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FISIOPATOLOGIA E TERAPIA 
NUTRICIONAL NAS DOENÇAS 
CATABÓLICAS 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Rafaela Klauberg 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
As queimaduras são consideradas lesões altamente agressivas e que 
provocam intensas mudanças metabólicas e catabólicas no organismo, o que 
leva a uma rápida depleção do estado nutricional e das reservas energéticas do 
indivíduo, que, em um momento de cicatrização, são essenciais. O grau de 
catabolismo é proporcional à extensão da área lesada. Portanto, é necessário 
que haja conhecimento/estimativa da área corporal atingida, por parte do 
profissional nutricionista. A avaliação do estado nutricional o mais breve possível 
após a queimadura é fundamental para instituir a terapia nutricional adequada, 
com a finalidade de diminuir os efeitos das alterações metabólicas, favorecer o 
processo de cicatrização e recuperação e minimizar a resposta inflamatória. 
Por isso, esta aula tem como objetivos conhecer a definição e a 
classificação das queimaduras; a fisiopatologia e a terapia nutricional, bem como 
as recomendações de macro e micronutrientes para pacientes vítimas de 
queimaduras. 
TEMA 1 – DEFINIÇÃO 
A pele é o maior órgão do corpo humano e é composta de três camadas: 
derme, epiderme e hipoderme. Consiste na primeira barreira do organismo 
contra agentes externos. Além dessa função de proteção, ela exerce também 
funções de regulação térmica e prevenção da perda de líquidos, essenciais para 
a sobrevivência do organismo. Na presença de grandes queimaduras, todas 
essas funções ficam comprometidas. 
Queimaduras são definidas como lesões dos tecidos orgânicos causadas 
por agentes (tais como energia térmica, química ou elétrica) que são capazes de 
produzir calor excessivo, danificando tecidos corporais e acarretando morte 
celular (UFSC, 2014). As queimaduras estão entre as principais causas de morte 
no mundo e cerca de 265 mil casos de queimadura ocorrem por ano, segundo a 
Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda são consideradas como a quinta 
causa de morte violenta no mundo e, entre aquelas não fatais, consistem em 
uma das principais causas de morbidade, acarretando hospitalizações 
prolongadas, desfiguração e deficiência (Angelis; Otormin; Jacobo, 2018). 
 
 
3 
Estima-se que, no Brasil, aproximadamente 1 milhão de indivíduos são 
vítimas de queimaduras por ano e que 2,5 mil vão a óbito por essa causa (Arruda, 
2017). 
TEMA 2 – CLASSIFICAÇÃO 
As queimaduras podem ser classificadas quanto ao seu agente causador 
e quanto à profundidade, à extensão e à gravidade das lesões. 
2.1 Agente causador 
• Queimaduras químicas: são provocadas por produtos corrosivos (álcool, 
gasolina, bases e ácidos). 
• Queimaduras térmicas: têm origem no calor ou no frio, por meio da 
exposição, condução ou radiação (de líquidos e sólidos ferventes, frio 
excessivo, chama, vapor, objetos aquecidos, neve, entre outros 
elementos). 
• Queimaduras elétricas: são causadas por fontes de energia elétrica 
(raios, corrente elétrica etc.). 
• Queimaduras ionizantes ou por radiação: resultam de exposição a raios 
solares, aparelhos de raios X ou ultravioleta ou nucleares. 
• Queimaduras biológicas: são provocadas por animais e vegetais 
(vegetais como urtiga, látex; animais como água-viva, lagarta-de-fogo 
etc.). 
• Queimaduras por atrito ou fricção. 
2.2 Profundidade 
• Queimaduras de primeiro grau: a lesão se restringe apenas à epiderme, 
com uma membrana basal intacta. Apresenta hiperemia, 
hipersensibilidade e desconforto local. Não há formação de cicatrizes 
residuais. A restauração celular se dá em aproximadamente 4 a 6 dias. 
• Queimaduras de segundo grau: as lesões são mais profundas e 
apresentam envolvimento da camada intermediária (derme). Podem ser 
classificadas como queimaduras de segundo grau superficiais, médias ou 
profundas. 
 
