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RECUPERAÇÃO E FALÊNCIA 
RECUPERAÇÃO DE EMPRESAS 
UNIDADE 01 
Paula Muzzi 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1 Recuperação de Empresas 
A recuperação empresarial surge da necessidade do Direito em criar mecanismos para 
que as empresas em crise pudessem se reestabelecer e retornar ao mercado em 
condições de competir. O instituto trouxe um novo olhar sobre a atividade empresária, 
que não mais se limita somente à figura do sócio, acionista ou investidor: ela também 
passou a ser vista como uma fonte produtora, geradora de empregos, coletiva e 
ambientalmente responsável e integrante de uma ordem econômica muito mais ampla. 
Por isso, o Direito atua para remediar os problemas e tentar encontrar soluções para as 
crises organizacionais, no caso delas aparecerem. Essa crise pode se manifestar de pelo 
menos três formas, segundo Coelho (2012): 
 
Crise econômica 
Quando as vendas deixam de ser suficientes para a manutenção do negócio. 
Financeira 
Quando falta dinheiro em caixa para a empresa conseguir pagar as suas obrigações. 
 
Patrimonial 
Quando o ativo (rendimentos) se torna menor que o passivo (saídas) e as dívidas superam os 
bens da empresa. 
As adversidades pelas quais passa uma empresa, contudo, podem não se restringir ao 
âmbito da atividade empresária e aos prejuízos suportados pelos sócios e investidores 
(que alocaram recursos no desenvolvimento de um negócio) e pelos credores (que 
enfrentarão dificuldades na satisfação de seu crédito). Muito mais do que isso, a crise 
empresária pode significar a extinção de cargos de trabalho, a diminuição de 
investimentos para o desenvolvimento de um território, deficiências e encarecimento na 
oferta de produtos ou serviços para a população e a diminuição da arrecadação de 
tributos. 
 
