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DOI: 10.55905/cuadv17n4-114 Receipt of originals: 3/14/2025 Acceptance for publication: 4/04/2025 1 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Uso de plantas na atenção à saúde da criança por usuárias de Unidades Basicas de Saúde Use of plants in child health care by users of basic health units Uso de plantas em el cuidado de la salud infantil por los usuarios de unidades básicas de salud Giovana Mendes de Lacerda Leite Mestre em Bioprospecção Molecular Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: giovanalacerda@hotmail.com Maysa de Oliveira Barbosa Mestre em Entnobiologia e Conservação da Natureza Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: maysabarbosa.ce@gmail.com Cícero Damon Carvalho de Alencar Graduado em Enfermagem Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: damon_alencar@outlook.com Brenda Belém Luna Sampaio Mestre em Enfermagem Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: brenda.sampaio@urca.br Bruna Silva Souto Graduanda em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) Endereço: Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, CEP: 56.304-917, Petrolina - PE E-mail: bruna.ssouto@discente.univasf.edu.br Jadson Galdino da Silva Costa Graduando em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) Endereço: Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, CEP: 56.304-917, Petrolina - PE E-mail: jadson.silva@discente.univasf.edu.br mailto:giovanalacerda@hotmail.com mailto:maysabarbosa.ce@gmail.com mailto:damon_alencar@outlook.com mailto:brenda.sampaio@urca.br mailto:bruna.ssouto@discente.univasf.edu.br mailto:jadson.silva@discente.univasf.edu.br 2 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Valéria de Sousa Alves Ferreira Graduanda em Farmácia Instituição: Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau Petrolina) Endereço: Avenida Cardoso de Sá, 950, Vila Eduardo, Petrolina - PE, CEP: 56328-020 E-mail: valeriamed15@outlook.com Andreza Gysllaynny Delmondes Saraiva Graduanda em Enfermagem Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: andreza.delmondes@urca.br Paula Eloíse de Sousa Campos Graduada em Enfermagem Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) Endereço: Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, CEP: 56.304-917, Petrolina - PE E-mail: paula.eloise@discente.univasf.edu.br Simone Soares Damasceno Mestre em Enfermagem Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: simone.damasceno@urca.br Izabel Cristina Santiago Lemos Doutora em Etnobiologia e Conservação da Natureza Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: izabel.lemos@urca.br Cynthia Layse Ferreira Almeida Doutora em Ciências Farmacêuticas Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) Endereço: Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, Petrolina - PE, CEP: 56.304-917 E-mail: cynthia.almeida@univasf.edu.br Temístocles Ítalo de Santana Doutor em Ciências Farmacêuticas Instituição: Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau Petrolina) Endereço: Av. Cardoso de Sá, 950, Vila Eduardo, Petrolina - PE, CEP: 56328-020, Petrolina - PE E-mail: temistoclesitalo@gmail.com mailto:andreza.delmondes@urca.br mailto:paula.eloise@discente.univasf.edu.br mailto:simone.damasceno@urca.br mailto:izabel.lemos@urca.br mailto:cynthia.almeida@univasf.edu.br mailto:temistoclesitalo@gmail.com 3 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Marta Regina Kerntopf Doutora em Farmacologia Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Rua Cel. Antônio Luíz, 1161, Pimenta, Crato - CE, CEP: 63105-010 E-mail: marta.regina@urca.br Gyllyandeson de Araújo Delmondes Doutor em Química Biológica Instituição: Universidade Regional do Cariri (URCA) Endereço: Av. José de Sá Maniçoba, s/n, Centro, Petrolina - PE, CEP: 56304-917 E-mail: gyllyandeson.delmondes@univasf.edu.br RESUMO O uso de plantas medicinais tem se mostrado uma das práticas complementares mais utilizadas no cuidado à saúde humana. Assim, este trabalho teve como objetivo identificar as plantas e as formas de uso pelos cuidadores de crianças para as situações de saúde da primeira infância. Foi realizado um estudo do tipo descritivo-exploratório, de abordagem quantitativa com levantamento de dados etnobiológicos. A pesquisa foi realizada nas Unidades Básicas de Saúdes da zona urbana do município de Mauriti, Ceará, Brasil, entre