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HISTORIOGRAFIA GERAL I AULA 8 - HISTORIOGRAFIA LATINA- AMERICANA Prezado(a) aluno(a), O estudo da historiografia latino-americana nos conduz a um contexto marcado pelas lutas de independência e pela busca de identidade. Nesse período turbulento, os líderes das independências emergiram como figuras centrais, moldando não apenas os destinos de seus países, mas também influenciando a concepção de uma nação latino-americana. Esses próceres das independências foram além de meros protagonistas de eventos históricos; eles se tornaram símbolos de uma aspiração coletiva por liberdade e autodeterminação. Suas visões e ações ajudaram a definir não apenas os rumos políticos de suas nações, mas também contribuíram para a formação de uma identidade latino-americana única, embora multifacetada. Exploraremos o papel desses líderes na construção das narrativas históricas latino-americanas, destacando como suas ideias e ações moldaram não apenas o passado, mas também o presente e o futuro da região. Bons estudos! 8 HISTORIOGRAFIA LATINO AMERICANO Conforme Wasserman (2011), tem como propósito analisar as teorias e declarações referentes à identidade nacional na historiografia da América Latina, desde o movimento de independência no início do século XIX até o período logo após a emancipação. O conjunto de autores analisados neste estudo inclui indivíduos que desempenharam papéis ativos durante o processo de emancipação, como cronistas, memorialistas e historiadores autodidatas, que produziram uma historiografia centrada na descrição de eventos políticos e militares (JARAMILLO URIBE, 1986). Além disso, há outro grupo de acadêmicos ligados a instituições de história, tanto nacionais quanto locais, bem como a centros e institutos de história, que surgiram em muitos países latino-americanos na segunda metade do século XIX (JARAMILLO URIBE, 1986). A ampla abordagem e o escopo abrangente foram intencionais, embora haja o risco de perder detalhes sobre cada autor examinado, essa abordagem possibilita entender padrões comuns no discurso sobre a questão nacional na América Latina. Ao analisar diversos autores de diferentes países latino-americanos de forma simultânea, é possível compreender a região como uma totalidade articulada, indo além das especificidades individuais. Carlos Aguirre argumenta que a historiografia latino-americana ainda não foi estudada o suficiente para permitir uma síntese completa de sua trajetória, que poderia consolidar uma "história global da historiografia da América Latina" (AGUIRRE ROJAS, 2001), nem mesmo para produzir uma história intelectual latino-americana satisfatória. No entanto, ele reconhece que o período analisado representa a primeira fase do desenvolvimento da historiografia latino-americana. Este é um momento de primeiras reflexões intelectuais que questionam a identidade das novas nações e investigam as raízes históricas que supostamente moldaram os valores e características específicas de cada país. Há muito tempo, os intelectuais e historiadores latino-americanos têm explorado os temas da questão nacional e da identidade nacional, desde as origens da nação e da nacionalidade. A busca pelo caráter nacional e pelas raízes da nação está intimamente ligada às dificuldades de estabelecer ordenamentos políticos estáveis na região. Além disso, há o desafio de lidar com uma população "transplantada", com origens diversas, dependendo do país. Durante muito tempo, as elites latino-americanas consideraram o nascimento fora da Europa como uma "fatalidade" (ANDERSON, 1989), e menosprezaram as características particulares de cada país e de sua população. Após as independências, as primeiras reflexões sobre a identidade nacional, o surgimento das nações e os desafios para sua consolidação surgiram, predominantemente, como uma preocupação política expressa pelos protagonistas do processo. Nos países da América Latina, os debates pós-independência giraram em torno de questões constitucionais, colonização e das medidas necessárias para estabelecer sistemas políticos e administrativos independentes das metrópoles. Políticos e intelectuais envolvidos na formação dos novos Estados também participaram dessas discussões e contribuíram para moldar as administrações estatais. Na segunda metade do século XIX, surgiram