle do outro. Por isso, as o todo é útil também para examinar as semelhanças entre os con- palavras-chave aqui são "devoção", "controle sobre os outros", fluentes, os retrofletores (por exemplo, no cuidado moral) e os "ingenuidade". Os confluentes costumam unir-se, geralmente defletores (por exemplo, no servir). em relações assimétricas, a outras pessoas, para quem se sen- Também perturbam o ambiente mostrando certa dificulda- tem úteis e necessárias. Cuidam desse outro de maneira tão de de manter relações simétricas, de modo que comumente es- 124 125ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO DIAGNÓSTICA EM PSICOTERAPIA tão acima ou abaixo daqueles com quem se relacionam, contro- de pessoas, com predominância das atividades nas quais a capa- ladores ou devotados. Fiéis, podem ficar em relações já fracassadas cidade de gerência de pessoas seja exigida. Encontramos muitas mesmo quando reconhecem que melhor seria uma retirada e pessoas de estilo de personalidade confluente na educação (in- enfrentamento do risco da temida solidão. Podem se tornar tão clusive em cargos de direção ou orientação); na psicologia; na apegados que, mesmo em face de uma viuvez, mantêm casa- vida religiosa, sobretudo pela possibilidade de servir; no serviço mento por meio de uma confluência simbólica com a pessoa que doméstico; nos meios onde cuidado e a regência são bem- se foi. Em crise, é comum terem desentendimentos por causa do como na assistência social. Como lazer, têm predileção seu senso de dever ou da assimetria nas relações. por atividades nas quais a participação de outros seja a tônica; Mesmo sendo, de certa forma, mais conservadores, têm fa- assim, eles preferirão um almoço familiar a um passeio solitário cilidade pelo toque e gosto por ele, dificilmente sexualizando as pelo parque. expressões afetivas. Com relação à sexualidade, a doação é a Ao pensar nas sabedorias especiais das pessoas confluentes, marca, em geral com tons devotados. Preferem o sexo romanti- volto à questão do cuidado e do gerenciamento, que lhes permi- zado, terno, de muita entrega afetiva e de controle sobre outro. te colocar-se, quando cuidadosas, como promotoras do cresci- A cognição tende a não ser um suporte confiável, sendo mento do outro, e, quando gerentes, como mantenedoras do comum que os confluentes apresentem atitudes ingênuas e to- bom andamento de trabalhos e até de instituições. Costumam las as quais, quando percebem, logo criticam. Demonstram ter um bom senso estético e manter-se vinculadas a outras pes- fragilidades quando precisam lidar com questões muito racio- soas ou instituições por longo tempo, fielmente. nais ou matematicamente lógicas, recorrendo a outros nos Em geral, é bastante comum que procurem terapia. O traba- quais confiam. lho terapêutico com essas pessoas será sempre longo, mesmo A religiosidade desses clientes é marcada por devoção e quando for curto. Isso porque, se entram na relação terapêutica, ritualização, podendo ser vivida com pouca crítica e entrega pie- ela tenderá a durar a vida inteira, ainda que a terapia propria- dosa a instituições ou pessoas. Podem ser obreiros ou tornar-se mente dita tenha acabado. Em outros termos: uma vez que o responsáveis por áreas pastorais, ou mesmo por setores de uma confluente aceite o outro como terapeuta, este se tornará refe- paróquia ou congregação nos quais podem exercer sua dedica- rência por muito tempo. Não é incomum o profissional ter difi- ção e seu controle. Quando não manifestam a religiosidade pu- culdade de encerrar um atendimento, pois esses clientes lidam blicamente, vivem-na de modo velado relacionando-se com um mal também com esse tipo de fechamento. Costumam ver o te- deus em geral tido como poderoso e temido, ou supostamente rapeuta como referência, quando não como salvador, alguém poderoso e bom. que os ajudará a solucionar os problemas sem grandes sofrimen- No desenvolvimento profissional, tendem a se sentir melhor tos ou perdas o que deve ser motivo de cuidadosa frustração em ocupações ligadas ao cuidado, à docência e à administração por parte do profissional. 127 126BRITO PINTO ELEMENTOS PARA UMA EM PSICOTERAPIA Outro aspecto interessante e comum no atendimento aos pessoa está fazendo. Ou seja, não se trata de manipulação ao confluentes é terapeuta notar que está tomando partido do contrário do que faz a maioria dos defletores, que elogia para cliente, em geral contra o(a) parceiro(a) deste. Trata-se de um evitar o contato mais amoroso. tipo de perigosa, pois pode levar profissio- Um dos temas centrais para as pessoas de estilo de perso- nal a atuações iatrogênicas. Assim, ao atender as pessoas de per- nalidade confluente em terapia é a solidão. Lidam mal com ela, sonalidade confluente, terapeuta não deve se colocar de forma sobretudo a mais longa, embora algumas manifestem também muito ativa no processo, cuidando para não ser vítima do con- dificuldade com