FIQUE DE OLHO 
Uma das primeiras decisões envolvendo recuperação judicial de empresas surgiu em 
1934 nos Estados Unidos para atenuar os efeitos da crise provocada pela da Bolsa de 
Valores de Nova York, em 1929, segundo Coelho (2012). Em outros lugares do mundo 
demorou um pouco mais para o instituto ser introduzido na lei. Na França foi somente 
em 1987. Na Itália, no fim dos anos 1970 (sob a denominação “administração 
extraordinária). Em Portugal, em 1976 (com a “declaração da empresa em situação 
econômica difícil”, que, mais tarde, daria origem ao Código dos Processos Especiais de 
Recuperação da Empresa e da Falência). No Brasil, a Lei de Falência de 2005 
introduziu o procedimento da recuperação de empresas, em substituição à concordata 
(COELHO, 2012). 
No Brasil, a recuperação de empresas foi inserida no ordenamento jurídico em 2005, 
com a entrada em vigor da Lei de Falências (Lei 11.101/2005). Na ocasião, dois 
mecanismos foram instituídos: 
 a recuperação judicial; 
 a recuperação extrajudicial. 
“A reorganização de atividades econômicas é custosa. Alguém há de pagar pela recuperação, 
seja em forma de investimentos no negócio em crise, seja na de perdas parciais ou totais de 
crédito. Em última análise, como os principais agentes econômicos acabam repassando aos seus 
respectivos preços as taxas de riscos associados à recuperação judicial ou extrajudicial do 
devedor, o ônus da reorganização das empresas recai na sociedade brasileira como um todo. O 
crédito bancário e os produtos e serviços oferecidos e consumidos ficam mais caros porque 
parte dos juros e preços se destina a socializar os efeitos da recuperação de empresas 
(COELHO, 2012, p. 251/252).” 
Apesar disso, a própria lei traz algumas exceções a quais não cabem aplicar a 
recuperação de empresas. O art. 2º da Lei de Falências enumera os tipos que são 
exceção ao instituto: 
 empresa pública 
 sociedade de economia mista 
 instituição financeira pública ou privada 
 cooperativa de crédito 
 consórcio 
 entidade de previdência complementar 
 sociedade operadora de plano de assistência à saúde 
 sociedade seguradora 
 sociedade de capitalização 
 outras entidades legalmente equiparadas às anteriores. 
Assim, a ingerência do Direito deve se limitar aos casos em que atividade empresária se 
mostre viável, pois, só assim, a empresa recuperada estaria apta para atender à sua 
função social. 
2 O princípio da função social 
O conceito de função social surgiu, inicialmente, voltado às questões da propriedade 
privada. O mundo vivia um contexto de migração: passava do Estado Liberal (que 
primava pela fruição absoluta dos direitos subjetivos e pela diminuta intervenção do 
Estado nas relações privadas) para o Estado Social (que busca garantir a propriedade 
privada e a liberdade de iniciativa, sem negligenciar, contudo, os interesses da 
sociedade como um coletivo). 
A ideia da função social da propriedade privada foi, então, se alastrando para outros 
ramos do direito. Nos contratos, por exemplo, deu início a discussões sobre a liberdade 
de contratar, a boa-fé contratual e o uso de ferramentas de mitigação de desigualdades 
substanciais entre os contratantes. 
Não tardou que o conceito chegasse também à atividade empresária. Em um primeiro 
momento, no entanto, ele estava atrelado e um aspecto mais patrimonial e ligado aos 
bens de produção, de forma a promover alterações estruturais para atender a interesses 
de empregados, consumidores e da coletividade em geral. 
2.1 A função social da empresa 
Com o tempo, a função social passou a atingir o controle e a administração das 
empresas, entendendo que a gestão deveria estar alinhada com os anseios e necessidades 
coletivas e atender às regras da concorrência. Isso tudo de forma a garantir os direitos 
dos consumidores, a busca pelo pleno emprego e prática da defesa do meio ambiente - 
princípios norteadores da ordem econômica nacional e elencados no art. 170 da 
Constituição da República de 1998. 
A função social da empresa, portanto, surge do atendimento a esses princípios 
constitucionais, cujo compromisso é proporcionar benefícios para todos os indivíduos 
que estejam envolvidos direta e indiretamente na atividade. Assim, diante desta previsão 
constitucional, surge para o Estado o interesse em promover a regulação legislativa de 
tais princípios, de forma a garantir-lhes efetividade. 
Foi assim que, dois anos depois, nasceu o Código de Defesa do Consumidor (CDC), que 
concretiza a previsão trazida pelo inciso V do art. 170. Em 2000, o Estado brasileiro 
criou também a Lei 10.101/2000, que garante participação dos trabalhadores nos lucros 
empresariais, regulando o inciso VIIII do art. 170 e o art. 7º da Constituição Federal, e 
também o parágrafo único do art. 140 da Lei das Sociedades Anônimas (Lei 
6.404/1976), que passou a admitir as sociedades anônimas contem com representantes 
dos trabalhadores no seu Conselho de Administração. 
 
É certo, contudo, que o sentido de função social da empresa não se esgota nos princípios 
trazidos pelo art. 170 da Constituição. O alcance dela também implica, muitas vezes, em 
ampliar ou modificar o interesse social da sociedade empresária para abranger todos 
aqueles afetados pela atividade. Esse interesse social “é o parâmetro que conforma os 
fins e os meios pelos quais tal atividade deve ser exercida, diante dos valores ou 
objetivos maiores que justificam a existência da própria sociedade” (FRAZÃO, 2018, 
s./p.). 
Segundo Perlingieri (1984), a função social da empresa não serve para representar 
apenas uma forma meramente limitadora. Ela também assume uma dimensão ativa, que 
conduz a criação de deveres positivos a serem observados pelos gestores. Isso pode ser 
efetivado de diversas maneiras, como, por exemplo: 
 
1 - normas imperativas a serem observadas pelos gestores. 
2 - incentivo para desenvolvimento de programas filantrópicos. 
3 - implementação de modelos de co-gestão em que trabalhadores são internalizados nos 
Conselhos de Administração (como acontece com a possibilidade trazida pelo art. 154 da Lei 
das SAs). 
 