os primeiros "historiadores", intelectuais associados a academias de história ou centros e institutos de pesquisa histórica. Apesar da ausência de uma profissionalização formal, esses indivíduos demonstravam um interesse genuíno pela investigação histórica. Suas obras, embora não fossem produzidas por historiadores de profissão, acabaram por constituir um valioso legado documental para as gerações futuras de historiadores. Além disso, o processo de disseminação desse conhecimento sugere que, ao ser "monumentalizado", o discurso sobre a nacionalidade tornou-se parte intrínseca da própria história. Muitos dos primeiros historiadores latino-americanos concebiam as identidades nacionais como elementos intrínsecos e imutáveis, tratando as nações como entidades sociais fundamentais. Para alguns, essas identidades remontavam ao período pré-colonial, enquanto para outros surgiram durante o período colonial ou, mais comumente, no contexto das independências. Concretamente indefinida, a identidade nacional aparece como um dado para autores do século XIX. Mais do que isso, a nação faz parte do horizonte de expectativas destes autores e vinha sendo construída por estas versões que se consagraram como a historiografia da região. A crença disseminada sobre a ontologia da questão nacional está bem delimitada teoricamente pelos autores europeus que discutiram o tema. Entretanto, não existem estudos de síntese do pensamento latino- americano acerca da questão nacional, ainda mais no que se refere ao século XIX. Sobre a questão das origens das nacionalidades na América Latina, é preciso evitar conclusões precipitadas sobre o suposto consenso entre os estudiosos. Apenas uma análise empírica das manifestações sobre esse tema pode revelar os aspectos mais comuns. Tal estudo possibilita delimitar empiricamente a historiografia latino- americana do século XIX, considerando suas expectativas em relação às entidades políticas em processo de formação. Frequentemente, como observado nos militares envolvidos nos movimentos de independência, a crença na existência prévia de identidades nacionais surgia do desejo de que tais nações e nacionalidades existissem nesses territórios, em vez de ser resultado de uma observação empírica objetiva por parte desses líderes políticos. Em outras situações, os políticos e intelectuais que propuseram essas noções de identidades nacionais originais estavam influenciados pelos modelos francês, inglês ou norte-americano. Ao confrontar esses modelos estrangeiros com a realidade latino-americana e as dificuldades na construção de estruturas políticas estáveis em toda a região, esses pensadores passaram a acreditar que a América Latina sofria de desvios e distorções no processo de formação nacional, ou que esses processos estavam longe de serem concluídos. Essas características do pensamento latino-americano em relação à questão nacional - como a crença na existência ontológica das nações, a atração por modelos externos, a identificação de desvios e distorções no processo de formação das nações, além das ideias de incompletude e frustração - permeiam toda a história do subcontinente e têm consequências significativas no campo da historiografia, assim como implicações político-sociais. A concepção de que sempre existiram inimigos da nação, os quais impuseram obstáculos ao processo de formação nacional, contribuindo para sua incompletude, desviose deformações, surgiu como uma decorrência dessas análises. A narrativa histórica é uma construção que confere sentido ao passado, sendo moldada pelo historiador, que desempenha um papel essencial nesse processo. Mesmo aqueles que não são membros das academias de história participam dessa operação, transformando uma tradição em objeto do passado. Essa atividade é realizada a partir de um determinado contexto social, práticas científicas e uma escrita que organiza os dados disponíveis (DE CERTEAU, 2000) A análise da escrita da história no contexto da questão nacional busca desmistificar narrativas arraigadas, desnaturalizando a relação entre história e identidade. Muitas vezes, a história tem sido usada para legitimar e respaldar a construção identitária, buscando no passado remoto evidências que sustentem uma memória sobre identidades recentemente constituídas (GUIMARÃES, 2000). Na América Latina, os escritos