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Antonio Lopes Neto - Direito Administrativo

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o dano causado à Câma-
ra no seu intento de apurar as irregularidades que teriam
sido praticadas pelo Prefeito Municipal restará inócuo.
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Por outro lado, o prosseguimento dos trabalhos da Comis-
são em nada prejudicará o Prefeito Municipal, pois se
irregularidades ou cerceamento de defesa foram posteri-
ormente constatados, é óbvio que haverá ainda muitas
oportunidades para que o denunciado se defenda e anule
os atos praticados com irregularidade.
Por agora, o mais prudente é que se permita à Câmara
Municipal prosseguir com seu trabalho, o que, como já
dito, não implicará maiores prejuízos para o denunciado.
Por essas razões, defiro a liminar pedida, para conferir
efeito suspensivo ao AI interposto, poderdo, assim, a
Câmara Municipal prosseguir, através da Comissão Per-
manente, os trabalhos de apuração das possíveis irregula-
ridades praticadas pelo Prefeito Municipal.
Pela maneira mais rápida possível, seja comunicado ao
douto Juiz, apontado como coator, a concessão da liminar.
A ele também se requeria a prestação das informações que
entender devidas, no prazo legal.
Seja citado o litisconsorte para integrar a presente ação,
querendo ..."
Prestadas as informações pela autoridade apontada
como coatora (fls. 236), os autos foram encaminhados à
Procuradoria-Geral de Justiça para fins de direito.
A Constituição Federal de"1.988,..no'.art...58,..§..2°,.I..a
VI, cria a Comissão Parlamentar de Inquérito, a qual inves-
te os seus integrantes em vários poderes. Apesar de não
possuir poderjurisdicional, "pois não julga, não aplica a lei
ao caso concreto" excetuando-se essas hipóteses, o consti-
,
tuinte de 1988 conferiu às CPIs poderes "próprios e seme-
Ihantes e aos atribuídos às autoridades judiciais".
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Não pode, concessa venia, o Poder Judiciário, em
circunstância alguma, interferir neste procedimento admi-
nistrativo-investigatório, sob pena de invadir, indevida-
mente, a independência do Poder Legislativo, salvo viola-
ção do Regimento Interno da Casa Legislativa, comprovada
de modo incontestável.
"O controle jurisdicional se restringe ao exame da legali-
dade do ato administrativo, mas, por legalidade ou legiti-
midade, se entende não só a conformação do ato com a lei,
como tambérn com a moral administrativa e com o inte-
resse coletivo"(TJSP - RCA 89I134).
A CPI em questão, a nosso aviso, é legal, moral e
resguarda o interesse coletivo, data venia.
Se o Sr. Prefeito se julgar prejudicado pela referida
Comissão, a solução emerge na decisão do Eminente Des.
Relator, Garcia Leão:
"... Por outro lado, o prosseguimento dos trabalhos da
Comissão em nada prejudicará o Prefeito Municipal, pois
se irregularidades ou cerceamento de defesa forem poste-
riormente constatados, é óbvio que haverá ainda muitas
oportunidades para que o denunciado se defenda e anule
os atos praticados com irregularidades..."
Sobre o assunto em pauta, oportuna a lição do sempre
brilhante Hely Lopes Meirelles:
"... Cnmissões de Inquérito - As Comissões Parlamenta-
res de Inquérito (CPIs), como geralmente se denominam
as Comissões Especiais de Investigação Legislativa, po-
dem ser instituídas também pela Câmara Municipal, com
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Vereadores em exercício, para apurar fato determinado e
em prazo certo, de interesse da Administração local.
Essas investigações tanto podem destinar-se a apurar irre-
gularidades do Legislativo como do Executivo, na Admi-
nistração direta ou indireta do Município, e, conforme a
irregularidade apurada, ou será punida pela própria Câma-
ra (cassação de mandato, através do processo do Decreto-
Lei n. 201/67), ou pela Justiça penal (crimes de responsa-
bilidade ou funcionais), ou ainda pela Justiça civil (inde-
nização à Fazenda Municipal). Em qualquer caso, porém,
as conclusões do inquérito terão valor meramente infor-
mativo para o processo político-administrativo que se ins-
taurar em forma legal, perante o órgão ou autoridade
competente para a responsabilização do infrator ..." (Di-
reito municipal brastleiro. 4. ed., p. 542-543).
