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Andrea Boeira do Amaral - Privatização ou Estatização no Estado Democrático de Direito - Ano 2007

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o Grêmio Beneficente dos Oficiais 
do Exército (GBOEx); a Caixa de Pecúlio dos Militares (Capemi); o Montepio Geral 
da Família Militar; o Mongeral; o Montepio Nacional dos Bancários e a Associação 
de Profissionais Liberais Universitários do Brasil (Aplub). 
A partir dos anos 80, a sociedade brasileira, ao mesmo tempo que vivenciou 
um processo de democratização política, também experimentou uma profunda e pro-
longada crise econômica, que ainda persiste até os dias atuais. Portanto, foi nessa 
época que oficialmente teve início a “crise” dos sistemas de proteção social, nos paí-
ses industrializados. Como pressuposto dessa crise social, surgiu a crise econômica, 
pela qual passou a maioria dos países, provocando a fragilidade nas bases de finan-
ciamento dos gastos sociais, afetando diretamente os sistemas de seguridade soci-
al.
Já nos anos 90, iniciou-se no Brasil uma forte tendência de redefinição do 
papel do Estado e de reforma do sistema previdenciário vigente, a partir da idéia de 
desmantelamento da administração gestora e das mudanças implementadas no Chi-
68 LEITE, op. cit., 1978, p. 26. 
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le, pelo Decreto-lei 3.500/80, seguida da idéia de adoção de medidas naquele senti-
do. Tudo isso porque, nessa época, a experiência chilena demonstrava um governo 
forte com uma ótima fase de recuperação da economia e alta rentabilidade das 
ações. Alguns países da América Latina passaram a incentivar a privatização como, 
por exemplo, o Peru e a Argentina. E, dessa forma, o neoliberalismo passou a so-
prar na direção de um mercado livre que domine o econômico e o social.
No Brasil, mesmo com a crise, esse processo não chegou a progredir, devi-
do ao forte sistema de previdência privada, aberto e fechado. Mas, mesmo assim, a 
questão merece ser discutida, e o modelo previdenciário brasileiro precisa ser recon-
siderado, mesmo que para isso seja necessário reformular e até mesmo extinguir al-
guns benefícios, ampliando as formas de proteção social.
Com isso, intensificaram-se as discussões a respeito da crise do regime pre-
videnciário brasileiro, em razão das crescentes dificuldades financeiras que o siste-
ma vem passando em diversos setores. De um lado, ocorre o aumento das deman-
das sociais e, de outro, o Estado acaba diminuindo as receitas na prestação dos be-
nefícios e dos serviços à sociedade. 
Resumidamente de forma bastante compreensível, Pereira Netto apontou as 
razões da crise do Estado de bem-estar social, no âmbito das políticas previdenciári-
as, como sendo de índole: estrutural, decorrente da transição demográfica da socie-
dade (envelhecimento médio da população); conjuntural, decorrente de problemas 
econômico-sociais (mudanças no mercado de trabalho) e administrativa, decorrente 
de problemas com órgãos e entidades envolvidos (desvio de recursos e má-gestão 
do sistema).69 
Para melhor compreender a crise do Estado Providência, não se pode deixar 
de lado o fato de que, no início, as receitas previdenciárias eram bem maiores que 
as despesas. Mas esse dinheiro aos poucos acabou sendo desviado, assumindo fi-
nalidades e gastos de forma excessiva e descontrolada. Primeiro, em habitação nos 
famosos conjuntos dos Institutos de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (Ia-
pis). Depois em alimentação, no Serviço de Alimentação da Previdência Social 
(SAPS). Mais tarde, na assistência médica do Serviço de Assistência Médica Domi-
ciliar de Urgência (Samdu) ao Inamps e que teve, no Sistema Unificado e Descentra-
lizado de Saúde (SUDS), um gasto de US$ 20 bilhões de dólares, de acordo com o 
69 PEREIRA NETTO, Juliana Presotto. A previdência social em reforma: o desafio da inclusão 
de um maior número de trabalhadores. São Paulo: LTr., 2002. p. 86.
