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RESPONSABILIDADE CIVIL Profa. ELIENEI REIS 4º DIN CC/02 PARTE GERAL: - DAS PESSOAS - DOS BENS - FATOS JURÍDICOS PARTE ESPECIAL: - D. DAS OBRIGAÇÕES: - TEORIA GERAL DAS OBRIGAÇÕES - TEORIA GERAL DOS CONTRATOS - RESPONSABILIDADE CIVIL - D. EMPRESA - D. DAS COISAS - D. DE FAMÍLIA - D. DAS SUCESSÕES BREVE HISTÓRICO: Nas primeiras formas de organização em sociedade, o instituto da responsabilidade civil, era calcado na concepção da “vingança privada”, “pena de talião”; com evolução da sociedade, permitiu a composição entre a vítima e ofensor, onde havia pagamento de multas fixas; e posteriormente surgiu “A Lei Aquiles”, que foi grande marco na história da responsabilidade civil,( responsabilidade delitual ou extracontratual), que propôs a substituição de multas fixas, por uma pena, proporcional ao dano causado. A evolução ocorreu no sentido da verificação do elemento subjetivo da culpa e na diferença entre responsabilidade civil e penal. Dessa forma, a inserção do elemento culpa, na responsabilidade civil aquiliana, foi elemento básico, contra o objetivismo excessivo do direito primitivo, substituindo paulatinamente pena, pela reparação do dano.(responsabilidade patrimonial) NOÇÕES GERAIS SOBRE RESPONSABILIDADE CIVIL INTRODUÇÃO: - INTRODUÇÃO: A teoria da responsabilidade civil, integra o rol de direito das obrigações, pois quem pratica ato ilícito tem obrigação de reparar dano.(art. 927) - OBRIGAÇÃO – é um vínculo jurídico entre credor e devedor, sendo que o patrimônio deste, que é responde por suas obrigações. - FONTE DAS OBRIGAÇÕES: - vontade do Estado - lei - vontade humana: - contrato - declaração unilateral - atos ilícitos (art. 186 e 187) CULPA E RESPONSABILIDADE A responsabilidade civil, tradicionalmente, baseia-se na ideia de culpa. Culpa: - lato sensu (dolo) - stricto sensu (imprudência, negligência,imperícia) O art.927, inicia estudo de responsabilidade civil, e assim determina,”art. 927 -Aquele que, por ato ilícito, (art. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.” - O art. 186 do CC define o que entende por comportamento culposo: “Aquele que, por ação ou omissão voluntária (dolo) conceito padrão negligência ou imprudência (culpa), ato ilícito violar direito e (inovação CC/02) causar dano a outrem, (resultado) ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito” -art. 187 – “Também comete ato ilícito, o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo sei fim econômico ou social, pela boa-fé, ou pelo bons costumes. (conceito por equiparação, de ato ilícito ) Significa, que o titular de um direito subjetivo, no seu exercício, pode incorrer em ato ilícito, desde que ultrapasse uma das 4 fronteiras estabelecidas em lei: boa-fé, bons costumes, fim social e econômico Aqui, no art. 187, fica evidenciada a famosa “Teoria do Abuso do Direito” Em consequência, da prática de ato ilícito, fica o agente obrigado a reparar o dano (art. 927). ATENÇÃO: art. 188- Não constituem ato ilícito: I – Os atos praticados em legitima defesa, ou exercício regular de um direito reconhecido. II – A deterioração ou destruição, da coisa alheia, ou lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente. (estado de necessidade) § Único – No caso do inciso II, o ato será legitimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. Ex: pessoa dirigindo em via pública, que desvia carro, para não atropelar criança q atravessa inesperadamente, e acaba atingindo muro de uma casa. - art. 927” Aquele que, por ato ilícito, (art. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.” (responsabilidade é subjetiva) § Único – Haverá obrigação de reparar dano, independentemente de culpa, nos caso especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua própria natureza, riacos para direitos de outrem. (responsabilidade é objetiva) “Teoria do exercício da atividade mais perigosa” “Teoria do Risco” ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL : OBJETIVA E SUBJETIVA 1- Subjetiva – “Teoria da Culpa/Subjetiva” É a que decorre de dano causado, em função de ato doloso ou culposo. A culpa é lato senso (dolo) e stricto senso (negligência, imprudência, imperícia). Basea-se na princípio de cada um responde pela própria culpa, caberá ao autor da ação (vítima - por caracterizar fato constitutivo de seu direito), o ônus da prova da culpa do réu, (causador dano). 2 – Objetiva – (Legal) “Teoria do Risco” A lei, entretanto, impõe, para certas pessoas, em determinadas situações, a obrigação de reparar o dano, sem ter culpa. Aí a responsabilidade é legal, e dispensa a comprovação da culpa, devendo ser compravado apenas o nexo causal: - conduta (ação/omissão) - resultado (dano) É chamada “teoria do risco”, nela toda pessoa que exerce alguma atividade, cria para si o risco de dano para 3º, aí é obrigado a reparar o dano, ainda que sua conduta seja isenta de culpa, aqui a noção de culpa, se desloca para ideia do risco ... “quem aufere lucros, deve suportar os riscos”. (cômodo) incômodo O sistema, brasileiro, adotou a regra dual de responsabilidade civil, onde vigora a responsabilidade subjetiva (regra) e objetiva, também. ESPÉCIES DE RESPONSABILIDADE CIVIL : CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL 1 – CONTRATUAL – responsabilidade decorre do descumprimento contratual, onde uma pessoa pode causar prejuízo a outra, por descumprir obrigação contratual (dever de contrato) Aí surde a responsabilidade contratual, prevista no art. 389 CC, “Não cumprida a obrigação, responde o devedor, por perdas e danos, mais juros e atualização monetária, segundo os índices oficiais regulamentes estabelecidos, e honorários de advogado”. O inadimplemento presume-se culposo. 