agosto de 2017 e maio de 2018. Foram citadas 16 espécies utilizadas na medicina popular local no tratamento de situações de saúde da primeira infância. As cuidadoras destacaram a utilização do “coentro” (Coriandrum sativum L.) como principal planta utilizada no que se refere aos cuidados a saúde da criança, sendo utilizado, principalmente, para o tratamento de cólicas abdominais. As folhas foram mencionadas como a principal parte utilizada, e o chá (feito por decocção) foi o mais citado como forma de preparo. Este estudo mostrou-se relevante, pois demonstrou que na população estudada as plantas são utilizadas para situações de saúde da primeira infância, sendo esse conhecimento passado de geração para geração, porém há a necessidade de uma conscientização da população para evitar possíveis efeitos indesejados relacionados ao uso errado destas plantas. Palavras-chave: enfermagem, medicina tradicional, plantas medicinais, saúde da criança. ABSTRACT The use of medicinal plants has been indicated as one of the most used complementary practices in human health care. Thus, this work aimed to identify plants and the ways in which they are used by child caregivers for early childhood health situations. A descriptive-exploratory study was carried out, with a quantitative approach with ethnobiological data collection. The research was carried out in Basic Health Units in the urban area of the municipality of Mauriti, Ceará, Brazil, between August 2017 and May 2018. 16 species used in local folk medicine in the treatment of early childhood health situations were mentioned. The caregivers highlighted the use of “coriander” (Coriandrum sativum L.) as the mailto:marta.regina@urca.br mailto:gyllyandeson.delmondes@univasf.edu.br 4 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 main plant used in child health care, being used mainly for the treatment of abdominal cramps. The leaves were mentioned as the main part used, and tea (made by decoction) was the most cited as a preparation method. This study proved to be relevant, as it is demonstrated that in the population studied, plants are used for early childhood health situations, with this knowledge being passed from generation to generation, however there is a need for public awareness to avoid possible unwanted effects related to the incorrect use of these plants. Keywords: nursing, traditional medicine, medicinal plants, child health. RESUMEN El uso de plantas medicinales ha sido señalado como una de las prácticas complementarias más utilizadas en el cuidado de la salud humana. Así, este trabajo tuvo como objetivo identificar las plantas y las formas en que son utilizadas por los cuidadores infantiles para situaciones de salud de la primera infancia. Se realizóun estudio descriptivo-exploratorio, con enfoque cuantitativo con recolección de datos etnobiológicos. La investigación se desarrolló en Unidades Básicas de Salud del área urbana del municipio de Mauriti, Ceará, Brasil, entre agosto de 2017 y mayo de 2018. Se mencionaron 16 especies utilizadas en la medicina popular local en el tratamiento de situaciones de salud de la primera infancia. Los cuidadores destacaron el uso del “cilantro” (Coriandrum sativum L.) como principal planta utilizada en el cuidado de la salud infantil, siendo utilizado principalmente para el tratamiento de los calambres abdominales. Las hojas se mencionaron como la parte principal utilizada, y el té (elaborado por decocción) fue el método de preparación más citado. Este estudio resultó relevante, ya que se demuestra que en la población estudiada las plantas son utilizadas para situaciones de salud en la primera infancia, transmitiéndose este conocimiento de generación en generación, sin embargo existe la necesidad de concientizar a la población para evitar posibles efectos no deseados relacionados con el uso incorrecto de estas plantas. Palabras clave: enfermería, medicina tradicional, plantas medicinales, salud infantil. 