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Tribunal de Contas da União, maior monumento ao desperdício em toda a história 
da República. De quebra, entraram os benefícios dos trabalhadores rurais, através 
do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) e assistência social, em 
que a renda mensal vitalícia foi alavanca, vindo depois a atenção aos deficientes. O 
rol dos benefícios foi ampliado, do auxílio-funeral ao auxílio-reclusão, passando pelo 
popular “pé-na-cova”, cujo nome técnico era Abono Permanência em Serviços, na 
era Vargas e no pós-Vargas, com o sortilégio do populismo e do assistencialismo. 
Houve também muita roubalheira, como comprovaram as CPIs do Congresso, pois 
foi com tais recursos que se construíram as obras públicas de: Brasília, Itaipu, Tran-
samazônica, Volta Redonda, ponte Rio –Niterói, Embratel, Telebrás, Portobrás, Nu-
clebrás, entre tantas outras obras gigantescas. Tais valores poderiam ter sido conta-
bilizados como empréstimo. Não foi feito isso, e o dinheiro das contribuições virou 
pó. Mesmo assim, o sistema ainda teve fôlego para funcionar durante várias déca-
das.
Portanto, a má-gestão dos recursos e os desvios de verbas foram os princi-
pais fatores desencadeantes e fomentadores da crise do Estado Providência, alia-
dos à falta de controle efetivo sobre a entrada, a destinação dos recursos e a con-
cessão dos benefícios. Merece destaque também o elevado número de sonegado-
res de contribuições sociais. Assim, pode-se dizer que o sistema de repartição, des-
de o início, foi eficiente e demonstrou ser o ideal em termos atuariais, demográficos 
e financeiros, mas o problema está nos excessivos desvios das contribuições e na 
falta de preocupação, por parte do Tesouro com a arrecadação.
Hoje, difunde-se a idéia de que a previdência faliu; na verdade, quem faliu 
foi o Estado, que teve que desviar toda a poupança interna para financiar a dívida in-
terna e a dívida externa. Dessa forma, independentemente de o regime de financia-
mento dos benefícios ser de repartição ou capitalização, de qualquer modo a previ-
dência iria falir, em razão de os cofres das instituições previdenciárias terem sido as-
saltados pelos governos em todas as esferas, para obras e empreendimentos que 
não guardavam relação alguma com a finalidade específica das contribuições.
Com isso, aumentaram as discussões a respeito da idéia e das razões de 
déficit do sistema previdenciário, mas a matéria ainda não tem a unanimidade entre 
os estudiosos do assunto, pelo que se pode constatar seguindo algumas das idéias 
extraídas da obra de Castro, em que os auditores fiscais do INSS, mediante docu-
mento intitulado “Seguridade e Desenvolvimento: um projeto para o Brasil”, indicam 
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que o suposto déficit não existe. Números divulgados oficialmente pelo governo fe-
deral na internet, e que foram tabulados no site da Associação Nacional dos Audito-
res Fiscais da Previdência Social (Anfip), registram que a arrecadação do sistema foi 
de R$ 157,4 bilhões em 2002, para uma despesa geral de R$ 124,44 bilhões, resul-
tando num superávit de R$ 32 bilhões, pouco maior que o do ano de 2001 (R$ 31,46 
bi).70 
Na mesma linha, segue o autor mencionando que: 
“A questão é que o Ministério da Previdência Social não considera no cálcu-
lo todas as contribuições para o sistema, mas apenas algumas, deixando de 
fora, por exemplo, a CPMF, a COFINS e a Contribuição sobre o lucro. Só a 
CPMF gerou arrecadação superior a R$ 20 bi em 2002, enquanto as outras 
duas, R$ 63,5 bi. No que tange à despesa, trabalha-se apenas com os be-
nefícios da Previdência Social e não com todas as despesas das três áreas. 
Esta é a razão do desencontro das contas.”71 
Seguindo essa análise, e de acordo com dados atualizados fornecidos 
pela Anfip72 em 2005, “foram arrecadados para o Orçamento da Seguridade Soci-
al R$ 278,1 bilhões”, sendo que “apenas R$ 221,2 bilhões foram gastos em des-
pesas típicas de previdência, saúde e assistência social”. Aqui foi considerada a 
diferença entre receitas