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Norma Processual
Prof. Dr. Edson Barbosa de Miranda Netto
Normas processual - tópicos da aula
Objeto e natureza da norma processual.
Fontes da norma processual.
Lei processual no espaço.
Lei processual no tempo.
Interpretação da norma processual.
Objeto e natureza da norma processual
Conceito: dispositivo jurídico que busca disciplinar o exercício da jurisdição e do seu instrumento (processo judicial).
Tipos ou classes de normas processuais:
Normas de organização judiciária.
Normas processuais.
Normas procedimentais.
Objeto e natureza da norma processual
Objeto:
As normas processuais regulamentam a forma pela qual o direito material será exercido em juízo.
Não se confundem com normas de direito material, pois tratam dos procedimentos e da atividade processual, e não do direito subjetivo em si.
Objeto e natureza da norma processual
Natureza:
1) Autonomia – a norma processual é autônoma em relação ao direito material, embora estejam interligadas.
2) Instrumentalidade – o direito processual é visto como um instrumento para a realização do direito material.
3) Finalidade – busca garantir o devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF).
4) Normas cogentes – em regra, as normas processuais são de ordem pública, não podendo ser alteradas ou pactuadas pelas partes.
Fontes da norma processual
As fontes da norma processual são os meios ou formas por meio dos quais o direito processual se manifesta.
São os instrumentos que dão origem, estabelecem e organizam as normas que regulam o processo.
Elas indicam onde e como o conteúdo normativo é produzido e acessado, oferecendo a base para a aplicação do direito processual.
Fontes da norma processual
Tradicionalmente, a doutrina divide as fontes em:
Fontes primárias (diretas).
Fontes secundárias (indiretas).
Fontes da norma processual
Fontes primárias (diretas):
Constituição Federal: Define princípios fundamentais que orientam o processo (ex.: devido processo legal, contraditório).
Leis infraconstitucionais: Leis federais e estaduais, como o CPC, o CPP, a CLT, leis esparsas (ex.: Lei dos juizados especiais), regimentos dos tribunais etc.
Precedentes vinculantes dos Tribunais*: aproximação entre os sistemas de civil law e commom law.
Fontes da norma processual
Precedentes vinculantes dos Tribunais*:
Decisões do STF em controle concentrado de constitucionalidade;
Decisões em recursos extraordinários repetitivos no STF (art. 928, II, do CPC);
Decisões em recursos especiais repetitivos no STJ (art. 928, II, do CPC);
Incidentes de resolução de demandas repetitivas (arts. 985, § 1º, e art. 928, I, do CPC);
Incidentes de assunção de competência (art. 947, § 3º, do CPC).
Fontes da norma processual
Fontes secundárias (indiretas):
Jurisprudência: precedentes não vinculantes dos tribunais.
Doutrina: produção científica que orienta a interpretação da norma processual.
Costumes: embora menos relevantes, podem orientar a aplicação processual em casos omissos.
Lei processual no espaço
Princípio da territorialidade: as normas processuais de um país aplicam-se dentro do território nacional.
Art. 16 do CPC: “A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional, conforme as disposições deste Código”.
De modo excepcional, é possível haver a aplicação de lei processual estrangeira.
Lei processual no espaço
Art. 13 do CPC: “A jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras, ressalvadas as disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de que o Brasil seja parte”.
Art. 15 do CPC: “Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente”.
Lei processual no espaço
Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro:
“Art. 12. É competente a autoridade judiciária brasileira, quando for o réu domiciliado no Brasil ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação.
§ 1º Só à autoridade judiciária brasileira compete conhecer das ações relativas a imóveis situados no Brasil.
§ 2º A autoridade judiciária brasileira cumprirá, concedido o exequatur e segundo a forma estabelecida pela lei brasileira, as diligências deprecadas por autoridade estrangeira competente, observando a lei desta, quanto ao objeto das diligências”.
Lei processual no espaço
Os processos que correm no exterior e os atos processuais neles realizados não têm eficácia em território nacional. 
Para o Brasil, é como se tais processos não existissem, ainda que tenha sido proferida decisão por uma autoridade estrangeira. 
Para que essa decisão estrangeira se torne eficaz no Brasil, é preciso que haja homologação pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). 
As decisões judiciais vindas de países estrangeiros também não podem ser cumpridas no Brasil senão depois do exequatur do STJ.
Lei processual no espaço
Exequatur: autorização judicial emitida pelo STJ que permite que uma decisão estrangeira (judicial ou arbitral) produza efeitos no Brasil.
Fundamento legal: a competência para conceder o exequatur está prevista na CF de 1988 (art. 105, I, “i”), no CPC de 2015 (art. 961) e na Resolução nº 9/2005 do STJ, que regula os procedimentos para homologação de decisões estrangeiras.
Lei processual no tempo
Quando entra em vigor, uma nova lei processual encontra três tipos de processos:
Processos já encerrados.
Processo que não se iniciaram.
Processos que ainda estão em andamento.