1 INTRODUÇÃO A infância refere-se a um período que demanda cuidados essenciais ao desenvolvimento humano (Brasil, 2016). Olhando em um cenário global é possível observar quão gritante são os casos de crianças que morrem ao nascer ou logo em seguida; e outro fator relevante é que muitas das que sobrevivem 5 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 têm acesso restrito a atendimentos básicos, como saúde e educação (Penn, 2002). Nesta perspectiva, durante as consultas de enfermagem todas as particularidades das crianças devem ser levadas em consideração; desde suas necessidades pessoais até o contexto familiar e sociocultural em que ela está inserida. Sendo o fortalecimento das atribuições familiares destinadas à atenção com a criança uma das responsabilidades da enfermagem durante as consultas (Mello et al., 2017). E isto se mostra muito importante, pois é este contato mais direto que possibilita aos profissionais de enfermagem detectarem a presença da utilização de práticas complementares para o cuidado com a criança. Dentre essas práticas, quando discutimos os cuidados com a criança, a utilização de produtos naturais com fins medicinais destaca-se devido ao fácil acesso e por se tratar de uma terapia de baixo custo (Haeffener et al., 2012; Borges; Bautista, 2018). Esta é uma prática milenar ainda muito presente no cotidiano da sociedade que, mesmo com os avanços na tecnologia, não desapareceu, sendo seu uso citado por diversos grupos de pessoas (Oliveira et al., 2017; Szerwieski et al., 2017). Neste sentido, levando em consideração a crescente e frequente utilização de plantas para finalidades medicinais; e observando a grande diversidade de flora e fauna que o estado do Ceará possui; e que muitas comunidades deste estado permanecem fincadas em conhecimentos tradicionais que norteiam suas práticas; este estudo buscou, por meio de uma pesquisa etnodirigida, obter informações dos saberes populares sobre o uso de plantas com fins medicinais para situações de saúde na primeira infância. 2 METODOLOGIA Trata-se de um estudo do tipo descritivo-exploratório, estruturado a partir de uma pesquisa quantitativa, onde foi adotada a estratégia metodológica de levantamento de dados etnobiológicos descritivos para identificar as plantas e formas de uso destas pelos cuidadores de crianças. A pesquisa foi realizada no 6 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 período de agosto de 2017 a maio de 2018, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da zona urbana do município de Mauriti, Ceará, Brasil. O público-alvo do estudo compreendeu cuidadores de crianças na primeira infância, faixa etária de 0 a 5 anos de idade, que estavam cadastradas para acompanhamento pelas UBS pertencentes à zona urbana do munícipio de Mauriti/CE, Brasil. Para seleção dos cuidadores, foram estabelecidos como critérios de inclusão: aqueles que estavam cadastrados nos prontuários da família das UBS; que estavam presentes para a consulta de puericultura realizada pelos profissionais de saúde das referidas unidades; que compareceram a estas para vacinação das crianças nos dias em que foram realizadas a coleta dos dados; ou, também, através de uma visita em suas residências com o auxílio do Agente Comunitário de Saúde (ACS). Para coleta das informações, inicialmente, foi aplicado um questionário fechado para caracterização socioeconômica. E em seguida, foi utilizado um formulário etnodirigido, o qual buscava realizar o levantamento das plantas utilizadas em situações de saúde presentes na primeira infância, bem como suas principais partes utilizadas, formas de uso, preparo e determinação dos responsáveis pela transmissão do conhecimento popular. Para análise dos dados foi utilizado a estatística descritiva (frequência simples e percentual), sendo ainda calculados, também, a Importância Relativa (IR), o Fator de Consenso de Informante (FCI) e a Relative Frequency of Citation (RFC) – Frequência relativa de citação, a qual é obtida a partir da razão FC/N, onde FC representa o número de informantes que mencionaram o uso da espécie, e N o número total de informantes do estudo (Tardío; Santayana, 2008; Sales; Alencar, 2019). Para calcular a IR e o FCI, as plantas identificadas neste estudo foram distribuídas conforme as indicações terapêuticas, as quais podem ser atribuídas dentro das 16 categorias de Sistemas Corporais, descritas de acordo com (Albuquerque; Andrade, 2002) e (Cartaxo; Sousa; Albuquerque, 2010). As que surgiram no trabalho foram: (ADND) Afecções ou dores não definidas; (DMC) 7 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Desordens mentais e comportamentais; (TSD) Transtorno do Sistema Digestório; (TSR) Transtorno do Sistema Respiratório. O índice de IR é uma proposta fácil de ser utilizada e consiste em um método de estudo quantitativo desenvolvido