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CONSTELAÇÕES FAMILIARES
AULA 4
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Talita Camargo de Lima Seguin
Conversa inicial
Todos os acontecimentos vivenciados em nosso sistema familiar, sejam eles conhecidos ou não por nós, aqui, na vida atual, estão nos influenciando de maneira consciente ou inconsciente, de acordo com a teoria da transgeracionalidade, epigenética e campos mórficos. Por isso, por vezes podemos experienciar algumas dificuldades repetidamente, mas que não conseguimos decifrar de maneira muito lógica ou óbvia suas vias de sofrimento ou maneira de identificar um motivo real ou aparente. Pode ser que já tenhamos procurado resolver por outros meios disponíveis, quem sabe, já até passamos por acompanhamento psicológico, médico, ou no caso de uma empresa, por uma consultoria especializada e, ainda assim, não conseguimos vislumbrar uma resolução efetiva.
Diante do exposto, podemos observar um pouco a forma com a qual experimentamos os impactos das dinâmicas ocultas e inconscientes em nossa vida. Mas afinal, que dinâmicas são essas? Neste módulo, vamos entender o conceito de dinâmicas ocultas de relacionamentos familiares e as principais atuações dentro do nosso cotidiano, principalmente, em nosso sistema familiar. Vamos também observar como e porque o sistema familiar de origem é o mais importante, compreendendo suas características e funções. Será possível reconhecer a atuação da força e a influência que o sistema familiar incide sobre nós, promovendo o esclarecimento sobre destinos e liberdade.
TEMA 1 – A FORÇA DO SISTEMA FAMILIAR
Pela perspectiva das constelações familiares, o nosso sistema de origem, ou seja, pai e mãe biológicos, é o mais forte o que mais incide influência em nossa vida ao longo do tempo. A explicação para esse fato dentro das constelações ocorre pelos estudos conduzidos pela área da Biologia, especificamente dentro da área da Epigenética, a qual sugere que informações de comportamento, sentimentos, emoções e traumas vivenciados por nossos antepassados são transmitidos pelo DNA (ácido desoxirribonucleico).
Outra teoria que pode ser sustentável para essa base é a teoria da ressonância mórfica e campos morfogenéticos do biólogo Rupert Sheldrak. Por isso, é visto e experienciado dentro da prática das constelações familiares que o pai e mãe biológicos incidem uma força dentro dos destinos de seus filhos, mesmo quando os filhos nãos os conhecem ou têm qualquer acesso ou contato ao longo da vida.
Devemos considerar sempre pai e mãe biológicos ao analisar um tema familiar, pois esses são os integrantes mais importantes para o sistema, e por meio deles toda a carga ancestral foi transferida. Até em casos de adoção, quando esses pais biológicos são incluídos e considerados dentro do sistema da pessoa que apresenta seu tema, os efeitos posteriores tendem a ser mais positivos, inclusive para a família atual adotante, ou seja, harmonia e tranquilidade maior para os pais adotivos dentro do sistema.
Atualmente, temos outras situações que devemos sempre analisar com muito cuidado e atenção, que são os casos de fertilização in vitro e inseminação artificial, certamente, temas que renderão muito estudo.
1.1 Campos mórficos e morfogenéticos
São denominados campos de informação transgeracional (transmitidos de geração em geração) não local, não físico, mas em um espaço sutil denominado campo. Rupert Sheldrake é o cientista pesquisador de maior referência para as pesquisas conduzidas dentro dessa área e a cada dia ocupa posição de maior destaque no cenário sobre as ligações do corpo e da mente, contribuindo não somente com a sua área de estudo, mas também na psicologia e, sobretudo, dentro do tema de constelações familiares.
O conceito sobre morfogenético é um estudo que parte das áreas da Física, Química e Biologia, em que temos a classificação de morfo, que significa forma, e genético, que significa origem, gênese, e pode ser interpretado como: os membros que surgem a partir de uma origem herdarão suas formas e características ao longo das gerações. Nesse caso, temos alguns esclarecimentos acerca de como os padrões de repetição acontecem em um sistema.