 
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a. Superficiais: há hiperemia intensa, edema, dor, hipersensibilidade, que 
indicam estímulo e preservação de terminações nervosas presentes na 
derme. Há formação de bolhas que se rompem facilmente, dando à ferida 
um aspecto úmido, vermelho e brilhante. A consolidação do tecido se dá 
em 7 a 10 dias, com um mínimo de formação de cicatrizes. 
b. Profundas: as lesões se estendem até a camada mais profunda da derme 
(derme reticular). Podem apresentar bolhas, mas com pouca hiperemia e 
exsudato, porque parte do plexo vascular foi destruído. São geralmente 
mais pálidas, dolorosas ao contato e não empalidecem ao toque. A 
consolidação do tecido demora em torno de 3 a 5 semanas e acarreta a 
formação de cicatrizes decorrentes da perda da derme. A possibilidade 
de infecção é maior e algumas dessas lesões podem evoluir para lesões 
de terceiro grau. 
• Queimaduras de terceiro grau: nelas, toda a espessura da pele é 
destruída. Como a rede vascular da derme é atingida, não há circulação 
e, portanto, não há exsudato. São geralmente indolores e a sua aparência 
varia de brancas com textura de couro a negras e carbonizadas. A sua 
consolidação ocorre acompanhada de uma intensa formação de cicatrizes 
e contraturas e, frequentemente, são necessários enxertos de pele 
(UFSC, 2014; Waitzberg, 2017) 
 
 
 
5 
Figura 1 – Profundidade de queimaduras 
 
Crédito: Tefi/Shutterstock. 
2.3 Extensão 
Numa queimadura, a gravidade da ocorrência é proporcional à extensão 
da lesão. Quanto mais extensa a superfície corporal queimada total, maior a 
inflamação e maiores as chances de disfunções respiratórias, circulatórias, 
choques, inflamações e óbito. Por isso, é fundamental que a extensão da 
queimadura seja avaliada e, para isso, são utilizados métodos para cálculo dessa 
extensão. A regra dos nove, por exemplo, permite o cálculo da extensão da 
lesão por aproximação e consiste em se atribuir uma porcentagem a cada parte 
do corpo. Daí, o tamanho total da queimadura é calculado pela soma de todas 
as áreas envolvidas. 
 
 
 
6 
Tabela 1 – Regra dos nove para avaliação de área de superfície corporal 
queimada total, em um adulto 
Parte do corpo Área de superfície 
Cabeça 9% 
Parte anterior do tronco 18% 
Parte posterior do tronco 18% 
Cada um dos braços 9% 
Cada uma das pernas 18% 
Períneo 1% 
Fonte: Waitzberg, 2017. 
Outra forma de estimativa da extensão da queimadura é a regra dos 
palmos, em que a superfície da face palmar da mão do paciente (incluindo os 
dedos) corresponde a 1% da sua superfície corporal total. Estima-se a extensão 
da lesão avaliando quantas vezes a área de superfície corporal queimada total 
(ASCT) corresponde à superfície palmar. Apesar de esse não ser um método 
muito preciso, ele é de fácil aplicabilidade. 
O diagrama de Lund e Browder é o método mais preciso para medir 
extensão de lesão por queimadura por atender às variações percentuais da 
superfície dos vários segmentos da lesão, segundo diferentes faixas etárias – o 
método leva em conta diferentes proporções de lactentes, crianças e adultos 
(UFSC, 2014; Waitzberg, 2017). 
Tabela 2 – Diagrama de Lund e Browder 
Faixa etária 
15 
Área 
Cabeça 19 17 13 11 9 7 
Pescoço 2 2 2 2 2 2 
Tronco anterior 13 13 13 13 13 13 
Tronco posterior 13 13 13 13 13 13 
Cada braço (2x) 4 4 4 4 4 4 
Cada antebraço 
(2x) 
3 3 3 3 3 3 
 
 
7 
Cada mão (2x) 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 
Genital 1 1 1 1 1 1 
Cada nádega (2x) 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 2,5 
Cada coxa (2x) 5,5 6,5 8 8,5 9 9,5 
Cada perna (2x) 5 5 5,5 6 6,5 7 
Cada pé (2x) 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 3,5 
Fonte: Elaborado com base em Nitschke, 2008. 
2.4 Gravidade 
Por fim, a gravidade de uma lesão por queimadura pode ser categorizada 
de acordo com a área e os locais atingidos (Picollo et al., 2008; UFSC, 2014). 
• Pequeno queimado: queimadura de primeiro grau, de qualquer 
extensão, em indivíduo de qualquer idade; queimadura de segundo grau, 
com área corporal atingida de até 5%, em crianças menores de 12 anos, 
ou área corporal atingidade até 10%, em indivíduos maiores de 12 anos. 
• Médio queimado: queimadura de segundo grau, com área atingida 
variando entre 5% a 15%, em menores de 12 anos, ou entre 10% a 20%, 
em maiores de 12 anos; qualquer queimadura de segundo grau que 
envolva mão, pé, pescoço, axila ou grande articulação, em qualquer 
idade; queimadura de terceiro grau com até 5% de área atingida, em 
menores de 12 anos, ou até 10% de área atingida, em maiores de 12 
anos. 
• Grave queimado: queimadura de segundo grau com área corporal 
atingida maior que 15%, em menores de 12 anos, ou maior que 20%, em 
maiores de 12 anos; queimadura de terceiro grau com área corporal 
atingida maior de 5%, em menores de 12 anos, ou maior de 10%, em 
maiores de 12 anos; queimadura de segundo ou terceiro grau que atinja 
períneo, em qualquer idade; queimadura de terceiro grau que atinja mão, 
pé, face, pescoço ou axila, em qualquer idade. 
TEMA 3 – FISIOPATOLOGIA E ALTERAÇOES METABÓLICAS 
Na presença do trauma, o organismo queimado responde com aumento 
de catecolaminas endógenas, cortisol e outros hormônios para, fisiologicamente, 
auxiliar o organismo no combate ao evento. Essas catecolaminas provocam a 
 