a solidão mais curta. A primeira refere-se a trole que tais indivíduos exercem sobre ambiente e repetem na acontecimentos com perspectivas mais duradouras, como a saída terapia. O incremento da crítica também pode ser um dos pro- dos filhos de casa no início da vida adulta, o divórcio, a viuvez pósitos da terapia para essas pessoas. ou a aposentadoria. Essa é a solidão mais temida pelos confluen- Os confluentes costumam ser clientes confiáveis: esforçam- tes, a ponto de muitas vezes manterem um casamento que já não -se no trabalho, comparecem regularmente às sessões, estão tem sentido para não ficar sós, ou, mais comum entre os ho- atentos ao terapeuta se possível poupando-o, como fazem com mens, iniciarem uma nova relação amorosa antes de sair da an- as pessoas mais próximas. A terapia deve auxiliar na ampliação terior, deixando de viver necessário tempo de solidão na passa- de sua autonomia, na abertura de possibilidades de desapego, gem umarelação a outra. Como vimos, outra alternativa mais ajudando-os ainda a se tornar menos suscetíveis a ressentimen- comum entre as mulheres que enviúvam ou vivem divórcios tos e mais tolerantes com as incertezas da vida. Repito: não se com os quais não concordam de lidar com a solidão longa é deve desprezar risco de que terapeuta se torne um consultor, manter uma relação simbólica com a pessoa que se foi, ou se um guru, um conselheiro, que reforça a cristalização na con- manter solitária(o) e se esmerar ainda mais no cuidado dos filhos fluência e na dependência, mantendo desnecessariamente a pes- ou familiares. Já a solidão mais curta refere-se a breves momen- soa em terapia por um longo tempo. tos em que se está sozinho uma viagem, uma caminhada pelo Ao contar sua história, os confluentes tendem a encher a parque, um fim de semana em que os familiares viajaram. Muitos sala de atendimento, trazendo, de modo simbólico, toda a fa- confluentes chegam a viver crises de pânico, de agorafobia ou de mília para se tratar. Tendem a usar um tom de autopiedade, outra forma de ansiedade quando colocados repetidas vezes manifestando a sensação de que a vida lhes exige mais do que diante desse tipo de solidão. podem dar. Ao mesmo tempo, ressentem-se consigo mesmos O que mais tenho observado no atendimento psicoterapêu- por dar mais do que recebem. É comum elogiarem a sessão tico de confluentes é certa forma de fidelidade que pode atrapa- recém-vivida ou a própria terapia; aqui, é importante que o lhar o processo se não for devidamente cuidada pelo terapeuta. É profissional perceba motivo do elogio, pois de maneira geral como se essas pessoas, ao ingressarem em terapia, o fizessem este é sincero e confirmador do investimento pessoal que a para sempre, almejando um consultor eterno. Penso ser impor- 128 129ELEMENTOS PARA UMA BRITO PINTO EM PSICOTERAPIA tante que terapeuta acolha essa postura de seu cliente, mas é D. Quixote. Uma música que caracteriza esse jeito de ser é preciso que profissional entenda que, mesmo que essa relação "Mulheres de Atenas", de Chico Buarque e Augusto Boal. O es- muitas vezes dure por toda a vida, a terapia não pode ser infinita, tereótipo das pessoas confluentes é o da secretária imprescindí- podendo restar, de modo pontual, como alternativa para um vel na vida de seu superior que ela conhece e controla sutil- momento mais doído da vida. mente como ninguém. Outra característica comum no atendimento aos confluen- tes são as intercorrências médicas. Eles procuram com maior frequência que as outras pessoas os serviços médicos, muitas vezes à espera de uma confirmação existencial, de um toque fí- sico que lhes devolva corpo, da reafirmação de que a temida solidão da morte não está tão próxima como às vezes parece. Entendo que isso pode e deve ser motivo de diálogo nas sessões de terapia, embora se deva tomar cuidado para que cliente não imagine que tais diálogos sejam críticas ou reprimendas a esse tipo de padrão. Vale ainda notar que aqui dificilmente temos a simulação de adoecimentos ou afecções psicossomáticas em busca de atenção do poder médico; o que caracteriza essa busca de ajuda é sobretudo o medo da autonomia vivência que se baseia na capacidade de estar paulatinamente mais e mais só, embora não independente. Como exemplos de personagens com esse estilo de perso- nalidade temos, no cinema, a protagonista do filme Pães e tuli- pas (direção de Silvio Soldini), além da personagem de Kathy Bathes em Tomates verdes fritos (direção de Jon da de Vivien Leigh em ...E o vento levou (direção de Victor Fleming, George Cukor e Sam Wood). Ainda no cinema, para não ficar só nos exemplos femininos, temos Tonto, vivido por Johnny Depp em O cavaleiro solitário (direção de Gore Verbinski), e prota- gonista de Igual a tudo na vida (direção de Woody Allen). Na literatura, destaco, entre outros, Sancho Pança, fiel seguidor de 130 131

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