É o caso, por exemplo, dos arts. 129 e seguintes da Lei de Falências que limita os atos 
de gestãoem prol da proteção dos credores, e dos arts. 54 e 83, inciso I, que protege 
detentores de créditos oriundos da legislação trabalhista. 
No entanto, além dessa faceta positiva, a função social da empresa também apresenta 
uma dimensão negativa. Isso porque ela limita o exercício de direitos subjetivos e de 
liberdades que, embora estejam em conformidade com o direito (sejam lícitos), são 
contrários ao fim social assumido pela sociedade empresária. Esse lado negativo do 
princípio costuma estar muito atrelado à figura do abuso de direito, cujos atos possuem 
trajes de licitude, mas, por outro lado, culminam em um prejuízo aos interesses da 
coletividade. 
3 A evolução da Lei de Falências no Brasil 
A concordata era o instituto jurídico que antecedeu a recuperação de empresas. Ela 
surgiu com o objetivo de solucionar a questão da insolvência de uma empresa e 
representava uma saída para a situação de endividamento como forma de evitar a 
decretação da falência e suspender seus efeitos. 
A antiga Lei de Falências (Decreto-Lei 7.661/1945), em vigor no país antes de 2005, 
definia as espécies de concordata no seu art. 139: 
 
“Art. 139 - A concordata é preventiva ou suspensiva, conforme for pedida em juízo antes ou 
depois da declaração de falência.” 
A concordata preventiva era aquela requerida para prevenir a decretação da falência do 
devedor comerciante. E a suspensiva era concedida já no decorrer do processo 
falimentar, logo após a sentença declaratória da quebra, para evitar a liquidação 
imediata da empresa e, assim, suspender a falência e proporcionar ao comerciante a 
oportunidade de se reestabelecer. Assim, ao sustar os efeitos danosos da falência, a 
concordata suspensiva permitia ensejar “melhor forma de pagamento aos credores (em 
lugar da venda dos bens pela melhor oferta ou em leilão), ao mesmo tempo que, 
evitando a liquidação do estabelecimento, possibilita a continuidade da empresa” 
(ALMEIDA, 1996, p. 422). 
A concordata se dividia em três subgrupos: 
Moratória ou dilatória : Quando o devedor requeria dilação de prazo para que 
pudesse pagar a dívida em sua integralidade. 
 