de líderes como Bolívar, Mariano Moreno e José Bonifácio, que desempenharam papéis proeminentes nos movimentos de emancipação colonial, são considerados os primeiros marcos da historiografia na região. Ao longo do século XIX, a história emergiu como uma disciplina acadêmica legítima para examinar o passado. Durante esse período, os historiadores desempenharam um papel importante ao endossar os projetos de construção nacional promovidos pelas elites oligárquicas. Através das diferentes eras, é possível observar como os historiadores e intelectuais que se dedicaram à escrita da história nacional desempenharam um papel fundamental na construção de uma versão da nação e das identidades nacionais. Essas "versões" não são necessariamente falsas ou desconectadas de eventos passados reais, mas estão intrinsecamente ligadas aos desafios contemporâneos e forneceram uma explicação razoavelmente sólida para um futuro que poderia parecer incerto. A escrita da história, especialmente no contexto da narrativa da "história nacional", revela o que Reinhart Koselleck descreve como o "espaço de experiências", ao mesmo tempo, em que aponta para o "horizonte de expectativas" dos historiadores e da sociedade em determinada época (KOSELLECK, 2006). As mudanças nas narrativas estabelecidas, a desmitificação de mitos, indicam a existência de uma crise, acompanhada por uma alteração no regime de historicidade da época. Isso se manifesta na modificação dos enredos da história nacional, sem que os historiadores "modernos" percam de vista as normas de cientificidade estabelecidas desde o século XIX. 8.1 O contexto das independências e identidades Essa "primeira" historiografia latino-americana ofereceu interpretações sobre a identidade das regiões recentemente emancipadas das metrópoles ibéricas que não refletiam necessariamente o contexto político-social real. Uma análise detalhada dos processos empíricos envolvidos na formação desses países como unidades independentes das respectivas metrópoles revela que o sentimento nacional estava pouco desenvolvido. Antes das emancipações políticas, havia diversas opiniões contrárias à ideia de independência, especialmente devido ao receio das elites coloniais de perder a coesão imposta pelas metrópoles ibéricas. Também é bastante desafiador determinar em que momento os portugueses nascidos no Brasil ou os espanhóis nascidos no México e na Argentina começaram a se identificar como americanos, e ainda mais como mexicanos, brasileiros ou argentinos. Por muito tempo, persistiram as ideias de que o nascimento fora da Espanha ou de Portugal era algo inevitável entre os descendentes de portugueses e espanhóis na América, mesmo após os processos de independência. A transição desses indivíduos, passando de uma identidade como peninsulares ou europeus para se reconhecerem como americanos, mexicanos, peruanos, brasileiros, foi dificultada por diferenças étnicas e sociais que os separavam da maioria composta por índios e negros, com diversas formas de mestiçagem, das elites coloniais proprietárias. Os sentimentos antilusitanos e antiespanhóis, que caracterizavam o senso de ser "americano", estiveram presentes nos processos de emancipação, mas só foram adotados pelas elites coloniais quando se tornou claro que esses movimentos emancipatórios eram irreversíveis. No Brasil, um exemplo ilustrativo é o do Visconde de Cairu, que, em 1821, manifestou-se contra as intenções recolonizadoras das cortes portuguesas, embora fosse a favor da continuidade da união com a metrópole. Cairu defendia a independência econômica e a aplicação dos princípios do "laissez-faire". No entanto, mesmo em 1822, quando já parecia resignado à separação entre Brasil e Portugal, ele ainda nutria a preferência pela manutenção da União, considerando-a como uma possibilidade viável economicamente e lucrativa para ambos os lados (FENELON, 1983). A conjuntura global que precedeu a emancipação política das colônias espanholas na América era extraordinária. Com a invasão napoleônica na Península Ibérica, enquanto as cortes portuguesas se refugiaram no Brasil, os espanhóis lutaram até a captura do Rei Fernando VII, da dinastia Bourbon, e sua substituição pelo irmão de Napoleão, José Bonaparte. No Rio da Prata, uma das primeiras reações a essa situação peculiar foi a lealdade à dinastia Bourbon, a