2 – EXTRACONTRATUAL – a responsabilidade não decorre de contrato, e sim da prática de ato ilícito, (responsabilidade aquiliana). ex: acidente de trânsito. PRESSUPOSTOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL: 1 – Ação ou omissão – art. 186, qualquer pessoa que por ação ou omissão... causar dano a outrem, (consagra regra universal, que causa dano, é obrigado a reparar). Essa responsabilidade pode derivar de: - ato próprio - de 3º sobre sua guarda; - fato de coisa ou animais 2 – Culpa ou dolo do agente – é necessário comprovar: (subjetiva) A culpa: - lato sensu (dolo) - stricto sensu (negligência, imprudência, imperícia); Em outros casos, o CC, responsabiliza o agente, independente de culpa.(objetiva) 3 – Relação de Causalidade – é nexo causal entre: - conduta (ação ou omissão) - resultado (dano) 4 – Dano – sem prova do dano, ninguém pode ser responsabilizado civilmente.(regra geral) O dano pode ser: - moral (extrapatrimonial) - material (patrimonial) Art. 928. O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes. Parágrafo único. A indenização prevista neste artigo, que deverá ser equitativa,não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependem. RESPONSABILIDADE DO INCAPACAZ- É Mitigado e Subsidiária Em 1 º lugar a obrigação de indenizar cabe ao responsável pelo incapaz, e estes (incapaz), 2º lugar só serão responsáveis, se as pessoas por responsáveis, não dispuserem de meios suficientes. O que se busca sempre, nas ideias contemporâneas acerca da reparação do dano, é indenizar sempre que é possível. Neste artigo, há dois valores em conflito, de um lado o prejuízo causado pelo incapaz e de outro a sua sobrevivência digna. OBS: Se os pais emanciparem os filhos voluntariamente – essa emancipação produzirá todos efeitos normais do ato, menos de isentar os responsáveis (pais), da responsabilidade pelo atos ilícitos praticados pelos filhos. Tal não acontece quando a emancipação for legal.(decorre do casamento e outras causas) Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram. O estado de necessidade no campo da responsabilidade civil está delineado nos arts. 188, II, 929 e 930. O primeiro desses dispositivos exclui a ilicitude na deterioração ou destruição de coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo eminente. O parágrafo acrescenta que o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo. O conceito de estado de necessidade é tomado de empréstimo do Direito Penal. O agente, Ex: motorista dirigindo carro em via pública, desvia da criança, que atravessa inesperadamente e com isso atinge muro de casa. – ou para desviar-se de uma árvore que tomba a sua frente inopinadamente, invade e danifica a propriedade alheia. Encontra-se justificativa para o mal causado à vítima na remoção de mal iminente. O indivíduo, na iminência de ver atingido direito seu, ofende direito alheio. O ato, em sua essência, seria ilícito, mas a lei reconhece que há uma excludente. No entanto, a escusabilidade do estado de necessidade sofre os temperamentos dos arts. 929 e 930. A situação do estado de necessidade não opera como na legítima defesa. Desse modo, o dano causado em estado de necessidade não isenta seu causador, mesmo que tenha sido absolvido na esfera criminal. Assim, mesmo agindo em estado de necessidade o agente deve indenizar, ressalvando-se-lhe o recurso à ação regressiva contra quem causou a situação. Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a importância que tiver ressarcido ao lesado. Parágrafo único. A mesma ação competirá contra aquele em defesa de quem se causou o dano (art. 188, inciso I). Esse artigo cuida da já apontada ação regressiva contra o terceiro causador do dano e contra aquele em defesa de quem se causou o dano. O parágrafo causa certa dificuldade de interpretação. Defesa aí é mencionada em sentido vulgar. Pode-se interpretar como a possibilidade de ação contra quem foi defendido com a conduta, não tendo o agente logrado receber indenização do causador do estado de necessidade. Essas situações são lastreadas na equidade. O fato de terceiro A questão é saber se o fato de terceiro pode exonerar o causador do dano do dever de indenizar. Temos que entender por terceiro, nessa premissa, alguém mais além da vítima e do causador do dano. Art. 931. Ressalvados outros casos previstos em lei especial, os empresários individuais e as empresas respondem independentemente de culpa pelos danos causados pelos produtos postos em circulação. A lei especial referenciada é o CDC, que trata, entre outras modalidades, da responsabilidade pelos serviços e produtos postos em circulação. Mas há outras hipóteses de responsabilidade do empresário e de empresas no próprio Código, como nos arts. 932, III, e 933. Tendo em vista o largo espectro de aplicação do CDC não resta muito espaço para aplicação desse artigo. Trata-se de mais uma hipótese de responsabilidade objetiva, neste caso pelo produto, pelo fato da coisa. Assim, aplica-se esse dispositivo quando não se configura relação de consumo, quando, em princípio, não se trate de produto para consumidor final. Os casos concretos exigem exame acurado. Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: I – os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II – o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições; III – o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV – os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos; V – os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia. RESPONSABILIDADE POR ATO OU FATO DE TERCEIRO: RESPONSABILIDADE DOS PAIS ■ Os pais respondem pelos atos ilícitos praticados pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia (art. 932, I), ainda que estes não tenham discernimento. A responsabilidade paterna independe de culpa (art. 933). A única hipótese em que haverá responsabilidade solidária do menor de 18 anos com seus pais é se tiver sido emancipado aos 16 anos de idade. Fora dessa situação, a responsabilidade será exclusivamente dos pais, ou exclusivamente do filho (art. 928). RESPONSABILIDADE DOS TUTORES E CURADORES ■ A situação destes é idêntica à dos pais: respondem com seu patrimônio pelos pupilos e curatelados (art. 932, II). Transfere-se, entretanto, a responsabilidade do curador para o sanatório, quando o curatelado é internado para tratamento. RESPONSABILIDADE DOS EMPREGADORES ■ O empregador ou comitente responde pelos atos de seus empregados, serviçais e prepostos, praticados no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele (art. 932, III). Preposto é o que cumpre ordens de outrem, seja ou não assalariado. A responsabilidade é objetiva, independente de culpa. RESPONSABILIDADE DOS EDUCADORES ■ O inc. IV do art. 932 refere-se à responsabilidade dos donos de estabelecimentos que recebem pessoas para fins de educação. A responsabilidade quanto às escolas públicas cabe ao Estado. Se o dano é causado pelo aluno contra terceiros, a escola responde pelos prejuízos, objetivamente. Se o dano é sofrido pelo aluno, tem este ação contra o estabelecimento. ■ Os educadores são prestadores de serviço. A prestação de serviço, no Código Civil (art. 593), teve, todavia, a sua importância diminuída, interessando mais ao prestador de menor porte e ao trabalhador autônomo. O Código de Defesa do Consumidor também acolheu a responsabilidade objetiva do prestador de serviço. RESPONSABILIDADE DOS HOTELEIROS ■ Responde também o hospedeiro pelos prejuízos causados por seus hóspedes, seja a terceiros, seja a outro hóspede. Essa responsabilidade funda-se no risco da atividade e tanto pode decorrer de falta de vigilância sobre o comportamento dos hóspedes como de falta de disciplina em sua admissão. Os hoteleiros também são prestadores de serviço, aplicando-se-lhes o art. 593 do Código Civil. RESPONSABILIDADE PELO PRODUTO DO CRIME ■ Se a pessoa não participou do delito, mas recebeu seu produto, ainda que gratuitamente, deverá restituí-lo, não obstante ser inocente do ponto de vista penal. O dispositivo (art. 932, V) reafirma o princípio da repetição do indébito Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos. RESPONSABILIDADE POR ATO OU FATO DE TERCEIRO: A responsabilidade desses indicados nos incisos I a V do artigo 932 deste Código é objetiva, independendo de culpa. O dispositivo anterior exigia a prova de culpa desses responsáveis, o que, na prática, reduzia sensivelmentea possibilidade de indenização. A responsabilidade é objetiva. Há que se examinar, porém, a responsabilidade do causador direto do dano: neste deverá haver culpa. Assim, o empregado que age com culpa faz com que o patrão indenize. Não há de indenizar se não houver culpa do empregado. Na responsabilidade pelo fato de outrem há, na realidade, exame de duas responsabilidades. A do agente direto da conduta é subjetiva, a do preposto, empregador etc., é objetiva. Quando o causador direto do dano é incapaz, analisa-se a conduta como se houvesse culpa, como se ele fosse imputável. ENUNCIADO Enunciado nº 451, V Jornada de Direito Civil – CJF/STJ: A responsabilidade civil por ato de terceiro funda-se na responsabilidade objetiva ou independente de culpa, estando superado o modelo de culpa presumida. Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houver pago daquele por quem pagou, salvo se o causador do dano for descendente seu, absoluta ou relativamente incapaz. Mantém-se aqui a mesma orientação do Código anterior. Possibilita-se a ação de regresso do solvens contra o causador direito do dano. Abre-se unicamente uma exceção: se o causador for descendente do pagador, relativa ou absolutamente incapaz. Ainda, nos termos do art. 928, o incapaz somente responde com seu patrimônio se os seus responsáveis não tiverem condição ou obrigação de fazê-lo. Essa exceção tem fundamento moral e ético, em torno da preservação dos valores familiares. No tocante aos tutores e curadores, o texto a eles não se refere, devendo ser aplicado o referido art. 928. Assim o empregador tem, por exemplo, direito de regresso contra o empregado causador do dano. Enunciado nº 44, I Jornada de Direito Civil – CJF/STJ: Na hipótese do art. 934, o empregador e o comitente somente poderão agir regressivamente contra o empregado ou preposto se estes tiverem causado dano com dolo ou culpa. Art. 935. A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal. RESPONSABILIDADE CIVIL E CRIMINAL O Código Civil estabeleceu, assim, na primeira parte, a independência da responsabilidade civil da responsabilidade criminal, pois diversos são os campos de ação da lei penal e da lei civil. Mas a segunda parte do dispositivo mostra que tal separação não é absoluta e que o sistema adotado é o da independência relativa. Então, se o juiz do crime já se manifestou sobre: - existência do fato - existência da autoria faz coisa julgada no juízo civil Assim, a sentença criminal condenatória, que reconhece existências do fato e da autoria, sempre faz coisa julgada no civil, e não poderão mais ser mais discutidas do juízo civil, porque o juiz do crime já se manifestou a esse respeito,. ■ Sentença condenatória Sempre faz coisa julgada no cível, porque para haver condenação criminal o juiz tem de reconhecer a existência do fato e a sua autoria, bem como o dolo ou a culpa do agente (CP, art. 91, I; CPC/73, art. 475-N, II, atual art. 515, VI). Mas a sentença criminal absolutória, do crime, nem sempre faz coisa julgada. ■ Sentença absolutória ■ Faz coisa julgada no cível: a) Quando reconhece, expressamente, a inexistência do fato ou que o réu não foi o autor (CPP, art. 66; CC, art. 935, 2ª parte). b) Quando reconhece que o fato foi praticado em legítima defesa, em estado de necessidade, em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de um direito (CPP, art. 65). A legítima defesa precisa ser real e contra o agressor, pois a putativa e a que causa dano a terceiro não excluem a responsabilidade civil. Também não a exclui o ato praticado em estado de necessidade (CC, arts. 929 e 930). ■ Não faz coisa julgada no cível: a) Quando a absolvição se dá por falta ou insuficiência de provas para a condenação (que podem ser produzidas pela vítima, no cível). b) Quando a absolvição se dá por não ter havido culpa do agente (CPP, art. 66). O juiz criminal é mais exigente em matéria de culpa. No cível, mesmo a culpa levíssima (insuficiente para a condenação criminal) obriga a indenizar. c) Quando ocorre absolvição porque se reconhece que o fato não constitui infração penal (mas pode ser ilícito civil — CPP, art. 67). Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior. RESPONSABILIDADE NA GUARDA DE COISAS INANIMADAS (art.936,937, 938) RESPONSABILIDADE PELO FATO OU GUARDA DE ANIMAIS. Desse modo, responde o dono do animal, objetivamente, pelos danos que este causar a terceiros, inclusive nas rodovias, somente se exonerando se provar culpa da vítima ou força maior. Responde, também de forma objetiva, a concessionária ou permissionária encarregada da administração e fiscalização da rodovia, nos termos do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor e do art. 37, § 6º, da Constituição Federal, salvo se provar culpa exclusiva da vítima ou força maior. O primeiro responde por ser o dono do animal, encarregado de sua guarda, devendo manter em ordem os muros e cercas de seus imóveis, para evitar que fuja para as estradas. A segunda, por permitir que o animal ingresse ou permaneça na rodovia, provocando risco de acidentes e criando insegurança para os usuários. Preceitua o art. 942, segunda parte, do Código Civil que, “se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação”. Pretensão exercida somente contra a concessionária A concessionária, se condenada, terá ação regressiva contra o dono do animal, para cobrar deste a sua quota-parte. Decidiu, com efeito, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região: “A responsabilidade pela presença de animais em rodovia, que se destina ao tráfego de alta velocidade — e, como tal, pressupõe perfeito isolamento de seus terrenos marginais —, recai sobre a autarquia encarregada da construção e manutenção das estradas de rodagem nacionais. Na via de regresso, demonstrada a ilicitude do comportamento do proprietário de animais, poderá o ente público ressarcir-se do valor pago a título de indenização” ■ Construção de cercas pelo DER Tem-se decidido que o fato de o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) construir cerca ao longo da rodovia não implica sua responsabilidade por acidente ocasionado por animais que, varando a cerca, ganham a estrada. As cercas que o DER levanta ao longo das rodovias têm por objetivo simples demarcação de limites, uma vez que pela rodovia só trafegam veículos; aos proprietários lindeiros cabe reforçá-las de modo a evitar a saída de animais Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta. RESPONSABILIDADE PELO FATO DA COISA Há uma presunção de responsabilidade do dono do edifício ou construção, quando a casa cai sobre as propriedades vizinhas ou sobre os transeuntes. Ressalva-se, apenas, a ação regressiva contra o construtor. Facilita-se a ação de reparação para a vítima, que só precisa provar o dano e o nexo de causalidade. Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido. 3. Responsabilidade resultante de coisas líquidas e sólidas (effusis e dejectis) que caírem em lugar indevido. A reparação do dano consequente ao lançamento de coisas líquidas (effusis) e sólidas (deject A responsabilidade, no caso, é objetiva. Não se cogita da culpa. O aludido dispositivo legal pode ser considerado como exemplo mais flagrante da presunção de responsabilidade do guarda da coisa inanimada, em nosso direito. A vítima só tem de provar a relação de causalidade entre o dano e o evento. A presunção de responsabilidade do chefe de família que habita a casa (dono, locatário, usufrutuário, comodatário) só é removível mediante prova de culpa exclusiva da vítima (por ter provocado a queda do objeto) ou forçamaior (que afasta o nexo de causalidade). Art. 939. O credor que demandar o devedor antes de vencida a dívida, fora dos casos em que a lei o permita, ficará obrigado a esperar o tempo que faltava para o vencimento, a descontar os juros correspondentes, embora estipulados, e a pagar as custas em dobro Art. 940. Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que for devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se houver prescrição. JURISPRUDÊNCIA • Apelação cível – Direito civil – Ação de busca e apreensão – Reconvenção – Inexistência de mora – Responsabilidade civil pela cobrança judicial de dívida já solvida – Art. 940 do CC – Cabimento – S Art. 941. As penas previstas nos arts. 939 e 940 não se aplicarão quando o autor desistir da ação antes de contestada a lide, salvo ao réu o direito de haver indenização por algum prejuízo que prove ter sofrido. Responsabilidade por demanda antecipada de dívida ou de dívida já paga Como se sabe, a possibilidade de ser cobrada uma dívida antes do vencimento é exceção no ordenamento, como no caso de falência do devedor, por exemplo. O dispositivo do art. 939 estampa pena civil imposta ao credor, que ajuíza demanda antes de exercitável seu direito, isto é, antes da actio nata. No caso concreto, há que se verificar o aspecto do vencimento ou exigibilidade da obrigação, que pode ser discutível. Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação. Parágrafo único. São solidariamente responsáveis com os autores os coautores e as pessoas designadas no art. 932. O patrimônio do devedor, como regra geral, responde por suas dívidas. O importante deste artigo é fixar a tradicional regra de solidariedade entre todos os causadores do dano. No nosso sistema, a solidariedade decorre da lei ou da vontade das partes. Na responsabilidade civil, temos texto expresso. A solidariedade aplica-se tanto nos casos de responsabilidade direta como indireta, tal como no art. 932. Nas relações internas entre os coobrigados, porém, na forma da solidariedade, o devedor que satisfaz a dívida por inteiro só tem o direito de exigir de cada um dos outros responsáveis a sua quota no rateio, salvo se houver acordo ou estipulação legal em contrário. Art. 943. O direito de exigir reparação e a obrigação de prestá-la transmitem-se com a herança. O artigo consagra princípio geral de direito hereditário. Os sucessores causa mortis do ofendido estão legitimados a receber a indenização, que pode igualmente ser pleiteada dos sucessores do ofensor. A ação se transmite por via hereditária como qualquer outro direito. A situação opera ainda que não proposta a ação reparatória quando da morte. DA INDENIZAÇÃO Art. 944 - A indenização mede-se pela extensão do dano”. Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização” Assim, poderá o juiz fixar a indenização que julgar adequada ao caso concreto, levando em conta, se necessário, a situação econômica do ofensor, o grau de culpa, a existência ou não de seguro e outras circunstância Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano. Aspecto que interessa na fixação da indenização é a culpa concorrente ou culpa recíproca. No Direito Penal, não existe compensação de culpas. Cada agente responde pessoalmente por sua conduta e por sua participação na conduta delituosa. A posição na responsabilidade civil, contratual ou aquiliana, é diversa: constatado que ambos os partícipes agiram com culpa, ocorre a compensação. Cuida-se, portanto, de imputação de culpa à vítima, que também concorre para o evento. Assim, se o grau de culpa é idêntico, a responsabilidade se compensa. Por isso, prefere-se denominar concorrência de responsabilidade ou de causas. Pode ocorrer que a intensidade de culpa de um supere a do outro: nesse caso, a indenização deve ser proporcional. Assim, nada impede que um agente responda por 2/3 e outro por 1/3 da indenização em discussão. Art. 946. Se a obrigação for indeterminada, e não houver na lei ou no contrato disposição fixando a indenização devida pelo inadimplente, apurar-se-á o valor das perdas e danos na forma que a lei processual determinar. O ideal é que a sentença sempre estabeleça obrigação certa e determinada, em valor conhecido. Nesse diapasão, o CPC em vigor determina que o juiz deva fixar desde logo a extensão da obrigação na sentença, ainda que o pedido do autor tenha sido genérico. Devese sempre evitar que não exista valor certo e determinado na sentença, o que nem sempre será possível. Art. 947. Se o devedor não puder cumprir a prestação na espécie ajustada, substituir-se-á pelo seu valor, em moeda corrente. Aqui se trata de obrigação em espécie a ser cumprida. O pintor é condenado a concluir a obra a qual se recusara, por exemplo; o empreiteiro, a concluir a construção, e assim por diante. O pagamento em dinheiro sempre será o denominador comum quando a obrigação não puder ser cumprida em espécie, por qualquer razão; por culpa ou sem culpa do devedor. A impossibilidade do cumprimento em espécie deve ser analisada no caso concreto, sempre se levando em conta que ninguém, mormente nas obrigações infungíveis, pode ser constrangido a praticar conduta contra sua vontade. De qualquer forma, sempre que impossível ou insuficiente a reparação em espécie, recorre-se à indenização em pecúnia. O texto se aplica a todas as modalidades de obrigação em espécie, inclusive as obrigações negativas. Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações: I – no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família; II – na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima. As despesas de tratamento incluem tudo o que for comprovado no processo em matéria de gasto hospitalar, medicamentos, transportes para consulta e hospitais, inclusive tratamento psicológico etc. Nas despesas de funeral, estão incluídas as de sepultura (danos emergentes). Não se logrando provar as despesas de funeral, a jurisprudência tem propendido a fixá-la em cinco salários-mínimos, por se tratar de gasto inevitável e que afeta a todos indiscriminadamente. O termo luto permite perfeitamente o entendimento de que não se restringe apenas ao pagamento pelas vestes fúnebres, atualmente em desuso em nossa sociedade, ou pelos serviços religiosos, aquisição de espaço em cemitério etc., mas também à indenização pelo sentimento de tristeza pela perda de pessoa querida. Desse modo, nessa expressão se abre margem à indenização por dano moral. Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido. ENUNCIADO Enunciado nº 192, III Jornada de Direito Civil – CJF/STJ: Os danos oriundos das situações previstas nos arts. 949 e 950 do Código Civil de 2002 devem ser analisados em conjunto, para o efeito de atribuir indenização por perdas e danos materiais, cumulada com dano moral e estético. Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu. Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a indenizaçãoseja arbitrada e paga de uma só vez. Esses dois dispositivos permitem uma série de reflexões de interesse prático. Todos os danos emergentes deverão ser ressarcidos até a convalescença: despesas com hospitalização, tratamento, medicamentos, próteses, transporte para consultas, contratação de enfermeiros ou fisioterapeutas etc. Quando a vítima sofre ofensa em sua incolumidade física, em sede de indenização pelo ato ilícito, deve ser avaliado o grau de incapacidade que essa agressão ocasionou. Nesse diapasão, a perícia deverá avaliar o grau de incapacidade, devendo o juiz levar em conta a diminuição de ganho que esse percentual representa para as atividades ou ocupação habitual da vítima. Aqui, leva-se em conta a mencionada perda de chance. Nesse sentido, a pensão deverá ser estabelecida de molde a compensar a perda de proventos que a vítima sofreu. Deve ser entendido que o dano psicológico, que não deixa marcas evidentes, mas