por (Bennett; Prance, 2000) que leva em consideração, segundo (Silva et al. 2010, p.197) “a planta é mais importante quanto mais versátil, ou maior o número de indicações terapêuticas apresentar e quanto mais sistemas corporais pertencer” Nesta perspectiva, após identificação das plantas foi calculado a IR. Vale salientar que, o “2” é considerado o valor máximo que pode ser obtido por uma espécie (Silva et al. 2010; Albergaria; Silva; Silva, 2019). O cálculo da IR foi realizado conforme a seguinte fórmula: IR= NSC+NP (1) Onde: IR = Importância Relativa; NSC = número de sistemas corporais; NP = número de propriedades. O NSC é o número de sistemas corporais, o qual é determinado por uma determinada espécie (NSCE) dividido pelo número total de sistemas corporais tratados pela espécie mais versátil (NSCEV) e NP corresponde ao número de propriedades atribuídas a uma determinada espécie (NPE) dividido pelo número total de propriedades atribuídas a espécie mais versátil (NPEV) (Albuquerque; Andrade, 2002; Wilson, 2019). O FCI foi calculado de acordo com a técnica de Totter e Logan (1986). Este método identifica quais sistemas corporais apresentam maior consenso de conhecimento e/ou uso, e quais grupos de plantas requer estudos mais aprofundados (Almeida et al., 2006; Silva et al., 2010; Macêdo et al., 2018). Para o cálculo do FCI foi utilizada a seguinte fórmula: 8 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 FCI = nar−na 𝑛𝑎𝑟−1 (2) Onde: FCI = Fator de Consenso dos Informantes; nar = número de citações de usos em cada categoria; na = número de espécies indicadasem cada categoria. Os valores de FCI variam 0 a 1, e o valor máximo ocorre quando há um consenso completo entre os informantes a respeito das plantas para uma dada categoria em particular, onde as categorias de sistemas corporais utilizadas para a realização dos cálculos foram as mesmas utilizadas para calcular a IR (Martins; Soler, 2008; Almeida et al., 2017). O estudo seguiu todos os aspectos éticos requisitados para pesquisas com seres humanos, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Regional do Cariri (URCA) sob o parecer de n.º 2.684.508. 3 RESULTADOS 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA Participaram do estudo 14 cuidadoras, cujo perfil está apresentado na tabela a seguir (tabela 1). 9 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Tabela 1. Perfil dos informantes (cuidadores de crianças na primeira infância) da sede do município de Mauriti, CE. Local de residência Nº % Mauriti/CE (sede) 14 100 Sexo Feminino 14 100 Faixa Etária 20-29 30-39 50-69 7 4 3 50 28,57 21,43 Estado Civil Solteiro(a) Casado(a) União Estável 04 07 03 28,57 50 21,43 Escolaridade Não-Escolarizado Ensino Fundamental Incompleto Ensino Fundamental Completo Ensino Médio Incompleto Ensino Médio Completo Outros 03 01 02 - 08 - 21,43 7,14 14,29 - 57,14 - Profissão Agricultor(a) Agente Comunitário de Saúde Não trabalha 02 01 11 14,29 7,14 78,57 Tempo de Residência na Área Rich. 0,2 DMC: Desordens mentais e comportamentais 2/3 Calmante (3) Chamomilla recutita (L.) Rauschert., Melissa officinalis L. 0,5 TSR: Transtorno do sistema respiratório ¾ Gripe (3), tosse (1) Allium cepa L., Allium cepa L. + Lavandula officinalis; Chaix & Kitt, Malva sp. 0,33 13 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Figura 1. Forma como os informantes da zona urbana de Mauriti-CE (Brasil) adquiriram conhecimento acerca do uso de plantas para o tratamento de situações de saúde em crianças na primeira infância. Fonte: Autoria própria. 4 DISCUSSÃO 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA Observando a literatura publicada, concernente a temática de cuidados voltados às crianças, é possível observar que há uma semelhança entre essas pesquisas e o presente estudo no que diz respeito ao perfil dos cuidadores. O dado mais evidenciado relaciona-se à prevalência do sexo feminino entre os entrevistados, classificando especialmente as mães como principais cuidadoras de crianças. Este detalhe pode estar relacionado a construção histórica do cuidado, a qual é fincada na sua prática sendo desenvolvida historicamente pela população feminina (Martins; Soler, 2008; Santos et al., 2010; Frota et al., 2012; Melo, 2016; Figueiredo et al., 2017). Relacionado ao uso das plantas, foi possível observar no estudo de (Schwambach; Amador, 2007) que a maioria dos informantes (87,2%) também