resistência aos franceses e a deposição do vice-rei Santiago de Liniers, que tinha origem francesa. Diante da situação singular da metrópole, as opções eram limitadas: ceder ao domínio francês, aguardar os desdobramentos nos campos de batalha europeus ou estabelecer uma junta de governo local e iniciar o processo de independência colonial. Não se pode determinar com certeza se os primeiros líderes das Jornadas de Maio, responsáveis pela formação da junta de governo das Províncias Unidas do Rio da Prata, tinham a intenção clara de iniciar a emancipação. Muitos espanhóis consideravam mais prudente formar a junta de governo, defender o rei cativo e aguardar os acontecimentos. A proposta de Buenos Aires, baseada em seu prestígio como a cidade mais proeminente do vice-reinado, para convocar as províncias e os cabildos e estabelecer uma junta em substituição ao vice-rei, não foi amplamente aceita. Enfrentou resistência de várias regiões, como Córdoba, onde Liniers havia se refugiado, além de Mendoza e Salta, e também enfrentou contrarrevolução do Alto Peru, Paraguai e Montevidéu. A iniciativa de Buenos Aires – resultado de sua posição destacada como a cidade mais influente do vice-reinado – em convocar as províncias e os cabildos e optar pela substituição do vice-rei por uma junta, não foi recebida com entusiasmo por muitos. A oposição veio de várias direções, como de Córdoba, onde Liniers se refugiara, de Mendoza e de Salta, além da contrarrevolução que se originou no Alto Peru, Paraguai e Montevideo. Nesse contexto, Felix Luna comentou que, o que ocorreu em Buenos Aires era considerado excessivamente escandaloso para ser aceito sem protestos. A substituição de um representante do rei ou da Junta, seguida pela instauração de uma nova Junta, era vista como algo difícil de ser aceito nas regiões mais leais ao vice-reinado (LUNA, 1995). O autor descreve as adversidades enfrentadas por D. Faustino Ansái, que se recusou a reconhecer a legitimidade da Junta de Buenos Aires, derrotado em Mendoza, preso e enviado para Las Bruscas. Ansái conseguiu escapar para Montevidéu, mas foi recapturado quando as tropas de Buenos Aires tomaram a cidade. Além disso, destaca a resistência dos habitantes de Jujuy em se submeterem ao domínio de Salta, buscando estabelecer seu próprio governo (LUNA, 1995). Esses relatos evidenciam a natureza da oposição ao processo de independência no Rio da Prata e as campanhas militares necessárias para formalizar a independência argentina em julho de 1816, embora tenha sido reconhecidapor muitos apenas após a Batalha de Cepeda, em 1820. A independência mexicana, proclamada em 1821, foi caracterizada como uma "restauração". Esse termo reflete a tentativa da elite colonial de recuperar os privilégios que detinha antes de 1810, quando o padre Miguel Hidalgo e o sacerdote J. M. Morelos lideraram uma tentativa de transformar a luta pela independência em um movimento de libertação indígena. Enquanto as elites proprietárias permaneceram leais ao rei cativo após a prisão de Fernando VII, os sacerdotes viram na situação uma oportunidade para abolir a opressão, a escravidão, os tributos e a expropriação de terras. Eles não nutriam sentimentos de identidade mexicana ou americana e não faziam distinção entre os "ricos" nascidos na América e os nascidos na Espanha. Foram rotulados como "inimigos da Nação" e associados ao "partido da tirania" todos os ricos, nobres e guachupines (espanhóis). Embora tenham sido posteriormente aclamados como "símbolos da independência" e da "nacionalidade", segundo Morelos (apud BRADING, 1991), eram originalmente vistos como símbolos da resistência indígena contra a usurpação. Esses indivíduos foram violentamente reprimidos, e a independência proclamada em 1821 restaurou os poderes da elite criolla. Mesmo que essa elite não estivesse totalmente satisfeita com a separação da metrópole, ela havia convidado Fernando VII da Espanha para ocupar o trono como imperador do México. Nesse contexto, que se repetia em diversas regiões ibero-americanas, é evidente que, no momento das independências, as identidades nacionais e até mesmo subcontinentais que conhecemos atualmente ainda não estavam consolidadas. Essa ausência de identificações nacionais permitia, inclusive, que os militares e líderes independentistas de um "país" atuassem em diferentes pontos do subcontinente. Sobre esse aspecto, Edelberto Torres Rivas observa que "a crise do Estado colonial marcou o fim da noção de uma nação hispânica ou hispano- americana. O ideal de Bolívar não passou de um sonho" (TORRES RIVAS, 1977). 