diminui a capacidade, também deve ser compreendido nessa modalidade de indenização. Art. 951. O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplica-se ainda no caso de indenização devida por aquele que, no exercício de atividade profissional, por negligência, imprudência ou imperícia, causar a morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o trabalho. Esse artigo refere-se aos profissionais de saúde mencionados no art. 1.545 do Código anterior, tendo o estatuto atual preferido tratá-los de forma genérica neste art. 951. Aqui há que se reportar à doutrina que examina a responsabilidade médica, odontológica e assemelhadas. As modalidades de indenização são as mesmas dos artigos anteriores referidos, para homicídio e ofensas físicas. Para o exame da responsabilidade médica ver nosso Capítulo 4 de nossa obra Responsabilidade Civil (v. IV). Recorde-se que o CDC manteve a responsabilidade dos profissionais liberais na esfera subjetiva, para sua atividade individual; a responsabilidade será objetiva para as pessoas jurídicas em geral. Art. 952. Havendo usurpação ou esbulho do alheio, além da restituição da coisa, a indenização consistirá em pagar o valor das suas deteriorações e o devido a título de lucros cessantes; faltando a coisa, dever-se-á reembolsar o seu equivalente ao prejudicado. Parágrafo único. Para se restituir o equivalente, quando não exista a própria coisa, estimar-se-á ela pelo seu preço ordinário e pelo de afeição, contanto que este não se avantaje àquele. Esbulho possessório ocorre quando alguém, por meios violentos ou clandestinos, se vê desapossado de coisa móvel ou imóvel. Os termos usurpação e esbulho equivalem-se. Como remédio processual, tem a sua disposição os interditos possessórios para recuperar a posse ou impedir que o esbulho seja consumado. O art. 1.541 do Código de 1916 estabelecia que, no caso de usurpação ou esbulho, a indenização consistiria em restituir a coisa, pagando pelas deteriorações ou o valor equivalente, se o bem não puder ser restituído. Amesma noção é mantida neste artigo. As ações possessórias (ver nosso Direito Civil: direitos reais, Capítulo 7) permitem que o pedido de reintegração ou manutenção de posse venham cumulados com o de indenização por perdas e danos. Também os lucros cessantes p Art. 953. A indenização por injúria, difamação ou calúnia consistirá na reparação do dano que delas resulte ao ofendido. Parágrafo único. Se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso. A honra e sua proteção na esfera civil têm, contudo, o mais amplo espectro, não se limitando a um “numerus clausus”, nem no Código de 1916, nem neste, o qual, apesar de ter um capítulo relativo aos direitos da personalidade (arts. 11 a 21), não é, nem tem como ser, exauriente. Enfatize-se que, entre as características dos direitos da personalidade, realça-se sua extrapatrimonialidade. “O interesse na preservação da honra é de conteúdo moral, por isso ninguém pode dispor de sua honra, como de sua vida, de sua liberdade [...]” (AMARANTE, 2001, p. 183). Realça-se, portanto, que na grande maioria dos casos concretos, o que caracteriza o prejuízo nas ofensas à honra é muito mais amplamente o dano moral ou não patrimonial, e não o dano material, que pode ocorrer, mas não é essencial, no caso concreto. Quanto à injúria e calúnia, o art. 953 dispõe que o ressarcimento consistirá na reparação do dano e, se o ofendido não puder provar prejuízo material, caberá ao juiz fixar, equitativamente, o valor da indenização, na conformidade das circunstâncias do caso. Art. 954. A indenização por ofensa à liberdade pessoal consistirá no pagamento das perdas e danos que sobrevierem ao ofendido, e se este não puder provar prejuízo, tem aplicação o disposto no parágrafo único do artigo antecedente. Parágrafo único. Consideram-se ofensivos da liberdade pessoal: I – o cárcere privado; II – a prisão por queixa ou denúncia falsa e de má-fé; III – a prisão ilegal. O direito à liberdade está assegurado na Constituição, art. 5º, sendo reiterado em vários dispositivos. Os três incisos deste artigo não são exaustivos, não constituem número fechado. Há que se analisar no caso concreto quando há ofensa à liberdade individual. O mesmo se diga a respeito desse artigo no tocante à possibilidade de cumulação de danos morais (não patrimonais) com danos materiais na ofensa à liberdade pessoal. Imagine-se, por exemplo, alguém que, em face de prisão ilegal ou prisão derivada de denúncia falsa, perde o emprego e entra em depressão psicológica. É evidente que haverá danos morais e materiais a indenizar. AS EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE CIVIL 1- O ESTADO DE NECESSIDADE ■ O estado de necessidade é delineado pelos arts. 188, II, 929 e 930 do CC. Dispõe o primeiro não constituir ato ilícito “a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente”. E o parágrafo único completa: “No caso do inciso II, o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo”. Embora a lei declare que o ato praticado em estado de necessidade não é ilícito, nem por isso libera quem o pratica de reparar o prejuízo que causou (art. 929), ressalvando-lhe o direito de mover ação regressiva contra o terceiro que criou a situação de perigo (art. 930). 2 – A LEGÍTIMA DEFESA ■ O art. 188, I, do CC proclama que não constituem atos ilícitos “os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido”. Se o ato foi praticado contra o próprio agressor, não pode o agente ser responsabilizado civilmente pelos danos provocados. Entretanto, se, por erro de pontaria, terceira pessoa foi atingida, deve o agente reparar o dano. Mas terá ação regressiva contra o agressor, para se ressarcir da importância desembolsada (art. 930, parágrafo único). ■ A legítima defesa putativa também não exime o réu de indenizar o dano, pois somente exclui a culpabilidade, e não a antijuridicidade do ato. Assim, somente a legítima defesa real, e praticada contra o agressor, deixa de ser ato ilícito, apesar do dano causado. 