Sheldrake, com suas teorias, está revolucionando o meio científico, não só na biologia e na química, como também na física e na psicologia. Ele propõe a existência dos “campos mórficos” e dos campos “morfogenéticos” os quais ajudam a compreender como os organismos adotam suas formas e comportamentos característicos. Os campos morfogenéticos são campos de forma, de padrões ou estruturas de ordem transmitidas geneticamente, através do DNA, para os seres de mesma espécie. Estes campos existem em todos os seres vivos, em todas as moléculas. Cada tipo de molécula, cada proteína, por exemplo, tem seu próprio campo morfogenético – um campo de hemoglobina, um campo de insulina, etc. Em se tratando de cristais, também existe um campo de forma, porém denominado “campo mórfico”, e não morfogenético. Estes campos são os que ordenam a natureza e, portanto, existem muitos tipos de campos tantos quantos tudo o que existe como coisas ou padrões na natureza. Os campos mórficos e morfogenéticos transmitem informações que atravessam o espaço e o tempo e atingem os seres de mesma espécie, fazendo com que tenham o mesmo tipo de comportamento que seus antecessores já tiveram, isto sem ter havido qualquer contato entre eles. A essa transmissão de informações à distância, Sheldrake denominou de “ressonância mórfica”. (Bassoi, 2016, p. 26)
Inicialmente, Sheldrake conduziu seus estudos com pequenos seres vivos e seus sistemas, e identificou esse formato de comunicação sutil. Posteriormente, expandiu e ampliou sua visão para outros sistemas e outros seres. Por causa de suas hipóteses e pesquisas, Sheldrake coloca em questionamentos todos os conceitos mecanicistas e se destaca dentro dos estudos das constelações, portanto, é um pesquisador importante para ser estudado durante o processo de reconhecimento e definição de um método para as pesquisas em constelações familiares.
TEMA 2 – HISTÓRIAS DA NOSSA FAMÍLIA
Se observarmos nossa história familiar, podemos perceber que antes de nós muitas pessoas foram necessárias e cada uma de suas histórias foram fundamentais para a conquista do nosso sucesso, ou seja, a nossa vida atual.
A família é nosso primeiro contexto social, fundamental para nossa sobrevivência e o melhor lugar para nos abrigar, cuidar, proteger, educar, e nos conferir identidade. É nela que nos desenvolvemos emocionalmente e estruturamos a nossa personalidade. A família é um subsistema social que funciona como o mais conservador dentro os sistemas de relações. É um microssistema que apresenta características e comportamento semelhantes aos dos sistemas vivos e os mesmos critérios e motivações podem ser aplicadas a ele. (Andrade, 2016, p. 18)
Porém, quando observamos essa história, também nos deparamos com acontecimentos hostis e não muito agradáveis. O fato é que, para nós, estudantes de constelações familiares, os eventos não podem ser classificados como bons ou ruins. Precisamos olhar para eles apenas como eventos ou referências necessárias e importantes para o desenvolvimento do indivíduo e da nossa própria. Hoje, já é possível conduzirmos essa reflexão. Para isso, precisamos exercitar em nós essa forma de observar os eventos em nosso próprio sistema familiar.
2.1 O que são dinâmicas e como elas atuam
As dinâmicas podem ser conceituadas como a forma com a qual interpretamos, observamos e nos relacionamos com uma pessoa ou um fato ou acontecimento dentro de nosso sistema familiar, ocorrido em qualquer época ou com qualquer pessoa. Eles atuam em sua maior parte de forma oculta ou inconsciente, ou seja, podemos interpretar algum fato de forma racional bem esclarecida, mas dentro do nosso íntimo mais profundo não conseguimos lidar bem com o fato, e isso pode ter sido uma história vivenciada pelo próprio indivíduo ou uma história vivenciada por outro membro, mas repetida de alguma forma.
As psicoterapias tradicionais preocupavam em construir uma biográfica somente a partir dahistória do indivíduo que se apresentava, porém outros profissionais terapeutas e estudiosos por meio do método de terapia familiar sistêmica com a colocação de representantes, entre eles, Virgínia Satir e Iván Böszörményi-Nagy, observaram que em muitas situações o indivíduo estava vivendo uma biografia que não era sua, mas, sim, repetindo uma história ou biografia semelhante à de um antepassado de seu sistema familiar.
Nem sempre as dinâmicas são claras; na maioria das vezes são ocultas, não temos o conhecimento do que está atuando. Não é fácil para o indivíduo reconhecer ou perceber que está nesse caminho, muitas vezes nem conhece ou teve acesso à biografia dos antepassados, ou mesmo quando se tem acesso e conhecimento, em seu processo racional de análise prática da vida não consegue perceber o contexto.
