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A consciência é vazia não por não ser, em si, um objeto. Ela é apenas um movimento que se dirige a algo fora de si. No entanto, Sartre não se restringiu aos elementos epistêmicos da noção de consciência, que foram herdados da tradição fenomenológica. Essa questão chamou sua atenção pelas implicações que esse ser nada tem para a própria existência do sujeito. É justamente por nossa subjetividade ter essa estrutura que nossa existência resulta em uma experiência de absurdo. Por outro lado, se a consciência tem realidade apenas por visa a algo (ou seja, se ela é mais do que um vazio), isso significa que é na relação com o seu objeto que se pode conquistar um sentido (ou não) para a vida. Quando se lida com outras pessoas, o caráter vazio da subjetividade acaba transparecendo por meio de uma crise. Observe! ● O olhar para outro sujeito permite vermos nele algo que aparece para a consciência; ou seja, ele surge como um objeto. Olhando no seu olho, percebemos que ele é mais do que uma mera coisa. Seu olhar, como Sartre sublinha, mostra que ali também há um sujeito que visa a outros objetos. ● O outro que olho também é uma consciência. Por isso, ele não é um ser, mas um nada. O problema dessa situação é que, ao tomar esse objeto da consciência como outra consciência, o primeiro sujeito acaba indiretamente se percebendo como objeto para esse outro. ● O caráter vazio fica claro para o outro percebido, e essa situação lhe provoca sensação de incompletude, que deixa o sujeito envergonhado. Foi com isso em mente que Sartre disse sua famosa frase: o inferno são os outros. ● O maior obstáculo para a consciência situa-se aqui. Em seu esforço de encontrar algum sentido, sobretudo diante do olhar do outro, há a tendência de querer encontrar para si um fundamento. Trata-se de um desejo de ser o outro a quem a tendência visa e que, diferentemente dela, é algo. Por esse caminho, a consciência esquece seu vazio constitutivo e identifica-se com alguma forma de ser. Sartre chamava isso de má-fé. Quando assumimos alguma propriedade, como uma profissão, e definimo-nos a partir dela, estamos diante da má-fé. Ela não provém de um juízo de valor sobre a propriedade a que aderimos, mas da negação do vazio que constitui a nossa subjetividade. Para Sartre, dado o aspecto absurdo que nos caracteriza, podemos dizer que nossa existência precede nossa essência. Não há nada que possamos dizer de nossa subjetividade além da vida que ela leva. O que está implicado aí é o seguinte: como o sujeito é um nada, ele também possui uma liberdade absoluta, já que nada o determina de antemão. A má-fé, portanto, é má ao negar a nossa própria liberdade. No pensamento de Sartre, devido à ausência de qualquer fundamento, apenas os nossos atos concretos podem nos definir e justificar a nossa vida. A consequência disso é não existir qualquer fundamento absoluto que possa nos eximir de tomar as decisões que constroem a nossa vida. A existência, em última instância, significa o exercício da liberdade a que estamos condenados. Por conta disso, até negar essa liberdade por meio da má-fé constitui uma escolha dos sujeitos. Assim, “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”, já cantou o famoso pagode. O existencialismo é um humanismo Veja, neste vídeo, o pensamento de Sartre no contexto do início do século XX. Michel Foucault Foi um filósofo francês (1926-1984) que investigou as formas de saber, de poder e de subjetivação que, com ênfase na Modernidade, desenvolveram-se na história do Ocidente. A verdade de um sujeito e o que importa na vida, como viver adequadamente, são questões que perpassam toda a humanidade. Para Foucault, a forma como esses problemas se colocam varia conforme a situação histórica. Além disso, a face ética da filosofia foucaultiana não se desenvolve sem uma articulação com outros dois grandes temas de sua obra. Veja quais são! ● Processos de subjetivação. ● Formas de poder e saber que constituem os sujeitos. Os processos de subjetivação produzem-se diante de formas de poder que dominam e delimitam a capacidade dos sujeitos. Por sua vez, as formas de poder não deixam de desenvolver-se com o auxílio de saberes e conhecimentos que se constroem em determinado momento histórico. Para Foucault (2012), o saber não é simplesmente o conhecimento da realidade, que pode ser produzido em qualquer condição. O que chamamos de “ciência” era pensado pelo filósofo como um conjunto de relações de diversos discursos em determinado momento histórico. É a partir da maneira como esses discursos se organizam e do modo como eles estabelecem suas relações de diferença, de oposição e de distância, entre outros, que se constitui a divisão entre o que é um pensamento científico e o que não é. Nesse caso, a configuração específica dos discursos é responsável por determinar o que pode ser objeto do conhecimento em determinado contexto. Esse jogo não se dá no vácuo, pois é possível observar que o discurso científico está sempre associado a um jogo de poder. Os saberes de determinado período são mobilizados no desenvolvimento das formas de poder do momento. Como Foucault não pensa o poder em termos clássicos, esse deslocamento que torna o conceito tão relevante no campo ético. No primeiro volume de História da sexualidade (2020), Foucault afirmou que o poder que ele procurava descrever não é o exercido por governos ou Estados. Interessava-lhe o poder enquanto algo que constitui as próprias relações sociais como um todo, de modo que todas as relações entre as partes sejam relações de poder. Atenção Para Foucault, o poder não é algo impeditivo. Pelo contrário: ele é produtivo. As relações de poder existem não à medida que “não se pode” fazer algo, mas apenas quando “se força a fazer alguma coisa”. O poder, como Foucault não se cansava de repetir, produz. Ele sempre é uma ação sobre a de outro. Podemos entender melhor a relação entre saber e poder a partir das formulações feitas por Foucault em Vigiar e punir (2014). Nessa obra, o filósofo elaborou o retrato da gênese de uma sociedade disciplinar no continente europeu a partir do século XVIII. Isso era diferente da situação anterior, na qual o poder se organizou a partir da soberania do rei. Se essa transformação aconteceu foi devido ao momento em que o mundo se transformava. A industrialização desse período precisava cada vez mais de trabalhadores que pudessem ocupar postos nas fábricas. Um dos principais focos da sociedade passou a ser a produção de um tipo de cidadão específico e apto a ocupar o lugar de trabalhador fabril, da maneira mais eficiente possível. O Estado começou a ocupar-se cada vez mais de um controle sobre a vida da população para maximizar a sua capacidade produtiva. Para conseguir dar forma à vida dos indivíduos, ao longo dos séculos XVIII e XIX na Europa, a disciplina da sociedade foi realizada para permitir o controle de parte da população. Dois mecanismos foram empregados para esse fim, confira! ● Poder disciplinar. ● Controle biopolítico. Ainda que Foucault estabelecesse uma distinção entre essas duas práticas, é possível observar como uma está relacionada à outra. Veja. Poder disciplinar Diz respeito ao controle de indivíduos. Poder biopolítico Trata do controle populacional. O poder biopolítico procura constituir indivíduos (subjetividades) submissos aos interesses do governo por meio do controle populacional ou da apropriação de técnicas disciplinares que deixam seus corpos domados. Se é possível dizer que essas técnicas disciplinares misturam-se ao poder biopolítico é porque a maneira como elas se espalham em diversos meios produz corpos dóceis em todas as áreas de uma população. Porém, isso não quer dizer que elas tenham sido criadas com a finalidade de atenderaos interesses de um governo. As técnicas disciplinares surgiram de maneira autônoma e sem qualquer objetivo superior que orientasse seu desenvolvimento. Contudo, à medida que o tipo de corpo que elas produzem interessa ao Estado, essas técnicas passam a ser incorporadas em seus mecanismos de controle. Michel Foucault Atenção