 
8 
resposta hipermetabólica observada nesses indivíduos, o que leva ao aumento 
da frequência cardíaca, da pressão arterial, das proteínas plasmáticas, a 
alterações do glucagon no fígado, à redução do tempo de coagulação 
sanguínea, ao aumento da lipólise e à termogênese e ao relaxamento da 
musculatura lisa do trato gastrointestinal (Silva et al., 2012). 
A fase inicial da resposta metabólica ao trauma é denominada fase ebb. 
Ela ocorre imediatamente após a ocorrência da lesão e é caracterizada por 
hipovolemia, choque e hipóxia tecidual. As suas alterações metabólicas e 
clínicas incluem redução do débito cardíaco, diminuição do consumo de oxigênio 
total (VO2), queda de pressão arterial e queda de temperatura corporal. 
Geralmente, predomina durante as primeiras 72 horas após o ocorrido (Singer 
et al., 2019). 
Progressivamente, essa fase é substituída pela fase flow, dividida em 
etapa aguda e adaptativa. Durante a fase aguda, o catabolismo é predominante 
e níveis de hormônios relacionados ao estresse catabólico (glicocorticoides, 
glucagon e catecolaminas) apresentam-se aumentados, e ocorre também um 
aumento do VO2. A síntese de proteínas de fase aguda e de algumas proteínas 
viscerais encontra-se aumentada, ocasionando um balanço nitrogenado 
negativo. As citocinas, então, estimulam o hipotálamo a um aumento da 
termorregulação, à produção de hormônios do estresse (catecolaminas, cortisol 
e glucagon), à lipólise e à proteólise e, portanto, são responsáveis por grande 
parte das alterações no metabolismo de pacientes queimados. O metabolismo 
da glicose é reduzido, levando a uma aceleração do processo de gliconeogênese 
e oxidação de glicose, isso ocasionando degradação do músculo esquelético e 
produção de substrato de aminoácidos para gliconeogênese hepática. Ocorre 
também o aumento da lipólise, durante esse processo. 
Após essas etapas iniciais, acontece a fase de recuperação, em que há 
um aumento da demanda energética para suportar o processo de reabilitação 
física e o processo de cicatrização total das feridas. Em pacientes com 
queimaduras graves, essa fase pode persistir por até dois anos (Silva et al., 
2012; Sommerhalder et al., 2020). 
TEMA 4 – TERAPIA NUTRICIONAL E NECESSIDADES NUTRICIONAIS 
4.1 Necessidades energéticas 
 
 
9 
Em geral, pacientes vítimas de queimaduras apresentam necessidades 
energéticas aumentadas, que variam conforme a gravidade da lesão, a área 
corporal atingida, a idade, o sexo e o tempo decorrente do evento (Waitzberg, 
2017). A necessidade energética pode aumentar em até 100% do gasto 
energético basal (Mahan; Escott-Stump; Raymond, 2013) e estima-se que essa 
demanda aumentada ocorra de maneira mais acentuada nas primeiras semanas 
após o evento, com sua redução gradual após essa fase inicial (Rimdeika et al., 
2006; Waitzberg, 2017). Entretanto, pacientes com queimaduras graves 
parecem ser tão sensíveis à hiperalimentação quanto pacientes críticos (Espen, 
2013). 
O padrão de referência com maior confiabilidade para estimativa de gasto 
energético é a calorimetria indireta. Na impossibilidade de realizá-la, certas 
equações podem auxiliar no cálculo, entre elas a equação de Toronto, utilizada 
para adultos, e de Schoefield, para crianças, conforme apresentado na Tabela 
3. 
Tabela 3 – Equações para cálculo de gasto energético, em queimados 
Idade/sexo Equação Kcal/dia 
Adultos Toronto -4.343 + (10,5 X %ASCT) + (0,23 X oferta 
calórica) + (0,84 X gasto energético calculado 
por Harris Benedict*) + (114 X temperatura 
corporal em oC) – (4,5 X número de dias 
decorrente da injúria) 
Meninas 
(3-10 anos) 
Schoefield (16,97 X peso, em kg) + (1.618 X estatura, em 
cm) + 371,2 
Meninos 
(3-10 anos) 
Schoefield (19,6 X peso, em kg) + (1.033 X estatura, em 
cm) + 414,9 
Meninas 
(10-18 anos) 
Schoefield (8.365 X peso, em kg) + (4,65 X estatura, em 
cm) + 200 
Meninos 
(10-18 anos) 
Schoefield (16,25 X peso, em kg) + (1.372 X estatura, em 
cm) + 515,5 
* Sem fator de injúria. 
Fonte: Elaborado com base em Espen, 2013. 
 