Alguns desses casos são os de filhos que tiveram seus pais alcóolatras e na vida jovem e adulta também praticam o vício sem conseguir mudar esse destino, o que muitas vezes não é reconhecido pela pessoa que está nesse movimento ou dinâmica. Assim, aos poucos e gradativamente foram sendo descritas a atuação de uma dinâmica ou uma forma de experimentar os relacionamentos ou acontecimentos no sistema, que era totalmente diferente daquilo que se mostrava ou que se praticava no dia a dia.
Um exemplo sobre uma dinâmica é quando uma mãe morre no parto. O filho na fase mais adulta pode até lidar bem com esse acontecimento e racionalmente ter todo o entendimento, mas em seu íntimo experimenta culpa pelo falecimento da sua mãe, e por isso está sempre em busca de comportamentos que o levam à morte, como prática de esportes radicais, sérios acidentes, ou ainda, contraindo uma série de graves doenças – esse é um exemplo de dinâmica inconsciente que acontece dentro dos sistemas familiares.
TEMA 3 – SOMOS LIVRES?
Conforme já percebemos no percurso desse estudo, não somos tão livres conforme imaginávamos ou conforme gostaríamos de ser. Já aconteceu com você ou alguém próximo a você, de se deparar com situações de profundo desconforto e, às vezes, até se esforçar para mudar algo na vida e mesmo assim não conseguir? Ou, ainda, já observou dentro da sua família ou na família de amigos e pessoas próximas que geração após geração destinos trágicos vão se repetindo, como os casos de pais alcóolatras com filhos alcóolatras ou viciados em substâncias químicas?
Por que em algumas situações na vida, é tão difícil promover mudanças? As constelações familiares promovem algumas reflexões e possuem direcionamentos, nos informando que estamos a serviço da vida. Em muitos livros, Bert Hellinger denomina a vida como a grande alma. Dessa forma, temos o conhecimento que por estarmos ligados a um sistema que possui características principais e únicas, nem sempre vamos conseguir traçar novos rumos em nossa vida, e que para encontramos um caminho mais fluido, precisamos, muitas vezes, apenas fazer as pazes com os nossos destinos familiares.
3.1 Estudos da consciência dentro das constelações familiares
Nas constelações familiares observamos a atuação das consciências que promovem a integração e interdependência nos grupos. Schneider (2019, p. 249) pontua que “Bert Hellinger descreveu a consciência como um órgão de equilíbrio nos relacionamentos, como uma instância interior que nos liga ao grupo”. É a partir dessa constatação da existência de níveis de consciência que Hellinger observou a presença e atuação das três leis sistêmicas: pertencimento, hierarquia e equilíbrio de troca.
A partir do entendimento sobre cada esfera de consciência, ampliamos o nosso entendimento sobre o funcionamento dos sistemas, bem como sobre características principais da técnica de constelação familiar. Podemos entender que as consciências atuam como um grande espaço que registram e mantêm informações ao longo das gerações. Para o trabalho das constelações familiares devemos considerar e perceber três esferas de consciência, sendo elas: consciência pessoal, consciência do grupo ou familiar e consciência universal ou espiritual (Hellinger, 2009).
Na consciência pessoal é onde temos a experiência do sentir o que é bom e o que é mau, por isso é denominada de consciência muito limitada, sendo seu alcance também limitado ao indivíduo em si; assim cada pessoa terá a experiência da sua própria consciência, e essa consciência está a serviço da nossa sobrevivência, é essencial e muito útil na infância,
A função da consciência pessoal é de nos manter conectados a pessoas e grupos de interesse relativamente importantes para nossa vida, excluindo assim pessoas e grupos que não temos tanta afinidade; apresenta ainda uma particularidade denominada de boa consciência e má consciência. Em boa consciência temos a sensação plena de pertencimento ao grupo; em má consciência temos a sensação de não pertencimento ao grupo.
Todos nós, seres humanos, buscamos pertencer a algum grupo, principalmente, ao nosso sistema familiar, então, quando estamos fazendo, sentindo e vivendo de acordo com o nosso sistema familiar, sentimos internamento com boa consciência, pois somos iguais, e isso é a boa consciência atuando. Ao passo que quando estamos fazendo, sentindo e vivendo diferente do que aquilo que foi proposto pelo nosso sistema familiar, aquilo que está registrado no campo de informação familiar, temos uma sensação ruim de não pertencer e ser diferente daquele grupo, em muitas vezes sentindo-nos culpados; assim, é a sensação da má consciência.