era do sexo feminino, evidenciando a apropriação que as mulheres possuem 14 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 sobre a utilização dos produtos naturais para fins medicinais, que prontamente são usados para ofertar o cuidado que é tão algo intrínseco da população feminina (Lopes et al., 2013; Batista et al., 2019.). Quanto à faixa etária, observa-se que as cuidadoras entrevistadas tinham uma prevalência de idade entre 20 a 29 anos (50%), divergindo de algumas pesquisas descritas na literatura, as quais mostravam que o perfil da grande maioria dos cuidadores está em uma faixa etária superior a 30 anos. Entretanto, isto pode estar ligado ao fato da maternidade na atualidade acontecer cada vez mais cedo devido ao início da vida sexual também de maneira precoce (Schwambach; Amador, 2007; Martins; Soler, 2008; Santos et al., 2010; Frota et al., 2012; Queiroga et al., 2014; Lima et al., 2016; Melo, 2016; Figueiredo et al., 2017). Referente à escolaridade, a maioria dos participantes (57,14%), relatou possuir o ensino médio completo, demonstrando algo semelhante ao que aconteceu na pesquisa de (Lopes et al. 2013) onde a maioria dos entrevistados possuíam ensino médio completo e curso técnico, e outros o ensino superior. Isto demonstra que a escolaridade, ou a falta dela, pode não ser regra que influencia em ter mais ou menos conhecimento referente ao uso de plantas com fins medicinais. Outra variável importante foi o tempo de residência na área da pesquisa, onde neste estudo a maioria da população (42,90%) relatou que reside entre 20 a 30 anos no local da pesquisa, corroborando com (Lemos et al. 2017) que também trazem um tempo de residência superior a 20 anos em seus dados. É importante ainda destacar que um maior tempo de residência em uma determinada comunidade pode estar relacionado a um maior conhecimento sobre as práticas tradicionais, visto que, quanto maior o tempo de residência, mais laços são criados, possibilitando assim a transmissão do saber popular. 15 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 4.1.1 Conhecimento tradicional: as plantas no cuidado a saúde da criança Observando a literatura, o “coentro” (C. sativum), espécie com maior RFC, tem ampla utilização para diversos sistemas corporais e situações de saúde há bastante tempo. Uma revisão da literatura feita por (Sahib et al. 2012) reuniu estudos que destacavam potenciais farmacológicos voltados para o tratamento de doenças do sistema digestivo, sistema nervoso central e respiratório. Estes dados apoiam outros estudos que também relatam diversas atividades para esta planta, como: antioxidante, efeito sedativo, atividade anti-helmintica e atividade hipoglicemiante; bem como potencial efeito na prevenção e diminuição de complicações cardiovasculares (Camargo; Scavone, 1978; Aissaoui et al., 2011; Marangoni; Moura, 2011; Gastón et al. 2016; Budeneck; Tolotti; Lenhard, 2018). Considerando o tratamento de cólicas abdominais como a principal indicação do C. sativum; apesar de alguns estudos apontarem atividades deste em diferentes distúrbios intestinais, não há evidências na literatura de sua eficácia contra cólicas; mostrando a necessidade da realização de pesquisas que possam validar sua utilização nestes problemas do trato gastrointestinal (TGI) (Sahib et al., 2012). Sobre as partes das plantas que foram mais utilizadas pela população do estudo, destacam-se as folhas, caule e raiz. Outras pesquisas trazem as folhas como uma das principais partes utilizadas para o preparo de produtos na forma de chá (Cavalcante; Silva, 2014; Ribeiro et al., 2014; Vásquez; Mendonça; Noda, 2014; Motta; Lima; Vale, 2016; Santos et al., 2017; Salesse et al., 2018). No entanto, referente ao “coentro”, foi observado que as sementes foram as partes mais utilizadas para o preparo dos chás (Aissaoui et al., 2011; Ribeiro et al., 2014; Vásquez; Mendonça; Noda, 2014; Silva; Cajaiba; Parry, 2018). Porém, (Sahib et al., 2012) ressaltam que todas as partes deste são, e podem ser utilizadas com fins medicinais, visto que esta planta é considerada segura para o consumo, de acordo com o conhecimento tradicional, não tendo sido atribuídos a ela efeitos colaterais em estudos prévios. 