Remissória: Quando o devedor objetivava obter um desconto no valor do débito, por meio da 
negociação com os próprios credores. 
Mista ou dilatória-remissória: Quando a ideia era obter ambos os efeitos ao mesmo tempo. 
Com a suspensão das cobranças, a empresa ficava mais capitalizada e poderia se 
reorganizar para, dentro do prazo concedido, gerar a receita necessária para quitação do 
seu passivo. Mas caso isso não acontecesse, a falência seria decretada com a liquidação 
dos seus bens para pagamento das dívidas contraídas. 
A exposição de motivos do Decreto-Lei 7.661/1945 qualificava a concordata como um 
verdadeiro favor judicial (BRASIL, 1945). Esse era o entendimento de sua natureza 
jurídica processual, uma vez que não havia um acordo ou um contrato com os credores, 
apenas um pedido destinado ao juízo e que poderia vir a ser acatado, caso houvesse 
atendimento aos requisitos imposto pela lei. Na concordata, portanto, era o magistrado 
quem possuía amplos poderes de decisão para deferir ou não o requerimento – e não os 
credores, como acontece hoje. 
O pedido de concordata tinha o desejo de congelar o valor do débito, o que, em um 
período em que a inflação no Brasil crescia desenfreadamente, favorecia amplamente o 
devedor na solução dos problemas financeiros de sua empresa, tornando possível que os 
pagamentos fossem realizados nos prazos fixados. Caso contrário, quando chegava a 
data para a quitação do débito, o montante cobrado estava absolutamente depreciado, 
aumentando sensivelmente a possibilidade de solução. 
A questão, portanto, é que o objetivo da concordata se restringia a evitar a falência. Ela 
não se ocupava em promover a efetiva recuperação da empresa e, muito menos, de 
ajudá-la a se reinserir no mercado de forma apta a participar da concorrência que o rege. 
3.1 O advento da Lei 11.101/2005 
A Lei 11.101/2005 representa um verdadeiro divisor de aguas ao estabelecer os novos 
regimes da recuperação judicial e extrajudicial em substituição da concordata, que foi 
extinta com a chegada desse novo ordenamento. 
Desde então, o Brasil possui duas medidas judiciais voltadas para a recuperação da 
empresa em crise: a recuperação judicial e a homologação judicial do acordo de 
recuperação extrajudicial. 
A diretriz mestra do legislador ao estabelecer mecanismos de recuperação é atender às 
normas constitucionais que preveem a função social da propriedade e o incentivo à 
atividade econômica previstas no inciso II do art. 170 e no art. 174 da Constituição 
Federal, respectivamente (NEGRÃO, 2013). Ou seja, é das normas constitucionais que 
decorre o objetivo da recuperação de empresas: “fonte produtora, emprego dos 
trabalhadores e interesses dos credores” (NEGRÃO, 2013, p. 158). 
Para Coelho (2012, p. 403/404), ambas objetivam buscar “o saneamento da crise 
econômico-financeira e patrimonial, preservação da atividade econômica e dos seus 
postos de trabalho, bem como o atendimento aos interesses dos credores”. 
Além disso, a Lei de Falências traz o conceito de empresa como o “exercício da 
atividade empresarial”, de forma a distingui-lo, indiretamente, da figura do empresário, 
conforme lembra Negrão (2013, p. 158). Isso significa o principal ponto de virada da 
legislação: concentrar toda a tutela à empresa e não ao seu condutor, visão que a faz se 
distanciar das legislações que a precederam e que tentavam, em verdade, promover a 
recuperação do devedor, empresário, titular da empresa e não da atividade em si 
(NEGRÃO, 2013). 
3.2 As diferenças entre a recuperação de empresas e a concordata 
Enquanto a concordata buscava evitar ou suspender a falência, a recuperação e 
empresas objetiva a preservação da empresa e a manutenção dos interesses dos 
credores, dos empregados e da sociedade como um todo. 
O quadro a seguir faz uma breve comparação entre os institutos: 
 