8.2 Os próceres das independências: a nação latino-americana como dados antológicos Simon Bolívar, San Martin, José Bonifácio e Mariano Moreno lideraram os movimentos de independência que surgiram após o término do domínio colonial. Diante da necessidade de consolidar os novos Estados, esses líderes se viram inspirados pelo modelo norte-americano, que representava um protótipo de uma grande nação. Além disso, foram influenciados pelos exemplos da França e da Inglaterra, o que estimulou o desejo de construir uma única nação latino-americana ou, pelo menos, várias nações de grande porte. Os líderes da independência inicialmente consideraram a possibilidade de manter a monarquia espanhola representada pelo rei Fernando VII, que estava sob o controle de Napoleão Bonaparte. No entanto, com a mudança do cenário internacional e as tentativas de restauração do sistema colonial, surgiram indivíduos dispostos a lutar pela independência, mesmo sem o respaldo do rei espanhol. A partir de 1815, o rei tornou-se um símbolo da iminente restauração do Antigo Regime, e os líderes do processo de emancipação começaram a evocar países virtuais, caracterizados por um forte sentimento antiespanhol. Esse sentimento não era resultado de uma identidade nacional reprimida ao longo dos anos de dominação colonial, mas sim uma percepção dos líderes da independência americana diante da rápida mudança no panorama internacional. O que antes parecia inimaginável passou a ser defendido com fervor. A ideia de preservar os direitos do monarca cativo foi rapidamente substituída pela convicção de que era hora de consagrar a emancipação. O conteúdo do Plano Revolucionário de Operações de 1810, associado a Mariano Moreno, assim como o Manifesto de Cartagena e a Carta da Jamaica, redigidos por Bolívar em 1812 e 1815, respectivamente, são registros históricos que evidenciam a adoção de ideias antiespanholas e o desejo intenso de replicar a experiência norte-americana no subcontinente. Esses documentos também indicam que esses autores estavam firmemente convencidos da existência de uma comunidade nacional, com uma identidade cultural distinta, que já estava presente mesmo antes do processo de emancipação. No Plano Revolucionário de Operações, solicitado a Mariano Moreno pela Junta de Governo estabelecida na região platina e redigido em 1810, é evidente a tentativa de identificar um modelo ideal. A realização da obra de nossa liberdade é tão grandiosa que, à primeira vista, assemelha-se aos palácios de Sião, que, apesar de suas magníficas entradas, abrigam apenas edifícios baixos e frágeis; mas, pela Providência que do alto examina a justiça de nossa causa, ela certamente a protegerá, permitindo-nos extrair lições valiosas dos desastres. Pois, embora alguns anos antes da instalação do novo governo tenham sido considerados, discutidos e feitas algumas combinações para realizar a obra de nossa independência, podemos dizer que foram meios capazes e suficientes para concretizar a independência do Sul, pensá-la, falar dela e preveni-la? Permita-me dizer aqui que, às vezes, a casualidade é a mãe dos acontecimentos, pois se uma revolução não for bem dirigida, se o espírito de intriga e ambição sufocar o espírito público, então o estado volta a cair na mais terrível anarquia. Minha pátria, quantas mutações você precisa suportar! Onde estão, nobre e grande Washington, as lições de seu político? Onde estão as regras laboriosas da arquitetura de sua grande obra? Seus princípios e seu regime seriam capazes de nos guiar, fornecendo-nos suas luzes, para alcançar os objetivos que nos propusemos. Nesta verdade, as histórias antigas e modernas das revoluções nos instruem completamente sobre seus feitos, e devemos segui-las para consolidar nosso sistema, (MORENO, 1975). Durante seu exílio, Bolívar escreveu as Cartas de Jamaica, após as tentativas fracassadas de proteção do Rei Fernando VII. Em vez de evocar o exemplo norte- americano, ele desdenhava do sistema federativo e propunha a centralização política como meio de conter o caos e a anarquia do período. Simultaneamente, ele