 
10 
Deve-se lembrar que pacientes com queimaduras graves são submetidos 
a infusão de volumes importantes de soluções de dextrose a 5%, durante a 
primeira semana, principalmente, e/ou ao uso de sedativos solubilizados em 
gorduras (p. ex., propofol), que são fontes não nutricionais de carboidratos e 
lipídios e, portanto, devem ser considerados na contagem total de energia 
ofertada a esses pacientes (Berger et al., 2006). 
4.2 Carboidratos 
Recomenda-se que de 55% a 60% da oferta calórica total oferecida a 
pacientes queimados seja proveniente de carboidratos, desde que esse volume 
não exceda à oferta de 5 mg/kg/min. É importante destacar que o controle 
glicêmico, nos grandes queimados, deve seguir as recomendações para 
pacientes críticos (com manutenção de valores entre 100-150 mg/dL). 
4.3 Lipídios 
Há poucos estudos e dados disponíveis quanto à necessidade e 
tolerabilidade de lipídios como fontes energéticas para pacientes queimados, 
mas sabe-se que a oferta de pequenas quantidades de gordura é suficiente para 
prevenir a deficiência de ácidos graxos essenciais. Fontes lipídicas não 
nutricionais, como propofol, devem ser contabilizadas na oferta total fornecida a 
esses pacientes. 
4.4 Proteínas 
O catabolismo exagerado de proteínas e o aumento da excreção de 
nitrogênio urinário acompanham o hipermetabolismo presente em pacientes 
vítimas de queimaduras. Também ocorre perda de proteína, pelo exsudato das 
feridas (Mahan; Escott-Stump; Raymond, 2013). A European Society of Enteral 
and Parenteral Nutrition (Espen, 2013) recomenda a oferta proteica de 1,5 
g/kg/dia a 2 g/kg/dia para adultos e de 1,5 g/kg/dia a 3 g/kg/dia para crianças. 
TEMA 5 – MICRONUTRIENTES E IMUNONUTRIÇÃO 
Pacientes vítimas de queimaduras apresentam necessidades 
aumentadas de vitaminas e micronutrientes, devido à sua resposta 
hipermetabólica, às necessidades de cicatrização das lesões e às perdas 
 
 
11 
exsudativas cutâneas (Espen, 2013). As quantidades desses nutrientes 
presentes em fórmulas enterais e parenterais disponíveis no mercado são 
insuficientes para cobrir as necessidades elevadas de pacientes com 
queimaduras extensas e, na maioria dos casos, a sua reposição por via enteral 
não é suficiente – pelo antagonismo de absorção e competição entre os 
oligoelementos em doses elevadas (Espen, 2013; Waitzberg, 2017). 
Ganha destaque, nesse cenário, a necessidade de suplementação das 
vitaminas A C, D e E e dos minerais ferro, cobre, selênio e zinco (Mahan; Escott-
Stump; Raymond, 2013; Nordlund; Pham; Gibran, 2014; Waitzberg, 2017). No 
entanto, pouco se sabe quanto às exigências precisas de cada um desses 
nutrientesdurante o processo de recuperação e cicatrização de queimaduras 
(Mahan; Escott-Stump; Raymond, 2013). 
Estudos trazem que os níveis de vitamina C diminuem em até 50% após 
a queimadura e que o uso de doses de vitamina C e E 1,5 a 3 vezes maiores do 
que a recomendação diária para indivíduos saudáveis impactam de forma 
positiva no processo de cicatrização e estresse oxidativo. Durante toda a fase 
aguda, as necessidades de vitamina C permanecem elevadas (em torno de 0,5 
g/dia a 1 g/dia) (Espen, 2013; Waitzberg, 2017). A vitamina E atua como 
importante antioxidante, tendo a proteção da membrana lipídica como seu 
principal papel nas lesões (Nordlund; Pham; Gibran, 2014). Quanto aos 
benefícios do aumento na oferta de vitamina D, os resultados não são tão claros, 
mas sabe-se que os níveis dessa vitamina no organismo de indivíduos 
queimados se apresentam frequentemente em deficiência, que essa falta 
contribui para o desenvolvimento de osteoporose e que a ingestão alimentar 
padrão de vitamina D é insuficiente (Klein et al., 2009; Espen, 2013). 
A oferta de microelementos (cobre, selênio e zinco) durante a fase aguda 
de recuperação da queimadura parece beneficiar o processo de cicatrização e 
favorecer a imunidade de pacientes queimados. Sugere-se que a duração da 
oferta desses minerais esteja relacionada à área de superfície corporal atingida 
(Espen, 2013; Waitzberg, 2017): 
• 20%-40% de superfície corporal atingida: de 7 a 8 dias; 
• 40%-60% de superfície corporal atingida: 2 semanas; e 
• 60% de superfície corporal atingida: 30 dias. 
 