 
4 Pressupostos da recuperação judicial 
A recuperação judicial é um processo judicial específico que pressupõe a prática de atos 
judiciais. Justamente por consistir em procedimento desenvolvido em juízo sobre 
regramentos postos na legislação, entende-se que sua natureza jurídica é de ação 
judicial. Consequentemente, se atribui ao plano de recuperação judicial a natureza 
de negócio jurídico processual, uma vez que se realiza ao longo de um processo e se 
submete à homologação judicial. 
O mesmo se aplica no caso do acordo de recuperação extrajudicial, que, embora seja 
realizado de forma administrativa, ainda depende da homologação judicial. Isso porque 
o acordo, propriamente dito, é estabelecido dentro do âmbito judicial, com 
procedimento e requisitos específicos pré-definidos em lei. 
Pelos mesmos motivos, a concordata também possuía natureza jurídica de ação judicial. 
O único instituto que foge a essa regra, apresentando natureza jurídica diversa, é a 
recuperação extrajudicial não homologada – que, como o próprio nome diz, consiste em 
mero acordo entre as partes. 
Assim, é preciso que a empresa esteja de acordo com alguns requisitos específicos para 
pleitear a recuperação judicial. Todos eles estão definidos no art. 48 da Lei 
11.101/2005. 
O principal deles envolve o registro regular da empresa. O devedor, portanto, deve 
provar que está exercendo regulamente as suas atividades empresárias há pelo menos 
dois anos. Esse é o período mínimo para que ele possa estar apto a pedir a sua 
recuperação. Ao determinar essa condição, a legislação pretendia evitar que empresários 
sem registro nos órgãos competentes conseguissem pleitear a sua recuperação. Afinal, o 
empresário que sequer conseguiu superar as primeiras dificuldades de implementação 
de seu negócio certamente não estará habilitado a prosseguir em sua atividade. 
O segundo requisito diz respeito às condições de falências já sofridas anteriormente pelo 
mesmo empresário. Para requerer a recuperação nestes casos, ele precisa provar,no 
momento do pedido, que as suas obrigações e responsabilidades como falido já tenham 
sido declaradas extintas por sentença. 
O terceiro requisito, na mesma linha do anterior, compreende os pedidos de recuperação 
já feitos no passado. 
O devedor, no caso, não pode ter obtido outra recuperação judicial há menos de cinco 
anos, conforme preconiza os incisos II e III do art. 48. A ideia dos legisladores é 
reforçar o fato de que o instituto da recuperação visa a sanar crise temporária, o que não 
condiz com a necessidade de socorrer-se de tempos em tempos a essa proteção. Pelo 
contrário, isso só evidencia que os problemas pelos quais a empresa passa são perenes, 
insuperáveis e a recuperação não se presta a promover a recuperação de empresas 
inviáveis. 
O último requisito envolve o fato do devedor não ter sido condenado nos crimes de 
natureza falimentar previstos na mesma Lei 11.101/2005, assim como também o seu 
sócio administrador ou o seu controlador. 
FIQUE DE OLHO 
Alguns autores fazem severa crítica acerca deste último requisito por entenderem que ele 
penaliza a empresa em si, enquanto deveria atingir apenas à pessoa do dirigente que cometeu o 
ilícito (seja o titular da empresa individual, o seu administrador ou o seu controlador). 
 
4.1 Legitimidade ativa 
O ordenamento jurídico brasileiro autoriza apenas o devedor a requerer a própria 
recuperação judicial, nos termos do art. 48 da Lei 11.101/2005. 
A única exceção diz respeito ao devedor já falecido. Neste caso, poderão pugnar pela 
recuperação judicial em seu nome o cônjuge, os herdeiros, o inventariante ou, ainda, o 
sócio remanescente (que assumiu a empresa em seu lugar). 
Assim, o procedimento de recuperação judicial só será deflagrado por opção do 
devedor. Pouco importa se seus credores ou empregados assim desejem (Coelho, 
2012). 
Coelho (2013, p.430) ainda ressalta uma questão curiosa sobre a temática: o legitimado 
ativo para o processo de recuperação judicial coincide com o legitimado passivo para o 
processo de falência. Isto porque, “somente quem está exposto ao risco de ter a falência 
decretada pode pleitear o benefício da recuperação judicial”. 
4.2 Créditos submetidos 
A lei orienta que o plano de recuperação de uma empresa englobe todos os créditos 
existentes na data da propositura da ação. E isso independe deles estarem vencidos ou 
não. A determinação está no art. 49 da Lei de Falências, onde se vê: 
 
Art. 49. Estão sujeitos à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, 
ainda que não vencidos (BRASIL, 2005). 
 
Ocorre que o próprio artigo prevê também algumas exceções. O parágrafo 3º, por 
exemplo, contempla os chamados credores de domínio e o parágrafo 4º cuida da 
recuperação dos créditos decorrentes de adiantamento por contrato de câmbio. 
 