Como é a aplicação da nova lei processual em relação ao tempo de cada um desses processos?
Lei processual no tempo
As duas primeiras situações não trazem maiores dificuldades.
Para os processos já extintos, não pode a lei processual retroagir para atingir situações jurídicas já consolidadas (princípio da segurança jurídica e proteção do ato jurídico perfeito).
Já os processos futuros (ainda não iniciados) serão inteiramente regidos pela lei nova.
Lei processual no tempo
Porém, a dificuldade fica por conta dos processos pendentes (em andamento). 
Regra geral, a lei processual aplica-se imediatamente, ou seja, desde o início da sua vigência, ela deve ser aplicada a todos processos em andamento. 
Porém, devem ser respeitados: I) atos processuais já realizados naquele processo; II) situações consolidadas de acordo com a lei anterior.
Lei processual no tempo
Princípio do tempus regit actum: a norma processual aplicável é a vigente no momento do ato processual.
Teoria do isolamento dos atos processuais: cada ato é regido pela norma vigente na data de sua prática.
Retroatividade: a norma processual, em regra, não retroage, salvo se expressamente previsto.
Lei processual no tempo
Ou seja, a norma nova processual aplica-se imediatamente aos processos em curso, sem invalidar os atos praticados anteriormente.
Pode haver ultra-atividade de normas antigas para resguardar atos praticados sob sua vigência. 
Art. 14 do CPC: “A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada”.
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
a) Literal ou gramatical;
b) Lógico;
c) Teleológico;
d) Histórico;
e) Sistemático.
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
a) Literal ou gramatical: a análise é centrada nos termos e significados das palavras, bem como na estrutura gramatical utilizada na norma.
Exemplo: O art. 219 do CPC prevê que: “na contagem de prazo em dias, computar-se-ão apenas os dias úteis”. Uma interpretação literal conduz à exclusão dos finais de semana e feriados da contagem dos prazos processuais.
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
b) Lógico: o foco é direcionado à coerência racional do texto normativo, buscando sentido lógico no contexto da norma.
Exemplo: A expressão “quem pode o mais, pode o menos” é aplicada ao poder investigatóriodo Ministério Público. Se o MP pode ajuizar uma ação penal (o mais), também pode realizar investigações preliminares (o menos).
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
c) Teleológico: A interpretação considera a finalidade e o objetivo da norma, ou seja, para que ela foi criada.
Exemplo: O art. 4º do CPC estabelece que o juiz deve promover a solução integral do mérito em tempo razoável. A interpretação teleológica indica que essa norma visa evitar a morosidade processual e garantir a efetividade da prestação jurisdicional.
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
d) Histórico: busca-se compreender a intenção original do legislador no momento da criação da norma, analisando o contexto histórico e jurídico vigente à época.
Exemplo: na criação do CPC de 2015, o legislador priorizou a conciliação e a mediação. A interpretação histórica dessa mudança aponta para um movimento legislativo em prol de métodos consensuais de solução de conflitos.
Interpretação das normas processuais
Métodos clássicos de interpretação:
e) Sistemático: A norma é interpretada à luz do sistema normativo como um todo, em harmonia com outras normas do ordenamento jurídico.
Exemplo: O princípio da cooperação no processo civil (art. 6º do CPC) deve ser lido em conjunto com os deveres de lealdade processual (art. 77 do CPC), garantindo-se que as partes e o juiz atuem de forma colaborativa durante o processo.
Sistema normativo
Interpretação de regras e princípios
Conforme as teorias do pós-positivismo jurídico, as normas jurídicas dividem-se em duas espécies:
Regras jurídicas;
Princípios jurídicos.
A depender do tipo de norma jurídica, a interpretação ocorrerá de forma diferente.
Interpretação de regras e princípios
Regras jurídicas: aplicação no estilo “tudo ou nada”. 
Não podem coexistir duas normas conflitantes no mesmo ordenamento jurídico (antinomia). 
Uma das duas deve deixar o ordenamento jurídico. 
Dimensão de validade.
Interpretação de regras e princípios
Princípios jurídicos: aplicação com base na ponderação do caso concreto. 
Podem coexistir dois princípios antagônicos. 
A partir da ponderação dos princípios no caso concreto, um deles prevalecerá naquela situação em análise. 
Dimensão de peso.
Estudo de caso
Uma lei municipal foi aprovada recentemente, estabelecendo a seguinte norma: “é proibido o uso de veículos motorizados em áreas de parques públicos destinados à recreação”. A intenção da norma é promover a tranquilidade e o lazer dos frequentadores dos parques. Um cidadão foi multado por andar de patins elétricos em um desses parques. Ele recorre da multa, alegando que os patins elétricos não se enquadram no conceito de “veículo motorizado” pois o motor é pequeno e os patins podem ser usados sem ativar o motor. Como você utilizaria três métodos clássicos de interpretação jurídica (literal, teleológico e sistemático) para emitir um parecer sobre esse caso?
Obrigado!
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