Culpa e inocência são temas que caminham juntos dentro da esfera da consciência pessoal promovendo o senso de equilíbrio. Por exemplo, se recebemos um benefício de alguém sentimos culpa e precisamos então retribuí-lo de igual forma. Se acharmos que o que recebemos foi pouco ou insuficiente, ou ainda se reivindicamos mais de algo ou nos sentimos melhores ou maiores do que aquilo que recebemos ou maios importantes ou mais capazes do que um membro da família, nos sentimos inocentes e não queremos ou podemos mais equilibrar a troca.
A consciência fica tranquila quando estamos fazendo algo que está de acordo com as características para pertencer ao nosso sistema familiar. Portanto, quando falamos de liberdade e mudança de comportamento encontramos barreiras dentro da consciência pessoal; para que a liberdade e as mudanças ocorram tenho que agir com a má consciência e com a culpa de fazer diferente daquilo que está estabelecido dentro do registro de campo mais ancestral do que eu.
Na consciência coletiva ou consciência de grupo experimentamos uma sensação mais ampla e que contempla aqueles que foram excluídos dentro da consciência pessoal. Por exemplo, é a consciência coletiva a responsável por trazer o equilíbrio e a inclusão de um membro do nosso sistema familiar não honrado ou julgado pela balança de bom ou mau. Ela mantém sobre sua influência a sobrevivência e continuidade do grupo ou do sistema familiar, mesmo que para isso, alguns integrantes necessitem padecer ou sofrer. Porém, ainda permanece de forma inconsciente para nós, pois consideramos a consciência pessoal mais importante. A consciência coletiva é chamada também de consciência arcaica, é muito antiga ao grupo.
Na consciência universal ou espiritual já não existem limites ou qualquer tipo de diferenciação e sob ela todos pertencemos em iguais condições, não emitindo qualquer nível de julgamento, reconhecendo acontecimentos, fatos e pessoas como pertencentes a esse todo maior. Quando nos dedicamos à constelação familiar precisamos nos estabelecer com a consciência universal, a fim de obter sucesso e prosperidade na vida e na realização do nosso trabalho com a técnica.
TEMA 4 – PAI E MÃE
Temos um amor profundo por duas figuras na vida: nosso pai e nossa mãe biológicos. Tenho reforçado essa questão apenas para evidenciar que dentro dos estudos das constelações não vamos a lugar algum sem a presença e o reconhecimento desses dois indivíduos, por mais triste que tenha sido a nossa história com eles; ou em caso de sermos filhos adotivos, a inclusão dessas figuras biológicas pode ser fundamentalpara o nosso processo de autoconhecimento.
Em nossa alma, não queremos tomar partido de nenhum deles, os dois representam por igual a nossa essência. Por amor em ordem a essa figura, tenho saúde e sucesso, por amor em desordem tenho doença e fracasso – essa é a métrica central das constelações familiares, por isso é importante que trabalhemos exaustivamente a nossa relação com a representação desses dois principais representantes da nossa história, para que possamos experimentar uma vida com mais fluidez e sucesso.
Aquilo que não resolvemos com nossos pais, inevitavelmente, nossos filhos (se os tivermos, ou quando os tivermos) podem representar algum dilema ou conflito não resolvido por nós entre nossos pais. Lembrando sempre que a hierarquia respeitada promove benefícios. Caso tenhamos que lidar com pais difíceis, está dentro da nossa esfera de atitude e comportamento mudarmos a nossa forma de nos relacionar com eles, nunca tentar mudar o jeito deles se relacionarem.
Quando falamos de pai e mãe por meio das constelações, sempre temos que observar o pai e a mãe biológicos. Mesmo se não os conhecemos, podemos acolhê-los em nossos corações, não importando qual foi a forma com que esses pais disponibilizam a criança para adoção. Lembremo-nos sempre de que cada um tem uma história e uma motivação pessoal, conforme ressalta Schneider, “a criança adotada está vinculada a seus pais naturais e vice-versa” (2019, p. 246). E essa vinculação pela consciência é profunda.
4.1 Parentificação: um desequilíbrio danoso aos pais e aos filhos
É quando por motivos de acontecimentos familiares os filhos acabam assumindo as responsabilidades que seriam dos pais ou de algum deles, por exemplo, responsabilidade por um irmão mais novo, responsabilidades financeiras, entre outras. Outra forma desse fenômeno de desequilíbrio acontecer é quando os pais tornam-se amigos de seus filhos, saindo para bares, frequentando o mesmo círculo de amizades, adotando os mesmos comportamentos do filho jovem. “A inversão de papéis entre os pais e seus filhos pequenos ou muito jovens foi denominada parentificação por Boszormenyi-Nagy” (Andrade, 2016, p. 61).