§ 3º Tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou 
imóveis, de arrendador mercantil, de proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos 
respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em 
incorporações imobiliárias, ou de proprietário em contrato de venda com reserva de domínio, 
seu crédito não se submeterá aos efeitos da recuperação judicial e prevalecerão os direitos de 
propriedade sobre a coisa e as condições contratuais, observada a legislação respectiva, não se 
permitindo, contudo, durante o prazo de suspensão a que se refere o § 4º do art. 6º desta Lei, a 
venda ou a retirada do estabelecimento do devedor dos bens de capital essenciais a sua atividade 
empresarial. 
§ 4º Não se sujeitará aos efeitos da recuperação judicial a importância a que se refere o inciso II 
do art. 86 desta Lei (BRASIL, 2005). 
O inciso II do art. 86, por sua vez, prevê: 
Art. 86. Proceder-se-á à restituição em dinheiro: 
I – se a coisa não mais existir ao tempo do pedido de restituição, hipótese em que o requerente 
receberá o valor da avaliação do bem, ou, no caso de ter ocorrido sua venda, o respectivo preço, 
em ambos os casos no valor atualizado; 
II – da importância entregue ao devedor, em moeda corrente nacional, decorrente de 
adiantamento a contrato de câmbio para exportação, na forma do art. 75, §§ 3º e 4º , da Lei nº 
4.728, de 14 de julho de 1965, desde que o prazo total da operação, inclusive eventuais 
prorrogações, não exceda o previsto nas normas específicas da autoridade competente 
(BRASIL, 2005). 
 
Antes disso, os arts. 6 e 7 da mesma lei mencionam que os créditos de natureza fiscal 
também estão excluídos da recuperação. 
Contudo, é importante ter claro que o conteúdo do art. 68 - que prevê que as Fazendas 
Públicas e o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) podem deferir o 
parcelamento dos seus créditos em sede de recuperação judicial - já foi, há muito, 
superada pela jurisprudência. 
4.3 Créditos trabalhistas 
Embora estejam sujeitos à recuperação, os créditos trabalhistas possuem algumas 
peculiaridades, especialmente no que diz respeito ao prazo para o seu pagamento. Diz o 
art. 54 da Lei 11.101/2005: 
Art. 54. O plano de recuperação judicial não poderá prever prazo superior a 1 (um) ano para 
pagamento dos créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de 
trabalho vencidos até a data do pedido de recuperação judicial. 
Parágrafo único. O plano não poderá, ainda, prever prazo superior a 30 (trinta) dias para o 
pagamento, até o limite de 5 (cinco) salários-mínimos por trabalhador, dos créditos de natureza 
estritamente salarial vencidos nos 3 (três) meses anteriores ao pedido de recuperação judicial 
(BRASIL, 2005). 
 
Assim, pode-se afirmar que a verificação e a habilitação de créditos trabalhistas na 
recuperação de empresas segue o mesmo procedimento estabelecido para a falência. 
FIQUE DE OLHO 
Ainda que os créditos trabalhistas estejam sujeitos à recuperação, a apuração de sua 
existência e a sua quantificação serão promovidas perante a Justiça do Trabalho a qual 
foi atribuída competência constitucional e inderrogável para tal. 
5 Meios para recuperação judicial e seus efeitos 
A legislação apresenta 16 soluções diferentes para a empresa em crise poder aplicar a 
recuperação judicial. A ideia é oferecer ao devedor variadas possibilidades de elaborar o 
seu plano de recuperação, de acordo com a melhor estratégia para solucionar a crise em 
que se encontra. Dentre as opções, ele poderá escolher se as utiliza de forma isolada ou 
combinada. 
Todos os meios, meramente explicativos, estão elencados no art. 50 da Lei 11.101/2005. 
Art. 50. Constituem meios de recuperação judicial, observada a legislação pertinente a cada 
caso, dentre outros: 
I – concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações vencidas ou 
vincendas; 
II – cisão, incorporação, fusão ou transformação de sociedade, constituição de subsidiária 
integral, ou cessão de cotas ou ações, respeitados os direitos dos sócios, nos termos da 
legislação vigente; 
III – alteração do controle societário; 
IV – substituição total ou parcial dos administradores do devedor ou modificação de seus órgãos 
administrativos; 
V – concessão aos credores de direito de eleição em separado de administradores e de poder de 
veto em relação às matérias que o plano especificar; 
VI – aumento de capital social; 
VII – trespasse ou arrendamento de estabelecimento, inclusive à sociedade constituída pelos 
próprios empregados; 
VIII – redução salarial, compensação de horários e redução da jornada, mediante acordo ou 
convenção coletiva; 
IX – dação em pagamento ou novação de dívidas do passivo, com ou sem constituição de 
garantia própria ou de terceiro; 
X – constituição de sociedade de credores; 
XI – venda parcial dos bens; 
XII – equalização de encargos financeiros relativos a débitos de qualquer natureza, tendo como 
termo inicial a data da distribuição do pedido de recuperação judicial, aplicando-se inclusive aos 
contratos de crédito rural, sem prejuízo do disposto em legislação específica;XIII – usufruto da empresa; 
XIV – administração compartilhada; 
XV – emissão de valores mobiliários; 
XVI – constituição de sociedade de propósito específico para adjudicar, em pagamento dos 
créditos, os ativos do devedor (BRASIL, 2005). 
 