delineava os critérios que orientavam a identificação dos povos americanos e sua união em uma única nação: É uma ideia grandiosa pretender formar de todo o Mundo Novo uma só nação com um único vínculo que ligue as suas diversas partes ao todo. Visto que têm uma única origem, uma língua, idênticos costumes e uma mesma religião deveria, muito naturalmente, ter um único governo que confederasse os diferentes estados que se formem; mas não é possível, porque climas remotos, situações diversas, interesses opostos, caracteres dissemelhantes dividem a América. Como seria belo se o istmo do Panamá fosse para nós o que o de Corinto era para os gregos! Oxalá tivéssemos a sorte de instalar ali um augusto congresso dos representantes das repúblicas, reinos e impérios, para tratar e discutir os altos interesses da paz e da guerra com as nações das outras três partes do mundo [...] (BOLÍVAR, 1977, p. 98). Os critérios apontados por Bolívar, que sugerem a existência prévia de uma identidade americana - como origem, língua, costumes e religião - não devem ser considerados os únicos elementos para a identificação de uma comunidade nacional. Além disso, essas ideias de uma identidade pré-existente e da "justiça de nossa causa", como mencionadas por Moreno, refletem o desejo dos militares envolvidos na luta pela emancipação, mas não correspondem necessariamente à realidade concreta desses elementos ou de outros que poderiam comprovar os laços entre essas regiões. Bolívar até mesmo reconhece os obstáculos reais que surgiram em seu caminho, antecipando de certa forma as ideias de determinismo geoclimático que seriam predominantes no período pós-independência. A insurgênciapela independência, liderada pelo padre José Maria Morelos no sul do México, era caracterizada por elementos mais radicais, já que incluía propostas de reforma na estrutura de propriedade da terra. No entanto, em termos de identidade coletiva, seu foco principal estava nos adversários europeus. Com exceção dos europeus, os demais habitantes não serão mais denominados como índios, mulatos ou outras castas, mas sim geralmente americanos. Ninguém mais pagará tributos e não haverá escravos daqui para frente (MORELOS, apud BRADING, 1991). Nesse trecho, percebemos não apenas a sugestão de uma identidade coletiva pré-existente, mas também uma confusão espacial que caracterizou o pensamento do século XIX: a que escala essa identidade existia? Era continental, nacional ou provincial? É relevante destacar que a rebelião de Morelos no México apresentava elementos jacobinos e foi reprimida em 1815, o que adiou o processo de independência mexicana por mais seis anos. A perspectiva dos líderes dos movimentos de independência na América Latina era profundamente subjetiva; seus textos estavam impregnados de adjetivos e imagens carregadas de juízos de valor, refletindo suas metas políticas e militares consideradas urgentes. Na narrativa desses líderes, é evidente uma espécie de autoelogio, como apontado por Pierre Nora na introdução de seu livro "Les lieux de mémoire": "Quanto mais grandiosas forem as origens, mais grandiosos nos tornamos. Somos nós que somos venerados através do passado" (NORA, 1984). De fato, o aumento dos regionalismos e o processo de ruralização, que se iniciou no final do século XVIII e foi intensificado durante as reformas bourbonianas, dificultaram a aproximação entre as diferentes regiões do subcontinente. Isso também tornou mais desafiadora a implementação de estruturas políticas estáveis nos países que, durante o período colonial, eram considerados unidades administrativas coesas. Apesar da realidade concreta dos países latino-americanos não corresponder plenamente às afirmações de líderes como Bolívar, San Martin, Hidalgo, Morelos e Moreno, suas ideias sobre os elementos identitários desses povos se tornaram fundamentais no pensamento político da região. Essas concepções políticas, assim como as científicas e filosóficas, passaram então a analisar os obstáculos que impediam a concretização do que era considerado uma realidade preexistente, com elementos fundamentais já presentes, faltando apenas a conclusão do processo: a formação das novas nações. Os sentimentos de nacionalidade na América portuguesa não estavam plenamente consolidados. Na historiografia brasileira do século XIX, a Insurreição