16 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 As outras espécies que também obtiveram um considerável número de citações foram a P. anisum, P. barbatus e S. nigra. Este dado é fortalecido com o estudo de (Motta; Lima; Vale, 2016) onde mostrou-se que estas espécies também foram citadas para o tratamento voltado a doenças que podem acometer crianças. O P. anisum, conhecido popularmente como “erva-doce”, foi indicado para o tratamento de mal-estar, náuseas e para auxiliar na digestão, sendo também destacada com maior valor de IR (2,00). Em uma pesquisa feita por (Ribeiro et al. 2014) foi possível observar sua utilização com indicação popular para vômito, dor no estômago e gastura, compreendendo um dado semelhante a esta pesquisa. Levando em consideração as indicações terapêuticas, bem como o número de citações de uso (Tabela 3), a cólica foi à situação de saúde que mais teve indicações de plantas para o seu tratamento ou prevenção. Nesta perspectiva, vale destacar que muitas vezes a ocorrência dela consiste em um fenômeno que não recebe tanta importância, onde alguns profissionais pouco valorizam sua manifestação, não vendo necessidade de tratamento medicamentoso para a mesma. Isto pode levar as cuidadoras a procurarem por si só, métodos que minimizem ou curem os sintomas das cólicas, principalmente em recém-nascidos, recorrendo muitas vezes a utilização das plantas. Portanto, cabe ao enfermeiro se atentar não somente para a ocorrência desta condição, mas também que ele possa fundamentar seu cuidar em evidências científicas sem deixar de lado a percepção do ambiente em que o indivíduo está inserido, bem como suas culturas e crenças (Kosminsky; Kimura, 2004; Takemoto; Zarpelon; Rossetto, 2019). Concernente ao FCI, como destacado nos resultados, o sistema corporal que obteve maior consenso entre os entrevistados foi o DMC (0,5), sendo a camomila e a erva-cidreira as espécies usadas para este sistema. Vale ressaltar que as duas plantas foram destacadas como calmante, corroborando com outros estudos(Mattos et al., 2007; Ribeiro et al., 2014; Bortoluzzi; Schmitt; Mazur, 2019). 17 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 Já quando falamos na propagação do conhecimento, é possível observar que a comunicação familiar continua sendo a principal fonte de transmissão (Cavalcante; Silva, 2014; Motta; Lima; Vale, 2016; Oliveira et al., 2016). Os pais seguem sendo as pessoas que mais difundem este conhecimento (Bevilácqua et al., 1985; Giraldi; Hanazaki, 2010; Ramos et al., 2016; Souza; Lobato; Menezes, 2019). Muitos estudos trazem que essa utilização das plantas, geralmente, é feita somente a partir do conhecimento popular sem que haja uma indicação de um profissional da saúde. As pessoas relatam utilizar por serem de fácil acesso, baixo custo e, também, por acreditarem não acarretar mal à saúde. Isso traz preocupação ao observar o desconhecimento dos possíveis efeitos tóxicos que aqueles produtos possam apresentar (Sevignani; Jacomassi, 2003; Tôrres et al., 2005; Menezes et al., 2016; Szerwieski et al., 2017). Nesta perspectiva observa-se a necessidade da apropriação dos profissionais sobre o uso correto das plantas; sendo o papel do enfermeiro importantíssimo para o aconselhamento sobre a utilização de forma correta e segura (Alves; Silva, 2003; Tôrres et al., 2005; Mendes et al., 2018). 5 CONCLUSÃO O uso de plantas continua sendo uma prática frequente e que vem ganhando ênfase a cada dia. Considerados como de fácil acesso e baixo custo, são recursos válidos para população em geral que detém o conhecimento sobre a utilização dos produtos naturais, em sua grande maioria, transmitidos de geração para geração. Vale destacar que, por continuar sendo um método muito utilizado, existe a necessidade de uma maior apropriação dos profissionais de saúde sobre a utilização segura das plantas como um recurso terapêutico; para que haja uma conscientização da comunidade em geral quanto ao uso com responsabilidade, evitando assim possíveis malefícios que a má utilização possa acarretar para população. 18 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 AGRADECIMENTOS Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP), à Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (FACEPE), à Universidade Regional do Cariri (URCA) e à Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) pelo apoio financeiro e institucional, essenciais para a realização deste estudo. 19 CUADERNOS DE EDUCACIÓN Y DESARROLLO, Portugal, v.17, n.4, p. 01-23, 2025 REFERÊNCIAS AISSAOUI, A. et al. 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