De forma bem direta, os pais, quando assumem posturas de amigos de seus filhos, acabam desequilibrando o sistema familiar no sentido da hierarquia e, assim, o sistema enfraquece promovendo desequilíbrios. Nesse sentido, os pais acabam por perder sua figura de autoridade, pois os filhos não conseguem mais reconhecer as orientações. Para que o equilíbrio no sistema seja mantido, pai e mãe precisam ocupar os seus lugares dentro do sistema familiar.
Caso na vida adulta identifiquemos que nossos pais construíram esse tipo de relação conosco, só caberá a nós, filhos, reconhecer esse padrão de relacionamento e estabelecer limites saudáveis para renovar essa relação e permitir uma nova consciência de relacionamento, especialmente, quando nós já somos pai ou mãe. Somente filhos adultos conseguem estabelecer limites saudáveis nas suas relações com seus pais; as crianças são vítimas dessa relação.
TEMA 5 – A CRIANÇA
Cada um de nós, não importa a idade, tem uma criança a cuidar. Essa criança somos nós mesmos, são nossas experiências passadas com a nossa família, são todos os nossos traumas e medos como também nossos sonhos, desejos e expectativas; precisamos cuidar bem dessa criança por toda a vida.
Quando na vida adulta experimentamos muitas dificuldades com nossos pais, podemos considerar a existência de uma criança ferida, ou seja, uma dor que ainda não foi superada ou mesmo esclarecida dentro de nós, por isso precisa ser olhada com mais atenção e cuidado. Por outro lado, essa criança pode se fazer presente na vida adulta por alguma dinâmica da infância, por exemplo, uma grande dor que algum de nossos pais viveu. Acabamos por assumir essa dor, negligenciando a lei sistêmica de hierarquia, ou algum outro familiar com contexto importante, como avós e tios, assumindo um destino pelo amor que adoece.
As crianças dizem muito sobre o sistema familiar e precisamos olhar para elas de modo bem generoso, amoroso e acolhedor. Elas são extremamente sensíveis e conectadas às informações do inconsciente familiar e se colocam à disposição do sistema familiar por amor cego ou em desordem, acreditando que com isso podem salvar o seu sistema, mesmo que isso possa custar suas vidas.
Estudiosos das dinâmicas familiares muito têm escrito e falado sobre o paciente identificado ou bode expiatório sobre quem já nos referimos. Geralmente é alguém que capta precocemente algo que não vai bem na família, como um segredo perigoso ou outra situação ameaçadora. Isto a atinge profundamente e opera mudanças em seu comportamento, transtornando-lhe a vida. Seu inconsciente trabalha mobilizando temor, insegurança e o impulso irresistível de fazer algo para proteger a família, custe o que custar. (Andrade, 2016, p. 44)
Como podemos perceber, as pessoas mais complicadas ou difíceis dos sistemas familiares geralmente são as mais amorosas, sejam elas ainda na fase criança da vida ou quando já em fase adulta, porém assumindo de maneira cega ou em desequilíbrio os destinos mais trágicos, os segredos não revelados, as dificuldades de relacionamento dos seus pais, entre outras questões.
Em muitas famílias, os filhos adultos ainda oferecem desafios para os pais, pois é única maneira de manter os pais ou apenas um dos pais ocupados com problemas. Esses filhos geralmente são muito julgados, porém são os mais amorosos, ainda que estejam no amor cego ou o também chamado amor que adoece. A grande questão a ser observada é que quando se está nesse padrão de amor, é o padrão de amor que nos mantém atrelados aos nossos pais por lealdade ou emaranhamento, e não por honra; esse é o amor que nos leva ao adoecimento.
A solução aqui é olhar com mais amorosidade para a história da nossa família e de nossos pais, deixando de lado toda a reinvindicação ou os julgamentos, caso ainda tenhamos, ou até o mesmo o sentimento de pena e dó pela história que eles viveram. Os filhos sempre estarão com o sentimento de débito em relação aos pais e, de fato, isso é uma realidade que devemos suportar. Conseguimos retribuir o amor que recebemos de nossos pais e fazemos valer a pena a história de nossos antepassados quando centramos toda a nossa energia entregando para a sociedade qualidades de nosso trabalho, nosso servir e também quando já temos os nossos filhos e dedicamos nossa energia e disponibilidade para cuidar deles.