Como se pode apreender da lista, a empresa conta com possibilidades diversificadas, 
desde meios dilatórios para pagamento dos débitos (soluções que se limitam a estipular 
um prazo e uma condição melhor para pagamento) até meios que buscam solucionar o 
problema com foco no seu próprio perfil subjetivo da empresa. 
Segundo Coelho (2013, p. 407), o art. 50 da Lei de Falências traz 
instrumentos financeiros, administrativos e jurídicos que normalmente são empregados na 
superação de crises em empresas. Os administradores da sociedade empresária interessada em 
pleitear o benefício em juízo deve analisar, junto com o advogado e demais profissionais que o 
assessoram no caso, se entre os meios indicados há um ou mais que possam mostrar-se eficazes 
no reerguimento da atividade econômica. Como se trata de lista exemplificativa, outros meios 
de recuperação da empresa em crise podem ser examinados e considerados no plano de 
recuperação. Normalmente, aliás, os planos deverão combinar dois ou mais meios, tendo em 
vista a complexidade que cerca as recuperações empresariais. 
 
 ISSO AÍ! 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
 aprender que existem dois tipos de recuperação de empresas na legislação brasileira 
atual; 
 compreender que a crise de uma empresa pode ser econômica, financeira ou patrimonial; 
 entender a evolução existente entre os institutos legais que visavam proteger a empresa; 
 compreender o conceito de função social e a sua relação com o papel da empresa na 
sociedade; 
 conhecer os créditos que podem ser submetidos à recuperação judicial. 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, A. P. Curso de falência e concordata. 14 ed. São Paulo: Saraiva, 1996. 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: 
. Acesso em: 19 fev. 
2020. 
_____. Decreto-Lei 7.661, de 21 de junho de 1945. Lei de Falências. Disponível em: 
. Acesso em: 19 fev. 2020. 
_____. Lei 11.101, de 9 de fevereiro de 2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a 
falência do empresário e da sociedade empresária. Disponível em: 
. Acesso 
em: 19 fev. 2020. 
COELHO, F. U. Curso de Direito Comercial. 13 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 
FILHO, M. J. B. F. Recuperação empresarial e falência. 2 ed. São Paulo: Thomson Reuters 
Brasil, 2018. 
FRAZÃO, A. Função social da empresa. Enciclopédia Jurídica da PUCSP, ed.1, jul. 2018. 
Disponível em: . Acesso em: 19 fev. 2020. 
NEGRÃO, R. Manual de direito comercial de empresa. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 
PERLINGIERI, P. O direito civil na legalidade constitucional. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora 
Renovar, 1984.

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