3 - A CULPA EXCLUSIVA OU CONCORRENTE DAVÍTIMA ■ Quando o evento danoso acontece por culpa exclusiva da vítima, desaparece a responsabilidade do agente. Ex: vitima que é atropelada ao atravessar a rua, estando ela embreagada em estrada alta velocidade. Ex: vítima qerendo suicidar, que se joga viaduto, é atropelada pelo carro . Nesse caso, deixa de existir a relação de causa e efeito entre seu ato e o prejuízo experimentado pelo lesado. ■ Em caso de culpa concorrente da vítima, a indenização será reduzida em proporção ao seu grau de culpa (art. 945). 4 - O FATO DE TERCEIRO A culpa de terceiro não exonera o autor direto do dano do dever jurídico de indenizar. Se o motorista colide o seu carro com o que estava estacionado, de nada lhe adianta alegar que foi “fechado” por terceiro. Cabe-lhe indenizar o dano causadoe depois mover ação regressiva contra este. (REGRA GERAL) Ressalva-se, no entanto, a hipótese de o fato de terceiro equiparar-se ao fortuito, como no caso, (EXCEÇÃO) p. ex., em que dois veículos se encontram parados, um em frente do outro, aguardando a abertura do semáforo, e o segundo é colidido na traseira por um terceiro, sendo projetado contra a traseira do que lhe está à frente. Nesse caso, se o dono do primeiro veículo acionar o motorista do segundo, este poderá defender-se com sucesso, alegando o fato de terceiro, ou seja, que serviu de mero instrumento da ação do motorista imprudente. Conclusão - Em conclusão: o causador direto do dano só se eximirá da obrigação de indenizar se sua ação for equiparável ao fortuito (caso em que terá sido mero instrumento do terceiro, servindo de “projétil”). Quando essa situação está bem caracterizada, a ação deve ser proposta unicamente contra o terceiro, o verdadeiro e único causador do evento. 5 - CASO FORTUITO E FORÇA MAIOR ■ Caso fortuito: geralmente decorre de fato ou ato alheio à vontade das partes: greve, motim, guerra. ■ Força maior: é a derivada de acontecimentos naturais: raio, inundação, terremoto. O art. 393 do CC não faz distinção, definindo-os da seguinte forma: “O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir”. A inevitabilidade é, pois, a sua principal característica. Ambos rompem o nexo de causalidade, afastando a responsabilidade do agente. 6 - CLÁUSULA DE NÃO INDENIZAR É o acordo de vontades que objetiva afastar as consequências da inexecução ou da execução inadequada do contrato. ■ Código de Defesa do Consumidor: não admite sua estipulação nas relações de consumo (arts. 24, 25 e 51). ■ Contratos não regidos pelo CDC: a sua validade dependerá da observância de alguns requisitos: a) bilateralidade de consentimento; b) não colisão com preceito de ordem pública; c) igualdade de posição das partes; d) inexistência do escopo de eximir o dolo ou a culpa grave do estipulante; e) ausência da intenção de afastar a obrigação inerente à função. 7 - PRESCRIÇÃO ■ Prescrita a pretensão à reparação de danos, fica afastada qualquer possibilidade de recebimento da indenização. A obrigação de reparar o dano é de natureza pessoal. Contudo, a prescrição não ocorre no prazo legal de dez anos, do art. 205, porque o art. 206, que estipula prazos especiais, dispõe que prescreve em “três anos (...) a pretensão de reparação civil” (§ 3º, V). RESPONSABILIDADE DAS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PÚBLICO Evolução histórica: A responsabilidade civil do Estado é considerada, hoje, matéria de direito constitucional e de direito administrativo. Em sua evolução, passou ela por diversas fases: FASES: 1 - A da irresponsabilidade do Estado - , representada pela frase universalmente conhecida: the king can do no wrong. 2 - A civilista - , representada pelo art. 15 do Código Civil de 1916, que responsabilizava civilmente as pessoas jurídicas de direito público pelos atos de seus representantes que nessa qualidade causassem danos a terceiros. Nessa fase, a vítima tinha o ônus de provar a culpa ou dolo (responsabilidade subjetiva) do funcionário. Assegurou-se ao Estado ação regressiva contra este último. 3 - A publicista, a partir de 1946, quando a questão passou a ser tratada em nível de direito público, regulamentada na Constituição Federal. A responsabilidade passou a ser OBJETIVA, mas na MODALIDADE DO RISCO ADMINISTRATIVO (não na do risco integral, em que o Estado responde em qualquer circunstância), sendo tranquila nesse sentido a jurisprudência. Não se exige, pois, comportamento culposo do funcionário. Basta que haja o dano, causado por agente do serviço público agindo nessa qualidade, para que decorra o dever do Estado de indenizar. Responsabilidade civil da Administração Pública na Constituição Federal de 1988 Inovações Atualmente, o assunto está regulamentado no art. 37, § 6º, da Constituição Federal, que trouxe duas inovações em relação às Constituições anteriores: 1- substituiu a expressão “funcionários” por “agentes”, mais ampla, e 2 - estendeu essa responsabilidade objetiva às pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviço público (concessionárias, permissionárias). Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998) § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. Essa responsabilidade abrange as AUTARQUIAS E AS PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO que exerçam funções delegadas do Poder Público, como as PERMISSIONÁRIAS E CONCESSIONÁRIAS de serviço público. PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PRIVADO: PERMISSIONÁRIAS E CONCESSIONÁRIAS A Constituição Federal, como já mencionado, adotou a teoria da RESPONSABILIDADE OBJETIVA do Poder Público, mas sob a MODALIDADE DO RISCO ADMINISTRATIVO. Desse modo, pode ser atenuada a responsabilidade do Estado, provada a culpa parcial e concorrente da vítima, e até mesmo excluída, provada a culpa exclusiva da vítima. Não foi adotada, assim, a teoria da responsabilidade objetiva sob a modalidade do risco integral, que obrigaria sempre a indenizar, sem qualquer excludente. A teoria do risco administrativo admite, destarte, a inversão do ônus da prova. EXCLUDENTES DA RESPONSABILIDADE DO ESTADO O Estado exonerar-se-á da obrigação de indenizar se provar: 1- culpa exclusiva da vítima; 2- força maior; ( danos inevitáveis, decorrentes de força da natureza, ex; enchentes) 3- fato exclusivo de terceiro. (ex: assaltos em via públicas) Obs: Em caso de culpa concorrente da vítima, a indenização será reduzida em proporção ao grau de culpa desta. Tem sido decidido, em face do texto constitucional, que a “pessoa jurídica de direito privado, na qualidade de concessionária de serviço público, responde imediata e diretamente pelos danos que as empresas contratadas causarem a terceiros, não se necessitando indagar da culpa ou dolo, pois sua responsabilidade está ancorada na culpa objetiva e surge do fato lesivo, conforme dispõe o art. 37, § 6º, da Constituição Federal” Desse modo, o Estado responde apenas subsidiariamente (e não solidariamente) pelos danos causados pela prestadora de serviços públicos, uma vez exauridos os recursos financeiros e o patrimônio desta. A má escolha da entidade acarreta a responsabilidade subsidiária do Estado, caso aquela se torne insolvente. Ação movida diretamente contra o funcionário causador do dano Embora alguns autores afirmem que a ação só pode ser movida contra a pessoa jurídica, e não contra o funcionário, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que esse entendimento se aplica unicamente às ações fundadas na responsabilidade objetiva. Mas, se o autor se dispõe a provar a culpa ou dolo do servidor (responsabilidade subjetiva), abrindo mão de uma vantagem, poderá movê-la diretamente contra o causador do dano, principalmente porque a execução contra o particular é menos demorada. Se preferir movê-la contra ambos, terá também de arcar com o ônus de descrever a modalidade de culpa do funcionário e de provar sua existência Responsabilidade objetiva das empresas de ônibus por danos a terceiros O Supremo Tribunal Federal, em julgamento com repercussão geral reconhecida por unanimidade, realizado no mês de agosto de 2009, definiu que há responsabilidade objetiva das empresas de ônibus, permissionárias de serviço público, mesmo em relação a terceiros que não sejam seus usuários (no caso, um ciclista). Acentuou o relator que a Constituição Federal não faz qualquer distinção sobre a qualificação do sujeito passivo do dano,ou seja, “não exige que a pessoa atingida pela lesão ostente a condição de usuário do serviço”. Prescrição da pretensão indenizatória A ação deve ser proposta dentro do lapso prescricional de três anos. “Art. 206. Prescreve: (...) § 3º Em três anos: (...) V — a pretensão de reparação civil”. Prescreve ainda o aludido diploma, no art. 200, o seguinte: “Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença condenatória” Responsabilidade civil do Estado pelos atos omissivos de seus agentes Cabe ação contra o Estado mesmo quando não se identifique o funcionário causador do dano, especialmente nas hipóteses de omissão da administração. Esses casos são chamados de “culpa anônima” da administração (enchentes em São Paulo que não foram solucionadas pelas diversas administrações, assassinato de um detento por outro etc.). O Supremo Tribunal Federal já decidiu que a atividade administrativa a que alude o art. 37, § 6º, da Constituição Federal, abrange tanto a conduta comissiva como a omissiva. No último caso, desde que a omissão seja a causa direta e imediata do dano. Um dos julgamentos refere-se a acidente ocorrido nas dependências de escola municipal, por omissão da administração em evitar que uma criança, durante o recreio, atingisse o olho de outra, acarretando-lhe a perda total do globo ocular direito Em outro caso, relatado pelo Ministro Moreira Alves, a mesma Corte manteve esse entendimento, afirmando que “não ofende o art. 37, § 6º, da Constituição Federal acórdão que reconhece o direito de indenizar a mãe do preso assassinado dentro da própria cela por outro detento” O Estado, com base nesse entendimento, foi responsabilizado objetivamente pela omissão no serviço de vigilância dos presos. Denunciação da lide ao funcionário ou agente público Uma corrente doutrinária e jurisprudencial interpreta de forma restritiva o art. 125, II, do Código de Processo Civil de 2015, não admitindo a denunciação da lide em todos os casos em que há o direito de regresso, pela lei ou pelo contrato, mas somente quando se trata de garantia do resultado da demanda, ou seja, quando, resolvida a lide principal, torna-se automática a responsabilidade do denunciado, independentemente de discussão sobre sua culpa ou dolo (caso das seguradoras), isto é, sem a introdução de um fato ou elemento novo. O Superior Tribunal de Justiça já proclamou ser possível, por expressa disposição legal e constitucional, a denunciação da lide ao funcionário, mesmo que o Estado, na contestação, alegue culpa exclusiva da vítima, sendo defeso ao juiz condicioná-la à confissão de culpa do denunciante Entretanto, a predominância de entendimento na mencionada Corte é no sentido de que, “se a litisdenunciação dificulta o andamento do processo, é de ser rejeitada. Responsabilidade do Estado por atos judiciais Quando o juiz ou tribunal desempenha funções administrativas, a responsabilidade do Estado não difere da dos atos da Administração Pública. Responde objetivamente. O juiz só pode ser pessoalmente responsabilizado se houver dolo ou fraude de sua parte e, ainda, quando, sem justo motivo, recusar, omitir ou retardar medidas que deve ordenar de ofício ou a requerimento da parte (CPC/2015, art. 143, I e II). A responsabilidade do Estado em decorrência de erro judiciário é reconhecida no art. 5º, LXXV, da CF.