 
12 
O zinco é essencial para a recuperação do paciente queimado. Ele atua 
como antioxidante, cofator para síntese de colágeno, proteína e ácido 
desoxirribonucleico (DNA) e para proliferação celular e apoia o sistema 
imunológico. 
A suplementação de micronutrientes tem como objetivo corrigir as 
deficiências e otimizar a cicatrização da ferida, fortalecer o sistema imune e 
combater o estresse oxidativo (Nordlund; Pham; Gibran, 2014). A glutamina é 
considerada um aminoácido condicionalmente essencial ao paciente queimado, 
devido à redução dos seus níveis disponíveis nesse indivíduo, e é importante 
fonte de energia para células imunológicas e enterócitos. Também pode atuar 
minimizando a translocação bacteriana, pela preservação da integridade da 
mucosa. Assim como a glutamina, a arginina é um aminoácido considerado 
condicionalmente essencial a essa população. No entanto, a suplementação 
com arginina em pacientes críticos é controversa, principalmente na presença 
de sepse e pneumonia, por aumentar a síntese de óxido nítrico e, assim, poder 
elevar a chance de mortalidade (Silva et al., 2012). 
NA PRÁTICA 
Pacientes atingidos por queimaduras têm, também, questões psicológicas 
afetadas, na maior parte dos casos. O que, muitas vezes, contribui também para 
uma redução de consumo alimentar naqueles que estão com via oral como via 
alimentar. É comum que, após a primeira semana do acontecimento e assim que 
as lesões iniciam o processo de cicatrização, o paciente passe a relatar sentir 
fome, mesmo com a oferta aumentada de alimentos. Isso acontece por essa ser 
a fase mais catabólica do processo. 
É de extrema importância a atenção e avaliação do consumo alimentar 
diário – quando em condições ou na presença de acompanhante, o uso de 
recordatórios podem ser uma boa estratégia, assim como ajustar a consistência, 
quando necessário ou de acordo com a preferência do paciente, se tolerável; e 
considerar o uso precoce de suplementos nutricionais de forma a complementar 
o aporte de nutrientes – dificilmente o paciente irá atingir as suas necessidades 
(que estão aumentadas) sem o uso de terapia nutricional. Por isso, também é 
comum que pacientes façam uso de nutrição enteral complementar à via oral, ou 
seja, que permaneçam com TNE e via oral, ao mesmo tempo. 
 
 
13 
FINALIZANDO 
Lesões resultantes de queimaduras são complexas e geram estresse 
metabólico e inflamatório. Elas atingem os principais órgãos e sistemas do corpo 
humano e, portanto, é essencial o conhecimento da fisiologia, das características 
da classificação do paciente/vítima e de quais as fases de recuperação e suas 
características metabólicas. 
Para um suporte nutricional adequado do paciente queimado, é 
necessário o cálculo individualizado de macro e micronutrientes. Para isso, 
fórmulas específicas, que levam em consideração a área de superfície corporal 
atingida, são importantes ferramentas para uso na prática clínica. Quando bem 
implementada, a terapia nutricional pode impactar de forma positiva o desfecho 
clínico de pacientes queimados. Os antioxidantes e os imunomoduladores, como 
a glutamina, a arginina, as vitaminas A, C, E, o zinco e o selênio, parecem reduzir 
o estresse oxidativo e, consequentemente, levar à redução do risco de infecções 
e à melhora do processo de cicatrização das queimaduras. 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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