Essas são formas de deixar o padrão criança e estabelecer o nosso modo adulto de comando; assim entramos na forma de honra e tomada de força de toda a nossa ancestralidade e podemos seguir em frente. De certa forma, é possível reconhecer se estamos no nosso modo criança pelos seguintes sintomas: crianças não fazem sexo, não ganham dinheiro, não trabalham, não assumem responsabilidades, não resolvem problemas, brigam com os pais e querem muita atenção, precisam de reconhecimento, aprovação e autorização para seguirem, adoecem com muita facilidade.
Na prática
Nesta aula, vamos fazer uma atividade de prática meditativa para que você possa identificar em que fase da vida você está em relação ao seus pais no momento atual. Conforme observamos, podemos estar ainda na fase criança ou na fase adulta em relação a nossos pais. Isso sempre irá depender e oscilar de acordo com a nossa postura frente a um acontecimento, por isso, executar todos os exercícios propostos ajudará no estabelecimento do autoconhecimento e no encontro de nossa cura pessoal.
Você vai fazer esse exercício em pé, em um local calmo, tranquilo e bem íntimo, para não ser atrapalhado durante o processo. Inicie com respirações leves e tranquilas. Coloque atrás de você, um represente para seu pai e outro para sua mãe; em caso de adoção coloque quatro representantes.
Traga à sua mente uma experiência de criança em relação aos seus pais. Caso possua uma foto, pode utilizá-la para auxiliar na visualização desse exercício, mas lembre-se sempre de que o caminho para o fenomenológico é abster-se dasreflexões racionais e abrir o espaço para as percepções, os sentimentos e as emoções que emergem.
Observe todas as emoções e sentimentos que começam a emergir. Seus pais tomam um tamanho maior ou menor? Você se sente completo, protegido, feliz e satisfeito com essa posição? Sente-se amado? Você consegue ficar em seu lugar ou seu corpo pede mais aproximação dos representantes de seus pais? Consegue receber o que esses pais deram? Ainda tem alguma reinvindicação para ser feita?
FINALIZANDO
Ao longo desta aula, aprofundamos nosso conhecimento no caminho do autoconhecimento, a partir das constelações familiares, ressaltando pontos principais da filosofia aplicada em nosso cotidiano. Observamos o sistema familiar de maneira um pouco mais sutil, compreendo a forma com a qual as comunicações ocorrem dentro do sistema familiar, transmitidas de geração em geração, caracterizando a transgeracionalidade e compreendendo melhor a força de atuação de um sistema familiar na vida de um indivíduo.
Por meio desse caminho, ficou mais claro compreender o quanto as histórias vividas por todos os integrantes do nosso sistema familiar foram importantes para nós e o quanto a nossa história atual é capaz de impactar as gerações futuras. Compreendemos que não somos tão livres quanto gostaríamos e que em muitos momentos a nossa sabedoria de vida está em harmonizar e em buscar a reconciliação dentro de nossos corações com os integrantes e os acontecimentos vividos dentro do nosso sistema familiar.
Algumas pessoas possuem um lugar muito especial dentro do sistema familiar e essas pessoas ocupam o lugar chamado de pai e mãe, aqueles que nos permitiram a vida. É por meio deles que podemos encontrar o nosso lugar no mundo, é por eles que muitas vezes nos colocamos à disposição para ajudar e salvá-los de suas mazelas, enfim, é por eles que teremos que ter maior cuidado e atenção ao longo da nossa existência, para que esses papéis estejam bem estabelecidos e as relações estejam em seu equilíbrio.
Por fim, encontramos o lugar das crianças, principalmente da nossa criança em nossa fase adulta. Aqui, pudemos compreender um pouco sobre o quanto o nosso amor por nossos pais transcende barreiras lógicas de definição sobre o que é o amor e como ele se apresenta. Isso nos ajuda principalmente quando já somos pais e mães, a olhar com um pouco mais de responsabilidade para nossos filhos, ao passo que, se ainda não ocupamos essas representações, podemos refletir um pouco mais sobre esse caminho. Compreender que somos em partes responsáveis pelo destino de nossos filhos e das próximas gerações pode transformar nossa visão e realização no mundo.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, L. A. A. A família e suas heranças ocultas. 2016.
BASSOI, V. L. M. Comunicação e pensamento sistêmico: um estudo sobre “constelações familiares”. 2016. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura), Universidade de Sorocaba, São Paulo.
HELLINGER, B. O amor do espírito na Hellinger Sciencia. Patos de Minas: Atman, 2009.
SCHNEIDER, J. R. Origem, destino e liberdade: o inconsciente grupal em sistemas e constelações familiares. Belo Horizonte: Atman, 2019.

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