Data venia, a autoridade apontada como coatora não
tem competência para apreciar a matéria sub judice,
gerando, assim, determinações impróprias, em visível pre-
juízo do regular funcionamento da Comissão do Poder Le-
gislativo Municipal, e porque não dizer do próprio Poder
Legislativo, data máxima venia.
No julgamento do Mandado de Segurança n. 6.408,
de Almenara, em 1 1 de agosto de 1992, assim se posicionou
o eminente Des. Rubens Xavier Ferreira:
"... A investigação administrativa e a função judicial não são
intercambiáveis, razão pela qual os órgãos encarregados dos
respectivos exercícios não podem prestar entre si qualquer
tipo de colaboração quanto à grática de atos processuais..: '
Por essas razões, esta Procuradoria opina pela con-
cessão, em definitivo, da ordem impetrada pela Cãmara
Municipal de São Gotardo, neste Estado.
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3 VISÃO JURISPRUDENCIA.L
Sob um outro prisma, enfocando o tema da Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI), assim se posicionou a 5a
Câmara Cível do egrégio Tribunal de Justiça do Estado de
Minas Gerais:
"Trata-se de mandado de seguranpa impetrado por
H.M.G., na qualidade de Presidente da Comissão Especial
de Inquérito, instituída pela Câmara Municipal de São
José do Mantimento, contra ato do Prefeito Municipal que
se recusou a apresentar documentos necossários à fiscali-
zação e controle dos gastos públicos do Executivo.
O MM. Juiz, apreciando o feito, concedeu a segurança, ao
fundamento de que inexiste lesão em norma constitucio-
nal na instituição de Comissões Parlamentares de Inquéri-
to e, outrossim, existe expresso dispositivo legal na Lei
Orgânica do Município que confere a tais comissões a
faculdade de examinar livros e documentos do Executivo,
razão pela qual é ilegal o ato da autoridade que obstou tal
exame não apresentando os documentos mantidos em seu
poder.
Subiram os autos a este egrégio Tribunal apenas por força
da remessa obrigatória, não tendo o impetrado aviado
apelação voluntária.
Com efeito, decidiu com acerto o douto Julgador, não
merecendo sua sentença o mais mínimo reparo, senão
integral confirmação.
Na lição sempre lúcida de José Afonso da Silva, encontra-
se o seguinte excerto, verbis:
`A fiscalização contábil, financeira, orçamentária,
operacional e patrimonial, mediante controle externo, é
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coerente com o Estado Democrático de Direito, como se
infere destas palavras de Alfredo Cecílio Lopes: `Somen-
te quando vigem os princípios democráticos em todas
as suas conseqüências - e entre elas das mais importante é
a consagração da divisão dos poderes - e é o orçamento
votado pelo povo através de seus legítimos representan-
tes, é que as finanças, de formais, se tornam substancial-
mente públicas, e a sua fiscalização passa a constituir uma
irrecusável prerrogativa da soberania'. Tem por objetivo,
nos termos da Constituição, a apreciação das contas do
Chefe do Poder Executivo, o desempenho das funções de
auditoria financeira e orçamentária, a apreciação da lega-
lidade dos atos de admissões de pessoal, bem como 0
julgamento das contas dos administradores e demais res-
ponsáveis por bens e valores públicos. Em suma, verificar
a legalidade, a legitimidade e a economicidade dos atos
contábeis, financeiros, orçamentários, operacionais e pa-
trimoniais da administração direta e indireta da União. O
controle externo é função do Poder Legislativo. Por isso,
no âmbito federal, ele é da competência do Congresso
Nacional, que o exerce com auxílio do Tribunal de Contas
da União (arts. 70 e 71 )' (Curso de direito constitucional
positivo. 5. ed., São Paulo: RT, 1989, p. 627. Os grifos
não constam do original).
Ora, existindo prévia e expressa autorização constitucio-
nal para a fiscalização das contas do Poder Executivo pelo
Poder Legislativo, a instituição de Comissôes Parlamenta-
res de Inquérito para essa finalidade, inegavelmente, antes
áe contrariar