Pernambucana foi considerada um possível prenúncio desse sentimento identitário. No entanto, a luta dos "brasileiros", em conjunto com os portugueses, visava expulsar principalmente a Companhia das Índias Ocidentais, motivada por interesses econômicos e políticos, e não por demandas nacionalistas. As chamadas "revoltas nativistas", lideradas por colonos nascidos no Brasil, ocorreram em várias regiões da colônia no final do século XVII e início do XVIII. Esses movimentos reivindicavam questões relacionadas ao monopólio, à escravização dos indígenas, aos impostos da mineração e à administração colonial. No entanto, essas revoltas não representavam uma oposição direta ao sistema colonial na totalidade; em vez disso, envolviam grupos com interesses diversos entre os próprios colonos e abordavam problemáticas regionais específicas. As revoltas ocorridas no final do século XVIII e início do XIX em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco assumiram um caráter distinto. Nessas insurreições, já estava presente um sentimento de oposição à metrópole; as ideias das Revoluções burguesas e da independência dos Estados Unidos começaram a influenciar os "inconfidentes". No entanto, a identificação entre as elites coloniais e a monarquia, consolidada durante a permanência da família real no Brasil, resultou em uma simbiose que postergou o surgimento de uma identidade nacional em contraposição à metropolitana. Foi somente durante o período monárquico que a formação de partidos brasileiros e portugueses, juntamente com críticas ao autoritarismo de D. Pedro I e revoltas como a Confederação do Equador, contribuíram para o desenvolvimento do que poderia ser considerado como perspectivas verdadeiramente nacionalistas. Durante as reuniões da Constituinte de 1823, José Bonifácio de Andrade e Silva, conhecido como o "patriarca da independência" do Brasil, expressou sua preferência pela identidade ibérica. Ele defendeu a preservação dos usos e costumes simples e naturais do Brasil, em oposição à influência estrangeira: "Os políticos da moda querem que o Brasil se torne Inglaterra ou França: eu quisera que ele nunca perdesse os seus usos e costumes simples e naturais, e antes retrogradasse do que se corrompesse". Além disso, Bonifácio enfatizava a importância de reconhecer o Brasil como uma nação independente, mesmo antes do processo de independência. Ele argumentava que o Brasil já era uma nação e merecia ocupar seu lugar sem depender do reconhecimento de outras potências (BONIFÁCIO, 2004). Os líderes e figuras-chave dos movimentos de independência na América Espanhola e Portuguesa não apenas idealizavam a fraternidade entre as nações como justificativa para a emancipação, mas também enfrentavam desafios práticos relacionados ao reconhecimento da independência, à resistência em guerras e à elaboração de novas constituições. Por essa razão, muitas de suas narrativas são bastante explícitas e refletem interesses políticos imediatos. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA AGUIRRE ROJAS, C. A. América Latina: história y presente. Morelia: Red Utopia & Jitanjáfora Morelia Editorial, 2001. ANDERSON, B. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989. BOLÍVAR, S. Escritos políticos. Lisboa: Ed. Estampa, 1977. BONIFÁCIO, J. A. S. Perfil histórico de José Bonifácio. Revista Bonifácio, número 2, jan/mar, 2004 BRADING, D. A. Orbe indiano: de la monarquía católica a la república criolla, 1492- 1867. México: Fondo de Cultura económica, 1991 DE CERTEAU, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. FENELON, D. R. 50 Textos de história do Brasil. São Paulo, Hucitec, 1983. GUIMARÃES, M. L. S. Usos da história: refletindo sobre identidade e sentido. História em Revista, Pelotas, v. 6, p. 21-36, dezembro de 2000. JARAMILLO URIBE, J. Frequencias tematicas de la historiografía latinoamericana In: ZEA, Leopoldo (cord.). América Latina en sus ideas. México: Siglo XXI, 1986. KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: EdiPUC/Contraponto, 2006. LUNA, F. Breve história de los argentinos. 8ª ed. Buenos Aires, Planeta, 1995. MORENO, M. Plan revolucionario de operaciones. 3ª. ed. Buenos Aires: Plus Ultra, 1975. NORA, P. (org.). Le lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. TORRES RIVAS, E. 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